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COLETÂNEA

ALICERCE DO
PARAÍSO

VOLUME 1

IGREJA MESSIÂNICA MUNDIAL DO BRASIL


organização e tradução:
Secretaria de Tradução da IMMB
São Paulo
6ª edição revisada e ampliada – março de 2017
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

ÍNDICE

O QUE É A IGREJA MESSIÂNICA MUNDIAL ....................................................................................4


DOUTRINA DA IGREJA MESSIÂNICA MUNDIAL .............................................................................6
NASCIMENTO DO NOVO MUNDO ......................................................................................................7
MUNDO PRIMORDIAL ...........................................................................................................................9
O QUE É A VERDADEIRA SALVAÇÃO ............................................................................................12
A CARACTERÍSTICA PECULIAR DA SALVAÇÃO DA IGREJA MESSIÂNICA ...........................14
RELIGIÃO “LOJA DE DEPARTAMENTOS” .....................................................................................16
ULTRARRELIGIÃO ..............................................................................................................................18
RELIGIÃO VIVA ....................................................................................................................................20
RELIGIÃO CRIADORA DE PESSOAS FELIZES ..............................................................................23
RELIGIÃO QUE REVELA DEUS.........................................................................................................27
ELIMINAÇÃO DA TRAGÉDIA .............................................................................................................29
ESCLARECIMENTO DA VERDADE ..................................................................................................31
VERDADE, BEM E BELO ....................................................................................................................34
VERDADE E PSEUDOVERDADE ......................................................................................................37
EU ESCREVO A VERDADE ................................................................................................................39
TEORIA DA HARMONIA .....................................................................................................................43
O QUE É A VERDADEIRA CIVILIZAÇÃO? (PALESTRA) ...............................................................44
CRIAÇÃO DA CULTURA ....................................................................................................................55
SUBSTITUIÇÃO DA VELHA CULTURA PELA NOVA CULTURA ..................................................57
A CONSTRUÇÃO DO PARAÍSO E A EXCLUSÃO DO MAL ...........................................................60
BEM E O MAL .......................................................................................................................................66
MUNDO SEMICIVILIZADO E SEMISSELVAGEM.............................................................................70
ERA SEMICIVILIZADA ........................................................................................................................73
A LUTA ENTRE O MATERIALISMO E O ESPIRITUALISMO .........................................................75
O MATERIALISMO CRIA O HOMEM MAU .......................................................................................77
A CIÊNCIA CRIA AS SUPERSTIÇÕES .............................................................................................79
A DEFASAGEM DO ESTUDO.............................................................................................................82
A RESPEITO DO ATEÍSMO ................................................................................................................86
A CULTURA DE SU .............................................................................................................................89
O JUÍZO FINAL .....................................................................................................................................91
CONCRETIZAÇÃO DA PROFECIA DO REINO DOS CÉUS – O PARAÍSO TERRESTRE ..........94
TRANSIÇÃO DA NOITE PARA O DIA ...............................................................................................95
SOU UM CIENTISTA EM RELIGIÃO ................................................................................................100
O ESPÍRITO PRECEDE A MATÉRIA ...............................................................................................105
MEDICINA ESPIRITUAL ....................................................................................................................109
PRINCÍPIO DO JOHREI .....................................................................................................................112
PRIMEIRA PARTE ....................................................................................................................................112
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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

SEGUNDA PARTE ....................................................................................................................................114


TERCEIRA PARTE ...................................................................................................................................117
QUARTA PARTE ......................................................................................................................................119
FORÇA ABSOLUTA ..........................................................................................................................121
SERMÃO .............................................................................................................................................124
JOHREI E FELICIDADE.....................................................................................................................126
O JOHREI É TRATAMENTO CIENTÍFICO (1) .................................................................................129
O JOHREI É TRATAMENTO CIENTÍFICO (2) .................................................................................134
EXISTEM DIVINDADES? ...................................................................................................................137
O VALOR DO SER HUMANO ESTÁ NO SENSO DE JUSTIÇA E DE RETIDÃO ........................140
ESTÁ ERRADO DIZER QUE OS HONESTOS SAEM PERDENDO ..............................................143
MINHA NATUREZA ............................................................................................................................146
IDOLATRADO COMO DEUS ............................................................................................................148
MINHA MANEIRA DE PENSAR ........................................................................................................150
EU E A IGREJA MESSIÂNICA MUNDIAL .......................................................................................153
A VERDADEIRA SALVAÇÃO ......................................................................................................................154
UTILIZAÇÃO DO ESPÍRITO ........................................................................................................................157
UNIDADE DEUS-HOMEM .................................................................................................................160
MINHA LUZ .........................................................................................................................................162
QUEM É O SALVADOR? ..................................................................................................................165
HERÓI DA PAZ ...................................................................................................................................167

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

O QUE É A IGREJA MESSIÂNICA MUNDIAL

A Igreja Messiânica Mundial cria e difunde uma cultura espiritual


em interação com o desenvolvimento da cultura material, tendo por
finalidade o advento do Paraíso Terrestre.

Não há dúvida de que Paraíso Terrestre é uma expressão que se


refere ao mundo ideal, onde não existem doença, pobreza e conflito. O
Mundo de Miroku i 1 , anunciado por Buda Sakyamuni 2 , a chegada do
Reino dos Céus, profetizada por Jesus Cristo, o Mundo de Serenidade e
Paz, proclamado por Nichiren3, e o Pedestal do Néctar, idealizado pela
Igreja Tenrikyo4, têm o mesmo significado do Paraíso Terrestre que nós
proclamamos. Entretanto, a diferença é a questão do tempo, que não foi
anunciada por nenhum dos fundadores. Por meio da Iluminação
espiritual, intuí que esse tempo está muito próximo. E o que isso
significa? Que é iminente o momento da Destruição da Lei Búdica 5 ,
prevista por Buda, e do Fim do Mundo ou Juízo Final, profetizados por
Jesus Cristo.

Seria uma felicidade se o Paraíso Terrestre pudesse ser


estabelecido sem que nada precisasse ser mudado. Contudo, como se
trata da construção de um mundo novo, ideal, é indispensável que se
faça uma prestação de contas do velho mundo. É como na construção
de uma nova casa, quando se fazem necessárias a demolição da casa
velha e a limpeza do terreno. Naturalmente, existirão muitas coisas úteis
da casa velha que serão poupadas. Evidentemente, esta seleção será
feita por Deus. Portanto, para que o ser humano seja preservado, é
necessário que ele se torne útil para o novo mundo. Dessa forma,
1
Mundo de Miroku: Refere-se à vinda do Buda do futuro (Miroku ou Maitreya), que ocorrerá quando
os ensinamentos de Buda Sakyamuni tiverem sido esquecidos, para dar início a uma nova era e
transformar este mundo em paraíso.
2
Buda Sakyamuni: Título referente a Sidarta Gautama (563 a.C. - 483 a.C.), cujos ensinamentos
deram origem ao Budismo na Índia.
3
Nichiren: Nichiren ou Nichiren Shonin (1222-1282) é o nome pelo qual ficou conhecido o monge
budista japonês Zesho-bo Rentyo.
4
Igreja Tenrikyo: Religião japonesa fundada em 1838 por Miki Nakayama (1798-1887).
5
Destruição da Lei Búdica: Refere-se à época em que, segundo a tradição do Budismo Theravada, a
humanidade esquecerá as leis de conduta moral de Buda Sakyamuni.

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

poderá ultrapassar facilmente a grande fase de mudança, e isso


significa ser aprovado no exame divino. A seguir, explicarei a respeito da
fé como o único caminho para tal.

As qualificações para ultrapassar essa fase de grande transição


do mundo são: 1) ser saudável, livre de doenças; 2) estar liberto dos
sofrimentos da pobreza; 3) amar a paz e ter aversão ao conflito. Ou seja,
ser uma pessoa capaz de viver em um mundo isento de doença,
pobreza e conflito.

Deus não só resguardará aqueles que tiverem essas três grandes


qualificações, como também se utilizará deles como pessoas
capacitadas para o mundo que irá surgir. Certamente, creio que não há
discordância entre os desígnios de Deus e os ideais do ser humano.
Existiria, então, uma maneira para obtermos essas três qualificações?
Nossa religião se empenha para ensinar e conduzir as pessoas a
adquirir tais qualificações bem como transmitir-lhes as bênçãos de Deus.

5 de setembro de 1948

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

DOUTRINA DA IGREJA MESSIÂNICA MUNDIAL

Nós, messiânicos, cremos em Deus, Criador do Universo.


Cremos que, desde o início da Criação, Deus objetivou estabelecer o
Paraíso na Terra e tem atuado continuamente para a concretização
desse objetivo. Com tal propósito, fez do ser humano Seu representante,
submetendo a ele todas as demais criaturas e coisas. Cremos, portanto,
que a história da humanidade constituiu estágios preparatórios, degraus
para se concretizar o Paraíso na Terra. Para cada época, Deus faz
surgir as pessoas e as religiões necessárias, cada qual com sua missão.

Cremos que, no presente, quando o mundo vagueia em tão


caótica situação, Deus enviou Meishu-Sama, fundador da Igreja
Messiânica Mundial, com a suprema missão de realizar a sagrada obra
de salvação da humanidade. Por conseguinte, empenhamo-nos de
corpo e alma na erradicação da doença, da pobreza e do conflito, os
três grandes infortúnios que afligem a humanidade, visando à
concretização do mundo ideal, de eterna paz e de perfeita Verdade,
Bem e Belo.

11 de março de 1950

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

NASCIMENTO DO NOVO MUNDO

Eu sempre afirmo que a Igreja Messiânica não é apenas uma


religião. A religião é uma parte da Igreja Messiânica. Então, qual seria a
denominação apropriada? Na verdade, a mais adequada seria
“Construtora do Novo Mundo”. Entretanto, como isso pareceria o nome
de uma empresa construtora, escolhi chamá-la, por enquanto, Igreja
Messiânica.

Seu projeto consiste em promover o progresso e o


desenvolvimento da cultura, conciliando as ciências materialista e
espiritualista. Sabemos que a cultura alicerçada na ciência avançou e,
ainda hoje, continua avançando velozmente, ao passo que a cultura
espiritualista, que é a religião, caminha lentamente. A religião pouco
progrediu desde seu surgimento há alguns milhares de anos, quando a
cultura estava em seu estágio inicial. Isso explica a grande distância que
surgiu entre ela e a ciência. Como resultado, esta última veio a destacar-
se, e a parte espiritual distanciou-se, a ponto de desaparecer da nossa
vista. Por fim, o ser humano ignorou o espírito e, chegando a convencer-
se de que somente a ciência representa a cultura como um todo,
ajoelha-se diante dela e se satisfaz com sua condição de escravo. Esta
é a situação do mundo atual. Por acaso, o ser humano não dá provas
disso entregando, sem nenhuma preocupação, nas mãos da ciência, o
que ele tem de mais precioso, que é a vida? Embora a ciência de fato
não lhe garanta a vida, o homem contemporâneo não percebe isso e
continua depositando-lhe cega confiança.

Deus compadeceu-se dessa cegueira e, através de mim,


atualmente está procurando ensinar a humanidade, por meio dos fatos,
que a vida não pertence à matéria, que ela é invisível aos olhos
humanos, embora possua existência inegável e está sob Seu domínio. A
melhor prova consiste no fato de que cada vez mais pessoas
desenganadas pela medicina materialista estão sendo curadas pelo
Poder Divino.

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Surge, então, naturalmente, a seguinte dúvida: “Por que uma


questão tão importante, que diz respeito à própria vida, permaneceu na
obscuridade?” Imagino que isso ocorreu pela necessidade de
impulsionar, até certo ponto, a cultura alicerçada na ciência. Tal
acontecimento faz parte do Plano de Deus; é um fenômeno passageiro,
próprio de um período de transição. Em relação a isso, Deus vai corrigir
esse desequilíbrio e esclarecer o campo de atuação das ciências
materialista e espiritualista. Assim, ambas acertarão os passos,
progredindo e desenvolvendo-se para propiciar o nascimento de um
mundo verdadeiramente civilizado. Em resumo, o velho mundo, que
existiu até os dias de hoje, acaba aqui para que um novo mundo seja
construído. Portanto, pode-se dizer que desempenho a função de
parteiro desse nascimento.

30 de julho de 1952

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

MUNDO PRIMORDIAL

Ao analisarmos a civilização atual, percebemos que sua estrutura


é baseada na ciência materialista.

Escreverei, minuciosamente, sobre este assunto. Antes, contudo,


é preciso conhecer a constituição do Universo. Serão dispensados os
detalhes que não se relacionam diretamente com o ser humano,
abordando-se apenas os pontos mais importantes. Na verdade, o
universo é constituído a partir de três elementos originários do Sol, da
Lua e da Terra. Esses elementos são as essências do fogo, da água e
da terra, e se apresentam, respectivamente, nas formas de Mundo
Espiritual, Mundo Atmosférico e Mundo Material, onde ocorrem os
fenômenos. A perfeita fusão e harmonia destes mundos é a própria
realidade.

Até agora, só dois dos três mundos existentes eram conhecidos,


isto é, o Mundo Atmosférico e o Mundo Material. Ignorava-se a
existência de outro mundo: o Mundo Espiritual. Isso se dava porque ele
não podia ser detectado pela ciência materialista. E, uma vez que a
atual cultura materialista é o resultado do progresso alcançado a partir
do conhecimento dos Mundos Atmosférico e Material, ela é uma cultura
que abrange apenas dois terços da totalidade.

Surpreendentemente, o Mundo Espiritual, justamente aquele que


até hoje veio sendo considerado inexistente, na verdade, é o centro da
força fundamental, sendo mais importante que os outros dois mundos
juntos. Portanto, se desprezarmos sua existência, não haverá como
surgir uma civilização perfeita. A melhor comprovação disso é que, não
obstante o avanço da cultura dos mundos material e atmosférico, a
felicidade – maior anseio do ser humano –, não acompanha esse
avanço.

Examinando o motivo dessa contradição, descobrimos que há


uma profunda razão para tal. Se, desde o começo, a humanidade
conhecesse a existência do mundo primordial, ou seja, do Mundo
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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Espiritual, certamente, a civilização materialista não teria alcançado o


maravilhoso progresso que vemos hoje. Foi exatamente porque ela
ignorou o Mundo Espiritual que nasceu o pensamento ateísta, que deu
origem ao mal e, consequentemente, teve início a luta entre o bem e o
mal. Atormentada pelo sofrimento decorrente dessa luta, a humanidade,
forçosamente, precisou fomentar o progresso da cultura materialista.
Pensando bem, o que isso seria senão o profundo Plano de Deus? No
entanto, caso seu desenvolvimento ultrapasse determinado limite, corre-
se o risco de ver o colapso da cultura.

A invenção da bomba atômica, em especial, é um exemplo disso.


Por conseguinte, chegar a esse ponto significa que já atingimos o
momento determinado pelos Céus, de haver uma grande mudança no
desenvolvimento da cultura. O primeiro passo é revelar a toda a
humanidade a existência do Mundo Espiritual, até então tido como o
Nada. Tratando-se, porém, de uma existência equivalente ao Nada,
logicamente isso não poderá ser feito pela ciência e seus métodos. Daí
a razão da manifestação de uma grandiosa força jamais experimentada
pela humanidade, isto é, o Poder de Deus. Visto que, há longo tempo, o
homem contemporâneo está preso à visão materialista, é muito difícil
convencê-lo. Para tal existem os milagres manifestados por um método
único que temos em nossa religião. E esse método é o Johrei. Isto
porque, mesmo que seja ateísta, a pessoa não poderá deixar de aceitar
a realidade. Assim, quando a existência desse mundo se tornar
conhecida pela humanidade, ela se verá obrigada a promover uma
mudança de cento e oitenta graus na cultura contemporânea, com vistas
ao nascimento de uma verdadeira civilização comum ao mundo todo.

Resta, no entanto, um incômodo problema: como a cultura atual


foi erigida ao longo de milhares de anos, não se sabe quanto mal foi
praticado até agora. Obviamente, as más ações dão origem às
impurezas do corpo espiritual, cujo grande acúmulo constituirá um
obstáculo para a construção do novo mundo. É como se, na construção
de uma casa, houvesse sujeira por todo o lado, como pedaços de
madeira, metais e outros, tornando-se indispensável uma limpeza. E isto
deve ser o que Jesus Cristo chamou de Juízo Final.
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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Os maravilhosos e incontáveis milagres manifestados pela nossa


religião não podem ser outra coisa senão o Plano de Deus para fazer o
ser humano conscientizar-se da existência do mundo primordial, ou seja,
o Mundo Espiritual. E Deus encarregou-me desta grandiosa missão.

4 de julho de 1951

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

O QUE É A VERDADEIRA SALVAÇÃO

Hoje em dia, a crítica mais frequente em relação à nossa religião


é que, por tratar-se de uma instituição religiosa, ela está errada em
empenhar-se na cura de doenças. Entretanto, se pensarmos bem,
concluiremos que não há nada tão sem sentido como essa observação.
Ela provém do pensamento inflexível dos críticos, para quem a religião
deve ocupar-se apenas da salvação no âmbito espiritual, não cabendo a
ela a parte material. Ainda, segundo esses críticos, a cura de doenças é
uma questão material e, por esse motivo, ela não compete à religião.
Categoricamente, excluem das atribuições religiosas a salvação material,
limitando suas ações ao campo espiritual. Obviamente, o que eles
imaginam como salvação espiritual, consiste, em síntese, na resignação.
Até hoje, a concepção da maioria das pessoas sobre religião é que, por
ela não possuir força para salvar as pessoas do sofrimento no plano
material, por falta de outro recurso, tenta, ao menos, diminuir esse
sofrimento através da resignação.

Se a religião excluir a matéria e preocupar-se unicamente com a


solução das questões espirituais, na prática ela não promoverá a
salvação. Isso pelo motivo de que é a crença na possibilidade da
solução dos problemas materiais que nos permite obter, também
espiritualmente, a verdadeira tranquilidade. Quando sentimos fome, por
exemplo, só podemos ficar tranquilos se tivermos a certeza de que
alguém nos trará comida; se soubermos que ninguém o fará, é natural
que fiquemos desesperados, temendo morrer de inanição. O mesmo se
dá em relação a doenças, reveses da vida e outros problemas. O
reconhecimento de que tudo isso pode ser solucionado através da fé é
que nos dá a verdadeira tranquilidade. Dessa forma, é por meio da
solução de ambas as questões, as materiais e as espirituais, que
conseguiremos a salvação e alcançaremos o verdadeiro estado de paz
interior6.

6
Paz interior: Em japonês anshin ryumei. É uma expressão utilizada no confucionismo e no budismo
que indica um estado psicológico de completa serenidade. Pode indicar também um estado de
Iluminação, completamente livre de preocupações.

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Sendo assim, a base da salvação material e espiritual é eliminar


as doenças tornando as pessoas sadias. Isso porque, por maior que
seja a nossa fortuna ou a fartura de alimentos saborosos provenientes
do mar e da terra em nossas refeições, por mais honrarias e status que
tenhamos, nada disso terá sentido se estivermos sofrendo com doenças.
Por conseguinte, a primeira condição para a salvação da humanidade é,
antes de mais nada, alcançar a saúde. Por essa ser a base da salvação,
nossa religião tem como meta, indivíduos e sociedade livres de doenças.

24 de dezembro de 1949

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

A CARACTERÍSTICA PECULIAR DA SALVAÇÃO DA IGREJA


MESSIÂNICA

A missão da nossa Igreja é salvar as pessoas que estão sofrendo


no Inferno, conduzindo-as ao Paraíso e, por meio disso, fazer surgir uma
sociedade paradisíaca. Para salvar o próximo, o ser humano precisa
primeiramente elevar-se ao Paraíso e tornar-se seu habitante. Assim,
ele poderá conduzir o próximo ao Paraíso e salvá-lo. Ou seja, colocar
uma escada do Paraíso até o Inferno, estender as mãos para ajudá-lo a
subir, degrau por degrau. É nesse ponto que nossa religião difere de
todas as religiões até hoje, sendo, inclusive, o seu oposto.

Como todos sabem, desde a antiguidade, os religiosos vêm-se


contentando com o mínimo necessário à sua subsistência e entregando-
se a práticas ascéticas. Uma vez que se colocam numa posição infernal
para salvar o próximo, usam a escada em sentido contrário, isto é,
empurram os necessitados de baixo para cima, ao invés de puxá-los do
alto; é fácil calcular o duplo esforço exigido. Entretanto, não havia
alternativa, visto que o Paraíso ainda não estava pronto. Isto ocorria
devido à prematuridade do tempo, ou seja, o Mundo Espiritual ainda se
encontrava na Era da Noite.

Contudo, a partir de 1931, o Mundo Espiritual vem-se


transformando, gradualmente, em dia, tornando a construção do Paraíso
mais fácil. Todavia, não é o ser humano que o constrói: é Deus. Por
conseguinte, a obra progride à mercê do tempo, bastando ao ser
humano agir de acordo com a Vontade Divina. Em outras palavras,
Deus traça o plano, coordena e utiliza livremente um grande número de
pessoas. A ideia exata que se pode ter da minha função, é a de mestre-
de-obras. Nossos fiéis sabem perfeitamente que estou construindo o
modelo do Paraíso, como uma das atribuições dessa função.

Dessa forma, em momentos e locais inesperados, aparecem-me


pessoas querendo vender suas terras. Assim que percebo a Vontade
Divina de adquirir determinado terreno, surge a quantia necessária, sem
que eu empregue o mínimo esforço. Logo a seguir, exatamente do modo
14
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

como imaginei, consigo os melhores projetistas, engenheiros e


construtores, bem como o material de que necessito, na quantidade
certa. Oportunamente, alguém traz uma árvore, e já existe um lugar
apropriado para ela. Às vezes, ao receber dezenas de árvores, de uma
só vez, fico sem saber como agir. Interpretando que isso foi feito por
Deus, planto-as e constato que elas se encaixam maravilhosamente no
jardim, sem sobrar nem faltar. Sempre que isso ocorre, não posso deixar
de sentir, claramente, que tudo é realizado por Deus. Se desejo colocar
uma pedra ou uma planta em determinado lugar, elas me são entregues
dentro de um ou dois dias, no máximo. O que vêm a ser todas essas
ocorrências senão milagres? Caso eu começasse a enumerá-las, não
acabaria mais. E o que expus agora, não passa de uma pequena parte.
Com o tempo, pretendo escrever mais a respeito.

Este artigo tem como objetivo ajudar os leitores a compreender


que não é o ser humano que realiza, que ele é levado a fazer tudo de
acordo com o Plano de Deus. Pelos fatos relatados, fica bem claro que a
Vontade de Deus é construir um modelo como passo inicial da
construção do Paraíso Terrestre. Contudo, isso não é o bastante. É
preciso que cada indivíduo se torne um habitante do Paraíso, e agora é
chegado o momento em que isso é possível. Naturalmente, o lar
também se tornará Paraíso, e todos virão a ter uma vida paradisíaca.
Somente assim poderemos puxar as pessoas do Inferno e trazê-las à
salvação.

Eis a razão por que aconselho os fiéis a criar, o máximo possível,


um ambiente ao seu redor sem sofrimentos, pois isto está de acordo
com a Vontade de Deus. Enquanto não se conseguir eliminar os três
infortúnios – doença, pobreza e conflito –, não se poderá salvar outras
pessoas verdadeiramente. É preciso saber que isso não era possível
durante a Era da Noite, mas hoje já o é. Terminou a época dos
sofrimentos à que Buda Sakyamuni se referiu. Se as pessoas
compreenderem esta verdade, sentir-se-ão tomadas por uma alegria
infinita, jamais vivenciada pela humanidade.

5 de outubro de 1949
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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

RELIGIÃO “LOJA DE DEPARTAMENTOS”

Para entender mais facilmente o que é a nossa religião, vou


compará-la a uma loja de departamentos. Esta comparação não é a
mais apropriada para uma religião, mas considero-a a que melhor se
adequa à natureza de nosso trabalho. Eis os motivos:

Sempre afirmo que o cristianismo, o xintoísmo 7 , o budismo, o


confucionismo8, a filosofia, a ciência, a arte, enfim, todos os campos do
conhecimento, estão presentes em nossa religião. Dedicamos especial
atenção à doença e à saúde, que são do campo da ciência, e também à
agricultura, às artes e a outras áreas com enfoque diferenciado.

Como seu nome9 bem expressa, nossa religião tem por objetivo
empreender a grandiosa obra de salvação e, por isso, deve salvar a
tudo e a todos. Para tal, é preciso apontar as falhas existentes nos
setores relacionados à vida do ser humano indicando-lhe o mais elevado
direcionamento.

Realmente, o progresso da cultura contemporânea é incrível.


Entretanto, é igualmente inacreditável o número de falhas apresentadas
por ela. Uma vez que as superficiais são visíveis, a própria sociedade
consegue constatá-las; contudo, as profundas são mais difíceis de
perceber e, por essa razão, só podem ser corrigidas se desveladas pela
Luz de Deus. Por esse motivo, estamos dissecando e mostrando a
realidade de todos os setores da cultura atual e planejando o
estabelecimento de um mundo melhor. Somente dessa forma
poderemos alimentar esperanças quanto ao advento de uma era de
cultura paradisíaca.

7
Xintoísmo: Religião japonesa baseada em ritos e mitos que explicam a origem do mundo, do Japão
e da família imperial. Sua origem se confunde com a do povo japonês.
8
Confucionismo: Ideologia religiosa e sociopolítica criada por Confúcio (551 a.C. - 479 a.C.) na
China.
9
O nome de nossa religião em japonês é Sekai Kyussei Kyo, que significa literalmente “Igreja
Salvadora do Mundo”.

16
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Eis, em breves palavras, o sentido de religião “Loja de


Departamentos”.

28 de março de 1951

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

ULTRARRELIGIÃO

A maioria das pessoas toma por um sonho descabido o objetivo


da nossa Igreja — construir um mundo sem doença, pobreza e conflito,
ou seja, o Paraíso Terrestre.

Jesus Cristo anunciou que a chegada do Reino dos Céus estava


próxima, mas não disse que iria construí-lo. Buda Sakyamuni afirmou:
“Após a destruição da Lei Búdica, surgirá o Mundo de Miroku.” Não
declarou que esse mundo estivesse iminente; ao contrário, ele estaria
infinitamente longe: 5.670.000.000 (cinco bilhões seiscentos e setenta
milhões) de anos. Os seguidores do judaísmo oram pela vinda do
Messias, mas não sabem quando isso ocorrerá. Lendas da Índia
transmitidas desde a antiguidade sobre o surgimento de Tenrin
Bossatsu10, a era do Pedestal do Néctar, da Igreja Tenrikyo, o Mundo de
Serenidade e Paz, anunciado por Nichiren, e o Mundo do Pinheiro,
proclamado pela fundadora da Oomoto11, são referências ao surgimento
de uma era ideal, mas não foi indicado quando isso sobreviria. Devemos
pensar profundamente no porquê de ninguém ter mencionado a época
em que esse mundo seria concretizado.

Todas essas profecias foram de grande utilidade; mas, uma vez


que não houve anúncio nem da realização nem do plano de execução,
devemos interpretar que o momento ainda não chegara. Por outro lado,
sabemos que os ensinamentos pregados e praticados pelos fundadores
formaram a base de cada uma das religiões. Naturalmente, cada
fundador criou e divulgou suas doutrinas, formas e métodos adequados
aos diferentes povos e países. Evidentemente, as religiões foram
criadas sob o desígnio de Deus, necessárias e próprias a cada época,
localidade, povo, tradição, costume etc. Graças a isso, cultivou-se a
harmonia, e a cultura alcançou o deslumbrante progresso que hoje

10
Tenrin Bossatsu: Conhecido também como Tenrin Jo-o em japonês ou em sânscrito como
Cakravartin, é um termo usado nas religiões indianas para um governante universal ideal, que
governa o mundo de forma ética e benevolente.
11
Oomoto: Religião japonesa fundada, em 1892, por Nao Deguchi (1836-1918).

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

apresenta. Não fossem as religiões, o mundo estaria à mercê do mal ou,


talvez, destruído.

Se pensarmos assim, não é exagero dizer que os grandes feitos


dos fundadores de religiões e seus seguidores merecem nossa mais alta
consideração. Embora as religiões até hoje existentes tenham
conseguido fazer com que se evitasse a destruição do mundo,
permanece a dúvida: será que continuarão úteis para os mundos atual e
vindouro? Uma vez que as religiões tradicionais não têm sequer força
para salvar o mundo de hoje, fica claro que será impossível conter os
sofrimentos infernais e muito menos elevá-lo ao estado paradisíaco. De
fato, apenas alguns grupos sociais usufruem dos benefícios da
magnífica cultura moderna. Podemos apontar como a causa disso a
demasiada falta de espírito de harmonia e o incontrolável desejo de
conflito.

Uma observação sobre o mundo contemporâneo faz com que as


pessoas sensatas sintam a necessidade do aparecimento de uma
grande luz que dissipe as trevas, isto é, da força salvadora de uma
ultrarreligião. Nesse sentido, conscientes de que fomos incumbidos da
responsabilidade de atuarmos como uma ultrarreligião, estamos
apresentando resultados surpreendentes.

30 de janeiro de 1950

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

RELIGIÃO VIVA

Os leitores poderão estranhar quando eu digo que há religiões


vivas e mortas. É justamente o que pretendo explicar agora.

Religião viva é aquela que está associada ao cotidiano, e a morta


é exatamente o oposto. Infelizmente, é raro encontrar uma religião
dentre as muitas existentes que esteja perfeitamente entrosada no
cotidiano.

Em sua maioria, as doutrinas são elaboradas com perfeição, mas


lamentavelmente não podemos esperar muito de sua força de edificação
do caráter humano. Na época em que os fundadores de cada religião
atuavam, há centenas ou milhares de anos, certamente essa força era
grande e estava de acordo com a situação social da época. No entanto,
sabemos que a capacidade de propagação dessas religiões foi
enfraquecendo com o passar do tempo, até atingir a condição em que
hoje elas se encontram. Não há o que se fazer, porque este é o curso
natural das coisas, e isto não diz respeito apenas à religião, mas a tudo.
Só que, no caso da religião, esta situação demorou, mas finalmente
ocorreu.

Mesmo assim, nesse espaço de tempo, surgiram várias novas


religiões adequadas à sua época, fato este observado em qualquer país.
Todavia, é comum que elas acabem desaparecendo porque dificilmente
têm capacidade para superar as anteriores. Entre as religiões japonesas
surgidas na Idade Moderna que ainda mantêm considerável influência,
podemos citar Nichiren Shu12 e Tenrikyo.

Até aqui me referi à trajetória das religiões de forma geral. Agora,


desejo mostrar como são as religiões na atualidade.

É do conhecimento geral que, a partir do século XVIII, o


desenvolvimento da cultura científica vem constituindo uma verdadeira
12
Nichiren Shu: Religião da linhagem budista criada por volta de 1872, fundamentada nos
ensinamentos do monge budista Nichiren ou Nichiren Shonin (1222-1282).

20
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

ameaça às religiões e é fato inegável que isso contribuiu para sua


decadência. A ciência dominou a tal ponto a mente humana, que, hoje, o
ser humano só aceita o que vem da ciência. Não bastasse isso, esse
comportamento deu origem ao pensamento ateísta, que leva à
degeneração moral desenfreada, criando desordem social e
transformando este mundo em um verdadeiro inferno. Ainda há religiões
antigas que se esforçam para edificar o ser humano por meio de
ensinamentos os quais foram sendo aperfeiçoados após sua elaboração,
centenas ou milhares de anos atrás. Entretanto, por terem se
distanciado demais da atualidade, falta a elas força de edificação e,
falando francamente, a perda de adequação à realidade as torna meras
antiguidades. Elas se assemelham às obras de arte, que, na época da
sua criação, eram apreciadas em todo o seu esplendor, mas hoje
perderam sua utilidade e estão limitadas a ser contempladas como
meros patrimônios culturais. Dentre as novas religiões japonesas, há
algumas que dão uma nova roupagem a esses patrimônios culturais
para atrair as pessoas; mas, com certeza, terão existência limitada.
Infelizmente, a religião foi superada pelo formidável progresso da cultura
e ficou para trás. Exemplificando, é como se quiséssemos usar carros
de boi e liteiras, algo de pouca utilidade numa época em que nos
servimos de aviões, automóveis e da tecnologia sem fio.

Pode parecer um autoelogio, mas preciso falar da nossa religião.


Ela respeita a História, mas não se prende a isso: avança no tempo
seguindo diretrizes próprias, de acordo com os desígnios de Deus. Além
disso, por ser uma religião nova com sangue jovem correndo em suas
veias, ela desenvolve atualmente projetos que abrangem a reforma da
agricultura e da medicina e ainda aponta todas as falhas da cultura,
adotando, como princípio norteador, o ideal de uma nova cultura. Uma
das manifestações mais concretas desse ideal vem a ser a construção
do modelo do Paraíso Terrestre e do Museu de Arte, obras de
vanguarda, que, como locais sagrados, visam reconfortar as almas
maculadas e exaustas de seus visitantes e, elevando o caráter humano,
servem como antídoto contra os divertimentos vulgares, tão comuns nos
dias de hoje.

21
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

De acordo com o exposto acima, no âmbito do indivíduo, nossa


obra consiste em contribuir para a saúde física, para a superação da
pobreza e para a melhoria do pensamento humano. No âmbito coletivo,
sua finalidade é criar uma sociedade alegre e sem preocupações.
Sentimo-nos imensamente felizes ao saber que, ultimamente, nosso
trabalho está sendo reconhecido pelos mais esclarecidos e tornando-se
alvo de sua atenção. Embora, no momento, seja um trabalho de
pequena escala, quando ele for ampliado em âmbito mundial, surgirá, a
partir do Japão, o plano de um mundo ideal, repleto de paz e felicidade.
Afianço que isso não é, simplesmente, um sonho.

Portanto, o que vem a ser uma verdadeira religião viva, senão a


nossa, com todos esses exemplos? O que me deixa desapontado é a
sociedade atual, que olha as novas religiões com indiferença e desprezo.
Isso ocorre principalmente na classe intelectual que, mesmo quando tem
contato com a nossa religião, geralmente, evita expor o fato ao público.
Entretanto, eu compreendo perfeitamente a razão desse comportamento.
As religiões antigas geralmente contam com espantoso número de
adeptos, mas estes, na maioria, são indivíduos de pouca cultura. Entre
as religiões novas, há algumas que não despertam nenhum interesse
devido às suas teorias e práticas excêntricas; outras possuem, em seus
princípios, componentes supersticiosos em grande proporção que o bom
senso nos leva a rejeitar. Creio que essa situação não durará muito
tempo, mas desejo que todas as pessoas envolvidas reflitam sobre o
assunto.

Há, também, os estudiosos de religiões que, para adaptar os


antigos ensinamentos de santos, sábios e fundadores de religiões à
época atual, os remodelam e dão a eles uma nova roupagem. Isso lhes
confere uma aparência progressista e os torna de fácil aceitação pela
classe intelectual, mas restam dúvidas quanto à sua utilidade para a
vida prática.

O assunto me faz lembrar o pragmatismo de William James


(1842-1910), renomado filósofo americano. Pragmatismo significa
filosofia em ação; porém, eu proponho alterar para religião em ação.
4 de novembro de 1953
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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

RELIGIÃO CRIADORA DE PESSOAS FELIZES

Em princípio, o que vem a ser a religião? Ela teve origem no amor


de Deus, para conduzir as pessoas infelizes à felicidade. Ninguém
ignora que muitos se esforçam, em vão, para serem afortunados. Raros
são os que conseguem ser felizes, mesmo depois de uma vida inteira de
lutas. Longe de ser feliz, a maioria das pessoas vive uma sucessão de
infelicidades. Mesmo que a teoria aprendida através da instrução
escolar ou da leitura de biografias e livros sobre grandes personalidades
seja fielmente posta em prática, são raros os casos bem-sucedidos. A
teoria bem embasada merece admiração, mas todos, por experiência
própria, sabem que, na prática, as coisas não ocorrem de acordo com
ela.

Por exemplo, quem segue fielmente o caminho da honestidade, é


visto como ingênuo ou tolo; entretanto, se muda a forma de agir e faz
coisas suspeitas, cai no descrédito ou até mesmo nas malhas da lei. Por
fim, o indivíduo não sabe como proceder. Por esse motivo é que os
espertos definem que o melhor é viver desonestamente simulando
atitudes honestas. Essa filosofia de vida se disseminou e, dentre seus
adeptos, os melhores se tornam os bem-sucedidos, razão por que as
pessoas tendem a seguir tais exemplos, e os males sociais não
diminuem.

Pelo mundo ser assim é que se diz que os honestos saem


perdendo. Portanto, quanto mais correto for o indivíduo, mais ele se
arrisca a cair no conceito de ultrapassado e ser tachado de inflexível.
Com frequência, observa-se que aqueles que pregam a justiça e a
retidão, são rejeitados e fracassam na sociedade.

É enorme o meu esforço para empunhar a bandeira do senso de


justiça e de retidão diante de semelhante mundo. As pessoas em geral
veem essa atitude como tolice e devem me achar um indivíduo
excêntrico, covarde e sem ambições, como qualquer outro religioso.

23
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Por tudo isso, no passado, fui alvo de ações judiciais e, também,


jornais e revistas escreveram sobre mim de forma sensacionalista. Este
tratamento cruel que recebi, se deve ao fato de eu ter escrito
destemidamente contra o mal, bem como à inveja suscitada por conta
do nosso rápido crescimento. Ultimamente, apesar de todas as pressões,
em vista da constância e da força com que estamos expandindo, a
sociedade nos tem visto com outros olhos. Acima de tudo, alegra-nos
que a situação tenha se abrandado, facilitando nosso trabalho. Isso se
deve ao fato de termos Deus em nossa retaguarda, o que nos permite
ultrapassar as adversidades com segurança. Ou seja, nossa religião
possui uma grande proteção não encontrada nas demais.

Podemos compreender a respeito disso, observando a forma de


atuação das religiões de até agora. Em linhas gerais, existem dois tipos.
O primeiro é aquele que, reivindicando justiça, segue destemidamente.
A religião Hokekyo13 de Nichiren, é o melhor exemplo disso e, por essa
razão, sofreu perseguições atrozes. Em consequência dessas
adversidades, enquanto o fundador esteve à frente, não houve uma
expansão expressiva. Só após algumas centenas de anos é que ela
conseguiu alcançar seu atual prestígio. O segundo, em contrapartida,
temendo perseguições, busca caminhos seguros. Então, mesmo que
consiga crescer, necessitará de um longo tempo; caso contrário, será
extinta. É nesse ponto que se encontra a dificuldade.

Felizmente, com o advento da democracia, a liberdade religiosa


foi estabelecida. Por esse motivo, diferentemente da situação anterior ao
término da Segunda Guerra Mundial, agora, vivemos uma época
abençoada e conseguimos livrar-nos de uma fatal perseguição religiosa.
Assim sendo, tendo a retidão e a justiça como princípios norteadores,
estou, passo a passo, eliminando o mal e avançando em direção ao
bem.

A seguir, tratarei da questão da felicidade do ser humano.

13
Religião Hokekyo: O mesmo que religião Nichiren Shu.

24
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Obviamente, é o bem que possibilita a criação da felicidade,


sendo desnecessário dizer que, para fazer o bem prevalecer, deve-se
ter força suficiente para vencer o mal. Entretanto, até agora, as religiões
careciam dessa força; por conseguinte, não proporcionavam a felicidade
verdadeira. Foi a teoria da Iluminação do budismo que correspondeu
aos anseios do povo, que já tinha desistido da matéria e desejava, ao
menos, alcançar a paz espiritual. No cristianismo, por outro lado,
pregou-se a resignação por meio da expiação, a exemplo de Jesus
Cristo. E a conhecida frase: “(...) a qualquer que te ferir na face direita,
volta-lhe também a outra” 14 , também se refere ao princípio de não
resistência, isto é, ao espírito de derrotismo diante do mal. Como as
religiões tradicionais não conseguem vencer o mal em termos materiais,
criou-se a teoria da negação das graças recebidas nesta vida. Não é de
estranhar o surgimento da classificação de superior para a religião que
visa à salvação do espírito, e de inferior, para aquela que consegue
proporcionar, também, as graças recebidas nesta vida. Contudo, essa
teoria não passou de um recurso até determinada época. Darei alguns
exemplos.

Mesmo torturadas por uma doença prolongada, há pessoas que


se dizem satisfeitas, alegando que estão salvas quando, na realidade,
estão apenas resignadas, sufocando seus verdadeiros sentimentos. Isso
significa enganar a si mesmas. Na realidade, é o restabelecimento da
saúde que faz nascer a autêntica satisfação.

Desde tempos antigos, sempre houve famílias que, não obstante


o ardor de sua fé, não foram agraciadas materialmente, permanecendo
infelizes. Dessa forma, acabaram por se iludir, julgando que a essência
da religião só objetiva a salvação espiritual.

Entretanto, a Igreja Messiânica salva tanto o espírito como a


matéria. Podemos afirmar que ela vai além disso. Em poucos anos de
atuação, nossa religião já está construindo Solos Sagrados, museu de
arte e outras obras em diversas localidades, e tudo isso depende

14
Mateus 5:39 (Bíblia de Estudo Almeida).

25
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

inteiramente dos donativos dos fiéis. E como abominamos a exploração,


temos, como diretriz, contar apenas com o recebimento do donativo
espontâneo. Apesar disso, o fato de se conseguir a quantia necessária
para empreendimentos de tamanha envergadura é realmente milagroso.
Isso prova a prosperidade dos fiéis. Longe de ser temporário, o donativo
tende a aumentar, razão por que nunca me preocupei com dinheiro.

Tudo é uma questão de época porque, quando as religiões


antigas surgiram, elas podiam ser de caráter shojo15 e, por esse motivo,
o fato de seus fundadores levarem uma vida de privações não constituía
nenhum problema. Todavia, hoje isso não é viável. Tudo adquiriu caráter
universal, de modo que é preciso que nossas atividades sejam de
grande porte, para salvar a humanidade. Quanto maior essa escala,
maior o número de pessoas que serão salvas. Por essa razão, ao
tomarem conhecimento dos nossos grandes projetos, com certeza, as
pessoas mudarão sua visão em relação à nossa religião.

10 de junho de 1953

15
Shojo: O termo refere-se à religião de caráter fundamentalista, de preceitos rigorosos, que preza
pelo bem-estar do indivíduo e não pelo bem-estar da sociedade.

26
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

RELIGIÃO QUE REVELA DEUS

Na sociedade, quando se fala sobre fé a pessoas que não têm


religião, é comum elas reagirem negando a existência das divindades e
pedindo que provemos tal existência com toda a clareza. Assumem uma
atitude pretensamente culta, dizendo não poder perder tempo com
superstições.

Essa tendência é notadamente acentuada entre as pessoas da


classe intelectual. Todavia, não podemos criticá-las, porque elas têm
suas razões. Sua postura explica-se pelo fato de que muitas das
religiões são anticientíficas, sendo raras as que não cheiram a
superstição. Muitas não conseguem dar provas claras da existência de
Deus, deixando o assunto na obscuridade.

Portanto, não é de se estranhar que haja tantas pessoas que não


mostrem interesse pela questão da fé.

No entanto, nossa religião mostra, claramente, a quem quer que


seja, que Deus existe. Todos os que entram em contato com ela,
sentem-se maravilhados ante a constatação da existência de Deus. A
melhor prova está nos inúmeros relatos de milagres e graças
alcançados pelos nossos fiéis. Infelizmente, são pouquíssimas as
pessoas que creem por meio da simples leitura ou explanação oral
desses relatos. A maioria acha-se impedida de aceitar os fatos como
realmente são porque nos analisam sob uma ótica embasada em
crenças de nível inferior. Em parte, isso se entende, mas para religiões
como a nossa, não deixa de ser lamentável. Costumo afirmar que nós
não somos uma simples religião, e sim, uma ultrarreligião, uma
grandiosa obra de salvação.

Muitos de nossos fiéis dizem que, quando leram nossas


publicações pela primeira vez, não conseguiram crer integralmente
nelas, achando muito diferentes não só dos ensinamentos de outras
igrejas como também das teorias científicas. Considerando que
nenhuma experiência é perdida, eles começaram a receber Johrei
27
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

cheios de desconfiança. Perplexos com o fato de ele consistir apenas no


levantar das mãos, pensaram em desistir, julgando impossível obter, por
meio de um ato de tamanha simplicidade, curas que não se conseguem
nem mesmo pela tão avançada medicina atual. Entretanto, para sua
surpresa, sentindo-se mais dispostos no dia seguinte, optaram por
persistir um pouco mais e melhoraram rapidamente. Assim, eles ficam
mais impressionados do que felizes. Este é o testemunho unânime dos
que relatam suas experiências.

É justamente porque nossa religião evidencia extraordinárias


graças recebidas nesta vida que os intelectuais cometem um engano,
chamando a isso de superstição. Essa atitude não deixa de ser um
grande obstáculo; contudo, existem aqueles que pensam corretamente e
se tornam felizes por ingressarem na nossa fé, aceitando plenamente a
realidade evidenciada. Tanto os mais intransigentes como os mais
devotados à ciência acabam se dando por vencidos diante das provas
da existência de Deus apresentadas pela nossa religião através de
inúmeros milagres nunca antes manifestados.

9 de janeiro de 1952

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

ELIMINAÇÃO DA TRAGÉDIA

Entre tudo o que há no mundo, o que o ser humano mais


abomina é a tragédia. Eliminá-la totalmente é impossível, mas não será
tão difícil diminuí-la. Passemos a estudar sua natureza.

O fato de a maioria das tragédias ser causada pela doença


constitui uma implacável realidade. Entretanto, elas também são
geradas pelas questões amorosas e pela desonestidade motivada por
interesses materiais. Analisando sua causa, no entanto, percebe-se que
todas as tragédias têm sua raiz na enfermidade espiritual. Dizem que
uma mente sã habita um corpo são, e isso é verdade. Após longos anos
de pesquisa, verifiquei que a paixão desregrada, a imoralidade, a
desonestidade, a impaciência, o alcoolismo, a preguiça, a delinquência
juvenil e outros desvios de comportamento estão quase sempre
presentes em físicos doentes. Infelizmente, nem mesmo apelando para
a medicina ou para outros meios, ainda não se descobriram métodos
eficientes para curar as doenças e restabelecer a saúde física e
espiritual. Ainda que se tivesse detectado a causa, não existia ainda
uma forma para resolver, de fato, o problema. Houve quem se
orgulhasse, dizendo ter descoberto a origem delas e seus tratamentos.
Contudo, frequentemente, estes tratamentos caem em desuso, pois
seus efeitos não são senão temporários. Casos assim ocorreram com
frequência. É realmente desolador. Todavia, em nossas publicações,
encontramos muitos relatos de cura de doenças consideradas
gravíssimas, e a alegria e a gratidão expressas nesses relatos nos
comovem até às lágrimas.

Conforme pudemos observar, a verdadeira solução das doenças


e de outras desgraças depende do surgimento de uma força invisível, e
só aos que a experimentarem é dado reconhecer quão incomensurável
é a Força de Deus. Os homens modernos não se deixam convencer
senão através da realidade ou de provas. Portanto, sem apresentar
resultados concretos, é inútil tentar guiá-los à fé por meio de princípios
bem elaborados. Para eles, a salvação da humanidade e o incremento
do bem-estar da sociedade não passam de um sonho.
29
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

A essência da verdadeira fé consiste em mover o que é visível


pela ação de um poder invisível. Esta força está sendo manifestada pela
nossa Igreja e, por essa razão, creio eu, poderíamos dizer que ela é a
religião do poder.

As religiões tradicionais, em sua maioria, se fundamentam nos


ensinamentos, o que faz com que busquem despertar a alma de seus
fiéis de fora para dentro. Todavia, o ato purificador empregado pela
nossa Igreja – o Johrei – projeta a Luz espiritual diretamente na alma,
despertando-a instantaneamente, isto é, ele transforma a pessoa sem a
intervenção humana, deixando as pregações para segundo plano. Buda
Sakyamuni afirmou que todos têm a essência de buda16 em seu interior,
e aqueles que atingirem essa compreensão tornam-se bossatsu17. Isso
é realmente verdade.

Nessa linha de raciocínio, aqueles que ingressam em nossa


religião, em curto espaço de tempo, vão galgando níveis de Iluminação
mais elevados até atingirem a Suprema Iluminação 18 . Além de não
precisar preocupar-se com as próprias tragédias, tornam-se qualificados
para eliminar as tragédias alheias.

11 de junho de 1949

16
Buda: Em sânscrito, buddha significa “desperto” ou “iluminado”. É um título dado no budismo
àqueles que despertaram plenamente para a verdadeira natureza dos fenômenos e se puseram a
divulgar tal descoberta aos demais seres.
17
Bossatsu: Em sânscrito, bodhisattva. Termo budista utilizado para designar uma pessoa que já tem
um considerável grau de Iluminação e que procura usar sua sabedoria para ajudar outros seres
humanos a se livrar do sofrimento.
18
Suprema Iluminação: Em japonês shokaku, em sânscrito samyak-sambodhi: o nível mais alto de
Iluminação segundo o budismo.

30
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

ESCLARECIMENTO DA VERDADE

Antes de mais nada, qual é o verdadeiro objetivo da religião?


Sem dúvida, é o esclarecimento da Verdade.

E o que é a Verdade?

A Verdade é a natureza tal qual ela se apresenta. O Sol desponta


no leste e desaparece no oeste; o ser humano nasce e, inevitavelmente,
caminha para a morte. O budismo se refere a isso com as expressões
“tudo o que nasce está sujeito a desaparecer” e “todo encontro está
condenado à separação”. O fato de o ser humano manter-se vivo por
meio da respiração e da alimentação, evidentemente, também é
verdade. Preciso insistir sobre assuntos tão óbvios porque a atual
situação da sociedade é absurda.

Observando os revoltantes acontecimentos deste mundo, o caos


reinante na sociedade, os conflitos, a desordem, as más ações etc., é
impossível negar que há mais fatores que contribuem para a infelicidade
do que para a felicidade da humanidade. Precisamos, pois, refletir sobre
a origem disso. Segundo o meu ponto de vista, é evidente que a causa
reside no demasiado afastamento da Verdade, embora não se perceba
isso.

Vejo que o homem moderno perdeu a noção da Verdade. Parece


que a vida se mostra tão difícil para ele, que não consegue refletir sobre
o assunto. Além disso, até hoje, a Verdade não era clara nem mesmo
para as religiões. Por esse motivo, não era raro pregar a pseudoverdade
acreditando estar transmitindo a Verdade. Se esta tivesse sido revelada
tal qual ela é, a sociedade humana deveria estar muito melhor do que é
visto hoje, e o Paraíso estaria concretizado até certo ponto.

Contudo, com a chegada do tempo, Deus revelou Sua Vontade e,


por meu intermédio, está explicando e demonstrando a Verdade. Neste
sentido, meus diversos escritos esclarecem a Verdade de maneira que
qualquer pessoa possa compreender com facilidade. Portanto,
31
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

certamente, a correta visão sobre a Verdade aflorará naqueles que


lerem atentamente minhas palavras com a mente livre de preconceitos.

Vou explicar por meio de situações que são familiares a todos. O


ser humano adoece porque se distancia da Verdade, e a medicina não
consegue curá-lo porque também está fora da Verdade. Política errônea,
má ideologia, sofrimentos decorrentes do aumento de crimes, crise
financeira, inflação e deflação, tudo isso também decorre desse
afastamento.

Se não houver nenhum desvio da Verdade, tudo o que for correto


caminhará de acordo com o desejo do ser humano, pois Deus criou a
sociedade humana dessa maneira. Assim, não seria difícil surgir uma
sociedade ideal, virtuosa e bela, em que as pessoas vivem com alegria
e felicidade. Nisto reside a possibilidade do advento do Paraíso
Terrestre que venho propondo.

Diante disso, talvez alguns achem que há muitos pontos


controversos em minha teoria, mas na realidade não é nada disso. Tudo
o que eu digo é muito óbvio. Se esses pontos parecerem estranhos é
porque a análise parte da perspectiva da pseudoverdade. Quanto mais
controversa minha teoria parecer, mais evidente é o contrassenso
vigente na sociedade. Portanto, podemos dizer que aquele que aceita
minha teoria sem objeções, é alguém que assimilou a Verdade.

Deus concedeu ao ser humano a liberdade infinita. Eis a Verdade.


Às demais criaturas, como os animais e os vegetais, Ele permitiu a
liberdade limitada. Dessa forma, a nobreza do ser humano reside nesta
diferença. Falar da sua liberdade é dizer que, quando ele se eleva,
torna-se divino; quando se degrada, equipara-se ao animal. Em outras
palavras, ele existe entre os dois extremos. Se desenvolvermos esse
princípio, veremos que, dependendo das ações do ser humano, o
mundo se torna um paraíso jubiloso, ou ao contrário ,um inferno
desolador. Esta é a Verdade. Não há dúvidas quanto à escolha: a não
ser aqueles de espírito maligno de nascença, todos desejarão o paraíso.

32
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

De acordo com o que acabamos de expor, a concretização do


mundo paradisíaco é, em última instância, o objetivo da humanidade. E
somente por meio do esclarecimento da Verdade é possível atingi-lo.
Uma vez que esta é a missão da religião, estou sempre ensinando a
Verdade por meio da fala e da escrita. Assim sendo, dedico-me
intensamente dia e noite como aquele que esclarece a Verdade.

30 de janeiro de 1950

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

VERDADE, BEM E BELO

Conforme sempre digo, o Paraíso Terrestre que temos por ideal,


é o mundo de perfeita Verdade, Bem e Belo. Gostaria de escrever a
respeito com maiores detalhes.

Seguindo a ordem, começarei por explicar o que entendemos por


Verdade. Evidentemente, referimo-nos ao esclarecimento da Verdade,
isto é, à própria realidade, à maneira correta de ser, sem o mínimo de
erro, pura e transparente. A cultura desenvolvida até o presente
equivocou-se e considerou aquilo que não era Verdade como a própria
Verdade. É por essa razão que existiam muitas verdades aparentes.
Nem é preciso dizer que foi devido à inferioridade do conhecimento
humano que as pessoas não percebiam isso.

Basta observar a sociedade atual para percebermos que quase


todas as pessoas se veem forçadas a trabalhar arduamente para
sobreviver e vivem dia após dia, sem qualquer parcela de esperança.
Embora estejam se afogando num mar de preocupações causadas pela
doença, pelas dificuldades financeiras e pelo medo da guerra, elas
insistem em dizer que este mundo em que vivemos é desenvolvido e
civilizado. Não obstante, observando com rigorosa imparcialidade,
percebemos que quase todas as pessoas lutam entre si, odeiam-se e
entram em choque, tal como os animais, agonizando num turbilhão de
insegurança e ansiedade. É como se estivéssemos olhando o próprio
Inferno. Essa situação toda que descrevi, é justamente o resultado da
cultura da pseudoverdade. Mesmo as pessoas mais esclarecidas não
percebem isso e, acreditando tratar-se de um mundo civilizado,
continuam a enaltecê-lo. São, realmente, dignas de nossa compaixão...

O mesmo se verifica quando tratamos, por exemplo, da questão


da doença. Pelo fato de a medicina estar em desacordo com a Verdade,
todos os lugares estão repletos de doentes. É tuberculose, disenteria,
meningite, derrame cerebral, paralisia infantil: enfim, são incontáveis
tipos de doenças. E vejam a justificativa que dão a isso: “Antigamente,
também existiam muitas enfermidades, só que a medicina não estava
34
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

desenvolvida a ponto de descobri-las; hoje, porém, ela adquiriu essa


capacidade.” De qualquer maneira, nosso desejo é que o número de
doentes diminua e que o de pessoas realmente saudáveis aumente.
Apenas isso.

O homem contemporâneo teme exageradamente as doenças.


Por essa razão, as autoridades e os especialistas advertem em relação
à higiene e empenham-se na prevenção de doenças. Um exemplo é a
vacina, que é preventiva, não objetiva a cura, sendo apenas paliativa.
Dessa forma, a medicina nem ao menos sabe distinguir a cura
temporária da cura definitiva. E, mesmo que soubesse, de nada
adiantaria, pois desconhece o método para curar as doenças. E uma
vez que ignora completamente que as doenças são uma providência de
Deus para aumentar a saúde, empenha-se tão simplesmente para deter
sua evolução, pensando que isso é progresso. Além disso, por total
desconhecimento de que o método para detê-las é justamente o que as
provoca, quanto mais a ciência progride, mais se multiplicam as
enfermidades. Vejam: o número de doentes só aumenta, e a resistência
física diminui cada vez mais. Por essa razão, as pessoas temem a
fadiga e a insônia, não conseguem perseverar nem fazer maiores
esforços e, caso pratiquem exercícios um pouco mais pesados, ficam
exaustas. É descabida a busca da saúde apenas pelo incentivo à prática
de exercícios, visto que a realidade nos mostra mortes prematuras de
esportistas profissionais. Isso não é incompreensível? Por outro lado, ao
seguirem o princípio sobre a saúde ensinado pela nossa religião e ao
receberem Johrei, o fantasma das doenças se dissipa, e as pessoas se
tornam verdadeiramente saudáveis. Esta é a realidade.

A seguir, escreverei a respeito do Bem, que, evidentemente, é o


oposto do mal. Todavia, o que é o mal? Ele é causado pelo ateísmo,
que nasceu do pensamento materialista, e o bem é o seu oposto:
nasceu do teísmo. Esta é a Verdade. Entretanto, como a premissa da
ciência é a negação desse teísmo, que é a Verdade, quanto mais ela
progride, mais aumenta o mal. E mesmo que a cultura progrida, isso
será apenas superficial. Dessa forma, reconhecemos os méritos da
ciência, mas não podemos deixar de levar em conta o mal que ela gera.
35
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Aqueles que não percebem isso, enaltecem apenas seus pontos


positivos e, quanto aos negativos, elaboram habilidosas teorias,
subjugando as classes dirigentes, levando-as a concluir que nada terá
solução sem a ciência. Assim, a felicidade acabou ficando cada vez
mais distante.

Em seguida, analisemos o Belo, que também constitui um


problema.

Acompanhando o desenvolvimento da cultura, multiplicaram-se


os elementos do belo. Individualmente falando, estão em nível
satisfatório; mas coletivamente, não se consegue usufruir deles.
Somente uma parte da sociedade – a classe privilegiada –, desfruta de
roupas bonitas, boa alimentação e belas moradias, enquanto o povo em
geral mal consegue alimentar-se, não tendo condições para pensar no
belo. Tais pessoas dispõem de alimento apenas para matar a fome; de
casa, somente para dormir; das ruas, apenas para transitar, e de um
transporte coletivo, em que mal dá para entrar, pois têm de enfrentar os
empurra-empurras (talvez isso ocorra somente no Japão). Dessa forma,
trata-se de uma sociedade que não consegue usufruir das belezas
naturais, que são dádivas de Deus, tais como as montanhas, os rios, as
plantas e as flores, nem das artes e do belo criados pelo ser humano.
Assim, não obstante o grande desenvolvimento da cultura, uma vez que
não é toda a humanidade que pode usufruir de suas benesses, o mundo
contemporâneo é realmente o paraíso dos ricos e o inferno dos pobres.
A causa é a existência de uma grande falha em algum ponto da
civilização. Somente quando esse equívoco for corrigido e a felicidade
puder ser desfrutada equitativamente, o mundo será, de fato, civilizado.
Esta é a missão da Igreja Messiânica Mundial.

Por tudo o que foi exposto, creio que puderam entender o


verdadeiro significado da Verdade, do Bem e do Belo. Contudo, o mais
importante é o poder de concretizá-los. De nada adiantarão as palavras
se elas constituírem apenas um lema escrito num cartaz. Todavia,
devemos alegrar-nos, pois, finalmente, este sonho tão almejado está
para tornar-se uma realidade em nosso mundo.
25 de setembro de 1953
36
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

VERDADE E PSEUDOVERDADE

Desde tempos remotos, fala-se a respeito da Verdade, mas


parece que ninguém fala sobre a pseudoverdade, ou melhor, sobre a
verdade aparente. Entretanto, para analisarmos qualquer problema, será
necessário saber diferenciá-las, pois essa distinção exerce enorme
influência no resultado. Quando procedemos à análise por essa ótica,
observamos que são numerosas as vezes em que a verdade aparente é
tida erroneamente como Verdade, e a maioria das pessoas não o
percebe.

A Verdade e a verdade aparente também estão presentes na


religião, na filosofia, na ciência, na arte e até na educação. A verdade
aparente desmorona com o passar dos anos; porém, a Verdade é eterna
e imutável. Quando se descobre algo novo, no início, as pessoas
acreditam tratar-se da maior de todas as verdades; todavia, com o
aparecimento de novas teses e descobertas, é comum que ela venha a
desmoronar. Da mesma forma, por mais notável que seja uma religião,
quem pode garantir que ela não se extinguirá após centenas ou milhares
de anos? Não seria uma extinção total, mas somente da parte que
constituía a verdade aparente e é óbvio que se manteria a parte
verdadeira. Mesmo que não possuísse nada que pudesse ser mantido,
essa religião não seria alvo de críticas, pois cumpriu sua missão de
contribuir para o progresso da cultura. É inegável que, quanto mais
próxima da Verdade a verdade aparente estiver, mais longa será sua
vida; quanto mais distante, mais curta.

Apesar de o ato de distinguir a Verdade da verdade aparente ser


da responsabilidade dos intelectuais e dos líderes da época, raros são
aqueles que têm essa capacidade fora do comum. Às vezes, a verdade
aparente pode conservar-se por longo tempo. O absolutismo e o
feudalismo são verdades aparentes que foram tidas como Verdade. O
mesmo se pode dizer em relação ao fascismo de Mussolini (1883-1945),
ao nazismo de Hitler (1889-1945) e à política expansionista de Tojo19,

19
Hideki Tojo (1884-1948), primeiro-ministro do Japão no período de 1941 a 1945.

37
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

que tiveram pouca duração. É interessante que, na época, o fato passou


despercebido e, momentaneamente, os povos das nações governadas
por aqueles líderes acreditaram tratar-se da Verdade, embora fosse uma
verdade aparente. Devido a essa crença, até a vida foi encarada
levianamente, e não podemos esquecer quantas pessoas foram vítimas
de tais enganos. Diante disso, percebemos como é terrível a verdade
aparente.

Não podemos deixar de observar que a Verdade e a verdade


aparente estão presentes em grande medida também na religião.
Quantas religiões surgiram e desapareceram! Apesar de terem sido
gloriosas no início, tiveram uma vida breve, não deixando qualquer
vestígio. Isso ocorreu porque elas se fundamentavam na verdade
aparente. Entretanto, se for uma religião com valores em consonância
com a Verdade, mesmo que por algum tempo sofra uma forte
perseguição, um dia, sem dúvida alguma, conseguirá reerguer-se e
tornar-se uma importante religião. Podemos fazer essa afirmativa
observando as grandes religiões da atualidade.

30 de janeiro de 1950

38
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

EU ESCREVO A VERDADE

Comecei a escrever artigos há mais de dez anos; naturalmente,


apenas sobre assuntos relacionados à fé. Diferentemente de outros
fundadores de religiões, procurei não empregar um tom formal, mas ao
mesmo tempo utilizei uma linguagem que todos pudessem compreender
facilmente, sem cair na impolidez. Todavia, aqui temos um problema.
Por exemplo, as oitenta e quatro mil sutras budistas, a Bíblia cristã, os
ensinamentos exotéricos da religião Shingon 20 , os ensinamentos de
Shinran 21 e de Nichiren, os salmos da fundadora da Tenrikyo, o
Ofudesaki22 da fundadora da Oomoto, todos eles têm um lado negativo,
isto é, cheiram exageradamente a religião. Entretanto, também têm seu
aspecto positivo, pois possuem um mistério que ora julgamos entender,
ora nos parece incompreensível, e talvez seja por isso mesmo que eles
exerçam certa atração. Uma vez que é difícil interpretá-los, dependendo
da pessoa, esses ensinamentos podem ser compreendidos de
diferentes maneiras, o que facilita a formação de ramificações. Além
disso, a História nos mostra que, quanto maior for o número de adeptos
de uma religião, mais ocorrerão subdivisões que lutam entre si. Assim
sendo, não conseguindo captar a essência da fé, os fiéis
frequentemente se sentem confusos e dificilmente conseguem alcançar
o verdadeiro estado de paz interior.

Diante dessa realidade, seria praticamente impossível unificar


harmoniosamente até mesmo uma única religião por meio desses
ensinamentos. Consequentemente, a união de todas elas torna-se
impensável. Este deve ser, também, o motivo do aparecimento de novas
religiões a cada ano que passa. Observando somente o Japão, notamos
que a tendência atual é aumentar o número de religiões
proporcionalmente ao crescimento da população.

20
Shingon: Religião de linhagem budista fundada no Japão há mais de 1.200 anos pelo monge Kobo
Daishi (774-835).
21
Shinran: Shinran Shonin (1173-1263) foi um monge budista japonês que fundou a religião de
linhagem budista Jodo Shinshu.
22
Ofudesaki: Livro sagrado de revelações divinas da religião Oomoto.

39
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Jeová, Deus, Logos, Tentei, Mukyoku, Amaterassu Okami,


Kunitokotati-no-Mikoto, Jesus Cristo, Buda Sakyamuni, Amida e Kannon
constituem o alvo de devoção de diversas religiões. Além destes, que
são os principais, poderíamos citar Mikoto, Nyorai, Daishi e inúmeros
outros. Sem dúvida alguma, não levando em conta Inari, Tengu, Ryujin e
mais alguns, que pertencem a crenças populares, eles são divindades
de alto nível. É indiscutível que todos se originam do único e verdadeiro
Deus, isto é, do Supremo Deus.

Até hoje, contudo, cada religião se considera mais elevada que


as demais, havendo certa discriminação entre elas. Dessa forma, é
impossível promover a união de todas. Apesar disso, o objetivo das
religiões é o mesmo. Ou seja, não há uma sequer que não deseje a
concretização do Paraíso na Terra, do mundo paradisíaco, do mundo
ideal, em que toda a humanidade é feliz.

Entretanto, o que é preciso para que este mundo se concretize?

É necessário que surja uma religião que promova a união do


mundo inteiro. Para tanto, deverá ser grandiosa e ultrarreligiosa a ponto
de toda a humanidade crer nela. Não quero dizer que essa religião seja
a Igreja Messiânica, mas a missão desta é ensinar o meio que
possibilitará a realização do mundo ideal, ou seja, mostrar como
elaborar o plano, o projeto para a construção deste mundo. À medida
que o número de pessoas conscientes disso aumentar em cada país,
avançaremos gradativamente rumo ao nosso objetivo.

Em síntese, será o esclarecimento da Verdade. Através dela,


todas as falácias se tornarão evidentes e serão corrigidas, concretizando
um mundo de luz, claro e límpido. Naturalmente, o mal será excluído do
ser humano; o bem, que estava subjugado, prosperará, e a humanidade
desfrutará da felicidade. Portanto, em primeiro lugar, é fundamental que
a Verdade seja divulgada às pessoas, sem exceção.

Falando assim, talvez as pessoas retruquem que, desde os


tempos antigos, inúmeros grandes mestres já vieram ensinando tudo
40
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

sobre a Verdade e que, por conseguinte, a essas alturas, isso não seria
mais necessário. Contudo, este é o problema. Isso porque, se a
Verdade tivesse sido desvelada até o presente, ela já teria sido
esclarecida, e o mundo paradisíaco estaria concretizado ou se
encontraria próximo. Todavia, sequer visualizamos indícios de tal
afirmativa. Em termos materiais, talvez possamos dizer que estamos
nos aproximando do Paraíso; por outro lado, ou seja, em termos
espirituais, não se observa nenhum avanço, sendo que há, até mesmo,
um retrocesso. Assim, sequer podemos prever quando o mundo
paradisíaco será verdadeiramente concretizado. Desse modo, as
pessoas perceberão que o motivo reside no fato de, até hoje, ter-se
acreditado numa verdade que, na realidade, não era a Verdade.

O melhor meio para constatar o que estou dizendo é observar a


real situação do mundo. Tudo se encontra por demais distante da
condição paradisíaca. A doença, o maior sofrimento do ser humano, não
está diminuindo, e o dissabor da vida denominado pobreza continua. O
conflito entre os indivíduos, entre os países, isto é, a guerra, encontra-se
na situação que podemos observar. Portanto, isso é a prova de que a
Verdade não está sendo posta em prática. Consequentemente, aquilo
que até agora era considerado Verdade, na realidade, consistia numa
pseudoverdade. Esta, além de não ter sido benéfica, veio até mesmo
sendo um obstáculo à construção do Paraíso. No entanto, finalmente, o
tempo chegou. Deus esclarecerá a Verdade à humanidade através de
minha pessoa. Sendo essa a razão da instituição da nossa Igreja
Messiânica, os textos que eu escrevo são orientados por Deus de tal
forma que todas as pessoas possam compreender. Assim sendo, o que
escrevi até agora é Verdade. Vou desvelar a pseudoverdade e ensinar
como sanar suas falhas, refletindo-as no espelho da Verdade. Assim,
não só ficará clara a diferença entre a Verdade e a pseudoverdade,
como também vou mostrá-la com base na realidade. É isso que vem a
ser o método do Johrei, o cultivo agrícola natural23, o aperfeiçoamento
da arte e a construção do modelo do Paraíso Terrestre.

23
Cultivo agrícola natural: Outro nome utilizado por Meishu-Sama para Agricultura Natural
Messiânica.

41
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Em suma, o empreendimento que agora estou realizando – o


grande esforço para que todos compreendam a Verdade por meio da
palavra escrita – constitui um importante processo de esclarecimento da
Verdade.

25 de setembro de 1951

42
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

TEORIA DA HARMONIA

A harmonia é uma palavra utilizada desde a antiguidade que soa,


em um primeiro momento, como algo positivo. Em geral, é tida como um
caminho natural, mas na verdade existem pontos que não podem ser
aceitos cegamente. Isso porque essa forma de pensar é superficial,
apesar de não estar totalmente errada. Sendo assim, precisamos
aprofundá-la.

Tudo o que há no Universo acha-se em perfeita harmonia. Não


existe um mínimo sequer de desarmonia. Aquilo que se apresenta aos
olhos humanos como desarmonia, é apenas a parte visível. Isso porque
a desarmonia é criada pelos seres humanos, e sua origem provém da
ação antinatural. Ou seja, do ponto de vista da Grande Natureza, o
surgimento da desarmonia em decorrência da ação antinatural é a
verdadeira harmonia. Esta é a correta e imparcial Verdade. Neste
sentido, basta que o ser humano obedeça às leis do Universo para que
todas as coisas se harmonizem e caminhem normalmente.

Assim, quando se promove desarmonia, nasce desarmonia. E


quando se promove harmonia, nasce harmonia. Uma vez que essa é a
Grandiosa Harmonia da Natureza, quando o ser humano aprofunda sua
compreensão sobre este assunto, torna-se feliz. A maior prova disso é
que o que hoje é desarmonia, com o tempo, se transforma em harmonia.
Por outro lado, muitas vezes, quando estamos despreocupados
achando que está tudo em harmonia, quando menos se espera, ela é
quebrada e se transforma em desarmonia. Esta é a realidade do mundo
que exige nossa profunda reflexão.

É bom que tenhamos sempre em mente que aqueles que têm


visão shojo24, enxergam desarmonia nas coisas e, ao contrário, os de
visão daijo25 enxergam a harmonia.
1º de outubro de 1952
24
Visão shojo: Visão micro; prende-se ao particular em detrimento do todo; é uma visão estreita,
limitada, restrita, individual, exclusiva e de curto prazo.
25
Visão daijo: Visão macro; analisa o todo sem se prender ao particular; é uma visão larga, ampla,
extensa, coletiva, integral e de longo prazo.

43
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

O QUE É A VERDADEIRA CIVILIZAÇÃO? (palestra)

Acredito que minha palestra é bastante original. Pretendo tratar


de assuntos que nunca foram abordados. Até porque não haveria
necessidade de eu vir de Atami até aqui para apresentar o que outras
pessoas já disseram. Desejo expor aquilo que ainda não foi divulgado.

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer que as pessoas afirmam


que a cultura da atualidade é avançada ou que estamos na Era da
Cultura, confundindo, desse modo, os conceitos de cultura e civilização.
Na verdade, cultura e civilização são coisas diferentes. Civilização é um
mundo ideal, sem nenhuma selvageria. Já a cultura é o estágio
intermediário da selvageria para atingirmos a civilização. Tanto que o
ideograma ka (化) da palavra bunka (文化 “cultura”) é o mesmo utilizado
para expressar algo provisório. Observando a humanidade de hoje,
notamos que ela está fascinada por essa cultura, achando que ela é o
que há de melhor e que, fazendo-a progredir, o mundo se tornará um
lugar prazeroso de se viver. Contudo, o mundo civilizado a que eu me
refiro, é diferente daquele que as pessoas têm em mente.

O que é a verdadeira civilização? Em poucas palavras, refere-se


necessariamente a uma época em que a humanidade tenha toda a
garantia de uma vida segura. Todavia, conforme o Sr. Suzuki26 disse há
pouco, hoje existem coisas realmente perigosas e temíveis, como a
bomba atômica, as armas biológicas, o Juízo Final etc. Isso é terrível
porque é uma época em que a segurança à vida está ameaçada. Isso
não é um mundo civilizado. Hoje, estamos na era da cultura, isto é, na
fase de transição da selvageria para a civilização.

O que vou falar agora não é sobre cultura, e sim, sobre civilização,
ou seja, o que vem a ser isso. As doenças e as guerras são as que mais
põem nossa vida em risco. Se vivêssemos uma época sem guerras e
sem doenças, teríamos garantia de segurança à vida, e este seria o
verdadeiro mundo civilizado. Já estamos na época em que devemos

26
Shogo Suzuki, discípulo de Meishu-Sama e um dos pioneiros da expansão da Igreja no Japão.

44
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

caminhar em direção a esse mundo. Daí a razão de ser do lema da


Igreja Messiânica Mundial: a construção do mundo isento de doença,
pobreza e conflito, lembrando que a guerra é o conflito em maior escala.
A doença é a origem desses três infortúnios. Costuma-se entender
como doença aquilo que provoca dores, coceira ou outras reações,
interpretando-a sempre no sentido físico. Todavia, não é bem assim. Há
dois tipos de doenças: doenças físicas e doenças espirituais. Dizem que,
este ano, a disenteria, a tuberculose e outras doenças contagiosas
aumentaram bastante e, por esse motivo, as pessoas estão
amedrontadas. Entretanto, se hoje não se consegue sequer resolver as
doenças físicas, não será possível formar um mundo civilizado nem
mesmo daqui a centenas ou milhares de anos.

Quanto à pobreza, sua causa é a doença física. Experimente


investigar o motivo da pobreza de uma pessoa. Invariavelmente, é a
doença. São casos como a perda de emprego devido à enfermidade ou
a impossibilidade de trabalhar pela mesma razão. A doença em si e
mais a falta de recebimento do salário constituem uma dose dupla de
sofrimento, que se reflete negativamente não só no próprio doente, mas
também em parentes e amigos.

A causa das guerras também é a doença. Trata-se da doença


espiritual. É comum utilizar a expressão “fabricantes de guerras”, para
denominar aqueles que as causam e, observando a História,
encontramos inúmeros exemplos. Esses indivíduos, que recebem o
título de heróis, têm força e inteligência; mas, no fundo, sofrem de uma
espécie de doença espiritual. Por essa razão, torna-se necessário
erradicar não só a doença física como também a espiritual. Quanto à
doença física, as pessoas acreditam que é possível curá-la através da
medicina e se esforçam nesse sentido, mas não há nada que resolva a
espiritual. Para isso, só existe um meio: a religião.

Poderão dizer que, na teoria, isso pode ocorrer, mas surge a


dúvida: conseguir-se-á, na prática, erradicar ambos os tipos de
doenças? Sim, através do Johrei, ao qual o Sr. Suzuki se referiu há

45
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

pouco. O Johrei extinguirá as doenças físicas e espirituais. Dessa forma,


surgirá o mundo civilizado.

Observando o estado em que se encontra a humanidade e a


cultura, concluo que isto não é civilização. Pelo contrário, a selvageria
aumentou enormemente. As guerras de hoje são muito mais terríveis do
que as da época selvagem. Sendo assim, podemos afirmar que aquilo
que atualmente se chama de cultura ou civilização – que é alvo da
ilusão e gratidão da humanidade – na verdade, não passa da parte
externa. Analisando seu conteúdo, veremos que é selvagem, ou melhor,
semicivilizado e semisselvagem.

A impressão que eu tenho é que a cultura contemporânea


assemelha-se a uma bela mulher, vestida com um bonito traje, mas que,
quando tira a roupa, se revela corroída pela sífilis.

Por conseguinte, afirmo que a Igreja Messiânica não é apenas


uma religião. Se fosse possível resolver os problemas do ser humano
com a religião, eles já teriam sido sanados, pois, até o presente,
apareceram importantes líderes e fundadores de religiões, filósofos,
grandes homens etc. É verdade que o ser humano progrediu e que
restam poucos grupos que permanecem em um estágio primitivo. Ele
conseguiu que tudo se tornasse mais belo e expressasse mais cultura.
Todavia, ainda não foi possível garantir a segurança à vida porque as
religiões que surgiram até hoje, não possuíam força suficiente. Elas
tiraram a humanidade do estado primitivo e a conduziram à cultura, mas
não conseguiram levá-la à civilização.

Falemos das maravilhosas descobertas. Entre elas, há aquelas


que são utilizadas para o mal ao invés de serem empregadas para o
bem. Por exemplo, a bomba atômica pode matar vinte milhões de
pessoas de uma só vez. Já a energia correspondente à porção do
tamanho da ponta de um dedo, se fosse utilizada para o bem, faria
funcionar trens ou automóveis por muitos dias. Mesmo o avião, se for
utilizado como meio de transporte, não existe nada mais rápido e útil;
porém, se usado para lançar bombas, não há máquina mais temível.
46
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Esta é a cultura científica que progrediu até hoje. Contudo, falta


algo muito importante e, devido a isso, tende-se a fazer mau uso das
coisas. Este é o sofrimento da humanidade. O ponto fundamental para
que as coisas sejam utilizadas para o bem, é a alma. Transformando o
mal em bem, tudo será utilizado em prol deste e, assim, um mundo
maravilhoso se estabelecerá. Jesus Cristo referiu-se a esse mundo com
a expressão: “É chegado o Reino dos Céus.” Buda Sakyamuni, por sua
vez, afirmou: “Após a Destruição da Lei Búdica, aparecerá Miroku
Bossatsu, e surgirá o Mundo de Miroku.” Só que ele afirmou que isso
ocorreria após 5,67 bilhões de anos. Acredito, entretanto, que ele quis
apenas referir-se aos números 5, 6 e 7. Se realmente estivesse
profetizando algo para daqui a 5,67 bilhões de anos, ele não estaria em
seu juízo perfeito, pois não faz nenhum sentido prever algo para um
futuro tão distante. Nessa época, a humanidade já teria passado por
uma mudança tão grande que nem seria possível imaginar. Os
messiânicos conhecem bem o significado dos números 5-6-727. Caso eu
fosse explicá-lo, isso me tomaria bastante tempo e eu não poderia falar
sobre o assunto principal.

Com relação à profecia de Jesus Cristo, eu penso que, ao invés


de dizer: “É chegado o Reino dos Céus”, ele poderia ter dito: “Vou
construir o Reino dos Céus.” Naquela época, contudo, o mundo ainda
não havia alcançado o estágio necessário para isso, ou seja, o
progresso da cultura ainda era insuficiente para a construção do
verdadeiro mundo civilizado. Portanto, não havia como ser diferente.

No entanto, a cultura material progrediu, chegando ao nível em


que se encontra atualmente; o progresso foi tal, que se estendeu ao
mundo todo. O que eu estou dizendo pode ser ouvido através dos
modernos meios de comunicação, nos quatro cantos do mundo. Os
transportes se desenvolveram tanto, que é possível ir de avião até os
Estados Unidos em apenas um dia. Dessa forma, o progresso da cultura
material já atingiu o ponto em que estão preenchidas quase todas as
condições necessárias ao mundo civilizado. Entretanto, para que algo
27
Segundo Meishu-Sama, os algarismos 5, 6 e 7 simbolizam, respectivamente, os elementos fogo,
água e terra, e sua combinação representa a atuação de Miroku Bossatsu.

47
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

seja utilizado para o bem, a alma é fundamental, apesar de ela ainda


não ter atingido esse ponto. Então, é necessário que a humanidade
cultive esse tipo de alma e, para tanto, é preciso que ela seja alertada.
Com tal intuito, escrevo o tempo todo a esse respeito, e os fiéis
frequentemente têm lido.

A propósito, há cerca de seis meses, comecei a escrever um livro


intitulado “A Criação da Civilização”. Meu objetivo com essa publicação
é esclarecer que a civilização atual não é a verdadeira civilização e,
abordando vários temas como medicina, política, educação, arte e
outros, vou mostrar o que é o verdadeiro mundo civilizado. A parte que
se refere à medicina já está quase pronta, mas tenciono escrever, ainda
este ano, sobre as outras áreas. Quando o livro estiver concluído,
pretendo traduzi-lo para o inglês e tomar providências para que ele seja
lido por professores universitários, cientistas, enfim, por intelectuais do
mundo inteiro. Vou enviá-lo também ao comitê do Prêmio Nobel, o qual,
acredito, no início, não o receberá bem, pois o comitê é constituído por
grandes especialistas formados pela cultura materialista. Todavia, como
se trata de um livro que aborda justamente aquilo que importantes
estudiosos estão buscando, acredito que os integrantes da comissão
não deixarão de entendê-lo e exclamar: “É isso mesmo!” Assim,
poderiam conceder-me dez ou vinte Prêmios Nobel. Portanto, quando o
livro for publicado, eu gostaria que todos os japoneses também o lessem.

Dessa forma, paralelamente a esse trabalho, temos o Johrei, por


meio do qual as doenças se curam a contento. Entretanto, ele não cura
apenas as doenças: ele cura o mal da alma. Em termos mais claros, ele
retira o mal, que é a natureza animalesca, ou seja, a maneira de pensar
se transforma. Isto é, dissolve-se a parte má e aumenta-se a parte boa.
Dessa forma, todas as pessoas passam a praticar o bem, sentem a
necessidade de fazer o bem.

Costumo dizer aos nossos fiéis que as pessoas da atualidade


estão sempre pensando em praticar o mal. Mesmo que não estejam
pensando em fazê-lo, acham que é bobagem fazer o bem, que tal
prática só traz desvantagens e que se devem fazer as coisas para tirar
48
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

vantagens, mantendo as aparências. Contudo, devemos pensar ao


contrário. Faço esta afirmativa porque já houve época em que eu
também não pensava em praticar o bem. Achava melhor viver da forma
mais proveitosa possível. Gradativamente, porém, comecei a ter melhor
compreensão sobre Deus através da fé e vi que estava totalmente
equivocado. Então, passei a querer praticar o bem e sempre buscava
um meio para tal. Estava sempre procurando fazer algo em benefício
das outras pessoas, algo que as deixasse felizes e satisfeitas. Com essa
atitude, minha sorte melhorou. Antes de me dedicar exclusivamente à fé,
nas ocasiões em que me preocupei em fazer o bem, só me ocorreram
coisas que me deixavam feliz. Sendo assim, comecei a imaginar o
quanto seria benéfico se eu pudesse levar isto a todas as pessoas.

À medida que eu ia acumulando tal tipo de experiência, comecei


a ter plena compreensão de que realmente Deus e o demônio existiam.
A partir daí, fui submetido a uma fase de aprimoramento espiritual. Com
a ocorrência de vários milagres, pude compreender a grande missão
que me era destinada. Foi assim que instituí a Igreja Messiânica Mundial
e estou desenvolvendo minhas atividades.

Outro ponto que eu gostaria de abordar é o Juízo Final, do


cristianismo, e a Destruição da Lei Búdica, profetizada por Buda
Sakyamuni. Apesar de muitos líderes e fundadores de religiões terem
feito profecias semelhantes, tratarei apenas dessas duas.

O que vem a ser o Juízo Final? Olhando apenas a expressão


“Juízo Final”, tem-se a impressão de que Enma, juiz do Mundo Espiritual,
se manifestará neste mundo para fazer o julgamento, mas não é isso. É
um ponto de difícil entendimento para os não fiéis, mas existe aquilo que
chamamos de Mundo Espiritual. O mundo onde vemos e sentimos a
matéria, é o Mundo Material. No interior deste, há o Mundo Espiritual e,
entre eles, o Mundo Atmosférico, que já é conhecido. Todavia, o Mundo
Espiritual é desconhecido. Conforme citei há pouco, referentemente à
passagem da era da selvageria para a era da cultura, e desta para a era
da civilização, o Universo obedece a uma constituição tripla: Mundo
Material, Mundo Atmosférico e Mundo Espiritual.
49
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Há, ainda, os ciclos do mundo: assim como existe alternância


entre o claro e o escuro, entre o dia e a noite no espaço de vinte e
quatro horas, há essa mesma alternância no espaço de um ano. O claro
e o escuro em um ano podem ser comparados ao verão e ao inverno,
respectivamente. Aliás, os raios solares são mais fortes no verão e mais
fracos no inverno, ocasionando o contraste entre o claro e o escuro. E
existem períodos idênticos no espaço de dez e de cem anos. A História
registra épocas de paz e de guerra, que correspondem ao claro e ao
escuro. Refiro-me, portanto, a esse ritmo. Igual período existe no espaço
de mil e de dez mil anos.

Até agora, estávamos na escuridão, no período das trevas;


vamos passar para o período da luz, da claridade. Então, a palavra 文明
(bunmei, “civilização”) contém o ideograma 明 (mei), que quer dizer
“claridade”. Por outro lado, a palavra 文化 (bunka, “cultura”) contém o
ideograma 化 (ka), que expressa algo provisório e, por isso, não é
adequado. Quando alcançarmos este período, tudo o que existia na era
das trevas passará por uma organização e limpeza. Eu costumo utilizar
as expressões “Mundo da Noite”, “Mundo do Dia”, “Cultura da Noite”,
“Cultura do Dia”... Muitas coisas da Cultura da Noite não serão mais
necessárias. Por exemplo, durante o dia, não precisamos de lâmpadas.
Da mesma forma, aquilo que pertencia à Era da Noite se tornará
desnecessário e será destruído.

Julgamento é a separação do que é do dia e do que é da noite. O


que for desnecessário, ficará guardado ou será destruído. A partir de
agora, o que for do Mundo do Dia, será gradativamente criado.

O que se sucederá quando o Mundo Espiritual se tornar claro?


Vejamos o ser humano. Nele, entre a matéria e o espírito, há uma parte
líquida, que corresponde ao ar, algo como vapor d’água. Ela está
presente em grande quantidade no corpo humano. Assim, o ser humano
apresenta uma constituição tripla; dela, faz parte o espírito, que também
poderia ser chamado de alma. A alma pertence ao Mundo Espiritual.
Tornando-se claro este mundo, aqueles cuja alma não corresponder à

50
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

claridade, terão suas nuvens espirituais removidas a fim de poder


alcançar essa claridade. Entretanto, essa remoção não se dará de
maneira deliberada. A purificação vai ocorrer naturalmente: o que está
sujo, precisa ser limpo. À medida que o Mundo Espiritual vai clareando,
as pessoas com a alma suja passarão por uma limpeza. O sofrimento é
isso. O princípio da doença também está inserido nessa explicação,
através da qual é possível compreendê-lo muito bem.

Até agora não se conhecia o espírito, ou ainda, sua existência era


menosprezada. É uma questão de alma que o Sr. Tokugawa 28
mencionou há pouco. A atuação da alma é algo muito forte, muito
grande.

Ontem, fui visitado por uma pessoa que eu não via há cerca de
um ano. Apesar disso, anteontem, sua imagem veio à minha cabeça, e
pensei: “Como ela estará passando?” No dia seguinte, como ela veio me
visitar, eu disse para mim mesmo: “Ah, o espírito dela veio antes!”

Digamos, por exemplo, que o Sr. Tokugawa pense: “O Sr.


Matsunami tem escrito muito.” Então, este sonen 29 vai até o Sr.
Matsunami, entra em seu corpo e se aloja em sua cabeça. Aí, a imagem
do senhor Tokugawa vem à mente.

É como se você pensasse em alguém e ele aparecesse. Em


suma, isso é o elo espiritual, que, neste caso, é o fio condutor do sonen.
É muito interessante interpretar as questões amorosas por meio da
atuação dos elos espirituais. Todavia, no momento, meu objetivo não
são as questões amorosas. O assunto se tornará mais claro para os
senhores se ingressarem na nossa fé. O amor é muito bom, mas as
paixões desregradas quase sempre acabam em tragédia. A melhor
maneira de compreender tudo isso é conhecer o lado espiritual e a
existência dos elos espirituais. Isso merece toda a nossa atenção, pois
tem relação com vários problemas e situações da sociedade. É dito que,
28
Musei Tokugawa (1894-1971), escritor e radialista japonês.
29
Sonen: Palavra japonesa comumente traduzida como “pensamento”, a qual não se limita ao ato de
pensar racionalmente. Seu significado abrange o sentimento, a vontade e a razão.

51
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

por trás dos problemas, sempre há mulheres. Ou ainda, que por trás de
um incidente, sempre existe uma mulher. Na verdade, isso se refere às
paixões desenfreadas. Se compreendermos isso, será possível eliminar
grande parte das tragédias e dos males sociais, mas vamos deixar este
assunto por aqui.

Conforme eu estava dizendo há pouco, a questão é o espírito. No


momento em que as nuvens espirituais começarem a ser purificadas
para corresponderem à claridade, se isso se restringir a doenças, ainda
estará bom. Caso contrário, se esse processo se intensificar, dentre
outras coisas, as pessoas não resistirão e acabarão morrendo. O fato de
a doença vir aos poucos é bom. Se viesse de uma só vez, seria fatal. O
Juízo Final é isso. Por essa razão, pouco a pouco, o Mundo Espiritual
vem clareando. Se ocorresse de uma só vez, as criaturas perderiam
suas vidas. Haveria mortes em massa. Deus quer evitá-las e, por
conseguinte, manda avisos. É vontade d’Ele que a humanidade seja
avisada e salva. E Ele me ordenou que fizesse isso. E é o que estou
realizando.

Buda Sakyamuni e Jesus Cristo fizeram profecias como “a


chegada do Reino dos Céus”, a vinda de um mundo melhor. Eles foram
os profetas, e eu sou o realizador. Deus me ordenou que eu realizasse
essa profecia, ou seja, que eu construísse o Paraíso Terrestre, isento de
doença, pobreza e conflito. Entretanto, eu não preciso empreender
qualquer esforço, pois não sou eu que faço, é Deus que providencia
tudo. Cabe a mim realizar as coisas que se mostram à minha frente.
Isso é muito fácil, mas exige uma enorme responsabilidade.
Provavelmente, em toda a história da humanidade, não houve ninguém
incumbido de uma missão maior que a minha. Dessa maneira, as
profecias de Jesus Cristo e Buda Sakyamuni começam a fazer sentido;
se elas não tivessem possibilidade de ser concretizadas, seriam falsas.
E falsas profecias significam mentiras. Contudo, seria impossível
pessoas tão magníficas terem mentido. Por conseguinte, mais cedo ou
mais tarde, era preciso que alguém tornasse tais profecias realidade, e o
incumbido foi eu. De fato, é complicado falar sobre um empreendimento
de tamanha grandeza. Não me referi, até hoje, ao assunto justamente
52
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

por ser extremamente delicado falar sobre algo tão ousado. Todavia, a
época em que a Era da Noite se transforma em Era do Dia, se aproxima
cada vez mais. Por essa razão, para salvar as pessoas, é preciso que o
maior número delas tome conhecimento disso, o quanto antes. Assim
sendo, hoje é a primeira vez que falo diante de um público tão numeroso.

Isso se assemelha ao episódio do Dilúvio citado há pouco pelo Sr.


Suzuki. Havia um homem chamado Noé, que recebeu o seguinte aviso
de Deus: “Virá um grande dilúvio em breve que atingirá uma grande
parte da humanidade. Salve o máximo de pessoas que puder.” Assim,
Noé fez um grande alarde, mas quase ninguém acreditou em suas
palavras. Somente sete pessoas as aceitaram como verdadeiras.
Somadas a ele, totalizaram oito pessoas que acreditaram. Quando
pensou no que fazer, Deus ordenou: “Construa uma arca!” A arca de
Noé tinha o formato de uma noz30. Ela tinha esse formato, pois na hora
do dilúvio, animais ferozes e grandes cobras iriam subir no barco. E,
para se proteger desse perigo, a arca foi feita assim.

Depois de algum tempo, começou a chover. Há duas versões a


respeito: uma diz que choveu durante quarenta dias seguidos; outra,
que foram cem dias. Fossem quarenta ou cem, o que interessa é que
choveu durante vários dias consecutivos. A água foi subindo cada vez
mais até transformar-se em dilúvio. Salvaram-se apenas os que
estavam na arca. Aqueles que se encontravam em barcos comuns ou
que escalaram as montanhas, acabaram perecendo; estes últimos,
devorados pelos animais ferozes. Somente oito pessoas se salvaram, e
dizem que os representantes da raça branca são seus descendentes.
Em linhas gerais, acredito que essa história não é errada.

No Japão, temos a lenda do deus Izanagui-no-Mikoto e da deusa


Izanami-no-Mikoto. Conta-se que, em pé sobre a ponte Ame no
Ukibashi 31 , os dois deuses abaixaram suas espadas, agitando-as em

30
Noz: fruto da espécie Ginkgo biloba.
31
Ame no Ukibashi: Ponte mitológica que une o Céu e a Terra segundo o Kojiki (coletânea de
histórias mitológicas do Japão).

53
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

círculos na superfície da água e, assim, surgiram as terras. Trata-se,


certamente, da ocorrência de uma grande enchente.

Já de acordo com o xintoísmo, houve a ação da maré alta e da


maré baixa. A maré baixa é o recuo das águas, e Izanami-no-Mikoto
encarregou-se disso. O aparecimento das terras deveu-se à maré baixa,
fazendo emergir o que estava submerso. Penso que essa ocorrência
corresponde à época do Dilúvio.

Segundo o livro do Apocalipse e outros textos, João Batista faria


o batismo pela água e Jesus Cristo, o batismo pelo fogo. O batismo pela
água já se deu através do Dilúvio. Agora, está para vir o batismo pelo
fogo, um extraordinário acontecimento que tem muitos outros sentidos.
Entretanto, como o meu tempo já está se esgotando, vou parar por aqui.

Palestra de Meishu-Sama no Hibiya Public Hall, Tóquio


22 de maio de 1951

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

CRIAÇÃO DA CULTURA

O nome de nossa religião é Igreja Messiânica. Naturalmente,


tendo ela surgido para promover a derradeira salvação do mundo, não
há disparidade entre seu nome32 e sua missão. Contudo, poderíamos
igualmente chamá-la de Religião Criadora. Explicarei por quê.

Durante muitos séculos, a humanidade veio empregando todas


as suas forças em prol do progresso e do desenvolvimento da cultura e,
conforme podemos constatar, atingimos uma cultura notável, que nos
deixa maravilhados. Não haveria palavras suficientes para enaltecer
esse mérito. Nem é necessário dizer que tudo isso vem sendo feito,
tendo como ideal a felicidade da humanidade. Entretanto, a descoberta
da desintegração nuclear é uma realidade que contraria
demasiadamente essa expectativa. Pavoroso seria um adjetivo ainda
insuficiente para qualificar tal descoberta capaz de ceifar milhares de
vidas em um instante.

Talvez o sonho de felicidade fora traído mais do que se possa


imaginar. Quem poderia prever o surgimento de tão grande desgraça?
Terá existido maior discrepância que essa em toda a História? A
humanidade – ou pelo menos as pessoas cultas –, precisa descobrir a
verdadeira causa disso, pois, enquanto ela não for conhecida e
solucionada, o progresso da cultura que será obtido de agora em diante,
não terá nenhum sentido. No entanto, a própria bomba atômica, por ser
utilizada como arma de guerra, torna-se demoníaca; se não o for,
logicamente transforma-se em um maravilhoso anjo da paz. Nesse
sentido, não há motivo para fazermos alarde contra a bomba atômica,
pois o problema é a guerra em si. Consequentemente, não existe uma
questão mais importante que extinguir a guerra. Há milhares de anos, a
humanidade vem empregando todos os seus esforços para fugir da
ameaça da guerra; é um fato que todos conhecem muito bem.
Entretanto, ao invés de a ameaça diminuir, a realidade mostra o seu
aumento sempre que uma guerra é travada. É claro que isso também é

32
Vide nota de rodapé nº 9.

55
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

motivado pelo crescimento demográfico, mas o aperfeiçoamento das


armas torna essa ameaça ainda maior, o que culminou com a invenção
da bomba atômica. O que mais poderia estar indicando esse
acontecimento senão a aproximação da hora de colocar-se um ponto
final na guerra? Acredito que este é o “Fim dos Tempos” profetizado por
Jesus Cristo.

Pensando dessa forma, pode-se até dizer que a cultura atual teve
sucesso, mas não podemos deixar de admitir o grande fracasso que
chega a anular esse êxito. Analisando desse ângulo, o certo seria
despertar das falhas da cultura, as quais descrevi acima, e partir para a
criação de uma nova e revolucionária cultura. Em outras palavras, seria
como se ela estivesse dando uma nova partida. Então, o que vem a ser
a criação da nova cultura? Esta é, atualmente, a grande tarefa da
humanidade.

Acredito que nossa religião surgiu para cumprir essa tarefa.


Portanto, com tão importante missão, a Igreja Messiânica visa
desenvolver, de acordo com os desígnios de Deus, a grandiosa obra de
construção do Paraíso Terrestre. Como condição básica para atingir
esse objetivo, propomo-nos, antes de tudo, a eliminar a doença da
humanidade. Julgo desnecessário falar muito a esse respeito, dados os
maravilhosos resultados que viemos obtendo. Obviamente, a verdadeira
causa da guerra é a doença; não somente a doença física, mas também
a espiritual. Eliminar a doença espiritual e tornar as pessoas
verdadeiramente saudáveis deverá ser a base para solucionar,
radicalmente, o problema da guerra. Qualquer outra solução proposta,
visando à sua eliminação, não passará de mero devaneio.

13 de setembro de 1950

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

SUBSTITUIÇÃO DA VELHA CULTURA PELA NOVA CULTURA

Comparada à cultura primitiva de milhares de anos atrás, a atual


alcançou e continua atingindo um progresso assombroso. Todavia, a
humanidade sofreu e lutou muito para chegar até aqui. A História
mostra-nos as árduas batalhas que vêm sendo travadas contra as
catástrofes naturais, guerras, doenças e outros males.

É desnecessário dizer que, por trás do objetivo de atingir o


progresso, havia o desejo da humanidade de alcançar um mundo de
eterna paz em que todos possam viver felizes. No entanto, para a
concretização desse ideal, o ser humano acreditou que bastava
simplesmente promover o progresso da cultura material e considerou a
ciência materialista como o único meio para isso, não dando atenção a
mais nada. Sempre que havia novas descobertas ou invenções, a
humanidade as aplaudia, julgando-as maravilhosas, crente de que, por
meio delas, seu bem-estar aumentaria e, passo a passo, aquele ideal
estaria mais próximo. Todos nós sabemos que foi assim que ela veio
perseguindo o sonho de alcançar a felicidade.

Dessa forma, com o progresso da ciência, chegou-se à


descoberta da desintegração nuclear. Isso deveria ser digno de
comemoração; mas, ao contrário do que se esperava, foi uma
descoberta aterradora.

Aspectos positivos e negativos da energia atômica

O caminho que percorríamos, acreditando que nos conduziria ao


Paraíso, na verdade, para surpresa de todos, era o caminho para o
Inferno. Criou-se um artefato que, num instante, pode ceifar a vida de
centenas de milhares de pessoas. Talvez a História ainda não tenha
registrado nenhum acontecimento tão contrário à expectativa dos seres
humanos.

Uma vez que a humanidade ou, mais especificamente, os povos


civilizados criaram a terrível bomba atômica, surgiu, então, o grande
57
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

problema de precisarmos fugir, a todo custo, da ameaça que paira sobre


nós. É realmente paradoxal. Contudo, pensando bem, trata-se de uma
criação que, em si mesma, nada tem de temível; pelo contrário, é uma
maravilha que vem contribuir para a felicidade do ser humano. Ela é
apavorante porque pode ser empregada como instrumento de guerra,
mas, se for utilizada para a paz, será realmente uma grande descoberta
para a humanidade. Seu emprego na guerra está baseado no mal, ao
passo que sua utilização para a paz está fundamentada no bem. Logo,
tal invenção pode tornar-se tanto um instrumento benéfico como
maléfico. Nesse sentido, se a pessoa que o manipula estiver do lado do
bem, não haverá nenhum problema.

Evidentemente, o caso não é tão simples assim. Em termos


concretos, é preciso transformar o mal em bem. Torna-se desnecessário
dizer que esta é a nobre missão da religião.

O Fim do Mundo e o Reino dos Céus

Até agora, de certa forma, a religião, a moral, a educação e a lei


vieram conseguindo alguns bons resultados no cumprimento de suas
funções. No entanto, ainda hoje, ao contrário do que era esperado, o
bem está sendo oprimido pelo mal. A preocupação existente de que o
material atômico venha a ser utilizado de forma maléfica é uma prova do
que estamos dizendo. Ao mesmo tempo, precisamos aprofundar outro
aspecto da questão. Se o ato diabólico e destruidor representado pela
utilização da bomba atômica for permitido, obviamente advirá o fim da
humanidade. Sendo assim, será que o Senhor da Criação, após criar
tudo o que existe e fazer progredir a cultura até o nível atual, permitiria
passivamente que tal catástrofe ocorresse?

Interpretando desse modo, que mais poderia ser isso senão o


Fim do Mundo profetizado por Jesus Cristo? Caso fosse somente essa
profecia, a humanidade nada mais teria a fazer do que aguardar seu fim.
Entretanto, Jesus Cristo também disse que está próximo o Reino dos
Céus. Torna-se evidente, portanto, que essas duas grandes profecias

58
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

estão indicando o futuro do mundo, ou seja, que virá o fim do mundo e


também o advento do Reino dos Céus.

Foram previstos, ainda, a segunda vinda de Cristo e o advento do


Messias. A propósito, também devemos pensar que, para ficarmos
absolutamente livres da destruição atômica, é necessário transformar o
mal em bem, conforme já explanei. E quem poderia ter poder para isso a
não ser o próprio Messias? Não obstante, mesmo ocorrendo essa
grande transformação, haverá muitos que não se converterão ao bem. A
estes, dos quais não é possível esperar mais nada, só restará uma
prestação de contas. Jesus Cristo referiu-se a esse acontecimento com
a expressão “Juízo Final”.

Com base no que acabo de expor, é preciso saber que a


mudança do mal para o bem, da destruição para a construção, e a
passagem da velha para a nova cultura estão na iminência de ocorrer.

Plano para a nova cultura

O plano para a nova cultura já está devidamente preparado, mas


não foi elaborado nem pela inteligência nem pela força humana. Deus o
veio preparando continuamente há dezenas de milhares de anos. E não
se trata apenas da parte espiritual: consigo ver isso claramente também
a partir dos fenômenos materiais. Por esse motivo, posso afirmar, sem
vacilar, que não há, em absoluto, nenhuma parcela de erro no que estou
dizendo.

6 de setembro de 1950

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

A CONSTRUÇÃO DO PARAÍSO E A EXCLUSÃO DO MAL

A respeito da transformação deste mundo em Paraíso – que é o


objetivo de Deus –, existe um ponto fundamental. E o que seria isso? É
o mal que a maioria das pessoas traz no recôndito de seus corações.
Pelo senso comum, as criaturas desaprovam o mal e temem muito o
contato com ele. Desde tempos remotos, elas condenam o mal por meio
da moral e da ética, e esse também é o objetivo principal da educação.
Além disso, os ensinamentos da religião têm como premissas
recomendar o bem e combater o mal. Observando a sociedade, vemos
que os pais advertem os filhos; os maridos, as esposas; as esposas, os
maridos; os patrões, os empregados. A tudo isso, acrescentam-se as
leis, que, por meio de penalidades, tentam impedir a prática do mal.
Entretanto, é incompreensível que, apesar de todo esse esforço, o
número de pessoas más é incalculavelmente maior que o de pessoas
boas; a rigor, entre dez pessoas, nove são más, e pode ser que nem a
décima seja boa.

Contudo, mesmo em se tratando de pessoas más, existem


diferentes tipos de mal: os grandes, os médios, os pequenos e outros.
Citemos alguns exemplos: 1) o mal praticado proposital e
conscientemente; 2) o mal cometido sem se ter ciência disso; 3) o mal
praticado por não haver alternativa; 4) o mal perpetrado, acreditando-se
ser um bem. O primeiro não necessita de maiores esclarecimentos; o
segundo é o mais comum e numeroso; o terceiro, por ser cometido por
pessoas desprovidas de razão e inteligência, é algo fora de questão; já o
quarto, isto é, o mal que se faz pensando ser um bem, é o mais danoso,
por ser praticado abertamente e com determinação. Detalharei isso
posteriormente.

Agora, descreverei a visão de mundo do mal a partir da


perspectiva do bem.

Observando a atualidade, constatamos que o predomínio do mal


é tão grande, que podemos perfeitamente dizer que este mundo é o
mundo do mal. Temos conhecimento de inúmeros exemplos de homens
60
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

de bem que foram atormentados pelos perversos; da situação inversa,


eu nunca ouvi falar. Como o mal possui mais adeptos que o bem,
enquanto os malvados burlam as leis e agem como bem entendem, os
bons ficam subjugados, vivendo constantemente atemorizados. Esta é a
situação do mundo atual. Por serem mais fracos, os bons são sempre
perseguidos e maltratados pelos maus.

A democracia surgiu naturalmente em contraposição a esse


absurdo estado de coisas. O Japão, que viveu longo tempo sob o
domínio do pensamento feudal, insistiu em manter uma sociedade em
que os fracos são vítimas dos fortes; felizmente, com a ajuda do exterior,
conseguiu implantar o regime democrático. Por esse motivo, mais do
que dizer que a democracia no Japão foi um evento espontâneo,
devemos afirmar que ela foi uma consequência natural. Eis um raro
exemplo da vitória do bem sobre o mal. Contudo, a democracia
japonesa ainda não está consolidada; em vários setores, existem
resquícios de feudalismo. E talvez eu não seja a única pessoa a
perceber isso.

Vejamos a relação entre o mal e a cultura. O princípio do


surgimento da cultura pode ser explicado da seguinte maneira:

Na era primitiva e selvagem, os fortes oprimiam os fracos,


tolhendo-lhes a liberdade, impondo-lhes a força, usurpando-lhes os bens,
praticando matanças e agindo como bem entendiam. Como resultado,
os fracos criaram vários meios de defesa: fabricaram armas,
construíram muralhas, aperfeiçoaram os meios de transportes etc. Em
grupos ou mesmo individualmente, eles se esforçavam de todas as
maneiras possíveis. Naturalmente, isso serviu para desenvolver a
inteligência do ser humano. Com o correr do tempo, para garantir a
segurança, fizeram-se acordos coletivos, os quais, possivelmente,
deram origem aos tratados internacionais de hoje. Socialmente, foram
criadas as leis, com o objetivo de refrear o mal; transcritas em forma de
códigos, ocasionaram as atuais legislações.

61
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Não obstante, com métodos tão superficiais, não foi possível


eliminar de fato o mal que existe no ser humano. Conforme podemos ver,
da era primitiva até hoje, os homens vêm lutando contra o mal, em
defesa do bem. Como o mundo tem sido infeliz por isso! Quantas
pessoas de bem foram sacrificadas! Para aliviar tão grande sofrimento,
apareceram grandes figuras religiosas. Como os fracos eram sempre
atormentados pelos fortes e não tinham força suficiente para se
defender, os religiosos, pelo menos, tentaram amenizar espiritualmente
suas aflições e dar-lhes esperança. Ao mesmo tempo, para enfrentar o
mal, ensinaram enfaticamente a Lei da Causa e Efeito na tentativa de
fazer com que as pessoas se arrependessem. É inegável que obtiveram
alguns resultados, mas não conseguiram mudar a situação geral.

Por outro lado, no aspecto material, criaram-se as ciências,


desenvolveu-se a cultura como uma tentativa de conter, através do seu
progresso, a infelicidade acarretada pelo mal. Esse progresso da cultura
foi muito além do que se esperava; apesar disso, a cultura material não
só foi inútil no sentido de conter o mal – seu objetivo inicial –, como
também acabou sendo usada para fins maléficos, gerando atos de
crueldade cada vez maiores. Isso deu origem às guerras em grande
escala e, por fim, acabou nascendo o pavoroso monstro da bomba
atômica. Atingindo esse estágio, podemos dizer que chegamos a uma
época em que se tornou impossível fazer a guerra. Falando sem
reservas, é realmente uma ironia a cultura material ter progredido por
meio da atuação do mal e ter-se chegado a um tempo em que a guerra
é impraticável. Naturalmente, é possível perceber que, por trás de tudo
isso, está o profundo e misterioso Plano de Deus.

É evidente que tanto os que estão do lado da cultura espiritual


como os que estão do lado da cultura material, desejam um mundo
perfeito – de paz e felicidade –, mas isso ficou limitado ao “ideal”. Uma
vez que a realidade não corresponde ao desejado, os intelectuais vivem
cercados por um mar de dúvidas e de obstáculos. Entre eles, estão
aqueles que procuram a religião, a filosofia e outros meios para decifrar
esse enigma; a maioria, no entanto, acredita que só o progresso
científico resolverá tudo. O fato é que a humanidade continua sofrendo e
62
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

sem perspectivas de quando vai encontrar a solução dos problemas. A


partir de agora, escreverei em detalhes o que penso a respeito de como
vai ficar o mundo no futuro.

Se o mal é a causa fundamental da infelicidade humana,


conforme dissemos, surge a seguinte dúvida: por que Deus o criou?
Esta é a pergunta que mais tem atormentado o ser humano até os dias
de hoje. Eis, porém, que finalmente Deus esclareceu a Verdade, que eu
passo a apresentar.

Em primeiro lugar, por que o mal foi necessário até hoje? Porque
através do conflito entre ele e o bem, a cultura material pôde progredir e
se desenvolver até o estágio atual. Não é surpreendente? Não
poderíamos sequer imaginar que, na realidade, esta era a Verdade. Um
exemplo disso é a guerra. A guerra ceifa milhares de vidas e, por ser tão
trágica, constitui o maior temor do ser humano. Para este livrar-se dessa
catástrofe, usaram-se todos os recursos da inteligência e nem
precisamos dizer o quanto isso acelerou o progresso da cultura.
Podemos fazer tal afirmativa porque a História nos mostra claramente
que, após as guerras, a cultura fez enormes avanços tanto nos países
vencedores como nos vencidos. Todavia, se as batalhas chegassem ao
extremo ou se prolongassem demasiadamente, os países envolvidos
seriam aniquilados, o que representaria a destruição da própria cultura.
Sendo assim, Deus as detém num certo ponto, fazendo com que a paz
retorne. A alternância de períodos de guerra e períodos de paz é a
própria imagem da história do mundo.

Na sociedade, a situação é idêntica. Os criminosos e as


autoridades vivem numa constante competição de inteligência. Os
desajustes de relacionamento entre as pessoas também são
decorrentes da luta entre o bem e o mal. No entanto, podemos entender
que a solução dessas divergências contribui para o desenvolvimento da
inteligência humana.

Ora, se a cultura progrediu graças ao atrito entre o bem e o mal,


vê-se que o mal, até hoje, foi realmente imprescindível. Contudo,
63
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

precisamos saber que o mal não é eternamente necessário e que há um


limite para ele.

Vou explicar a esse respeito. Primeiramente, o mais importante é


o objetivo de Deus, o governador do mundo. Em termos filosóficos, esta
designação significaria “ ser absoluto” ou “vontade do universo”. Jesus
Cristo e outros líderes religiosos fizeram profecias sobre o fim do mundo
que, na verdade, significa o fim do mundo do mal. E que, depois disso,
viria um mundo ideal, o Paraíso Terrestre isento de doença, pobreza e
conflito, o mundo de Verdade, Bem e Belo, o Mundo de Miroku etc. Os
nomes diferem, mas o significado é o mesmo.

Para a construção de um mundo tão maravilhoso, é necessária


uma preparação à altura que preencha todas as condições, tanto do
ponto de vista espiritual quanto material. De acordo com o Plano de
Deus, a primeira condição era que o progresso material fosse alcançado,
pois o progresso espiritual não está preso ao tempo, podendo ocorrer de
uma só vez, ao contrário daquele, que necessita de muitos e muitos
anos. Para preencher essa primeira condição, Ele fez com que,
inicialmente, o ser humano ignorasse Sua existência e se concentrasse
apenas nos assuntos materiais. Foi assim que surgiu o ateísmo, que é a
condição fundamental para a criação do mal. Este, então, ganhou força,
infligiu maiores sofrimentos ao bem e, prosseguindo nessa luta, fez o ser
humano cair no abismo do sofrimento. Todavia, o ser humano sempre
se debateu na ânsia de sair desse abismo, o que desencadeou a força
que impulsionou grandemente o progresso da cultura. Foi trágico, porém
inevitável.

Creio que puderam ter uma noção básica sobre o bem e o mal
com o que foi escrito acima. Tendo finalmente chegado o tempo em que
o mal não será mais necessário, ou seja, o tempo presente, a questão é
seriíssima. Não se trata de imaginação ou desejo; é a pura realidade.
Acreditando ou não, o fato já está saltando aos nossos olhos, por
intermédio do extraordinário progresso da ciência atômica. Por
conseguinte, se uma nova guerra eclodisse, não seria uma simples
guerra, e sim, a destruição total, a extinção da humanidade. Contudo, a
64
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

realidade à que chegamos, é até motivo de alegria, pois constitui o limite


final para a atuação do mal. Como resultado, a cultura, da qual o mal
sempre se utilizou até hoje, sofrerá uma reviravolta, ficando à inteira
disposição do bem. Daí, chegará a época do nascimento do tão
almejado Paraíso Terrestre.

13 de agosto de 1952

65
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

BEM E O MAL

O mundo apresenta diversos aspectos, em que o bem e o mal


estão mesclados. Tragédia e comédia, infelicidade e felicidade, guerra e
paz, tudo é motivado por um ou por outro. Por que existem pessoas
boas e pessoas más? Creio que, via de regra, as pessoas já chegaram
a pensar que deve haver uma causa determinante do bem e do mal.

O que passo a explicar é a causa do bem e do mal, e é


imprescindível que todos a conheçam.

O ser humano em geral, obviamente, deseja ser do bem e tem


aversão a ser do mal. Com raras exceções, tanto o governo como a
sociedade ou a família amam o bem, porque sabem que do mal não
nascem a paz nem a felicidade.

Para facilitar a compreensão de todos, dividirei a definição do


bem e do mal em duas partes: 1) “Homem bom é aquele que crê no
invisível” e 2) “Homem mau é aquele que não crê no invisível.” Aquele
que crê no invisível, crê na existência de Deus e é espiritualista. Aquele
que não crê no invisível, é materialista e ateu.

Exemplifiquemos. Quando alguém pratica o bem, essa intenção


parte do amor, da compaixão ou do senso de justiça social, isto é, em
termos mais amplos, do amor à humanidade. Há pessoas que praticam
o bem por saberem que a boa ação produz bom fruto, e a má ação, mau
fruto. Outras socorrem o próximo levadas pela piedade. As práticas de
se evitar o desperdício e viver modestamente, além do espírito de
retribuição às bênçãos ensinado no budismo e conhecido como “quatro
dívidas de gratidão”33, também são manifestações do bem. Ademais, o
desejo de causar uma boa impressão, de almejar o benefício e a
felicidade do próximo, de ser gentil, de seguir a própria vocação e, no
caso das pessoas de fé, agradecer e retribuir a Deus, bem como se

33
Quatro dívidas de gratidão: 1. A todos os seres vivos. 2. Aos pais. 3. Aos governantes. 4. Aos três
tesouros: o fundador, os ensinamentos e os sacerdotes.

66
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

empenhar para agir de acordo com a Vontade Divina, também são


práticas do bem. Ainda existem outras, mas basicamente são essas.

Os praticantes do mal negam absolutamente a existência de


Deus e não se importam em realizar más ações em seu proveito, desde
que não sejam descobertos. Sua psicologia se assemelha ao
pensamento niilista. Assim sendo, praticam fraudes como ações
perfeitamente normais, fazendo o próximo sofrer, não importando se
isso causa infortúnios à sociedade humana. E chegam ao cúmulo da
prática do homicídio.

A guerra é um homicídio em massa. Desde a antiguidade,


aqueles considerados heróis provocaram guerras para conseguir poder
e satisfazer desatinadas ambições, seguindo a ideia de que “o vitorioso
sempre está certo”. Segundo, porém, o provérbio “quem domina o
mundo, um dia será por ele dominado”, a História nos mostra o fim,
quase sempre trágico, desses “heróis”, que brilharam apenas
temporariamente. Obviamente, esses atos são motivados pelo mal.

Se fosse certo o conceito popular de que “não importa enganar,


contanto que não se seja descoberto”, seria até mais vantajoso e
inteligente praticar toda espécie de maldade e viver suntuosamente.

O mal surge, ainda, do pensamento de que, após a morte, o ser


humano retorna ao Nada e que não existe vida no Mundo Espiritual.

Embora a sorte favoreça o homem mau e este tenha êxito


durante algum tempo, a realidade nos mostra, sem exceção, que, a
longo prazo, ele está fadado à ruína. Isso porque, aquele que comete
delitos vive inquieto e atormentado pelo receio de ser preso. Sob a
tortura da sua consciência acusadora, é induzido ao arrependimento,
sendo frequente o caso de criminosos que, quando se entregam ou
quando são presos, se alegram com o cumprimento da pena, porque
assim recobram a paz de espírito. Isso significa que sua alma atribuída
por Deus está sendo censurada por Ele uma vez que aquela se
comunica com Deus por meio do elo espiritual. Ao praticar o mal,
67
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

mesmo que consiga enganar os outros, a pessoa não pode enganar a si


mesma. Já que o ser humano está ligado a Deus por meio do elo
espiritual, todos os atos humanos são do conhecimento Divino. Além
disso, tudo fica registrado em detalhes no livro do Enma34 e, por essa
razão, o mal jamais compensa.

Existem também pessoas que não praticam más ações, entre


outros motivos, para se resguardarem, pois, apesar de pretenderem o
mal, temem o descrédito da sociedade; muitas vezes, falta-lhes coragem,
apesar de desejarem seus proveitos. Por outro lado, muitos praticam o
bem por conveniência, sabendo que as boas ações conquistam a
confiança e são compensadoras; ou melhor, praticam o bem na
esperança de retribuição. Isso não passa de uma negociação, pois eles
vendem favores para comprar gratidão. Esse tipo de bem não oprime o
próximo nem afeta a sociedade. Os praticantes desse tipo de bem são
muito melhores do que as pessoas más; porém, não se pode dizer que
sejam verdadeiras pessoas de bem. Deveriam ser chamadas de
pessoas de bem passivas. Perante os olhos de Deus, elas não são
verdadeiras pessoas de bem, pois Seu olhar penetra no mais profundo
íntimo do ser humano. Existem casos em que somos tomados de dúvida
e nos perguntamos: “Por que alguém tão bom sofre tanto?” Essa dúvida
é decorrente da superficialidade do ponto de vista humano, que não
consegue atingir o âmago das pessoas. Na verdade, tal “indivíduo bom”,
quando analisado a fundo, é daqueles que não crê no invisível e pode
ser considerado perigoso, pois é capaz de cometer o mal quando, por
algum motivo, achar que isso passará despercebido de todos.

Ao contrário, quem crê em Deus, que é invisível, não se deixa


ludibriar por perspectivas “brilhantes”, pois possui a crença de que,
mesmo que consiga enganar o próximo, é impossível enganar a Deus.
Ainda que, do ponto de vista humano, seja considerada uma pessoa de
bem, se não crê em Deus, situa-se na esfera do mal, pois corre o risco
de transformar-se num mau elemento a qualquer momento. Por essa
razão, ter fé, isto é, crer no invisível, é o atributo essencial do autêntico
34
Enma Daio: Nome dado pelo budismo japonês ao juiz do Mundo Espiritual que faz o julgamento
dos espíritos após a morte.

68
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

homem de bem. Estou convencido de que nada, além da fé, é capaz de


salvar a situação atual de excessiva degradação dos preceitos morais.

Embora se continue criando leis, polícia, tribunais e prisões para


impedir a ocorrência de crimes, tudo isso é como construir jaulas e
cercas de ferro, a fim de nos proteger do perigo dos animais ferozes.
Dessa forma, os criminosos não estão sendo tratados como seres
humanos, mas como animais. E haverá maior infelicidade para alguém
do que terminar a vida rebaixado à condição de animal, uma vez que foi
criado como um ser elevado?

O ser humano se transforma em animal, quando se degenera, e


em ser divino, quando se eleva. Esta é uma verdade imutável. O ser
humano é realmente um ser intermediário entre Deus e o animal. Nesse
sentido, o autêntico civilizado é aquele que se libertou da característica
animal. Creio que o progresso da cultura significa a evolução do ser
animal para o ser divino. E qual é o lugar onde seres divinos se reúnem,
senão o Paraíso Terrestre?

5 de setembro de 1948

69
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

MUNDO SEMICIVILIZADO E SEMISSELVAGEM

Talvez todos pensem que o atual mundo civilizado seja o mais


avançado. Entretanto, quando o analisamos melhor, observamos que
ele apresenta muitas falhas, conforme podemos constatar todos os dias
através dos jornais, que estão repletos de artigos sobre criminosos e
pessoas desafortunadas. Analisando com imparcialidade, verificamos
que as coisas ruins são mais numerosas do que as boas. Pouco tempo
atrás, por exemplo, um caso de corrupção se tornou um problema muito
sério. Quando as autoridades começaram a investigar, houve tantos
desdobramentos, que nem podemos imaginar até onde se estenderão.
Este caso é apenas a ponta de um iceberg. Se formos ver o mundo da
política e da economia, de verdade, quantas pessoas íntegras
encontraremos? Poderíamos arriscar-nos a dizer que nenhuma.

Pensando melhor, o que nos surpreende é que as pessoas


envolvidas são cultas, com ensino superior. Acredita-se que, quando as
pessoas possuem curso superior, elas se tornam cultas e sua
inteligência se desenvolve de modo que os crimes tenderiam a diminuir.

Entretanto, presenciando fatos como o que ora se nos apresenta,


ficamos desapontados, só podendo dizer que tudo isso é realmente
incompreensível. Portanto, creio que ninguém contestará o fato de
chamar a era atual de semicivilizada e semisselvagem conforme o título
deste artigo.

Então, o que fazer diante de tal situação? A solução do problema


não é tão difícil; pelo contrário, é muito fácil. Conforme sempre tenho
explicado, é preciso fomentar a educação espiritualista, fazendo as
pessoas despertar da educação fundamentada no materialismo. Em
termos mais claros, significa destruir o pensamento errôneo de que se
deve acreditar somente nas coisas que apresentam uma forma e não
acreditar naquelas que não a possuem. A única maneira de se
conseguir isso é fazer com que seja reconhecida a existência de Deus
através da força da religião.

70
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Quando isso for do conhecimento das classes dirigentes e


estender-se até o povo, corrigir-se-á a inclinação errônea de que se
podem cometer crimes, contanto que eles não cheguem ao
conhecimento de ninguém. Assim, as pessoas não mais conseguirão
cometer crimes e, consequentemente, formar-se-á um mundo em que
imperam o bem e a alegria. No entanto, parece que ninguém entende
uma lógica tão simples e clara como esta, visto que só se procura
controlar o mal, criando leis rigorosas semelhantes a jaulas e redes. Isso,
porém, é o mesmo que tratar os homens como se fossem animais, e é
óbvio que esse método não surte resultados positivos.

Ora, se não se consegue manter a ordem social nem mesmo com


as malhas da lei, onde estaria a causa do problema? Esta parece ser
facilmente notada; porém, ninguém a percebe. A sociedade continua
sendo uma coletividade constituída de seres meio-humanos e meio-
animais. Assim, está demasiadamente claro que já não é possível
eliminar a característica animal do ser humano por meio da educação
materialista. A educação ministrada até hoje, como se pode ver pelos
seus resultados, não é senão a evolução do método para encobrir essa
característica. Dessa maneira, não podemos sequer imaginar quando se
edificará uma sociedade verdadeiramente civilizada. Portanto, não há
outro método eficiente para solucionar isso que não seja a eliminação da
característica animal da alma do ser humano. Este é o papel da religião.

É estranho, porém, que, à medida que a pessoa vai recebendo


formação de nível superior, mais despreza a religião. Por quê? Talvez
esta seja a grande falha da civilização. A causa reside na característica
animal existente no interior das pessoas, a qual se esquiva da religião.
Ou seja, é porque o mal não gosta do bem. Daí podermos dizer que a
educação da atualidade cria o mal intelectualizado. Todavia, chegou a
hora em que tal coisa não mais será permitida. Isso porque surgiu a
nossa religião, que mostra, de forma clara e palpável, a existência de
Deus. Talvez digam que seja impossível ocorrer algo tão maravilhoso,
mas, na realidade, não o é. Pelo simples contato com a nossa religião, a
pessoa compreende a existência de Deus. Isto é o milagre. A melhor
prova do que dizemos são os ilimitados e surpreendentes milagres por
71
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

nós manifestados. Isso mostra que Deus, finalmente, deu início ao Seu
Grande Plano de corrigir o desequilíbrio dessa civilização, semicivilizada
e semisselvagem, fazendo com que o materialismo e o espiritualismo
caminhem, juntos, para a construção do verdadeiro mundo civilizado.

14 de abril de 1954

72
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

ERA SEMICIVILIZADA

Quem quer que seja, acredita que estamos vivendo um momento


em que a civilização atingiu um nível nunca antes alcançado. De fato, se
compararmos a época atual com a era primitiva e selvagem, veremos
que houve um grande avanço. Entretanto, foi um progresso apenas no
aspecto material, pois, espiritualmente, ninguém poderá negar que
sequer saímos do estado de semisselvageria.

Desde tempos remotos, a humanidade vem, continuamente,


desperdiçando grande parte de suas energias com a guerra, a maior de
todas as violências. Em nada difere das feras, que lutam, mostrando as
presas e as garras, rugindo e devorando-se mutuamente. É verdade,
também, que existem os povos pacíficos, os quais não medem esforços
para evitar a guerra. Podemos dizer que os primeiros são seres com
característica animal e os pacíficos, com característica humana. Cada
um desses dois tipos contrastantes de seres vem atuando para
satisfazer seus interesses. Este é o curso da história do mundo, que
perdura até nossos dias. Logicamente, existe essa dualidade de
pensamento também em âmbito individual, só que a violência é contida
pela lei, e a ordem é mantida, ainda que precariamente. Os bons, no
entanto, são sempre pressionados pelos maus, dos quais se tornam
vítimas constantes.

Vejamos outro aspecto da questão.

Atualmente, graças ao progresso da ciência, desenvolvem-se


grandiosas invenções e descobertas, as quais, dependendo da vontade
das pessoas que as manipulam, podem ter resultados desastrosos ou,
ao contrário, contribuir para o aumento do bem-estar da humanidade. O
atrito entre esses dois pensamentos opostos – o selvagem e o civilizado
– pode tornar-se a causa da guerra, na qual essas mesmas invenções e
descobertas também podem ser empregadas para o mal.

Analisando o assunto sob outro prisma, constatamos que os


povos belicosos não são religiosos, ao contrário dos povos pacíficos; daí
73
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

surge a necessidade da religião. Portanto, não seria demais dizer que,


apesar de apregoarem que estamos numa era de elevado nível cultural,
na verdade, estamos vivendo um período de semisselvageria e
semicivilização.

Nesse sentido, a semicivilização precisa ser elevada ao estágio


de civilização em que o espírito e a matéria estejam perfeitamente
unidos e integrados. Por conseguinte, a missão dos religiosos, daqui por
diante, é realmente importantíssima.

25 de junho de 1949

74
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

A LUTA ENTRE O MATERIALISMO E O ESPIRITUALISMO

A maioria dos jornalistas tacha nossa religião de falsa e


supersticiosa 35 . Qual a razão dessa afirmativa? Falando em poucas
palavras, é que o ponto de vista deles difere do nosso. Eles analisam as
questões espirituais tomando por base a visão materialista. A matéria,
como a própria palavra indica, é uma existência claramente visível e, por
essa razão, qualquer pessoa consegue compreender. O espírito, todavia,
por ser invisível, fatalmente acaba sendo negado. Assim, se fizermos
uma simples comparação, teremos de concordar que o espiritualismo
encontra-se em situação desvantajosa em relação ao materialismo.

A visão materialista está restrita aos cinco sentidos; portanto, é


uma existência limitada, ao passo que a visão espiritualista não conhece
restrições. É como se fosse o tamanho da Terra comparado com o
tamanho do Universo, que é um espaço sem-fim. Considerando o que é
visível, daqui onde estou, só posso enxergar até o monte Fuji, e olhe lá...
A distância não passa de algumas dezenas de quilômetros. No entanto,
o sonen, que é invisível, consegue, num instante, não só atingir qualquer
ponto da Terra como também se estender até o infinito. É como se a
visão espiritualista fosse o oceano, e a visão materialista, o navio que
nele flutua. Nessa mesma lógica, há uma lenda do macaco Songoku36,
que, tentando fugir do domínio espiritual de Buda Sakyamuni, percorreu
milhares de quilômetros, mas acabou se rendendo ao perceber que
ainda estava na palma da mão de Buda. Podemos comparar o
espiritualismo à mão de Buda, e o materialismo, ao macaco Songoku.

Se tomarmos outros exemplos do budismo, temos a “Teoria do


Vazio”, que é a visão materialista analisada a partir da perspectiva
espiritualista: “Tudo o que nasce está sujeito a desaparecer” e “Todo
encontro está condenado à separação.” Há ainda o estado de
Iluminação do zen-budismo: “Aquilo que possui forma, infalivelmente
desaparecerá.”
35
Supersticiosa: Sem fundamento racional, que induz à confiança em coisas absurdas.
36
Songoku: Personagem do romance chinês Hsi Yu Chi (traduzido para o inglês por Arthur Waley
com o título Monkey).

75
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Pela exposição acima, acredito que entenderam o quanto é


errado analisar os assuntos espirituais do ponto de vista da matéria, pois
esta é finita, enquanto o espírito tem vida eterna e é infinito. É o mesmo
que querer colocar um elefante dentro de um pote ou tentar ver todo o
céu através de um orifício no telhado.

Materialistas! O que farão após lerem essas palavras?

20 de dezembro de 1949

76
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

O MATERIALISMO CRIA O HOMEM MAU

Este título pode soar um pouco forte demais, mas não tenho
como evitar, pois corresponde à pura verdade. Segundo nosso ponto de
vista, o materialismo, ou seja, o ateísmo, pode ser considerado o
pensamento mais perigoso que existe. Vejamos. Falando abertamente,
se Deus não existisse, eu agiria às escondidas, ganharia dinheiro
enganando o próximo habilmente; faria o que bem entendesse e, além
de viver uma vida de luxo, estaria numa posição de maior destaque na
sociedade. Entretanto, uma vez que me conscientizei da existência de
Deus, de maneira alguma sou capaz de proceder assim. Tenho de
percorrer o caminho da retidão e tornar-me alguém que deseja a
felicidade das outras pessoas. De outra forma, jamais poderia ser feliz e
ter uma vida que valha a pena viver.

O que eu estou dizendo não é mera suposição. Segundo


podemos ver através de inúmeros exemplos que a História nos mostra
desde os tempos antigos, por mais que a pessoa prospere por meio da
prática do mal, essa prosperidade não dura muito, acabando por
desmoronar. É um fato que deveria ser percebido facilmente, mas
parece que isso não ocorre. A sociedade continua sendo assolada por
crimes graves como assaltos, fraudes e assassinatos; casos de
corrupção de pessoas que ocupam posições sociais elevadas; notícias
alarmistas que geram inquietação; incontável número de crimes de
pequeno e médio porte etc. Tudo isso nasce do pensamento ateísta; por
conseguinte, podemos dizer que ele é a verdadeira fonte dos crimes.
Está, pois, mais do que claro que só há um meio de eliminar os crimes
deste mundo: erradicar o ateísmo. Atualmente, porém, os intelectuais,
as autoridades e os educadores agem na contramão e, confundindo
pensamento teísta com superstição, esperam obter resultados apenas
com apoio na lei, na educação, nos sermões etc. Dessa forma, por mais
que se esforcem com afinco, é natural que nada consigam. As notícias
publicadas nos jornais mostram isso claramente.

À vista disso, para purificar a sociedade de tais males, é preciso


estimular intensamente o pensamento teísta. Infelizmente, o Japão
77
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

encontra-se em tal situação que, quanto mais instruída é a classe


intelectual, maior o número de ateístas. Igualmente, é comum acreditar
que ser ateísta é uma qualificação dos intelectuais e dos jornalistas de
modo que, quanto mais a pessoa enfatiza o ateísmo, mais progressista
ela é considerada. Por esse motivo, se não houver uma reviravolta, no
sentido de que os ateístas passem a ser vistos como ultrapassados, e
os teístas, como a vanguarda intelectual, a sociedade jamais se tornará
alegre e feliz.

7 de maio de 1952

78
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

A CIÊNCIA CRIA AS SUPERSTIÇÕES

Como de costume, os jornalistas têm tachado as novas religiões


japonesas de falsas e supersticiosas. Eles insistem em afirmar que,
aproveitando-se da situação caótica que o povo japonês passou a viver
após a Segunda Guerra Mundial, essas religiões começaram a aparecer,
confundindo ainda mais as pessoas, e que isso é inaceitável. Eles ficam
presos a isso e nem tentam descobrir as causas desse fenômeno.
Definem que as novas religiões são todas falsas e supersticiosas,
baseados apenas em boatos e em seu entendimento pessoal. Não
podemos deixar de nos sentir decepcionados com a superficialidade da
visão desses jornalistas. Por esse motivo, como um de nossos deveres,
sentimos a necessidade de prestar-lhes um grande esclarecimento.

Não queremos condenar totalmente essa atitude, pois, como a


base de seu raciocínio é materialista, é natural que eles definam como
superstição tudo aquilo que não veem. Se estivéssemos em seu lugar,
obviamente agiríamos da mesma forma. Negando-se, porém, a
existência do invisível, como ficaria o mundo? Talvez o materialismo o
levasse a uma situação calamitosa. As relações de amizade e de amor,
inclusive o relacionamento entre pais e filhos ou entre irmãos, seriam
definidas com base em cálculos de vantagens e desvantagens. A
sociedade se tornaria fria como um cárcere de pedra e nem mesmo eles
haveriam de desejar tal situação. Vemos, pois, que o modo de pensar
dos jornalistas a que nos referimos é limitado e sem profundidade.

Analisemos a situação real do mundo em que vivemos.

Talvez não se saiba, mas é considerável o número de pessoas


supersticiosas entre a classe dos intelectuais que possuem formação de
nível superior. Há tempos, li uma estatística sobre os diferentes tipos de
superstições que existem em cada país, e a Alemanha, considerada
uma das nações mais avançadas no ensino das ciências, acusava o
maior número. Desse modo, notamos que a ocorrência de superstições
é diretamente proporcional ao avanço da ciência. Sendo assim, qual
seria a causa disso? Eis como interpretamos o fato:
79
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Durante longo tempo, recebemos, nas escolas, um ensino


materialista cujas bases são teóricas. Entretanto, quando terminamos os
estudos e nos integramos à sociedade, encontramos uma realidade que
não corresponde ao que aprendemos. Em consequência, a maioria das
pessoas começa a ter dúvidas porque, quanto mais elas agem em
conformidade com as teorias, piores são os resultados. Os mais
inteligentes pensam, então, em buscar um novo “saber sobre o mundo”.
Como não existe um local para estudar isso, começam a aprender
sozinhos. Alguns se “formam” em pouco tempo; outros, todavia, levam
muitos anos. Trata-se, na verdade, de um segundo aprendizado,
praticamente o oposto do primeiro, que custou tanto sacrifício. Contudo,
é um aprendizado prático e confiável, que traz resultados positivos, se
aplicado no dia a dia. Os mais bem capacitados tornam-se “doutores”
nesse novo “saber sobre o mundo”. Tendo enfrentado tanto as
amarguras quanto as alegrias da vida, tornam-se experts. Nesse
momento, normalmente já adentraram a velhice e, por isso, muitos
chegam ao final da vida sem alcançar o sucesso. No entanto, existem
aqueles que se sobressaem, como o Sr. Yoshida 37 , atual primeiro-
ministro do Japão, pessoa vivida cuja atitude irreverente e notória
habilidade política são manifestações desse “saber sobre o mundo”.

Com essa explicação, penso que entenderam a causa das


superstições. Em resumo, ao se colocar em prática os conhecimentos
adquiridos na escola tidos como absolutos, e ao ocorrer o fracasso,
sobrevêm dúvidas. Nesse momento, torna-se muito fácil as pessoas
ingressar em religiões falsas e supersticiosas. Podemos dizer,
entretanto, que nenhuma dessas religiões realmente esclarece as
dúvidas. Desse modo, a culpa está no conhecimento, que se encontra
distante da realidade. Por este princípio, não há como negar que um dos
aspectos da educação científica contemporânea, na realidade, é a
criação de superstições.

Para finalizar, quero dizer que reconhecemos que, atualmente, as


religiões falsas e supersticiosas são numerosas, como dizem os

37
Shigueru Yoshida (1878-1967), primeiro-ministro do Japão de 1946 a 1947 e de 1948 a 1954.

80
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

jornalistas, mas achamos errado generalizar porque, sem dúvida,


existem algumas às quais não cabem tais designações. Ora, definir
como superstição aquilo que não o é, também constitui uma espécie de
superstição. Nesse sentido, gostaria de pedir aos jornalistas que
continuem denunciando as religiões falsas e supersticiosas, mas que
tomem cuidado para não tacharem com esses termos as que não o são,
pois esse procedimento representa um obstáculo para o progresso da
cultura.

30 de janeiro de 1950

81
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

A DEFASAGEM DO ESTUDO

Em se tratando de estudo, existe o estudo vivo e o estudo morto.


Isso soa estranho, mas vou esclarecer o que isso significa. Estudar por
estudar é estudo morto, enquanto que estudar para aplicar na vida real é
estudo vivo. O estudo pela busca da Verdade, porém, é algo à parte e
muito valioso. Vejamos, em primeiro lugar, o que é estudo.

Atualmente, em todos os níveis da educação escolar, os


professores utilizam os livros didáticos como dimensão vertical, e a
prática, como dimensão horizontal38. Esse método de ensino assumiu a
configuração atual a partir do resultado de grandes esforços e contínuos
melhoramentos realizados por muitos eruditos. Logicamente, novas
descobertas e teorias surgiram e desapareceram, foram apresentadas e
depois descartadas, preservando-se apenas o que havia de valor nelas.
Aquilo que, em outra época, era considerado Verdade e respeitado
como regra de ouro, foi desaparecendo sem deixar nenhum vestígio, à
medida que apareciam novas teorias e descobertas que o superavam.
Existem, contudo, aquelas que se mantêm vivas e continuam sendo
úteis à sociedade. Tudo é definido pelo tempo.

Por esse motivo, embora tenhamos plena certeza de que hoje


uma teoria seja absolutamente verdadeira, inalterável e eterna, não
podemos saber quando aparecerá outra que a suplante nem quem o
fará. No entanto, quando aparecem novas descobertas, é natural que
elas não se encaixem nos moldes das teorias tradicionais; quanto
menos se ajustarem, maior será seu valor. Resumindo, é uma quebra de
paradigmas, e quanto maior for esse impacto, maior será o seu valor.
Desse modo, se aquilo que pensávamos ser Verdade cair no
esquecimento, é porque surgiu outra Verdade superior àquela. É dessa
forma que se processa o contínuo desenvolvimento da cultura.

38
Vertical e horizontal: são dois conceitos de Meishu-Sama muito semelhantes ao Yin e Yang.
Vertical é estreito, profundo, mental, espiritual, oriental etc. Horizontal é largo, superficial, físico,
material, ocidental etc.

82
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Analisemos mais profundamente. Através dos anos, o ensino


tradicional se estruturou até atingir o que, em tese, seria uma forma
organizada. Contudo, o rápido avanço da cultura se distancia dessa
forma estática com uma velocidade surpreendente. Um dia desses, ouvi
do presidente de uma grande empresa o seguinte comentário: “Mesmo
que seja muito inteligente, alguém que concluiu a universidade há mais
de dez anos, hoje, muitas vezes, não consegue lidar com questões
práticas. Isso ocorre devido à grande disparidade entre o conhecimento
adquirido naquela época e o momento atual, ou seja, há uma
defasagem entre o estudo e o tempo. Isso se dá principalmente entre os
técnicos.” Essas palavras vêm ao encontro daquilo que eu explanava,
porque, como as teorias têm como base a época em que foram criadas,
ao longo do tempo, se não acompanharem o progresso da cultura,
desaparecerão. Exemplifiquemos.

Dizem que os políticos atuais se tornaram medíocres, o que


significa dizer que é difícil encontrar líderes de grande envergadura.
Todo mundo sabe que os atuais ministros de Estado têm capacidade
limitada e se mostram ocupadíssimos em resolver os problemas do
momento; mas suas verdadeiras intenções são evidentes. Isso ocorre
porque, na atualidade, os políticos de nível ministerial são formados
pelas universidades federais e deixam-se levar facilmente pelas velhas
teorias. Racionais em tudo, eles não sabem que existe algo além da
razão. É o mesmo que utilizar carroça numa época em que existem
carros, pois só aprenderam a conduzir aquela e não sabem dirigir carros.

No geral, o estudo desenvolve a inteligência humana, formando,


até certo ponto, uma base, que corresponde ao alicerce de uma
construção. É sobre esse alicerce que se ergue uma nova construção,
isto é, coloca-se em prática o estudo, este é aprimorado e promove
inovações. Assim, dá-se uma sintonia do estudo com o contínuo
progresso da cultura. E mais: ele vai além e cumpre o papel de liderança.
Isso, sim, é o estudo vivo. Recentemente, soube que o presidente
Truman39, dos Estados Unidos, por volta de 1921, era um comerciante
39
Harry S. Truman (1884-1972), trigésimo terceiro presidente dos Estados Unidos, cujo mandato foi
de 1945 a 1953.

83
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

de miudezas. Creio que foi essa experiência de vida que o levou até
onde ele chegou hoje.

Há mais de dez anos, proclamei uma nova teoria sobre a


medicina; porém, tão logo eu a publiquei em livro 40 , sua venda foi
proibida pelas autoridades. Isso se deu por três vezes, e como eu não
pude fazer nada contra, desisti. O motivo é que minha tese é contrária
aos conhecimentos da medicina atual. Comparando a proporção dos
resultados obtidos pelo meu método com a da medicina atual, vemos
que o meu é dezenas de vezes mais eficaz. Além disso, não se trata de
cura temporária, mas definitiva. O que estou dizendo constitui a pura
verdade, sem o mínimo exagero. No prefácio do livro, eu até escrevi:
“Estou pronto para comprová-lo a qualquer hora.” Todavia, uma vez que
as autoridades e os especialistas não deram a mínima atenção, nada
mais pude fazer.

O objetivo da medicina é curar todas as doenças e promover a


saúde do ser humano, prolongando-lhe a vida. Que objetivo poderia ter
além deste? Por mais que se preguem teorias, por mais que se
aperfeiçoem as instalações e que haja aparelhagens supersofisticadas,
tudo isso será inútil se não corresponder ao referido objetivo. Baseados
apenas na divergência entre a minha teoria e a da medicina
convencional, as autoridades e os especialistas ignoraram a minha, sem
ao menos tentar examiná-la, revelando-se, portanto, verdadeiros
traidores do progresso da cultura. Como os governantes depositam
absoluta confiança nessa medicina, só posso dizer que o homem
contemporâneo não passa de uma pobre ovelha indefesa.

Por que eu teria apresentado uma teoria tão ousada? Ora, se eu


não tivesse absoluta convicção, jamais a teria divulgado. Descobri uma
grave falha na medicina, que tanto se orgulha do seu progresso. Entre
as grandes descobertas efetuadas até o presente, nenhuma se compara
à que eu fiz, porque não existe nada tão importante quanto a solução
dos problemas relacionados à vida humana. Enquanto a medicina atual

40
Refere-se ao livro A medicina do futuro publicado três vezes: em 28/9/1942, 5/2/1943 e 5/10/1943.

84
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

não despertar para essa grave falha, afirmo que ela não será uma
existência útil de fato.

Qualquer um percebe que, ao nosso redor, está aumentando o


número de criaturas sofredoras, acometidas de doenças graves
causadas pelos tratamentos errôneos. Diante disso, não conseguimos
ficar indiferentes. No momento, porém, não me resta outra coisa senão
orar a Deus para que as pessoas despertem o quanto antes.

30 de janeiro de 1950

85
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

A RESPEITO DO ATEÍSMO

Quando se escreve sobre o ateísmo, parece ser regra geral


desenvolver a argumentação partindo do ponto de vista religioso.
Contudo, eu pretendo discorrer sobre esse tema sem tocar em religião,
colocando-me na posição de ateu.

Logo que um bebê nasce, surge do corpo da mãe o leite, uma


substância completa e necessária à sua formação. Por meio disso, a
criança cresce normalmente, e quando nascem os primeiros dentes, os
pais oferecem-lhe alimentação adequada à mastigação. Assim, ela vai
vencendo várias fases de seu desenvolvimento, até atingir a idade
adulta. Em relação aos alimentos, que representam um papel muito
importante nesse processo, cada um tem seu sabor, e o ser humano,
que possui o sentido do paladar, se alimenta deles com prazer,
absorvendo as calorias necessárias. Creio ser este o maior de todos os
prazeres humanos.

À medida que o corpo físico cresce, a inteligência é desenvolvida


por meio da educação escolar entre outros e, assim, o ser humano se
torna capaz de exercer as funções normais de um adulto. Surgem-lhe,
então, diversos desejos, despertando nele a sede de conhecimento,
orgulho, competitividade e inventividade. Também vêm à tona os
desejos físicos, como os prazeres mundanos, o namoro e outros.

Dessa maneira, por meio da alternância dos sofrimentos e


alegrias, e da interação da razão e do sentimento, o ser humano reúne
as condições de um ser superior e torna-se apto para participar da vida
social.

Escrevi, em linhas gerais, sobre o curso da vida humana, desde o


nascimento até a vida adulta. Consideremos, agora, a Grande Natureza.

Tudo o que existe no Universo é criado e desenvolvido pela força


da Grande Natureza: os fenômenos naturais, visíveis ou não, a atividade
dos astros, a alternância das estações do ano e as variações climáticas,
86
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

bem como os animais, os vegetais e os minerais, que possuem relação


direta com a vida do ser humano. Esta é a própria imagem do mundo.
Observando a Natureza de forma serena e objetiva, e sem ideias
preconcebidas, qualquer pessoa – a menos que seja desprovida de
sensibilidade –, fica sem palavras, embevecida com seu encanto.

A Natureza é dotada de mistério profundo e insondável. Ninguém


pode deixar de pensar nas questões como: Quem criou este mundo tão
magnífico e com que propósito? Infinito é o Céu que contemplamos e
desconhecida é sua extensão. Como se apresenta o centro da Terra?
Qual a temperatura do Sol e da Lua? Qual o número certo de estrelas, o
peso exato do globo terrestre, o volume da água dos oceanos?
Questões dessa ordem são inumeráveis.

Quanto mais pensamos, mais ficamos abismados com o


movimento ordenado dos astros, a formação da noite e do dia, o
fenômeno das estações do ano, a divisão do ano em 365 dias, a
evolução de todas as coisas, o progresso ilimitado da civilização etc.
Quando surgiu este mundo? Até quando ele existirá? Ele é eterno ou
não? Qual o limite da população mundial? E o futuro da Terra? Tudo
permanece envolto em mistério.

Todas as coisas e seres estão em eterno movimento, sem a


mínima falha ou atraso, obedecendo a uma ordem estabelecida.

Ainda nos deparamos com questões como: Por que viemos a


este mundo e que papel devemos desempenhar? Até quando
poderemos viver? Voltaremos ao Nada, após a morte, ou existe o
desconhecido Mundo Espiritual, onde iremos habitar em paz? As
reflexões sobre o assunto nos deixam ainda mais confusos,
permanecendo na obscuridade. Dizem os budistas: “A realidade é um
vazio, e o vazio é uma realidade.” Não há outro qualificativo senão dizer
que o mundo é uma existência vasta, ilimitada e infinita.

Com a pretensão de desvendar este mundo misterioso, há


milhares de anos, o ser humano vem empregando todos os meios,
87
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

principalmente os estudos. Entretanto, só uma pequena parcela é


conhecida, permanecendo o restante em mistério. Isso demonstra a
insignificância da inteligência humana em relação à Grande Natureza. A
expressão “vazio e silêncio”, também citada pelos budistas, mostra isso.

A vaidade humana, em sua tola presunção, excede-se a ponto de


querer subjugar essa mesma Natureza. Sábio é aquele que, antes de
mais nada, procura conhecer a si mesmo, submete-se a ela e participa
de suas bênçãos.

A propósito, analisando este mundo cheio de mistérios, existe


uma questão que mais nos chama a atenção: “Quem construiu este
mundo maravilhoso e o governa à sua vontade?” Procuremos imaginar
quem é esse ser.

Um lar é governado pelo chefe da família; um país, pelo rei ou


presidente. Logicamente, neste mundo também deve haver um
protagonista. E quem poderia ser senão aquele que é chamado pelo
nome de Deus? Não encontro outra conclusão. Por conseguinte, negar
a Deus significa negar o próprio mundo e a própria existência dos ateus.
Tal lógica não permite dúvidas. Se alguém não a compreende, coloca-se
em um plano semelhante ao dos animais, que são destituídos de sonen
e inteligência. Tal pessoa poderia, então, ser considerada um animal
com forma humana. A maior prova disso é que o ateísmo gera
criminosos cujos pensamentos e atos, em sua maioria, são animalescos.

Minha missão é extirpar das pessoas essa característica,


fazendo-as evoluir ao nível de verdadeiros seres humanos. Em outras
palavras, tudo isso significa empreender a reforma do ser humano. E a
condição básica para tal é a derrota do ateísmo.

6 de janeiro de 1954

88
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

A CULTURA DE SU

Para falar sobre esse tema, começarei por explicar o significado


do símbolo su (☉). Como se pode ver, é uma circunferência (○) com um
ponto (・) bem no centro. Se fosse apenas isso, não teria nenhuma
importância; mas, nada encerra significado tão grande e misterioso.

Tudo no Universo possui forma circular, como a Terra, o Sol e a


Lua. E até mesmo os espíritos desencarnados, para se moverem de um
lugar para outro, apresentam esse formato. Isso está bem comprovado
pelo conhecido fenômeno hitodama 41 . Quando as divindades se
locomovem, também adquirem esse aspecto; no caso delas, são “bolas
de luz”. As dos espíritos humanos desencarnados não possuem luz,
sendo apenas algo enevoado, de cor amarela ou branca. Tratando-se
de espírito masculino, é amarela, e de espírito feminino, branca,
correspondendo, respectivamente, ao Sol e à Lua.

Agora, vamos ao mais importante. Naturalmente, nosso mundo


também tem o formato circular; mas não passará de um círculo, se o
seu interior estiver vazio. No caso do ser humano, significa que ele não
teria alma; assim, colocar um ponto quer dizer colocar-lhe alma, isto é,
que ele ganhou vida, sendo capaz de desempenhar atividades. Por
conseguinte, o círculo com um ponto no centro simboliza uma forma
vazia na qual se pôs alma. Isso equivale à expressão “colocar espírito”,
usada pelos pintores desde antigamente. Com base no que acabamos
de dizer, podemos afirmar que, até agora, o mundo era vazio, não
possuía o ponto no centro, ou seja, a alma. Esta é a razão por que
escrevi, em outra oportunidade, sobre a “cultura sem conteúdo”.

Isso pode ser constatado em todos os setores da cultura. Como


sempre digo, o tratamento sintomático das doenças, também é uma
manifestação disso. As dores e as coceiras são amenizadas por meio de
injeções ou de medicamentos aplicados ao local; a febre, baixa-se com
gelo; corta-se também a purificação tomando-se medicamentos. Dessa
41
Hitodama: Fenômeno do surgimento de bolas de fogo, conhecido como fogo-fátuo interpretado
popularmente como espírito de pessoas desencarnadas.

89
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

forma, o doente livra-se dos sofrimentos durante algum tempo; mas,


uma vez que não se atingiu o cerne da doença, a cura completa é
evidentemente impossível e, com o tempo, infalivelmente, a doença
retorna. Na verdade, o que ocorreu foi apenas um adiamento. Sendo
assim, a causa das enfermidades também está no “ponto no centro”.
Todavia, até agora, não se alcançou a compreensão disso.

Outro exemplo é a criminalidade. Atualmente, a única maneira


para tentar impedi-la é fazer com que o criminoso aprenda a lição com o
sofrimento decorrente da pena que lhe foi imposta. Trata-se, pois, de um
processo semelhante ao tratamento baseado nos sintomas empregado
pela medicina. Por isso é que, quando alguém comete um crime,
geralmente vem a perpetrar outros. Existe quem pratique dezenas deles
e até mesmo quem os cometa a vida inteira, passando mais tempo de
sua vida preso do que em liberdade. A causa também está na falta do
ponto, ou seja, da alma.

Pode-se dizer a mesma coisa sobre a guerra. Aumentando-se o


poderio militar, o inimigo sentirá que não tem condições de vencer e
desistirá da luta por algum tempo. Todavia, isso não passa de um meio
de protelar a guerra; a História tem demonstrado que, um dia,
inevitavelmente, ela recomeçará. Assim sendo, podemos entender que a
cultura existente até agora era apenas um círculo sem o ponto no centro.

Eu sempre me refiro aos noventa e nove porcento e um porcento.


Se for inserido o “ponto” num círculo, isso significa que, por meio de um
porcento, modificam-se noventa e nove porcento. Em outras palavras,
representa destruir noventa e nove porcento do mal com a força de um
porcento do bem. Seria o mesmo que, com a força desse um porcento,
tornar branca uma circunferência prestes a ser pintada totalmente de
preto. Relacionando isso ao mundo, significa preencher essa civilização
vazia com conteúdo, ou melhor, colocar-lhe uma alma. Dessa maneira,
daremos vida à civilização, que, até agora, só apresentava forma, como
se fosse uma existência morta. Será o nascimento de um novo mundo.

10 de setembro de 1952
90
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

O JUÍZO FINAL

Tanto os cristãos quanto as pessoas em geral devem estar muito


interessados em saber quando e como ocorrerá o Juízo Final,
profetizado por Jesus Cristo. Visto que o momento é iminente, vou
esclarecer uma parte da questão. Não se trata de interpretação minha, e
sim, de um conhecimento adquirido por intuição espiritual. Por esse
motivo, tomem o que vou esclarecer agora como referência e
considerem minhas palavras como uma teoria.

Em primeiro lugar, é necessário deixar claro se realmente haverá


um Juízo Final. Ora, um ser sagrado como Jesus Cristo, que hoje é alvo
da fé de milhões de seguidores, entre os quais se contam povos de
nações desenvolvidas que lideram o mundo, não profetizaria algo que
não ocorrerá. Caso sua profecia não se concretize, ele não passará de
um mentiroso. Dessa forma, até nós, que não somos cristãos,
acreditamos nela piamente.

Nos ensinamentos do Ofudesaki, da fundadora da Oomoto,


consta: “O que Deus diz não tem erro algum, nem mesmo da largura de
um fio de cabelo.” Portanto, não incorreremos em erro, se aplicarmos
essa afirmação à profecia sobre o Juízo Final. Também existem os
seguintes ensinamentos no Ofudesaki sobre o bem e o mal:
“Exterminando o mal, construirei o mundo do bem”; “O mundo do mal já
acabou”; “O mundo do mal atingirá seu ápice aos noventa e nove
porcento e, com a força de um porcento, passará a ser o mundo do
bem”; “Finalmente, está chegando a hora da mudança do mundo.”
Todos eles, creio eu, não dizem respeito a outra coisa, senão ao Juízo
Final. É aquilo a que estamos nos referindo constantemente como
sendo a Transição da Noite para o Dia. Há outro ensinamento, também
da Oomoto, relacionado a essa transição: “Vai chegar o momento crítico
pelo qual o mundo passará; por isso, façam o polimento do corpo e da
alma.” Tais palavras significam que é impossível ao ser humano
transpor esse período estando com o corpo e a alma impuros.

91
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Tomando a Bíblia como base e analisando o sentido dos


ensinamentos do Ofudesaki, podemos concluir que nos encontramos na
iminência de um momento realmente crítico e que, para ultrapassá-lo, é
preciso ter o coração imaculado. O homem mau decairá e perecerá por
toda a eternidade. Consequentemente, torna-se imprescindível purificar
a alma através de uma fé correta, a fim de que possamos transpor essa
fase com segurança.

Entretanto, na sociedade, é comum ouvir que isso é um absurdo,


que as divindades são apenas frutos da imaginação humana e que, na
realidade, não existem. Os materialistas podem não acreditar, mas
quando chegar o momento decisivo, mesmo que, aflitos, quiserem
voltar-se para Deus, obviamente, será tarde e não haverá mais o que
fazer. E isso está bem evidente. Naturalmente, Deus, com Seu grande
amor, salvará o maior número possível de pessoas. Nós, que
encarnamos Sua Vontade, estamos repetidamente advertindo por meio
da palavra oral e escrita.

O seguinte ensinamento da Oomoto tem exatamente o mesmo


sentido daquilo que eu acabei de explicar: “Deus quer salvar os homens;
contudo, se eles não atentarem para as advertências dos ensinamentos,
encarando-as simplesmente como o crocitar do corvo 42 a que estão
acostumados a ouvir, chegará a hora em que, mesmo que se apressem
a suplicar a Deus Seu perdão, Ele não poderá ocupar-se dessas
pessoas. Assim, terão de resignar-se ante a situação que elas mesmas
criaram.”

A propósito, falarei resumidamente sobre o Dilúvio.

O fato deve ter ocorrido há milhares ou dezenas de milhares de


anos, num país da antiga Europa, onde vivia um homem chamado Noé.
Numa situação que hoje conhecemos como “transe”, ele foi avisado
sobre a iminência de um dilúvio e, por isso, deveria alertar seu povo.
42
No Japão, corvo é, na gíria, a alcunha do chefe “chato”, que fica implicando com tudo. Nas tardes
de tempo bom, os corvos costumam voar em bando e crocitam, fazendo alarde, mas ninguém presta
atenção a eles. “Crocitar do corvo” é uma referência para indicar uma implicância por algo banal e
corriqueiro.

92
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Seguindo à risca o que fora dito, anunciou aos homens a ocorrência do


referido fato, mas ninguém acreditou em suas palavras. Alguns anos se
passaram, mas, finalmente, ele conseguiu convencer sete pessoas.
Então, Deus lhe ordenou que construísse uma arca. Essa arca tinha o
formato de uma noz e possuía uma tampa.

Pouco tempo depois, começou a chover ininterruptamente. Uns


dizem que choveu durante quarenta dias; outros, cem. O certo é que foi
um longo período de fortes chuvas. As águas subiam cada vez mais,
inundando as casas; apenas o cume das montanhas ficava de fora. Os
homens construíram barcos ou se refugiaram nas montanhas. Todavia,
os animais ferozes e as cobras venenosas, querendo salvar-se,
entravam nas embarcações ou subiam as montanhas. Famintos, eles
devoraram todos os homens. Apenas as oito pessoas que estavam na
arca foram poupadas, pois os animais não conseguiram entrar nela,
devido à tampa que a fechava. Elas são consideradas antepassados da
atual raça branca.

No Novo Testamento, consta que João Batista realizava o


batismo pela água e que Jesus Cristo fará o batismo pelo fogo. O Dilúvio
possui o mesmo significado que a purificação do espírito pela água,
realizada por João. Assim, a purificação do espírito pelo fogo atribuída a
Jesus Cristo só pode ter o mesmo significado do Juízo Final, que está
prestes a chegar. A água é matéria, e o fogo é espírito.
Consequentemente, aquilo que estamos realizando atualmente – o
método de purificar o espírito por meio do espírito –, nada mais é que o
batismo pelo fogo. Uma vez que o espírito se reflete na matéria, creio
que a influência que esse batismo exercerá sobre ela será uma
mudança sem precedentes. Contudo, precisamos saber que o momento
crítico atingirá apenas o mal e não o bem.

Este artigo, eu o ofereço às pessoas sem religião.

20 de janeiro de 1950

93
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

CONCRETIZAÇÃO DA PROFECIA DO REINO DOS CÉUS – O


PARAÍSO TERRESTRE

Para o momento atual, creio que os pontos mais importantes da


Bíblia são: “Juízo Final”, “Chegada do Reino dos Céus” e “Segunda
Vinda de Cristo”. Um estudo sobre tais fatos leva-nos a crer que o Juízo
Final é obra de Deus, que a Segunda Vinda de Cristo ocorrerá no seu
devido tempo, o que dispensa qualquer explicação, e que somente o
Paraíso Terrestre será construído pela força humana. Nesse caso, é
indispensável que, em certo momento, alguém se torne o arquiteto e
execute a construção. Segundo nossa interpretação, o tempo é o
presente; quanto ao construtor, a nossa religião. E a concretização da
profecia do Reino dos Céus já começou! Vejam! Estamos construindo
esse modelo conforme veiculado diversas vezes em nossas publicações.

É por meio da construção do Paraíso Terrestre efetuada pela


nossa religião que a profecia de Jesus Cristo se concretizará. Não
desejo que advenha orgulho desse fato, pois tanto a profecia bíblica
quanto sua concretização por nós são frutos do amor de Deus pela
humanidade, que utiliza, livremente, Seus escolhidos para a construção
do mundo ideal conforme a época. Visto que a obra que estamos
desenvolvendo foi profetizada por Jesus Cristo há dois mil anos,
considero que cada um de nós foi incumbido da missão de concretizar
tal profecia.

20 de março de 1950

94
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

TRANSIÇÃO DA NOITE PARA O DIA

Conforme já falei a respeito da relação entre o Mundo Espiritual e


o Mundo Material, tudo o que se passa neste é a projeção do Mundo
Espiritual, onde está ocorrendo uma grande mudança. Conhecendo-se
esse fato, tudo se torna claro aos nossos olhos.

Todas as coisas existentes entre o céu e a terra nascem e se


desenvolvem, bem como são criadas e destruídas pela ação daqueles
dois mundos, numa evolução infinita. Numa visão ampla, o universo é
macroinfinito e, ao mesmo tempo, um conjunto de microinfinitos, que é o
mundo da matéria. Por meio de sua contínua transformação, a cultura
se desenvolve ininterruptamente. Meditando sobre isso calmamente,
não podemos deixar de sentir a vontade do Universo, isto é, o objetivo e
a intenção de Deus. Em tudo há a distinção entre yin e yang, claro e
escuro, dia e noite. Quando observamos a mudança das quatro
estações do ano, a ascensão e o declínio de todas as coisas, notamos
que isso também se encaixa perfeitamente em nossa vida. Existem,
ainda, as classificações pequeno, médio e grande para tudo. Aplicando
tal raciocínio ao tempo, podemos dizer que, assim como ocorre a
alternância do dia e da noite no espaço de um dia, ela se dá igualmente
em intervalos de um, dez, cem, mil, milhares ou dezenas de milhares de
anos. É um fenômeno que ocorre no Mundo Espiritual; no Mundo
Material, só notamos a diferença no espaço de vinte e quatro horas.

Obedecendo a esta lógica, no Mundo Espiritual, é chegada a hora


da mudança da noite para o dia, que, efetivamente, se processa em
intervalos de alguns milhares ou dezenas de milhares de anos. Trata-se
de um fato extremamente importante, cujo conhecimento é
imprescindível à compreensão do princípio do Johrei. Além disso, o
conhecimento dessa mudança possibilita vislumbrar o futuro do Johrei e
do mundo, o que conduz o ser humano à paz interior. Explicarei como
está se projetando no Mundo Material a mudança que ocorre no Mundo
Espiritual, em milhares e milhares de anos.

95
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Nesse sentido, até agora, era noite no Mundo Espiritual. Nele, da


mesma forma que no Mundo Material, a noite é escura, e só
periodicamente há luar. Obviamente, há bastante elemento água e,
quando a Lua se esconde, resta somente a luz das estrelas. Se estas
forem encobertas pelas nuvens, a escuridão será completa.
Observando-se os fatos do Mundo Material, que são a projeção do que
ocorre no Mundo Espiritual, isso fica evidente. A alternância dos
períodos de paz e guerra e a ascensão e queda das nações podem ser
comparadas às fases da lua cheia e da lua nova. Agora, um ciclo se
encerrou. É justamente o momento da mudança para o dia, que
corresponde ao alvorecer.

A transição da noite para o dia no Mundo Espiritual acarretará


uma experiência inédita para a humanidade. Uma grande, espantosa,
temível e ao mesmo tempo feliz mudança está para ocorrer, e seus
sinais já estão surgindo. Vejamos.

O Mundo do Dia é como no Mundo Material: primeiro, aparecem


pinceladas da luz do Sol no horizonte, a leste. Atentem, por exemplo,
para a grande transformação ocorrida no Japão, que fica no extremo
leste do planeta, ou seja, o país do sol nascente. Nele já se iniciou o fim
da cultura da noite, ou seja, da cultura existente. Observem, entre outros
fatos, o colapso de cidades de grande importância cultural, a situação
calamitosa da economia e da indústria, a queda dos líderes e o declínio
das classes privilegiadas. Tudo isso é consequência da mudança a que
nos referimos.

E o que virá em seguida é a construção da cultura do dia, que


também já está despontando, representada, no Japão, pelo
desarmamento, seguido da ascensão da democracia. Esses dois
acontecimentos, absolutamente inimagináveis desde o estabelecimento
do Japão como nação, há dois mil e seiscentos anos, constituirão o
primeiro passo para a consolidação da eterna paz mundial.

O Mundo da Noite significa uma era de trevas, caracterizada por


lutas, fome e doenças. Em contraposição, o Mundo do Dia significa uma
96
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

era de luz, plena de paz, fartura e saúde. O Japão atual expressa bem a
fase de transição entre esses dois mundos.

O Sol, que começa a despontar no leste, logo deverá atingir o


zênite. E o que significa isso? Significa o colapso total da cultura da
noite em escala mundial; ao mesmo tempo, ouvir-se-á o brado do
nascimento da cultura do dia. Pode-se mais ou menos ter uma ideia
disso pelos fatos ocorridos no Japão os quais, em pequena escala, já
mostram um modelo dessa cultura. Assim, aproxima-se o momento
decisivo para o destino da humanidade, e dele talvez ninguém
conseguirá escapar. Restará apenas o caminho de minimizar os
sofrimentos. E aqui vou apresentar-lhes um meio para isso: conhecer o
princípio do Johrei e participar dos projetos de construção da cultura do
dia.

Há um trecho da Bíblia que diz: “E será pregado este evangelho


do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então,
virá o fim.” 43 Isso, acredito eu, indica que meus textos cumprirão a
referida missão.

Para esclarecer o princípio do Johrei, precisei explicar até o


destino do mundo. Todavia, era sumamente importante que o fizesse,
pois tanto a descoberta do princípio do Johrei quanto dos equívocos da
medicina fundamenta-se na transição da noite para o dia.

De acordo com o que já expliquei, a causa das doenças são as


nuvens espirituais e eliminá-las é a condição única para a cura das
doenças. Por que, então, no mundo anterior ao surgimento do Johrei,
ninguém havia conseguido descobrir isso? O motivo é o seguinte.
Existem dois métodos de cura das doenças. O primeiro é fazer com que
as toxinas retornem ao estágio anterior ao início da purificação. Ou seja,
o método de solidificação. O segundo é o oposto: é o método de
dissolver as toxinas e eliminá-las. Assim sendo, acredito que os leitores

43
Mateus 24:14 (Bíblia de Estudo Almeida).

97
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

puderam compreender que a medicina convencional utiliza o método de


solidificação e o Johrei, o método de dissolução.

Sendo o princípio do Johrei a irradiação da misteriosa luz invisível


emanada do corpo humano, qual seria, então, a natureza dessa luz? Ela
é uma espécie de energia espiritual, peculiar ao corpo humano, e seu
componente principal é o elemento fogo. Portanto, na ministração do
Johrei, necessita-se de grande quantidade desse elemento. À medida,
porém, que se aproxima o Mundo do Dia, o elemento fogo vai
aumentando no Mundo Espiritual, pois a fonte de irradiação desse
elemento é o Sol. Assim sendo, além de ser eficiente na eliminação das
doenças, o elemento fogo possui mais um fator de importância decisiva:
seu incremento no Mundo Espiritual acelera o processo de purificação
do corpo material, porque a transformação ocorrida naquele mundo
causa influência direta no corpo espiritual. O aumento do elemento fogo
tem a função de auxiliar a intensificação da energia purificadora das
nuvens espirituais. Assim sendo, ao mesmo tempo em que as doenças
aparecerão mais facilmente, o tratamento solidificador empregado pela
medicina atual terá um efeito cada vez menor e, por fim, se tornará
ineficaz. No Mundo da Noite, era preciso que transcorressem vários
anos para haver uma nova dissolução das toxinas anteriormente
solidificadas, mas esse período diminuirá para um ano, meio ano, três
meses, um mês e, no final, a solidificação se tornará impossível. Um
excelente exemplo do que estamos dizendo é a vacinação. O fato que
se segue é verídico e ocorreu no Japão.

Há algumas décadas, diziam que uma aplicação de vacina


imunizava a pessoa para o resto da vida, mas aos poucos o período de
imunização foi reduzido para dez anos, depois para cinco e, nos últimos
tempos, seu efeito tornou-se pouco eficaz.

A cada ano que passa, outros tipos de doenças tendem a


aumentar: esta é uma realidade que não podemos deixar passar
despercebida.

98
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Pelo exposto, os leitores poderão entender que, pouco a pouco,


está-se processando a transição da noite para o dia. Na era da noite,
para o tratamento das doenças, era mais vantajoso solidificar as toxinas
que dissolvê-las, pois não havia elemento fogo suficiente para promover
sua dissolução. Assim, era inevitável adotar-se provisoriamente o
método de solidificação. Eis a pavorosa falácia que se tornou a causa
dos sofrimentos da humanidade, como as guerras, a fome, as doenças e
a diminuição da duração da vida.

5 de fevereiro de 1947

99
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

SOU UM CIENTISTA EM RELIGIÃO

Se eu, um religioso, disser que sou também um cientista, todos


estranharão, mas estou certo de que, ao final da leitura deste texto,
haverão de concordar comigo.

Sempre digo que a ciência atual ainda se encontra num nível


inferior, nem podendo ser considerada como tal. Vou falar
minuciosamente a seu respeito. Atualmente, ela dá ênfase à descoberta
e ao estudo das partículas. É claro que isso se deve ao aperfeiçoamento
do microscópio, cujo avanço é impressionante. Conseguem-se distinguir
corpos extremamente minúsculos, frações da ordem de um milésimo,
milionésimo ou bilionésimo. Trata-se de um avanço contínuo e,
atualmente, esse instrumento está prestes a entrar no mundo
infinitesimal. A palavra sei44, que ultimamente começaram a usar com
mais frequência, deve estar indicando este mundo.

É claro que o conhecimento do mundo infinitesimal não se deve a


procedimentos científicos; trata-se de hipóteses deduzidas a partir de
pesquisas teóricas e científicas. Se não fosse assim, não seria possível
avançar. Esse é exatamente o Mundo Espiritual a que me refiro. A
ciência finalmente alcançou este estágio. Dessa maneira, para ser
franco, ela, que por tanto tempo insistiu em negar a existência do
espírito, acabou derrotada. Isto posto, imaginemos que a ciência
compreenda de fato que a palavra sei é o que chamamos de espírito ou
ki45. Neste caso, ela se elevaria a um nível mais alto e avançaria rumo
ao ideal do conhecimento, que é a busca pela Verdade. Desse modo, a
ciência que, até então, se baseou na matéria, seria considerada da
primeira fase. E a ciência que considera o espírito, seria conhecida pelo
mundo como a ciência da segunda fase. Desse modo, haveria uma
mudança de cento e oitenta graus no rumo da ciência, que necessitaria
integrar-se à religião. Em termos mais claros, seria traçada uma linha
demarcatória no mundo científico: a ciência da matéria ficaria situada
44
Sei: Palavra utilizada na cultura japonesa para designar substâncias extremamente etéreas e sutis.
45
Ki: Também grafado como qi ou ch’i, na tradição oriental refere-se a uma energia ou força cósmica
que permeia o universo.

100
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

abaixo dessa linha, e a ciência do espírito, acima. Esta é uma visão no


sentido vertical; no sentido horizontal, a ciência da matéria é o invólucro,
e a do espírito, o conteúdo. Em outras palavras, isso significaria uma
evolução da ciência do visível para a ciência do invisível, o que seria
motivo de alegria.

Todavia, aqui se apresenta um sério problema: não adianta


apenas captar a existência do mundo do espírito; é necessário
apreender sua verdadeira natureza e fazer com que a noção da
existência do Mundo Espiritual seja útil à humanidade. Infelizmente, a
ciência da matéria não tem métodos para isso, pois, para lidar com a
parte espiritual, os meios devem ser espirituais; porém, afirmo que é
possível superar esta dificuldade. Aliás, ela já está sendo suplantada:
tenho obtido resultados admiráveis na resolução de problemas do
espírito por meio do espírito. Refiro-me justamente ao tratamento de
doenças. Explicando de forma sucinta, a causa de todas as doenças são
as impurezas acumuladas no espírito do doente, tornando-se evidente
que, se as eliminarmos, as doenças serão erradicadas, de acordo com a
Lei Espírito Precede a Matéria. Meu método consiste na irradiação de
uma energia espiritual peculiar que pode ser considerada uma “bomba
atômica espiritual” para queimar as impurezas. Esse método,
denominado Johrei, constitui um procedimento científico de alto nível.
Não se limitando ao campo da medicina, ele consegue resolver
problemas que nenhuma religião ou ciência conseguiu. Se isso não é
uma superciência, o que será?

Vou explicar a respeito disso, de outro ângulo.

Como todos sabem, a teoria vigente na medicina afirma que a


origem de todas as doenças reside nos micróbios e, graças à sua
histórica descoberta, a medicina alcançou um progresso memorável. No
entanto, como se trata do avanço da ciência da matéria, é uma evolução
pela metade. Ou seja, apenas exterminar os micróbios não atinge a raiz
da questão. Do meu ponto de vista, é o mesmo que tapar o sol com a
peneira, já que os micróbios são apenas o efeito e não a causa. Mesmo
os micróbios se criam a partir de formas embrionárias que são, na
101
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

verdade, aquilo que estão chamando de vírus. Parece que, ultimamente,


os cientistas estão discutindo se os vírus são orgânicos ou inorgânicos.
Realmente, isso é muito engraçado, pois os vírus são partículas
intermediárias que estão passando do estado inorgânico para o orgânico.
Assim, não é possível definir sua natureza. Portanto, o que importa é o
local onde surge o inorgânico, e este local é o Mundo Espiritual. Se
compreenderem isso, o microscópio torna-se dispensável.

A atual ciência da matéria é de baixo nível. E, por esse motivo,


obviamente, é impossível resolver, por meio dela, questões de alto nível
como a vida do ser humano. Isso se torna claro ao observarmos que
doenças graves consideradas incuráveis pela medicina estão sendo
facilmente curadas por meio do Johrei. Pode-se dizer que a ciência do
espírito é a essência da ciência da matéria.

Farei uma análise profunda do Mundo Espiritual. Sua verdadeira


natureza é constituída pela essência do Sol, da Lua e da Terra, que, na
ciência, correspondem, respectivamente, ao oxigênio, ao hidrogênio e
ao nitrogênio. Para nós, isso significa a junção dos elementos fogo,
água e terra. A Terra é a essência da matéria; o Sol, a essência do
espírito, e a Lua, a essência do ar. O Sol e a Lua controlam a atmosfera,
que preenche o espaço terrestre. Embora o elemento fogo seja o mais
forte, não foi possível detectá-lo por meio da ciência da matéria por ele
ser extremamente rarefeito. Até agora, conheciam-se apenas suas
propriedades de luz e de calor; porém, sua verdadeira essência como
energia espiritual permanecera desconhecida. Assim, a ciência tomou
como objeto de estudo apenas os elementos água e terra e, por esse
motivo, a cultura atual está baseada nesses dois, o que consiste na
maior falha da civilização atual.

Agora, vou-me referir a uma grande mudança que ocorrerá no


mundo. Conforme já explicamos, ele é constituído pelos elementos do
Sol, da Lua e da Terra. A distinção entre o dia e a noite é decorrente da
alternância do Sol e da Lua; mas, isso é um fenômeno visto pelo
aspecto material. Acontece que, pelo aspecto espiritual, também
existem dia e noite. Evidentemente, através da ciência da matéria, não
102
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

se consegue compreender isso, mas por meio da ciência do espírito, é


perfeitamente possível. A mudança a que me refiro é a grande e
surpreendente transição do mundo, que se iniciará a partir de agora.
Será uma transformação histórica que, para ser entendida, necessitará
da ampliação de nossa noção sobre o dia e a noite. Ou seja, devemos
saber que, no Mundo Espiritual, a alternância entre o dia e a noite se
sucede em períodos de dezenas, centenas, milhares, dezenas de
milhares de anos e assim por diante.

Da mesma forma que o globo terrestre é formado pelos três


elementos – fogo, água e terra –, tudo no Universo se fundamenta no
número três. E isso constitui uma lei imutável. Mesmo a alternância
entre a Era do Dia e a da Noite se dá nos períodos de três, trinta,
trezentos e três mil anos. É evidente que, dependendo da natureza e da
dimensão das coisas, a projeção do espírito para a matéria dá-se com
maior ou menor rapidez, mas fundamentalmente o movimento se dá
com precisão. Surpreendentemente, o tempo de mudança de três mil
anos é o momento atual, e estamos agora diante desse alvorecer. Já me
referi a isso anteriormente, e até a data estava definida. Foi a partir de
15 de junho de 1931 que o mundo se tornou dia. Contudo, essa
mudança do Mundo Espiritual gradualmente será projetada no Mundo
Material até certa época. No devido tempo, ela se tornará evidente.
Gostaria de dar uma explicação mais profunda, mas vou abreviá-la,
porque teria de entrar no campo da religião. Entretanto, gostaria que
confiassem no que estou dizendo, pois se trata de uma verdade
absoluta.

O fato de o Mundo Espiritual se tornar dia significa que há uma


intensificação do elemento fogo. Apesar de ser uma mudança gradativa,
já está se projetando no Mundo Material. Assim, o mundo em que o
elemento água predominava sobre o elemento fogo, tornar-se-á o
mundo em que o elemento fogo predomina sobre o elemento água. Por
intermédio da ciência da matéria, não se pode perceber tal fenômeno,
mas aqueles que conseguiram alcançar a Iluminação espiritual,
conseguem percebê-lo plenamente. Com essa mudança, todos os
problemas para os quais não se encontrava solução, serão resolvidos
103
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

de forma clara e precisa. Com base no que acabo de expor, vou elevar o
nível da ciência atual e criar a verdadeira civilização.

7 de abril de 1954

104
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

O ESPÍRITO PRECEDE A MATÉRIA

Conforme me referi anteriormente, tecerei considerações sobre a


relação entre a doença do ser humano e o mundo inorgânico, que
chamamos de Mundo Espiritual.

O ser humano é constituído pela união e integração entre o corpo


e o espírito. O corpo é uma matéria visível e, por essa razão, todos
podem distingui-lo. O espírito é invisível, mas existe, sendo uma espécie
de elemento etéreo. Assim como o corpo é uma existência do Mundo
Atmosférico, o espírito é uma existência do Mundo Espiritual. Este
mundo, conforme expliquei, é transparente, mais rarefeito que o ar e
semelhante ao Nada. Muito pelo contrário, longe de ser o Nada, ele é a
fonte geradora da força infinita e absoluta, que, por ora, chamaremos de
força cósmica. É um mundo misterioso e inimaginável, cuja essência é
formada pela fusão das essências do Sol, da Lua e da Terra. Tudo o
que existe no Universo é criado e desenvolvido pela força cósmica e, ao
mesmo tempo, juntam-se impurezas que são submetidas à purificação.
É como o acúmulo de sujeira no corpo humano, que necessita de banho.
Portanto, quando se aglomeram impurezas no Mundo Espiritual da Terra,
elas se concentram num determinado ponto e aí surge a ação
purificadora da tempestade, que efetua a limpeza. Os incêndios
causados por raios e pelo homem têm a mesma função. O mesmo se
verifica com o ser humano: se há acúmulo de impurezas, surge a ação
purificadora, que é desencadeada a partir do espírito.

As impurezas, ou seja, as nuvens espirituais, são opacidades que


surgem no espírito, que é um corpo transparente. Existem dois tipos de
nuvens espirituais: 1) aquelas que surgem no próprio espírito e 2)
aquelas projetadas a partir do corpo físico. Vejamos a primeira.

O cerne do espírito humano é constituído de três camadas


concêntricas. Explicando a partir do centro, seu núcleo é a alma, que se
assenta no ventre da mulher através do homem no momento da
concepção. Por sua vez, a alma está envolta pela consciência e esta,
pelo espírito. O estado da alma se reflete no espírito por meio da
105
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

consciência, e o estado do espírito se reflete igualmente na alma por


intermédio da consciência. Desse modo, a alma, a consciência e o
espírito estão inter-relacionados, constituindo uma trindade.
Evidentemente, todas as pessoas fazem tanto o bem como o mal
durante a vida. Se a prática do mal for maior que a do bem, o saldo
entre elas constituirá o pecado, que se reflete na alma e se transforma
em nuvem espiritual. Por esse motivo, na sequência, formam-se nuvens
na consciência e, depois, no espírito. Então, com o surgimento da ação
purificadora, ocorre a eliminação dessas nuvens. Durante o processo, o
volume delas se comprime; com isso, elas se tornam mais densas,
concentrando-se em alguma parte do corpo. O interessante é que,
dependendo do pecado, o local da concentração é diferente. Por
exemplo: os pecados associados aos olhos, nos olhos; os pecados
referentes à cabeça, na cabeça; os pecados relacionados ao tórax, no
tórax, e assim por diante, tudo de forma correspondente.

Passemos, agora, ao segundo tipo de nuvens, isto é, as que se


projetam do corpo para o espírito. Neste caso, primeiramente o sangue
se turva e, como consequência, surgem nuvens no espírito.
Originariamente, o sangue do corpo humano é a materialização do
espírito; ao contrário, o espírito é a espiritualização do sangue. Em
outras palavras, espírito e matéria estão integrados. Assim, quando as
nuvens se condensam e se refletem no corpo, transformam-se em
sangue turvo e, ao ficarem ainda mais densas, transformam-se em
nódulos. Estes, depois de dissolvidos e liquefeitos, são eliminados por
diversos pontos do corpo. A dor e o sofrimento decorrentes desse
processo constituem aquilo a que se dá o nome de doença. Assim, o
que se projeta a partir do corpo físico é o sangue turvo.

Então, por que surge o sangue turvo? A causa é bastante


surpreendente: são os medicamentos46, que, paradoxalmente, ocupam a
posição de maior destaque nos tratamentos médicos. Como todo
medicamento é veneno, quanto mais utilizá-lo, mais o sangue se turva, e
46
Segundo órgão brasileiro competente, ligado ao Ministério da Saúde, medicamentos são fármacos
(substâncias químicas que modificam uma função fisiológica) com propriedades comprovadas
cientificamente. Os fármacos estão presentes não apenas nos medicamentos, mas também nos
cosméticos, produtos de higiene, agrotóxicos, aditivos alimentares, medicamentos veterinários.

106
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

a realidade é a maior prova do que estamos dizendo. Portanto, estando


a pessoa sob tratamento médico, não é de se estranhar que a doença
se prolongue ou piore, ou que até surjam outras doenças.

Se o sangue turvo existente no corpo se reflete no espírito em


forma de nuvens espirituais e estas se tornam a causa das doenças, o
próprio método de curar as doenças acaba se tornando o meio de criá-
las. Não se conseguirá a erradicação completa das doenças se,
primeiramente, não forem removidas as nuvens do espírito, uma vez
que a lei universal estabelece que o Espírito Precede a Matéria. Já o
nosso método, que é a aplicação dessa lei, cura completamente as
doenças por meio da purificação do espírito. Por essa razão, ele é
chamado de Johrei, que significa “purificação do espírito”.
Desconhecendo tal princípio, a medicina convencional despreza o
espírito e tenta curar apenas o corpo. Logo, por mais que ela progrida,
as curas serão sempre temporárias.

Podemos ver pela realidade que os tratamentos médicos não


trazem a cura definitiva. Mesmo que se diga que houve a cura, na
maioria das vezes, a doença volta a se manifestar. No caso de
apendicite, por exemplo, por extrair-se o apêndice, não há como ela
surgir novamente. No entanto, torna-se mais fácil a ocorrência de
doenças nas proximidades de onde estava o apêndice, tais como a
peritonite e as doenças renais. Isso ocorre porque as nuvens espirituais
permanecem, produzindo novamente sangue turvo, que se concentra
em outro local.

Vejamos, agora, as mudanças que se verificam no sangue turvo.


Quando este sangue se adensa, devido ao contínuo processo de
purificação, as partículas do sangue vão embranquecendo
gradativamente. Isso é o pus. Pus misturado com sangue indica que as
mudanças ainda estão em processo. Num estágio mais avançado, tudo
se transformará em pus. Desta forma, podemos compreender o motivo
de o catarro expectorado pelos tuberculosos vir, ou não, acompanhado
de sangue. Creio que os termos fagocitose e glóbulos brancos bem

107
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

como glóbulos vermelhos, empregados pela medicina, são pertinentes a


assuntos que remetem a casos semelhantes ao que citei.

Pelo exposto acima, acredito que compreenderam a relação entre


espírito e matéria.

15 de agosto de 1951

108
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

MEDICINA ESPIRITUAL

Já mostrei, por diversos ângulos, que o Mundo do Dia é o mundo


em que o espírito precede a matéria. Aplicando esse princípio ao corpo
humano, podemos dizer que as toxinas – causa das doenças –, são
substâncias acumuladas no corpo material. Nesse caso, como se
encontra o corpo espiritual da pessoa? Este apresenta nuvens no
mesmo local em que existem toxinas no corpo material.

Quando se procura eliminar as toxinas promovendo apenas sua


remoção do corpo físico, o efeito é temporário, pois com o passar do
tempo, elas surgirão novamente, de acordo com a Lei Espírito Precede
a Matéria. Assim, para remover completamente as toxinas, é
imprescindível que se eliminem as nuvens do corpo espiritual. Este é o
método correto para se atingir plenamente o objetivo de curar as
doenças.

Visto que todos os métodos utilizados até agora tinham o corpo


como objeto do tratamento, este era baseado exclusivamente na
eliminação das toxinas ou, então, na sua solidificação. É óbvio que eles
propiciavam uma cura passageira, mas jamais a cura total, o que está
bem caracterizado pelo uso da palavra “recaída”.

Conforme já citei, os métodos empregados pela medicina são


dois: solidificação das toxinas ou sua remoção cirúrgica. Nas terapias
populares, as toxinas são solidificadas por meio de banhos de luz,
estímulos elétricos, entre outros, ou são eliminadas por métodos como a
moxabustão, que consiste em queimar determinados pontos do corpo
para concentrar neles o pus e expeli-lo.

Nossa medicina espiritual, o Johrei, todavia, fundamenta-se na


eliminação das nuvens do corpo espiritual. O método consiste em
irradiar, pela ponta dos dedos do terapeuta47, ondas espirituais que têm
como agente principal o elemento fogo. Por ora, vou chamar essas
47
Terapeuta: nome dado às pessoas qualificadas para aplicarem o método de purificação do espírito
(Johrei) entre 1935 e 1947, período em que as religiões no Japão tinham a liberdade cerceada.

109
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

ondas de luz misteriosa. Todas as pessoas a possuem em determinada


quantidade, ou melhor, ela preenche de forma ilimitada não só o espaço
em torno do planeta Terra, como também o Mundo Espiritual.

Por que ninguém havia descoberto o método de cura que


consiste na eliminação das nuvens por meio das ondas espirituais? Foi
porque, conforme já dissemos, era noite no mundo, ou seja, o mundo
estava às escuras. Em termos de luz, existia apenas uma claridade
semelhante à da Lua e, por esse motivo, era impossível obter
suficientemente a luz misteriosa para eliminar as nuvens espirituais, ou
seja, a força para curar as doenças. Não é que essa luz não existia.
Como é do conhecimento de todos, alguns religiosos e ascetas
procediam ao tratamento das doenças e obtinham certo êxito, fazendo
com que o fundador e sua religião alcançassem considerável fama.
Esse fato ocorre porque o componente predominante da luz da Lua é o
elemento água e, assim, a força para curar limitava-se a alguns tipos de
doenças, e seus efeitos eram temporários. Como ela tem por base o
elemento água, que é de natureza fria, sua aplicação constitui um
tratamento de solidificação.

Uma vez que no Johrei o elemento fogo é o principal, qualquer


nódulo de toxina é dissolvido; por conseguinte, ele apresenta efeitos
extraordinários. Dois principais fatores me levaram a descobrir o Johrei:
um deles foi ter obtido o conhecimento sobre a transição da Era da Noite
para a Era do Dia, e o outro é que, no Mundo do Dia, haverá aumento
de partículas do elemento fogo, o qual, concentrado e transpassado pelo
corpo humano, faz surgir uma poderosa luz de cura que, irradiada em
direção ao local afetado, manifesta extraordinários efeitos.

Gostaria de salientar que o conteúdo descrito acima é facilmente


tido como de teor religioso por sua semelhança com as antigas práticas
de Jesus Cristo e de líderes religiosos. Contudo, desejo evitar ao
máximo que o Johrei seja tratado simplesmente como religião. Isto
porque, nesse caso, infalivelmente seríamos vistos como supersticiosos
e, até hoje, religiões falsas e supersticiosas causaram infortúnios a
muitas pessoas, e as autoridades vêm adotando medidas drásticas para
110
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

evitar problemas dessa ordem. Além disso, pessoas de outros credos,


embora estejam sofrendo com doenças, hesitarão em receber o Johrei
se neste houver o menor resquício de religião.

E ainda, se a nossa medicina espiritual – o Johrei – for


considerada apenas como religião, a cura obtida poderá ser vista como
tendo ocorrido devido ao auxílio da fé, isto é, da força do pensamento da
própria pessoa. Na verdade, isso seria o mesmo que admitir a ineficácia
do seu poder de cura. É inegável que, até certo ponto, isso também
ocorre na medicina. Por exemplo, um paciente em vias de receber um
tratamento, quando está diante de um médico renomado, de um grande
especialista, de um professor universitário, de um diretor de hospital, ou
ainda, de um médico que cuide de pessoas da alta sociedade,
naturalmente sente admiração por esse profissional e confia nele. É
claro que esse sentimento influencia positivamente o resultado do
tratamento. Neste caso, podemos dizer que existe um ponto em comum
entre a fé em relação à religião e esse sentimento em relação aos
médicos.

Todavia, o Johrei dispensa o auxílio da fé descrito acima. Dessa


forma, não só inexiste a necessidade de apresentá-lo como religião,
mas também, se assim eu o fizesse, reuniria muitos inconvenientes
como os que citei. Assim, reconheço-o como ciência e, como tal, o
lançarei ao mundo. Minha expectativa é que essa medicina espiritual
criada por um japonês se torne universal, como uma ciência de
vanguarda, isto é, uma ciência do futuro.

23 de outubro de 1943

111
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

PRINCÍPIO DO JOHREI

Primeira Parte

Creio que o princípio do Johrei é um assunto difícil para as


pessoas da atualidade entenderem, dada a limitação da educação que
receberam. Isso é inevitável, uma vez que a educação atual está
totalmente fundamentada no materialismo.

Pensando bem, ao observarmos os feitos dos fundadores de


diversas religiões, por meio de documentos escritos e da tradição oral,
constatamos, invariavelmente, que eles realizaram milagres. Este fato é
mais evidente nas grandes religiões. Por outro lado, pelo estágio cultural
daquela época, o povo simplesmente se satisfazia com a religião
quando esta concedia benefícios e milagres, sem mesmo procurar
entender o conteúdo ou a teoria que a embasavam.

Lamentavelmente, ainda hoje podemos imaginar que, se não


tivesse sido crucificado, Jesus Cristo – aquele que mais milagres
realizou –, teria salvado uma grande parte da humanidade, e sua
doutrina estaria ainda mais difundida. Não obstante, seu tempo de
atuação foi bastante curto, sem dúvida em decorrência de a força de
Satanás ter sido inegavelmente superior, dada a prematuridade do
tempo no Mundo Espiritual. Esse tempo, finalmente, amadureceu e
adveio a grande transição naquele mundo. Através da nossa intuição
espiritual, podemos ver claramente que o poder de Satanás está
enfraquecendo dia após dia.

Através da Revelação Divina, foram-me esclarecidos todos os


acontecimentos até hoje considerados mistérios do mundo. Assim, é-me
possível distinguir o certo e o errado, explicar o fundamento do bem e do
mal, corrigir o erro de todas as coisas. Em face da realidade atual, que
pende apenas para o progresso da cultura material, definitivamente vou
incrementar o avanço da cultura espiritual e, com o desenvolvimento
integrado de ambas, fazer surgir o mundo ideal: o Paraíso Terrestre.
Nesse sentido, elucidarei alguns fundamentos dos excelentes resultados
112
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

alcançados pelos membros de nossa Igreja por meio de milagres


surpreendentes.

Diferentemente dos primórdios da civilização, ou ainda, da época


da cultura pouco desenvolvida, atualmente o ser humano não confia
plenamente apenas na manifestação de milagres. Sem uma explicação
teórica dos fatos, ele não se convence de jeito nenhum. Uma das
causas da decadência das religiões tradicionais é que elas
simplesmente negam a cultura material e não conseguem proporcionar
aos seus seguidores as graças recebidas nesta vida.

Vou explicar o princípio do Johrei, método pelo qual os fiéis da


nossa Igreja manifestam milagres. Estende-se a mão em direção à
pessoa enferma, a certa distância. Tal ato faz com que doentes em
estado grave melhorem rapidamente. Mesmo as dores mais fortes
diminuem ou desaparecem em curto espaço de tempo. Portanto, só
podemos dizer que se trata de milagre. Há inúmeros exemplos de fiéis
recém-ingressos que conseguiram reverter o quadro de pacientes
desenganados. Trata-se, pois, de uma questão completamente fora da
lógica da visão materialista da atualidade.

A medicina atual é o resultado de milhares de anos de estudos e


de aperfeiçoamento constante de renomados estudiosos de vários
países, e seus métodos terapêuticos são respeitados pela minúcia e
sofisticação. Entretanto, não é exagero considerar como maravilha do
século, o fato de um indivíduo comum obter resultados notáveis
ministrando Johrei a doentes que não conseguiram restabelecer-se com
o tratamento de especialistas formados à custa de elevadas despesas
com estudos e pesquisas durante dezenas de anos. É realmente um
fato que está além da razão. Todavia, é difícil para as pessoas
aceitarem esses resultados só de ouvir falar. Ao contrário, acabam
considerando-os como superstição ou insanidade, o que talvez seja uma
reação natural. Afinal, trata-se de um grande acontecimento, inédito na
História.

113
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

A declaração audaciosa de um mundo livre de doença, pobreza e


conflito feita pela nossa religião não seria possível, caso não tivéssemos
absoluta certeza disso. Se não possuísse competência para tal, ela
estaria enganando o mundo e cometendo um delito imperdoável. No
entanto, os milagres que citei, na verdade para nós, não são milagres,
pois possuem fundamentos sólidos e surgem porque devem surgir. Já
que tudo isso está embasado em explicações científicas, vou escrever a
respeito, o mais detalhadamente possível.

Segunda Parte

Para explicar o princípio do Johrei, torna-se indispensável o


conhecimento de um fato que passo a expor. Todas as coisas existentes
no Universo são constituídas não só de matéria, mas também de
espírito, invisível aos nossos olhos. O ser humano, logicamente, é
igualmente formado de espírito e corpo físico. Numa classificação
sumária, o espírito é a essência do Sol; o corpo físico, as essências da
Lua e da Terra. Em termos mais compreensíveis, o espírito é fogo, yang,
masculino, frente, vertical e dia; o corpo, por sua vez, é água, yin,
feminino, verso, horizontal e noite. A ciência, porém, não admite a
existência do espírito, objetivando somente a matéria. E isto é que
constitui o erro fundamental. Ora, se o ser humano fosse desprovido de
espírito, não passaria de um simples objeto. Seria apenas uma matéria
inanimada como o pau e a pedra, sem vida e sem atividade mental. A
razão do erro da ciência, até hoje, consiste em não compreender essa
teoria tão simples. Para os cientistas, no espaço só existe o ar, nada
mais. Todavia, a verdade é que, além do ar, existe um número
incalculável de elementos invisíveis; lamentavelmente, a ciência ainda
não progrediu a ponto de detectá-los. Por felicidade, eu descobri a
existência desses elementos, tendo dado ao conhecimento obtido o
nome de ciência espiritual. Com essa descoberta, evidentemente,
iniciou-se a época em que as doenças, o maior sofrimento da
humanidade, serão extintas. Tudo o que diz respeito a elas e
permanecera obscuro até hoje, foi elucidado. Portanto, podemos dizer
que as pesquisas no campo da medicina, na forma como existem hoje,
não serão mais necessárias.
114
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

A seguir, vou mostrar a origem do aparecimento das doenças.


Conforme eu já disse, o ser humano é constituído de espírito e matéria,
que segue o princípio da dualidade. O fato de ele estar vivo e
movimentar-se é porque há a união e integração entre o espírito e a
matéria, e o espírito movimenta a matéria. O espírito possui a mesma
forma do corpo físico e, dentro dele, localiza-se a consciência, no centro
da qual, por sua vez, está a alma. A ação dessa trilogia manifesta-se
como vontade-sonen48. O espírito, que é invisível, ou seja, a vontade-
sonen, governa o corpo; portanto, é como se o espírito fosse o chefe, e
a matéria, o subordinado, isto é, o espírito rege a matéria. Dando um
exemplo simples, quando uma pessoa movimenta os braços e as pernas,
estes não se movem livremente, por si próprios, mas sim obedecendo à
vontade-sonen da pessoa. Todas as partes do corpo, sem exceção,
inclusive a boca, o nariz, os olhos etc. mexem-se dessa forma. Até a
doença obedece ao mesmo princípio. Para que possam entender bem,
vou exemplificar com o furúnculo, do qual todo mundo tem experiência.

O furúnculo surge como uma pequena protuberância e vai


inchando gradualmente e tomando uma cor avermelhada. Normalmente,
vem acompanhado de febre, e a pessoa começa a sentir dores e
coceiras no local. Esse fenômeno constitui uma atividade de eliminação
das toxinas do corpo físico, por ação fisiológica natural. As toxinas
acumulam-se em determinada parte do corpo e são dissolvidas e
liquefeitas pela febre, o que torna sua eliminação mais fácil. Este é o
processo de recuperação natural. Para formar um orifício de saída, a
pele fica muito fina e flácida. Portanto, a coloração avermelhada é o
sangue tóxico, visível por entre a pele, que se tornou fina e transparente.
Depois, um pequeno orifício se abre, e o sangue tóxico com pus começa
a sair imediatamente; com sua eliminação, termina a purificação.

A explicação acima diz respeito ao corpo físico. Contudo, em que


condições se encontra o espírito nessa ocasião? Ele apresenta uma
espécie de nebulosidade no mesmo formato do furúnculo; em outras
palavras, nuvens espirituais. Quanto mais grave a doença, mais densas
48
Vontade-sonen: Em japonês, ishi sonen. Termo utilizado por Meishu-Sama para expressar a
intencionalidade do sonen.

115
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

são as nuvens. E por que motivo elas ficam concentradas numa parte do
espírito? Através do processo contínuo de purificação, as nuvens
espalhadas por todo o espírito se reúnem em determinado local, e surge
a ação eliminatória. Isso constitui a doença. Existe, pois, uma relação
inseparável entre o espírito e o corpo. Assim sendo, no caso do
furúnculo, o tratamento médico promove a eliminação do sangue tóxico
com pus através de perfuração ou incisão, mas isso é um grande erro,
pois, na maioria das vezes, a intervenção é realizada antes que o
sangue atinja suficiente concentração. Por essa razão, mesmo depois
da incisão, o sangue purulento continua se acumulando nesse local por
um longo tempo e, às vezes, a cicatrização torna-se demorada. Por
esse mesmo motivo, a cicatrização da cirurgia de apêndice, por exemplo,
pode levar anos. Um médico experiente aguarda o furúnculo
“amadurecer” suficientemente para realizar a incisão. Este procedimento
torna a cura completa mais rápida. Se, desde o início, a pessoa não se
submeter a nenhum tipo de tratamento e esperar até que o furúnculo
amadureça suficientemente e deixar que o sangue tóxico com pus seja
eliminado através do orifício que se abriu naturalmente, verá que o
resultado da cura é bem mais simples e rápido em comparação com a
cirurgia. Por exemplo, um furúnculo perfurado prematuramente leva um
mês para ser eliminado; o furúnculo maduro que sofre uma intervenção,
dez dias, e o que segue o processo natural sem qualquer tratamento,
cinco. Todavia, o que incomoda é a dor e o sofrimento que a pessoa
terá que suportar durante o período de amadurecimento até sua
perfuração natural. E, uma vez que, através da intervenção, pode livrar-
se prontamente da dor, a pessoa acaba concluindo que aquela é
inevitável.

Por mais que a dor e o sofrimento sejam intensos, estes cessam


com o tratamento do Johrei, e a pessoa continua sem sentir dor até que
o furúnculo se torne volumoso com uma coloração avermelhada e
ocorra a eliminação do sangue tóxico com pus. Diante de tal fato, todos
ficam abismados. Vou falar, a seguir, sobre esse princípio misterioso.

Há pouco referi-me ao princípio do Espírito Precede a Matéria.


Contudo, ele não se aplica apenas ao corpo humano: todas as coisas do
116
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Universo, sem exceção, obedecem a essa lei. Por conseguinte, o


objetivo do Johrei é eliminar as nuvens espirituais. Através dele, as
nuvens entram em colapso. Em outras palavras, o espírito delas morre.
Mortas, obviamente, elas perdem toda a sua força e deixam de estimular
os nervos. Esta é a razão do desaparecimento das dores. A seguir,
explicarei o princípio pelo qual o Johrei promove a eliminação das
nuvens.

Terceira Parte

De acordo com o que disse anteriormente, se alguém indagar o


que vem a ser a verdadeira natureza das nuvens espirituais, posso dizer
que se trata de microrganismos tóxicos que surgem em meio ao
elemento água, presente no corpo humano. Esses microrganismos são
partículas tão infinitesimais que, certamente, só poderão ser vistos em
microscópios capazes de ampliar as imagens milhões de vezes.
Explicarei em detalhes a razão do surgimento desses microrganismos
em outra ocasião. Aqui, vou limitar-me a falar sobre o princípio que leva
à extinção dos microrganismos tóxicos. O método de extinção, sem
dúvida, é a força espiritual.

Então, de que forma o Johrei extingue as nuvens do espírito, ou


seja, as toxinas, através do poder da radiação do corpo humano? O
elemento básico dessa radiação são as ondas de luz emanadas pelo
elemento fogo, que é a verdadeira natureza da luz. O elemento
constituinte dessas ondas é exatamente o oposto ao dos
microrganismos tóxicos surgidos no elemento água, que, em outras
palavras, podem ser comparados ao bem e ao mal. As ondas de luz são
constituídas por partículas infinitesimais de luz, e sua energia possui
uma extraordinária força de eliminação de microrganismos tóxicos.
Explicarei a verdadeira natureza dessas ondas. As partículas que as
constituem são irradiadas por Deus e são a fonte das graças recebidas
nesta vida, manifestadas através dos milagres realizados pelo Johrei da
nossa religião. Eu sabia que tanto os membros como as pessoas em
geral estavam maravilhados e desejosos de conhecer o princípio do
Johrei. Da minha parte também tinha grande vontade de elucidá-lo; mas,
117
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

devido à prematuridade do tempo, não podia torná-lo público.


Finalmente, chegou o momento em que se tornou imprescindível levá-lo
ao conhecimento de todos.

O método do Johrei que tenho empregado atualmente, consiste


em outorgar às pessoas um papel onde está escrita a letra hikari, que
significa “luz”. Os efeitos se manifestam quando esse papel é colocado
junto ao peito, como um objeto de proteção49. Isso ocorre porque da
letra hikari se irradiam poderosas ondas de luz, que são transmitidas do
corpo, através do braço pela palma da mão de quem ministra o Johrei.
O mais adequado é ministrá-lo a uma distância de aproximadamente
trinta centímetros até alguns metros.

E por que motivo se irradiam ondas de luz da letra hikari? Elas


são emitidas do meu corpo e, pelo elo espiritual, transmitem-se
instantaneamente à letra em questão. É muito semelhante às ondas de
rádio. Se as ondas de luz são emitidas do meu corpo espiritual e
propagadas através do elo espiritual, surge, então, a seguinte pergunta:
que segredo existe em meu espírito? Quando compreenderem isto, a
dúvida desaparecerá. No meu ventre, há uma bola de luz, que já foi
vista por algumas pessoas e que normalmente mede uns seis
centímetros de diâmetro. A partir dela, ondas de luz irradiam-se
infinitamente. E onde se encontra a fonte dessa bola de luz? Sua fonte é
a “Nyoi-no-Tama”50 de Kanzeon Bossatsu51, que se encontra no Mundo
Espiritual e da qual provém a Luz infinita dirigida a mim. É o Poder
Kannon, também conhecido como Poder Incognoscível ou Poder da
Inteligência Sagrada. Corresponde, ainda, à bola de luz que Nyoirin
Kannon52 traz consigo.

49
Neste caso, o objeto de proteção se refere ao que hoje chamamos de “Ohikari”.
50
Nyoi-no-tama: Conhecida como Cintamani em sânscrito. Designa a misteriosa joia em formato de
esfera carregada por Kanzeon Bossatsu e que tem o poder de atender todos os desejos do ser
humano.
51
Kanzeon Bossatsu: Em sânscrito, Avalokiteshvara (“Aquele que enxerga os clamores do mundo”) é
o bossatsu que representa a suprema compaixão. Conhecido no Japão também apenas como
Kannon.
52
Nyoirin Kannon: nome de uma das manifestações de Kanzeon Bossatsu, que segura em uma das
mãos a bola de luz nyoi-no-tama.,

118
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Quarta Parte

Convém falar a respeito de Kanzeon Bossatsu. Dentre todos os


budas, sua imagem era raramente exposta ao público. Há nisso um
profundo mistério Divino, mas não posso divulgá-lo totalmente, pois
ainda não chegou o momento. Pretendo fazê-lo tão logo Deus me
permita. Assim, escreverei apenas sobre os mistérios cuja explicação é
necessária para elucidar o Johrei.

Naturalmente, a atuação de Kanzeon existe desde a época da


introdução do budismo no Japão; mas, até há pouco tempo, essa
atuação se limitava à salvação do espírito. Evidentemente, por meio de
orações, as pessoas conseguiam graças, que, aliás, eram muito pouco
significativas. A razão disso está no fato de que a luz era formada pela
união dos elementos fogo e água, mas faltava o elemento terra. Como
havia apenas dois elementos constituintes, a força era insuficiente para
a concessão de graças. Contudo, chegou a hora de uma grande
mudança no Mundo Espiritual: é o momento do Fim do Mundo, o Juízo
Final citado na Bíblia. Tornou-se necessária, portanto, uma poderosa e
absoluta força de salvação. Esta é a força da atuação conjunta dos três
elementos: fogo, água e terra. A energia da terra é o elemento básico da
matéria e corresponde ao corpo humano. Ao passar pelo corpo, a luz é
acrescida do elemento terra e daí nasce a força da atuação conjunta dos
três elementos, ou seja, o Poder Kannon. Explicando de maneira mais
clara, quando a luz emitida pela bola de Kanzeon Bossatsu passa pelo
meu corpo, manifesta-se como Poder Kannon, o qual, ao ser canalizado
pelo corpo dos fiéis, torna-se força purificadora.

Exemplificarei o que acabo de dizer.

Desde a antiguidade, é sabido que orar diante da imagem de


Kanzeon Bossatsu traz como benefício a eliminação das doenças e dos
infortúnios. Contudo, o Johrei ministrado pelos fiéis de nossa religião
tem apresentado benefícios várias vezes maiores. Isso ocorre porque as
ondas de luz emitidas pelas imagens ou estátuas de Kanzeon Bossatsu
são constituídas apenas pela força dos elementos fogo e água; nelas
119
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

não está contida a força do corpo físico, que é essencial. Outra razão é
a grande mudança do Mundo Espiritual à qual eu sempre me refiro. Até
meados de junho de 1931, no Mundo Espiritual, a quantidade do
elemento água era maior e a do elemento fogo, menor. A partir de então,
este último começou a aumentar gradativamente. É verdade que a
mudança já se havia iniciado dezenas de anos antes dessa data, mas o
elemento fogo era demasiado rarefeito. Aqui, vou explicar a respeito da
intensidade da luz. Se a luz é forte, significa que há maior quantidade de
elemento fogo. Isso assemelha-se às lâmpadas incandescentes: quanto
maior é a potência, maior é a quantidade de calor emitido.

Outro exemplo é que, como existe uma massa de elemento fogo


em meu ventre, as pessoas dizem que minha temperatura é bem mais
alta que a das pessoas em geral. Praticamente, todas as noites recebo
massagem nos ombros e quem o faz, diz que emana muito calor de mim.
No inverno, sempre acabo tirando um ou dois agasalhos. Se permaneço
em um cômodo durante algum tempo, as pessoas acham que ele ficou
aquecido e, muitas vezes, dou gargalhadas e digo que sirvo como
substituto do aquecedor. Mesmo em dias de frio, costumo ficar uma ou
duas horas só de pijama, após o banho. Além disso, gosto
especialmente de banhos mornos. É semelhante ao princípio do
aumento de calor quando se joga água sobre o fogo e da maior
intensidade do frio nos dias límpidos de inverno.

30 de maio de 1949

120
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

FORÇA ABSOLUTA

Seria desnecessário dizer que a fonte da ação de tudo que existe


no Universo é a Força de Deus. A criação e a transformação de todas as
coisas são a manifestação da Força, e a ela se deve o movimento ou a
inércia de tudo. A começar pelo ser humano, todos os animais e até
mesmo os micróbios nascem e morrem graças à Força. Em suma, ela é
absoluta, infinita e soberana. Vou parar aqui, pois o assunto é
inesgotável. Resumindo, o Universo em si é a própria Força. Assim,
tecerei considerações a respeito sob diversos ângulos.

Analisemos o espírito da palavra tikara (força): ti é “sangue”,


“espírito”; kara é “vazio”, “corpo”, “matéria”. Sendo assim, a força nasce
da união do espírito e da matéria. Analisando a palavra hito (pessoa), hi
é “espírito” e to é “parar”; por conseguinte, hito é “espírito parado no
corpo”. Como já expus, a força é a própria integração entre o espírito e a
matéria.
Para se escrever o ideograma tikara, faz-se um traço vertical ( ∣ )
e, em seguida, um traço horizontal (−), formando uma cruz (十). A partir
do fim do traço horizontal, puxa-se um traço um pouco inclinado, com a
ponta virada para cima e para dentro (力). Isso quer dizer que tão logo
se verifica o cruzamento do vertical e do horizontal, surge a ação da
força, que começa a girar em sentido horário. Assim, pode-se perceber
que tanto o espírito das palavras quanto as letras foram criados por
Deus.

Vamos, agora, explicar isso com base na realidade. Em sentido


amplo, essa dualidade está representada pelas duas grandes correntes
de pensamento do mundo: a espiritualista e a materialista, isto é, o
espiritualismo ou a cultura do espírito, e o materialismo ou a cultura da
matéria.

Vejamos isso pelo aspecto religioso, pois assim fica mais fácil
compreender. O budismo e o cristianismo, as duas grandes religiões do
mundo, são a manifestação dessa dualidade. Como tenho dito sempre,
o budismo é oriental e constitui o aspecto vertical, espiritual, enquanto o
121
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

cristianismo é ocidental e representa o aspecto horizontal, material. Até


agora, o vertical e o horizontal estavam separados e, por essa razão, a
verdadeira força não conseguia manifestar-se. A maior prova disso é
que a harmonia, em âmbito mundial, não se consolidou, e a humanidade
ainda não foi salva.

A este respeito, primeiramente, analisemos a História.

Após a era primitiva, surge uma forma de vida humana mais


organizada e, então, inicia-se a fase de adorações, como o culto ao Sol,
à natureza e aos objetos criados pelo homem. Enfim, passa-se a adorar
até o ser humano e, a partir dessa época, as religiões primitivas
começam a surgir em diversas regiões.

Por fim, com o florescimento da cultura, nasceram religiões como


o budismo e o islamismo que, por serem de caráter exclusivamente
vertical, e o cristianismo, puramente horizontal, não puderam manifestar
a verdadeira força. Como resultado disso, embora não tenham chegado
a fracassar, as religiões que penderam para o aspecto vertical não se
desenvolveram a contento. No Japão, o budismo existe apenas na
forma, e o islamismo tem sua tradição preservada em uma parte da Ásia.
Já o cristianismo, devido à sua característica horizontal, está difundido
em grande parte do mundo. Uma vez que seu objetivo, o Reino dos
Céus, não se concretizou, e a situação infernal da atualidade permanece,
pode-se dizer que também não foi bem-sucedido.

O objetivo das principais religiões era, sem dúvida, a


concretização de um mundo ideal. Todavia, como todos podem ver, o
mundo se apresenta caótico, cheio de conflitos e problemas sem-fim,
havendo uma grande distância entre o sonho e a realidade. Assim,
temos que admitir que aquele objetivo está demasiadamente longe de
ser alcançado. É inegável que a causa dessa situação seja a falta de
força, que, por sua vez, se deve à ausência de cruzamento do vertical e
do horizontal. Isso também era uma questão de tempo e, do ponto de
vista do Plano Divino, não havia alternativa.

122
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Explicando minha missão, creio que entenderão melhor o que


acabei de expor. A atividade que agora estou realizando, centraliza-se
no Johrei. Os fiéis sabem muito bem que basta colocar no peito o
Ohikari53, que contém um papel com uma caligrafia feita por mim, para
ser-lhes concedida uma força capaz de curar até mesmo doentes
desenganados. Já outorguei centenas de milhares de Ohikari, e mesmo
que esse número aumente infinitamente, não haverá nenhuma alteração
com respeito à sua força. Essa força não se limita à cura de doenças,
ela também se manifesta através de incontáveis milagres do dia a dia: a
reforma do espírito, a elevação do caráter, a salvação de perigos
iminentes etc. Por meio deles, é espantoso ver o aumento do número de
pessoas que passam a viver uma vida cheia de alegria. A força desses
milagres se origina justamente do Ohikari.

Não tenho a pretensão de vangloriar-me de tais milagres.


Contudo, uma vez que se trata da pura verdade, creio que não há
problema em divulgá-los. É evidente que, até agora, a História não
registrou o aparecimento de uma pessoa que se utilizasse de força tão
incomensurável quanto esta. Os inúmeros milagres a que nos referimos
são registrados como experiências de fé; logo, não há do que duvidar.
Esta é a força gerada pelo cruzamento do horizontal com o vertical que,
em termos budistas, é o Poder Kannon ou o Poder da Inteligência
Sagrada e, em termos cristãos, é o Poder do Messias.

Atualmente, a Força está se manifestando, principalmente, na


parte espiritual; porém, no devido tempo, ela passará a atuar na parte
material. Nessa ocasião, evidentemente, será alcançado o objetivo de
Deus, nascendo a verdadeira cultura, resultante do cruzamento da
cultura espiritual do Oriente com a cultura material do Ocidente. E esta é
a Vontade Divina. Será, portanto, efetuada a maior obra de salvação da
humanidade desde a criação do mundo.

16 de janeiro de 1952

53
Ohikari: Medalha da Luz Divina outorgada aos fiéis para ministrar Johrei. ,

123
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

SERMÃO

Como é do conhecimento de todos, desde os tempos antigos,


sem nenhuma exceção, as religiões sempre se basearam em
mandamentos, transmitindo-os através de sermões. Na Igreja
Messiânica, quase não se utiliza esse recurso, e os nossos membros
sabem disso. Vou explicar isso, levando em conta que algumas pessoas
têm dúvidas a esse respeito, e também, no caso de alguém perguntar
aos membros, estes poderem dar os devidos esclarecimentos.

O objetivo da religião é fazer com que o ser humano se


arrependa de seus erros, se modifique e passe a praticar o bem e, para
tal, é necessário eliminar as nuvens espirituais da alma. Quando esta se
torna pura, a pessoa deixa de praticar más ações, torna-se íntegra e
passa a fazer o bem em prol do próximo e do mundo.

Os sermões são meios de purificar a alma através da audição,


uma vez que os ensinamentos são ouvidos. Já a Bíblia, os sutras
budistas e os ensinamentos da Oomoto e de várias religiões
evidentemente são meios de purificação através da visão e do espírito
da palavra. Nossa religião também se utiliza desses meios, mas os
considera secundários, tendo o Johrei como seu principal meio de
purificação.

Isto porque os métodos de purificação realizados por meio dos


cinco sentidos são indiretos e, naturalmente, seus efeitos são limitados
já que se visa atingir algo invisível, como a alma, através de meios
materiais. O Johrei da nossa religião projeta a Luz espiritual diretamente
na alma, purificando-a, e seu efeito, portanto, nem se compara ao dos
métodos materiais. Isso também pode ser visto no que se refere às
doenças. Mesmo aquelas que não são curadas após diversos
tratamentos, são debeladas com facilidade e em curto espaço de tempo
com o nosso método.

Assim sendo, como venho sempre dizendo, não somos uma


religião, mas sim, uma ultrarreligião.
124
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Religião, em japonês, significa “ensinamento do fundador” e tem


por princípio salvar as pessoas através do ensinamento. Todavia, em
nossa religião, conforme já afirmei, os ensinamentos são considerados
segundo ou terceiro recursos, pois transformamos as pessoas em
indivíduos do bem por meio do Johrei. Com ele, obtemos cem porcento
de eficácia, poupando tempo e trabalho. Portanto, não seria exagero
dizer que somos mais do que uma religião. Visto que não encontrei uma
denominação apropriada, chamei-a Igreja Messiânica provisoriamente.
Pelo fato de até hoje não ter existido uma salvação tão maravilhosa
como essa, é inevitável que não exista um nome para ela. Creio que não
há alternativa, senão chamá-la de “Luz da Salvação”.

25 de agosto de 1952

125
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

JOHREI E FELICIDADE

Embora possa parecer que o Johrei da nossa religião tem por


objetivo a cura das doenças, na verdade, não é só isso. Ele tem um
significado muito maior, sobre o qual vou escrever. Em poucas palavras,
poderíamos dizer que ele é um método de criar felicidade. Isso porque,
simplesmente falando, a doença, na verdade, é purificação. Nem preciso
dizer que a purificação é o processo de eliminação das nuvens do
espírito. E não é só isso: trata-se de um processo que leva à
erradicação de todos os sofrimentos do ser humano.

Costumo ensinar que a doença, a pobreza e o conflito são formas


de purificações. No entanto, dentre os processos purificadores, a
doença é a mais importante, porque ela tem relação com a nossa vida.
E quando conseguirmos resolver o problema da doença, a pobreza e o
conflito serão naturalmente solucionados. Posto que isso é fundamental
para se alcançar a felicidade, está muito claro que a causa da
infelicidade são as nuvens do espírito. O meio mais simples e infalível
de solucionar os problemas é justamente o Johrei, método de eliminar
as nuvens do espírito. Por esse motivo, conforme disse no início, o
Johrei não visa somente à cura da doença. Vou tecer explicações mais
detalhadas a respeito.

Em concordância com o que já escrevi em outras oportunidades,


o corpo material do ser humano respira no Mundo Material, e o espírito
vive no Mundo Espiritual. Sendo assim, a situação do Mundo Espiritual
influi diretamente no espírito e se reflete no corpo físico, de modo que o
destino do ser humano se origina no Mundo Espiritual.

De forma idêntica ao Mundo Material, o Mundo Espiritual está


constituído de numerosas camadas: superiores, intermediárias e
inferiores. A grosso modo, o Mundo Espiritual é formado por três planos.
Cada plano possui sessenta camadas, que se subdividem em três, cada
qual com vinte camadas. Ao todo, são cento e oitenta camadas, mais
uma – acima de todas –, ocupada por Deus. Temos, pois, cento e

126
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

oitenta e uma camadas. Qualquer divindade, por mais elevada que seja,
acha-se numa das cento e oitenta camadas.

Acima, expliquei como essas camadas são dispostas


verticalmente. Agora, falarei como elas se configuram horizontalmente:
desde o Céu até o Inferno, a amplitude de cada uma delas é diferente.

Suponhamos que um espírito se encontre em uma das vinte


camadas da parte mais baixa das sessenta inferiores. Como isso
corresponde ao fundo do Inferno, é um mundo repleto de sofrimento
inimaginável. Uma vez que esse estado se projeta no plano físico, a
pessoa vive uma situação de profundo sofrimento. Já nas vinte camadas
logo acima, o sofrimento é menor e, subindo mais vinte, torna-se ainda
mais suave, mais tolerável. E assim por diante. Fica claro, então, que o
padecimento varia de acordo com a posição do espírito nas várias
camadas do Mundo Espiritual.

Ultrapassando-se essas sessenta camadas inferiores, atingem-se


as camadas intermediárias, que correspondem ao Tyu’ ukai 54 do
budismo e ao Yatimata 55 do xintoísmo, ou ainda, à vida no Mundo
Material. Acima das camadas intermediárias, está o Paraíso, e aqueles
que aí chegam, alcançam a posição de entes celestiais e desfrutam de
uma vida de alegria e felicidade.

Como se vê, a camada em que se encontra o espírito de uma


pessoa se reproduz fielmente em seu destino. Por esse motivo, ela deve
estar atenta para elevá-lo cada vez mais.

À medida que o espírito se eleva, proporcionalmente os


sofrimentos diminuem, e a felicidade aumenta. Isto porque os
sofrimentos decorrentes da purificação se tornarão desnecessários. Por
esse motivo, enquanto o corpo espiritual estiver nas camadas inferiores,

54
Tyu’ukai: mundo do tyu’u. Tyu’u é um termo de origem budista que se refere ao período entre a
morte e o retorno ao Mundo Espiritual.
55
Yatimata ou Ama no yatimata, um lugar descrito no livro de mitologia do Japão (Kojiki) localizado
logo abaixo do paraíso e dividido em oito (ya) caminhos (timata).

127
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

é inútil apelar para a inteligência e envidar esforços porque esta é a


inexorável Lei Divina, assim como é a Lei Espírito Precede a Matéria.

Por conseguinte, para que o ser humano alcance a felicidade é


imprescindível que ele purifique seu espírito a fim de torná-lo mais leve e
busque constantemente atingir as camadas superiores. Fora este, não
existe absolutamente outro método para alcançarmos a felicidade. E
nisso reside o profundo significado do Johrei.

25 de março de 1952

128
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

O JOHREI É TRATAMENTO CIENTÍFICO (1)

Há algum tempo, os membros vêm-me solicitando uma


explicação simples e de fácil compreensão sobre o princípio do Johrei,
pois toda vez que começam a cuidar de um enfermo, são questionados
a respeito. Isso porque, doenças que não se curam pela medicina,
apesar dos mais variados tratamentos, são solucionadas fácil e
rapidamente com o recebimento do Johrei e, assim, as pessoas ficam
surpresas e desejam saber o motivo, o que não é de se estranhar. As
pessoas que ministram Johrei, também já devem ter passado por tais
experiências. Até agora, contudo, devido à prematuridade do tempo, eu
não o havia explicado em minúcias. Por essa razão, irei fazê-lo a seguir.

Desde os tempos antigos, é costume a doença ser curada pelos


médicos e pelo uso de medicamentos. Em razão de o homem da
atualidade confiar somente na ciência e defender sua supremacia, ele
tem dificuldade para entender o princípio do Johrei. Portanto, é natural
querer questioná-lo. Antes de tudo, porém, é de suma importância
conhecer a relação entre a medicina e a ciência.

Realmente, tudo pode ser solucionado através da ciência.


Todavia, essa afirmação não se aplica à medicina, visto que o ser
humano é fundamentalmente diferente dos demais seres. Vou escrever
com mais detalhes.

Antes de mais nada, o ser humano é o mais elevado de todos os


seres vivos, contendo em seu âmago um mistério incompreensível por
meio da inteligência humana. Visto que a ciência desconhece totalmente
a profundidade desse ponto, trata o ser humano como um simples
animal. Ela veio focando apenas o corpo físico, que é matéria; portanto,
enxerga a doença como uma “avaria” do corpo humano. Sua maneira de
pensar é extremamente simplista, pois tenta “consertar” utilizando a
matéria, como medicamentos e equipamentos. Entretanto, a realidade
não é tão simples assim. Além do corpo físico, existe no ser humano um
componente espiritual muito mais importante, denominado força vital.
Esta se relaciona intrinsecamente com o corpo físico, por isso ele
129
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

consegue viver e exercer suas funções. Como o espírito se assemelha


ao Nada, a ciência materialista não conseguiu detectá-lo. Dessa forma,
ao observar, por exemplo, a dissecação de cadáveres, podemos
compreender muito bem que a ciência veio se dedicando somente à
pesquisa do corpo físico. Embora se diga que ela progrediu, todos os
esforços serão em vão, visto que se trata de avanços de apenas uma
das duas partes.

Conforme eu disse, o ser humano é constituído de espírito e


matéria. O espírito é primordial, e a matéria, secundária. Esta é a lei
universal. Quanto à doença, as toxinas existentes no corpo físico
refletem-se no espírito e transformam-se em nuvens espirituais. Surge,
então, o processo de purificação natural, e as nuvens são eliminadas.
Ao mesmo tempo, esse processo se reflete no corpo físico e,
consequentemente, as toxinas são dissolvidas e eliminadas. A dor e o
sofrimento decorrentes desse processo é o que conhecemos como
doença. A primeira parte do processo é uma atuação de caráter
horizontal, baseada na identidade espírito e matéria; já a segunda parte
é uma atuação de caráter vertical, baseada na precedência do espírito
sobre a matéria. É importante compreender bem esse princípio.

Qual é a verdadeira natureza das nuvens espirituais? Trata-se do


surgimento de uma mancha no espírito, o qual é incolor e transparente.
Essas nuvens são a verdadeira causa da doença; por isso, se forem
dissipadas, evidentemente, a doença será curada. Um método para isso
é o Johrei. Os ideogramas que compõem a palavra Johrei, significam
“purificar as nuvens do espírito”. Portanto, todos devem saber que, fora
o Johrei, não há nenhum outro tratamento terapêutico verdadeiro.

O que acabamos de expor é o fundamento da origem da doença


e seu tratamento. Em suma, a doença é o sintoma manifestado na parte
externa e perceptível, e sua causa reside nas nuvens espirituais
localizadas na parte interna. Consequentemente, a eliminação das
nuvens espirituais vem a ser o verdadeiro método de tratamento da
doença. No entanto, por desconhecer esse princípio, a medicina
acredita que basta eliminar os sintomas. Mesmo que se obtenha um
130
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

resultado, este será temporário, ocorrendo, infalivelmente, uma recaída,


e os médicos certamente têm tido experiências disso.

Aprofundando-me no assunto, vou explicar cientificamente o


princípio fundamental do Johrei. Para tanto, para facilitar, vou adotar
uma metodologia científica e analisar tal princípio em termos teóricos e
experimentais, pois, no momento, este é o procedimento considerado
mais adequado.

O que vêm a ser as nuvens espirituais? Sem dúvida, elas são


componentes tóxicos formados a partir dos medicamentos, cuja
verdadeira natureza é o elemento água impuro. O elemento água impuro
é aquele que contém “partículas tóxicas”. Quando estas são
desintegradas, o elemento água impuro se transforma em elemento
água puro e a causa da doença desaparece. Tal processo requer uma
alta temperatura para tornar viável a queima das “partículas tóxicas”.
Esta alta temperatura era algo inexistente no globo terrestre até então.

Felizmente, ocorreu uma descoberta que serve de ótimo exemplo


para ilustrar minha afirmação: trata-se da bomba atômica. Como todos
sabem, a alta temperatura liberada por ela inexistia até o momento,
vindo a ser descoberta somente no atual século XX. Nesse ponto, há
algo em comum que não é mera coincidência, mas sim, manifestação da
Vontade Divina. A diferença é que a energia da bomba atômica é
material, enquanto que a do Johrei é espiritual e, dessa maneira, sua
força não tem comparação. Ou seja, a energia material é limitada
enquanto que a espiritual é de tão alto nível que é ilimitada e,
evidentemente, não se conseguiu descobri-la através da ciência. Mesmo
que tivesse conseguido, não seria possível produzi-la artificialmente.
Pelo mesmo motivo, não dá para comparar suas propriedades com as
da bomba atômica. Quando a ciência atingir um progresso ainda maior,
talvez descobrirá tal energia; mas ela ainda é uma incógnita. Então, qual
é a natureza dessa energia espiritual? Trata-se da essência do Sol, que
é o espírito da luz e do calor. Denominei-a “elemento fogo”, o qual, ao
ser irradiado em direção ao elemento água impuro, instantaneamente
queima apenas suas “partículas tóxicas”. Em outras palavras, queima a
131
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

causa da doença. Diferentemente da impureza material, a espiritual só


pode ser queimada com a energia espiritual. Para tanto, adotei um
método: escrevo o ideograma hikari (luz) em uma folha de papel que
concedo às pessoas interessadas. Ao colocá-la junto ao peito e usá-la
como um objeto de proteção, o elemento fogo, irradiado
incessantemente pelo Sol, transmite-se por meu intermédio a esse
objeto e é irradiado pela palma da mão. É como se o Sol fosse uma
emissora; eu, o retransmissor, e os ministrantes, o próprio aparelho
receptor. Através desse processo, as partículas tóxicas são extintas
completamente, e o elemento água torna-se puro. Este é absorvido
pelos fluidos corporais, e a cura completa das doenças se processa.

Falando de uma forma mais compreensível, se estendemos a


palma da mão em direção ao local da dor, esta cessa imediatamente.
Isto se dá porque as nuvens espirituais do local afetado são eliminadas
instantaneamente, refletindo-se no corpo físico. Além do mais, as
“partículas tóxicas” são a origem de todos os germes, tais como:
bactérias da tuberculose e de outras doenças contagiosas. A medicina
que for capaz de destruir por completo essas partículas é, pois, a
medicina ideal que cura todas as doenças. Com essa explicação,
acredito que é possível ter uma noção geral sobre o assunto. Em linhas
gerais, o tratamento médico é um método de solidificar as toxinas em
processo inicial de dissolução, enquanto o Johrei é o método de acelerar
a dissolução das toxinas e a eliminação das mesmas. Portanto,
enquanto aquele é um método que faz as doenças perdurar, o Johrei é
um método que as erradica. Observando de forma imparcial, o método
que cura é ciência, e o que não cura, é pseudociência. Basta observar
as explicações médicas para compreender o que estou dizendo. Apesar
de serem minuciosas, acabam não condizendo com a realidade por não
atingirem o âmago da questão e se basearem em pontos secundários.
Isso é algo que os próprios médicos reconhecem. É tal qual examinar
galhos e folhas de uma árvore que está secando, desconhecendo que a
causa está nas raízes.

Acredito que puderam entender, em linhas gerais, o que falei


sobre doença e medicina. Em suma, uma vez que a medicina atual
132
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

desconhece o princípio que expus, ela é desprovida de lógica. Em


contrapartida, o Johrei é uma ciência lógica de alto nível, é uma ciência
do futuro. A prova disso é que as pessoas com mentalidade formada
pela ciência atual, quando veem os resultados maravilhosos do Johrei
ficam espantadas e os chamam de milagres. Na verdade, não se trata
de milagre. A cura ocorre porque há uma razão para tal, e isto é muito
natural. Imagino que todos queiram saber por que a maravilhosa força
da essência do Sol cura a doença das pessoas por intermédio de minha
pessoa, um ser humano. É, realmente, o enigma do século, mas para
explicar a razão disso, eu precisaria revelar um mistério muito profundo
e, por esse motivo, deixarei o assunto para outra ocasião.

13 de janeiro de 1954

133
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

O JOHREI É TRATAMENTO CIENTÍFICO (2)

Nem é preciso dizer que a essência do Sol, à qual já me referi, é


o próprio espírito do Sol. Entretanto, por que até agora ele não se
manifestara na Terra? Existe um motivo profundamente misterioso que
desejo explicar minuciosamente.

Como eu já disse, o ser humano é constituído de espírito e


matéria. Do mesmo modo, a Terra é formada pelos Mundos Espiritual e
Material. O Mundo Espiritual, por sua vez, é composto pelo Mundo da
Energia Espiritual e pelo Mundo Atmosférico. O que caracteriza o
primeiro é a regência do fogo sobre a água, e o segundo, a regência da
água sobre o fogo, ou seja, são o yin e o yang.

De acordo com esse princípio, a combinação da essência do Sol


com a da Lua, presente em todas as coisas do Universo, nutre o globo
terrestre. É como o pai e a mãe, que, em colaboração, criam os filhos.
Dessa maneira, é por meio da atuação conjunta do Sol, da Lua e da
Terra que surge a força da natureza e, através dela, todas as coisas
nascem e se desenvolvem: esta é a realidade do Universo.

O ser humano é o senhor, o centro de tudo; depois de Deus, ele é


a existência máxima. Por esse motivo, as demais coisas existem em
função de sua existência e de seu desenvolvimento.

Tudo o que eu disse até aqui, representa a relação entre o ser


humano e o Universo, mas preciso esclarecer que se aproxima uma
grande e surpreendente mudança. Trata-se de um fato sem precedentes
na História. Até o presente, o mundo era noite e está prestes a se
transformar em dia. Se eu disser que a aurora desta mudança é a época
atual, possivelmente, as pessoas não compreenderão e até zombarão
de mim: “O dia e a noite só existem no espaço de vinte e quatro horas.
Relacionar isso a um intervalo maior de tempo é um absurdo.” E isso é
compreensível. Eu também pensaria assim, se não tivesse
conhecimento da realidade. Todavia, desde que a conheci através da
Revelação Divina, não posso deixar de acreditar. Se lerem este artigo
134
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

atentamente, com certeza, hão de me entender, posto que se trata da


Verdade.

A Terra está envolta pela atmosfera, que é a fusão harmoniosa


do Mundo da Energia Espiritual, em que o fogo rege a água, com o
Mundo Atmosférico, em que a água rege o fogo. O dia e a noite,
perceptíveis pelos nossos cinco sentidos, correspondem ao dia e à noite
materiais, mas é preciso saber que existem o dia e a noite espirituais,
que transcendem o tempo. Isso tem um significado de suma importância
e constitui um grande mistério do Universo. É como se o dia e a noite do
Mundo Material se ampliassem infinitamente como o céu, e por isso o
ser humano não percebe tal fenômeno. O fato é que essa alternância se
sucede ordenadamente em períodos curtos, médios e longos, no espaço
de dezenas, milhares e dezenas de milhares de anos. Cada um desses
períodos se estrutura com base nos números 3, 6 e 9, cuja soma é 1856,
que é a realidade do Universo. O ensinamento de Buda Sakyamuni diz
que o Mundo de Miroku viria dali a cinco bilhões seiscentos e setenta
milhões de anos; se o interpretarmos literalmente, esse tempo é distante
demais, o que não faz sentido. Trata-se apenas de uma alusão aos
números citados.

Voltando ao que disse no início, o mundo noturno é regido pela


Lua e como esta é água e matéria, houve o progresso da cultura
material. Ao contrário, o mundo diurno é regido pelo Sol. O Sol vem a
ser o fogo, que, por sua vez, é espírito. Se empregarmos a classificação
bem e mal, o espírito é o bem, e a matéria, o mal. Esta é a Verdade. Até
agora, era o mundo em que o mal predominava sobre o bem. Daqui
para a frente, será o mundo civilizado, em que o bem prevalece sobre o
mal. Devido ao predomínio do mal sobre o bem, surgiu o mundo infernal
que vemos atualmente. Se esta realidade perdurar muito tempo, a
humanidade se extinguirá, e a descoberta da bomba atômica é um
indício dessa afirmativa. Dessa maneira, o misterioso Plano de Deus
não pode, em absoluto, ser entendido pela simples inteligência humana.

56
Segundo Meishu-Sama, o número dezoito (18) simboliza a atuação de Miroku e pode ser
representado também pelas combinações 3-6-9 ou 5-6-7.

135
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Com o que acabamos de dizer, creio que puderam entender, de


modo geral, a mudança que ocorrerá no mundo daqui para frente. O
“Fim do Mundo” e a “Chegada do Reino dos Céus”, profetizados por
Jesus Cristo, referem-se a essa mudança, e a extinção da doença, da
pobreza e do conflito proclamada por mim é condição fundamental
dessa mudança. A eliminação da doença, por sua vez, é a base de tudo.
Visto que Deus me concedeu a chave para tal, atualmente, tenho a
solução da questão da doença por foco principal.

Segundo pudemos observar, este grandioso Plano Divino é uma


obra sem precedentes. Em consequência, a civilização sofrerá uma
revolução e, evidentemente, será um marco histórico da humanidade.

Por se tratar de uma teoria por demais surpreendente, creio que


uma simples leitura deste artigo deixará as pessoas confusas, com
dificuldade para compreendê-la. No entanto, como esta é a realidade e
este momento é iminente, desejo que despertem o quanto antes.

Aqui, quero expor algo muito importante sobre o qual já tive


oportunidade de falar. Trata-se do acúmulo dos pecados cometidos no
longo período de predomínio do mal sobre o bem, durante o
desenvolvimento da cultura material. Relacionando isso ao ser humano,
materialmente, são as toxinas medicamentosas; espiritualmente, são as
nuvens espirituais geradas pelo mal. Com o aumento do elemento fogo
no Mundo Espiritual, o processo de purificação se intensificará e, no final,
haverá uma prestação de contas definitiva. Se isso for o “Juízo Final”
também profetizado por Jesus Cristo, o ser humano precisará
ultrapassar essa barreira. Se fracassar, seja quem for, sofrerá a extinção
eterna. Não sou eu que anuncio isso agora, mas é algo que já foi
previsto por diversos santos e sábios ao longo de milhares de anos. Crer
ou não crer fica a critério de cada um. Atualmente, como prova para as
pessoas acreditarem, estou manifestando milagres que não dão
margem a qualquer dúvida.

10 de fevereiro de 1954

136
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

EXISTEM DIVINDADES?

Pude descobrir este magnífico método do Johrei, graças ao


conhecimento que tive sobre a existência do espírito. Em outros termos,
trata-se do princípio segundo o qual as doenças do corpo físico se
curam por meio do tratamento do espírito.

Esse princípio deve ser considerado uma grande indicação da


cultura do futuro. Realmente, ele representa uma grande revolução para
a ciência e, se além do tratamento das doenças, nós o aplicarmos a
todos os setores da vida, o bem-estar da humanidade aumentará
incalculavelmente. E não é só isso. Posso prever que o aprofundamento
da pesquisa desse princípio atingirá até a essência da própria religião.

Durante milênios, a controvérsia sobre a existência de Deus é


uma velha questão que continua sem ser solucionada. E isso se justifica
porque, partindo apenas da visão materialista, obviamente as pessoas
nada podem compreender a respeito de Deus, que é espírito e
assemelha-se ao Nada. Contudo, pela ciência espiritual que estou
propondo, é possível saber que Deus existe e, ao mesmo tempo,
responder a questões como a vida após a morte, a reencarnação, a
realidade do Mundo Espiritual, os fenômenos de encosto e incorporação
e outras indagações relativas ao mundo desconhecido (que chamo
também de segundo mundo57).

Primeiramente, devo explicar como se processou a evolução de


meu pensamento. Quando jovem, eu era extremamente materialista.
Vou citar alguns exemplos. Até mais ou menos os quarenta anos, eu
nunca tinha orado a divindade alguma. Achava tolice e não via sentido
venerar uma pedra, um espelho ou um papel escrito colocados no
interior de oratórios xintoístas feitos por marceneiros com tábuas de
cânfora e denominados omiya. Nos templos budistas, também se
adoram Kannon, Amida ou Buda Sakyamuni, desenhados em papel ou
estátuas de madeira, pedra ou metal. Eu achava tudo isso sem sentido,
57
Segundo mundo: no Ensinamento “Mundo Desconhecido”, Meishu-Sama denomina o Mundo
Material de “Primeiro Mundo” e o Mundo Espiritual de “Segundo Mundo”.

137
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

pois costumava afirmar que Kannon e Amida só existiam na imaginação


humana, não passando de idolatria.

Naquele tempo, havia lido a tese do famoso filósofo alemão


Rudolf Eucken (1846-1926), segundo a qual o ser humano possui o
instinto natural de adorar alguma coisa e, assim, criou e adora seus
ídolos, caindo na autossatisfação. Como prova disso, acrescenta ele,
todas as oferendas depositadas nos altares estão voltadas para o lado
do ser humano e não para Deus. Sentia-me perfeitamente identificado
com essa tese.

Essa forma de pensar influenciou até minha visão sobre os


países. Cheguei a considerar que a existência de templos era prejudicial
ao progresso, porque nações como a Itália, que possui muitas igrejas,
estavam em declínio, e aqueles que as tinham em pouco número,
achavam-se em franco desenvolvimento, a exemplo dos Estados Unidos.

Nessa época, todos os meses, eu contribuía com uma


determinada quantia para o Exército da Salvação e, por esse motivo, era
visitado por um pastor que me sugeria o cristianismo. Ele me dizia: “As
pessoas que contribuem para o Exército da Salvação geralmente são
cristãs. Por que o senhor contribui, se não é cristão?” Então, expliquei:
“O Exército da Salvação trabalha para a recuperação de ex-presidiários,
transformando-os em pessoas de bem. Se ele não existisse, talvez um
desses ex-detentos já tivesse entrado em minha casa para me roubar.
Portanto, se o Exército da Salvação está impedindo que isso ocorra, é
natural que eu seja agradecido e colabore com suas obras.” Vivi muitas
situações semelhantes a esta; porém, na época, apesar de querer fazer
o bem, eu não acreditava em divindades. Sendo assim, poderão
compreender quão forte era minha convicção de que jamais se devia
acreditar naquilo que não se pode ver.

Nesse período, minhas atividades comerciais eram bem-


sucedidas, e eu estava no auge da prosperidade. Entretanto, sofri uma
grande perda devido a um mau funcionário. Além disso, o destino
adverso marcado pelo falecimento de minha primeira esposa, pelos
138
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

embargos judiciais sofridos em decorrência da falência e por outros


infortúnios, arrastou-me para o fundo do abismo. Como resultado,
acabei recorrendo ao que todos procuram nessas ocasiões: à religião.
Não tive outra saída a não ser ir em busca da salvação no xintoísmo e
no budismo, como era de praxe; assim, tive conhecimento da dimensão
espiritual como, por exemplo, a existência de Deus, do Mundo Espiritual,
da vida após a morte etc. Refletindo sobre minha maneira de ser no
passado, arrependi-me da própria tolice.

Após esse despertar, meu conceito sobre a vida deu uma


guinada de cento e oitenta graus. Intuí que o ser humano é protegido
por Deus e que se ele não reconhecer a existência do espírito, não
passará de um ser vazio. Também entendi que, ao pregar a Moral, se
não fizermos com que as pessoas reconheçam a existência do espírito,
isso não terá nenhum valor. Em razão disso, caros leitores, faço votos
de que abram suas mentes para os esclarecimentos que darei sobre os
fenômenos espirituais.

5 de fevereiro de 1947

139
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

O VALOR DO SER HUMANO ESTÁ NO SENSO DE JUSTIÇA E DE


RETIDÃO

O meio mais seguro para avaliar o valor de uma pessoa é saber


se ela possui, ou não, senso de justiça e de retidão. Eu tenho dois
critérios que são infalíveis: se a pessoa não faz coisas erradas e se é
confiável, ou seja, se podemos delegar-lhe qualquer coisa, sem receio.
Posso afirmar que não existe método melhor. Realmente, creio que o
senso de justiça e de retidão constitui a espinha dorsal do ser humano.
Quem não o possui, não inspira segurança, pois se assemelha à água-
viva, a qual é destituída de ossos.

Portanto, em relação a todas as coisas, em primeiro lugar,


devemos distinguir o certo e o errado. Se a outra parte for do mal, é
preciso oferecer resistência, valendo-se da justiça sem se intimidar.
Essa atitude poderá render momentos amargos, mas não há motivos
para preocupação pois, no final, tudo correrá a contento.

Atualmente, o mundo está repleto de pessoas maldosas. Basta o


menor descuido para sermos enganados, usados ou prejudicados. De
fato, viver neste mundo requer muita cautela. Em razão disso, o motivo
de as pessoas medrosas viverem atemorizadas é porque lhes falta um
firme senso de justiça e de retidão. Minha longa experiência é a melhor
prova do que estou dizendo e, por esse motivo, vou tomá-la como
exemplo.

Na época em que eu era empresário, ou seja, antes de me tornar


religioso, fui enganado por muitas pessoas más e vivi amargas
experiências. Por felicidade, nasci com um senso de justiça e de retidão
mais forte que a maioria e, por isso, enfrentava tudo, sem levar em
conta as vantagens e as desvantagens. O esforço empreendido na
defesa da justiça acarretou-me muitos transtornos que, felizmente,
foram passageiros. Com o tempo, a situação melhorava e, por fim, a
outra parte acabava desistindo. O resultado é que eu revertia a situação
inicial e até obtinha vantagens ainda maiores. Por eu ser assim, sempre

140
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

me via envolvido em processos judiciais, e um deles vem-se


prolongando até os dias de hoje.

Numa época em que eu passava por severas dificuldades


financeiras, fui perseguido por pessoas que se aproveitaram de seu
dinheiro e posição. Todavia, com o decorrer do tempo, fui favorecido
pelas circunstâncias, e elas tiveram de desistir.

Darei um exemplo. Quando eu era comerciante de miudezas,


criei um novo produto cuja patente foi registrada em dez países com
extraordinária aceitação, o que me propiciou um contrato especial com a
renomada Loja Mitsukoshi. Como o produto estava na moda, recebi uma
proposta descabida da associação de varejistas de miudezas de Tóquio,
pedindo que lhe vendesse uma das duas exclusividades destinadas à
Mitsukoshi. Visto que rejeitei a oferta considerando-a uma afronta à
Mitsukoshi, a associação tentou boicotar-me, reunindo todas as lojas do
gênero da cidade, para obrigar-me a ceder. Dois anos de resistência me
acarretaram considerável prejuízo, mas a associação deu-se por
vencida e entramos em acordo.

Outro caso interessante ocorreu quando eu ainda negociava com


a Mitsukoshi. Em protesto contra as condições injustas do acordo
imposto por ela, neguei-me a fechar o negócio. O encarregado da
operação, surpreso, disse-me ter sido eu a primeira pessoa que fizera
oposição, quando, como regra geral, os fornecedores sempre se
sujeitavam àquelas condições. Reconhecendo que eu estava com a
razão, a Mitsukoshi desculpou-se, e o caso foi resolvido.

Após tornar-me religioso, diversas vezes, passei por momentos


turbulentos, de sério perigo, conforme descrevi em minhas publicações.
Nessa época, bastava a religião ser nova para sofrer pressão e
perseguição. Como estávamos sob regime militar, não havia meios para
reagir, e eu padeci bastante. Finalmente, o militarismo chegou ao fim, o
que prova a vitória da justiça.

141
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Por essas experiências, vemos que, embora o bem perca


temporariamente em uma sociedade em que o mal predomina, a
perseverança assegurará sua vitória definitiva. Enfim, não há nada
melhor do que pautar-se destemidamente pela justiça e retidão, e
marchar de cabeça erguida. E isto é o certo. Esse tipo de pessoa torna-
se o sustentáculo da comunidade, a fortaleza contra o mal social, e
possibilita o surgimento de uma sociedade sadia. Isto porque Deus
sempre estará do lado dos justos e corretos.

10 de outubro de 1951

142
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

ESTÁ ERRADO DIZER QUE OS HONESTOS SAEM PERDENDO

Há muito tempo, ouve-se dizer que as pessoas honestas saem


perdendo. Refletindo profundamente, acredito que essas palavras
influenciam negativamente as pessoas. Não haveria o que fazer se isso
fosse mesmo verdade; porém, pela minha experiência, garanto que
essas palavras não correspondem absolutamente à realidade. Senão,
vejamos.

Quando observamos atentamente a sociedade, notamos que


existem duas maneiras de ver as coisas: a curto e a longo prazo. Em
geral, as pessoas tendem a julgar o bem ou o mal baseados em
resultados de curto prazo. Por exemplo, ao verem o sucesso
momentâneo obtido por pessoas desonestas, que enganam o próximo
ou vendem gato por lebre, ficam iludidas e definem que os honestos
saem perdendo. Todavia, é preciso que tais coisas sejam vistas a um
prazo mais longo, pois, inevitavelmente, a farsa virá à tona, e aquelas
pessoas passarão por humilhações, podendo-se até afirmar que
acabarão arruinadas. Em contrapartida, ainda que por um momento os
honestos sejam mal interpretados, prejudicados ou colocados em
posição desvantajosa, com o passar do tempo, infalivelmente a verdade
será esclarecida, e isso será determinante. Vou contar minha
experiência a esse respeito.

É constrangedor falar de mim mesmo, mas desde jovem, sou


muito honesto. Não consigo mentir de maneira alguma. Por esse motivo,
sempre me diziam: “Um rapaz honesto como você nunca vai alcançar o
sucesso. Se você não mudar seu pensamento e não for hábil em mentir,
dificilmente será bem-sucedido na vida.” Achando que eram palavras
sensatas, empenhei-me para mentir durante algum tempo, mas não me
sentia bem. Era tomado por uma angústia insuportável, minha vida se
tornava sombria e meus dias eram infelizes. Não havia, pois, condição
para eu obter bons resultados em meus empreendimentos. Naquela
época, eu era comerciante, de modo que as táticas de negociação e as
mentiras deveriam trazer-me muitas vantagens. Todavia, eu não
conseguia me sair bem e acabei decidindo voltar à honestidade, traço
143
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

natural de meu caráter. O interessante é que, depois disso, os


resultados começaram a ser melhores do que eu esperava. Em primeiro
lugar, alcancei maior credibilidade no mundo dos negócios, tudo passou
a se processar num ritmo excelente e, por algum tempo, consegui um
patrimônio considerável. Assim, deixei-me levar pela empolgação e dei
um passo maior que a perna. Nessa situação, quando me deparei com a
crise do setor financeiro, sofri uma derrocada a ponto de não conseguir
mais recuperar-me. Foi isso que me fez abraçar a vida religiosa.

Desde que decidi voltar aos princípios da honestidade, até hoje,


continuo seguindo esse caminho. Obviamente, os resultados são ótimos.
Durante um período relativamente longo, houve ocasiões em que fui mal
interpretado, criticado, perseguido. Enfrentei caminhos tortuosos e
espinhosos, mas nunca deixei de ter a confiança das pessoas, o que
ainda atribuo, com toda convicção, à minha honestidade.

Parece que os homens contemporâneos possuem uma visão a


curto prazo e uma tendência a se deixar encantar pelos resultados
momentâneos. É, pois, necessário que, diante de qualquer situação, se
observem os fatos com uma visão a longo prazo. Isso é válido para
todas as circunstâncias. Exemplifiquemos. Há políticos que, almejando
conseguir o poder a curto prazo, forçam a situação. É o mesmo que
colher um caqui ainda verde, não esperando que ele amadureça e caia,
e ficar frustrado com a sua cica. Existe um ditado que diz: “Os políticos
de grande envergadura pensam em termos de cem anos, os de média,
em termos de dez anos, e os de pequena envergadura, em termos de
um ano.” É exatamente assim. Infelizmente, hoje em dia, parece que o
número de políticos de pequena envergadura é bem maior.

A mesma lógica se aplica ao cultivo agrícola livre de adubos58,


que eu preconizo. Vemos que a agricultura praticada até hoje apresenta,
temporariamente, bons resultados com o uso de adubos sintéticos e
esterco, mas estes matam a terra e, por isso, ela está se tornando cada
vez mais improdutiva. Sem perceber isso, as pessoas mostram-se
58
Cultivo agrícola livre de adubos: Outro nome utilizado por Meishu-Sama para Agricultura Natural
Messiânica.

144
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

fascinadas diante do êxito ocasional obtido com o adubo. Por fim, tanto
a terra como o ser humano ficam intoxicados.

Tal raciocínio também é válido para a medicina atual. Durante um


período, o tratamento realizado com medicamentos e equipamentos
apresenta-se eficaz. No entanto, com o passar do tempo, ocorrem
efeitos contrários, e o estado de saúde piora. Por terem ficado
deslumbradas com o resultado momentâneo do início do tratamento, as
pessoas voltam a utilizar os mesmos métodos e, em vista disso, a
situação se agrava cada vez mais.

Através desses exemplos, meu objetivo foi chamar atenção para


as consequências da visão a curto e a longo prazo, à qual me referi
inicialmente.

20 de abril de 1949

145
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

MINHA NATUREZA

Tempos atrás, escrevi um artigo intitulado “Eu, visto por mim


mesmo”. Diferentemente dele, que foi escrito de um ponto de vista
objetivo, desta vez, pretendo descrever, subjetivamente, meu estado de
espírito tal como ele é.

Atualmente, creio que não existe uma pessoa tão feliz quanto eu,
e minha gratidão a Deus é constante e profunda. Qual será a causa da
minha felicidade? De fato, eu não sou uma pessoa comum, sobretudo
porque Deus me atribuiu uma grandiosa missão, e esforço-me dia e
noite para cumpri-la. Todos os membros da Igreja sabem que, através
dela, um incontável número de pessoas está sendo salvo. Todavia,
existe um segredo da felicidade que é fácil de ser praticado por qualquer
pessoa, ou melhor, por quem não tem uma missão especial como eu.
Primeiramente, desejo abrir meu coração, mostrando aquilo que é uma
tônica em meu íntimo.

Desde jovem gosto de dar alegria ao próximo, a ponto de isso se


tornar quase um hobby para mim. Sempre estou pensando no que devo
fazer para tornar as pessoas felizes. Por exemplo, quando acordo pela
manhã, minha primeira preocupação é saber o estado de ânimo dos
meus familiares. Se houver uma só pessoa mal-humorada, já não me
sinto bem. Na sociedade, ocorre justamente o contrário: os familiares é
que se preocupam com o estado de ânimo do chefe da casa. Como
procedo de forma oposta, acho isso estranho e até fico um pouco triste.
Portanto, para mim, é muito penoso escutar xingamentos, gritos de raiva,
reclamações e lamentações. Também me é difícil ouvir repetidas vezes
um mesmo assunto. Sou sempre pacífico, feliz e abomino o apego. Esta
é a minha natureza.

O resultado do que acabo de expor é um dos fatores


determinantes da minha felicidade. Por esse motivo, eu sempre afirmo:
“Se não fizermos a felicidade do próximo, não poderemos ser felizes.”
Acredito que meu maior objetivo – o Paraíso Terrestre –, estará

146
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

concretizado quando meu estado de espírito encontrar ressonância e


expansão no coração de todos os homens.

Sinto-me constrangido por este artigo parecer um autoelogio, mas,


se depois de sua leitura, ele puder levar algum benefício às pessoas,
ficarei satisfeito.

30 de janeiro de 1950

147
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

IDOLATRADO COMO DEUS

Quem se encontra comigo pela primeira vez, sempre diz a


mesma coisa: “Antes de conhecê-lo, eu pensava que o senhor fosse
uma pessoa pouco acessível, sempre rodeado de servidores. Imaginava
que, para dirigir-me ao senhor, deveria fazê-lo com a maior formalidade.
Resolvi visitá-lo com certa apreensão; mas, ao contrário do que
esperava, tudo foi tão simples e fácil que fiquei surpreso.”

Realmente, quando se trata de um fundador ou de uma


autoridade religiosa, a tendência das pessoas em geral é pensar que
eles vivem em um ambiente em que cuidados e atenções são
dispensados de forma exagerada. Em tempos passados, também tive
servidores que quiseram que eu procedesse dessa forma. Entretanto, eu
não sentia vontade alguma de agir assim e continuei a ser a pessoa
simples que sempre fui.

Muitas pessoas devem estar curiosas por que eu não ajo como
um deus encarnado. Vou explicar a razão.

Talvez pelo fato de ser edoko59, desde jovem, jamais gostei de


assumir ares de superioridade. Como detesto a falsidade, acho que
aparentar aquilo que não sou e criar diversos aparatos é uma forma de
enganar, uma dissimulação. Além do mais, à vista dos outros, é uma
atitude desagradável. Afinal de contas, o melhor é a pessoa mostrar-se
como realmente é.

Pela minha atual condição, talvez fosse até natural eu ficar no


lugar de maior destaque como um deus e, quando concedesse alguma
entrevista, me daria ares de importância porque assim eu me valorizaria
muito mais. Todavia, não gosto disso. Tenho sempre como princípio
dizer aos que censuram meu procedimento, que não precisam
permanecer comigo, e já àqueles que o aprovam, que podem ficar.
Conforme mostra a realidade do rápido desenvolvimento da nossa
59
Edoko: Pessoa natural de Edo, antigo nome de Tóquio até a Restauração Meiji, em 1867. A
característica do edoko é ser despretensioso, franco e irrequieto.

148
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

religião, constato que o número de pessoas que aceitam minha maneira


de agir é cada vez maior, e isso me deixa muito satisfeito.

Devo acrescentar que considero minha natureza muito diferente


da de outras pessoas. Detesto imitar o que os outros fazem. Este é um
dos motivos pelos quais não me comporto como um deus encarnado.
Quero ter sempre a aparência de uma pessoa comum, o que é uma
quebra de paradigma. Tudo isso contribuiu muito para que eu pudesse
descobrir o Johrei, um tratamento terapêutico revolucionário. Além disso,
se eu quisesse, poderia enumerar muitas outras ações minhas que se
opõem aos modelos estabelecidos. Como os fiéis sabem, manifesto o
poder de curar doenças através do Ohikari, que confecciono escrevendo
uma letra numa folha de papel; trato as diferentes divindades com igual
respeito; estou construindo o modelo do Paraíso Terrestre; empenho-me
na promoção da arte; evito a ostentação religiosa etc. A propósito, dias
atrás, fui visitado por uma jornalista da revista Fujin Koron, que me disse
ter ficado surpreendida ao chegar à entrada da nossa Sede Provisória.
Ao perguntar-lhe o motivo, ela disse que achou estranho não ver
nenhum aparato que lembrasse uma religião. Daqui por diante, planejo
realizar empreendimentos religiosos em todos os campos da sociedade
e pretendo que eles rompam muitos padrões. Por conseguinte, gostaria
que os aguardassem ansiosamente.

13 de maio de 1950

149
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

MINHA MANEIRA DE PENSAR

Tenho o costume de pensar profundamente sobre todas as


coisas. Suponhamos que se elabore um projeto qualquer. As pessoas,
na sua maioria, ficam ansiosas, querendo logo colocá-lo em prática;
além disso, confiando na sorte, acham que, uma vez iniciando sua
realização, de alguma forma tudo dará certo. Contudo, ao executá-lo,
percebem que as coisas não ocorrem como o esperado e, geralmente,
acabam fracassando. Tais pessoas só pensam no sucesso, não levando
em conta a possibilidade de fracasso, o que é muito arriscado. Eu, no
entanto, faço o contrário. Desde o começo, considero a possibilidade do
insucesso. Elaboro um plano à parte, para o caso de fracasso. Assim, se
o projeto falhar, o fato não me atinge muito. Opto por aguardar um
pouco mais. Agindo dessa maneira, mesmo que advenha um revés,
longe deste ser um golpe fatal, será possível recuperar-me facilmente.

Em relação às finanças, procedo do mesmo modo. Divido o


dinheiro em três partes: se a primeira não for suficiente, começo a usar
a segunda; caso esta ainda não baste, recorro à terceira. Seguindo esse
método, a probabilidade de falhar é mínima.

À primeira vista, parecerá perda de tempo fazer um planejamento


muito detalhado, tomando todas as precauções para as eventualidades
que possam surgir. Contudo, se procedermos dessa forma, tudo correrá
mais rapidamente, pois não haverá falhas. Assim, não há desperdício de
dinheiro, nem de tempo, nem de trabalho, o que representa um
inesperado e considerável ganho.

Todos sabem que tenho elaborado e executado projetos


audaciosos, um após o outro, e tudo sempre corre muito bem, sem
insegurança ou preocupações. Ainda que eu haja elaborado um plano e
todos os preparativos estejam em ordem, não o ponho logo em prática;
aguardo o tempo oportuno calmamente. Uma vez que, infalivelmente,
surge a oportunidade, aí sim, começo a executá-lo, sem pressa nem
afobação. O ser humano nunca deve precipitar-se. Se o fizer, forçará a
situação, e nada dará certo. Pensando nas pessoas que fracassaram,
150
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

vemos que todas elas, sem exceção, se apressaram e foram além dos
limites do que é razoável.

A propósito, lembro-me sempre da Segunda Guerra Mundial. No


início, as coisas corriam bem e, por esse motivo, os japoneses ficaram
excessivamente confiantes, surgindo assim a presunção e, com isso, as
circunstâncias se tornaram desfavoráveis. Mesmo assim, eles insistiram
na luta. Como se mantiveram nessa atitude, o resultado foi aquele triste
fim. Naquela época, quando percebi aquela afobação, pensei: “Agora
não tem mais jeito.” Uma vez que não podia comentar isso com ninguém,
permaneci calado. Foi uma situação lamentável, pois, se desde o
começo, tivessem considerado a possibilidade da derrota, o resultado
poderia ter sido diferente. Obviamente, o fato ocorreu devido à visão
superficial das autoridades envolvidas.

Quando as pessoas me observam, às vezes me julgam


impetuoso; outras vezes, calmo e sossegado, o que deve deixá-las sem
saber o que pensar. Todos se espantam com o fato de que tudo o que
faço se conduz com muita rapidez; logicamente, isso se deve à grande
proteção de Deus. Um exemplo é a incrível velocidade com que se
processa o desenvolvimento da nossa religião.

Desejo chamar a atenção para a importância de espairecer a


mente. Existem pessoas que se agarram excessivamente a um único
trabalho e não conseguem aumentar sua produtividade. Isso se verifica
porque, mesmo se sentindo saturadas ou desinteressadas, insistem na
tarefa, o que é errado. Nessas ocasiões, o melhor é distrair-se, fazer
outra coisa, até mesmo procurar uma recreação. Muitos artistas dizem
que, quando não sentem vontade de trabalhar, não o fazem. Na minha
opinião, é uma atitude sensata. Esse comportamento, aparentemente
egocêntrico, pode levar a resultados mais eficazes. Nesse sentido, não
gosto de ficar preso a uma só tarefa; vou mudando constantemente de
uma para outra. Agindo dessa forma, sinto-me mais disposto, trabalho
com satisfação e minha cabeça funciona melhor. No entanto, pode
ocorrer que, de acordo com a situação de cada um, essa recomendação
não seja praticável. Por essa razão, o que estou tentando ensinar é que,
151
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

se a pessoa conhecer bem o princípio que acabo de expor e proceder


de acordo com suas possibilidades e circunstâncias, será grandemente
beneficiada.

25 de junho de 1952

152
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

EU E A IGREJA MESSIÂNICA MUNDIAL

Nossa religião é completamente diferente das outras que


existiram até hoje, e quem nela ingressar entenderá por quê. Contudo,
em que aspecto ela difere das demais? No momento, ainda não posso
dar todos os detalhes dessa questão, mas falarei em linhas gerais.

Em primeiro lugar, observando atentamente as religiões que


existiram até hoje, parece-nos que elas se classificam em dois tipos. No
primeiro, nem caberia o nome “religião”, de tão simples que ela é. Em
suma, é uma fé passiva. Esse tipo consiste em ir de vez em quando ao
templo, receber amuletos, queimar incenso, ver a sorte e, se a pessoa
tiver posses, mandar executar músicas sacras, fazer doações e
oferendas e voltar para casa agradecida, sentindo-se leve e em paz. É
uma fé popular, constatada habitualmente na devoção às divindades.
Esse tipo de fé não deixa de ser uma religião, pois, no fundo, possui
normalmente uma estrutura religiosa.

O outro tipo poderia ser chamado de fé legítima. Nela se faz o


registro de todos os fiéis, havendo administradores, sacerdotes e
divulgadores que se dedicam profissionalmente às atividades religiosas.
Constitui, portanto, genuinamente, uma religião. Diferentemente do que
ocorre na fé passiva, aqui os fiéis agem com seriedade e, quando se
aprofundam, dedicam-se, de corpo e alma, às suas atividades. Entre
essas religiões, evidentemente, existem as novas e as antigas. As
antigas, geralmente, são pouco atuantes e tendem à estagnação devido,
talvez, à mudança dos tempos; segundo dizem, algumas, só a muito
custo, conseguem manter sua atual situação. As novas foram fundadas
entre a fase final do xogunato Tokugawa e o início do Período Meiji
(1867-1912) e são as que apresentam maior atividade e progresso.
Grande parte delas são ramificações do xintoísmo. No budismo, apenas
uma parte da Nichiren está em plena atividade, e as demais apresentam
pouco vigor.

Numa rápida observação, notamos que as religiões tradicionais


apresentam formas variadas; mas, no geral, elas divulgam e pregam o
153
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

espírito que norteou sua constituição e os ensinamentos de seu


fundador, que são seus alicerces. Quanto aos fiéis, é natural que eles
ofereçam sua dedicação sincera em agradecimento pelas proteções
constantes que recebem de Deus. Apesar disso, não se pode
generalizar, pois existem diferentes níveis de fervor na fé.

Concordamos plenamente que todas as religiões têm como


objetivo a concretização de um mundo melhor na tentativa de satisfazer
o ser humano em seu desejo de alcançar a felicidade. A maioria,
contudo, toma como principal fator o lado espiritual, demonstrando
pouco interesse pelas graças recebidas nesta vida.

A verdadeira salvação

Na nossa religião, de maneira alguma negligenciamos a salvação


espiritual. Na realidade, para salvar verdadeiramente o ser humano, não
basta que ele se sinta espiritualmente salvo. Se assim for, a salvação
não será completa. É preciso também salvar-lhe a parte material, e
neste ponto é que reside a grande diferença entre nossa religião e as
demais. Ainda que o ser humano se ache salvo apenas no campo
mental, isso não é suficiente para se alcançar a verdadeira felicidade.
Numa sociedade complexa como esta em que vivemos e que está se
deteriorando cada vez mais, não se sabe quando essa felicidade será
destruída, e a realidade nos tem mostrado isso claramente.

Exemplificando, há pessoas que adoecem, são roubadas, têm


prejuízos ao serem enganadas por indivíduos inescrupulosos, sofrem
devido aos elevados impostos etc. No caso destes últimos, se
buscarmos a causa, veremos que a existência de malfeitores nos obriga
a manter polícia e tribunais; por existirem muitas doenças, despendem-
se altos gastos com a prevenção; por ocorrerem guerras causadas por
pessoas com pensamento equivocado, surgem despesas imensas para
reparar os danos sofridos, e todos esses custos tornam-se impostos.
Ainda existem outros exemplos. Em virtude dessa realidade, é
impensável atingir um estado de paz interior. Logo, em um mundo como
este, se não houver salvação física e espiritual, não se poderá obter a
154
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

verdadeira felicidade. Assim, nossa religião, conforme seu nome indica,


está promovendo a salvação em ambos os aspectos. Essa salvação
significa, individualmente, o recebimento de graças ainda nesta vida e,
socialmente, o melhoramento da cultura. Segundo a Revelação Divina,
há surpreendentes equívocos no seio da cultura moderna e não há uma
só pessoa, em todo o mundo, que as tenha percebido. Além disso, a
humanidade veio agindo e acreditando que essas falácias fossem
corretas. Na verdade, era justamente o contrário. Por esse motivo, a
humanidade tem sofrido sérios prejuízos. Em poucas palavras, o que se
julgava contribuir para o aumento do bem-estar das pessoas acabava
por resultar no aumento da infelicidade. Os fatos, melhor do que
qualquer outra coisa, comprovam o que estamos dizendo.

Apesar de a cultura ter alcançado tamanho progresso, a


felicidade do ser humano não acompanhou esse ritmo, muito pelo
contrário: o sofrimento tende a tornar-se cada vez maior. Se levarmos
em conta que a cultura moderna foi edificada há milênios graças à
inteligência e ao esforço conjunto de eminentes personalidades como os
sábios, os grandes homens, os santos etc., poder-se-á dizer que se trata
de uma cultura do mais elevado nível. É difícil, portanto, imaginar que,
no seu âmago, possa existir tamanho engano. Como eu já disse,
conhecendo as sérias falácias da cultura moderna, desejo, o mais rápido
possível, não só fazer com que o maior número de pessoas as
compreenda, mas também compartilhar com elas essa felicidade e, ao
mesmo tempo, mostrar-lhes as diretrizes para a formação do novo
mundo, caracterizado por uma nova cultura ideal. Esta é a Vontade de
Deus.

Vou falar um pouco a meu respeito. Pela minha história de vida,


sou uma pessoa comum, igual a tantas outras. Tenho, porém, um
destino misterioso que não encontra paralelo na história de toda a
humanidade. Digo isso porque, completamente diferente dos grandes
líderes religiosos conhecidos mundialmente como Buda Sakyamuni,
Jesus Cristo e Maomé, Deus me fez nascer com a grande missão de
salvar o mundo. Em outras palavras, foi-me atribuída a força para

155
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

executar aquilo que não foi possível a esses grandes homens.


Evidentemente, esta é a realidade da qual todos os fiéis estão cientes.

Por exemplo, tudo aquilo que eu quero saber, me é esclarecido.


Também tenho ciência de todos os fatos importantes, não só os
relacionados aos três mundos – Divino, Espiritual e Material –, mas
também àqueles ligados ao passado, ao presente e ao futuro. É claro
que isso está limitado ao que se refere à salvação da humanidade e à
construção do Paraíso. É interessante, pois antevejo como será o
mundo daqui a um ou a vários anos, e também o meu destino. E, pela
minha experiência, geralmente tudo isso se concretiza. Ou seja, o sonho
torna-se realidade. Tenho elaborado e executado vários planos, e as
coisas têm corrido conforme meu desejo.

Com relação aos textos, se penso em escrever um artigo, as


palavras me fluem naturalmente, o quanto eu desejar. Como todos
sabem, dedico-me também à composição de poemas e, não
encontrando nenhuma dificuldade, consigo compor cerca de cinquenta
em uma hora. Até gostaria de escrever haiku, senryu, kanku 60 ,
romances e outros textos, mas não o tenho feito por falta de tempo.
Além desses gêneros, produzo uma literatura satírica e cômica; dado
que elas têm sido publicadas com frequência, os leitores devem
conhecê-las. As orações entoadas pelos fiéis também são de minha
autoria, e parece-me que, apesar de eu não ter tido qualquer
experiência nesse sentido, elas ficaram muito boas.

Por outro lado, já é do conhecimento de todos que estou


construindo um modelo do Paraíso Terrestre de grande porte. Nele, as
pedras, as árvores, as flores, enfim, tudo sou eu quem escolhe e planeja.
Naturalmente, o projeto do jardim e dos prédios e até a decoração
também são trabalhos meus. O Templo Messiânico, que se erguerá no
Solo Sagrado de Atami, mas que ainda está em fase de projeto, seguirá
um estilo mais inovador que o de Le Corbusier, da França, estilo que,
nos últimos anos, se tornou uma tendência na arquitetura mundial. Por

60
Estilos de poesia japonesa.

156
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

conseguinte, quando o templo for concluído, deverá ser alvo da atenção


mundial.

Só de estar no local das construções e olhar o terreno, os prédios


e os jardins se projetam aos meus olhos, não havendo necessidade de
pensar. Na verdade, nunca estudei esses assuntos nem ninguém me
ensinou nada a respeito; mas, só de pensar em fazer algo,
imediatamente brotam, dentro de mim, excelentes ideias. Além disso,
faço vivificações florais, caligrafias e pinturas. Dessas atividades, a
única que estudei um pouco foi a pintura; sou totalmente leigo nas
demais. Com relação à política, à educação, à economia, à filosofia e à
medicina, tenho conhecimento sobre o que se sucederá a elas até daqui
a um século. Sei, principalmente, o quanto os fundamentos da cultura
atual estão equivocados e não consigo me conter quando penso que, se
eles fossem logo corrigidos, o quanto a humanidade seria salva e o
mundo, feliz. No entanto, nada poderá ser feito enquanto o tempo certo
não chegar. Atualmente, seguindo a Revelação Divina, estou apenas
apontando os problemas relacionados à saúde e os erros da agricultura,
questões fundamentais para a construção do Paraíso.

Utilização do espírito

O que eu acho mais misterioso é que, utilizando o espírito, estou


fazendo com que os fiéis curem as doenças. Os resultados são
realmente excelentes. Uma doença que a medicina demora um mês
para curar, muitas vezes, é debelada em um ou dois dias. E não é só
isso. Cada fiel pode curar a própria doença. Os ideogramas que eu
escrevo, passam a atuar de acordo com o significado que os mesmos
possuem. Também consigo compreender inteiramente as causas das
doenças. A partir desse ponto de vista, considero a interpretação da
medicina atual sobre o princípio das doenças tão superficial, que é digna
de pena. Não consigo considerá-la como medicina de fato, pois ela não
passa de um simples método de aliviar as dores e os sofrimentos. Se
continuar da forma como se encontra hoje, jamais se tornará uma
medicina que cura doenças.

157
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Jesus Cristo e inúmeros homens virtuosos, considerados santos,


produziram igualmente milagres em relação às enfermidades. Entretanto,
na maioria das vezes, eram curas realizadas apenas por eles, de uma
pessoa para outra. Ora, dessa forma, não seria possível salvar milhões.
Portanto, para atingir a humanidade é preciso que seja concedida
ilimitadamente a cada indivíduo a força de curar doenças. É o que estou
fazendo atualmente, com resultados admiráveis. O desenvolvimento da
nossa religião é a melhor prova do que estou dizendo. De acordo com o
que já afirmei, é uma Obra Divina que nem Jesus Cristo nem Buda
Sakyamuni puderam realizar.

Não pretendo dizer que minha força seja superior à dos grandes
santos, mas apenas expresso a realidade tal como ela se apresenta.
Com a chegada do tempo, Deus faz isso ocorrer. Quando procurarem
pensar no porquê de uma força tão grandiosa ter-me sido concedida por
Deus, começarão a compreender a importância da minha missão.
Naturalmente, Deus não cria nada além do que é preciso. Tudo é criado
e eliminado de acordo com a necessidade. Sendo essa a Verdade, fica
bem clara a missão que recebi dos Céus. A mim são revelados todos os
mistérios, sendo-me atribuídos os profundos poderes da Inteligência
Superior ilimitadamente. Sob a orientação Divina, estou trabalhando
para levar isso ao conhecimento da humanidade e edificar uma nova
cultura ideal. Em conformidade com a Vontade Divina, atualmente a
inteligência humana está muito desenvolvida e, por isso, as pessoas não
se convencem através de explicações simplistas, como ocorria no
passado. Por conseguinte, é necessário mostrar-lhes milagres
comprobatórios e, ao mesmo tempo, transmitir-lhes as teorias de uma
forma que elas possam ser aceitas. É por essa razão que Deus faz
ocorrer inúmeros milagres. Nesse sentido, por um lado, apontam-se os
erros; por outro, dão-se provas através de milagres. Sinto-me, portanto,
extremamente grato e sensibilizado pela grandiosidade da Vontade de
Deus.

Observando-se a Obra Divina que no momento estou


desenvolvendo, creio que não haverá qualquer margem para dúvidas
sobre a veracidade de minhas palavras. Provavelmente, a humanidade
158
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

jamais sonhou com uma obra de salvação absoluta de tão grande porte.
Logo, se uma pessoa não conseguir despertar, mesmo tomando
conhecimento dela, certamente, não poderá ser salva por toda a
eternidade. Além disso, no futuro próximo, quando chegar o grande
momento crítico do Fim do Mundo, aqueles que não estiverem
preparados, ficarão desnorteados. Por mais que se arrependam, já será
tarde demais.

25 de novembro de 1950

159
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

UNIDADE DEUS-HOMEM

Desde os tempos antigos, há a expressão “unidade Deus-


Homem”. Todavia, eu creio que até hoje não houve nenhum ser humano
nessa condição. De fato, os três grandes homens santos – Buda
Sakyamuni, Jesus Cristo e Maomé –, eram vistos como em unidade com
Deus. Na verdade, eles eram portadores da Vontade Divina. Em termos
mais claros, eram representantes de Deus. No fundo, as pessoas não
sabiam distinguir a atuação da unidade Deus-Homem da atuação dos
representantes de Deus.

Os representantes de Deus agem através de possessão divina ou


seguindo as determinações Divinas. Por esse motivo, sempre rezam a
Deus ou a Buda e pedem Sua proteção. Eu, porém, não faço nada disso.
Como os fiéis sabem, nem fico orando a Deus nem Lhe peço orientação.
Basta-me agir de acordo com minha vontade, o que torna tudo muito
fácil. Visto que poderão estranhar o que estou dizendo, por ser algo
inédito, explanarei apenas os pontos mais importantes.

Como sempre digo, há uma bola de luz em meu ventre: trata-se


da alma do Supremo Deus. Por conseguinte, Ele próprio maneja
livremente meus atos, minhas palavras, tudo. Ou seja: em mim não há
distinção entre Deus e o ser humano. Esta é a verdadeira união do ser
humano com Deus. Como o Deus que habita o meu ser é o mais
elevado, não existindo nenhum deus superior a este, não faz sentido
reverenciar outras divindades. A melhor prova são os milagres
manifestados diariamente pelos fiéis. Ora, se esses constantes milagres
são superiores aos de Jesus Cristo, então os meus discípulos não são
inferiores a ele. Através desse único fato, é possível imaginar o status
da minha divindade.

Acrescente-se que todos os homens santos existentes até agora


previram a concretização de um mundo paradisíaco, mas não disseram
que eles próprios seriam os construtores desse mundo. Isto porque seu
status divino não era tão elevado nem sua força, suficiente. Pelo que já
foi exposto, eu afirmo que construirei o Paraíso Terrestre, um mundo
160
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

sem doença, pobreza e conflito. Daqui para a frente, realizarei inúmeras


obras surpreendentes, nunca vistas até agora, e gostaria que as
observassem com muita atenção, pois serão inconcebíveis pela força
humana.

7 de maio de 1952

161
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

MINHA LUZ

Escrevi muitas coisas sobre o budismo que, até hoje, ninguém


havia explicado. Os leitores talvez se surpreendam, mas eu tomei
conhecimento delas através da Revelação Divina. Por que, então, Deus
não as havia esclarecido até hoje? Foi inteiramente devido ao fator
tempo. Quanto a este, refiro-me ao grande marco histórico, que chamo
de Transição da Noite para o Dia. Trata-se do desaparecimento do
prolongado Mundo da Noite, ou seja, o mundo de trevas e escuridão
para dar lugar ao Mundo do Dia, que se aproxima: um mundo de
esplendorosa luz do Sol. Embora fosse uma noite escura, por meio da
luz da Lua, era possível enxergar alguma coisa, e o ser humano se
contentava minimamente com isso. Esta era a verdade conhecida à luz
dos ensinamentos daquela época, que correspondem ao budismo.

A luz da Lua é fraca e não se podia enxergar as coisas


nitidamente porque sua intensidade é cerca de 1/60 da luz do Sol.
Portanto, durante o Mundo da Noite, é óbvio que nada, nem mesmo as
religiões, podia ser visto com total nitidez. Por essa razão, os seres
humanos viviam desorientados e não alcançavam a verdadeira paz
interior. Com a chegada do dia, sob a luz do Sol, tudo ficará límpido e
claro e não existirá mais nada sobre o qual não se saiba. Como minha
missão é criar a civilização do dia, é evidente que eu tenha
conhecimento de tudo.

Vou aprofundar a explicação sobre a relação entre minha pessoa


e o Mundo do Dia.

Meu corpo abriga a bola de luz conhecida desde a antiguidade


pela palavra Nyoi-hoju61. Já me referi a essa luz anteriormente, mas vou
explicar mais detalhadamente.

61
Nyoi-hoju: Em sânscrito, Cintamani. Designa a misteriosa joia em formato de esfera carregada por
Kanzeon Bossatsu e que tem o poder de atender todos os desejos do ser humano; o mesmo que
nyoi-no-tama.

162
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Ao falarmos em luz, os leitores poderão pensar no próprio Sol,


mas não é bem assim. Na verdade, trata-se da combinação do Sol e da
Lua. A essência desta luz é constituída por esses elementos opostos.
Como meu corpo físico é elemento terra, quando essa luz se assenta
nele, ocorre a atuação conjunta dos três elementos: fogo-água-terra.
Será que as pessoas comuns são formadas apenas pelo elemento
terra? De forma alguma. Elas também possuem luz, embora esta seja
pequena e fraca. A força de minha luz, no entanto, é
extraordinariamente forte: é milhões de vezes ou infinitamente mais
intensa que a de uma pessoa comum, ultrapassando os limites da
imaginação.

Em suma, diariamente, escrevo três tipos de caligrafias para o


Ohikari: Hikari, Komyo ou Daikomyo 62 . Colocado junto ao peito,
manifesta-se imediatamente a força capaz de curar as doenças. Isso se
deve à força da Luz irradiada da palavra escrita por mim no Ohikari.
Nunca precisei rezar ou fazer qualquer coisa especial para escrevê-la.
Simplesmente escrevo-a rapidamente, folha por folha. Levo em média
sete segundos em cada uma e escrevo facilmente cerca de quinhentas
por hora. Com apenas uma folha de papel, a doença de milhares de
pessoas poderá ser curada; doravante, mesmo que eu conceda
dezenas ou centenas de milhares de Ohikari, o efeito de cada um será o
mesmo. Creio que poderão compreender o quanto é poderosa a força
da minha Luz.

Possuindo tamanha força, não há nada que eu desconheça.


Como os fiéis sabem, nunca tenho dificuldade em responder a qualquer
pergunta que me é dirigida. Às vezes, recebo telegramas solicitando
graça e proteção para pessoas que estão distantes, sofrendo com
doença, e muitas as obtêm apenas com esse pedido. Isso ocorre porque,
no momento em que tomo conhecimento do problema, minha luz se
subdivide e liga-se a essas pessoas. Assim, através do elo espiritual,
elas recebem a graça. Dessa forma, é uma luz bastante versátil e
preciosa, pois pode aumentar milhões de vezes e alcançar qualquer

62
Hikari, Komyo, Daikomyo: Significam, respectivamente, luz, luz intensa e luz muito intensa.

163
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

local, por mais distante que ele seja. Para melhor compreensão, a Luz
irradiada de mim é como se fossem “balas de luz”. A diferença entre
elas e um projétil comum, por exemplo, é que, enquanto este é limitado
e mortífero, as “balas de luz” são ilimitadas e dão vida às pessoas.

A explicação acima corresponde a apenas uma parcela da minha


força. Não é fácil explicá-la totalmente. O ideal seria que os leitores
acompanhassem atentamente o trabalho que vou realizar daqui para
frente. Se possuírem uma inteligência aguçada, poderão entender até
certo limite. Do ponto de vista da fé, as pessoas interpretam de acordo
com seu nível espiritual; por isso, o melhor a fazer é polir a alma e
deixá-la sem nuvens espirituais. Assim, alcançarão a suprema
Iluminação e conhecerão a minha força.

25 de maio de 1952

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Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

QUEM É O SALVADOR?

Acho o presente título um tanto inusitado e creio que os leitores


pensarão da mesma forma. A propósito, pretendo traçar um perfil da
minha pessoa. Gostaria, porém, de deixar claro que farei uma descrição
objetiva do meu interior e que não há nada inventado. Portanto, espero
que leiam com esse espírito.

A palavra Salvador, ou seja, Messias, é muito usada no mundo


inteiro, sem distinção de tempo e de lugar, tanto no Ocidente como no
Oriente. Creio que não seria errado pensar que, com exceção de uma
parcela de pessoas religiosas, a maioria considera que o nascimento de
um salvador tão aguardado, detentor de poderes sobre-humanos, não
passa de um grande sonho ou de uma utopia. É certo que já
apareceram pessoas que se proclamavam salvadoras do mundo e, com
o passar do tempo, acabaram desaparecendo, donde se conclui,
evidentemente, que ainda não surgiu o verdadeiro salvador.

Não gosto de me proclamar salvador. Por outro lado, devo


confessar que também não posso afirmar que não o seja. Sendo algo de
tamanha importância, inédito em toda a história da humanidade, o
surgimento do salvador é um assunto que não pode ser tratado
levianamente. Pensando bem, não se pode definir que seja apenas um
sonho. Isso porque, a Segunda Vinda do Cristo, a Vinda do Messias e o
Nascimento de Miroku são eventos que foram profetizados por antigos
homens santos. Por tal motivo, não se pode deixar de acreditar que um
dia ele surgirá.

Agora, traçarei meu perfil. Antes, devo dizer que há muito tempo
venho pensando na condição número um que deve ser preenchida pelo
salvador. Antes de tudo, ele deve ter força para solucionar o problema
das doenças do ser humano. Por conseguinte, além de conceder-lhe o
método absoluto para obter plena saúde e completar o tempo de vida
que lhe foi atribuído pelo Céu, ele deve possuir força para a
concretização desse objetivo. Esta condição é o fator mais importante
para a qualificação como salvador.
165
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

É óbvio que a saúde do corpo deve acompanhar a do espírito. A


famosa frase de Jesus Cristo: “Pois que aproveita ao homem ganhar o
mundo inteiro e perder a sua vida?”63 evidencia isso. Assim, podemos
dizer que religiões e líderes religiosos que não possuem força para
erradicar as doenças da humanidade, têm valor apenas limitado. Eu
sempre abracei essa tese e, dessa forma, certo dia, mais de dez anos
após iniciar minha vida religiosa, obtive conhecimento do princípio
fundamental sobre as doenças e seu método de solução. Ah, ninguém
poderá imaginar o espanto e a alegria que senti naquela hora, pois
nunca ninguém, no mundo inteiro, fizera uma descoberta tão importante!
Se a compararmos com as grandes descobertas ou as grandes
invenções, nenhuma delas chegará a seus pés.

Eu sou uma pessoa que nasceu com um destino realmente


misterioso.

20 de outubro de 1948

63
Marcos 8:36 (Bíblia de Estudo Almeida).

166
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

HERÓI DA PAZ

Quando a maioria das pessoas ouve a palavra “herói”, surge


nelas um sentimento de veneração. No entanto, existem algumas que,
como eu, não sentem o mesmo, pois esse termo nos causa um pouco
de tristeza. Conforme podemos ver através da História, por trás das
magníficas realizações dos heróis, estão ocultos os crimes que eles
cometeram, fazendo do povo de sua época vítima de seus propósitos
egoístas e causando-lhe, consequentemente, danos terríveis. São
crimes que não podemos ignorar e tampouco apagar da nossa memória.
Por outro lado, podemos agradecer-lhes os temas que renderam à
literatura, ao teatro, ao cinema etc. e que tanto têm contribuído para o
nosso deleite.

Parece-me que as pessoas confundem heróis com grandes


personalidades. Os três grandes líderes religiosos da história – Jesus
Cristo, Buda Sakyamuni e Maomé –, por exemplo, foram, sem dúvida,
grandes personalidades, mas não heróis. Se pensarmos um pouco,
poderemos entender que a diferença está em suas realizações. Como
grandes líderes, seria desnecessário dizer que eles tentaram, a todo
custo, salvar a humanidade espiritualmente. Quando confrontamos seus
feitos com os da ciência, percebemos que o mérito do estabelecimento
da deslumbrante cultura atual pertence à ciência. Esse mérito, porém,
corresponde apenas ao aspecto visível da questão. Não podemos,
portanto, desconsiderar a atuação dos religiosos em outros aspectos. O
que ocorre é que, por não ser visível, essa atuação não despertou a
devida atenção. Pelo contrário: o que veio sendo interpretado
erroneamente é que ambas, ciência e religião, eram completamente
opostas. O que não se pode imaginar é o quanto esse pensamento
causou infelicidade à humanidade. Na realidade, a civilização alcançou
o desenvolvimento atual graças à interação entre ambas, assim como
matéria e espírito, frente e verso, yin e yang. Naturalmente, isso foi
devido ao Plano de Deus. Em termos de atuação humana, o progresso
da parte material pode ser considerado como contribuição dos heróis e
cientistas, e o avanço da parte espiritual, fruto da realização dos
grandes religiosos.
167
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

Embora a civilização tenha alcançado seu desenvolvimento


dessa forma, não podemos esperar que esse progresso vá muito além.
Significa que ela chegou a um beco sem saída. Como podemos
constatar, a infelicidade e a intranquilidade dos homens aumentam a
cada dia; se essa situação continuar, nem poderemos ter ideia de
quando se concretizará o mundo de paz e felicidade, que é o ideal de
todos os seres humanos. Nem é preciso afirmar que, por isso, faz-se
necessária a construção de uma civilização ainda mais elevada, por
intermédio de um grande avanço da civilização atual. Por enorme
felicidade, este momento chegou. Deus mostrou-me claramente os
fundamentos para essa construção e atribuiu-me uma grande força, de
modo que já comecei a executá-la. Talvez as pessoas se espantem com
minhas palavras e cheguem a pensar que se trata de autoelogio, mas
não tenho outra alternativa, porque o que estou dizendo é a pura
verdade. Observando as transformações que se processarão no mundo
daqui para frente e os trabalhos que desenvolvo em consonância com
essas mudanças, poderão entender que não há falsidades em minhas
palavras.

Retornando ao que dizia, falarei mais um pouco sobre ciência e


religião.

Até hoje, os fundamentos das religiões eram de caráter shojo64, e


os ensinamentos dos seus fundadores também não eram tão profundos.
Poderão certificar-se disso pela grande quantidade de dúvidas e pelo
fato de a verdadeira paz interior não ter sido alcançada. Isso foi
inevitável devido ao tempo. O Deus Supremo revelou-me até os
fundamentos absolutos e infinitos, mas como não me é permitido expô-
los agora, escreverei apenas até determinado ponto.

Conforme podemos ver, as religiões tradicionais geralmente se


utilizam de dois meios de salvação: os ensinamentos sagrados, através
das escrituras, e os sermões, através das palavras. Além disso, por
meio principalmente do desbravamento de terras, elas nos deixaram

64
Vide Ensinamento “Religião que revela Deus”.

168
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

como legado as construções, a arte sacra, entre outras coisas. Assim,


quando faço uma análise mais profunda, vejo que daqui para frente, elas
não terão força suficiente para liderar o mundo.

Agora, torna-se necessário que eu fale a meu respeito. Como


todos sabem, escolhi três locais no Japão como Solos Sagrados –
Hakone, Atami e Kyoto –, lugares extremamente aprazíveis, onde,
apesar de ser em pequena escala, estou construindo protótipos do
Paraíso Terrestre. Meu objetivo é criar um ambiente paradisíaco em que
as melhores características do Japão e do exterior estejam
harmonizadas: grandes jardins, que reúnem a beleza das montanhas e
das águas; grandes museus de belas-artes; obras arquitetônicas
inéditas entre as religiões e assim por diante.

Dedico-me, ainda, a esclarecer, de forma revolucionária aspectos


da medicina e da agricultura. Além disso, através de inúmeros e
surpreendentes milagres, empenho-me para fazer com que todos os
seres humanos se conscientizem da existência de Deus. É assim que
estou expandindo a nossa religião por métodos ainda não utilizados por
ninguém. Eles constituem atividades que não existiam em nenhuma
religião e são os importantíssimos alicerces do plano de construção do
mundo de perfeita Verdade, Bem e Belo.

Gostaria de acrescentar que todos esses projetos de construção


que serão realizados de agora em diante pela nossa religião, já estão
elaborados na minha mente, só restando esperar pelo momento
oportuno de execução. Com o passar do tempo, tudo irá se
concretizando. Trata-se de um plano por demais grandioso e
inimaginável. Pode-se dizer que é a criação da civilização de um novo
mundo.

Por tudo isso, não somos propriamente uma religião e não


estamos conseguindo sequer dar-lhe um nome adequado. Além do mais,
tudo veio se concretizando conforme a Revelação Divina, e a exatidão
com que isso se processa chega a me assustar. Como mostra a nossa
história, nossa religião foi instituída oficialmente em agosto de 1947 e,
169
Coletânea Alicerce do Paraíso – Volume 1

em apenas seis anos, alcançamos a magnífica expansão que vemos


atualmente. Se observarmos que ela obteve tamanho progresso
enfrentando a pressão das autoridades governamentais, a
incompreensão dos jornalistas e os mais variados obstáculos durante
esse período, teremos de admitir que isso tudo não é obra humana.
Naturalmente, daqui por diante, continuaremos caminhando de acordo
com a programação definida por Deus e, dessa forma, um dia se
descortinará o Divino Drama, que tem o mundo como palco. Só de
pensar nisso, imagino que o interesse será grande. Além disso, milagres
surpreendentes se sucederão, e cenas de transbordante alegria se
desenrolarão no palco. Portanto, desejo que os aguardem ansiosamente.

Em suma, eu me considero o Herói da Paz.

11 de março de 1953

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