Você está na página 1de 5

Leituras da historiografia marxista sobre a Revolução de

1930

Lucas Barros1

Luciano Queiroz2

Resumo

Este artigo foi realizado como parte das atividades desenvolvidas na disciplina de
História do Brasil III e tem como objetivo apresentar o debate historiográfico de viés
marxista em torno da Revolução de 1930, atores históricos, suas motivações e a
conjuntura política, social e econômica que a envolveu.

Palavras-Chave: Revolução; Historiografia; Brasil

Introdução

Para entender os acontecimentos de 1930 se faz necessário contextualizar a


conjuntura que antecedeu a revolução que teve Getúlio Vargas, político gaúcho, como
um de seus principais expoentes, retornando até a crise dos anos 1920. O Brasil
conheceu no ano de 1922 uma sucessão de eventos que alteraram de forma
significativa o seu panorama político e cultural.

Economicamente, essa década representou um período de altos e baixos, onde


se, por um lado, o declínio nos preços do café no mercado internacional gerou uma
alta na inflação e uma crise fiscal, por outro, fez com que o setor cafeeiro e as
atividades a ele vinculadas se expandisse.

Desse modo, o país passa a conhecer uma diversificação agrícola, com


desenvolvimento de seu setor industrial, bem como a implantação das indústrias de
base, processo que complexifica a economia e a torna menos dependente da agro
exportação. Mudanças que acabam por refletir na organização social do Brasil, uma

1Lucas dos Santos Barros, graduando do curso de História na Universidade Federal da Paraíba - UFCG
2José Luciano de Queiroz Aires possui graduação em LICENCIATURA PLENA EM HISTÓRIA pela
UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBA (1997) e mestrado em história pela UNIVERSIDADE
FEDERAL DA PARAÍBA (2006). Atualmente é professor adjunto I da Universidade Federal de Campina
Grande.
1
vez que se processa um grande êxodo rural que amplia o setor urbano nas camadas
médias e trabalhadora, gerando uma diversificação nos interesses da própria elite
econômica que fomentará conflitos no interior das oligarquias.

Essas transformações impulsionam uma demanda por reformas políticas, uma


vez que o velho sistema oligárquico vigente não mais atendia as demandas
produzidas pelo sistema econômico urbano-industrial que emergia. Juntamente com
isso, o ano de 1922 também irá conhecer uma série de levantes militares de baixa
patente, conhecido como Tenentismo, considerado a estreia dos tenentes no cenário
nacional, onde se propunham a combater um sistema político considerado imoral e a
implementar uma série de reformas que visavam promover a restauração do país.

Mesmo quem em um primeiro momento tenham sido derrotados pelas forças


legalistas, setores do exército que se rebelaram continuaram a fazer oposição ao
governo, o que mais tarde representou um forte aliado para a composição da Aliança
Liberal, que visava acabar com o monopólio do governo federal pelas elites do eixo
São Paulo – Minas Gerais. Onde apoiaram a candidatura de Getúlio contra o
candidato situacionista Júlio Prestes, nas eleições de 1929. Mesmo após tanta
mobilização e uma eleição acirrada, a vitória foi para o candidato paulista, o que
causou a insatisfação da Aliança Liberal e os tenentes contra o governo eleito.

Uma conspiração acaba estourando em outubro de 1930, onde uma junta


militar acaba por depor Washington Luís e instaurando uma junta provisória de
governo que, pouco depois, devido a pressões populares, cedem em favor de Getúlio
Vargas, a revolução está concretizada.

O debate historiográfico

Mas uma vez, vários autores discorrem e discordam sobre a revolução de 1930,
entretanto, de acordo com autores de viés marxista, a exemplo de Nelson Werneck
Sodré nos anos 1960, Boris Fausto na década de 1970 e Edgar De Decca que escreve
em 1980, concordam no ponto que a revolução seria resultado de um vácuo de poder
deixado pela classe dominante que, ao separar-se, permite a composição de uma
oposição que ansiava por participar do poder.

Partido do trabalho mais antigo citado, o de Werneck Sodré, ele enxerga os


eventos que culminaram em 1930 como sendo o resultado de uma revolução
2
burguesa onde, segundo ele, o Brasil à época vivia o embate conflitante que colocava
frente à frente dois modelos econômicos distintos: O agrário, voltado ao mercado
externo e, portanto, altamente dependente e, do outro lado, um modelo urbano-
industrial que, liderado por uma burguesia nacional, se voltaria para o mercado
interno, o fortalecendo.

1930 seria uma revolução de cunho burguês, uma vez que surgiria como uma
etapa necessária do desenvolvimento da sociedade, buscando sanar a contradição
existente entre o desenvolvimento das forças produtivas e o das relações de
produção. Essa revolução colocou de vez a burguesia no poder, substituindo os
latifundiários, na figura dos grandes barões de café, que dominaram a política por mais
de três décadas. Permitiu a ela realizar as mudanças que achavam necessárias para
estabelecer a relação entre força de produção e relação de produção. Nelson Werneck
Sodré a respeito de 1930:

A revolução burguesa no Brasil, pois é o processo de mudança


que, pelo desenvolvimento das forças produtivas, pelo
desenvolvimento das relações capitalistas, permitiu à burguesia
torna-se a classe dominante e introduzir as relações
superestruturais necessárias à preservação e desenvolvimento
de seus interesses de classe. (SODRÉ, Nelson Werneck, 1990,
p. 91)

Já em 1970 será realizado uma revisão dessa vertente que aponta para uma
revolução burguesa, passando para um conflito de interesse dentro da própria classe
oligárquica brasileira que tinha por fim derrubar a hegemonia da classe cafeeira
paulista em favor das oligárquicas de menor influência, conhecida como uma
oligarquia de segunda grandeza.

Um dos expoentes dessa leitura é Boris Fausto que entende a revolução como
resultado de conflitos dentro das oligarquias que foram fortalecidos pelo movimento
tenentista, que tinha por objetivo derrubar a hegemonia da classe cafeeira. A essa
situação conflituosa o Estado teria respondido com o que Boris Fausto classificou
como o Estado de Compromisso, ou seja, que se abre a todas as pressões sem
efetivamente se subordinar a nenhuma. São destacadas algumas características
dessa nova organização de governo: uma maior centralização do poder, subordinação
das oligarquias e um maior intervencionismo federal na esfera local.

3
Para tratar dessa terceira interpretação historiográfica, realizada por Edgar De
Decca, vale antes ressaltar o contexto histórico que o autor estava inserido, em um
país que vivia os últimos momentos de uma ditadura militar, onde vários setores
sociais se mobilizavam, destacando os membros e organizações da esquerda,
pedindo a redemocratização do país. Por isso mesmo, De Decca enxerga1930 como
o fora, de certa forma 1964, um golpe preventivo da burguesia contra as organizações
da esquerda.

Uma crítica muito presente nessa abordagem de 1930 como um golpe


preventivo da burguesia se dá justamente porque nessa época a economia urbano-
industrial do Brasil ainda ser muito incipiente, onde só se vai conhecer uma transição
do modelo econômico nacional após o período varguista, com todas as alterações e
reformas políticas, sociais e econômicas que a revolução de 1930 propiciou.

Tendo isso por perspectiva, onde um movimento proletário forte só pode ser
concebido após essa transição econômica, fica difícil de sustentar a ideia que na
República Velha já existisse uma classe consciente e organizada ideologicamente que
ameaçasse os interesses da hegemônica classe burguesa.

Considerações Finais

Este texto teve o intuito de demonstrar como a interpretação de determinado


evento histórico pode se alterar ao longo do tempo, e que as revisões de vertentes
historiográficas, como o caso da marxista, estão propícias de ocorrer. Onde,
dependendo da conjuntura na qual os autores escrevem os seus relatos, seus lugares
de fala e as demandas que eles se propõem a saciar, podem fazer com que o
historiador dê um maior ou menor enfoque em determinados aspectos ao qual se
depara. Cabendo a quem se depara com uma obra de história tentar enxergar para
além do aparente, lendo as entrelinhas e conseguindo perceber que quem escreve
tem um propósito, tem os seus próprios posicionamentos e estes, em menor ou maior
grau, acabam transparecendo na sua escrita.

O historiador Georges Duby, embora lembre que a imparcialidade, como uma


bússola, deva guiar o historiador, essa é uma atividade impossível de ser realizada na
prática, ou seja, mesmo que determinados historiadores ao longo do tempo se alinhem
4
ideologicamente, o seu fazer historiador vai, impreterivelmente, seguir por caminhos
distintos em algum grau. A historiografia não é neutra, nem muito menos uniforme.

Referências

SODRÉ, Nelson Werneck. Capitalismo e Revolução Burguesa no Brasil. Belo


Horizonte: Oficina de Livros, 1990.
BORIS, Fausto. A Revolução de 1930. In: Brasil em perspectiva. São Paulo: Difusão
Europeia do Livro, 1968, p. 255 – 284.
DE DECCA, Edgar. O Silêncio dos Vencidos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1979.
FERREIRA, Marieta de Moraes. A crise dos anos 1920 e a Revolução de 1930. In: O
Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2003, p. 387 -
413