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NOVO TESTAMENTO 2

W a r r e n W. W i e r s b e
C omentário B íblico
Expositivo

Novo Testamento
Volume II

W arren W . W iersbe
S u m á r io

E f é s i o s ....................................................................................................................... 0 7

F il i p e n s e s ...................................................................................................................8 0

C O L O S S E N S E S ...................................................................................................... 1 3 2

1 T e s s a l o n i c e n s e s ..............................................................................................2 0 1

2 T e s s a l o n i c e n s e s .............................................................................................2 4 8

'1 T i m ó t e o .............................................................................................................2 7 2

2 T i m ó t e o ..............................................................................................................3 1 1

T i t o .......................................................................................................................... 3 3 6

F i l e m o m ................................................................................................................. 3 4 9

H e b r e u s ..................................................................................................................3 5 5

T i a g o ...................................................................................................................... 4 2 9

1 P e d r o ................................................................................................................. 4 9 9

2 P e d r o ..................................................................................................................5 6 2

1 J o ã o .................................................................................... 608

2 J o ã o .................................................................................................................... 6 8 4

3 J o ã o ............................... ................................ ...................692

Ju d a s .....................................................................................................................6 99

A p o c a l i p s e ..........................................................................................................7 2 0
T ito

ESBOÇO II. DEVERES DOS CRISTÃOS -


Tema-chave: Os cristãos devem manter as CAPÍTULOS 2, 3
boas-obras A. Os santos mais velhos - 2:1-4a
Versículo-chave: Tito 3:8 B. Os santos mais jovens - 2:4b-8
C. Os servos cristãos - 2:9-15
I. A ORGANIZAÇÃO DA IGREJA - D. Os cristãos como cidadãos - 3:1-8
CAPÍTULO 1 E. Pessoas problemáticas - 3:9-11
A. Pregar a Palavra de Deus - F. Conclusão - 3:12-15
1:1-4
B. Ordenar líderes qualificados - CONTEÚDO
1:5-9 1. Nosso obreiro em Creta
C. Calar os falsos mestres - (TM)............................................... 337
1:10-16 2. Como ter uma igreja saudável
(Tt 2 - 3 ) ......................................... 343
Ao ler e estudar esta carta, vemos que
1 se trata de uma versão resumida da primeira
carta de Paulo a Timóteo. No primeiro capí­
tulo, Paulo lembra Tito de três responsabili­
Nosso O br eir o dades que lhe cabem.
em C reta 1 . P r e g a r a P a l a v r a d e D eu s
T ito 1 (T t 1 :1 -4 )
Nesta saudação um tanto longa, Paulo
enfatiza a importância da Palavra de Deus.
Em quatro ocasiões, usa a preposição grega
kata, cujo significado básico é "abaixo".
nquanto Timóteo trabalhava na metrópo­ Neste contexto, porém, kata ajuda a enten­
E le de Éfeso, Tito estava ocupado na ilha
de Creta. Tito era um cristão grego (Gl 2:3)
der a relação entre o ministério e a Palavra
de Deus.
que havia servido a Paulo com grande zelo Consideremos as quatro frases.
em missões especiais à igreja em Corinto "[Segundo] A fé que é dos eleitos de
(2 C o 7:13, 14; 8:6, 16, 23; 12:18). Ao que D eus* (v. Ia). O ministério de Paulo era
parece, como Timóteo (1 Tm 1:2), Tito ha­ governado pela Palavra de Deus. Ele era
via aceitado a Cristo pelo ministério pessoal um "servo de Deus" (a única passagem em
de Paulo (Tt 1:4). "Quanto a Tito", escreveu que Paulo usa essa expressão) e um "men­
Paulo, "é meu companheiro e cooperador sageiro enviado com uma comissão espe­
convosco" (2 C o 8:23). cial" por Jesus Cristo. O propósito de seu
Mas as pessoas da ilha de Creta não eram ministério era compartilhar a fé, o conjun­
das mais tratáveis, e Tito estava ficando de­ to de verdades contidas na Palavra de Deus.
sanimado. É provável que fosse jovem como O s "eleitos de Deus" são os que creram
Timóteo. Mas, ao contrário de Timóteo, não em Jesus Cristo como Salvador (Ef 1:4; 1 Pe
tinha uma predisposição para a timidez nem 1:1-5).
problemas de saúde. Paulo havia estado com “A verdade segundo a piedade* (w. 1b,
Tito em Creta e o deixara lá para corrigir o 2). Com o em 1 Timóteo, a piedade é um
que não estava em ordem. Uma vez que conceito importante nesta carta, apesar de
havia judeus de Creta em Pentecostes (At o termo, em si, ser usado apenas uma vez.
2:11), é possível que estes tenham levado o Mas a referência repetida às "boas obras"
evangelho a sua terra de origem. enfatiza esse tema (Tt 1:16; 2:7, 14; 3:1, 5,
Tito enfrentava uma série de problemas. 8, 14). A verdade do evangelho transforma
As igrejas necessitavam de líderes qualifi­ uma vida de "impiedade" (Tt 2:12) em uma
cados, e os diversos rebanhos dentro das vida de santidade. Infelizmente, muitos dos
congregações precisavam ser pastoreados. que freqüentavam a igreja de Creta, como
Um grupo de falsos mestres tentava mistu­ alguns membros das congregações de ho­
rar a Lei judaica com o evangelho da graça je, professavam ser salvos, mas levavam
(Tt 1:10, 14), enquanto alguns dos cristãos uma vida que negava essa profissão de fé
gentios abusavam da mensagem da graça, (Tt 1:12).
transformando-a em licenciosidade (Tt 2:11­ A fé em Jesus Cristo não apenas salva e
15). O s habitantes de Creta eram, por na­ torna a vida piedosa hoje, como também
tureza, pessoas difíceis (Tt 1:12, 13), e Tito nos dá esperança para o futuro (Tt 1:2). As
precisava de paciência e de amor extraor­ promessas de Deus dão segurança para o
dinários. Teria sido fácil para Tito "receber futuro, e Deus não pode mentir (ver Nm
um cham ado de Deus para ministrar em 23:19). Somos nascidos de novo "para uma
outro lugar", mas ele perseverou e termi­ viva esperança" (1 Pe 1:3), pois cremos no
nou seu trabalho. Cristo vivo. Nós, cristãos, temos a vida eterna
338 TI TO 1

agora (Jo 3:16; 1 Jo 5:11, 12); mas quando 2 . L íd e r e s o r d e n a d o s e q u a l if ic a d o s


Jesus Cristo voltar, desfrutaremos a vida eter­ ( T t 1:5-9)
na de maneira ainda mais maravilhosa. Um dos motivos pelos quais Paulo deixou
"Por [segundo o] mandato de Deus" Tito na ilha de Creta foi para que organizas­
(v. 3). Deus revela sua mensagem por meio se as congregações locais, "[pondo] em or­
da pregação. Não se trata de uma referên­ dem as coisas restantes". Essa expressão é
cia ao ato de proclamar a Palavra, mas sim um termo médico e se refere a endireitar um
ao conteúdo dessa mensagem. "Aprouve a membro torto. Tito não era o ditador espiri­
Deus salvar os que crêem pela loucura da tual da ilha, mas sim o representante apos­
pregação [a mensagem da Cruz]" (1 Co tólico oficial de Paulo, com autoridade para
1:21). A Palavra do evangelho foi confiada realizar sua obra. Fazia parte da política de
a Paulo (ver 1 Tm 1:11) que, por sua vez, a trabalho de Pauío ordenar presbíteros nas
confiou a Tito. Esse ministério estava em igrejas que começava (At 14:23), mas o após­
conformidade com as ordens de Deus e tolo não havia ficado tempo suficiente em
não lhe foi dado por homens (Gl 1:10-12). Creta para ordenar esses líderes.
Como em 1 Timóteo, o títuío Salvador Tito 1:6-8 apresenta uma série de qualifi­
é repetido com freqüência em Tito (1:3, cações já discutidas em nosso estudo sobre
4; 2:10, 13; 3:4, 6). A Palavra escrita dada 1 Timóteo 3:2, 3: "irrepreensível, esposo de
por Deus revela o Salvador, pois é dele uma só mulher, temperante, sóbrio, modes­
que o pecador precisa. A graça de Deus to, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado
traz salvação, não condenação (Tt 2:11). ao vinho, não violento, porém cordato, ini­
Jesus poderia ter vindo ao mundo como migo de contendas, não avarento". O fato
Juiz, mas escolheu vir como Salvador (Lc de esses critérios aplicarem-se aos cristãos
2 :10, 11). da ilha de Creta, bem como àqueles da ci­
*Segundo a fé comum" (v. 4). O termo dade de Éfeso, comprova que o padrão de
"comum" refere-se a "ter em comum". A fé Deus para os líderes não varia. Tanto as igre­
pertence a todo o povo de Deus, não ape­ jas das cidades grandes quanto aquelas das
nas a uns poucos escolhidos. Cristãos de cidades pequenas precisam de pessoas pie­
diferentes denominações podem ter carac­ dosas nos cargos de liderança.
terísticas distintas, mas todos os que pos­ Vejamos, agora, outras nove qualificações.
suem a mesma fé salvadora compartilham "Que tenha filhos crentes (v. 6b). Os
"da nossa comum salvação" (Jd 3). Há um filhos dos presbíteros devem ser cristãos.
corpo definido de verdades confiado à Igre­ Afinai, se um servo de Deus não pode ga­
ja, a "fé que uma vez por todas foi entregue nhar os próprios filhos para Cristo, como
aos santos" (Jd 3). Qualquer ensinamento espera ser bem-sucedido com os de fora?
que se desvie da "fé comum" é falso e não Trata-se do mesmo princípio que Paulo
deve ser tolerado na congregação. enfatiza a Timóteo (1 Tm 3:5): a vida e o
Ao recapitular essas quatro declarações, serviço cristãos devem começar no lar. Os
vê-se que Paulo relaciona tudo em seu mi­ filhos dos presbíteros não apenas devem ser
nistério à Palavra de Deus. Seu chamado e salvos, mas também ser bons exemplos de
sua pregação dependiam da fé em Cristo. obediência e de dedicação. Caso pudessem
O apóstolo desejava que Tito compreen­ ser acusados de "dissolução" [vida desre­
desse tal fato e que colocasse a Palavra de grada] ou "insubordinação" [desobediência,
Deus como prioridade em seu ministério. incapacidade de se sujeitar à autoridade],
Observamos, ao longo das três epístolas desqualificariam o pai para o presbiterato.
pastorais, uma ênfase sobre o ensino da É evidente que isso se aplica aos filhos que
Palavra de Deus. As igrejas locais devem ainda vivem com a família sob a autorida­
ser "escolas bíblicas", em que a Palavra de de do pai.
Deus é ensinada de maneira sistemática É comum cristãos novos na fé sentirem
e prática. o chamado para o ministério e o desejo de
TITO 1 339

ser ordenados mesmo antes de terem firma­ "Amigo do bem " (v. 8a). Isso inclui a
do sua família na fé. Quando os filhos são amizade com pessoas boas e o gosto por
pequenos, não se trata de um problema sé­ bons livros, boa música, boas causas e mui­
rio, mas para os filhos mais maduros, pode tas outras coisas boas. O homem bom é
ser um grande choque ver que, de repente, aquele que tem um coração bom e se cerca
sua família tornou-se "religiosa"! O pai sá­ de coisas boas. É difícil crer que um servo
bio ganha a própria família para Cristo e lhes consagrado de Deus se envolveria delibe­
dá a oportunidade de crescer antes de ir para radamente com coisas nocivas a ele e a sua
o seminário. Teríamos menos desastres no família.
ministério, se essa política fosse seguida com "Justo" (v. 8b). Uma boa tradução para
mais freqüência. esse adjetivo é "direito". Deve ser um ho­
"Despenseiro de Deus" (v. 7a). Um des­ mem de integridade, fiel a sua palavra e que
penseiro não possui coisa alguma; antes, pratica o que prega. Sua conduta é reta.
administra tudo o que seu senhor lhe con­ "Piedoso" (v. 8c). Esse termo dá a idéia
fia. Talvez o despenseiro {ou "mordomo") de pureza e de santidade. "Sede santos,
mais conhecido da Bíblia seja José, que ti­ porque eu sou santo" (1 Pe 1:16). O radical
nha controle absoluto sobre todos os negó­ da palavra "santo" significa "diferente". Os
cios de Potifar (Gn 39:1-9). A característica cristãos são diferentes dos pecadores perdi­
mais importante do despenseiro é sua fide­ dos, pois, pela graça de Deus, são novas
lidade (Mt 25:21; 1 C o 4:1, 2). Deve usar o criaturas (2 Co 5:17).
que lhe é confiado para o bem e para a gló­ "Que tenha domínio de si" (v. 8d). Tra­
ria de seu senhor, não para os próprios inte­ ta-se de uma referência ao autocontrole e se
resses (ver Lc 16:1-13). aplica aos desejos e às ações do homem. Um
O presbítero não deve jamais dizer: "Isto termo sinônimo é "disciplinado". O pastor
é meu!" Tudo o que ele tem vem de Deus deve ter disciplina quanto ao uso de seu tem­
(Jo 3:27) e deve ser usado para Deus. Seu po, a fim de fazer todo o seu trabalho. Deve
tempo, seus bens, suas ambições e talentos ter disciplina quanto a seus desejos, espe­
lhe foram dados como empréstimo pelo Se­ cialmente quando membros bem-intencio­
nhor, e ele deve ser fiel ao usar todos esses nados tentam empanturrá-lo com bolo e café!
recursos para honrar a Deus e edificar a igre­ Deve ter a mente e o corpo sob controle,
ja. É evidente que todos os cristãos, não sujeitando-se ao Espírito Santo (Gl 5:23, ter
apenas os pastores, devem ser despenseiros "domínio próprio").
fiéis! "Apegado à palavra fiel" (v. 9). Paulo
"Não arrogante" (v. 7b). Um presbítero gostava de üsar o termo fiel (ver 1 Tm 1:15;
não deve ser inflexível, sempre fazendo pres­ 4:9; 2 Tm 2:11; Tt 3:8). A Palavra de Deus é
são para que sua vontade prevaleça. Por fidedigna, pois Deus não pode mentir (Tt
certo, os membros da igreja devem respei­ 1:2). Uma vez que a palavra é fiel, os que
tar e seguir a liderança do presbítero, mas ensinam e pregam a Palavra também devem
devem estar certos de que ele é, de fato, um ser fiéis. Paulo volta a falar da sã doutrina
líder, não um ditador. Um pastor inflexível é que vimos em 1 Timóteo 1:10. É a doutrina
arrogante, não aceita as críticas e sugestões salutar, que promove crescimento espiritual.
dos membros da sua igreja e impõe sua von­ Assim, os presbíteros têm dois ministé­
tade em todas as coisas. rios com respeito à Palavra de Deus: (1)
"Não irascível" (v. 7c). Não deve se irri­ edificar a igreja pela sã doutrina; e (2) rejei­
tar com facilidade. Existe uma ira justa con­ tar os falsos mestres que espalham doutrinas
tra o pecado (Ef 4:26), mas grande parte de perniciosas. O membro ingênuo que decla­
nossa ira é injusta e dirigida contra pessoas. ra: "Não quero doutrinas; prefiro devocionais
O homem reto deve irar-se diante da injusti­ práticas!", não sabe o que está falando. Sem
ça. Com o diz um conselho sábio: "A calma a verdade (ou seja, sem a doutrina bíblica),
é preciosa demais para ser perdida". não há ajuda nem saúde espirituais.
340 TI TO 1

A menção aos que se opõem à verda­ Paulo resume o caráter dos falsos mes­
deira doutrina leva Paulo à terceira respon­ tres em Tito 1:16. Eram "abomináveis", ou
sabilidade de Tito. seja, "detestáveis, repulsivos". Cristãos que
tivessem bom senso espiritual se sentiriam
3 . C a la r o s fa lso s m estres absolutamente enojados com o caráter e a
( T t 1 :1 0 -1 6 ) conduta desses homens e jamais os segui­
Não tardou para que falsos mestres surgis­ riam. Eram "desobedientes", porque recusa­
sem na Igreja primitiva. Em todo lugar onde vam ser persuadidos. Estavam decididos e
Deus semeia a verdade, Satanás logo apa­ se negavam a encarar a verdade. O adjetivo
rece para semear mentiras. Tito enfrentava "reprovados" significa, literalmente, "incapa­
inimigos semelhantes aos descritos em 1 Ti­ zes de passar em um teste". Deus não pode­
móteo: mestres que ensinavam uma mistura ria usá-los, pois se mostraram inadequados.
de legalismo judaico, tradições humanas e Trata-se do mesmo termo grego traduzido
misticismo. Paulo apresenta três fatos acer­ por "desqualificado" em 1 Coríntios 9:27.
ca desses falsos mestres. Depois de descrever o que esses falsos
O que eles eram pessoalmente. Paulo mestres eram, Paulo trata de um segundo fato.
não tem nada de bom a dizer sobre eles! O que eles faziam. Estava claro que es­
Recusavam-se a submeter-se à Palavra de ses falsos mestres contavam mentiras de
Deus ou à autoridade do servo de Deus, casa em casa e, desse modo, perturbavam
pois eram "insubordinados", adjetivo que a fé do povo. Famílias inteiras eram afetadas
também pode ser traduzido por "rebeldes". por suas doutrinas perniciosas. Dentre ou­
É preciso ter cuidado com mestres que não tras coisas, ensinavam o legalismo judaico
se sujeitam à autoridade. ("especialmente os da circuncisão" Tt 1:10;
Eram "palradores frívolos". Suas palavras ver 3:9) que Paulo rejeitava. Também en­
impressionavam as pessoas, mas não tinham sinavam "fábulas judaicas" (Tt 1:14), uma
qualquer conteúdo nem substância. Além expressão que provavelmente descreve in­
disso, falavam demais e faziam de menos. terpretações fantasiosas das genealogias do
Sabiam dizer aos outros o que fazer, mas Antigo Testamento (1 Tm 1:4).
eles próprios não praticavam o que prega­ Sempre me surpreendo com as coisas
vam. Ver especialmente Tito 1:16. que algumas pessoas conseguem extrair das
O mais triste é que enganavam as pes­ Escrituras! Lembro-me de uma ocasião em
soas com suas doutrinas falsas. Afirmavam que participei de um programa de rádio
ensinar a verdade, quando, de fato, masca- em Chicago. Falávamos sobre profecias
teavam ilusões. Uma vez que eles próprios bíblicas, e o programa era aberto para liga­
eram enganados por Satanás, enganavam a ções de ouvintes. Um homem telefonou e
outros "ensinando o que não [deviam]" (Tt tentou monopolizar a discussão apresentan­
1 : 1 1 ). do suas interpretações estranhas das profe­
Eram carnais e m undanos: "sempre men­ cias de Daniel. Rejeitou a explicação clara
tirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos" da Bíblia e ficou extremamente irritado co­
(Tt 1:12). Uma acusação e tanto! Em vez migo quando me recusei a concordar com
de colocarem em prática as coisas belas suas idéias fantasiosas.
da vida espiritual, viviam em função dos Dr. David Cooper costumava dizer: "Quan­
próprios apetites. Paulo usa adjetivos extre­ do o significado mais simples das Escrituras
mamente fortes. Esses homens não eram faz sentido, não há por que buscar outras
apenas "feras", mas "feras t e r r í v e i s além interpretações". Não temos necessidade de
de glutões, eram p reg u içosos. Eram celebri­ encontrar "significados mais profundos" para
dades, não servos. Viviam à custa de seus os ensinamentos claros da Palavra de Deus.
seguidores, e (como é típico da natureza Esse tipo de abordagem à Bíblia dá espaço
humana) seus seguidores aceitavam essa para o "estudioso" encontrar qualquer coi­
situação com prazer! sa que estiver procurando!
TITO 1 341

Uma vez que as primeiras congregações Em primeiro lugar, Paulo refuta o falso
da Igreja primitiva reuniam-se nos lares, é ensinamento desses legalistas com respei­
fácil entender como "casas inteiras" (Tt 1:11) to aos alimentos. Ensinavam que as leis ali­
foram afetadas pelos falsos mestres. Hoje, mentares judaicas ainda vigoravam para os
quem tem um grupo de estudo bíblico em cristãos (ver 1 Tm 4:3-5). O s que ingerissem
seu lar deve ter cuidado para não deixar que alimentos proibidos ficariam contaminados,
visitantes apareçam com doutrinas estra­ mas os que se abstivessem de tais alimentos
nhas. Algumas seitas e religiões procuram se tornariam mais santos.
esse tipo de reunião justamente com o pro­ "É justamente o contrário", argumenta o
pósito de infiltrar seus agentes e ganhar con­ apóstolo. "Esses falsos mestres têm a mente
vertidos, de modo que é preciso ter cuidado. e a consciência contaminadas. Assim, quan­
Por que o faziam. A motivação princi­ do olham para esses alimentos, vêem pecado,
pal desses falsos mestres era ganhar dinhei­ pois o pecado corrompeu sua visão. Mas os
ro, "por torpe ganância" (Tt 1:11). Não que têm a mente e a consciência puras sabem
ministravan à igreja; usavam a religião para que todos os alimentos são puros. Não são os
encher o próprio bolso. Isso explica por que alimentos que contaminam os mestres; são
Paulo coloca como requisito para os pres­ os mestres que contaminam os alimentos!"
bíteros não ser "cobiçoso de torpe ganân­ Esse princípio, porém, não se aplica ao
cia" (Tt 1:7). O verdadeiro servo de Deus que sabemos ser mau. A diferença entre
não ministra visando interesses pessoais; arte de bom gosto e pornografia, por exem­
antes, faz seu trabalho a fim de ajudar a ou­ plo, não está apenas "nos olhos do obser­
tros a crescer na fé. vador". O verdadeiro artista não explora o
Mas, por trás dessa ganância, havia ou­ corpo humano por "torpe ganância". O cris­
tro problema: a mente e a consciência de­ tão que se entrega a práticas eróticas pe­
les haviam sido corrompidas (Tt 1:15). É isso caminosas e diz que são puras porque seu
o que acontece quando alguém leva vida coração é puro usa a Palavra de Deus como
dupla: por fora, impõe respeito; mas por desculpa para pecar. Paulo aplica essa de­
dentro, está se deteriorando. Ninguém pode claração aos alimentos, e devemos ter cui­
servir a dois senhores. Graças a seu amor dado para não a generalizar.
ao dinheiro, esses enganadores ensinavam Depois de falar desses três fatos sobre
falsas doutrinas e levavam uma vida falsa. os falsos mestres, Paulo trata de mais uma
Com o resultado, tinham a consciência cor­ questão.
rompida, que não os acusava. Trata-se de O que Tito deveria fazer. Não deveria fi­
mais um passo em direção à "consciência car parado nem se calar, enquanto eles assu­
cauterizada" à qual Paulo se refere em 1 Ti­ miam o controle! Em primeiro lugar, deveria
móteo 4:2. "exortá-los e convencê-los" por meio da "sã
Tito 1:15 é um daqueles versículos que doutrina" (ver Tt 1:9). A única arma eficaz
os ignorantes tentam usar para defender contra as mentiras de Satanás é a verdade de
suas práticas pecaminosas. A declaração: Deus. A declaração: "Assim diz o Senhor!" é
"Todas as coisas são puras para os puros" é a resposta conclusiva a qualquer discussão.
usada como justificativa para todo tipo de Tito deveria calá-los (Tt 1:11) e evitar que
pecado. Lembro-me de chamar a atenção ensinassem e que espalhassem falsas doutri­
de um adolescente sobre o tipo de livros e nas. Deveria "[repreendê-los] severamente"
de revistas que ele estava lendo e de ele se (Tt 1:13). Paulo dá o mesmo conselho a Ti­
defender dizendo: móteo em sua última carta: "corrige, repre­
- A beleza está nos olhos do observa­ ende, exorta com toda a longanimidade e
dor. Quem enxerga pecado no que estou doutrina" (2 Tm 4:2).
lendo, é porque seu coração deve estar Por certo, o objetivo de Paulo era conven­
cheio de malícia. Afinal, "todas as coisas são cer esses mestres e torná-los "sadios na fé"
puras para os puros". (Tt 1:13). Mas, ao fazê-lo, também deveria
342 T I TO 1

proteger a igreja de seus ensinamentos fal­ que creia em alguma coisa". Paulo não con­
sos. A falsa doutrina é como o fermento: in­ cordaria com essa filosofia tola. Aquilo em
filtra-se sem que ninguém perceba, cresce que cremos - a verdade da Palavra ou men­
rapidamente e se espalha por toda a parte tiras - determina a diferença entre a vida e a
(Gl 5:9). O melhor momento de atacar a falsa morte. Podemos escolher em que desejamos
doutrina é quando esta ainda se encontra no acreditar, mas não podemos mudar as con­
início, antes de ter a chance de se espalhar. seqüências de nossa escolha. Disse Jesus:
Alguns membros de igreja têm a idéia de "E conhecereis a verdade, e a verdade vos
que "não importa em que você crê, desde libertará" (Jo 8:32).
pastoral! Quando se levantavam para falar,
2 a igreja toda atentava para suas palavras.
O adjetivo "sensatos" descreve a atitu­
de mental que conduz à prudência e ao
C o m o T er U m a Ig r eja domínio próprio na vida. É o oposto da fri­
volidade e da indiferença que nascem da
S au d ável ignorância. Em Tito 1:8, esse termo é tradu­
T ito 2 - 3 zido por "sóbrio"; em 2:3, por "sérias"; em
2:6, por "criteriosos"; e em 2:5 e 12, por
"sensatas". A seriedade de vida e de propó­
sito é importante para a vida cristã, especial­
mente para os santos mais velhos que não
o contrário dos falsos mestres, Tito de­ podem se dar o luxo de perder tempo, algo
A veria "[falar] o que convém à sã doutri­
na" (Tt 2:1). O s falsos ensinamentos são para
que não têm de sobra.
Sadios na fé, no amor e na constância:
o corpo espiritual - a igreja - o que os micró­ três coisas que andam juntas. O s homens
bios são para o corpo físico. Nos versículos mais velhos devem saber em que crêem, e
desta seção, há uma mistura de ensinamen­ suas convicções doutrinárias devem estar de
tos doutrinários com admoestações práticas, acordo com a Palavra de Deus. O conhe­
pois as duas coisas devem andar juntas. Pau­ cimento da doutrina bíblica não substitui
lo discute diversas áreas do ministério na outras virtudes necessárias, como o amor
igreja local. pelos irmãos e a paciência em meio às tri­
bulações da vida. Na verdade, a fé correta
1. O S SANTOS MAIS VELHOS (T t 2 :1 -4a) na Palavra de Deus deve estimular o cristão
É fácil um homem mais jovem como Tito ao amor e à perseverança.
não entender ou mesmo negligenciar mem­ É possível que o termo "semelhante­
bros mais velhos de sua congregação. mente", em Tito 2:3, seja uma indicação de
Certa vez, um pastor me disse: que as mulheres mais velhas devem ter as
- Quero uma igreja de jovens! mesmas qualidades que os homens mais
Esqueceu que, um dia, ele próprio en­ velhos, bem como outros atributos. O "pro­
velhecerá. A igreja precisa tanto dos mais ceder" (comportamento) dessas mulheres
velhos quanto dos mais jovens, e uns de­ deve sempre refletir santidade. Não devem
vem ministrar aos outros. A graça de Deus ser caluniadoras ("que fazem acusações fal­
permite transpor o abismo entre as gerações sas"; o termo grego pode ser traduzido por
dentro da igreja. Isso pode ocorrer quando "diabo" ou "caluniador"), ouvindo e espa­
todos os membros, jovens e velhos, vivem lhando fofocas. Também devem ser comedi­
de acordo com os padrões estabelecidos por das no consumo do vinho.
Deus para sua vida. Tratando-se das mulheres mais velhas, a
O s mais velhos devem ser "temperantes", ênfase de Paulo é sobre o ensino: "sejam
o que significa que "devem ser moderados mestras do bem". Mulheres experientes e
no uso do vinho". Homens mais idosos com piedosas normalmente são excelentes mes­
muito tempo livre podem acabar bebendo tras. O verbo "instruir", em Tito 2:4, é relacio­
em excesso. nado à palavra traduzida por "temperantes"
O termo "respeitáveis" significa "sérios", em Tito 2:2, e provavelm ente deve ser
mas não se refere aos que nunca riem. A traduzido por "para que instruam a fim de
idade avançada traz consigo uma dignida­ tornar sóbrias". As mulheres mais velhas não
de que gera respeito, e esse respeito confere devem apenas ensinar as mais jovens a cui­
autoridade aos santos mais velhos. Como sou dar da casa, mas também colocar no cora­
grato a Deus pelos santos respeitáveis que ção e na mente delas as atitudes espirituais
me ajudaram ao longo de meu ministério e mentais corretas.
344 TI T O 2 - 3

O s cristãos mais velhos são um dos pila­ Tt 2:2). A forma de ver as coisas determina
res do ministério da igreja local. O s aposen­ o resultado, e a pessoa que não pensa cor­
tados têm tempo disponível para servir. É retamente não age corretamente. A mulher
bom ver que muitas congregações estão precisa ter uma visão correta e disciplinada
organizando e mobilizando essas pessoas. de seu ministério no lar. A "sensatez" dá a
Em meu ministério, tenho sido grandemente idéia de domínio próprio. Se os pais não
ajudado por santos mais velhos que sabem disciplinarem a si mesmos, não poderão ja­
orar, ensinar a Palavra, visitar, resolver situa­ mais disciplinar os filhos.
ções difíceis e ajudar a edificar a igreja. "Honestas" significa "puras de mente e
coração". A esposa cristã deve ser fiel ao
2 . O s s a n t o s m a i s j o v e n s (T t 2 : 4 b - 8 ) marido em sua mente e coração bem como
As mulheres piedosas de mais idade são res­ em seus atos.
ponsáveis por ensinar as mais jovens a ser A expressão "boas donas de casa" indi­
boas esposas, mães e donas-de-casa, e cabe ca que devem cuidar bem do iar. Paulo dá
às mais jovens ouvir e obedecer. O lar cris­ essa mesma recomendação em 1 Timóteo
tão era algo inteiramente novo, e as moças 5:14. O marido sábio permite que a esposa
salvas do paganismo precisavam acostumar- administre o lar, pois esse é o ministério dela.
se com uma série de prioridades e de privi­ O termo "bondosas", em Tito 2:5, pode
légios diferentes. As que eram casadas com ser traduzido por "amáveis". Ela não cuida
incrédulos precisavam de encorajamento do lar de modo autoritário, praticando, an­
especial. tes, "a instrução da bondade" (Pv 31:26).
A maior prioridade do lar deve ser o amor. Apesar de a esposa ser a "dona da casa",
A esposa que ama o marido e os filhos está o marido é o líder do lar, de modo que a
no caminho certo para ter um casamento e esposa deve ser obediente. Mas onde existe
um lar feliz. Na sociedade ocidental, o ho­ amor (Tt 2:4), a obediência não é penosa. E,
mem e a mulher apaixonam-se e se casam, onde há o desejo de glorificar a Deus, não
mas no Oriente, os casamentos eram menos há dificuldade que não possa ser superada.
românticos. Era comum um homem e uma "Para que a palavra de Deus não seja
mulher se casarem e, depois, terem de apren­ difamada." Trata-se de um excelente motivo
der a amar um ao outro (é provável que Ef para a cooperação e a obediência no lar. E
5:18-33 seja a melhor passagem das Escri­ triste ver problemas de família e até mesmo
turas para o marido e a mulher que dese­ divórcios no meio dos cristãos servirem de
jam amar um ao outro segundo a vontade motivo para os incrédulos zombarem da
de Deus). Bíblia.
Claro que a mãe ama os filhos! É um Tito deveria permitir que as mulheres
instinto natural, mas que precisa ser con­ mais velhas ministrassem às mais jovens, a
trolado. Certa vez, ouvi uma "mãe moder­ fim de que ele próprio não se visse em uma
na" dizer: situação difícil. No entanto, deveria servir
- Amo demais meu filho para lhe dar de exemplo para os rapazes, com os quais
umas palmadas. se identificaria facilmente. A exortação e
Na verdade, amava apenas a si mesma, o exemplo eram suas ferramentas para
não ao fiiho. "O que retém a vara aborrece edificá-los na fé (Tt 2:6, 7). Deveria exortá-
a seu filho, mas o que o ama, cedo, o discipli­ los a ter domínio próprio, pois as tentações
na" (Pv 13:24). Apesar de, normalmente, ser eram muitas.
o pai quem disciplinava os filhos nos lares Mas Paulo escreve mais sobre Tito como
do Oriente, era impossível a mãe não partici­ exemplo do que sobre Tito como exortador!
par da disciplina, pois, de outro modo, a crian­ A melhor forma de um pastor pregar é por
ça correria para ela em busca de proteção. meio de sua vida. O ministro deve ser sem­
"Serem sensatas" (Tt 2:5) é a conhecida pre exemplo em todas as coisas. Todas as
referência à "sobriedade" ("temperantes" em virtudes que o pastor deseja ver em sua igreja
TITO 2 - 3 345

devem ser cultivadas, primeiramente, nele o disciplinaria com severidade), ainda assim
próprio. "Porque dizem e não fazem" (Mt poderia discutir com seu senhor, uma vez
23:3). Dizer e não fazer é hipocrisia. que, muitas vezes, o servo sabia mais sobre
O termo grego typos ("padrão" em Tt o serviço do que o senhor. O servo também
2:7) dá origem à palavra tipo e significava, poderia se queixar do senhor a outros que
originalmente, "uma estampa". Tito deve­ trabalhavam com ele, o que certamente se­
ria viver de tal modo a imprimir sua "estampa ria um péssimo testemunho cristão.
espiritual" na vida de outros. Isso envolvia O s servos cristãos também não deveriam
boas obras, sã doutrina, seriedade nas ati­ furtar. Esse foi o pecado que Onésimo co­
tudes e discurso irrepreensível que ninguém meteu contra Filemom (ver Fm 18). Não era
- nem mesmo o inimigo - poderia conde­ difícil um servo furtar pequenos objetos e,
nar. Em todo lugar, há pessoas "do contra" depois, dizer que haviam se perdido ou
sempre tentando começar uma briga. A lin­ quebrado.
guagem do pastor não deve dar motivos Hoje em dia, nossa sociedade não tem
para acusações. mais servos, mas ainda existem empregados.
Não é fácil pastorear uma igreja. O pas­ O s funcionários cristãos devem obedecer às
tor não tem relógio de ponto e está sempre ordens sem responder com insolência. Não
em serviço. É preciso ter o cuidado de prati­ devem roubar de seus patrões. Empresas
car o que pregamos e de ser a mesma pes­ perdem milhões de dólares por ano por cau­
soa dentro e fora da igreja. A hipocrisia nas sa de funcionários que furtam de tudo, des­
palavras ou na conduta pode acabar com o de clipes de papel e lápis até máquinas e
ministério. Nenhum pastor é perfeito, assim automóveis da empresa. "Eles me devem
como nenhum membro da igreja é perfeito; isso!" ou "Eu mereço!" não são desculpas.
mas cada um deve esforçar-se para dar o Paulo dá um bom motivo para os em­
melhor exemplo possível. A igreja nunca se pregados cristãos se mostrarem confiáveis
desenvolverá mais do que sua liderança. ("dêem prova de toda fidelidade"): para "or­
narem, em todas as coisas, a doutrina de
3 . S e r v o s c r is t ã o s (T t 2 :9 - 1 5 ) Deus". Quando servimos fielmente, "ador­
Paulo costumava ter algo a dizer sobre os namos a Palavra" e tornamos a mensagem
servos (ver Ef 6:5-9; 1 Tm 6:1, 2). Essa pala­ cristã atraente para os incrédulos. Quando
vra para Tito é de grande valor, pois Paulo a Paulo se dirigiu aos servos da igreja de Ti­
fundamenta em uma das maiores decla­ móteo (1 Tm 6:1), usou a forma negativa,
rações sobre a salvação em todo o Novo "para que o nome de Deus e a doutrina não
Testamento. O apóstolo sempre associava a sejam blasfemados". Nossa vida deve ser
doutrina ao dever. controlada tanto pela motivação positiva -
Pauio adverte os servos cristãos sobre tornar a mensagem de Deus atraente - quan­
três pecados comuns que deveriam evitar to pela negativa - evitar que os preceitos de
(Tt 2:9, 10). Em primeiro lugar, a desobe­ Deus sejam difamados.
diência. Deveriam não só obedecer a seus Aqui (Tt 2:11), Paulo expande o signifi­
senhores, mas também procurar lhes agra­ cado de "Salvador" (Tt 2:10) ao explicar o
dar, ou seja, ir além de suas obrigações. É que faz parte dessa salvação que recebemos
possível obedecer sem fazê-lo "de coração" por meio de Jesus Cristo. A ênfase é sobre a
(Ef 6:6). É possível trabalhar de má vontade. graça - o favor superabundante de Deus
Ainda mais porque alguns senhores incré­ pelos pecadores indignos. O apóstolo des­
dulos não demonstravam consideração e ex­ taca três ministérios maravilhosos da graça
ploravam seus servos. de Deus (Tt 2:11-14).
O segundo pecado é responder com in­ A graça nos redime (w. 11, 14a). Uma
solência ("não sejam respondões", Tt 2:9). vez que o ser humano não é capaz de sal­
Apesar de, dificilmente, um servo conseguir var a si mesmo, a graça de Deus teve de
levar tal insolência longe demais (seu senhor trazer salvação para a humanidade. Essa
346 TI TO 2 - 3

salvação não foi descoberta peios pecado­ forma "sensata", o adjetivo sobre o qual fa­
res; antes, lhes foi revelada pela vida, morte lamos anteriormente e que corresponde a
e ressurreição de Jesus Cristo. Em sua graça, "ter domínio próprio, prudência, modera­
Deus enviou seu Filho para remir os que ção" (ver Tt 2:2). A ênfase da sensatez é
eram escravos do pecado. Essa salvação é sobre o relacionamento do cristão consigo
para "todos os homens" que a aceitarem (ver mesmo, enquanto a conduta justa refere-se
1 Tm 2:4-6). Existe uma necessidade univer­ ao relacionamento com outras pessoas. "Pie­
sal que Deus supre com sua provisão uni­ dosamente" é como devemos viver em nos­
versal aos que crêem. so relacionamento cristão com o Senhor. No
Pauio explica essa salvação em mais de­ entanto, essas três qualidades não devem
talhes (Tt 2:14). Cristo "a si mesmo se deu ser separadas.
por nós", o que significa que se tornou nos­ Os cristãos vivem "no presente século",
so substituto. "Carregando ele mesmo em mas não em conform idade com ele nem para
seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pe­ ele. Cristo nos remiu "deste mundo perver­
cados" (1 Pe 2:24). O termo "remir" signi­ so" (Gi 1:4), e não devemos nos conformar
fica "libertar ao pagar um preço". Éramos com ele (Rm 12:1, 2). Também não deve­
escravos do pecado (Tt 3:3) e não podería­ mos andar segundo seus padrões (Ef 2:2).
mos nos libertar; mas Jesus Cristo entregou- Provamos "os poderes do mundo vindou­
se como resgate por nossas transgressões. ro" (Hb 6:5), e não devemos ter o desejo de
Por meio de sua morte, cumpriu os precei­ nos dedicar ao presente século com sua su­
tos justos da lei santa de Deus, para que perficialidade e impiedade.
Deus em sua graça pudesse perdoar e liber­ A graça nos regenera, pois Deus nos
tar os que crêem em Cristo. purifica e nos toma para si (Tt 2:14b). Esse
Fomos remidos "de toda iniqüidade", o processo de purificação é chamado de
que significa que o pecado não deve mais "santificação", e seu objetivo é tornar o cris­
ser senhor sobre nossa vida (convém lem­ tão mais semelhante a Jesus Cristo (Rm 8:29).
brar o contexto dessa passagem: o conselho A santificação não é apenas a separação do
de Paulo aos servos; eles sabiam o que signi­ pecado, mas também a dedicação a Deus
ficava "remir"). "Iniqüidade" é o mesmo que (2 Co 6:14 - 7:1). Somos um povo "exclusi­
ilegalidade. Antes de sermos salvos, não nos vamente seu", ou seja, um "povo santo ao
sujeitávamos à lei de Deus; mas houve uma S e n h o r " (ver Dt 14:2; 26:18).
transformação. Com isso, Paulo passa ao A graça nos recompensa (v. 13). Espera­
segundo ministério da graça de Deus. mos pela volta de Jesus Cristo; essa é nossa
A graça nos regenera (vv. 1 2 14b). A única esperança e glória. Esse versículo afir­
salvação não é apenas uma mudança de si­ ma, claramente, que Jesus Cristo é Deus,
tuação (libertos da escravidão do pecado), pois, no grego, o artigo é definido: "o nosso
mas também uma mudança de atitudes, grande Deus e Salvador". Paulo não trata,
apetites, ambições e ações. A mesma graça em detalhes, dos acontecimentos relacio­
que nos redime nos regenera e nos torna nados à volta de Cristo. Os cristãos devem
piedosos. O verbo "educar" tem o sentido viver na expectativa de sua volta, como os
de "disciplinar". Somos disciplinados pela que o verão face a face.
graça de Deus, educados para ser pessoas
que o glorificam. 4. O s CRISTÃOS c o m o c i d a d ã o s
A vida de piedade envolve tanto aspec­ (T t 3 :1 -8 )
tos negativos quanto positivos. Negamos "as Era comum o império romano ver os cris­
coisas que há no mundo" e tudo o que "não tãos com certa suspeita, uma vez que sua
procede do Pai" (ver 1 jo 2:15-17). O verbo conduta era tão diferente e que realizavam
significa que fazemos isso de uma vez por cultos particulares (ver 1 Pe 2:11-25; 3:13 -
todas. É um assunto resolvido. Em seguida, 4:5). Assim, era importante que fossem bons
trabalhamos com o positivo. Vivemos de cidadãos, sem fazer qualquer concessão
TITO 2 - 3 347

indevida com respeito às questões da fé. Paulo relaciona a mesma experiência de


Talvez seus vizin ho s pagãos desobede­ purificação à Palavra de Deus (Ef 5:26). A
cessem à lei, mas os cristãos deveriam sujei­ salvação é concedida ao pecador quando
tar-se à autoridade do Estado (ver Rm 13). ele crê em Cristo, quando o Espírito Santo
"Estejam prontos para toda boa obra" (Tt 3:1) de Deus usa a Palavra de Deus para rea­
significa "sejam cooperativos nos assuntos lizar o novo nascimento. Somos nascidos
que envolvem toda a comunidade". A cida­ do Espírito (Jo 3:5, 6, em que a "água" refe­
dania celestial (Fp 3:20) não nos isenta de re-se ao nascimento físico mencionado an­
nossas responsabilidades como cidadãos teriormente por Nicodemos, Jo 3:4) e da
da Terra. Palavra (1 Pe 1:23-25). Em Tito 3:6, o pro­
O cristão não deve ter uma atitude ne­ nome "que" deveria ser "quem" ou "o qual",
gativa com relação ao governo, fazendo pois se refere ao Espírito Santo que nos é
acusações caluniosas e criando polêmicas. dado quando nos convertemos (At 2:38;
O termo "cordatos" (Tt 3:2) refere-se a uma Rm 5:5; 8:9).
"atitude de moderação, a uma razoabilidade Nós, cristãos, não apenas fomos lavados
amável". O s cristãos com essa qualidade não e regenerados em Cristo, como também fo­
são legalistas; antes, estão dispostos a fazer mos justificados (Tt 3:7). Essa doutrina ma­
concessões, desde que estas não envolvam ravilhosa é discutida detalhadamente em
questões morais. Romanos 3:21 a 8:39: A justificação é o ato
Mais uma vez, Paulo associa o dever à da graça de Deus pelo qual ele declara jus­
doutrina. "Não sejam excessivamente críti­ to o pecador que crê em função da obra
cos com seus vizinhos pagãos", escreve o consumada de Cristo na cruz. Deus depo­
apóstolo. "Lembrem-se como vocês viviam sita em nossa conta a justiça de seu Filho,
antes de serem salvos por Deus!" Não é pre­ de modo que não podemos mais ser conde­
ciso explicar Tito 3:3 em detalhes; sabemos nados. Ele não apenas esquece nossos pe­
por experiência própria, o que significa. cados, como também esquece que fomos
Que diferença "a benignidade de Deus" pecadores!
(Tt 3:4) fez na vida deles! Há uma bela ilus­ Qual é o resultado dessa bondade, desse
tração da "benignidade de Deus", em 2 Sa­ amor, dessa misericórdia e graça? Por causa
muel, na forma de Davi tratar Mefibosete, o de tudo isso, é possível lançar mão das ri­
príncipe aleijado. Uma vez que fazia parte quezas de Cristo no presente e, quando ele
da família de Saul, Mefibosete esperava ser voltar, ter parte nessas riquezas e em seu
morto. Mas, em sua benignidade, Davi pou­ reino para sempre. Trata-se da mesma espe­
pou sua vida e o acolheu como um de seus rança mencionada em Tito 2:13: "aguardan­
filhos à mesa do palácio. do a bendita esperança". No entanto, há
Recebemos a salvação não apenas por mais um elemento envolvido: deve-se viver
causa da benignidade e do amor de Deus, de modo piedoso e "[ser] solícitos na prática
mas também por causa de sua misericórdia de boas obras" (Tt 3:8). A única evidência
(Tt 3:5). Não salvamos a nós mesmos: "ele que o mundo incrédulo tem de que perten­
nos salvou". Como ele o fez? Por meio do mi­ cemos a Deus é nossa vida de piedade.
lagre do novo nascimento, por obra do Espí­ As "boas obras" não são, necessariamen­
rito Santo de Deus. Não creio que o lavar te, de caráter religioso. É bom trabalhar na
refira-se ao batismo, pois no Novo Testamen­ igreja, cantar no coral e ter um cargo oficial,
to as pessoas eram batizadas depois de ser mas também é bom servir aos ainda não
salvas, não para receber a salvação (ver At convertidos, ajudar na comunidade e ser
10:43-48). Aqui, o lavar é "ser banhado por conhecidos como pessoas que socorrem os
inteiro". Quando um pecador crê em Jesus necessitados. Ajudar uma jovem mãe can­
Cristo, é purificado de todos os pecados e é sada a cuidar de seu bebê é um trabalho
transformado em "nova criatura", pois o Es­ tão espiritual quanto distribuir folhetos evan-
pírito Santo passa a habitar nele. gelísticos. A melhor maneira de uma igreja
348 TI TO 2 - 3

local dar seu testemunho é por meio do ser­ outras igrejas também não o queiram) e de­
viço sacrificial de seus membros. monstrar uma atitude de arrependimento,
deve ser recebido de volta. Se ele repetir
5. P e s s o a s p r o b l e m á t i c a s (T t 3 :9 -1 1 ) esse comportamento (como acontece com
Gostaríamos que não houvesse "pessoas freqüência), deve ser recebido de volta pela
problemáticas" em nossas igrejas, mas onde segunda vez. Mas se isso ocorrer pela ter­
há gente, pode haver problemas. Nesse caso, ceira vez, não se deve recebê-lo de volta na
Paulo adverte Tito a evitar pessoas que gos­ comunhão da igreja (Tt 3:10). Por que não?
tam de discutir coisas triviais da fé. Lembro- "Pois sabes que tal pessoa está pervertida, e
me de uma ocasião em que fui abordado vive pecando, e por si mesma está conde­
por um rapaz depois de um estudo bíblico nada" (Tt 3:11). Se mais igrejas seguissem
e acabei me envolvendo em uma série de esse princípio, teríamos menos "cristãos
perguntas hipotéticas sobre doutrina. Qua­ itinerantes" que causam problemas em vá­
se tudo o que ele dizia começava com rias igrejas.
"suponhamos que...". Na época, eu era bas­
tante inexperiente e não sabia que deveria 6. C o n c l u s ã o ( T t 3 :1 2 -1 5 )
tê-lo ignorado gentilmente. Por causa dessa Nestes últimos versículos, Paulo transmite
discussão, perdi a oportunidade de conver­ algumas informações pessoais a Tito e o lem­
sar com várias pessoas sinceras com proble­ bra do tema principal da carta: instar o povo
mas pessoais e que desejavam ser ajudadas. de Deus a "que aprendam também a dis­
Aprendi que cristãos que gostam de discutir tinguir-se nas boas obras a favor dos neces­
sobre a Bíblia normalmente estão encobrin­ sitados, para não se tornarem infrutíferos"
do algum pecado em sua vida, são extrema­ (Tt 3:14).
mente inseguros e, muitas vezes, infelizes Não se sabe coisa alguma sobre Árte-
no trabalho ou em casa. mas. Tíquico é mencionado em Atos 20:4.
Há, porém, outro tipo de pessoa proble­ Permaneceu com Paulo na primeira ocasião
mática com a qual precisamos lidar: o "he­ em que o apóstolo foi prisioneiro em Roma
rege". Essa palavra significa "alguém que faz e levou as epístolas de Paulo aos Efésios (Ef
uma escolha, pessoa que causa divisão". 6:21), aos Colossenses (Cl 4:7, 8) e a File-
Trata-se de um indivíduo obstinado, que acre­ mom (cf. Cl 4:7-9 e Fm 10). Ártemas ou Tíqui­
dita estar certo e que obriga as pessoas na co substituiria Tito em Creta, e Tito deveria
igreja a fazerem uma escolha. "Você vai me encontrar-se com Paulo em Nicópolis.
apoiar ou vai apoiar o pastor?" Essa é uma Pode ser que Zenas e Apoio (ver At
obra da carne (ver Gl 5:20). Alguém assim 18:24ss; Tt 3:13) tenham levado esta carta
deve ser admoestado pelo menos duas ve­ para Tito. Paulo os enviara em uma missão,
zes e, depois, expulso da congregação. e Tito deveria ajudá-los em tudo o que fosse
Como aplicar esse princípio à igreja lo­ possível.
cal? Permita-me dar uma sugestão. Se um Paulo termina sua carta a Tito com uma
membro da igreja começa a granjear segui­ variação de sua bênção habitual (ver 2 Ts
dores e depois se exaspera e deixa a igreja, 3:17, 18): "A graça seja com todos vós".
deve-se deixá-lo partir. Se ele voltar (talvez A graça e as boas obras andam juntas!