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EDUCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE NO BRASIL:

UMA ANALÍTICA DAS ESTRATÉGIAS TEÓRICAS.

BARBOSA, Rafael Grigório Reis1 - UEPA

Grupo de Trabalho – Ensino Religioso


Agência Financiadora: não contou com financiamento

Resumo

O artigo efetua uma analítica do campo de estratégias teóricas dos grupos de pesquisa que
investigam a relação entre educação e espiritualidade no Brasil tomando como fonte de estudo
as informações dos Grupos de Pesquisas cadastrados no Diretório de Grupos do CNPq. A
partir da análise dos descritores, dos objetivos e das linhas de investigação traçamos a
configuração geral dos grupos de pesquisa, conforme a distribuição por região, estado,
universidade e predominância da área de conhecimento. Em seguida, identificamos as
principais estratégias teóricas dos grupos de pesquisas, como: educação e tradições
espirituais/religiosas; educação e integralidade humana; educação e cultura de paz; educação e
sacralidade; educação e espiritualidade popular. Por fim, refletindo sobre o lugar da religião
nessas estratégias teóricas de pesquisa, apresentamos algumas problematizações para o
Ensino Religioso. Utilizando o método arqueológico de Foucault (2012) evidencia-se que a
prática discursiva de um campo científico delineia suas próprias regularidades e unidades de
saber: os objetos de estudo, os conceitos empregados, as estratégias teóricas, as formas de
enunciação etc. Porém, por se tratar de um campo científico em construção, com muitas
questões ainda por vir, optamos apenas pela descrição arqueológica do conjunto das
estratégias teóricas dos grupos de pesquisas que investigam as relações entre educação e
espiritualidade no Brasil. Tal procedimento metodológico oportuniza a individualização deste
campo científico, mostrando suas especificidades e traçando um diagrama atual das escolhas
temáticas, opções, perspectivas teóricas e estratégias de investigação. Este artigo tem como
objetivo construir um mapa de diversas estratégias de pesquisa sobre a relação entre educação
e espiritualidade, bem como apresentar uma ferramenta para futuras investigações; além
oferecer subsídios teóricos e metodológicos para a realização de atividades técnicas, de ensino
ou de pesquisa que envolva a temática da espiritualidade no campo da educação em geral e
especialmente no campo do Ensino Religioso.

Palavras-chave: Educação. Espiritualidade. Religião. Estratégias teóricas.

1
Pedagogo, especialista em Movimentos Sociais, pesquisador do Núcleo de Educação Popular Paulo Freire e
mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Pará. E-mail:
grigorioreis@yahoo.com.br
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Introdução

Por muito tempo a espiritualidade nos ensinará algo se quisermos ouvi-la. Se


atualmente há um crescente interesse pela espiritualidade nos debates filosóficos, científicos,
religiosos e populares, não quer dizer que ela tenha saído do seu longo e obscuro exílio
epistemológico imposto pela ciência moderna. Não quer dizer também que estejamos
passando por uma espécie de “virada espiritual” no campo do conhecimento científico, em
meio a tantas outras que já perdemos a conta e estamos tontos. Trata-se de perceber que as
questões espirituais persistem mesmo quando não queremos vê-las, que haverá alguém ávido
por ouvi-las.
Por séculos (e ainda hoje) a fotológica da filosofia e ciências modernas ocidentais, a
ideia de “ver para crer” e a visão iluminista de mundo, como faróis na densa escuridão da
ignorância, guiaram nossas vidas, tanto que nos trouxeram muitos benefícios. Porém, quando
fracassamos e vemos que nossos recursos intelectuais são falíveis, que ao olhar apenas a
exterioridade da vida percebemos que a nossa vista se tornou ofuscada pelo fascínio
materialista; que o uso dominante de uma racionalidade cognitivo-instrumental causou muitos
danos à natureza, aos animais, às pessoas, aos terráqueos em geral; apressamo-nos a ouvir o
que diziam as tradições espirituais e aprender com seus cientistas transcendentais (Srila
Prabhupada, Jesus, Buda, etc.), dedicamo-nos ao aprendizado de ouvir com maior seriedade
nossa vida interior.
Estes podem ser alguns dos motivos pelos quais as reflexões a respeito da
espiritualidade têm se destacado em áreas de conhecimento tão diversas como a física
quântica, a psicologia, a medicina, a ecologia e a bioética, mas também tem atraído a atenção
de educadores e educadoras.
No cenário das propostas educacionais contemporâneas, os estudos da relação entre
espiritualidade e educação no Brasil são emergentes. Quando falamos da emergência de tais
estudos, não levantamos problemas em termos de origem ou fundamento, mas que nos
mantemos criticamente à escuta do que está acontecendo na paisagem científica. A
emergência de grupos de pesquisas, de livros, artigos e eventos sobre a temática configura
gradativamente um espaço próprio de investigação científica. Mas como podemos saber o que
há de próprio nestas investigações?
Este artigo efetua uma analítica do campo de estratégias teóricas dos Grupos de
Pesquisas que investigam a temática da relação entre educação e espiritualidade no Brasil a
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partir das informações disponibilizadas no Diretório de Grupos do CNPq. O método


arqueológico de Foucault (2012) dispõe de ferramentas analíticas que evidenciam como na
prática discursiva de um campo científico se delineiam as suas próprias regularidades e
unidades de saber, tais como: os objetos de estudo, os conceitos empregados, as estratégias
teóricas, as formas de enunciação etc. No entanto, por se tratar de um campo científico em
construção, com muitas questões ainda por vir, optamos somente pela descrição arqueológica
do conjunto das estratégias teóricas dos grupos de pesquisas que investigam a relação entre
educação e espiritualidade no Brasil. Tal procedimento metodológico oportuniza a
individualização deste campo científico, mostrando suas especificidades por meio de um
diagrama das escolhas temáticas, opções e perspectivas teóricas, estratégias e direções de
pesquisas.
Com a analítica da dinâmica de um conjunto de estratégias teóricas, queremos
apresentar seu diagrama, o complexo poder-saber de um campo científico. Portanto, estamos
interessados em apresentar informações e análises a respeito das pesquisas no campo da
educação e espiritualidade no Brasil, de modo a lançar algumas questões básicas, tais como:
Qual o lugar da religião nessas estratégias teóricas de pesquisa? Que reflexões oferecem para
o Ensino Religioso-ER os estudos sobre a relação entre educação e espiritualidade?
A consulta ao sítio do Diretório de Grupos de Pesquisas do CNPq:
http://dgp.cnpq.br/buscaoperacional/, foi feita pela busca por “qualquer palavra”, realizada no
mês de dezembro de 2012, sendo utilizada a palavra-chave “espiritualidade”. No Diretório
encontramos 63 grupos de pesquisa, localizados áreas de conhecimento, entre elas:
administração, sociologia, saúde, antropologia, psicologia, educação física, etc. Foram
selecionados para análise 18 grupos de pesquisa, incluindo apenas os grupos que fazem
referência explícita à temática, ou que possuem a linha de investigação “educação e
espiritualidade”, ou que investigam exclusivamente a temática ou temas afins. Desta forma,
os grupos que pesquisavam a espiritualidade sem estabelecer explicitamente uma relação com
o campo da educação não foram incluídos.
Primeiramente, as análises das informações permitem traçar a configuração geral dos
grupos de pesquisa, conforme a distribuição dos grupos por região, estado, universidade e
predominância da área de conhecimento. Em seguida, identificamos as principais estratégias
teóricas dos grupos, seus objetivos, categorias de espiritualidade e perspectivas teórico-
educacionais. Por fim, refletindo sobre o lugar da religião no campo das relações entre
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educação e espiritualidade, apresentamos algumas questões para o ER, mobilizando


importantes críticas oriundas do campo das problematizações do modelo dominante de
racionalidade da ciência moderna.

Educação e Espiritualidade no Diretório do CNPq: a configuração dos grupos de


pesquisas.

Os grupos de pesquisa surgem a partir de 1998 e crescem gradativamente até os dias


de hoje. Os 18 grupos selecionados estão divididos em 4 regiões: Nordeste; Sul; Sudeste;
Centro-oeste.
Na região Nordeste concentram-se 8 grupos: 3 no Ceará (2 na UFC e 1 na URCA); 2
em Pernambuco (1 na UFPE e 1 na UPE); 1 no Piauí (UFPI); 1 na Paraíba (UFPB); 1 no
Sergipe (UFS).
Na região Sul concentram-se 5 grupos, todos localizados no Rio Grande do Sul (2 na
PUCRS, 1 na EST, 1 na FURG, 1 na UFRGS).
Na região Sudeste concentram-se 4 grupos: 3 em São Paulo (UNESP, PUC/SP,
UMESP) e 1 no Rio de Janeiro (UFF).
Na região Centro-oeste existe apenas 1 grupo de pesquisa localizado na UFU em
Minas Gerais.
Os grupos de pesquisa atuam em 16 instituições de Ensino Superior, entre
universidades federais (10), estaduais (3) e privadas (3). Observa-se a predominância de
grupos de pesquisa nas instituições públicas de ensino superior. A maior concentração de
grupos está na região Nordeste (8), seguida da região Sul (5). Não há grupos de pesquisa na
região Norte.
Quanto à área de conhecimento, os grupos estão cadastrados predominantemente nas
Ciências Humanas/educação (12); nas Ciências da Saúde/saúde coletiva (1); Ciências
Humanas/Teologia (2); Ciências Humanas/Geografia (1); Ciências Humanas/Psicologia (1);
Ciências Humanas/Sociologia (1).
A configuração geral dos grupos de pesquisa sobre a relação entre educação e
espiritualidade no Brasil, a partir do Diretório do CNPq, mostra uma paisagem científica
bastante promissora e fecunda. Trata-se de um campo de pesquisa em expansão, com muitas
questões a serem desenvolvidas, vários grupos e profissionais engajados, múltiplos olhares
estão envolvidos nas pesquisas, várias campos de conhecimento estão interagindo no debate.
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Educação e espiritualidade no Brasil: um campo de estratégias teóricas.

Analisando atentamente a descrição dos grupos de pesquisa, seus objetivos e linhas de


investigação na base de dados do Diretório do CNPq, podemos identificar no campo de saber
dos estudos da relação entre educação e espiritualidade, quais são as unidades discursivas das
pesquisas, sobretudo seus temas, perspectivas, opções e direções teóricas. Como um
“arqueólogo menor”2 interessa-nos como a ciência funciona no elemento do saber. Para tanto,
recorremos à definição que Foucault (2008, p.110) confere ao saber:

O saber não é uma soma de conhecimentos – pois destes sempre se deve poder dizer
se são verdadeiros ou falsos, exatos ou não, aproximativos ou definidos,
contraditórios ou coerentes; nenhuma dessas distinções é pertinente para descrever o
saber, que é o conjunto dos elementos (objetos, tipos de formulações, conceitos e
escolhas teóricas) formados a partir de uma só e mesma positividade, no campo de
uma formação discursiva unitária.

Essa definição de saber se estabelece segundo uma rede teórica de conceitos que
configuram os territórios arqueológicos. Uma análise arqueológica opera na rede: formação
discursiva-positividade- saber. Uma análise epistemológica, por exemplo, recorre à outra rede
conceitual, tal como: conhecimento-racionalidade-ciência.
Para a investigação arqueológica, uma formação discursiva configurada pelas relações
entre educação e espiritualidade num campo científico, tal como observamos no Diretório do
CNPq, não consiste numa totalidade fechada na qual encontraríamos uma significação, um
sentido ou forma geral, porém trata-se de uma figura complexa, lacunar e retalhada; um
conjunto de enunciados com marcas específicas de um acúmulo. Numa formação discursiva
procuramos descrever sua a positividade, ou seja, o sistema regrado de diferenças e
dispersões, as leis que regem a formação de objetos, conceitos, enunciações e possibilidades
estratégicas, que são as unidades que formam um saber. Por uma determinação recíproca, o
saber está intimamente conectado às práticas discursivas, pois “não há saber sem uma prática
discursiva definida, e toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ela forma”
(FOUCAULT, 2012, p.220).

2
A expressão “arqueólogo menor” refere-se à uma variação do método arqueológico do saber em Foucault
(2012). Para este trabalho, dada às especificidades da temática, focalizaremos apenas a investigação das
estratégias teóricas , pois uma arqueologia do saber, de modo amplo, descreveria ainda as regras de formação de
objetos, conceitos e modalidades enunciativas em sua dispersão e descontinuidade histórica. “Menor” refere-se
a uma noção em Deleuze e Guattari (1995) que se constitui pela potência de variação de um determinado padrão,
produzindo diferenças, multiplicidades. Menor refere-se a um devir potencial e criativo.
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Uma analítica arqueológica descreve os sistemas de formação dos conjuntos de


unidades do saber: conjunto de objetos, conceitos, estratégias teóricas, tipos de enunciação,
suas regras e lógicas de funcionamento num discurso. Uma analítica descreve os múltiplos
estratos de saber pelos quais um discurso científico, por exemplo, individualiza-se e
especifica-se. Portanto, investigamos o conjunto das estratégias teóricas do campo de
pesquisas sobre a relação entre educação e espiritualidade, como possibilidade de descrição
das especificidades pelas quais poderá ser individualizado.

Uma formação discursiva será individualizada se se puder definir o sistema de


formação das diferentes estratégias que nela se desenrolam, em outros termos, se se
puder mostrar como todas derivam (malgrado sua diversidade por vezes extrema,
malgrado sua dispersão no tempo) de um mesmo jogo de relações. (FOUCAULT,
2012, p.80-81)

Descrever as estratégias teóricas consiste em individualizar uma população de


acontecimentos discursivos pela descontinuidade, dispersão e distribuição de enunciados que
ocorrem no solo das escolhas de temas, teorias, das direções de pesquisa em uma determinada
formação discursiva. A seguir, apresentamos as principais estratégias teóricas do campo das
pesquisas sobre a relação entre educação e espiritualidade no Brasil, a partir do Diretório do
CNPq, segundo a lei geral de sua dispersão, heterogeneidade, incompatibilidade e pluralidade
de enunciados.

Educação e Tradições Espirituais/Religiosas.

Nesta estratégia teórica, algumas frentes de pesquisa se definem segundo a posição


que estabelecem com os conhecimentos das tradições espirituais/religiosas.

E dentro dessa multidimensionalidade dos sujeitos que se educam, temos que a


dimensão afetivo-moral está informada pela dimensão espiritual, como propõe
Pestalozzi (apud Incontri; 1997). Na pesquisa em curso tentamos compreender como
se constrói a experiência educativa de sujeitos que dialogam com a dimensão
espiritual, alimentada pelo pensamento espírita. (A CONSTRUÇÃO DA
EXPERIÊNCIA EDUCATIVA NO INSTITUTO DE EDUCAÇÃO ESPÍRITA
SOLAR DOS GIRASSÓIS E SEU DIÁLOGO COM A PEDAGOGIA ESPÍRITA:
BUSCANDO OS PONTOS DE VISTA DO EDUCADOR E DO EDUCANDO –
UFC).
(pesquisar) modelos de racionalidade, abordagens da consciência e a natureza da
realidade na filosofia budista, problematizando os padrões pedagógicos gerados
pelas tradições espirituais da humanidade.(EDUCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE –
UFPE).
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As direções das pesquisas se definem desde o interior de uma tradição ou doutrina


espiritual/religiosa estabelecendo uma relação de diálogo, buscando possíveis contribuições
dessas tradições, problematizando padrões pedagógicos gerados por elas. Destaca-se a
doutrina espírita, a tradição budista tibetana e a tradição cristã católica, com ênfase no estudo
das correntes de pensamento da Teologia da Libertação e da Pedagogia de Paulo Freire.

Educação e Integralidade Humana

São pesquisas voltadas para a formação humana em sua integralidade, em suas


múltiplas dimensões: racional, emocional, biológica, social e espiritual.

O Grupo de Estudos sobre Educação, Saúde e Espiritualidade trata de um paradigma


que educa o cidadão para ser perceber como Ser Integral, no qual as dimensões
Biológica, Social e espiritual, formam um grande todo, que para tratar a saúde de
forma mais ampla, se faz necessário tal compreensão.(EDUCAÇÃO INTEGRAL E
SOCIEDADE SOLIDÁRIA – UPE)
Tem como preocupação o desvelamento e o estudo mais aprofundado dos elementos
constitutivos de uma abordagem integral do ser humano -sua inteireza-
compreendendo dimensões inerentes e originais do próprio ser: social, racional,
emocional, espiritual, para compreensão de seus próprios limites e para
planejamento de seu desenvolvimento por meio de um pensar ousado e de uma
prática integral.( EDUCAÇÃO PARA INTEIREZA: UM (RE)DESCOBRIR-SE –
PUCRS)

As principais perspectivas teórico-educacionais são: Educação Integral da Pessoa,


Educação para o cidadão enquanto Ser Integral, Educação para a Inteireza, Formação Integral
de Educadores. Nesta estratégia, encontramos as categorias analíticas, pessoa, inteireza do ser
e inteligência espiritual.

Educação e Cultura de Paz

Nesta estratégia a relação entre educação e espiritualidade é compreendida nos


aspectos individuais e sociais da pessoa, visando à construção de uma educação para a paz ou
de uma cultura de paz. No aspecto social, as pesquisas concentram-se na área dos valores
humanos, da ética, dos processos sociais da solidariedade e da cidadania.

Fomentar discussões, reflexões, pesquisas, cursos de pós-graduação, livros voltados


para difundir a importância da educação para a paz, e como esses estudos ajudam o
Homem no seu auto-conhecimento, no desenvolvimento da sua espiritualidade
associados a evolução dos processos sociais da solidariedade e da cidadania.
(NÚCLEO DE ESTUDOS DA MENTE E DA ESPIRITUALIDADE HUMANA-
UFS)
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No aspecto individual é compreendia como busca do sentido da vida e prevenção da


saúde psicofísica e do vazio existencial.

O Grupo de Pesquisa Nous objetiva aprofundar temas relacionados com a busca do


sentido na vida, tendo como eixo os seguintes pontos: a) Educação para os valores e
a prevenção do vazio existencial; b) A busca da espiritualidade/religiosidade como
uma via para o encontro do sentido da vida nos dias atuais; c) O sentido da vida
como um fator de proteção da saúde do psicofísico...
Aplicar os conceitos da Logoterapia e análise existencial no contexto de prevenção e
educação; Cultivar os valores humanos objetivando a construção de uma cultura de
paz. (NOUS - ESPIRITUALIDADE & SENTIDO - UFPB)

Existem ainda grupos de pesquisa como o Núcleo de Educação Estética Onírica-


FURG que investiga práticas de intervenção estética, altruísmo e onirismo ativo com objetivo
de possibilitar melhorias na qualidade de vida e a construção de uma Educação Espiritual para
a Felicidade.

Educação e sacralidade

Problematiza as formas de relação do ser humano com o mundo sutil e simbólico do


sagrado e a complexidade do processo de autoconhecimento, interdisciplinaridade e
espiritualidade na educação.

Desenvolver estudos, pesquisas e atividades de intervenção comunitária com jovens,


adultos e idosos, focando nas práticas sócio-psico-educativas relacionadas à
formação multidimensional do ser humano, nas suas relações com o sagrado
(DIALOGICIDADE, FORMAÇÃO HUMANA E NARRATIVAS – UFC)
tem como proposta a compreensão da complexidade do processo do
Autoconhecimento, Interdisciplinaridade e Espiritualidade. Investiga a relação entre
Educação e Espiritualidade com a preocupação de explicitar e problematizar o lugar
do Autoconhecimento nos processos de formação e gestão da Educação. Os
pesquisadores aprofundam a temática Espiritualidade, entretanto não se ligam a
vínculos religiosos, porque compreendem a importância de respeitar as diversas
crenças. (GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISA SOBRE
INTERDISCILINARIDADE E ESPIRITUALIDADE NA EDUCAÇÃO – PUC/SP)

Além das pesquisas da relação entre o sagrado e a educação, o reencantamento das


atividades educativas faz parte dessa estratégia teórica.
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Para superarmos essas crises, um dos desafios é a superação do atual modelo de


ciências e sistema educativo que separam o aspecto material e o espiritual da vida
humana, negam a ambivalência da vida e da realidade e fazem da razão instrumental
a única razão aceita. Nessa luta, muitos autores têm proposto o reencantamento da
educação, da vida e do mundo (...). O grupo de pesquisa "Religião e educação"
procura analisar essas propostas de reencantamento e as possíveis contribuições das
religiões para uma "reconciliação" do ser humano com a sua condição humana com
o objetivo construir novas categorias e práticas educativas e culturais e que sejam
capazes de criticar o atual modelo de sociedade e contribuir na construção de uma
sociedade mais solidária. (RELIGIÃO E EDUCAÇÃO – UMESP).

Educação e Espiritualidade Popular

As pesquisas são voltadas para a relação entre educação, saúde, direitos humanos e
práticas religiosas/espirituais em contextos como movimentos sociais, comunidades, grupos
de jovens, adultos, crianças e adolescentes. Destaca-se a Educação Popular como principal
perspectiva teórica.

O Grupo Cirandas de Aprendizagem e Pesquisa em Educação Popular e Saúde


emerge da necessidade de construir um espaço de diálogo entre práticas de educação
popular em saúde vividas nos movimento sociais e experiências de ensino, pesquisa
e extensão, capazes de buscar conexões com a perspectiva popular na luta pelo
direito à saúde. Assim é que se irá, também, sistematizar experiências de educação e
saúde, vistas como formas de produção de conhecimento e de metodologias que
incorporam linguagens e racionalidades complexas, bem como se irá pesquisar arte,
cultura e espiritualidade junto à perspectiva popular. (CIRANDAS DE
APRENDIZAGEM E PESQUISA EM EDUCAÇÃO POPULAR E SAÚDE –
UFPI).
relaciona-se com a educação comunitária e compreende pesquisa sobre o
desenvolvimento da espiritualidade, a busca por sentido de vida, e a reflexão sobre
processos formativos que visam uma educação integral e inclusiva, em diferentes
contextos e grupos sociais, como a família, a escola, a comunidade. (ED.
RELIGIOSA NA INFÂNCIA E JUVENTUDE – EST)

Ao estabelecermos aqui as principais estratégias teóricas no campo da pesquisa da


temática “educação e espiritualidade” descrevemos então um diagrama. Para Deleuze (2005,
p.80),

poder-se-á então definir o diagrama de diversas maneiras que se encadeiam: é a


apresentação das relações de força que caracterizam uma formação; é a repartição
dos poderes de afetar e dos poderes de ser afetada; é a mistura das puras funções
não-formalizadas e das puras matérias não-formadas.

O diagrama apresenta o campo das estratégias teóricas como um conjunto de relações


de força, como um complexo poder-saber funcionando informemente entre os grupos de
pesquisa. Quando as estratégias teóricas são intituladas “educação e cultura de paz”,
“educação e sacralidade”, por exemplo, a letra “e” não indica uma forma geral e homogênea.
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Trata-se de um sistema de dispersão e diferenças, um ponto de passagem, que eventualmente


pode servir como uma estação onde adquirimos nosso “ticket de embarque” ou simplesmente
como um lugar de atravessamento, onde às vezes por ele passamos sem notar sua existência.
Esses pontos de passagem podem ser definidos como: espaços de possibilidades (de relações
de força), espaços de afetos (ação e reação de uma força em relação às outras), espaços de
heterogeneidade (misturas entre funções não-formalizadas e matérias-não formadas)
Como espaços de possibilidade, dizemos que as estratégias teóricas analisadas não
estão fixadas em definitivo, o que significa dizer que estabelecemos um punhado de pontos de
escolha, opções teóricas e abordagens que transbordam seus próprios agrupamentos.
Como espaço de afetos, as estratégias constituem diversas maneiras de afetar e ser
afetadas pelas forças que mobilizam. Durante as análises percebemos que num único grupo ou
linha de pesquisa podemos encontrar mais de uma destas estratégias teóricas, pois suas
especificidades são intercambiáveis, existem muitos pontos de difração e de equivalência
(FOUCAULT, 2012). As estratégias teóricas são como linhas diagonais no espaço do saber,
que se comunicam, capturam, integram, excluem, determinam-se reciprocamente,
evidenciando um conjunto de acontecimentos discursivos em sua distribuição,
descontinuidade e dispersão. Descrever as regularidades enunciativas como estratégias
teóricas não implica a perda da fluidez e comunicação entre tópicos, questões, temáticas de
pesquisa e principalmente entre abordagens, destacando-se: antropologia filosófica; a reflexão
teológica, sociológica e pedagógica; a perspectiva transcultural; a psicologia transpessoal,
psicologia social e comunitária; a abordagem integral; a perspectiva popular ou comunitária,
os estudos interdisciplinares; a logoterapia e a análise existencial; o onirismo ativo; a teologia
da libertação e a pedagogia da libertação.
Como espaço de heterogeneidade pressupõe-se a multiplicação indefinida de
concepções de educação e espiritualidade. Há apenas concepções gerais para fins de descrição
dos objetivos do grupo e de suas linhas. Assim, quanto à concepção de educação,
identificamos que ela pode ser cristã, espírita, integral, comunitária, estética, sem nenhuma
descrição clara ou citação de qualquer prática correspondente; e que a educação tem vários
fins: para a paz, a felicidade ou a integralidade humana, etc.
A espiritualidade, por sua vez, é compreendida como uma das múltiplas dimensões
humanas, sem definir o que seja o espiritual dessa dimensão, ou identifica-se com a dimensão
afetivo-moral. A espiritualidade por vezes associa-se aos estudos da transcendência ou do
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sagrado; também é compreendida como formação humana, busca do sentido da vida,


ferramenta para o autoconhecimento e humanização, mediação entre ciência e religião, como
exercício filosófico ou filosofia como exercício espiritual. Por espiritualidade compreende-se
ainda o estudo de algumas práticas e temas afins, tais como: estudos das práticas do cuidado
de si e autogoverno, inteligência espiritual, inteireza do ser, consciência de si e do outro,
subjetividade, autorrealização, intervenções estéticas, práticas altruístas, ética e alteridade.
Os resultados da pesquisa apontam ainda a condição lacunar e dispersa da distribuição
dos grupos de pesquisa no Brasil, sobretudo quanto à ausência de grupos de pesquisa na
região norte e quanto à inexistência de linhas de pesquisas que enfatizem as contribuições das
tradições indígenas, africanas, caboclas entre outras culturas. No Diretório não há nenhum
grupo de pesquisa interessado pela investigação da espiritualidade nestas tradições. Até o
momento, as tradições religiosas privilegiadas são o cristianismo, a doutrina espírita, a
filosofia budista. Este fato define que toda formação discursiva “é essencialmente lacunar, em
virtude do sistema de formação de suas escolhas estratégicas” (FOUCAULT, 2012, p.79).
Logo, ao incluir na economia da constelação discursiva3 das pesquisas da temática “educação
e espiritualidade” as tradições indígenas, afro-descendentes, caboclas, hinduístas,
mulçumanas entre outras não citadas até então, haverá uma modificação no princípio de
exclusão e uma abertura para outras escolhas teóricas, outros temas, outras questões.

Educação e espiritualidade no Brasil: os deslocamentos e o não-lugar da religião.

Se pensarmos do ponto de vista de duas grandes estratégias teóricas de pesquisa


encontramos: a) educação e espiritualidade em matrizes de tradições espirituais/religiosas; b)
a educação e a sua relação com uma espiritualidade laica. Para além de uma percepção
espacial, que sugere uma investigação interna ou externa à religião, perguntamos: qual o lugar
da religião nessas estratégias de pesquisas? Com isso queremos refletir sobre os
deslocamentos do religioso ou o seu não-lugar nessas investigações4.
Os resultados das pesquisas apontam que as estratégias que decidem estabelecer
relações com as tradições espirituais/religiosas atuam por meio diálogo, aproximações,
convergências, tentativas de integração de cosmologias científicas e espirituais,

3
Para Foucault (2012, p.79) descrever as estratégias teóricas consiste em analisar também “o papel
desempenhado pelo discurso estudado em relação aos que lhe são contemporâneos ou vizinhos”.
4
Para Deleuze (2005, p.92) “o diagrama, enquanto expõe um conjunto de relações de força, não é um lugar, mas
um “não-lugar”: é lugar apenas para as mutações”.
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problematização de padrões pedagógicos gerados por essas tradições, pela promoção do


diálogo inter-religioso e pela busca por contribuições teóricas para formação do educador.
As estratégias teóricas que excluem as religiões do debate são mais difíceis de
identificação, pois não há informação precisa na descrição dos grupos ou em suas linhas de
investigação que cofirmem tal decisão. Dos 18 grupos selecionados, 8 não fazem referência
explícita à relação com religiões e apenas uma análise das suas produções poderia confirmar
ou não a exclusão das religiões do debate. Nestes 8 grupos suas investigações aproximam-se
apenas de uma concepção de espiritualidade laica, compreendendo o estudo de práticas ou
temáticas afins como inteligência espiritual, inteireza do ser, autoconhecimento,
autorrealização, cuidado de si, autogoverno, ética, valores humanos, etc.
Optar ou não pelos saberes das tradições espirituais/religiosas nas pesquisas da relação
entre educação e espiritualidade significa traçar fronteiras. Por um lado, corremos o risco de
excluir todo um acervo de conhecimentos orais disponíveis ou escrituras sagradas reveladas
nas mais diversas culturas e tradições espirituais, todo um suprimento de saber sobre a
transcendência, Deus, ética, cosmogênese, origem do universo, ontologia, metafísica, que
podem nos ensinar sobre outras concepções de vida, de educação, de Deus, de mundo; que
podem nos oferecer respostas e práticas dignas, autênticas, lógicas, satisfatórias e belas aos
problemas da vida e ao sentido do viver, que valham a pena ser investigados ou assumidos na
prática educativa, intelectual e cotidiana de nossa existência.
Por outro lado, a abordagem científica da religião também é questionável, pois a
ciência moderna ocidental dedicou muitos de seus esforços para estabelecer fronteiras bem
delimitadas e policiadas entre os saberes científicos e os saberes fora de seu jogo de princípios
epistemológicos e regras metodológicas. Nesse sentido, trazemos à escuta algumas questões
fundamentais para pensar estas fronteiras ético-epistemológicas nos estudos da espiritualidade
ou da religião no campo da educação, a partir de importantes críticas ao modelo de
racionalidade dominante da ciência moderna, como: a tese do pensamento abissal de
Boaventura de Sousa Santos (2010), os processos de mundialatinização descritos por Jacques
Derrida(1997) e eurocentrismo problematizado por Enrique Dussel (2007).
Quando pesquisadores recorrem ao latim ou grego para pensar a origem e concepção
dos termos espiritualidade, religião ou até mesmo educação, utilizando palavras como
religare, spiritus, spiritualis, nous, psiché e mais recentemente religion, esse hábito
acadêmico, aparentemente comum e ingênuo, traz para reflexão crítica a problemática ético-
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epistemológica do Outro. Pois esse hábito delimita uma forma de pensamento, traça linhas
entre culturas, saberes, conhecimentos, que no mais das vezes tornam visíveis apenas aqueles
que podem ser vistos num quadro de compreensão e relevância – o paradigma científico
moderno, com as linhas visíveis e invisíveis de um pensamento abissal.
A tese de Boaventura de Sousa Santos (2010, p.31) afirma que “o pensamento
moderno ocidental é um pensamento abissal”. O pensamento moderno ocidental é uma
cartografia epistemológica que elabora uma distinção entre dois universos: o universo ‘deste
lado da linha’ e o universo do ‘outro lado da linha’, com suas respectivas consequências.
Deste lado da linha, o pensamento moderno ocidental se caracteriza por sua concessão à
ciência e ao direito o monopólio de distinção universal entre verdadeiro e falso, legal e ilegal.
E o que há do outro lado da linha? “Do outro lado da linha, não há conhecimento real;
existem crenças, opiniões, magia, idolatria, entendimentos intuitivos ou subjetivos, que na
melhor das hipóteses, podem tornar-se objetos ou matéria-prima para a inquirição científica.”
(SANTOS, 2010, p.34).
O pensamento abissal operou fundamentalmente no processo de produção do
conhecimento moderno por dicotomias, exclusões e assimetrias de poder. O Outro, seja ele
pessoa, povos, culturas ou saberes são definidos e qualificados desde referenciais cognitivos,
estéticos e sociais do Eu ocidental moderno. Nesta forma de pensamento abissal, do outro
lado da linha sempre estará os conhecimentos populares, leigos, campesinos, indígenas ou de
outras culturas não-ocidentais.
Questionar os efeitos de um pensamento abissal nestas pesquisas em debate
desencadeia certa crítica epistemológica quanto aos nossos procedimentos científicos, cuja
herança moderna ocidental é evidente, e, sobretudo, em relação aos seus efeitos
colonizadores. Pois, de certa forma, quando um pesquisador anuncia seu pensamento desde
uma etimologia latina da palavra religião ou espiritualidade, a questão do pensamento abissal
se impõe combinado ao fenômeno da mundialatinização.
Derrida (1997, p. 45) define mundialatinização como um dispositivo de alcance
geopolítico e ético-jurídico, de hegemonia cristã, que articula o fenômeno da latinidade e da
sua mundialização, estabelecendo conexões com a cultura anglo-americana, as quais são
raramente interrogadas. Desta forma:
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Quanto a tudo o que respeita em particular à religião, quanto àquilo que fala de
‘religião’, quanto àquilo que sustenta um discurso religioso ou sobre a religião, o
anglo-americano continua a ser latim. Religion circula no mundo, assim poderíamos
dizê-lo, como uma palavra inglesa que tivesse feito uma estada em Roma e um
desvio pelos Estados Unidos. (grifos do autor)

Esse dispositivo se evidencia a começar pelo vocabulário religioso, a observação de


palavras como “culto”, “fé”, “crença”, “oração”, “prece”, “salvação” que não deixa margens
para qualquer célula semântica estrangeira; ou seja, quando recorremos, comumente, ao
horizonte das ciências e filosofias ocidentais como ponto de partida, tendo a língua latina ou
grega como predominante, estamos diante de um padrão semântico, de uma língua enquanto
marcador de poder. Desse procedimento surgem problemas bastante complexos, pois “a partir
daqui, chama-se hoje ‘religiões’ tranquilamente (e violentamente) a múltiplas coisas que
sempre foram e continuam a ser estranhas ao que o termo nomeia e chama à razão na sua
história” (DERRIDA, 1997, p.45).
O pensamento abissal e a mundialatinização são impulsionados ainda por um desejo
totalitário de estabelecer mundialmente um modo de vida eurocêntrico. Nas palavras de
Dussel (2007, p.69) o “eurocentrismo consiste exatamente em constituir como universalidade
abstrata humana em geral momentos da particularidade européia, a primeira particularidade
de fato mundial (quer dizer, a primeira universalidade humana concreta).” Dussel (1994)
defende a tese de que o eurocentrismo é determinante fundamental da modernidade. E nesta
concepção, a modernidade surge no século XVI com a colonialidade, com a conquista, a
subsunção da Ameríndia, o uso da violência, a dominação econômica e cultural de vidas,
povos e saberes, com o estabelecimento de um sistema-mundo, o primeiro a definir periferias
em relação a uma cultura de centro, a européia.
Não podemos esquecer que os humanistas do século XV e XVI, com base em suas
compreensões eurocêntricas de natureza humana encerravam-se em especulações a respeito
da humanidade dos povos indígenas, chegando à conclusão cínica de que não passavam de
selvagens, quando muito sub-humanos. Em termos espirituais, a questão central era saber se
os indígenas tinham alma.
A questão do lugar da religião nos estudos da relação entre educação e espiritualidade
promove instigantes reflexões não só aos pesquisadores deste emergente campo científico,
como aos estudiosos do ER. Sobretudo se considerarmos os processos de eurocentrismo,
mundialatinização e o pensamento abissal como estratégias epistemológicas e sociais que
sustentam e reforçam a centralidade, a hegemonia e o monopólio do conhecimento científico
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moderno ocidental. Essas estratégias persistem como autorreprodução de um projeto sectário


de vida e de ciência que insiste em revestir os referenciais ocidentais de conhecimento em
modelo neutro de explicação da realidade, em representação universal e verdade única das
experiências cognoscitivas, culturais, sociais, estéticas, educativas, religiosas e espirituais.
A análise dessas estratégias políticas e epistemológicas sugere que os riscos e perigos
enfrentados na prática de pesquisa surgem na proporção das possibilidades éticas, críticas,
dialógicas e inventivas de pesquisa.

Considerações Finais

Esperamos que esse diagrama de estratégias teóricas funcione como um mapa que
contribua tanto para as reflexões dos estudiosos do campo da relação entre educação e
espiritualidade, quanto aos pesquisadores, professores e demais profissionais do ER,
oportunizando informações sobre grupos de pesquisas que atuam no país e suas escolhas
teóricas.
Este mapa apresenta diversas orientações em pesquisa e pode ser uma importante
ferramenta de investigação ou fonte de subsídios teóricos e metodológicos, conteúdos,
suportes didáticos e pedagógicos para a realização de atividades técnicas, de ensino ou de
pesquisa que envolva a temática da espiritualidade no campo da educação ou do ER. Em
especial, cabe aos pesquisadores e professores do ER interessados pelo estudo da
espiritualidade, segundo as propostas de ER assumidas no contexto de suas atuações,
investigar com maior atenção quais são os intelectuais, as pesquisas, as obras que representam
cada uma dessas estratégias de investigação, estabelecendo conexões com os conhecimentos
das ciências da religião ou das tradições espirituais/religiosas. As categorias, perspectivas,
escolhas teóricas apresentadas aqui podem contribuir com o trabalho do professor e do
pesquisador do ER, na medida em que oferece amplas possibilidades de abordagens da
espiritualidade no campo da prática docente ou da pesquisa.
Refletir sobre os deslocamentos ou o não-lugar da religião nos estudos da relação entre
educação e espiritualidade, a partir das análises sobre o pensamento abissal, os processos de
mundialatinização e o fenômeno do eurocêntrismo, impulsionam muitos questionamentos
sobre os efeitos, possibilidades, riscos e perigos das estratégias teóricas de pesquisas que
adotamos em nossas atividades educacionais ou investigativas. Esses efeitos e riscos tem
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haver não só com os efeitos colonizadores da ciência moderna ocidental, mas também com a
possibilidade de abertura e inovação epistemológica.
Corremos o risco também não só da perda de oportunidade de diálogos críticos e
criativos com experiências, saberes e epistemologias outras, mas de colonizar a diferença, sem
ouvi-la em sua alteridade. Isto sem contar as pesquisas educacionais da espiritualidade laica
que correm o risco de permanecer no horizonte das Luzes, sem qualquer aventura ética e
epistemológica em direção ao Outro, vendo-o senão como um objeto de inquirição científica.
Finalmente, pensamos que avaliar estes efeitos e perigos abre possibilidades também
de inovação científica e auxilia na construção de um pensar ético-epistemológico em
pesquisas de perspectiva intercultural. Assim, a questão do oportunismo cultural que
Feyerabend (2010) nos adverte, revela duas situações: que nos intercâmbios guiados que
estabelecemos com diferentes culturas corremos o risco de adotar tradições bem especificadas
e aceitar apenas as respostas que correspondem aos nossos padrões, prometendo respeito
somente no arcabouço de um debate racional. Já por um intercâmbio aberto, ético, mais
generoso e dialógico, aceitamos que nossas ideias, concepções, percepções e procedimentos
científicos podem ser mudados completamente e atuamos com inventividade na alteridade.

REFERÊNCIAS

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CNPQ. Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil. Disponível em:
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SANTOS, Boaventura de Sousa;MENESES, Maria Paula (orgs). Epistemologias do Sul. São


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