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PREFÁCIO

Eu não tinha ideia de que este pequeno livro deveria ter um prefácio.
Mas eu tive que escrever estas poucas linhas face ao insistente
desejo de alguns amigos que achavam que algo da natureza de um
prefácio ajudaria os aspirantes espirituais a entenderem melhor o
texto.
As expressões Atma, Ishwara e Brahman parecem ter sido usadas
nos textos antigos, algumas vezes, praticamente como sinônimos e,
em outras vezes, com significados bem diferentes. Para o olhar
perspicaz, ficará claro que estas expressões possuem diferentes
matizes de significado. No Mahavakaya*, Tat Tvam Asi – “Vós Sois
Isso” – o sentido literal de Tvam – “Vós” – é Jiva ou a alma individual,
ao passo que o sentido figurado é o Kutastha ou a alma individual
vista como separada de seus apêndices aparentes, tais como o
corpo, mente etc. O sentido literal de Tat – “Isso” – é Ishwara ou
Deus, enquanto o seu sentido figurado é Brahman ou o Absoluto.
Ao se meditar na fórmula Aham Brahma Asmi – “Eu sou Brahman” –
o aspirante deixa de lado o sentido literal das palavras e assume o
seu sentido figurado. A finalidade da meditação é que a ideia
reducionista que é frequentemente sobreposta sobre a real natureza,
i.e., Kutastha, deve ser superada pela contemplação da ideia de se
ser o grande Brahman, e que a ideia de que Brahman é algo exterior
a um alguém deve ser substituída pela contemplação da ideia de
Brahman sendo o próprio ser deste alguém, e esse é o objeto, por
assim se dizer, da experiência imediata sempre presente. Mesmo
depois de isto ter sido alcançado, a ideia de grandiosidade associada
a Brahman permanecerá. Esta ideia de grandiosidade, que é também
uma sobreposição, deve ser superada, evitando-se outros objetos e
pela contemplação da ideia de que se é a pura consciência em si,
Prajnanam Brahma. Só então pode o aspirante ter esperanças de
atingir a Realidade Absoluta. É essa Realidade Absoluta que é
denominada neste livro como Atma e como “Eu”.

* um dos quatro grandes aforismos dos Upanishads apresentando a


identidade da alma individual e a Alma Suprema.
Destas duas linhas de pensamento, sendo uma a de levar o indivíduo
até o universal e a outra a de levar o universal até o indivíduo, é a
última a que foi adotada aqui. É da experiência de todos que, quando
se olha cuidadosamente, tudo o que não é o próprio ser pode existir
apenas como objeto do próprio ser, o qual é o sujeito. O objeto
também é visto como tendo uma conexão inseparável com o próprio
ser. Não há forma sem o ver, não há som sem o ouvir. Ao se tomar
a si mesmo como o ver e o ouvir, assume-se então a posição do
percebedor destes objetos. Na verdade, o ver, o ouvir etc são eles
mesmos objetos. Quando eles são assim vistos, assume-se a
posição como pura consciência, a qual é o percebedor. A ideia do
percebedor também desaparecerá aí.
Sempre que a posição assumida pelo percebedor mudar, o
percebido também mudará de acordo. Portanto, pela análise de um,
a verdade concernente ao outro pode também ser alcançada. Este
modo de abordagem é, ele mesmo, amplo, incluindo vários modos
específicos discutidos neste trabalho, cada um dos quais é um jeito
de revelar a Realidade. Sob uma ótica superficial, estes diferentes
modos de abordagem podem parecer contraditórios um em relação
ao outro. Mas não haverá contradição se a questão for examinada
cuidadosamente.
O próximo texto que se segue é minha própria tradução livre do
original em malaiala posto em forma de verso e dividido em sessões
de acordo com os conceitos. Naturalmente, a força do original é
perdida na tradução.
Cada uma das sessões, da 6 à 20, faz uso de um modo específico
de abordagem. Destas, as sessões 6 e 13 estão relacionadas entre
si. É através do aspecto testemunhante descrito na sessão 6 que se
alcança o aspecto testemunhante descrito na sessão 13, após o quê,
o próprio aspecto testemunhante desaparecerá. Até mesmo o
aspecto testemunhante é apenas um artifício, já que neste aspecto
existe sobreposição. Para alcançar a Realidade, esta sobreposição
deve também desaparecer. Nem os grandes Mestres, nem as obras
Vedânticas insistem que as diferentes Prakriyas, ou modos de
abordagem, representam a verdade absoluta. Por outro lado, de
acordo com eles, são vários modos rumo ao mesmo fim, a saber,
alcançar a Realidade:
(Texto em sânscrito- ver no original)
Esse caminho, somente, pelo qual um homem se torna enraizado no
conhecimento do verdadeiro “Eu-Princípio”, é o caminho correto para
ele. Não há um mesmo caminho que se adequa a todos igualmente.
Isso é o que Sureshwaracharya, o grande discípulo de Shankara diz.
Não é necessário fazer nenhuma tentativa para reconciliar diferentes
Prakriyas entre si. Tentar isso pode até mesmo ser um obstáculo no
percurso do aspirante. Pode não haver nenhuma dificuldade se,
cuidadosamente, ele puder identificar o ponto de vista subjacente a
cada Prakriya. Se isso não for possível, ele precisa apenas se manter
no Prakriya que lhe for atraente.
Na sessão 6, a memória é considerada no seu senso comum e, desta
forma, torna-se claro o aspecto testemunhador. Na sessão 19, a
memória é tida como não existente. Estes dois processos, num
primeiro nivelamento, parecem contradizer um ao outro. Essa
contradição se resolverá quando lembrarmo-nos de que o que foi
feito na sessão 6 levou em conta o princípio testemunhador, ao passo
que o sujeito-matéria do capítulo 19 é uma análise do princípio da
memória. Da mesma forma, os objetos são, em alguns trechos,
tomados como consciência, enquanto em outros trechos diz-se que
os objetos apontam para a consciência. Essa explicação repousa no
fato de que o contexto do primeiro é a análise da natureza dos
objetos, mas o do último é a análise da natureza da consciência.
Similarmente, sempre que tais aparentes contradições se mostrarem,
uma rápida análise mostrará que não há, de fato, contradição. O
método de analisar a noção do mundo objetivo e então demonstrar
que ele não é nada além de consciência é aceito neste trabalho
igualmente como qualquer outro método que demonstraria, afinal de
contas, que não há mundo nenhum, sendo então de ajuda para que
se estabeleça firmemente na consciência. É este último método que
foi discutido nas sessões 19 e 20. Os dois métodos devem ser
considerados a partir de seus respectivos pontos de vista.
O aspecto testemunhador ao qual já nos referimos de um modo geral
tem que ser tornado um pouco mais claro. A um primeiro olhar, pode-
se duvidar se a testemunha referida na sessão 6 não é, tal qual o
Jiva, uma entidade operante. Mas uma pequena reflexão mostrará
que a testemunha não tem função. Quando a atenção é direcionada
à consciência que é a testemunha, não é possível direcionar a
atenção ao testemunhado. Nem está o testemunhado presente nesta
consciência. Daí se segue que é na consciência não funcional que o
pensamento se funde.
É desta experiência que se segue o aspecto mais elevado da
consciência, tratado na sessão 13, verso 2. A essência deste verso
é que o conhecimento da testemunha, ao contrário do conhecimento
da mente, não é acompanhado por mudança ou esforço. O sol brilha
em sua própria glória. A luz é a verdadeira natureza do sol, ou seu
ser, não sua função. E nem tem ele nenhuma intenção de iluminar
objetos. Mas os seres viventes percebem objetos por causa da luz
do sol. Isso os faz sobrepor ao sol a função de iluminar objetos. Da
mesma forma, pensamentos e objetos se revelam na consciência.
Quando a função deste revelar é sobreposta à consciência, ela se
torna a testemunha. Na verdade, a consciência brilha por si mesma.
Luz, ou revelação, é sua verdadeira natureza, não sua função ou uma
propriedade sua. É esta verdade que é apresentada nos versos
acima. Quando se chega a este elevado aspecto testemunhante,
perceber-se-á que isto é a pura consciência sem o menor traço da
capacidade de funcionar como testemunha.
É para se precaver em relação à confusão entre diferentes níveis de
pensamento e opiniões que os diferentes estágios de iluminação
foram mostrados na sessão 4. Até que se atinja o estado mais alto
de pura consciência, tudo o que pode haver são várias sobreposições
em cima da Realidade. Passo a passo, estas sobreposições cairão
uma após a outra. A pura consciência é mera experiência. Isso pode
ser percebido no começo apenas através de objetos.
(Texto em sânscrito- ver no original)
O invisível Rahu* é percebido através da lua em eclipse. Da mesma
forma, o Atma, que é mera experiência, é percebido através de
objetos.
*a sombra da Terra é considerada na astrologia Hindu como um
planeta chamado Rahu – a Cabeça do Dragão.

Desta forma, pode-se perceber o Atma, que é pura consciência,


passo a passo, e então superar a ideia de um mundo objetivo.
Na sessão 7, verso 1, está mostrado que o Atma é a consciência do
som e de outros objetos. Quando a ideia de objetos vai caindo
gradualmente, e a atenção está cada vez mais fixada na consciência,
será visto que é a Realidade que permeia tudo. No devido tempo,
isso se mostrará como sendo o Absoluto. Aqui também é mostrado
que a experiência da Realidade acontece por estágios.
Frequentemente ouvimos pessoas discutindo a verdade espiritual a
partir de uma opinião objetiva e ficando satisfeitos com um
conhecimento teórico ou mental. Este é o resultado de se perseguir
linhas de pensamento áridas e infrutíferas. Um aspirante não tem
nada a ganhar com uma discussão meramente apreciativa ou
depreciativa das verdades apresentadas em obras filosóficas. A ideia
dos Acharyas era tão somente a de que cada um deveria seguir uma
linha de pensamento espiritual que pudesse ajudá-lo a alcançar a
realização. Isto fica claro a partir das palavras de Sri
Sureshwaracharya citadas anteriormente. O presente livro é para
estes honestos aspirantes que, não estando satisfeitos com o
conhecimento teórico, querem se aprofundar no caminho da
realização.

ATMA-DARSHAN—SRI ATMANANDA KRISHNA MENON

1. ADVAITA

I. Jivas, tais quais ondas no oceano, vêm à existência, erguem-se e


tombam, lutam uns contra os outros e morrem.
II. Golpeando a beira-mar, ondas recuam, cansadas e desgastadas,
à procura de repouso e paz. Similarmente, Jivas procuram o
Supremo de várias formas.
III. Ondas têm seu nascimento, vida e morte no próprio oceano; Jivas,
no Senhor.
IV. Ondas nada são além de água. Assim é o oceano. Da mesma
forma, o Jiva e o Senhor nada são além de Sat, Chit e Ananda.
V. Quando ondas percebem que o mar é sua base comum, toda luta
termina.
VI. Muito não é obtido assim. Não é a palavra final. Encontra-se
adiante trabalho para remover o senso de separação.
VII. Quando a água é reconhecida, onda e oceano desaparecem. O
que aparecia como dois é então percebido como um.
VIII. A água pode ser alcançada imediatamente a partir da onda ao
se seguir o caminho direto. Caso seja assumido o caminho pelo
oceano, precisa-se de muito mais tempo.

2. PERGUNTAS A RESPEITO DAS


CAUSAS DO MUNDO – SEM SENTIDO

I. Nenhum questionamento se mantém a respeito do tempo, espaço


e causa das origens deste mundo, pois são estes, eles mesmos,
partes deste mundo.
II. A pergunta procura por uma explicação do todo por meio de suas
partes. Isso jamais pode ser um questionamento lógico.
III. A pergunta acerca de quem sobrepõe autoria a alguém também
não é uma questão apropriada. O ato em si de sobrepor pressupõe
um autor. Por conseguinte essa pergunta é também ilógica.

3. MENTE E PURO SATVA

I. Consciência direcionada a objetos é mente. Aquilo que se volta ao


Ser é Satva.
II. É da opinião do sábio que a mente é avidya, e puro Satva, vidya.
Somente vidya é meio de liberação.
III. O caminho de avidya leva à servidão. Assim o aspirante tem que
seguir o caminho de vidya para a liberação.
IV. Para eterna paz, esforço persistente é necessário até a
iluminação.

4. DIFERENTES ESTÁGIOS DA ILUMINAÇÃO


I. Aquele cuja mente está fascinada pela beleza de uma imagem
esculpida em um pedaço de rocha esquece até mesmo que a rocha
é a base da imagem.
II. Quando ele se ergue acima desta fascinação e olha a imagem, ele
vê a base, a rocha, que dá suporte à imagem.
III. Quando a rocha aí recebe atenção, ela—a rocha—é vista também
na imagem, e em seguida a imagem é vista como nada além de
rocha.
IV. A iluminação da verdade também vem desta maneira. A
Consciência torna-se ofuscada sobretudo pelo fascínio e pelo
interesse persistente em objetos externos.
V. Quando é superado esse interesse e se olha para os objetos,
descobrir-se-á que eles surgem e permanecem tão somente na
Consciência.
VI. Quando a Consciência começa aí a receber a devida atenção, ela
torna-se revelada também nos objetos, e eles mesmos, a seu tempo,
ficarão transformados em Consciência.
VII. É o reconhecimento, de si mesmo e do mundo, como uma só
Consciência, o que se conhece por realização da Verdade.

5. SONO PROFUNDO, NIRVIKALPA SAMADHI


E ESTADO NATURAL

I. É na Consciência que os objetos surgem. Assim, quando eles


desaparecem o que permanece é essa Consciência, e não a
inexistência.
II. Se essa verdade aprofunda suas raízes no pensamento, o sono
profundo – abandonando o seu caráter de velar a Realidade – vê-se
transformado em nirvikalpa samadhi.
III. Quando os objetos também passam a ser percebidos como nada
além de Consciência, retorna-se à verdadeira natureza que é
imutável e além de todos os estados, inclusive nirvikalpa samadhi.
6. A TESTEMUNHA DO JIVA

I. Apenas o que foi percebido anteriormente pode vir à memória. O


“Eu” personificado que percebeu, fez ou desfrutou de algo também
vem, por vezes, à memória. Disso segue que o “Eu” personificado foi
testemunhado por outro “Princípio Eu” ao tempo dessa percepção,
ação ou desfrute.
II. É esse “Eu” testemunhante que é o “Eu” real. Ao se fixar a atenção
e se estabilizar nele, fica-se livre do cativeiro.

7. O “EU” COMO A LUZ DA CONSCIÊNCIA

I. A luz na percepção dos objetos dos sentidos é o imutável Atma, o


Único sem um segundo, o qual segue permeando tudo.
II. Para vê-Lo tal qual É, os objetos devem ser separados Dele ou,
mais, usados para apontá-Lo.
III. O “Eu” deve ser retirado do corpo para o Atma. Liberdade do
cativeiro, paz e felicidade fluirão disso.

8. PURA CONSCIÊNCA

I. O Atma é o imutável, o rasa, no qual pensamentos e sentimentos


se mesclam. Ver isso, entrar nisso e estabilizar-se nisso como o “Eu”
remove todas as ilusões e traz paz duradoura.

9. O SER

I. Não é preciso se dizer, já que disso sabe-se claramente, que o “Eu”


não muda.
II. O “Eu” persiste em todos os estados. Lá está quando há
pensamento. Lá está quando não há pensamento.
III. Assim sendo, que outra evidência é necessária para demonstrar
que isso não pode ser o fazedor ou desfrutador, o que implicaria
mutabilidade?
IV. No momento em que algo está sendo feito, não há pensamento
ou sentimento de que alguém o está fazendo. Essa é prova adicional
de que não se é um fazedor.
V. Atribuir a si ter feito algo após sua execução não pode tornar
alguém um fazedor.
VI. A forte impressão de que um alguém não é nem fazedor e nem
desfrutador remove toda servidão e desse modo fica clara a real
natureza desse alguém.

10. A FALSA IDENTIFICAÇÃO DO SER E


OS MEIOS DE ULTRAPASSÁ-LA

I. Jiva é uma combinação de corpo e Atma que surge como una.


Quando são separados, Jiva como tal não pode mais subsistir.
II. Não são percepções o corpo, prana, e todas as modificações da
mente? A Consciência, o Ser, é o percebedor delas.
III. Aqueles que, esquecendo-se disto, identificam o Ser com o corpo,
mente etc vivem em servidão.
IV. Aqueles que, por sábia discriminação, ultrapassam essa
identificação errônea tornam-se liberados e repousam em paz em
sua verdadeira natureza.
V. O pensamento de que se é o corpo, denso ou sutil, é a causa de
toda servidão. Se o pensamento é que se é Consciência, e se esse
é profundo e forte, ocorre liberação imediata de toda a servidão.
VI. O vedor como tal não pode jamais ser o visto, e o visto como tal
não pode jamais ser o vedor. Se essa verdade se aprofunda no
coração, a identificação errônea com o corpo cessa.
VII. Pode ser verificado, nas atividades cotidianas, que as
características de um são superimpostas ao outro. Precisa-se tomar
um cuidado especial para evitar isso.
VIII. Quando se atribui realidade às coisas do mundo objetivo,
lembre-se de que você é, então, um ser corporificado; em outras
palavras, existe aí identificação do Ser com o corpo.
IX. Sempre tenha em mente que alterações tais como nascimento,
crescimento, decadência e destruição são características da
matéria—um objeto da Consciência.
X. É preciso estar claramente entendido que a Consciência é
diferente de seu objeto e que, ao passo que objetos variam, a
Consciência permanece constante.
XI. A Consciência é a luz do Atma ao passo que os objetos são
diretamente vinculados ao corpo. Quando é cortada a conexão com
o corpo, a conexão com objetos externos é cortada também.
XII. A rigor não pode haver conexão entre Atma e corpo. Como pode
haver alguma conexão entre coisas completamente diferentes em
natureza e constituição?
XIII. Atma é a Realidade única. O corpo é bastante irreal. Desse fato
também decorre que não pode mesmo haver nenhuma conexão
entre ambos.
XIV. Fica evidente então que a conexão entre eles é apenas fantasia.
Ela cai por terra quando o conhecimento da Verdade ocorre e é
mantido vívido.
XV. O desejo de não morrer tem profundas raízes no Atma, que é
imortal.
XVI. Se esse desejo torna-se vinculado ao mundo objetivo, trata-se
de superimposição de característica do Atma sobre não Atma. Como
podem objetos que são, por definição, limitados pelo tempo, serem
feitos para transcendê-lo?
XVII. Atma é a Felicidade em si. É por conta disso que, em todos os
seres, há o desejo pela felicidade. Quando se supõe que ela vem dos
objetos, ocorre superimposição dessa característica de um sobre o
outro.
XVIII. O desejo pela liberdade também tem sua raiz no Atma, o qual
é a única existência incondicionada.
XIX. Atração, repulsão, medo, pesar, inquietude, senso de
dependência, inveracidade, preguiça, passividade e outros tais
provêm da conexão com o corpo.
XX. Estabilidade, amor, felicidade, paz, coragem, senso de liberdade,
confiabilidade, senso de existência, vigilância, conhecimento – esses
pertencem ao reino do Atma.
XXI. Tudo o que enfatiza a personalidade tem que ser entendido
como tendo origem na conexão com o corpo.
XXII. Aquilo que ajuda a expansão além dos limites do corpo tem
que ser visto como emanado do Atma. As características têm que,
desse modo, ser diferenciadas e vistas em seus respectivos
domínios.
XXIII. Se isso é feito momento a momento, o caminho para a
superimposição das características de um domínio sobre o outro é
barrado.
XXIV. Se toda a possibilidade de superimposição é assim removida,
chega-se ao estado natural, onde realiza-se que todo o mundo
objetivo nada mais é que Consciência.
XXV. Essa verdade última também pode ser alcançada por uma
rigorosa análise do próprio mundo objetivo.
XXVI. Os objetos da Consciência jamais podem ser separados da
própria Consciência. Eles não têm existência independente. Por
conseguinte, eles nada mais são que Consciência.
XXVII. Abordar a verdade dessa forma também removerá a
enganosa identidade da Consciência com o corpo, bem como toda
ilusão. Assim se descobrirá a si próprio estabilizado como Atma, a
única e última Realidade.

11. A REALIDADE COMO ELA É

I. Expressões tais como imutável e sem forma não podem, até pelo
seu cunho negativo, mostrar a Realidade como ela é.
II. A declaração de que o homem não é um animal é, sem dúvida,
verdadeira. Mas ela mostra alguma das verdadeiras características
do homem?
III. É impossível mostrar a Realidade como ela é. Palavras são,
quando muito, meras indicações.
IV. Caso, desconhecendo-se isso, considere-se literalmente o que é
indicado por palavras, a experiência da Realidade será maculada
nessa medida.
V. Está em perfeita ordem se as palavras forem, meramente,
tomadas como auxílio para se erguer acima de todos os
pensamentos.
VI. A Realidade é compreendida como além de todos pensamentos,
e uma vez direcionada de modo condizente a contemplação, as
palavras podem ajudar a se chegar a um ponto onde todos os
pensamentos cessam e a Realidade é experienciada.
VII. Podem surgir dúvidas quanto à possibilidade de se contemplar
alguma coisa além de todos os pensamentos. Isso é possível. A
dificuldade é apenas aparente.
VIII. É verdade que apenas objetos da percepção podem ser
diretamente contemplados. O “Eu” é sempre o percebedor; jamais
um objeto da percepção.
IX. Como não se trata de um objeto da percepção, a contemplação
direta do “Eu” está fora de questão.
X. Não pode o “Eu” ser contemplado como resíduo, após a remoção
de tudo o que é objetivo do “Eu” aparente?
XI. Esse mesmo pensamento contemplativo chegará, por fim,
automaticamente a um impasse, e nessa quietude se verá, brilhando,
a sua (do “Eu”) verdadeira natureza.
XII. O que está além de todos os pensamentos pode ser
indiretamente contemplado também por outros modos. Eles
igualmente conduzirão à verdadeira natureza de si mesmo.
XIII. Sempre tenha em mente que palavras como Consciência ou
Conhecimento, Ser ou Felicidade apontam todas para o “Eu”.
XIV. Atenha-se a um pensamento para dispensar outros
pensamentos. Deixe-o assim ficar, enquanto ele aponta para o ser.
XV. Pense no ser como aquilo onde todos pensamentos se fundem,
assim o pensamento utilizado abre mão de sua forma e se funde ao
Ser.
XVI. Assim como usamos a palavra conhecimento para denotar
também a função de conhecer, usamos da mesma forma a palavra
felicidade para denotar a função de desfrutar.
XVII. É da experiência de todos que o conhecimento e a felicidade
surgem apenas quando suas respectivas funções de conhecer e
desfrutar terminam.
XVIII. Assim Conhecimento e Felicidade são o próprio Ser. Com essa
convicção, se um pensamento é direcionado a qualquer um destes,
esse pensamento também desiste de sua forma e se dissolve.

12. EXPERIÊNCIA

I. Quando se experiencia – estritamente falando – não se apresentam


nem pensamentos nem objetos externos. É o estado no qual, em
solitude, se permanece no Ser.
II. Objetos da percepção são acreditados como sendo a causa da
experiência – isso seduz o ignorante.
III. Se rigorosamente considerado, pode ser visto que não há nada
como causa e efeito. Mesmo que isso seja concedido, o efeito jamais
existirá independentemente da causa. Admite-se, de mãos juntas,
que a causa será vista no efeito.
IV. Mas não surge uma causa assim no experienciar. Segue-se, daí,
que a experiência não tem causa.
V. Se não há causa, porque essa caça a objetos? Tudo que é
necessário é apenas a fusão dos pensamentos.
VI. A contemplação, sempre, da natureza da experiência em si
mesma ocasionará esta fusão.
VII. O pensamento profundo de que não se é nem o fazedor e nem o
desfrutador também ocasionará o mesmo resultado.
VIII. O melhor modo é se ver que o pensamento como tal é de fato
não existente, ou que ele não é nada além de Consciência.

13. A TESTEMUNHA DOS PENSAMENTOS

I. A análise correta mostrará que a mente, assumindo a forma de um


objeto, é comumente referida como a iluminação do objeto (a
percepção ou conhecimento dele).
II. Atma é a imutável Consciência que, sem esforço ou qualquer
mudança em Si mesma, percebe tais modificações da mente.
III. Um pouco de raciocínio mostrará que este é o princípio significado
pela palavra “Eu”.
IV. Ao se permanecer aí não se vê nada mais; não há corpo, mente,
mundo ou órgãos dos sentidos.
V. Nada veio à existência nem existe de fato um pensamento de que
algo existiu antes e está a existir agora. A Consciência não fazedora
está sempre desfrutando de Si mesma.

14. O MUNDO E CONSCIÊNCIA

I. A água, pelo seu contato com o tempo e espaço, os quais são


inteiramente distintos e diferentes dela, pode criar uma onda. Não
existe a possibilidade de um mundo ser formado desse jeito.
II. Nada existe independentemente da Consciência. Como então é
possível algo diferente e independente entrar em contato com a
Consciência de modo a formar um mundo?
III. A água, por si mesma, jamais pode formar uma onda.
Similarmente, a Consciência por si mesma jamais pode formar um
mundo.
IV. Portanto o mundo não é, nunca foi e jamais virá a ser.
V. O que existe é tão somente Consciência. Consciência é Felicidade
em si. O Atma significado pela palavra “Eu” também é Isso.

15. NADA ACONTECE

I. Está claro que uma coisa nunca pode se transformar em outra sem
a destruição de sua swarupa.
II. Se a sua swarupa é destruída, pode a coisa permanecer? A não
ser que permaneça, como se pode dizer que ela se transformou em
outra, já que sua identidade está perdida e não há nada para conectá-
la com a nova coisa?
III. Assim uma coisa jamais pode passar por uma mudança. Não há
nascimento nem morte – não são ambos mudanças?
IV. Aquele que, de modo similar, por uma intensa investigação acerca
da natureza das coisas, descobre essa verdade e nela permanece, é
a grande alma que conseguiu seu objetivo, estabelecida na única
coisa que há para ser conhecida, permanecendo sempre contente.

16. JNANI

I. Eu sou a Consciência que permanece após a remoção de Mim, de


tudo o que é objetivo.
II. Eu não tenho corpo, energia vital (prana, percepções,
pensamentos e sentimentos). Eu estou acima da atração e repulsão,
prazer e dor, medo e ilusão.
III. Eu sou pura Consciência. Realizando que todo objeto, onde quer
que esteja, está Me confirmando, Eu desfruto de Mim mesma em
todo lugar e em tudo.

17. O “EU” REAL


I. No estado de sono profundo, e sempre que algum desejo é
satisfeito, Eu—somente—brilho como felicidade e paz imperturbável.
II. Logo antes e logo após todo pensamento e sentimento, Eu brilho
em minha própria Glória por Mim mesmo. É em Mim que
pensamentos e sentimentos se erguem e se põem. Eu sou a imutável
Testemunha deles.
III. Eu sou a Luz da Consciência em todos os pensamentos e
percepções e a Luz do Amor em todos os sentimentos. Eu não passo
por nascimentos e mortes nem por mágoas e ilusões. Estou além do
cativeiro e da liberação.
IV. O mundo que surge e cresce através de pensamentos é, ele
mesmo, um pensamento. Pensamento não é nada além de
Consciência e Consciência é Meu Ser. Por conseguinte o mundo
inteiro é Consciência, que é Meu Ser. Sou perfeito e indivisível.
V. Não tenho senso de posse, apego ou egoísmo. Sou eterno, não
fazedor, total pureza, auto dependente e auto luminoso. Sem
atributos, imutável e incondicionado, eu sou a morada do Amor,
imaculado, o único sem um outro e sempre pacífico.

18. PENSAMENTOS E OBJETOS

I. Conferir realidade às coisas que surgem em pensamentos é a


causa de toda a confusão.
II. A forma pode existir apenas como objeto do ver e jamais
independentemente dele. Esta regra se aplica igualmente a todos os
objetos dos sentidos.
III. Objetos não têm, por si mesmos, conexão entre si – essa conexão
é sempre apenas com o pensamento.
IV. Um objeto não pode existir, por um momento sequer, a não ser
que seja conhecido pelo pensamento. Quando o pensamento muda,
também muda o objeto.
V. Então eles são inseparáveis e, portanto, um. A verdade é que a
coisa Única é mantida dividida por meras palavras.
VI. Portanto, até mesmo assegurar que uma coisa surge no
pensamento é simples ilusão. Existe apenas pensamento e o
conteúdo do pensamento é Consciência.
V. Se essa verdade for sempre mantida vívida, o pensamento logo
desaparece e a Consciência reina. Assim vem a liberação de toda
servidão.

19. DOIS ASPECTOS DA CONSCIÊNCIA

I. Samvit (Consciência) possui dois aspectos: condicionado e


incondicionado. É este último que ilumina os objetos da Consciência;
é este que é pura Consciência.
II. Objetos dos sentidos, tais como som, toque, odor etc, são apenas
formas-pensamento. Então, falando corretamente, somente
pensamentos são os objetos da Consciência.
III. Aquele que, por análise e discriminação meticulosa, está
impossibilitado de alcançar o aspecto incondicionado, pode muito
bem permanecer no condicionado. Ele alcançará o incondicionado
no devido tempo, se não permanecer satisfeito no condicionado.
IV. Observando-se cuidadosamente, pode-se ver todo o pensamento
surgir e findar na pura Consciência apenas.
V. O que não é Consciência é tudo forma-pensamento. A pura
Consciência jamais pode mostrar ou provar isso (dar testemunho
disso).
VI. Não é argumento válido dizer que a memória – ela mesma uma
forma –pensamento – permanece imutável olhando todos os
pensamentos em sucessão.
VII. É da experiência ordinária que, ao não existirem outros
pensamentos, a memória não esteja lá com eles. Como poderia
então a memória convocar pensamentos pretéritos?

20. O VEDOR E O VISTO


I. Ao se olhar através do denso órgão do olho, somente formas
dessas aparecem. A mesma relação existe entre outros órgãos
densos e seus objetos.
II. Deixando os órgãos físicos, caso se olhe através do órgão sutil
chamado mente, aparecem formas sutis.
III. Olhando por meio da Consciência pura e sem atributos, vê-se
apenas Consciência e nada mais.
IV. Essa experiência prova que o mundo objetivo sempre surgirá em
perfeita sintonia com a posição assumida pelo sujeito.
V. Por conseguinte não é o mundo objetivo que apresenta obstáculos
ao progresso espiritual, mas sim o falso posicionamento que foi
assumido.
VI. Caso se abra mão disso, a iluminação espiritual se segue. Para
se abrir mão desse posicionamento, coragem, atenção focada e
devoção de coração são absolutamente necessários.
VII. Um exame agudo do mundo objetivo também trará o mesmo
resultado.
VIII. Chegar à conclusão de que este mundo aparentemente sólido é
um mero pensamento não soluciona todo o problema. Daí não pode
advir total satisfação, pois o mundo-pensamento continua.
IX. A investigação não satisfez pois foi conduzida a partir do nível de
buddhi, o qual foi deixado sem explicação.
X. Buddhi também é algo percebido. Não é o Si mesmo (Consciência)
o verdadeiro Percebedor? Examinar pensamentos é assumir o
posicionamento na Consciência percebedora.
XI. Quando é visto que o conteúdo do pensamento é Consciência, o
pensamento desaparece e a Consciência permanece.
XII. A Consciência, quando enganosamente se supõe estar
condicionada pelo tempo, aparece como pensamento. Na verdade,
ela não é condicionada assim.
XIII. Não é o tempo, ele mesmo, um pensamento? Como pode então
o surgimento de um pensamento ser atribuído ao condicionamento
da Consciência ao tempo?
XIV. Por conseguinte, estritamente falando, não há pensamento.
Existe apenas Consciência. A ideia de tempo é mera superimposição
por engano.
XV. Só aquele que firmemente mantém a posição de uma
testemunha desinteressada e examina calmamente as coisas com
um olhar crítico e sem hesitações, pode realizar esta verdade
absoluta.
XVI. No estado de vigília, fica-se ciente de que os objetos dos sonhos
eram irreais.
XVII. Se um homem visto no sonho era irreal, sua mente tem que ser,
igualmente, irreal.
XVIII. Seus pensamentos, o ver, o ouvir etc serão da mesma forma
irreais.
XIX. Da mesma forma, o sujeito no estado de sonho, ele também um
produto do sonho, só pode ser irreal.
XX. O corpo do estado de sonho é diferente do corpo do estado de
vigília. Quando o primeiro está em atividade, o último encontra-se
deitado num estado passivo.
XXI. Os pensamentos e percepções do sujeito no sonho não podem
igualmente ser os pensamentos e percepções do sujeito no estado
de vigília.
XXII. Os pensamentos e percepções do primeiro são irreais, sendo
produtos do sonho.
XXIII. A questão surge então: quem teve o sonho? Para isso a
resposta correta é que ninguém o teve, e que nunca houve um estado
de sonho.
XXIV. O mundo do estado de vigília, se for examinado de forma
similar, também será visto como não existente. Então recupera-se a
verdadeira natureza e torna-se estabilizado como pura Consciência.
GLOSSÁRIO

Significado aproximado de termos em Sânscrito, dispostos na


sequência em que primeiro aparecem no texto.

Atma – o Ser real


Atma Darshan – literalmente, é a percepção do Ser Real. No
contexto, significa Autorrealização. Também pode significar os
meios de Autorrealização.
Advaita – Não dualismo
Jiva - Alma individual; ou o aparente “eu”
Sat – Vida plena
Chit – Conhecimento absoluto
Ananda – Bem-aventurança absoluta
Satva – pensamento direcionado ao Atma (Ser)
Avidya – Conhecimento incorreto
Vidya – Conhecimento correto
Nirvikalpa Samadhi – O estado no qual a mente se funde na
consciência por um tempo e então existe uma profunda paz
Rasa – Paz e harmonia perenes
Prana – Energia vital
Swarupa – Aquilo que mantém a identidade de uma coisa, o pano
de fundo dos atributos fenomênicos
Samvit – Consciência
Buddhi - Intelecto

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