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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

João Vitor de Lima Araújo

RESENHA DO FILME MEU TIO (Mon Oncle, 1958)

Belo Horizonte - Minas Gerais


2019
João Vitor de Lima Araújo
Resenha do filme Meu Tio (Mon Oncle, 1958),
atividade do curso de Arquitetura e Urbanismo
da PUC-MG, campus Praça da Liberdade,
disciplina de Teoria do Urbanismo, 4º período.

Belo Horizonte - Minas Gerais


2019
Muito embora tenhamos uma representação caricata de bairros com estéticas
moderna/funcional e pinturesca/insalubre, você consegue identificar características
positivas e negativas em ambos bairros?
Como você percebe a relação humana em ambos os ambientes?
Ambas as casas tem questões de praticidade: m. Hulot, no seu prédio antigo,
tem que passar por vários lances de escada e corredores para chegar ao seu
apartamento. Quando visita a casa de seu sobrinho, tem de passar por uma
passarela inconveniente e longa demais no jardim. A diferença parece estar no grau
de autoconsciência da arquitetura e na admissão do ocasional, do impensado e
acidental.
Os interiores tortuosos do prédio de Hulot parecem ter vindo de uma
colaboração orgânica, com as incoerências naturais do tempo e de um esforço
coletivo pobre de recursos. No caminho, Hulot vê coisas sempre diferentes - a luz, a
sombra, os sons pelas portas dos vizinhos - que confirmam que lá existe vida,
beleza espontânea e movimento. O homem vive uma vida variável assim, e participa
ativamente da sua reconstituição - em um momento, passando pelo bairro
pinturesco, ele tropeça no muro quebrado e derruba um tijolo; Hulot pega o tijolo e
tenta deixá-lo onde já estava, solto e quebrado. No seu apartamento, descobre que
a janela, em determinada posição, reflete o sol sobre uma gaiola e faz um
passarinho cantar. Ele sai e deixa o passarinho piando para os seus vizinhos. Isto
para mim é um ponto positivo. O tio vive num mundo - num bairro - que faz
afirmações constantes do espontâneo e das coisas menores. As relações humanas
que lá acontecem podem ser agradáveis, gratificantes, inconvenientes ou
desgastantes - mas são autênticas. Se uma vizinha lhe oferece um doce, ele aceita -
ele suja as mãos e isso é desagradável, mas persiste em ser cordial. Isso não
significa que o tio sorri e dissimula, mas acredita nas interações em que participa;
isso é autêntico, assim como todas as brigas e amizades que aparecem no bairro.
O mundo moderno, no entanto, vive fingindo e tentando se provar.
Reafirmações de poder - o escritório do chefe, com as cadeiras baixas para os
funcionários e as linhas verticais apontando pro monsieur Presidént; na casa a fonte
ligada para as visitas que, informadas que “as plantas estão bem orientadas”,
passam observando e julgando. Apesar da casa geométrica trazer tecnologias úteis
e que podem cortar tempo, tudo ali parece que foi redefinido para causar
determinada sensação; surpresas pré-determinadas (o sofá que surpreende ao se
revelar sofá, o jarro que é um Jarro original) e objetos que se resumem na
originalidade de sua composição; para mim, isto é um dos pontos negativos. As
interações, em geral, partem de intenções impessoais, que são super-conscientes
das consequências do seu acontecer. Este esquema rígido de escalada social e da
projeção constante do materialismo parece preservar os indivíduos de experimentar
o autêntico; o imprevisível vem na forma dos próprios erros mecânicos das
máquinas, que confunde os modernos, e pelo tio Hulot, tão natural.

BIBLIOGRAFIA:
MEU Tio. Direção: Jacques Tati. França: Gaumont, 1958. DVD.
RYBCZYNSKI, Witold. CASA: Pequena História de uma Idéia. Editora Record.
3. ed. Rio de Janeiro, 2002. 261p. Tradução: Betina Von Staa.

AUTOAVALIAÇÃO:
2 pts.

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