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Universidade Federal da Grande Dourados

Revista EaD &


tecnologias digitais na educação

Glossário de Libras: caminhos para construção


de instrumento de coleta de dados
Rosana de Fátima Janes Constâncio1, UFGD
Ana Paula Oliveira e Fernandes2, UFGD
Eliane Francisca Alves da Silva Ochiuto3, UFGD
Gabriele Cristine Rech4, UEMS

Resumo: O projeto aqui apresentado tem como premissa investigar, coletar, di-
vulgar e propagar os sinais dos principais lugares públicos e pontos turísticos
para viabilizar e socializar não somente a comunidade surda usuária da Libras,
mas possibilitar a propagação a toda população da Grande Dourados os sinais
específicos destes locais garantindo ao surdo o acesso e acessibilidade. Para a
elaboração do glossário a proposta inicial foi de realizar uma pesquisa envol-
vendo a participação em formato de questionário aos tradutores intérpretes de
língua de sinais, surdos usuários da Libras a fim de identificar os possíveis sinais
já existentes, bem como o estudo e a criação de sinais que identifiquem tais
pontos. A produção deste glossário corrobora para a criação e difusão de toda
a história dos principais lugares públicos e pontos turísticos disseminando a cul-
tura local e possibilitando o uso e a difusão da Libras conforme previsto na Lei
de Libras.
Palavras-chave: Glossário, Lugares Públicos, Comunidade Surda.

1
Mestre em Educação pelo Centro Universitário Moura Lacerda (CUML). Docente e coordenadora do
curso de licenciatura Letras Libras da Faculdade a Distância da Universidade Federal da Grande Dourados
(EaD/UFGD). Membro do grupo de Pesquisa GELES.
2
Mestre em Linguística pela PPG/UFGD. Docente do curso de licenciatura Letras Libras da Faculdade a
Distância da Universidade Federal da Grande Dourados (EaD/UFGD). Coordenadora Adjunta
UAB/EaD/UFGD.
3
Mestre em Letras- Estudos Linguísticos, pelo PPG/UFMS/ CPTL-. Docente do curso de licenciatura Letras
Libras da Faculdade a Distância da Universidade Federal da Grande Dourados.
4
Mestre em linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Docente da Universidade
Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), da disciplina de Libras nos cursos de pedagogia e licenciatura em
matemática, química, física, ciências biológicas, enfermagem, letras/inglês e letras/espanhol.

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1. Introdução
O reconhecimento da Libras como meio legal de comunicação e expressão possi-
bilitou uma comunicação efetiva para oriundos de comunidade surda e seus usuários no
ano de 2002 através da Lei Federal nº 10.436/02. No ano de 2005 o Decreto nº 5626/05
regulamentou esta Lei garantindo assim o uso e difusão da mesma.
Diante dos fatos, várias ações em todo território nacional, estão sendo construí-
das no sentido de coletar, registrar e disponibilizar para os usuários da Libras os sinais
existentes e utilizados para designar diversas categorias. O projeto aqui apresentado
caminha nesta direção. Tendo como recorte geográfico a cidade de Dourados, tendo
como objetivos: 1) investigar os sinais já utilizados pela comunidade surda local para
nomear os principais locais públicos, pontos turísticos e as cidades próximas; 2) criar,
juntamente com os surdos informantes, sinais inexistentes para algumas localizações; 3)
registrar por meio de um glossário os sinais coletados/criados e 4) disponibilizar o glos-
sário de forma on-line.
Registramos inicialmente o resultado apenas de um dos objetivos que é o da co-
leta de dados, pois o presente artigo apresenta os dados de um projeto que está em
andamento e que constatou a necessidade de criação de um instrumento padronizado
para esta coleta.
O referido projeto surgiu através de conversas informais entre os professores da
Faculdade de Educação a Distância da UFGD (Universidade Federal da Grande Doura-
dos), e da UEMS (Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul), que apontaram preo-
cupação do registro dos sinais da região como instrumento de preservação, valorização
e conhecimento da Língua Brasileira de Sinais. Segundo Souza Júnior:

A ação de nomear um lugar projeta a visão de mundo de uma


comunidade e revela traços naturais ou culturais a ela pertencen-
tes. Desse modo, a nomeação dos lugares e do nome das pessoas
dada pelo ser humano comporta aspectos relevantes a serem
considerados nos estudos da linguagem. (2015, p. 211):

O glossário viabilizará vencer as barreiras de comunicação que é um dos entraves


linguísticos na comunicação entre surdos e ouvintes. A elaboração do glossário não se
restringe apenas a criar novos sinais, mas possibilitar a imersão na cultura local, na valo-
rização do sujeito surdo em sua especificidade linguística, na criação de um portal que
de fato garanta a acessibilidade conforme preconiza a Lei nº 13.146/15, no artigo 3º,
item III.

Tecnologia assistiva ou ajuda técnica: produtos, equipamentos,


dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e servi-
ços que objetivem promover a funcionalidade, relativa à ativida-
de e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade
reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de
vida e inclusão social. (BRASIL, 2015)

Após algumas reuniões, a equipe decidiu que iniciaria a coleta dos sinais da cate-
goria “FACULDADES/UNIVERSIDADES” e “SUPERMERCADOS”. A escolha dessas categori-
as para iniciar o projeto deu-se em virtude da hipótese da existência de muitos sinais

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para designar os locais, sendo mais fácil testar o instrumento elaborado pelas pesquisa-
doras, conforme descreveremos abaixo.
A hipótese inicial era de registrar os sinais dos locais apresentados para a comu-
nidade surda, mas durante a aplicação do instrumento de pesquisa, foi possível consta-
tar certa dificuldade para compreender a forma que estava sendo aplicado por parte dos
participantes quando apresentamos os locais referentes à categoria supermercados.
Assim, justifica-se a importância do presente projeto de pesquisa, por esse – o
glossário- vir a ser um meio de corroborar com mudanças de paradigmas e dissipar es-
tigmas fortemente arraigados em uma cultura que preconiza a perfeição como meio de
valorização do ser humano, pois esta iniciativa atenderá surdos e ouvintes, pesquisado-
res, tradutores e intérpretes de Libras, comunidade leiga e profissional, viabilizando a
comunicação favorecendo a inclusão.

Metodologia
Após a decisão das categorias a serem analisadas, o próximo passo foi a elabora-
ção do instrumento de coleta de dados a ser adotado. Devido a carência de publicações
na área, não foi possível localizar instrumentos de coletas de dados em pesquisas seme-
lhantes para servir de modelo e base para nortear o trabalho proposto, assim, através
de discussões em grupo, decidimos elaborar um instrumento para a coleta dos dados,
como teste.
Num primeiro momento, foi feito uma relação das faculdades/universidades e
dos supermercados mais conhecidos da cidade. A segunda etapa constituiu em verificar
os sinais já conhecidos pelas pesquisadoras para designar cada local e pôr fim a elabora-
ção do instrumento em si.
Foi decidido que as pesquisadoras surdas fariam as filmagens dos sinais já conhe-
cidos, que seriam apresentados aos entrevistados, que por sua vez, após assistirem cada
vídeo, marcariam um (x) no “sim”, caso conhecessem o sinal apresentado e um (x) o
não, caso “não” conhecessem o sinal apresentado. O questionário estava estruturado
levando em conta os nomes e logomarcas das empresas, conforme figura a seguir:

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Figura 1 – modelo de questionário elaborado para respostas sobre os sinais

Cientes que, em diversos momentos, a comunidade surda utiliza do alfabeto ma-


nual para designar vocábulos que ainda não possuem sinais, foi decidido que, para cada
vocábulo dos locais pesquisados, seria apresentado primeiro o nome soletrado (Letra A
quando o vocábulo tem mais de um sinal) e após, o(s) sinai(s) conhecidos para que os
informantes assinalassem o(s) que era (m) conhecido(s) por eles. Apresentamos, como
exemplo, as opções de sinais para representar o vocábulo ABEVE, um grande supermer-
cado da cidade.

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Soletração de ABEVE Sinal ABEVE (1)

Sinal ABEVE (2)

Figura 2 - sinais utilizados para conhecimento e resposta ao questionário

Após a confecção do instrumento de pesquisa, foi elaborado um cartão que foi


entregue para diversos surdos da cidade, convidando-os para a reunião presencial, que
aconteceria nas dependências da Faculdade de Educação a Distância e da Universidade
Federal Mato Grosso do Sul. A escolha do local deu-se pela centralidade do prédio, de
fácil acesso.
Importante ressaltar que ficou decidido, que num primeiro momento, os entre-
vistados seriam todos surdos, por serem usuários nativos da língua. Mediante autoriza-
ção escrita de todos os entrevistados, a reunião toda foi filmada, procurando registrar
todos os momentos de discussões. Os equipamentos utilizados, para coletar e registrar
os sinais, num primeiro momento, são os de uso pessoal das pesquisadoras.
Compareceram a primeira reunião dezessete surdos (as), sendo nove mulheres e
oito homens, na faixa etária dos dezenove aos quarenta e quatro anos que na sua maio-
ria residem em Dourados há mais de dez anos.
Logo após a apresentação detalhada de toda pesquisa, os entrevistados preen-
cheram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, os vídeos foram apresentados
com as imagens alvo da pesquisa no momento e a coleta das informações objetivadas
neste projeto possibilitou diagnosticar quais sinais são utilizados pelos surdos douraden-
ses para estes respectivos locais apresentados.
A cada vídeo, a pesquisadora surda perguntava “VOCÊ CONHECER? (Apontar para
o sinal exibido no vídeo). Os entrevistados, em alguns momentos apenas respondiam e
em muitos discutiam os sinais apresentados. Entretanto, uma questão nos chamou
atenção: Os entrevistados estavam relacionando o “CONHECER” no sentido de apenas
conhecer o lugar, ou estavam atribuindo ao “CONHECER” o sentido de conhecer o sinal e
utilizá-lo?
Intuitivamente, durante a aplicação da segunda parte do “questionário”, as pes-
quisadoras perceberam que poderiam estar confundindo os entrevistados com o uso do
termo “CONHECER”, e começaram a utilizar a seguinte sentença para coletar os dados

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desejados: ‘VOCÊ USAR SINAL? OU SOLETRAÇÃO/DATILOLOGIA? (Apontava para o sinal


exibido no vídeo).
Após a coleta, o próximo passo foi a analisar os dados obtidos. As análises dos
dados coletados serão realizadas em triangulação, comparando-se dados e informações
obtidas nas mencionadas fontes, relacionando-as com o referencial teórico e as ques-
tões de pesquisa (TRIVINOS, 1987). Na análise, processaremos e armazenaremos todas
as informações observadas, ouvidas e lidas para depois tentar atribuir-lhes significado,
buscando uma representação mental significativa de acontecimentos reais e eventos
discursivos, a partir de um conhecimento mais geral a respeito de acontecimentos e
ações comuns com as quais tínhamos envolvimento direto, antes do início da pesquisa.
Além da identificação dos sinais utilizados pelos sujeitos surdos para serem regis-
trados e inseridos no glossário que será construído, foi realizada a análise das respostas
para verificar se a questão de a mudança do termo “CONHECER” para “USAR”, teve in-
fluência nos resultados e decidir, caso positivo, o procedimento para averiguar dados
mais “puros”.
A detecção de que o vocábulo poderia estar sendo compreendido de forma dife-
rente da desejada pelas pesquisadoras aconteceu quando a pesquisa já estava analisan-
do os sinais da categoria “supermercado”, especificamente o sinal referente ao super-
mercado “Atacadão”. Abaixo o quadro que compila todos os dados:
:

Figura 3 - Respostas realizadas pelos surdos

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Conforme exposto acima, quando os vocábulos apresentam mais de uma suges-


tão de sinal, a letra A foi destinada a designação dos sinais que foram feitos com o em-
préstimo do alfabeto manual. Neste sentido, é notório que até o sinal do vocábulo “Ata-
cadão”, praticamente todas as letras A tem grande incidência de sinalização positiva
para o “conhecimento” do que foi apresentado no vídeo. A partir do supermercado
“Chama” percebe-se uma diminuição na frequência das sinalizações pelo “USO” do ter-
mo apresentado no vídeo.

Resultados e discussão
O glossário tem sido considerado um recurso relevante para a sociedade como
estratégia de adquirir conhecimento de mundo, ampliando o vocabulário da língua em
uso seja ela oral/auditiva ou em Língua de Sinais.
A partir das primeiras experiências vivenciadas na aplicação da coleta de dados, e
do contato com a comunidade surda participante do projeto, e discussões plausíveis a
respeito dos sinais referentes às categorias UNIVERSIDADES/FACULDADES e SUPERMER-
CADOS, observamos pontos importantes para enfatizar a relevância do projeto, tais co-
mo:
- O mesmo contribuirá para registrar e disseminar a cultura local possibilitando
ao surdo conhecer e assimilar os sinais aos locais;
- Possibilitará aos ouvintes aprender os sinais específicos dos locais a fim de que
possam se apropriar de uma língua e cultura com singularidades e especificidades pró-
prias do jeito de ser e de compreender o mundo surdo.
- Ampliar o campo de aquisição de língua de sinais por parte dos pesquisadores
como também dos participantes do mesmo, como forma de fortalecer a língua enrique-
cendo os discursos com sinais que respeite a cultura local.
- Por ser projeto pioneiro na região da Grande Dourados, no que se diz respeito à
língua de sinais, buscando um estudo sistemático dos signos linguísticos referente aos
pontos turísticos, bem como no seu registro, permitirá que a comunidade surda doura-
dense e região tenha sua cultura preservada por meio do registro da Libras no Glossário
especifico para a região.
Diante das primeiras experiências e das observações positivas em relação ao pro-
jeto, também pudemos repensar nossa estratégia de aplicação do instrumento de coleta
de dados, a partir do momento que identificamos uma falha no questionamento de que
os participantes conheciam o sinal realizado pela pesquisadora surda. Portanto, após
discussões pós encontro com a comunidade surda, que faz parte da pesquisa, decidimos
modificar a estratégia de aplicação dos questionários para a coleta de dados, ficando
assim, que para próximos encontros ,e ainda em fase de teste, não mais apresentaría-
mos os sinais das categorias que vierem a serem pesquisadas os sinais, mas sim apresen-
taremos os nomes e imagens, e os surdos fariam os sinais que conhecem e enumerare-
mos os mesmos, assim os demais assinalará aquele o qual faz uso diariamente.
Enfim, com todas as discussões, pretende-se, além da sistematização e das pro-
duções científicas/bibliográficas que serão elaboradas, contribuir para o ensino da língua
de sinais tanto nos cursos de Libras oferecidos, ou seja, ensino de Libras como segunda
língua, quanto no ensino das crianças surdas em sala de aula, onde aprendem Língua de
Sinais como primeira língua, pois o glossário, poderá ser acessado e explorado em am-
bos os casos.

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Referências
BRASIL. Lei Nº. 10.436 de 20 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais.
Brasília: Presidência da República, Casa Civil, 2002.
BRASIL. Decreto Nº. 5.626 de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436/02.
Brasília: Presidência da República, Casa Civil, 2005.
BRASIL. Lei nº 13.146 de 06 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com
Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília: Presidência da República, Casa
Civil, 2015.
SOUZA-JÚNIOR, J. E. G de. Estudos introdutórios da Toponímia da Língua de Sinais Brasi-
leira – LSB In: BRUNO, M. M. G; OLIVEIRA, O. V; Organizadoras. Educação escolar indíge-
na, diferença e deficiência: (re)pensando práticas pedagógicas. Campo Grande, MS: Ed.
UFMS, 2015.
TRIVIÑOS, A. S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: A pesquisa qualitativa em
educação. São Paulo: Atlas, 1987.

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