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As formas culturais não podem ser

História Social da
dissociadas da situação social que as
modelou. Definir, assim, o sentido de
desenvolvimento de uma literatura

Literatura Fortiguesa
significa relacionar criticamente suas
formas com o modo de pensar a
realidade de cada período histórico. Este é o objetivo
deste manual destinado àqueles que se iniciam no
estudo da Literatura Portuguesa no Brasil.
A História Social da Literatura Portuguesa possui
uma função didática. Apresenta, de forma concisa, as;
linhas básicas da situação político-social para
caracterizar os traços estético-ideológicos dos
movimentos literários dela decorrentes. Seguem um
estudo objetivo dos principais escritores dessa
literatura, esquemas para facilitar a visualização dos
períodos, sugestões para leituras complementares e
bibliografia. Em apêndice, foi incluído um capítulo
sobre as modernas literaturas africanas de língua
portuguesa, que se inserem estreitamente no contexto 1
sócio-cultural luso-brasileiro.
Para permitir ao leitor maior aproximação da
atmosfera de cada época, foi preparado um cuidadoso
levantamento iconográfico.
Síntese Decadentismo-simbolismo ô ytfodernismo
Três momentos do decadentismo-simbolismo
OOrfismo (1915-1927);
a) A introdução: revistas Boémia Nova e Os Insubmissos
• O esteticismo de Eugênio de Castro (Oaristos) 0 Presencismo (1927-1940)
b) A busca da realidade: neogarrettismo (tradicional); saudosismo (pro-
gressista) ' P e r t e n ç o a uma geração que herdou a descrença na fé cristã (no fato cristão) e que
criou em si uma descrença em todas as outras f é s "
• Antonio Nobre (Só) ' Xj-^ (Fernando P E S S O A - Nota Solta)
• Teixeira dos Pascoais: aproxima Simbolismo do Modernismo
O primeiro Modernismo português (o Orfismo) está associado à pro-
c) A maturidade artística funda instabilidade político-social da primeira República. Constitui uma
• Camilo Pessanha (poesia) resposta artística de setores sociais mais inovadores e cosmopolitas das clas-
ses médias citadinas. O progressismo dessas forças sociais que serviram de
• Raul Brandão (prosa)
base política para a República, entretanto, foi bastante ambíguo.
A jovem República (1910-1926) teve o Partido Republicano (o "Par-
Características tido Democrático", como ficou conhecido) como seu principal núcleo polí-
tico. Foi um partido com várias tendências, mas com predominância de cen-
tro-esquerda. Na oposição, tivemos blocos de curta duração de partidos con-
Registro da decadência da realidade servadores.
• Decadência
Produções bastante elaboradas As contínuas dissidências internas do Partido Democrático impossibi-
litaram-no de desenvolver um programa de governo até o fim. Os governos
„ . Material/transcendental parlamentares sofriam grande oposição, tanto da esquerda quanto da direita.
• Correspondência „ .. , A consequência dessa instabilidade foi a afirmação gradativa de tendências
< Seres vivos/manirnados
(daí o símbolo) autoritárias antiparlamentares.
[ Homem/realidade exterior
As tensões sociais mais típicas desse período ocorreram entre a grande
burguesia (associada ao capitalismo estrangeiro, ao clero e à Monarquia) e
Contra estandartização as classes médias citadinas, de Lisboa e do Porto. O clero continuava a ter
• Impressionismo Registro de impressões fugazes grande peso ideológico na vida do país, apesar das grandes restrições que lhe
foram impostas pelos governos republicanos.
A República teve por base social, de acordo com Oliveira Marques
Afastamento do sensualismo impressionista (História de Portugal), o grupo das classes médias, formado pelos
• Simbolism
• { Irracionalismo e espiritualismo
"pequenos burgueses ocupados no c o m é r c i o e na indústria, o
m é d i o e o pequeno funcionalismo p ú b l i c o , as médias e baixas pa-

I lrracionalismo
Intuicionismo
Monismo

Neo-romantismo
tentes do e x é r c i t o e da marinha, a maioria dos estudantes univer-
sitários e alguns pequenos e m é d i o s p r o p r i e t á r i o s rurais. Desejoso
de ocupar um 'lugar ao sol' na governação e na direção e c o n ó m i c a ,
genuinamente preocupado com o futuro das colónias e o atraso do
país, i m b u í d o de ideologias francesas, era anticlerical e a n t i m o n á r -
— Coexistência quico, assim como geralmente se mostrava anti-socialista e nacio-
Construção artesanal do poema
nalista ferrenho".

IX' 133
A política colonialista na África, conforme já assinalamos, levou o
país à participação na Primeira Grande Guerra e a sérias dificuldades eco-
Modernismo em Portugal
nómicas. As reformas institucionais, por outro lado, não atingiram a esfera
do capital: a grande burguesia financeira, politicamente conservadora, con-
tinuava a ser a força económica dominante do país. As correntes literárias modernistas organizaram-se, no país, em torno
da revista Orpheu (1915). Foi um movimento tipicamente lisboeta. Sua
Os governos republicanos, em face desses problemas e de sua instabi-
irreverência tinha como objetivo "escandalizar o burguês": colocavam-se
lidade política, foram perdendo apoio popular. Com agravantes: as greves
contra o provincianismo e a literatura estereotipada da tradição neo-simbo-
contínuas e os atentados a bomba dos anarco-sindicalistas conduziram o
lista e neo-romântica.
país a um processo de radicalização política. Em 1926, um golpe de Estado
A revolução cultural que pretendiam não teve os resultados espera-
derrubou a república parlamentar.
dos: passaram quase desconhecidos do grande público. Suas revistas tiveram
A República teve um caráter progressista. Levou amplos setores sociais
duração muito curta: Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), Por-
à participação na vida política. Desenvolveu o ensino livre, em todos os ní-
tugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1923), Athena (1924-1925).
veis, levando a cultura às massas populares. Há grandps transformações, mas
A maior parte da obra de Fernando Pessoa, um dos mais significativos poe-
dentro de certos limites. Tais limites eram considerados estreitos pelas
tas em língua portuguesa de todos os tempos, só foi publicada dez anos após
classes populares citadinas e excessivos pela alta burguesia reacionária.
sua morte.
À esquerda, estavam as dissidências parlamentares do Partido Demo-
Os modernistas portugueses não possuíam um programa estético-lite-
crático, os anarco-sindicalistas, o Partido Comunista Português (1921) e
rário: pretendiam mais derrubar as formas artísticas convencionais pelo
um grupo intelectual que procurava ficar à margem dos partidos políticos
escândalo. Também sob esse aspecto não conseguiram ser radicais por im-
— o grupo da revista Seara Nova, dentro de uma perspectiva do socialismo
possibilidade ideológica. Continuavam ainda impregnados de uma religio-
democrático. À direita, figuravam as tendências nacionalistas e liberais do
sidade esotérica proveniente do misticismo do decadentismo-simbolismo.
republicanismo e, à extrema-direita, as organizações católicas e integralistas.
A revista Orpheu teve dois números. O primeiro foi um projeto luso-
Esses dois últimos setores deverão aliar-se à União dos Interesses Económi-
-brasileiro com a direção de Luís de Montalvor e do brasileiro Ronald de
cos, organização capitalista que não aceitava reformas radicais ou socia-
Carvalho, que contribuiu para a aproximação do Modernismo nos dois paí-
listas.
ses. A ruptura será maior no segundo número, sob a direção de Fernando
O movimento militar de 1926 não foi originariamente fascista, mas
Pessoa e Sá-Carneiro, quando ocorrerá um distanciamento do decadentismo
autoritário. Foi uma reação pequeno-burguesa contra a "corrupção" polí-
finessecular.
tica do país:-o resultado dessa intervenção foi o agravamento da situação
económica e a desarticulação das forças político-partidárias. A maior preo- O cosmopolitismo do Modernismo português opôs-se ao nacionalismo
cupação dos militares era para com a ordem pública e o controle da econo- estreito de caráter neo-simbolista que procurava realçar o pitoresco regional.
mia, coincidindo justamente com os interesses do alto capitalismo finan- Ficaram, não obstante, a meio caminho: se conseguiram desprender-se do
ceiro. neo-simbolismo regionalista, muitos enveredaram por um neo-simbolismo
Para desenvolver essa política que requeria medidas autoritárias, recru- esotérico e elitista, como podemos notar nesta passagem do crítico portu-
tou-se o professor de Finanças da Universidade de Coimbra, Antonio de Oli- guês Jacinto do Prado Coelho (Dicionário de literatura):
veira Salazar, que assumirá gradativamente maior poder dentro do regime
ditatorial. Em 1932, já controla todos os mecanismos de governo. Isola "No Orpheu ( . . . ) vemos lado a lado e p í g o n o s do Simbo-
militares que poderiam obstar os seus passos e coloca o setor sob domínio lismo e do Decadentismo, que burilam dolentes, visões de estranha
de políticos civis ligados ao capital financeiro. Faz aprovar então uma nova beleza nas suas torres de cristal (Montalvor, Ronald de Carvalho e
Constituição, através de plebiscito. Inicia-se o Estado Novo (1933-1974), Eduardo G u i m a r ã e s denunciam a filiação a M a l l a r m é , cuja lição
seria apreendida mais livremente em F. Pessoa) e fogosos introdu-
que vai alinhar o país numa perspectiva ideológica semelhante à da Itália e
tores de novas escolas. Confluem o passado e o futuro. Exílio é
Alemanha.
t í t u l o decadente. No Centauro, Montalvor proclama: 'Somos os
A instauração da ditadura coincide com o declínio acentuado do Mo- descendentes do Século da decadência ( . . . ) S ó a beleza nos inte-
dernismo. Essa corrente literária, marcadamente citadina, desenvolveu-se ressa' " .
sob o influxo das classes médias. Estas, entretanto, estavam em segundo
plano, e a ideologia marcadamente conservadora faz regressar o país a uma
situação social anterior à República. O povo, analfabeto em sua maioria, É no período da ditadura militar que vai aparecer a revista Presença
continuava ainda subordinado ao clero conservador. (1927) e com ela acentua-se o desligamento do escritor da realidade concre-

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ta do país. Com o presencismo, há a psicologização do Modernismo em um
sentido conservador.
8.3 Vanguardismo
Em oposição ao evasionismo, foi marcante a participação dos intelec-
tuais republicanos da revista Seara Nova, entre os quais destacam-se Antô-
nio Sérgio (1893-1969), Jaime Cortesão (1884-1960) e Raul Proença (1884- Os movimentos de vanguarda da Europa seguem as ebulições políticas
-1941). Na prosa de ficção, também em uma perspectiva sociológica, estão de sua época: são explosivos e descontínuos. Por outro lado, beneficiam-se
as produções de Aquilino Ribeiro (1885-1963). da incorporação de uma técnica altamente desenvolvida. Se até então o artis-
A vida de Aquilino Ribeiro foi pautada por conspirações, prisões e ta tinha seu referencial na realidade, imitando-a em suas produções, agora
exílio. Escritor participante, procurou trabalhar artisticamente a fala popu- ele canta o mundo citadino, artificial, como podemos verificar na "Ode
lar. Procurava caracterizar o sentido mais rudimentar dos fatos naturais para Triunfal" de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa:
opô-los às opressões sociais. Trabalha esteticamente estruturas linguísticas
arcaicas. Sua obra é muito vasta, com destaque para Jardim das tormentas " À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétrlcas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
(1913), Via sinuosa (1918), Terras do demo (1920), Estrada de Santiago
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto.
(1922), O homem que matou o diabo (1930), O arcanjo negro (1947),
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos".
Quando os lobos uivam (1958).

A "Ode Triunfal" é um poema futurista. E o Futurismo é a primeira


das tendências modernistas. Propõe-se a cortar com o passado e a exprimir
Características do Modernismo artisticamente o dinamismo da vida moderna. Filippo Tommaso Marinetti
(1876-1944), iniciador do Futurismo, em seu manifesto de 1909, afirma o
O início do século X X corresponde a um período de grande instabili- seguinte:
dade na Europa. É uma época de grande insatisfação, uma ruptura com o
desenvolvimentismo do século XIX. É o período de crise da sociedade libe- "1. N ó s queremos cantar o amor ao perigo, o h á b i t o à energia e à
ral-burguesa oitocentista, que vai desaguar na Primeira Grande Guerra e na temeridade.
crise de superprodução de 1929.
2. Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem, a
Nesse período, são questionados os princípios positivistas do século
audácia e a revolta.
XIX e registram-se profundas transformações em todos os campos do conhe-
cimento. Seja ao nível teórico (Teoria da Relatividade, de Einstein; Teoria 3. Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa,
dos Quanta, de Planck; Teoria Psicanalítica, de Freud; Linguística Estrutu- o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a
ral, de Saussure etc), seja ao nível técnico (eletricidade, telefone, aviação, insónia febril, o passo de corrida, o salto mortal, a bofetada e o
automóvel etc). soco".
A crise do "progressismo" evolucionista, de caráter burguês, estimu-
lou o surgimento de ideologias irracionalistas, ao final do século X I X e iní-
cio do século XX: Esses princípios agressivos do Futurismo vão aproximar o seu autor
do fascismo italiano: os princípios ideológicos são similares. Sobretudo
— o pensamento filosófico de Friedrich Nietzche (1844-1900), que quando verificamos mais adiante, nesse mesmo manifesto, que ele considera
defende o surgimento de uma nova aristocracia do pensamento, a guerra como a higiene do mundo. Apesar dessa fundamentação ideológica
de caráter anticristão, e que aceitaria com coragem o cumprimen- negativa, o Futurismo impulsionou a literatura do início do século e deu ori-
to de um "destino" irracional; gem a outras tendências. Poetas como Vladimir Vladimirovitch Maiakóvski
— o intuicionismo de Henri Bergson (1859-1941), que se coloca con- (1893-1930) ou prosadores como James Joyce (1882-1941) sofreram in-
tra o racionalismo: o conhecimento viria do absoluto de forma na- fluência futurista.
tural e espontânea, e não pela ciência, inteligência, técnica ou vida Entre os movimentos influenciados pelo Futurismo, estão o Cubismo
social; e o Cubofuturismo. Uma linha de maior ruptura em relação a ele é dada
— o anti-humanismo de Martin Heidegger (1889-1976), que coloca a pelo Surrealismo, que se autodefine como uma praxis revolucionária no sen-
existência individual como determinação do próprio indivíduo e tido de transformar o mundo. O movimento surrealista, como as demais
não como determinação social. correntes estéticas de vanguarda seguem, como o Futurismo, a tendência de

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o artista afastar-se da reprodução "naturalista" da realidade, iniciada com o Há no poema uma dialética fíngimento-sinceridade. Para entendê-la,
decadentismo-simbolismo. precisamos lê-lo de acordo com uma dupla perspectiva: 1) há a dor do poe-
ta-escritor, que pode sentir a dor enunciada; 2) há a dor "fingida" por sua
"máscara", a dor do sujeito-poético, que é construído pela escrita. É tam-
Fernando Pessoa bém do Futurismo o conceito de que o poema é objeto estético construído,
um artefato (retoma assim conceitos do século XIX): observe a última qua-
A produção literária de Fernando Antônio Nogueira Pessoa (1888- dra do poema, quando temos o coração (sentimento) transformado em um
1935) é uma das mais importantes das literaturas de língua portuguesa. brinquedo de criança (trenzinho de corda) nas mãos da razão. Fernando Pes-
Produzindo desde os treze anos, deixou obra vasta e de notável qualidade soa vai reiterar constantemente que o poema é construído pela razão: "O
artística. Sociologicamente, sua poética é representativa da profunda insta- que em mim sente, 'stá pensando".
bilidade polífíco-socíal de seu tempo, não apenas no plano português como
europeu. E traz-nos uma atitude ideológica pequeno-burguesa de grupos de
intelectuais que se recusavam a assumir posição definida diante de situações 8.4.1 Tendências de vanguarda em Fernando Pessoa
sociais concretas. Por isso, se apresentou alto índice de criatividade, faltou-
-lhe um sentido de síntese e sobretudo uma problematização sociológica da A primeira tendência de vanguarda de Fernando Pessoa foi o paulis-
historicidade de suas produções. mo. A designação vem de "pauis", palavra inicial do poema "Impressões do
Fernando Pessoa incorporou artisticamente as formas líricas da tradi- "Crepúsculo", publicado na revistai Renascença (1914):
ção poética portuguesa, para ultrapassá-las de forma criativa. Sua obra evo-
luiu do saudosismo (entrou nesse movimento para superá-lo), para o paulis- "Pauis de r o ç a r e m ânsias pela minh'alma em ouro . . .
mo, o futurismo, o interseccionismo e o sensacionismo. Dobre l o n g í n q u o de Outros Sinos. . . Empalidece o louro
É uma poética experimental, onde o poeta desdobra-se em várias Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh'alma. . .
"máscaras". Uma delas, Fernando Pessoa "Ele Mesmo", constrói a chama- T ã o sempre a mesma, a Hora! . . . "

da obra ortônima (assinada pelo próprio Fernando Pessoa). As outras "más-


caras" constituem a obra heteronímica. Os principais heterônimos são
O poema traz maior problematização e densidade ao Simbolismo e um
Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos; outros heterônimos me-
encaminhamento para o Modernismo. Para Pessoa, a esta altura, ao contrário
nos desenvolvidos: Bernardo Soares, Alexandre Search, Antonio Mora,
de Marinetti, a "arte moderna é a arte do sonho":
C. Pacheco e Vicente Guedes.
Cada uma das "máscaras" constitui uma atitude-experiência assumida " O poeta de sonho é geralmente um visual, um visual estéti-
por Fernando Pessoa, uma perspectiva ideológica que considerava tão ques- co. O sonho é da vista geralmente. Pouco sabe auditivamente, tac-
tionável como outra qualquer. E, como afirmamos, o próprio texto que tilmente. E o 'quadro', a 'paisagem' é de sonho, na sua essência,
assinava com seu nome seria uma perspectiva "fingida", como podemos porque é estática, negadora do continuamente d i n â m i c o que é o
observar no poema "Autopsicografia": mundo exterior. (Quanto mais rápida e turva é a vida moderna,
mais lento, quieto e claro é o sonho.)"

" O poeta é um fingidor.


Finge t ã o completamente
O futurismo de Fernando Pessoa é menos radical que o de Marinetti.
Que chega a fingir que é dor
Essa tendência aparece em Álvaro de Campos, mas com uma dimensão meta-
A dor que deveras sente.
física e esotérica que não existia no escritor italiano. Afirma Fernando Pes-
E os que l ê e m o que escreve, soa, em "Carta a Marinetti":
Na dor lida sentem bem.
N ã o as duas que ele teve. "Como vocês, condeno o simples racionalismo; contudo,
Mas só a que eles n ã o t ê m . minha o p i n i ã o é que devemos caminhar para a l é m dele. Ora, para
caminhar a l é m dele, e assim atingir o Infinito, devemos primeiro
E assim nas calhas de roda atravessá-lo. A simples i n t u i ç ã o , ou antes a simples impressão ime-
Gira, a entreter a razão, diata das coisas n ã o é bastante. Devemos conhecer, compreender,
Esse comboio de corda sentir de forma absolutamente pura a razão í n t i m a (interna) das
Que se chama o c o r a ç ã o " . coisas e como são engendradas 'produzidas)".

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Fernando Pessoa defende uma perspectiva intelectualista em relação
Em contraposição, aceita-o:
ao fenómeno estético. O poeta deve refletir sobre a criação poética, e ele
— na concepção acelerada e multifacética da vida;
vai fazê-lo mesmo em seus poemas mais futuristas, como na "Ode Marí-
— na renovação da arte com as descobertas dos tempos modernos;
tima":
— no anticlericalismo e anti-socialismo;
— na tendência de salientar tipograficamente os estados de exaltação
E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
poética e de utilizar interjeições (Álvaro de Campos), como "heio",
Componde fora de mim a minha vida interior!
"hê-hô", "hooooo" etc.
(. . .)
Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência, Pode-se dizer que pouco mais da metade das obras de Álvaro de Cam-
Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética, pos é produzida dentro do sensacionismo, como a "Ode Triunfal", onde se
Fornecei-me m e t á f o r a s , imagens, literatura, glorifica a civilização moderna e a era da máquina. Este poema bem podia
Porque em real verdade, a sério, literalmente. ser o desdobramento das proposições de Marinetti, marcando a atmosfera
Minhas sensações são um barco de quilha p r ó ar. revolucionária das cidades industriais:
Minha imaginação uma âncora meio submersa,
Minha ânsia um remo partido,
"Tenho os lábios secos, ó grandes r u í d o s modernos.
E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia!"
De vos ouvir demasiadamente,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações.
0 sensacionismo de Fernando Pessoa não reproduz apenas a estética
Com um excesso c o n t e m p o r â n e o de vós, ó m á q u i n a s ! "
das sensações que encontramos no decadentismo-simbolismo; ao contrário,
multiplica estruturalmente essas sensações fixando-as no poema com maior
ambiguidade. Para ele, o sensacionismo é a "base de toda arte": O interseccionismo pretendia ser de acordo com Georg Rudolf Lind
(Teoria poética de Fernando Pessoa), a intersecção de duas sensações de
"1. A base de toda a arte é a sensação. forma geométrica e com bastante nitidez. Segue, assim, a técnica cubista.
2. Para passar de mera e m o ç ã o sem sentido à e m o ç ã o artística, ou Seria a nova corrente artística originária do fato de o sensacionismo tomar
susceptível de se tornar artística, essa sensação tem de ser intelec- a "consciência de cada sensação ser, na realidade, constituída por diversas
tualizada. Uma sensação intelectualizada segue dois processos su- sensações mescladas" (Fernando Pessoa — Páginas intimas e de auto-inter-
cessivos: é primeiro a coincidência dessa sensação, e esse fato de ha- pretação).
ver consciência de uma sensação transforma-a já numa sensação de O poema "Chuva Oblíqua" é construído dentro da perspectiva inter-
ordem diferente; é, depois, uma consciência dessa consciência, isto seccionista. Há o cruzamento de dois planos: a paisagem vivida pelo poeta
é, depois de uma sensação ser concebida como tal — o que dá a e o porto que ele imagina:
e m o ç ã o artística — essa sensação passa a ser concebida como inte-
lectualizada, o que dá o poder de ela ser expressa. Temos, pois:
"Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
(1) A sensação, puramente tal.
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
(2) A consciência dessa sensação, que dá a essa sensação um valor, Os vultos ao sol daquelas árvores antigas . . .
e, portanto, um cunho estético.
O porto que sonho é sombrio e pálido
(3) A consciência dessa consciência da sensação, de onde resulta E esta paisagem é cheia de sol deste lado . . .
uma intelectualização de uma intelectualização, isto é, o po- Mas no meu e s p í r i t o o sol deste dia é porto sombrio
der de e x p r e s s ã o " . E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol . . .

0 sensacionismo distingue-se do futurismo, segundo Georg Rudolf Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo . . .
Lind (Teoria poética de Fernando Pessoa), no seguinte: O vulto do cais é a estrada n í t i d a e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
- por aspirar a uma renovação puramente artística e por prescindir de
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
qualquer ação política;
Com uma horizontalidade vertical.
- por rejeitar o postulado futurista de destruição do passado. E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro . . .

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N ã o sei quem me sonho . . .
Esse pretenso objetivismo radical é questionado por Óscar Lopes e
S ú b i t o toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse des-
Antônio José Saraiva (História da literatura portuguesa). Seja o exemplo:
dobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele "Vi que n ã o há Natureza.
porto, Que Natureza n ã o existe.
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa Que há montes, vales, planícies.
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem Que há árvores, flores, ervas.
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro, Que há rios e pedras.
E passa para o outro lado da minha alma . . . " Mas que n ã o há um todo a que isso pertença.
Que um conjunto real e verdadeiro
A interpenetração de planos é dialética: há a exteriorização da paisa- É uma d o e n ç a do pensamento".

gem interior e vice-versa. Com os procedimentos, Fernando Pessoa procura


representar os objetos de forma fragmentária. Os fragmentos entram em re-
lação com o todo e constituem sensações concretas que se encaminham para Nesse segmento, como em outras partes, segundo os autores, ao "ne-
as abstratas. gar progressivamente todo o substrato de percepção sensível, todo e qual-
De um modo genérico, a poesia sensacionista aparece nos vários hete- quer além para os dados sensoriais imediatos e individualizados, Caeiro aca-
rônimos de Fernando Pessoa; a interseccionista, em Alvaro de Campos e na ba também por reduzir toda a racionalidade do aquém visível a uma tauto-
poesia ortônima; o paulismo, em parte dessa poesia de Fernando Pessoa logia conformista ('tudo é como é, e assim é que é) ou a um simples ver que
nem assevera qualquer presença ou realidade".
"Ele Mesmo".
Ricardo Reis também parte das "sensações" como seu "mestre"
Alberto Caeiro, mas coloca o pensamento como fator inerente à criação
artística:
8.4.2 Os heterônimos

A atitude experimental, própria dos movimentos de vanguarda de nos- "Ponho na altiva mente o fixo esforço
so século, levou Fernando Pessoa à criação de seu sistema heteronímico. Da altura, e à sorte deixo,
Há toda uma dramatização entre essas "máscaras" assumidas pelo autor: E as suas leis, o verso;
os principais heterônimos dialogam entre si, correspondem-se e indicam as Que, quanto é alto e régio o pensamento,
contradições do outro. ——«•—•>->. S ú b i t a a frase o busca
Alberto Caeiro é o heterônimo quefpretende ser objetivo. Ele tinha E o 'scravo ritmo o serve".
como objetivo o registro das sensações, sem a mediação do pensamerjífx.
"Sou um guardador de rebanhos. 0 poeta considera-se neoclássico, pautando-se pela ideia de disciplina,
O rebanho é os meus pensamentos mas uma disciplina natural, espontânea, a serviço do pensamento. De acordo
E os meus pensamentos são todos sensações. com Ricardo Reis, ao parafrasear o poema acima,

Penso com os olhos e com os ouvidos


E com as mãos e os pés "Na palavra, a inteligência dá a frase, a e m o ç ã o , o ritmo.
E com o nariz e a boca. Quando o pensamento do poeta é alto, isto é, formado de uma
ideia que produz uma e m o ç ã o , esse pensamento, já de si h a r m ó n i -
co pela j u n ç ã o equilibrada de ideia e e m o ç ã o , e pela nobreza de
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
ambas, transmite esse e q u i l í b r i o de e m o ç ã o e de sentimento à fra-
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
se e ao ritmo, e assim, como disse, a frase, súdita do pensamento
que a define, busca-o, e o ritmo, escravo da e m o ç ã o que esse pen-
Por isso quando num dia de calor
samento agregou a si, o serve" {Páginas íntimas e de auto-inter-
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
pretação).
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes.
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz". A ânsia de harmonia e equilíbrio na arte poética leva-o a elaborar poe-

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Sou um t é c n i c o , mas tenho técnica só dentro da técnica.
mas onde ocorra o rigor em sua construção - um poema formalmente tão Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
gracioso e pleno quanto o pensamento que o motiva:
N ã o me macem, por amor de Deus!
"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui. Queriam-me casado, f ú t i l , quotidiano e t r i b u t á v e l ?
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és Queriam-me o c o n t r á r i o disto, o c o n t r á r i o de qualquer coisa?
No m í n i m o que fazes. Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim em cada lago a lua toda Assim, como sou, tenham paciência!
Brilha, porque alta vive". V ã o para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
0 heterônimo mais subjetivista é Álvaro de Campos, o segundo "dis-
N ã o me peguem no b r a ç o !
cípulo" de Alberto Caeiro. Campos foi inicialmente decadente-simbolista,
N ã o gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
como podemos observar no poema "Opiário": Já disse que sou sozinho!
Ah, que m a ç a d a quererem que eu seja da companhia!
" É antes do ó p i o que a minha alma é doente. 0 céu azul — o mesmo da minha infância —
Sentir a vida convalesce e estiola Eterna verdade vazia e perfeita!
E eu vou buscar ao ó p i o que consola 0 macio Tejo ancestral e mudo
Um Oriente ao oriente do Oriente". Pequena verdade onde o céu se ref lete!
0 mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
O sensacionismo de Álvaro de Campos é o mais autêntico dos heterô-
nimos. É subjetivista e ingressa no Modernismo sob influência de seu "mes- Deixem-me em paz! N ã o tardo, que eu nunca tardo. . .
tre" Caeiro. E leva o individualismo de Fernando Pessoa ao extremo, pers- E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!"
pectiva que deverá ser mais tarde exaltada pelo grupo da Presença:
A poesia de Álvaro de Campos é de força e não dc contemplação.
Muitos de seus versos seguem a perspectiva poética do poeta reformista
"Lisbon Revisited norte-americano Walt Whitman (1819-1892). Essa ideia de força tem limites
(1923) bem marcados, como indica Fernando Pessoa:

N ã o : N ã o quero nada. "Alvaro de Campos define-se excelentemente como sendo um


Já disse que não quero nada.
Walt Whitman com um poeta grego lá dentro. H á nele toda a pu-
jança da sensação intelectual, emocional e física que caracterizava
N ã o me venham com conclusões!
Whitman; mas nele verificou-se o t r a ç o precisamente oposto"
A única conclusão é morrer. {Páginas íntimas e de auto-interpretação).

N ã o me tragam estéticas!
N ã o me falem em moral! No poema "Saudação a Wdlt Whitman", Álvaro de Campos, após assi-
nalar que não possui o "engageant" do poeta norte-americano, procura uma
Tirem-me daqui a m e t a f í s i c a !
N ã o me apregoem sistemas completos, n ã o me enfileirem conquis-
projeção empática:
tas
Das ciências (das ciências. Deus meu, das ciências!) — "Meu velho Walt, meu grande Camarada, e v o h é !
Das ciências, das artes, da civilização moderna! P e r t e n ç o à tua orgia báquica de sensações-em-liberdade,
Sou dos teus, desde a sensação dos meus pés a t é à náusea em meus
sonhos.
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Sou dos teus, olha para mim, de a í desde Deus vês-me ao c o n t r á r i o :
Se t ê m a verdade, guardem-a!
145
144
De dentro para fora . . . Meu corpo é o que adivinhas, vês a minha
alma —
Essa vês tu propriamente e através dos olhos dela o meu corpo — Sn Carneiro
Olha para mim: tu sabes que eu, Alvaro de Campos, engenheiro,
Poeta sensacionista.
Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), originário da alta burguesia, foi um
N ã o sou teu d i s c í p u l o , não sou teu amigo, não sou teu cantor,
indivíduo e uma personalidade literária dilacerada. Sua ideologia elitista
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!"
ansiava por absolutos que se chocavam com o estreito pragmatismo da so-
ciedade de seu tempo. À sua própria vida deveria ser uma obra de arte: sui-
cidou-se em Paris, aos 26 anos, convidando um seu amigo para presenciar a
Os poemas ortônimos de Fernando Pessoa estão mais próximos da tra-
sua agonia.
dição literária portuguesa do que os de seus heterônimos. Há, além disso,
semelhanças entre a sua poética e a de Álvaro de Campos, em sua última Sá-Carneiro é herdeiro, em Portugal, do decadentismo-simbolismo fí-
fase. ncssecular. Os seus absolutos estético-ideológicos não se conformavam com
os limites das próprias sensações que registrava em seus poemas:
A poesia ortônima evoluiu de uma fase paúlica e interseccionista para
os poemas mais típicos dessa "máscara" de Fernando Pessoa: os do "Cancio-
"Quase o amor, quase o triunfo e a chama.
neiro". Nessa coletânea, Fernando Pessoa identifíca-se com a produção lírica Quase o p r i n c í p i o e o fim — quase a e x p a n s ã o . . .
portuguesa, desde a Idade Média: Mas a minh'alma tudo se derrama . . .
Entanto nada foi só ilusão!
" B ó i a m leves, desatentos,
Meus pensamentos de m á g o a ,
De tudo houve um c o m e ç o . . . e tudo errou . . .
Como, no sono dos ventos.
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim . . .
As algas, cabelos lentos
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim.
Do corpo morto das águas.
Asa que se e l a n ç o u mas n ã o voou . . . "

B ó i a m como folhas mortas


A tona de águas paradas. Para resgatar-se, Sá-Carneiro vai "esbofetear" a burguesia nos poemas
São coisas vestindo nadas. mais modernistas:
Pós remoinhando nas portas Levanto-me . . .
Das casas abandonadas. — Derrota!
Ao fundo, em maior excesso, há espelhos que refletem
Tudo quanto oscila pelo Ar:
Sono de ser, sem r e m é d i o , Mais belo através deles,
V e s t í g i o do que não foi. A mais sutil destaque . . .
Leve m á g o a , breve t é d i o , — 0 sonho desprendido, ó luar errado,
N ã o sei se pára, se flui; Nunca em meus versos poderei cantar.
N ã o sei se existe ou se d ó i " . Como ansiara, a t é ao espasmo e ao Oiro,
Toda essa Beleza i n a t i n g í v e l ,
Essa Beleza pura!
Rolo em mim por uma escada abaixo . . .
No poema esotérico Mensagem, uma réplica de Os Lusíadas, o poeta Minhas mãos aperreio,
adota uma perspectiva nacionalista mística. É mais um "fingimento poéti- E s q u e ç o - m e de todo da ideia de que as pintava . . .
co" - talvez bastante próximo dos traços ideológicos mais profundos de E os dentes a ranger, os olhos desviados.
sua personalidade. Não obstante, ao nível de sua consciência, Fernando Sem c h a p é u , como um possesso:
Pessoa se caracteriza da seguinte maneira: Decido-me!
Corro e n t ã o para a rua aos pinotes e aos gritos:

"Sou, de fato, um nacionalista m í s t i c o , um sebastianista racional. — H i l á l H i l á l H i l á - h ô ! Ehl E h ! . . .


Mas sou, à parte isso e a t é em c o n t r a d i ç ã o com isso, muitas outras
coisas" {Carta ao poeta Casais Monteiro). Tum . . . tum . . . tum . . . tum tum tum tum . . . "

146 147
A poesia de Sá-Carneiro (Dispersão, 1914; Indícios de oiro, 1937; Casais Monteiro. O grupo não foi uniforme, com muitas polémicas e dissen-
Poesias, 1946) evoluiu de um neo-simbolismo paúlico para o futurismo, ções, sobretudo a partir da oposição estético-ideológica da literatura social
o sensacionismo e o interseccionismo que conheceu através de Fernando da década de 30: só os dois primeiros permaneceram restritos de forma mais
Pessoa, seu amigo. Os seus contos (Principio, \9\2;A confissão de Lúcio, ortodoxa aos ideais do grupo.
1914; Céu em fogo, 1915) foram escritos no início de seu percurso artísti- Os presencistas divulgaram a concepção vitalista da obra de arte, de
co e - como a sua produção poética de então - estão ambientados em forma abstraía. O artista deveria ser "original", "sincero" e revelar a sua
atmosferas decadentistas. "verdade" mais "profunda", conceitos teóricos, como se vê, nebulosos. Para
tanto, deveria ser ainda um indivíduo "superior" e situar-se acima dos fatos
sociais, buscando suas essencialidades individuais. Estamos efetivamente dis-
8.6 Almada Negreiros tantes da teorização da modernidade artística e bastante próximos de um ro-
mantismo psicológico.
A obra literária de José Sobral de Almada Negreiros (1893-1970), ini- Ernesto Manuel de Melo e Castro indica que "existe um abismo entre
ciada em tomo da revista Orpheu, serve de ponte entre o Modernismo e as a teorização da Presença e a poesia e a ficção que os escritores a ela ligados
tendências vanguardistas contemporâneas. Foi um dos principais artistas criaram posteriormente" (As vanguardas na poesia portuguesa do sécu-
de vanguarda da primeira metade do século XX. Sua atividade como poeta, lo XX), com escritores inovadores como Casais Monteiro e, poderíamos
prosador, dramaturgo, pintor, vitralista, crítico de arte etc. faz-se contra o acrescentar, como Miguel Torga.
conservadorismo cultural do país.
Em 1915, publicou o Manifesto anti-Dantas, onde se insurge, à manei- João Gaspar Simões (1903) e José Régio (José Maria dos Reis Pereira
1901-1969) foram os presencistas mais típicos. O primeiro, como c ítico,
ra futurista, contra o anacronismo artístico português, que se exteriorizava
embora tenha introduzido o romance introspectivo em Portugal com Eloy
na figura do literato conservador Júlio Dantas (1876-1962). A ação doutri-
(1932). O segundo, por sua obra literária.
nária de Almada Negreiros continuou por toda a sua trajetória literária.
As primeiras produções literárias de Almada Negreiros enquadram-se E de José Régio o mais conhecido poema presencista, o "Cântico Ne-
na perspectiva futurista e do interseccionismo teorizado por Fernando Pes- gro", da coletânea Poemas de Deus e do Diabo:
soa. O processo de rompimento com a linearidade discursiva tradicional
pode ser exemplificado em duas de suas narrativas mais significativas — A " 'Vem por aqui' — dizem-me alguns com olhos doces,
engomadeira (1917) e Nome de guerra (1938). Esta última já coloca os pro- estendendo-me os braços, e seguros
blemas da autenticidade individual diante de um cotidiano coercitivo e alie- De que seria bom que eu os ouvisse
nado. Quando me dizem: 'vem por aqui'!
Eu olho-os com olhos lassos,
A sua obra em poesia não é grande e foi reunida em Poesias (1971). ( H á , nos meus olhos, ironias e cansaços)
Os poemas em prosa de A invenção do dia claro (1921), bastante simples, E cruzo os braços,
são exemplos da depuração linguística do trabalho artístico desenvolvido E nunca vou por ali . . .
por Almada Negreiros.
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
8.7 O Presencismo N ã o acompanhar n i n g u é m .
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha M ã e .
A literatura psicologística portuguesa organizou-se em torno da revis-
ta Presença (1927-1940). Esses anos de predomínio de uma literatura psi-
N ã o , não vou por a í ! Só vou por onde
cológica coincidem com o período histórico de afirmação do regime polí- Me levam meus próprios passos . . .
tico fascista em Portugal.
Os presencistas pretendiam uma literatura "neutra", que só tivesse Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
compromisso com ela própria. O grande mérito do grupo foi divulgar as Por que me repetis: 'vem por aqui'?
conquistas literárias do Modernismo, embora suas produções tivessem se Prefiro escorregar nos becos lamacentos.
ressentido de um marcado conservadorismo estético-ideológico. Redemoinhar aos ventos,
Participaram do grupo presencista José Régio, João Gaspar Simões, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por a í . . .
Branquinho da Fonseca, Miguel Torga, Edmundo de Bettencourt e Adolfo

149
Se vim ao mundo, foi Falta igualmente um sentido de síntese ao percurso artístico seguido
S ó para desflorar florestas virgens, pelo poeta desde os Poemas de Deus e do diabo (1925) até os textos póstu-
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! mos como Colheita da tarde (1971). Em prosa, a narrativa mais conhecida
O mais que f a ç o n ã o vale nada. de José Régio é romance Jogo da cabra cega (1934), que dramatiza as con-
Como, pois, sereis vós
tradições psicológicas, imprimindo-lhes um caráter idealista e místico.
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem A produção poética de Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) afasta-se
Para eu derrubar os meus obstáculos? . . . do individualismo místico da Presença. O poeta evolui do dilaceramento
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, psicológico de suas primeiras produções (Confusão, 1929) para poemas de
E vós amais o que é f á c i l ! maior ênfase referencial (como Canto da nossa agonia, de 1942; e Europa,
Eu amo o Longe e a Miragem, de 1946). Nas últimas produções (O estrangeiro definitivo, coletânea incluí-
Amo os abismos, as torrentes, os desertos . . . da nas Poesias completas, de 1969) desenvolve uma linguagem mais tensa e
Ide! tendes estradas, crítica:
Tendes jardins, tendes canteiros.
Tendes pátrias, tendes tetos, " O e x í l i o , desde 1954, que marcou os poemas desta ú l t i m a
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios. obra [O estrangeiro definitivo], 'que c o n t é m quase que exclusiva-
Eu tenho a minha Loucura! mente poesias escritas no Brasil', corresponde a um inconformismo
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, insatisfeito ( . . . ) . A escolha do Brasil como morada reafirma o su-
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos l á b i o s . . . porte da consciência c r í t i c a de rejeição ao p r i n c í p i o de retenção
Deus e o Diabo é que me guiam, mais n i n g u é m , dos direitos humanos da liberdade. A invenção p o é t i c a de Casais
guarda esta coerência com o real, que conserva, a t é as derradeiras
Todos tiveram pai, todos tiveram m ã e ,
instâncias do seu verso, e de modo definitivo, o sentir-se 'estrangei-
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
ro', o estranhamento, a linguagem insaciável que questiona" ( N á -
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
dia Battella Gotlib — O estrangeiro definitivo).
Ah, que n i n g u é m me d ê piedosas intenções!
N i n g u é m me peça d e f i n i ç õ e s !
N i n g u é m me diga: 'vem por aqui'! Exilado no Brasil pelo regime salazarista, Casais Monteiro dedicou-se
A minha vida é um vendaval que se soltou.
ao magistério superior. E também ao ensaio crítico: O romance (1964), A
É uma onda que se alevantou.
palavra essencial (1965) e outros textos. Foi um estudioso da literatura bra-
É um á t o m o a mais que se animou . . .
sileira.
N ã o sei por onde vou.
N ã o sei para onde vou,
Os motivos que levaram o poeta ao exílio já estavam prefigurados em
— Sei que não vou por a í ! " sua ruptura com o presencismo, quando se manifestou contra um artigo de
Gaspar Simões. Julgava-o reaciondrio e defendeu, na ocasião, uma visão mais
crítica de seu tempo que estava fora das condições ideológicas desse movi-
O segmento " A minha glória é esta:/Criar desumanidade!/Não acom- mento.
panhar ninguém" tem sido bastante criticado pelo anti-humanismo e indivi- Miguel Torga (pseudónimo literário de Adolfo Correia da Rocha —
dualismo. Não obstante, há um incorformismo por parte do poeta que se 1907) afastou-se do grupo presencista já em 1930. Sua poesia teve caráter
dispersa pela abstração e fraqueza dos conceitos. Como pode ser observado reivindicativo desde o início, de acordo com Adolfo Casais Monteiro (A poe-
no poema acima, o poeta mostra-se dividido, pois sia da "Presença"), pois desenvolve-se num sentido de um "humanismo rei-
vindicador — duro, fustigando as misérias humanas e o empobrecimento da
"o sentimento de amor ou de a t r a ç ã o alia-se ao de repulsa, e inte- vida de que o homem é culpado, exaltando a terra, o terroir, como ele diria,
gra agora a imagem do Poeta no mesmo contexto significativo das numa profunda consciencialização dos laços do homem com a natureza que
imagens citadas (Deus e Diabo). Deus-Diabo c o m p õ e m - s e de traços lhe ditou muitos poemas admiráveis".
descritivos p r ó p r i o s , e, ao mesmo tempo, comuns, porque coinci-
A obra de Miguel Torga é vasta, distribuindo-se pela poesia, prosa de
dentes. Deus é o Diabo, o Diabo é Deus, e o Poeta é, concomitan-
flcçffo e teatro. A parte mais importante é constituída pelos contos: Bichos
temente, Deus e o Diabo" ( N á d i a Batella Gotlib - Introdução ao
(l*»40), Montanha (1941), Novos contos da montanha (1944) etc. Entre
estudo da poesia de José Régio: o símbolo e o processo da criação
os textos poéticos estão as coletâneas Rampa (1930), O outro livro de Job
estética nos poemas de Deus e do diabo. S ã o Paulo, F F L C H / U S P ,
1970).
119 <6), Odes (1946), Cântico do homem (1950), Orfeu rebelde (1958), Câ-

151
150
mara ardente (1962) etc. Em prosa de ficção publicou ainda A criação do
mundo (3 volumes, 1937-1939). No Diário (10 volumes - 1941-1968), c) Oposição ao evasionismo í Grupo da revista Seara Nova
escrito em prosa, ele associa crítica social, reflexões, esboços de contos, { Aquilino Ribeiro
poemas etc.
Outros presencistas que se afastaram da revista com Miguel Torga fo- 2. Características
ram Antônio José Branquinho da Fonseca (1905-1974) e Edmundo de
Bettencourt (1899-1973). O primeiro fez excelentes contos — Caminhos
Filosofia de Nietzche
magnéticos (1938), Rio Turvo (1945) etc. - , mas sua obra-prima é a novela Base filosófica
Intuicionismo de Bergson
O barão (1945). Edmundo de Bettencourt apresenta produção poética (Poe-
Anti-humanismo de Heidegger
mas, 1963) de interesse para o estudo das literaturas de vanguarda em Portu-
gal: pode ser considerado um dos precursores do Surrealismo no país.
Paulismo

• Movimentos de vanguarda i Futurismo


Sugestões para leitura Sensacionismo
Interseccionismo (cubismo)
José Augusto S E A B R A , em "O sistema poemodramático" {Fernando
Principais escritores
Pessoa ou o poetodrama. São Paulo, Cultrix, 1974. p. 77-87), estuda o siste-
ma de relações entre os heterônimos de Fernando Pessoa. Em "O Modernis- Alto nível artístico
mo de Almada Negreiros" (Linguagem e ideologia. Porto, Inova, 1972. p. a) Fernando Pessoa
127-135), Fernando G U I M A R Ã E S situa a escrita desse escritor como um A atitude-experiência, própria do futurismo
afastamento do evasionismo de sua época. Dentro de uma perspectiva socio- íader ' 0 1 8 ^ S '' m e S e P O é t Í C a < «>ntinu
des

lógica, é importante a leitura de um artigo de Eduardo L O U R E N Ç O : "'Pre-


sença' ou a contra-revolução do Modernismo" (Estrada Larga, 1. Porto, Por-
to Ed., s. d.). Saudosismo
Paulismo
• Tendeencias artísticas
Sensacionismo
Futurismo
Interseccionismo
Síntese - Modernismo
• As "máscaras" poéticas Obra ortônima/heterônica
Modernismo em Portugal A dialética fingimento/sinceridade
a) O orfismo (revista Orpheu)
• Encaminhamento para as tendências de vanguarda: "escandalizar o
Os heterônimos Tcal ítf , ° 0 " ( «>
b J e t Í V 0 ) P O e t a b u c o l i
burguês" (principais) J ° ? * T' ° "bJetivo/objeti-
( e í b r i s

Orpheu , voj - poeta neo clássico


Exílio Àlvarode Campos (subjetivo, - a mo- p o e t

Centauro
• Revistas < Portugal Futurista Poema esotérico: Mensag,
em
Contemporânea
Athena
b) Outros escritores modernistas

b) O presencismo (revista Presença) Personalidade dilacerada


— Sá-Carneiro
• O evasionismo Absolutos estético-ideológicos
Herdeiro do decadentismo-simbolismo
152
153
Propagandista do Modernismo
Ponte entre Modernismo e tendenc.as
_ Almada Negreiros contemporâneas icos
a r t f c t

Produção em vários campos artísticos


0 Neo-Realismo e
Presencismo

_ Os mais típicos
João Gaspar Simões as tendências contemporâneas
José Régio

Poetas que se afastaram do grupo presencista:


(1939-Atualidade)
. Miguel Torga - prosador com literatura social
" . . . S ó os imbecis é que fazem do neo-realismo a retórica da cloaca.
. Branquinho da Fonseca - contista O neo-realismo 6 um m é t o d o aplicável tanto às duquesas como às mulheres do povo.
Abarcamos o mundo inteiro e pretendemos submeter à nossa análise tanto
. Edmundo de Bettencourt - precursor do Surrealismo a beleza como a fealdade".
(Alexandre Pinheiro T O R R E S — Parafraseando Goncourt)
Poeta
Ensaísta
• Adolfo Casais Monteiro
Professor de literatura (Brasil)
0 chamado "Estado Novo" (1933-1974) foi a institucionalização da
ditadura, de acordo com o modelo corporativista do fascismo, A consoli-
dação do novo regime rez-se em torno do professor ae Economia Antonio
dê Oliveira Salazar, católico de extréflia-dlreita. Sua açao corresponde às
gxpectativas de grupos socioeconómicos ansiosos por uma "ordem interna,
sem greves ou questionamentos políticos! ~
As forças democráticas republicanas estavam, por outro lado, fragmen-
tadas, em face de suas dissenções. As classes médias citadinas não haviam
conseguido reformar o país, que permanecia com a mesma estrutura social
e económica da monarquia.
As condições internacionais também favoreciam a organização de
regimes totalitários. Salazar apoiou e depois foi apoiado pelos fascistas
espanhóis, jâ que via com desconfiança as possíveis consequências políticas
de um retorne democrático nas rronteiras do país. Aproximou-se igualmente
"5a Itália fascista e da Alemanna nazista, por afinidades ideológicas j de
prática politicai '—• •
A identidade de procedimentos não levou a uma política externa simi-
lar, pela subordinação económica de mais de dois séculos à Inglaterra. O
regime salazarista procurou orientar-se por uma política de eqiiidistância:
o senso prático mostrou-se superior às afinidades ideológicas nazi-fascistas.
Não foi permitida a organização de qualquer força de oposição e o
Estado gradativamente hipertrofiou o seu poder. 0 único partido político
*Tegãl" foi a "Lmao mcional", do governo. E, como forças auxiliares para-
militares, o regime organizou a Legião Portuguesa e a Mocidade Portuguesa,
"conforme os moldes do integralismo português. ~~*

155
154
A força repressora mais identificada com o salazarismo foi a Polícia de O salazarismo, sem Salazar, tentou uma política de "abertura", mas
Vigilância e Defesa do Estado (P.V.D.E.), com suas funções ampliadas, "após já era tarde. O pãTs enfrentava sérias dificuldaaes económicas e estava mer-
a~ Segunda Urande Guerra, para a PoTicia Internacional e de Defesa do gulhado na guerra colonial na Africa, com condenações sucessivas das
listado (tM.lJ.li.), uma espécie de Gesjapg_nãzjsta em_Portugal. "A~"P.I.D.E. Nações Unidas. A política antidemocrática e colonialista do regime era ainda
fransformou-se em poder quase autónomo dentro do regime. Prendeu, tor- um empecilho para a entrada de Portugal no Mercado Comum Europeu,
turou e assassinou milhares de portugueses e africanos durante muitos~ãnos. onde poderia resolver seus promemas económicos!
Conseguiu mesmo manter um campo de concentração nas Ilhas de Cabo Flá uma cisão final no governo. Antonio de Spínola e Costa Gomes,
Vêr^ÇlÇ^lJióJ. " — vice-chefe e chefe do Estado-Maior do Exército, divergem e são demitidos.
A censura foi exercida sobre todos os meios de comunicação. Quando A derrubada do regime não virá da cúpula, mas dos oficiais menores.
não ocorria censura direta, havia a autocensura. Não se fez concessões a Em 25 de abril de 1974, jovens oficiais derrubam o salazarismo. Ê o
setores embrionários de oposição. E o conservadorismo e o totalitarismo movimento das Forças Armadas, bem articulado militarmente e~com um
chegaram a níveis desmedidos que geraram dissenções internas dentro do programa a cumprir: extinção do Estado Novo e de todos os seus meca-
próprio regime. Também em relação a elas Salazar foi inflexível. nismos de governo; fim da guerra colonial; anistia para todos os presos polí-
ticos, libeTaade de organização política e prisão para os~responsáveis pelos
Com a Segunda Grande Guerra (1939-1945), o país proclamou-se
crunespolíticos do regime salazarista.
neutro, embora com simpatias salazaristas ao na^i-tascismo. Avitóriaaliada
na guerra fez ressurgir a oposição organizada. Parecia o fim do fascismo Ã~tomada do poder foi pacífica: a "Revolução dos Cravos", como foi
poeticamente denominada. O lirismo português esteve presente até na senha
português, mas as condições internacionais novamente beneficiarão o
utilizada pelo movimento militar — a canção "Grândola, Vila Morena",
sàTa~zarismóT~o" desencadeamento da chamada "guerra fria", opondo os proibida anteriormente pela censura:
Estados Unidos à União Soviética. Salazar foi prestigiado pela política
maçartista seguida então pelos Estados Unidos que procurava fortalecer
" G r â n d o l a , Vila Morena
as ditaduras anticomunistas. Terra da Fraternidade
A resistência democrática antifascista organizoa-se em torno do Movi- O povo é quem mais ordena"
mento de União Democrática (M.U.D.). Entretanto, os instrumentos do
poder ditatorial (máquina do Estado totalitário e a P.I.D.E.) estavam afi-
nados com Salazar. Além disso, sua bandeira anticomunista de defesa da
"civilização cristã ocidental" teve apoio norte-americano. O resultado foi 9.1 Neo-Realismo
mais uma derrota da democracia, situação que viria a repetir-se outras vezes,
por mais de vinte anos. A eclosão do movimento neo-realista esteve associada à resistência
As divisões do regime irão se acentuar, ao longo desses anos, a par do antifascista ao final da década de 1930. Colomu-se a nova tendência lite-
crescimento de movimentações sociais de caráter político. A resposta de rária contra o "descompromisso" do movimento, anterior, o Presencismo,
Salazar mostrou total insensibilidade: procurou frear o desenvolvimento edefenrJia uma literatura "engajada', voltada _para_QS problemas concretos
ao^capitalismo industrial. Concentrou seus esforços nos setores agrários,
-
do país. A literatura deveria contribuir para a conscientização do público-
de~Õhde provinham suas bases sociais, uma .situação insustentável diantè~de -íeifòr e para caracterizar os problemas da estrutura politica, económica
e social da sociedade portuguesa.
uma Europa industrializada. Procurava ainda manter o anacrónico império
colonial. A ânsia de se contrapor à concepção da arte-pela-arte, considerada
Rigistraram-se tentativas de se derrubar o salazarismo através de elitista e despropositada, fez com que certas produções iniciais do movi-
mento enfatizasse, às vezes unilateralmente, o conteúdo, não levando em
eleições ou conspirações militares, todas frustradas. O governo controlava consideração que ele é indissociável da forma artística. Resultado: elas
a máquina eleitoral e inventava sempre um novo casuísmo para ganhar as perdiam o vigor, inclusive da própria denúncia social que procuravam esta-
eleições e se manter no poder dentro de uma pretensa "legalidade". As ten- belecer.
tativas militares mostraram-se ineficientes.
Muitos desses escritores iniciantes desenvolveram atividades jorna-
O regime, dentro desse imobilismo, entrou em processo de desagre- lísticas, incorporando a sua técnica. A simplificação de procedimentos
gação. A única solução que encontrava era a policial: prisão ou exílio de estilísticos veio também pela incorporação da técnica cinematográfica.
patriotas. Com a morte de Salazar (1968), perdeu o sentido a unidade na Tratava-se de comunicar com o grande público. Tais técnicas assimiladas
figura do "chefe". nesse momento inicial e gradativamente desenvolvidas literariamente con-

156 157
Vitorino Nemésio afasta-se gradativamente do presencismo para as ten-
tribuirão para a formação de uma das mais fecundas correntes artísticas da dências literárias contemporâneas.
literatura portuguesa. Outro ficcionista preocupado com questões sociais é José Rodrigues
A ênfase conteudística teve uma justificativa histórica: veiculou infor- Miguéis (1901), que se orienta por um ponto de vista humanitário, à ma-
mações~normalmente censuradas na imprensa e serviu de uma forma de neira do realismo dostoievskiano. Sua produção literária é vasta e vem desde
resistência ao salazarismo. o romance Páscoa feliz (1932) até o último (Nikalail Nikalai\, 1971). Deve-
O Neo-Realismo iniciou-se entre estudantes, artistas e jornalistas que -se destacar os contos de Léah (1960), onde critica a hipocrisia burguesa.
colaboravam em pequenas revistas e jornais: O Diabo (1934-1940), Sol Na década de 1950, o Neo-Realismo ganha maior consistência artís-
Nascente (1937-1940) e, a partir de 1945, a revista Vértice. Foi igualmente tica. Escritores da década anterior, como Alves Redol, escrevem romances
significativa a publicação da coletânea Novo cancioneiro, que divulgou dõliíVerartistico de A barca dos sete lemes. Surgem novos escritores, como
alguns dos escritores mais representativos do movimento. JõsT Cardoso Pires, Augusto Abelaira, Manuel Ferreira e outros. Nessas
O movimento neo-realista teve função de vanguarda em todos os novas produções, temós~ã contribuição das literaturas experimentais euro-
peias, em especial do "novo romance" francês e da novelística norte^nne-
campòT da cultura portuguesa. O sentido de modernidade artística quanto
ricãna. Ressurgem as tendências poéticas de vanguarda.
aos aspectos formais, escamoteado em parte pela literatura militante dos
"~í^3èsse período o contato com o existencialismo francês, o que leva
tempos heróicos, vai ser retomado na década de 1950. A vanguarda ideoló-
Vergílio Ferreira a afastar-se do realismo social. Em Urbano Tavares Rodri-
gica conjuga-se assim com a artística. gues, ao contrário, a temática existencial não se dissocia da ênfase social
A influência da nova corrente literária se faz em todos os campos do que caracteriza o movimento neo-realista. Afirma-se nesse contato com a
pensamento, de forma direta ou indireta. Como, por exemplo, podemos filosofia existencial a literatura "feminina" portuguesa, como podemos
registrá-la na historiografia de um Joel Serrão ou de um Vítor Sá; na his- observar em Fernanda Botelho.
toriografia literária de um Óscar Lopes ou Antônio José Saraiva; na linguís-
Na poesia, aparece o realismo crítico da revista Árvore (1951-1953),
tica de um Herculano de Carvalho ou Lindley Cintra; na crítica literária de
que teve como diretores poetas Antonio Ramos Rosa, Egito Gonçalves e
úm Jacinto dò rrado Coelho e, mais próximos do movimento, de um Mário
Luís Amaro. Suas produções aproximam as poesias neo-realistas portu-
Dionísio" ou um Alexandre Pinheiro torres, h, mais recentemente ainda, guesas, das da resistência na França, Espanha, mais próximas das vanguardas
assocjandr>Õ mais estreitamente ao conceito de modernidade, Eduardo artísticas. É dessa perspectiva de modernidade da Árvore que sairão os movi-
Prado Coelho. A influência também foi marcante nos campos técnicos e mentos Poesia 61 e Poesia Experimental, na década seguinte.
científicos.
T*íã literatura, o movimento teve um grande precursor: Ferreira de
Castro (José Maria Ferreira de Castro — 1898-1974), que evoluiu para o
Neo-Realismo. Seu mérito histórico é ter levado a técnica jornalística para Características do Neo-Realismo
o romance. Suas produções mais significativas de transição para o novo
realismo social (Emigrantes, 1928; A Selva, 1930) são ambientados no O Neo-Realismo, entendido na perspectiva de uma atitude do artista
Brasil. Dentro do Neo-Realismo, podemos destacar A lã e a neve (1947) e em face do mundo, vai, dessa forma, adâptando-se, transformando-se e
A curva da estrada (1950). Entre os primeiros romancistas do movimento ganhando uma dimensão estética superior. Procura colocar-se como um
movimento aberto para o tuturo. incorporando qualquer nova técnica
está Soeiro Pereira Gomes (1909-1949), com sua conhecida narrativa
Inovadora. Observa Mário Sacramento (Fernando Ngqipra):
Esteiros (1945).
O grupo mais vigoroso dessa época é o do Novo Cancioneiro, de Coim-
bra, com Carlos de Oliveira, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca, Joaquim " . . . se, a partir de um indeterminado e talvez i n d e t e r m i n á v e l
Namorado, João José Cochofel e outros. Muitos desses poetas também momento, c o m e ç a a ser quase impossível agitar nomes de correntes
literárias (malgrado toques como o do novo-romance e do estrutu-
foram prosadores, como Carlos de Oliveira, Fernando Namora ou Manuel da
ralismo) ou bandeiras de luta vanguardista, isso significa que algo
Fonseca. Vergílio Ferreira também esteve unido ao grupo participando da
ocorre no subsolo comum que prepara uma m u t a ç ã o imprevisível.
série Novos prosadores, também neo-realista. José Gomes Ferreira foi outro Entre opor a literatura de 50-60 à de 30-40 ou encadear entre elas
escritor ativo desse núcleo intelectual, participando da série editorial Galo. um processo de i n t e r f e r ê n c i a e e v o l u ç ã o para o qual as designações
Em desenvolvimento paralelo ao Neo-Realismo, deve-se assinalar as distintivas nada t ê m nem podem ter de a x i o l ó g i c o , eu prefiro o
produções literárias de Vitorino Nemésio (Vitorino Nemésio Mendes Pereira segundo ponto de vista, mas recordando isto: por detrás de uma
da Silva — 1901-1978), que apresenta um romance de nível artístico su- literatura há sempre uma ideologia que aquela inclui e ultrapassa.
perior - Mau tempo no canal (1945), com ação no arquipélago dos Açores.
159
E a ideologia neo-realista n ã o só n ã o se extinguiu ainda, como é digo inteiramente atendo já ao desenvolvimento específico da lite-
hoje mais forte e rica do que em 40. Pelo que haverá tantos neo- ratura;
-realismos literários, e x p l í c i t o s ou i m p l í c i t o s , quantas as fases
e) o processo, para ter alguma validez, necessita portanto
ou momentos em que ela incida. A sua persistência e presença de atender às circunstâncias de época e de país, precisa ser atual e
t e r á de ser repercutida, qualquer que seja a matriz da linguagem português;
literária usada ou os escopos a que se volte".
f) n ã o pode ignorar, pelos vistos, os antecedentes que
determinam esses atributos, devendo debruçar-se sobre a t r a d i ç ã o
literária, culta e popular, sobre os m ú l t i p l o s materiais que a enfor-
O Neo-Realismo, assim, não se reduz a um modelo artístico e nem se mam, e procurar-lhe os caracteres d i n â m i c o s para compreender
conforma, de acordo com Mário Dionísio ("Prefácio" de Casa na duna, melhor os de hoje;
de Carlos de Oliveira), à g) por outro lado, sempre se fez ao longo da história
literária aquilo a que chamarei 'transfusão cultural', isto é, emi-
" d o g m á t i c a imposição de certos assuntos, de certas personagens,
gração de ideias, homens, formas, estéticas, de país para país;
de um esquema ou esquemas de avaliação e e x p o s i ç ã o , mas qual-
porque iria deixar de fazer-se hoje que as trocas são mais fáceis e
quer coisa t ã o vasta e revolucionária como o Renascimento o fora
naturais?; indispensável, pois, que o processo leve em conta esse
nos tempos da gloriosa a f i r m a ç ã o de uma visão do mundo agora
fato e n ã o recuse o sangue alheio, tendo no entanto presente que
em d e c a d ê n c i a . Um renascimento em que cabiam todas as t e n d ê n -
a transfusão se pratica como medida de e m e r g ê n c i a e que todo o
cias, todas as escolas, todas as t r a d i ç õ e s e todas as inovações, tudo
bom organismo fabrica o seu sangue" (O aprendiz de feiticeiro).
o que permitisse exprimir ou contribuir para exprimir a nova men-
talidade — no sentido mais vasto da palavra — em que tudo jogá-
vamos (e jogamos): 'a expressão, por mil maneiras', como escrevi
mais tarde e agora sublinho, 'da realidade total em movimento'". O trabalho artístico aberto aos mecanismos mais dinâmicos da reali-
dade é social. Uma das funções sociais da linguagem é servir de relação entre
o que ocorre em todos os campos do conhecimento. Trabalhar a linguagem
nessa dinâmica é promover uma literatura ativa, que não se reduz a quais-
O movimento neo-realista não é uma escola literária, mas um método
quer esquematismos. O trabalho com a linguagem torna-se assim simétrico
de abordagem da realidade. É uma escrita dialética que procura representar
â função social da literatura: promover a transformação da realidade, da qual
a realidade em movimento; para tanto, também ela deve ser colocada em é parte constitutiva.
processo, dentro da dinâmica da comunicação artística.
Muito significativa, nesse sentido, é a obra de Carlos de Oliveira, A denúncia da alienação é uma das características básicas do Neo-
que gradativamente vai problematizando a linguagem, em suas produções Realismo. Pelo conceito de alienação, temos o roubo ao indivíduo de carac-
ou refacções. É notável seu senso de trabalho artístico: terísticas, atributos ou direitos que lhes são próprios. O indivíduo pode
alienar-se a um outro em qualquer campo de atividade, desde o económico
•o político e à vida psicológica.
"a) o meu ponto de partida, como romancista e poeta,
é a realidade que me cerca; tenho de equacioná-la em f u n ç ã o do Alexandre Pinheiro Torres (O Neo-Realismo literário português) in-
passado, do presente e do futuro; e, noutro plano, em f u n ç ã o das dica que há alienações de vários tipos:
características nacionais e locais;
b) o processo para transpor em termos literários está " p r i m á r i a s , secundárias ou imaginárias, alienações a éticas ima-
sujeito a um condicionamento semelhante ao dela e a t é ao condi- nentes e transcendentes, e, a l é m de e c o n ó m i c a s , t a m b é m p o l í -
ticas. O homem e a mulher que n ã o amam segundo o seu pendor
cionamento dela (em ú l t i m a análise, o processo faz parte da reali-
natural podem ser disso impedidos por preconceitos que beberam
dade); no leite da e d u c a ç ã o , pelas pressões do meio social, ou por travões
c) é essencial p o r é m n ã o esquecer estas duas coisas: a de caráter religioso.
realidade cria em si mesma os germes da t r a n s f o r m a ç ã o ; o processo Quanto à alienação p o l í t i c a : se num determinado p a í s h á
consiste sobretudo em captá-los e desenvolvê-los num sentido um governo imposto sem escolha do povo, este n ã o d e i x a r á de se
autenticamente moderno; encontrar alienado. Por quê? Porque quando são os governados
d) n ã o concebo uma literatura intemporal, nem fora de a escolher os governantes, os primeiros transferem voluntariamente
certo espaço g e o g r á f i c o , social, linguístico; quer dizer, n ã o a vejo para os segundos a sua p r ó p r i a capacidade e direito de ação gover-
inteiramente desligada das c o n d i ç õ e s de tempo, de lugar; e quando nativa individual. É evidente que n ã o podem governar todos. Nas

l(i()
161
Ditaduras os governados não alienam, por vontade p r ó p r i a , a sua
potencialidade governativa nas pessoas dos dirigentes p o l í t i c o s . So^artíSco 9 6 6 3 ^ R e d 0 1 d e f m e ° " m l M o q U C t"***» 3 0 s e u tra"
(...)
Pertence ao Neo-Realismo a n ã o pequena glória de ser a
"Faltava-me, pois, racionalizar a prosa, ganhar sobriedade, n ã o
primeira corrente na H i s t ó r i a da Literatura a desmontar o f e n ó -
tanto, p o r é m , que enfraquecesse a mensagem, como tantas vezes
meno da alienação definindo-o, investigando-lhes as causas e, com
acontece. Necessitava de alcançar, como Gramsci escreveu, a forma
o autodinamismo que o caracteriza, insinuando caminhos e pro-
vivaz e expressiva, ao mesmo tempo sóbria e contida, porque
pondo aberturas para a sua superação. A verdade é que, relativa-
insistindo nesse trabalho aparentemente só formal, acabaria por
mente à a l i e n a ç ã o , n ã o bastava retratar o homem a ela submetido,
agir praticamente sobre o c o n t e ú d o ; ganharia assim a d e f l a ç ã o da
um homem a maioria das vezes inconsciente de se encontrar alie- retórica que estropia a cultura, particularmente a cultura jovem
nado. Consideremos os diferentes 'estádios': que se dirija para uma sociedade humana e c i e n t í f i c a " .

1?) homem alienado mas inconsciente da alienação que


o subjuga;
Alves Redol vale para Portugal como artista e cidadão, dois aspectos
29) homem alienado mas já consciente da alienação de
de sua personalidade que ele não dissociava, como podemos verificar, por
que é v í t i m a , embora ignorante das causas históricas
suas próprias palavras, na síntese de Álvaro Salema (Alves Redol):
da sua submissão e dos meios de as vencer;
39) homem já conhecedor das próprias causas mas n ã o
"'O escritor n ã o é um ser passivo ante o mundo que o cerca.
resolvido a utilizar os meios de que possa dispor para
Apaixona-se sempre. A d i f e r e n ç a entre um escritor e um aprendiz,
vencer a a l i e n a ç ã o , meios esses nem sempre ao dis-
ou um m e d í o c r e , é que naquele nunca a p a i x ã o se faz r e t ó r i c a ' . E
por, por estreito controle policial do Estado, ou por
em outro passo, mas descobertamente: 'todos sabem o que eu
falta de unidade de esforços de todos os que se en- amo, todos sabem o que me repugna. N ã o é d i f í c i l entender-se o
contram na mesma situação, precisamente quando que escrevo e por que escrevo. D a í o apontarem-me como escritor
seria necessária a conjugação de vontades; comprometido. Nunca o neguei: é verdade. Mas t a m b é m é verdade
49) homem na situação de revolta ou de guerra aberta que todos os escritores o são (Prefácio de Fanga, 8 ed., p. 33). a

contra as causas da a l i e n a ç ã o , ou seja, contra aqueles Com o instinto e a f é da verdade e da segurança populares, ser-
que se apresentam como defensores dum statu quo vindo-as na ação com todos os riscos, soube dar-lhes um corpo em
que garante a perpetuidade da a l i e n a ç ã o . escrita literária que é , ao mesmo tempo, c o m u n i c a ç ã o fervorosa
P o d e r í a m o s dizer, em esquema, que a t e m á t i c a da literatura vinda do mais fundo do temperamento e do caráter e labuta empe-
neo-realista portuguesa gira em torno de heróis (ou anti-heróis) ou nhada na expressão comunicante".
à volta de situações que problematizam, um ou outro, ou simulta-
neamente vários destes e s t á d i o s " .

Manuel da Fonseca

A obra de Manuel da Fonseca (1911) iniciou-se pela poesia (Rosa dos


Alves Redol ventos, 1940; Planície, 1941; Poemas completos, 1965), mas foi na prosa
de ficção que fez suas melhores produções, com os romances Cerro-maior
Antônio Alves Redol (1911-1969) fez o primeiro romance neo-realistaa
e (1944) e Seara de vento (1958) e os contos de Aldeia nova (1942), O fogo
português (Gaibéus, 1939) e foi o principal escritor militante dessa corrente
í- t as cinzas (1953), Anjo no trapézio (1968) e Tempo de solidão (1973).
literária. De origem popular, teve participação ativa em movimentos opera O romance Seara de vento, proibido pela censura, é a sua melhor realização,
rios e foi preso duas vezes. é luntamente com os contos de O fogo eas cinzas.
Seu romance registra nífida evolução artística, que vai de Gaibéus at<is
Os reinegros (1972, publicação póstuma), com dezesseis livros publicados Nas narrativas de Manuel da Fonseca, são frequentes as apresentações
e um grande número de reedições e traduções. Os seus principais romances dl matéria narrativa sob forma cinematográfica: os textos servem de verda-
são A barca dos sete lemes (1958), Barranco de Cegos (obra-prima do -l. nos roteiros para o cinema. São situações de grande índice de dramatiza-
escritor, 1961) e O muro branco (1866). Na "Autocrítica" ("Prefácio" a <|ue procuram envolver o leitor na cena/íeixando a história bastante

162 163
viva para a sua percepção. Maria Elena Ortega Ortiz Assumpção (Seara de
vento: a expressão cénica da matéria social) estabeleceu um paralelo entre
Carlos de Oliveira
os recursos cénicos de Manuel da Fonseca e o distanciamento épico de
Bertolt Brecht:
A obra de Carlos Alberto Serra de Oliveira (1921-1981) é paradigmá-
" E m Manuel da Fonseca, temos o emocional 'envolvimento' tica para definirmos o percurso das melhores produções em prosa e verso
d r a m á t i c o . Em Brecht, o c r í t i c o 'distanciamento' é p i c o . Em do Neo-Realismo português. Carlos de Oliveira nasceu em Belém do Pará,
ambos, como denominador comum, o mesmo efeito de 'estranha- filho de portugueses, e foi para Portugal ainda criança.
mento' (. . .) visando o mesmo fim: a p r o b l e m a t i z a ç ã o da reali- As suas três primeiras coletâneas poéticas (Turismo, 1942; Mãe pobre,
dade através da arte". 1945; Colheita perdida, 1948) são representativas da melhor poesia portu-
guesa da década de 1940. A ruptura com esses poemas de ênfase referencial
dar-se-á nos anos 60 (Cantata, 1960; Sobre o lado esquerdo, 1968; Micro-
Mário Dionísio ("Prefácio" aos Poemas completos) assinala: paisagem, 1968). A elaboração artística será ainda mais intensificada no
Trabalho poético (2 volumes, 1976), onde seleciona e revisa poemas publi-
"Toda a t e m á t i c a de Manuel da Fonseca se reduz a dois motivos, cados nas coletâneas indicadas e em outras, inclusive com um inédito
intimamente solidários, que, em vários tons e andamentos, sem (Planície).
cessar se repetem: uma ansiedade de viver em conflito com uma
realidade social que torna essa vida impossível de ser plenamente
Para exemplificar, tomemos um poema de Mãe pobre ("Soneto"):
vivida e uma decisão de intervir nos destinos do mundo, que,
optando por um ato de desespero, acaba por esbarrar com a sua "Acusam-me de m á g o a e desalento,
p r ó p r i a ineficácia, que, entretanto, se n ã o reconhece como tal e como se toda a pena dos meus versos
torna, assim, possível o constante r e c o m e ç o " . não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,


Persegue-o um sentido de comunhão popular para além da opressão quando a luz que n ã o nego abrir o escuro
daqueles místicos que "andaram pelos séculos/construindo noites/geladas da noite que nos cerca como um muro,
solidões": e chegares a teus reinos, alegria.

"Solidão Entretanto, deixai que me n ã o cale:


a t é que o muro fenda, a treva estale,
Que venham todos os pobres da Terra seja a tristeza o vinho da vingança.
os ofendidos e humilhados •
os torturados A minha voz de morte é a voz da luta:
os loucos: se quem confia a p r ó p r i a dor perscruta,
meu abraço é cada vez mais largo maior g l ó r i a tem em ter e s p e r a n ç a " .
envolve-os todosl

E o comparemos com dois segmentos do poema "Estalactite" (Micro-


Ô minha vontade, ó meu desejo paisagem), de ênfase metalingiiística:
— os pobres e os humilhados
todos "II
se quedaram de espanto I...
Imaginar
o som do orvalho,
(A luz do Sol beija e fecunda a lenta c o n t r a ç ã o
mas os m í s t i c o s andaram pelos séculos das pétalas,
construindo noites o peso da água
geladas solidões.) a tal d i s t â n c i a .

164 165
registrar envolva-se na rede violenta da luta de classes, pelo v o l u n t á r i o desa-
nessa m e m ó r i a parecer do poeta no sacrifício da sua voz dissolvida na pluralidade
ao c o n t r á r i o duma voz em f o r m a ç ã o : a dos homens projetados num futuro de
o ritmo da pedra harmonia (.. . ) " .
dissolvida
quando poisa
gota a gota
Os romances de Carlos de Oliveira apresentam três "saltos" qualita-
tivos, dentro da dialética de sua escrita. 0 primeiro veio através de Uma
nas flores antecipadas.
abelha na chuva (1953), que rompe com a escrita anterior de Casa na duna
(1943), Alcateia (1944) e Pequenos burgueses (1948). A importância desse
Ill romance é destacada por Carlos Reis (Introdução à leitura de Uma abelha
Se o poema
na chuva):
analisasse
a p r ó p r i a oscilação
interior, "Uma abelha na chuva parece afirmar-se como marco extrema-
cristalizasse mente importante no quadro da prática narrativa neo-realista:
um outro movimento tenha-se em conta, a este p r o p ó s i t o , o recurso aos códigos tem-
mais sutil, poral e representativo, recurso por um lado relativamente rigoroso
o da estrutura em termos formais e, por outro lado, coerentemente justificado
em que se geram por f o r ç a da i n f o r m a ç ã o t e m á t i c a e ideológica da obra".
m i l é n i o s depois
estas imaginárias
flores calcárias,
acharia
O segundo "salto" ocorreu nos anos 60, com a revisão desses ro-
mances, à exceção de Alcateia. Importante, nesse sentido, é a refundição
o seu micro-rigor".
de Pequenos burgueses, um novo romance, inserido na modernidade artís-
tica. O livro em prosa O aprendiz de feiticeiro (1971) pertence a essa fase,
Em "Estalactite", há a problematização do "fazer" poético, da cons-
em que Carlos de Oliveira mostra-se preocupado com a prática textual.
trução de uma linguagem poética que fosse homóloga aos processos renova-
O terceiro "salto" da escrita de Carlos de Oliveira será dado pelo
dores da realidade na qual se insere. Eduardo Prado Coelho (A palavra sobre
romance revolucionário Finisterra (1978), definido por Maria Lúcia Lepécki
a palavra) aponta-nos essa interação estrutural entre a palavra escrita e a
{Meridianos do texto):
realidade social, em Carlos de Oliveira:

"Na poesia de Carlos de Oliveira, conjugam-se numa coerência " T r i b u t á r i o de duplo i m a g i n á r i o , o factual-narrativo e o imagis-
quase sem falhas, duas p r o b l e m á t i c a s a t é certo ponto divergentes: tico-poético. Finisterra, de Carlos de Oliveira, realiza superior-
mente o mais importante modo de escrita c o n t e m p o r â n e o portu-
por um lado, a revolta social (. . . ) ; por outro lado, a obsessão das
guês, aquele onde se fundem narrar e poetar, onde só se pode
origens, das zonas primitivas da terra, dos labirintos desabitados da
entender o 'romanesco' (...) através da c o m p r e e n s ã o dos fatores
m e m ó r i a (. . . ) " .
p o é t i c o s (. . .), sendo, por seu turno, os elementos poéticos des-
codificáveis em f u n ç ã o de uma proposta de sentido presente em e
inalienável dos segmentos narrativos".
Poderíamos reduzir esta situação do poeta a um esquema tradicional:
ao poeta voltado para si opõe-se o poeta interessado pela sorte dos outros.
Ou se quiserem, a uma temática individual e subjetiva contrapõe-se uma É a unidade poesia/prosa que se efetua em seu último romance. Um
temática social e realista. i«•iii.mce do implícito, que exige um leitor participante e realmente ativo,
puni produzir a sua própria leitura do texto:
"Tal esquema parece-nos inteiramente falso (. . .) N ã o só a procura
das regiões primordiais, das referências arcaicas, se inscreve num "Nas raízes ideológicas da escrita, fica evidente, e n t ã o , que a
demorado processo de l i b e r t a ç ã o , pela urgência progressiva da vida realidade não deve apenas ser neutramente representada, mas
no interior do caos e das trevas (. . .), como ainda a p r ó p r i a morte, propiciar a praxis do sujeito (. . .) Se no plano da história o sujeito
a marca do esquecimento, atravessa o mundo dos conflitos sociais. não modifica o mundo, no plano da escrita, entretanto, muda a

166 167
sua posição diante dele. E o leitor, na d i n â m i c a de sua praxis, ao
tomar consciência de suas aspirações afetivas, intelectuais e prá-
9.7 Augusto Abeiaira
ticas, sofre, pela escrita, um questionamento da passividade que
lhe foi imposta pela sociedade t e c n o c r á t i c a , o que o impede de ser
um simples consumidor cultural" (Benjamin Abdala Júnior - Augusto José de Freitas Abeiaira (1926) insere-se dentro de uma pers-
A escrita neo-realista). pectiva de renovação da escrita social, com trabalho artístico próximo do
novo-romance francês. Publicou romances (A cidade das flores, 1959; Os
Com tais procedimentos, abre-se uma perspectiva bastante interes- desertores, 1960; As boas intenções, 1963; Enseada amena, 1966; Bolor,
sante: o modo de pensar o mundo torna-se mais importante do que os fatos 1968; Sem teto entre ruínas, 1978; O triunfo da morte, 1981), teatro
pensados (apresentados de forma ambígua). Estes têm de ser pensados em (A palavra é de oiro, 1961; O nariz de Cleópatra, 1962; Anfitrião, outra
sua essência histórica. São passíveis assim de atualizações diferentes, dentro vez, 1980) e contos (Quatro paredes nuas, 1972).
de determinada situação histórico-cultural.
Na escrita de Augusto Abeiaira há uma permanente perplexidade e
hesitação em face de fatos ou situações concretas. Há um questionar-se que
marca a própria organização da escrita, particularmente evidente em Bolor:
José Cardoso Pires
"A história de Bolor será, pois, a do p r ó p r i o escrever-se (. . .).
As produções de José Cardoso Pires (1925) pertencem ao Neo-Rea-
Os eiementos justapõem-se por um critério distintivo da série
lismo da década de 1950, com um traço distintivo: o ficcionista adapta as
ornada pelas operações da lógica do discurso c i e n t í f i c o . Criando-
técnicas das narrativas norte-americanas à situação histórico-cultural portu- -se, a escrita reflete um embaralhamento de dados, assim como é
guesa. Sua prosa, de grande índice de dramatização, divide-se pelos contos a 'carta jogada' do mundo, da guerra, da vitória completa do
(Os caminheiros e outros contos, 1949; Histórias de amor, 1952; Jogos de fascismo" (Maria Aparecida Santilli - Arte e representação da rea-
azar, 1968), romances (O anjo ancorado, 1958; o hóspede de Job, 1963; lidade no romance português contemporâneo).
O Delfim, 1968), teatro (O render dos heróis, 1960; Corpo-delito na sala •
de espelhos, 1980; Balada da praia dos cães, 1982), fábulas (Dinossauro in-
teressantíssimo, 1972; O burro-em-pé, 1979) e ensaios (Cartilha de Marialva, A pesquisa formal e temática prossegue nos contos de Quatro paredes
1 9 6 0 ; £ agora, José? 1977). nuas, problematizando uma das obsessões do escritor: a análise do casa-
O romance O Delfim é uma das melhores narrativas do Neo-Realismo mento burguês.
português. O realismo que aí aparece é aberto, com intersecção de planos
narrativos, de acordo com a técnica do novo-romance francês. A técnica
cinematográfica ganha, assim, maior densidade, propiciando maior ênfase
ideológica ao ponto de vista do narrador:
"Na variação de pontos de vista, t a m b é m causa do cinemato- 9.8 Vergílio Ferreira
g r á f i c o , intensif ica-se a atividade da câmara que v ê e conhece. E
os textos todos contam o espaço onde c o m e ç a m a agitar-se as Vergílio Ferreira (1916) iniciou-se dentro do Neo-Realismo para dele
forças modificadoras, contam o lugar onde a m a t é r i a inicia a se afastar, adotando uma perspectiva de ênfase filosófico-existencial. A
m u t a ç ã o de formas, o tempo em que o homem já sabe responder ruptura ocorreu a partir de Mudança (1949), seguindo a linha ideológica das
conscientemente às forças opressoras" (Maria Lúcia L e p é c k i — frustrações do movimento democrático dessa década, submetido pelo regime
Ideologia e imaginário).
salazarista. O ensaísmo do autor contribui para o entendimento de sua obra
A escrita mais implícita de Cardoso Pires, entretanto, não obscurece de ficção. Ele parece não confiar na perspectiva racionalista e persegue abso-
lutos vivenciados individualmente. Trata-se, no conjunto, de uma obra lite-
seu sentido irónico e autocrítico. Em E agora, José?, referência ao poema
rária virada para dentro dos narradores, com grande frequência de monólo-
homónimo de Carlos Drummond de Andrade, o narrador projeta-se dialogi-
gos, confissões, etc. e com referências contínuas a existências fragmentadas.
camente em um anónimo José "a fumar diante do espelho no país dos vinte
Estabelecem-se, nessa perspectiva, tensões entre narradores, personagens e
capitães", questionando e questionando-se diante dos rumos seguidos pela
as marcas textuais do autor implícito, num jogo de máscaras e de metamor-
Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974. Na belíssima narrativa Balada
foses conforme desenvolveu Maria Lúcia dal Farra em O narrador ensimes-
da praia dos cães, ficção e realidade se disputam com um registro crítico e
mado.
autocrítico da vida político-social sob o salazarismo.

H.lt 169
decisão, em 1973, de mudar o s u b t í t u l o das Aventuras de João
A produção literária de Vergílio Ferreira é bastante grande. Podemos Sem Medo de 'romance' para 'panfleto p o l í t i c o em forma de
destacar os seguintes títulos: Vagão J (1946), dentro do Neo-Realismo; romance'. O que é s i n t o m á t i c o no momento em que se observa
Mudança (1949) e Manhã submersa (1955), romances sociológicos com em Portugal a intensificação da campanha pela qual os chamados
problemática existencial; Aparição (1959) e Nítido nulo (1971), dentro da 'escritores independentes' (eufemismo de 'conservadores' ou
perspectiva filosófico-existencialista; Da fenomenologia a Sartre (1962), 'reacionários') t ê m vindo a proclamar (...) o fim da Ideologia
(. . .). Porque, como disse Thomas Mann, 1917 {Reflexões sobre
ensaio onde defende a sua apreensão da filosofia existencialista.
o homem não-politico): 'Ser-se n ã o - p o l í t i c o ou a n t i p o l í t i c o numa
altura em que o destino do homem apresenta o seu significado em
termos p o l í t i c o s corresponde a ser-se ou conservador ou reacio-
9.9 José Gomes Ferreira nário — pelo menos nos países cujos regimes perpetuam estrutu-
ras de Poder e de P r i v i l é g i o ' " ( A l e x a n d r e Pinheiro Torres — Vida
e obra de José Gomes Ferreira).
A escrita social de José Gomes Ferreira (1900) em prosa e verso
situa-se entre as mais vigorosas da literatura portuguesa contemporânea:

"a i m p o r t â n c i a de José Gomes Ferreira não se resume à simples


A obra poética de José Gomes Ferreira, após os poemas juvenis, gira
coragem de escrever em p ú b l i c o . Melhor: essa coragem é um gesto em torno da tensão dialética consciência individual/consciência social.
denso de implicações, pressupostos, consequências. Para compre- O pólo dominante dessa tensão, a afirmar-se gradativamente, é o social,
endermos bem os pormenores e o significado do espetáculo, que o como podemos notar desde o poema com que ingressa no Modernismo —
poeta envolve num halo feérico de espanto, tomemos nota do "Viver Sempre Também Cansa", de 1931:
seguinte:

a) o surrealismo, o neo-realismo e certo existencialismo, " E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,


é ele que os antecipa entre nós; discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
b) a sua obra galvaniza numa percepção originalíssima da
a u t o m ó v e i s de corrida. . .
modernidade vários fios condutores que v ê m de trás e estabelece
a mais complexa rede de energia poética que circula em versos E obpgam-se a viver a t é à Morte"
portugueses de hoje; (Poesia I, 1948)
c) verso a verso, poema a poema, série a série, os volumes
da 'poesia' comentam a época tumultuosa que vivemos e as suas
zonas de paz pobre, podre, com a e x u b e r â n c i a dum panfleto, en-
A posição social do poeta afirmar-se-á ainda mais a partir de Poesia I I
quanto algures, na misteriosa ambiguidade em que se movem os
(1950), para as demais coletâneas: Poesia III, 1961,Poesia IV, \910;Poesia
artistas maiores, 'um pássaro qualquer' essencialmente 'canta,
explica as flores';
V, 1973 e Poesia militante - 1, 2,3 (1977, 1978, 1978). Essa afirmação
sociológica não anula, ao contrário, destaca a tensão consciência individual/
(. . . ) consciência social:
e) não esquecer, enfim, que a prosa de José Gomes Fer-
reira (vagabundagens, invenções, m e m ó r i a s , diários verdadeiros " O Poeta m a n t é m os contrários unidos por um diálogo que não
ou imaginados, um a d m i r á v e l romance para crianças grandes e chega a resolver-se. Os contrários vivem e x p l í c i t a ou implicita-
pequenas) é o prolongamento da sua poesia. O mesmo toque mente num c o n v í v i o que não cessa. Ambos estes eus c o n t r á r i o s
chaplinesco, a mesma descoberta do 'irreal cotidiano', o mesmo coabitam, não se eliminando, e as suas ligações são sempre pro-
sobressalto diante das estrelas" (Carlos de Oliveira — O aprendiz fundas" (Alexandre Pinheiro Torres — Poesia: programa para o
de feiticeiro). concreto).

A par desse sentido de modernidade artística destacada por Carlos Nos textos em prosa de ficção, José Gomes Ferreira mostra-se de
de Oliveira, José Gomes Ferreira grande originalidade associando matérias de várias procedências e géneros,
•'IH tom irónico ou alegórico: O mundo dos outros, 1950; O mundo desa-
"quer apresentar-se como uma testemunha do seu tempo. O seu bitado, 1960; Os segredos de Lisboa, 1962; Aventuras maravilhosas de João
p r ó p r i o compromisso ainda o voltou a 'esclarecer' pela p r ó p r i a

170 171
Sem Medo, 1963; Tempo escandinavo, 1969; O irreal cotidiano, 1971 etc. moveram a Revolução de 25 de Abril. E uma situação de conflito extremo:
Sua obra memorialista crítica é igualmente importante: A memória das as personagens são levadas a uma guerra sem sentido e solidarizam-se huma-
nisticamente com os povos africanos que ajudavam a oprimir.
palavras, 1965 e Imitação dos dias, 1966.
Dois escritores, dessa literatura de guerra, devem ser destacados: João
de Melo e Antônio Lobo Antunes. O primeiro publicou a coletânea de
poemas Navegação da terra (1980) e duas narrativas em prosa: Histórias da
9.10 Fernando Namora resistência (1975) e A memória de ver matar e morrer (1977). Os cus de
Judas (1979), romance de Antônio Lobo Antunes, coloca o seu autor como
Fernando Namora (1919) é um dos mais populares ecritores do Neo- uma das boas revelações literárias dos últimos anos.
-Realismo. Retalhos da vida de um médico (duas séries, 1948 a 1963) tem
sido obra de referência para produções da televisão, cinema e música.
A obra de Fernando Namora é vasta. No início revela influência do O Surrealismo
presencismo, mas dele se afastou em seguida, com produções dentro do
realismo social. Este firma-se em Fogo na noite escura (1943) para conso- O Surrealismo, lançado por André Breton (1896-1970) em 1924, marcou
lidar-se em Casa da Malta (1945). toda a arte de vanguarda europeia no período entre as duas guerras mun-
A análise psicossocial ganha maior densidade em O homem disfarçado diais. É uma corrente estética onde a liberdade de criação exerce-se através
(1957) e Domingo à tarde (1962); em Os clandestinos (1972), temos sua da liberação do inconsciente e das opressões sociais.
melhor narrativa dentro desse processo. Entretanto, Fernando Namora sin- Ernesto Manuel de Melo e Castro (As vanguardas na poesia portuguesa
gulariza-se dentro do Neo-Realismo português como cronista social: Reta- do século XX) indica que o
lhos da vida de um médico é a produção paradigmática, nessa perspectiva.
"Surrealismo é um movimento de origem francesa, t í p i c o dos anos
20, em que se misturam, um tanto anarquicamente, influências
de DADA, de Freud e de c o n o t a ç õ e s marxistas. De DADA, herda
9.11 Urbano Tavares Rodrigues o humor (dito agora negro) e a desmi(s)tif icação aliada à ação pelo
absurdo e pelo l ú c i d o ; de Freud, o gosto pelo subconsciente, pela
As produções em prosa de ficção de Urbano Tavares Rodrigues (1923) psicologia de profundidade, pelo o n í r i c o , pelo automatismo, pelo
mostram a aproximação do realismo social do ideário existencialista. Sua s i m b ó l i c o ; do marxismo, a ação p o l í t i c a baseada na d e n ú n c i a do
personalidade é marcante e é atualmente um dos mais ativos propugnadores poder e c o n ó m i c o e cultural burguês, É, pois, natural que o Surrea-
da literatura social contemporânea, em especial após a Revolução de 25 de lismo chegue a Portugal pela via da i m p o r t a ç ã o , sendo A n t ô n i o
Abril. Pedro o primeiro que se p r o p õ e como surrealista p o r t u g u ê s , ainda
nos anos 30. Hoje, e numa perspectiva de releitura, teremos que
A obra de Urbano Tavares Rodrigues é vastíssima: 25 livros em prosa
citar o esquecido Edmundo de Bettencourt (ligado à Presença mais
de ficção (principais narrativas: Vida perigosa, 1955; A noite roxa, 1956;
por acasos de geração e geografia) como um poeta precursor de
Uma pedrada no charco, 1958; Bastardos do sol, 1959; As aves da madru- um possível Surrealismo p o r t u g u ê s . Mas tudo isto se passa antes
gada, 1959; Os insubmissos, 1961 etc), com muitas reedições e traduções; da guerra de 1939/45 e o Surrealismo p o r t u g u ê s só depois dessa
18 livros de viagens e crónicas e 17 livros de ensaio e crítica. guerra adquiriu foros de Movimento e de Vanguarda".

O principal divulgador do Surrealismo português foi Mário Cesariny de


9.12 Outros escritores
Vasconcelos (1924). Organizou antologias e um levantamento de textos
Merece ainda menção, a literatura social de Antunes da Silva (Arman- »<>bre o movimento {A intervenção surrealista, 1966). Dentre sua produção
do Antunes da Silva, 1921). Suão (1960) é seu romance de melhor reali- lllciária, Pena capital (1957) traz-nos uma escrita mais típica do movimento.
zação artística. José Saramago (1922) escreveu um romance social que abre Alexandre 0'Neil (Alexandre Manuel Vahia de Castro 0'Neil de
perspectivas, por associar ênfase sociológica, com elaboração estética: Levan- Hullióes, 1924) afastou-se do movimento surrealista, embora tivesse incorpo-
tado do chão (1980). i ulo a sua técnica. Sua produção é pequena, mas possui grande elaboração
A situação de guerra colonial, por outro lado, motivou o aparecimento «dística, contribuindo de forma eficaz para o desenvolvimento das ten-
de uma literatura que registra a perspectiva ideológica dos militares que pro- dências literárias experimentais no país (Tempo de fantasma, 1 9 5 1 ^ 0

172 173
O dinheiro cheira a pobre e cheira
reino da Dinamarca, 1958; Abandono vigiado, 1960 e outras coletâneas). A roupa do seu corpo
Outros poetas surrealistas: Antônio Maria Lisboa, Virgílio Martinho Aquela roupa
e Carlos Eurico da Costa. É desse último poeta uma reflexão política sobre o Que depois da chuva secou sobre o corpo
movimento: Porque n ã o tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
"Ter um 'estatuto' de surrealista em 1949, com todo o seu ardor A roupa
p r o t e s t a t á r i o sobre os valores convencionais e os outros que nos Que depois do suor n ã o foi lavada
cercavam (o fascismo) era o ser-se coerente e l ú c i d o : uma forma Porque não tinham outra
de luta. Limitada? Elitista? Posteriormente 'reformista'? É com
a consciência (ou indiferença) de cada um — e o julgamento dos 'Ganharás o p ã o com o suor do teu rosto'
outros" (A cidade de Palagúin, 1979). Assim nos foi imposto
E não:
'Com o suor dos outros ganharás o p ã o '
Ó vendilhões do templo
9.14 O experimentalismo poético Õ construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
A poesia portuguesa da década de 50 renovou-se sobretudo pelo ressur- Ô cheios de d e v o ç ã o e de proveito
gimento das tendências vanguardistas, correlacionadas agora com o movi-
mento neo-realista. Por outro lado, ela beneficiou-se do trabalho de três Perdoai-lhes Senhor
poetas bastante singulares: Jorge de Sena (1919-1978), Eugênio de Andrade Porque eles sabem o que fazem".
(1923) e Sofia de Mello Breyner (Sofia de Mello Breyner Andresen de Sousa
Tavares, 1919).
O trabalho poético de Jorge de Sena desarticula a sintaxe, conforme a A aproximação da proposta ideológica do Neo-Realismo com os movi-
técnica surrealista. Sua criticidade não ficou restrita ao nível da criação poé- mentos de vanguarda ocorreu em torno da revista Árvore (1951-1953),
tica, mas estendeu-se para a prosa de ficção, teatro, crítica e historiografia como assinalamos anteriormente. Dentre os poetas que colaboraram na
literárias. revista com esse sentido renovador podemos destacar Antônio Ramos Rosa
Eugênio de Andrade faz do referente histórico a matéria constitutiva (Antônio Vítor Ramos Rosa, 1924), Egito Gonçalves (José Egito de Oliveira
de seu trabalho artístico, como podemos notar neste fragmento do poema Gonçalves, 1922), Raul de Carvalho (Raul Maria de Carvalho, 1920) e Luís
"Palavras Interditas" {Poemas, 1965): Amaro (Francisco Luís Amaro, 1923).
Em uma linha mais idealista e formalista, situou-se a revista Távola
"As palavras que te envio são interditas Redonda (1950-1954), de onde surgiu o poeta, prosador, dramaturgo e
a t é , meu amor, pelo halo das searas;
ensaísta David Mourão-Ferreira (David de Jesus Mourão-Ferreira, 1927).
se alguma regressasse, nem já reconhecia
Na década de 60, surgiu o grupo universitário da Poesia 61, que trouxe
o teu nome nas suas curvas claras
grande contribuição formal para a poesia social portuguesa: Fiama Hasse
(. . .) Pais Brandão (1938), Gastão Cruz (1941), Maria Teresa Horta (Maria Teresa
E a noite cresce apaixonadamente. Horta de Mascarenhas, 1937). Uma das características do grupo foi a atuali-
Nas suas margens nuas, desoladas, zação da tradição poética portuguesa, com a utilização de técnicas experi-
cada homem tem apenas para dar mentais, como podemos observar neste poema de Fiama Hasse Pais Brandão:
um horizonte de cidades bombardeadas".
"Barcas Movas

É essa mesma historicidade que vai propiciar a Sofia de Mello Breyner En Lixboa, sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar.
os seus melhores poemas, como "As Pessoas Sensíveis" (Livro sexto, 1962):
Ai, mia senhor velida!

As pessoas sensíveis nao sao capazes


En Lixboa, sobre lo ler
De matar galinhas
barcas novas mandei fazer.
P o r é m são capazes
Ai, mia senhor velida!
De comer galinhas

175
174
Barcas novas mandei lavrar O trabalho poético de Herberto Hélder segue um rigor estrutural.
e no mar as mandei deitar A palavra é vista em seu poder de construção do poema. Em "Transfor-
A i , mia senhor velida! ma-se o Amador na Coisa Amada", há a atualização do poema camoniano
numa perspectiva surrealista:
Barcas novas mandei fazer,
e no mar as mandei meter.
Ai, mia senhor velida! "'Transforma-se o amador na coisa amada' com seu
João Zorro feroz sorriso, os dentes,
as mãos que relampejam no escuro. Traz r u í d o
Lisboa tem suas barcas e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
agora lavradas de armas
E cobre esse r u í d o rudimentar com o assombrado
silêncio da sua ú l t i m a vida.
Lisboa tem barcas novas
O amador transforma-se de instante para instante,
agora lavradas de homens
e sente-se o e s p í r i t o imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
Barcas novas levam guerra
de todas as coisas mortas".
As armas n ã o lavram terra

S ã o de guerra as barcas novas


no mar deitadas com homens Há correlação entre o tema amoroso e a linguagem: a relação de cons-
trução do poema é de natureza erótica, um trabalho feroz, mas amoroso.
Barcas novas são mandadas O poema como a "coisa amada" são assim construídos através de um
sobre o mar com suas armas trabalho concreto:
N ã o lavram terra com elas
" ( . . . ) O amador entra
os homens que levam guerra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Nelas mandaram meter
Que transforma a coisa amada".
os homens com sua guerra

Ao mar mandaram as barcas


novas lavradas de armas A produção poética de Herberto Hélder foi reunida pelo autor em
Poesia toda I t I I (1973). Suas melhores realizações literárias estão na
Em Lisboa sobre o mar poesia, embora tenha escrito um excelente volume de contos (Os passos em
armas novas são mandadas" volta, de 1963).
(Barcas novas, 1967)

0 novo romance português


A atualização da cantiga medieval de João Zorro tem um sentido
crítico: há a denúncia do processo de desumanização da guerra. Portugal, As técnicas do novo romance francês, como indicamos anteriormente,
a essa altura, reprimia os movimentos de libertação na África. foram assimiladas e, mesmo, desenvolvidas de forma criativa pelos principais
Os poetas da antologia Poesia experimental procuraram incorporar escritores do Neo-Realismo português. Outros ficcionistas ideologicamente
à sua poética as contribuições da moderna teoria da comunicação, do estru- próximos desse grupo, como Alfredo Margarido (1928) e Almeida Faria
turalismo linguístico e do informalismo das artes plásticas. Receberam 1 losé de Almeida Faria, 1943), também o fizeram de forma mais evidente.
também grande influência do concretismo brasileiro. Dentre os escritores Alfredo Margarido, professor, ensaísta e prosador, segue a técnica do
do grupo, destacam-se Herberto Hélder (Herberto de Oliveira Hélder, 1930), novo-romance em No fundo deste canal (1960), A centopeia (1961) e As
próximo das técnicas surrealistas, e Ana Hatherly (Ana Maria Hatherly, portas ausentes (1963). Teorizou o sentido ideológico do novo romance em
1929) e Melo e Castro (Ernesto Manuel de Melo e Castro, 1923). () novo romance, em co-autoria com Artur Portela Filho. No ensaio "O Novo

176 177
E se um dia hei de ser p ó , cinza e nada
Romance e o Novo Homem", inserido nesse volume, Alfredo Margarido Que seja a minha noite uma alvorada.
Que me saiba perder. . . pra me encontrar. . . "
assinala que
{Sonetos completos, 1952)
" A s experiências das técnicas romanescas n ã o são (. . .) elementos
vãos, artificiosamente inventadas para acorrer à necessidade de
escrever de qualquer autor: correspondem a uma posição delibe- O individualismo de Florbela Espanca leva-a assim a uma espécie
radamente assumida perante a totalidade dos movimentos sociais. "donjuanismo feminino", sem maior reflexão sobre a condição social
(. . .) Se o Novo Romance tem ainda muito de m o n o g r á f i c o , de Jó mulher. Em Irene Lisboa (1892-1958), os aspectos sociais da situação femi-
experimental, tal fato decorre da necessidade de experimentar, de nina já aparecem. Nota-se uma tensão da muiner culta com o prqyincjanismo
ensaiar novas f ó r m u l a s de abordar o mundo (. . . ) " .
f- nos costumes, tanto em Lisboa como nas regiões interioranas.
O realismo social atualiza-se com impregnações existenciais na litera-
Almeida Faria desenvolve essa técnica com narrativas bem cons- tura feminina da década de 50. Muito da ideologia patriarcal, entretanto,"
ainda permanece em Agustina Bessa-Luís (Maria Agustina Bessa.-Lufs, 1922),
D » voltada para uma prosa dentro da tradição portuguesa. I
f*- Na õonTdê Ã^stifiaBe^saTluiTosfatores histórico-sociais coexistem
io salazarismo (Cortes, 1978 e Lusitânia, 1980). com a dimensão arquetípica dos fatos registradosjela escrita. Há todo unr
ritúãTrias relações sociais que se atUallZâ êm cadaTpoca, po3êndo-se estabe-
> lecer um paralelo de situações. Seu romance paradigmático é A Sibila
9.16 A literatura de autoria feminina / (1954), mas sua obra em prosa de ficção é vasta, com 21 títulos, desde
O século XX registra a afirmação crescente de escritorgs entre os prin- \ fechado (1948) até O mosteiro (1980). Publicou ainda textos tea-
cipais poetas e prosadores de Portugal. Há todo um processo de libertação \, crónicas, memórias e biografias. y
Mais citadina é a ficção de Fernanda Botelho (Maria Fernanda Botelho
sociaT^qúê^encontra correspondências nas produções culturais. A afirmação
de Faria e Castro, 1926), ao situar a situação da mulher dentro da deca-
é bem evidente nos últimos anos do salazarismo e no período democnítico

L
dência burguesa.
apósaKevolução de 25 de Abril.
A condição social da mulher ganha maior densidade estética e ideoló-
São muitos os nomes de escritoras que poderiam ser citados. Alguns
gica em Isabel da Nóbrega (1925) e Maria Judite de Carvalho (1928):
já foram mencionados, como Sofia de Mello Breyner, Fiama Hasse Pais
Brandão e Ana Hatherly. Assinalaremos agora ourio^qu^permitam uma "Se a mulher plena, no amor e no c o n v í v i o , a mulher projeto nos
apreciação"hTstònca^ surge em Isabel da N ó b r e g a , no seu Viver com os Outros (. . .),
A luta"^õntra as coerções sociais pré-capitalistas tem em Florbeja creio que a mulher portuguesa m é d i a , em toda a sua dolorosa ver-
Espanca (Florbela de Alma da Conceição Espanca - 1894/19301 um mo- j yvS dade e l i m i t a ç ã o , se desprende dos quadros t ã o exatos, irónicos e
. \ay^ brandos, mas agudamente melancólicos de Maria Judite de Car-
mento isolado, individual. A escritora insere-se no p e r í õ d o d e transição do
valho. Com ela se erguem ao primeiro plano da literatura os grupos
Simbolismo para o Modernismo: pequeno-burgueses desprovidos de ócio e prazer (. . .) que se
'Amar! demarcam entre a classe possidente e o proletariado rural ou fabril
semiescravizado. Costureiras, mulheres precocemente velhas,
Eu quero amar, amar perdidamente! mulheres-criadas (. . .) sem horizontes" (Urbano Tavares Rodrigues
Amar só por amar: Aqui. . . a l é m . . . — Ensaios de escreviver).
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente. .
Amar! Amar! E n ã o amar n i n g u é m ! Em Maria Teresa Horta (Maria Teresa de Mascarenhas Horta, 1937) já
Recordar? Esquecer? Indiferente!. . . encontramos uma literatura derrnlitãncia agressiva, dentro dolnòyimento
render ou desprender? É mal? É bem? feminista. U caráter reivindicatono atinge uma Unguãggm nova, "não jtca
Quem disser que se pode amar a l g u é m ipèTTãrãõ~nível do conteúdo. Entre suãTpro^ções,"rí3 um romance de nível
rante a vida inteira é porque mente! .uyctfGTpímbas asmâòTsôbrTõ~corpo, ib>/uTTãs polémicas Novas cartas
ma primavera em cada vida: l„.rtuguesas (1974),'escritas em co-autoriacomMaria Isabel BerrenóTMaria
& 5 V » > Tl eciso contá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!
V. ll)odi~Costa, que escandalizou a moral provinciana dos últimos"tempos

179
do salazarismo. Após a queda da ditadura, sua perspectiva social acentuou-se
cm Mulheres de abril (1977), coletânea de poemas.
A produção de autoria feminina mais significativa do período subse-
quente à Revolução de 25 de Abril e talvez o melhor romance de autoria
Sugestões para leitura
feminina em Portugal é Casas pardas (1977), de Maria Velho da Costa Alexandre Pinheiro T O R R E S , no capítulo "Repensar (em 1976) o
(Maria de Fátima Bivar Velho da Costa), construído na perspectiva das téc- Neo-Realismo" (O Neo-Realismo literário português. Lisboa, Moraes, 1977.
riicas mais atuais_do romance contemporâneo, signmcativamente, no ano p. 10-42), problematiza o sentido estético-ideológico dessa corrente literária.
selmuTfe. publicavajseiim ojutrogranoe romãrfee^e vanguarda — Finisterra, Para a análise do caráter dinâmico da escrita neo-realista e de suas correla-
de Carlos"dTTJIivéira. PodêTe f a l a r T l i s s i m T l í r u m ^ d e maior con- ções com a escrita social brasileira, ler o capítulo "Convenção e estereotipia:
fluência, entre as principais produções literárias, no que se refere à autoria o processo de superação da faticidade" (Benjamin A B D A L A J R . A escrita
masculina ou feminina. neo-realista. São Paulo, Ática, 1981. p. 67-85).
É desse último escritor o poema "Carta a Ângela", publicado muito
antes e referido por Urbano Tavares Rodrigues (Ensaios de escreviver):

"Que Carlos de Oliveira pensa o amor como partilha total, n ã o só


fusão dos corpos, mas luta em comum, escolha da vida, n ã o nos Síntese - O Pós-Modernismo: Neo-Realismo e tendências
deixa d ú v i d a a sua 'Carta a  n g e l a ' , onde a mulher, uma das mais contemporâneas
belas imagens de mulher de nossa poesia, é a m ã o de esperança,
sonho de luz e de futuro, mas t a m b é m aquela que se perde com o 1. Neo-Realismo
poeta em lágrimas de sombra, não o eco nem o alter ego, mas a
viandante das mesmas marchas e regressos, aliada a t é nos erros — Literatura "engajada" contra o "descompromisso" do presencismo
cometidos, rio de alegria onde tudo era areia e dor, presença cons-
— Precursor: Ferreira de Castro-técnica do jornalismo levada para a lite-
tante, destino que se confunde com a beleza e com o fogo da ratura.
palavra.
a) Primeiras manifestações
Para ti, meu amor, é cada sonho
í O Diabo
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
• Revistas e jornais < Sol Nascente
cada dia dos dias que viver. { Vértice
• Romance: Gaibéus (Alves Redol)
Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei


b) D é c a d a de 1950
I Novo Cancioneiro
Novos Prosadores
Galo

e em lágrimas de sombra nos perdemos! • Maior elaboração artística


As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!
í Existencialismo
• Influências \o romance francês
Surrealismo
Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos, c) Década de 1960
foste de novo, e sempre, a m ã o de esperança
• Intensificação da elaboração f Técnicas de vanguarda
nos meus versos errantes e perdidos.
artística | Experimentalismo poético
Transpondo os versos vieste à minha vida
* Características do Neo-Realismo
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida • Não é propriamente uma escola literária, mas um método (dialético) de
aqui te deixo tudo, meu amor!" abordagem da realidade

180
181
{ Não se reduz a um modelo
Apresenta-se em processo de desenvolvimento
Deve suscitar uma atitude no leitor
— Base teórica
Futurismo e dadaísmo
Freudianismo
[ Conotações marxistas
Escritores surrealistas
.... f Nível do autor
- Intervenção na real.dade j Nfve( d Q ^ • Mário Cesariny de Vasconcelos — principal divulgador
- Processo de conscientização através da escrita

{ Económica
Pol ítica
Alexandre 0'Neil
( Elaboração artística significativa
Afastou-se do movimento, mas desenvolveu
suas técnicas
Cultural Antônio Maria Lisboa
- Alienação = roubo de características, atributos ou direitos próprios do • Outros poetas Virgílio Martinho
indivíduo Carlos Eurico da Costa

Experimentalismo p o é t i c o
Principais escritores do Neo-Realismo
- Ressurgimento das técnicas vanguardistas por volta de 1950
Principal escritor militante
- Alves Redol
Autor do primeiro romance neo-realista í Jorge de Sena
- Três poetas singulares < Eugênio de Andrade
- Manuel da Fonseca — utiliza técnica "cinematográfica"
[ Sofia de Mello Breyner

(
Paradigma para o estudo do desenvolvimento
do Neo-Realismo - Revista Árvore - aproximação do Neo-Realismo
Prosa e poesia de grande elaboração artística Antônio Ramos Rosa
í 19) Uma abelha na chuva • Principais poetas Egito Gonçalves
• Três "saltos" artísticos l 29) Revisões da década de 1960 Raul de Carvalho
[ 39) Finisterra Lu ís Amaro
Revista Távola Redonda — David Mourão-Ferreira
- José Cardoso Pires - utiliza técnicas das novelas norte-americanas
Grupo Poesia 61 - próximo do Neo-Realismo
- Augusto Abeiaira - vale-se de procedimentos narrativos do novo romance
francês
„. _
- Verg.ho Ferre.ra
í Afastou-se do Neo-Realismo
t a t u r a filosófico-existencialista
Li er
• Principais poetas
( Fiama Hasse Pais Brandão
Gastão Cruz
Maria Teresa Horta

Modernidade artística Grupo Poesia Experimental - influência do concretismo brasileiro


— José Gomes Ferreira
Testemunho de seu tempo
Principais poetas Ana Hatherly
— Fernando Namora — um dos ficcionistas mais populares Melo e Castro
Aproxima realismo social do ideário
- Urbano Tavares Rodrigues Trabalho poético de grande rigor estrutural
existencialista
Herberto Hélder Próximo das técnicas surrealistas
, Antunes da Silva Situa-se entre os principais poetas contem-
- Outros escritores \ , _
José Saramago porâneos
João de Melo
• Literatura de guerra O novo romance
Lobo Antunes
— Suas técnicas influenciaram alguns escritores neo-realistas
Surrealismo | Alfredo Margarido
• Principais escritores
Almeida Faria
— Chega ao país com atraso
183
182
Literatura de autoria feminina
— Correspondência com libertação social
..
— Escritoras
. í Sofia de Mello Breyner
apêndice
. . . .contemporâneas _.
J Fiama Hasse „Paes 'Brandão
,_
As literaturas africanas
u

ja mencionadas j Ana Hatherly


— As linhas de desenvolvimento: de língua portuguesa
• Florbela Espanca: afirmação através do individualismo
,' Í Irene Lisboa
• Aproximações do realismo social | Augustina Bessa Luís "Juntei na m ã o
os meus poemas
• Maior densidade estética í Isabel da Nóbrega e lancei-os ao deserto
e ideológica { Maria Judite de Carvalho para que as areias
se transformem em protesto"
Maria Teresa Horta

( Maria Isabel Berreno


Maria Velho da Costa
(Costa A N D R A D E - "Motivo").

Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Prínci-


• Um grande romance de autoria feminina: Casas Pardas (Maria Velh
pe são hoje países independentes. Pertenciam ao antigo Ultramar português,
da Costa) eufemismo para esconder a situação colonial, e conseguiram sua independên-
• A perspectiva social do feminismo cia em 1975. Estiveram submetidos à metrópole por cinco séculos.
A formação histórica desses Estados é muito anterior ao surgimento
dos portugueses, à exceção do Arquipélago de Cabo Verde que era desabi-
tado. Com o expansionismo mercantilista de Portugal, no século XV, come-
çaram as dificuldades desses povos africanos. Cabo Verde e São Tomé e
Príncipe, por exemplo, transformam-se em entrepostos de escravos captura-
dos no continente africano.
A penetração portuguesa não teve maiores dificuldades até meados do
século X V I I . Nessa época, a rainha Zinga, de Angola, aliou-se aos holandeses
contra os portugueses. Estes, entretanto, venceram os angolanos com auxílio
de colonos brasileiros. A partir desse momento, Portugal viu-se obrigado a
cfetivar cada vez mais um domínio militar nas colónias africanas.
Em meados do século X I X , o trabalho escravo mostrou-se improdu-
tivo diante do desenvolvimento capitalista: proíbe-se, então, o sistema es-
cravocrata. As grandes potências europeias, mais desenvolvidas dentro do
capitalismo, substituíam a política colonialista pela imperialista: ela era mais
económica e criava uma ilusão de autonomia, que evitava despesas adminis-
trativas e reduzia as militares. Portugal, entretanto, não renovou, pois pos-
xuía uma estrutura sócio-econômica atrasada e dependente dos países euro-
peus mais adiantados, em especial da Inglaterra.
Não interessava às grandes potências a continuação do império colo-
nial português. Pretendiam explorá-lo diretamente, sem intermediários.
1'oitugal dominava na época, de forma efetiva, apenas as faixas litorâneas
de seus territórios no continente africano. A Inglaterra, a França e a Alema-

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