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Setembro 2019

Escola Secundária Avelar Brotero


Teste Escrito de Avaliação Filosofia

11.º Ano de Escolaridade

Duração da prova: 100 minutos 3 Páginas

Nome do/a aluno/a: Miguel Machado___________________________________________ N.º 24_____

Professora: Cristina Janicas

Utiliza apenas caneta ou esferográfica de tinta azul ou preta.


Não é permitido o uso de corretor. Deves riscar aquilo que pretendes que não seja classificado.
Para cada resposta, identifica o grupo e o item.
Apresenta as tuas respostas de forma legível.
Apresenta apenas uma resposta para cada item.
As cotações dos itens encontram-se imediatamente abaixo.

GRUPO I
Conteúdo Estruturante – Filosofia da Ciência
Conteúdo Específico – ciência, técnica

The Electric House (1922)


Realização|Buster Keaton e Edward F. Cline| Argumento | Buster Keaton e Edward F. Cline | Música
|Robert Israel| Produção Joseph M. Schenck| Intérpretes | Buster Keaton, Virgínia Fox, Joe Keaton,
Louise Keaton, Myra Keaton, Steve Murphy, Joe Roberts…| 23 minutos| USA | P/B (mudo)

A técnica é uma das questões mais inquietantes e controversas da atualidade.


Tudo se passa como se a técnica, escapando à sua esfera própria e à razão que a criou, tivesse
conseguido a sua autonomia.
A técnica facilita libertações, prolonga a vida, instaura uma rede de comunicações que abre a
possibilidade de um novo mundo. Mas também multiplica o poder das armas, coloca ao serviço dos
ditadores os meios mais estranhos, polui a terra, o mar, o céu, isola as pessoas e escraviza o homem.
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The Electric House, de Buster Keaton (1895-1966) e Edward F. Cline (1891-1961), é uma curta-
metragem de 1922. Buster Keaton e Cline constroem uma metáfora da vida moderna, que pretendem
ironizar e desmistificar, questionando o papel da técnica.
Lançado num contexto de questionamento do progresso tecnológico e da crença ingénua na ciência
e na técnica, The Electric House constitui, no quadro cultural dos anos 20, por um lado, um olhar atento
face às potencialidades da máquina e, por outro lado, uma interrogação do admirável mundo novo: o
mundo da velocidade, da aceleração, do poder e da euforia.
É entre a sedução e o medo que o ser humano se posiciona em relação à técnica. E é de salientar que
o próprio cinema, enquanto um dos maiores inventos tecnológicos da Modernidade, foi denominado
«lanterne de peur» e perspetivado como o invento que permitia ver o paraíso e o inferno, os deuses e os
demónios. E foi num ambiente entre a sedução e o medo que os irmãos Lumière1, em 1985, apresentaram
o pequeno filme (aquele que pode ser considerado o primeiro plano-sequência da história do cinema) de
cerca de um minuto – Chegada do comboio à estação de La Ciotat – que levou alguns espectadores a fugir
da sala de exibição e outros a esconderem-se debaixo das cadeiras.
A narrativa começa com o equívoco na cerimónia de formatura de Buster Keaton, que recebe por
engano um diploma em engenharia elétrica, e da qual resulta a proposta de trabalho de eletrificar uma
casa de família – a família de uma rapariga por quem Buster se apaixona. Buster aceita o trabalho e de
imediato diligencia no sentido de estudar e eletrificar a casa durante as férias da família. A tarefa de Buster
é inexplicavelmente bem-sucedida: o conjunto de dispositivos elétricos que instala (escadas rolantes,
máquina de lavar loiça, mesa de bilhar, comboio doméstico) impressiona e seduz a família aquando do
seu regresso a casa. Libertando das tarefas rotineiras, pesadas e escravizantes as pessoas ganham mais
autonomia, mais conforto e mais tempo de lazer.
Tudo parece correr bem até que o verdadeiro engenheiro elétrico (aquele que perdeu para Buster o
prometedor emprego) decide sabotar o trabalho realizado pelo falso engenheiro. A desordem e o caos
instauram-se, decorrentes dos dissabores provocados pelos inventos criados.
Lê o texto de Sigmund Freud (1856-1939):

«Com ferramentas o homem aperfeiçoa os seus órgãos – tanto os motores como os sensoriais— ou
elimina as barreiras que se opõem à sua ação. As máquinas conferem-lhe gigantescas forças que pode
dirigir, como os seus músculos, em qualquer direção: graças ao navio e ao avião, nem o ar nem a água
conseguem limitar os seus movimentos, com a lente corrige os defeitos do seu cristalino e com o telescópio
contempla as mais remotas distâncias, mercê do microscópio supera os limites do visível impostos pela
estrutura da retina. Com a máquina fotográfica criou um instrumento que fixa as impressões óticas
fugazes, serviço que o fonógrafo lhe presta com as não menos fugazes impressões auditivas, constituindo

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Auguste Marie Louis Nicholas Lumière (1862-1954) e Louis Jean Lumière (1864-1948) foram os inventores do cinematógrafo.
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ambos os instrumentos materializações da sua inata faculdade de recordar, isto é, da memória. Com ajuda
do telefone ouve a distância que um conto de fadas tomaria por inalcançáveis. A escrita é originalmente
a linguagem do ausente, a casa é o sucedâneo do ventre materno onde nos sentíamos tão bem.
Dir-se-ia que é como um conto de fadas, esta realização de todos ou quase todos os desejos fabulosos,
conseguida pelo homem com sua ciência e com a sua técnica nesta terra que o viu aparecer pela primeira
vez como um débil animal e à qual cada novo indivíduo da sua espécie volta a ingressar como um lactente
inerme (desarmado). O homem pode considerar todos estes bens como uma conquista da cultura. Desde
há muito já se tinha forjado um ideal de omnipotência e de omnisapiência que incarnou nos deuses,
atribuindo-lhes tudo o que parecia inacessível aos seus desejos ou lhe estava vedado, de modo que bem
podemos considerar estes deuses como ideais de toda a cultura. Agora que se encontra muito perto de
alcançar este ideal, quase ele próprio se chegou a converter num deus. (...)
O homem tornou-se, por assim dizer, um deus com próteses: bastante magnífico quando coloca todos
os seus artefactos sem contudo estes nascerem do seu corpo e, apesar de por vezes, lhe causarem
dissabores. (...) Tempos futuros trarão novos, e quem sabe, inconcebíveis progressos neste terreno da
cultura, exaltando ainda mais a deificação do homem.»
Sigmund Freud, (1929), in Rui Grácio, Considerações sobre a ciência e técnica. Coimbra: Edição Escola Secundária D. Duarte, 1989

1. Faz o confronto entre o texto de Freud e a curta-metragem The Electric House de Buster Keaton.
2. Que questões filosóficas podem ser levantadas após o visionamento deste filme? Identifica-as explicando
porque as escolheste.

1.
Através da leitura realizada dos dois textos anteriores reparamos que a curta-metragem de Buster Keaton é
considerada uma metáfora para a sociedade daquele tempo porque nessa altura ninguém pensava que a técnica e
a ciência chegassem a evoluir tanto como chegou até aos dias de hoje, tornando a vida em certo ponto, ridícula,
uma vez que nos tornamos dependentes das máquinas para tudo. No texto de Sigmund Freud ele refere que com
a evolução da técnica, das novas descobertas e da própria ciência, o ser humano tornou-se dependente da evolução
das máquinas, uma vez que estas realizam todos os seus desejos. A questão é: até quando este progresso, esta
evolução pelo ser humano? Quando é que o Homem vai parar e vai questionar-se? Mas por outro lado, se a ciência
e a técnica não existissem ainda vivíamos como débeis animais.

2.
A questão filosófica que escolhi após ver este filme foi: A tecnologia chegará a algum ponto onde não poderá evoluir
mais? Pensei nesta questão após a leitura do texto de Freud, uma vez que este realiza uma reflexão, sobre a
progressão da ciência e da técnica.

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