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ARTE VIVA

autor:
ALBERTO DE ABREU
Uma das maiores revelações, nos últimos
tempos, da dramaturgia brasileira. Escre-
veu dois grandes sucessos de público e
crítica: "FOI BOM. MEU BEM?" e "CALA
BOCA JA MORREU", montados pelo
GRUPO MAMBEMBE. Recebeu o prémio
APCA, categoria revelação, pelo texto
"FOI BOM, MEU BEM?"

O processo de trabalho de "Bella Ciao" iniciou-se no final de 1980 quando a classe traba-
lhadora, depois de anos de silêncio forçado, solidificava sua posição dentro do espaço políti-
co nacional. E sentimos a necessidade de tentarmos aproximar a nossa arte da realidade que
palpitava nas ruas.
A ideia de realizarmos um trabalho teatral sobre os trabalhadores foi lançado então pelo
diretor e cenógrafo Ednaldo Freire e logo ganhou corpo nas discussões, nas leituras, nos pri-
meiros esboços do texto e, principalmente, nas conversas e entrevistas com antigos sindica-
listas, principalmente da região do ABC.
Pensávamos inicialmente em tratarmos no texto dos últimos anos do movimento operá-
rio mas a própria pesquisa nos acenou com a necessidade de, para entendermos o momento
presente, nos reportarmos aos primórdios da formação do movimento operário. E fomos des-
cobrindo na prática o que intuíamos na teoria: a nossa história é extremamente fecunda e a
memória nacional, que muitos afirmam ser inexistente, permanece viva e recheada de lições.
O texto "Bella Ciao" resultou incompleto em agosto de 81 e suas pesquisas e discussões
foram retomadas juntamente com Calixto de Inhamuns em fevereiro deste ano, sendo que
sua redação final aconteceu em princípios de junho.
Essa montagem marca também o feliz reencontro com o diretor Roberto Vignatti que em
princípios da década de 70 ministrou curso e dirigiu "Tempo dos Inocentes e Tempo dos Cul-
pados" com o Grupo de Teatro Amador Doces e Salgados, de São Bernardo do Campo, do
qual eu era integrante. Devo em grande parte ao trabalho desenvolvido por Roberto Vignatti
durante quase dois anos no ABC, a minha paixão pelo teatro.
A todos que acompanharam e ajudaram nesses quase dois anos de trabalho, obrigado.

Luiz Alberto de Abreu


Em novembro de 81, "Cala a boca já morreu" confirmava um jovem autor como dos mais
inteligentes e originais surgidos nos últimos tempos. Revelação de 80 com a peça "Foi bom,
meu bem?", Alberto de Abreu procedia já na segunda obra a uma reflexão emocionado sobre
o Brasil das últimas décadas. Conseguia colocar em cena personagens da mais pura autentici-
dade, esboçando amplo painel que abrangia dos grandes burgueses aos tipos marginais da ci-
dade grande, à medida que acompanhava o itinerário sofrido do roceiro "João", que se torna-
va operário na São Paulo eufórica dos anos J/C... Não incidia no lugar-comum da heroicização
dos humildes, nem sequer perdia o fio do humor irresistível que conduzia as cenas, mesmo as
mais patéticas. Permeando o ritmo, a beleza e a clareza meridiana do espetáculo dirigido por
Ednaldo Freire, o "leit-motiv" da obra: a luta surda dos idealistas de todos os tempos, sinteti-
zada na figura quixotesca de um anarquista inesquecível: "Atílio Ronchetto".
"Bella Ciao" retoma o tema do idealismo através da saga de "Giovanni Baracheta", ele
também um anarquista cujo único compromisso é com a liberdade. Resultado da pesquisa se-
riíssima, varrendo 40 anos, de 1905 a 1945, o texto revela o reverso da medalha, que geralmen-
te nos é oferecida quando se narra a História. Nada de grandes heróis nem de lances assinala-
dos nos calendários como eventos importantes, mas o cotidiano do italiano "Baracheta" e sua
família, forçados pela miséria a imigrar para o Brasil no começo do século.
Sabemos da História em processo no país e no mundo através de seus reflexos na vida
dos protagonistas, e somente quando ela os afeta diretamente.
O autor filia-se à grande escola de Vianinha e Guarnieri, conseguindo construir um mundo
de paixão e de verdade a partir da observação fiel de seus semelhantes. A fábula miúda por ele
narrada insere-se na História naturalmente, nada havendo de forçado na intersecção de perso-
nagens fictícios e acontecimentos reais.
Se o tema retoma a saga já abordada pelo excelente "Os Imigrantes" do extinto Grupo de
Teatro de São Miguel Paulista, de outro lado aprofunda-se na compreensão das figuras cen-
trais, principalmente de "Giovanni Baracheta", que desde já se afirma como dos mais bem
construídos de nossa dramaturgia. "Baracheta" preenche os requisitos enunciados por Anatol
Rosenfeld em célebre ensaio sobre o herói popular: "o herói humilde proposto deveria ser um
indivíduo extremamente comum, por assim dizer e apesar disso sugerir virtualidades humanas
extraordinárias". Isto é, para Rosenfeld, o protagonista do drama brasileiro moderno, que se
filia à corrente de uma dramaturgia empenhada na humanização da sociedade, deveria ser ao
mesmo tempo "não herói e herói, o homem anónimo de nosso tempo, vítima das engrena-
gens, e o homem singular, capaz de sobrepor-se ao conformismo e ao peso morto da rotina,
parafuso e alavanca, rodinha e motor". "Sujeito e objeto", enfim. Exatamente como "Bara-
cheta", que não abre mão por um segundo sequer da fé numa liberdade possível, mesmo se
confessadamente derrotado pelos fatos. Mesmo sabendo que o jogo que joga tem as cartas
marcadas pelo adversário. É esse idealismo, representado por Baracheta, do movimento anar-
quista brasileiro, em boa hora redescoberto com verdadeira febre pelos artistas e estudiosos de
todas as áreas, que o texto de Alberto de Abreu tem o mérito de discutir no palco.
"Bella Ciao" alia o poder de síntese à densidade do significado, intuição emocionada à re-
flexão lúcida, veracidade dos acontecimentos à verossimilhança dos personagens. Alberto de
Abreu confirma sua inscrição no grupo restrito dos criadores iluminados que agitam em nosso
palco a bandeira da solidariedade irrestrita.

ILKA MARINHO ZANOTTO


diretor:
ROBERTO VIGNATTI

Foi produtor e diretor de um dos maiores sucessos de público e crítica do tea-


tro brasileiro nos últimos tempos: "BENT", de Martin Sherman. Tem em seu
currículo de diretor a montagem de espetáculos importantes no cenário teatral do
Brasil: "PENA QUE ELA SEJA UMA ?...", de John Ford; "ANTONICA DA SIL-
VA", de Joaquim Manoel de Macedo; "0 DUELO", de Bernardo Santareno; "A-
PENAS AMÉRICA", de vários autores latino americanos; "A LONGA JORNADA
NOITE ADENTRO", de Eugene 0'Neill. Adaptou e dirigiu para o teatro da TV Cul-
tura, várias peças, contos e romances. Atualmente é diretor da TV GLOBO, onde
dirigiu as novelas "PAI HERÓI", de Janete Clair, um dos maiores índices de au-
diência da Globo, e "CHEGA MAIS", de Carlos Eduardo Novaes, e dirigiu 13 es-
tórias da série "SÍTIO DO PICAPAU AMARELO".
Recebeu o prémio APCA, em 1981, pela direção do espetáculo "BENT", de
Martin Sherman.
Acontecimentos no período
1905-1946 1905 - deAfonso Pena eleito
presidente da República (2
março)
1918 — Rodrigues Alves,
presidente eleito d.o de
março)
1906 - Afonso Pena e Nilo 1919 — Morte de Rodrigues Alves
Peçanha assumem a (17 de janeiro)
presidência e vice- — Epitácio Pessoa é eleito
presidência da República presidente, vencendo a Rui
(15 de novembro) Barbosa (13 de abril)
1909 - Lançada a candidatura de 1920 — Intervenção federal na
Hermes da Fonseca à Bahia (fevereiro)
presidência da República — Ataques de Rui Barbosa a
(12 de maio) Epitácio Pessoa
Morte-de Afonso Pena (14 1921 — Questão das cartas de
de junho). Assume Nilo Artur Bernardes cria crise
Peçanha. política (junho a dezembro)
1910 - Hermes da Fonseca 1922 - Realização da "Semana de
derrota Rui Barbosa nas Arte Moderna" (fevereiro -
eleições presidenciais d.o São Paulo)
de março). Venceslau Brás — Eleito Artur Bernardes
eleito vice-presidente. presidente da República
"Revolta da Chibata" (1 .o de março)
(novembro) — Nilo Peçanha contesta a
Governo contém a revolta vitória de Bernardes (7 de
(10 de dezembro) março)
1911 - Conflitos em Recife — Levante da marinha,
(outubro) sufocado pelo governo
Conflitos armados no (abril)
Ceará (dezembro) — Ocupação de Recife por
1912 - Aurélio Viana renuncia ao tropas federais.
governo baiano, Sublevações em
substituído por Joaquim Pernambuco (maio)
Seabra (janeiro) — Hermes da Fonseca
Nogueira Accioly renuncia intervém na questão
ao governo cearense, pernambucana (junho)
sendo substituído por — Sublevação do Forte de
Boaventura Bastos Copacabana (5 de julho) e
(janeiro) da Escola Militar
Forças federais tentam — Sufocada a revolta.
repor Accioly no governo Hermes da Fonseca é
do Ceará (fevereiro) preso (julho)
Euclides Malta renuncia ao 1923 — Intervenção federal no Rio
governo de Alagoas de Janeiro
(março) — Batalhas de Vista Alegre,
Franco Rabelo eleito Santa Rosa, Poncho
presidente do Ceará (abril) Verde, Quaraí, São
O General Clodoaldo da Lourenço, Olhos D'Agua
Fonseca assume o governo (abril a outubro)
de Alagoas (julho) 1924 — Início do movimento
Força Pública do revolucionário em São
Amazonas depõe o Paulo (julho)
Governador Bittencourt — As tropas legalistas cercam
(dezembro) e bombardeiam a capital
1914 - Venceslau Brás eleito de São Paulo
presidente da República — Os rebeldes, comandados
(1 .o de março) por Isidoro Dias Lopes,
Hermes da Fonseca solicita retiram-se para Foz do
o estado de sítio para o Iguaçu (agosto e
Rio de Janeiro setembro)
1915 - Manifestações gaúchas — Prestes e Siqueira Campos
contra Hermes (julho) iniciam sublevação militar
Manifestações no Rio de no Rio Grande do Sul
Janeiro contra Hermes (outubro), unindo-se os
(julho) dois grupos revolucionários
Aprovado o Código Civil e formando a "Coluna
Brasileiro (dezembro) Prestes"
1916 - Venceslau Brás sanciona o — Revolta do encouraçado
Código Civil Brasileiro "São Paulo" (novembro)
(janeiro) 1925 - Confronto entre a Coluna
Eleições para o governo do Prestes e as tropas
Piauí (abril) federais na Serra do
Conflitos políticos em Medeiros (janeiro)
Mato Grosso (julho) — Ofensiva do Governo
Revolta da Força Pública contra a Coluna em
em Belém (dezembro) Catanduva (março)
— A Coluna penetra no — Revolucionários tomam — Vargas ordena o
Paraguai (abril), voltando Curitiba (outubro) fechamento da ANL (11 de
ao Brasil dias depois. — Washington Luiz é julho)
— Vitória da Coluna contra deposto da presidência (24 — Início da insurreição militar
tropas governistas em de outubro), partindo para da ANL em Natal (23 de
Ponta Porã (maio) o exterior (26 de outubro) novembro)
— A Coluna deixa Mato — Getúlio Vargas recebe o 1936 - Luís Carlos Prestes é preso
Grosso, dirigindo-se para poder da junta governativa (5 de março)
Goiás (outubro) (3 de novembro) — Julgamento de Luís Carlos
— A Coluna atinge a região — Lançada a Legião Prestes (agosto)
do Maranhão (novembro) Revolucionária, por Miguel — Criação do Tribunal de
1926 - A Coluna Prestes penetra Costa e João Alberto (12 Segurança Nacional
em Minas Gerais, de novembro) (setembro)
dirigindo-se para a Bahia — Nomeados os primeiros 1937 — João Mangabeira denuncia
(abril) interventores estaduais (15 violências policiais (julho)
— A Coluna atravessa o São de novembro) — Fundação da UNE (agosto)
Francisco penetrando em — Criação do Ministério do — Instalação do Estado Novo
Pernambuco (junho) Trabalho, com Lindolfo (10 de novembro)
— Lourenço Moreira Lima e Collor à sua frente (28 de — Intervenção federal em
Djalma Dutra vão ao novembro) todos os Estados, menos
Paraguai encontrar-se com — Instalado o Tribunal em Minas Gerais
Isidoro Dias Lopes Revolucionário (11 de (novembro)
(novembro) dezembro) 1938 — Tentativa de rebelião
— Posse de Washington Luiz 1931 - VII Congresso do Partido integralista contra o
na Presidência da Democrático (fevereiro) governo. Ataque ao
República (novembro) — Decreto sobre Palácio Guanabara (maio)
— Revolta contra a posse de sindicalização (março) 1940 — Getúlio pronuncia
Washington Luiz no Rio — Polícia invade sede do PD polémico discurso a bordo
Grande do Sul (novembro) em São Paulo. Vicente do "Minas Gerais",
1927 — São iniciadas conversações Rao é preso. 0 PD rompe contendo elogios ao
com a Bolívia para asilar com o interventor João fascismo (julho)
os membros da Coluna Alberto (abril) 1942 — Passeata-monstro
Prestes (fevereiro), o que — Comício da Legião promovida pela UNE,
aconteceria ainda neste Revolucionária em São contra o nazi-fascismo
mesmo mês Paulo (abril) (julho)
— Eleições no Rio Grande do — Motim da Força Pública 1943 — Passeata estudantil em
Sul (fevereiro) em São Paulo (abril) São Paulo reprimida pela
— Eleições em São Paulo — João Alberto substituído policia. Estudantes são
(fevereiro) por Laudo Camargo na mortos (dezembro)
— Fundação do Partido interventoria paulista 1944 - Benedito Valadares diz
Democrático Nacional — Laudo Camargo pede serem necessárias
(setembro) demissão, passando o "aberturas democráticas"
— O Partido Comunista do cargo ao general Manuel (julho)
Brasil manda Astrojildo Rabelo (novembro) 1945 — Realização do Congresso
Pereira à Bolívia propor 1932 — Formação da Frente Única Brasileiro de Escritores
uma aliança a Luiz Carlos Paulista (PD e PRP) (janeiro)
Prestes (dezembro) (fevereiro) — Lançada a candidatura do
1928 - Eleições em São Paulo — Pedro de Toledo general Dutra para a
(fevereiro) interventor em São Paulo presidência da República
— Batista Luzardo envia (fevereiro) (abril)
Paulo Nogueira Filho a Los — Início da Revolução — Decretada anistia aos
Libres para articular a Constitucionalista em São "criminosos políticos"
revolução em São Paulo, Paulo (9 de julho). Pedro (abril)
com Miguel Costa (março) de Toledo aclamado 1946 — Dutra toma posse (janeiro)
— Minas veta o nome de governador (10 de julho) — Onda de greves operárias
Júlio Prestes como — Bertoldo Klinger assume o (janeiro e fevereiro)
candidato à presidência da comando das tropas — Instala-se a Assembleia
República (dezembro) revolucionárias (julho) Constituinte (2 de
1929 - PCB propõe a L. Carlos — Começa a reação fevereiro)
Prestes que seja seu governista, sob o comando — Lei 9.070, praticamente
candidato à Presidência da do general Góis Monteiro proibitiva de greves
República (junho) (agosto) (março)
— Luís Carlos Prestes — As forças paulistas pedem — Congresso Brasileiro de
encontra-se com Vargas o armistício (setembro) Direito Social (maio)
(dezembro) 1934 — Promulgada a nova — Expurgo de funcionários
1930 — Eleições presidenciais, com Constituição Federal (16 de públicos comunistas e
a vitória de Júlio Prestes julho) repressão brutal a comício
d.o de março) — Getúlio Vargas eleito, pelo do PC (maio)
— Luís Carlos Prestes lança Congresso, presidente — Apresentação do
seu Manifesto Socialista constitucional para um anteprojeto de
(maio) mandato de 4 anos (17 de Constituição (maio)
— Começa a Revolução no julho) — Congresso Sindical dos
Rio Grande do Sul, Minas, 1935 — Fundada a Aliança Trabalhadores do Brasil:
Pernambuco e Paraíba (3 Nacional Libertadora criada a CGTB (setembro)
de outubro) (AND, tendo Luís Carlos — Promulgação da nova
Prestes como presidente Constituição (16 de
de honra (23 de março) setembro)
BELLA CIAO
A arte tem realmente coisas fantásticas no - nascido na Itália - e Maria - nascida no
e momentos que nos marcam para sempre. Brasil -, o velho Barachetta se despede des-
Conheci Luís Alberto de Abreu em 1972 em ta vida dando "pernachio a todos os filhos
São Bernardo do Campo, quando por lá dei da puta deste mundo."
um curso de teatro e acabei dirigindo A história do operário brasileiro, suas
"Tempo dos Inocentes e Tempo dos lutas, esperanças e desesperanças servem
Culpados", de Siegfried Lenz. Ele fazia par- de painel para o desenvolvimento de perso-
te do elenco. J á naquela época achei que nagens fascinantes como Giovanni e Car-
ele tinha talento para escrever, que era óti- mela, personagens que encontramos em to-
mo escritor. Sua génese sobre o persona- das as famílias italianas que povoam até ho-
gem do médico que interpretava era um je a cidade de São Paulo. Cenas rápidas,
conto, uma pequena obra-prima. Ele não com belas características cinematográficas,
deve saber, mas guardo até hoje esse traba- diálogos ágeis, cómicos, belos, com fortes
lho manuscrito por ele. Acontece que doses de lirismo, fazem de "Bella Ciao" uma
"Tempo dos Inocentes e Tempo dos peça de comunicação surpreendente. Um
Culpados", um espetáculo realizado com importante acontecimento para o teatro bra-
operários do ABC, foi um dos meus melho- sileiro, esse teatro tão sufocado e ainda ago-
res trabalhos como diretor. Surgiu num mo- ra perdido nos meandros de uma repressão
mento em que a repressão às artes brasilei- que aniquilou os nossos dramaturgos e de
ras estava no seu ponto máximo e, como se cujos reflexos negativos só daqui a alguns
tratava de um espetáculo político, todos se anos teremos uma dimensão mais exata.
espantavam que tivesse conseguido passar Luís Alberto de Abreu segue a trilha de um
pela censura. A nossa sorte é que nem sem- Guarnieri, de Vianinha, mas tem um diálogo
pre a censura entende das coisas. Foi nesse bastante pessoal. De humor caracteristica-
espetáculo que usei na trilha sonora músicas mente seu. "Bella Ciao" confirma o talento
cantadas por Mercedes Sosa, que naquela de Luís Alberto de Abreu e que já se mani-
época quase ninguém conhecia no Brasil. festava forte em "Foi bom, meu bem?" e
Esse trabalho, os seminários de estudos em "Cala boca já morreu". "Bella Ciao" deixa
cima de vários e importantes escritores e claro que ele é um dos mais promissores
dramaturgos, desenvolveu naquele Grupo dramaturgos do novo teatro brasileiro. É um
maior gosto pelo teatro e acabou deixando texto importante porque retoma caminhos
um saldo muito positivo para quase todos os do antigo Teatro de Arena, que tanto contri-
seus componentes. Alguns até hoje estão li- buiu para a afirmação e engrandecimento
gados a atividades teatrais. Luiz Antônio do nosso teatro. Trata de problemas huma-
Marigo (ator, cantor, com vários trabalhos nos que emocionam, que discutem o ho-
profissionais, inclusive na televisão e shows mem, sua luta por uma vida mais digna, dei-
ao lado de Elis Regina); Mário Cezar Camar- xando claro que o ato de viver é antes de
go (que trabalhou em espetáculos do Grupo mais nada um ato de grande alegria. Fala de
Mambembe e hoje está fazendo o Giovanni um tema sério com profundidade, com lágri-
Barachetta em "Bella Ciao"); Ednaldo Freire mas, mas nunca esquecendo o humor e a
(que além de ator, revelou-se no ano passa- paixão dessa raça cheia de esperança e fé
do como diretor, ganhando prémios com o que é o italiano. É uma peça que toca os co-
espetáculo "Cala boca já morreu"); e Luís rações. Sinto-me orgulhoso por ter sido es-
Alberto de Abreu, que escreveu "Foi bom, colhido para dirigi-la. Dedico este trabalho a
meu bem?" e "Cala boca já morreu", ga- meu pai (também italiano), a minha mãe (fi-
nhando prémios de revelação de autor. lha de italianos), aos meus avós. Especial-
"Bella Ciao" é, até o momento, sua mente ao meu avô Nicolau (figura incrível de
obra mais acabada e séria. Ressalta, através D. Quixote que só morreu quando quis),
de uma família de imigrantes italianos, al- que aqui também chegou esperando fazer
guns fatos importantes da história do Brasil, fortuna, acreditando que esta era a terra do
tais como a greve de 1917, a Revolução de futuro. A eles a minha homenagem, o meu
1924, o período getulista, abrangendo acon- respeito, o meu carinho, e, aos que já se fo-
tecimentos desde 1905 (data em que os Ba- ram, a minha saudade.
rachettas deixam a Itália e vêm tentar a sorte
no Brasil), até 1945 (quando depois de mos- Roberto Vignati.
trar a trajetória de seus dois filhos: Gennari-
"É uma época nova. O fascismo está sendo derro-
tado em toda frente. O exército alemão foi batido em
Stalingrado. A democracia avança."
{Ribeiro)

CACA AMARAL

"Não sou interventor, não sou da polícia política, não


sou delator e quando eu nasci o mundo já estava feito."
IJosé)

CALIXTO DE INHAMUNS
"Eu não respeito a morte e se tiver que morrer,
morro dizendo "pernachio" a todos os filhos da puta do
mundo."
(Giovanni)

MÁRIO CÉZAR CAMARGO

"Eu agora estou mais interessada na época que vem


vindo. As manhãs são sempre melhores."
(Maria)

ROSALY GROBMAN
BELL
2atosde direção geral
Luís Alberto de Abreu Roberto Vignati
ELENCO
(por ordem de entrada em cena)

Mário Cézar Camargo Giovanni


Christiane Tricerri Luchina Buonagamba e outros
Gabriela Rabelo Carmela
Calixto de Inhamuns Andreone e José
Zécarlos Machado Gennarino e outros
Rosaly Grobman Maria e outros
Cacá Amaral Ribeiro e outros

Cenários e figurinos Irineu Chamiso Jr.


Direção Musical Solano Lopes

Músicas folclóricas e regionais italianas do disco "Bella


Ciao"
DE TEATRO
senta

Assistente de direção J o s é Geraldo Rocha


Expressão Corporal.. Rosa Almeida
Iluminação . . . . Roberto Vignati
Músicas "Addio Bella Itália" composta por Solano Lo-
pes
Efeitos Sonoros e escolha de músicas . . Roberto Vignati
Gravação de playback - músicos . Júlio Vicente e Banda
Sinfónica de S ã o Bernardo do Campo
Confecção de figurinos Ziria de Oliveira Rosa
Divulgação Rosi Campos e Sílvia Quinze
Fotografias Ary Brandi
Montagem e Operação de Luz Valdemir Gonçalves
Operação de Som Raquel Lira
Gravação da trilha sonora Flávia Calabi
Programa Luiz Fernando Tofanelli
Cartaz J o s é Rubens Siqueira
Confecção de programas Luís Udaquiola Laport
Produção Executiva Luiz Fernando Tofanelli
Calixto de Inhamuns
Administração Luiz Fernando Tofanelli
DE TEATRO
;enta

vClAO
Assistente de direção J o s é Geraldo Rocha
Expressão Corporal Rosa Almeida
Iluminação Roberto Vignati
Músicas "Addio Bella Itália" composta por Solano Lo-
pes
Efeitos Sonoros e escolha de músicas . . Roberto Vignati
Gravação de playback - músicos . Júlio Vicente e Banda
Sinfónica de S ã o Bernardo do Campo
Confecção de figurinos Ziria de Oliveira Rosa
Divulgação Rosi Campos e Sílvia Quinze
Fotografias Ary Brandi
Montagem e Operação de Luz Valdemir Gonçalves
Operação de Som Raquel Lira
Gravação da trilha sonora Flávia Calabi
Programa Luiz Fernando Tofanelli
Cartaz J o s é Rubens Siqueira
Confecção de programas Luís Udaquiola Laport
Produção Executiva Luiz Fernando Tofanelli
Calixto de Inhamuns
Administração Luiz Fernando Tofanelli
"Os operários entram em
qualquer lugar. O governo e o
parlamento têm que ser a casa dos
operários."
< Gennarino)

ZiCARLOS MACHADO

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Texto
O texto, embora simples, abarca uma época relativamente extensa da vida nacional.
Seus personagens são comuns. Versa sobre os "carcamanos" pobres, acossados pela
miséria na Europa e que aportaram em Santos, no princípio do século, trazendo na baga-
gem uns poucos utensílios e na cabeça muitos sonhos.
Um desses carcamanos é Giovanni Barachetta que, com a mulher, Carmela, e o fi-
lho, Genarino, aportam em Santos, em 1905, para trabalhar numa das inúmeras fazen-
das de café do interior de São Paulo. Premida pelas péssimas condições de vida no cam-
po, a família Barachetta desloca-se para a capital, onde Giovanni trava contato com o
anarquismo. Nasce a filha, Maria, e inicia-se a saga da família. Giovanni participa das in-
contáveis greves do princípio do século. Participa ativamente da ascensão e assiste in-
conformado à decadência do movimento anarquista no Brasil. É preso e entra em contra-
dição com antigos companheiros anarquistas que aderem ao comunismo - inclusive, o fi-
lho, Genarino.
Participa, juntamente com o filho, da revolução tenentista de 1924 em São Paulo e
entra em conflito com a filha que anseia outro tipo de vida e se nega a seguir, como mili-
tante, os passos do irmão e do pai. No período negro da ditadura de Vargas, Giovanni, já
alquebrado, sofre um rude golpe - Genarino, por ligações com o partido comunista, é
preso e morto em 1938. Morre em 1945, meses antes da deposição de Getúlio e da rede-
mocratização do País.
A peça é importante, já que abrange grande parte de nossa tradição que ainda não
se transformou em História. A pesquisa feita com algumas das últimas testemunhas ocu-
lares dos fatos ocorridos em São Paulo é de grande valor, no sentido de documentar a vi-
da do Brasil e de sua gente.
LUÍS ALBERTO DE ABREU
BELLA CIAO CANÇÃO DO PARTIGIANO

(Canção do Trabalho) O partigiano portami via


O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao.
Aila mattina appena alzata O partegiano portami via
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Che mi sento da morir.
Aila mattina appena alzata
In risaia mi tocca andar. E se muoio da partigiano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao.
E fra gli insetti e le zanzare E se muoio da partigiano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Tu me deve sepelir
E fra gli insetti e le zanzare
Duro lavoro mi toca fare. Sepelire la su in montagna
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao.
O mamma mia o che tormento Sepelire la su in montagna
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Sotto lombra di in bel fiore.
O mamma mia o che tormento
10 ti envoco ogni doman. Egli genti que passerano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao.
11 capo in piedi col suo bastone Egli genti que passerano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Mi dirano che bel fiore.
II capo in piedi col suo bastone
E noi curvi a lavorar. Questo e il fiore dei partigiano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao.
Ma verra un giorno che tutti quanti Questo e il fiore dei partigiano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao. Morto per la liberta.
Ma verra un giorno che tutti quanti
Lavoreremo en liberta. Esta mattina mi sono alzato
0 bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao.
Esta mattina mi sono alzato
E io trovato 1'invasor.
^/7&ii5T^ ^sTTti^T^ ^ Í ^ Í Í S T K ^ ^ T T ^ ^ N ^ ^sftii
^j&Xiys- ~v^s?í2i£/~ ^vUs- *2^^ "N^£s?í2j£/~
;

AGRADECIMENTOS

llka Marinho Zanotto


Carlito Maia
Secretaria de Cultura e Esportes de São Bernardo
do Campo
Edgard Carone
Fernando Leça
Tércio Nelli
Osmar Albino
Nilton Batistini
Grupo Cénico "Regina Paccis"
Antonino Assumpção
Hilda Breda
Cotaesp
Cofenata
Carlos Paiva
Paulo Sérgio Pinheiro
Banda Sinfónica de São Bernardo do Campo
Instituto Ítalo-Brasileiro de Cultura
Senhora Tricerri
Agradecimento especial
a
MICHELLE PICCOLLI
consultor de língua italiana

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São vários os motivos que levam os profissionais de teatro a desenvolver um trabalho em grupo. Al-
guns acreditam numa ideologia política e no teatro como propagador dela, outros estão identificados com
uma determinada estética teatral, outros simplesmente acreditam que esta é a melhor forma de enfrentar
as dificuldades do mercado de trabalho. 0 essencial, porém, é que a própria criação teatral é um trabalho
de equipe.
0 Grupo Arteviva é novo e se apresenta ao público pela primeira vez com esse trabalho. E se o grupo
foi formado recentemente, seus integrantes já marcam em seus currículos vários anos de atividades no
campo teatral e expressivos trabalhos já realizados. E essas pessoas resolveram integrar o Arteviva para
encaminhar um trabalho voltado principalmente para a realidade brasileira e a cultura nacional. Este é o
nosso primeiro trabalho e podemos afirmar que encabeçará uma série que acreditamos longa.
Arteviva. muito prazer.
ROSI CAMPOS
Divulgadora

SILVIA QUINZE
Divulgadora

ARY BRANDI
Fotógrafo
VALDEMIR GONÇALVES
RAQUEL URA Operadordeluz [UIZ F.TOFANELLI
Operadora de som ZÍRIA DE OLIVEIRA ROSA , uto,
P od executivo e Administra
Costureira