Você está na página 1de 10

STEB – Seminário Teológico Evangélico do Brasil

Teologia Bíblica do Novo Testamento

Weliton Borges de Eça

Junho / 2011

Ressurreição, na teologia de Paulo.

Metodologia do autor: citação e exegese.

Hipótese do autor:

Cristo Jesus ressuscitado tornou-se o chefe da vida nova, o primeiro Homem da raça dos ressuscitados e o novo Adão.

Introdução

Este estudo tem como objetivo expor a analise do autor Lucien Cerfaux da teologia do Apostolo Paulo a respeito da ressurreição.

Será trabalhado o contexto do pensamento do apostolo, como a se dava a sua fé na ressurreição, sua similaridade com o pensamento da comunidade primeva e como Paulo trabalhou a teologia deste fato.

Cerfaux trabalha apenas com a compreensão de Paulo e da comunidade primitiva sobre a ressurreição, não é o foco do estudo abordar a historicidade do evento, mas a crença e desenvolvimento do pensamento paulino sobre a ressurreição de Cristo.

A ressurreição de Cristo na visão de Paulo, segundo Cerfaux.

A idéia da ressurreição do Messias não é algo claro no Antigo Testamento, não cabia nem à

figura do Messias nacional, nem à do Filho do homem, apesar de que a idéia do servo sofredor

já pudesse apontar nesta direção.

A ressurreição assegura o cumprimento da missão de Cristo que se tornou o chefe da vida nova,

o primeiro Homem da raça dos ressuscitados. Ao mesmo tempo a ressurreição dos cristãos é coordenada com a ressurreição de Cristo e a ideia do novo Adão, já insinuada no Judaísmo poderá influenciar o pensamento de Paulo.

I – A fé na ressurreição.

A ressurreição é uma injeção de ânimo para os discípulos logo após a morte de seu mestre. Na

comunidade primeva a fé na ressurreição é a pedra angular.

Para Cerfaux não há como se opor fé e fato, “a fé supõe o fato”. Os cristãos primitivos entendiam e criam que a ressurreição era um fato e eles eram testemunhas deste fato. O testemunho da comunidade por sua vez não era de apenas o testemunho de um fato, não era apenas um testemunho humano, mas um testemunho com poder, um testemunho no Espírito e

os

que recebiam o testemunho recebia em duas qualidades: testemunho humano e testemunho

no

Espírito.

A

comunidade primeva corresponde ao testemunho dos apóstolos e então se tem, primeiro a fé

na

ressurreição e esta se estende a toda vida, obra e palavras de Jesus.

Paulo está ou é identificado nesta comunidade, pois como os apóstolos ele participa como testemunha da ressurreição. Como é participante do testemunho da ressurreição, Paulo participa também do apostolado. A fé de Paulo é a fé do cristianismo primevo.

1 – A visão de Cristo ressuscitado.

A conversão de Paulo se dá com a visão de Cristo ressuscitado. Paulo assimila esta visão à dos

apóstolos e é esta visão que lhe outorga o título de apostolo. Ele é escolhido por Deus como “testemunha da ressurreição” diz Cerafux e testemunho é como o dos apóstolos, fé e fato, ele viu o Cristo ressurreto, isto é o testemunho humano, mas também dá testemunho de fé, pois com poder ele anunciava seu testemunho.

A visão de Paulo também apresenta por outro ângulo pelo menos dois outros pontos de vista da

ressurreição:

Cristo glorioso:

Paulo trata esta visão como uma revelação (αποκαλυψαι). Revelação do Cristo celeste, o “filho do homem”, o Cristo que se mostra a direita do Deus revestido de glória.

Cristo da parusia:

O outro ponto de vista que Paulo apresenta é a visão do Cristo esperado pelos cristãos. Sua

visão antecipa a parusia e lhe permite anuncia-la aos pagãos. Cristo voltará e todos serão

ressuscitados.

Estes dois pontos de vista são complementares, a ressurreição exaltou a Cristo, colocou-o à direita de Deus e tudo isso em função da parusia.

2 – A fé da comunidade

A fé de Paulo inseriu-se naturalmente na fé da comunidade primeva, com o acréscimo de sua

própria experiência enquanto testemunho apostólico. Pode-se encontrar com frequência a declaração de fé do apostolo na ressurreição que lhe foi “transmitido” pela comunidade em ”

(1 Ts 4.14) e (Rm 10.9), (Rm

Jerusalém: “Pois se, como cremos, Jesus morreu e ressuscitou 4.24), (1 Co 15:1-7).

3 – A Ressurreição e as Escrituras

Existia uma forte preocupação em mostrar a que a ressurreição correspondência bem os testemunhos proféticos. É assim que nos é apresentado no livro de Atos. A ressurreição provou que Jesus era o Messias dado por Deus.

Os apóstolos receberam do Espírito Santo a luz que revela o valor dos textos do Antigo Testamento. O que acontece é o mesmo que acontece com o testemunho da ressurreição, ao mesmo tempo em que é humano (exegese) é também espiritual, pois é revelado o sentido do texto aos apóstolos.

Paulo tem exatamente a mesma característica da comunidade primeva, o apostolo trata os textos do Antigo Testamento como prenuncio de Cristo e como prova de que Jesus seja o Cristo. É possível perceber isso tantos nos discursos do livro de Atos como nas epístolas de Paulo.

II – Noção da ressurreição

1 – O vocabulário primitivo

Duas expressões se destacaram nas pregações da comunidade primeva:

a. “Deus ressuscitou Cristo dentre os mortos”

Esta expressão está diretamente relacionada com o ato de fé. É uma fé na messianidade de Jesus, pois foi o próprio Deus que o ressuscitou, e, além disso, ainda o glorificou e Jesus é participante da glória de Deus.

b. “Cristo ressuscitou”

Esta expressão deriva provavelmente da comunidade primeva, porém não da formulação da fé,

mas da narração dos fatos relacionado à ressurreição, fatos nos quais se baseiam a formulação

da fé.

2 – Ressurreição corporal e espiritual

A ressurreição de Cristo pertence à ressurreição dos mortos; é a primeira cronologicamente na

ordem de dignidade, mas primeira de uma série.

Paulo é levado insistir no aspecto espiritual da ressureição. De um lado para responder aos questionamentos dos coríntios contra a ressureição, por outro lado Paulo considera Cristo ressuscitado como a fonte de nossa própria espiritualização.

“Quanto mais um grego pensa religiosamente, mais combate a ideia da ressurreição”.

O judaísmo não concebe a pessoa sem estar concretizada num corpo. Este corpo pode ser

simplesmente material, isto é, matéria pura, sem influzo divino, ou espiritualizado. A isso Paulo

desenvolve seu pensamento expondo a transformação do corpo (matéria) e passa da ordem terrestre à ordem celeste. Um corpo ressuscitado transformado em corpo celeste, glorioso,

espiritual:

“O corpo semeia-se (pela morte) corruptível, ressuscita incorruptível.

Semeia-se desprezível, ressuscita glorioso.

Semeia-se na fraqueza, ressuscita cheio de força.

Semeia-se corpo físico, ressuscita corpo espiritual.” (1 Co 15.42-44)

Um grande esforço do apostolo de trazer a luz dos gregos o resultado espiritual e corporal que a ressurreição de Cristo tem.

“O corpo de Cristo ressuscitado é espirito vivificante; é celeste, protótipo de todos os outros corpos que ao de ressuscitar e serão celestes, à sua imagem.”

III – Teologia da Ressurreição

“A ressureição outorga a Cristo as funções soberanas no Reino de Deus”. Ressuscitado Cristo é constituído no papel de Juiz, que ele exercera na sua vinda, onde se manifestará com grande glória.

É possível observar pelo menos dois aspectos teológicos da ressurreição para Paulo.

Primeiro é possível observar um destaque no futuro, na parusia. Esta ênfase é perceptível na primeira epistola aos tessalonicenses. A parusia está em destaque, é retratada momentaneamente, mas é em vista dela que Cristo ressuscitou. É uma ênfase na eficácia da ressurreição nas promessas para o futuro, promessas da ressurreição do corpo.

O segundo aspecto que se pode observar é que a ressurreição é um evento absoluto, não se define mais essencialmente em função da vinda gloriosa, da parusia, mas em função do Espírito

e da vida; “Cristo foi estabelecido Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dentre os mortos (Rm 1.4)”. Nisso está à diferença de um pensamento orientado para uma salvação futura e uma concepção da salvação atual.

Os dois aspectos são complementares e não podem ser vistos isolados.

1 – Ressurreição e escatologia

Na teologia de Paulo a ressurreição de Cristo é a primeira de uma série, o Cristo ressuscitado é a “primícias dos mortos”, isto é Cristo ressuscitou primeiro, depois todos os outros também serão ressuscitados por Deus.

A ressurreição de Cristo abre o drama escatológico, ele é introduzido ao céu primeiro para ser Juiz e Salvador (1 Ts 1.10); o processo continuará necessariamente com a ressurreição dos mortos, Deus ressuscitou Cristo, essa mesma vontade necessariamente ressuscitará todos aqueles que lhe pertencem. A união entre a ressurreição de Cristo e a dos mortos se dá em

virtude dos princípios da escatologia, a vontade divina que movimentou esta organização escatológica.

Além do evento da ressurreição dos mortos, Paulo liga a ressurreição de cristo a outro evento escatológico, a glória. A noção de glória está diretamente relacionada a manifestação divina dos últimos dias.

No capitulo 15 da primeira Epistola aos coríntios quando o apostolo se refere simultaneamente a ressurreição de Cristo e a dos mortos, ele insiste na glória essencial à ressurreição. Cristo ressuscitado participa da gloria que pertence essencialmente ao Pai.

2 – A ressurreição de Cristo, princípio de nossa ressurreição futura

É possível ver, como já citado, que a ressurreição de Cristo e a ressurreição dos mortos não está ligada apenas por uma ordem da vontade divina, mas ressurreição de Cristo também esta como causa intrínseca da ressurreição futura dos mortos. No lugar de colocar o foco da ressurreição no futuro escatológico, o ponto de referência está no fato passado.

É aqui que está a linha divisória dos dois sistemas escatológicos; um tem como centro de seu interesse a parusia; o outro, a ressurreição de Cristo e com ela a realidade cristã atual, presente, é o centro do interesse, o objeto essencial da fé.

Estes dois sistemas fazem parte de um pensamento único, eles se reclamam mutualmente.

A nossa ressurreição futura como causa da ressurreição de Cristo é vista na argumentação de Paulo em 1ª Coríntios 15. Por um homem veio à morte e por um homem há a ressurreição dos mortos. Cristo é o novo Adão, o chefe da nova linhagem, não apenas na ordem da vontade divina, mas, também na ordem das relações de causa e efeito. Se Cristo ressuscitou então nós ressuscitaremos.

3 – A eficiência atual da ressurreição de Cristo

Se a ressureição de Cristo é causa intrínseca de nossa própria ressurreição, então é natural que isso exerça sua eficiência deste agora.

Paulo fala de uma nova vida em Cristo que não necessariamente se refere ao um futuro escatológico, mas ao presente. Esta nova vida é reflexo da vida de Cristo e é um reflexo da ressurreição de Cristo mesmo que não se pense nisso de maneira explicita.

“O poder da vida espiritual que age desde agora em Cristo realiza-se em nossa santificação, à espera de realizar-se plenamente em nossa ressurreição”. Nosso corpo está unido a Cristo como um membro esta ligado ao corpo e um pecado contra nossa carne é um sacrilégio contra Cristo e contra o Espírito (1 Co 6.12-20).

“A glória da ressurreição nos é dada desde agora”. Pelo fato de estarmos em Cristo e olhando para Cristo iremos refletir sua glória. Esta glória não é apenas criada como foi com Moises no Antigo Testamento, mas glória de Deus permanente eterna, comunicada a nossos corpos. Esta glória não é visível, mas tão real como se fosse (2 Co 3.7-18).

Esta “antecipação” da ressurreição ou da presença da vida de Cristo em nós não anula a necessidade da ressureição futura. O homem é um viajante a caminho do reino, nem mais, nem menos.

“Seria sedutor construir logicamente, tomando a ressurreição como ponto de partida, uma síntese que colocasse toda a realidade cristã, santificação, justificação, vida mística, Igreja, corpo de Cristo etc.”.

Paulo não desenvolve tão logicamente seu pensamento. “Para lhe ser fiel, temos de parar em determinados momentos o trabalho construtivo. Será preciso voltar à oficina para aprender a manejar os materiais como o próprio Paulo os manejou”.

Conclusão

Por tanto se pode compreender que Paulo de fato tinha a mesma fé que a comunidade primeva e participava das mesmas características dos apóstolos para testemunhar da ressurreição de Cristo, seja com testemunho humano, pois Paulo viu a Cristo, seja pelo Espírito, pois com poder também testemunhava.

A fé de Paulo pode ser inserida na comunidade primeva, porém com o um acréscimo, a sua própria experiência.

A noção de ressureição para Paulo pode ser bem entendida pelo menos em dois aspectos, os vocábulos por ele usado e uma noção da ressureição corporal e espiritual. Paulo insiste no aspecto espiritual da ressureição pressionado pelo seu contexto, judeu e principalmente grego. Cristo não apenas ressuscitou em corpo, mas foi glorificado e está agora ao lado de Deus e participando de sua glória.

Teologicamente Paulo relaciona a ressureição de Cristo à ressurreição dos mortos. Ele trabalha um sistema soteriológico que podemos entender em dois aspectos: (1) a ressurreição como um evento absoluto, como uma relevância no fato passado e (2) a ressurreição como fundamento da parusia. Este dois aspectos se completam.

Para Paulo a ressurreição tem efeito passado, a glorificação do Filho, presente a nossa nova vida em Cristo e futuro a ressurreição dos mortos e vindos de Cristo em glória.

Paulo não desenvolve tão logicamente seu pensamento. “Para lhe ser fiel, temos de parar em determinados momentos o trabalho construtivo. Será preciso voltar à oficina para aprender a manejar os materiais como o próprio Paulo os manejou”.