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26/09/2019 Folha de S.

Paulo - Jorge Coli: A nudez de Laocoonte - 10/04/1999

São Paulo, Sábado, 10 de Abril de 1999

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A nudez de Laocoonte
JORGE COLI

Desde que foi descoberta, em Roma, no início do século 16,


a escultura em mármore do "Laocoonte" impôs sua força
expressiva como estímulo ou modelo para as artes do
Ocidente. Michelangelo trabalhou amorosamente em sua
restauração, encontrando estreitas afinidades entre seu
próprio gênio e as dramáticas contorções dessa escultura
helenística, que o impulsionaram para os mais atormentados
escravos do túmulo de Júlio 2º ou para as terríveis figuras do
"Juízo Final".
Durante muito tempo, o "Laocoonte" foi tomado não como
uma obra tardia, mas como a quintessência do gênio clássico
da Antiguidade. De Ticiano a El Greco, de Berruguete a
Blake, ele seria revisitado sem cessar, visualmente discutido
pelos maiores artistas. Quando, no século 18, a reforma
iluminista e neoclássica das artes dispara um retorno
"autêntico" e filológico à Antiguidade, o "Laocoonte" é
centro de atenções dentro de um debate que envolveria
Winckelmann e Lessing. Winckelmann fundou a arqueologia
como disciplina moderna; era ainda esteta e historiador da
arte. Lessing, renovador da crítica literária e do teatro na
Alemanha, admirável autor dramático, é também um
pensador inteiramente envolvido nas transformações trazidas
pela filosofia das Luzes.
Lessing publicou, em 1766, uma obra essencial sobre as
artes, que acaba de ser traduzida em português, de modo
exemplar, por Márcio Seligmann-Silva, responsável também
pelo rigoroso aparato crítico. Seu título é "Laocoonte ou
Sobre as Fronteiras da Pintura e da Poesia".
Não é um tratado filosófico de estética, em que o olhar se
desvia das obras para construir um sistema. O próprio
Lessing ironizou: "A nós alemães não faltam livros
sistemáticos. A partir de um par de definições aceitas deduzir
tudo aquilo que queremos na mais bela ordem, quanto a isso
somos melhor do que qualquer nação do mundo". Seu livro
é, em verdade, um extraordinário ensaio que, até hoje,
suscita reflexões vivas e atuais.
Lessing avança sempre em contato estreito com os exemplos
precisos, generaliza por indução e não tende nunca aos
raciocínios abstratos. O tema do Laocoonte é paradigmático
e ajusta-se à questão que Lessing quer desenvolver. Ele fora
tratado em dois grandes momentos da Antiguidade. Num,
pelo admirável grupo de mármore que chegou até nós. Em
outro, por meio da narração de Virgílio na "Eneida",
contando a morte do sacerdote de Apolo e de seus filhos por

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duas monstruosas serpentes. Perfeito paralelo para se discutir


a natureza da poesia e das artes visuais.
As atitudes mais modernas no século 18 buscavam eliminar
as seduções, os excessos, os contrastes, as emoções violentas
que presidiam as artes daquilo que, hoje, nós chamaríamos
de barroco. Winckelmann investe nessa batalha, propondo o
exemplo da serenidade grega: "A expressão nas figuras dos
gregos mostra, em todas as suas paixões, uma alma grande e
sedimentada". "Laocoonte" seria o grande exemplo, em que
o sofrimento físico é contido pela força do espírito e em que
a anatomia tensa, a boca entreaberta, são sinais das relações
controladas entre a alma e o corpo.
Winckelmann possui uma percepção muito mental do
classicismo: ela precede o conhecimento dos mármores do
Partenon pela Europa do Ocidente e anuncia a escultura de
Thorvaldsen, feita de abstrata harmonia. Ela tende ainda a
minimizar as torções dramáticas da escultura helenística, que
então era tida por clássica. Winckelmann participa também
de um processo que terminaria por destituir os latinos de um
papel primordial: eles deixam de ser a fonte mais importante
de cultura e são substituídos pelos gregos. Em sua análise,
"ele (Winckelmann) lança sobre Virgílio" -diz Lessing- "um
olhar lateral de reprovação", por causa do grito terrível que o
poeta faz Laocoonte soltar. A dor física do "Filocteto" de
Sófocles, no pensar de Winckelmann, seria melhor
comparação para o mármore do Laocoonte.

A OBRA
Laocoonte G. E. Lessing Introdução,
tradução e notas: Márcio
Seligmann-Silva Iluminuras (Tel.
011/3068-9433) 320 págs., R$ 25,00

Lessing conduz sua indagação. Há nele uma dupla vertente,


"clássica" e "romântica", que incidiria fortemente, por sinal,
no pensamento e na arte de Goethe. Lessing está empenhado
em fugir dos modelos franceses para o teatro que, no século
18, sucumbiam sob convenções estéreis. Ele prefere levar a
Alemanha para a proximidade de Shakespeare. Isto é: ele
indica um caminho que seria, mais tarde, o do grande teatro
romântico. Os próprios franceses iriam servir-se do grande
bardo para libertarem-se dessas regras arcaicas, mas apenas
70 décadas depois que o "Laocoonte" tivesse indicado a
direção salutar.
Para as artes plásticas, porém, Lessing desenha um outro
trajeto, mais "clássico" do que o do teatro, embora
divergindo da harmonia transcendente de Winckelmann. Um
classicismo que seria possível chamar de empírico e, num
certo sentido, de realista.
Lessing determina que as artes plásticas limitem-se à
representação do visível. Elas devem encontrar uma
harmonia, um equilíbrio, a partir daquilo que é possível
colher pela observação. Uma seleção impõe-se -o artista
pode criar algo mais elevado do que a natureza produziu,
mas a partir da própria natureza, do modo como Zeuxis
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pintou sua Helena tomando o que de mais belo as mais belas


moças de Crótona possuíam. Não cabem, está claro, nesta
seleção, a feiúra ou a dor descontrolada -tão exploradas
como efeitos pitorescos ou assustadores pela arte barroca. O
que é concedido ao teatro, às formas evocativas e sensíveis
da poesia -o feio, o asqueroso, o violento, "suavizados graças
à expressão por meio de palavras"- é negado ao artista
plástico. Lessing demonstra que o "Filocteto" de Sófocles é,
legitimamente, muito mais violento do que o mármore do
"Laocoonte".
Deste modo, se Lessing nos permite vislumbrar o
romantismo no teatro por meio da adesão a Shakespeare, ele
indica também muitas das inflexões decisivas que serão
tomadas pela pintura de David nos anos de 1780. Quando se
afirmar o heroísmo neoclássico nas artes visuais, as
considerações de Lessing permanecerão como horizonte
mental. Toda a construção da pintura de David é feita por
meio da análise do mundo visível, parte por parte, para ser
remontada e cristalizada em tensão e nobreza. É uma arte que
evita a ação: David irá proclamar a necessidade de se
representar uma cena antes ou depois do acontecimento
brutal, tal como Lessing determinara. Mais tarde ainda, o
romantismo tão "clássico" de Delacroix parece seguir, com
cuidado, as indicações de Lessing para figurar Medéia e seus
filhos.
Mais ainda: as roupas são possíveis na poesia, mas a nudez é
essencial nas artes visuais (Lessing faz uma admirável
comparação entre o Laocoonte vestido de Virgílio e o
Laocoonte nu do grupo escultórico). David baseará suas
obras nos personagens que são traçados, primeiro, nus, para
em seguida serem vestidos, como se as roupas fossem
consequência de uma anatomia respeitada e que se encontra
sob elas.
Os pintores barrocos, que desdobravam seus maravilhosos
panejamentos, saem implicitamente condenados pelo texto e
pela prática neoclássica que o sucedeu. Por trás do
"Laocoonte" de Lessing transparece sempre a característica
recusa iluminista da arte barroca, arte esta que destruira as
fronteiras entre os diferentes gêneros artísticos, para dar-se
numa constante interação.
Lessing determina: poesia, arte do tempo; pintura, arte do
espaço. A melancólica reflexão sobre a temporalidade trazida
pela paisagem de sua época, pela pintura de ruínas, é
combatida por obras que se projetam no intemporal.
Concretamente, alguns anos depois: "O Juramento dos
Horácios" contra Hubert Robert. Fora do tempo, o mundo
visível transforma-se então em emblema ético ou político
(1).

Nota:
1. Sobre o espaço e o tempo no "Laocoonte" de Lessing, ver Mitchell, W. J.
T. - "Space and Time: G. E. Lessing", in "Iconology - Image, Text,
Ideology", The University Chicago Press, Chicago, 1986.

Jorge Coli é professor de história da arte na Universidade Estadual de


Campinas (Unicamp).

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