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20/02/2019 Os gregos não inventaram a filosofia

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Os gregos não inventaram a filosofia


Renato Noguera 
2 de agosto de 2016

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Molefi Asante, autor de 'Erasing racism: the survival of the American nation' (Foto: Divulgação)

Sem dúvida, as investigações do nosso grupo de pesquisa têm motivado muitas


objeções. Os estudos que realizamos sobre filosofia africana não são inéditos; mas o
aumento da circulação de material acadêmico no Brasil que problematiza o
nascimento da filosofia na Grécia (https://www.cultloja.com.br/produto/cult-204-
agosto-2015/), trazendo à luz fontes africanas mais antigas que as ocidentais, tem
sido motivo de críticas variadas. Objeções que alegam: “filosofia” é um termo grego;
outras insistem que só na Grécia Antiga o pensamento ganhou tom laico. Ou ainda,
perguntam por que deveríamos “impor” o registro filosófico a outras formas de
pensamento de povos da antiguidade fora do mundo helênico. Em resumo, tais
questões têm sido acompanhadas de argumentos diversos que dizem algo como: a
filosofia nasceu na Grécia, desenvolveu-se dentro da ambiência territorial europeia
como uma aventura ocidental do pensamento humano. Não cabe destrinchar cada
uma das objeções, tampouco teríamos condições de apresentar o vasto elenco de
tréplicas em favor da produção filosófica africana desde George James com Legado
roubado, passando por Cheikh Diop, Theóphile Obenga, Molefi Asante, até A filosofia
antes dos gregos, de José Nunes Carreira. Todos os autores advogam uma hipótese
comum: a filosofia não nasceu grega. A abordagem que defendemos denuncia uma
grave confusão. A questão não é onde nasceu a filosofia. Com base em fontes
históricas diversas, os textos egípcios são documentos africanos mais antigos do que

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os escritos gregos, que são referências da cultura ocidental. Alguns expoentes da


egiptologia, seja Jean-François Champollion (1790-1832), Cheikh Anta Diop (1923-
1986), Theóphile Obenga (1936-) ou Jan Assmann (1938-) concordam que os textos
egípcios são mais antigos do que os gregos. A polêmica está no caráter filosófico dos
escritos egípcios. Nós estamos de acordo com Diop e Obenga – o material egípcio é
filosófico.

A filosofia de Ptahhotep

Em A filosofia antes dos gregos, Carreira menciona o Egito como uma região rica em
produção filosófica. Ptahhotep foi alto funcionário do Faraó Isesi da 5ª Dinastia do
Reino Antigo e sua função era chamada de rekhet, traduzida por Obenga como
“filosofia”. Identificamos nos ensinamentos de Ptahhotep recomendações para o
debate, sugerindo uma conduta adequada numa contenda. Ptahhotep diz que em
relação ao contendor podem existir três tipos de pessoas. 1ª) As que têm uma balança
mais precisa, “superiores”; 2ª) As que têm balança tão precisa quanto a nossa,
“iguais”; 3ª) As que têm balança menos precisa, “inferiores”. O filósofo não menciona
diretamente a deusa Maat; mas ela aparece de modo indireto à medida que a balança é
um dos seus principais símbolos. “Maat” circunscreve várias ideias: “harmonia”,
“verdade”, “ordem”. A sua balança é o instrumento que mede a palavra. O que está
em jogo na contenda é o uso adequado da balança para mensurar a verdade. Por isso, a
arte da rekhet é inconclusa; sempre podemos encontrar um contendor com balança
mais precisa. Os limites da rekhet “não podem ser alcançados, e a destreza de nenhum
artista é perfeita”. (Veja o texto “Ensinamentos de Ptahhotep”, publicado no livro
Escrito para a eternidade: a literatura no Egito faraônico, de Emanuel Araujo. Brasília/São
Paulo, 2000.) Nossa defesa está a favor da atitude filosófica de não recusar uma tese
sem o seu devido exame; por isso, a recomendação de ler Ptahhotep.

A certidão de nascimento da filosofia

Propor uma agenda de leitura dos textos africanos antigos não sinaliza um interesse
em substituir a Grécia pelo Egito, fazendo da cultura africana o paradigma
civilizatório na antiguidade. Pelo contrário, o esforço por definir um “marco zero”
para a filosofia vale-se de uma interpretação entre outras – o que não pode ser um
tabu dogmático. A título de analogia, o filósofo inglês Michael Hardt interpela a
filosofia de Hegel por meio de Nietzsche, e nos diz que “a dialética é um falso
problema”(Em Gilles Deleuze: um aprendizado filosófico, na tradução de Sueli Cavendish.
São Paulo, 1996). Algumas abordagens filosóficas usam o modelo dialético como
indispensável para a filosofia da história, enquanto outras a recusam plenamente. Do
mesmo modo, defendemos que o nascimento da filosofia é um falso problema. Não se
trata de afirmar que a filosofia nasceu no Egito e substituir Tales de Mileto ou Platão
por Ptahhotep. Não pedimos a retirada da “certidão grega da filosofia” dos manuais,
mas sim que ela não venha sozinha, sem o registro de que existem posições a favor do
nascimento africano. Os manuais de filosofia precisam incluir versões diversas sobre
suas origens, reconhecendo a legitimidade de todas, assim como não ignoramos
perspectivas diferentes em várias questões filosóficas. É perigoso e reducionista para
uma boa formação filosófica limitar toda a filosofia a poucas tradições. Com efeito, o
problema não seria estritamente teórico, mas político (e obviamente filosófico). O
projeto de dominação do Ocidente tem um aspecto epistemológico que pretende calar
qualquer filosofia que tenha sotaques diferentes. Afinal, a filosofia foi “eleita” como
suprassumo da cultura ocidental.

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