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Curso de Formação em Arteterapia - Cláudia Brasil Ateliê

Interpretação simbólica do mito Antígona


janeiro/2018

Sandra Pinto

"Os mitos, afinal de contas, são histórias que


contamos repetidamente e não podemos
esquecer. Eles exercem grande influência
sobre nossa vida e têm também uma vida
própria, rica e duradoura. Quando ouvimos
descobrimos que eles podem conduzir-nos a
um maior autoconhecimento e até a uma
transformação e nós mesmos."

James P Carse

Antígona de Sófocles - síntese da tragédia

Antígona é filha de Édipo e Jocasta e teve como irmãos Ismene, Etéocles e


Polinice. Édipo, após descobrir que estava casado com sua mãe perfura os próprios olhos
e parte para o exílio na companhia de sua fiel filha "irmã" Antígona.

Ao chegarem a Colono, na Ática, Édipo morre e Antígona regressa a Tebas,


onde uma nova tragédia espreita os descendentes do rei Lábdaco.

Com o banimento de Édipo o reino de Tebas ficou a cargo dos seus filhos,
Etéocles e Polinice que acordaram reinar a cidade em anos alternados. Coube a Etéocles
governar o primeiro ano, mas ao fim do período recusou-se a entregar o governo ao irmão.
Tem início uma grande guerra entre Etéocles e Polinice, e seus respectivos seguidores.
Após muito derramamento de sangue os irmãos resolvem lutar entre si e matam um ao
outro.
Creonte, irmão de Jocasta, assumiu o governo de Tebas. Por considerar
Polinice um traidor decretou a proibição dos ritos fúnebres ao sobrinho conferindo pena de
morte a quem o desobedecesse.

Antígona, inconformada, ergue-se a favor do respeito às leis divinas.


Desobedece a ordem do tio e futuro sogro, e derrama terra sobre o irmão morto libertando
sua alma em sua passagem para o Tártaro.

Em represália Creonte ordena que Antígona seja enterrada viva, dentro de


uma gruta sem comida e água. Seu noivo Hêmon, filho de Creonte, se mata. Eurídice mãe
de Hêmon ao saber da morte do filho também comete suicídio.

Diante do desfecho trágico Creonte adquire consciência sobre seus atos e


retira-se ao seu palácio.
Repercussão do mito

441 ac. Acrópole. Atenienses reunidos assistem, pela primeira vez, a


encenação do mito de Antígona. Qual terá sido o impacto do texto nos conterrâneos de
Sófocles? Ao expressar em suas tragédias questões sobre a dor e o sofrimento humanos,
Sófocles ajudava a moldar o cidadão da polis sobre a obediência às leis e à construção da
democracia.
"Sófocles propõe normas que comporiam o homem ideal para a polis
democrática. E, em um exercício premeditado, no uso da razão, coloca o respeito e a
obediência como características fundamentais na educação do homem da polis."
(CZADOTZ, p.13)

Em 1580, Robert Garnier escreve uma peça baseada no mito com o título
Antigone ou La Piété (Antígona ou a piedade). Nesse momento a dedicação familiar é
enaltecida.

No século XX, em 1922, Jean Cocteau, anarquista convicto, encena Antígona


conferindo-lhe um viés transgressor. Tem como colaboradores Picasso e Artaud, dentre
outros. Reduz o texto de Sófocles pela metade e apresenta aos parisienses uma Antígona
provocadora. Em carta datada de 1926 a Jacques Maritain confessa: "O instinto me
empurra sempre contra a lei. Essa é a razão secreta pela qual traduzi Antígona".

Vinte anos mais tarde Antígona sofre uma releitura e ganha um caráter
nacionalista, bem ao gosto da juventude do marechal Pétain. Em 1941, León Chancerel
apresentou o mito ressaltando os valores da "Revolução Nacional" e o público
compreendeu que a filha de Édipo encarnava os valores contra o invasor nazista. Três
anos depois Anouilh cria uma nova peça onde os valores de Creonte são ressaltados
justificando as atitudes de Petáin e o regime de Vichy. Mas a força do mito se revelou e os
espectadores só tiveram olhos para Antígona e sua resistência.

A partir da segunda Guerra Mundial a tragédia ateniense foi remontada por


grandes e pequenas companhias teatrais, apresentada nos grandes centros urbanos e em
pequenas cidades, em universidades, enfim, pelo mundo afora. Há centenas de versões da
peça. Filósofos, juristas, artistas plásticos, autores, psicólogos, pensadores nas mais
diversas esferas revisitam o mito conduzindo-nos a uma reflexão sobre a transgressão, a
fraternidade e o amor.

Antígona e o arquétipo da fraternidade

O termo fatria, usado na Grécia antiga designava cada um dos grupos em


que se subdividiam as tribos atenienses.

Na tragédia de Sófocles a fraternidade nos é apresentada em seus opostos:


luz e sombra. De um lado a rivalidade entre Polinice e Etéocles, de outro o amor de
Antígona por Polinice. Emoções antagônicas girando a roda da fortuna em direções
opostas.
Em defesa do valor fraterno nos diz Antígona:
"Fosse eu casada e meu esposo falecesse, bem poderia encontrar outro, e
de outro esposo teria um filho se antes eu perdesse algum; mas, morta minha
mãe, morto meu pai, jamais outro irmão viria ao mundo". (Barcellos, p.30)

Segundo Barcellos a função fraternal em nossas vidas, faz parte da atividade


mitologizante da pisque. O relacionamento com o irmão constrói a fundação emocional
para os relacionamentos horizontais de intimidade que estabelecemos na vida adulta. É
com eles que aprendemos a nos relacionar.

Em sua análise do arquétipo do irmão Barcellos utiliza a Astrologia como


elemento simbólico para a compreensão das relações de paridade. O elemento Ar
presente nas casas de relacionamento nos remete ao caminho paradoxal das experiências
humanas com o outro.

Interessante ressaltar que no diálogo entre Creonte e um guarda é um sopro


de vento (Ar), uma celeste turbulência que irá revelar a transgressão cometida por
Antígona.
"Creonte
E como a viram e pilharam em delito?
Guarda
O fato aconteceu assim: quando voltamos, com aquelas tuas ameaças
horrorosas pesando sobre nós, tiramos toda a terra que recobria o corpo e
cuidadosamente despimos o cadáver meio decomposto; então nós nos
sentamos no alto da colina tendo a favor o vento para que o fedor não viesse
contra nós. Estava cada um bem acordado e se esforçava por manter alerta o
seu vizinho com descomposturas se alguém se descuidasse da tarefa dura.
Assim passou o tempo até que o sol brilhante chegou a meio céu em sua
caminhada e começou a nos queimar com seu calor; nesse momento um
vento repentino e forte soprou em turbilhão - celeste turbulência - pela
campina toda, desfolhando as árvores das redondezas. O ar em volta
escureceu e para suportar o flagelo divino tivemos de fechar os olhos. Ao
cessar aquilo, muito tempo após, vimos a moça; ela gritava agudamente,
como um pássaro amargurado ao ver deserto o caro ninho, sem suas crias.
Ela, vendo o corpo nu, gemendo proferiu terríveis maldições contra quem
cometera a ação; amontoou com as mãos, de novo, a terra seca e
levantando um gracioso jarro brônzeo derramou sobre o cadáver abundante
libação".

Gêmeos, terceira casa zodiacal, representa o irmão propriamente dito. O


modo como vivenciamos o relacionamento com o irmão vai repercutir na forma como
iremos lidar com nossas parcerias representadas por Libra, a sétima casa. Relações de
mutualidade e reciprocidade. As parcerias com as quais podemos dividir nossos anseios.

Após passar por Libra o sol, em seu caminho zodiacal, entra no signo de
Aquário instalando-se na décima primeira casa. Aqui vivenciamos a expressão dos nossos
encontros com os iguais. É a casa dos grupos, das organizações, das associações, dos
amigos. O lugar de pertencimento dos camaradas, dos iguais.

Ao defender um enterro honroso para o irmão Antígona defende o respeito às


leis divinas, à ancestralidade e aos valores femininos. Defende o que lhe é igual.
Antígona transgressora

Etimologicamente Antígona significa: anti = diante de + goné = nascimento ou


origem. Aquela que se coloca adiante de sua família ou do meio em que vive.

Ao insubordinar-se às leis dos homens transgride a ordem vigente patriarcal


representada por Creonte, certa de sua posição de defensora das leis divinas que eram
anteriores às leis criadas na terra.

Ao manter a pena de morte de sua futura nora, Creonte na verdade está


tentando manter seu poder. Em sua justificativa para o filho Hêmon, argumenta:

"Aquele que na própria casa é cumpridor de seus deveres, mostrar-se-á


também correto em relação ao seu país. Se alguém transgride as leis e as
violenta, ou julga ser capaz de as impingir aos detentores do poder, não
ouvirá em tempo algum meus elogios; muito ao contrário, aquele que entre
os homens todos for escohlido por seu povo, dever ser obedecido em tudo,
nas pequenas coisas, nas coisas justas e nas que lhe são opostas. Estou
seguro de que esse homem obediente será bom governante como foi bom
súdito e na tormenta das batalhas ficará firme no posto, agindo como
companheiro bravo e leal. Mas a anarquia é o mal pior; é perdição para a
cidade faz desertos onde existiam lares; ela é causadora de defecções entre
as fileiras aliadas, levando-as à derrota. A submissão, porém, é a salvação da
maioria bem mandada. Devemos apoiar, portanto, a boa ordem, não
permitindo que nos vença uma mulher. Se fosse inevitável, mal menor seria
cair vencido por um homem, escapando à triste fama de mais fraco que as
mulheres!" . Sófocles (750).

O paradoxo em Antígona é que ao mesmo tempo em que ela defende o


antigo, ou seja, a manutenção das leis familiares e divinas contra as novas leis da Cidade-
Estado, transgride a ordem vigente valorizando o feminino trazendo uma nova visão.

Creonte, por outro lado, ao cumprir as leis civis, em detrimento das leis da
tradição, tem como resultado a destruição da sua própria família, que se encerra com a
morte de seu filho e sua mulher. Ao final compreende que lhe faltou a prudência.

CORO - acompanhando a lenta retirada de Creonte.

“ Destaca-se a prudência sobremodo como a primeira condição para a


felicidade. Não se deve ofender os deuses em nada. A desmedida empáfia
nas palavras reverte em desmedidos golpes contra os soberbos que, já na
velhice, aprendem afinal prudência." (Sófocles, 1485).
Antígona e as ordens do amor

A casa real de Tebas tinha um passado sombrio que iniciou mesmo antes de
Édipo. A família foi atormentada por várias maldições, simbolizando a família disfuncional e
desestruturada.

Antígona surge como redentora. Com seu poder de amar foi capaz de vencer
uma herança psicológica de destrutividade; ela redimiu o passado e conseguiu escrever
um novo futuro aos descendentes de Lábdaco.
"O poder do amor humano na família é capaz de resistir até a uma herança
psicológica de grande destrutividade, redimindo o passado e refazendo o
futuro." (Greene, p.37)

A forte personalidade de Antígona, sua altivez e segurança certamente vem


da consciência de sua missão. Hellinger nos fala sobre o sentimento de predestinação
pessoal, de vocação ou missão.
"Isso toca bem profundamente o cerne da pessoa e está além da
consciência. Quem está em harmonia com isso sente-se em paz."
(Hellinger, p. 49)

Essa paz é transmitida na tragédia de Sófocles quando Antígona aceita de


bom grado a morte infame. Vem da certeza de estar cumprindo a sua missão para com o
seu clã. Ao lutar pelo respeito às leis divinas que foram transgredidas por seus
antepassados ela restabelece a ordem de sua família. É quando se dá sua káthasis
(purificação).
Antígona
" Nasci para compartilhar amor, não ódio". Sófocles (595)

Conclusão

Ao buscar em si mesmo as respostas para seus anseios e dúvidas o homem


contemporâneo depara-se com suas fragilidades e encontra no "homem trágico" a
possibilidade de compreender-se por meio dessas tragédias.

As personagens dessas tragédias saltaram dos textos e transformaram-se em


mitos que nos influencia, quer tenhamos consciência de suas presenças ou não.

As diversas encenações de Antígona ao longo dos séculos demonstra-nos


essa influência. A força dos arquétipos revelados nessa tragédia inseriu-se na memória da
humanidade elevando a consciência de diversas gerações.

Fraternidade, transgressão às normas vigentes, valorização do feminino,


consciência da nossa missão única e o restabelecimento das ordens de amor familiares
são alguns alguns dos legados de Antígona que podem manifestar-se em nossas histórias
pessoais.
Referências

SÓFOCLES. Antígona. Rio de Janeiro: Zahar, 1989 [Tradução de Mário da Gama Kury].
Kindle.

Bibliografia

BARCELLOS, Gustavo - O irmão: psicologia do arquétipo fraterno. Petrópolis: Vozes,


2010.
BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário Mítico-Etimológico. Petrópolis: Vozes, 2014
BRUNEL, Pierre. Dicionário de mitos literários. Rio de Janeiro: Ed José Olympo Ltda,
2000. [Tradução de Carlos Sussekind et al]
CZADOTZ, Regina Celia Rampazzo e MELO, José Joaquim Pereira. Para além do mito a
razão: uma análise da trilogia tebana de Sófocles. Anais da Jornada de Estudos Antigos e
Medievais. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2013
GREENE, Liz e SHARMAN-BURKE, Juliet - Uma viagem através dos mitos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
HELLINGER, Bert. Constelações familiares - o reconhecimento das ordens do amor. São
Paulo: Cultrix, 2007. [Tradução de Eloisa Giancoli Tironi e Tsuyuko Jinno-Spelter]

Sites de pesquisa

http://eventosmitologiagrega.blogspot.com.br/2011/09/antigona-e-creonte-
aprendendo-com.html em 29/01/2018