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APOSTILA COMPLEMENTAR ENEM

FILOSOFIA ANTIGA

Nascimento da Filosofia
A filosofia retomando as questões postas pelo mito, é uma explicação racional da origem e da
ordem do mundo. A filosofia nasce como racionalização e laicização da narrativa mítica,
superando-a e deixando-a como passado poético e imaginário. A origem e a ordem do mundo
são, doravante, naturais. Aquilo que, no mito, eram seres divinos (Urano, Gaia, Ponto) tornam-
se realidades concretas e naturais: céu, terra, mar. Aquilo que no mito, aparecia como geração
divina do tempo primordial surge, na filosofia, como geração natural dos elementos naturais.
A filosofia, ao nascer como cosmologia, procura ser a palavra racional, a explicação racional, a
fundamentação pelo discurso e pelo pensamento da origem e ordem do mundo, isto é, do todo
da realidade, do ser.
O período pré-socrático foi dominado, em grande parte, pela investigação da natureza. Essa
investigação tinha um sentido cosmológico. Era a busca de explicações racionais para o
universo manifestada na procura de um princípio primordial (arché) para todas as coisas
existentes. Seguiu-se a esse período uma nova fase filosófica, caracterizada pelo interesse no
próprio homem e nas relações do homem com a sociedade. Essa nova fase foi marcada, no
início, pelos sofistas.
Os sofistas eram professores viajantes que, por determinado preço, vendiam ensinamentos
práticos de filosofia. Levando em consideração os interesses dos alunos, davam aulas de
eloqüência e sagacidade mental. Ensinavam conhecimentos úteis para o sucesso dos negócios
públicos e privados.
O momento histórico vivido pela civilização grega favoreceu o desenvolvimento desse tipo de
atividade praticada pelos sofistas. Era uma época de lutas políticas e intenso conflito de
opiniões nas assembleias democráticas. Por isso, os cidadãos mais ambiciosos sentiam a
necessidade de aprender a arte de argumentar em público para, manipulando as assembleias,
fazerem prevalecer seus interesses individuais e de classe.

Sócrates
Com Sócrates a filosofia é uma investigação sobre os fundamentos éticos, o conhecimento de
si mesmo, passando a investigar o próprio homem, o homem se torna o objeto da filosofia, uma
antropologia.
O método socrático, exercitado sob a forma do diálogo, consta de duas partes:
Exortação: Sócrates convida o interlocutor a filosofar, a buscar a verdade:
Indagação: Sócrates, fazendo perguntas, comentando as respostas e voltando a perguntar,
caminha com interlocutor para encontrar a definição da coisa procurada.
- Etapas da indagação:
. Ironia, isto é, refutação: feita a pergunta, Sócrates comenta as várias respostas que a ela são
dadas, mostrando que são sempre preconceitos recebidos, imagens sensoriais percebidas ou
opiniões subjetivas e não a definição buscada.
. Maiêutica, isto é, parturição: Sócrates, ao perguntar, vai sugerindo caminhos ao interlocutor
até que este chegue à definição procurada. Esta segunda parte é uma arte de realizar um
parto, no caso, parto de uma ideia verdadeira.
A ciência socrática é o resultado do método. Por operar com o exame de opiniões, isto é,
definições parciais, subjetivas, confusas, contraditórias – para chegar à definição universal e
necessária, Sócrates dá início ao que Aristóteles chama de indução: chegar ao universal por
meio do particular.

Platão
A ontologia platônica introduz uma divisão no mundo, afirmando a existência de dois mundos
diferentes e separados: o mundo sensível, da mudança, da aparência, do devir e dos
contrários; e o mundo inteligível, da identidade, da permanência, da verdade, conhecido pelo
intelecto puro, sem qualquer interferência dos sentidos e das opiniões.
O primeiro é o mundo das coisas, material. O segundo, o mundo das ideias ou das essências
verdadeiras, portanto real.
O mundo sensível é uma sombra, uma cópia deformada ou imperfeita do mundo inteligível das
ideias ou essências.
O caminho que eleva a alma ao conhecimento das ideias se inicia no grau de máxima
ignorância: nas paredes, no fundo da caverna, estão projetadas as sombras dos bonecos de
madeira, cópias dos objetos sensíveis, imagens (simulacros). Na segunda etapa, ainda no
fundo da caverna, isto é, no mundo sensível: temos a crença no que os sentidos nos mostram:
os bonecos de madeira, objetos sensíveis, meras cópias dos verdadeiros seres – as Ideias
(formas). Na terceira etapa, entre o mundo sensível e o mundo inteligível, o cativo liberto chega
ao primeiro grau do conhecimento verdadeiro com o pensamento discursivo, que são os
raciocínios matemáticos que refletem e demonstram verdades filosóficas. E finalmente, na
última etapa o cativo liberto “vê” o mundo verdadeiro das ideias. Através da intuição intelectual,
visão da alma que contempla as formas (ideias) puras: o mundo inteligível e o sol da Ideia do
Bem, ou o Ser.
Para Platão o conhecimento é reminiscência. Antes de a alma nascer em um corpo,
(encarnação) ela contemplou as ideias ou formas puras no mundo inteligível. O conhecimento
é recordação, é a visão interior da verdade que alma havia contemplado no mundo inteligível.
O conhecimento é o esforço de lembrar, recordar o mundo das Ideias contemplado pela visão
interior da alma.
Aqueles que conheceram a ideia verdadeira de justiça, de igualdade e do Bem (Ser). Os
melhores é que governarão a cidade: os filósofos (meritocracia).

Aristóteles
Na Metafísica ou Filosofia primeira, Aristóteles concebe os seres ou entes como uma unidade
substancial de matéria e forma. Para ele não há matéria sem forma, nem forma sem matéria.
A matéria é indeterminada. A matéria pode assumir qualquer forma.
A forma é quem determina a matéria. Informa o ser /ente, diz o que ele é.
Conhecer para Aristóteles é buscar as causas. Causa para ele é em sentido bastante amplo:
tudo aquilo que determina a realidade de um ser ou ente. Distingue então as quatro causas
primeiras de todos os seres/entes:
1. Causa material: isto é, aquilo de que uma essência é feita, sua matéria (p. ex.: madeira).
2. Causa formal: isto é, aquilo que explica a forma que uma essência possui (p. ex.: forma de
cadeira).
3. Causa eficiente ou motriz: isto é, aquilo que explica como uma matéria recebeu uma forma
para constituir uma essência (p.ex.: carpinteiro)
4. Causa final, isto é, a causa que dá o motivo, a razão ou finalidade para alguma coisa existir
e ser tal como ela é (p. ex.: sentar, descansar)
Ato e Potência explicam a mobilidade/transformação dos seres/entes.
A matéria possui potencialidades indeterminadas e a forma lhe dá determinações na
constituição de um ser/ente em ato.
Potência: é o que está contido numa matéria e pode vir a existir, se for atualizado (ato) por
alguma causa (p. ex.: a criança é um adulto em potência ou um adulto em potencia.
Ato: é a atualidade de uma matéria, sua forma num dado instante do tempo; o ato é a forma
que atualizou uma potência contida na matéria (p. ex.: a árvore é o ato da semente, o adulto é
o ato da criança).

Lógica
A lógica, no sentido clássico é a ciência das leis do pensamento; no sentido moderno: ciência
das formas do discurso. — A lógica tem sido apresentada como a arte de bem conduzir sua
razão no conhecimento das coisas, tanto para instruir-se a si próprio quanto para instruir os
outros. A lógica é, essencialmente, a ciência formal das formas de conceitos, de juízos e de
raciocínios. Essa interpretação da lógica remonta a Aristóteles (384-322 a. C.), cujo Organon
expõe os princípios e os eternos elementos da lógica formal (teorias do silogismo, da dedução,
da indução): o elemento mais simples da lógica é a ideia ou conceito; este se define do ponto
de vista de sua extensão e compreensão. A compreensão é o conjunto das qualidades que
caracterizam o objeto do conceito; a extensão, o conjunto dos seres que têm a mesma
qualidade. Por exemplo, o conceito de "cão" é o de um animal que se pode descrever com
grande precisão; possui um grande número de qualidades particulares (uma grande
"compreensão"). O de "vertebrado" é muito mais geral (possui uma "extensão" maior), mas
permanece mais vago: 'assim, a compreensão está em razão inversa da extensão. O juízo se
define como uma relação entre dois conceitos; o raciocínio, como uma relação entre dois ou
vários juízos. Tais são os três elementos principais da lógica formal.
Exercícios de Filosofia Antiga

1. No poema Teogonia, as Musas aparecem ao poeta Hesíodo e dizem-lhe o seguinte:


"sabemos dizer muitas mentiras semelhantes aos fatos e sabemos, se queremos, dar a ouvir
verdades" (VV.25-6)
Com base neste trecho e considerando as distinções entre mito e logos
A) a filosofia assemelha-se ao mito por entender que a verdade baseia-se na autoridade de
quem a diz.
B) no mito há espaço para contradições e incoerências, pois a verdade nele se estabelece em
um plano diverso daquele em que atua a racionalidade humana.
C) o mito entende que a verdade é, por um lado, uma conformidade com alguns princípios
lógicos e, por outro, a verdade deve ser dita em conformidade com o real.
D) A crença e a confiança no mito provêm da autoridade religiosa do poeta que o narra,
autoridade que é dada pelo Logos.
E) a filosofia, enquanto cosmogonia, contrasta-se com a teogonia, tal como apresentada na
citação feita.

2. “(…) Assim, a magia e a mitologia ocupam a imensa região exterior do desconhecido,


englobando o pequeno campo do conhecimento concreto comum. O sobrenatural está em
todas as partes, dentro ou além do natural; e o conhecimento do sobrenatural que o homem
acredita possuir, não sendo da experiência direta comum, parece ser um conhecimento de
ordem diferente e superior. É uma revelação acessível apenas ao homem inspirado ou (como
diziam os gregos) ‘divino’ — o mágico e o sacerdote, o poeta e o vidente”.
CORNFORD, F.M. Antes e Depois de Sócrates. Trad. Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Martins
Fontes, 2001, pp.14-15.
A partir do texto acima, é correto afirmar que
A) o campo do conhecimento mítico limita-se ao que se manifesta no campo concreto comum.
B) a magia e a mitologia não se confundem com o conhecimento concreto comum.
C) o conhecimento no mito, por ser uma revelação, é acessível igualmente a todos os homens.
D) o mito não distingue o plano natural do sobrenatural, sendo o conhecimento do sobrenatural
superior.
E) magia e mitologia desconsideram o conhecimento concreto comum e menosprezam a
palavra sagrada transmitida pelo poeta.

3. “…Princípio dos seres…ele [Anaximandro] disse (que era) o ilimitado…Pois donde a geração
é para os seres, é para onde também a corrupção se gera segundo o necessário ; pois
concedem eles mesmos justiça e deferência uns aos outros pela injustiça, segundo a
ordenação do tempo.”
Pré-Socráticos. Coleção “Os Pensadores”. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
A partir da análise do texto de Anaximandro, é correto afirmar que a filosofia, em contraposição
ao mito, se caracteriza por
A) conceber o tempo como um passado imemorial sem relação com o presente.
B) os seres divinos concedem, por alianças ou rompimentos, justiça e deferência uns aos
outros.
C) o mundo ser explicado por um processo constante e eterno de geração e corrupção, cujo
princípio é o ilimitado.
D) narrar a origem do mundo por meio de alianças e forças geradoras divinas.
E) explicar a geração dos seres através da negação dos opostos e da justiça.

4. “Tales foi o iniciador da filosofia da physis, pois foi o primeiro a afirmar a existência de um
princípio originário único, causa de todas as coisas que existem, sustentando que esse
princípio é a água. Essa proposta é importantíssima... podendo com boa dose de razão ser
qualificada como a primeira proposta filosófica daquilo que se costuma chamar civilização
ocidental”.
(REALE, Giovanni. História da filosofia: Antigüidade e Idade Média. São Paulo: Paulus, 1990.
p. 29.)
A filosofia surgiu na Grécia, no século VI a.C. Seus primeiros filósofos foram os chamados pré-
socráticos. De acordo com o texto, assinale a alternativa que expressa o principal problema por
eles investigado.
A) A ética, enquanto investigação racional do agir humano.
B) A estética, enquanto estudo sobre o belo na arte.
C) A epistemologia, como avaliação dos procedimentos científicos.
D) A cosmologia, como investigação acerca da origem e da ordem do mundo.
E) A filosofia política, enquanto análise do Estado e sua legislação.

5. Ainda sobre o mesmo tema, é correto afirmar que a filosofia:


A) Surgiu como um discurso teórico, sem embasamento na realidade sensível, e em oposição
aos mitos gregos.
B) Retomou os temas da mitologia grega, mas de forma racional, formulando hipóteses lógico-
argumentativas.
C) Reafirmou a aspiração ateísta dos gregos, vetando qualquer prova da existência de alguma
força divina.
D) Desprezou os conhecimentos produzidos por outros povos, graças à supremacia cultural
dos gregos.
E) Estabeleceu-se como um discurso acrítico e teve suas teses endossadas pela força da
tradição.

6. “Zeus ocupa o trono do universo. Agora o mundo está ordenado. Os deuses disputaram
entre si, alguns triunfaram. Tudo o que havia de ruim no céu etéreo foi expulso, ou para a
prisão do Tártaro ou para a Terra, entre os mortais. E os homens, o que acontece com eles?
Quem são eles?”
(VERNANT, Jean-Pierre. O universo, os deuses, os homens. Trad. de Rosa Freire d’Aguiar.
São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 56.)
O texto acima é parte de uma narrativa mítica. Considerando que o mito pode ser uma forma
de conhecimento, assinale a alternativa correta.
A) A verdade do mito obedece a critérios empíricos e científicos de comprovação.
B) O conhecimento mítico segue um rigoroso procedimento lógico-analítico para estabelecer
suas verdades.
C) As explicações míticas constroem-se de maneira argumentativa e autocrítica.
D) O mito busca explicações definitivas acerca do homem e do mundo, e sua verdade
independe de provas.
E) A verdade do mito obedece a regras universais do pensamento racional, tais como a lei de
não contradição.

7. “Entre os ‘físicos’ da Jônia, o caráter positivo invadiu de chofre a totalidade do ser. Nada
existe que não seja natureza, physis. Os homens, a divindade, o mundo formam um universo
unificado, homogêneo, todo ele no mesmo plano: são as partes ou os aspectos de uma só e
mesma physis que põem em jogo, por toda parte, as mesmas forças, manifestam a mesma
potência de vida. As vias pelas quais essa physis nasceu, diversificou-se e organizou-se são
perfeitamente acessíveis à inteligência humana: a natureza não operou ‘no começo’ de
maneira diferente de como o faz ainda, cada dia, quando o fogo seca uma vestimenta molhada
ou quando, num crivo agitado pela mão, as partes mais grossas se isolam e se reúnem.”
(VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. de Ísis Borges B. da
Fonseca. 12.ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002. p.110.)
Com base no texto, assinale a alternativa correta.
A) Para explicar o que acontece no presente é preciso compreender como a natureza agia “no
começo”, ou seja, no momento original.
B) A explicação para os fenômenos naturais pressupõe a aceitação de elementos
sobrenaturais.
C) O nascimento, a diversidade e a organização dos seres naturais têm uma explicação natural
e esta pode ser compreendida racionalmente.
D) A razão é capaz de compreender parte dos fenômenos naturais, mas a explicação da
totalidade dos mesmos está além da capacidade humana.
E) A diversidade de fenômenos naturais pressupõe uma multiplicidade de explicações e nem
todas estas explicações podem ser racionalmente compreendidas.

8. “Mais que saber identificar a natureza das contribuições substantivas dos primeiros filósofos
é fundamental perceber a guinada de atitude que representam. A proliferação de óticas que
deixam de ser endossadas acriticamente, por força da tradição ou da ‘imposição religiosa’, é o
que mais merece ser destacado entre as propriedades que definem a filosoficidade.”
(OLIVA, A.; GUERREIRO, Mario. Pré-socráticos: a invenção da filosofia. Campinas: Papirus,
2000. p. 24.)
Assinale a alternativa que apresenta a “guinada de atitude” que o texto afirma ter sido
promovida pelos primeiros filósofos.
A) A aceitação acrítica das explicações tradicionais relativas aos acontecimentos naturais.
B) A discussão crítica das ideias e posições, que podem ser modificadas ou reformuladas.
C) A busca por uma verdade única e inquestionável, que pudesse substituir a verdade imposta
pela religião.
D) A confiança na tradição e na “imposição religiosa” como fundamentos para o conhecimento.
E) A desconfiança na capacidade da razão em virtude da “proliferação de óticas” conflitantes
entre si.

9. O nascimento da filosofia na Grécia é marcado pela passagem da cosmogonia à


cosmologia. Acerca desse contexto dos pré-socráticos
A) o princípio (arché) fundamento de todas as coisas está embasado na cosmogonia, os pré-
socráticos, procuraram uma razão filosófica para sustentar as concepções míticas.
B) os pré-socráticos, considerados os primeiros filósofos, têm uma preocupação com uma
filosofia antropológica, por isso buscam os princípios éticos e morais da sociedade.
C) Heráclito, Parmênides, Empédocles, estes chamados de pré-socráticos, buscam a arché –
princípio constitutivo de todas as coisas – dentro de princípios teóricos, mas com a
preocupação de não obscurecer as concepções míticas existentes.
D) o arché é o princípio teórico enquanto fundamento de todas as coisas. O pensamento desse
momento se caracteriza pela preocupação com a natureza do mundo exterior, o que podemos
denominar de uma filosofia da natureza.
E) a cosmogonia e a cosmologia são padrões metodológicos filosóficos para explicar a arché
dentro de princípios teóricos racionais no contexto das mudanças históricas da Grécia antiga.

10. Heráclito de Éfeso (500 a.C.) concebia a realidade do mundo como mobilidade,
impulsionada pela luta dos contrários. Na sua filosofia
A) a imagem do fogo, com chamas vivas e eternas, representa o Logos que governa o
movimento perpétuo dos seres.
B) a luta dos contrários é aparência que afeta apenas a sensibilidade humana.
C) a mobilidade dos seres resulta no simples aparecer de novos seres.
D) a harmonia do cosmo é resultado do princípio da identidade.
E) o devir é considerado como a crítica a ideia do real como movimento dialético.

11.
Fragmentos 1
“Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio porque suas águas não são as mesmas e nós
não somos os mesmos”.
“O que se opõe a si mesmo está em acordo consigo mesmo; harmonia de tensões contrárias
como as do arco e da lira”.
“Para as almas, morrer é água; para a água, morrer é terra; da terra, porém, forma-se a água e
da água, a alma”.
“O fogo vive a morte da terra e o ar vive a morte do fogo; a água vive a morte do ar e a terra a
da água”.

Fragmentos 2
“é preciso que de tudo te instruas, do âmago inabalável da verdade (aletheia) bem redonda, e
das opiniões (dóxa) dos mortais, em que não há fé verdadeira. (...)
...eu te direi, e tu, recebe a palavra que ouviste, os únicos caminhos de inquérito que são a
pensar: o primeiro, que é; e, portanto, que não é não ser, de Persuasão é caminho, pois à
verdade acompanha.
O outro, que não é; e, portanto, que é preciso não ser. Eu te digo que este último é atalho de
todo não crível, pois nem conhecerias o que não é, nem o dirias... (...).
Pois o mesmo é a pensar e portanto ser. (...).
Necessário é o dizer e pensar que o ente é; pois é ser. E nada não é. Isto eu te mando
considerar”.
CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo:
Brasiliense, 1994, pp. 66-73.
A partir da leitura atenciosa dos fragmentos apresentados, é possível afirmar que
A) os fragmentos acima exprimem o pensamento de dois dos mais importantes filósofos do
chamado período pré-socrático, os primeiros atribuídos a Parmênides de Eléia, que
compreendia a realidade como fluxo ou devir permanente e eterno, e, os segundos, à Heráclito
de Éfeso, para quem a realidade é aquilo que permanece sempre idêntico a si mesmo e
imutável.
B) a tese sobre a realidade ou o Ser de Heráclito pode ser expressa, em síntese, da seguinte
maneira: “O ser é (existe) e o não-ser não é (não existe)”. Já a tese de Parmênides se
resumiria assim: “O não-ser é (existe) e o ser não é (não existe)”.
C) como Heráclito e Parmênides pensavam apenas por metáforas (linguagem figurada), pode-
se dizer que estavam muito mais próximos dos poetas, como Homero e Hesíodo, do que dos
filósofos e da busca da verdade.
D) embora a concepção do Ser ou da realidade seja para Heráclito e Parmênides bastante
distinta e até mesmo oposta, é necessário reconhecer que, tanto para um quanto para outro, os
sentidos e o senso comum não alcançam o verdadeiro conhecimento, mas engendram apenas
a opinião (doxa). Para ambos, apenas o pensamento (logos) pode conhecer a verdade.
E) os autores dos fragmentos acima são considerados na história da filosofia como um ponto
de partida para alguns conceitos muito importantes: Heráclito com a metafísica e Parmênides
com a dialética.

12. Os sofistas são conhecidos por serem os “antifilósofos”, os adversários preferidos dos
primeiros filósofos gregos. Entre as acusações a eles endereçadas estava que “aboliram o
critério, porque afirmam que todas as aparências e todas as opiniões são verdadeiras e que a
verdade é algo relativo, pois que tudo o que é aparência ou opinião para um indivíduo existe
[deste modo] para ele.”
(MARQUES, M. P. Os sofistas: o saber em questão. In: FIGUEIREDO, V. de (Org.) Filósofos na
Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2007, v. 2, p. 31).
Sobre sua atitude filosófica, os sofistas
A) não desejam a busca da verdade, opondo-se ao ceticismo.
B) negavam a verdade, sustentando o relativismo moral.
C) ao dialogar com Sócrates, reconheceram sua condição de pensador cínico e cético.
D) pretendiam desmascarar os filósofos na sua capacidade de desvirtuar e iludir a juventude.
E) entendiam que, no dizer de Protágoras, "o homem é a medida de todas as coisas" e
condenavam o relativismo moral.

13. “(…) enquanto tiver ânimo e puder fazê-lo, jamais deixarei de filosofar, de vos advertir, de
ensinar em toda ocasião àquele de vós que eu encontrar, dizendo-lhe o que costumo: ‘Meu
caro, tu, um ateniense, da cidade mais importante e mais reputada por sua sabedoria, não te
envergonhas de cuidares de adquirir o máximo de riquezas, fama e honrarias, e de não te
importares nem pensares na razão, na verdade e em melhorar tua alma?’ E se algum de vós
responder que se importa, não irei embora, mas hei de o interrogar, examinar e refutar e, se
me parecer que afirma ter adquirido a virtude sem a ter, hei de repreendê-lo por estimar menos
o que vale mais e mais o que vale menos (…).”
PLATÃO. Apologia de Sócrates, 29 d-e.
A partir do trecho acima de Platão, é correto afirmar que para Sócrates
A) a Filosofia é um saber que se transmite como lições morais, visto ele conheça a verdade.
B) o filosofar é uma atividade que busca a verdade e a melhora da alma pela refutação de
falsos saberes.
C) o questionamento ao interlocutor ocorre independente de sua disposição para responder às
questões formuladas por Sócrates.
D) a posse de bens materiais é para ele um valor inquestionável.
E) o filosofar considera as honrarias e riquezas como virtudes que devem ser distribuídas por
igual para todos os atenienses.

14. Sócrates é considerado o marco divisório da filosofia grega, porque rompeu com a tradição
pré-socrática, criando conceitos ético-práticos e antropologizando a filosofia grega. Sobre seu
pensamento é correto afirmar que
A) ele usava a ironia como forma de demonstrar que o conhecimento de seus interlocutores
não era incorreto.
B) ele tem em comum com os sofistas o fato de buscar o princípio (arkhé) constitutivo do
cosmos.
C) ele, ao interrogar as pessoas sobre suas opiniões, levava-as a constatarem que tinham um
conhecimento seguro sobre o que estavam debatendo.
D) ao dizer-se parteiro de almas, ele queria deixar claro que as ideias que surgiam do diálogo
com ele não lhe pertenciam, mas sim à pessoa com quem dialogava.
E) ele recusou ser chamado de sábio e afastou qualquer necessidade de uma metodologia
para o diálogo filosófico.

15. "Mas a faculdade de pensar é, ao que parece, de um caráter mais divino, do que tudo o
mais; nunca perde a força e, conforme a volta que lhe derem, pode tomar-se vantajosa e útil,
ou inútil e prejudicial. Ou ainda não te apercebeste como a deplorável alma dos chamados
perversos, mas que na verdade são espertos, tem um olhar penetrante e distingue claramente
os objetos para os quais se volta, uma vez que não tem uma vista fraca, mas é forçado a estar
a serviço do mal, de maneira que, quanto mais aguda for sua visão, maior é o mal que
pratica?"
(PLATÃO, A REPÚBLICA, TRAD. MARIA HELENA ROCHA PEREIRA, LISBOA, FUNDAÇÃO
CALOUSTE GULBENKIAN, 1987, 518E-519A)
A partir da leitura do texto acima, é correto afirmar que, para Platão,
A) a faculdade de pensar necessita da educação, para que, assim, a vista mais penetrante
alcance, pela luz, a visão do que deve ser conhecido.
B) o conhecimento para esse filósofo só depende da capacidade visual daquele que conhece.
C) a natureza, favorecendo alguns, diferencia os mais aptos, e é unicamente por esta distinção
que se devem estabelecer os governantes da cidade.
D) os homens com maior capacidade de pensar jamais praticam o mal, pois descobrem, por si
mesmos, a diferença entre o justo e o injusto.
E) os perversos ou espertos são incapazes de pensar, daí a denominação que
equivocadamente receberam.

16. “(…) Que pensamentos então que aconteceria, disse ela, se a alguém ocorresse
contemplar o próprio belo, nítido, puro, simples, e não repleto de carnes, humanas, de cores e
outras muitas ninharias mortais, mas o próprio divino belo pudesse em sua forma única
contemplar? Porventura pensas, disse, que é vida vã a de um homem olhar naquela direção e
aquele objeto, com aquilo [a alma] com que deve, quando o contempla e com ele convive? Ou
não consideras, disse ela, que somente então, quando vir o belo com aquilo com que este
pode ser visto, ocorrer-lhe-á produzir não sombras de virtude, porque não é em sombras que
estará tocando, mas reais virtudes, porque é no real que estará tocando?”
Platão. O Banquete. Trad. José Cavalcante de Souza. São Paulo: Abril Cultural, 1979, pp.42-
43.
A partir do trecho de Platão,
A) o belo verdadeiro para Platão encontra-se no conhecimento obtido pela observação das
coisas humanas.
B) a contemplação do belo puro e simples é atingida por meio dos sentidos.
C) cores e sombras são virtudes reais, visto que se possa, ao tocar nelas, tocar no próprio real.
D) há, como na Alegoria da Caverna, uma relação direta para Platão entre o conhecimento e a
virtude.
E) as sombras de virtude equivalem ao que é real e imperfeito.

17. Leia o texto, que se refere à ideia de cidade justa de Platão.


“Como a temperança, também a justiça é uma virtude comum a toda a cidade. Quando cada
uma das classes exerce a sua função própria, ‘aquela para a qual a sua natureza é a mais
adequada’, a cidade é justa. Esta distribuição de tarefas e competências resulta do fato de que
cada um de nós não nasceu igual ao outro e, assim, cada um contribui com a sua parte para a
satisfação das necessidades da vida individual e coletiva. (...) Justiça é, portanto, no indivíduo,
a harmonia das partes da alma sob o domínio superior da razão; no estado, é a harmonia e a
concórdia das classes da cidade.”
(PIRES, Celestino. Convivência política e noção tradicional de justiça. In: BRITO, Adriano N.
de; HECK, José N. (Orgs.). Ética e política. Goiânia: Editora da UFG, 1997. p. 23.)
Sobre a cidade justa na concepção de Platão, é correto afirmar que
A) nela todos satisfazem suas necessidades mínimas, e inexistem funções como as de
governantes, legisladores e juízes.
B) é governada pelos filósofos, protegida pelos guerreiros e mantida pelos produtores
econômicos, todos cumprindo sua função própria.
C) seus habitantes desejam a posse ilimitada de riquezas, como terras e metais preciosos.
D) ela tem como principal objetivo fazer a guerra com seus vizinhos para ampliar suas posses
através da conquista.
E) ela ambiciona o luxo desmedido e está cheia de objetos supérfluos, tais como perfumes,
incensos, iguarias, guloseimas, ouro, marfim, etc.

18. Em primeiro lugar, é claro que, com a expressão “ser segundo a potência e o ato”, indicam-
se dois modos de ser muito diferentes e, em certo sentido, opostos. Aristóteles, de fato, chama
o ser da potência até mesmo de não-ser, no sentido de que, com relação ao ser-em-ato, o ser-
em-potência é não-ser-em-ato.
REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga. Vol. II. Trad. de Henrique Cláudio de Lima Vaz e
Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 1994, p. 349.
A partir da leitura do trecho acima e em conformidade com a Teoria do Ato e Potência de
Aristóteles,
A) ser-em-ato é o ser em sua capacidade de se transformar em algo diferente dele mesmo,
como, por exemplo, o mármore (ser-em-ato) em relação à estátua (ser-em-potência)
B) ela explica o movimento percebido no mundo sensível. Tudo o que possui matéria possui
potencialidade (capacidade de assumir ou receber uma forma diferente de si), que tende a se
atualizar (assumindo ou recebendo aquela forma).
C) existe apenas o ser-em-ato. Isto ocorre porque o movimento verificado no mundo material é
apenas ilusório, e o que existe é sempre imutável e imóvel.
D) o ato é próprio do mundo sensível (das coisas materiais) e a potência se encontra tão-
somente no mundo inteligível, apreendido apenas com o intelecto.
E) a potência é a forma do ser, enquanto o ato equivale a matéria que define e identifica o ser.

19. Aristóteles rejeitou a dicotomia estabelecida por Platão entre mundo sensível e mundo
inteligível. No entanto, acabou fundindo os dois conceitos em um só. Esse conceito é
A) a forma, aquilo que faz com que algo seja o que é. É o princípio de inteligibilidade das
coisas.
B) a matéria, enquanto princípio indeterminado de que o mundo físico é composto, e aquilo de
que algo é feito.
C) a substância, enquanto aquilo que é em si mesmo e enquanto é suporte dos atributos.
D) o Ato Puro ou Primeiro Motor Imóvel, causa incausada e causa primeira e necessária de
todas as coisas.
E) a essência, aquilo que define o ser e o individualiza.

20. “A substância, no sentido o mais fundamental, primeiro e principal do termo, é o que não se
afirma de um sujeito, nem ocorre num sujeito; por exemplo, o homem individual ou o cavalo
individual.”
ARISTÓTELES. Categorias, V,2 a,p.11-14
Félix é um gato preto, tem trinta centímetros de altura, e agora está em cima do muro, miando
para a lua.
Considerando os textos acima, é correto afirmar que
A) o conceito aristotélico de substância é um outro nome para a ideia platônica e, segundo
Aristóteles, podemos afirmar que “Félix” participa da ideia de gato.
B) o conceito aristotélico de substância é uma ideia cuja existência encontramos em um mundo
inteligível diferente do sensível e, segundo Aristóteles, podemos considerar “Félix” como uma
ideia e os outros atributos da sua descrição como as imagens que o complementam.
C) o conceito aristotélico de substância expressa uma crítica ao abstracionismo da ideia
platônica e, segundo Aristóteles, podemos afirmar que o essencial na descrição de “Félix” é o
fato de que agora ele está miando.
D) o conceito aristotélico de substância expressa uma crítica à teoria das ideias de Platão e,
segundo Aristóteles, podemos considerar “Félix” como substância, gato como sua espécie e os
outros atributos da sua descrição como acidentes.
E) o conceito aristotélico de substância afirma a identificação de Aristóteles com seu mestre
Platão, pois sustenta que o inteligível depende do sensível para existir.
21. Segundo a lógica clássica ou aristotélica, temos uma teoria do raciocínio como inferência
(do latim infere, “levar para”). “Inferir é obter uma proposição como conclusão de uma outra ou
de várias outras proposições que a antecedem e são sua explicação ou sua causa. O
raciocínio realiza inferências. [Ele] é uma operação do pensamento realizada por meio de
juízos e enunciada por meio de proposições encadeadas, formando um silogismo.”
(CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 14.ª ed. São Paulo: Ática, 2011, p. 141).
Segundo a lógica clássica ou aristotélica, é correto afirmar que
A) toda proposição é um conjunto de raciocínios encadeados.
B) o silogismo é resultado de uma inferência sobre proposições.
C) o silogismo científico é uma indução lógica.
D) o raciocínio é o resultado de um silogismo.
E) o raciocínio ou argumento inválido é denominado silogismo dialético.

22.
“Todos os mamíferos são vertebrados.
Os cães são mamíferos.
Logo, os cães são vertebrados.”
Sobre o silogismo em geral e, sobre este em particular,
A) é um raciocínio indutivo, pois parte de duas premissas verdadeiras e chega a uma
conclusão também verdadeira.
B) o termo médio "mamíferos" liga os extremos e, por isso, não pode estar presente na
conclusão.
C) é um raciocínio válido, porque é constituído por proposições verdadeiras, não importando a
relação de inclusão (ou de exclusão) estabelecida entre seus termos.
D) as premissas são três e relacionam três termos, um maior, um médio e um menor.
E) a conclusão de um silogismo pode ser classificada como necessária ou não necessária.

23. “(...) Para Aristóteles, o conhecimento deve ser dedutivo e o silogismo representa o
mecanismo da dedução. Uma vez colocada a premissa maior, obtém-se a conclusão por meio
do termo médio, o qual, presente nas duas premissas (a maior e a menor) , faz uma ligação
entre os termos maior e menor. Isso deve ser feito segundo certas regras que o filósofo explica
num escrito chamado Primeiros Analíticos, que faz parte do Organôn, o conjunto de obras
lógicas que tratam especialmente de questões sobre a verdade e o conhecimento. Para atingir
um conteúdo geral, do qual se possam extrair outros conhecimentos, emprega-se a dialética,
denominação que Aristóteles conservou de Platão, mas cujo significado alterou
completamente, uma vez que, para ele, devemos partir dos dados sensíveis e de opiniões
comuns para elevar-se a um resultado geral de uma forma que tem algo a ver com o processo
indutivo. O ponto de partida da dedução depende, pois, de um processo que o filósofo não
considera estritamente científico, mas que se apoia na aceitação da experiência sensível e de
certos princípios indemonstráveis, o que é contrário à posição de Platão. Se tivéssemos de
aplicar o procedimento demonstrativo aos princípios da ciência (isto é, às suas premissas
fundamentais), o conhecimento seria impossível. Uma vez de posse dessas verdades, o
conhecimento científico se constrói rigorosamente segundo as regras do silogismo
demonstrativo (ou científico), o que ele expõe nos Segundos Analíticos, outra obra que faz
parte do Organôn aristotélico (...)”.
SILVA, Franklin Leopoldo e. “Teoria do conhecimento” In: Primeira Filosofia:lições introdutórias.
4ª ed. São Paulo, Brasiliense: 1985, p. 176.
A partir do texto e do pensamento aristotélico
A) Uma das ideias pelas quais Aristóteles aproxima-se de seu mestre Platão é a sua aceitação
da experiência sensível como ponto de partida para o conhecimento da verdade sobre as
coisas, o que concorda com a teoria das Ideias de Platão.
B) Dado que, de acordo com o método do silogismo, o conhecimento de uma conclusão
verdadeira se apoia no conhecimento de premissas verdadeiras e dado que temos de
demonstrar os princípios da ciência, que seriam as premissas fundamentais de toda ciência,
devemos concluir, com Aristóteles, que o conhecimento verdadeiro sobre o mundo é
impossível.
C) A fim de obter novos conhecimentos a partir de verdades gerais, obtidas, por sua vez, por
indução, Aristóteles emprega o método da dialética exatamente como ele havia aprendido com
Platão.
D) A existência de princípios indemonstráveis é uma necessidade da teoria aristotélica sobre a
ciência, uma vez que, sem tais princípios, não seria possível obter o conhecimento certo ou
científico.
E) Para Aristóteles o silogismo, como argumento indutivo, amplia o conhecimento e torna
possível a ciência.

Gabarito

1. B
2. D
3. C
4. D
5. B
6. D
7. C
8. B
9. D
10. A
11. D
12. B
13. B
14. D
15. A
16. D
17. B
18. B
19. C
20. D
21. B
22. B
23. D