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ECOIVOMIA ANTIGA

AFRONTAMENTO/PORTO
1980
Faculdade de Clássicas
da Universidade de Cambridge
Departamento de Clássicas
da Universidade da Califórnia, Berkeley
ECONOMIA ANTIGA
Autor : M. I. Finley
(c) 1973, University of Califórnia Press f (c) 1973,
University of Califórnia Press
/ Edição: Edições Afrontamento
< Rua de Costa Cabral, 859 4200 Porto
N." de edição : 173
Tradução: Luísa Feijó
Capa: João B.
Tiragem : 2 500 exemplares
Composição e impressão: Cooperativa Nova Esperança
Travessa do Regado, 148 4200 Porto

PREFÁCIO À EDIÇÃO PORTUGUESA


O título deste volume tem um sentido exacto. Apesar de a mudança e as
variações serem uma preocupação constante., e apesar das muitas
indicações cronológicas, não se trata de uma "história económica".
Conservei a forma e a substância das Conferências Sather que tive a
honra de dar no começo de 1912 na Universidade da Califórnia, em
Berkeley, mas acrescentei as notas e efectuei as consideráveis
modificações e amplificações que foram sugeridas pelo estudo e pela
reflexão posteriores. Para cada nova edição e tradução, inclusivamente
para esta, tenho vindo a introduzir novas modificações e a tentar manter
actualizadas as referências bibliográficas.
É paradoxal que tenha escrito um livro intitulado A Economia Antiga ao
mesmo tempo que afirmo que os próprios gregos e romanos não possuíam
qualquer conceito de "economia". Explico porquê no primeiro capitulo,
onde também justififfo esta tentativa de analisar um objecto que não era
reconhecido como tal, na época, pelos próprios participantes. Aqueles
que recensearam o meu livro, quase todos historiadores ou economistas
dominados pela tradição neo-clássica, parecem ter em grande parte
compreendido mal o sentido, e o objectivo, desse primeiro capítulo.
Viram nele apenas uma concessão à convenção segundo a qual convém
começar por uma "história da matéria", combinada corn uma lexicografia
irrelevante. Mas esse capítulo não é nem uma coisa nem outra. Se o
leitor não se deixar convencer (ou, pelos menos, se não estiver disposto
a admitir a hipótese) de que "economia" e "económico" são, no seu
sentido corrente, termos e conceitos modernos, produtos do capitalismo
moderno que não

podem ser aplicados de maneira automática - como se as atitudes práticas


que implicam fossem inatas no homem a outras formações sociais, então o
resto ao livro não terá nem ponto de partida nem coerência interna.
Escrevi "como se fossem inatas no homem" deliberadamente, dando às
palavras o seu sentido quase literal. Muito do que se escreve no
Ocidente sobre história económica iparte do princípio - às vezes
explícito - de que o homem "naturalmente" regateia, calcula e procura um
lucro pela troca. Assim, um conhecido economista britânico afirmou
recentemente (num livro intitulado Uma Teoria da História Económica) que
"o comércio (a troca de azeite por cereais) dificilmente terá início a
menos que exista, no começo, um lucro considerável". Decorre deste ponto
de vista que o capitalismo se desenvolve, tal como o carvalho a partir
da bolota, a partir do seu embrião na sociedade antiga. E é justamente
esta a concepção que pretendo pôr em causa. Aquilo que se conhece da
história mundial, e da história antiga, parece-me provar de maneira
concludente que o modelo da bolota-que-se-transforma-em-carvalho é um
modelo falso. Dito de outra maneira, a história económica da Europa,
desde a Baixa Idade Média até aos nossos dias, é uma história única e
singela porquanto as restantes formações sociais não evoluíram em
direcção ao capitalismo moderno (excepto quando este lhes foi imposto
pelos europeus). Isto não quer dizer que essas outras formações fossem
estáticas. Significa antes que devemos reconhecer, corn tudo o que isto
implica, a existência não apenas de formações não-capitalistas, como
também de transformações não-capitalistas.
•• • '. . . • ; -

Na página 19 assinalo que o direito romano classifica o poder do


paterfamilias em, três elementos que correspondem à situação numa
unidade doméstica camponesa: potestas, ou poder sobre os seus filhos,
sobre os filhos de seus filhos, e sobre os seus escravos; m anus, ou
poder sobre a sua mulher e sobre as mulheres dos seus filhos; e
dominium, ou poder sobre os seus bens. Este entrelaçar inseparável dos
elementos e das actividades que nós consideraríamos como "económicos" e
"não-económicos" caracteriza todas as sociedades pré-capitalistas, e tem
vindo, aliás, a manifestar-se de novo, embora sob formas diferentes,
quer no capitalismo contemporâneo, quer nos países socialistas. Num
sistema capitalista "perfeito" ou "ideal" a economia é autónoma e
encontra-se regulada e controlada pelas forças do mercado. Nas outras
formações sociais a economia encontrasse, na expressão de Karl Polanyi,
"encravada" (embedded) nas instituições políticas, sociais e culturais.
Um estudo sobre a economia antiga é, portanto, uma "história política" e
uma "história social" não menos que uma "história económica". Não é
possível escrever uma história dos preços ou dos salários ou das
"crises" na Antiguidade. Não só não existem os dados, como também
- e isto é o mais importante -um tal esverdeio, em si, não teria
sentido, seria mesmo falso. O preço dos cereais, por exemplo, era
sensível não apenas às colheitas, às condições de transporte e à
estrutura das rendas, como também a vá-, riáveis mais ou menos
independentes tais como o sistema fiscal (especialmente quando os
impostos eram cobrados em géneros), as requisições compulsivas para o
exército, o grau de absentismo dos proprietários fundiários e de
autosuficiência

dos camponeses, e uma multidão de outros factores cuja origem, se


encontrava nos valores ou na estrutura política da cidade-estado grega
ou ao Império Romano.
Pela mesma razão, em grande parte, não considerei que o conceito de
"classe" fosse utilizável, do ponto de vista analítico, no domínio da
história antiga. Ê evidente que havia gradações sociais nítidas e
conflitos agudos, não só entre o escravo, o hilota ou o servo por
dívidas e o cidadão livre, como entre ricos e pobres, camponeses e
senadores romanos, etc. Como qualquer outra pessoa, não hesitei em falar
de "classes superiores" e "classes inferiores". Mas o conceito de
"classe social" tem resistido a todas as tentativas, dei lhe conferir
rigor suficiente para ser usado como conceito analítico - excepto
nalguns estudos marxistas tradicionais, corn as suas estruturas de
classe simples e binárias derivadas das frases retóricas .do início do
Manifesto Comunista. A breve explicação (págs. 62 e seguintes) das
razões que me levam a não considerar um tal esquema de grande utilidade
tem enfurecido alguns dos meus críticos mais dogmáticos, que parecem não
ter reparado que em parte alguma dos escritos de Marx, publicados ou
inéditos, poderemos encontrar uma análise do conceito de "classe"; que
nos seus escritos históricos Marx nunca se deixou levar pelo
reãucionismo implícito na noção de uma estrutura de classes binária; e
que nas páginas dos Grundrisse que tratam da Antiguidade (que ele nunca
focou em outras obras senão de passagem) Marx não utilizou um esquema
tão simples das classes sociais. Ninguém nega que durante longos
períodos da história greco-romana^ e sobretudo nas áreas centrais, na
Grécia e na Itália, a maio-

ria da população era constituída por camponeses independentes que eram


proprietários das suas terras, dos seus. instrumentos de trabalho, e do
seu gado - ou seja, dos meios de produção. E ninguém nega que esses
camponeses não eram nem proprietários nem exploradores de bandos de
escravos. Uma análise que insiste na existência de uma estrutura de
classes binária deixa no limbo o campesinato e o seu equivalente urbano,
os artesãos independentes: estranha análise histórica esta, que exclui a
maioria da população...
Que dizer, então, do conceito de "modo de produção" e, mais
especificamente, do "modo de produção esclavagista"? A expressão não se
encontra neste livro e isto 'por duas razões. Em primeiro lugar, se
exceptuarmos a Grécia, a Itália e a Sicília, e talvez algumas zonas^da
Gália, da Espanha e do Norte da África,, e isto durante os períodos
ditos "clássicos", a escravidão não era uma instituição fundamental. Não
dominava nem as sociedades arcaicas nem o Império Romano tardio; era
marginal no Egipto e no Próximo Oriente (que fora incorporado no mundo
grego pelas conquistas de Alexandre o Grande e fez parte, mais tarde, do
Império Romano); e o seu peso continua incerto nos extensos territórios
fronteiriços do Norte, desde os Balcãs à Inglaterra. Em segundo lugar,
não foi menor a importância da escravatura no Novo Mundo durante o
período moderno, ao longo de vários séculos - o que tornaria o conceito
de "modo de produção esclavagista" igualmente aplicável a este caso, se
fosse um conceito significativo. Mas na América o algodão, o tabaco e o
açúcar eram produzidos em platntações de escravos, para exportação num
mundo de capitalismo comercial e, poste-

riormente, industrial, que não encontra, qualquer paralelo no mundo


antigo.
Não subestimo a importância da escravidão antiga: neste caso, o capitulo
mais extenso do livro não se intitularia "Amos e Escravos". O meu
propósito é antes o de pôr em causa a visão ultra-simplificaãa (e
portanto seriamente distorcida) da economia antiga que está implícita em
etiquetas como "sociedade esclavagista" e "modo de produção
esclavagista". O primeiro capitulo de um recente e importante estudo
neo-marxista, Passagens da Antiguidade ao Feudalismo, por Perry
Anderson* intitulasse "O Modo de Produção Esclavagista". No entanto, o
autor logo revela qual a distância que o separa do dogmatismo
tradicional e (se me for permitido fazer tal reivindicação) até que
ponto, apesar de diferenças formais de terminologia, as, nossas posições
são próximas uma da outra: só durante os grandes períodos clássicos,
escreve Anderson, a escravidão foi "massiva e geral, entre outros
sistemas de trabalho" (sublinhado meu) e, numa nota, ele explica: "No
âmbito do marxismo, o sentido do conceito de formação social é
precisamente o de sublinhar a pluralidade e a heterogeneidade dos modos
de produção possíveis no interior de uma totalidade social e histórica
determinada (...). As formações sociais (...) são portanto aqui sempre
combinações concretas de modos de produção diferentes, organizadas sob a
dominância de um deles".
* Edições Afrontamento, Biblioteca das Ciências do Homem
-História/1.
10

"Dominância" pode ser uma noção muito vaga e imprecisa. Clarificar e


especificar o seu- sentido exacto e as suas consequências no actual
contexto é extremamente difícil. Pelo menos dois sentidos são
imediatamente perceptíveis. Em primeiro lugar, as camadas que
controlavam e manipulavam as estruturas do poder nos períodos clássicos
derivavam a sua riqueza em grande parte da exploração, directa e
indirecta, do trabalho escravo. Em segundo lugar, a vida do enorme
número de homens livres que não podiam possuir ou explorar escravos foi
não obstante influenciada, material e espiritualmente, pela existência
da escravidão na sua sooieãade. Mas estes dois sentidos estão longe de
esgotar o assunto. Para citar apenas um exemplo, como explicar a
distinção, em termos de poder e comportamento, e os conhecidos
conflitos, na fase final da República romana, entre a nobreza e o$
equites ricos (igualmente possuidores de escravos) e outros fora do
círculo restrito da nobreza? Este tipo de problema parece requerer modos
adicionais de análise, e foi por esta razão que citei, no livro, o
comentário lapidar de Georg Lukács, "a consciência de status oculta a
consciência de classe" - "os factores económicos encontram-se
inextricavelmente ligados a factores políticos e religiosos".
M. I. F.
Cambridge
Março de 1877
11

PREFACIO A PRIMEIRA EDIÇÃO


Desde há quase ^0 anos, quando publiquei o meu primeiro artigo sobre um
assunto de economia antiga, tenho vindo a acumular grandes dúvidas para
corn outros investigaãores, alguns dos guais^são mencionados nas notas
deste livro. Limitar-me-ei aqui a agradecer a amigos e colegas que foram
de auxílio directo na preparação deste livro: Michael Crawford, Peter
Garnsey e, especialmente, Peter Brunt, que leram o manuscrito todo e
foram mais que generosos em sugestões e críticas; Jean Andreau, John
Crook, Geoffrey de Ste. Croix, Richard Duncan-Jones, Yvon Gaflan, Philip
Grierson, Keith Hopkins, Leo Rivet, Ronáld Strouã e Charles Wilson, que
leram partes da obra, discutiram comigo problemas espetííi ficos ou me
facilitaram trabalhos seus inéditos; Jacqueline Garlan, que me forneceu
traduções de artigos em russo; e minha mulher, pela sua permanente
paciência e ajuda.
Finalmente quero ainda agradecer, em meu nome e no de minha mulher, a
calorosa hospitalidade de Berkeley, tão amavelmente oferecida pelo
decano do Departamento de Clássicas, W. K, Pritchett, pelos outros
membros do Comité 8ather, W, S Anderson, T, G. Rosenmeyer, R. S. Stroud
e suas mulheres e por colegas de outros departamentos, e universir
daães.
M. L F.
Jesus College, Cambridge
20 de Janeiro de 1973
ALGUMAS DATAS PARA ORIENTAÇÃO
a. C. 750 Começo da "colonização" grega do Ocidente
594 Arcontado de Sólon em Atenas
545-510 Tirania de Pisístrato em Atenas
509 Instauração da República Romana
490-479 Guerras Pérsicas
431-404 Guerra do Peloponeso
336-323 Alexandre o Grande
304-283/2 Ptolomeu l no Egipto /C
264-241 Primeira Guerra Púnica :
208-201 Segunda Guerra Púnica (Aníbal)
c. 160 Catão, De agricultura
133 Tribunato de Tibério Graco
81-79 Ditadura de Sila
73-71 Revolta de Espártaco
58-51 César na Gália r •" •
37 Varrão, De ré rústica
31 Batalha de Actium
d. C. c. 60-65
c. 61-112
Columela, De ré rustícô
Plínio o Jovem

ALGUNS IMPERADORES ROMANOS


14 v:u t Morte de Augusto
14-37 ?•;>#• Tibério
41-54 "A Cláudio :>
54-68 A Nero
69-79 Vespasiano -n
81-96 Domíciano
98-117 Trajano ,:"
117-138 Adriano (--. ••;-,•
138-161 Antonino Pio ^ <
161-180 ; ; o Marco Aurélio ' !^
180-192 Cómodo cA
212-217 v Caracola ^c/,
284-305 Diocleciano *vf
306-337 Constantino ú;;
360-363 Juliano -••...?.:
408-450 Teodósio II o;"f
527-565 Justiniano ;í-i^
ÍH

OS ANTIGOS E A SUA ECONOMIA


Em 1742 Francis Hutcheson, Professor de Filosofia na Universidade de
Glasgow e mestre de Adam Smith, publicou em latim a sua Breve Introdução
à Filosofia Moral. Cinco anos mais tarde foi publicada uma tradução
inglesa, visto ter o autor descoberto, corn relutância, "ser impossível
impedir uma tradução". O Livro in, intitulado "Os Princípios da Economia
e da Política", abre corn três capítulos, respectivamente sobre
casamento e divórcio, os deveres de pais e filhos, e de senhores e
servos; para além disto ocupa-se exclusivamente de política. É no Livro
II, intitulado "Elementos da Lei da Natureza", que encontramos uma
análise da propriedade, da sucessão, dos contratos, dos valores das
mercadorias e da moeda, e das leis da guerra. É evidente que nada disto
fazia parte da "Ectonomia".
Hutcheson não era nem descuidado nem perverso: encontrava-se no fim de
uma tradição que remontava a mais de
2000 anos. A palavra "economia", de origem grega, compõe-se de oikos,
"casa ou unidade doméstica", e da complexa raiz semântica nem-, aqui no
seu sentido de "regulamentar, administrar, organizar". O livro que se
tornara o modelo para a tradição ainda representada por Hutcheson" era o
Oikanamikos, escrito pelo ateniense Xenofonte na primeira metade de
século IV a.C.. Escrito sob a forma de um diálogo socrático, o
Oikonomikos de Xenofonte é um guia para o proprietário rural. Começa por
uma longa introdução sobre
17

uma vida boa e o uso correcto da riqueza, seguindo-se-lhe: uma secção


sobre as virtudes e qualidades de direcção necessárias ao senhor da casa
e sobre a educação e governo dos seus escravos; uma secção ainda maior
sobre as virtudes e educação da mulher; a maior de todas as secções
trata de agronomia (mas agronomia em. linguagem corrente, por assim
dizer, não exigindo do leitor conhecimentos técnicos). Trata-se
fundamentalmente de uma obra de ética, que não era seguramente estranha
a Francis Hutcheson quando este escreveu os seus capítulos sobre o
casamento, pais e filhos, senhores e servos, na secção "económica" da
sua Introdução à Filosofia Moral. No prefácio, dirigido aos "estudantes
das universidades", ele explica que se o seu livro for cuidadosamente
estudado "pode dar ao jovem um acesso mais fácil às bem conhecidas e
admiradas obras quer dos antigos: Platão, Aristóteles, Xenofonte,
Cícero; quer dos modernos: Grotius, Cumberland, Puffendorf, Harrington e
outros". Acrescenta depois uma encantadora desculpa pelo facto de se
poupar "ao desagradável e desnecessário trabalho" de fazer referências
"aos mais eminentes escritores ... considerando que isto só poderia ser
útil para aqueles que têm à mão os livros citados, e que esses podem
facilmente, através dos seus índices, encontrar os lugares
correspondentes".
Não que haja sempre "lugares correspondentes". A concepção de Hutcheson
de casamento e divórcio, por exemplo, era cristã (embora liberal e
deística, sem referência a um sacramento) e significativamente diferente
tanto da grega como da romana. E não podia ter encontrado 'Um
equivalente antigo preciso para a palavra-chave na sua definição de
"economia", que "trata dos direitos e obrigações numa família" í1). Nem
em grego nem em latim existe qualquer palavra que exprima o sentido
vulgar moderno de "família", como quando dizemos, por exemplo, "you
passar o Natal corn a minha família". O vocábulo latino família tinha um
vasto leque de significados: todas as pessoas, livres ou não, sob a au-
1 Moral Philosophy (3.a ed., Glasgow 1764), p. 274.
18

toridade do paterfamílias, o chefe da casa; ou todos os descendentes de


um antepassado comum; ou todos os bens de uma pessoa; ou simplesmente
todos os seus criados (assim, a família Caesaris compreendia todos os
escravos pessoais e libertos ao serviço do imperador mas não incluía nem
a mulher nem os seus filhos). Tal como no conceito grego de &íkos, há
uma forte tónica no sentido da propriedade. Nunca se fez sentir a
necessidade de arranjar um nome específico para o conceito restrito
evocado pela nossa palavra "família". O paterfamiKas não era o pai
biológico mas a autoridade sobre a casa, uma autoridade que a lei romana
dividia em três elementos (a minha formulação é esquemática): f atestas
ou poder sobre os filhos (incluindo os adoptados), os filhos dos filhos
e os escravos, mamis ou poder sobre a mulher e as mulheres dos seus
filhos, e dominium ou poder sobre os seus bens (2).
Esta classificação tripartida é um relato fiel de uma casa camponesa; o
chefe dirige e controla tanto o pessoal como a propriedade do grupo, sem
distinção quanto ao cornportamento económico, pessoal ou social,
distinções essas que se podiam fazer ao nível de um exercício
intelectual abstracto mas não na prática real. Ê a mesma classificação
tripartida sobre a qual se construiu o Oíkonomikos de Xenofonte, embora
o seu objecto estivesse muito acima do nível campo^ nês, e que
constituiu a base da sociedade europeia até adentro do século XVHI (e
mesmo até mais tarde em zonas consideráveis) .
Não há palavra em inglês para pátria protestas, mas há em alemão,
nomeadamente Hausgewalt, O alemão também não dispunha de uma palavra
própria para "família" no s^n-
2 Cír. a definição de Aristóteles, Política 1278b37-38: "A arte
económica é a direcção dos filhos e da esposa e da casa em geral." Para
a recente discussão antropológica sobre a distinção entre "família" e
"casa" (household), ver D. R. Bender, "A refinement of the Concept oí
Household", American Anthropologist 69 (1967) 493-504. A discussão
retiraria benefícios de um alargamento do seu âmbito para incluir
sociedades históricas, além do tipo restrito de comunidade que os
antropólogos costumam estudar. ... , ., ,",
19

tido restrito, até que FamMie se tornou corrente durante o século XVIII
(3). A palavra alemã Wirtschaft tivera uma história semelhante à de
"economia", e havia uma literatura correspondente denominada
Hausvaterliteratur por um investigador moderno (*). Quando chegamos à
Georgica Curiosa oder Adeliges Lcmd- und Feldleben de Wolf Helmhard von
Hohenberg, publicada em 1682, que emprega a palavra oeconomia no
prefácio, o alcance do assunto a que se refere é muito mais variado e
técnico que em Xenofonte, mas a concepção fundamental do seu objecto, o
oikos ou família, não se alterou.
Estas eram obras práticas, no que diz respeito quer aos seus
ensinamentos éticos ou psicológicos quer à instrução agronómica, quer
ainda às exortações para que se mantivessem relações correctas corn a
divindade. Em Xenofonte, contudo, não há uma única frase que exprima um
princípio económico ou proponha uma análise económica, nada sobre
eficiência de produção, escolha "racional", ou comercialização das
colheitas (5). Os manuais agrícolas romanos (e sem dúvida os seus
percursores gregos, hoje perdidos) podem ocasionalmente ocupar-se da
comercialização, das condições do solo e de outras coisas do género, mas
nunca vão além de observações rudimentares baseadas no senso comum
(quando não contêm erros grosseiros ou induzem em erro). O conselho de
Varrão (De ré rústica 1.16.3) para que se cultivassem rosas e
3 Ver O. Brunner, "Das 'ganze haus' und die alteuropáische
Õkonomik", em Neue Wege der Sozialgeschichte (Gõttingen
1956), págs. 33-61, à pag. 42 (inicialmente publicado em Zeitschrift
fur Nationalõkonomik 13 [1950] 114-39). K. Singer, "Oikonomia:
An Inquiry into Beginnings of Economic Thought and
Language", Kyklos 11 (1958) 29-54, é um estudo de amador que convém
ignorar.
4 Brunner, ibid., e H. L. Stoltenberg, "Zur Geschichte dês Wortes
Wirtschaft", Jahrbúcher fur Nationalõkonomik und Statistik 148 (1938)
556-61.
5 As traduções podem facilmente induzir em erro. A melhor é em
francês, de P. Chantraine na sua edição do Oikonomikos na colecção Budé
(Paris 1949); ver a minha recensão em Classical Philology 46 (1951) 252-
3. .,-,.. .,,.., ;<,*(,. ..-,,.. i .;•.
20

violetas se a quinta fosse perto da cidade mas não se a propriedade


fosse muito longe de um mercado urbano é uma amostra razoável de born
senso (6X. "Quando um leigo diz", insistiu Schumpeter correctamente,
"que ricas colheitas estão associadas a baixos preços dos alimentos"
trata-se "obviamente de conhecimento pré-científico e é absurdo
considerar tais afirmações em escritos antigos como se fossem
descobertas". Em economia como noutros domínios, continua ele, "a
maioria das afirmações de factos fundamentais adquirem importância
somente através das superstruturas a que servem de suporte e são meros
lugares-comuns na ausência de tais superstruturas" (7). A
Hausvaterliteratur /nunca serviu de suporte a uma superstrutura e, por
conseguinte, no que respeita à história da análise ou teoria económicas,
não conduziu a parte nenhuma. Não havia qualquer ligação entre a
"economia" de Francis Hutcheson e The Weálth of Nations de Adam Smith,
publicado vinte e quatro anos mais tarde (8).
Do ponto de vista lexicográfico a ligação estabeleceu-se $**"• não
através do sentido literal de aikonomia,, mas da sua extensão a qualquer
espécie de organização ou gestão. Assim, na r^ geração seguinte à de
Xenofonte um político rival ridiculari- l zou Demóstenes como "inútil
nas cÀkonomiai, nos negócios-, da / cidade", metáfora repetida dois
séculos mais tarde pelo historiador grego Políbio (9). Quando a palavra
passou ao latim encontramos Quintiliano a empregá-la ipara designar a
organização ou plano de um poema ou de uma obra de retórica (10).
6 Ver G. Mickwitz, "Economic Rationalism in Graeco-Roman
Agriculture", English Historical Review 52 (1937) 577-89.
7 History of Economic Analysis, org. E. B. Schumpeter (New York
1954), pp. 9, 54.
8 E. Cannan, A Review of Economic Theory (Londres 1929, reeditado 1964),
p. 38. O curto segundo capítulo de Cannan, "The Name of Economic
Theory", fornece a documentação essencial para os comentários que se
seguem; cfr. o Oxford English Dictionary, s. v. "Economy".
9 Dinarco 1.97 e Políbio 4.26.6, respectivamente. Adiante (4.67.9)
Políbio utiliza a palavra no sentido de "disposições militares".
10 Quintiliano 1.8.9; 3.3.9. Um dicionário fornecerá facilmente
exemplos desta utilização por escritores gregos posteriores (ou se se
quiser, por escritores ingleses).
21

E na data tardia de 1736 François Quesnay intitulava uma obra Essai


physique sur 1'écanomie animale - o mesmo Quesnay cujo Tábleau
économique de 1758 deve emparceirar corn The Wealth of Nations como uma
das traves-mestras da disciplina moderna a que chamamos "economia".
Dado que as receitas têm tanta importância nos negócios do estado não é
surpreendente que, ocasionalmente, oikonomia fosse também utilizado corn
o significado de gestão das receitas públicas. A única tentativa grega
de uma afirmação de ordem geral é a abertura do segundo livro do pseudo-
aristotélico Oikonomikcs e o que há de notável nessa meia dúzia de
parágrafos não é apenas a sua banalidade esmagadora mas também o seu
isolamento no conjunto dos escritos antigos sobreviventes. Foram
aparentemente os franceses os primeiros a (falar de Wéconomie politique
e mesmo aí, até cerca de
1750, a expressão referia-se sobretudo à política e não à economia. Por
essa época já tinham surgido várias obras sobre comércio, moeda,
rendimento nacional e política económica e, finalmente, na segunda
metade do século XVTII, "economia política" adquire o seu sentido
familiar especializado, a ciência da riqueza das nações. A expressão
abreviada "economia" (eoonomics) é unia inovação do final do século XIX
que não se conseguiu impor até à publicação, em 1890, do primeiro volume
dos Principies of Eccmomics de Alfred Marshall.
O título de Marshall não pode ser traduzido para grego ou latim. Nem
podem sê-lo os termos básicos como trabalho, produção, capital,
investimento, rendimento, circulação, procura, empresário, utilidade,
pelo menos na forma abstracta exigida pela análise económica í11). Ao
dizer isto não estou a sugerir que os antigos eram como o Sr. Jourdain
de Molière que falava em prosa sem o saber, mas que, de facto, não
tinham o conceito de uma "economia" e, a fortwri, não possuíam os
elementos conceptuais que em conjunto constituem o que
11 Esta observação foi feita por Karl Biicher já em 1893; ver Die
Entstehung der Volkswirtschaft (5.a ed., Tiibingen 1906), p. 114.
22

chamamos "a economia". É claro que trabalhavam a terra, negociavam,


fabricavam objectos, escavavam as minas, decretavam impostos, cunhavam
moeda, depositavam dinheiro e faziam empréstimos, tinham lucros ou
entravam em falência. E estas actividades eram discutidas nas suas
conversas e nos seus escritos. O que eles não faziam, contudo, era
combinar estas actividades particulares eonceptualmente numa unidade ou,
em termos parsonianos, num "subsistema diferenciado de sociedade" í12).
Por esta razão, Aristóteles, cujo programa era codificar os ramos do
saber, não escreveu uma Economia. Por esta razão, ainda, as eternas
queixas sobre a pobreza e a mediocridade dos escritos "económicos" da
Antiguidade baseiam-se num mal-entendido fundamental quanto ao objecto
desses escritos (13).
Torna-se, pois, essencial indagar se isto é meramente acidental, uma
falha intelectual, um problema na história das ideias em sentido
restrito, ou se é consequência da estrutura da sociedade antiga. Seja-
me, permitido recolocar a questão através de dois exemplos concretos.
David Hume, cujas leituras dos autores antigos eram largas e cuidadosas,
fez a seguinte observação importante (corn demasiada frequência
esquecida): "Não recordo passagem alguma de qualquer autor antigo em que
o desenvolvimento de uma cidade seja atribuído ao estabelecimento de uma
manafactura. O comércio, que se diz florescente, é principalmente a
troca daquelas mercadorias que requerem diferentes solos e climas" (14).
Mais recentemente um historiador económico, Edgar Salin, contrastou as
crises cíclicas modernas, a que chamou "perturbações racionais de um
processo racional" (nada tenho a ver corn a linguagem), corn as crises
antigas, sempre atribuídas a catástrofes naturais, iras divinas ou
perturbações políti-
12 Ver Talcott Parsons e Neil J. Smelser, Economy and Society (Londres
1956).
13 Ver o meu "Aristotle and Economic Analysis", Past & Present n.° 47
(1970), 3-25.
14 "Of the Populousness of Ancient Nations", nos seus Essays (Londres,
edição "World Classics", 1903), p. 415.
23

cãs (15). Tratava-se apenas de diferenças (ou falhas) de análise ou


havia diferenças fundamentais na realidade investigada?
Os economistas modernos não chegam a acordo quanto a uma definição
precisa da sua disciplina, mas penso que poucos discutiriam, salvo em
pormenores, quanto ao seguinte, que fui buscar a Erich Roll: "Se
considerarmos, então, o sistema económico como uma enorme conglomeração
de mercados interdependentes, o problema central da investigação
económica é a explicação do processo de troca ou, mais particularmente,
a explicação da formação do preço" (16). (A palavra "mercado" é
obviamente empregada no seu sentido abstracto. e não posso deixar de
referir que nesse sentido é intraduzível para latim ou grego). Mas que
aconteceria se uma sociedade não estivesse organizada para a satisfação
das suas necessidades materiais através de uma "enorme conglomeração de
mercados interdependentes"? Seria, neste caso, impossível descobrir ou
formular leis ("uniformidades estatísticas" se preferirem) do
comportamento económico, sem as quais o desenvolvimento dum conceito de
"economia" é improvável e a análise económica impossível.
"Parece-me ter chegado o momento", escreveu o Conde Pietro Vem no
prefácio da edição de 1772 das suas Meãitasioní suWeconomia política,
"em que a economia política se está transformando numa ciência; faltava-
lhe apenas aquele método e aquele relacionar de teoremas que lhe dariam
a forma de uma ciência" (17). Como hipótese de trabalho sugiro que um
tal momento nunca surgiu na antiguidade porque a sociedade nunca possuiu
um sistema económico que fosse uma
15 "Der 'Sozialismus' in Hellas", em Bilder una Studien aus drei
Jahrtausenden - Eberhard Goitein zum siebzigsten Geburtslag (Munique e
Leipzig 1923) pp. 15-59, às pp. 52-3.
16 A History of Economic Thought (ed. revista, Londres 1945), p. 373.
Roll não introduz na sua definição o elemento de "recursos escassos" que
é frequente em outras definições, mas isto em nada afecta o meu
argumento.
17 Citado de Cannan, Review, p. 42.
24
;

enorme conglomeração de mercados interdependentes; que as afirmações de


Hume e Salin que escolhi para exemplificar este ponto eram observações
sobre um comportamento instittícional, não sobre uma falha intelectual.
Não havia ciclos de negócios na antiguidade; nenhuma cidade cujo
desenvolvimento possa ser atribuído, mesmo por nós, ao estabelecimento
de uma manufactura; nenhum "Tesouro pela via do Comércio Externo", para
usar o título da famosa obra de Thomas Mun inspirada pela depressão de
1620-24, cujo sub-título é "o Saldo do nosso Comércio Externo é a Regra
do nosso Tesouro" e esta obra pertence à pré-história da análise
económica (w). Pode-se objectar que estou arbitrariamente a restringir a
"economia" à análise de um sistema capitalista, enquanto as sociedades
não-capitalistas ou pré-capitalistas também têm economias corn regras e
regularidades e mesmo uma medida de prognosticabilidade, sejam elas
conceptualizadas ou não. Concordo, excepto quanto à palavra
"arbitrariamente"; e é óbvio que estou de acordo em que temos o direito
de estudar tais economias, de colocar questões sobre essas sociedades
que os próprios antigos nunca colocaram. Se ocupei tanto tempo corn esta
introdução, até talvez corn um excesso de lexicografia, é porque existe
uma questão fundamental de método. A linguagem e os conceitos económicos
a que todos nós, mesmo os leigos, estamos acostumados, os "princípios",
quer sejam os de Alfred Marshall ou os de Paul Samuelson, os modelos que
empregamos, tendem a arrastar-nos para uma falsa perspectiva. Por
exemplo as taxas de salários e as taxas de juro no mundo greco-romano
foram ambas estáveis a nível local durante longos períodos (se
exceptuarmos as flutuações súbitas em momentos de conflito político
intenso ou de conquista militar), de modo que quem falar de "mercado do
trabalho" ou de "mercado da moeda" falsifica de imediato a
18 Ver o artigo-resenha de M. Blaug, "Economic Theory and Economic
History in Great Britain, 1650-1776", Past & Present n.° 28 (1964) 111-
16.
25

situação (19). Pela mesma razão, nenhum modelo de investimento moderno


se pode aplicar às preferências dos homens que dominaram a sociedade
antiga.
Entre as taxas de juro que se mantiveram estáveis figuravam as dos
empréstimos marítimos, o primeiro tipo de seguro, que remonta pelo menos
até ao fim do séc. V a.C.. À volta desta forma de seguro desenvolveu-se
um corpo apreciável de doutrina legal, mas nem um só vestígio de um
conceito actuarial, o que pode ser tomado como um símbolo razoável da
ausência de estatísticas e da nossa dificuldade ao tentarmos quantificar
dados económicos antigos - assunto de frequente resmunguice por parte
dos historiadores. Mesmo os raros números que um autor antigo nos
fornece são suspeitos a >priari: podem ser uma sua conjectura ou podem
ser citados por serem excepcionais, e o facto é que nem sempre podemos
distinguir. É frustrante tentar analisar a estrutura fundiária de Atenas
no período clássico a partir precisamente de cinco números que dizem
respeito a propriedades individuais, espalhados por cerca de um século,
um dos quais pelo menos depende da difícil interpretação dos contornos
da propriedade em causa. A nossa falta de conhecimentos exactos sobre
propriedades romanas não é menos frustrante í20).
Quando Tucídides (7.27.5) nos diz que mais de 20 000 escravos fugiram da
Ática na década final da Guerra do Peloponeso, o que é que, de facto,
ficamos a saber? Será que Tucídides tinha uma rede de agentes
estacionados ao longo da fronteira entre a Ática e a Beócia durante dez
anos, ocupados a contar os fugitivos quando eles passavam? Esta não é
19 Para Roma, onde as informações sobre salários são até mais raras que
para a Grécia, o predomínio de um nível convencional, em vez de um nível
determinado pelo mercado, é demonstrado por M. H. Crawford, Roman
Republican Coinage (2 vols. Cambridge 1974), II, cap. 6.
20 Ver G. E. M. de Ste. Croix, "The Estate of Phaenippus (Ps.- -Dem.
xlii)", em Ancient Socieíy and Its Instilutions: Essays for V.
Ehrenberg, org. E. Badian (Oxford 1966) pp. 109-14. A falta desesperada
de informações quantitativas sobre a propriedade romana é mostrada por
Duncan-Jones, Economy, apêndice 1.
26

uma pergunta frívola, dada a solenidade corn a qual a sua afirmação é


repetida em livros modernos e utilizada como base para cálculos e
conclusões. O contexto mostra que Tucídides considerava o facto como uma
dura perda para Atenas. Um historiador moderno teria seguramente
indicado que proporção representavam estes 20 000 no total da população
escrava. Tucídides não o fez porque não conhecia esse total, tal como
ninguém em Atenas o conhecia. Segue.-tee, assim, que estes 20000 são
apenas uma -conjectura; podemos apenas esperar que se trata de um
palpite razoável. E duvido mesmo se se pode acreditar no número de
120000 escravos armados que se diz terem marchado sobre Roma em 72 a.C.
sob o comando de Espártaco í21).
Mas resmungar não chega. Mesmo em história económica moderna, Fogel
apontou, numa declaração programática sobre história econométrica, a
"nova história económica", para o facto de que "é muitas vezes verdade
que o volume de dados de que dispomos está frequentemente abaixo do
mínimo requerido para processos estatísticos normais. Nessas ocasiões a
determinante crucial do sucesso reside na habilidade do investigador
para imaginar métodos que sejam eficientíssimos na utilização dos dados
- quer dizer encontrar um método que permita chegar a uma solução corn
os dados limitados de que dispõe" (22). Para nós os limites são muito
estreitos: nenhum historiador antigo pode começar a imitar o estudo de
Fogel sobre o significado económico do caminho de ferro no século XIX
partindo da hipótese contra-
21 Appiano, Guerra Civil 1.14.117. O facto de as cifras fornecidas por
Veleio Patérculo 2.30.6 (90.000) e Orósio 5.24.2 (70.000) serem
menores não lhes confere maior virtude. Por hipótese, os escritores
romanos poderiam ter compilado o número total de escravos, pelo
menos para a Itália e outras zonas, a partir dos dados do censo, onde
este tipo de propriedade era individualizado. O essencial, no entanto, é
que ninguém o fez e que, mesmo que alguém o tivesse feito, não teria
sido possível contar, corn segurança, o número dos seguidores de
Espártaco.
22 R. J. Fogel, "The New Economic History, Its Findings and Methods",
EcHR, 2nd. ser., 19 (1966) 642-56, às pp. 652-3.
27

-factual de que o caminho de ferro não tinha sido inventado e que em vez
dele se tinha aumentado a rede de canais. Veremos, no entanto, que podem
por vezes ser encontrados métodos corn os quais se consegue organizar
dados antigos que à primeira vista parecem inutilizáveis.
Veremos também os perigos. Os historiadores da antiguidade não estão
imunes ao actual fetichismo dos números. Começam a dizer que têm provas
quantitativas quando os dados o não justificam, ou a fazer um juizo
falso das implicações que se podem legitimamente tirar dos dados de que
dispõem. Padrões, modos de comportamento, estão no centro de qualquer
investigação histórica como esta. "Sem um padrão pressuposto", disse
Whitehead, "a quantidade não determina nada" í23). As estatísticas
ajudam tanto a desvendar como a elucidar os padrões, mas há também
facetas que não são susceptíveis de quantificação í34).
Há ainda o perigo de, após termos reunido um born conjunto de dados
numéricos, imputarmos esse conhecimento aos próprios antigos como se
tivesse sido uma componente importante das suas escolhas e decisões. "Ao
fim e ao cabo, uma sociedade não vive num universo de estatísticas" í25)
nem mesmo hoje, e mil vezes menos na antiguidade. Ao fim e ao cabo,
portanto, o nosso problema não é tanto o de imaginar novos e complicados
métodos (que, dado o material de que dispomos, terão necessariamente que
ser simples) como o de fazer as perguntas certas. E, devo acrescentar, o
de abandonar a técnica anedótica de pescar um exemplo aqui e outro ali
como se constituíssem uma prova.
23 A. N. Whitehead, Modes of Thought (Nova Iorque 1938), p. 195, citado
no apêndice, "A Note on Statistics and Conservative Historiography", em
Barrington Moore, Jr., Social Origins of Dictatorship and Democracy
(edição Penguin, 1969), p. 520 n. 15.
24 "E contudo", escreve Nicholas Georgescu-Roegen, um dos
pioneiros da moderna economia matemática, "há limites ao que podemos
fazer corn números, tal como há limites ao que podemos íazer sem eles":
Analytical Economics (Cambridge, Mass. 1966), p. 275.
25 J. Stengers, "L'historien devant Fabondance statistique",
Revue de 1'Institut de Sociologie (1970) 427-58, à p. 450.
28

Quanto aos antigos, a sua inocência estatística, assim como a sua falta
de análise económica, resiste a uma explicação puramente intelectual.
Uma sociedade que produziu a obra de Apolónio de Perge sobre secções
cónicas tinha uma matemática mais que suficiente para aquilo a que os
ingleses e holandeses do séc. XVTII chamaram "aritmética política", e a
que nós chamamos "estatística", definida por Sir Charles Davenant em
1698 no seu Discourse on the PuWia Revenues, como "a arte de raciocinar
corn números, a propósito de coisas relacionadas corn o governo" í26). O
mundo antigo não estava totalmente desprovido de números sobre coisas
relacionadas corn o governo. Quando Tucídides (2.13.
3-8) nos fala do número de hoplitas, cavaleiros e barcos atenienses
disponíveis, assim como das reservas de dinheiro no começo da guerra,
não se tratava de uma conjectura. Todos os estados antigos mantinham
listas das suas forças armadas, pelo menos, e alguns estados,
principalmente os autocráticos, faziam censos para fins fiscais e
arquivavam outras informações de interesse para as finanças públicas
(reais) í27). Contudo, raciocinar corn números é mais do que contar e
registar e aí reside a grande linha divisória. Raciocinar corn números
implica um conceito de relações e tendências sem o qual as categorias
contadas eram muito insuficientes e, o que é igualmente importante,
poucos registos eram normalmente conservados uma vez atingido o seu
objectivo imediato. Assim não havia nenhuma série temporal na
antiguidade, quer no sector público quer no sector privado, salvo raras
excepções, e sem séries temporais não pode haver raciocínio corn
números, nem estatísticas. Tucídides não podia (ou pelo menos não
26 Citado de H. Westergaard, Contribution to the History of
Statistics (Londres 1932) p. 40.
27 Não preciso aproíundar a questão, que de resto não é irrelevante, de
saber até que ponto os registos invulgarmente extensos do Egipto
ptolomaico não eram na sua maioria expressões de uma fachada
burocrática, mais do que um reflexo daquilo que realmente se passava no
país; ver P. Vidal-Naquet, Lê bordereau d'ensemencement dans VÊgypte
ptolémaique (Bruxelas 1967). ,.-, ,...',. ,:;.,., , ....
29

o fez) fornecer os dados necessários para uma avaliação contínua da


situação dos efectivos em homens no decorrer da Guerra do Peloponeso.
O que venho a dizer não tem nada de particularmente novo. Já em 1831
Richard Jones protestava que a teoria da renda de Ricardo partia do
pressuposto de que aquilo que ele, Jones, chamava a "renda dos
lavradores" era a forma de renda universal, pressuposto este que a
investigação histórica mostrou ser falsa C28). Mais recentemente a
inaplicabilidade ao mundo antigo de uma análise centrada no mercado foi
defendida corn vigor por Max Weber e pelo seu discípulo mais importante
entre os historiadores da antiguidade, Johannes Hasebroek; e, nos nossos
dias, por Karl Polanyi í28). Mas surtiram pouco efeito (30). A obra
actualmente considerada como básica (em inglês) sobre a economia grega
não traz no seu índice nem "casa" (household) nem oikos (31). Sir John
Hicks propõe um modelo para a "primeira fase da economia mercantil", na
cidade-estado, que pressupõe que "o comércio (a troca de azeite por
cereais) dificilmente terá início a menos que exista, no começo, um
lucro considerável"
28 An Essay on lhe Distribution of Wealth... (Londres 1831); ver Karl
Marx, Theorien úber den Mehrwert, na edição das suas Werke publicada
pelo Institut fiir Marxismus-Leninismus, vol. 26 (Berlim
1968) pp. 390-3.
29 Ver a minha resenha em Proceedings... Aix, pp. 11-35; E. Will, "Trois
quarts de siècle de recherches sur 1'économie grecque antique", Annales
9 (1954) 7-22; E. Lepore, "Economia antica e storiografia moderna
(Appunti per un bilancio di generazioni)" em Ricerche... in memória di
Corrado Barbagallo, vol. l (Nápoles 1970) pp. 3-33. As
publicações relevantes de Polanyi encontram-se convenientemente reunidas
em Primitive, Archaic and Modern Economies, org. G. Dalton (Garden
City, N. Y., 1968). Cfr. S. C. Humphreys, "History, Economies and
Anthropology: the Work of Karl Polanyi", History and Theory 8 (1969)
165-212.
30 É esclarecedora a discussão entre E. Lepore e W. Johannowsky (e
outros especialistas sobre os gregos no Ocidente) em Dialoghi di
Archeologia (1969) 31-82, 175-212.
31 H. Michell, The Economies of Ancient Greece (2.a ed., Cambridge
1957). Cfr. C. Mossé, The Ancient World at Work, trad. Janet Lloyd
(Londres 1969), que é uma versão revista do original francês.
30

(sublinhado meu) (32). Um especialista fala-nos da concorrência entre o


"investimento de capital do governo no desenvolvimento rural" e "o
investimento de capital no comércio" em Atenas sob a tirania de
Pisístrato no séc. VI a.C. (33). Os pressupostos expressos ou implícitos
destes autores constituem uma "doutrina química da sociedade" segundo a
qual "todas as formas de sociedade podem ser objectivamente analisadas
num número finito de elementos imutáveis" (34). Se tais pressupostos não
forem válidos para a antiguidade, então tudo o que deles se deduz, quer
sobre o comportamento económico quer sobre os valores que o orientam, é
necessariamente falso. É preciso procurar conceitos diferentes, e
modelos diferentes, que sejam apropriados à economia antiga e não (ou
não necessariamente) à nossa.
Mas primeiro é tempo de especificar aquilo que entendo por "antigo". No
séc. XIX não teria que me preocupar. A divisão da história europeia nos
períodos antigo, medieval e moderno, uma concepção que teve as suas
raízes na Renascença, era uma convenção universalmente aceite. No nosso
século surgiram objecções de vários géneros - epistemológicas,
psicológicas, políticas. E no entanto, ao fim e ao cabo, mesmo quando
todas as dificuldades e excepções estão devidamente anotadas, quando
aceitamos que "o conceito de período histórico depende mais da
estipulação do que de inferências a partir de factos comumente aceites"
(3S), quando concordamos em abandonar o julgamento de valor implícito
numa frase como "a Idade das Trevas", quando reconhecemos que também a
China e a índia tiveram uma
32 A Theory of Economic History (Oxford 1969) pp. 42-43.
33 A. French, The Growth of the Athenian Economy (Londres
1964) p. 54.
34 Georgescu-Roegen, Analyiical Economics, p. 111. Toda a
l.a parte é um argumento poderoso contra a aplicabilidade a outras
sociedades de teorias e de conceitos económicos formulados para um
sistema capitalista; ver ainda o belo e sucinto resumo da sua posição às
pp. 360-62.
35 G. H. Nadei, "Periodization", em International Encyclopaedia of the
Social Sciences 11 (1968) pp. 581-5, à p. 581.
31

história que não pode ser ignorada, continua a ser verdade, primeiro,
que a civilização europeia tem uma história única e específica que é
legítimo estudar como uma matéria distinta (36); em segundo lugar, que
mesmo um conhecimento superficial da história europeia como um todo nos
dá um sentido inequívoco de diferenças qualitativas entre os períodos
tradicionais (quaisquer que sejam as ulteriores diferenças que se possam
depois encontrar no interior de cada período) (37); em terceiro lugar,
que a história e a pré-história devem constituir objectos diferentes de
investigação, que os povoamentos neolíticos, como qualquer sociedade sem
escrita contemporânea estudada pelos antropólogos, pertencem, por assim
dizer, a um outro período ainda.
Mas será também legítimo, corn os vastos conhecimentos de que agora
dispomos, excluir da "história antiga" as importantes e fecundas
civilizações do Próximo Oriente antigo, os sumérios, babilónios e
assírios, os hititas, cananeus, hebreus e fenícios, os egípcios, os
persas? Não é um argumento válido para a sua exclusão dizer que estas
civilizações existiram nos continentes que agora chamamos Ãsia e Ãfrica
e não na Europa: nem que as línguas que em geral falavam não eram da
família indo-europeia, (à qual de facto pertencem o hitita e o persa).
Por outro lado não é argumento para inclusão acentuar as ligações
económicas e culturais entre o mundo greco-romano e o Próximo Oriente: o
aparecimento da porcelana azul de Wedgwood não implica a inclusão da
China como parte integrante de uma análise da revolução industrial em
Inglaterra, O que importa é a forma como as duas civilizações (ou
complexos de cultura) divergem completamente em tudo, nas suas
estruturas sociais,
36 Sobre a inaplicabilidade das divisões, das categorias e dos
conceitos da história ocidental à história da China, ver A. F. Wright e
D. Bodde em Generalization in the Writing of History, org. L. Gottschalk
(Chicago 1963) pp. 36-65.
37 "Alguns historiadores parecem incapazes de reconhecer simultaneamente
a existência de continuidades e distinções". É assim que começa uma nota
significativa de E. Panofsky, Meaning in the Visual Arts (edição
Penguin, 1970), p. 26, nota 3.
32

nas suas estruturas de poder (tanto no interior como no exterior), nas


relações entre a estrutura do poder e a religião, na presença ou
ausência do escriba como figura central. Basta quase sublinhar que é
impossível traduzir a palavra "liberdade", eleutheria em grego, libertas
em latim, ou "homem livre", em qualquer língua do Próximo Oriente
antigo, incluindo o hebraico, ou mesmo em qualquer língua do Extremo
Oriente (38).
As economias do Próximo Oriente eram dominadas por amplos complexos de
palácios ou templos que possuíam a maior parte do solo arável,
monopolizavam virtualmente tudo aquilo que pode ser chamado "produção
industrial", assim como o comércio externo (que inclui o comércio entre
cidades e não somente corn países estrangeiros), e organizavam a vida
económica, militar, política e religiosa da sociedade através de uma
única operação de registo, complicada e burocrática, para cuja descrição
o único termo que consigo encontrar é a palavra "racionamento" tomada no
seu sentido mais amplo. Nada disto é relevante para o imundo greeo-
romano até que as conquistas de Alexandre o Grande, e mais tarde dos
romanos, incorporaram vastos territórios do Próximo Oriente. Nessa
altura teremos que examinar mais de perto esta espécie de sociedade do
Próximo Oriente. Mas, quanto ao resto, se eu definisse "antigo" de
maneira a englobar os dois mundos, não haveria um único tópico que
pudesse discutir sem ter que recorrer a secções desconexas, usando
conceitos e modelos diferentes. A exclusão do Próximo Oriente não é,
pois, arbitrária, embora a retenção da etiqueta "antigo" seja
francamente difícil de defender em bases que não sejam as da tradição e
da conveniência.
Não quero simplificar demais. Havia no Próximo Oriente terras cuja posse
e exploração eram privadas. Havia artí-
38 Ver o meu "Slavery and Freedom"; em termos mais gerais, o
sugestivo "diálogo" entre J. Gernet e J.-P. Vernant, "L'évolution dês '^
idées en Chine et en Grèce du VIe au He siècle avant notre ère",
Bulletin S^ ^)
de VAssociation Guillaume Budé (1964) 308-25, reeditado em J.-P.
, vi .í
Vernant, Mythe et société en Grèce ancienne, (Paris 1973), pp. 83-102. ?
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"•'K'.'.vV
33 Í/I/VC
3 5*?£<?&

fices e vendedores ambulantes "independentes" nas cidades. Os nossos


dados não permitem a quantificação, mas não acredito que seja possível
considerar esta gente como representando o padrão dominante da economia.
O mundo greco-romano, pelo contrário, era essencial e precisamente um
mundo de propriedade privada, quer de alguns hectares de terra, quer dos
imensos domínios dos senadores e imperadores romanos, um mundo de
comércio privado e de indústria privada. Ambos os mundos tinham as suas
pessoas secundárias, atípicas, marginais, tais como os nómadas que eram
uma ameaça crónica às comunidades estabelecidas nos vales da Mesopotâmia
e do Egipto, talvez as cidades fenícias da costa da Síria, e certamente
os espartanos na Grécia. Além disso, frígios, medos e persas não eram
babilónios nem egípcios, enquanto o governo do Império Romano se tornou
tão autocrático e burocrático, em certos aspectos, como tinham sido os
Ptolomeus, e antes deles os Faraós, do Egipto. Mas não em todos os
aspectos. Devemos concentrar-nos nos tipos dominantes, nos modos
característicos de comportamento í39).
39 Tive que declarar a minha posição de maneira breve e dogmática, e
citarei apenas A. L. Oppenheim, Ancient Mesopotâmia (Chicago e Londres
1964), cap. 2, e "Trade in the Ancient Near East", uma comunicação
preparada para o 5.° Congresso Internacional de História Económica,
Leninegrado, 1970, e publicada pelas Edições Nauka (Moscovo 1970). Nem
todos os especialistas do Próximo Oriente antigo estão de acordo; ver S.
L. Utchenko e I. M. Diakonoff, "Social Stratification of Ancient
Society", um trabalho (também publicado pelas Edições Nauka, Moscovo)
preparado para o 13.° Congresso Histórico Internacional, Moscovo, 1970,
que deve ser lido à luz das actuais discussões, entre Marxistas, a
respeito do "modo de produção asiático", que constituem, que eu saiba, o
único tratamento teórico sério do problema de classificação que tenho
vindo a considerar. ("Asiático" é um rótulo taxonómico infeliz,
historicamente condicionado e impreciso: provavelmente inclui, para além
dos grandes vales asiáticos, a Grécia minóica e micénica, os Aztecas e
Inças, talvez os Etruscos, mas não os Fenícios.) A bibliografia tornou-
se quase impraticável; limito-me a citar dois artigos em alemão de J.
Pecirka, em Eirene 3 (1964) 147-69, 6 (1967) 141-74, que resumem e
apreciam o debate soviético; G. Sofri, "Sul 'modo di produzione
asiático'. Appunti per
"l/v"
34

É claro que o mundo greco-romano é uma abstracção; e se tentarmos


ancorá-la no tempo e no espaço verificaremos que é uma abstracção
bastante fluida. Em termos muito gerais vamos ocupar-nos do período
entre 1000 a.C. e
500 d.C. *. No princípio, este "mundo" estava circunscrito a um cantinho
dos Balcãs, corn alguns postos avançados na costa turca do mar Egeu.
Gradualmente, espasmodicamente, expandiu-se em todas as direcções, até
que, à data da morte do imperador Trajano, em 117 a.C, o Império Romano
estendia-se por mais de 4800 quilómetros desde o Oceano Atlântico até ao
sopé do Cáucaso; e da Bretanha e do Reno no norte até uma linha ao sul
que corria mais ou menos ao longo da orla norte do deserto do Saara e
daí até ao golfo Pérsico, um eixo norte-sul de cerca de 2 000
quilómetros sem contar a Bretanha. Nesse momento a sua área era de cerca
de 2 900 000 quilómetros quadrados, aproximadamente metade da área
actual dos Estados Unidos.
Estes são números impressionantes, mas para apreciar a escala da
actividade humana é preciso analisar corn mais cuidado. Gibbon fez a
observação inteligente de que o exér- \j cito romano no auge do Império
não era maior do que o /\ de Luís XIV, "cujo reino se confinava a uma
única provín-
la storia di una controvérsia", Critica storica 5 (1966) 704-810; H.
Kreissig e H. Fischer, "Abgaben und Probleme der Wirtschaftsgeschichte
dês Altertums in der DDR", Jahrbuch fúr Wirtschaftsgeschichte (1967) I
270-84; I. Hahn, "Die Anfange der antiken Gesellschaftsformation in
Griechenland und das Problem der sogenannten asiatischen
Produktionsweise", ibid. (1971) II 29-47; Perry Anderson, Lineages of
the Absoluíist State (Londres 1974) pp. 462-549. Toda esta discussão
parece ser desconhecida a N. Brockmeyer, Arbeitsorganisation und
okonomisches Denken in der Guíswirtschaft dês rõmischen Reiches (diss.
Bochum 1968), quer na sua resenha da literatura marxista (pp. 33-70),
quer na polémica contra as abordagens marxistas que percorre o seu
livro. Para ele, tal corno para o seu professor Kiechle, o "marxismo"
restringe-se aos historiadores da União Soviética e de outros países da
Europa de Leste.
* Nenhuma destas datas é significativa no sentido de se ter passado
qualquer coisa quer em 1000 a.C. quer em 500 d.C.. A data 1000 a.C. é um
símbolo para o começo da "Idade das Trevas" na Grécia, que se encontra,
na minha opinião, reflectida nos poemas homéricos.
35

cia do Império Romano" í40). O exército não é forçosamente um índice da


população como um todo: o próprio Gibbon acrescentou numa nota que deve
"ser lembrado que a França ainda se ressente desse extraordinário
esforço" **. Aprendemos contudo alguma coisa: o Império Romano não era
capaz de um esforço comparável, qualquer que fosse o preço. A nossa
melhor estimativa do máximo atingido pela população greco-romana é de 50
ou 60 milhões no início da era cristã, praticamente o mesmo que a
população actual do Reino Unido ou da Itália í41). Estes milhões estavam
distribuídos irregularmente, não só entre as regiões mas também entre a
cidade e o campo e, dentro do sector urbano, entre cinco ou seis
capitais administrativas "inchadas" por um lado, tais como Roma,
Alexandria e Cartago, e, por outro, um certo número de comunidades, a
maior parte das quais na metade oriental, cuja população rondava os 100
000, e depois centenas de pequenas vilas que dignificamos corn o nome de
"cidades". É salutar lembrar que numa época anterior a famosa e poderosa
Esparta não tinha mais de 9 000 cidadãos homens adultos, e nem sequer
tanto durante a maior parte da sua história.
Um aspecto da distribuição da população requer consideração. É um lugar-
comum dizer-se que durante grande parte da sua história o mundo greco-
romano esteve ligado pelo Mediterrâneo, maré nostrum, "o nosso mar",
como lhe chamavam os romanos. Praticamente todos os grandes centros -
Atenas, Siracusa, Cirene, Roma, Alexandria, Antioquia, Constantinopla -
se encontravam a poucas milhas da costa. Durante muito tempo tudo o que
ficava para lá desta estreita faixa era periferia, terra onde buscar
peles, comida,
40 The Decline and Fali of lhe Roman Empire, org. J. B. Bury, (Londres
1900) I 18.
** Recorde-se que Gibbon escrevia na segunda metade do século
XVIII (NdT)
41 A obra fundamental sobre as populações antigas continua a ser a de
Julius Beloch, Die Bevõlkerung der griechisch-rõmischen Welt (Leipzig
1886); ver a conclusão a que chegou Brunt após uma reinvestigação
intensiva de uma parte do problema, em Manpower.
36

metais e escravos, terra saqueada, terra defendida por guarnições, mas


habitada por bárbaros, não por gregos nem por romanos. "Habitamos uma
pequena parte da terra", escreveu Platão (Fédon 109B), "desde o Fasis
[na costa oriental do Mar Negro] até às Colunas de Hércules [estreito de
Gibraltar], vivendo à volta do mar como formigas e rãs à volta de um
charco".
A área mediterrânica constitui uma única "região climatérica" (42),
caracterizada por chuvas de Inverno> e longas secas de Verão, por solos
leves e culturas de sequeiro na maior parte, em contraste corn a cultura
de irrigação em que tanto se baseava a economia do Próximo Oriente
antigo. É uma região de habitação relativamente fácil e muita vida
exterior, produzindo nos seus melhores solos, as planícies da costa e os
grandes planaltos do interior, uma grande variedade de cereais, legumes
e frutos, especialmente uvas e azeitonas, corn boas pastagens para
pequenos animais, ovelhas, porcos e cabras, mas em geral não para o gado
de maior porte. A ubíqua azeitona - a principal fonte de gordura
comestível, do melhor sabão e de combustível para iluminação - é uma
pista essencial para a compreensão do estilo de vida mediterrânica. A
oliveira floresce mesmo durante as secas de Verão, mas, se bem que não
requeira um trabalho intensivo, necessita de atenção e de tempo, dado
que os primeiros frutos só aparecem ao fim de dez ou doze anos. É assim
um símbolo de existência sedentária
- a sua longevidade era celebrada - e o Mediterrâneo não é, regra geral,
região para povos nómadas.
Por outro lado, nem a oliveira nem a cultura de sequeiro requerem em
geral a complexa organização social que tornou possível as grandes
civilizações ao longo dos vales do Nilo, do Tigre e do Eufrates, do Indo
e do rio Amarelo.
42 Ver E. C. Semple, The Geography of the Mediterranean Region. Its
Relation to Ancient History (Nova Iorque 1931), cap. 5, uma obra ainda
válida quanto ao seu material geográfico, ainda que não quanto aos
outros aspectos, e, obviamente, a primeira parte de F. Braudel, La
Méditerranée et lê monde méditerranéen à 1'époque de Philippe II (2.a
ed., 2 vols., Paris 1966).
37

A cultura de irrigação é mais produtiva, mais consistente e conduz mais


à instalação de uma população densa. Não é por acaso que o principal
centro de cultura de irrigação do Império Romano, o Egipto, tinha no
primeiro século uma população de 7 500 000, excluindo Alexandria í43) -
um dos raros números sobre a população antiga que é provavelmente
exacto. Em compensação os vales dos rios transformaram-se virtualmente
em desertos logo que a organização central desapareceu, enquanto as
antigas regiões de cultura de sequeiro recuperaram rapidamente dos
desastres naturais e da devastação humana.
Ê claro que havia zonas habitadas na Grécia, no centro e norte de Itália
e na Turquia central que estavam suficientemente distantes do mar para
não terem fácil acesso a ele para o escoamento dos seus produtos. Apesar
disso, o que foi dito sobre o eixo mediterrânico é válido para os
primeiros 800 anos do nosso período de 1500, surgindo em seguida uma
mudança significativa, o alastrar do mundo greco-romano para o interior,
especialmente para o norte, em escala significativa. Pouco a pouco a
França, a Bélgica, a Inglaterra e a Europa central até à bacia do
Danúbio foram totalmente incorporadas, corn consequências que não
receberam talvez a devida atenção. Dois simples factos devem ser
sublinhados: primeiro, estas províncias do norte ficavam fora da região
climatérica mediterrânica e os seus solos tendiam a ser mais pesados; em
segundo lugar estavam impedidos, pelo custo elevado dos transportes por
terra, de partilhar totalmente das vantagens do tráfico mediterrânico,
excepto nas zonas situadas nas proximidades de rios navegáveis
(desconhecidos na Ásia Menor, Grécia e na maior parte da Itália e da
África, corn excepção do Nilo) í44). Não
43 Josefo, História da Guerra dos Judeus 2.385.
44 De entre os investigadores contemporâneos, Lynn White, Jr.
tem insistido sobre as implicações dos solos pesados; ver e. g. o seu
Medieval Technology and Social Change (Londres 1962), cap. 2. Sobre
as consequências a longo prazo do povoamento no interior, ver agora G.
W. Fox, History in Geographic Perspective. The Other France Nova Iorque
1971).
38

só as grandes artérias como o Ródano, o Saone, o Reno, o Danúbio e o Pó


transportavam um tráfego activo, mas também, particularmente na Gália,
muitos rios secundários.
Até aqui, ião falar do eixo mediterrânico e da região climatérica
mediterrânica minimizei a extensão das variações dentro da área e you
agora debruçar-me sobre elas, embora ainda de uma forma preliminar. Não
estou pensando nas evidentes variações de fertilidade, na adaptação a
colheitas específicas, na presença ou ausência de importantes recursos
minerais, mas nas variações da estruturação social, da posse da terra e
do sistema de trabalho. O mundo que os romanos reuniram num único
sistema imperial tinha atrás dele não uma única história, mas um número
considerável de histórias diferentes, que os romanos não puderam ou não
quiseram apagar. A posição excepcional de Roma e da própria Itália,
isenta do imposto sobre a terra, é um exemplo óbvio. A manutenção no
Egipto e noutras províncias orientais de um sistema camponês que não
deixava lugar para as plantações trabalhadas por escravos da Itália e da
Sicília é outro. Creio não ser necessário enumerar mais; a situação foi
resumida por André Déléage no seu estudo fundamental do sistema fiscal
radicalmente novo introduzido por Diocleciano em todo o Império. Este
sistema, escreveu Déléage, era "extremamente complexo" porque assumiu
"formas diferentes nas diferentes partes do império" í45), não por
capricho real mas porque, para ser eficaz, para produzir os rendimentos
imperiais requeridos, o sistema fiscal tinha que tomar em conta as
diferenças profundas criadas historicamente no sistema fundiário
subjacente.
Será legítimo então falar de "economia antiga?" Não será preciso
desagregá-la ainda mais, procedendo a ulteriores eliminações, da mesma
forma que já eliminei as sociedades anteriores do Próximo Oriente?
Walbank, seguindo os
45 A. Déléage, La capitation du Bas-Empire [Annales de l'Est, n-° 14
(1945)] p. 254. A diversidade fiscal também prevalecia nos princípios do
Império, pela mesma razão, mas não existe qualquer estudo moderno e
completo do problema.
39

passos de Rostovtzeff, chamou recentemente ao Império do século primeiro


"uma unidade económica" que "estava integrada pela troca intensiva de
todas as espécies de mercadorias primárias e artigos manufacturados,
incluindo os quatro artigos de comércio fundamentais - cereais, vinho,
azeite e escravos" í46). As indústrias da Gália, especifica ele,
"tornaram-se rapidamente competitivas no mercado mundial". E os
"objectos de metal do Egipto encontraram fácil venda em todo o lado;
foram descobertos exemplares mesmo no sul da Rússia e na índia" (47),.
Da mesma forma Rostovtzeff afirma que "a troca de produtos
manufacturados, não de artigos de luxo mas de uso quotidiano, era
extremamente activa" í48).
Tudo isto é demasiado vago; tais generalizações exigem um esforço mais
sofisticado para se chegar a uma quantificação e a uma estruturação
conceptual. Wheeler conta a história admonitória da descoberta, na ilha
sueca de Gotland, de 39 fragmentos de cerâmica de terra sigíllata
espalhados por uma área de 400 metros quadrados e que se acabou por
descobrir serem todos parte do mesmo vaso f49). Cerca do ano 400 o rico
bispo Sinésio, de Cirene (na actual Líbia), escreveu de Alexandria ao
seu irmão (Epístolas 52) pedindo que lhe comprasse três mantos leves de
Verão a um ateniense que Sinésio ouvira dizer tinha chegado a Cirene. fi
o homem, acrescentava ele, a quem me compraste uns sapatos o ano
passado, e por favor despacha-te antes que ele venda todos os melhores
artigos. Aqui estão dois exemplos de "venda fá-
46 F. W. Walbank, The Awful Revolution. The Decline of lhe Roman
Empire in the West (Liverpool 1969) pp. 20, 31. Cfr. "Mit der
politischen Einheit verband sich die kulturelle und
wirtschafliche Einheit": S. Lauffer, "Das Wirtschaftsleben im rõmischen
Reich", em Jenseits von Resignation und Illusion, org. H. J. Heydorn e
K. Ringshausen (Frankfurt 1971) pp. 135-53, à p. 135.
47 Walbank, Awful Revolution, pp. 28 e 26 respectivamente.
48 Rostovtzeff, RE, p. 69.
49 M. Wheeler, Rome beyond the Imperial Frontiers (edição Penguin, 1955)
p. 109. O texto diz "400 milhas quadradas", o que é obviamente um erro
tipográfico.
40

cil" num "mercado mundial" (50). Não os cito para caricaturar nem para
sugerir que o comércio antigo era todo a este nível, mas para
concretizar a minha exigência de maior especificação, maior
qualificação, quantificação onde possível, de frases vagas como "troca
intensiva", "extremamente activo", "foram descobertos exemplares", que
de outra forma podem induzir em erro. A cidade imperial de Roma vivia
dos cereais importados da Sicília, Espanha, Norte de África e Egipto,
mas em Antioquia, durante a fome de 362-363 d.C., foi necessária a
intervenção coercitiva do imperador Juliano para que se trouxessem
cereais de dois distritos interiores do norte da Síria, um a oitenta e
outro a cento e sessenta quilómetros de distância (51).
Para terem algum significado, "mercado mundial", "unidade económica",
têm que abranger algo mais considerável que a troca de algumas
mercadorias a grandes distâncias, senão ter-se-ia que considerar a
China, a Indonésia, a península Malaia e a índia como partes da mesma
unidade e do mesmo mercado mundial. Tem que se mostrar a existência de
comportamentos e reacções interligados em largas áreas - a "enorme
conglomeração de mercados interdependentes" de Erich Roll
- nos sectores dominantes da economia, nos preços de alimentos e metais,
por exemplo, e isso é impossível, ou pelo menos ninguém o fez (62). "Nem
o comércio local nem o de longa distância", escreveu um ilustre
especialista de geografia económica, "perturbou a base de subsistência
das unidades domésticas nas sociedade camponesas. O papel das
hierarquias modernas centralizadas depende, por outro lado, da extrema
divisão do trabalho e da ausência de auto-suficiên-
50 Para exemplos comparáveis, ver Rougé, Commerce, pp. 415-17.
51 Juliano, Misopogon 29.
52 A tentativa de F. M. Heichelheim, "On Ancient Price Trends from the
Early First Milennium B. C. to Heraclius I", Finanzarchiv 15 (1955) 498-
511, é pura fantasia. Nem se pode levar mais a sério os complicados
"índices de preços" e outros cálculos de J. Szilagyi, "Prices and Wages
in the Western Provinces of the Roman Empire", Acta Antiqua 11 (1963)
325-89: o material é demasiado disperso, quer no tempo quer no espaço, e
os cálculos não distinguem suficientemente
41

cia doméstica quanto às necessidades" í53). Nenhuma destas pré-condições


existia em grau suficiente na antiguidade.
Nesta altura deve já ser óbvio que rejeito tanto a concepção como a
abordagem que sumariamente critiquei. As poucas e isoladas regularidades
estruturais que são sempre apresentadas, tais como o fim do breve
monopólio da cidade de Arezzo, no norte de Itália, da produção de terra
sigittata, a correlação rudimentar entre guerra e preço de escravos, não
podem suportar o enorme edifício construído sobre eles. A minha
justificação para falar de "economia antiga" vai noutra direcção, reside
no facto de, nos seus séculos finais, o mundo antigo ter sido uma
unidade política, e no quadro culturaljpsicológico comum cuja
importância para uma explicação da economia espero poder demonstrar nos
capítulos seguintes.
entre camponeses e trabalhadores urbanos, por exemplo, para além de se
basearem em demasiados pressupostos indemonstráveis e por vezes
claramente falsos, que de resto não são explicitados. A constatação
fundamental de que a existência de um "comércio mundial" não implica
necessariamente a existência de um "preço de mercado mundial" já foi
feita, incisivamente, por K. Riezler, Úber Finanzen una Monopole im
alten Griechenland (Berlim 1907) pp. 54-56.
53 B. J. L. Berry, Geography of Market Centers and Retail
Distribution (Englewood Cliffs, N. J., 1967), p. 106.
/
42

II ••'•" ••••• !""* -••?'--


ORDENS E STATUS
Quem tiver feito leituras extensas das obras de autores antigos terá
notado o facto curioso de, numa cultura onde em geral não existem
estatísticas, haver uma abundância de números precisos, proclamados
publicamente e sem hesitações, quanto à grandeza de fortunas individuais
ou, pelo menos, de transacções financeiras individuais. Quando, na
Odisseia (14.98-104), o porqueiro Eumeu diz ao "forasteiro", a respeito
do seu patrão ausente, "nem vinte homens juntos têm tanta riqueza; you
fazer-lhe o inventário: vinte manadas de gado no continente, outros
tantos rebanhos de ovelhas, tantas varas de porcos", e assim por diante,
não há qualquer elemento de sátira, nada de parecido corn a declaração
do estalajadeiro suiço Capitão Bluntschli no final da peça Arms and the
Man, de Shaw: "Tenho nove mil e seiscentos pares de lençóis e
cobertores, mais de dois mil e quatrocentos edredons. Tenho dez mil
facas e garfos e a mesma quantidade de colheres de sobremesa... e tenho
três línguas nacionais. Mostrem-me qualquer homem em toda a Bulgária que
possa dizer o mesmo que eu!" Eumeu queria demonstrar a grandeza de
Ulisses da maneira mais óbvia, da mesma forma que o imperador Augusto
registou, no relato sobre o seu reino que ele próprio preparou para
publicação póstuma: paguei cerca de 860 000 000 sestércios para comprar
terra para os veteranos; entreguei um total de 2400000000 sestércios ao
tesouro, à plebe da cidade de Roma e aos soldados desmobilizados; e
muito mais ainda (*)• . , .
l Augusto, Rés gestae 16.1 e apêndice 1.
43

O juízo da antiguidade sobre a riqueza era franco e y inequívoco. A


riqueza era uma necessidade e era boa; ela era absolutamente
indispensável para uma vida boa; e em geral não havia mais nada a dizer.
Desde Ulisses, que disse ao rei dos Feácios Alcinous que esperaria um
ano, se preciso fosse, e não só uma noite, antes de partir, pelos muitos
presentes que lhe haviam sido prometidos, porque "mais vantagens teria
em regressar ao meu querido país natal corn maiores riquezas e assim
seria mais respeitado e amado entre os homens" (Odisseia 11.358-60), até
ao fim da antiguidade, a linha é contínua. Citarei apenas o liberto
Trimalcião, o "herói" do Satyricon, dirigindo-se aos seus hóspedes: "Se
não gostam do vinho mandarei trocá-lo. A vós compete fazer-lhe justiça.
Não o compro, graças aos Céus. De facto, qualquer que seja o vinho que
esta noite vos agradar virá de uma propriedade minha que eu ainda nem
vi. Dizem-me que confina corn as minhas terras de Tarracina e Tarento. O
que eu queria fazer, agora, era acrescentar a Sicília aos meus pedacitos
de terra para que, quando for a África, possa navegar até Já sem sair
das minhas propriedades" (2).
O Satyricom, escrito por um membro de nível consular da corte de Nero,
não é uma obra onde os valores, juízos ou implicações sejam fáceis de
estabelecer. É uma obra que troça e satiriza mas não é Alice no país das
maravilhas; Trimalcião pode não ser uma figura inteiramente típica da
antiguidade mas também não é absolutamente atípica (3). Na passagem
citada, se exceptuarmos talvez o emprego do diminuitivo agellae
(pedacitos de terra), corn a sua falsa modéstia, a sátira reside na
reductio ad absurdwm, em levar até às suas últimas, e absurdas,
consequências atitudes tidas como normais. Sob dois pontos de vista
Trimalcião exprimia, exagerando-a apenas, uma doutrina perfeitamente
válida: estava abertamente satisfeito corn a sua fortuna e gabava-se
dela, e estava igualmente satisfeito corn a sua auto-suficiên-
2 Petrónio, Satyricon 48.1-3, trad. J. Sullivan (edição Penguin,
1965).
3 Ver em geral Veyne, "Trimalcion". " . ,.•;••/.
í
44 /

cia, corn o facto de possuir terras capazes de produzir tudo aquilo de


que necessitava, qualquer que fosse o exagero na expansão das suas
necessidades ou na extensão dos seus desejos.
Havia excepções. Sócrates chegou ao ponto de sugerir, pela sua própria
maneira de viver, que a riqueza não era essencial nem sequer de grande
ajuda para uma vida boa e nobre. Platão foi mais longe, pelo menos na
República, em que negava aos seus governantes-filósofos toda e qualquer
propriedade (junto corn outros bens normalmente aceitáveis). O principal
discípulo de Diógenes o Cínico era um homem rico, Crates de Tebas, que
abandonou voluntariamente tudo o que possuía, tal como os protagonistas
das vidas de santos escritas durante os últimos séculos do Império
Romano.
Existem antologias de citações que idealizam a vida simples, filosófica
ou bucólica, e mesmo a pobreza (4). Mas devem ser interpretadas corn
cuidado. "A pobreza", dizia Apuleio em meados do século II (Apologia,
18.2-6), "foi sempre a criada da filosofia... Vejam os maiores patifes
de que há memória e não encontrarão um pobre entre eles... A pobreza, em
suma, foi sempre, desde o princípio dos tempos, fundadora de estados e
inventora de artes". Fora do contexto isto parece bastante claro.
Contudo, o contexto não é irrelevante. Apuleio, filho de um oficial
superior de Madauro, colónia romana no norte de África, passara muitos
anos no estrangeiro, estudando principalmente filosofia e retórica. De
regresso ao norte de África casou corn uma mulher rica mais velha que
ele, viúva há catorze anos, e foi levado a tribunal pelo filho dela,
acusado de a ter seduzido através de magia. Um dos pontos do processo
acusava Apuleio de ser um pobre caçador de fortunas; na sua defesa, da
qual extraí as citações, ele replica corn a contradição admitida numa
alegação. Primeiro, pergunta ele, que mal há em ser pobre? Depois,
continua, sou de facto um homem razoavelmente rico, já que herdei do meu
pai (juntamente corn o meu irmão)
4 Ver Wilhelm (Gulielmus) Meyer, Landes Inopiae (diss. Gõttingen
1915); R. Visscher, Das einfache Leben (Gõttingen 1965). ,f,-
Wí••...::••
45

cerca de dois milhões de sestércios, dos quais conservo a maior parte,


apesar do custo das minhas viagens e da minha liberalidade.
Numa outra esfera, há a famosa frase que o historiador Tucídides
(2.37.1) atribui a Péricles: "A pobreza também não é uma barreira; e
qualquer homem pode beneficiar a sua cidade por mais obscura que seja a
sua condição". De novo, o texto é muito claro; mas era precisamente o
carácter excepcional de Atenas que Péricles louvava. Poucas cidades
gregas no período 'clássico, e nenhum estado em qualquer outro período
da antiguidade, permitiam a homens pobres de condição obscura
desempenhar um papel construtivo e positivo na vida política, e mesmo em
Atenas é quase impossível encontrar um homem de condição modesta, e
ainda menos um pobre, numa posição de comando.
Não quero, no entanto, eliminar as excepções. Há sempre excepções e é
talvez mais significativo o facto de as antologias que mencionei não
serem muito grandes. Temos que nos preocupar corn a ideologia dominante.
Pode-se cifar Platão para "refutar" quase todas as afirmações de ordem
geral que se tentam fazer sobre a sociedade grega, mas este é um método
histórico estupidificante e fundamentalmente errado. Os gregos do século
IV a.C. não aboliram, nem sequer puseram em causa, a monogamia e a
família apesar dos argumentos contra elas aduzidos na Republica.
Tampouco é legítima a objecção de que só temos conhecimento da ideologia
através de escritores que, tanto em Roma como na Grécia, eram na sua
maioria homens oriundos das, ou ligados às, classes superiores. A
ideologia nunca corresponde exactamente às classes sociais; pelo
contrário, a sua função, e a condição da sua eficácia, consiste em
atravessar as linhas que delimitam as classes umas das outras, e na
antiguidade havia uma unanimidade surpreendente quanto à riqueza e à
pobreza. Trimalcião era um porta-voz mais autêntico do que Platão.
Os moralistas antigos, pelo menos desde os tempos dos sofistas (e, dum
modo rudimentar, mesmo mais cedo, em poetas como Sólon e Teognis),
examinaram todos os valores
46

tradicionais da sua sociedade - incluindo as ideias a respeito da


riqueza. Examinaram, debateram e discordaram, não sobre a economia mas
sobre um tema restrito, os aspectos éticos da riqueza. Será a riqueza
ilimitada? Será a riqueza um bem se não for usada correctamente? Haverá
diferentes maneiras de adquirir riqueza, umas moralmente boas e outras
moralmente más? E mesmo, entre uma minoria destes moralistas, será
possível viver uma vida virtuosa sem riqueza? No fundo, contudo, a ideia
de que "Bem aventurados são os pobres" não cabia no mundo espiritual
greco-romano e o seu surgimento nos Evangelhos - seja qual for a exegese
dos textos - aponta para outro mundo e para outro conjunto de valores.
Este outro mundo acabou por se dotar de uma ideologia paradoxal, na qual
um temperamento ferozmente aquisitivo se fazia acompanhar por uma
corrente de ascetismo e santa pobreza, por sentimentos de mal-estar e
mesmo de culpa.
A história da palavra philanthropia ("amor pelo homem") exemplifica a
distinção (5). No início, ela foi utilizada para definir uma qualidade
divina ou um acto de beneficência por parte de um deus, e este sentido
sobreviveu até ao fim da antiguidade, utilizado por pagãos e por
cristãos. Em breve, contudo, começou-se a atribuir philanthropia a
homens altamente colocados, no sentido de um sentimento humano ou
simplesmente de um acto de bondade ou cortesia. Quando indivíduos ou
comunidades apelavam para um monarca ou um alto funcionário para
resolver uma injustiça ou pedir um favor, apelavam para a sua
phUanthropia. Quando bem sucedidos, recebiam um philanthroppn, que podia
ser a isenção de um imposto ou de outra obrigação e ter, portanto, um
valor monetário, mas que, mais frequentemente, era uma amnistia, o
direito de asilo, uma intervenção contra qualquer erro administrativo. O
governo e os seus
5 Para uma resenha rápida do emprego da palavra, ver H. Hunger,
"OiXauppcoTuoc- Eine griechische Wortpràgung auf ihrem Wege von
Aischylos bis Theodoros Metochites", Anzeiger d. Oesterreichischen Akad.
d. Wiss., Phil.-hist. Kl. 100 (1963) 1-20.
47

agentes eram os protectores do povo contra a opressão e a injustiça e


apelava-se para a sua phUanthropJM, assim como para a sua boa vontade e
justiça, termos essencialmente sinónimos (6)- Uma história
característica do século in conta que um gladiador vencido suplicou a
Caracala, presente na arena, que lhe poupasse a vida. O imperador negou
ter esse poder e sugeriu que se dirigisse ao vencedor. Este, temendo
parecer "mais filantrópico" que o imperador, não ousou aceder ao pedido
(Dio 78.19.4). Este foi o termo da evolução da palavra na antiguidade;
só em séculos posteriores se tornou possível exprimir humanidade em
termos puramente monetários, degradando-a para o nível de donativos aos
pobres e necessitados, de caridade.
É certo que no mundo antigo não faltavam de todo os actos de caridade no
sentido moderno restrito. Normalmente, contudo, a generosidade tinha
como objecto a comunidade e não os necessitados, fossem eles indivíduos
ou grupos (7)- (Excluo, por se tratar de uma situação diferente, a
generosidade para corn parentes pobres, clientes e escravos favoritos).
Os actos de beneficência de Plínio o Jovem, provavelmente nunca
ultrapassados na Itália ou no Império do Ocidente, eram disso exemplos
típicos (8). As excepções que poderiam ser citadas poderiam também ser
enumeradas, ou quase, e este é o facto decisivo. Em toda a antiguidade
os miseravelmente pobres não eram objecto de muita compaixão ou de
piedade. "Dá a 'quem dá, não dês a quem não dá", advertiu o poeta
Hesíodo no século VII a.C. (Os tra-
6 Ver M.-Th. Lenger, "La notion de 'bienfait' (philanthropon) royal
et lês ordonnances dês róis Lagides" em Studi in onore di Vincenzo
Arangio-Ruiz (Nápoles 1953) I 483-99. Há um paralelo exacto na
indulgentia principis romana; ver J. Gaudemet, Indulgentia Principis
(Publicação n.° 3, 1962, do Istituto di storia dei diritto, Univ. de
Trieste) p. 14.
7 Ver em geral A. R. Hands, Charities and Social Aids in Greece and Rome
(Londres 1968), esp. caps. 3-6; H. Bolkestein, Wohltãíigkeit und
Armenpflege im vorchristlichen Altertum (Utrecht 1939).
8 Ver R. Duncan-Jones, "The Finances of the Younger Pliny", PBSR, n. s.
20 (1965) 177-88, reeditado corn revisões no seu Economy.
48

bolhas e os dias 355), e de entre todos os escritores antigos Hesíodo é


o que menos pode ser considerado um mero porta-voz dos valores das
classes superiores. O que faltava aos antigos era o conceito de pecado.
Um grego ou um romano podia facilmente ofender os seus deuses e por
vezes, se bem que não muitas, deparamos corn noções que se podem
aproximar da ideia de pecado. Basicamente, contudo, as suas acções
erradas ou eram exteriores, por assim dizer, e delas se fazia penitência
através de purificações rituais, ou eram reduzidas a termos
intelectuais, como na doutrina socrática segundo a qual nenhum homem
pratica o mal conscientemente. A tónica está na palavra "acção", não
numa condição ou estado de pecado que só a graça divina poderia curar.
Eram desnecessários, portanto, quaisquer sentimentos ambíguos quanto à
riqueza em si, ou quanto à pobreza considerada como um mal (9).
Nem sequer o Estado mostrava grande preocupação pá- /, rã corn os
pobres. A excepção célebre, de carácter intensamente político, é
constituída pela cidade de Roma (e também por Constantinopla, na sua
última fase), onde, desde a época de Caio Graco, alimentar a população
se tornou uma necessidade política à qual nem os imperadores podiam
escapar (e quando os imperadores já não podiam assegurar esta função, os
papas entraram em cena). Se alguma vez a excepção provou a regra, foi
esta. Para além do detalhe que está longe de ser insignificante - de,
até ao século EQ a.C., todos os cidadãos residentes, fossem quais fossem
os seus recursos e rendimento, serem elegíveis como beneficiários, em
que outra cidade do Império, é lícito perguntar, havia quem
distribuísse, gratuita e regularmente, cereais e carne de porco? A
resposta é clara e significativa: em nenhuma, e mesmo uma tentativa
ocasional de humanidade como a do imperador Juliano, aquando da fome de
Antioquia,
9 O facto de escritores modernos sobre a antiguidade falarem por vezes
de 'pecado' é irrelevante; ver K. Latte, "Schuld und Súnde in der
griechischen Religion", Archiv fiír Religionswissenschaft 20 (1920/21)
254-98, reeditado nos seus Kleine Schriften (Munique 1968) pp. 3-35.
49

-v-
foi um fracasso amargo e total. Trajano estabeleceu um esquema
interessante e único de abonos de família em Itália, conhecidos como
alimenta, mas só conseguiu pô-lo a funcionar numa pequena minoria de
cidades. Embora ele tenha sobrevivido durante pelo menos um século,
nenhum imperador, que se saiba, excepto Antonino Pio, alargou o sistema.
Por outro lado há razões para acreditar que o principal objectivo de
Trajano fora o de aumentar a natalidade na Itália (mas não nas outras
regiões do Império) (10). Mais uma excepção que confirma a regra.
Se se quiser compreender a atitude básica para corn os pobres não se
deve olhar para a filantropia ocasional mas para as leis sobre as
dívidas (tal como se aplicava a eles, e não entre pessoas de nível igual
nas classes superiores). Esta lei era uniformemente severa e inflexível.
Mesmo onde o sistema arcaico da servidão por dívidas desaparecera, o
devedor em falta continuava a indemnizar, duma forma ou de outra,
através do seu próprio trabalho forçado e, muitas vezes, do dos seus
filhos í11).
Na base da opinião positiva que os gregos e os romanos tinham da riqueza
estava a convicção de que entre as condições necessárias à liberdade
figuravam a independência pessoal e o lazer. "A condição do homem
livre", escreveu Aristóteles (Retórica 1367a32), "é de não viver sob o
domínio de outro", e é claro no contexto que a sua noção de viver sob
domínio não se restringiria aos escravos, mas se aplicava aos
trabalhadores assalariados e a outros que fossem
10 A melhor discussão é R. Duncan-Jones, "The Purpose and Organisation
of the Alimenta", PBSR, n. s. 19 (1964) 123-46, reeditado corn revisões
no seu Economy e desenvolvido em "Some Configurations of Roman
Landholding in the Roman Empire", em Finley, Roman Property, cap. 7.
Apesar de algumas críticas válidas de Duncan-Jones, P. Veyne, "La table
dês Ligures Baebiani et 1'institution alimentaire de Trajan", Mélanges
d'archéologie et d'histoire 70 (1958) 177-241 continua a ser valioso no
que diz respeito aos propósitos restritamente italianos do esquema (esp.
pp. 223-41). Ver ainda P. Garnsey, "Trajan's Alimenta: Some Problems",
Historia 17 (1968) 367-81. Houve ainda alguns alimenta privados, de
pouca importância no quadro geral. . ... 11 Será suficiente citar
Frederiksen, "Caesar".
50

economicamente dependentes. A maneira como os gregos usavam as palavras


fornece-nos algumas indicações. As palavras gregas ploutos e penia,
vulgarmente traduzidas por "riqueza" e "pobreza", respectivamente,
tinham de facto uma nuance diferente, a que Veblen chamou "a distinção
entre exploração e trabalho pesado" (12)- Um plousios era um homem
suficientemente rico para viver decentemente dos seus rendimentos (como
nós diríamos), um penes não o era. Não era preciso que um penes não
tivesse propriedade, nem que fosse, rigorosamente, pobre: podia possuir
uma quinta ou escravos e ter algumas centenas de dracmas acumuladas num
cofre-forte, mas era obrigado a trabalhar para ganhar a vida. Penia
significava, em resumo, a dura obrigação de trabalhar (13), enquanto que
o indigente, o homem totalmente desprovido de recursos, era normalmente
chamado ptochos,, pedinte, não /penes (14). Na última peça que nos ficou
de Aristófanes, o Plutus, Penia é uma deusa (invenção do autor) que se
opõe ferozmente à sugestão (v. 552-4) de que ela e ptocheia, são irmãs:
"A vida do ptochos... consiste em nada ter, a do penes em viver
parcimoniosamente, dedicando-se ao seu trabalho, não possuindo o
supérfluo mas também não lhe faltando o necessário".
O Plutus é, de qualquer modo, uma obra complicada e não pode ser
apresentado como um elogio de penia: esta possuía, na mente popular,
precisamente como a paupertas de Apuleio (15), um sentido pejorativo,
por maior que fosse a distância que a separava da mendicidade. Para os
nossos fins constitui como que uma nota exemplificativa do sentido do
texto já citado de Aristóteles. Exemplifica ainda o
12 Thorstein Veblen, The Theory of the Leisure Class (edição
Modern Library, Nova Iorque, 1934), p. 15.
13 Visscher, Das einfache Leben, p. 31. Cfr. C. J. Ruijgh, "Enige
Griekse adjectiva die 'arm' betekenen", em Antidoron ...S. Antoniadis
(Leiden 1957) pp. 13-21.
14 As informações foram sistematicamente reunidas por J. Hemelrijk,
Fleuia en IlXou-roç (diss. Utrecht 1928); J. J. Van Manen, I1ENIA en
I1AOTTOS In de periode na Alexander (diss. Utrecht 1931).
15 Visscher, Das einfache Leben pp. 30-31. ,, i ;, , ,,<
51

sentido da uma famosa passagem de Cícero que é preciso citar quase na


íntegra (De oficus 1.150-1): "Quanto às profissões que devem ser
consideradas liberais e as que não o devem, eis o ponto de vista
geralmente aceite. Em primeiro lugar, são condenadas as profissões que
suscitam a antipatia dos outros como as de cobrador de taxas portuárias
e de prestamista. Também não liberais e inferiores são as profissões de
todos os que trabalham por salário, a quem pagamos o trabalho e não a
arte, porque no seu caso o próprio salário é um atestado da sua
escravidão. Temos também que considerar inferiores aqueles que compram a
comerciantes para revender imediatamente, pois não conseguiriam obter
lucros se não mentissem descaradamente... E todos os artífices que se
dedicam a negócios inferiores porque nenhuma oficina pode possuir
qualidades apropriadas a um homem livre. As actividades de menos valor
são aquelas que se relacionam corn os prazeres sensuais: 'peixeiros,
carniceiros, cozinheiros, negociantes de galinhas e pescadores', como
diz Terêncio, aos quais se podem acrescentar os perfumistas, os
dançarinos e todos aqueles que se apresentam em espectáculos musicais de
baixa categoria. Mas as ocupações que requerem um maior grau de
inteligência ou das quais a sociedade extrai um não pequeno benefício -
tais como a medicina, a arquitectura, ou o ensino - são respeitáveis
para aqueles a cuja situação estas ocupações convêm. O comércio, se
praticado em pequena escala, deve ser considerado inferior; mas, se em
larga escala e extensivo, importando muito de todo o lado e distribuindo
a muitos sem falsa sobrevalorização, não deve ser grandemente censurado
*. Efectivamente parece mesmo ser digno do maior respeito, se aqueles
que se ocupam deste comércio, saciados ou, melhor dizendo, satisfeitos
corn os seus proveitos, se encaminharem do porto para uma propriedade
tal como muitas vezes se transferiram do mar para o porto. Mas de todas
as coisas que podem dar lucros a um homem
* Note-se que o comércio corn o estrangeiro é avaliado positivamente
porque fornece bens de consumo e não, na linguagem de Thomas Mun, porque
aumenta o tesouro nacional.
52

não há nada melhor que a agricultura, nada mais produtivo, mais doce,
nada que melhor convenha a um homem livre".
Porquê, pode perguntar-se imediatamente, aceitar Cícero como mais
representativo que os outros moralistas que previamente consideramos
como excepcionais, Sócrates, Platão, os Cínicos? A sua introdução "eis o
ponto de vista geralmente aceite" (haec fere accepimus) é o género de
afirmação ex parte que não se pode considerar como prova, É talvez mais
convincente o facto do De offitiis, em que aparece esta passagem, ter
sido até há bem pouco tempo um dos mais lidos de todos os tratados de
ética que se escreveram no Ocidente. Os Ofícios dte Túlio "enobrecem o
espírito", escreveu o bispo Burnet recomendando-o ao clero no seu
Discowrse of the Pastoral Gare publicado em 1692 e editado pela 14.a vez
em 1821, aprovado como leitura para quem pensasse em entrar para as
ordens sacras pela Sociedade para a Promoção do Conhecimento Cristão
(16). A distinção entre escritores que eram mais ou menos
representativos de um ambiente social específico é vulgar na história
das ideias, entre John Stuart Mill ou Emerson e Nietzsche, por exemplo,
tal como entre Cícero e Platão. Os moralistas "não representativos"
oferecem, é certo, análises penetrantes das realidades da sua sociedade,
mas devem ser lidos de outra maneira, e não de uma forma por assim dizer
directa, como se se tratasse de meros repórteres.
Não será nisso, contudo, que fundamentarei a minha argumentação.
Tratarei a passagem de Cícero como base de uma hipótese de trabalho que
deve ser verificada. Reflecte ela ou não de maneira exacta o modelo de
comportamento predominante no tempo de Cícero? E depois de Cícero?
Trata-se aqui de uma opção. Dado que nenhum homem, nem mesmo Robinson
Crusoe, é absolutamente livre, até que ponto podia um grego ou um romano
efectuar uma escolha livre entre uma gama de possíveis "empregos" das
suas energias ou dos seus bens? Mais precisamente, talvez, que peso ti-
16 Citado de M. L. Clarke, Classical Education in Britain 1500-1900
(Cambridge 1959) p. 169.
53

nham, na escolha, factores que hoje chamamos económicos, a maximização


do rendimento, por exemplo, ou cálculos de j mercado? Mais precisamente
ainda, até que ponto era livre ! a escolha de um grego ou de um romano
rico, sendo óbvio :\ que a liberdade de peixeiros, artífices e actores
em espectáculos inferiores estava rigidamente limitada, e para eles o
lazer e a independência só eram concebíveis em termos de utopia?
Uma investigação recente sobre os jovens oficiais do ^ exército
imperial romano começa corn estas duas frases:! "Temos que
concordar que havia, na sociedade do Império, j como em todas as
sociedades, um desejo de avançar social-1 mente quer da parte do
indivíduo quer da família. Compe- f tia ao imperador não frustrar este
desejo mas tentar satisfazê-lo de forma a que a sociedade tirasse disso
o máximo proveito" (17). Que esta generalização seja válida para todas
as sociedades ou mesmo para todos ,os sectores dentro de uma l sociedade
é comprovadamente falso, e o papel atribuído ao imperador romano seria
extraordinariamente difícil de documentar. Estas questões à parte, a
tese que nos é proposta reflecte um ponto de vista vulgar que não é
analisado nem provado, mas simplesmente enunciado: "temos que
concordar...". Ela reflecte uma visão moderna e "individualista" do
comportamento social que um ilustre indólogo considera como o principal
obstáculo para quem queira compreender a estrutura social da índia: "a
nossa falta de compreensão do fenómeno da hierarquia. O homem moderno é
virtualmente incapaz de lhe reconhecer a devida importância. Em primeiro
lugar, nem sequer se dá conta da sua existência. E se a hierarquia o
obriga a prestar-lhe atenção, ele tende a eliminá-la da sua análise
como se se tratasse de um epifenómeno" (18).
17 B. Dobson, "The Centurionate and Social Mobility during the
Principate", em Recherches sur lês structures sociales dans
Vantiquité classique, org. C. Nicolet (Paris 1970) pp. 99-116.
18 L. Dumont, Homo Hierarchicus. The Caste System and Its
Implications, trad. M. Sainsbury (Londres 1970) p. xvii.
54

Onde se situava o mundo greco-romano, quanto ao seu comportamento


económico, entre estes dois extremos do "individualismo" e da
"hierarquia"? Trata-se de uma questão central, que merece uma análise
cuidada, feita corn categorias claramente definidas. Há contextos em que
uma referência vaga às classes sociais não cria problemas de maior. Eu
próprio me refiro às "classes superiores" desta forma, quando me parece
que o significado é inteligível. Agora, no entanto, devo tentar definir
a situação social corn maior precisão.
Notar-se-á que a classificação de Cícero não pode ser determinada corn
exactidão. A maior parte dos empregos específicos que menciona são
ocupações, mas nem todos: o trabalho assalariado não é uma ocupação,
assim como não o é a agricultura quando abrange tanto o camponês pobre
como o proprietário absentista de centenas, ou mesmo milhares, de
hectares. Embora o próprio Cícero fosse um grande proprietário, a sua
"ocupação" não era a agricultura mas a advocacia e a política, ambas as
quais, por razões compreensíveis, ele não mencionou. Este caso constitui
um óptimo exemplo da verdade de que, na antiguidade, a propriedade de
terras em suficiente escala marca "a ausência de qualquer ocupação"
(19), mas não só nas circunstâncias particulares de Roma no fim da
República mas igualmente em Atenas e Esparta no período clássico.
Plutarco conta-nos que Péricles herdou de seu pai uma propriedade e
"organizou a sua administração da maneira que lhe pareceu mais simples e
rigorosa. Vendia o produto anual por junto e em seguida comprava no
mercado tudo o que necessitava... Todas as receitas e todas as despesas
eram feitas por conta e medida. O agente que lhe assegurava toda esta
exactidão era um criado, Evangelos, que ou era dotado pela natureza ou
treinado por Péricles para ser inexcedível em administração doméstica".
Aos filhos e noras de Péricles, continua Plutarco, desagradavam estes
métodos "pois não havia abundância como numa grande casa e em
circunstâncias generosas" (Péricles 16.3-5). O desacordo neste caso não
era quanto aos mé-
19 Veyne, "Trimalcion", pp. 238-9.
55

todos de adquirir riqueza, mas quanto aos métodos de a gás- m tar. Nem
Péricles nem os seus filhos descontentes revelavam '|| mais interesse na
agricultura como profissão do que Xenofonte quando escreveu o
Oikonomikos.
Para os plousioí da antiguidade - e só eles entram agora em linha de
conta - categorias de divisão social outras que não a ocupação têm
prioridade em qualquer análise. Examinarei aqui três destas categorias:
ordem ou estado (no sentido da palavra état na França pré-
revolucionária, ou da palavra alemã Stand), classe e status í20).
"Ordem", é claro, corresponde à palavra latina ardo, mas, como seria de
esperar, os romanos não a utilizavam num sentido sociologicamente exacto
- tal como nós corn os termos comparáveis
- e não seguirei demasiado de perto a maneira romana de utilizar a
palavra. Uma ordem ou estado é um grupo juridicamente definido dentro de
uma população. Possui privilégios e incapacidades formalizadas em um ou
mais campos de actividade - governamental, militar, legal, económico,
religioso, conjugal - e situa-se em relação a outras ordens^/ numa
relação hierárquica. Idealmente, pertence-se a uma ordem
hereditariamente, como no exemplo antigo mais simples e claro, a divisão
dos romanos, na fase mais recuada da sua
20 Não considero a categoria de "casta" pela simples razão de que não
existiam castas no mundo antigo; ver Dumont, Homo Hierarchicus, esp. pp.
21, 215; E. R. Leach, "Introduction: What Should We Mean by Gaste?" em
Aspects of Gaste in South índia, Ceylon and North-west Pakistan, org.
Leach (Cambridge 1960) pp. 1-10; J. Littlejohn, Social Stratification:
An Introduction (Londres 1972), cap. 4. As definições de "casta" variam
muito, mas a formulação mínima de C. Bouglé basta ao meu argumento. Tal
como o resume Dumont (p. 21), "o sistema de castas divide a sociedade
inteira num grande número de grupos hereditários, distintos uns dos
outros e relacionados entre si por três características: separação em
questões de casamento e contacto, quer directo quer indirecto (comida);
divisão do trabalho, cada grupo possuindo, em teoria ou por tradição,
uma profissão da qual os membros só se podem afastar dentro de certos
limites; e finalmente hierarquia, que ordena os grupos em posições de
superioridade ou inferioridade uns relativamente aos outros". Quando os
historiadores da antiguidade escrevem "casta", querem dizer "ordem".
56

história, em patrícios e plebeus. Mas nenhuma sociedade que não seja


totalmente estacionaria pode manter-se a este nível tão simples
sobretudo se, como acontecia em Roma, não havia maneira de dar
continuidade a uma casa patrícia à qual faltavam herdeiros masculinos.
Quando Roma deixou de ser uma aldeia primitiva de camponeses e pastores
junto do Tibre e começou a estender o seu território e o seu poder, o
sistema existente de duas ordens, embora firmemente sancionado pelo
direito, pela religião e pela tradição, teve que ser adaptado às novas
circunstâncias para que a comunidade não fosse violentamente destruída.
A versão dos próprios romanos dos primeiros séculos da história da
República, que nos é transmitida pelas histórias de Lívio e de Dionísio
de Halicarnasso, escritas na época de Augusto, tem como tema central a
luta entre patrícios e plebeus. Entre as "vitórias" dos plebeus, segundo
esses relatos, figurava a abolição, em 445 a.C., da proibição de
casamento entre as ordens e, por uma lei de 366 a.C., a concessão aos
plebeus da elegibilidade para um dos dois consulados, os mais altos
cargos no Estado. Não é preciso um conhecimento especial de história
romana para se apreciar quem, entre os plebeus, beneficiava corn tais
vitórias. A história "seria ininteligível se não houvesse plebeus ricos"
(a). Outra vitória foi a abolição do neocum, uma espécie de servidão por
dívidas; desta vez os beneficiários terão sido os plebeus pobres, contra
os patrícios e os plebeus ricos.
A partir de 366 não mais de vinte e uma casas patrícias se encontram
documentadas. O patriciado continuou a subsistir durante séculos, mas o
seu significado prático foi em breve reduzido a alguns privilégios
religiosos e à ineligibilidade para o cargo de tribuno, enquanto
"plebeu" adquiriu um significado próximo daquele que ainda hoje
conserva. A dicotomia original patrício-plebeu tinha perdido a sua rele-
21 P. A. Brunt, Sócia/ Conflicts in the Rom&n IRepublic (Londres
1971) p. 47. O seu capítulo 3, "Plebeians versus <t"ã*rteians, 509-287",
é talvez o melhor resumo desta questão. ;- > • > •.-,'•
57

vância. A ordem mais elevada era agora a ordo senatorial, dos membros do
senado. Destes, uma maioria crescente, à medida que os anos passavam,
eram plebeus. Era uma ordem no sentido restrito, embora, por quase
hereditária que fosse de facto, não o fosse por lei. Outra adaptação
surgiu nos fins do séc. II a.C., quando a ordem equestre veio a ser
definida de facto de forma a incluir todos os não-senadores que
possuíssem um mínimo de 400 000 sestércios *. O velho nome equites,
cavaleiros, deixou de ser usado literalmente, embora se perpetuasse o
antigo ritual de atribuição do "cavalo público" a um número seleccionado
(1800 ou 2400), corn conotações honoríficas. Mesmo para os outros
equites, que constituiam agora a grande maioria dentro da ordem, havia
um significado sócio-psicológico genuíno num título arcaico "corn as
suas associações de alta posição e nível mínimo de propriedade, tradição
antiga e símbolos decorativos" í22).
Este entrecruzamento de categorias mostra como, em fins do séc. II a.C.,
quando Roma se tinha tornado um império que englobava não só toda a
Itália a sul do rio Pó mas também a Sicília, a Sardenha e a Córsega,
tanta Espanha quanta conseguia controlar, o Norte de África, a Macedónia
e a Grécia, as ordens eram insuficientes, por si só, como instituição
integrante; mas mostra também como a tradição das ordens era, ao mesmo
tempo, demasiado forte para poder ser posta de parte. A hierarquia já
não estava encabeçada pela ordem senatorial no seu todo mas por um grupo
no seu interior, a "nobreza" (como se auto-definiam). Este grupo, sem
base jurídica, encontrava-se limitado, de facto, a famílias
* Note-se o carácter aproximativo da classificação: os equestres mais
ricos possuíam mais que os senadores mais pobres.
22 M. I. Henderson, "The Establishment of the Equester Ordo", JRS 53
(1963) 61-72, à p. 61, reeditado em R. Seager (org.), The Crisis of the
Roman Republic (Cambridge e New York 1969), pp. 69-80. Não será preciso
considerar em pormenor a história confusa dos equites equo publico,
sobre os quais ver, mais recentemente, T. P. Wiseman, "The Definition of
'Eques Romanus' in the Late Republic and Early Empire", Historia 19
(1970) 67-83.
58

que contassem um cônsul, passado ou presente, entre os seus membros


í23).
A nobreza não era uma ordem mas aquilo que adiante definirei como um
status. Quando a República foi substituída por uma monarquia, o
imperador Augusto revitalizou consideravelmente o sistema das ordens.
Para os fins que me proponho não é necessário aprofundar mais a análise
das ordens em Roma C24), mas será preciso esclarecer ainda um aspecto.
Tudo o que até aqui foi dito sobre as ordens refere-se exclusivamente
aos romanos. Mas quem eram os romanos do séc. II a.C. ou do tempo de
Augusto? Não eram nem uma nacionalidade nem uma raça, mas os membros de
um grupo formalmente definido, o corpo de cidadãos romanos. Este grupo
também constituía uma ordem. Era-o, no entanto, apenas em relação aos
não-cidadãos, e por esta razão os próprios romanos não o consideravam
como tal *. A nossa palavra "cidadão" tem a mesma conexão filológica
corn "cidade" que o latim civis e o grego palites. As suas conotações,
no entanto, são muito mais fracas, já que nos séculos de formação da
Grécia e de Roma, a "cidade" era uma comunidade constituída e cimentada
pela religião, pela tradição, pela intimidade e pela autonomia política
de maneiras que
23 O estudo íundamental é M. Gelzer, The Roman Nobility, trad. R. Seager
(Oxford 1969), publicado originalmente em dois artigos em alemão nos
princípios do século. Sobre a mobilidade social a este nível, ver agora
T. P. Wiseman, New Men in the Roman Senate 139 B. C. A. D. 14 (Londres
1971), um trabalho útil apesar das críticas que lhe farei numa nota mais
adiante neste capítulo. Sobre o tema geral, ver agora B. Cohen, "La
notion d* 'ordo' dans Ia Rome antique", Bulletin de r Assn. Guillaume
Budé (1975), 259-82.
24 Ver K. Hopkins, "Elite Mobility in the Roman Empire", Pasí
& Present, n.° 32 (1965) 12-26, reeditado em Finley, Studies, cap.
5; H. Pleket, "Sociale Stratificatie en Sociale Mobiliteit in de
Romeinse Keizertijd", Tijdschrift voor Geschiedenis 84 (1971) 215-51;
M. Reinhold, "Usurpation of Status and Status Symbols in the Roman
Empire", Historia 20 (1971) 275-302.
* Por vezes, os romanos referiam-se a status civitatis (cf. status
libertatis), mas da classificação que utilizo "ordem", e não "síaíus", é
o termo correcto. •,-• ;, n;:; K-
59

não encontram paralelo nas cidades modernas. Assim, a cidadania


implicava uma relação de privilégios e obrigações, juridicamente
definida e ciosamente defendida, em várias esferas de actividade; ser
cidadão era ser membro de uma ordem no sentido mais restrito do termo,
especialmente quando um número apreciável de "não-membros" começou a
instalar-se na cidade (25). A cidadania romana foi, ao fim e ao cabo,
uma coisa que levou à guerra em 91 a.C. os chamados "aliados" italianos
de Roma. Augusto (Rés gestae 8.3-4) registou 4.233.000 cidadãos romanos
num recenseamento de 8 a.C.,
4.937.000 em 14 d.C., a maior parte dos quais vivia em Itália, num
período em que se computa a população total do Império em cinquenta ou
sessenta milhões.
A história das ordens na Grécia é comparável em muitos aspectos, se bem
que menos complexa í26). As diferenças podem ser explicadas, na minha
opinião, primeiro pela ausência na Grécia de uma grande expansão (que
foi em Roma o maior factor de complicação); segundo, pelo surgimento da
democracia na Grécia, que em Roma nunca foi atingida. Foi precisamente
nos estados democráticos que a passagem das ordens a grupos de status
foi mais completa no período clássico, digamos depois de 500 a.C. í27).
Antes disso, a existência de ordens era suficientemente evidente: há o
exemplo da reforma da constituição ateniense por Sólon, que a tradição
situa em 594 a.C., e pela qual se dividiram os cidadãos em quatro
categorias, cada uma delas definida
25 Ver Crook, Laiv, pp. 37-45. -*•.--.',.• , ,
26 Na sua introdução ao volume sobre estruturas sociais citado na nota
17, Nicolet menciona (pp. 11-12) que o título original do colóquio que
resultou no livro "Ordres et classes dans FAntiquité" foi
abandonado porque esse título "teria, corn efeito, eliminado os
historiadores da Grécia". Parece-me que esta decisão repousa numa
concepção demasiado restrita de 'ordem', baseada no direito
romano.
27 A situação após Alexandre, no que é conhecido por época helenística,
introduz novas complicações que exigiriam demasiado espaço
para os objectivos restritos desta discussão. Tampouco me
pareceu necessário abordar (para além de uma referência passageira) as
complicações ulteriores da dupla cidadania no Império Romano.
60

em termos de um limite mínimo de propriedade í28). Mas para o estudo


da economia grega a distinção de longe mais importante e significativa,
aquela que se prolongou através do período clássico quer nos estados
democráticos quer nos ^ oligárquicos, era a que separava cidadãos e
não-cidadãos, ^ porque era uma regra universal - não lhe conheço
excepções - que a propriedade de terras fosse uma prerrogativa exclusiva
dos cidadãos. Este privilégio era ocasionalmente alargado a título
individual a um não-cidadão, mas raramente e só sob um estímulo muito
forte.
Considere-se por instantes as consequências deste facto numa cidade como
Atenas, onde a proporção de não-cidadãos para cidadãos residentes na
população masculina variou, em diferentes períodos, entre possivelmente
1:6 e 1:2 V2. Muitos dos não-cidadãos dedicavam-se activamente ao
comércio, à manufactura e aos empréstimos e alguns deles moviam-se nos
círculos sociais mais elevados. Um exemplo é-nos fornecido por Céfalos
de Siracusa, em cuja casa Platão posteriormente (e ficticiamente, claro)
situou o diálogo que nós conhecemos sob o título de A Republica. Céfalos
não podia possuir terras agrícolas nem uma vinha nem a própria casa em
que morava; não podia mesmo emprestar dinheiro sobre hipoteca de terras,
visto não ter o direito de fazer executar essa hipoteca. Por seu lado,
os cidadãos atenienses que precisavam de dinheiro não podiam facilmente
pedi-lo aos não-cidadãos, os principais prestamistas. Esta barreira
entre a terra e o capital líquido era um travão^ para a economia, mas
sendo, como era, o produto de uma hierarquia social juridicamente
definida e sancionada, as suas bases eram demasiado resistentes para que
pudesse ser destruída í29).
28 O sistema de Sólon é o exemplo clássico, no mundo antigo, de "uma
estrutura de estados em que o status não era pre-determinado pelo
nascimento": Ossowski, Class Structure, p. 42.
29 Este tema encontra-se desenvolvido no meu "Land, Debt and the
Man of Property in Classical Athens", Political Science Quarterly
68 (1953) 249-68.
61

Aquilo a que chamei as "ordens" de Sólon são vulgarmente chamadas as


"classes" de Sólon. É claro que, em princípio, os membros de qualquer
sistema de classificação são por definição "classes". Há contudo uma
distinção que temos de exprimir linguisticamente de uma ou de outra
forma, entre grupos que são definidos juridicamente e grupos que o não
são, e alguns investigadores sugeriram "ordem" para os primeiros e
"classe" para os segundos. Quanto às ordens, não poderia haver desacordo
excepto quanto à exactidão dos factos aduzidos num caso particular. Por
exemplo, poderia discutir-se se um homem era ou não membro de uma das
ordens de Sólon ou da ordem patrícia ou senatorial em Roma: trata-se de
um teste objectivo. No caso das classes, pelo contrário, e pelo menos na
sociedade moderna em que o problema pode ser examinado directamente, há
uma incerteza permanente, mesmo numa auto-avaliação, em saber a que
classe pertence uma pessoa - por exemplo, se pertence à alta ou à baixa
classe média (30).
Há pouca concordância entre historiadores e sociólogos sobre a definição
de "classe" ou sobre os critérios segundo os quais se deve atribuir uma
pessoa a uma ou outra classe. Nem mesmo o conceito marxista de classe,
aparentemente claro e inequívoco, nos surge isento de dificuldades. Os
homens são classificados segundo as suas relações corn os meios de
produção, em primeiro lugar entre os que possuem e os que não possuem os
meios de produção; em segundo lugar, entre os primeiros distinguem-se os
que trabalham eles próprios e os que vivem do trabalho dos outros.
Qualquer que seja a aplicabilidade desta classificação na sociedade
contemporânea (31), para o historiador da antiguidade há uma dificuldade
óbvia: o escravo e o trabalhador assalariado livre seriam, neste caso e
numa interpretação mecânica, membros da mesma classe, da mesma forma que
o
30 Existe uma vasta bibliografia sobre este assunto; ver Ossowski, Class
Structure, pp. 44-49.
31 Ver a análise brilhante em Ossowski, ibid., esp. cap. 5.
62

mais rico dos senadores e o proprietário de uma pequena oficina de


cerâmica (desde que este não trabalhasse). Não parece uma maneira muito
inteligente de examinar a sociedade antiga (32).
A pressão da economia capitalista de mercado sobre o historiador revela-
se fortemente neste ponto. Uma obra importante sobre os equites romanos
foi publicada em 1952 (por H. Hill) corn o título A Classe Média Romana
(The Roman Middle Class). Ora, a "classe média", como todos nós sabemos,
são os comerciantes e industriais. Nada tem semeado tanta confusão na
história do fim da República Romana como esta falsa imagem dos equites
transformados em comerciantes e industriais, em capitalistas, na nova
classe endinheirada e coisas do género. Esta transformação teve a sua
origem no pressuposto profundamente enraizado de que deve ter havido,
entre a aristocracia fundiária e os pobres, uma poderosa classe
capitalista intermédia. Vimos já que os equites eram uma ordem em
sentido restrito e está demonstrado que a esmagadora maioria deles eram
proprietários rurais. É verdade que entre eles havia um sector, pequeno
mas importante, os publicanos, que se ocupava de contratos públicos,
impostos e empréstimos de dinheiro em larga escala, especialmente às
comunidades de província que tinham dificuldade em pagar os impostos que
esses publicanos cobravam para o estado romano. Não subestimo esses
homens, mas eles nem eram uma classe - era-lhes exigido que oferecessem
terra, repare-se bem, como garantia dos seus contratos nem eram
representativos da ordem equestre no seu conjunto, nem se dedicavam a
qualquer comércio ou indústria em larga escala, nem havia uma luta de
classes entre eles e os senadores. Uma vasta construção fictícia,
edificada a partir de uma única pressuposição falsa a respeito das
classes
32 Ver P. Vidal-Naquet, "Lês esclaves grecs étaient-ils une classe ?"
Raison presente, n.° 6 (1968) 105-11; cfr. o seu "Économie et société
dam Ia Grèce ancienne", Archives européennes de sociologie 6 (1965)
111-48, às pp. 120-130.
63

-r
continua, em demasiados livros, a fazer-se passar por história de Roma
(33).
Há meio século Georg Lukács, um marxista muito ortodoxo, observou,
correctamente, que nas sociedades pré-capitalistas "a consciência de
status... oculta a consciência de classe". Queria assim dizer, como ele
próprio explicou, que "a estruturação da sociedade em castas e estados
significa que os elementos económicos se encontram inextricavelmente
ligados a factores políticos e religiosos", que "as categorias
económicas e legais estão objectivamente e substancialmente tão
interligadas que chegam a ser inseparáveis" (34). Em resumo, nem numa
perspectiva marxista nem numa perspectiva não-marxista será "classe" uma
categoria suficientemente demarcada para os nossos fins - excepto, é
claro, no sentido pouco problemático mas vago de "classes superiores" e
"classes inferiores" ao qual já me referi. Continuamos, por conseguinte,
à procura de um termo aplicável aos "Inferiores" em Esparta
(tecnicamente, cidadãos que perderam as suas terras), à nobreza dos fins
da República Romana, aos "amigos do rei" que constituíam o círculo
dirigente em torno dos primeiros reis helenísticos (35), aos homens em
que Cícero pensava quando permitiu as profis-
33 Escrevo corn muita confiança graças aos estudos definitivos de P. A.
Brunt, "The Equites in the Late Republic", em Proceedings ...Aix, pp.
117-49, corn comentário de T. S. R. Broughton, pp. 150-62, ambos
reeditados em Seager, Crisis pp. 83-130; e C. Nicolet, L'ordre equestre
à Vépoque républicaine (312-43 av. J.-C.) (Paris 1966), sobre o qual ver
a recensão de Brunt em Annales 22 (1967) 1090-8.
34 History and Class Consciousness, trad. R. Livingstone (Londres
1971) pp. 55-59; ver pp. 1-45 sobre a ortodoxia de Lukács; cfr. J.-P.
-\- Vernant, "Remarques sur Ia lutte dês classes dans Ia Grèce
ancienne", Eirene 4 (1965) 5-19, reeditado no seu Mythe et société en
Grèce ancienne (Paris 1974) pp. 17-29.
35 Ver C. Habicht, "Die herrschende Gesellschaft in den hellenistischen
Monarchien", Viertelsjahrschrift fur Sozial- und Wirtschafisgeschichte
45 (1958) 1-16.
64

soes de medicina, arquitectura e ensino "àqueles a cujo status elas


convêm" (3S), e a Trimalcião.
Trimalcião era um liberto, um antigo escravo. Os romanos reconheciam a
existência de uma orão libertinorum, mas, apreciando a insignificância
virtual de uma tal ordem, raramente a ela se referiam. Trimalcião podia
parecer igual aos senadores em termos da sua fortuna, da sua "classe" no
sentido marxista, e mesmo em termos do seu estilo de vida, se só
considerarmos o seu luxo esotérico e a sua aceitação de certos valores
"senatoriais", a posse de grandes propriedades como "não-ocupação" e o
orgulho da sua auto-suficiência económica. Mas a semelhança desaparece
quando olhamos mais além, quando1 ipensamos nas actividades das quais,
como liberto, ele estava legalmente excluído, nos círculos sociais que
também não podia frequentar e nos quais, de resto, não fazia o mínimo
esforço para penetrar. Ao contrário do bourgeois gentilhomme de Molière,
Trimalcião não era, como já foi justamente observado, um parvenu, uru
"recám-chegado", pois ele nunca chegara (37).
É para tais distinções que sugiro a palavra status, uma palavra
admiravelmente vaga corn um elemento psicológico considerável.
Trimalcião foi comparado ao pompeiano que se chamava a si próprio
princeps libertinorum, o primeiro entre os libertos (38), e é isto que
se entende por statm. Os gregos e romanos ricos eram, pela natureza das
coisas, membros de categorias entre-cruzadas. Algumas eram
complementares
- por exemplo, a cidadania e a propriedade de terras mas algumas geravam
tensões e conflitos nos sistemas de valores e padrões de ccmportamento,
como, por exemplo, a distinção entre libertos e homens livres. Embora
uma ordem ou estado estivesse numa posição de superioridade ou de in-
36 Em latim é quorum ordini conveniunt, mas corn certeza Cícero utiliza
aqui a palavra "ordo" no seu sentido genérico e não no sentido técnico
de "ordem" ou "estado". Já indiquei que não utilizo a palavra "status"
no mesmo sentido que os romanos, num contexto juridico.
37 Veyne, "Trimalcion", pp. 244-5.
38 Ibid., p. 240.
65

ferioridade em relação a outras ordens, normalmente não era igualitária


internamente (s9) - como era reconhecido, pelo menos implicitamente, no
orgulho sentido por Péricles por causa do privilégio que os ateneienses
pobres tinham de poderem beneficiar a sua cidade - e as tensões que daí
derivavam podiam transformar-se em rebelião aberta, como quando nobres
romanos empobrecidos se juntaram à conspiração de Catilina em 63 a.C..
Não you acumular exemplos, pois eles são muito numerosos; you fazer uma
pausa apenas para indicar os desenvolvimentos nos séculos finais da
antiguidade, A expansão romana introduziu a complicação ulterior da
existência de status locais e de statm nacionais (romanos) separados, em
particular da cidadania local e romana. Um homem livre podia possuir uma
delas, ou as duas, ou nenhuma. Aos poucos os imperadores foram
desvalorizando a cidadania romana até que Caracala, provavelmente em 212
d.C., a tornou realmente insignificante alargando-a virtualmente a todos
os homens livres do Império. As ordens proliferaram desordenadamente,
corn largo uso do superlativo nos títulos: clarissimus, perfectissimus e
assim por diante í40). Embora a aparência seja a de uma reãuctio aã
absurãum, a realidade é que os homens lutavam pelos favores imperiais de
forma a subirem de ordem em ordem, não só pela honra mas também pelos
emolumentos pecuniários.
E agora, finalmente, que tem tudo isto a ver corn a questão das críticas
morais de Cícero e corn as realidades económicas da sociedade antiga ? A
resposta convencional aparece corn monótona regularidade, como num livro
recente sobre os libertos no tempo de Cícero. As "opiniões rígidas" de
Cícero, lê-se, representavam um "preconceito aristocrático", "snobismo e
nostalgia por um passado agrícola". Na "prá-
39 Ver Ossowski, Class Stmcture, cap. 7.
40 Ver H. G. Pflaum, "Titulature et rang social durant lê Haul. Empire",
em Recherches (citado na nota 17) pp. 159-85; P. Arsac," La dignité
sénatoriale au Bas-Empire", Revue historique du droit français...
4* série, 47 (1969) 198-243. :
66

tica as coisas eram diferentes. Cícero lucrou certamente, mesmo que


indirectamente, corn a sua oratória; senadores como Brutus andavam
muitas vezes metidos na usúria; o irrepreensível eques Ático ocupava-se
de publicações, banca e produção agrícola (41). Outro investigador prova
a irrelevância de Cícero corn um argumento complicado segundo o qual há
a possibilidade, talvez a probalidade (mas não mais do que isso), de que
dois dos maiores fabricantes de cerâmica de Arretium (Arezzo), neste
mesmo período, tenham pertencido a famílias senatoriais de proprietários
fundiários í43). Outro ainda, assegura-nos que, ao fim e ao cabo, "a
este respeito pouco separa o senador do rico não-senador" í43).
Que born seria se a história económica e social fosse tão simples!
Cícero enuncia aquilo que julga ser uma opinião social dominante
(afirmações semelhantes abundam tanto na literatura grega como na
romana) e é posto de lado pela enumeração de alguns poucos homens que
não seguiram os seus preceitos. Em tal argumentação parece não haver
necessidade de precisão. Palavras como "preconceito" e "snobismo" não
têm lugar na discussão; a produção agrícola está ligada à propriedade de
terras e dificilmente
41 S. Treggiari, Roman Freedmen during the Late Republic (Oxford 1969)
pp. 88-9.
42 T. P. Wiseman, "The Potteries of Vibienus and Rufrenus at Arretium",
Mnemosyne, 4th. ser., 16 (1963) 275-83. Em New Men, p. 77,
Wiseman diz, a propósito da passagem do De officiis, que a atitude que
aí se exprime "se baseava na... lembrança idealizada de homens como L.
Cincinnatus..., que trabalhavam as suas próprias pequenas terras e
não precisavam de dinheiro. A sobrevivência desse ideal, que na prática
se tornou obsoleto logo que Roma progrediu para além do que era
essencialmente uma economia de subsistência, deveu-se em grande parte às
opiniões e à influência de Catão o Velho". A ideia de que quer Catão,
quer Cícero, pudessem estar a perpetuar um ideal no qual não haveria
necessidade de dinheiro parece-me tão surpreendente que não me ocorre
outra resposta a não ser recomendar que se leiam as obras de Catão e de
Cícero, e que se considere a influência grega na passagem do De officiis
(ver e. g. Seneca, Epístolas morais 88.21-3); cfr. D. Nõrr, "Zur
sozialen und rechtlichen Bewertung der freien Arbeit in Rom", ZSS 82
(1965) 67-105, às pp. 72-79.
43 Frederiksen, "Caesar", p. 131 n. 26.
67

pode ser utilizada contra Cícero; a advocacia, como já tive ocasião de


referir, foi omitida no catálogo de Cícero. Não se tentam análises
quantitativas, nem se definem distinções, embora haja algumas óbvias
mesmo à mão de semear.
Sejamos claros acerca do ponto em questão. Nem na Roma de Cícero nem em
qualquer outra sociedade complexa a actuação de todos os homens se
desenrolou segundo os cânones aceites. Somos levados a repetir tal
banalidade por causa da prevalência do argumento por excepção. Nem
afirmaremos que os valores arcaicos da Grécia de Homero ou da legendária
Roma primitiva ainda se encontravam intactos e orientavam o
comportamento em períodos posteriores. Mas a alternativa não reside
necessariamente entre valores arcaicos e ausência total de valores.
Antes de pôr Cícero de parte convém decidir se a nova liberdade de
enriquecimento era total ou não, mesmo para a nobreza, ou se, por lei ou
convenção, os homens continuavam a ser impelidos para certas fontes de
riqueza de acordo corn a sua posição social í44). A época de Cícero
fornece o melhor teste possível; era uma época de colapso político, das
mais duras lutas pelo poder nas quais quase tudo era permitido, de
mudanças profundas no comportamento moral tradicional, de grandes
tensões entre valores e práticas. Então, como em nenhuma outra época da
antiguidade, se pode esperar encontrar sintomas de um estilo "moderno"
de actividade económica e mostrar, portanto, que as afirmações de Cícero
no De oficiis são vazias e bombásticas.
Começarei pelo empréstimo de dinheiro e pela usura. Os romanos, ao
contrário dos gregos, tentaram desde os tempos recuados controlar
legalmente os juros, e não foram de todo
44 No que se segue concentrar-me-ei sobretudo nas convenções, ignorando
leis como a aprovada em 218 a.C. que limitava a dimensão dos navios que
um senador podia possuir àquela que na prática correspondia a barcos
costeiros suficientes para transportar os produtos das suas
propriedades. As proibições legais são em geral meros detalhes, eficazes
apenas quando o clima social lhes é favorável, e é este último,
portanto, que conta na realidade.
68

mal sucedidos í45). Mas a época de Cícero foi anormalmente complicada:


as exigências da política tal como ela então se praticava e os gastos
conspícuos, que eram um elemento em política, envolviam a nobreza, e
outros, em empréstimos de dinheiro numa escala formidável. Subornos
eleitorais, um estilo de vida dispendioso, jogos públicos extravagantes
e outras formas de generosidade pública tinham-se tornado ingredientes
necessários de uma carreira política. Para os homens cuja fortuna era a
terra, as pressões eram exacerbadas por falta de dinheiro líquido. Por
conseguinte muitas manobras políticas incluíam uma rede complicada de
empréstimos e garantias. Pedir emprestado criava uma obrigação política
- até se ser nomeado governador de alguma província e se poder
indemnizar. Assim, a extorsão nas províncias tornava-se muitas vezes uma
necessidade pessoal, o que provocava, a este alto nível da sociedade
romana, uma tensão contínua sobre assuntos de dinheiro. Só uns poucos,
como Pompeu e Crasso por exemplo, eram suficientemente ricos para
estarem mais ou menos imunes a essa ansiedade. Os riscos eram também
consideráveis: a bancarrota podia levar à desgraça se os credores se
decidissem a abandonar politicamente a pessoa falida; o que podia então
significar a expulsão do senado e o sequestro das propriedades (4S).
O próprio Cícero pediu um empréstimo de 3.500.000 sestércios a 6% a
prestamistas profissionais para poder cornprar a Crasso uma casa luxuosa
no Palatino. Como explicava numa carta, ele era considerado um born
risco porque era um protector consciente dos direitos dos credores (47).
Mais
45 A documentação poderá ser encontrada no livro um tanto caótico de G.
Billeter, Geschichte dês Zinsfusses im griechisch-rõmischen Altertum
(Leipzig 1898).
46 Ver Frederiksen, "Caesar"; J. A. Crook, "A Study in Decoction",
Latomus 26 (1967) 363-76; Helmuth Schneider, Wirtschaft und Politik,
Untersuchungen zur Geschichte der spãter rômischen Republik (Erlangen
1974) pp. 205-21.
47 Ad familiares 5.6.2. Cír. a sua tempestuosa denúncia, em De
officiis 2.78-84, das medidas para aliviar as dívidas, em especial as de
César, que ele considerava, a par das leis agrárias, como um roubo;
ele protegia a propriedade, não os prestamistas.
69

tarde, Cícero pediu emprestado a César 800.000 sestércios, o que lhe


causou grande embaraço quando começou a inclinar-se para o campo de
Pompeu (48). Mais tarde ainda, em 47 ou 46, quando César estava em plena
força, Cícero emprestou ao secretário do ditador, Faberius, uma grande
quantia (não especificada) e a recuperação desse empréstimo revelou-se
difícil e sórdida (49). Não é certo se estes dois empréstimos se fizeram
a juros, mas não há dúvida dê que tanto Crasso como César, entre outros,
fizeram grandes empréstimos isentos de juros a homens politicamente
úteis (50). Por repelente que possa parecer a comparação, eles estavam a
demonstrar na prática aquilo que Aristóteles entendia quando escreveu
(Ética a Nicomaco 1133a4-5) que "é um dever não só pagar um serviço
prestado mas também tomar por si próprio a iniciativa de prestar um
serviço".
Devemos registar mais um exemplo. Entre 58 e 56 a.C., Brutus, homem
exemplarmente nobre, embora ainda jovem, emprestou à cidade de Salamis
em Chipre uma quantia considerável ao juro de 48%. Quando chegou a
altura de Brutus ser reembolsado Cícero entristeceu-se, e como
governador da Cilicia tentou resolver o caso à taxa legal de 12% (51).
48 Epístolas a Ático 5.4.3; 7.3.11; 7.8.5.
49 Ver O. E. Schmidt, Der Briefwechsel dês M. Tullius Cícero von
seiner Prokonsulat in Cilicien bis zu Caesars Ermordung (Leipzig
1893), pp. 289-311.
50 Ver Gelzer, Nobility pp. 114-7. A referência feita por Cícero em 54
a.C. (Ad familiares 1.9.18) à grande liberalitas de César para consigo
e seu irmão, não se refere necessariamente ao empréstimo de 800
000 sestércios, que não pode ser datado mas que é mencionado pela
primeira vez em 51 a. C. (Epístolas a Ático 5.5.2), mas a palavra
liberalitas, se Cícero a emprega de maneira consistente (e. g. De
officiis
1.43-4; Leis 1.48) sugere a inexistência de juros. A ideia de que César
cobrava juros baseia-se na expressão elíptica "os 20.000 e os 800.000"
em duas epístolas a Ático (5.5.2 e 5.9.2). Mas a cifra de 20.000 é
estranha se se tratar de juros (de 2i/2%) sobre 800.000; as taxas de
juro na antiguidade costumavam ser em múltiplos ou fracções de doze,
ou seja, tanto por mês.
51 Os textos principais são Cícero, Epístolas a Ático 5.21; 6.1; ver a
breve análise de E. Badian, Roman Imperialism in the Late Republic (2.a
ed., Oxford 1968) pp. 84-87.
70

Não era a única dívida romana nem a única de Brutus que Cícero estava a
tentar cobrar durante o seu- período como governador. O que resta então
de "devem ser condenadas as profissões que suscitam a antipatia dos
outros, como as de (...) prestamistas (faeneratores)"1! Não estava
Cícero, o homem prático, a tornar ridículo Cícero, o moralista?
Creio que não, unia vez feitas as distinções que se impõem. Nunca Cícero
negou a necessidade das profissões inferiores. Só na Terra do Nunca-
Jamais elas seriam desnecessárias. Os prestamistas eram tão
indispensáveis ao seu mundo (e a ele pessoalmente) como os comerciantes,
os artífices, os perfumistas e os médicos. A única questão corn que ele
se preocupava era a do status moral (e social) dos que particavarri
essas profissões. Não havia contradição alguma entre pedir emprestado a
faeneratores profissionais para comprar uma casa adequada ao seu status
e denegrir estes mesmos faeneratares como pessoas *. Brutus, Crasso e
César eram outra história. Emprestavam grandes quantias mas não eram v
prestamistas; eram homens de guerra e de política, as duas actividades
que melhor convinham à nobreza. Reconhecia-se que tais homens podiam
perfeitamente pôr a render, através de empréstimos, o dinheiro líquido
em excesso, uma actividade de amador que não prejudicava as suas
carreiras nobres. Nos dias de Cícero havia ainda a vantagem de esta
forma de ganhar dinheiro ser largamente política, e se fazer nas
províncias à custa dos vencidos e dos dominados. Cícero nunca sonharia
chamar faeneratores a estes amadores (52).
A oportunidade de "ganhar dinheiro politicamente" dificilmente pode ser
exagerada. O dinheiro entrava em catadupas, proveniente de pilhagens,
indemnizações, impostos provinciais, empréstimos e de variadas origens,
em quantida-
* "Nenhum jovem de carácter", escreveu Plutarco (Péricles 2.1-2),
"deseja ser Fídias ou Policleto só por ver o Zeus de Olímpia ou a Hera
de Argos... Porque não é obrigatório que, por mais encantadora que a
obra seja, o que a fez seja digno da vossa estima".
52 Por estranho que pareça, não encontro um estudo moderno e sistemático
dos empréstimos e prestamistas nesta fase tão crítica da história
antiga.
71

t
dês sem precedentes na história greco-romana, e a um ritmo acelerado. O
tesouro público era um dos beneficiários, mas a maior parte ficava,
provavelmente, em mãos privadas, nas dos nobres em primeiro lugar;
depois, em proporções decrescentes, entre os equites, os soldados e
mesmo a plebe da cidade de Roma (53). Tampouco devemos esquecer as
guerras civis: muitas das grandes fortunas foram construídas sobre as
proscrições e confiscações de Siia (54) e depois da vitória de Augusto
sobre António. No entanto todo o fenómeno é mal compreendido quando é
classificado sob os títulos de "corrupção" e "malversação", como certos
historiadores insistem ainda em fazer (5S). Cícero foi um honesto
governador da Cilicia em 51 e 50 a.C., de tal forma que, no fim do seu
mandato, tinha ganho apenas os lucros legítimos do cargo, que eram
2,200.000 sestércios (5fl), mais do triplo da quan- l tia de 600.000
sestércios que ele próprio mencionara (Paradoxos Estóicos 49) como o
rendimento anual necessário para uma vida luxuosa. Estamos perante algo
de estrutural na sociedade.
53 Uma amostragem suficiente do material encontra-se em
Badian, Imperialism, esp. caps. 5-6; cfr. A. H. M. Jones em Proceedings
da 3.a Conferência Internacional de História Económica,
Munique,
1965, vol. 3, The Ancient Empires and the Economy (Paris e Haia 1969)
pp. 81-8; Schneider, Wirtschaft und Politik, pp. 93-141.
54 Ver Brunt, Manpower, pp. 301-5.
55 Na obra de Lily Ross Taylor, Party Politics in the Age of Caesar
(Berkeley e Los Angeles 1949), encontra-se no índice remissivo o
seguinte: "Suborno: ver eleições, jurados, burla". Isto engloba tudo o
que é dito sobre as questões financeiras, que é quase nada. Cfr. D.
Stockton, Cícero, A Political Biography (Londres 1971), p. 240, sobre o
empréstimo de Brutus aos habitantes de Salamina: "Todo o caso sabia a
corrupção."
56 Um século mais tarde, quando as grandes fortunas se tornavam cada vez
maiores, Plínio o Jovem, que sem ser dos senadores mais ricos estava
longe de ser dos mais pobres, tinha um rendimento anual que se calcula
em cerca de 2.000.000 de sestércios; ver Duncan-Jones, "The Finances of
Pliny". Cícero, aliás, depositou os seus rendimentos da Cilicia junto
dos colectores de impostos de Éfeso e acabou por vê-los confiscados
pelos agentes de Pompeu; ver Schmidt, Brief. wechsel pp. 185-9.
72

O que torna excepcionais os últimos anos da República Romana são a


escala e a sinceridade do esforço de enriquecimento. Nas cidades-estado
gregas, mesmo no período helenístico, a regra era que o comandante no
campo "pudesse dispor dos proventos da venda da pilhagem em várias
formas... mas tudo o que fosse trazido tornava-se propriedade do estado"
(57). Não sabemos, é claro, quais eram as proporções, o que é obviamente
importante, mas os casos conhecidos de generais que fizeram fortunas
consideráveis são de homens que se puseram mercenariamente ao serviço de
tiranos ou de reis estrangeiros. As regras romanas eram semelhantes mas
uma mudança no comportamento, se não na lei, tornou-se visível corn as
primeiras conquistas fora da Itália, nas guerras contra Cartago no séc.
in a.C.. O enriquecimento de comandantes do exército através da pilhagem
era a con-"^ trapartida da monopolização pela aristocracia senatorial de
terras confiscadas e conquistadas na Itália (58).
Depois, quando a paz e a tranquilidade relativas do Império Romano (e o
interesse dos imperadores) acabaram corn tais possibilidades, o
enriquecimento privado através da guerra e da administração foi
conseguido por meio de outra técnica, o favor real à maneira
helenística. Esta era, por assim dizer, a versão imperial da política
como via para o enriquecimento. Ê-nos dito que Mela, irmão de Séneca,
"se absteve de procurar um cargo público por causa de uma ambição
perversa de atingir a influência de um cônsul permanecendo embora um
eques romano; acreditava também que uma via mais curta para a aquisição
da riqueza residia nas procuradorias para a administração dos negócios
do imperador" (Tácito, Anais 16.17). Dizia-se que o próprio Séneca,
senador e durante algum tempo tutor de Nero e seu mais próximo
conselheiro, tinha reunido uma fortuna de
300.000.000 de sestércios (S9), parte da qual proveniente, sem
57 Pritchett, Military Pradices, p. 85.
58 I. Shatzman, "The Roman Genefal's Authority over Booty", Historia 21
(1972) 177-205.
59 Tácito, Anais 13.42; Dio 61.10.3. '
73

dúvida, da sua parte nos bens confiscados a Britannicus, cunhado de


Nero, que morreu, provavelmente envenenado, pouco antes de fazer catorze
anos em 55 d.C..
Complicando esta terrível fome de aquisição nas classes altas estava o
facto de a sua fortuna básica ser constituída por terras, havendo assim
uma falta crónica de dinheiro que, neste mundo, era constituído
exclusivamente por moedas de ouro e prata - sempre que precisavam de
somas consideráveis quer para a despesa convencional de um homem de alta
posição (como belas casas e dotes para as suas relações femininas), quer
para as despesas igualmente convencionais que a ambição política tornava
necessárias. Tais despesas possuíam um ímpeto próprio, que ajudava a
determinar .a extensão da rapacidade de que eram vítimas tanto os
inimigos internos numa guerra civil como os povos conquistados ou
dominados em todos os tempos. Poderia parecer lógico a um espírito
moderno incluir as actividades militares e políticas que produziam estes
tipos de rendimentos entre as profissões ou ocupações. Sê-lo-ia falso,
no entanto, segundo os cânones antigos e Cícero estava a ser
perfeitamente correcto não o mencionando, da mesma forma que estava a
ser correcto e coerente quando distinguia a actividade dos prestamistas
profissionais da dos seus amigos senadores que emprestavam dinheiro.
Estava a ser igualmente correcto (e honesto) .ao omitir das ocupações
que requeriam "um grau superior de inteligência" justamente aquela que o
colocava a ele próprio numa alta posição dentro do estado, .a prática do
direito público. Em Roma, os advogados e jurisconsultos ocupavam um
lugar especial na hierarquia; o ,seu trabalho estava intrinsecamente
ligado à política e era considerado igualmente honorífico. Uma lei de
204 a.C. proibia os advogados de receberem honorários ou de irem a
tribunal para recuperar dinheiro aos seus clientes sob qualquer
pretexto. Tal lei não era facilmente aplicável e há notícia de
violações. Não ao nível de Cícero, pela simples razão de que os grandes
advogados e jurisconsultos republicanos não necessitavam de honorários.
"Se Cícero desse satisfação a um cliente, a bolsa,
74

os amigos e a influência do cliente estariam à disposição de Cícero em


qualquer altura" (60) precisamente pomo se tivesse emprestado 2.000.000
de sestércios sem juros a um político. O mesmo não acontecia em ,Roma
corn outras profissões (no nosso sentido de "profissões liberais"). O
jurista Juliano, que escrevia no séc. II d.C., estabeleceu a seguinte
regra (Digesto 38.1.27): "Se um liberto se dedica à pantomima deve pôr
os seus serviços gratuitamente à disposição não só do seu patrono mas
também dos amigos deste, sem cobrar honorários. Do mesmo modo, um
liberto que pratica a medicina deve, a pedido do seu patrono, tratar
gratuitamente os amigos deste". A situação dos médicos variou de facto
grandemente em diferentes períodos e lugares do mundo antigo. Entre os
gregos eram geralmente estimados, assim como sob o Império Romano, mas
entre os próprios romanos a maior parte dos praticantes de medicina
recrutava-se entre escravos libertos e estrangeiros (61), de modo que
quando Juliano menciona os médicos em paralelo corn a muito baixa
ocupação de pantomimeiro não se trata de um mero insulto gratuito.
Até aqui, em suma, Cícero tern^se mostrado um born guia quanto aos
valores dominantes. A discussão torna-se mais complicada quando nos
ocupamos de comércio e indústria, que são, em certos aspectos, o nó do
problema. É sempre difícil validar um argumento negativo. Temos de
aceitar que as fontes antigas estão distorcidas, por serem incompletas e
parciais; que havia fuga ao código ciceroniano através de "comanditas" e
do emprego de agentes escravos e libertos (62). São argumentos válidos
embora por vezes resultem em conjecturas ilegítimas: Porque razão teriam
os pragmor tentai do Pireu erigido uma estátua à mulher de Herodes
60 Crook, Law p. 90.
61 K.-H. Below, Der Arzt im rõmischen Recht (Munique 1953) pp. 7-21;
cfr. K. Visky, "La qualifica delia medicina e deli' architettura nelle
íonti dei diritto romano", lura 10 (1959) 24-66.
62 Estas possibilidades são enunciadas corn sobriedade por
Broughton, em Seager, Crisis pp. 119-21.
75

Atiço (o homem mais poderoso e rico de Atenas no séc. H d.C.) ?,


pergunta um investigador, dando a seguinte resposta sem a menor
fundamentação: porque eram os agentes comerciais de Herodes í63). O
ponto decisivo é que contra os relativamente poucos exemplos conhecidos
de "comanditas" e outros expedientes não se pode identificar um único
eques eminente que tenha sido "principalmente um comerciante" C51), nem
quaisquer equites "que tenham eles próprios participado activamente em
transacções de cereais ou no comércio marítimo" (65) - eqmtes, quanto
mais senadores.
Os proprietários fundiários preocupavam-se, é claro, , corn a venda da
sua produção (a menos que as suas terras "K estivessem arrendadas), e
faziam-no através de feitores e criados como o Evangelus de Péricles, Na
Itália, pelo menos, se as terras continham boas reservas de argila, a
fabricação de tijolos e telhas adquiriu o mesmo foro da agricultura.
Daqui "a fabricação de tijolo ser praticamente a única indústria em Roma
em que o aristocrata não hesita em mostrar as suas ligações corn os
lucros de uma fábrica" (6a). Mais uma vez é necessário fazer uma
distinção. Quando Cícero terminava a sua longa passagem corn "de todas
as coisas de que se pode tirar proveito nenhuma é melhor que a agricul-
7 tura", a última coisa que ele tinha em mente era a agricultura de
subsistência. Na Inglaterra ainda se fala de um gentleman farmer
("agricultor gentleman"), mas nunca de um comerciante "gentleman" ou de
um industrial "gentleman" *. Mas enquanto hoje isto é uma sobrevivência
fossilizada na nossa linguagem, (porque a agricultura também é hoje um
empreendimento capitalista, durante a maior parte da história humana a
distinção era fundamental. Quem con-
63 Rougé, Commsrce p. 311.
64 Brunt, em Seager, Crisis p. 94.
65 Broughton, ibid. pp. 118, 129.
66 Tenney Frank, An Economic History of Rome (2." ed., Londres 1927) pp.
230-1. Os juristas debatiam se os jazigos de argila deviam ser incluídos
entre os instrumento, de uma propriedade e se podiam ser objectos de um
usufruto: Digesto 8.3.6; 33.7.25.1.
* Gentleman merchant e gentleman manufacturer.
76

fundir o carácter gentlemanly da agricultura corn um desinteresse nos


lucros ou na riqueza está fechando a porta à compreensão de uma grande
parte do passado. Nunca ninguém recomendou ^ais fervorosamente a
extorsão do último centavo do que o auto-denominado pregador das velhas
virtudes, do mós maiarum, Catão o Velho.
A título de verificação, debrucemo-nos agora sobre os centros comerciais
das províncias. Diz Rostovtzeff, escrevendo sobre Lugdunum (hoje Lyon),
uma aldeia gaulesa que, depois de uma colónia romana ter sido aí fundada
em 43 a.C., se tornou rapidamente uma das mais ricas e das maiores
cidades na Gália, graças à sua situação na confluência do Ródano e do
Saône e à sua conversão num importante centro administrativo: "Para
imaginar o brilhante desenvolvimento do comércio e da indústria na
Gália" no século II "basta ler as inscrições no 12.° e 13." volumes do
Compus" das inscrições latinas "e estudar a admirável colecção de
esculturas e baixos-relevos... As inscrições de Lyon, por exemplo,
gravadas quer em monumentos de pedra quer em vários artigos de uso comum
(instrumento, domestica), e particularmente as que mencionam as
diferentes associações de comércio, revelam a grande importância do
papel desempenhado pela cidade na vida económica da Gália e de todo o
Império Romano. Lyon não era apenas o grande centro distribuidor para o
comércio do trigo, linho, azeite e madeiras; era também um dos maiores
centros do Império para a manufactura e distribuição de grande parte dos
artigos consumidos pela Gália, Germânia e Bretanha" (67).
Pode ser excessivo, mas o que não pode é haver discussão sobre o volume
e importância do comércio que passava (por tais centros. Não é isto que
está em causa mas o status dos homens que dominavam e beneficiavam do
comércio e da actividade financeira corn ele relacionada. A.H.M. Jones
faz notar que embora houvesse realmente gente importante entre os
mercadores de Lyon, estes eram libertos e
67 Rostovtzeff, RE pp. 176-7. .-,
?', 77

estrangeiros (não só de outras cidades da Gália mas até de tão longe


como a Síria), nem um só dos quais se identificando como cidadão de Lyon
e muito menos como membro da aristocracia local, (para já não falar da
aristocracia imperial (6S). Uma análise semelhante foi feita acerca de
Aries (69) e do centro comercial de Magdalensberg, na província de
Noricum (70), recentemente escavado, e que eram, ambos, grandes "centros
distribuidores" na terminologia de Rostovtzeff. Havia, claro, excepções,
não só indivíduos excepcionais como cidades excepcionais, como Ostia, o
porto de Roma, Palmira, a cidade das caravanas, talvez Arezzo enquanto
manteve o monopólio da terra sigillata, mas penso não ser necessário
comentar de novo as argumentações que se baseiam nas excepções. Se as
fontes epigráficas têm sido objecto de análises suficientemente cuidadas
- neste domínio a investigação1 necessária ainda mal começou elas
confirmam aquilo que nos é dito tanto pelas fontes literárias como pelos
textos legais sobre o baixo siatus dos comerciantes e industriais
profissionais ao longo de toda a história romana.
Mesmo em comunidades antigas menos luxuosas e menos complexas que a Roma
na época de Cícero ou durante o Império ou mesmo a Atenas clássica - e a
maior parte das comunidades antigas eram menos luxuosas, menos
cornplexas e mais tradicionais - alguém tinha que importar alimentos,
metais, escravos e objectos de luxo, construir casas, templos e
estradas, e fabricar uma grande quantidade de bens. Se for verdade, como
creio ser indicado pelas nossas fontes, que uma grande parte dessas
actividades se encontrava confiada ou a homens de status baixo ou então
a homens socialmente mais respeitáveis mas politicamente marginais, como
os metecos ricos de Atenas, tem que haver uma explicação para isso.
68 "The Economic Life of the Towns of the Roman Empire", Recueils de Ia
Société Jean Bodin 7 (1955) 161-94, às pp. 182-3.
69 Ibid. pp. 183-4.
70 Broughton, em Seager, Crisis pp. 129-30.
78

Porque razão Atenas, que elaborou grande número de leis corn fortes
penalidades para assegurar o fornecimento de cereais importados, vitais
para a sua subsistência, não legislou sobre quem poderia ocupar-se do
comércio de cereais, grande parte do qual estava entregue a não-
atenienses? Porque é que os senadores romanos deixaram campo livre aos
equites para uma actividade tão lucrativa e politicamente importante
como a de colectar os impostos nas províncias (71) ? A resposta é que o
fizeram porque a elite dos cidadãos não estava preparada, em número
suficiente, para assegurar estes ramos da vida económica sem os quais
nem eles nem as suas comunidades podiam viver ao nível a que estavam
habituados. A elite possuía os recursos e o poder político e podia
também comandar um vasto pessoal. Faltava-lhe a vontade; quer dizer,
como grupo (quaisquer que tenham sido as reacções de uma minoria)
estavam inibidos por valores fundamentais. É decisivo notar que na
denúncia habitual dos libertos e metecos, desde Platão até Juvenal, o
tema invariável é moral e não económico C72). Eram condenados pelos seus
vícios e maus costumes e nunca como rivais que roubavam a homens
honestos um modo de ganhar a vida.
Dito de outro modo, um modelo de opções económicas, um modelo de
"investimentos", na antiguidade daria considerável peso a este factor de
statiis. Não digo que tenha sido o único factor ou que tenha tido o
mesmo peso para todos os membros de qualquer ordem ou grupo social
(status-grwp). Tampouco sei traduzir aquilo que disse numa equação
matemática. Em qualquer época que se considere, muito dependia da
capacidade de se obter riqueza suficiente a partir de fontes
respeitáveis e das pressões para gastar e consumir. Escolhi a Roma de
Cícero para uma análise especial
71 Cícero, Epístolas a Ático 1.17.9, é elucidativo.
72 Ver J. Peêírka, "A Note on Aristotle's Conception of Citizenship
and the Role of Foreigners in Fourth Century Athens", Sirene 6 (1967)
23-26, e a recolha completa, por Erxleben, "Aussenhandel Athens", da
documentação sobre Atenas no período clássico.
79

justamente porque este foi o período em que o modelo baseado no síaíws


parecia mais perto do colapso. Não se partiu, contudo, dobrou-se,
adaptou-se, alargando as possibilidades de opção nalgumas direcções mas
não em todas; mais, em direcções que decorrem logicamente dos próprios
valores que estavam a ser ameaçados e defendidos. E se o modelo
sobreviveu mesmo durante esse período extraordinário é sinal que noutros
períodos e regiões estava firmemente implantado. Trimalcião é
efectivamente um porta-voz perfeitamente qualificado.
80

in
AMOS E ESCRAVOS
Por muito paradoxal que possa parecer, nada cria mais complicações no
quadro do sistema de stattts da antiguidade que a instituição da
escravatura. Tudo parece muito simples: um escravo é propriedade,
sujeito às regras e aos processos da propriedade, no que respeita à
venda, aluguer, roubo, crescimento natural, etc.. O porqueiro Eumeu, o
escravo favorito de Ulisses, era propriedade; propriedade era também
Pasion, o gerente da maior empresa bancária de Atenas no século IV a.C.,
que cedo foi libertado e a quem acabou por ser concedida a honra da
cidadania ateniense; também o eram os encravos que trabalhavam nas
célebres minas de prata em Espanha; também Helicon, escravo do imperador
Calígula, responsabilizado por Filon (Embaixada a Gaio 166-72) pelas
dificuldades da comunidade judaica de Alexandria; e também Epicteto, o
filósofo estóico nascido cerca de 55 d.C., primitivamente escravo de um
dos secretários libertos de Nero. Isto dá que pensar, mas a verdade é
que também casas e terras, e toda a espécie de objectos que também são
propriedade, variam grandemente em qualidade. Os escravos fugiam e eram
espancados e marcados, mas também os animais o eram; se escravos e
animais causavam danos à propriedade alheia, os seus donos eram
responsáveis através daquilo a que a lei romana chamava "acção noxal".
Chegamos depois a duas qualidades de que o escravo como propriedade
tinha o exclusivo: primeiro, a mulher escrava
81
podia ter, e teve, filhos de homens livres; segundo, os escravos eram
humanos aos olhos dos deuses, pelo menos até ao ponto de o seu assassino
precisar de qualquer forma de purificação e de eles próprios estarem
sujeitos a actos rituais, como o baptismo.
l Este duplo aspecto do escravo, o ser ao mesmo tempo
i pessoa e propriedade, criava ambiguidades, muito bem exemplificadas no
livro de Buckland, The Roman Law of Slavery, publicado em 1908. Buckland
era um escritor austero, restringiu-se ao Império e à doutrina jurídica
em sentido restrito, e mesmo assim precisou de 735 páginas porque, como
disse no prefácio, "Não há problema, em qualquer ramo do direito, cuja
solução não possa ser afectada pelo facto de uma das partes ser um
escravo". A ambiguidade era agravada pela prática não invulgar de se
libertar os escravos, os quais, embora continuassem, como libertos, a
sofrer de certas incapacidades, tinham no entanto atravessado a grande
linha divisória, e cujos filhos, se nascidos posteriormente, eram
completamente livres como o era, por exemplo, o poeta Horácio. Em Roma,
embora não habitualmente na Grécia, os libertos de cidadãos-
proprietários tornavam-se automaticamente cidadãos pelo acto formal de
manumissão, a única situação em que este prémio podia ser conseguido por
um acto estritamente privado feito por um indivíduo privado.
Estas ambiguidades, contudo, por mais profundas que eu julgue que
fossem, não constituem todo o paradoxo que mencionei no princípio.
Ilustrá-las-ei um pouco mais corn duas instituições específicas. A
primeira é a dos hilotas em Esparta. Os hilotas eram un> grupo numeroso,
muito mais numeroso que os espartanos cujas propriedades da Lacónia e
Messénia cultivavam e a quem serviam em várias tarefas. Os gregos
referiam-se normalmente aos hilotas como "escravos", mas eles
diferenciam-se claramente dos escravos-propriedade (chattel slaves) de
uma cidade como Atenas. Não eram homens livres mas também não eram
propriedade de espartanos individuais. Não eram comprados nem vendidos,
não podiam ser libertados (excepto pelo Estado) e, o mais revelador de
tudo, auto-prepetuavam-se. Onde quer que se en-
82

contrem escravos-propriedade na antiguidade, o seu stock é continuamente


aumentado não só por nascimento mas também por importações contínuas do
exterior. Isto nunca acontece corn os hilotas, que devem portanto ter
tido as suas próprias famílias, de facto se não de jure, e os seus
próprios bens, transmitidos de geração em geração, sem dúvida os seus
cultos e em geral todas as instituições humanas normais excepto a
liberdade. Uma consequência é que também se revoltavam, ao contrário dos
escravos genuínos no mundo grego dos tempos pré-romanos. Outra é que em
tempos de severas necessidades militares eram incorporados no exército
espartano (como autênticos soldados corn armamento pesado e não
simplesmente como ordenanças e amanuenses) í1).
O meu segundo exemplo, a instituição do peculium, é mais conhecido e
desenvolveu-se mais em Roma do que na Grécia. Aquilo a que os romanos
chamavam peculium era propriedade (sob qualquer forma) confiada para uso
próprio, gestão e, dentro de certos limites, para disposição a alguém
que por lei não gozava do direito de propriedade, quer por ser escravo
quer por ser alguém sujeito à pátria potestas. Segundo a lei, um
peculium era uma concessão puramente voluntária feita pelo amo ou pater,
que o responsabilizava legalmente perante terceiros até à quantia do
peeulium e que ele podia retirar em qualquer altura. Na prática,
contudo, o possuidor tinha normalmente liberdade de gestão, e tratando-
se de um escravo podia esperar comprar a sua liberdade corn os lucros
obtidos, continuar o negócio como liberto, se quisesse, e transmiti-lo
aos seus herdeiros. Além disso, em Roma, na Itália, e em qualquer parte
do Império onde os romanos estiveram activos, uma grande parte das
actividades comerciais, financeiras e industriais urbanas foi assegurada
desta forma, a partir do séc. in a.C., por escravos e libertos. Ao
contrário dos feitores e administradores escravos,
l Ver Y. Garlan, "Lês esclaves grecs en temps de guerre", em Acíes du
Colloque d'histoire sociale, Univ. de Besançon 1970 (Paris 1972) pp. 29-
62.
83

aqueles que dispunham de um peculium trabalhavam independentemente, não


só para os seus donos mas também para eles mesmos. E se o negócio
tivesse uma qualquer escala acima do mínimo o seu peculium incluiria
provavelmente outros escravos, além de dinheiro, lojas e o resto do
equipamento (2). É então evidente que embora os criados domésticos, os .
escravos corn um peculium e os escravos que trabalhavam N^ acorrentados
numa grande propriedade pertencessem todos a uma única categoria
jurídica, o seu estatuto legal ocultava as diferenciações sociais e
económicas entre eles (3). E o próprio estatuto legal torna-se muito
opaco quando consideramos categorias como a dos hilotas. Os gregos, que
não dispunham de uma jurisprudência muito desenvolvida, nunca fizeram um
grande esforço para definir juridicamente a situação dos hilotas: "entre
o homem livre e os escravos" (Polux, Onomástico 3.83) foi o melhor que
conseguiram. E não é arriscado dizer-se que os romanos não o teriam
conseguido se tivessem tentado. Os legisladores romanos ocupavam-se do
mundo interno romano e as complexidades sociais
2 O peculium romano é analisado em todos os manuais de direito romano;
sobre Atenas, ver E. L. Kazakevich, "Eram Q t X&>pi£ oikoo-rsç1 escravos
?", VDI (1960) n.° 3, pp. 23-42, e "Agentes escravos em Atenas", ibid.
(1961) n.° 3, pp. 3-21 (ambos em russo); L. Gernet, "Aspects du droit
athénien de 1'esclavage", no seu Droit et société dans Ia Grèce ancienne
(reedit. Paris 1964), pp. 151-62, às pp. 159-64 (publicado
originalmente em Archives d'histoire du droit oriental 5 [1956] 159-87).
3 O significado pleno do peculium na avaliação da escravidão antiga
não tem sido manifestado correctamente - em grande parte, no meu
entender, devido a uma concentração excessiva nos seus aspectos
jurídicos. Uma excepção importante foi, em tempos, E. Ciccotti, II
tramonto delia schiavitii nel mondo antico (ed. revista, Udine 1940), II
parte, cap. 9, que no entanto tornou os seus próprios argumentos menos
convincentes ao relacionar funcionalmente o escravo corn um peculium
corn o trabalho assalariado. E. M. Shtaerman, "Escravos e libertos nas
lutas sociais no final da República", VDI (1962) n.° l, pp. 24-45 (em
russo), estabelece a distinção de maneira clara mas não retira muitas
das implicações por causa do seu enfoque restrito, aliás indicado pelo
título do seu artigo. Para uma analogia útil, ver H. Rosovsky, "The Serf
Entrepreneur in Rússia", Explorations in Enírepreneurial History 6
(1954) 207-33.
84

do mundo cada vez mais híbrido do Império desorientava-os; daqui a sua


incapacidade em classificar os chamados coloni ao Baixo Império (4) e o
seu recurso a monstruosidades classificatórias como líber homo bona fide
serviens e servus quasi cólonus. Nós somos os herdeiros do direito
romano, filtrado através da Idade Média, e encontramo-nos hipnotizados
pela ideia de que na parte inferior da escala social, na força de
trabalho, há três categorias possíveis e apenas três: escravos, servos e
assalariados livres. Assim os hilotas tornam-se servos (5) e os escravos
corn peoulium são analisados, em primeira instância, como escravos,
quando, economicamente e em termos da estrutura e funcionamento da
sociedade, eles eram sobretudo artífices autónomos, penhoristas,
prestamistas e comerciantes. Faziam o mesmo tipo de trabalho que os seus
contemporâneos livres, da mesma forma e nas mesmas condições, apesar da
diferença formal no estatuto legal. Nenhum membro de qualquer dos dois
grupos trababalhava sob as ordens de outrem, no sentido condenado por
Cícero e Aristóteles como escravizante e não livre, e aqui temos o
paradoxo inerente à escravatura antiga.
Historicamente falando, a instituição do trabalho assalariado é tardia e
sofisticada, A própria ideia de trabalho assalariado requer dois passos
conceptuais difíceis. Requer, primeiro, a abstracção do trabalho do
homem tanto da sua pessoa como do produto do seu trabalho. Quando se
compra
4 Ver e. g. Código Teodosiano 5.17.1: coloni que tentassem íugir "devem
ser postos a ferros como escravos, para que sejam compelidos por uma
punição servil a desempenhar as tarefas que lhes são apropriadas
enquanto homens livres"; o Código de Justiniano 11.53.1:
coloni e inquilini serão "escravos da terra, não pelos laços do imposto
mas pelo nome e título de coloni".
5 Pode não ser fácil definir um servo corn exactidão, mas o seu estatuto
apenas pode ser descrito em termos das suas relações pessoais corn o seu
senhor, regidas por regras costumeiras acerca de direitos e obrigações e
caracterizadas, em especial, pela plena autoridade jurídica (no sentido
estrito) deste último; ver e. g. Marc Bloch, em Cambridge Economic
History of Europe, vol. l, org. M. M. Postan (2.& ed. Cambridge 1966)
pp. 253-4. Os hilotas não podem ser caracterizados em tais termos.
85

um objecto a um artífice independente, seja ele homem li- H vre ou


escravo corn peculiwm, o que se compra não é o tra- B balho mas o
objecto, que ele produziu no seu próprio tempo B e nas suas próprias
condições de trabalho. Mas quando se B aluga trabalho, o que se compra
é uma abstracção, força B de trabalho, que é utilizada pelo comprador
num tempo e M em condições que são determinadas por ele, pelo comprador,
B e não pelo "proprietário" da força de trabalho (e o paga- • mento é
normalmente efectuado pelo comprador depois de JB consumida a força de
trabalho). Segundo, o sistema de tra- B balho assalariado requer a
instauração de um método para 9 medir o trabalho comprado, para fins de
pagamento, utili- • zando-se para isso vulgarmente uma segunda
abstracção, o B tempo de trabalho (6). • Não devemos subestimar a
importância, dum ponto de B vista social mais que intelectual, destes
dois passos concep- B tuais; mesmo os juristas romanos os achavam
difíceis (7). B A necessidade de mobilizar a força de trabalho para
tarefas que estão além da capacidade do indivíduo ou da família é muito
antiga e remonta já à pré-história. Quando qualquer sociedade de que
temos notícia atinge um estádio de acumulação suficiente de recursos e
poder em poucas mãos (rei, N , templo, tribo dominante ou
aristocracia) para que seja ne- )\ cessaria mais força de trabalho que
a que pode ser fornecida pelo grupo doméstico ou de parentesco para a
agricultura, minas, obras públicas ou fabricação de armas, essa
força de trabalho era obtida, não por aluguer, mas pela força, quer
das armas quer da lei e dos costumes. Essa força de trabalho
involuntária não era, além disso, normalmente for-
6 A história da relação entre o regime de trabalho e o tipo de
consciência da época é em si reveladora. Não conheço qualquer estudo a
propósito da antiguidade; para a história moderna, ver E. P. Thompson,
"Time, Work-Discipline, and Industrial Capitalism", Past & Present n.°
38 (1967) 56-97, corn extensa bibliografia.
7 Ver J. A. C. Thomas, "'Locatio' and 'operae'", Bollettino deli'
Istituto ai diritto romano 64 (1961) 231-47; J. Macqueron, Lê travail
dês hommes libres dans Vantiquité romaine ("Cours de Pandectes 1954-5"
policopiado, Aix-en-Provence) pp. 25-29.
86

mada por escravos mas por um outro tipo "intermédio" como os servos por
dívidas, os hilotas, os clientes na primeira fase de Roma ou o colonus
do Baixo Império. Ocasionalmente encontram-se escravos, especialmente
mulheres cativas, assim como se encontram ocasionalmente homens livres
assalariados, mas nem uns nem outros são um factor significativo na
produção tanto nos campos como nas cidades.
Ê difícil estabelecer um balanço adequado destes status inferiores. Numa
famosa passagem de Homero, Ulisses visita o Hades, encontra a sombra de
Aquiles e pergunta-lhe como está. A resposta é amarga. Mais do que ser
rei de todos os mortos, diz Aquiles, "preferia estar acorrentado
trabalhando como um thes para outrem, ao lado de um homem sem terra"
(Odisseia 11.489-91). Não um escravo, mas um thes sem terra, era a
condição humana mais baixa de que Aquiles se podia lembrar. E na Ilíada,
(21.441-52) o deus Poseidon lembra a Apoio o tempo em que os dois
trabalharam um ano inteiro como thetes ao serviço de Laomedon, rei de
Tróia, "por um salário combinado". Ao fim do ano foram despedidos sem
receber pagamento e sem maneira de obterem reparação (8). Os thetes eram
homens livres, o porqueiro Eumeu um escravo, mas este tinha um lugar
mais seguro no mundo graças à sua ligação a um oikos, a uma casa de
príncipes, uma ligação mais significativa, mais valiosa, que o ser
juridicamente livre, o não ser propriedade de ninguém. Outra nuance pode
ser vista na luta travada em Atenas no princípio do séc. "VT e em Roma
nos séculos V e IV a.C. para a abolição da servidão por dívidas. Em
ambas as comunidades um número considerável de cidadãos tinha caído em
real servidão por dívidas - Aristóteles diz mesmo, a respeito de Atenas,
que os "pobres, corn as suas mulheres e filhos, estavam escravizados aos
ricos" (Constituição de Atenas 2.2) - mas a sua bem sucedida luta nunca
foi considerada, nem por eles nem pelas autoridades antigas no assunto,
como uma revolta de escravos. Eram cida-
8 Cfr. a história lendária contada por Heródoto (8.37) sobre os
fundadores da dinastia real da Macedónia.
87

4-
dãos que reclamavam o seu lugar de direito na sua própria comunidade -
para eles próprios e não para os poucos escravos-propriedade genuínos
que, naquela altura, tinham sido trazidos de fora para Atenas ou Roma
(9).
Estes cidadãos-servos eram, antes da sua libertação, homens livres ou
não? Acho este problema desprovido de sentido e, pior, um problema que
pode induzir em erro, reflectindo a falsa tríade que mencionei antes e
que tenta repartir todo o trabalho pelas três categorias de escravo,
servo ou livre. Conceptualmente há dois extremos polares de "liberdade"
jurídica. Num polo está o escravo como propriedade e nada mais; no outro
polo o homem perfeitamente l livre, cujos actos são todos executados
livre e voluntariamente. Nunca nenhum deles existiu. Houve escravos que
tiveram a pouca sorte de ser tratados pelos seus donos como uma simples
propriedade, mas não conheço nenhuma sociedade em que a população
escrava no seu todo fosse considerada dessa maneira. Por outro lado
todos os homens, excepto Robinson Crusoe, têm de um modo ou de outro a
sua liberdade limitada em consequência de viverem em sociedade. A
liberdade absoluta é um sonho vão (e seria, de qualquer modo,
psicologicamente intolerável).
Entre estes dois extremos hipotéticos há todo um leque de posições,
algumas das quais já exemplifiquei, que muitas vezes coexistem dentro da
mesma sociedade. Uma pessoa possui ou não direitos, privilégios e
deveres em muitos aspectos: pode ser livre de reter o excedente do seu
trabalho depois de pagar as taxas, rendas e impostos, mas pode não ser
livre de escolher a natureza e o lugar do seu trabalho ou domicilio;
pode ser livre de escolher a sua ocupação mas não o seu local de
trabalho; pode ter certos direitos cívicos mas não -certos direitos
políticos; pode ter direitos políticos mas não direitos de propriedade
enquanto estiver, em termos romanos, in potestate; pode ter ou não o
direito (ou obrigação) do serviço militar, a expensas próprias ou
públicas,
9 Ver em geral o meu "Servitude pour dettes", Revue historique du.
droit français et étranger, 4.a série, 43 (1965) 159-84.
88

etc... A combinação destes direitos, ou da sua falta, determina o lugar


do homem no espectro, que não deve, claro, ser compreendido como um
continuum matemático, mas como um espectro mais metafórico e
descontínuo, corn falhas aqui, maior concentração acolá. E mesmo no
espectro de cores, que pode ser traduzido num continuum matemático, a
diferença entre as cores primárias é perfeitamente visível (10). Tudo
isto pode parecer demasiado abstracto e sofístico. Penso que não. No
capítulo anterior tentei mostrar como na parte superior da escala social
a existência do espectro de status e ordens (embora não tenha utilizado
a palavra "espectro") explicava muito do comportamento económico.
Sugiro, agora, que o mesmo instrumento de análise pode ajudar a
solucionar problemas quanto ao comportamento na parte inferior da escala
que de outra maneira não seriam analisáveis. Já indiquei que os hilotas
se revoltavam, ao contrário dos escravos-propriedade na Grécia,
precisamente por- ^ que os hilotas possuíam certos direitos e
privilégios e exigiam mais. Invariavelmente chega-se à conclusão de que
aquilo a que se chama convencionalmente "lutas de classe" na antiguidade
são conflitos entre grupos em pontos diferentes do espectro disputando a
distribuição de direitos e privilégios específicos. Quando os escravos
genuínos se revoltaram final- )^ mente, três vezes de forma massiva na
Itália e na Sicília no período 140-70 a.C., preocuparam-se corn eles
próprios e corn o seu status, mas não puseram em causa a escravatura
como instituição e não se propuseram abolir a escravatura í11). A ideia
do espectro permite-nos também situar o escravo corn pvculium em relação
quer corn o escravo trabalhador rural quer corn o artífice e o
comerciante independentes e livres.
10 Para uma breve análise teórica num contexto moderno, ver Ossowski,
Class Structure pp. 92-96. Esta é uma abordagem que desenvolvi
inicialmente em "Servile Statuses oí Ancient Greece", Revue
internationale dês droits de 1'antiquité, 3.a série, 7 (1960), e
"Slavery and Freedom".
11 Tampouco os intelectuais de origem servil produziram ideias anti-
esclavagistas, ou quaisquer ideias que os distinguissem dos intelectuais
nascidos livres; ver Shtaerman, "Escravos e libertos", pp. 34-5.
89

E ajuda-nos a imunizar-nos contra a injecção dos nossos valores morais


em questões economicamente mais estreitas, como a eficiência comparativa
do trabalho escravo e de outras formas de trabalho.
Na antiguidade a maioria dos homens livres, mesmo dos cidadãos livres,
trabalhavam para ganhar a vida. O próprio Cícero o admitia. Mas a força
de trabalho total incluía tam- j bem outro sector substancial,
homens que em maior ou me- l nor grau não eram livres, uma
categoria para a qual não l dispomos na nossa linguagem de um
termo conveniente uma | vez que se aceite que a escravatura
(i.e. escravatura-propriedade) não passa de uma sub-eategoria. Na ampla
categoria a que chamarei "trabalho dependente (ou involuntário)" incluo
todo aquele que trabalha para outrém não por ser membro da família,
como numa unidade doméstica camponesa, nem porque entrou num acordo
voluntário e contratual (por salário ou honorários), mas porque foi
obrigado a f azê-lo por alguma pré-condição, nascimento numa classe de
dependentes, dívida, captura ou qualquer outra situação que, por lei ou
costume, reduzia automaticamente nalguma medida a sua liberdade de
escolha e acção, normalmente durante um longo período ou durante toda a
vida.
Os historiadores têm-se concentrado tradicionalmente na sub-categoria
dos escravos-propriedade (como eu farei) e por razões compreensíveis.
Nos grandes períodos "clássicos", em Atenas e noutras cidades gregas a
partir do século VI / a.C. e em Roma e na Itália desde o início do
século in a.C. / V até ao século m d.C., a escravatura substitui
efectivamente outras formas de trabalho dependente e são estes os
antigos centros e períodos que, por muitas razões, atraem a nossa
atenção. Contudo, nem a ascenção nem o declínio da escravatura na
antiguidade podem ser compreendidos isoladamente. Por pouco que se
compreenda concretamente a situação, podemos ter a certeza de que nos
períodos arcaicos, tanto na história grega como na romana, a escravatura
tinha pouca importância, sendo as relações de clientela, a servidão por
dívidas e afins as principais formas de trabalho dependente. Além disso,
neste aspecto, Esparta não era de forma alguma
90

única na era clássica: algo de muito semelhante à instituição dos


hllotas existia em Creta e na Tessália, na Sicília grega durante um
certo tempo e em larga escala e durante muitos séculos entre as colónias
gregas na bacia do Danúbio e ao longo das costas dos Dardanelos e do Mar
Negro (12)
- o que, em termos quantitativos, representa uma parte muito
considerável da Hélada.
Também a servidão por dívidas, mesmo depois de ter sido abolida em
Atenas e Roma, estava mais difundida do que julgamos, formalmente em
muitas áreas í13), informalmente onde menos esperaríamos encontrá-la, na
própria Itália. O Direito Romano decretava categoricamente que os
rendeiros rurais contratuais eram livres de partir no fim do
arrendamento, que normalmente era de cinco anos (Código
4.65.11). E assim acontecia, corn a condição de não terem as rendas em
atraso. Já em 1885 Fustel de Coulanges sugeria que os rendeiros corn
quem L. Domitius Ahenobarbus equipou, a título particular, uma frota
(juntamente corn os seus escravos e libertos) não parecem ter sido tão
livres como isso (14), e mais adiante assinalava que os rendeiros -corn
rendas atrasadas de quem Plínio o Jovem se queixava, numa carta
frequentemente citada, ainda trabalhavam nas suas propriedades depois de
expirado o contrato, e que portanto se deviam relacionar corn o nexus
indefinido de Columela e os obaerati de Varrão, que eram
indubitavelmente servos (1S).
12 D. M. Pippidi, "Lê problème de Ia main-d'oeuvre agricole dans
lês colonies grecques de Ia Mer Noire", em Problèmes de Ia ferre en
Grèce ancienne, org. Finley (Paris e Haia 1973) cap. 3 (reeditado no seu
Scyíhian Miners [Bucarest e Amsterdão 1975] cap. 5), é decisivo quanto a
este último ponto.
13 Ver o meu "Servitude pour deites"; Frederiksen, "Caesar", p.
129; W. L. Westermann, "Enslaved Persons Who Are Free",
American Journal of Philologg 59 (1938) 1-30, às pp. 9-18.
14 César, Guerra Civil 1.34.2; cfr. 1.56.3.
15 N. D. Fustel de Coulanges, "Lê colonat romain", no seu Re~ cherches
sur quelgues problèmes d'histoire (Paris 1885) pp. 15-24. As
referências às fontes são Plínio, Epístolas 9.37; Columela, De ré
rústica
1.3.12; Varrão, De ré rústica 1.17.2; cfr. Salústio, Catilina 33.1; cfr.
91

A argumentação de Fustel teve pouco impacto porque os historiadores têm


estado demasiado obcecados corn os malefícios da escravatura para
poderem apreciar os malefícios do arrendamento a curto prazo sob a
terrível lei romana da dívida. Mas não é por ter sido desprezada que a
sua argumentação se torna menos válida (16).
Um dos estímulos para a escravatura-propriedade proveio do aumento da
produção urbana, para a qual as formas tradicionais de trabalho
dependente não eram apropriadas. No campo a escravatura penetrou
significativamente em toda a parte onde a instituição hilota e estatutos
de trabalho semelhantes não conseguiram por qualquer razão sobreviver em
escala suficiente para satisfazer as necessidades dos proprietários
fundiários (por isso a eseravatura-propredade não se desenvolveu em
Esparta, por exemplo). Quer dizer, na ausência de um mercado de trabalho
livre, importava-se uma força de trabalho escrava - porque os escravos
são sempre, em primeira análise, forasteiros - somente quando a força
interna existente se tornava insuficiente, como depois das reformas de
Sólon em Atenas. Esta correlação era também importante para o
desenvolvimento quando Alexandre e os seus sucessores, e posteriormente
os romanos, conquistaram grandes porções do Próximo Oriente antigo. Aí
encontraram um campesinato independente coexistindo corn uma vasta força
. de trabalho dependente, numa percentagem que não pode- JS^ mós sequer
imaginar, e seguiram o esquema, óbvio para conquistadores que tinham
vindo explorar e tirar proveito, de conservar o sistema fundiário que
encontraram, fazendo apenas alterações de pormenor quando necessário,
estabelecendo, por exemplo, cidades gregas, cujo solo estava
tradicional-
o meu "Private Farm Tenancy in Roman Italy before Diocletian", em
Finley, Roman Property, cap. 6.
16 Heitland, Agrícola p. 321, nota l, refere os comentários de Fustel
mas não reconhece as implicações; Sherwin-White, Pliny, não lhes faz
qualquer referência no seu comentário. Eu próprio me esqueci de Fustel
quando escrevi "Servitude pour dettes"; agora escreveria a p. 174 e a
nota 77 corn outra ênfase. , ' ,
92

mente isento do controle dos reis ou dos templos (17). Porque haveriam
de fazer de outro modo? Para quê tentar con- N/ verter camponeses já
dependentes, corn uma tradição de sé- / ^ culos de aceitação do seu
estatuto, num tipo diferente de trabalhador dependente, ou para quê
afastar esses camponeses e importar uma fonte alternativa de trabalho
para os substituir? Esta pergunta retórica não precisa de resposta. A
consequência foi que na Ãsia Menor, Síria e Egipto a escravatura nunca
se tornou um factor importante na agricultura. E as conquistas
ocidentais de Roma, cuja base pré-romana era diferente, tiveram um outro
tipo ainda de desenvolvimento (18).
Se pusermos de lado, de momento, as questões da ascensão e declínio da
escravatura e nos concentrarmos nos grandes períodos "clássicos" na
Grécia e na Itália, deparamos então corn as primeiras genuínas
sociedades de escravos na história, circundadas por (ou inseridas em)
sociedades que
17 É preciso reinvestigar em profundidade o problema da mão-de-obra nos
campos do Oriente helenístico e romano. A bibliografia disponível está
cheia de irrelevâncias, terminologia e conceitos vagos, e afirmações
"quantitativas" sem fundamento (p. ex. a suposta preponderância de
camponeses livres e independentes). A bibliografia completa
encontra-se em P. Briant, "Remarques sur 'laoi' et esclaves ruraux en
Asie mineure hellenistique", em Actes du Colloque 1971 sur
1'esdavage (Besançon) (Paris 1973) pp. 93-133. Cfr. H. Kreissig, "Boden
und Abhángigkeit im Orient in der hellenistischen Epoche", Jahrbuch fiír
Wirtschaftsgeschichte (1975) II 101-16; "Hellenistische
Grundbesitzverhàltnisse im ostrõmischen Kleinasien", ibid. (1967) I 200-
6; Liebeschuetz, Antioch pp. 61-73. A situação excepcional na Judeia
depois dos Macabeus pôs fim às formas de posse helenísticas, mas não à
servidão por dívidas, o que é significativo em sentido contrário:
Kreissig, "Die landwirtschafliche Situation in Palãstina vor
dem judaischen Krieg", Acta Antiqua 17 (1969) 223-54.
18 A situação quanto às relações de trabalho na Gália, Espanha e resto
da África do Norte continua aberta à discussão. A minha opinião é
que a escravatura na agricultura era muito mais frequente nas províncias
ocidentais do que admite a maioria dos escritores modernos; em parte,
porque não vejo qualquer outra maneira de explicar os enormes complexos
de prédios agrícolas da Gália imperial, sobre os quais mais se dirá no
capítulo seguinte.
93

continuavam a basear-se em outras formas de trabalho dependente. Nada


disto se pode traduzir em termos quantitativos simples. Não sabemos o
número de escravos na Grécia ou na Itália numa dada época, nem mesmo o
seu número numa comunidade específica ou, salvo raras excepções, na
posse de algum indivíduo. Estimativas de diferentes investigadores
acerca de Atenas no período clássico dão-nos números que vão desde
20.000 a 400.000, um e outro impossíveis mas indicativos do triste
estado das nossas informações (19). Revelam também uma abordagem do
problema obsessivamente tendenciosa, subjectiva e basicamente falsa. É
certo que deveríamos tentar descobrir os números tanto quanto as fontes
o permitem, mas um argumento a partir de simples proporções aritméticas
pode transformar-se num misticismo do número mais que em quantificação
sistemática. A baixa e impossível estimativa de 20.000 escravos em
Atenas no tempo de Demóstenes dá uma proporção de escravos por famíla de
cidadãos de pouco menos de um para um í20). Mesmo que estivesse certo, o
que é que provaria? Nos estados esclavagistas norte-americanos, em 1860,
a população de escravos era ligeiramente menor que um terço do total e
talvez três quartos dos brancos não possuíssem escravo algum, segundo os
números oficiais dos censos (21). Ninguém negará que os estados
esclavagistas norte-americanos eram sociedades esclavagistas: dada a
presença de um número suficiente de ~j% escravos acima de um mínimo
difícil de definir, o teste não
19 Sobre a cifra de 20.000, ver A. H. M. Jones, Athenian Democracy
(Oxford 1957) pp. 76-79; a cifra de 400.000, que se encontra em
Athenaeus VI 272c, ainda tem os seus defensores apesar da crítica
devastadora de W. L. Westermann, "Athenaeus and the Slaves of Athens",
Harvcird Studies in Classical Philology, vol. supl. (1941) 451-70,
reeditado cm Slavery in Classical Antiquity, org. Finley (reeditado,
Cambridge e Nova Iorque 1968) pp. 73-92.
20. A população escrava da Itália pode ter sido o dobro da população
masculina adulta de cidadãos à morte de César: Brunt, Manpower, cap. 10.
21 Ver K. M. Stampp, The Peculiar Institution: Slavery in the Aníe-
Bellum South (Nova Iorque 1956) pp. 29-30.
Q4

é de números mas de localização económica e social. Por muitas mulheres


escravas que um historiador consiga contar nos haréns do califado de
Bagdad, elas nada significarão contra o facto de a maior parte da
produção agrícola e industrial ser levada a cabo por homens livres.
É certo que "um mínimo suficiente" não é um conceito preciso, mas é
suficientemente born à luz da escravização contínua e em grande escala
das vítimas da guerra e da "pirataria" registadas ao longo da história
antiga; diz-se que só César foi responsável por um milhão durante as
suas campanhas na Gália entre os anos 58 e 51 a.C., o que não é
inacreditável (22), Xenofonte, escrevendo em meados do século IV a.C.,
transmite a crença popular de que meio século antes o general Nícias
possuía mil escravos que alugava a concessionários das minas de prata
atenienses, que outro homem possuía seiscentos e um terceiro trezentos
(Poroi 4.14-15). Consideram-se muitas vezes estes números como fantasia
f23) e eu não conheço maneira de "provar" que Xenofonte tem razão. Não
preciso de o fazer; basta Xenofonte considerar que os seus leitores
achariam estes números razoáveis e que baseasse neles uma proposta muito
elaborada; que Tucídides (7.27.5) achasse razoável a hipótese de 20.000
escravos terem fugido na década final da Guerra do Peloponeso, a maioria
dos quais operários qualificados; que as melhores estimativas modernas
apontem para um número de dezenas de milhar de escravos trabalhando
22 Plutarco, César 15.3; Apiano, Celtica 1.2; ver também os
dados nas tabelas de Pritchett, Military Practices, pp. 78-9, e em geral
P. Ducrey, Lê traiiement dês prisonniers de guerre dans Ia Grèce antique
(Paris 1968), esp. pp. 74-92, 131-9, 255-7; H. Volkmann, Die
Massenversklavungen der Einwohmr eroberten Stàdte in der hcllcnistisch-
ròmischen Ze.it [Akad. der Wissenschaíten und der Literatur, Ma^,
Abhandlungcn der geistes -und sozialwissenschafliche Klasse
(1961) n.1 3], o qual deve ser utilizado corn cautela: ver a minha
recensão em Gnomon 3'J (1967) 521-2.
23 Nomeadamente por Westermann, "Athenaeus". Sobre os Poro; de Xenoíonte
a obra indispensável é agora Ph. Gauthier, U n commentaire historique
dês Poroi de Xenophon (Genebra e Paris 1976).
Q5

nas minas no tempo de Xenofonte í24). Basta que o meteco Cephalos


empregasse cerca de 120 escravos na manufactura de escudos, um número
não sujeito a discussão í25), ou, voltando a Roma, que o prefeito da
cidade Lucius Pedanius Secundus, assassinado por um dos seus escravos no
reinado de Nero, tivesse 400 escravos só na sua casa da cidade (Tácito,
Anais 14.43). Não é surpreendente que as numerosas pedras tumulares do
povo de Roma desse período revelem uma preponderância de libertos (ex-
escravos) sobre os homens livres (x).
Por "localização" quero significar duas coisas interligadas, localização
do emprego (onde trabalhavam os escravos) e localização na estrutura
social (quais os estratos que possuíam escravos e dependiam do seu
trabalho), e é isso que vamos agora considerar. O ponto de partida é o
facto de se poderem encontrar escravos e homens livres em qualquer tipo
de emprego civil, embora as minas fossem quase monopólio dos escravos e
o serviço doméstico dos escravos e ex-escravos (libertos), e é talvez
digno de nota o facto de Cícero ter omitido ambas as actividades no seu
catálogo. As minas constituíram sempre uma ocupação excepcional,
reservada (como ainda hoje na África do Sul por exemplo) aos sectores
mais depauperados da população, escravos quando os há, homens livres
cuja liberdade é frágil e facilmente lesada, quando a escravatura já não
existe (2f7). Através da
24 S. Lauffer, Die Bergwerkssklaven von Laureion [Mainz Abhandlungen
(1955) n.° 15, (1956) n.° 11] II 904-12. Até 40.000 escravos eram
regularmente empregados nas minas de prata de Cartagena, na Espanha, no
começo do séc. II a. C., segundo Políbio (citado por Estrabão 3.2.10)-
25 Em termos rigorosos, os 120 eram propriedade dos íilhos de Cephalos,
Lísias e Polemarchos, metecos eles também, confiscados pelos
Trinta Tiranos em 404 a.C., e alguns, presumivelmente, eram escravos
domésticos e não fabricavam escudos: Lísias 12.19.
26 L. R. Taylor, "Freedom and Freeborn in the Epitaphs of
Imperial Rome", American Journal of Philology 82 (1961)
113-32.
27 Sobre as restrições à liberdade de mineiros de ouro livres na
Dácia, ver A. Berger, "A Labor Contract of A. D. 164", Classical
Philology 43 (1948) 231-242; cf. Macqueron, Travail pp. 202-26.
96

antiguidade os mineiros livres foram um elemento sem importância, tanto


que Xenofonte achou razoável propor ao estado ateniense o negócio de
comprar escravos para alugar aos concessionários das minas de prata e
sustentar todo o corpo de cidadãos corn o rendimento daí derivado.
Quanto ao serviço doméstico, noto apenas que esta categoria incluía, nas
casas mais ricas, não somente cozinheiros, mordomos e criadas, mas
também amas, "pedagogos", fiandeiras e tecelões, guarda-livros,
administradores; na casa dos imperadores de Roma, os escalões inferiores
do funcionalismo imperial. A precisão que a análise requer é novamente
apontada por Cícero, quando chama inferiores e não liberais a um vasto
leque de empregos mas restringe a comparação corn os escravos aos que
trabalham por salário, ao trabalho assalariado. Encontravam-se homens
livres em todas as ocupações, mas habitualmente como trabalhadores
autónomos, quer como pequenos proprietários no campo quer como artífices
independentes, negociantes e prestamistas nas cidades. Esta é a primeira
distinção fundamental a fazer ao situar a escravatura na sociedade
antiga. As provas, por poucas que sejam, são de grande impacto. O
trabalho assalariado livre era casual e sazonal *. O seu lugar era
determinado pelos limites além dos quais seria absurdo comprar e manter
uma força escrava, corn grande relevo para as necessidades de curto
prazo das colheitas na agricultura. Do mesmo modo havia nas cidades
homens compelidos a lutar pela subsistência assalariada, fazendo
biscatos como carregadores, nas docas ou na construção, os homens a quem
os gregos chamavam ptochoi, mendigos, em contraste corn os "pobres" que
trabalhavam duramente C28). A ceifa e a estiva eram actividades
* Havia, é claro, a excepção, irrelevante no contexto presente, dos
remadores na marinha e dos soldados profissionais, onde os havia.
28 Em Atenas os trabalhadores eventuais compareciam diariamente num
lugar determinado perto da Agora: ver A. Fuks, "KoXouoí f-uooioç: Labour
Exchange in Classical Athens", Eranos 49 (1951)
171-3. Lembrar-me-ão o monumento fúnebre do séc. in de Maktar na Tunísia
central (Corpus Inscriptiounum Latinarum VIII 11824), recordando um
trabalhador agrícola que acabou os seus dias como
97

essenciais, é certo, mas os homens que as desempenhavam eram ou estas


figuras marginais ou camponeses e artífices independentes a quem a ideia
de poder juntar alguma coisa ao seu baixo rendimento regular satisfazia.
Em todos os casos em que temos notícia de um estabelecimento particular,
urbano ou rural, empregando regularmente os serviços de vários
trabalhadores cujo status é especificado, estes eram escravos. Não se
encontram, pura e simplesmente, empresas que empreguem homens livres,
mesmo numa base semi-permanente. O orador ateniense Demóstenes podia
portanto utilizar as palavras "escravos" e "oficina" (ergasterian) como
sinónimos perfeitos, quando em tribunal tentava recuperar a sua herança
aos seus tutores f29). Meio século mais tarde um proprietário ateniense
anónimo, que cobiçava um rapaz escravo, foi levado, segundo ele próprio
diz (Hipérides 5), pelo proprietário, um perfumista, a comprar o próprio
ergasterión, composto por três escravos (o rapaz, o irmão e o pai),
alguma mercadoria e um grande número de dívidas. Na Itália de Augusto as
florescentes olarias de Arezzo empregavam apenas escravos, sendo o maior
número conhecido numa só oficina de sessenta. Quando o centro de
manufactura dos chamados "produtos arretinos" se deslocou para a Gália,
os oleiros locais, quase todos de origem celta, eram artífices
independentes em pequenas empresas individuais, aparentemente sem muitos
escravos ou trabalhadores assalariados (30). No Baixo Império, finalmen-
J
senador local. Apresento os meus cumprimentos ao ilustre defunto, mas
até que sejam encontrados mais alguns epitáfios do género não me
deixarei convencer pela atenção dispensada a esta inscrição em análises
modernas, incluindo disparates não tão raros como a afirmação de que ela
"testemunha orgulhosamente as recompensas materiais e espirituais da
vida de labor e frugalidade idealizada nas Geórgicas de Virgílio"; G.
Steiner, "Farming", em The Muses at Work, org. C. Roebuck (Cambridge,
Mass., 1969) pp. 148-170, às pp. 169-60.
29 Demóstenes 27.19.26; 28.12. Para mais dados sobre a Grécia ver o meu
Lana and Credit pp. 66-68.
30 Não há desacordo quanto a Arezzo e Lesoux: ver H. Comfort e A.
Grenier, em Frank, Surveij V 188-94 e in 540-62, respectivamente;
Q8

te, quando a distinção entre escravos e outras formas de trabalho não


voluntário tinha diminuído quase até ao ponto de desaparecer, nas
fábricas e casas da moeda imperiais, as maiores empresas industriais do
tempo agora que o estado produzia directamente, entre outras coisas, os
uniformes e as armas de que os exércitos necessitavam, os operários eram
>. todos servis no sentido lato, e muitas vezes escravos no sentido
restrito, uma força de trabalho que tinha além de tudo o mais a vantagem
de se auto-reproduzir biologicamente (31). Se exceptuarmos este
desenvolvimento tardio sob uma completa autocracia, as obras públicas
revelam certos cambiantes que as diferenciam das empresas privadas. Na
medida em que exigiam habilidades especiais, por exemplo, nomeadamente
no caso dos templos de mármore, devem ser considerados três factores de
distorção: primeiro, o elemento religioso, que atraía o trabalho livre
de uma forma que a empresa privada não conseguia; segundo, a
oportunidade, reconhecida por alguns estados, de fornecer receitas
suplementares para os iseus eidadãos-artíf ices; terceiro, a falta
absoluta dos especialistas requeridos fora de alguns centros
mais recentemente, G. Pucci, "La produzione delia cerâmica aretina",
Dialoghi di archeologia l (1973) 255-93; F. Kiechle, Sklavenarbeit und
technische Fortschritt im romischen Reich (Wiesbaden 1969) pp. 67-99; em
geral, W. L. Westermann, "Industrial Slavery in Roman Italy", Journal of
Economic History 2 (1942) 149-63. O modelo em La Graufesenque parece ter
sido mais complexo, mas o material é demasiado alusivo para que se possa
ter a certeza. Ver, recentemente, R. Marichal em Comptes rendas de
l'Acad. dês Inscriptions (1971), 188-208. Mesmo se se revelar que havia
algumas empresas na antiguidade que utilizavam trabalho livre
assalariado, isto não alteraria o modelo testemunhado unanimemente pelas
íontes de que dispomos.
31 A. H. M. Jones, "The Gaste System in the Later Roman Empire", Sirene
8 (1970) 79-96, à p. 83. A melhor análise das fábricas imperiais
continua a ser a de A. W. Persson, Staat und Manufaktur im rõmischen
Reichs (Skriften... Vetenskaps-SocieMen Lund, n.° 3, 1923) pp. 68-81,
aparentemente desconhecido por N. Charbonnel, "La condition dês ouvriers
dans lês ateliers impêriaux au IVe et Ve siècles", Travaux et recherches
de Ia Faculte de Droit de Paris, Série "Sciences historiques", l (1964)
61-93.
99

atípicos como Atenas e Roma. Para este trabalho, portanto, parece não se
ter usado muito os escravos. Contudo, os mesmos factores de distorção
tornavam quase impossível que o trabalho fosse feito por empreiteiros em
larga escala. O trabalho era usualmente dividido em pequenas tarefas,
cada uma das quais era atribuída por um contrato separado e não
efectuada numa base assalariada (32). A distinção que os juristas
romanos acabaram por reconhecer entre os dois tipos de contrato de
aluguer, locatio conditctio aperzs e locatío conãwctio operarum,
exprimia uma distinção fundamental de status, a diferença entre
independência e dependência; entre o homem livre que, trabalhando embora
para ganhar a vida, trabalhava para clientes (privados ou públicos) e o
homem que trabalhava por um salário (33).
A beleza dos templos não deve desviar a nossa atenção do facto de a
maior parte das obras públicas - estradas, muros, ruas, aquedutos,
esgotos - requererem mais músculo
32 Os melhores dados gregos são talvez os fornecidos pelos registos do
templo de Delos, analisados por G. Glotz, "Lês salaires à Delos",
Journal dês savants 11 (1913) 206-15, 251-60; e P. H. Davis, "The Delos
Building Accounts", Bulletin de correspondance hellénique 61 (1937)
109-35. Ver também A. Burford, The Greek Temple Builders at
Epidauros (Liverpool 1969), esp. pp. 191-206: "The Economics
of Greek Temple Building", Proceedings of the Cambridge Philological
Society, n. s. 11 (1965) 21-34. Não há dados comparáveis, quanto ao
detalhe, para Roma. É preciso reconhecer algumas excepções, uma das
quais (Atenas) será analisada mais adiante neste capítulo.
33 Ver Crook, Law, pp. 191-8. No direito romano um homem livre que
enfrentasse feras na arena por dinheiro sofria infâmia, mas o mesmo não
acontecia ao que o fizesse por desporto: Digesto 3.1.1.6. É justamente
esta a distinção que tenho vindo a sublinhar numa outra esfera, e que é
frequentemente descurada por historiadores, como no seguinte trecho de
Frank, Survey V 235-6: "Que construtores livres continuavam a ganhar a
sua vida na capital é demonstrado pelo invulgarmente grande e activo
collegium fabrum tignuariorum... De um estudo das listas de membros
parece provável que estes 1000-1500 fabri livres ou libertos eram
carpinteiros bem sucedidos que controlavam os serviços de numerosos
escravos... É provável, portanto, que nas obras públicas se tenha
empregado um grande número de trabalhadores livres" (sublinhado meu).
100

aue habilidade. Mas, neste ponto, as nossas fontes, corn o seu


desinteresse por estes assuntos, esfumam-se e a arqueologia não pode
ajudar. Este é o tipo de trabalho que podia ser igualmente imposto a
soldados e a cativos. Penso, no entanto, que um par de textos romanos da
época fornece uma pista. Conta-se (Suetónio, Vespasiano 18) que alguém
se dirigiu ao imperador Vespasiano corn um novo aparelho para
transportar pesadas colunas para o Capitólio corn pouca despesa, O
imperador recompensou o inventor pelo seu génio mas recusou-se a
utilizar o invento, "exclamando; Como me seria possível alimentar a
população?". A história tem muita graça mas o facto é que o grande e
contínuo contributo imperial para a população romana se resumia ao pão e
ao circo, e não ao fornecimento de trabalho (34). Vespasiano refere-se
ao tipo de trabalho ocasional que já mencionei; transportar colunas para
o Capitólio dificilmente poderia fornecer emprego permanente a grande
número de pessoas, ao contrário da manutenção do sistema de
abastecimento de água, para o qual havia um pessoal permanente de
setecentos escravos (incluindo os "arquitectos") (35).
"ô Sabemos isto por um livro escrito por Sexto Júlio
^* Frontino, que foi nomeado curator aquarum pelo imperador
fc
34 "Panem et circenses era a fórmula... na qual confiavam para evitar
que a população subordinada imaginasse remédios vãos para a sua própria
situação difícil"; T. Veblen, Essays in Our Changing Order
(reedit. Nova Iorque 1954) p. 450. Ele acrescentou, caracteristicamente:
"na questão de circenses... houve mudança e melhoria nestes séculos
intervenientes...; o cinema do século vinte é uma iniciativa comercial
em si mesma... já que é o homem vulgar que é libertado de pensamentos e
preocupações, é apenas razoável que seja o homem vulgar a pagar o
preço." A demonstração por J. P. V. D. Balsdon de que a plebe de
Roma não podia ter "passado a maior parte do seu tempo nas corridas, no
teatro e nos espectáculos gladiatoriais" não vem ao caso: "Panem
et circenses", em Hommages à Mareei Renard, vol. 2 (Bruxelas 1969) pp.
57-60. / |
35 Frontino, Sobre os aquedutos da cidade de Roma 96-118. Sobre ,(Y
o papel importante dos escravos na construção em geral, os poucos rt V^
dados encontrar-se-ão em H. J. Loane, Indusíry and Commerce of
thef'^j^Y'.l City of Rome (50 B.C.-200 A.D.) (Baltimore 1938) pp. 79-86.
' " / .*)
^'f>
' 101 '-'/^
5~f�E7

Nerva em 97 d.C.. Frontino era um senador distinto, tendo sido praetar


urbano, cônsul suffectus e governador da Bretanha muito antes de ter
tomado a seu cargo o abastecimento de água a Roma. O contraste entre a
sua situação e a dos escravos "arquitectos" que eram os directores
técnicos do sistema mostra algo de fundamental. A administração política
era uma coisa, a gestão era outra; e a gestão ao longo do pé- /•" ríodo
clássico, romana ou grega, urbana ou rural, era domínio de escravos e
libertos, pelo menos em todos os grandes estabelecimentos, aqueles nos
quais o proprietário não tinha um papel activo. Que homens da mais alta
posição não estavam dispostos a, e na realidade não podiam, dedicar-se à
gestão das suas propriedades e outros negócios é evidente - o seu estilo
de vida impossibilitava-o, e duplamente para os grandes proprietários
fundiários, habitantes da cidade que visitavam as suas terras de tempos
a tempos. Esta ideia aparece em toda a parte, quer no Oikonomikos de
Xenofonte, quer no manual de Catão, quer nas cartas de Plínio.
Mesmo a administração pública era problemática abaixo dos escalões
superiores. Há um texto revelador da segunda metade do séc. II, a
Apologia de Luciano, um sírio-grego que se tinha tornado um retórico
distinto e um cultor de belas-letras mas que, no fim da sua vida,
aceitou um cargo no serviço imperial. Tinha um dia escrito um ensaio em
que atacava duramente a "mentalidade escrava" dos homens de letras, que
aceitavam lugares por um salário nas casas de patronos ricos. Não
estaria ele agora fazendo o mesmo, pergunta-se a si próprio? É verdade,
replica, que eles e eu recebemos um salário e trabalhamos "sob o poder
de outro", mas enquanto a "escravidão deles é manifesta e pouco difere
da dos escravos comprados ou criados" - acho os ecos de Aristóteles e
Cícero irresistíveis mesmo que não sejam propositados - a minha posição
não se lhes pode comparar porque eu sirvo o interesse público (36). Um
jeu d'esprit, sem
y,1'
C "i \ 36 Luciano, Apologia 10; ver D. Nõrr, "Zur sozialen und
rechtli-
l l/Y, chen Bewertung der freien Arbeit in Rom", ZSS 82 (1965) 67-
105, /\ ' às pp. 75-6.
<*•'*-• " ;/l'\Hr 102

dúvida, mas nem por isso menos significativo: hoje em dia, não seria
desta maneira que alguém se desculparia por ter aceite um posto
governamental de importância secundária.
Na economia urbana, os administradores-escravos estavam estreitamente
ligados aos escravos corn peculium e portanto, particularmente na
sociedade romana, aos libertos, visto serem estes, e não os escravos
agrícolas, os que mais vulgarmente obtinham a sua alforria. Temos pois
de nos perguntar porque é que um papel tão importante na economia - ou,
para falar em termos antigos mais precisos, na aquisição de riqueza -
era confiado aos escravos e libertos. Uma sugestão é encontrar a
resposta na "eficiência relativamente maior e no adestramento mais fácil
dos não livres e dos recentemente libertos" (37). Talvez, mas há um
elemento de circularidade neste raciocínio. Se os homens livres não
estavam disponíveis para serem treinados, o que significa ao fim e ao
cabo não estarem dispostos a entrar ao serviço de outrém, então dever-
se-ia acentuar isso mesmo para se evitar a sugestão de que havia uma
opção genuína entre dois tipos de pessoal de gestão (3S).
Há uma peculiaridade inerente ao estatuto de liberto que é a sua
evanescência, restringida pela lei a uma só geração. O filho de um
liberto seria escravo se nascido antes da sua alforria (a menos que
também viesse a obtê-la), mas era inteiramente livre se nascido
posteriormente. Era pois nos seus filhos que um liberto depositava as
suas esperanças de conseguir as vantagens sociais e políticas de riqueza
que a lei lhe recusava pessoalmente, o serviço público em particular.
Uma cuidada análise de epitáfios da Itália imperial feita há cerca de
cinquenta anos (39) revelou que os mem-
37 Westermann, "Industrial SIavery", p. 158.
38 E.g. A. M. Duff, Freedmen in the Early Roman Empire
(reedit. Cambridge 1958) p. 11: uma "luta desigual contra orientais
mais astutos".
39 M. L. Gordon, "The Freedman's Son in Municipal Life", JRS 21 (1931)
65-77, baseado em mais de 1000 textos; ver também P. Garnsey,
"Descendants of Freedmen in Local Politics: Some Criteria", em The
103

bros dos senados municipais eram, numa proporção elevada, filhos de


libertos: essa proporção era maior numa cidade como Õstia, onde é
avaliada em 33% ou mais, menor nos distritos rurais da Gália Cisalpina,
onde orça os 12%. Estes números foram contestados como demasiado altos
por serem vagos os testes do autor para determinar quem era ou não era
filho de liberto. A crítica das estatísticas é correcta, mas desfocada.
Ninguém afirma que um número enorme de filhos de libertos se tornaram
aristocratas locais ou que os senados municipais estavam a ser dominados
por tais homens ou que estes constituíam uma nova "classe" na sociedade
romana. Mesmo reduzindo a percentagem a metade não se invalidaria a
conclusão de que um número significativo de libertos tinha conseguido
atingir através dos seus filhos uma alta posição social e política. O
imperador Cláudio não estava a fazer um gesto sem sentido quando em 41
d.C. ordenou aos alexandrinos ique excluíssem do efebato, o corpo de
jovens gregos da classe alta, "os nascidos de escravos" C40). Nem Marco
Aurélio, que cerca do ano 175 ordenou a Atenas que afastasse do conselho
elitista do Areópago quem não fosse livre há três gerações, permitindo
no entanto a presença de filhos de libertos entre os membros do Conselho
dos Quinhentos í41). Na própria Roma, segundo Tácito (Anais 13.27),
argumentava-se na época de Nero que a maioria dos equestres e muitos
senadores eram descendentes de escravos; uma hipérbole tendenciosa, sem
dúvida, mas um ponto de vista que não pode ser posto simplesmente de
parte.
O êxito atingia-se pelo método normal de um derramamento extensivo de
fundos à comunidade e seus cidadãos e a
Ancient Historiem and His Materials, org. B. Levick (Londres 1975) pp.
167-80.
40 Linhas 56-7 de uma carta de Cláudio, inicialmente publicada por H. I.
Bell, Jews and Christians in Egypt (1924), e mais recentemente no Corpus
Papyrorum Judaicarum, org. V. A. Tcherikower e A. Fuks, vol. 2
(Cambridge, Mass., 1960) n." 153.
41 Linhas 59-60 e 99-101, respectivamente, de uma longa inscrição grega
publicada por J. H. Oliver, Marcas Aurelius: Aspects of Civic and
Cultural Policy in the East (Hesperia, Supl. 13, 1970).
104

explicação fácil é que estas fortunas eram fruto do comércio, da


manufactura e dos empréstimos. Temos, no entanto, que nos debruçar um
momento sobre o facto de que entre estes libertos bem sucedidos havia
uma grande concentração de homens provindos do funcionalismo municipal e
imperial. Além disto fica em aberto a questão de saber que proporção,
quer dos libertos mais ricos, como Trimalcião, quer dos seus filhos
agora membros da classe superior, encaminhou as suas fortunas para o
destino seguro da compra de terras. É provavelmente impossível encontrar
uma resposta convincente, mas há achegas ocasionais, como o facto de
cerca de metade das maiores quintas (e vinhas) nos arredores de Pompeia,
que empregavam dezenas de escravos (provado entre outras coisas pelas
correntes encontradas nas escavações), serem propriedade de libertos
(42~). Mas qualquer que seja a resposta, quer dizer, qualquer que seja a
percentagem de famílias que continuavam a exercer uma actividade
económica urbana, a conclusão importante é que a camada efémera que
geria os negócios dos magnates aristocratas nunca se poderia transformar
na burguesia de Rostovtzeff C43); não desempenharam o papel criador dos
administradores de propriedades, inspectores e legisladores da Europa
que, nas vésperas da Revolução Industrial, integraram "os proprietários
fundiários... no novo tecido económico da sociedade" í44). Nenhum
Trimalcião se poderia transformar no Stolz do Oblomov de Goncharov C45).
42 J. Day, "Agriculture in the Life of Pompeii", Yale Classical Stadies
3 (1932) 166-208, às pp. 178-9 (as suas estimativas de superfície
repousam sobre uma base demasiado insegura). Alguns textos
literários e epigráficos são reunidos por Shtaerman, "Escravos e
Libertos" pp. 26-7, e S. Treggiari, Roman Freedmen during the Late
Republic (Oxford 1969) pp. 106-10, mas nenhum deles tenta avaliar as
informações.
43 Ver Veyne, "Trimalcion", pp. 230-1, que lhes chama uma
"classe abortada".
44 J. H. Plumb, The Growth of Political Stability in England
1675-1725 (ed. Penguin, 1969), pp. 21-22.
45 Quem mais lembra Stolz é Zenão, administrador da grande
105

Temos de admitir que a situação grega é menos clara, não no que respeita
aos administradores-escravos, que se encontram perfeitamente
documentados, mas no que respeita aos libertos e seus descendentes. A
nossa dificuldade é simultaneamente técnica e real. Os libertos gregos
não se tornavam cidadãos mas sim metecos; a sua nomenclatura não
revelava o status de liberto, ao contrário de Roma; os gregos nunca
adoptaram o costume de resumir as suas carreiras nas pedras tumulares
(pelo menos não o fizeram até ao Império Romano). Por isso não podemos
dizer em que proporção eram libertos, ou seus descendentes, os metecos
que tanto se distinguiram na economia urbana, nem separá-los dos
imigrantes livres. Admitindo esta lacuna nos nossos conhecimentos, e
admitindo outras variações e alternâncias, julgo que se justifica
plenamente a generalização de que, em termos da sua "localização", os
escravos eram fundamentais para a \( economia antiga naquele período a
que chamei, à falta de / " um termo mais preciso, o "período clássico",
grego e romano. Eram fundamentais tanto no seu emprego (local de
trabalho) como na estrutura social (a confiança depositada neles e no
seu trabalho pelos estratos superiores, as classes dominantes) .
Resumindo, a Itália e a Grécia clássicas eram socie- ,. dades
esclavagistas no mesmo sentido lato dos estados do /^ sul da América.
Havia diferenças fundamentais, entre elas o facto - pelo menos tem-se a
firme impressão de que se trata de um facto - de a população que na
antiguidade possuía escravos ser proporcionalmente maior que os vinte e
cinco por cento dos estados do sul. Um poeta romano descreve o homem
pobre, aquele a quem nós chamaríamos um homem "sem vintém", como "aquele
que não tem nem escravos nem mealheiro" í46). Cerca de 400 a.C. um
ateniense apelou para o Conselho por ter sido cortado da lista dos bene-
propriedade de Apolónio sob Ptolomeu II, e é agora evidente que ele foi
um caso raro e, no fim, um fracasso; ver os artigos de J. Bingen e D. J.
Crawford em Problèmes de Ia lerre, org. Finley, caps. 11-12. •i-:
46 Gatulo 23.1; 24.5,8,10.
106

ficiários da assistência pública, os cidadãos fisicamente incapacitados


cuja propriedade valia menos de duzentos dracmas, o que correspondia ao
salário de cerca de duzentos dias. Na sua argumentação (Lísias 24.6) o
ateniense dizia não poder comprar ainda um escravo que o sustentasse (as
palavras efectivamente utilizadas são "que o substitua") mas que
esperava poder chegar à posição de poder comprá-lo. Cerca de oitocentos
anos mais tarde, Libânio, o mundialmente célebre retórico e professor,
apelou para o conselho de Antioquia pedindo um aumento do salário dos
seus professores, tão pobres e tão miseravelmente pagos que não podiam
sustentar mais do que dois ou três escravos cada um ("). Nesse tempo
mesmo os simples soldados em regimentos ordinários possuíam por vezes
ordenanças pessoais escravos (48).
Tal como noutras sociedades esclavagistas, podiam-se encontrar escravos
e homens livres trabalhando lado a lado. Encontraram-se fragmentos das
contas públicas para o último estádio da construção, no fim do século V
a.C., do templo da Acrópole de Atenas conhecido pelo nome de Erécteon
(49). Estão divididos em registos diários, porque neste caso o próprio
estado ateniense funcionava como empreiteiro. Dos oitenta e seis
trabalhadores cuja posição social é conhecida, vinte e quatro eram
cidadãos, quarenta e dois metecos e vinte escravos. Em vários casos um
proprietário trabalhava corn um ou mais dos seus escravos; o meteco
Símias, um pedreiro, trabalhava corn cinco escravos. Parece terem sido
todos pagos à mesma tarifa, cinco ou seis óbolos por dia, incluindo os
arquitectos, cuja única vantagem era poderem contar corn emprego
contínuo no projecto (50). Ê claro que Símias metia ao bolso o seu
salário e o dos seus escravos, mas isso não afecta o raciocínio.
47 Orações 31.11; ver Jones, LRE p. 851.
48 Ibid. p. 647.
49 Para os dados, ver J. H. Randall, Jr., "The Erechtheum
Workmen", American Journal of Archaelogy 57 (1953) 199-210.
50 A tarifa poderia resultar diferente para os trabalhadores
pagos à peça, se nós soubéssemos como calculá-la.
107

Os salários na antiguidade mantiveram^se estáveis e indiferenciados. Nós


podemos julgar que os homens livres estavam, assim, a sofrer a
concorrência dos escravos, quer quanto ao acesso ao trabalho quer quanto
ao nível da remuneração. Mas eles nunca o afirmaram: como já disse
atrás, as queixas sobre os escravos e a escravatura que nos foram
transmitidas são de ordem moral, e não económica. A única excepção
importante acaba por confirmá-lo: a expansão, na Itália nos finais da
República, das grandes propriedades trabalhadas por escravos provocou
sérios protestos - Tibério Graco trans- "Y formou o número de escravos
nos campos numa questão pública (51) --mas esses protestos eram a favor
dos pequenos proprietários desalojados, do campesinato, e não a favor do
trabalho livre agrícola ou urbano (52). Os desalojados queriam recuperar
as suas terras, não queriam trabalho nas grandes propriedades. O
problema dos escravos, em si, não lhes interessava, nem punham objeccões
ao trabalho escravo nas propriedades tradicionais das classes
superiores.
Nos começos da Revolução Industrial em Inglaterra, Arthur Young
escreveu: "Só um idiota é que não sabe que as classes inferiores devem
ser mantidas na pobreza ou nunca serão zelosas no seu trabalho" (5S).
Durante o período clássico, os greco-romanos pobres, os cidadãos pobres,
foram, em ~ vez disso, mantidos livres e disponíveis para o serviço
militar e naval (54). Houve ocasiões em que utilizaram a sua liberdade
para se revoltarem, quer para exigir direitos políticos mais amplos quer
para reivindicar o programa revolucionário permanente da antiguidade,
cancelamento das dívidas e redistribuição da terra, o slogan de um
campesinato, não de uma classe operária. Os veteranos pediam
constantemente a concessão de
51 O texto clássico é Aplano, Guerras Civis 1.9-11.
52 Ver Shtaerman, "Escravos e Libertos" pp. 25-6, 36, 41-3.
53 Bastem Toar (1771) IV 361, citado de R. H. Tawney, Religion and the
Rise of Capitalism (ed. Penguin, 1947) p. 224.
54 K. Hopkins, "Slavery in Classical Antiquity", em Gaste and ,
Race: Comparativa Approaches, org. A. de Reuck e J. Knight
(Lon- /\ dres 1967) pp. 166-77, às pp. 170-1.
108

terras após a desmobilização; as últimas investigações indicam que no


período extremamente activo de distribuição de lotes das guerras civis
no último século da República romana, só na Itália foi dada terra a um
quarto de milhão de famílias veteranas por Sila, César, os triúnviros e
Augusto (55). Chegavam a aceitar voluntariamente parcelas tão pequenas
que, mesmo corn isenção de impostos, só podiam levar à ruína; no século
II a.C. são referenciados lotes de menos de dois hectares; o decreto de
César de 59 a.C. concedia dez jugera (cerca de 2,5 hectares) a um
veterano (ou pobre) corn uma família de três filhos ou mais (5G), Ou
então agarravam-se à cidade e reclamavam cada vez mais pão e circo.
O que não se encontra em parte alguma é algo que possamos identificar
corn um programa trabalhista, algo relacionado corn salários, condições
de emprego ou concorrência dos escravos. Nas numerosas pequenas
associações mútuas, geralmente organizadas por ofício ou profissão, que
se multiplicavam como cogumelos nas cidades da antiguidade, sobretudo no
mundo helenístico e no Império Romano, a actividade colectiva limitava-
se a assuntos sociais, religiosos e de beneficência. Não eram, de forma
nenhuma, "grémios" criados para fomentar ou proteger os interesses
económicos dos seus membros, nem manifestavam quaisquer traços do
sistema hierárquico de aprendizes, companheiros e mestres que
caracterizou os grémios e as corporações medievais e do início dos
tempos modernos ("). Escravos e homens livres (principalmente
55 Brunt, Manpower cap. 19.
56 Sobre os loteamentos do século II, ver Lívio 35.40; 39.44,55;
40.29; 42.4. Sobre as informações complexas quanto à medida de César,
ver Brunt, Manpower pp. 312-15. Presumivelmente, os que recebiam
parcelas tão pequenas deveriam completar as suas colheitas através da
utilização de pastagens comuns ou do trabalho ocasional nas grandes
propriedades vizinhas; seja como for, há informações seguras sobre as
dimensões mínimas dessas parcelas, e as perspectivas pouco brilhantes
dos que as recebiam eram previsíveis.
57 A "Inscrição do Ceifeiro" referida na nota 28 tem o seu equivalente,
neste contexto, na repetida evocação de uma "greve dos
padeiros" supostamente registada numa inscrição fragmentária
de

a,rtífices livres e independentes) podiam coexistir como membros de uma


única sociedade precisamente devido à ausência de qualquer sensação de
concorrência.
Não havia em grego nem em latim uma palavra que exjprimisse a noção
abstracta de trabalho ou o conceito de trabalho como "uma função social
geral" (5S). A natureza e condições do trabalho na antiguidade excluíam
a possibilidade do aparecimento de tais ideias gerais, bem como da ideia
abstracta de classe trabalhadora. "Os homens nunca param de labutar e
penar durante o dia, de perecer durante a noite", diz Hesíodo (Os
Trabalhos e os Dias 176-8). Trata-se de uma declaração descritiva, da
enunciação de um facto, não de uma ideologia; da mesma maneira conclui-
se que é melhor labutar que perecer e melhor ainda, se possível,
recorrer ao trabalho escravo. Mas nem para todos era o mundo labuta e
pena, e aí estava uma dificuldade. A expulsão do paraíso englobava toda
a humanidade e por isso, relacionando embora o trabalho corn pecado e
punição, ela não degradava o trabalho enquanto tal. Um destino que é de
todos pode ser trágico, não pode ser vergonhoso. O pecado pode ser
perdoado, não a inferioridade moral
Éfeso, provavelmente do fim do século II, publicada por W. H. Buckler,
"Labour Disputes in the Province of Ásia", em Anatolian Studies
Presenteei to Sir William Ramsay (Manchester 1923) pp. 27-50, às pp. 29-
33, convenientemente reproduzida por T. R. S. Broughton em Frank, Survey
IV 847-8. Este texto isolado, incompleto e muito pouco claro não dá
qualquer indicação das razões para a "sedição" dos padeiros, e não
fornece qualquer base para que se presuma da existência de
reivindicações ou queixas económicas colectivas de natureza corporativa.
Os parágrafos de Rostovtzeff (RE pp. 178-9) sobre a Ásia Menor romana,
"onde os trabalhadores tinham deixado de ser servos mas não se tinham
tornado cidadãos das cidades", se envolviam em "autênticas greves
profissionais" e organizavam "tentativas genuínas de ré. volução social"
não saem do domínio da ficção.
58 Ver J.-P. Vernant, Mythe et pensée chez lês Grecs (Paris 1965) parte
IV; F. M. De Robertis, Lavoro e lavoratori nel mondo romano (Bari 1963)
pp. 9-14; cfr. as páginas iniciais de H. Altevogt, Labor Ímprobas
(Múnster 1952); B. Effe, "Labor impr.obus - ein Grundgedanke der
Georgica in der Sicht dês Manilius", Gymnasium 78 (1971)
393-9.
110

natural. A teoria de Aristóteles sobre a escravidão natural, no primeiro


livro da Política, representava uma posição extrema, mas aqueles que não
a aceitavam limitavam-se a voltar a doutrina ao contrário: os homens que
aceitavam empregos inferiores ou condições escravizantes de trabalho
eram inferiorizados! por ele. De qualquer forma não havia salvação
possível.
Pode-se objectar que tudo isto se baseia na opinião das classes
superiores e dos seus porta-vozes entre os intelectuais e não na opinião
de quem trabalhava e não tinha maneira de se fazer ouvir. Não era
totalmente assim. Faziam-se ouvir através dos seus cultos, por exemplo,
e é de notar que embora Hefaísto (o Vulcano dos romanos), o artífice
entre os deuses, tenha sido de certo modo o patrono dos ofícios e, em
especial, da metalurgia, ele era um deus inferior no Olimpo e era pouco
venerado, possuindo poucos templos na terra (59). Os cultos clássicos
mais "populares" eram os extáticos, particularmente o de Diónisos/Baco,
o deus da embriagues (em mais do que um sentido). Através de Diónisos
não se celebrava o trabalho, escapava-se dele. Os que trabalhavam
exprimiam também o seu ponto de vista através das suas reivindicações de
terra, já referidas, e através do facto de não se terem aliado aos
escravos naquelas raras ocasiões em que estes se revoltaram (60).
59 Ver Marie Delcourt, Héphaistos ou Ia légende du magicien
[Bibliothèque de Ia Fac. de philosophie et Mires, Liège, n." 146
(1957)]. A tentativa de H. Philipp, Tektonon Daidalos. Der bildende
Kunstler und sein Werk im vorplatonischen Schrifttum (Berlim 1968) cap.
3 para provar o contrário (sem qualquer referência a Delcourt) é
tendenciosa e pouco convincente. Será talvez necessário acrescentar que
o súbito aparecimento de moedas corn a efígie de Hefaísto na Ásia Menor
durante o período do Império Romano, sobretudo durante os anos
caóticos
235-70, deve ser relacionado corn a lenda de Aquiles e não corn cultos
locais de Hefaísto; ver F. Brommer, "Die kleinasiatischen
Miinzen mit Héphaistos", Chiron 2 (1972) 531-44.
60 Shtaerman, "Escravos e Libertos", toma uma posição clara a este
respeito, apesar do seu juízo positivo (pp. 31-3) dos "laços" que
uniam homens livres e escravos nos collegia. É pena que não saibamos
nada a respeito do caso invulgar da revolta de Aristónico na Ásia Menor
111

/
A habilidade era honrada e admirada, é certo, mas o brio profissional é
um fenómeno psicológico que não se deve confundir corn uma avaliação
positiva do trabalho enquanto tal. O própro Platão era um grande
admirador do trabalho artesanal e fez numerosas analogias positivas ao
artífice hábil; continuava, no entanto, a situar essa habilidade numa
posição muito baixa na sua hierarquia de valores. Os escravos revelavam
o mesmo orgulho, não através das suas palavras, que não possuímos, mas
através do seu próprio trabalho. Ninguém pode distinguir nas ruínas do
Erécteon os relevos gravados por Símias dos gravados pelos seus cinco
escravos. A terra, sigillata de Arezzo, feita por escravos, era de muito
melhor qualidade que os produtos dos oleiros livres de Lezoux.
A psicologia do escravo é complexa e, pelo menos quanto à antiguidade,
impenetrável. Uma análise correcta deveria considerar o desenraizamento
do escravo da sua pátria e dos seus parentes; as implicações do termo
ubíquo "rapaz" no tratamento de um escravo de qualquer idade; o impacto
nos hábitos sexuais, exemplificado pelas relações sexuais entre o jovem
Trimalcião, o seu dono e a sua amante, repetidas pelo velho Trimalcião
corn os seus escravos (G1); a predominância dos escravos rurais nas
grandes revoltas, enquanto os escravos urbanos por vezes não só se
mantinham neutros como lutavam ao lado dos seus amos (62); a
participação activa de
em 132 ou 131 a.C. para além do facto de que "ele rapidamente reuniu uma
multidão de pobres e escravos (douloi), os quais aliciou corn a promessa
de liberdade e aos quais chamou Heliopolitanos" (Estrabão
14.1.38); ver mais recentemente J. C. Dumont, "A propôs d'Aristonicos",
Eirene 5 (1966) e, em resumo, o meu "Utopianism Ancient and Modern", em
The Use and Abuse of History (Londres e Nova Iorque 1975) cap. 11. corn
o termo douloi Estrabão provavelmente referia trabalhadores dependentes
e não o escravo-mercadoria, mas neste contexto isto não é significativo.
O fenómeno tardio dos Bacaudae, analisado brevemente mais adiante neste
capítulo, não constitui uma excepção verdadeira.
61 Petrónio, Satyricon 69.3; 75.11, etc.; cfr. Veyne, "Trimalcion" pp.
218-9.
62 Por exemplo, em Morgantina na segunda revolta siciliana: Diodoro
36.3; ver o meu Ancient Sicily (Londres e Nova Iorque 1968) cap. 11.
112

escravos na defesa das cidades assediadas (63); e muitos ou-*( tros


factores cuja discussão nos levaria demasiado longe.
O rendimento qualitativo do trabalho escravo é o ponto de partida
essencial para uma consideração da sua eficiência e rentabilidade e,
consequentemente, das hipóteses à disposição dos que empregavam trabalho
na antiguidade. Trata-se de uma questão cuja análise tem sido
dificultada por dogmas e pseudo-problemas, a maior parte dos quais
provenientes de juízos morais. Há uma longa linha de escritores das mais
variadas cores políticas que asseguram ser o trabalho escravo ineficaz
pelo menos na agricultura, e em última análise não rentável (64). Esta
sugestão teria espantado muitíssimo os gregos e romanos proprietários de
escravos que, durante muitos séculos, não só estiveram convencidos de
que obtinham lucros consideráveis corn os seus escravos como também
gastaram prodigamente esses mesmos lucros. Muito teria admirado, também,
os plantadores do Brasil e do Mississipi, cujos investimentos rendiam
tanto ou mais que nas regiões do Novo Mundo onde a escravatura não era
praticada C55).
63 Ver Garlan, "Esclaves en guerre", pp. 45-8.
64 E. g. Max Weber, "Die soziale Grúnde dês Untergangs der antiken
Kultur", no seu Gesammelte Aufsatze zur Sozial una
Wirtsehaftsgeschichte (Tubingen 1924) pp. 289-311, às pp. 299-300;
Salvioli, Capitalisme pp. 250-3; E. M. Schtajerman, Die Krise der
Sklavenhalterordnung im Westen dês rõmischen Reiches, trad. do russo
por W. Seyfarth (Berlim 1964) pp. 34-5, 69 e outras.
65 Da extensa e crescente bibliografia, será suficiente referir
R. W. Fogel e S. L. Engerman, Time on the Cross (2 vols. Boston e
Toronto 1974), corn as críticas de H. G. Gutman, Slavery and the Numbers
Game (Univ. of Illinois Press 1975), e A Symposium on Time on the Cross,
org. G. M. Walton (Explorations in Economic History 12,
1975); E. D. Genovese, The Political Economy of Slavery (Nova Iorque
1965), parte II; a obra útil, apesar de fraca do ponto de vista
metodológico, de R. S. Starobin, Industrial Slavery in the Old South
(Nova Iorque 1970), esp. cap. 5; M. Moohr, "The Economic Impact of Slave
Emancipation in British Guiana, 1832-1852", EcHR, 2nd. ser. 25 (1972)
588-607, que conclui: "Se os fazendeiros e funcionários... tivessem tido
pleno êxito nas suas tentativas de manter sem terra os antigos escravos
da colónia, a emancipação teria resultado numa economia que teria sido
difícil de distinguir da que existira antes da emancipação." Deve
113

Afirma-se, seguidamente, como segunda "linha de defesa", que a


escravatura impedia o progresso tecnológico e o aumento da
produtividade, que mesmo o "colonato" servil dos fins do Império Romano,
precursor da servidão medieval, era mais eficiente, porque os coloni
(para não falar dos rendeiros livres) "se interessavam mais pelos
resultados do seu trabalho que os escravos" (66). Cá está o dogma outra
vez: só no séc. XIV a produção de trigo na Inglaterra e na França
atingiu as quatro sementes que parecem ter sido consideradas como o
rendimento-padrão nas propriedades cultivadas por escravos na Itália
antiga (6T); e podemos assinalar a existênj cia de progresso tecnológico
precisamente onde a escravatura mostrou a sua face mais opressiva e
brutal, nas minas espanholas e nos latifúndio, romanos (88).
Faltam-nos dados para calcular a rentabilidade da escravatura antiga,
análise de qualquer modo muito difícil, como revelaram as investigações
sobre o sul dos Estados Unidos;
também ser assinalado o estudo pioneiro de C. A. Yeo, "The Economics of
Roman and American Slavery", Finanzarchiv, n. F., 13 (1952) 445-85,
embora a análise do caso americano tenha sido ultrapassada e embora
partes do raciocínio não sejam correctas.
66 Schtajerman, Krise pp. 90-91.
67 O material medieval, que apesar de parco é muito coerente, foi
coligido por B. H. Slicher van Bath, Yield Ratios 810-1820 [A.A.G.
Bijdragen, n.° 10 (1963)]; cfr. o seu Agrarian History of Western
Europe, A. D. 500-1850 (Londres 1963) pp. 18-20 e a tabela às pp. 328-
33. Slicher van Bath não possui dados italianos anteriores ao século
XVIII, e isto complica uma comparação já em si difícil, atendendo à
natureza do material antigo e medieval. Além disso, o nível das
colheitas, isoladamente, não constitui um índice adequado da
produção agrícola; ver e.g. P. F. Brandon, "Cereal Yields on the Sussex
Estate of Battle Abbey during the Later Middle Ages", EcHR, 2nd.
ser. 25 (1972)
403-20. Mas é tudo o que possuímos para a antiguidade (e mesmo assim
insuficiente), exceptuando o Egipto ptolomaico e romano, que não vem ao
caso. Pelo menos, não conheço quaisquer dados que possam fundamentar a
opinião que contesto.
68 Ver o meu "Technical Innovation", p. 43. Sobre as assinaláveis
realizações técnicas (sem inovação) dos romanos nas minas
espanholas, ver P. R. Lewis e G. D. B. Jones, "Roman Gold-mining in
North-West Spain", JRS 60 (1970) 169-85. .,-••.
114

não temos meios de estabelecer a sua rentabilidade relativa na


antiguidade, comparada corn outros sistemas de trabalho *. Os antigos
também não poderiam ter feito o primeiro desses cálculos, mas o que eles
sabiam é que obtinham regularmente lucros satisfatórios. Quanto ao
segundo, o cálculo relativo, os antigos não podiam sequer imaginá-lo.
corn que alternativa realista comparar? Os plantadores e os industriais
do sul dos Estados Unidos podiam comparar a sua situação corn a dos seus
homólogos no norte. corn que se poderiam comparar gregos e romanos? Além
disso, uma vez feitos os cálculos, o Sul decidiu lutar contra o Norte
para manter a escravatura; este simples facto deveria acabar corn a
discussão que ainda hoje fascina os historiadores da antiguidade. O
crescimento económico, o progresso técnico, o aumento da eficiência não
são virtudes "naturais"; nem sempre foram possibilidades ou, mesmo,
desideratos, pelo menos não o foram para aqueles que controlavam os
meios de alcançá-los.
Os juízos morais e os juízos práticos estão muitas vezes em desacordo.
"Não há nenhuma necessidade intrínseca de que os sistemas sociais
imorais sejam economicamente ineficazes, e existe uma presunção muito
mais firme de que forneçam recompensas tangíveis e materiais à classe
dominante" (<i9). A literatura do Império Romano está cheia de dúvidas e
apreensões acerca da escravatura; o medo dos escravos, de se ser
assassinado por eles, de possíveis revoltas, é um tema recorrente (e
antigo). Mas esta literatura pode ser comparada, ponto por ponto, à do
sul dos Estados Unidos, e nenhuma destas duas sociedades chegou à
conclusão prática de que a escravatura deveria ser substituída por outra
forma de trabalho, ou simplesmente abolida (70).
* Como fazer, por exemplo, para incluir no cálculo as consequências do
lacto de os escravos estarem isentos da prestação de serviço militar?
69 A. Fishlow e R. W. Fogel, "Quantitativo Economic History: An ínterim
Evaluation", Journal of Economic History 31 (1971) 15-42, à p. 27.
70 Uma excelente colecção destes textos encontra-se em E. M. Shtaerman,
"A 'questão escrava' no Império Romano", VDI (1965)
115

E no entanto acabou por haver um "declínio" da escravatura antiga, o que


requer uma explicação. Temos que ser claros sobre a natureza do
problema. A escravatura antiga não foi abolida, como na América em 1865,
nem desapareceu, nem foi substituída por um sistema de trabalho
assalariado livre. A falta de estatísticas persegue-nos de novo, mas nos
fins da antiguidade ainda se encontravam escravos por toda a parte. Na
última metade do século IV os oficiais romanos que combatiam contra os
godos na Trácia estavam de tal modo ocupados a negociar escravos corn o
inimigo que negligenciavam as defesas imperiais (71). Na geração
seguinte, os imperadores, no meio de uma guerra contra o dirigente godo
Alarico, lutavam para impedir na Ilíria (Jugoslávia) a escravização de
camponeses que fugiam aos bárbaros, de cativos que haviam sido
resgatados, e mesmo de uma tribo bárbara conhecida pelo nome de cirianos
que tinha sido compelida a instalar-se dentro do Império (72). O bispo
Paládio não achou nada de extraordinário relatar (História Lausíaca 61)
que, nessa mesma altura, Melania a Jovem, uma nobre dama romana que
decidira renunciar aos seus bens terrenos para viver cristãmente,
concedeu a alforria a uma fracção dos seus escravos, em número de oito
mil.
Parece, no entanto, haver sérias indicações de que, nos séculos IV e V
da nossa era, a escravatura no seu sentido preciso tinha perdido o seu
lugar central mesmo nas velhas áreas clássicas; nas cidades recuou em
favor do trabalho livre (na sua maior parte independente), no campo em
favor de camponeses dependentes chamados coloni (73). Que se passou e
por-
n.° l, pp. 62-81 (em russo). Em determinada altura (pág. 66) ela parece
dizer que o receio de revoltas colocava sérios problemas económicos, mas
é levada pelo seu material a abandonar esta ideia no resto do artigo.
71 Amiano 31.4-6; ver E. A. Thompson, The Visigoths in the Time
of Ulfila (Oxford 1966) pp. 39-42.
72 Código Teodosiano 10.10.25; 5.7.2; 5.6.3, respectivamente.
73 Colonas inicialmente queria dizer "agricultor", "rústico",
e depois também "rendeiro" (íenant), mas limitar-me-ei ao sentido tardio
de "camponês dependente". Continuavam a existir camponeses livres
116

quê? Se, como já argumentei, nem a eficiência e a produtividade nem


economias de escala eram factores operativos, o que teria levado as
classes superiores, especialmente os grandes proprietários fundiários, a
substituir os escravos por camponeses dependentes? Dá-se, por vezes, uma
explicação simples em termos de custos: Roma tinha que pagar o preço da
sua expansão bem sucedida; quanto mais território era incorpo- -^y rado
no Império mais tribos e nações eram protegidas contra f\ a
escravização; as conquistas romanas no Oriente atiraram centenas de
milhares de homens, mulheres e crianças para os mercados de escravos
enquanto a conquista esteve em curso; mas não depois da estabilização
definitiva, primeiro nos Balcãs, depois na Ásia Menor e na Síria; o
mesmo aconteceu na Gália corn César, etc.
Há um elemento de verdade evidente neste quadro. Tan- " to o fim das
capturas massivas como a distância cada vez p~ maior que os mercadores
de escravos tinham que percorrer para se abastecerem devem ter aumentado
o preço dos escravos, numa simples computação aritmética (embora não
disponhamos de estatísticas de preços). Mas há também falhas no
argumento para que ele possa constituir uma explicação suficiente. A
primeira é cronológica. A conquista romana sistemática estava concluída
em 14 d.C. e as supostas consequências da diminuição no abastecimento de
escravos só se fizeram sentir muito tempo depois. No sudoeste da Gália,
por exemplo, a diminuição do trabalho predominantemente escravo nas
grandes propriedades parece poder situar-se, segundo dados
arqueológicos, nos princípios do século in e não antes (74). Uma
proprietários de terras, mas não há maneira sequer de imaginar qual a
proporção que representavam. Desconfio que os historiadores tenham
tendência a exagerá-la: os camponeses a respeito dos quais Libânio fala
corn tanta veemência na sua 47.a oração são regularmente incluídos nessa
categoria (e.g. por Liebeschuetz, Antioch pp. 61-73), apesar do facto de
ele se lhes referir como, entre outras coisas, oiketai, douloi e somata,
sujeitos a um despotes.
74 Ver G. Fouet, La villa gallo-romaine de Montmaurin (Haute-Garonne)
[(Gallia, supp. 20 (1969)] pp. 43-46.
117
segunda falha é o pressuposto curioso de que os germanos, que não foram
incorporados no Império, eram pouco satisfatórios como escravos, ao
contrário de todos os outros bárbaros que durante muitos séculos se
tinham mostrado perfeitamente convenientes para gregos e romanos. As
fontes antigas não só não confirmam esta suposição como a desmentem, por
exemplo ao referirem as .actividades eacravizadoras durante as guerras
contra os godos.
A terceira falha é o pressuposto de que a redução do número de escravos
cativos e importados não pode ser cornpensada pela reprodução. Que uma
população escrava é sempre incapaz de se reproduzir é uma ideia falsa
que tem custado a desaparecer, apesar da simples prova fornecida pelos
estados do sul dos Estados Unidos onde a cessação virtualmente cornpleta
do comércio de escravos no princípio do século XIX foi compensada por
uma política de reprodução sistemática, actividade que também contribuiu
grandemente para a rentabilidade do investimento em escravos. Também na
antiguidade devem ter sido criados muitos escravos, mais do que podemos
imaginar, visto a investigação neste domínio ter sido bastante descurada
(75). Não foi movido por sentimentalismo que, em meados do século I, o
prático Columela isentou do trabalho uma mãe de três filhos e lhe
prometeu a liberdade se ela produzisse mais descendência (1.8.19).
Parece, no entanto, que apesar de todas as possibilidades hipotéticas
que existiam, aqueles que empregavam trabalho nos fins do Império não
fizeram os esforços necessários para a manutenção da força de trabalho
escrava. Se a explicação do seu comportamento não se pode encontrar na
exaustão do abastecimento de escravos ou em decisões sobre eficiência,
75 Ver W. L. "Westermann, The Slave Systems of Greek and Roman Antiquily
(Philadelphia 1955) pp. 32-3 (Grécia central após 150 a.C., quando o
comércio de escravos íoi em grande parte desviado para a Itália); I.
Biezunska-Malowist, "Lês esclaves nés dans Ia maison du maitre... en
Égypte romaine", Siudii Clasice 3 (1962) 147-162, e "La procréation dês
esclaves comme source de 1'esclavage" (corn M. Makrwist), em Mélanges
offerts à K. Michalowski (Varsóvia 1966) pp. 275-80.
118

produtividade e afins, temos, pois, que procurá-la numa transformação


estrutural da sociedade como um todo. A chave do problema não se
encontra nos escravos, mas antes nos pobres livres, e creio que os seus
elementos podem ser identificados. O ponto de partida é a tendência,
visível a partir do início do governo monárquico em Roma, ou seja, a
partir de Augusto, para um retorno a uma estrutura social mais
"arcaica", na qual as ordens se tornaram mais uma uma vez funcionalmente
significantes e em que um espectro mais amplo de situações de status
veio aos poucos substituir o agrupamento "clássico" dos homens em
escravos e homens livres. Houve, efectivamente, uma inversão do processo
que transformara o mundo arcaico no mundo clássico. Para esta inversão
contribuiu em grande parte a substituição da cidade-estado como forma de
governo, corn a sua intensa actividade política, por uma monarquia
burocrática e autoritária; e à medida que a grande maioria dos cidadãos
deixou de desempenhar um papel na selecção dos governantes e no exército
(que se tornara cada vez mais profissionalizado e era composto cada vez
mais por recrutas das províncias mais "atrasadas"), começou a perder
.terreno também em outros domínios.
Esta transformação é simbolizada pelo aparecimento de duas categorias no
interior da população, os honesiiores e os humiliores, que poderemos
traduzir (mal) por "classes superiores" e "classes inferiores",
formalizadas nos princípios do século II e sujeitas por lei a
tratamentos diferenciados nos tribunais criminais. Os humiliores, por
exemplo, eram passíveis de uma série de punições cruéis comparáveis às
dos escravos. Ser queimado vivo, escreveu o jurista Callistratus
(Digesto 48.19.28;lil), é o castigo habitual reservado aos escravos que
põem em perigo a segurança dos seus senhores, mas também se aplica aos
plebeus e a pessoas de baixa condição (humiles personae) *. Isto nunca
poderia ter sido dito no tempo em que os cidadãos votavam e lutavam nas
legiões
vL
* Outro jurista, Aemilius Macer, disse-o de outro modo: "A regra é que
os escravos sejam castigados à maneira dos humiliores" (Digesto
48.19.10 pr.)
119

/'
(7<3). Não é uma objecção válida dizer-se que a realidade da igualdade
dos cidadãos perante a lei esteve sempre aquém do ideal. Trata-se, neste
caso, de uma mudança na própria ideologia que reflecte (e contribui
para) uma depressão cumulativa no status das classes inferiores entre os
cidadãos livres. Um texto bem conhecido será suficiente para ilustrar o
que afirmo. Nos primeiros anos do reino de Cómodo, os rendeiros de um
domínio imperial no distrito de Cartago apelaram para o imperador contra
as exigências feitas pelos rendeiros principais (conductores), corn a
cobertura do procurador imperial que não só "durante muitos anos"
ignorara os seus pedidos de reparação mas até enviara soldados para
prender, espancar e torturar os contestatários, alguns dos quais eram
cidadãos romanos. O imperador deu ordens solenes aos seus funcionários
em África para que reintegrassem os camponeses nos seus direitos legais
(")• O documento diz-nos apenas isto, mas pode-se duvidar dos efeitos
reais que resultaram da ordem imperial, mesmo momentaneamente em
Cartago, quanto mais nos vastos domínios espalhados pelo Império. Em
quatro páginas eloquentes Rostovtzeff mostrou há muito tempo que a
regulamentação elaboradamente pormenorizada para os domínios africanos
era, por um lado, a única defesa dos rendeiros contra os conductores e
procuradores mas, por outro lado, entregava os camponeses nas mãos
desses mesmos funcionários (7S). Era sempre possível, em princípio,
apelar para o imperador, mas podemos imaginar que as possiblidades de um
grupo de camponeses humiliores eram mínimas mesmo que não tivéssemos
provas de que uma camada social mais poderosa, como eram os membros da
aristocracia nas cidades da provín-
76 Ver em geral P. Garnsey, Social Status and Legal Privilege in ihe
Roman Empire (Oxford 1970); sobre punições, o seu "Why Penal Laws
Became Harsher: the Roman Case". Natural Law Fórum 13 (1968) 141-62,
às pp. 147-52.
77 Corpus Inscriptionum Latinamm VIII 10570; o texto e uma tradução são
apresentados por R. M. Haywood, em Frank, Survey IV,
96-98.
78 Rostowzew, Kolonat pp. 370-73.
120

cia estavam também "mais afastados da protecção imperial do'que seria


desejável para a sua segurança" (79).
Em tal contexto, era um corolário inevitável que os moralistas chamassem
a atenção para a humanidade dos escravos. Argumenta-se, por vezes, que
os estóicos e os cristãos contribuíram assim para o declínio da
escravatura na antiguidade, apesar do facto incómodo de eles nunca terem
reclamado a sua abolição (80). A lógica do argumento não é fácil de
cornpreender. Há, de facto, pouca discussão da escravatura nas obras dos
estóicos romanos da era imperial que chegaram até nós - antologias de
passagens relevantes podem induzir em erro acerca deste ponto. Elas
acentuam a obrigação imoral do senhor, que para seu próprio bem deveria
comportar-se comedidamente, pelo menos tanto quanto a humanidade do
escravo. Também se exige deste último que se comporte corn propriedade
e, no final de contas, que aceite a sua condição ou que pague o preço da
violência, da desonestidade e da rebelião. Pessoas isoladas foram, sem
dúvida, influenciadas por tais pontos de vista, mas o seu impacto sobre
a instituição da escravatura foi insignificante (81).
Quanto ao cristianismo, após a conversão de Constantino e a rápida
incorporação da Igreja na estrutura do poder imperial, não há vestígios
de legislação destinada a reduzir a escravatura, nem mesmo por etapas
graduais. Pelo contrário, foi o mais cristão dos imperadores,
Justiniano, que não só incluiu na sua codificação do direito romano no
século VI a mais cornpleta colecção de leis sobre a escravatura alguma
vez reunida, como deu também à Europa cristã uma base legal pronta a
utilizar para a escravização do Novo Munido mil anos mais tarde (S2).
79 Garnsey, Legal Privilege p. 274.
80 Os poucos dados sobre as primitivas atitudes cristãs foram
recentemente examinados, num trabalho interminável, por H. Gultzow,
Christentutn und Sklaverei in den ersten arei Jahrhunderten (Bona 1969).
81 Cfr. a atitude de estóicos e cristãos perante as punições em geral:
Garnsey, "Penal Laws", pp. 154-6.
82 Ver D. B. Davis, The Problem of Slavery in Western Culture y
(Ithaca 1966), caps. 1-3. .,.•,-.:• • , /
121

Foi no reinado de Cómodo, ainda, que surgiu na Gália a primeira revolta


camponesa de um tipo que persistiria nas províncias ocidentais até fins
do século V. Os rebeldes, que por razões que ignoramos vieram a ser
chamados Bacaudae, parecem não ter tido outro programa social que não
fosse a troca de papéis entre eles e os proprietários fundiários, seus
patrões. Chegaram por vezes a constituir uma ameaça suficientemente
séria para que a repressão passasse do foro da polícia para o foro
militar e asf depredações que fizeram nas áreas em que operaram devem
ter sido consideráveis, embora os dados que temos sejam poucos, visto
ter sido política dos autores romanos ignorá-los deliberadamente (s3).
Dois pontos aparecem no entanto. A linguagem utilizada nas referências
ocasionais implica a colaboração de escravos e camponeses, uma excepção
à regra de nunca serem coincidentes as revoltas de escravos e as lutas
de camponeses, mas não uma excepção genuína porque os Bacaudae são
testemunho da própria transformação nas situações de status no extremo
inferior da escala de que tenho vindo a ocupar-me. São também testemunho
- e este é o segundo ponto - da ruptura do equilíbrio social conseguido
nos primeiros tempos do Império. Mais precisamente, os encargos
suportados pelos produtores agrícolas tinham, antes do fim do século H,
ultrapassado o ponto de tolerância para muitos deles. Nos séculos
seguintes esta questão agudizou-se, corn um impacto decisivo sobre a
história e a transformação do sistema imperial.
O lugar-comum de que era a terra a principal fonte de riqueza na
antiguidade deve ser compreendido, desde o princípio do Império Romano,
como incluindo a riqueza do estado. Quer dizer, não só o próprio
imperador era o maior proprietário, como também o grosso dos impostos
incidia sobre a terra. Embora não faça sentido afirmar, como muitos
historiadores,
83 Ver E. A. Thompson, "Peasant Revolts in Late Roman Gaul and Spain",
Past & Present n.° 2 (1952) 11-23, reeditado em Finley, Studies cap. 14.
A destruição no sul da Gália no íim do século IV, visível
arqueologicamente, pode ter sido obra dos Bacaudae; ver Fouet, Villa de
Montmaurin p. 311.
122

que nos princípios do Império os impostos "não eram muito opressivos"


(84), é certo que os encargos eram suportáveis na medida em que o
descontentamento conduzia a apelos para uma redução das taxas e não ao
abandono em massa das terras nem à revolta. Não é irrelevante que tais
apelos se registassem já no reinado de Tibério *. Em seguida as despesas
imperiais aumentaram constantemente, se bem que lenta e
espasmodicamente. Diz-se que Vespasiano (Suetónio, Vespasiano 16.2)
aumentou, duplicou mesmo, o imposto sobre a terra em certas províncias,
mas, na generalidade, durante cerca de dois séculos pode-se fazer face
às necessidades lançando novos impostos indirectos, esquemas variados
para pôr a produzir terras marginais e abandonadas, confiscações e
requisições de serviços, por exemplo para a construção de estradas ou
para o correio imperial. Não pode haver dúvidas de que isto representava
encargos adicionais substanciais, aos quais se juntava ainda o peso do
imposto sobre a terra que aumentou regularmente a partir do século in.
Uma estimativa talvez exagerada diz que no reinado de Justiniano o
estado se apropriava de entre um terço e um quarto da produção bruta das
terras do Império (85). A isto se deve acrescentar a quantia
considerável que nunca chegava ao Tesouro Público mas era desviada por
uma horda de colectores de impostos, em parte para gratificações legais
(sportulae) e em parte como extorsões perfeitamente ilegais.
O aumento nas exigências pode ser atribuído, em primeira instância, a
essa lei de ferro da burocracia absolutista que a faz aumentar tanto no
seu número como na dispendiosidade do seu estilo de vida. A partir da
corte imperial e em todos os escalões havia, de década para década, cada
vez mais J\
84 Rostovtzeff, RE p. 514. Sobre as propriedades imperiais em geral, ver
agora D. J. Crawíord em Finley, Roman Property cap. 3.
* Tácito (Anais 2.42) utiliza o termo "exaustos" (fessaé) para os
habitantes das províncias da Síria e da Judeia precisamente neste
contexto.
85 Jones, LRE, p. 469; cfr. o seu "Over-Taxation and the Decline oí the
Roman Empire", Antiquitg 33 (1959) 39-43.
123

•~\l homens que eram mantidos corn os fundos públicos, corn um padrão
crescente de luxo. Entra em seguida em cena um factor externo e
contingente. No reinado de Marco Aurélio, pai de Cómodo, falecido em 180
d.C., as tribos germânicas no norte do Império tornaram-se novamente
agressivas pela primeira vez em mais de dois séculos. E não pararam
durante muito tempo a partir de então, até terem destruído o Império
Ocidental. A leste os persas também contribuíram, assim como forças
militares menores, como certas tribos nativas dos limites do deserto no
Norte de África.
As exigências e os gastos militares tornaram-se assim as preocupações
permanentes e dominantes dos imperadores e as suas actividades militares
só eram limitadas pela quantia máxima que conseguiam extorquir através
dos impostos e do trabalho compulsivo ou de entregas obrigatórias; e
pelo caos político que, finalmente, se apossou do Império, sobretudo nos
cinquenta anos que medeiam entre 235 e 284, em que houve nada menos de
vinte imperadores romanos formalmente reconhecidos pelo senado, outros
vinte, ou mais, que reclamaram o título corn o apoio de um exército, sem
falar nos muitos que aspiraram a reclamá-lo. Geograficamente os encargos
estavam irregularmente distribuídos, primeiro pelo acidente da
devastaçãoy quer por invasores estrangeiros quer pelos próprios
exércitos romanos, especialmente durante as guerras civis (86); segundo
porque não havia correlação local entre a produção agrícola e as
exigências do exército, de tal forma que, por exemplo, os exércitosi
desproporcionadamente grandes instalados na Bretanha consumiam uma fatia
desproporcionadamente maior da produção local (87).
86 Não há razão para rejeitar, por exemplo, a descrição em
Panegyrici laíini (5.5-6) da devastação na Borgonha em 269-70.
87 Ver A. L. Rivet, "Social and Economic Aspects", em The Roman
Villa in Britain, org. Rivet (Londres 1969), pp. 173-216, às pp. 189-
98; cfr. Erik Gren, Kleinasien und der Ostbalkan in der wirtschafílchen
Entwicklung der rômischen Kaiserzeit [Uppsala Universitets Ársskrift
(1941) n." 9] pp. 135-49. Os cereais da Bretanha também eram
transportados para os exércitos no Reno: Amiano 18.2.3; Libânio, Orações
18.83.
124

A distribuição social dos encargos era ainda mais irregular. Os impostos


sobre a terra, directos ou indirectos, incidiam mais pesadamente sobre
aqueles que realmente trabalhavam a terra, camponeses e rendeiros. Os
proprietários de terras trabalhadas por escravos não podiam
evidentemente eximir-se aos impostos mas, pelo menos, a aristocracia
imperial era perita na fuga aos impostos (e a terra italiana esteve
virtualmente isenta de impostos até ao princípio do século W), como o
imperador Juliano certificou quando recusou a tradicional remissão dos
impostos atrasados, na base expressa de que "isso só favorece os ricos",
enquanto os pobres tinham tido que pagar na altura (8S). É da natureza
das coisas que o camponês, independente ou rendeiro, tenha um domínio
frágil sobre a sua terra: quando os tempos vão mal a sua margem de
segurança é muito pequena. O efeito combinado daquilo que tenho vindo a
examinar - aumento de impostos, depredações e devastações, degradação de
status simbolizada pela \/ institucionalização jurídica da categoria dos
Tmmiliores - levava o camponês ,a tornar-se um f ora-da-lei ou a cair
nas mãos do proprietário fundiário mais próximo ou dos seus agentes. E
estes, como vimos no caso dos rendeiros do domínio imperial em Cartago,
significavam, ao mesmo tempo, protecção e opressão.
"Quem pode ser mais opressivo que os proprietários fundiários" e os seus
agentes, perguntava S. João Crisóstomo, discípulo de Lábânio e
contemporâneo de Juliano. E especificava corn algum detalhe (Homilia
sobre S. Mateus 61.3): serviços opressivos que utilizavam "os seus
corpos como os de asnos e mulas", espancamentos e torturas, juros
extorsivos, etc., etc.. Cinquenta anos mais tarde, Salviano, escrevendo
na Gália, resumia: a opção que restava ao camponês era a fuga quer para
os Bacaudae quer para os invasores bárbaros quer para o magnate mais
próximo, trocando o seu pequeno pedaço de terra por "protecção" (S9). Os
historiadores sentem-se corn-
88 Amiano, 16.5.15; cfr. Salviano, Do governo de Deus 4.30-31; 5.35.
89 Ibid. 5.25, 38-45.
125

preensivelmente pouco à vontade corn os testemunhos de pregadores e


moralistas, mas neste caso eles confirmam o que todos os outros indícios
sugerem e ninguém contradiz. Salviano tem, na Gália, apoio arqueológico
(90). Generalizando mais, há o testemunho dos códigos legais que
declaram serem os rendeiros, desde Diccleciano até ao fim do século in,
mão livres mas dependentes. O que interessava aos imperadores eram os
impostos, não os camponeses e a sua condição, mas o efeito foi,
realmente, o de converter em lei aquilo que gradualmente já estava
acontecendo na prática (91). E corn o desaparecimento do rendeiro livre
desapareceu dos textos legais o contrato "clássico" de arrendamento em
Roma, a locatio conductio rei (92).
Se se aceita Salviano como testemunho, temos que aceitar que ainda havia
camponeses proprietários e livres na Gália do século V. Sem dúvida que
os havia - a capacidade de sobrevivência de alguns camponeses
virtualmente em todas as sociedades, apesar da pressão constante
exercida contra eles, é um facto histórico notável (93) - assim como
havia ainda escravos nos campos, não apenas no século V como ainda nos
séculos VI e VIL Não há forma possível de contar estes camponeses
proprietários resistentes, quer em termos absolutos quer relativos. Mas
a nossa preocupação é corn o trabalho nas grandes propriedades
imperiais, senatoriais ou outras onde havia uma indesmentível (e não
desmentida) transformação do sistema dominante corn a substituição de
escravos por ren-
90 Ver resumidamente A. Grenier, "Aux origines de 1'histoire
rurale: Ia conquête du sol français", Annales 2 (1930) 26-47, às pp. 40-
41.
91 Fustel de Coulanges, "Colonat", fornece uma demonstração
elegante (esp. pp. 92, 119) a partir dos códigos legais de que a prática
fora anterior à legislação. Max Weber chegou à mesma conclusão,
que eu saiba de forma independente: Die rómische
Agrargeschichte (Estugarda 1891) p. 219.
92 Ver o estudo fundamental de Ernst Levy, "Von rõmischen Precarium
zur germanischen Landleihe", ZSS 66 (1948) 1-30, às pp. 17-25.
93 Mesmo, por exemplo, no Norte de África: H. D'Escurac-Doisy, "Notes
sur ]e phénomène associatif dans lê monde paysan à Fépoque du Haut-
Empire", Antiquités Africaine.s l (1961) 59-71.
126

deiros, cujo status precário de homens totalmente livres foi sendo


gradualmente posto em causa, tendo a mudança decisiva ocorrido, talvez,
no século in. Aplicamos-lhes o termo genérico de coloni, mas tanto as
fontes gregas como as romanas utilizavam uma grande profusão de termos,
muitas vezes corn grande imprecisão. Há quem sugira que a terminologia
reflecte a realidade social dos finais do Império; variações regionais,
por exemplo, ou status diferentes de origens diferentes que podem ou não
ter convergido (94). Embora esta sugestão não tenha sido provada até
agora ela é plausível a priori, porque a conquista romana englobou
regiões de estruturas sociais muito diferentes que levavam, como disse
antes, a diferentes sistemas de organização da terra no interior do
Império.
No Oriente, o efeito do desenvolvimento posterior do sistema imperial
teria sido, principalmente, o de intensificar e solidificar o estatuto
dependente pré-existente do campesinato. Em Itália e noutros pontos do
Ocidente, onde durante alguns séculos encontramos verdadeiras sociedades
esclavagistas, o efeito foi mais drástico: da escravatura passou-se ao
colonato. O declínio da escravatura, por outras palavras, representou
uma inversão do processo através do qual ela tinha surgido. Em tempos,
aqueles que empregavam trabalho importavam escravos para fazer face às
suas necessidades. Agora que podiam dispor das suas próprias classes
inferiores, ao contrário do que acontecia anteriormente, através da
compulsão e não da escolha, não havia razões para manter o fornecimento
de escravos nem para introduzir o trabalho assalariado.
As cidades dói Império reagiram também às modificações estruturais.
Encargos fiscais corroeram a ordem curial (os senados municipais); nas
regiões submetidas aos mais pesados ataques bárbaros os ricos tendiam a
refugiar-se nas suas propriedades como medida de precaução e a aumentar
nelas
K
94 P. Coilinet, "Lê colonat dans 1'empire romain", Recueils de Ia
Société Jean Bodin 2 (1937) 85-122; sobre as variações regionais, ver
também J. Percival, "Seigneurial Aspects of Late Roman Estate
Management", English Historical Review 84 (1969) 449-73.
127

; a produção de bens manufacturados; o Estado pagava aos exércitos e ao


funcionalismo principalmente em espécie, fornecendo aos exércitos
alimentação requisitada e mercadorias fabricadas (por escravos) nas suas
próprias oficinas. O consequente desaparecimento das unidades fabris
privadas nas cidades teve um efeito radical na situação de trabalho dos
ofícios urbanos. A plebs urbana dos fins do Império é um tema
curiosamente menosprezado nas histórias modernas, excepto quando se
revoltava (95). Contudo ninguém duvida que ela era muito numerosa ou que
ainda era constituída por homens livres, ao contrário dos cóloni e
escravos: em 432 d.C. uma constituição imperial (Código de Teoãósio
9.45.5) referia-se ainda à ordo plebeiorum. Esta incluía não só oa não
qualificados, os "mendigos", mas também os artesãos das cidades,
altamente especializados, que trabalhavam duramente e eram na sua
maioria muito pobres. Os escravos urbanos constituíam agora o elemento
parasita. Só podemos julgar através de impressões, mas é chocante o
facto de em todas as fontes dos fins do Império os escravos produtivos
serem os que trabalham no sector rural como agricultores ou artífices
enquanto os escravos urbanos, ainda numerosos, aparecem corn igual
regularidade (excepto os que trabalham nas fábricas imperiais) como
servidores domésticos e administradores, como um bem de consumo de luxo
não só dos ricos mas até de homens tão modestos como os professores da
escola de Libânio em Antioquia.
95 Quer a disponibilidade, quer a pouca atenção dada a fontes de
informação ainda não utilizadas são documentadas por I. Hahn, "Freie
Arbeit und Sklavenarbeit in der spátantiken Stadt", Annales Univ....
Budapestiensis, Sectio histórica 5 (1961) 23-39, sobre o qual se baseia
em grande parte o meu resumo, e W. Seyfarth, Soziale Fragen der
spãtromischen Kaiserzeit im Spiegel der Theodosianus (Berlim 1963) pp.
104-27. Sobre os tumultos na cidade de Roma, ver H. P. Kohns,
Versorgungskrisen und Hungerrevolten in spátantiken Rom (Bona 1961);
para um período um tanto ou quanto anterior, C. R. Whittaker, "The
Revolt of Papirius Dionysius A.D. 190", Historia 13 (1964) 348-69.
128

IV
SENHORES E CAMP0HESES
Na relação estreita que existia entre status e posse de terras, o
direito desempenhava um papel importante. Foram os gregos que mais
completamente reservaram aos cidadãos o monopólio do direito de possuir
terras e que, nas comunidades mais oligárquicas, e mais completamente em
Esparta, limitaram os direitos políticos plenos aos proprietários de
terras. Mas o direito, como já disse, era por vezes menos importante que
os costumes, as tradições e as pressões sociais e políticas. (A expansão
romana na Itália, por exemplo, deu origem a uma política de cidadania
mais aberta, de tal forma que o privilégio de possuir terra romana foi
obtido muito cedo pelos latinos, e por todos os italianos livres a
partir do século I a.C.. Houve uma mudança fundamental fie facto na
relação terra-cidadania (desconhecida nas cidades-estado gregas) que é
ocultada por análises estritamente jurídicas.
Além disso, numa cidade-estado a terra estava, em princípio, isenta de
impostos regulares. Um dízimo ou outra forma de imposto directo sobre a
terra, diziam os .gregos, era a marca da tirania e este ponto de vista
estava tão fortemente enraizado que nunca permitiram que um imposto de
emergência lançado em tempo de guerra, como a eisophora ateniense, se
tornasse permanente. Tampouco o permitiram os romanos durante a
República, ao contrário do que tem sucedido em muitas outras sociedades.
Pelo contrário, os impérios iam buscar à terra a maioria das suas
receitas através de rendas e impos-
129

tos, embora as cidades gregas tivessem conseguido arrancar aos seus


dirigentes helenísticos alguma liberdade para as terras dependentes da
cidade e embora a Itália tivesse conservado a sua isenção tradicional
até aos princípios do século IV d.C. (Inversamente, as terras que os
cidadãos romanos possuíam nas províncias estavam sujeitas & impostos,
pelo menos no tempo de Cícero). Acentuo este ponto, paradoxalmente, não
pelas suas implicações para corn as classes superiores mas pelo que
significavam para o campesinato, para o cidadão camponês livre. Os
gregos ricos suportavam uma parte substancial das despesas do Estado
apesar da isenção de impostos nas suas propriedades. Se os romanos ricos
da República o não fizeram, pêlo menos depois do século IH a.C., foi
apenas porque a expansão romana lhes permitiu empurrar os encargos para
as costas dos povos submetidos, dos habitantes das novas províncias. A
situação inverteu-se sob os impérios: os impostos sobre a terra passaram
a incidir em larga escala sobre os pobres e sobre a classe média,
enquanto os estratos superiores suportavam cada vez menos os encargos
financeiros públicos (*).
Isto está em correlação corn a distinção, que é geralmente formulada em
termos políticos, entre a liberdade do cidadão clássico na cidade-estado
e a falta de liberdade, relativa ou total, sob os impérios (e nos
anteriores regimes arcaicos). Sugiro que a isenção de impostos era um
elemento importante neste fenómeno movo e raramente repetido da
antiguidade clássica, a incorporação do camponês como membro pleno da
comunidade política (2). Ideologicamente ele exprimia-se através da
celebração da agricultura, da qual a expressão mais artística e
conhecida é sem dúvida a Geórgica de Virgílio. Todas as camadas do corpo
de cidadãos partilhavam esta ideologia, na generalidade. Divergiam
depois no particular. Como escre-
1 Tertuliano, Apologeíicum 13.6, chamou aos impostos directos "sinais
de servidão" (notae captivitatis).
2 Até que ponto isto era (e é) excepcional pode ser visto através do
tema da sujeição política que percorre Peasanís and Peasant Societies,
org. T. Shanin (Penguin 1971). ,
130

véu Heitland, "A glorificação da labuta incansável como o verdadeiro


segredo do sucesso era (e é) um tópico maravilhoso para os pregadores do
evangelho do 'regresso à terra'". Mas "os sempre repetidos louvores da
vida no campo são irreais. Mesmo quando sinceros, são a voz de homens
nascidos na cidade, fartos da confusão e idas loucuras da vida urbana, à
qual, no entanto, voltariam mais tarde, repousados mas aborrecidos após
as suas férias rurais" (3). Para eles, como já fiz notar, a posse de
terras significava a ausência de ocupação; para os outros significava
uma "labuta incansável"; todos partilhavam da f orne de terra que, a um
nível, se exprimia no acumular de propriedades sempre que surgia uma
oportunidade, e a outro nível se traduzia numa vontade teimosa de
recomeçar após cada fracasso e cada perda.
Nada disto pode ser traduzido em termos quantitativos. Houve sempre
áreas consideráveis em que a proporção dos cidadãos que eram
proprietários ou rendeiros se aproximava dos cem por cento (à parte o
caso único de Esparta), mesmo quando nelas havia centros urbanos e eram
chamadas "vilas" ou "cidades" (4). E havia algumas cidades enormes,
nomeadamente ma primeira fase ido Império Romano, como a própria Roma,
Alexandria, Cartago, Antioquia, corn uma população de centenas de milhar
de habitantes, muitos dos quais não tinham a menor relação corn a
agricultura. Mas que dizer das vastas áreas entre estes dois extremos, e
isto durante mais de mil e quinhentos anos? Diz-se que em Atenas, em 403
a.C., foi feita uma proposta para limitar os direitos políticos de
qualquer cidadão que não possuísse alguma terra e que se a medida
tivesse sido aplicada, o que não sucedeu, cerca de 5000 cidadãos teriam
sido atingidos por ela. Se a informação é cor-
3. Heitland, Agrícola pp. 226 e 200-1, respectivamente (recordando
Lucrécio 3.1060-70). Este livro continua a ser a apresentação roais
completa das fontes literárias greco-romanas sobre o assunto. Os
aristocratas de Antioquia constituem uma analogia tardia e oriental; ver
Liebeschuetz, Antioch p. 51.
4 O relato de Xenofonte, Hellenica 5.2.5-7, do desmantelamento pelos
espartanos de Mantineia na Arcádia, em 385 a.C., constitui um exemplo
sugestivo. , , ... .. ., .,,
131

recta (há quem duvide) representa qualquer coisa. Mas o quê? Ignoramos o
número total de cidadãos em 408; "alguma terra" podia significar um
jardinzito de cidade em que um pedreiro plantava uns feijões e uma vinha
(5). Ora Josefo diz-nos (História da Guerra dos Judeus 2.385), baseando-
se provavelmente num censo, que a população do Egipto no século I d.C.
era de
7 500 000 habitantes, não contando corn os de Alexandria. A ajuda é
maior aqui, porque fora da cidade de Alexandria, onde a população não
podia ser de mais de meio milhão, se tanto, quase toda a gente se
ocupava da agricultura, incluindo os soldados e os numerosos
funcionários inferiores. Por outro lado o Egipto era a província mais
densamente povoada e a mais pobre do Império, de modo que não pode haver
generalizações.
Devemos pois contentar-nos corn a conclusão, vaga mas correcta, de que
muita da população do mundo antigo vivia da agricultura, de uma forma ou
de outra, e que ela própria reconhecia ser a terra a fonte principal de
todo o bem, material e moral. Quando, em seguida, noa debruçamos sobre a
questão da dimensão das terras não nos sentimos muito mais à vontade.
Para começar é incrivelmente pequeno o total das cifras que possuímos
para todo este período de tempo e para toda esta região: numa estimativa
- pois nunca ninguém compilou as informações todas - eu diria que
dificilmente chegariam a duas mil cifras (6). Em segundo lugar os
números disponíveis não são imediatamente comensuráveis: há, entre os
escritores antigos, a tendência para registar quer um valor monetário
estabelecido por eles mesmos e dúbio por várias razões quer o rendimento
bruto de um só ano em vez da superfície, e de se referirem a uma
propriedade específica de
5 A fonte é Dionísio de Halicarnasso, Sobre as orações de Lísias
32 (várias vezes publicado como o "argumento" a Lísias 34). Já
demonstrei a impossibilidade de se fazer qualquer cálculo sério sobre as
unidades de propriedade atenienses utilizando as fontes disponíveis:
Lana and Credit pp. 56-60.
6 Excluo os inumeráveis fragmentos de informação nos papiros gregos do
Egipto helenístico e romano, que reflectem um regime fundiário atípico,
sobre o qual se dirá algo mais adiante.
132

indivíduo em lugar de se ocuparem de todos os seus bens. Historiadores


modernos tentaram traduzir este tipo de dados noutro, para fins de
computação, na base de um "rendimento normal do investimento na terra"
de 6 a 8%. Encontro-me assim, dada a minha insistência em procurar
regularidades e modelos quantificáveis, na posição embaraçosa de ser
obrigado a discordar. Um pequeno número de textos dá-nos efectivamente
uma tal taxa em circunstâncias específicas, mas alguns dos textos não
merecem confiança (7) e, de qualquer modo, o número total de dados é
demasiado pequeno e são demasiadas as variações nos solos e nos sistemas
de cultivo e de posse da terra. Tampouco era frequente a prática,
conhecida na Inglaterra desde a Idade Média, de exprimir os valores da
terra por tantas vezes a renda anual. Em terceiro lugar os autores
antigos frequentemente fornecem um dado ou descrevem uma quinta só
porque é invulgar ou um caso extremo, tal como a lista de exemplos de
Varrão (De ré rústica 3.2) da alta rentabilidade das abelhas, flores,
galinhas, pombas e pavões nas quintas sátuadas perto da cidade de Roma.
O pouco que temos não é, por isso, uma amostra casual.
Creio, no entanto, que é possível descobrirmos algo significativo sobre
a amplitude das propriedades e sobre tendências. Comecemos pelo Egipto,
caso atípico e extremo, atípico porque o sistema agrícola de irrigação
produzia colheitas relativamente estáveis e altas (talvez dez sementes
no caso dos cereais), porque havia pouca terra não cultivada (cerca de
cinco por cento no Fayum), porque o campesinato nativo nunca foi uma
população livre como a greco-romana clássica. Numa aldeia típica do
Fayum, no período ptolomaico, como Kerkeosiris, corn uma população de
1500 habitantes que trabalhava cerca de 1200 ha., de terra, muitos
campones/es viviam corn um escasso mínimo de sobrevivência em parcelas
de menos de um hectare, algumas arrendadas ao ano e todas sujeitas a
impostos e
7 Aquele que se supunha ser a melhor fonte antiga quanto a cálculos,
Columela, acaba de ser demolido por Duncan-Jones no cap. 2 do seu
Economy. Tentativas como a de René Martin, "Pline lê Jeune et lês
problèmes économiques de son temps", Revue dês eludes anciennes 69
133

taxas (8). No limite superior bastam dois dados incompletos para sugerir
a escala e a orientação geral. O primeiro é a propriedade no Fayum de um
certo Apolónio, durante uns tempos o mais alto funcionário do país nos
princípios do século Hl a.C., que se estendia por cerca de 2600 ha. (9).
(Apolònio tinha pelo menos uma outra grande propriedade em Menfis e tudo
reverteu para a coroa quando ele caiu em desgraça). O segundo dado
refere-se à família Apion, originária do Egipto, que no séc. VI d.C.
atingiu por duas vezes o posto mais alto no Império Bizantino, o de
prefeito pretoriano. Esta família fazia parte de um grupo de
proprietários fundiários extremamente ricos no Egipto. Ricos até que
ponto não sabemos, mas calculou-se que uma só das suas propriedades se
estendia por cerca de 30 000 ha., de onde contribuíam possivelmente corn
7 500 000 litros para o levantamento anual de cereais em Constantinopla
(10).
Um grau de variação tão grande era raro no mundo antigo, mas o fosso
entre os proprietários mais pequenos e os maiores foi sempre bastante
largo e, creio, corn tendência para aumentar regularmente. Já vimos que
os cidadãos romanos se instalaram em colónias na Itália no século II
a.C., em propriedades de 1,2 ha. e menos, sendo de 2,5 ha. a média para
homens corn famílias mais numerosas no tempo de César. Quando
(1967) 62-97, de traduzir em superfícies os dados monetários sobre
propriedades na base de um preço médio de venda mítico (e de qualquer
modo irrelevante) de 1000 sestércios por jugerum devem ser rejeitadas
liminarmente.
8 Ver D. J. Crawford, Kerkeosiris (Cambridge 1971).
9 C. Préaux, L'économie royale dês Lagides (Bruxelas 1939)
pp. 17-20.
10 Os cálculos, razoavelmente bem fundamentados, são os de Jones,
LRE pp. 780-4. O estudo fundamental das propriedades de Apion é E.
R. Hardy, Jr., The Large Estales of Byzantine Egypt (Nova Iorque 1931);
para uma bibliografia mais recente, ver D. Bonneau, "L'administration
de Firrigation dans lês grandes domaines d'Égypte..." e J. Fikhman, "On
the Structure of the Egyptian Large Estate in the Sixth Century", nos
Proceedings do 12.° Congresso Internacional de Papirologia (Toronto
1970), pp. 43-60 e 123-32, respectivamente.
134

fundou em Curzola, ilha do Adriático, uma pequena comunidade grega no


século in ou II a.C. atribuiu-se aos primeiros colonos uma parcela não
especificada de terra arável e cerca de 0,3 ha. de vinha O1). É
indubitável que propriedades rurais deste tamanho eram vulgares, embora
a documentação seja pouca. Tratava-se pelo menos de propriedades isentas
de impostos, ao contrário do que se passava no Egipto, e isso tornava-as
mais viáveis. Não parece também que tenham sofrido grandes alterações ao
longo dos séculos até que se iniciou a degradação geral do campesinato
livre no tempo dos imperadores romanos.
Para encontrar movimento temos que nos voltar para as classes
superiores. Já nos séculos V e IV havia proprietários fundiários em
Atenas que tinham três a seis propriedades em diferentes zonas da Ática.
As mais valiosas que conhecemos eram duas quintas, uma em Eleusis a
outra em Thria, que faziam parte das propriedades da família fundada por
um certo Buselos, a qual pode ser seguida através dos séculos V e IV
a.C. e que compreendia um grande número de homens proeminentes nos
assuntos políticos e militares de Atenas. Dizia-se que a quinta de
Eleusis valia 12 000 dracmas e a outra 15 000. Trata-se provavelmente de
sub-avaliações, mas, mesmo assim,
12 000 dracmas eram quarenta vezes mais que o máximo que podia possuir
um beneficiário da assistência pública, seis vezes mais que a
propriedade mínima requerida para a franquia total na constituição
oligárquica imposta aos atenienses em
322 a.C. (12).
11 Syll. 141. Aqui, como em outros pontos da discussão, vejo-me obrigado
a qualificar as cifras por causa das flutuações das medidas gregas.
Este texto é bastante específico - três plethra de vinhas e um plethron
era 100 x 100 pés gregos. Mas o pé grego não era uma medida estável.
12 Sobre a família Buselos, ver J. K. Davies, Athenian Propertied
Families 600-300 B.C. (Oxford 1971) n.° 2921. Para outros exemplos de
Atenas (e a impossibilidade de se ir mais além do que a enumeração de
exemplos) ver o meu Land and Credit pp. 56-60; para outros exemplos
gregos, A. Jardé, Lês céréales dans l'antiquité grecque (Paris
1925) pp. 118-22.
135

A família Buselos contava-se entre as mais ricas de Atenas do séc. IV


a.C., mas a sua fortuna seria considerada muito modesta na Atenas do
Império Romano. Apresentarei em seguida um caso extremo, mas são os
extremos que caracterizam as variações possíveis. A vida em Atenas no
séc. II d.C. era dominada por um homem, Herodes Atiço, protector das
artes e das letras (ele próprio escritor e erudito de certa
importância), benfeitor público a uma escala imperial, não só em Atenas
como em toda a Grécia e Ásia Menor, detentor de muitos cargos
importantes, amigo e familiar de imperadores (13). A sua família,
originária de Maratona, pertencia à elite da cidade pelo menos desde o
século II a.C. e a sua posição e poder aumentaram continuamente, tendo-
lhes Nero concedido a cidadania romana. Provavelmente em 92 ou 93 d.C.,
Hiparco, avô de Herodes, envolveu-se em complicações e as suas
propriedades foram confiscadas por Domiciano, que as vendeu, diz-se, por
cem milhões de sestércios (2 500 000 dracmas), cem vezes mais que a
propriedade mínima de um senador, cerca de cinquenta vezes o rendimento
anual do seu contemporâneo Plínio o Jovem, que de forma alguma se podia
considerar pobre. Mas Hiparco escondera prudentemente uma grande quantia
em dinheiro e assim, alguns anos mais tarde, seu filho, o pai de Herodes
Ático, pode refazer a fortuna familiar no reinado mais liberal de Nerva;
à data da sua morte deixou um rendimento anual de cem dracmas a cada
cidadão ateniense, o que pressupõe uma fortuna total de muito mais de
cem milhões de sestércios.
Os atenienses nunca chegaram a receber o dinheiro, mas isso é outra
história. O que nos interessa é que se tratava basicamente de uma
fortuna em terras (a única outra fonte de rendimento atestada da família
era o empréstimo de dinheiro em grande escala) (14) e que Herodes Ático
possuía villas em
13 Para o que se segue, ver P. Graindor, Un milliardaire antique, Hérode
Aíticus et sã famille (Cairo 1930).
14 É revelador que Rostovtzeff, RE pp. 149-50, aponte Herodes como um
dos melhores exemplos "da riqueza que se concentrava nas mãos da
burguesia urbana".
136

refísia, perto da cidade de Atenas, e em Maratona, casas na cidade,


terras em ambos os distritos, no norte da Atiça, na ilha de Eubeia, em
Corinto e noutros locais do Peloponeso, no Egipto e, do dote da sua
muito aristocrática esposa romana, propriedades na Via Ãpia e na Apúlia
em Itália (15). Além disso, em Maratona e arredores, as suas
propriedades parecem ter sido reunidas num único grande espaço
consolidado (16).
A fortuna desta família era notável, mesmo segundo padrões romanos: isso
transparece no torn corn que Suetónio (Vespasiano 13) refere os cem
milhões, que Domiciano recebeu das propriedades confiscadas ao avô de
Herodes. Normalmente a escala das coisas na sociedade romana reduzia os
gregos à insignificância. Pode-se ter uma ideia da curva ascendente de
acumulação entre a elite romana pela reforma dos Gracos. Em
133 a.C. Tibério Graeo impôs uma lei que restringia a posse individual
de ager publicus, quer dizer, de terra na Itália confiscada pelo Estado
romano durante as guerras de conquista e habitualmente arrendada por
rendas nominais. O limite estabelecido era de 500 jugera, adicionados de
250 por cada um de dois filhos num máximo de 250 lha. por família (não
se tocava nas "terras privadas"). O facto de muitos senadores e outros
terem conseguido adquirir muito mais ager publicus que os 250 hectares é
demonstrado pela violência corn que reagiram à lei e pelo salto nos
dados do censo da década seguinte em consequência da confiscação e
redistribuição das propriedades possuídas acima do limite (")• Um século
depois, a fortuna mobilizada contra Júlio 'César permitiu a Pompeu
alistar nos seus exércitos 800 dos seus escravos e pastores pessoais, e
a Ahenobarbo prometer a cada um dos seus homens dez hectares das suas
propriedades na Etrúria (e ofertas maiores a oficiais e
15 Um breve resumo do material encontra-se em John Day, An
Economic History of Athens under Roman Domination (Nova Iorque
1942) pp. 235-6.
16 U. Kahrstedt, Das wirtschaftliche Gesicht Griechenlands
in der Kaiserzeit (Berna 1954) pp. 47-8.
17 Faço esta afirmação corn confiança apesar da falta inegável de
segurança dos dados registados no censo; a análise mais recente é Brunt,
Manpower pp. 77-81.
137

veteranos) (1S). A oferta de Ahenobarbo abrangia 4000 ou


15 000 soldados, conforme se interpretar a frase "os seus homens" e, é
claro, o teste da sua sinceridade e da sua capacidade de arranjar tanta
terra nunca surgiu. De qualquer forma, mesmo como propaganda, é uma
indicação.
Não resisto a dar mais dois exemplos. Quando Melania a Jovem decidiu
abandonar a vida mundana em 404, as propriedades que ela e o seu marido
possuíam em vários pontos da Itália, Sicília, Espanha, Norte de África e
Bretanha rendiam anualmente 1150 libras em ouro (l 600 libras romanas).
Um seu domínio perto de Roma incluia 62 aldeias, cada uma das quais se
dizia possuir 400 escravos a trabalhar na agricultura, o que fazia um
total de 24 000 (19). Não quero insistir nos pormenores; os hagiógrafos
não são famosos pela sua moderação ou escrúpulos. Mas insisto na
plausibilidade (excepto quanto ao número de escravos) visto haver
numerosas provas do mesmo género, tanto documentais como arqueológicas,
que não podem ser postas de parte (20). Os dados sobre a família Apion
no Egipto são certos. Mais modestamente, um documento legal datado de
445 ou 46, cuja veracidade não pode ser posta em causa, revela que um
grande magistrado do imperador Honório, cuja origem, longe de ser nobre
como a de Melania, se encontrava entre os rapazes escravos castrados e
empregados na casa imperial, recebia cerca de trinta libras em ouro por
ano de seis propriedades só na Sicília (21). E é claro que nem a própria
Melania se podia comparar aos imperadores, que acumulavam terras por
meio da confiscação, ofertas, legados e reclamações até um total que,
mesmo se o conhecêssemos,
18 César, Guerra Civil 3.4.4 e 1.17, respectivamente.
19 Os dados têm que ser reunidos a partir das "vidas" gregas e latinas
de Melania, e de Paládio, História Lausíaca. Existe uma boa edição
moderna da "vida" grega, feita por D. Gorce (Paris, 1962).
20 Ver e.g. S. Applebaum em The Agrarian History of England and Wales,
vol. I ii, org. H. P. R. Finberg (Cambridge 1972) pp. 230-1; G. Fouet,
La villa gallo-romaine de Montmaurin (Haute-Garonne) [Gàllia
supp. 20 (1969)] pp. 304-12.
21 J. O. Tjader, Die nichtliterarischen lateinischen Papyri Italiens aus
der Zeit 445-700 (Lund 1955) n." 1.
138

"geria difícil de imaginar. A partir do século IV a Igreja começou a


rivalizar corn os imperadores graças às propriedades dos papas, bispados
e mosteiros (22).
Apesar das minhas próprias objecções à argumentação por exemplos, julgo
podermos concluir agora, pela acumulação de provas individuais, que a
tendência na antiguidade foi de um aumento regular da dimensão das
propriedades; não uma simples linha ascendente, tanto uma acumulação de
propriedades separadas, às vezes mesmo muito espalhadas, como um
processo de consolidação; mas de qualquer maneira uma tendência
contínua. Esta generalização aplica-se à classe dos proprietários
fundiários ricos e não a qualquer indivíduo ou família, Podem encontrar-
se bastantes fracassos devidos a guerras ou a desastres políticos. Mas é
um facto que de caída uma destas crises surgiram homens mais ricos, corn
propriedades fundiárias maiores que antes. A guerra corn Aníbal devastou
grande parte ida Itália do Sul mas deu também um grande impulso à
ocupação de cada vez mais ager publicus por uma pequena elite dirigente
em Roma. O meio século de guerra civil igualmente destruidora, de Sila a
Augusto, teve resultados semelhantes (além dos vastos lucros conseguidos
no estrangeiro). Há um exemplo perfeito logo no seu início: uma luxuosa
villa na Baía de Nápoles pertencente a Mário foi comprada por uma
senhora chamada Cornélia, presumivelmente filha de Sila, por 300 000
sestércios, que a revendeu a Lúculo por dez milhões (2S). Esta pode ser
uma fábula moral,
22 Os templos pagãos greco-romanos não eram proprietários de grandes
terras, excepto nalgumas províncias orientais; ver T. S. R. Broughton,
"New Evidence on Temple-Estates in Ásia Minor", em Studies... in Honor
of Allan Chester Johnson, org. P. R. Coleman-Norton (Princeton 1951),
pp. 236-50, e T. Zawadzki, "Quelques remarques sur
1'étendue de 1'accroissenient dês domaines dês grands temples en Asie
Mineure", Eos 46 (1952/3) 83-96.
23 Plutarco, Mário 34.1-2. Cfr. a alegação de Cícero, na sua
oração a favor de Sexto Róscio (20-21), de que o liberto de Sila
Crisógono adquiriu dez das propriedades de Róscio no vale do Tibre,
que valiam seis milhões de sestércios, por apenas dois mil.
139

mas, como todas as boas fábulas, ilustra uma verdade fundamental (24).
Podemos também concluir que as grandes propriedades produziam grandes
rendimentos e que a repetição, frequente na antiguidade, daquilo a que
os historiadores chamam "a crise agrária" era uma crise que afectava o
campesinato, o recrutamento militar ou qualquer outra coisa mas não uma
queda drástica nos lucros dos latifundia. Não podemos elaborar uma folha
de balanço, mas podemos indicar o estilo de vida dos ricos, as .grandes
despesas que faziam, quer em consumos pessoais ostentatórios quer em
campanhas eleitorais públicas, ou por qualquer outra razão. Estas
despesas nunca pararam e raramente deixaram de aumentar (25). É claro
que a exploração da nião-de-obra agrícola era intensa, de camponeses
vinculados, de trabalhadores dependentes no Oriente e em outros
territórios conquistados, e principalmente de escravos e de homens
livres mas "marginais" que arrendavam pequenas parcelas nas zonas
centrais e "clássicas". Surgiu então o duplo golpe no campesinato, a
rápida redução do significado da cidadania para as classes inferiores e
o peso dos impostos e outros encargos sobre as terras. Pouco depois eram
forçados a entrar nas fileiras dos totalmente explorados, como vimos no
contexto do declínio da escravatura antiga. Isto alterou a estrutura
social da força de trabalho agrícola e o sistema de arrendamento,
preservando, no entanto, a intensidade da exploração e a rentabilidade
*.
Ê talvez fútil procurar uma ideia realista das propriedades rurais
"intermédias", embora, que eu saiba, nunca ninguém o tenha tentado. Um
testemunho seguro da existência de nu-
24 Ver M. Jaczynowska, "The Economic Differentiation of the Roman
Nobility at the End of the Republic", Historia 11 (1962) 486-99.
25 Sobre o luxo de construções particulares, que constitui um óptimo
indício, ver J. H. D'Arms, Romans on the Bay of Naples (Cambridge,
Mass., 1970); Axel Boêthius, The Golden House of Nero (Ann Arbor 1960).
* Nada é tão revelador sobre as nossas fontes como o facto de não
sabermos virtualmente nada sobre os processos de comercialização
utilizados pelos proprietários fundiários.
140

jnerosas propriedades médias na Itália nos princípios do Império vale


como indicador. A prova encontra-se numa placa de bronze de Velleia,
perto de Piacenza, cobrindo o período entre
98 e 113 e relacionada corn o programa dO'S alimenta de Trajano, o qual,
na prática, transferia fundos imperiais para as crianças locais através
de propriedades mai-ores que garantiam a solvência do esquema (26).
Neste grupo., havia quarenta e seis propriedades no esquema principal,
quatro delas avaliadas em mais de um milhão de sestércios -cada,
situando-se a média à roda dos trezentos mil sestércios. Â taxa,
arbitrária mas seguramente modesta, de seis por cenvto ao ano o
rendimento médio seria de 18 000 sestércios, o que representa 15 vezes o
salário 'bruto de um legionário (do qual se deduziam a alimentação e
outras despesas), a diferença, digamos, entre $45 000 e $3 000 por ano.
E era provável que alguns dos proprietários de Velleia tivessem outros
bens, no mesmo distrito ou noutro. Oerea de metade parecem ter sido
proprietários absentistas, o que é bastante sugestivo.
Não digo, naturalmente, que este pequeno texto prove, por si só, o que
quer que seja. Nem provariam alguma coisa, por si só, os dados
fornecidos por Ausónio, professor de retórica e cônsul, sobre a
propriedade que herdara perto de Bordéus em meados do século IV, cerca
de 50 hectares de terra arável, outros 25 hectares em vinhas e prados e
mais de 160 hectares de floresta (")• Contudo, propriedades destas
dimensões são aparentemente vulgares na arqueologia da Gália, e quando
se toma esta evidência conjuntamente corn o que vimos no capítulo
anterior sobre as vinhas de Pompeia e os1 filhos de libertos que
atingiam uma posição na aristocracia municipal, ou corn a base fundiária
desta classe (curial) nas cidades de todo o Império, parece razoável a
hipótese de que no princí-
26 Ver cap. II, nota 10, e a bibliografia aí indicada. O que se segue
baseia-se nos cálculos cuidadosos de Duaican-Jones.
27 Os números são dados no seu curto poema De herediolo ("A minha
herançazita"); ver a análise de M. K. Hopkins, "Social Mobility in the
Later Roman Empire: the Evidence of Ausonius", Classical Quarterly
n.s. 11 (1961) 239-49, às pp. 240-3.
141

pio do Império, e em muitas zonas ainda mais tarde, a posse de terras se


distribuía por um espectro razoável que ia do camponês ao estrato mais
elevado, e particularmente de que eram numerosas as possessões
confortáveis em mãos de famílias que pouca marca deixaram nos registos
históricos (28). Atrevo-me a adiantar a ideia de que foi este o caso na
maior parte do mundo antigo em quase todos os períodos, não esquecendo
que os padrões ide conforto eram diferentes.
Ê ainda mais difícil obter uma imagem do grau de variação entre os
camponeses, mas uma comparação corn outras sociedades sugere também a
existência de um espectro camponês. Há uma estranha relutância entre os
historiadores, e mesmo entre os sociólogos, em definir o termo
"camponês", e uma tendência do mundo anglófono é considerar o camponês
como um tipo inferior que se encontra apenas noutros países. Digo
"estranha" porque, numa óptica histórica, o camponês é o tipo social
mais comum e mais largamente distribuído, o homem "cuja segurança e
subsistência últimas residem em ter certos direitos à terra e ao
trabalho na terra dos membros da família, mas que se enquadra através de
direitos e deveres num sistema económico mais vasto que inclui a
participação de não camponeses" (29). Todos estes elementos são
essenciais para se poder distinguir o camponês, por um lado do primitivo
agricultor ou pastor que não se enquadrava "num sistema económico mais
vasto", por outro lado da moderna empresa
28 Ver A. Grenier, Manuel d''archéologie gallo-romaine vol II ii
(Paris 1934) pp. 930-1. Para outros exemplos romanos tardios de médias
propriedades, principalmente nas ilhas do Egeu e na Ásia Menor, ver A.
H. M. Jones, "Census Records of the Later Roman Empire",
JRS 43 (1953) 49-64. O material foi reanalisado por Duncan-Jones em
Finley, Roman Property, cap. 2.
29 J. S. Saul e R. Woods, em Shanin, Peasants p. 105. O organizador do
volume, na sua introdução (pp. 14-5), e de novo às pp. 240-5, também
inclui "uma cultura tradicional específica" e "uma posição
subalterna". Não há dúvida de que frequentemente constituem "facetas
básicas" mas, como já sublinhei, o camponês greco-romano do período
clássico era diferente quanto a estes aspectos, incluindo-se antes
na categoria a que Shanin denomina "grupos analiticamente marginais"-
142

agrícola familiar, em que a família é uma "unidade empresarial" mais que


uma unidade de produção (30). E esta definição engloba a vasta maioria
da população do mundo antigo, tanto os pequenos proprietários rurais
livres como os camponeses vinculados, os coloni. Estritamente falando,
não se aplica aos rendeiros livres, que não tinham direitos sobre a
terra para além do termo dos seus contratos normalmente breves, mas,
como veremos, na prática ela tinha certa relevância, limitando a escolha
dos grandes proprietários de quem eram rendeiros.
A dimensão óptima de uma empresa camponesa é, obviamente, uma noção sem
significado: há demasiadas variáveis. Mas tomemos como base de discussão
os dez jugera (mais ou menos 2,5 hectares) que César atribuía a um
veterano corn três filhos (31). A unidade romana, o jugum, era a área de
terra que um homem podia (hipoteticamente) lavrar num dia. Dez jugera de
boa terra arável produziriam alimentos suficientes para sustentar uma
pequena família (mas não se ela tivesse um boi) mesmo corn o sistema de
pousio alternado, especialmente se isenta de rendas e impostos'*.
A dimensão da própria família tornava-se então uma questão-chave,
primeiro porque o excedente da produção era pequeno; segundo, porque dez
jugera não podiam ocupar uma família o tempo inteiro; terceiro, porque
sob as leis gregas e romanas de herança uma propriedade era igualmente
dividida em princípio entre os filhos legítimos (e por vezes filhas),
não havendo vestígios da noção de primogenitura; quarto, porque um
camponês não pode despedir a sua própria capacidade excedentária de
trabalho. Aquilo que Hesíodo afirmou, na sua maneira característica, mo
século VH a.C., mantém-se vá-
30 A. Galeski, ibid. p. 122.
31 Sobre os povoamentos anteriores de veteranos, ver Brunt,
Manpower pp. 294-7. Os dois textos do século IV são do Código Teodosiano
(7.20.3, 8).
Assumo aqui que os lotes dos veteranos consistiam sempre em boa terra
arável, o que na prática nem sempre acontecia. Além disso só conheço
dois textos que se referem explicitamente ao jugo de bois e a uma
quantidade de sementes que acompanhavam o love; e são ambos do século IV
d.C. •: ^ ,->,-; v..,,
143

H'
lido para toda a história antiga: "Devia haver um só filho para
alimentar a casa de seu pai, porque assim a fortuna aumentará na casa;
mas se deixares um segundo filho, deverás morrer velho" (Os Trabalhos e
os Dias 376-8). As altas taxas de mortalidade infantil ajudavam; quando
a natureza falhava havia sempre a solução do infanticídio e da exposição
de crianças (muitas vezes um puro artifício para contornar a lei que
proibia a venda de crianças livres como escravos) (32), da qual
sobrevive um reflexo na frequência corn que aparecem crianças expostas
nos mitos e lendas e nas comédias, tanto na Grécia como em Roma.
É difícil exagerar as implicações dessas parcelas de pouco mais de dois
hectares. Na Alemanha da década de 1950, por comparação, propriedades
corn menos de 10 hectares encontravam-se quase exclusivamente nas mãos
dos velhos, de viúvas de guerra e de trabalhadores-caniponeses (33). As
pequenas unidades camponesas da antiguidade significavam, em termos de
produção, sub-emprego crónico de trabalho, embora não sub-emprego de
energia, o que não é a mesima coisa. Estudos recentes mostram que quanto
mais pequena é a propriedade maior é o número de homens-hora por unidade
de superfície. Que mais pode fazer um camponês? Dado que não pode
despedir os membros da sua família, quando não pode mandá-los arrendar
parcelas de uma grande propriedade tem que os ocupar de qualquer modo em
sua casa; em calão técnico, o seu objectivo é "maximizar o input de
trabalho mais do que maximizar o lucro ou qualquer outra indicação de
eficiência" (34).
32 Ver I. Biezunska-Malowist, "Die Expositio von Kindern ais Quelle
der Sklavenbeschaffung im griechisch-rõmischen Àgypten",
Jahrbuch filr Wirtschaftsgeschichte (1971) II 129-33.
33 S. H. Franklin, The European Peasantry: The Final Phase (Londres
1969), cap. 2. Diga-se que mesmo um orador ateniense do século IV
a.C. despreza, por ser pequena, uma propriedade de 5,5 hectares:
Isaeus 5.22.
34 Franklin, Peasantry pp. l e 19. Cfr. N. Georgescu-Roegen,
Analytical Economics (Cambridge, Mass., 1966) p. 371: "Durante os
anos 30, estudos feitos em vários países corn uma numerosa população
camponesa revelaram o facto espantoso de que uma proporção significa-
144
j

Esta ineficiência estrutural significava também a inacessibilidade ao


desenvolvimento tecnológico ou a qualquer outro melhoramento e a
importância dada às necessidades ida subsistência em detrimento de
formas alternativas de utilização de recursos. Bem podemos perguntar-nos
corn Plínio o Jovem (História Natural 18.187), por exemplo, até onde
podia um proprietário de 'dez jugera resistir a violar o sistema
tradicional de pousio alternado sem olhar às perniciosas consequências
para a fertilidade da sua terra. E podemos ter a certeza de que havia
uma diversificação das culturas à custa da especialização e dos seus
benefícios. A agricultura de subsistência é, por definição, uma
agricultura que não visa à produção para o mercado. O "mercado camponês"
típico era um lugar onde os camponeses (e sem dúvida os artesãos da
aldeia) se encontravam, vindos de um tfaio de 8 a 10 kms, de forma a
prover às suas necessidades pela troca directa; havia muito poucas
coisas que um camponês não podia produzir por si mesmo - uma relha de
arado de metal, por exemplo - quando tudo corria bem. A raridade das
moedas descobertas em áreas genuinamente rurais não é acidental (35).
Havia circunstâncias que podiam ter encorajado os camponeses,
especialmente os que se encontravam mais perto do limite superior das
possessões familiares, a dedicarem-se à produção para o mercado. Refiro-
me à presença próxima de grandes cidades (a não mais de 16 ou 20 kms),
de templos internacionais que atraíam visitantes e que precisavam de
fornecedores (como Olímpia ou Delfos) ou de campos militares mais ou
menos permanentes. Desconfio, no entanto, que as melhores terras assim
situadas teriam atraído os proprietários mais ricos, como os
proprietários de villas mencionadas por Varrão (De ré rústica 1.16.3),
corn os seus produtos especializados, e que era nestes estratos mais do
que entre os camponeses que
tua da população poderia desaparecer sem que isso resultasse
em qualquer diminuição do produto nacional."
35 Ver M. Crawford, "Money and Exchange in the Roman World", JKS 60
(1970) 40-48, esp. pp. '43-45.
145

os fornecedores da cidade-exército-templo se encontravam (36). No


solilóquio de abertura dos Acarnienses, de Aristófanes, o protagonista
lamenta a vida da cidade a que tinha sido temporariamente levado por um
exército espartano de saqueadores nos primeiros tempos da Guerra do
Peloponeso. Da sua cadeira na Assembleia, no altos do Pnix, pensa na sua
propriedade em Aeárnia e suspira pela sua aldeia onde "ninguém grita:
comprem carvão, vinagre, azeite, onde a palavra 'cornprar' é
desconhecida". Trata-se sem dúvida de uma hipérbole de poeta, mias não,
penso, de uma piada de autor cómico.
Não é de surpreender que o camponês antigo tenha estado sempre no limite
da segurança. Catão dava aos seus escravos mais pão do que aquele corn
que o camponês médio do Egipto greco-romano podia contar regularmente
(3T)- A única fonte normal de rendimento subsidiário para os camponeses
era o trabalho ocasional nas grandes propriedades vizinhas,
especialmente durante as colheitas: os escritores agrícolas romanos
aceitam, e mesmo exigem, em todos os seus cálculos a presença de tal
reserva de força de trabaliho. Além disso, numa sociedade pré-industrial
as oportunidades de emprego j a tempo parcial eram poucas e pouco
seguras. A marinha ateniense nos séculos V e IV a.C. constituiu a grande
excepção | e explica como Atenas se livrou, durante todo este período,
ide perturbações agrárias. Os exércitos romanos no período que antecedeu
as grandes campanhas no exterior foram talvez outra excepção, mas menos
significativa.
Há aqui um paradoxo. Quanto mais livres eram os camponeses antigos, mo
sentido político, mais precária era a sua posição. O cliente do período
arcaico ou o colonus do Baixo Império podem ter sido oprimidos de várias
formas, mas eram também protegidos pelo patrono contra a expropriação,
contra
36 Não considero as regiões marginais como as colinas pouco férteis
do Norte da Síria, onde uma monocultura de oliveiras foi desenvolvida
durante o Império Romano por camponeses cujo estatuto é incerto: G.
Tchalenko, Villages antiques de Ia Syrie da nord (3 vols., Paris
1953).
37 Ver as cifras em D. J. Crawford, Kerkeosiris pp. 129-
31.
146
l

duras leis de dívidas, e contra o serviço militar (que tantas vezes


levava a negligenciar as terras e daí à sua perda) (38). O camponês
genuinamente livre não estava protegido contra ma série de más
colheitas, contra o serviço militar compulsivo, contra as infinitas
depredações das guerras civis e estrangeiras. Por isso a variada
história das reacções do campesinato, desde a exigência de terras que
data da grande expansão grega iniciada no séc. VII a.C. até à ocupação
de propriedades (públicas ou pertencentes a templos) abandonadas ou
degradadas (39), à fuga das terras para as cidades ou bosques, à revolta
aberta; e no fim à aceitação da posição dependente que se tornou a regra
durante o Império Romano - uma história que, infelizmente, ainda está
por escrever.
O facto de os grandes proprietários fundiários estarem isentos dos
condicionalismos das crises era consequência da dimensão das suas posses
e reservas, e nalguns períodos, se bem que não em todos, da riqueza que
derivavam das suas prerrogativas políticas, mais do que de uma maneira
qualitativamente diferente de encarar os problemas e as possibilidades
da agricultura. A sucessão familiar e universal desempenhava o mesmo
papel nas suas vidas. Tinham uma paixão "camponesa" pela auto-
suficiência nas suas propriedades, por mais extravagantes que fossem as
suas despesas urbanas. Estavam igualmente manietados por uma tecnologia
limitada e relativamente estática, corn o ciclo de dois anos de pousio
na sua base, e pelos custos elevados dos transportes em terra. Estes
pontos têm que ser explicitados porque são repetidamente postos em causa
pelos investigadores modernos, não tanto pela evidência como por razões
psicológicas, por não acreditarem que os gregos e romanos tivessem sido
tão incapazes de melhora-
38 Os efeitos destruidores do serviço militar sobre o campesinato e um
dos temas principais de Brunt, Manpower; ver o seu resumo da questão às
pp. 130 e 155.
39 O caso mais conhecido é o da terra que pertencia a dois templos em
Heraclea na Itália meridional; ver, mais recentemente, A. Uguzzoni e F.
Ghinatti, Lê tavole greche d i Eraclea [Istituto di Stori Antica,
Univ. de Pavia, Pubblicazioni 21." 7 (1968)].
147

mentos tão "simples". Houve melhoramentos duma espécie ou idoutra


durante a antiguidade, especialmente no período clássico romano, na
drenagem e irrigação, nos instrumentos e nas mós, na selecção de
sementes, etc., mas enam marginais pois, como diz a principal autoridade
contemporânea em agricultura romana, "os modelos de utilização da terra
e os métodos de cultivo não se modificaram. Tal como na indústria antiga
enfrentavam-se as novas necessidades através da transferência de
técnicas antigas" (40). Mas não há mistério algum sobre esta
"estagnação", não há razões sérias de descrença: os rendimentos altos, o
absentismo e a correspondente psicologia da vida ociosa, da propriedade
de terras como uma "não-ocupação" e, onde estes tinham lugar, o
arrendamento ou sub-arrendamento em parcelas fragmentadas, tudo se
combinava para bloquear qualquer procura de melhoramentos radicais (41).
Quanto ao objectivo da auto-suficiência, não se tratava nem de um juízo
de valor arcaízante (de um Platão por exemplo) nem de uma mera piada de
Trimalcião. A este nível estamos, é claro, a considerar propriedades que
eram cultivadas para rendimento em dinheiro e não para subsistência. Por
isso, a importância dada .a qualquer medida que evitasse o dispêndio na
compra de esteios para as vinhas, ferragens para os animais, vinho ou
qualquer outra coisa requerida pelo cultivo do solo e conservação da
força de trabalho tem que ser explicada dentro de um quadro de procura
de lucros. Nada havia de arcaico ou imoral em homens que armazenavam os
produtos, antecipando ou esperando uma alta de preços; que se davam ao
trabalho de recomendar a venda de gado e escravos
40 K. D. White, Roman Farming (Londres 1970) p. 452: ver a recensão de
P. A. Brunt, JRS 62 (1972) 153-8. Cfr. Jardé, Céréales p. 194: "A
agricultura grega em geral, e o cultivo de cereais em particular, quase
não sofreram modificações nos tempos históricos. É por causa de uma
ilusão... que alguns têm representado a agronomia grega como tendo
estado em progresso contínuo."
41 Tentei desenvolver esta análise em "Technical Innovation". Cfr.
H. W. Pleket, "Technology and Society in the Graeco-Roman World",
Acta Historiae Neerlandica 2 (1967) 1-25, originalmente publicado em
holandês em Tijdschrift voor Geschiedenis 78 (1965) 1-22.
148

fatigados, de velhos carros e instrumentos estragados, ovelhas


defeituosas e escravos doentes. Catão encerrou ,a sua exortação corn a
máxima (De agricultura 2.7). "Um paterfamilias deve ser um vendedor, não
um comprador". Este juízo é menos moral que económico (na nossa
linguagem), embora eu duvide que Catão tivesse compreendido muito bem a
diferença. Uma longa passagem num romance russo do século XIX não
constitui, em sentido estrito, fonte de informações a respeito do
pensamento antigo, mas pergunto-me se a psicologia a este respeito era
suficientemente diferente para não me permitir citar uma parte dela:
"Os pais de Oblomov poupavam até ao máximo qualquer artigo que não era
fabricado- em casa e tinha que ser comprado. Matavam alegremente um
óptimo peru ou uma dúzia de frangos para honrar um hóspede, mas nunca
punham uma passa a mais num prato e empalideciam quando o seu hóspede
ousava encher outro copo de vinho. Tal depravação, contudo, era uma
ocorrência rara em Oblomovka... Em termos geraisi, não gostavam de
gastar dinheiro em Oblomovka e por mais necessária que fosse uma compra
o dinheiro para ela era entregue corn o maior desgosto e só se se
tratasse de uma soma insignificante. Pagar 200, 300 ou 500 rublos de uma
só vez, por muito necessário que fosse, parecia-lhes quase um suicídio.
Tendo ouvido dizer que um jovem proprietário local tinha ido a Moscovo e
comprado uma dúzia de camisas por 300 rublos, um par de botas por 25
rublos e um casaco para o seu casamento por 48 rublos, o pai de Oblomov
benzeu-se e disse, corn um ar horrorizado, que 'tal patife devia ser
preso'" (42).
O torn moral é evidente e deve ter-se em conta a diferença entre um
senador romano, residente e politicamente activo na capital, e a pequena
nobreza russa enfiada nas suas propriedades. O que me interessa,
contudo, é outro aspecto, salientado pelo romancista, que escrevia num
momento de transição entre duas formas de vida na Rússia, quando
conclui:
42 I. Goncharov, Oblomov, trad. D. Magerschack (Penguin 1954) PP-
128-9.
149

"Eles eram, em geral, impermeáveis às verdades económicas sobre o


carácter desejável de uma circulação rápida do capital, de um aumento da
produção e da troca de mercadorias". Catão não era impermeável a tais
"verdades económicas"; nunca ouvira falar delas. Não havia ninguém, no
seu mundo, que as sugerisse ou as defendesse. Faltando-lhes as técnicas
de calcular e depois de escolher entre as várias opções, por exemplo os
méritos económicos relativos entre produzir ou comprar a cevada para os
escravos e as estacas para a vinha; faltando-Ihes as técnicas para
calcular a rentabilidade relativa, em certas condições, de um ou de
outro cereal, ou da agricultura e das pastagens (43); apreciando a
independência em relação ao mercado como compradores, a independência em
relação aos outros quanto às suas próprias necessidades, os
proprietários fundiários da antiguidade funcionavam por tradição, por
hábito e por regras empíricas, uma das quais era que "um paterfamilias
deve ser um vendedor, não um comprador" (44). Há um famoso exemplo desta
maneira de ver as coisas no manual de Catão (1.7), quando ele enuncia
por ordem decrescente de importância os produtos de uma exploração ideal
de 100 jugera: vinho, fruta e legumes, salgueiros, azeitona, pasto,
cereais, floresta para forragem e bolota. O trecho é célebre pela razão
errada: é geralmente citado como fornecendo uma imagem geral das
realidades da agricultura italiana no séc. II a.C. quando deveria ser
citado como prova do absurdo do que passa por ser a análise económica
das fontes antigas. Não preciso de enumerar as fraquezas do argumento:
não consideração da localização da exploração em relação aos mercados
disponíveis ou às possibilidades de exportação; nada a
43 Sobre as insuficiências da técnica contabilística, ver G. Mickwitz,
"Economic Rationalism in Graeco-Roman Agriculture", English Historical
Review 52 (1937) 577-89, e "Zum Problem der Betriebsfsfúhrung in der
antiken Wirtschaft", Viertelsjahrschrift fiir Sozial- una
Wirtschaftsgeschichte 32 (1939) 1-25; G. E. M. de Ste. Croix, "Greek and
Roman Accounting", em Studies in the History of Accounting, org. A.C.
Littleton e B. S. Yamey (Londres 1956) pp. 14-74.
44 Ver também Varrão, De ré rústica 1.22.1; Plínio, História
Natural 18.40.
150

respeito da natureza do solo além desta simples frase, "se o vinho for
born e a colheita grande"; nenhuma contabilidade de custos mesmo de
natureza rudimentar *.
Nem toda a gente era Catão. Havia outras noções da melhor utilização das
terras e dos seus produtos, mas obedeciam a critérios] sociais e
políticos, não económicos. Havia o método de Péricles, de vender toda a
produção por grosso para ter tempo disponível para a actividade
política. Havia o rival político inicial de Péricles, Cimon, que,
segundo nos diz Aristóteles (Constituição de Atenas 27.3-4), "sustentava
muitos dos membros do seu próprio demo, cada um dos quais podia vir
todos os dias receber dele o necessário para o seu sustento. Além disso,
nenhuma das suaa propriedades era vedada, de tal forma que quem quisesse
podia colher dos seus frutos". Este era um precedente rudimentar do
sistema altamente desenvolvido da clientela dos últimos séculos da
República Romana, quando homens como Pompeu e Ahenobarbo apreciaram a
vantagem de sustentar grandes reservas de homens para os seus votos e,
por fim, para os utilizar como soldados.
Evitei, até agora, falar de economias de escala não porque não
existissem mas porque, a meu ver, eram rudimentares, embora deva admitir
que não há uma base firme para qualquer conclusão. Nas condições
antigas, a consolidação das parcelas de terra em extensões grandes e
contínuas não implicava automaticamente economias de escala,
particularmente onde os escravos eram a principal força de trabalho. Há
razões para acreditar, pelos indícios nas obras de agrónomos e
agrimensores, que 200 jugera eram considerados o máximo que um único
feitor podia administrar. Mas podiam encontrar-se no Império
propriedades muito maiores. No Norte de África, a acreditar no sóbrio
Frontino, escritor dos fins do século I d.C.,
Não estou a sugerir que Catão fosse completamente imbecilEm 1.3 ele diz
que um born abastecimento de água e acesso ao mar, no ou estrada são
factores a considerar na compra duma quinta. Mas mantém-se o facto de a
sua lista de produções ignorar tudo sobre isso, para não falar já das
variações de solo entre os vários distritos.
151

havia propriedades maiores que territórios municipais inteiros, onde a


força de trabalho era suficientemente grande para viver em aldeias
(vici) que rodeavam a villa como muralhas (in modum munitionum) (45). E
os territórios recentemente adquiridos no Ocidente estavam obviamente
abertos à ocupação romana em grandes extensões. Por exemplo, a
propriedade de Montmaurin, perto de Toulouse, recentemente escavada,
tinha possivelmente 1000 hectares de terra cultivada administrados a
partir de um complexo de construções cobrindo 18 hectares, no qual se
alojavam o villicus e os seus trabalhadores, e aparentemente também o
proprietário, e onde se guardavam os animais e o equipamento, se
armazenavam os produtos e se exerciam todas as actividades auxiliares.
Construída nos meados do séc. I d.C., esta villa prosperou até fins do
séc. II, data em que foi devastada por uma inundação e nunca se
reconstruiu como uma única unidade de produção (46).
Nas partes do Império de há muito civilizadas, em contraste, a tendência
para a acumulação de terras não parece ter sido acompanhada por um
esforço adequado de unificação em grandes explorações. Embora haja
alguns exemplos de
45 Gromatici veteres, edição de C. Lachmann (Berlim 1848) p. 53.
46 Fouet, Villa de Montmaurin pp. 32, 43-46, 291. A propriedade em
Chiragan pode ter sido sete ou oito vezes mais extensa, corn alojamento
para cerca de 500 pessoas; a propriedade em Anthée na província de
Namur, Bélgica, incluía uma grande villa e outros vinte prédios, alguns
dos quais obviamente corn fins industriais, dentro de um recinto murado
de cerca de 12 hectares: Grenier, Manuel II ii pp. 843-58, 888-97.
Muito recentemente, fotografias aéreas na bacia do Somme, no Norte da
França, revelaram centenas de grandes villas, até agora ignoradas e não
imaginadas, a uma distância de cerca de
2 Km. umas das outras, aparentemente dedicadas à produção de trigo e à
criação de ovelhas: R. Agache, Détedion aérienne de vestiges
proíohisíoriques gallo-romains et médiévaux... [Bulletin de Ia
Société de Préhistoire du Nord, n.° especial 7 (1970)] cap. 4 e os
mapas às pp. 185-6 das ilustrações. Para as maiores propriedades na
Bretanha, ver Applebaum, em Agrarian History pp. 240-4, 266-7. A
palavra villa, tal como é utilizada por arqueólogos e historiadores,
perdeu a sua especificidade (e já a tinha perdido entre os romanos:
Varrão, De ré rusttica 3.2), mas no actual contexto o seu significado é
claro.
152

ropriedades como a massa Calvisiana no sul da Sicília, que nos


princípios do século in se estendia por cerca de 16 quilómetros na
margem este do rio Gela, não havia aparentemente relutância em dividir
as massae e os fundi quando surgia uma ocasião ("). Isto sugere a pouca
importância atribuída às economias de escala e creio que as propriedades
dispersas de Herodes Ático representavam o modelo mais comum. Anos
antes, dois ricos clientes do jovem Cícero possuiam numerosas quintas,
cada uma das quais era considerada uma unidade de exploração: os bens de
Aulo Cecina incluíam mesmo duas quintas adjacentes! trabalhadas
separadamente, uma das quais pelo menos entregue a um rendeiro; Sexto
Róscio, de Améria, no extremo sul da Úmbria, possuía treze unidades e
todas no vale do Tibre (4S).
Não podemos também ignorar a ausência de referências .a economias de
escala nos escritores desse período. Quando Trimalcião diz,
frivolamente, querer juntar a Sicília "aos meus pedacitos de terra" as
suas razões podem não ter muito peso, mas é mais difícil pôr de parte
uma das cartas de Plínio (3.19). Uma propriedade confinante corn uma das
suas -na Úmbria estava à venda a um preço convidativo devido à má
administração do proprietário e dos seus rendeiros. Plínio pensava
cornprá-la. A primeira vantagem seria a sua amenidade (pulchri-
47 Ver D. Adamesteanu, "Due problemi topografici dei retroterra
gelese" [Accademia nazionale dei Lincei, Rendiconti delia Classe di
scienze morali, 8.a ser., 10 (1955)] 198-210; P. Orlandini, "Lo scavo
dei thesmophoríon dí Bitalemí e il culto delle divinità ctonie a Gela",
Kokalos 12 (1966) 8-35; Finley, Anciení Sicilg to the Arab Conquest
(Londres e Nova Iorque 1968) pp. 158-62.
48 As passagens-chave são Oração para Aulo Cecina 11, 21, 94, e Oração
para Sexto Róscio 20. Cícero refere-se repetidamente à quinta
individual como um fundas (e.g. Sobre oratória 1.58.249), que é um
termo técnico para uma unidade de exploração; ver A. Steimventer, Fundus
cum instrumento [Akad. d. Wissenschaften in Wien, Phil.-hist. Klasse,
Sitzungsberichte 221, n.° l (1942)] pp. 10-24. Não consigo resistir a
mais um exemplo, as terras muito dispersas da talvez mais rica família
de Antioquia no século IV d.C.; ver Liebeschuetz, Antioch p. 42 e
nota 2.
153

tudo). Havia também vantagens práticas: as duas propriedades podiam ser


visitadas no mesmo dia, ambas podiam ser entregues a um mesmo procurator
(agente) e talvez mesmo a um único actor (feitor), bastaria manter uma
casa de campo no padrão apropriado a uma estadia ocasional de um
senador. No lado negativo, acrescenta, há os riscos de entregar duas
propriedades aos mesmos "azares da sorte" (incerta fortunae), o tempo,
por exemplo.
Qual é o seu conselho?, perguntava Plínio ao seu correspondente, embora
não lhe prestasse nenhuma das informações j que se podiam esperar, nem
as dimensões da propriedade, nem
( ( os totais das rendas, nem pormenores sobre a produção. As
vantagens esperadas eram principalmente psicológicas; à parte l os
feitores não há o menor indício das possíveis economias de
escala que adviriam ou poderiam advir da unificação de duas propriedades
adjacentes, muito menos qualquer consideração M de reorganização da
produção, por exemplo corn vista a uma
maior diversidade ou maior especialização, ou da utilização l J mais
eficiente da força de trabalho.
j A direcção e o controle do trabalho era um tema sempre
j presente em 'qualquer obra antiga que se ocupasse da admi-
1 nistração de propriedades (mesmo em regime de arrendamen-
to), obviamente pelo facto de o grande proprietário fundiário l típico
ser um proprietário absentista. Contudo, a preocupação
era sobre a honestidade dos trabalhadores, honestidade na ple: na
utilização do tempo de trabalho e no tratamento dos dinhei-
ros e dos bens, mais que na melhoria qualitativa da eficiência ! da
força de trabalho pela utilização de melhores métodos de
;'ij lavoura ou pela introdução de instrumentos que ajudassem a
l poupar trabalho. Ela representa o ponto de vista do polícia,
! não o do empresário. Estudos modernos revelam que "o pro-
prietário absentista é urna garantia de que os métodos de lavoura
tradicionais são firmemente conservados mesmo que antiquados" (49). Os
métodos tradicionais permitiam afinações
49 E. Feder, "Latifundia and Agricultural Labour in Latin America",
em Shanin, Peasants pp. 83-97, à p. 88.
154

técnicas (5e) -ist° deve ser dito e repetido- mas normalmente não iam
mais longe. Por isso as economias de escala eram uma possibilidade
realista para esses homens cujas propriedades eram hipoteticamente
suficientemente grandes e continuavam a aumentar.
O arrendamento, a tão discutida alternativa ao latifúndio de escravos
(51), era pior neste aspecto por causa dos efeitos limitativos idos
arrendamentos de curto prazo e dos ciclos domésticos. Quem eram os
rendeiros, ao fim e ao cabo? Os arrendamentos de grandes unidades
conhecidos são, corn excepções, só de terras públicas, principalmente
nos domínios africanos dos imperadores romanos, que estavam subdivididos
em pequenas parcelas, de forma que os rendeiros chefes eram, de facto se
não de lei, agentes imperiais e administradores, mais que .agricultores
em grande escala. Generalizar a partir dos domínios africanos, como se
tornou prática normal, é falsear a situação na Itália e na Sicília, na
Grécia e no leste helenístico e talvez, também, em Espanha e na Gália
(como é fal-
50 Ver as informações reunidas por A. G. Drachmann, Ancient OU Mills and
Presses (Copenhague 1932).
51 Para o que se segue ver agora o meu "Private Farm Tenancy in Italy
before Diocletian", em Finley, Roman Property cap. 6. Não hesito em
utilizar a palavra latifúndio no sentido genérico de "grandes
propriedades", como julgo terem feito os próprios romanos, apesar das
tentativas de dar ao termo um sentido técnico, e.g. por K. D. White,
"Latifundia", Bulletin do London Institute of Classical
Studies 14 (1967) 62-79; ou por René Martin, "Pline lê Jeune", e -
várias vezes
em Recherches sur lês agronomes latins et leurs conceptions économiques
et sociales (Paris 1970), na base de cálculos de superfície infundados
(ver acima, nota 7). A tão citada afirmação de Plínio o Velho (História
Natural 18.35) de que "os latifundia estão a destruir a Itália" não
passa de moralismo arcaizante (cfr. o contemporâneo Séneca, Sobre
Benefícios 7.10.5, onde por acaso a palavra latifundia não é usada), uma
lamentação pelo desaparecimento do campesinato independente e dos bons
velhos tempos. Não encontro nada nos textos que sugira a existência de
uma discussão séria da alternativa entre a exploração extensiva em
grande escala e unidades mais fragmentadas. Ao contrário de Martin,
"Pline lê Jeune", p. 67, não considero que a hesitação de Plínio o Jovem
em arriscar-se corn duas propriedades sujeitas aos mesmos azares do
clima seja uma discussão séria.
155

só, no outro extremo da escala, generalizar a partir dos fellahin


egípcios, ptolomaicos ou romanos). A propriedade adjacente que Plínio
pensava comprar tinha sido trabalhada (mal) por rendeiros, no plural, e
esta era seguramente a norma clássica nas terras privadas. Era um caso
de conveniência: não se podia viajar para Roma ou outra grande cidade e
simplesmente apanhar homens válidos financeira e profissionalmente para
lhes confiar grandes arrendamentos. O rendeiro normal era um homem corn
poucos recursos e sem terra própria, um camponês fracassado, um filho
"supérfluo" de camponês ou um camponês desalojado, como o Ofelo de
Horácio (Sátiras 2.2) - e este pensava, necessariamente, enquanto
camponês, numa propriedade de tamanho adequado a uma família; eis porque
razão Horácio usa a palavra paires (Epístolas 1.14.3) quando fala dos
seus próprios rendeiros (52).
Em arrendamentos de áreas maiores os prazos curtos constituíam um tnavão
aos melhoramentos e às economias de escala. Um exemplo particularmente
dramático é-nos dado pelas vinte quintas que pertenciam ao tempo de
Apoio em Delos e em duas ilhas próximas. Eram unidades relativamente
grandes, arrendadas a membros ricos da sociedade de Delos e trabalhadas
por escravos; <a melhor delas rendeu, no seu melhor período, a elevada
quantia de 1650 dracmas por ano. Mas o prazo era ide dez anos e, embora
o aluguer fosse renovável pelo rendeiro, as informações pormenorizadas
que se estendem por um longo período, entre 313 e 170 a.C., mostram que
os rendeiros só faziam o que lhes era exigido, quer dizer, entregavam a
propriedade corn o mesmo número de oliveiras, figueiras e cabeças de
52 A quinta de Horácio, na Sabina, que lhe foi oferecida por Mecenas,
estava subdividida num sector que ele explorava directamente corn um
pessoal permanente de oito escravos, sob as ordens de um feitor, também
escravo, e cinco outros sectores alugados a rendeiros; ver Heitland,
Agrícola, pp. 215-6. A propriedade fornecia a Horácio um rendimento
suficiente para viver em Roma decentemente mas segundo os padrões da
alta sociedade da época - modestamente. Nem sequer era um "gentleman
farmer", e é uma estranha aberração da parte de Rostovtzeff, RE p. 59,
escrever que Horácio "pertencia portanto à mesma categoria de
proprietários que os veteranos".
156

gado que tinham recebido, nem mais nem menos (53). Arrendamentos de dez
anos não são um incentivo aos melhoramentos mesmo corn quintas deste
tamanho e seguramente menos ainda corn parcelas mais pequenas,
tipicamente familiares. Os projectos de recuperação de novas terras
resolviam normalmente essa dificuldade pelo recurso a arrendamentos
perpétuos, nomeadamente nos domínios imperiais, mas a tradição e o peso
das pequenas parcelas familiares também em breve lhes pôs um travão.
Estamos assim novamente perante a questão fundamental da opção que tem
sido repetidamente levantada neste estudo. Não duvido que Columela, por
exemplo, apesar das suas limitações, podia ter feito a simples
computação aritmética necessária para revelar as economias possíveis de
uma escala de exploração alargada. Por outras palavras, não se tratava
de uma questão intelectual. Em linguagem moderna, "o ponto crítico no
espectro do dimensionamento agrário" é determinado por uma combinação de
factores sociais e económicos, na ausência dos quais a aritmética não
tem sentido (54). A poderosa influência da unidade doméstica camponesa,
as atitudes em relação ao trabalho e à administração, o fraco mercado
urbano, os lucros satisfatórios do regime agrícola existente, talvez as
dificuldades inerentes à organização e administração de uma força de
escravos muito grande - assunto que ainda é mais difícil de examinar
concretamente, através das informações antigas, do que a rentabilidade
do trabalho escravo
53 Ver J. H. Kent, "The Temple Estales of Delos, Rheneia, and Mykonos",
Hesperia 17 (1948) 243-338.
54 Ver P. A. David, "The Mechanization of Reaping in the Ante-Bellum
Midwest", em Industrialization in Two Systems: Essays...
Alexander Gerschenkron (Nova Iorque 1966) pp. 3-39, reeditado em B. W.
Fogel e S. L. Engermann (orgs.), The Reinterpretation of
American Economia Histori; (Nova Iorque 1971) pp. 214-27. Grande parte
da actual controvérsia sobre a antiga "ceifeira gálica" não me parece
levar em conta as implicações da noção de ponto liminar; ver K. D.
White, "The Economics of the Gallo-Roman Harvesting Machines", em
hornmages à Mareei Renard 2 (Bruxelas 1969) pp. 804-9; Agricultural
Implements of the Roman World (Cambridge 1967) cap. 10.
157

- tudo servia para desencorajar a mudança. Por muito que Plínio se


queixe de complicações corn os rendeiros, cujas dificuldades são
bastante compreensíveis, ele "nunca teve falta de dinheiro durante estes
anos" (55). Nem os seus parentes: a sua carta sobre a propriedade na
Úmbria termina assim: "Perguntará se eu poderei arranjar facilmente os
três milhões de sestércios. A maior parte da minha fortuna está em
terras mas tenho dinheiro emprestado e não me será difícil contrair um
empréstimo. Além disso posso sempre contar corn o dinheiro da minha
sogra, que posso utilizar tão livremente como
o meu".
Mais uma vez voltamos a Trimalcião para saber a verdade crua. O grande
banquete é subitamente interrompido pela chegada de um secretário que lê
o relatório de 26 de Julho: na propriedade de Cumes, nasceram setenta
crianças escravas, foram amansados 500 bois, um escravo foi crucificado
por blasfémias, "dez milhões de sestércios foram guardados no cofre por
não haver onde investi-los" (Satyricon 53.3). Para os homens corn cuja
posição social Trimalcião se identificava, havia três lugares para a
riqueza: na terra, em empréstimos corn juros a curto prazo, ou num
cofre. Talvez seja exagero: havia também riqueza em navios,
arrendamentos urbanos, armazéns, artífices escravos e matérias-primas,
mas representavam uma pequena fracção da riqueza da elite e não
introduziam qualquer diferença significativa no pensamento "económico" .
Falamos então do seu "investimento de capital" e da terra como seu
"investimento preferido" (56). Há nesta frase alguma
55 Sherwin-White, Pliny p. 258. ;
56 A melhor tradução inglesa das Epístolas de Plínio, por Betty Radice
(nas colecções Penguin Classics e Loeb Classical Library), traduz as
frases-chaves de 3.19 da seguinte maneira: "É verdade que quase todo o
meu capital está em terras, mas tenho alguns investimentos e não me será
difícil conseguir um empréstimo. Posso sempre conseguir dinheiro de
minha sogra, cujo capital posso usar tão livremente como o meu." (As
palavras sublinhadas podem ser comparadas corn a tradução mais literal
que proponho mais acima no texto.) O comentário de Sherwin-White, Pliny
p. 259, "Ele pode pagar uma boa parte do
158

verdade, mas ela nem é toda a verdade nem nada mais que a verdade porque
não transmite ao leitor moderno a muito grande componente não-económica
na preferência. Para começar há a ausência completa do conceito de
amortização (57). No sée. W a.C., quando o orador ateniense Demóstenes
atingiu a maioridade levantou um processo aos seus tutores para
recuperar a sua herança. Perante os jurados, dividiu a propriedade
registada no testamento de seu pai em dois capítulos: 1) a parte activa
(energa), que incluía 32 ou 33 fabricantes de espadas escravos, que
rendiam 3000 dracmas por ano; mais vinte escravos fabricantes de móveis
que rendiam 1200 dracmas anualmente; e 6000 dracmas emprestadas a 12%;
2) a parte inactiva: matérias-primas existentes à morte de seu pai, nove
anos antes, valendo 15 000 dracmas; a casa, que valia 3000; os móveis e
as jóias de sua mãe; 8000 dracmas em dinheiro num cofre guardado em
casa; um empréstimo marítimo de 7000 dracmas e 4600 em depósito em dois
bancos e corn um parente. Isto representa uma concepção extraordinária
do "capital", que se torna ainda mais extraordinária quando se analisa
em pormenor a queixa efectiva contra os tutores, que ignora a
amortização e a depreciação e assume dados imutáveis para a produção
anual, taxa de lucro e rendimento (5S). Era, no entanto, uma
apresentação normal na antigui-
preço reavendo os seus empréstimos, e poderá mais tarde pagar o que
precisa de pedir emprestado poupando nos seus rendimentos", é não só
fantasioso como incompreensível.
57 Ver Mickwitz, "Betriebsfiihrung" pp. 21-22. É surpreendente que
Mickwitz, que fez um excelente uso comparativo do material
hanseático e da Renascença italiana, não tenha consultado as fontes
americanas e tenha portanto acreditado que a mera presença de escravos
excluísse o conceito de amortização.
58 O texto principal é Demóstenes 27.9-11, mas é preciso estudaias duas
orações, 27 e 28, na íntegra para se poder apreciar todas as
implicações. Sobre as várias tentativas despropositadas de converter as
contas de Demóstenes em processos comerciais modernos aceitáveis, ver
F. Oertel, "Zur Frage der attischen Grossindustrie", Rheinisches
Museum 79 (1930) 230-52, reeditado no seu Kleine Schriften... (Bona
1975) pp. 184-204; J. Korver, "Demonsthenes gegen Aphobos",
Mnemostjnc, 3." ser., 10 (1941/2) 8-22.
159

dade, incluindo a amálgama entre bens pessoais e familiares (as jóias da


mãe) e bens de negócios (as matérias-primas). Demóstenes ganhou o
processo.
Foi propositadamente que escolhi, como primeiro exemplo, um negócio
urbano onde se poderia esperar encontrar uma contabilidade mais
sofisticada. Se examinarmos agora o texto que é regularmente citado
pelos historiadores modernos como sendo a melhor e mais segura análise
antiga do rendimento agrícola em Itália, a exploração vitícola modelo de
7 jugera, (1,8 ha.) descrita por Columela, quase contemporâneo de Plínio
(3.3.8-10), descobrimos que, embora ele leve em conta o preço de compra
da terra, do escravo podador das vinhas e esteios, assim como a perda do
rendimento de dois anos enquanto as novas vinhas crescem, ele esquece os
prédios rústicos, o equipamento, a terra complementar (para cereais, por
exemplo), os custos de manutenção idos seus escravos, a depreciação e a
amortização (39). Mesmo levando em conta a intenção polémica do seu
texto, o rendimento anual de 34% que se pode derivar da sua análise não
tem qualquer sentido ou fundamento e temos que concluir que se tratava
de iim mero exercício superficial e rotineiro e que os grandes
proprietários fundiários operavam exclusivamente corn base em
conhecimentos empíricos, reforçados pelas pressões sócio-psicológicas
derivadas do próprio facto de se ser proprietário de terras. Plínio não
calculou, nem afirmou, que a segunda propriedade na Úmbria produziria um
rendimento mais elevado que os empréstimos que teria de fazer para
cobrir o preço de compra. Falava apenas do que ganharia em pulchritudo.
O investimento na terra, em resumo, nunca foi na antiguidade uma questão
de decisões sistemáticas e calculadas, daquilo a que Weber chamava
racionalidade económica C50).
59 Ver a análise detalhada de Duncan-Jones no seu Economy.
60 Devo ser claro quanto à fundamentação dos parágrafos que se seguem.
Por incrível que pareça, não há qualquer estudo sistemático (e quase não
há estudos tout court) da compra e venda de terras na antiguidade,
exceptuando a lei da venda, que é de interesse apenas marginal. Sinto-me
à vontade apenas no que diz respeito a Atenas, graças ao meu
IbO

Não havia um conceito claro da distinção entre custos de capital e


custos de trabalho, nenhum reinvestimento planeado dos lucros, nenhuns
empréstimos a longo prazo para fins produtivos. Neste contexto, seria
difícil exagerarmos a importância dos empréstimos a curto prazo (tal
como dos arrendamentos de curto prazo). De uma ponta à outra da
antiguidade podem contar-se pelos dedos os exemplos conhecidos de
empréstimos sobre propriedades para fins de compra ou de melhoramentos.
A hipoteca era uma desgraça ("hipotecar o velho lar"), um empréstimo
pessoal a curto prazo destinado a "cobrir deficiências no abastecimento
em géneros necessários ocasionadas geralmente por alguma emergência que
provocou exigências inesperadas sobre os recursos da pessoa que pede o
empréstimo" (ei), não uma forma deliberada para levantar dinheiro a
baixo juro para investir a um juro mais alto, a principal função da
hipoteca nos negócios modernos. Entre os homens corn bens estas despesas
eram de ordem familiar (um dote para a filha), sumptuária ou política,
ou uma combinação destas três. Às vezes tais gastos acarretavam, como
vimos, grandes compensações, mas que não eram de forma alguma o
rendimento dum investimento em propriedades.
Não é portanto surpreendente não haver um mercado da propriedade
imobiliária reconhecível nem uma profissão de agente imobiliário ou de
agente de vendas. A língua grega, tal como o alemão moderno, presta-se à
criação de nomes cornpostos, dos quais se recolheram mais de cem
combinações
Land and Credit; quanto ao resto, baseio-me numa já longa familiaridade
corn as fontes e naquilo que se pode depreender, geralmente de forma
negativa, de obras como Frank, Survey; Heitland, Agrícola; G. Billeter,
Geschichte dês Zinsfusses im griechisch-rõmischen Alterhim (Leipzig
1898); E. Ziebarth, Das griechische Vereinswesen (Leipzig
1896); F. Poland, Geschichte dês griechischen Vereinswesens (Leipzig
1903); J. Waltzing, Étude historique sur lês corporaiions
professionelles c/iez lês Romains (2 vols. Lovaina 1895-6); Jones, LRE.
61 Cito de H. Sieveking, "Loans, Personal", em Encyclopaedia of the
Social Sciences 9 (1933) pp. 561-5, à p. 561, para chamar a atenção para
esta breve mas valiosa análise do papel económico, social e histórico do
empréstimo pessoal ou de consumo.
161

conhecidas contendo a palavra "vendedor": "vendedor de cereais",


"vendedor de perfumes", invenções cómicas como o "vendedor de decretos"
de Aristófanes, mas não há uma única menção de "vendedor de terras",
"vendedor de casas", "vendedor de propriedades" (62). Tampouco havia uma
palavra para "intermediário" (6S). E o mesmo é válido para o latim.
Quando Plíno foi mandado para a Bitínia, na Ásia Menor, pelo imperador
Trajano, provavelmente em 109 ou 110 d.C., para pôr em ordem a confusão
financeira e a extravagância das ricas cidades dessa província, relatou
(Epístolas 10.54) que, tendo conseguido colectar somas consideráveis
numa só cidade, provavelmente Prusa, "Temo que o dinheiro fique parado,
porque a oportunidade de comprar propriedades é inexistente ou quase, e
não se podem encontrar pessoas que queiram pedir emprestado à
municipalidade, especialmente aos
9% que é o juro para empréstimos privados". Propunha que os conselheiros
da cidade fossem obrigados a contrair empréstimos a um juro mais -baixo.
Trajano rejeitou prontamente a sugestão considerando-a "injusta". Devem
notar-se três coisas. A primeira é a trindade habitual, dinheiro em mão,
em terras ou em empréstimos. A segunda é que nem a cidade nem o
imperador viam qualquer coisa de impróprio em permitir que o dinheiro
ficasse parado. A terceira é a não disponibilidade de terras para
compra.
Não é totalmente clara a forma como Plínio descobriu que não havia
terras à venda. Sugiro que a resposta é que o soube através dos rumores
típicos de uma cidade pequena em qualquer sociedade mediterrânica, mais
particularmente dos rumores entre os próprios aristocratas municipais
sobre os quais se preparava para impor os empréstimos. O equestre
62 F. M. Heichelheim, An Ancient Economic History, trad. Joyce Stevens,
vol. 2 (Leiden 1964) pp. 66-7.
63 O léxico Liddell-Scott-Jones traduziu irpoTcwXvi^ como "alguém que
compra para outro ou negoceia uma venda, um intermediário." Apesar de
ter sido provado por J. Partsch, em Griechisches Burgschaftsrechí
(Leipzig e Berlim 1909), e posteriormente por outros, que isto é falso,
o erro não foi corrigido no suplemento de 1968. A tradução correcta é
"fiador". , >••
102

romano Gaio Cânio, que desejava comprar uma propriedade de férias em


Siracusa, "fez corn que se soubesse" (dictab&t), diz Cícero (De oficiis
3.58), que estava interessado em cornprar. Os rumores chegaram a um
banqueiro local que fraudulentamente vendeu a Canius o seu próprio
hortulus na costa por um preço exorbitante. A compra normal de terra na
antiguidade fazia-se, sugiro ainda, por acaso inesperado (o que não quer
dizer que os acasos fossem raros). O próprio Plínio não andava à procura
de uma propriedade quando lhe apareceu a quinta na Úmbria e não estava
seguramente sobrecarregado por dinheiro parado, visto que tinha que ir
pescar no cofre da sogra para poder efectuar a compra. Terra abandonada,
vendida por uma ninharia por causa de negligência, devastação de guerra
ou má sorte de alguém, era um desses acasos. Um acaso mais significativo
era a terra confiscada, como o ager publicus romano, quer confiscado a
indivíduos por acções judiciais, autorização imperial ou tomado a grupos
ou a comunidades em guerras civis ou de conquista. E temos também que
incluir, sempre que as circunstâncias são propícias, a terra extorquida
aos camponeses através de empréstimos de usura, confiscações ilegais ou
"protecção" (64).
Crises ou pressões políticas podiam, é claro, ter o efeito contrário de
provocar um rápido aumento no preço da terra. Um desses exemplos, a
consequência da marcha de César sobre Roma em 49 a.C., é brevemente
analisado no capítulo V. Outro exemplo passou-se no princípio do século
n d.C. e é descrito por Plínio numa das suas cartas (6.19):
"Ouviste falar no aumento do preço da terra, principalmente nos
arredores de Roma ? A razão do súbito aumento tem dado lugar a muita
discussão. Nas últimas eleições, o Senado exprimiu a opinião de que os
candidatos deviam ser proibidos de fornecer divertimentos, distribuir
presentes e depositar dinheiro através de agentes. As duas primeiras
práticas eram feitas sem restrições ou segredos e a terceira fazia-se
secretamente mas era do conhecimento geral". Pediram ao Impera-
64 Ver e.g. Brunt, Manpower, apêndice 8.
163

dor Trajano que desse remédio ao mal. "E ele fê-lo aplicando a lei
contra o suborno para forçar os candidatos a limitar as | suas despesas
escandalosas; e compeliu-os também a coneen-
I trar um terço do seu património em bens imobiliários consi-
í derando ser pouco digno (como realmente era) que os can-
I i didatos tratassem Roma e Itália não como o seu país natal,
mas como uma mera estalagem ou pensão quando das suas i visitas.
Consequentemente, os candidatos andam agitados, ten-
tando comprar tudo o que se diz estar à venda e aumentando assim o
potencial vendável" (65).
Trata-se de um exemplo nítido de uma sorte inesperada para um vendedor,
tão temporária e adventícia como a sorte de um comprador. A ausência de
um mercado de propriedades imobiliárias é sublinhada oião só pela
maneira como Plínio descreve a correria dos candidatos cujas carreiras
políticas dependiam de uma compra rápida, mas também pelo efeito sobre
os preços causado pelas exigências de um pequeno punhado de homens. As
considerações morais acerca dos efeitos das |. despesas (políticas)
excessivas é também notável (e deve ser
tomada à letra). Do mesmo modo o é o objectivo do imperador, não
"interessar mais pessoas na promoção da agricultura •! italiana" (G0),
mas compelir o Senado, cada vez mais provin-
cializado, a tornar-se romano e italiano, de harmonia corn a jij ,
sua posição social como elite do Império.
i A terra transaccionada nestes casos é visivelmente cara
v .r ou barata conforme a situação; não é necessária investigação
' mais sofisticada do que aquela a que já chamei puro conheci-
65 Traduzido por Betty Radice (Penguin 1963). Mais uma vez (cfr. nota
56, acima) substituí as suas palavras "investir" e "capital", corn as
suas inevitáveis conotações modernas, pela tradução literal
"concentrar" e "património". Por razões semelhantes escrevi "aumentando
o potencial vendável" em vez da expressão usada pela Sra. Radice,
"colocando uma maior quantidade no mercado".
66 Esta é a explicação e.g. de Heitland, Agrícola p. 274; a explicação
correcta é a de Sherwin-White, Pliny pp. 379-80. Marco Aurélio tentou
uma segunda vez, mas reduziu a íracção obrigatoriamente
italiana a um quarto do património total de um senador: Scriptores
Hisíoriae Augustas, Marcas 11.8.
164

mento empírico. Nas condições da agricultura antiga de sequeiro, na


ausência de grandes instalações de água ou de maauinaria cara, a terra
abandonada ou devastada recuperava muito rapidamente. A oliveira, a
vinha e os rebanhos exigiam alguns anos para serem substituídos, mas
esta substituição exigia, por parte da classe superior de proprietários
fundiários de quem nos ocupamos agora, apenas paciência, e não capital,
cujo montante é regularmente exagerado em análises modernas.
A compra de propriedades corn a ajuda da sorte é uma forma de
investimento, é certo, mas só no sentido restrito que tenho vindo a
definir. B era quase exclusivamente uma actividade privada. Durante os
grandes programas de estabelecimento de veteranos em 30 e 14 a.C.
Augusto verificou serem os seus bens supérfluos e as suas consideráveis
confiscações insuficientes para o fim a que se destinavam e comprou
parcelas a cidades da Itália e das províncias por um preço total de
cerca de 880 milhões de sestércios, segundo os seus próprios cálculos
(Rés gestae 16.1). Tratava-se de um feito importante e realmente
prodigioso. O que ele afirma depois, "De todos aqueles que fundaram
colónias militares na Itália ou nas províncias fui eu o primeiro a fazer
isto na memória dos meus contemporâneos", significa que "foi o primeiro
a pagá-lo corn recursos que podia considerar privados" (67). Mas não
explica como fez as compras e podemos legitimamente duvidar da livre
vontade de muitos vendedores.
Mesmo sendo assim, é um facto que embora todos os estados antigos
possuíssem terras das quais tiravam lucros, normalmente através de
arrendamento ou, no caso dos imperadores romanos, também da exploração
directa através de agentes, quase nunca compravam terra. Nem o faziam os
templos ou os centros de culto que, muitas vezes, acumulavam tesouros
substanciais provenientes de ofertas e promessas. Tampouco o faziam os
inúmeros grupos de culto e sociedades semi-privadas que proliferavam no
mundo grego-romano. Também eles recebiam terras em doação, muitas vezes
sob forma
67 Brunt, Manpower p. 297.
165

de crédito apoiado .numa propriedade (como o esquema de alimenta de


Trajano), e o seu dinheiro frutificava através de empréstimos a juros e
não através de investimentos em terras. Apenas os tutores parecem ter
constituído uma excepção, pelo menos em Roma, onde a lei exigia que
transformassem o dinheiro da pessoa tutelada em terras ou em empréstimos
a juros (e8). E mesmo isto está a uma grande distância da tradição
moderna, de forma alguma morta, que impele as fundações de caridade e
outras de interesse público a investir os seus fundos em terras,
consideradas como o único investimento seguro.
É certo que essas transacções ajudadas pelo acaso não se poderiam
realizar sem vigilância, sem um interesse genuíno na .aquisição e, acima
de tudo, sem influência e posição. Havia mesmo alguns homens, creio que
não muitos, que especulavam activamente em propriedades abandonadas
(e9), especialmente construções urbanas. Crasso é o paradigma lendário
(Plutarco, Crasso 2.1-6). Não tenho vindo a tentar argumentar que não
houve, em muitos períodos da antiguidade, um movimento constante da
propriedade fundiária. Sem ele não poderia ter existido a tendência, que
foquei antes, de uma acumulação cada vez maior; não poderia ter havido
Trimalciões por um lado nem, por outro lado, homens como os ocupantes de
ager publicus
68 As fontes foram compiladas por E. J. Jonkers, Economische en sociale
toestanden in het Romeinsche Rijk blijkende uit het Corpus Júris
(Wageningen 1933) cap. 1.
69 O exemplo grego mais famoso é referido em Xenofonte, Oikonomikos
20.22; é famoso porque é citado tantas vezes que se acaba por ter a
ilusão que o caso de um único senhor ateniense, porventura fictício,
representava um fenómeno grego universal. É significativo que Claude
Mossé, La fin de Ia démocratie athénienne (Paris 1962), que defende
longamente (pp. 35-67) a tese de que houve um aumento súbito de
especulação fundiária em Atenas no século IV a.C. às custas do
campesinato, se veja obrigado a conceder que isto é tudo hipotético
porque o texto de Xenofonte é o seu único exemplo concreto: "É preciso
concordar que o caso do pai de Isomaco, por mais fictício que seja, não
era excepcional". Sobre o investimento e a especulação em propriedades
urbanas na esfera romana, ver P. Garnsey, "Urban Property Investment",
em Finley, Roman Property cap. 7.
166

que provocaram a morte de Tibério e Caio Graco, ou mais tarde como


Áhenobarbo ou Rerodes Atiço. O que tenho vindo a tentar fazer é
determinar o antigo conceito de "investimento", definir o seu carácter e
os seus limites, na ideologia e na prática. Os autores antigos - e nunca
devemos permitir-nos esquecê-lo - não descreveram a terra como o melhor
investimento em termos de maximização de rendimentos. B claro que era
lucrativo, se em escala suficientemente grande, mas eles situavam-no
principalmente numa base de "natureza" e moralidade, e não tinham ainda
aprendido a fazer uma equação simples entre moralidade e lucros.
Lembremo-nos que mesmo hoje há importantes estratos sociais que aceitam
conscientemente uma baixa taxa de rendimento sobre o investimento
agrícola porque há outras vantagens "além dos lucros monetários
directos... o sentimento de segurança pessoal, os direitos de coutada, a
posição social e, possivelmente, algumas vantagens fiscais" (70).
"corn respeito à propriedade", escreveu o autor do primeiro livro do
pseudo-aristotélico Oikonomikos (1343a25-b2), "o primeiro cuidado deve
ser mante-la conforme à natureza. A agricultura está em primeiro lugar
de acordo corn a natureza, em segundo lugar as artes de extracção do
solo, tais como a mineração e similares. A agricultura é o melhor porque
é justa, porque não é feita à custa dos outros, quer voluntariamente,
como nos negócios ou no trabalho assalariado, quer involuntariamente
como na guerra. É também uma das actividades que estão de acordo corn a
natureza em outros aspectos, porque pela natureza todas as coisas
recebem o seu alimento da sua mãe e da mesma forma os homens recebem o
seu da terra". Esta ingénua declaração de boa doutrina aristotélica
prossegue, mas não preciso de continuar. Ela é também born Cícero ou
Catão. Ê, em resumo, uma das muitas formulações da ideologia da
propriedade das antigas classes superiores. Conhecem-se aristocracias
que se agarraram, no seu compor-
70 C. Clark e M. Haswell, The Económica of Subsistence Agriculture
(4." ed. Londres 1970) p. 164.
;167

tamento prático, a ideologias gastas e que morreram corn elas. Não foi
este o seu destino na antiguidade. Em comparação corn a "ética
protestante" de Weber, a sua mentalidade pode ter sido não produtiva;
mas não era de forma alguma não aquisitiva. Podiam dar-se ao luxo de uma
opção moral e tornar-se ainda mais ricos, não mais pobres.
168

CIDADE E CAMPO
O atraso e a bruteza dos europeus ocidentais fora da Itália, explicava o
geógrafo grego Estrabão, decorre do seu modo de vida baseado na caça, no
pastoreio e nas incursões mútuas. Uma vez convertidos (ou compelidos) a
uma existência pacífica e sedentária, desenvolver-se-á o urbanismo e
tornar-se-ão civilizados ('). Embora Estrabão escrevesse no princípio da
nossa era, repetia a boa velha doutrina grega (e romana). Os gregos e os
romanos nunca se cansaram de louvar a excelência moral da agricultura,
mas simultaneamente insistiam em que a civilização exigia a cidade. Não
estavam a ser contraditórios: note-se que Estrabão via a agricultura,
não o comércio ou a manufactura, como o prelúdio para a estabilidade e
para o urbanismo. A verdadeira cidade na antiguidade clássica incluía
quer a chora, o interior rural, quer um centro urbano onde residiam as
melhores pessoas e onde estavam instalados os cultos públicos e a
administração da comunidade. Conceptualmente eram ambos de tal forma
complementares que mesmo os monarcas helenísticos absolutistas
reconheciam a "liberdade" da chora pertencente às recém-criadas cidades
gregas das regiões orientais; as terras municipais estavam isentas dos
direitos de domínio reais exercidos sobre todo o território do reino.
l A formulação mais explícita surge brevemente em 4.1.5, mas o tema
recorre corn alguma írequência; ver A. N. Sherwin-White, Racial
Prejudice in Imperial Rome (Cambridge 1967) pp. 1-13.
169
Mas o que é uma cidade? Os geógrafos modernos têm sido incapazes de
obter uma "definição padronizada" (2). Evidentemente, isso não
preocupava EstraMo, nem mesmo quando protestava (3.4.13) contra aqueles
escritores que confundiam as grandes aldeias (komai) da Península
Ibérica corn "cidades". O seu público não precisava de uma definição. Um
escritor grego posterior, Pausanias, rejeitou as pretensões de uma
cidadezinha no centro da Grécia para ser chamada polis: "Não tem
edifícios públicos, nem teatro, nem agora, nem água de fonte, e onde as
pessoas vivem em casebres que parecem cabanas de montanha nos bordos de
uma ravina" (10.4.1). Também o seu público teria compreendido. A
definição estético-arquitectural servia como resumo de uma definição
político-social: uma "cidade genuína" era um centro político e cultural,
agora certamente corn uma autonomia bastante limitada, em contraste corn
a orgulhosa independência das antigas poleis gregas, mas ainda um local
onde os bem-nascidos e educados podiam viver uma existência civilizada,
uma vida de urbanistas, em termos romanos, em que podiam dominar os
assuntos municipais se não já toda a gama das actividades do estado. A
mera dimensão não era um critério: muitas cidades genuínas não eram
maiores que aldeias em população ou área. E a economia também não
entrava em consideração, salvo na medida em que os bens materiais
indispensáveis à vida amena e civilizada tinham que estar disponíveis de
uma maneira ou de outra (3).
2 R. F. PaW, em R. J. Chorley e P. Haggett (orgs.), Models in Geography
(Londres 1967), p. 237; cfr. H. J. Gans, "Urbanism and Suburbanism
as Ways of Life: a Re-evaluation oí Definitions", em A. M. Rose
(org.), Human Behavior and Social Processes (Londres 1962) pp. 625-48,
esp. pp. 643-4. Ver em geral W. Sombart, Der moderne Kapitalismus vol.
I i (5.a ed. Munique e Leipzig 1922) cap. 9.
3 N. J. G. Pounds, "The Urbanization of the Classical World", Annals of
the Amer. Assn. of Geographers 59 (1969) 135-57, tenta estabelecer uma
distinção "funcional" entre cidades e aldeias antigas, e sublinha
correctamente a continuação da "função agrícola" das primeiras na
grande maioria dos casos. Contudo, satisfaz-se corn um critério
estético-arquitectónico, deixando de lado a dimensão política,
170

; Havia, é claro, definições administrativas formais de urna polis ou de


uma civitas na antiguidade, como em qualquer país moderno. Este aspecto
não interessava Estrabão, como não interessará ao historiador económico.
Estamos obviamente de acordo corn Estrabão quando ele diz que uma mera
aglomeração de pessoas não constitui uma cidade. De outra forma, nessa
base, a Itaca homérica, uma cidade episcopal da Alta Idade Média, uma
prisão ou um grande exército, tudo seriam cidades: há prisões modernas
onde os presos são mais numerosos que os habitantes de muitas cidades
gregas. Mas vamos mais longe que Estrabão (e que qualquer outro autor
antigo) para fazer uma pergunta totalmente diferente. Qual é a relação
económica entre a cidade e o campo? A resposta não será a mesma para
Atenas e Esparta como não o será nos nossos dias para Roma e Génova.
Quando Martinho Lutero, na sua Exortação à Nobreza Cristã da Na-- ção
Alemã, vociferava "O Anticristo tirará os tesouros do mundo, como está
escrito... Se temos razão em enforcar e decapitar os ladrões, porque
deixaríamos sem castigo a cupidez de Roma? É ela o maior ladrão que
alguma vez surgiu ou surgirá à face da terra", fazia, para os seus
próprios fins, uma importante observação histórica. Desde os tempos em
que Roma se tornou uma cidade imperial até hoje ela foi sempre uma
cidade parasita, vivendo de doações, rendas, impostos e tributos. Isto
não faz corn que Roma não seja uma cidade, mas apenas uma cidade
diferente de Génova.
Hipoteticamente a relação económica entre uma cidade e a sua cintura
agrícola - partiremos de uma cidade isolada
- pode estender-se por um largo espectro, que pode ir do completo
parasitismo à simbiose total. Todos os residentes de uma cidade que não
estão directamente empenhados na
e a sua tentativa de calcular a população a partir das superfícies
ocupadas e, na Grécia clássica, da quantidade de tributo pago a Atenas,
é indefensável do ponto de vista metodológico. Sobre os aspectos
administrativos e arqueológicos das cidades gregas a obra mais completa
e sofisticada é Roland Martin, L'Urbanisme dans Ia Grèce ancienne (Paris
1956); cfr. R. E. Wycherley, How the Greeks Built Cities (2." ed.
Londres 1962).
171

produção primária vão buscar os alimentos e as matérias-primas aos


produtores no campo. Todas as cidades são, neste sentido, centros de
consumo. A questão é pois saber se as cidades antigas eram, como Max
Weber pensava, essencialmente centros de consumo (4). Por outras
palavras, como é que as cidades pagavam aquilo que iam buscar .ao campo?
A cidade parasita pagava pela mera restituição de parte ou todas as
rendas e impostos que anteriormente tinha retirado ao campo; a relação
totalmente simbiótica seria representada por igual pagamento em produção
urbana e serviços. Podem construir-se um certo número de modelos em que
as variantes principais são a distribuição da população, a quantidade da
produção rural, a quantidade da produção urbana e a proporção de cada
uma transferida para a outra. Excluem-se as manufacturas e os serviços
urbanos destinados unicamente ao consumo urbano: economicamente é
irrelevante para um rendeiro que o pão que o seu proprietário come,
feito corn o trigo que recebe de renda, seja cozido na sua própria casa
ou por um padeiro a quem ele paga para isso.
O modelo complica-se depois porque a unidade cidade-campo isolada existe
iapenas nas sociedades muito primitivas ou na imaginação de autores
utópicos. As necessidades de uma cidade podem ultrapassar a capacidade
de produção alimentar do seu próprio hinterland. De qualquer forma não
há muitas cidades que sejam auto-suficientes em madeira, metais, sal,
especiarias, já para não falar de escravos, peles, pedras semi-preciosas
e outros bens que se tornaram necessários à sociedade civilizada. Mesmo
os acérrimos defensores das vantagens morais da auto-suficiência
reconheciam esse infeliz facto da vida (5). Mais uma vez perguntamos:
como paga a
4 M. Weber, "Agrarverháltnisse im Altertum", no seu Gesammelte Aufsãtze
zur Sozial und Wirtschaftsgeschichte (Túbingen 1924) pp.
1-228, à p. 13 (cfr. p. 6). Ver agora o meu "The Ancient City, from
Fustel de Coulanges to Max Weber and Beyond", Comparative Studies in
Socieíy and Hisíory 19 (1977).
5 Será suficiente citar Platão, República 370E-371A; Aristóteles,
Política 1327a25-31.
172

cidade? E mais uma vez a resposta é um espectro de possibilidades ique


vão do raid de Ulisses a Ismaros, onde, diz ele (Homero, Odisseia 9.39-
42), "Saqueei a cidade e matei os homens; tomando as mulheres e muita
mercadoria, dividimo-las entre nós", até um perfeito equilíbrio de
comércio. Alguns historiadores pensam, embora não seja essa a minha
opinião, que o mundo de Ulisses era um País das Maravilhas que não
deveria ser integrado num estudo histórico sério. Mas César, na Gália,
era suficientemente histórico e real, tal como o Império que fornecia
sessenta por cento do rendimento público ateniense no século V a.C.
(Tucídides 2.13.3) ou o dízimo dos cereais da Sicília corn o qual os
habitantes de Roma durante algum tempo fabricaram o pão que comiam. Os
modelos primitivos adequados à cidade isolada deverão portanto ser
modificados por outras variáveis: rendas, impostos e tributos
provenientes de fora do território imediato da cidade; produção, urbana
e rural, para exportação; facilidades de transporte. Não se pode também
ignorar a política, mesmo numa análise "puramente económica". A bem
sucedida expansão romana libertou a terra italiana dos impostos, um caso
de uma variável externa - o tributo - que anula outra - as imposições
internas sobre as zonas rurais.
Havia também certas constantes: em primeiro lugar, o boi. O boi era o
principal animal de tracção na antiguidade, seguido de perto pela mula e
pelo burro. O cavalo quase não era utilizado. Os três são lentos e comem
muito. Os dados sobre transportes, no édito de Diocleciano sobre preços
máximos, implicam que um carro de carga de 600 kgs. de trigo duplicava
de preço em 480 kms. e que um carregamento de cereais por mar de uma
ponta à outra do Mediterrâneo custaria menos (ignorando os riscos) que
acarretá-lo 120 kms. por terra (")• Um estado podia permitir-se alugar
bois para o fim extraordinário de transportar blocos de mármore para as
colunas
6 Ver Jones, LRE pp. 841-2 e em geral cap. 21; Duncan-Jones, Economy,
apêndice 17. Cfr. Catão, De agricultura 22.3, mais de 400 anos antes,
sobre o custo do transporte em carros de bois de uma prensa de azeite.
173

i l dos templos, utilizando em média trinta juntas por cada blo-


; l co (7), e podia executar outras tarefas extraordinárias, sobre-
:; ' , \ tudo quando exigidas por necessidades militares. Mas os par-
j ! i ticulares não podiam normalmente transportar mercadorias
j | volumosas por longas distâncias em terra, e entre as comuni-
I dadtes só as mais ricas e poderosas o podiam fazer. A maior
! j parte dos produtos de primeira necessidade são volumosos
i : -os cereais, a cerâmica, os metais, a madeira- e assim as
| cidades não podiam, corn segurança, ultrapassar a capacidade
j | de produção do seu hinterland imediato a menos que tivessem
| [ acesso directo a vias aquáticas.
.,!,!:'' Nem mesmo as célebres estradas romanas construídas
'|i por razões militares e políticas, e não comerciais, faziam algu-
li '.[. ma diferença significativa, visto os meios de tracção serem
i: | • os mesmos. Foram os muitos rios da Gália, não as estradas,
! que provocaram os comentários dos autores romanos e facili-
i l l í taram o desenvolvimento das cidades do interior (s). E na
j Ãsia Menor, Plínio, na sua missão para o imperador Trajano,
l l j , nos princípios do século II, escrevia de Nicomédia, uma eida-
I; "J de-porto no golfo de Ismit, ma ponta leste do mar de Márma-
| ! rã, propondo a construção de uma complexa rede de canais
! i que unisse o lago Sofon ao Oriente (corn uma saída natural
! para o mar Negro), ao mar de Mármara. Através do grande
* \ ..j lago, explicava Plínio (Epístolas 10.41.2), "o mármore,
os
; alimentos e a madeira para construção são transportados a
l f ,,(, baixos preços e corn pouco esforço até à estrada, mas aí têm
1 !" que ser levados até ao mar em carros, o que dá muito tra-
:.' baino e grandes despesas". A estrada era nada menos que a
1} principal estrada romana que partia de Nicomédia para leste,
7 O resumo mais completo do material é A. M. Burford, "Heavy Transport
in Classical Antiquity", EcPIR, 2nd. ser., 13 (1960), 1-18.
8 Ver L. Bonnard, La navigation iníérieure de Ia Gaule à Vépoque gallo-
romaine (Paris 1913); cfr. A. Grenier, Manuel d'archéologie gallo-
romaine, vol. II ii (Paris 1934) caps. 12-3; Y. Burnand, "Un aspect de
Ia géographie dês transports dans Ia Narbonnaise rhodanienne:
lês nautes de 1'Ardèche et de 1'Ouvèze". Revue archéologique de
Narbonnaise 4 (1971) 149-58.
174

eventualmente até Ancara e mais longe ainda; a distância do lago a


Nicomédia e ao mar era de cerca de 18 quilómetros (9) • Isto pode ajudar
a explicar porque é que a fome de Antioquia em 362-3 atingiu proporções
tão desastrosas quando havia cereais disponíveis a oitenta quilómetros,
através de uma outra boa estrada romana. A acumulação e a especulação
desempenharam o seu papel, sem dúvida, mas o frequente fenómeno das
fomes, quando havia abundância nas proximidades, não se pode atribuir
apenas à cupidez.
É praticamente certo que, fora o estado, o campesinato era, dentro de
estreitos limites, o principal beneficiário das estradas romanas. Assim,
embora a construção de estradas no sudeste romanizado da Bretanha
estimulasse o desenvolvimento de aldeias, a distância média entre um
pequeno mercado local e a periferia da sua "área tributária" manteve-se
à distância máxima padrão que é preferida sempre que os meios de
transporte são primitivos, ou seja, seis a oito quilómetros (10). Os
camponeses (e não só os camponeses) são dirigidos por aquilo a que a
geografia chamou "a lei do menor esforço" ou "o princípio do esforço
mínimo" O1). E os camponeses, nem é preciso dizê-lo, não podiam socorrer
uma grande cidade em tempo de fome ou abastecer Nicomédia corn a sua
madeira e o seu mármore.
9 Ver F. G. Moore, "Three Canal Projects, Roman and Byzantine", American
Journal of Archaeology 54 (1950) 97-111; Sherwin-White, Pllny pp.
621-625 (que incorrectamente refere a distância como sendo de 18
milhas).
10 Ver I. Hodder e M. Hassall, "The Non-Random Spacing of Romano-
British Walled Towns", Man 6 (1971) 391-407, à p. 404, que constitui a
única tentativa que conheço de examinar uma região antiga a luz da
teoria moderna dos lugares centrais, sobre a qual ver B.J.L. Berry, The
Geography of Ma-ket Centers and Retail Distribution (Englewood Cliffs,
N. J., 1967); Chorley and Haggett, Models, cap. 9. A importante
crítica desta teoria por J. E. Vance, Jr., The Merchanfs World: the
Geography of Wholesaling (Englewood Cliffs, N. J., 1970), parece-me ser
pouco relevante para a economia antiga, como demonstram as suas poucas e
superficiais notas sobre o assunto.
11 B. J. Garner, em Chorley e Haggett, Models, p. 304.
175

Quem quer que, na antiguidade, esquecesse estes factos elementares da


vida encontrava-se rapidamente na ruína. Marco António esqueceu-os
quando permitiu que os seus
200 000 homens na Grécia ocidental fossem bloqueados por Agripa em 31
a.C., o que teve como consequência inevitável a fome, a doença e a
deserção apesar de todos os seus esforços para arranjar géneros por
todos os meios possíveis, de tal forma que na batalha de Actium se
encontrou, desesperadamente, sem homens. Os imperadores romanos nunca os
esqueceram. A expansão romana para a Europa ocidental e do nordeste
afastou pela primeira vez o mundo antigo do Mediterrâneo e dos seus
tributários. Mas havia rios navegáveis; as principais povoações fizeram-
se ao longo das suas margens e eram um factor da maior importância em
todos os cálculos logísticos militares, tal como na criação dos grandes
complexos de moagem de cereais na região de Aries (12). Quando era
necessário estacionar exércitos longe do mar ou dos rios, a população
local era forçada a sustentá-los, sem preocupação alguma pela relação
entre a produção agrícola local e as exigências do exército. Os
exércitos romanos podiam cobrir longas distâncias pelas estradas; mas
nem a alimentação nem a roupa nem as armas podiam chegar-lhes de longas
distâncias através dessas mesmas estradas.
O transporte por água, em suma, e especialmente o transporte por mar
criou possibilidades radicalmente novas para a cidade antiga. Em
primeiro lugar as importações de alimentos e outras mercadorias
volumosas permitiram um aumento substancial do tamanho da população, já
não limitada pela produção agrícola local, e uma melhoria na qual;dade
da vida através de uma maior variedade de géneros e uma maior abundância
de escravos para o trabalho doméstico e
12 F. Benoit, "L'usine de meunerie hydraulique de Barbegal (Aries)"
Revue archéologique, 6.a série, 15 (1940) 18-80. Cfr. o elogio por
Libâiiio (Orações 18.83) do imperador Juliano por ter restaurado o Reno
inferior como uma via pela qual os cereais da Bretanha chegavam aos
exércitos. :
176

produtivo. Tanto a população como as comodidades seriam em seguida


estimuladas pela atracção inevitável de uma população secundária,
artesãos, artistas, professores e turistas. Podia haver também um efeito
de feedback no campo, na medida em que os bens importados permitiam uma
exploração mais eficiente das maiores propriedades (embora não das
terras dos camponeses) por meio da especialização, o que não era
realmente possível em comunidades mais ou menos isoladas e auto-
suficientes. Podemo-nos perguntar se as rosas, violetas e pavões das
villas perto da cidade de Roma (Varrão, De ré rústica 3.2) teriam sido
toleradas se a cidade não fosse abastecida em cereais pela província. A
cidade antiga tinha relutância em deixar o abastecimento de alimentos ao
acaso ou ao jogo livre dos mercados, pelo menos enquanto a cidade se
manteve uma comunidade genuína e autónoma. Mesmo a Atenas clássica
considerou um crime capital exportar os cereais produzidos no seu
território, apesar de controlar o mar Egeu e, portanto, as importações
maciças de trigo do sul da Rússia (e de outros locais).
Não apressemos as coisas. A dialéctica da relação cidade-campo-mar é
complexa, o ritmo de desenvolvimento é lento e por vezes sem êxito. O
acesso fácil ao mar ou a um rio importante era somente uma condição
necessária ao crescimento mas não uma condição suficiente. O grande
porto de Atenas, o Pireu, foi uma criação do século V e o ímpeto
original foi-Ihe dado pelo programa de Temístocles para a construção de
navios para os quais a praia de areia de Falero já não era apropriada.
Brundisium (a moderna Brindisi) não conseguiu tornar-se um centro
importante embora fosse o melhor porto a sul de Ancona na costa oriental
da Itália, no lado voltado para a Grécia e para o Oriente. Ainda mais a
norte, Ravena, na foz do Pó, tinha um esplêndido porto que, dizia-se,
podia dar guarida a 250 navios (Dio Cássio 55.33), mas nunca se tornou
um certo comercial.
A cidade de Roma fornece o testemunho mais notável. Roma fica junto ao
Tibre a 25 ou 30 quilómetros de Ostia, na costa. No entanto, Roma
conquistara a Itália e derrotara Cartago antes de Ostia se começar a
desenvolver como seu
177

porto comercial (13). O primeiro interesse de Roma por Ostia no século


IV a.C. foi militar e defensivo. Depois, no século in, surgiu a
necessidade de uma armada para as guerras corn Cartago. Nesse momento
crítico, Roma, como dizia, exagerando um pouco, uma autoridade antiga,
"não dispunha de nenhum navio de guerra, nem mesmo de uma simples
galera", nada conhecia de barcos nem de construção de navios e não tinha
cidadãos que soubessem remar, andar à vela ou lutar no mar (14). Isto
mais de dois séculos depois do cartaginês Hanno ter navegado ao longo da
costa ocidental de África, pelo menos até à Serra Leoa.
A vitória sobre Aníbal, no fim do século in a.C., constituiu uma linha
divisória não só na história política de Roma mas também na sua história
urbana. O círculo oligárquico dirigente, a nobilitas como logo passou a
ser chamado, adquiriu extensas parcelas de ager publicus e necessitava
de trabalho escravo; adquiriu também gostos e hábitos caros, para as
suas políticas internas e para consumos de luxo, que aumentavam em
progressão geométrica. Os espectáculos de gladiadores, por exemplo,
foram originalmente introduzidos para as cerimónias fúnebres: o primeiro
de que há notícia, em 264 a.C., envolveu apenas três pares de
gladiadores; mas em 216 já se fala em vinte e dois pares e em 174 a.C.
em setenta e quatro pares, numa celebração que durou três dias (15).
Entretanto os escravos e os camponeses expropriados aumentavam
rapidamente a população da cidade e tinham que ser alimentados, vestidos
e alojados (e os homens livres divertidos). Não era já possível confiar,
como nos séculos passados, no hinterland imediato e nos pequenos barcos
costeiros que vinham do porto de Puteoli, na baía de Nápoles, e subiam o
Tibre até Roma. Assim, a cidade-porto de Ostia tornou-se finalmente, em
di-
13 Ver R. Meiggs, Roman Ostia (2." ed. Oxford 1973) cap. 3.
14 Políbio 1.20-21; ver J. H. Thiel, A Historg of Roman Sea-Power
before the Second Punic War (Amsterdão 1954).
15 L. Friedlander, Darstellungen aus der Sittengeschichte Roms,
10." edição por G. Wissowa (reedit. Aalen 1964) II 50-76.
178

são a única rival de Alexandria e Cartago e floresceu durante quatro


séculos até se afundar num pântano malárico. É portanto mais correcto
dizer que Roma se voltou para mar por se ter tornado uma grande cidade e
não o contrário Roma não era muito típica, pois era uma cidade
parasitária completa (embora apenas em proporções não tivesse rival)
Ninguém pretenderá que Roma pagava em produção uma minúscula fracção que
fosse das suas importações maciças. Mas o que acontecia corn as cidades
que não dispunham de saques provinciais e tributos corn que equilibrar
as suas contas? Um grupo significativo deve ser focado imediatamente, o
das cidades que, pela sua situação, eram centros de distribuição e
pontos de transferências, que iam buscar rendimentos substanciais a
direitos de portagem e de utilização de portos e docas, assim como aos
serviços requeridos pelos mercadores -e tripulações dos navios em
trânsito. Os navios antigos preferiam normalmente fazer curtas viagens
sempre que isso era possível: as condições peculiares dos ventos e
correntes no Mediterrâneo, a ausência do compasso, a limitada capacidade
de bolinar, o pouco espaço para armazenar alimentos e água fresca eram
factores que contribuíam para isso. Daqui a importância de Rodes, que no
período helenístico foi o exemplo mais notável de um porto de passagem.
Quando, em meados do século H a.C., Roma decidiu por razões políticas
dominar Rodes, fê-lo utilizando o simples estratagema de declarar a ilha
de Delos um porto livre e melhorando aí as instalações portuárias. Em
breve Rodes se queixava de que o efeito nos seus rendimentos públicos
fora uma redução de um milhão de dracmas por ano para 150000 (16). Este
drástico declínio no volume do tráfego, oitenta e cinco por cento, de
que os mercadores de Rodes não estavam protegidos, visto os estados
antigos cobrarem taxas portuárias a cidadãos e a estrangeiros em igual
medida, teria tocado também todos os serviços subsi-
16 Políbio 31.7.10-12; ver J. A. O. Larsen, em Frank, Survey IV
355-6, para um breve e claro resumo, e E. S. Green, "Rome and Rhodes in
the Second Century B.C.: a Historiographical Inquiry", Classical
Quarterly 25 (1975) 58-81, para o contexto.
179

diários, tudo junto representando um duro golpe na economia de Rodes,


privada ou pública.
Havia outras cidades comerciais: pensa-se em Egina, em Quios, um centro
do comércio de escravos ("), ou em Marselha, um entreposto para os
produtos destinados aos, e provenientes dos, bárbaros do interior (1S).
Mas estes eram casos especiais. As cidades antigas na sua maioria
continham agricultores, fossem eles produtores directos ou gentlemen
farmers, homens cujo interesse económico residia principalmente, •e por
vezes exclusivamente, na terra, coração da sua cidadainia. Não poucas
cidades importantes eram, num certo sentido, inteiramente agrárias, quer
dizer, a terra era a sua única fonte de riqueza e o seu excedente
agrícola pagava os metais que importavam, os escravos e os luxos: Tebas
por exemplo, ou Acragas (a Agrigentum romana), a segunda cidade da
Sicília, ou Cirene, e a um nível inferior Pompeia. Pouco mais é preciso
dizer acerca delas no contexto presente, ou de cidades que se ocupavam
de uma área agrícola contínua mais extensa que o "seu próprio
território", por exemplo na Campânia; ou dessas cidades em que um vasto
pessoal militar e administrativo aumentou o sector de consumo nos
períodos romano e helenístico, tais como Antioquia na Síria ou Sirmium
(a moderna Mitrovica), junto do rio Save, uma pequeno, colónia que teve
um breve período de desenvolvimento sensacional como uma das capitais
imperiais no século IV.
Chegamos, finalmente, ao grupo mais interessante, mais difícil e talvez
mais significativo, as cidades que tinham uma base agrícola insuficiente
e unia economia genuinamente "mis-
17 Aristóteles, Política 1291b24, diz apenas que Quios era um exemplo
(juntamente corn Egina) de uma cidade mercantil, mas que a chave era o
comércio de escravos parece-me decorrer da afirmação de Tucídides
(8.40.2) de que Chios tinha o maior número de escravos na Grécia depois
de Esparta e da curiosa tradição, que remonta pelo menos ao
historiador do século IV a.C. Teopompo, que era natural da ilha,
segundo a qual os chiotas tinham sido os primeiros gregos a comprar
escravos (Athenaeus 6.264C-266F).
18 Ver E. Lepore, "Strutture delia colonizzazione focea in Occidente",
Paro/a dei Passato 25 (1970) 19-54.
180

ta", simultaneamente agrária, industrial e comercial. Atenas é o caso-


tipo, não só porque é a única cidade deste género que /conhecemos
bastante bem, mas também porque a sua história •económica levanta de uma
forma muito precisa a questão: como pagavam as cidades antigas as suas
necessidades, algumas produzidas internamente, o resto obtido no
exterior? Não a Atenas parasita e imperial, corn o grande volume de
tributo que recebia, mas a Atenas do século IV que não podia já
transferir as suas despesas para os estados que dominava *.
Não podemos estabelecer uma folha de balanço das exportações e
importações, nem mesmo uma aproximação; não podemos na realidade
fornecer quantidades de espécie alguma; temos pois que referir-nos
novamente a modelos e a indicadores. Numa réplica às teses da escola de
Weber e de Haseibroek que continua largamente conhecida, Gomme anunciava
que "os gregos estavam bem conscientes de que as importações e as
exportações deviam equilibrar-se, de um modo ou de outro, a longo prazo"
(19). Não citava nenhuma autoridade e as poucas de que dispomos
pertencem ao conjunto de "afirmações pré-científicas" que, segundo
Schumpeter, não são capazes de manter uma "superstrutura". A observação
banal de Plutarco (Solon 22.1) de que o legislador ateniense incentivava
os ofícios porque sabia que os mercadores não gostavam de importar para
um país - e Atenas requeria já importações de cereais -do qual não
podiam levar um carregamento em troca, é imediatamente seguida por uma
miscelânea de legislação solónica respeitante a mulheres e bastardos, à
etimologia de "sicofanta" e de "parasita", e de outras coisas maisi. As
famosas passagens em Plínio o Velho (História Natural 6.101; 12.84) que
fornecem dados dúbios sobre o es-
* Neste modelo mais simples excluo deliberadamente o eíeito sobre a
"balança de pagamentos" do tributo imperial e dos exércitos estacionados
mais ou menos permanentemente em partes periféricas de um império.
19 A. W. Gomme, "Traders and Manufacturers in Greece", nos seus Essays m
Greek History and Literaíure (Oxford 1937) pp. 42-66, à p. 45.
181

eoamento de ouro e prata romanos para a índia e outros países orientais


em pagamento de artigos ide luxo, têm uma implicação moral. Quaisquer
dúvidas a este respeito são dissipadas pela retórica explicitamente
anti-sumptuária de Dio Crisóstomo (79.5-6) sobre o mesmo assunto. Não se
lhe seguia qualquer análise ou programa económico, quer nas obras dos
moralistas quer na prática, privada ou pública (20).
Além disso Gomme não deu aparentemente importância ao facto de que,
mesmo na nossa economia complexa, muitas cidades e vilas "se sustentam
exclusivamente através do seu papel como centros de mercado", como "uma
aglomeração de estabelecimentos de serviços e de vendas a retalho" (21).
Gomme insistia em que o "equilíbrio" seria atingido somando as
exportações de vinho e azeite, bens manufacturados e prata, corn
exportações invisíveis (os lucros dos transportes marítimos e do
turismo). O catálogo é irrepreensível mas não tem utilidade a menos que
se possam estabelecer proporções entre as várias rubricas. É preciso
lembrarmo-nos de que estamos a examinar a mais populosa cidade do mundo
greco-romano daquele tempo (para o que aqui nos ocupa é preciso incluir
também como consumidores os não-cidadãos e os escravos), forçada a
importar regularmente talvez dois terços do trigo, todo o ferro,
estanho, cobre e madeira para navios, todos os seus numerosos escravos
(excepto os criados localmente) e todo o marfim e pedras semi-preciosas,
a maior parte das peles e do couro e uma vasta gama de bens (incluindo
linho e papiro) essenciais a um alto padrão de vida civilizada agora já
20 Que os dois textos de Plínio tenham provocado maçadoras tentativas
modernas de efectuar uma análise económica é irrelevante; ver C.
Rodewald, Money in the Age of Tiberius (Manchester 1976) cap. 3 e E. H.
Warmington, The Commerce between the Roman Empire and índia (Cambridge
1928) pp. 272-318. O relato de J. I. Miller, The. Spice Trade ofthe
Roman Empire (Oxford 1969) cap. 13, é pura fantasia.
21 Berry, Market Centers p. 3. Vale também a pena recordar que no
princípio da era moderna navios mercantes muitas vezes saíam da
Inglaterra levando pouca ou nenhuma carga: R. Davis, "Merchant
Shipping in the Economy of the Late Seventeenth Century", EcHR,
2nd. ser., 9 (1956) 59-73.
182

tradicional. Atenas era apenas auto-suficiente em mel, azeite, vinho


corrente, prata, pedra de construção (incluindo mármore), barro para
cerâmica e combustível; provavelmente encontrava-se em boa situação,
perto da auto-suficiência mas não mais do que isso, em lã, peixe e
carne. A lista de importações é claramente impressionante.
Como classificar pois as exportações? Não posso, para começar, ligar
qualquer importância aos produtos agrícolas, nem mesmo ao azeite ou ao
vinho. Escrevendo sobre oliveiras no mundo grego em geral, um
historiador económico observou que "numa região em que a produção da
mercadoria era tão geral, é natural que encontremos apenas referências
soltas e estas tratando muitas vezes de circunstâncias extraordinárias"
(22). Não se trata, contudo, de uma mera convenção literária mas de uma
consequência das realidades da produção e do comércio gregos. Os
atenienses exportaram algumas azeitonas e azeite durante toda a sua
história: há provas disso na lei de Adriano de cerca de 125 a.C. que
reservava um terço da produção local para uso público, uma lei que nos
faz lembrar que as cidades gregas (e romanas) eram também grandes
consumidoras de azeite (2S). Dado este último facto, e dada a ubiquidade
da oliveira, onde estavam os mercados externos para a exportação desta
mercadoria, a partir das comunidades urbanas importantes, numa escala
suficientemente grande para ter peso suficiente na balança de
pagamentos? A mesma consideração se aplica à exportação do vinho, corn a
agravante, no caso de Atenas, de se tratar de vinho de fraca qualidade.
O negócio importante corn o estrangeiro dizia respeito a vinhos
regionais famosos: o vinho corrente produzia-se normalmente internamente
(24).
22 H. Michell, The Economics of Ancient Greece (2.a ed. Cambridge
1957) p. 285.
23 Inscriptiones Graecae II2 1100; um texto revisto e uma tradução
encontram-se em J. H. Oliver, The Ruling Power [Transactions ofthe Amer.
Philosophical Society, n. s., vol. 43 (1953) pt. 4] pp. 960-3.
24 No texto, sublinhei as palavras "das comunidades urbanas
importantes" para acentuar a irrelevância, no presente contexto, de uma
região vitícola como a província romana da Bética, no Sul da
183

A situação é muito diferente corn duas rubricas do catálogo: a prata era


o recurso ateniense mais importante exportado em quantidades
substanciais, quer em barra quer em moeda cunhada. Para Xenofonte (Poroi
3.2), Atenas tinha a grande vantagem de os importadores "que não queriam
levar cargas de retorno" poderem fazer belos lucros transportando apenas
prata. Por isso ele baseou o programa do seu pequeno panfleto sobre os
rendimentos públicos nas inexauríveis minas de Laureion e na presença de
numerosos metecos. Estes criaram aquilo a que chamamos exportações
invisíveis, para as quais Atenas possuía duas vantagens interligadas.
Ela tornou<-se, talvez já no tempo da Tirania, no fim do século VI a.C.,
um centro comercial e bancário, e não muito depois um centro turístico.
Os seus começos são obscuros mas o contínuo crescimento da cidade em
ambos os aspectos é fácil de seguir, como o é a forma como os dois
interesses se estimularam um ao outro e a maneira como o império os
incentivou. Não devemos ter sentimentos demasiado elevados e considerar
apenas a Grande Dionísia e os sofistas. O Pireu era um porto
internacional corn tudo o que isso implica e havia também visitantes que
pagavam bem, como o filho do nobre da Crimeia, o queixoso da décima
sétima oração de Isócrates, conhecido por Trapeziticus, para quem o
estudo (theoria) era um conceito
Espanha. O tão discutido comércio italiano de vinhos no fim da República
e no Império também é aqui em grande parte irrelevante. A maioria dos
vinhos italianos eram transportados para Roma, que era um centro
consumidor fabuloso, para outras cidades italianas e para os exércitos
romanos no Norte, como na Panónia, até que esta começou a produzir o seu
próprio vinho em quantidades suficientes. Estes vinhos não eram,
portanto, uma exportação que pudesse equilibrar as importações no
sentido que estamos a considerar. L. Casson, "The Grain Trade of the
Hellenistic World", Transactions of the Amer. Philological Assn. 85
(1954) 168-87, uma compilação útil de dados, está tão obcecado pela
balança comercial que dá a impressão (obviamente falsa) de que as
exportações de vinho, corn a ajuda de produtos diversos como mel, greda
e queijo, podiam seriamente (se não totalmente) compensar uma importação
de cereais que, nas suas próprias palavras, chegou a "mobilizar uma
frota organizada que... não teve igual até aos dias do vapor."
184

elástico. Os alcoviteiros de Menandro, Flauto e Terêncio não eram uma


invenção cómica; é puramente acidental que a acção da oração pseudo-
demosténica contra Neaira decorra principalmente em Corinto e não em
Atenas. As constantes idas e vindas de dezenas de milhares de
"estrangeiros", gregos e outros, para vários fins, constituía uma das
mais importantes (se bem que não mensurável) contribuições para a
balança de pagamentos ateniense.
Deixei para o fim a exportação ide mercadorias manufacturadas. É ela a
pedra de toque do modelo de Gomme. Talvez devesse dizer o elo que
faltava: não existem efectivamente provas da exportação ateniense de
produtos manufacturados que não seja a de cerâmicas, e o gosto dos
gregos pela bela cerâmica pintada desapareceu rapidamente (e
misteriosamente) no século IV a.C., precisamente o século que temos
vindo a estudar. Quanta manufactura para exportação "deve ter havido",
apesar do seu não-reconhecimento nas fontes disponíveis? Os autores
antigos têm clara consciência deste assunto, e começarei por dois textos
chave, ambos de Xenofonte.
A superioridade das refeições servidas na corte persa, explica ele
(Ciropédia 8.2.5), não é surpreendente, dado o grande número do pessoal
de cozinha. "Exactamente como os vários ofícios estão mais largamente
desenvolvidos nas grandes cidades, do mesmo modo a comida no palácio é
preparada duma maneira de longe superior. Nas pequenas cidades o mesmo
homem faz as camas, as portas, as charruas e as mesas, e muitas vezes
também constrói casas e ainda se dá por feliz se conseguir encontrar
trabalho suficiente para se sustentar. E é impossível a um homem de
muitos ofícios fazê-lo todos em condições. Contudo, nas grandes cidades,
porque há muitos pedidos para cada ofício, basta um para sustentar um
'homem e por vezes menos que um: por exemplo um homem faz sapatos para
homem, outro para mulher, há locais em que um homem ganha a vida só a
remendar sapatos, outro a cortá-los, outro a cozer a parte superior,
enquanto há outro que não faz nada disto mas que reúne todas as partes.
Necessariamente, aquele que desempenha uma tarefa muito especializada
fa-la-á melhor".
185

E este o mais importante texto antigo sobre a divisão do trabalho (25),


mas o meu interesse agora é outro, a ênfase dada ao baixo nível e à
inelasticidade da procura, à ameaça da super-produção. A procura está
para os números numa relação aritmética simples: quanto maior for a
cidade, tanto maior a procura. E mesmo nas grandes cidades, diz-nos
Xenofonte noutro texto, a procura não resiste às pressões. Ao defender
as suas propostas nos Poroi, que advogam um tal aumento na exploração
das minas de prata que todos os cidadãos podiam viver à custa do estado,
ele desenvolve o seguinte raciocínio (4.4-6): "De todas as actividades
que conheço, a exploração das minas de prata é a única cuja expansão não
levanta invejas... Se aumentar o número de caldeireiros, os trabalhos em
cobre tornam-se mais baratos e os caldeireiros desinteressam-se. O mesmo
acontece corn o negócio do ferro... Mas um aumento na quantidade de
minério de prata... traz mais pessoas a esta indústria".
Em ambas as passagens Xenofonte pensa em manufactura apenas para o
mercado local; de outra forma as suas observações não teriam sentido
(26). Igualmente, quando Aristóteles, na Política (1291b22-25), dá
exemplos de cidades em que o demos tem uma oportunidade invulgar de
emprego não agrícola, especifica a pesca (Bizâncio e Tarento), o
comércio (Egina e Quios), os transportes em barco (Tenedos) e a marinha
(Atenas), mas nenhuma especialidade industrial. Estrabão explica
longamente (8.6j20-23) a base da grande riqueza de Corinto, saqueada
pelos romanos em 146 a.C.; não fala de nenhuma manufactura para
exportação. Entre os infini-
25 Examinei este aspecto do texto, corn a sua ênfase na qualidade mais
que na quantidade da produção, em "Technical Innovation" e em "Aristotle
and Economic Analysis", Past & Present n.° 47 (1970) 3-25.
26 É espantoso que Pounds, "Urbanization", p. 144, não tenha
compreendido a passagem de Ciropédia e diga que as cidades maiores
tinham "funções claramente relacionadas... corn necessidades que se
faziam sentir muito além dos seus próprios limites territoriais". Isto
não está no texto e, no contexto, é incompreensível. A citação de Aelio
Aristides (A Roma 61) que Pounds apresenta a seguir não tem nada que ver
corn o assunto.
185

tarnente variados símbolos das moedas gregas os produtos agrícolas


preferidos não são invulgares, mas os produtos manufacturados são
desconhecidos. Quando os moralistas gregos e romanos concedem, embora
relutantemente, que os mercadores estrangeiros têm alguma virtude, ao
contrário dos pequenos lojistas locais, citam invariavelmente em seu
favor os serviços públicos prestados como importadores, não como
exportadores: não preciso de repetir as citações correspondentes de
Aristóteles e Cícero. Havia medidas de protecção excepcionais para a
agricultura doméstica, como uma lei da ilha de Tasos no norte do mar
Egeu, nos fins do século V a.C., que proibia a importação de vinhos
estrangeiros para as costas da Trácia que Thasos controlava (27). Não
conheço nenhuma lei semelhante de protecção à manufactura.
Não alongarei o catálogo. Poderão Objectar que tudo isto são argumentos
pelo silêncio, ao que eu replico que, dada a natureza das fontes, a
solução vem de como interpretamos os silêncios. Será, como pensa Gomme,
um mero acidente de sobrevivência das provas literárias e arqueológicas
ou uma questão de gosto literário antigo? Ou será, como eu julgo, um
silêncio que se pode explicar o mais simplesmente possível pelo facto de
não haver nada sobre que falar? Existiam certamente alguns produtos
deliberadamente destinados à exportação, como sapatos e mantos de Verão,
feitos não sabemos onde, que um ateniense trazia uma vez por ano a
Cirene em tão pequena quantidade que o bispo Sinésio temia perder a
oportunidade de comprar. Havia os tecidos de linho de alta qualidade de
Tarso, a cidade de S. Paulo, célebres em todo o Império Romano e que
permitiam aos tecelões dessa cidade levar uma vida aparentemente sem
sobressaltos mas a um nível tão baixo que poucos podiam reunir *os 500
dracmas necessários para a aquisição da cidadania local (Dio Crisóstomo
34.21-23). Havia Patavium (Pádua), situada numa região famosa para
criação de ovelhas, corn acesso ao mar pelo rio, e que, durante algum
tempo, nos princípios do Im-
27 Inscription.es Graecae XII Supp. n.° 347.
187

perlo, exportava produtos de lã para Roma em escala considerável,


especialmente tapetes e capas (Estrabão 5.1.7,12) (28). Havia Arretium
(Arezzo), que por um breve momento viu fazerem-se fortunas onsideráveis
pelo monopólio da terra sigillata, um monopólio que não durou duas
gerações. Os seus mais importantes sucessores, Lezoux e La Graufesenque,
na Gália, exportaram a sua mercadoria durante um longo período para todo
o Imprério ocidental, mas os oleiros eram eles próprios homens modestos,
nem sequer Wedgwoods em ponto pequeno.
David Hume não estava muito enganado quando dizia não poder "lembrar-me
duma só passagem de qualquer autor antigo em que se relacione o
desenvolvimento de uma cidade corn o estabelecimento de uma manufactura"
(29). A tecelagem de linho não fundou Tarso nem a produção de sapatos e
mantos fundou Atenas; Lezoux e La Graufesenque florescem apenas nos
manuais arqueológicos, enquanto Patavium era um centro de manufactura de
lãs numa (e para uma) região de criação de ovelhas no norte de Itália
muito antes da omnívora cidade de Roma se tornar um dos seus mercados
(30).
28 Os dados sobre a criação de ovelhas na região foram reunidos por G.
E. F. Chilver, Cisalpine Gaul (Oxford 1941) pp. 163-7; mas ver
Brunt, Manpower pp. 181-2.
29 A citação completa é dada na nota 14 do cap. 1.
30 Seria uma grande perda de tempo e esforço enumerar todas as cidades
antigas que um ou outro historiador moderno elevou à categoria de
centro industrial internacional, mas Cápua merece talvez ser mencionada
porque se tem tornado uma favorita. Sendo a cidade mais importante da
Campania desde os primeiros tempos, serviu naturalmente como o
principal, mas não o único, centro para a produção do equipamento de que
precisavam os agricultores da região (Catão, De agricultura 135). Também
produzia artigos finos de bronze para exportação, nomeadamente para as
fronteiras do Norte, que são atestados arqueologicamente em números
significativos mas não espectaculares, e que não exigiam uma escala de
operações maior que a dos outros exemplos de exageros modernos
mencionados no fim do capítulo I. Mas atribui-se-lhe um papel ainda
maior. "Que grande parte dos artigos vulgares de bronze de Roma tenha
sido fabricada em Gápua não pode ser seriamente posto em causa.": M. W.
Frederiksen, "Re-
188

No seu relativamente breve período de florescimento havia olarias em


Arezzo que empregavam mais de cinquenta escravos. A fábrica de escudos
de Céfalo, na Atenas do século V, empregava mais de cem. Gomme tinha
razão em acentuar que oficinas de tal amplitude não podiam ser, e não
foram, ultrapassadas até que a revolução industrial deslocou o grosso
dos investimentos de um empresário do trabalho para o equipamento, para
bens de capital. Há quem pretenda, um pouco exuberantemente, que locais
escavados, como o bairro dos oleiros de Corinto, evocavam, na sua
aparência física, "os bairros dos artesãos das cidades medievais" (31).
Mas em geral esquece-se que as escavações de Tarso não puseram a
descoberto nenhuma "Casa dos Panos", que nenhuma cidade antiga dispunha
daquelas Casas das Corporações e Bolsas que são até hoje, depois das
catedrais, as glórias arquitectónicas das cidade medievais da Itália,
França, Flandres, cidades hanseáticas ou Inglaterra. Compare-se a Agora
de Atenas corn a Grande Place de Bruxelas. Não foi por descuido que
Pausanias não mencionou esta espécie de construções quando ridicularizou
a pequena cidade da Fócida.
Os fabricantes de tecidos da Flandres não tinham dificuldades em
suportar os encargos financeiros da cidadania; pelo contrário eram parte
integrante das oligarquias dominantes. O papel político das guildas
separou a cidade medieval da antiga, tal como o papel político do
campesinato separou a cidade antiga da medieval (32). Não somente não
existiam Casas das Corporações na antiguidade, como também não existiam
corporações, por muito que os collegia romanos e os seus congéneres
gregos e helenísticos tivessem sido assim mal traduzidos. Os collegia
desempenhavam um papel importante
publican Capua: A Social and Economic Study", PBSR 27 (1959)
80-130, à p. 109. Isto é incrível - Roma tinha a sua própria indústria
de bronze - e nada no longo relato de Frederiksen serve para apoiar
plausivelmente a sua tese.
31 Martin, Urbanisme, p. 34.
32 Weber, "Agrarverhàltnisse" p. 257; cfr. o seu
Wirtschaftsgeschichte, ed. por S. Hellmaii e M. Palyi (Munique e
Leipzig 1923) passim (ver o índice detalhado).
189

na vida social e religiosa das classes inferiores, tanto livres como


escravas; desempenhavam, por vezes, funções de beneficência, como no
financiamento de funerais; nunca se tornaram agências reguladoras ou
protectoras dos seus ofícios respectivos *, e esta era, é claro, a
raison d'être das corporações genuínas, medievais e modernas (33).
O contraste antigo-medieval está estreitamente ligado à diferença na
quantidade e significado da produção para exportação nos dois mundos. O
campesinato local era uma constante: homens que cultivavam pequenas
parcelas como as que analisamos, mesmo em se tratando de cidadãos-
camponeses livres, representam o mais baixo e o menos elástico mercado
possível para a produção urbana. É por isso que "na maioria das
sociedades camponesas, os mercados são periódicos e não permanentes e
contínuos... a procura per capita de mercadorias vendidas no mercado é
fraca, a zona coberta pelo mercado é limitada por técnicas primitivas de
transporte, e a procura global é pois insuficiente para aguentar lojas
permanentes" (:M). O que é verdade para os camponeses no que respeita ao
nível da procura (embora não à periodicidade) não é menos verdade para a
plebe urbana. A produção pode portanto avançar na medida, mas apenas na
medida, em que haja mercados de exportação, que na antiguidade eram
mercados acessíveis ao transporte por mar ou por rio. A prevalência
geral da auto-suficiência doméstica para os produtos de primeira
necessidade era o suficiente para travar a produção extensiva para
exportação.
Era isto que Max Weber queria dizer quando chamava à cidade antiga um
centro de consumo, não de produção. Ele
* Nos fins do Império Romano algumas tornaram-se agências
compulsórias do estado, mas esta é uma função muito diferente.
33 G. Mickwitz, Die Karíellfunktion der Ztinfte... [Societas Scien.
tiarum Fennica, Commentationes Humanam Literarum VIII 3 (1936)] cap. 5,
é fundamental.
34 Berry, Market Centers p. 93. Sobre mercados periódicos em
diferentes regiões do Império Romano, ver R. MacMullen, "Market-Days in
the Roman Empire", Phoenix 24 (1970) 333-41.
190
;

não ignorava as centenas de artesãos que faziam uma variedade infinita


de coisas igualmente variadas em qualidade. Mas situava-os correctamente
dentro da estrutura da cidade. O nível de consumo aumentou no decurso da
história antiga, atingindo por vezes proporções fabulosas. Os dados são
suficientemente conhecidos para que seja preciso repeti-los. De tempos a
tempos as autoridades tentaram restringir os excessos: leis sumptuárias
estão associadas aos nomes de figuras tão diferentes como Sólon,
Demétrio de Falero, Sila, Júlio César e Augusto. Plínio o Jovem foi
enviado por Trajano à Bitínia nos princípios do século II para controlar
a extravagância e o desperdício na atribuição de fundos municipais. O
objectivo era sempre o mesmo, impedir a auto-destruição da elite social,
apanhada nas malhas das pressões poderosas criadas por exigências de
status, um objectivo que não se podia de forma alguma relacionar corn o
de Colbert, por exemplo, que reduziu o número de dias santos para
aumentar a produtividade dos trabalhadores e camponeses franceses.
Resumindo: essencialmente, a capacidade das antigas cidades pagarem a
sua alimentação, metais, escravos e outros artigos de primeira
necessidade repousava sobre quatro variáveis: a quantidade da produção
agrícola local, quer dizer a produção da área rural da cidade; a
presença ou ausência de recursos especiais, acima de tudo a prata mas
também outros metais ou vinhos particularmente desejáveis ou plantas
produtoras de óleo; as exportações invisíveis de comércio e turismo; e
quarto, o rendimento da propriedade e domínio de terras, rendas,
impostos, tributos, doações de clientes e dependentes. A contribuição
das manufacturas era desprezível; somente um modelo falso leva os
historiadores a procurá-las onde elas não são mencionadas, e não
existiam.
Note-se que não inclui também a dimensão da cidade entre as variáveis
significativas. Também a este respeito a tendência antiga era para
aumentar, culminando nos dois primeiros séculos do Império Romano, que
viram não só as poucas grandes metrópoles, encabeçadas pela própria
Roma, mas também uma série de cidades, especialmente na metade oriental,
atingir a ordem dos 100000 habitantes. A nova dimensão
191

; l!
era visível ao longo de toda a linha: mesmo uma cidade menor como
Pompeia tinha, quando foi destruída em 79 d.C., cerca de 20 000
habitantes, total excedido por não mais de uma dúzia de cidades gregas
do período clássico. Em parte, este crescimento urbano era consequência
do crescimento geral da população; em parte reflectia o aumento do
volume do comércio e o aumento da riqueza nas mãos das classes
superiores. Mas era sobretudo a resposta ao novo modelo político, a
substituição da cidade-estado por um grande império burocrático. Maiores
cidades (ou centros do exército) significavam então uma procura maior de
ofícios urbanos para os serviços internos, e em alguns casos,
nomeadamente em Roma, havia também um impacto a distâncias consideráveis
no campo para além da área rural imediata, por exemplo para o
fornecimento de vinho e carne de porco aos consumidores romanos. O que
não ee nota, contudo, é qualquer efeito importante na produção urbana
para exportação.
Não é muito relevante o facto de as cidades terem perdido, em larga
medida,, os impostos e tributos que tanto tinham contribuído para as
primitivas cidades-estado. Embora tecnicamente esse rendimento tivesse
passado para o tesouro imperial, uma parte importante dele ia para
várias cidades que não Roma, através de salários, gratificações e
benesses pagos a um número caída vez maior de funcionários imperiais e
ao seu •pessoal, e através dos exércitos. Quanto ao resto, maiores
rendimentos urbanos especialmente naquele sector da população que mais
consumia provinham das mesmas fontes que anteriormente, da terra, do
serviço governamental e das exportações invisíveis. Eram rendimentos
elevados por razões previamente indicadas: talvez não se trate de uma
coincidência o facto de este período de urbanismo crescente, de um
aumento absoluto e relativo dos números das classes economicamente
parasitas, corn um estilo de vida sumptuário, ter sido também o período
durante o qual entrou em pleno vigor a distinção entre honestiores e
humiliores, um sintoma de opressão na posição social dos pobres livres,
tanto artífices como •camponeses. Qualquer ideia de aumentar os
rendimentos urbancs pela manufactura não estava no programa: não havia
192

nem incentivos financeiros nem oportunidades de mercado para aqueles que


possuíam o capital potencial, e havia fortes pressões sócio-psicológicas
contrárias. Em contraste, o mundo agrário da Europa feudal forneceu às
cidades medievais os mercados externos que faltavam às cidades antigas.
Os reis, senhores e dignitários da Igreja, vivendo nos seus domínios ou
em pequenas aglomerações, criaram uma relação cidade-campo
fundamentalmente diferente da dos seus predecessores, proprietários
altamente urbanizados (35).
O mesmo padrão de dissuasão está subjacente a outro aspecto da economia
antiga que já foquei várias vezes, a condição daquilo a que se pode
chamar de um modo geral as suas práticas de negócios. Este mundo nunca
criou dinheiro fiduciário sob qualquer forma, nem instrumentos
negociáveis. O dinheiro era a moeda, principalmente de prata, da qual
uma grande quantidade estava enfiada em cofres-fortes, no solo, ou nos
bancos em depósitos sem juros (36). Os pagamentos faziam-se em moeda, e
apenas em condições especiais podia ser efectuado por uma transferência
dentro de um banco particular ou dentro dos cofres de uma corporação
romana de cobrança de impostos. No direito grego as, vendas nem eram
Jegais nem obrigavam enquanto o preço não tivesse sido totalmente pago;
as vendas a crédito tomavam a forma de empréstimos fictícios (e são
portanto normalmente impossíveis de detectar nas fontes). Havia um
movimento sem fim de empréstimos entre os gregos e os romanos, mas todos
os prestamistas estavam estritamente limitados pela quantia efectiva de
dinheiro líquido disponível; não havia, por outras palavras, qualquer
mecanismo para a criação de crédito através de instrumentos negociáveis
("). A ausência completa de uma dívi-
35. G. W. Fox, History in Geographic Perspective (Nova Iorque
1971) tem alguns comentários sugestivos sobre este ponto, especialmente
no cap. 3.
36 Bogaert, Banques, pp. 336, 368-70, fornece alguns exemplos.
37 Ver o meu "Land, Debt and the Man of Property in Classical Athens",
Polilical Science Quarterhj 68 (1953) 249-68, cfr.
Bogaert, Banques, pp. 352-5; Rougé, Commerce, pt. in, caps. 2 e 7.
193

da púlblica é neste contexto um indicador significativo. Nenhum grego


nem nenhum romano poderiam ter compreendido uma definição moderna da
oferta de dinheiro como "o total das responsabilidades financeiras mais
a moeda em circulação possuídas pelo público não bancário" (38).
Um estudo recente e exaustivo sobre a banca e emprés-
í timos na Grécia não revelou mais de dois exemplos compro-
! vados (um dos quais dúbio) de empréstimos para fins de ne-
| gócios, na agricultura, no comércio ou na manufactura, nas
fontes de qualquer período, à parte os empréstimos marítimos
; (ou de botomaria), uma excepção que se pode explicar pela
função desse tipo de empréstimo como apólice de seguros mais
que como forma de crédito (39). (Aquilo a que nós costuma-
l mós chamar "bancos" na antiguidade são apenas visíveis no
f negócio de botomaria) (40). Houve certamente transacções
1 que não aparecem nas nossas fontes, mas é indubitável que
na Grécia se emprestava dinheiro sobretudo para fins não
produtivos.
A estrutura da cidadania romana não criou a barreira legal entre a terra
e o crédito, característica da cidade-estado grega, que examinei
anteriormente. Cícero dirigiu-se aos faeneratores para obter dinheiro
para comprar uma villa urbana | (Ad familiares 5.6.2). Mas quando Plínio
pôs a hipótese de
comprar uma grande propriedade na Úmbria (Epístolas 3.19), longe de
pensar contactar um prestamista para fazer uma
38 B. J. Fogel e S. L. Engerman (orgs.), The Reinterpretation of
American Economic History (Nova Iorque 1971) p. 441.
39 Bogaert, Banques, pp. 356-7. Os dois exemplos são Demóstenes 40.52
e Lísias, frag. 38.1, este último certamente duvidoso.
40 Ibid. p. 355; Bogaert, "Banquiers, courtiers et prêts maritimes
à Athènes et à Alexandrie", Chronique d'Égypte 40 (1965) 140-56, uma
análise qualificada por Erxleben, "Aussenhandel Athens", 490-94. Ver em
geral G. E. M. de Ste. Croix, "Ancient Greek and Roman Maritime Loans",
em Essays in Honour of W. T. Baxter (org. H. Edey e B. S. Yamey)
(Londres 1974), pp. 41-59. É significativo que apenas exista um
papiro mutilado que trate de um empréstimo marítimo, e muito poucas
informações directas romanas: Rougé, Commerce, pt. in cap. 2. ''; •'
"j , . .
194

hipoteca, planeou o contrário, fazer-se pagar dos seus próprios


empréstimos a juros e, se necessário, compensar algum déficite
recorrendo ao cofre da sogra. Qual era o comportamento mais típico, o de
Cícero ou o de Plínio? Até que se faça um estudo sobre os empréstimos em
Roma comparável ao que foi feito sobre a Grécia, estamos limitados às
hipóteses. A minha é que, também entre os romanos, os empréstimos em
larga escala, os empréstimos entre os homens de recursos, eram
contraídos corn fins não produtivos, para objectivos de consumo sob cujo
título incluo, evidentemente, os objectivos políticos (41). Empréstimos
a curto prazo, contabilidade rudimentar (incluindo a prática vulgar de
não passar recibos por pagamentos particulares), a ausência do conceito
de amortização
- não preciso de repetir o que já disse sobre estes tópicos tudo
derivava deste fenómeno fundamental. Pode dizer-se o mesmo dos
empréstimos sobre 'penhores e do pequeno empréstimo usurário que
floresceram à custa dos pobres.
Consequentemente, não só os altos e baixos na produção eram atribuíveis
sempre a catástrofes naturais ou complicações políticas, e não a crises
cíclicas, como ainda se revela que as chamadas "crises de crédito"
tinham as mesmas raízes e não resultavam das operações de oferta e
procura num "mercado monetário" normal. Não só eram atribuíveis, como
também eram atribuídos: Cícero estava dolorosamente a par dos efeitos de
uma súbita falta de moeda nas taxas de juros e nog preços das terras, e
cerca de três séculos mais tarde o historiador Dio Cássio revelou estar
a par do efeito contrário, verificado quando Augusto trouxe para Roma o
tesouro conquistado aos egípcios (42). Contudo, já foi notado que nem um
só comentador antigo, por muito "atento às circunstâncias particulares
em que se encontrasse no quotidiano, ou que des-
41 Isto é implícito no material analisado por Rougé, ibid. Digo
"aparentemente" porque o método de Rougé é "impressionista" e não
quantitativo.
42 Cícero, Epístolas a Ático 7.18.4; 9.9.4; 10.11.2; 10.14.1, todas da
primeira metade de 49 a.G., a crise (César) mencionada logo a seguir no
meu texto; Dio Cássio 51.21.5 (cfr. Suetónio, Augusto 41.1-2).
195

creva como historiador, faz reflexões sobre aquilo a que chamamos


movimentos de longo prazo, sobre o movimento secular dos preços" (43).
Um caso rudimentar, mas exemplar, de uma crise de crédito causada por
uma catástrofe militar é conhecido pela preservação fortuita de um longo
e complicado decreto da cidade de Êfeso nos princípios do século IM
a.C., ordenando medidas paleativas provisórias a respeito de pagamentos
de hipotecas sobre quintas, dotes e outros tipos de obrigações (44). Por
trás desta legislação de emergência estavam anos de guerra contínua
entre os sucessores de Alexandre o Grande. Êfeso encontrava-se no
interior de um dos principais teatros de luta e tinha sido devastada.
Daqui a crise.
Ora a guerra civil que trouxe Júlio César ao poder instilou, nos
círculos ricos romanos, o medo de uma medida "demagógica" de
cancelamento das dívidas. As taxas de juro foram diminuídas pelos
tribunos; os credores fizeram-se pagar pelos seus empréstimos, os
devedores não podiam pagar; as suas terras foram confiscadas e saturaram
o mercado, enquanto a moeda se esgotava, literalmente. Os esforços de
César para debelar a crise incluíram um ataque vão à carência de moeda,
problema que era crónico, algumas revisões no processo de avaliação de
propriedades e, possivelmente, na lei sobre transferências de
propriedades (45). Outra crise, bas-
43 C. Nicolet, "Lês variations dês prix et Ia 'théorie quantitativo de
Ia mormaie' à Rome, de Cicéron à Pline FAncien", Annales 26 (1971)
1203-27, à p. 1225. A expressão entre aspas no título e a primeira parte
da análise tende a exagerar os aspectos "teóricos" daquilo que não
passa do senso comum rudimentar, como Nicolet admite, de resto, na
írase que citei; cfr. os comentários de M. H. Crawford que se seguem
imediatamente nos Annales (pp. 1228-1233) sob o título "Lê problème dês
liquidités dans 1'antiquité classique". Uma análise interessante,
que pode facilmente passar despercebida, do impacto da falta de moeda é
a de J. M. Kelly, Roman Litigation (Oxford 1966) cap. 3.
44 Syll. 364. O texto, uma tradução italiana e um breve comentário,
corn bibliografia completa, encontra-se em D. Asheri, "Leggi
greche sul problema dei debiti", Studi classici e orientali 18
(1969)
5-122, às pp. 42-47 e apêndice II.
45 O relato mais completo é o de Frederiksen, "Caesar".
196

tante misteriosa, deu-se na cidade de Roma em 33 d.C., no tempo de


Tibério. Esta crise, segundo um relatório breve mas pouco lúcido de
Tácito (Anais 6.16-17), começou por protestos populares contra as
irregularidades dos prestamistas, aos quais estes responderam exigindo o
pagamento dos empréstimos, ameaçando novamente as propriedades de muitos
homens respeitáveis. O imperador interveio emprestando sem juros um
milhão de sestércios a devedores de merecimento e em breve a excitação
acabou (46). Tibério preocupava-se corn "aqueles cuja dignitas e fama
estavam ameaçadas" (47); tal como Cícero na sua feroz denúncia (De
oficiis 2.78-84) das medidas de redução de dívidas, em geral e em
particular. Elas são um ataque à propriedade e às classes proprietárias,
diz em termos seguros, mas nada refere sobre qualquer ameaça ao
desenvolvimento económico ou à economia, excepto quanto à rudimentar
observação "pré-científica" (novamente a frase de Schumpeter) de que se
empresta mais dinheiro em períodos em que as interferências demagógicas
não ameaçam o pagamento das dívidas.
Temos que introduzir mais uma negativa nesta longa narrativa da
estabilidade qualitativa, da "rigidez", das práticas comerciais depois
do fim do século IV a.C. (4S). Refiro-me à ausência não só das
corporações mas também das sociedades a longo prazo. Durante o Império
Romano havia mercadores que tinham representantes ou agentes permanentes
em certos portos importantes, assim como havia representantes de
"colectividades" informais tais como os proprietários de navios
(naviculari) de Aries, corn o seu agente em Beirute (49). Contudo, esta
operação relativamente simples e res-
46 A única análise séria da crise, corn uma completa discussão de
interpretações anteriores, é C. Rodewald, Money in the Age of Tiberius
(Manchester 1976).
47 M. H. Crawford, "Money and Exchange in the Roman World", JRS 60
(1970) 40-48, à p. 46.
48 Ver o resumo nas páginas iniciais do cap. 7 de Crook, Law.
49 Ver Rougé, Commerce pp. 420-1 (a palavra "rigidez" [fixity] é sua, p.
491). Caracteristicamente, Rougé diz que havia muitas redes de
"agentes", um adjectivo que ele justifica só corn um ou dois exem-
197

trita não levou, nos negócios privados, a sociedades a longo prazo, e


muito menos às organizações poderosas e duradouras que durante a
República haviam sido criadas pelas corporações de colectores de
impostos, corn excepção talvez dos- mercadores e navegantes responsáveis
pelo abastecimento imperial de cereais (60). Aqui temos provas - emprego
deliberadamente a palavra - de que não se trata de uma falha
intelectual. Dado que a ideia de corporação era familiar, a sua não
extensão a outras esferas de actividade revela a ausência de uma
necessidade, especificamente da necessidade de mobilizar recursos de
capital, para transcender a capacidade financeira de qualquer indivíduo
para produzir mercadorias comerciáveis, para praticar o comércio, para
emprestar dinheiro.
Resumindo, a forte tendência para adquirir riqueza não se traduzia numa
tendência para criar capital; dito de outro modo, a mentalidade
dominante era aquisitiva mas não produtiva *. corn riscos de me tornar
repetitivo, isto leva-me de volta ao papel dos metecos, libertos e
escravos na vida comercial do mundo antigo. Ê irrelevante insistir que
os metecos eram tão gregos como os proprietários fundiários gregos que
desprezavam o comércio. Ninguém pretende que exista uma atitude racial.
O que se pretende é que existam atitudes sociais e políticas poderosas e
consequências económicas importantes. Grande parte da compra e venda
quotidiana de alimentos e outras matérias-primas e de bens
manufacturados em todas as cidades da antiguidade - eu diria até a maior
parte -
in
pios. O torn de Pseudo-Demóstenes 56, ao descrever os agentes postados
em Rodes por Cleómenes, o governador de Alexandre no Egipto, implica que
a prática era nova, e esta é uma das razões para que eu diga "depois do
fim do século IV a.C.".
50 Isto é demonstrado, na minha opinião, pela forma tendenciosa corn que
Rougé, ibid. pp. 423-34, tenta provar o contrário. Ele passa por cima do
significado do facto de que o seu único exemplo plausível consiste em
comerciantes ocupados numa operação governamental, a annona imperial.
* De modo semelhante, os antigos esquemas utópicos concentravam-se no
consumo e não na produção, como no "comunismo" satirizado nas
Ecclesiazusae de Aristófanes.
)
198

era feita sem intermediários, através de vendas directas de artífices


particulares a consumidores particulares. No mundo grego,
paradoxalmente, estes artífices vendedores eram, na sua maioria,
cidadãos das respectivas comunidades, assim como também em grande
parte do Império Romano, excepto nos locais em que prevaleceu o sistema
dos libertos - a maior parte cidadãos pobres, politicamente impotentes
excepto em comunidades atípicas como era a Atenas democrática e
clássica, socialmente inferiores, mas cidadãos não obstante, não metecos
nem estranhos. Os empresários, os homens que dirigiam o comércio
marítimo em larga escala ou que emprestavam dinheiro aos ricos, a
"burguesia" de Rostovtzeff, estavam na sua maioria isentos das
obrigações e distracções da administração municipal ou imperial; eles
são os homens que se esperaria ver criar e desenvolver novas técnicas de
formação de capital - e não o fizeram. Na realidade não eram estes os
homens que tinham a maior acumulação, o maior potencial. Para isso temos
que olhar para a elite dos proprietários fundiários, e a sua falta de
incentivos era decisiva.
Nada do que tenho vindo a dizer deve ser tomado como negando a
existência de técnicos e de conhecimentos em todos os campos que
contribuíam para a manufactura, engenharia, preparação de alimentos e
navegação. Escreveu-se muito na antiguidade sobre esses assuntos, e
quase todos esses escritos se perderam, corn uma excepção importante, o
De architectura de Vitrúvio, escrito provavelmente no reinado de
Augusto, a obra padrão sobre o assunto durante os 1500 anos seguintes
(51). Quando Vitrúvio resolveu escrever um manual completo, fê-lo corn
credenciais impecáveis; a sua educação literária e científica era
considerável, ele próprio tinha trabalhado como engenheiro e arquitecto
e estava ao corrente da importante literatura helenística. O seu livro
é, portanto, o melhor exemplo disponível da antiguidade sobre os
conhecimentos e o pensamento de um homem que era um "fazedor" e não
apenas um "conhecedor" e que combinava o melhor da prática dos gregos e
dos romanos.
51 Sigo de perto o argumento do meu "Technical Innovation".
199

Por ordem, o De architectura ocupa-se dos seguintes tópicos:


arquitectura em geral e as qualificações dos arquitectos, urbanismo,
materiais de construção, templos e outras construções cívicas,
construções domésticas, pavimentação e estuque decorativo, abastecimento
de água, geometria, medidas, astronomia e astrologia e, finalmente,
"máquinas" e apetrechos de assédio. Vitrúvio é um escritor discursivo.
Tem muito a dizer por exemplo sobre a ética da sua profissão. No
prefácio ao livro décimo sugere que a falta de cuidado dos arquitectos
podia facilmente remediar-se pela adopção universal de uma lei de Êfeso
que responsabilizava pessoalmente o arquitecto pelos custos que iam além
de vinte e cinco por cento a mais do orçamento original. Espalhadas
pelos prefácios há histórias tiradas da história das invenções:
invariavelmente as circunstâncias, e portanto a explicação, são
acidentais (como no caso das pedreiras de mármore de Êfeso onde dois
carneiros em luta arrancaram um bocadinho da encosta) ou frívolas (como
na descoberta de Arquimedes do princípio da gravidade específica em
resposta a um pedido real para encontrar maneira de desmascarar um
ourives desonesto).
Tal como, digamos, Aristóteles no século IV a.C., Vitrúvio não via
qualquer virtude nem possibilidade no progresso contínuo da tecnologia
através de uma investigação sistemática. Agora que se conheciam as
"máquinas" essenciais escadas, roldanas, guindastes, vagões, foles e
catapultas Vitrúvio, como Xenofonte, acentuava os benefícios
qualitativos da técnica mas não as suas possibilidades quantitativas e
produtivas. E isto apesar de ser um engenheiro e um construtor, enquanto
Xenofonte explicava apenas a excelência da comida na corte persa. É pois
compreensível que tenha bastado um breve parágrafo (10.5.2) para a
recente e importante invenção do moinho de água, e que em todo o De
architectura haja apenas uma única passagem que considera a obtenção de
uma maior economia de esforço ou de uma maior produtividade. Vitrúvio
recomenda (5.10.1) que nos banhos públicos a sala de água quente para
homens seja instalada ao lado da das mulheres de forma a serem aquecidas
por uma única fonte de calor. Convir-se-á que não se trata de um exemplo
muito notável.
200

Os gregos e os romanos herdaram uma massa considerável de técnicos e de


conhecimento empírico que exploraram bem, na medida em que convinha aos
seus interesses particulares, e aos quais acrescentaram a manivela e o
parafuso, o moinho rotativo e o moinho de água, o vidro soprado, o
betão, o molde de bronze fundido, a vela latina e alguns outros. Houve
melhoramentos e aperfeiçoamentos em muitas esferas. Mas não houve muitas
inovações genuínas depois do século IV ou in a.C., e houve pelo
contrário obstruções efectivas, Por alguma razão estranha, alguns
historiadores negam estas últimas, mas há duas que resistem
absolutamente, e ambas afectavam actividades essenciais e lucrativas. A
primeira era na exploração mineira, especialmente nas províncias do
norte e do ocidente onde o nível friático criava por vezes muitas
dificuldades; ninguém descobriu uma maneira de melhorar a extracção
manual da água, a roda de água accionada a pedal e talvez o parafuso de
Arquimedes para a drenagem: não há menção de um instrumento tecnicamente
tão simples como a bomba de roda corn tracção animal (52). O segundo
exemplo é mais generalizado. A energia na antiguidade era força
muscular, humana e animal: os antigos navegavam corn o vento e faziam
cataventos complicados, mas nunca fizeram um moinho de vento.
Há uma história, repetida por um grande número de escritores romanos, de
um homem - caracteristicamente anónimo - que inventou vidro inquebrável
e foi fazer uma demonstração a Tlbério esperando uma grande recompensa.
O imperador perguntou ao inventor se alguém conhecia o seu segredo e
este garantiu-lhe que ninguém sabia; então Tibério mandou-o decapitar
para que, segundo disse, o ouro não ficasse reduzido ao preço da chuva.
Não tenho opinião sobre a veracidade desta história. Mas não é
interessante que nem Plínio nem Petrónio nem o historiador Dio Cássio se
admirassem corn o facto de o inventor se dirigir ao imperador corn o
intuito de receber uma recompensa em vez de se dirigir a um
52 Ver O. Davies, Roman Mines in Europe (Oxford 1935) p. 24.
201

capitalista de modo a fazer produzir a sua invenção (53) ? A minha


resposta a esta pergunta retórica é mais "não" (não é muito
interessante) que "sim". Temos que ter sempre em mente o facto de a
experiência europeia desde a Baixa Idade Média, na tecnologia, na
economia e nos sistemas de valores que as acompanhavam, ter sido única
na história do homem até começar a recente tendência para a exportação.
O progresso técnico, o desenvolvimento económico, a produtividade e
mesmo a eficiência não foram objectivos significativos desde o princípio
dos tempos. Enquanto se podia manter um estilo de vida aceitável,
qualquer que fosse a sua definição, a cena era dominada por outros
valores.
O comportamento dos governos fornece-nos o teste final. Os estados
antigos eram capazes de mobilizar grandes recursos para fins de bem-
estar e militares e a tendência era para a subida numa espécie de
megalomania, desde a Casa Dourada de Nero ao palácio de Diocleciano na
Dalmácia, corn 36 000 m2, na esfera privada, ou da transformação de Roma
por Augusto numa cidade de mármore aos 120 000 m2 de banhos públicos de
Diocleciano, na esfera pública. Mesmo cidades bastante modestas
conseguiam construir o Pont du Gard, que abastecia de água fresca uma
cidade provincial não muito importante no sul da Gália, ou o imenso
anfiteatro de Puteoli. Mas além disto que fizeram? No século que se
seguiu à conquista do Egipto por Alexandre, os Ptolomeus reconstruíram
todo o país. Recuperaram para o cultivo grandes quantidades de terras,
melhoraram e alargaram o sistema de irrigação, introduziram novas
espécies de cereais, trouxeram o Egipto, corn algum atraso, da Idade do
Bronze à Idade do Ferro, fizeram alterações na administração e na gestão
- tudo isto no interesse dos rendimentos reais e tudo isto não sendo
nada mais que dar ao Egipto as vantagens da tecnologia grega já
existente e dos processos gregos. Simultaneamente os Plotomeus fundaram
e financiaram o Museu de Alexandria, que foi du-
53 As referências são: Plínio, História Natural 36.195; Petrónio,
Satyricon 51; Dio Cássio 57.21.7.
202

rante dois séculos o principal centro ocidental de investigação


científica e de invenção. Grandes coisas foram feitas no Museu, em
tecnologia militar e engenhosos brinquedos mecânicos. Mas ninguém, nem
mesmo os próprios Ptolomeus que teriam corn isso feito belos lucros
imediatos, pensaram em encaminhar a energia e o poder de invenção de um
Ctesibio para a tecnologia industrial ou agrícola. É flagrante o
contraste corn a Royal Society em Inglaterra.
Também flagrante é o contraste entre os últimos imperadores romanos e
Luís XIV, cujos exércitos, dentro daquilo que fora uma simples província
romana, como notou Gibbon, eram maiores que os que qualquer imperador
antigo conseguiu formar. A partir de meados do século in eram tão pouco
adequados numericamente os exércitos que tinham que resistir às
contínuas e crescentes incursões de germanos e persas que esse facto não
pode escapar por muito tempo aos responsáveis pelo Império. Nada se pode
fazer. Nem a força em homens disponível, nem a produção de alimentos,
nem os transportes podiam suportar uma carga maior que a imposta por
Diocleciano quando, pelo menos no papel, duplicou os efectivos do
exército. Os impostos e os serviços obrigatórios aumentaram, .recaindo
os encargos em larga medida sobre os menos aptos a suportá-los. Os
homens e os meios eram transportados para os pontos mais perigosos,
beneficiando por vezes províncias fronteiriças em detrimento de outras.
Mas nada se pode fazer para aumentar a produtividade do Império como um
todo, ou para redistribuir os encargos. Para isso teria sido necessária
uma transformação estrutural completa.
203

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O ESTADO E A ECONOMIA
No fim do século V a.C. um réu rico, acusado de um
crime sério contra o estado ateniense mas de outra forma
desconhecido, começou a sua defesa perante o tribunal deste
modo revelador, embora irrelevante dum ponto de vista legal
(Lísias 21.1-5):
"No arcontado de Teopompo [411-10 a.C.], tendo eu sido designado
choregos para o concurso de tragédia, gastei
3000 dracmas, mais 1200 dois meses depois, quando ganhei o prémio corn o
coro de homens no festival das Targélias". No ano seguinte "gastei 800
dracmas corn as danças pírricas na Grande Panateneia e na Dionísia fui
vencedor corn um coro masculino que me custou, incluindo a dedicação de
um trípode, 1500 dracmas". No ano seguinte "300 dracmas para o coro
cíclico na Panateneia Menor e durante este tempo fui trierarca durante
sete anos e gastei corn isso seis talentos [36000 dracmas]... Mal tinha
desembarcado quando me tornei gimnasiarca para o festival de Prometeu.
Venci e gastei
1200 dracmas. Fui em seguida choregos de um coro de rapazes, o que me
custou 1500 dracmas". No ano seguinte "fui o choregos vencedor para o
poeta cómico Cefisodoro e gastei
1600 dracmas, incluindo a oferta dos adereços, e fui também choregos
para os dançarinos pírricos imberbes na Panateneia Menor, o que me
custou 700 dracmas. Venci também corn um trirreme na corrida de Súnio,
gastando aí 1500 dracmas", além de vários rituais menores, cujo custo
ultrapassou as
3000 dracmas.
205

K-
O termo técnico grego para estas dispendiosas actividades públicas era
leitaurgia, uma palavra antiga de que deriva i a nossa palavra
"liturgia" através de uma evolução simples
; (trabalho para o povo - > serviço para o estado -> serviço
j para a divindade) (')• A liturgia grega tinha as suas raízes
na era em que a comunidade grega era ainda rudimentar, em jl que as
casas aristocráticas forneciam os serviços públicos
j' ; essenciais, tais como a construção de templos, gastando o
í | j trabalho e os materiais de que dispunham a título privado. Na
| ; cidade-estado clássica, a liturgia tornara-se ao mesmo tempo
| j : y obrigatória e honorífica, uma forma de o estado não
buro-
|| ;• A- crático obter certas coisas sem despesas do tesouro
público
i í ; mas transferindo para os indivíduos mais ricos as responsabi-
lidades directas dos custosi e da própria operação.
O elemento honorífico sublinhava-se de duas formas: primeiro, a
esfera principal da actividade litúrgica era sempre \ a religiosa; nos
tempos de Demóstenes havia anualmente em
( Atenas pelo menos 97 nomeações litúrgicas para os festivais,
! e mais de 118 nos anos panatenaicos (de 4 em 4 anos) (2). Em
l Atenas e nalgumas outras cidades (embora as informações
í existentes para estas últimas sejam mínimas) a trierarquia,
o equipamento e comando de um navio durante um ano, era a outra das
liturgias principais. Mas não havia ainda então liturgias para 'a
limpeza das ruas ou a construção de muralhas. l! Segundo, existia um
elemento livre e competitivo, aquilo a que
,!' os gregos chamavam agon: à pessoa nomeada para uma litur-
Í! gia não era imposta uma quantia específica, mas atribuída
i uma tarefa específica que ela podia executar melhor ou pior,
i corn uma despesa pessoal maior ou menor. O homem da nossa
": história orgulhava-se de ter gasto em oito anos três vezes
mais do que o que lhe impunham as exigências legais. Ninguém pode
verificar a exactidão destas informações, mas podei mós confiar na lista
das vitórias enunciadas. Mesmo descon-
1 N. Lewis, "Leitourgia and Related Terms", Greek, Roman and Byzantine
Studies 3 (1960) 175-84; 6 (1965) 226-30.
2 J. K. Davies, "Demosthenes on Liturgies: A Note", Journal
of Hellenic Studies 87 (1967) 33-40. .ri^o,,,,; ^.w.
206

tando o exagero, as despesas eram enormes: o total gasto nos oito anos,
ainda para mais anos de guerra, era de cerca de nove talentos e meio,
vinte vezes mais que o valor mínimo de propriedade exigido para o
serviço hoplita.
Hoje em dia ninguém se orgulha de anunciar publicamente o montante dos
impostos que paga, e menos ainda que paga três vezes mais que o exigido
pelas finanças. Era no entanto prática corrente nos tribunais
atenienses, e às vezes na assembleia popular, a vanglória das próprias
liturgias e a acusação de o adversário se esquivar a elas. Diz-se muitas
vezes que se trata de um topos, de um cliché de retórica. Ê indubitável,
mas não o é menos o facto de os grandes oradores utilizarem os topoi
apenas quando eles tocavam uma corda sensível do público. O elemento
honorífico era significativo, reflectia as complexidades da noção de
"comunidade" na Grécia. Esquece-se muitas vezes que Aristóteles definiu
o homem como sendo não só um zoon politikon, um ser-de-pólis, como
também um zoon oikonomikon, um ser-doméstico, e um zoon koinonikon, um
ser destinado pela natureza para viver numa koinonia. Esta palavra não é
facilmente traduzível excepto em contextos muito restritos; diremos aqui
"comunidade", corn a condição de a palavra ser entendida de forma mais
lata que no uso popular corrente, no espírito, por exemplo, das
primeiras comunidades cristãs.
A dificuldade óbvia em se considerar a cidade-estado como uma
comunidade, corn a sua tónica na participação mútua de encargos e
benefícios, era o duro facto de os seus membros não serem iguais. A
desigualdade mais chocante não era entre a cidade e o campo nem entre as
classes, era entre i os ricos e os pobres. Como ultrapassar esta
dificuldade numa j\ verdadeira comunidade? A resposta democrática era
dada, em parte, por meio do sistema de liturgia, pelo qual os ricos
aguentavam um grande encargo financeiro e eram recompensados corn honras
correspondentes. "Gastar os meus recursos para o vosso divertimento",
eis como um orador do século IV resumiu o princípio da liturgia (Esquino
1.11). Quem não aprovava a democracia via a questão de outra maneira: "O
povinho", escreveu um panfletista anónimo do século V, "exige
207

pagamento para cantar, correr, dançar e navegar, de forma a que fiquem


eles corn o dinheiro e a que os ricos Empobreçam" (Ps-Xenofonte,
Constituição de Atenas 1.13). ,•;
A dualidade inerente ao sistema litúrgico - a honra de ser um benfeitor
público por um lado, as despesas financeiras por outro - acabou no Baixo
Império Romano. Nessa altura as liturgias (munera em latim) só se
executavam porque os homens eram obrigados a isso, o que na prática
significava que ser membro de certos órgãos-chave, os senados municipais
e os collegia apropriados, era agora obrigatório e, mais do que isso,
obrigatório em gerações sucessivas, hereditário portanto (3). Esta é uma
história conhecida, mas temos que resistir à ideia de que se tratava
apenas de mais uma inovação brutal do militarismo absoluto do Baixo
Império (4). Pelo contrário era a conclusão inevitável de uma longa
evolução que pode ser (mas não tem sido) delineada, não em gráficos mas
nas suas fases principais *.
A partir do momento em que os sucessores de Alexandre estabeleceram as
suas monarquias autocráticas e burocráticas, as liturgias proliferaram,
o seu âmbito alargou-se e tornaram-se cada vez mais dispendiosas. Os
imperadores romanos retomaram posteriormente a prática helenística,
universalizaram-na e esquematizaram-na gradualmente. Os estratos
superiores do Império, cidadãos romanos de categoria senatorial ou
equestre, estavam isentos dela assim como, em parte, os veteranos. Quem
não possuía propriedades contribuía corn o seu trabalho forçado à
tarefa. Era portanto a aristocracia da província, a chamada classe
curial, que suportava os maiores encargos, na medida em que não podia
transferi4os para os coloni. Um
3 Ver A. H. M. Jones, "The Gaste System in the Later Roman Empire",
Eirene 8 (1970) 79-96; S. Dill, fíoman Society in the Last Century of
the Western Empire (2." ed., Londres 1921) pp. 248-70.
4 E.g. J. Vogt, The Decline of Rome, trad. J. Sondheimer (Londres e
Nova Iorque 1967) pp. 27-28.
* Aqui, como em outras passagens, deixo de lado as cidades "livres" e
"isentas" do Império Romano. Apesar das suas próprias afirmações
pomposas e ruidosas, de que se fazem eco livros modernos, elas eram um
elemento negligenciável na estrutura imperial.
208
j

grupo de importantes liturgias veio a ser classificada como


"patrimoniais": não eram atribuídas a pessoas mas a propriedades
específicas como um encargo permanente que se transmitia a cada novo
proprietário. Entre estas não posso deixar de referir a obrigação de
pertencer ao corpus naviculariorum, ao corpo dos armadores de navios
responsáveis pelo transporte dos cereais do governo (5).
Em todo o Império Romano os magistrados municipais, que ao contrário dos
privilegiados detentores de postos imperiais não eram pagos, deviam
fornecer summae honorariae, doações para jogos, edifícios públicas,
'banhos e outras comodidades. No século I da nossa era, estas summae,
que tinham sido instituídas na República, tornaram-se uma obrigação
regular. O mínimo convencional variava conforme as cidades; a
generosidade dos detentores de funções variava conforme os indivíduos; o
velho elemento honorífico mantinha-se bastante forte, como o revela a
competição pelos cargos públicos (6). Mas para muitos homens a honra
residia no cargo em si e nos benefícios que podia trazer à sua
comunidade local, enquanto que as liturgias crescentes eram outro
assunto, particularmente o grande e cada vez mais dispendioso conjunto
relacionado corn a manutenção das estradas imperiais (7), o correio
imperial e o sistema de transportes, o fornecimento de cereais ao
exército e o seu aquartelamento. Por isso começaram a surgir as
nomeações compulsivas no reinado de Adriano, muito antes do fim da Idade
de Ouro convencional (8).
5 Ver Jones, LRE pp. 827-9.
6 A análise mais detalhada (para as províncias africanas e a Itália)
encontra-se em Duncan-Jones, Economy caps. 3-4.
7 Ver T. Pekáry, Untersuchungen zu den romischen Reichsstrassen (Bona
1968) cap. 3, e as importantes correcções e qualificações,
principalmente no que diz respeito ao período republicano, de T. P.
Wiseinan, "Roman Republican Road-Building", PBSR 38 (1970) 122-
52, às pp. 140-52.
8 Ver P. Garnsey, "Aspects of the Decline of the Urban Aristocracy in
the Empire>>, em Aufstieg imã Niedergang der rõmischer Welt, org. H.
Temporini, II, l (1974) pp. 229-52.
209

A história das liturgias documenta assim o ponto já conhecido de que o


"estado" é uma categoria demasiado vasta. Qualquer investigação sobre a
relação entre o estado e a economia terá que diferenciar não só a
comunidade autónoma, a cidade-estado e a monarquia autocrática como,
nesta última categoria, as monarquias helenísticas e as romanas.
Essencialmente, as monarquias helenísticas, fossem elas as ptolomaicas,
seleucidas ou atálidas, eram unidades territoriais cornpactas governadas
do interior, enquanto os imperadores romanos, pelo menos até ao século
in d.C., continuavam a estabelecer uma diferença enorme entre uma
minoria de cidadãos romanos e uma maioria dos que o não eram, entre a
Itália e as províncias. Em ambos os tipois havia distinções internas
baseadas nas ordens e nos status, entre um cidadão grego de Alexandria e
um camponês egípcio de Kerkeosiris, assim como entre honestiores e
humiliiores, e os governantes helenísticos tinham de tempos a tempos
possessões estrangeiras. No entanto a distinção principal mantém-se
válida e embora isso não signifique automaticamente que havia
consequências diferentes no seu impacto sobre a economia, devemos ter
sempre em mente essa possibilidade.
No entanto, e para fins de análise, há um elemento comum que
transcende as diferenças estruturais. A autoridade do estado era total,
da cidade-estado à autocracia, e extensiva a quantos viviam dentro dos
limites territoriais (na realidade a quantos estivessem ao alcance dos
seus decretos) . Os gregos clássicos e os romanos da República possuíam
j uma considerável liberdade, de expressão, ide debate político, ! de
actividade comercial e mesmo de religião. Não dispunham, i contudo, de
direitos inalienáveis: de resto, a própria ideia os /teria aterrado.
Não havia, em teoria, limites ao poder do l estado, nenhuma
actividade, nenhuma esfera do comporta| mento humano em que o estado
não pudesse legitimamente í intervir, corn a condição de a decisão ser
tomada por qualquer | razão considerada válida por uma autoridade
legítima. A li; berdade implicava o domínio da lei e da participação no
pro| cesso de tomada de decisões. Dentro desta definição havia \ um
espaço infinito para a intervenção do estado, tanto quanto i
210

havia sob os tiranos gregos, os monarcas helenísticos ou os imperadores


romanos. Só os métodos variavam. Assim, se, por exemplo, um estado grego
não estabelecia taxas de juro máximas, tem que haver uma explicação
concreta qualquer, que não pode ser a referência a direitos ou a esferas
privadas nas quais o estado não podia interferir.
Nem, é escusado dizê-lo, pode qualquer exemplo específico de não
interferência na economia ser explicado por uma teoria do laissez faire.
Nem essa doutrina nem qualquer outra podem existir sem o conceito
anterior de "economia", a propásito de cuja ausência já não precisarei
corn certeza de me repetir. Havia, é claro, suficiente conhecimento
empírico, sem conceitos generalizados e teorias, para decisões aã hoc
nesta ou naquela situação. E havia consequências económicas de acções
empreendidas por outras razões, algumas previstas, outras não. Ê difícil
distinguir entre uma política económica e as consequências económicas de
decisões não-eeonómicas, especialmente numa sociedade na qual "os
elementos económicos estão inextricavelmente ligados a factores
políticos e religiosos" (9). Temos, no entanto, que tentá-lo.
Exemplifiquemos. Quando Roma puniu Rodes estabelecendo um porto livre em
Delos, os senadores romanos sabiam que daí resultariam benefícios
económicos para os mercadores que utilizassem Delos. Terá isto pesado na
decisão, que era basicamente política, ou terá sido uma consequência
acidental, se bem que não indesejável? Poderemos dizer, corn um
historiador económico, que se trata de um exemplo flagrante da
"penetração económica" que seguiu todas as conquistas romanas, "que em
Rodes a circulação de mercadorias decaiu rapidamente e passou para as
mãos de concorrentes romanos" (10) ? O facto de Políbio se contentar
corn uma explicação puramente política pode não ter muita importância,
mas é certamente decisivo que a maioria dos beneficiários de De-
9 Citado de Lukács; ver cap. 2, nota 34.
10 S. Lauffer, "Das Wirtschaftsleben ini rõmisclien Reich", em
Jenseits von Resignation und Illusion, org. H. J. Heydorn e K.
Ringhausen (Frankfurt 1971) pp. 135-53, à p. 137.
211

los não eram romanos mas originários de outras comunidades italianas,


incluindo as velhas colónias gregas do sul da Itália, cujos interesses
mercantis não contavam para a tomada de decisões romanas em meados do
século II a.C. í11).
Ou então, onde deveríamos nós colocar a ênfase ao analisarmos a
restrição universal, na Grécia, da propriedade da terra aos cidadãos? Ou
no caso das duas tentativas, no século H, de obrigar senadores recém-
criados, oriundos das províncias, a adquirirem terras na Itália? Estas
leis e medidas tinham ramificações económicas, mas qual era a intenção
original? Numa sociedade tão complexa como a grega ou a romana é difícil
de conceber qualquer acção de um estado a que falte uma componente
económica, que não envolvesse despesas públicas ou privadas nem tivesse
um impacto sobre este ou aquele aspecto da economia. Neste sentido,
todos os actos públicos são também actos económicos, mas esta é uma
constatação sem significado. Para apreciar a forma como o estado antigo
deixava a sua marca na economia (e vice-versa, a economia no estado) é
preciso não só diferenciar os objectivos e as consequências, mas ainda
colocar a tónica correctamente Oevito utilizar a palavra "causa"),
definir os interesses tão precisamente quanto possível. Assim, em 67
a.C., Pompeu
11 Isto foi demonstrado há muito por J. J. Hatzfeld, Lês trafiquanis
italiens dans 1'Orient héllénistique (Paris 1919). A. J. N. Wilson,
Emigratioa from Italy in the Republican Age of Rome (Manchester e Nova
Iorque 1966) dedica dois capítulos (7-8) a uma tentativa vã de refutar
as conclusões de Hatzfeld. O seu argumento, em grande parte hipotético,
baseia-se numa falsa concepção da economia e do sistema de valores dos
romanos, retirada de Rostovtzeff: "Os cidadãos romanos estavam
possivelmente melhor colocados, no que diz respeito ao capital, para o
comércio ultramarino" (p. 88). A sua tentativa de reclassificar os
indivíduos por "nacionalidades" a partir dos seus nomes (que são a única
indicação que possuímos), é em grande parte tendenciosa e baseada numa
segunda hipótese quase certamente falsa: "É extremamente improvável que
o pioneiro, ou grupo de pioneiros ao qual cada família [que comerciava
no Oriente] tinha que regressar, não fosse livre" (p. 107). Mas até ele
concorda (p. 102) que na acção do governo romano ao estabelecer Delos
como porto livre não foram dados privilégios especiais aos italianos
("romanos").
212 )

limpou o Mediterrâneo oriental que se encontrava infestado por piratas


que tinham a sua base na Cilicia, no sul da Ásia Menor. Dir-se-ia uma
acção simples e no entanto podemos perguntar-nos como é que Pompeu
conseguiu em poucos meses aquilo que nenhum romano conseguira nos cem
anos precedentes. A resposta revela a existência de um conflito de
interesses conhecido. Os piratas tinham sido os principais fornecedores
de escravos das propriedades italianas e sicilianas, um interesse romano
dominante até à entrada em cena de dois novos factores; os magistrados
romanos e os rendimentos romanos estavam agora sujeitos a ataques e a
pirataria do Adriático começava a pôr em perigo o abastecimento de
cereais à cidade de Roma. Então, e só então, Roma empreendeu uma acção
eficaz (12).
A guerra e o império fornecem-nos o melhor caso para estudo. Estava-lhes
subjacente uma atitude de franqueza sobre a exploração, característica
de qualquer sociedade em que a escravatura e outras formas de trabalho
dependente estão largamente difundidas, franqueza essa que não requeria
justificações nem ideologia de conquista ou império. Numa passagem da
Política (1333b38-34al) que é menos citada que , outras nas
histórias de ética, Aristóteles incluia entre as rã- V zoes por que um
estadista devia conhecer a arte da guerra a ' seguinte: "de forma a
tornarem-se senhores daqueles que merecem ser escravizados". Poucos
teriam discordado. Não devemos esquecer que não se conhece nenhum
ateniense ou romano que tenha proposto o abandono do Império. Houve
desacordos sobre tácticas e sobre a oportunidade de certas acções, mas
não sobre o império em si.
A história da 'guerra antiga, no entanto, cobre a este respeito uma
larga gama. No período arcaico houve bastantes guerras locais que não
eram mais que ataques para pilhagem; ocasionalmente também mais tarde,
como quando se diz que Filipe II, pai de Alexandre, invadiu a Cítia em
339 a. C.
12 Estrabão 14.5.2 aproximou-se tanto quanto ousou de uma formulação
franca da posição; cfr. Cícero, De império Pompeii 32-33, 54; Plutarco,
Pompeu 25.1
213

corn o único objectivo de aumentar o seu tesouro (1S). Quando César


partiu para a Gália, o fim em vista não era apenas ganhar glória para si
próprio e território para o seu país. Por outro lado não há uma única
conquista de um imperador romano que fosse motivada pela possibilidade
de enriquecimento imperial; eram todas, sem excepção, o resultado de
cálculos polítieo-estratégicos e, embora os exércitos pilhassem quanto
podiam e os imperadores acrescentassem ao Império algumas novas
províncias, o elemento económico era acidental e insignificante, excepto
normalmente no lado do débito, nas despesas para o tesouro e nas perdas
de homens. Já em
54 a.C. Cícero escrevia ao seu amigo Atiço (Cartas a Ático
4.16.7) que a segunda expedição de César à Bretanha causava preocupações
em Roma; entre outras coisas sabia-se agora que não existia prata na
ilha, nem "esperanças de um saque que não seja de cativos entre os quais
não podemos esperar encontrar algum altamente qualificado na literatura
ou na música". Não houve grandes modificações no espírito das gerações
seguintes - a conquista levava ainda à exploração- mas houve
modificações nas condições do conquistador, na capacidade romana de
conquistar e em seguida aguentar-se, para além das fronteiras distantes
já atingidas. "Exploração" e "imperialismo" são, no fundo, categorias de
análise demasiado amplas. Tal como "estado", precisam de ser mais
especificadas. Que formas assumiram, e não assumiram, no Império Romano,
o maior e o mais complexo da história antiga? Para o estado romano, as<
províncias eram, através dos impostos, a principal fonte de receita. Um
pequeno número de romanos fez grandes fortunas como governadores de
província, colectores de impostos e prestamistas durante a República, e
no serviço imperial sob os imperadores. Houve romanos ricos que
adquiriram extensos domínios nas províncias, de que normalmente eram
proprietários absentis-
13 Justino 9.1-2, repetido por Orósio 3.13.1-4, baseando-se
provavelmente no historiador contemporâneo Teopompo; ver A. Momigliano,
"Delia spedizione scitica cli Filippo..." Athenaeum, n. s. 11 (1933)
336-59.
214
/

tas; houve também romanos mais pobres, especialmente veteranos, que


foram reinstalados nas províncias, e os mais pobres de todos, a plebe
romana, recebiam as migalhas do panem et circenses. No entanto, os
romanos nunca monopolizaram o solo das províncias nem negaram ao povo
local a oportunidade de se tornarem, ou de continuarem a ser, eles
próprios ricos proprietários. A tendência, pelo contrário, era para uma
provincialização da aristocracia imperial, à medida que cada vez mais
provincianos ricos beneficiavam também da pax romana, obtinham a
cidadania romana e mesmo o estatuto de senadores.
O que falta a este quadro é a exploração comercial ou capitalista. A
economia antiga tinha a sua própria forma de trabalho barato e por isso
não explorava as províncias desse modo. Nem tinha um excesso de capital
à procura dos investimentos mais rentáveis que associamos normalmente
corn o colonialismo. A expansão da actividade comercial dos dois
primeiros séculos do Império não foi um fenómeno romano. Foi partilhado
por muitos povos dentro do Império e não fazia parte da exploração
imperial; não havia concorrência pelo acesso aos mercados entre romanos
e não romanos ("). Por isso não houve guerras comerciais ou inspiradas
pelo comércio na história romana, ou em qualquer período da antiguidade.
Existem, é claro, nos nossos livros: a guerra do século VII a.C. na
Planície Lelantina, em Eubeia, a guerra do Peloponeso, as guerras de
Roma contra Cartago, mesmo o mal calculado e dispendioso ataque de
Trajano à Partia, todas foram atribuídas por um ou outro historiador a
conflitos comerciais. Mas, investigando, torna-se evidente que estes
historiadores foram hipnotizados pelas guerras comerciais anglo-
holandesas do século XVIII; não conseguiram encarar a questão crítica
que lhes foi posta há alguns anos: "Pergunto-me se o autor pensa na
concorrência pelos mercados ou
14 Tenney Frank, An Economic History of Rome (2.a ed. Londres 1927) pp.
114-118, viu isto claramente, embora, caracteristicamente, logo a seguir
criticasse os romanos por serem "cegos do ponto de vista económico" (p.
125).
215

pelo fornecimento de bens necessários. Em qualquer dos casos, que


significado tem isto no contexto da técnica e da psicologia gregas em
430 a.C.? Enquanto não se puserem estas questões preliminares, a
altissonante 'explicação' é uma mera frase" (15). Quando se põem as
questões, a evidência demonstra que a "altissonante explicação" nem tem
fundamento nem é verdadeira.
Numa recente e volumosa monografia sobre o comércio marítimo no Império
Romano, lemos o seguinte: "Favoráveis como eram à actividade económica,
os imperadores, fossem um monstro como Nero ou um sábio como Trajano,
realizaram grandes obras em seu favor: a criação ou o alargamento dos
portos, a limpeza e restauração do canal de ligação entre o braço
pelusíaco do Nilo e o Mar Vermelho... a construção de faróis nas
entradas dos portos e nos pontos perigosos... Vimos, por exemplo, como
para alimentar a cidade de Roma os mesmos imperadores foram levados a
adoptar certas medidas em favor daqueles que devotaram toda ou parte da
sua actividade a esta necessidade. Por outras palavras, ... o Império
preocupava-se corn os problemas económicos; quererá isto dizer que metia
as suas mãos no negócio, que uma quase total liberdade nos princípios do
Império ia sendo substituída por um controle do estado ? Beneficiar não
significa controlar - o comércio conservava a sua liberdade" (16).
Pondo de parte a incapacidade habitual de separar o problema de
alimentar a população de Roma da actividade económica em geral e a
antiquada ideia da "liberdade de comércio" - a incapacidade, que já
mencionei, de distinguir entre a não-interferência e a. doutrina do
laissez faire - podemos perguntar o que é que, no fundo, Rougé diz da
política económica. Ele podia ter acrescentado uma segunda categoria de
actividades do estado, a considerável actividade de polícia
15 E. J. Bickerman, recenseando a primeira edição (que quanto a este
ponto nunca foi corrigida) de H. Bengtson, Griechische Geschichte, em
American Journal of Philology 74 (1953) 96. Cfr. Ed. Will, Lê monde grec
et 1'Orient, vol. l (Paris 1972) pp. 201-11.
16 Rougé, Commerce pp. 465-6.
216

necessária para fazer aplicar a lei criminal relativa a vendas em geral


e a regulamentos de mercado em particular. Podia ter lembrado a sua
própria análise das taxas portuárias imperiais, usualmente mas nem
sempre de 2 Y2 por cento ad valorem, colectados provavelmente em todos
os portos importantes do Mediterrâneo, e das frequentes portagens
municipais, das quais só a annona imperial (abastecimento de cereais), o
fornecimento de armas e indivíduos especialmente favorecidos estavam
isentos (")•
O primeiro ponto a notar, à parte a escala, é que nada, neste catálogo
de grandes obras a favor do comércio, é novo ou diz particularmente
respeito apenas aos imperadores. Durante o Império, houve benfeitores
privados e governos municipais que também se preocuparam corn as
instalações portuárias e corn o resto. Anteriormente cada oidade-estado
fazia o que podia a esse propósito - nenhum imperador foi obrigado a
desenvolver o Pireu - tal como policiava os mercados e colectava taxas
sobre exportações e importações corn o mesmo estreito leque de isenções,
na sua maioria honoríficas. Apesar de tudo a sociedade antiga era
civilizada e requeria comodidades. O facto de aumentarem os seus portos
de modo a satisfazer ao mesmo tempo as suas exigências navais e as suas
necessidades materiais não é grande motivo de congratulações. Devemos
antes perguntar-nos que mais fizeram elas (ou não fizeram) e, em
particular, o que é que os imperadores romanos, corn o seu poder e
recursos cada vez maiores, o seu controle sobre quase dois milhões de
milhas quadradas, fizeram ou não fizeram que fosse significativamente
diferente daquilo que as pequenas Atenas ou Corinto tinham feito no
século V a.C..
"Satisfação das necessidades materiais" é o conceito-chave, de forma
alguma sinónimo das necessidades da economia, do comércio enquanto tal,
ou de uma classe mercantil. Por vezes esta última era beneficiada
(embora nem sempre)
17 Ibid. pp. 443-9. A análise mais completa é a de S. J. De Laet,
Portorium, publicado pela Universidade de Gand (Bruges 1949).
217

e quando isso acontecia era como um sub-produto. Quando outros intresses


interferiam e por vezes perturbavam a satisfação das necessidades
materiais, tratava-se de interesses político-militares, entre os quais
incluo os interesses do tesouro público. O exemplo mais dramático é o da
eliminação nos fins do Império Romano do "empreiteiro privado e do
mercador" de um sector "considerável da economia" (1S). Não podemos
pensar que se trata de uma súbita inovação de Diocleciano. Quando a
Sicília se tornou uma província romana no século in a.C. e começou a
pagar contribuições em géneros, foi dado o primeiro passo importante na
longa e tortuosa senda de retirar do jogo do mercado o abastecimento de
cereais à cidade de Roma e aos exércitos e, eventualmente, de muitas
outras necessidades imperiais, primárias mas não exclusivamente
militares (19). Assim os imperadores criaram o seu complexo industrial-
militar, no qual o equilíbrio de forças era precisamente o oposto do
nosso porque os lucros, na medida em que se pode utilizar essa palavra,
iam para o governo e para os seus agentes (20). Tais medidas impuseram
não só um pesado encargo às classes inferiores como também uma redução
no potencial económico das classes ricas situadas logo abaixo da elite
social e política, e um desequilíbrio regional artificial nos custos e
benefícios. Estes efeitos eram novaI | mente subsidiários, não uma
política ou um objectivo. E final-
: mente a elite reagiu retirando-se para as suas
proprie-
\\
; 18 A. H. M. Jones, nos Proceedings da Terceira
Conferência
i( Internacional de História Económica, Munique, 1965, vol.
3, The
| Ancient Empires and the Economy (Paris e Haia 1969) p. 97.
l 19 Sobre a annona ver H. Pavis d'Escurac, La préfecíure de
.!,lj l'annone: service administratif imperial d'Auguste à Constantin,
PBSR
! 226, Paris 1976; D. van Berchem, "L'annone militaire dans 1'empire
romain au IHe siècle", Mémoires de Ia Société nationale dês aníiquaires
de France, 8." série, 10 (1937) 117-202.
20 Sobre a retirada progressiva do exército da economia privada ver
R. MacMullen, Soldier and Civilian in the Later Roman Empire l
(Cambridge, Mass., 1963) cap. 2; Erik Gren, Kleinasien und der Ostbalkan
• ín der wirtschaftlichen Entwicklung der rõmischen Kaiserzeit [Uppsala
l Universiteís Arsskrift (1941) n.° 9] cap. 4. Tampouco deve ser esque-
cido o emprego de soldados em estradas, pontes e canais.
i • • • ;
218

dades em condições de auto-suficiência máxima, retirando a sua clientela


aos produtores industriais da cidade e aumentando os prejuízos já
causados pelo governo (21).
A distinção entre a satisfação das necessidades materiais e uma política
económica revelou-se de outra maneira durante o longo período em que o
mundo mediterrânico esteve fragmentado. Em termos rigorosos, o acesso ao
processo legal era uma prerrogativa dos membros de cada comunidade
individual, e emibora aos estranhos não se negasse normalmente de facto
relações corn um enquadramento jurídico, seriam de desejar, e por vezes
de exigir, alguns outros processos formais de jure, a partir do momento
em que o comércio e a circulação para além das fronteiras da comunidade
se tornou vulgar e essencial. Era preciso garantir àqueles que compravam
e vendiam no estrangeiro que os seus contratos privados seriam honrados,
e que as suas pessoas e bens teriam protecção legal, que as suas
comunidades estariam imunes de vingança no caso de dívidas não pagas ou
disputas não resolvidas. Os primeiros romanos conseguiram este objectivo
de duas maneiras, por acordo mútuo corn os seus vizinhos, primeiro os
latinos e depois outros povos itálicos, e pela repetição do precedente
etrusco e a assinatura de uma série de tratados comerciais corn Cartago,
definindo condições e delimitando as esferas comerciais em formulações
breves (22). Não há, contudo, razões para acreditar que o estado romano
expandiu e desenvolveu estes métodos fora da Itália, e realmente não há
razões para que o tivesse feito. Daí para diante o conquistador fez e
impôs as regras unilateralmente.
Quanto às cidades-estado gregas, elas emergiram num ambiente étnico,
político e "internacional" diferente do de Roma e desenvolveram uma
prática diferente. No século V a.C. começaram a formular acordos
rudimentares, chamados symbola, entre pares de estados, providenciando
processos
21 Ver Salvioli, Capitalisme pp. 118-25.
22 Sobre os tratados romano-cartagineses ver F. W. Walbank, A Historical
Commentary on Polybius, vol. l (1957) pp. 337-56 e o meu Aspects of
Antiquity (ed. Penguin 1972) cap. 9.
219

legais nas disputas (de qualquer tipo) entre indivíduos (23). Embora os
comerciantes fossem beneficiários desses acordos, eles não eram os
únicos. A documentação existente, na realidade bastante reduzida, está
marcada pela ausência completa de qualquer coisa que possamos reconhecer
como cláusulas ou mesmo referências comerciais. Isto não significa que
nunca se tenha entrado em acordos comerciais. Aristóteles (Retórica
1360al2-13) incluía o fornecimento de alimentos (trophé}
- é de notar a palavra escolhida- entre os assuntos em que um
dirigente político tem que ser competente de forma a negociar acordos
inter-cidades (24). Ê no entanto difícil encontrar exemplos concretos
nas fontes. No século IV a.C. os governantes do reino semi-cítio semi-
grego da Crimeia, conhecido por reino do Bósforo, concederam a Atenas
aquilo que poderíamos chamar um estatuto de nação mais favorecida. A
Crimeia era então o centro da distribuição para a Grécia dos cereais da
Rússia do Sul e aos barcos destinados a Atenas, o maior cliente, era
dada prioridade de carregamento e uma redução da taxa portuária. A
cidade, agradecida, concedeu à família real a cidadania honorífica. Mas
estamos longe de saber se este acordo importante e relativamente
duradouro foi alguma vez oficializado por um tratado (25).
"Barcos destinados a Atenas", não "barcos atenienses"
- o interesse era trophé, não os interesses dos mercadores, exportadores
ou armadores atenienses. Em meados do século IV a.C. Atenas fez uma
nova diligência para facilitar, e portanto encorajar, a actividade dos
comerciantes estrangeiros. Introduziu-se uma nova acção legal, chamada
literalmente "acção comercial", diké emporiké, para a rápida resolução
23 O que se segue baseia-se em grande parte em P. Gauthier, Symbola.
Lês étrangers et Ia justice dans lês cites grecques [Annales de l'Est
n.° 42 (1972)]. Ver também Erxleben, "Aussenhandel Athens"
46-62, 494-501.
24 Na Política (1280a38) Aristóteles chama-lhes "acordos sobre
importações". Sobre estes trechos, ver Gauthier, Symbola pp. 90-93.
25 As principais informações provêm da 20.a oração de Demóstenes
(Contra Leptines) e de uma inscrição, Syll. 206 (Tod, GHI II
167).
220

das disputas provenientes das transacções comerciais em Atenas (e só


dessas) durante a estação navegável. Os magistrados receberam instruções
para levar os casos perante os júris normais no espaço de um mês, para
admitir cidadãos e não-cidadãos no mesmo pé de igualdade, quer houvesse
ou não symbolai corn as cidades de origem dos estrangeiros implicados
(26). Atenas garantia assim a protecção total da lei e uma rápida
jurisdição a qualquer estranho que trouxesse a Atenas bens necessários.
Devem ser focados três pontos: o primeiro é a necessidade pública de
mercadores não atenienses, necessidade tão poderosa que Atenas não pedia
garantias recíprocas para os seus próprios mercadores no estrangeiro. A
segunda observação é que não há vestígios da extensão destas acções
específica e explicitamente comerciais a qualquer outro estado grego
clássico ou helenístico; os outros continuavam alegremente a confiar na
boa fé unilateral e nos seus primitivos acordos mútuos contra as
represálias, até que a conquista romana acabou corn uma autonomia
política que as tornara necessárias (27). E o terceiro ponto é que o
encorajamento oferecido aos metecos cessava quando se atingiam limites
claramente demarcados.
Os Poroi de Xenofonte, aos quais me tenho referido repetidamente, foram
escritos precisamente no período e no ambiente em que se introduziram as
iacções comerciais. Não é por coincidência que, neste panfleto, as suas
propostas para aumentar os rendimentos públicos se baseavam em dois
grupos da população, os escravos nas minas de prata e os metecos em
Atenas, principalmente no Pireu, a cidade portuária. O seu esquema abre
corn seis sugestões para se aumentar o número de metecos em Atenas: 1)
libertá-los da pesada obrigação de serviço na infantaria; 2) admiti-los
na cavalaria, agora um
26 Ver Gauthier, Symbola pp. 149-55, 198-201; L.
Gernet, "Sur lês actions commerciales en droit athéniem, Revue
dês eludes grecques 51 (1938) 1-44, reeditado no seu Droit et société
dans Ia Grèce ancienne (reed. Paris 1964) pp. 173-200.
27 O material apresentado por Gauthier, Symbola, parece impor esta
conclusão, embora ele próprio a formule quase a sussurrar (p. 204 nota
20). ••.-.....,, ......
221

serviço honorífico; 3) permitir que os metecos "dignos" cornprassem


lotes na cidade para a construção de habitação própria;
4) oferecer prémios aos funcionários do mercado que justa e rapidamente
resolvessem disputas; 5) oferecer lugares no teatro e outras formas de
hospitalidade aos mercadores estrangeiros merecedores; 6) construir mais
pensões e hotéis no Pireu e aumentar o número de lugares no mercado.
Acrescenta-lhes hesitantemente um sétimo, que o estado devia construir a
sua própria marinha mercante, e é tudo.
A praticalidade ou impraticabilidade das propostas não me interessa, nem
sugiro que Xenofonte fosse o princípio e o fim da sabedoria antiga, mas
o que é notável é que tudo isto aparece sob o título de "rendimentos
públicos" - os metecos são uma das suas melhores fontes, diz
explicitamente Xenofonte- e as ideias de Xenofonte, em certos aspectos
corajosas, nunca conseguiram romper os limites convencionais (28). Era
corajoso propor uma brecha no elo terra-cidadão, ao ponto de conceder
aos metecos o direito à posse da própria habitação (para seu próprio uso
apenas), mas é significativo o facto de ele não ter ido mais longe. Nem
tocou no imposto per capita, o metoikian, um dracma por mês para os
homens, meio dracma para as mulheres, que recaía sobre os não-eidadãos
que residiam na cidade para além de um período muito curto,
provavelmente não mais de um mês (29). Tal proposta não só teria
derrotado o seu objectivo de trazer mais metecos para a cidade de forma
a aumentar os rendimentos públicos como teria tido uma conotação
política inaceitável: qualquer forma de imposto directo sobre cidadãos
era condenado como forma de tirania (excepto durante emergências de
guerra) e o metcnkwn, um imposto individual, imposto directo por
excelência, assinalava e degradava o estrangeiro.
28 De notar, todavia, o comentário de Y. Garlan, "Lês esclaves grecs en
temps de guerre", em Actes du Colloque d'histoire sociale, Univ. de
Besançon 1970 (Paris 1972) pp. 29-62, à pag. 49, sobre a proposta nos
Poroi (6.41-42), aparentemente única na literatura grega, de que fossem
incorporados na infantaria os escravos do estado.
29 Sobre a definição de meteco e sobre o metoikion, Gauthier, Symbola,
cap. 3 substitui todas as análises anteriores.
222

Era uma prática comum entre as cidades gregas, e cada vez mais comum
ainda no período helenístico, honrar os "benfeitores" estrangeiros
reservando-lhes lugares no teatro (precisamente o que Xenofonte
propunha), atribuindo-lhes igualdade de tributação fiscal, isotelia, o
que os isentava do metoiMon, e isentando-os por vezes das taxas
portuárias. Os inúmeros e breves textos epigráficos ao nosso dispor
raramente nos informam em que bases se podia ser considerado um
"benfeitor". É certo, contudo, que na maioria dos casos os serviços eram
políticos ou filantrópicos, não sendo considerados os serviços ao
comércio ou à indústria e menos ainda à exportação. Frequentemente a
isenção estava especificamente restringida aos bens adquiridos e levados
para o estrangeiro para uso pessoal (30).
De qualquer modo a simples existência da isenção de impostos a título
honorífico dá-nos muita informação. Informa-nos que aquilo a que
poderíamos chamar o impacto do sistema de impostos na economia não
figurava no mundo conceptual grego. Não há nunca um indício de que a
isenção de taxas portuárias tenha sido considerada uma contribuição
(justa ou injusta) para a posição concorrencial do beneficiário no
comércio ou na manufactura; ela tinha a mesma implicação que a reserva
de lugares no teatro. Os impostos não eram utilizados como alavancas
económicas"; nem sequer eram reexaminados quando se tornavam travões
óbvios para economia (mas aqui, como sempre, há excepções, ditadas pelo
senso comum). Considerem-se, apenas, as implicações de uma taxa
portuária universal corn a mesma tabela para todas as importações e
exportações. Ninguém se lembrava de proteger a produção doméstica ou
encorajar as importações essenciais ou preocupar-se corn o equilíbrio do
comércio; não se fazia sequer normalmente uma isenção para o
fornecimento de cereais (31), para o qual se dirigiam tantos esforços a
nível legislativo e por vezes a nível militar.
30 Não conheço qualquer estudo sistemático desta documentação.
31 Pseudo-Demóstenes 59.27 é decisivo, pelo menos quanto a Atenas.
223

í1
Tampouco existem provas de qualquer espécie de cálculos que permitissem
uma opção entre fontes de receita alternativas, ou aquelas que seriam
melhores ou piores para a economia. O argumento de Xenofonte sobre a
procura ilimitada de prata é uma excepção rara e rudimentar. As opções
faziam-se por tradição, convenção e considerações de psicologia social,
nomeadamente na combinação de se evitar um imposto sobre a propriedade
corn a imposição de liturgias. Por vezes o sistema falhava - as receitas
eram demasiado pequenas, ou um grupo poderoso sentia-se, corn ou sem
razão, sugado para além do limite máximo aceitável (por dês). Havia
então stasis, guerra civil, corn as confiscações subsequentes e por
vezes nova legislação - e o ciclo recomeçava: a reviravolta política não
levava a uma reconsideração da tributação e das despesas públicas a não
ser nos termos mais restritos do poder e da estrutura da sociedade.
Voltando à pergunta que fiz anteriormente, qual foi o contributo novo
dos imperadores? A resposta é: virtualmente nenhum. Tanto as taxas
portuárias imperiais como as portagens municipais locais eram
exclusivamente fontes de receita, taxas impostas da forma tradicional a
tudo o que passasse em qualquer direcção. Só os cereais destinados à
cidade de Roma e os bens necessários ao exército estavam isentos. Toda a
estrutura fiscal era regressiva e cada vez o foi mais à medida que os
anos passaram *. Os imperadores romanos estavam tão longe de Thomas Mun
e dos monarcas do seu tempo na sua forma de pensar como o tinham estado
as pequenas cidades-estado gregas. Fazer face às faltas de alimentos, às
necessidades do exército ou aos requisitos dos consumidores senatorais
através de importações não era o que Thomas Mun entendia por "tesouro
por meio do comércio externo". Se alguém tivesse trazido a Carlos I a
invenção do vidro inquebrável de que falei no capítulo anterior é
natural que tivesse pedido uma patente. O inventor romano pediu apenas
uma recompensa porque nenhum dos instrumentos-padrão
* Poder-se-ia pensar que as liturgias restabeleciam um
certo equilíbrio não fora a isenção da aristocracia.
224

mercantilistas por meio dos quais o tesouro real lucrava enquanto


encorajava o espírito inventivo - patentes, alvarás, monopólios,
subsídios - se utilizava na antiguidade.
Não que os imperadores tivessem qualquer espécie de aversão em favorecer
materialmente certos indivíduos ou aos monopólios. Todos os estados
antigos retiniham pelo menos direitos de regalia sobre os recursos
minerais. Para além disso os monopólios nas cidades-estado gregas eram
medidas de emergência raras. No entanto, os reis helenísticos
rapidamente seguiram o precedente do Próximo Oriente de monopolizar um
vasto leque de actividades económicas - mais uma vez por meio de
regulamentação e não por operação directa
- e os imperadores romanos procederam da mesma maneira (32). Mas o
motivo era estritamente fiscal. Não havia pretensões a que o monopólio
imperial melhorasse a produção ou a produtividade nem mais interesse
nestes assuntos do que na atitude para corn a tecnologia.
Um monopólio que todos os estados antigos, cidades ou impérios,
retiveram foi o direito de cunhar moeda. Não acompanharam no entanto
esta prerrogativa da obrigação de manter uma quantidade suficiente de
moeda, excepto quando o próprio estado precisava dela para pagamentos,
especialmente às tropas (l!3). O dinheiro era a moeda e nada mais, e a
falta de moeda era crónica, tanto em números totais como na
disponibilidade dos tipos ou denominações preferidas. Contudo, nem mesmo
nos períodos da chamada crise de crédito, como vimos, fez o estado algum
esforço sério para aliviar a carência, para além ide esforços ocasionais
e antecipadamente
32 O material foi compilado por F. M. Heichelheim, "Monopole", em Paulys
Real-Enzyklopãdie der klassischen Altertumswissenschaft 16 (1933) 147-
99.
33 Sobre a oferta de moeda ver C. G. Starr, Athenian Coinage
480-449 B. C. (Oxford 1970), esp. pp. 64-70; Bogaert, Banques pp.
328-9; Frederiksen, "Caesar" pp. 132-3; M. Crawford, "Money
and Exchange in the Roman World", JRS 60 (1970) 40-48, às pp. 46-7, e
"Lê problème dês liquidités dans 1'antiquité classique", Annales 26
(1971) 1228-33, às pp. 1231-2; C. Rodewald, Money in the Age of Tiberius
(Manchester 1976).
225

condenados para obrigar os entesouradores a largar os seus stocks. Mais


uma vez os imperadores, romanos ou helenísticcs, não demonstraram
qualquer tendência para irem mais longe que o pensamento da eidade-
estado. De facto chegou depressa a altura, no i-nício do Império Romano,
em que os imperadores não puderam resistir a tirar vantagens do seu
pcder e do seu monopólio da moeda para se enriquecerem a si próprios
depreciando a moeda, um processo que em nada contribuía para uma
circulação sadia da moeda.
Um problema de que os imperadores já não precisavam de se ocupar era o
da coexistência de uma enorme variedade de cunhagens independentes (à
parte as moedas de bronze puramente locais), efectuadas segundo padrões
diferentes, e corn um talento desigual, pelas inúmeras autoridades
independentes do mundo grego. A paixão dos gregos pelas moedas e, já
agora, pelas belas moedas, é bem conhecida e por vezes mal compreendida.
Durante muito tempo esta paixão não foi partilhada por muitos dos seus
vizinhos mais avançados, fenícios, egípcios, etruscos, romanos, porque
era essencialmente um fenómeno político, "uma prova de vaidade local, de
patriotismo ou de publicidade sem grande importância" (o Próximo Oriente
pode continuar perfeitamente durante milénios, mesmo quando o seu
comércio era considerável, corn moeda metálica trocada ao peso, sem
cunhar o metal) (34)- Donde a insistência, corn a importante excepção de
Atenas, em moedas artísticas que economicamente eram um nonsense (nenhum
cambista pagava a um prego melhor uma moeda de quatro dracmas ide
Siracusa só porque era assinada por Euainetos). Donde também o facto de
os gregos evitarem geralmente a depreciação oficial e imporem pesadas
penalidades à imitação ou falsaficação de moedas, relacionando essas
acções corn a traição e não corn mesquinhas ofensas de mercado *.
Uma grande variedade de moedas é uma desvantagem, trazendo apenas lucros
aos ubíquos cambistas, embora não
34 J. M. Keynes, A Treatise on Money (2 vols., Londres 1930) I 12-
* Os romanos mantiveram esta atitude severa quando começaram
a cunhar.
226
/

devamos exagerar este ponto, como bem sabe qualquer pessoa familiarizada
corn o comércio renascentista. A extensão do incómodo variava conforme o
metal. O bronze não causava problemas dado que estava reservado a
pequenas denominações para uso local. A prata e o ouro tinham valores
tradicionais e bem estabelecidos que mudavam lentamente e os cambistas
eram capazes de controlar o seu peso e a sua pureza *. Só a liga de ouro
e prata, o chamado ouro branco ou eleetro, era impossível de controlar:
fossem cunhados numa liga natural ou numa liga artificial, os populares
estáteres de eleetro de Cízico, na Ásia Menor, não podiam ser
verificados antes de Arquimedes ter descoberto a gravidade específica e
circulavam portanto corn um valor convencional (35).
Dado o sentido político da cunhagem não é surpreendente que os estados
gregos autónomos não tenham feito um esforço substancial para diminuir o
incómodo. Acordos entre estados sobre as taxas de câmbio, por exemplo,
eram tão raros que se podem dizer praticamente inexistentes (36). O que
é significativo no contexto presente é o insucesso persistente em
fornecer moeda corn uma denominação suficientemente grande para ser
conveniente para grandes pagamentos. No seu processo legal contra os
seus tutores, Demóstenes disse a certa altura (27.58) ao júri,
retoricamente, "Alguns de entre vós" viram Teógenes "contar o dinheiro
na Agora". A referência
* Antes de Alexandre o ouro era cunhado principalmente pelos persas, mas
circulava também entre os gregos. Mais tarde, a Macedónia e os reis
helenísticos cunharam-no também.
35 Ver os cálculos complicados de R. Bogaert, "Lê cours du statère
de Cyzique au Vê et IVe siècles avant J.-C.", L'Antiquité classique 32
(1963) 85-119, corn a discussão em ibid. 34 (1965) 199-213, e de S. K.
Eddy, em Museum Motes 16 (1970) 13-22.
36 Será suficiente notar os pateticamente pouco numerosos
exemplos que puderam ser reunidos por T. Reinach, "L'anarchie monétaire
et sés remedes chez lês anciens grecs", Mémoires de VAcad. dês
Inscriptions et Belles Lettres 38 (1911) 351-64. As cunhagens conjuntas
de ligas regionais não constituem excepção; como diz Reinach (p. 353),
este fenómeno pouco importante e puramente político apenas alargou
ligeiramente a base territorial da "anarquia".
227

é um pagamento de 3000 dracmas, e contar esta soma diante de testemunhas


em moedas de quatro dracmas, a moeda de prata maior e mais vulgar na
Grécia, não deve ter sido fácil, especialmente se aquele que recebia
desconfiasse da pureza e do peso de muitas moedas. Ê por isso que,
sugiro, os dáricos de ouro persas, ou os estáteres de electro de Cízico,
cada um dos quais valia mais de vinte dracmas de prata, eram tão
populares nos séculos V e IV a.C. (37)-
Os particulares estavam assim condenados a fazer o melhor que podiam,
sem ajuda do estado, confiando na sua experiência acumulada e nos
cambistas, e dentro de certos limites dando preferência a certas moedas,
tais como o "mocho" ateniense ou o estáter de Cízico (3S). Um decreto do
século IV a.C. da cidade grega de Olbia na costa norte do Mar Negro
resume lindamente a situação (39). Estabelece ele quatro regras básicas:
1) só as moedas de prata de Olbia podem ser utilizadas em transacções
dentro da cidade; 2) os valores de troca entre moedas de electro e
moedas de prata locaòs devem ser fixados pelo estado; 3) outras moedas
podem ser trocadas "em qualquer base acordada pelas partes"; e 4)
37 Ver as tabelas em Bogaert, "Cours du statère" pp. 105 e 114.
38 A afirmação de Xenofonte (Poroi 3.2) acerca da preferência por
moedas atenienses recebe uma confirmação surpreendente no
Egipto. No início do século IV os egípcios, que não cunhavam moeda,
precisavam de um fornecimento regular de moedas para pagar aos
mercenários gregos, e esta necessidade foi satisfeita pela cunhagem
egípcia de moedas atenienses: J. W. Curtis, "Coinage of Pharaonic
Egypt", Journal of Egyptian Archaeology 43 (1957) 71-76. Mas há muita
coisa que não compreendemos sobre este assunto e que deve ser
investigada. Uma inscrição ateniense, recentemente descoberta
[publicada por R. S. Stroud em Hesperia 43 (1974) 157-88], anuncia
extensivamente as medidas adoptadas pelo estado ateniense em 375-4 a.C.
para penalizar os mercadores que se recusassem a aceitar "mochos" dados
em pagamento de mercadorias nos mercados atenienses. O texto não fornece
qualquer explicação para a necessidade desta regulamentação
surpreendente, e não me sinto capaz sequer de imaginar qual poderá ter
sido a razão.
39 Syll. 218; ver J. Hasebroek, em Philologische Wochenschrift
46 (1926) 368-72.
228
i

haverá um direito ilimitado para importar e exportar moedas de todos os


géneros. Para além da compreensível intervenção no caso difícil do
electro, a regra era, pois, a total não interferência do estado nos
assuntos monetários, salvo a insistência política na utilização de moeda
local. Não se dava preferência aos olbianos sobre os estrangeiros: todas
as partes estavam obrigadas pelas mesmas regras; um olbiano que ia ao
estrangeiro vender trigo e trazia de volta moeda estrangeira tinha de
pagar o mesmo desconto aos cambistas antes de poder gastar o seu
dinheiro em Olbia, da mesma forma que o estrangeiro que vinha a Olbia
corn o seu dinheiro nativo ou outra moeda.
Igualmente político era o decreto ateniense do século V ajC. que
dispunha a regra de que só a moeda ateniense era válida para todos os
fins dentro do império ateniense (40). Á data precisa do decreto é
discutível; um dia poderá ser decidida numa base epigráfica (talvez corn
a ajuda da análise numismática) mas não, como tem sido feito, injectando
cornplexas considerações políticas na discussão, como o argumento de que
ele sabe mais a Cleon do que a Péricles. O elemento político é
inconfundível: o volume sem precedentes dos pagamentos militares e
administrativos em Atenas, numa época em que o tributo estrangeiro era a
maior fonte de receita pública, foi muito facilitado por uma cunhagem
uniforme e Atenas era agora capaz de demonstrar quem mandava dentro do
império negando aos estados submetidos o símbolo tradicional da
autonomia, a moeda própria. O Objectivo dos atenienses pode ter sido
também os lucros da cunhagem, mas não o poderemos saber ao certo até que
se encontre o fragmen-
40 Ver Starr, Athenian Coinage cap. 4; Finley, em Proceedings... Aix pp.
22-25. A análise mais completa do material e das interpretações modernas
é E. Erxleben, "Das Múnzgesetz dês delisch-attischen Seebundes", Archiv
fiir Papymsforschung 19 (1969) 91-139; 20 (1970) 66-132;
21 (1971) 145-62, mas não me convencem os seus argumentos a favor de uma
data tardia, na segunda metade dos anos 420, e muito menos a sua
conclusão displicente de que o decreto era parte da "política desastrada
de Cleon... a que faltava qualquer proporção razoável."
229

to de texto que falta e que diz qual era a taxa para a re-cunhagem.
Diz-se também que havia um motivo comerciai, o desejo de dar aos
mercadores atenienses vantagens sobre os outros. A lógica desta
afirmação escapa-me. Toda a gente foi igualmente vítima de uma profusão
de cunhos; se os atenienses tivessem tido possibilidade de impor o seu
decreto durante um número suficiente de anos, toda a gente no império
teria lucrado alguma coisa, pouco mas igualmente, os atenienses não mais
que os outros, à parte a questão do orgulho e do patriotismo. Só os
cambistas teriam perdido, e ninguém ainda sugeriu que um decreto de tal
forma poderoso tenha sido emitido apenas para os lesar. O decreto foi de
qualquer modo um fracasso mesmo antes de o império ter sido destruído
pela derrota ateniense na Guerra do Peloponeso. Os seus objectivos não
foram e não podiam ter sido conseguidos até que os imperadores,
helenísticos e romanos, abolissem a autonomia política das cidades e,
dessa forma, acabasem corn a base das cunhagens múltiplas.
Os atenienses foram igualmente implacáveis e mais bem sucedidos na
utilização do seu poder imperial, enquanto ele durou, para assegurar o
abastecimento de alimentos e madeira (41). O mundo antigo, corn o seu
baixo nível de tecnologia, métodos limitados de distribuição e
capacidade restrita de conservar os alimentos, vivia sob a ameaça
permanente da fome, especialmente nas cidades. No tempo de Aristóteles,
muito depois do fim do império (e sem dúvida ainda antes, embora não se
saiba quanto antes), foi pedido à kyria ekklesia ateniense, a assembleia
principal que se reunia em cada prítane, que considerasse "os cereais e
a defesa do país", uma ligação muito interessante (Constituição de
Atenas 43.4). Também na mesma altura havia trinta e cinco sitophylakes,
guardas dos cereais (na origem eles não eram mais do que
41 Ver L. Gernet, "I/approvisionnement cTAthènes en blé au Vê et au IVe
siècles", em Mélanges d'histoire ancienne [Bibliothèque de Ia Faculte de
Lettres, Univ. de. Paris 25 (1909)] cap. 4.
230

dez), uma comissão anormalmente grande, cujos deveres, definidos por


Aristóteles (ibid. 51.3), eram "em primeiro lugar verificar se os
cereais eram vendidos no mercado a um preço justo, em seguida se os
moleiros vendiam a farinha em proporção corn o preço da cevada, se os
padeiros vendiam o pão em proporção corn o preço do trigo e se o pão
possuía o peso que tinham fixado". O "preço justo" era um conceito
medieval e não antigo, e esta interferência do estado, já de si
excepcional pela sua permanência, dá-nos uma medida suficiente da
urgência do problema da alimentação. E quando esta e todas as outras
medidas que já mencionei noutras ocasiões falhavam,
0 estado, em último recurso, nomeava oficiais, chamados
sitonai, compradores de cereais, encarregados de procurar
fornecimentos onde os podiam encontrar, organizava subscrições públicas
para os fundos necessários e introduzia reduções de preço e
racionamentos (42).
A instituição dos sitonai foi originalmente uma medida temporária, mas a
partir dos fins do século IV a.C. houve uma tendência para os converter
em oficiais permanentes. As fomes de 330-326 a.C. devem ter fornecido um
estímulo (43). Foi provavelmente no mesmo período que Cirene distribuiu
1 200 000 médimnos áticos de cereais, o equivalente à ração de um ano de
cerca de 150000 homens, a quarenta e uma comunidades espalhadas pelo
continente grego e pelas ilhas:
100 000 médimnos a Atenas, 50 000 a Corinto, Argos e Larissa na
Tessália, 30000 a Rodes, 72600 a Olímpias, mãe de Alexandre, 50 000 a
sua irmã Cleópatra, etc.. O texto da inscrição que relata este
acontecimento diz que a cidade de Cirene deu (eãoke) os cereais (").
Alguns investigadores são cépticos, mas há casos autênticos de dávidas
de cereais, um deles do Faraó egípcio aos atenienses em 445 a.C.. A
dádiva era gratuita mas reservada aos cidadãos, que eram todos
considerados bene-
42 Ver H. Bolkestein, Wohltãtigkeit und Armenpflege im vorchristlichen
Altertum (Utreque 1939) pp. 251-57, 364-78.
43 Pseudo-Demóstenes 34.37 dá uma ideia da situação em Atenas na altura.
44 SEG IX 2. . ;?.,",
231

ficiários, numa sobrevivência do velho princípio de que os bens da


comundade pertenciam aos seus membros e deviam, em certas
circunstâncias, ser partilhados entre eles (45).
As "certas circunstâncias" surgiam quando havia acasos excepcionais ou
quando a conquista e o império traziam saques e tributos. Quando em 58
a.C. Roma iniciou a sua longa história de distribuições gratuitas de
cereais (e mais tarde de outros alimentos) dentro da cidade, os cidadãos
residentes eram beneficiários delas independentemente dos seus meios, e
mais ninguém. Este princípio manteve-se até que os Severos, nos
princípios do século in da nossa era, converteram a distribuição de
alimentos num subsídio aos romanos pobres, qualquer que fosse a sua
posição política, marcando assim o fim efectivo da cidadania como
estatuto formal dentro do Império (40). Quando Constantinopla se tornou
a capital oriental no século IV, os pobres da cidade juntaram-se aos
pobres romanos como beneficiários. Aí parava o interesse dos imperadores
(").
45 Houve então uma depuração íormal da lista de cidadãos, no
seguimento de acusações de que muitos residentes inelegíveis receberam
1 uma parte da oferta do Faraó (Plutarco, Péricles 37). Sobre outras
ofertas de cereais a Atenas ver Bolkestein, Wohltátigkeit pp. 260-2;
sobre o princípio da distribuição de bens da comunidade, ibid. pp. 269-
73,
11 e K. Latte, "Kollektivbesutz und Staatsschatz im Griechenland",
Nachri-
chten d. Akad. d. Wissenschaften in Gôttingen, Phil.-hist. KL (1946/7)
; 64-75, reedit. no seu Kleine Schriften (Munique 1968) pp. 294-
312.
!' 46 Ver D. van Berchem, Lês distributions de blé et d'argent à Ia
.; plebe romaine sous VEmpire (Genebra 1939).
p 47 Uma preocupação para corn a produção de cereais no interesse
J do consumidor romano encontra-se obviamente reflectida no
édito
de Domiciano de 92 d.C. proibindo o aumento das vinhas na Itália ij e
ordenando a destruição de metade das vinhas nas províncias. Isto é
declarado explicitamente pelas íontes contemporâneas (ou quase),
Estácio, Silvae 4.3.11-12 e Suetónio, Domiciano, o primeiro dos quais
acrescenta uma nota sumptuária. Os historiadores modernos que teimam em
citar este édito como uma medida para proteger a produção de vinhos
italianos contra a concorrência das províncias desafiam a lógica e
passam por cima das afirmações explícitas das autoridades antigas, não
se dando conta de que a medida foi de qualquer modo isolada e, pior
ainda, de que foi revogada pelo próprio Domiciano (Suetónio 7.2; 14.5).
A tentativa de Rostovtzeff, RE p. 202, de sustentar
232

Embora haja vestígios de distribuição de alimentos noutras cidades do


Império, Alexandria ou Antioquia por exemplo, esitas eram irregulares e,
mais importante, eram mais frequentemente dádivas de benfeitores
individuais do que responsabilidade do imperador ou da municipalidade
local (48).
Inevitavelmente, a literatura romana sobrevivente repete histórias
maliciosas sobre homens ricos que aceitavam a sua parte do cereal
gratuito ou de outros que libertavam os seus escravos de forma a
passarem para o estado os encargos da sua alimentação. Algumas destas
histórias são provavelmente verdadeiras mas não pode haver dúvidas de
que a distribuição gratuita de cereais foi sempre concebida
primariamente como uma medida para bem dos pobres. Que mais se fez?
Havia o rendimento espasmódico das obras públicas, os ganhos irregulares
e indirectos da guerra e do império, o benefício para os camponeses da
ausência de um imposto sobre a terra (onde quer que fosse o caso), o
subsídio ocasiona1! aos fisicamente incapacitados. Primariamente,
contudo, resolvia-se o problema dos pobres, quando as circunstâncias
tornavam essencial essa resolução, vendo-se livre deles à custa de
outros.
A história daquilo a que chamamos "colonização" na antiguidade, um termo
impreciso, foi longa e complexa. A expansão do mundo grego, que durou
vários séculos e começou antes de 750 a.C., e que levou ao
estabelecimento de comunidades gregas desde a ponta oriental do Mar
Negro até Marselha, em França, era uma transferência de cidadãos em
excesso para terras estrangeiras, às vezes por conquista e nem sempre
corn o consentimento dos transferidos (49). Por
o contrário é desesperada: ele não menciona as duas afirmações de
Suetónio sobre a revogação do édito.
48 Ver Liebeschuetz, Aníioch pp. 126-32.
49 Heródoto 4.153, lido conjuntamente corn uma inscrição
(Supplementum Epigraphicum Graecum IX 3) sobre a primitiva colonização
grega de Cirene, não deixa lugar a dúvidas sobre o elemento compulsivo;
nem, no caso das chamadas "colónias latinas" de Roma, pelo menos, o
permite Cícero, Oração por Aulo Cecina 98.
233

volta do século V a.C. tais possibilidades estavam a desaparecer, mas as


oportunidades eram ainda rapidamente agarradas quando surgiam. Há os
exemplos das colónias militares estabelecidas por Atenas nas terras
confiscadas aos membros rebeldes do seu império; dos cerca de 60000
migrantes tra! zidos para a Sicília corn a cooperação das suas cidades-
natais
f por Timoleon, no século IV a.C., depois de ter conquistado
metade da ilha; do grande, mas incalculável, número de gregos que
migraram para leste nos reinados dos sucessores de Alexandre. A prática
romana de estabelecer "colónias" em território conquistado não precisa
de explicação pormenorizada: era também uma transferência de pobres à
custa dos outros. Mas a colonização é uma evasão, não uma solução, das
necessidades dos pobres, e chegou uma altura em que não havia mais terra
disponível.
Durante grande parte da história da colonização romana os veteranos
foram o elemento predominante. Este é um reflexo da complexa história do
exército romano, especialmente da sua lenta profissionalização.
Tradicionalmente o serviço militar na cidade-estado era uma obrigação do
sector mais rico dos cidadãos, dos que podiam comprar a pesada j j
armadura exigida; e embora o estado tentasse pagar o sufi-
!;; ciente para o seu mantimento enquanto estavam ao serviço
i activo, nem sempre o conseguiu fazer (50). A ausência de
pagamento não os isentava da obrigação e não esperavam uma recompensa
material pelos seus serviços, mas apenas a glória. Atenas e algumas
outras cidades sustentavam os órfãos de guerra até à maioridade, através
de um legado, mas isto j i não se pode compreender como uma benfeitoria
aos pobres
y na medida em que os pais destes órfãos eram, por definição,
'íji homens de recursos (51).
50 Para as informações gregas, ver Pritchett, Military Practices caps.
1-2.
51 As informações sobre Atenas são resumidas por R. S. Stroud
"Theozotides and the Athenian Orphans", Hesperia 40 (1971) 280-301, às
pp. 288-90. A nova inscrição publicada por Stroud fornece o texto de um
decreto, provavelmente de 402, que providencia o sustento, na
234

A armada ateniense, contudo, era um serviço totalmente pago. Excepto em


tempos de crise financeira, a marinha fornecia emprego regular, a um
ordenado então considerado born, a milhares de remadores atenienses (e
não atenienses) e a centenas de construtores navais e encarregados de
manutenção. Embora não possamos especificar quantos milhares, sabemos
que era uma fracção importante do corpo de cidadãos, e particularmente
da sua secção mais pobre ou potencialmente mais pobre, como os filhos
dos pequenos proprietários.
Numa passagem conhecida (Constituição de Atenas 24.3) Aristóteles
escreveu que, graças ao império, "Atenas forneceu ao povo uma abundância
de rendimentos... Mais de 20 000 homens foram mantidos graças ao
tributo, aos impostos e aos aliados, pois havia 7000 jurados, 1600
archeiros, 1200 cavaleiros, 500 membros do Conselho, 500 guardas dos
arsenais, 50 guardas da Acrópole, cerca de 700 outros funcionários na
cidade e mais 700 fora dela. Além destes, em tempo de guerra havia 12500
hoplitas, 20 navios de protecção costeira, barcos que colectavam os
tributos corn uma tripulação escolhida de 2000 homens, os prytanes,
órfãos de guerra e guardas de prisão". A aritmética é absurda: nem todas
as categorias compreendiam cidadãos atenienses ou mesmo homens livres;
surpreendentemente, omite-se a marinha; os hoplitas encontravam-se a
maior parte das vezes sem um vintém; os 6000 jurados não estavam todos
em funções, todos os dias. E, no entanto, Aristóteles tinha a chave do
sistema ateniense, único no seu género, o princípio do pagamento aos
cidadãos por serviços públicos, por cumprirem os seus- deveres como
cidadãos. Exceptuando a marinha, não havia um rendimento regular: a
maioria dos serviços públicos era anual e não renovável e o serviço de
jurado era imprevisível. Contudo, pondo de parte todas as implicações
políticas, este rendimento suple-
mesma base que os órfãos de guerra, dos filhos de um pequeno número de
homens que morreram na luta que depôs os Trinta Tiranos e restaurou a
democracia. O decreto restringe explicitamente até este benefício aos
filhos legítimos de cidadãos.
235

f*
mentar, como uma actividade ocasionai para o serviço público, tinha um
efeito de apoio, particularmente quando o ordenado ocasional ou
temporário se acrescentava ao rendimento doméstico normal pelos mais
velhos, por exemplo. É esta realidade que se encontra por trás das
Vespas de Aristóteles.
Um facto notável é que não existem referências ao pagamento por toda a
gama dos serviços e funções públicas em qualquer cidade grega (ou
romana) a não ser Atenas, nem nenhuma outra cidade activou uma armada
comparável à ateniense durante tantas décadas. Não é menos notável o
facto de Atenas se ter visto livre de conflitos civis durante cerca de
dois séculos, à parte dois incidentes durante a Guerra do Peloponeso;
livre mesmo do tradicional prenúncio de guerra civil, as exigências de
cancelamento das dívidas e de redistribuição de terras. Não tenho
dúvidas de que a razão primeira era a larga distribuição de fundos
públicos; a segunda que o império estava por trás do sistema financeiro.
Depois da perda do Império no fim do século V a.C., os atenienses
conseguiram preservar o sistema apesar das grandes dificuldades
financeiras. Esta é outra história, a que trata da tenacidade da
democracia em Atenas (52). O que é importante aqui é que, por falta de
recursos imperiais, nenhuma outra cidade imitou o modelo ateniense. Mais
tarde Roma adquiriu um tributo numa escala incomparavelmente maior, mas
Roma nunca foi uma democracia e a distribuição dos lucros do império em
Roma tomou um rumo diferente.
As formas precisas por que os estadistas atenienses do século V a.C.
como Eubulo, Demóstenes e Licurgo tentaram obter as finanças exigidas
pelo sistema político, em que não you agora tocar (33), revelam os
estreitos limites dentro dos quais um estado antigo tinha que manobrar
financeiramente. Ê um lugar comum dizer que os estados antigos não
tinham
52 A. H. M. Jones, Athenian Democracy (Oxford 1957), pp. 5-10, confunde
as duas questões da introdução, no século V, dos dispendiosos mecanismos
democráticos e da sua sobrevivência no século IV.
53 Ver Claude Mossé, La fin de Ia démocratie athénienne (Paris
1962) pp. 303-13. . . ,;>.;>:; u";(v..i\-::>. ,,r ;.:;i
236

orçamentos no sentido moderno. Contudo, os estadistas gregos e romanos


tinham óptimos conhecimentos empíricos dos rendimentos e das despesas
anuais e sabiam subtrair uns dos outros. Neste sentido existia um
orçamento; é necessário lembrarmo-nos novamente de que estas sociedades
não eram simples e que os estados não poderiam de todo funcionar sem
qualquer previsão orçamental. São os limites que devem ser examinados.
Para começar, o estado estava limitado, como qualquer indivíduo, aos
fundos líquidos disponíveis (e ocasionalmente a empréstimos a curto
prazo, muitas vezes compulsivos). No século II a.C. o rico templo de
Apoio em Delos guardava as suas economias e as da cidade-estado de Delos
na sua casa-forte protegida pelos deuses, tal como acontecera, na Atenas
clássica, corn o templo de Atena *. Aos dois tesouros chamava-se o
"cofre sagrado" e o "cofre público", respectivamente, cada um
consistindo num certo número de vasos "nos quais estava indicada a
proveniência do conteúdo ou o objectivo para o qual estava reservado"
(54). Na realidade Delos possuía economias substanciais - uma série de
vasos contendo mais de
48 000 dracmas não foi aberta pelo menos de 188 até 169 a.C. - e no fim
de contas, dada a sua pequena dimensão e o seu carácter particular como
santuário internacional, não serve de modelo para os estados antigos em
geral. No entanto o princípio de guardar dinheiro numa caixa forte
limitava na mesma os imperadores, por muito que houvesse cofres
espalhados por muitos centros do império: quando se tornou habitual que
o novo imperador, na sua subida ao trono, distribuísse gratificações em
dinheiro aos soldados, a dimensão do idonativo era em grande parte
determinada pela soma disponível nos vasos. Muitas cidades-estado
gregas, por outro lado, tinham conseguido rapidamente um equilíbrio
entre os rendimentos e as despesas, tinham poucas economias acumu-
* Refiro-me aqui apenas à moeda cunhada, não à infinita variedade de
tesouros não monetários esterilizados neste templo como em muitos
outros.
54 Larsen, em Frank, Suruey IV 341.
237

ladas e, por isso, para financiar qualquer actividade extraordinária,


uma guerra, uma fome, mesmo a construção de um novo templo, tinham que
decretar medidas temporárias e ad hoc para o levantamento de fundos.
Durante muitos séculos, ou seja durante todo o tempo em que as cidades-
estado sobreviveram, as medidas temporárias permaneceram temporárias.
Atenas nunca foi tentada, ou pelo menos resistiu sempre à tentação, de
converter o imposto irregular sobre a riqueza dos tempos de guerra, a
eisphora, num imposto regular sobre a terra. Os romanos fizeram o mesmo
e o facto de poderem financiar externamente todas as guerras ajudou-os.
"Tentação" não tem conotações morais: na realidade a escolha não
existia. Os impostos directos, quer sobre os rendimentos quer sobre a
terra, eram politicamente impossíveis; os mercados inelásticos e os
métodos tradicionais de tecnologia e de organização agrícola bloqueavam
qualquer aumento significativo da produtividade, daquilo a que podemos
chamar o produto nacional bruto, e, portanto, qualquer aumento regular
nas receitas dos impostos indirectos. Quando, por qualquer razão, as
exigências em relação à comida disponível, ao tesouro público e às
contribuições dos ricos através de instituições tais como o sistema das
liturgias ultrapassavam demasiado os recursos públicos, o mundo antigo
só tinha duas respostas possíveis: uma era reduzir a população mandando-
a para fora; a outra era ir buscar fora meios adicionais sob forma de
pilhagens e tributos. Ambos, como já disse, eram paleativos, não
soluções. A colonização grega não trouxe qualquer alteração à estrutura
dos estabelecimentos gregos no Egeu e, portanto, nenhuma solução
permanente aos seus problemas, incluindo os das finanças públicas.
A mudança veio corn a conquista romana e a criação do vasto Império
Romano, e foi, em primeiro lugar, uma mudança política fundamental. No
campo fiscal a mudança pode ser identificada de dois modos principais: o
imposto sobre a terra toraou-se a principal fonte de receitas em todo o
Império (embora não devamos subestimar as ubíquas taxas portuárias) ; e
a maior parte dos encargos fiscais passaram do sec-
238
l

tor mais rico da população para o mais pobre, corn a correspondente


depressão na posição social deste último*. Nada disto se fez da noite
para o dia; não podemos seguir o processo década a década, mas no século
II d.C. ele já acontecera, visivelmente. Entretanto, as possibilidades
de mais soluções externas, de ainda mais conquistas seguidas por
colonização, chegaram gradualmente ao fim: os recursos disponíveis
simplesmente não permitiam mais nenhuma, como bem o demonstraram, se
demonstração fosse necessária, as desastrosas expedições de Trajano à
Partia. No meio século que se seguiu a Trajano houve uma aparência de
estabilidade e equilíbrio, a Idade Dourada de Gibbon. Hipoteticamente,
se o Império Romano tivesse incluído todo o mundo civilizado, como
diziam os seus panegiristas, não há razão óbvia para que a Europa, a
Ásia ocidental e o norte de África não fossem ainda hoje governados
pelos imperadores romanos e a América não pertencesse aos peles-
vermelhas.
Contudo, antes do fim do século II, as pressões externas começaram e não
foi possível resistir-lhes eternamente. O exército não pôde ser alargado
para lá de limites inadequados porque a terra não podia suportar um
esvaziamento maior de homens; a situação na terra tinha-se deteriorado
porque os impostos e as liturgias eram demasiado elevadas; os encargos
eram demasiado grandes sobretudo porque as exigências militares
aumentavam. Um círculo vicioso de males estava em pleno funcionamento. O
mundo antigo corria para o seu fim e a culpa era da sua estrutura social
e política, do seu sistema de valores institucionalizado e profundamente
incrustado, e, subjacente a tudo, da organização e exploração das suas
forças produtivas. Aí, se quiserem, reside uma explicação económica para
o fim do mundo antigo.
A isenção <$a ItSBa não afecta o argumento.
239

ABREVIATURAS
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213-47 ZSS - Zeitschrift der Savigny-Stiftung fur Rechtgeschichte,
Romanis-
tische Abteilung
242

ÍNDICE
Prefácio à Edição Portuguesa ......... 5
Prefácio à l.a Edição Inglesa . 13
Algumas datas para orientação 15
Alguns imperadores Romanos 16
I
Os Antigos e a sua Economia ......... 17
II
Ordens e Status 43
in
Amos e Escravos . . 81
IV
Senhores e Camponeses 129
V
Cidade e Campo ... . . . . 169
VI .' , ' '
O Estado e a Economia 205
Abreviaturas 241