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Gustavo Figliolo

Sofia Marionesi
Tatiane Rocha
Victória Araúna Batista

Análise do filme O gênio indomável, de Gus


Van Sant, à luz da psicoterapia existencial

Londrina
2019
Gustavo Figliolo
Sofia Marionesi
Tatiane Rocha
Victória Araúna Batista

Análise do filme O gênio indomável, de Gus


Van Sant, à luz da psicoterapia existencial

Trabalho apresentado à disciplina Teoria


Humanista e Existencial, prof. Fabrício
Ramos de oliveira

Londrina
2019
Este trabalho tem como objetivo fazer uma análise crítico-reflexiva do filme O gênio
indomável, de Gus Van Sant, explorando as categorias de relação de ajuda, escolha e
responsabilidade e autenticidade, apoiando-nos em dois textos: Introdução à psicoterapia
existencial, de José Carvalho Teixeira e o capítulo 3 do livro Tornar-se pessoa, de Carl Rogers,
intitulado As características de uma relação de ajuda.
O filme O gênio indomável trata da história de um rapaz (Will Hunting, protagonizado
por Matt Damon) que mora nos subúrbios da cidade de Boston e trabalha como faxineiro em
uma universidade. Ele tem também um passado violento e algumas passagens pela polícia. Um
determinado dia, um eminente e brilhante matemático e professor da universidade (Lambeau,
protagonizado por Stellan Skarsgard) lança o desafio de resolver um extremamente difícil
problema de matemáticas que Will resolve, para o assombro do professor e do meio acadêmico.
Ao se meter numa briga de rua, Will é condenado a ir para a cadeia, mas o professor Lambeau
fala com o juiz que concorda em deixá-lo na condicional com duas condições: que procure um
trabalho em que possa colaborar com o dom de gênio que ele tem e que faça terapia. O problema
é que Will é órfão e sofreu abuso físico e psicológico por parte do padrasto, que era alcoólatra
e batia nele, pelo que descrê totalmente de qualquer psicoterapeuta e qualquer tipo de ajuda que
possa receber, em função da ativação dos mecanismos de defesa que se levantam e bloqueiam
ele cada vez que alguém tenta entrar em sua intimidade. Após passar por vários professionais
da psicoterapia que utilizam diversos métodos para tentar ajudá-lo sem sucesso, conhece Sean
McGuire (protagonizado por Robin Williams); após Sean conseguir entrar no âmago da alma
de Will, este percebe que precisa se deixar ajudar e que pode abrir o coração e o espírito para
algumas pessoas, pois nem todas são como o padrasto, cujo significante ele via em cada
relacionamento que tinha.
A maneira como o psicoterapeuta Sean leva Will a abrir seu coração diz respeito a
alguns pressupostos que podemos encontrar na psicoterapia existencial. Esta visa a
responsabilidade individual na construção do mundo do sujeito. José Carvalho Teixeira cita
alguns autores e definições:

Contudo, vários autores definem a finalidade principal da psicoterapia existencial de


diferentes modos: procura de si próprio (May, 1958); procura do sentido da existência
(Frankl, 1984); tornar-se mais autêntico na relação consigo próprio e com os outros
(Bugental, 1978); superar os dilemas, tensões, paradoxos e desafios do viver (Van
Deurzen-Smith, 2002); facilitar um modo mais autêntico de existir (Cohn, 1997);
promover o encontro consigo próprio para assumir a sua existência e projectá-la mais
livremente no mundo (Villegas, 1989) e aumentar a auto-consciência, aceitar a
liberdade e ser capaz de usar as suas possibilidades de existir (Erthal, 1999). No
essencial, a perspectiva existencial pretende ajudar o cliente a escolher-se e a agir de
forma cada vez mais autêntica e responsável. (TEIXEIRA, 2006, p. 289).
É justamente o aperceber-se dessa escolha autêntica e responsável que faz Will mudar
de rumo em sua vida. Seu comportamento no início, antes de conhecer Sean, era o de um
indivíduo completamente na defensiva, que se fechava para o mundo por ter tido uma história
de vida de muito sofrimento, mas que, ao agir dessa maneira, não fazia mais do que perpetuar
esse sofrimento, num círculo vicioso. Ao aceitar a ajuda, ao perceber que era necessário encarar
as coisas enfrentando-as, verifica o verdadeiro sentido da vida ao sentir-se autêntico (por não
ficar procurando atalhos para os problemas), ao ter que fazer escolhas (dando uma importância
vital ao seu próprio ser, o dasein heideggeriano) e ao sentir-se livre (pois toma consciência do
preço a pagar para ter essa liberdade, que antes não tinha). Diz Teixeira:

O que caracteriza a existência individual é o ser que se escolhe a si-mesmo com


autenticidade, construindo assim o seu destino, num processo dinâmico de vir-a-ser.
O indivíduo é um ser consciente, capaz de fazer escolhas livres e intencionais, isto é,
escolhas das quais resulta o sentido da sua existência. (TEIXEIRA, 2006, p. 290).

Esse processo que menciona Teixeira é exatamente o mesmo o que atravessa Will, e a
história nos mostra como é possível a transformação de um indivíduo através do que Teixeira
vai chamar ainda de cuidado, construção e responsabilidade. O percurso da autenticidade,
liberdade de escolha e responsabilidade é definido por Teixeira da seguinte maneira:

A autenticidade (Cabestan, 2005) implica aceitar a condição humana tal como é vivida
e conseguir confrontar-se com a ansiedade e escolher o futuro, reduzindo a
culpabilidade existencial. A autenticidade caracteriza a maturidade no
desenvolvimento pessoal e social. A escolha é um processo central e inevitável na
existência individual e a liberdade de escolher-se envolve responsabilidade pela
autoria do seu destino e compromisso com o seu projecto. A liberdade de escolha não
só é parte integrante da experiência como o indivíduo é as suas escolhas: a identidade
e as características do indivíduo seriam consequências das suas próprias escolhas.
(TEIXEIRA, 2006, p. 291).

Porém, para que essa mudança possa ocorrer, foi necessário estabelecer um vínculo
afetivo entre Will e o seu psicoterapeuta. Fica claro que Sean procura estabelecer laços de
confiança com Will, o fato de terem nascido no mesmo bairro e terem tido vivências similares
na infância faz de alguma maneira que o Will sinta o Sean como um seu igual. E Will acaba
constatando que Sean está “do seu lado”, por assim dizer, quando flagra sem querer uma
discussão acalorada deste com o professor Lambeau, em que lhe diz, a respeito do Will: “Talvez
ele não queira o que você quer” e “Direção é uma coisa, manipulação é outra”, pois o professor
quer aproveitar as qualidades de gênio do Will para sua promoção acadêmica.
Além do estabelecimento da confiança, foi necessário um outro elemento para mudar o
destino de vida do Will, e esse elemento constitui o que Carl Rogers vai chamar de relação de
ajuda. Rogers define esse conceito da seguinte maneira:

Entendo por esta expressão uma relação na qual pelo menos uma das partes procura
promover na outra o crescimento, o desenvolvimento, a maturidade, um melhor
funcionamento e uma maior capacidade de enfrentar a vida, O outro, nesse sentido,
pode ser quer um indivíduo, quer um grupo. Em outras palavras, a relação de ajuda
pode ser definida como uma situação na qual um dos participantes procura promover
numa ou noutra parte, ou em ambas, uma maior apreciação, uma maior expressão e
uma utilização mais funcional dos recursos internos latentes do indivíduo. (ROGERS,
2007, p. 46-47).

Essa utilização mais funcional dos recursos internos latentes do indivíduo não é outra
coisa do que uma libertação espiritual que o processo de escolha livre, responsável e autêntica
pode levar adiante e pode fazer acontecer. Mas, e para que essa ajuda possa ser dada, são
necessários requisitos, conforme aponta Rogers. Ele vai elaborar dez pontos colocados em
forma de perguntas, que gostaríamos de citar aqui:

1. Poderei conseguir ser de uma maneira que possa ser apreendida pela outra
pessoa como merecedora de confiança, como segura ou consistente no sentido mais
profundo do termo?
2. Poderei ser suficientemente expressivo enquanto pessoa para que o que sou
possa ser comunicado sem ambiguidades?
3. Serei capaz de vivenciar atitudes positivas para com o outro — atitudes de
calor, de atenção, de afeição, de interesse, de respeito?
4. Serei capaz de respeitar corajosamente meus próprios sentimentos, minhas
próprias necessidades, assim como as da outra pessoa?
5. Estarei suficientemente seguro no interior de mim mesmo para permitir ao
outro ser independente?
6. Poderei permitir-me entrar completamente no mundo dos sentimentos do outro
e das suas concepções pessoais e vê-los como ele os vê?
7. Poderei aceitá-la como ela é?
8. Serei capaz de agir com suficiente sensibilidade na relação para que meu
comportamento não seja percebido como uma ameaça?
9. Poderei libertá-lo do receio de ser julgado pelos outros?
10. Serei capaz de ver esse outro indivíduo como uma pessoa em processo tornar-
se ela mesma, ou estarei prisioneiro do meu passado e do seu passado? (ROGERS,
2007, p. 60-65).

Cremos que a atitude de Sean para com Will contempla os dez pontos, sem exceção.
Existem algumas falas no filme que apontam nessa direção; Sean diz para o Will: “O que você
realmente quer fazer? Você tem resposta para tudo. Aí eu te faço uma pergunta simples e você
não consegue me dar uma resposta sincera!” (Quando Will foge de ter que encarar as coisas
com responsabilidade); “Não é sua culpa” (Clímax da história, quando Sean consegue fazer ver
Will de que não importa o que fizeram de nós, mas o que nós vamos fazer com o que fizeram
de nós, parafraseando Sartre); e “Faça o que tiver no coração, vai dar certo” (Porque afinal não
vamos nos arrepender de ao menos termos tentado).
A história do filme acaba justamente com Will indo buscar a mulher amada dele, num
final que exibe a total libertação das algemas psíquicas que prendiam o rapaz. E mostra também
toda a sutileza, empatia e humanidade que um psicoterapeuta deve ter para poder ajudar as
pessoas tomadas de dor e sofrimento. Para refletir longamente.

BIBLIOGRAFIA

O GÊNIO indomável. Direção: Gus Van Sant. Intérpretes: Matt Damon, Robin Williams,
Stellan Skarsgard, Minnie Driver. Roteiro: Matt Damon, Ben Affleck. Produção: Lawrence
Bender. Miramax films. Estados unidos, 1997. Cor. 126 m.

ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins fontes, 2007.

TEIXEIRA, José Carvalho. Introdução à psicoterapia existencial. Análise psicológica. V. 3,


n. XXIV, p. 289-309, 2006.