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PRADO JR, Caio. Sentido da Colonização. ​ In: ​ Formação do Brasil Contemporâneo ​ :

PRADO JR, Caio. Sentido da Colonização. In: Formação do Brasil Contemporâneo:

colônia. São Paulo: Brasiliense, 1999. p. 19-32.

Colonização. ​ In: ​ Formação do Brasil Contemporâneo ​ : colônia. São Paulo: Brasiliense, 1999. p.

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Início do séc. XIX:

 

- Transferência da monarquia portuguesa para o Brasil;

- Atos preparatórios para emancipação política;

- Momento decisivo:

 

- Fornece, em balanço final, a obra realizada por três séculos de colonização;

- Nos apresenta o que nela se encontra de mais característico e fundamental daqueles trezentos anos de história. É uma síntese deles.

- É também chave para interpretar processo histórico posterior, do qual resultou o Brasil de hoje.

Instante em que elementos constitutivos de nossa nacionalidade – instituições fundamentais e energias – organizados e acumulados desde o início da colonização, desabrocham e se completam. Entra-se na fase do Brasil contemporâneo, erigido sobre aquela base.

Obra colonizadora dos portugueses esgotara suas possibilidades, regime colonial realizara o que tinha para realizar. O sistema colonial, o conjunto das instituições, suas características econômicas e sociais, estava em jogo, “prenhe de transformações profundas”.

Perecer ou modificar-se: dilema que se apresentava ao Brasil.

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Processo de transformação deveria ser profundo, não bastava separar-se da pátria-mãe.

 

Início de um longo processo que se prolonga até os nossos dias (1942) e que não está terminado.

Brasil contemporâneo se define assim: o passado colonial que se balanceia e encerra com o século XVIII, mais as transformações que se sucederam no decorrer do centênio anterior a este e no atual.

É por isso que, para compreender o Brasil contemporâneo, precisamos ir tão

longe; [

]

colhendo dados indispensáveis para interpretar e compreender o

meio que o cerca na atualidade.

Elementos que analisa: geográfico, econômico, social, político.

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Brasil de hoje é organismo em franca e ativa transformação, que ainda não se sedimentou em linhas definidas, ainda não “tomou forma”.

 

Passado colonial que perdura:

No terreno econômico, não completamos nossa evolução da economia colonial para a nacional. Trabalho livro não se organizou inteiramente em todo o país, e se conserva traços bastante vivos do regime escravista que o precedeu. Ainda, caráter fundamental de nossa economia é a produção extensiva para mercado exterior, faltando mercado interno solidamente alicerçado e organizado → subordinação a outras economias.

No terreno social, relações sociais, em particular as de classe, ainda conservam acentuado cunho colonial [questão das empregadas domésticas].

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Por isso, para chegar a uma interpretação do Brasil de hoje, autor foi ao

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passado que parece longínquo, mas que ainda nos cerca.

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Sentido da Colonização

 

“Todo povo tem na sua evolução, vista à distância, um certo ‘sentido’. Este se percebe não nos pormenores da sua história, mas no conjunto dos fatos e acontecimentos essenciais que a constituem num longo período de tempo”.

Se separarmos os incidentes secundários, perceberemos uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos que se sucedem em ordem rigorosa e dirigida numa determinada orientação → crítica ao positivismo.

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É

o que precisamos fazer com a história brasileira.

 

Momento final do Brasil colônia é um elo da mesma cadeia de acontecimentos mais remotos, pois não sofremos nenhuma descontinuidade no decorrer da história da colônia.

Momento final do período colonial é síntese da evolução anterior.

O

que nela houve de fundamental e permanente → o seu sentido.

Acontecimento que constituiria o Brasil é apenas um episódio do quadro imenso que foi a atividade colonizadora. Colonização portuguesa na América não foi fato isolado, aventura sem precedente.

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Buscar motivos que inspiraram e determinaram os rumos da colonização brasileira, desnaturalizando-os como rumos naturais do descobrimento.

 

Expansão marítima dos países da Europa, depois do séc. XV, que resultou no descobrimento e colonização da América, se origina de simples empresas comerciais levadas a efeito pelos navegadores daqueles países. Deriva quase unicamente do comércio continental europeu, que até o séc. XIV é quase

 

unicamente terrestre, com mesquinha navegação costeira e de cabotagem.

Rota comercial principal: terrestre, ligando o Mediterrâneo ao mar do Norte.

Séc. XV, revolução na arte de navegar. Nota rota: marítima, contornando continente pelo Gibraltar. 1º reflexo: deslocar primazia comercial dos territórios centrais do continente (por onde passava antiga rota) para aqueles que formavam sua fachada oceânica: Holanda, Inglaterra, Normândia, Bretanha, Península Ibérica.

Disso, irá derivar a expansão europeia ultramarina.

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Pioneirismo será dos portugueses, melhores situados geograficamente, que buscarão rotas comerciais sem concorrência → costa ocidental da África (comércio com mouros)

 

No fim do séc. XV, plano mais amplo: atingir o Oriente contornando a África.

Em suma: todos os grandes acontecimentos da era “dos descobrimentos” articulam-se num conjunto que não é senão um capítulo da história do comércio europeu. Tudo que se passa são incidentes da imensa empresa comercial a que se dedicam os países da Europa a partir do XV.

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Busca por passagem, brecha entre Atlântico e Pacífico, para rota comercial, foi o que motivou expedições ao continente Americano.

 

Europeus abordaram América não com ideia de povoar. É o comércio que os interessava. Por isso o relativo desprezo pelo território primitivo e vazio, em oposição ao prestígio do Oriente, onde não faltava objeto para atividades mercantis.

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Ocupou-se a terra com agentes comerciais, funcionários e militares para a defesa, organizados em simples feitorias.

 

Ocupar para povoamento efetivo apenas posteriormente. No momento, nenhum povo da Europa estava em condições de dispor de população (duas devastações pela peste).

Surgimento da ideia de povoar → para fins mercantis, a ocupação não se podia fazer como nas simples feitorias, com um reduzido pessoal incumbudi apenas do negócio, sua administração e defesa armada; era preciso ampliar bases, criar povoamento capaz de abastecer e manter as feitorias, e organizar a produção dos gêneros que interessassem ao seu comércio.

Portugal pioneiro na nova ordem econômica.

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Na América, inicialmente exploração da madeira, peles e pesca.

 
 

Posteriormente,

em

substituição,

viria

base

econômica

mais

estável:

agricultura.

Duas áreas: zonas temperadas; zonas tropical e subtropical.

 

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Zona Temperada:

 

Permanece por muito tempo adstrita à exploração de produtos espontâneos:

madeiras, pele, pesca. Se se povoou, foi por situação especial → “resíduo de lutas político-religiosas da Europa”. Não buscavam “fazer a América”, mas abrigar-se dos vendavais políticos que varriam a Europa. Ainda, fator econômico na Inglaterra → sec. XVI, nascente indústria têxtil → corrente migratória que abandona o campo.

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Colonos dessa categoria queriam construir novo mundo, sociedadecom garantias que no continente antigo não lhes eram dadas. Desse povoamento, realizado com tal espírito e em um meio físico parecido com o europeu, será um prolongamento da sociedade europeia.

 

Zona Tropical e Subtropical:

 

Condições naturais, diferentes da de origem, repelem colono que vem como simples povoador.

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Diversidade de condições naturais foi forte estímulo → proporcionarão aos países europeus a possibilidade de obtenção de gêneros atrativos que lá fazem falta. Ex.: açúcar, tabaco, anil, algodão, arroz.

 

América colocava à disposição do homem europeu, em tratos imensos, territórios que só esperavam sua iniciativa e esforço.

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Mas viria como dirigente da produção de gêneros de grande valor comercial, como empresário; só a contragosto viria como trabalhador. Outros trabalhariam para ele.

 

Temperada: caráter de larga escala das unidades produtoras necessita de muita mão de obra. Assim, grande parte dos colonos estava nos trópicos condenada a uma posição dependente e de baixo nível. Ficarão assim até a adoção da mão de obra escravizada africana, quando então colono europeu ficará na posição de dirigente e grande proprietário rural.

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Nas colônias tropicais – inclusive Brasil – não se chegou nem a ensaiar o

 

trabalhador branco, pois nem em Espanha nem Portugal havia braços disponíveis e dispostos a emigrar a qualquer preço.

Além disso, portugueses e espanhóis encontraram em suas colônias indígenas que aproveitaram como trabalhadores.

Ainda, portugueses foram precursores também na escravidão de negros africano. Dominavam os territórios que os forneciam, de modo que adotaram essa mão de obra em suas colônias quase de início.

Rumos diferentes das colônias de zona tropical e temperada:

Temperada → de povoamento, escoadouro para excessos demográficos da Europa que reconstituem no novo mundo uma organização e uma sociedade à semelhança do seu modelo e origem europeu.

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Tropical: surgimento de sociedade inteiramente original.

Colonização dos trópicos toma aspecto de uma vasta empresa comercial, mais completa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É este o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos.

Ainda que não tenhamos ficado sóna empresa de colonos brancos distantes, indo além no sentido de constituir nos trópicos uma sociedade com características nacionais e qualidades de permanência, tal caráter só se revelará aos poucos, dominado e abafado pelo que o precede.

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Se vamos à essência da nossa formação, veremos que nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros, mais tarde ouro e diamantes, depois algodão, em seguida café, para o comércio europeu.

É com um objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras. Tudo se disporá naquele sentido.

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Com tais elementos, articulados em uma organização puramente produtora, se constituirá a colônia brasileira. Este início, cujo caráter se manterá dominante através dos três séculos … se gravará profunda e totalmente nas feições e vida do país. O “sentido” da evolução brasileira, ainda se afirma por aquele caráter inicial da colonização.

RICUPERO, Bernardo. Caio Prado Júnior e o lugar do Brasil no mundo. In:

RICUPERO, Bernardo. Caio Prado Júnior e o lugar do Brasil no mundo. In:

BOTELHO, A; SCHWARCZ, L. M. (org). ​ Um enigma chamado Brasil: ​ 29 intérpretes

BOTELHO, A; SCHWARCZ, L. M. (org). Um enigma chamado Brasil: 29 intérpretes

e um país. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 226-238

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Biografia 1907, filho de uma das mais importantes famílias da burguesia cafeeira de São Paulo (os Silva Prado). Educação a cargo de governantas estrangeiras, colégios tradicionais, uma temporada na Inglaterra e o curso de direito na Faculdade do Largo de São Francisco (USP). Na faculdade, inicia atuação política. Ingressa no Partido Democrático, que reúne membros da oligarquia e classe média paulista, descontentes com orientação da Primeira República. Com decepção sobre a Revolução de 1930, vem a radicalização política. Em 1931, torna-se membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Passa então a estudar o Brasil para transformá-lo; conhece inúmeras prisões e o exílio; funda a editora e a Revista Brasiliense; chega a vice-presidente da seção paulista da Aliança Nacional Libertadora (ANL); é eleito deputado estadual. Apesar da dedicação, suas posições no partido são quase sempre marginais. Quando morre, em 1990, já estava afastado.

 

Um marxista original Suas teses se tornaram tão difundidas que quase ninguém reconhece que ele foi o autor. Ex.: hoje, poucos acreditam no passado feudal do Brasil. Em compensação, a história que se ensina na escola é que a colonização do país deve ser entendida no quadro da expansão marítima europeia.

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Não via o materialismo histórico como um conjunto de fórmulas com pretenso valor universal.

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Também não achava que teoria, no caso marxismo, deveria se adaptar à realidade (populismo), sob pena de se tornar irreconhecível e desnecessária.

 

Marxismo como método para a interpretação de diferentes experiências históricas → nacionalização do marxismo, tradução dessa teoria para as condições de uma realidade específica.

Questão central: relação entre colônia e nação.

Eixos principais de reflexão: transição entre a situação colonial e a situação nacional.

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Colonização não foi uniforme: colônias de povoamento e de exploração. Povoamento: na zona temperada das Américas. Não teria objetivos apenas mercantis; colonos chegaram impelidos pela intenção de criar uma sociedade nova. Exploração: zona tropical e semitropical. Colonos movidos apenas por considerações mercantis, não pensaram em criar sociedade.

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Em contrapartida, ao passo que as colônias de povoamento resultaram em sociedades que eram meros prolongamentos da Europa, as de exploração formaram uma sociedade original.

Colônias de exploração: de início, desorganização, reduzida à “vasta empresa comercial”. É esse o “sentido” por trás da colonização: produzir, em grandes unidades trabalhadas pelo braço escravo, bens demandados pelo mercado externo. A partir desse objetivo externo, desconhecendo necessidade da população, se organizaria a sociedade e economia brasileiras. Colônia brasileira se formaria em função do “sentido da colonização”. Características de uma organização social surgiram de um objetivo básico:

fornecer produtos primários para a metrópole. Colônia se constituiria subordinada a outra totalidade social, a metrópole.

História é feita de “um cipoal de acontecimentos secundários”. “Sentido” revelaria então que todos os momentos e aspectos são partes de um todo

que deve ser o objetivo último do historiador.

 

No todo

que

é

a colônia, seu aspecto mais importante é a grande

exploração.

 

Três características:

1. A produção de bens de alto valor no mercado externo;

2. Grandes unidades produtivas;

3. Trabalhadas pelo braço escravo.

Importância da grande exploraçãorelacionada ao sentido da colonização. Apenas o que está ligado à grande exploração tem vida orgânica na colônia. Desarticulação entre produção, voltada para fora, e consumo da população, que estabeleceria um setor inorgânico.

Estrutura social polarizada em dois extremos: senhores rurais e escravos. Com o tempo, desclassificados, sem lugar nessa divisão, aumentam. É esse grupo que aponta para a orientação que nação brasileira deve seguir no futuro → voltada para necessidades internas da população.

Ausência quase completa de superestrutura. Escravidão, que funciona como cimento da sociedade, está baseada nas relações materiais de força.

Grandes realizações de Caio Prado → atenção à experiência brasileira como

Grandes realizações de Caio Prado → atenção à experiência brasileira como

totalidade.

Grandes realizações de Caio Prado → atenção à experiência brasileira como totalidade.

Nesse sentido, vai mais longe que seus companheiros de geração, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque (realizar grandes interpretações do Brasil). Casa Grande & Senzala → formação da família patriarcal; Raízes do Brasil → ação do ethos do aventureiro no país.

Formação

do

Brasil…

por

meio

da

categoria

de

“sentido

de

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colonização”, pode entender tanto o modo como se manifestou o ​ ethos ​ do aventureiro

colonização”, pode entender tanto o modo como se manifestou o ethos do aventureiro como o processo pelo qual se formou a família patriarcal no

país.

como se manifestou o ​ ethos ​ do aventureiro como o processo pelo qual se formou

As dificuldades de formação da nação Experiência brasileira como uma totalidade histórica, sujeita à transformação → a partir de um eixo central, dado pelo sentido da colonização, Brasil se modificaria, preparando o terreno para a constituição de uma nação integrada. Ou seja, o caminho que se inicia pela formação do Brasil contemporâneo deveria levar à revolução.

Nação deveria se voltar para atender às necessidades internas da população. História do país é a história da dificuldade de superar o sentido da colonização.

Como não ocorrem rupturas significativas, tempo se projeta no espaço → “historiadores brasileiros podiam assistir pessoalmente às cenas mais vivas de seu passado” (observação de professor estrangeiro).

Formação de estado nacional marca nova fase na história brasileira. Desde então, passaria a haver um “desacordo fundamental entre o sistema econômico legado pela colônia e as novas necessidades de uma nação livre e politicamente emancipada” → maior contradição brasileira, entre a organização jurídico-política e a estrutura econômico-social do país.

Principal transformação no Brasil → fazer com que a economia e a sociedade realizassem as promessas contidas na ordem jurídico-política.

Continuidade com passado ocorreria principalmente na questão agrária, já que grande exploração teria se mantido → principal obstáculo para desenvolvimento de mercado interno.

Dá pouca importância para a industrialização, por acreditar que não mudou

o que é mais significativo na vida brasileira.

Para Ricupero, Prado não percebe transformação representada pela industrialização em razão de sua aguda compreensão do peso que o passado colonial tem no país.

Considerações finais

Interpretações do Brasil, antes de Caio, se preocupavam principalmente com características internas de nossa sociedade.

Interpretações do Brasil, antes de Caio, se preocupavam principalmente com características internas de nossa sociedade. Caio pensará ligação do

Brasil com resto do mundo.

principalmente com características internas de nossa sociedade. Caio pensará ligação do Brasil com resto do mundo.

Se desde independência, questão fundamental para Brasil e demais nações

latino-americanas era afirmar sua individualidade, a partir da crise de 1929

e o segundo pós-guerra, já não se pode subestimar a importância da relação

dos países da região com o resto do mundo. Nessa orientação, o que Caio chamou

dos países da região com o resto do mundo. Nessa orientação, o que Caio chamou de “sentido da colonização” talvez represente a formulação mais sintética que se propôs a respeito de países como o nosso: o Brasil se constitui para produzir, em grandes unidades com péssimas condições de trabalho, bens demandados pelo mercado externo.

Caio Prado → pioneiro na aplicação do materialismo histórico à realidade brasileira.

Tensão existente entre três visões da teoria do conhecimento em ciências sociais: o positivismo (e também o estruturalismo), com a sua busca de relações invariantes, de validade universal no espaço e no tempo; o historicismo, com a defesa de que cada arranjo social é uma particularidade histórica e que os conceitos não podem ser generalizados para o estudo de distintos arranjos sociais, o que aponta para os limites do conhecimento; e a dialética, que com uma mudança de registro lógico, ou seja, com o rompimento com os limites da lógica formal, busca trabalhar a contradição entre a generalidade e a particularidade dos conceitos.

Relação entre passado e presente, a idéia de que, ao se conhecer o resultado do desenrolar da história, é possível então, a partir do conhecimento do presente, olhar para trás para identificar quais as relações mais importantes para se compreender a dinâmica das sociedades passadas que a distanciavam ou que a desenvolveram na sociedade presente. É o presente que fornece a chave para o passado, ou seja, é o conhecimento do presente que permite identificar quais os elementos essenciais para se compreender o passado, separando estes elementos essenciais do que é secundário ou apenas acessório, ou seja, dos “pormenores de sua história”.

Sendo assim, para se conhecer um pouco mais sobre o início da formação da sociedade brasileira é de fundamental importância, num primeiro momento, apreendermos o que Caio Prado Jr. chamou de “o sentido da colonização” em sua obra Formação do Brasil Contemporâneo, obra esta publicada em 1942. Dessa forma, ao nos dedicarmos a este exercício de compreensão do processo de colonização das terras brasileiras pelo reino de Portugal, em meados do século XVI, é necessário entender este fato histórico de forma mais ampla, isto é, como parte de um processo maior, global. Segundo o referido autor, a ocupação do Brasil é apenas um episódio que compõe um processo mais amplo e já conhecido: a expansão marítima. Isso significa que os impulsos iniciais do processo de colonização se explicariam pelo desejo da expansão da empresa europeia dentro da lógica mercantilista que se consolidava naquele momento da Idade Moderna. Não se tratou apenas de um projeto específico de desbravamento do mar, do espírito aventureiro português, mas, além disso, tratava-se de buscar alternativas para ampliar o comércio que tinha como entraves questões de ordem política e econômica também internas ao continente, a exemplo dos árabes que dominavam o comércio de especiarias.

Sendo assim, é possível dizer que a formação da sociedade brasileira não era um fim, um objetivo propriamente dito, como diferentemente ocorreu nas chamadas colônias de povoamento tão presentes na América Espanhola. Mais como consequência de que como alvo, a formação do Brasil enquanto nação se deu por um processo histórico bastante peculiar, com desdobramentos significativos para a constituição do país enquanto nação. Caio Prado Jr. afirma que todo o povo tem na sua evolução um certo sentido, o qual não se dá pelos pormenores da história, mas fundamentalmente ao analisarmos o conjunto dos fatos e acontecimentos essenciais da história num largo período de tempo. Ainda segundo tal autor, há uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos, que se sucedem em ordem rigorosa, dirigida para determinada orientação. Tais acontecimentos históricos são partes de um todo, fato que nos permitiria compreender a especificidade de um povo, de uma nação, de uma sociedade.

Para Caio Prado, no caso brasileiro, “precisamos reconstituir o conjunto da nossa formação, colocando-a no amplo quadro, com seus antecedentes, desses três séculos de atividade colonizadora que caracterizam a história dos países europeus a partir do século XV; atividade que integrou um novo continente na sua órbita, paralelamente, aliás, ao que se realizava, embora em outros moldes diversos, em outros continentes: a África e a Ásia.” (PRADO, p. 16, 2011). Dessa forma, o Brasil começa a se desenhar enquanto sociedade sob um contexto no qual predomina a produção voltada para o mercado exportador e, na condição de colônia, estava enfadado a olhar para fora, sendo que o improviso, o descompromisso e o provisório eram pensamentos que inviabilizavam o surgimento de uma organização social de fato sólida, de fato com uma ‘alma nacional’.

Para este empreendimento em termos de trabalho, lançou-se mão do escravismo, escolha esta que se justifica pelo forte e rentável tráfico negreiro já praticado por Portugal desde outros tempos. A presença da escravidão deixará suas marcas ao longo da montagem da estrutura da sociedade brasileira, e sua presença se explica por conta deste sentido da colonização, uma vez que é parte integrante deste. Assim, a colonização do Brasil toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, voltada à exploração dos recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. Segundo Prado, este seria o “verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma das resultantes; ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução histórica dos trópicos americanos” (Ibidem, p.28).

Logo, a ocupação do território brasileiro não se fez em nome da construção de uma nova sociedade com interesses próprios, nacionais, mas sim para o alcance de interesses de fora, da metrópole, daqueles que aqui não viviam, mas que se beneficiavam do comércio. Assim, “é com tal objetivo, exterior, voltado para fora do país e sem atenção

a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras” (Ibidem, p. 29)

Capítulo de Formação do Brasil Contemporâneo é texto seminal da interpretação marxista brasileira sobre a essência da colonização.