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CURSO DE

CAPACITAÇÃO DE
EVANGELISTA
2019
Módulo VII

Discipulado
Nome:

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Prof. Pr. Adriel Valverde Página | 1
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Sumário

Capítulo Título Página

Introdução 03

1 Base Bíblica para o discipulado cristão 04

2 O discipulado e a formação da Igreja 07

3 João Wesley e o discipulado 09

Trabalho da Disciplina Discipulado 15

Referências Bibliográficas 16

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Introdução
Nos dias atuais é muito comum, em grande parte das igrejas evangélicas, falar sobre o discipulado.
Mas será que encontramos na Bíblia bases sólidas para essa concepção? Você conhece algum texto
bíblico que fala de discipulado?
Na Bíblia, não existe o termo "discipulado". Podemos dizer que o "discipulado" é um termo
moderno, embora sua prática exista desde os tempos remotos. Em Mateus 28.19 encontramos o
termo: "matheteusate", que é traduzido por "discipulai ou fazei discípulos".
Quando falamos do discipulado cristão, estamos nos referindo ao PROCESSO que leva uma
pessoa a se tornar uma discípula de Cristo. Dessa forma, entendemos que discipulado não é...
→ Uma classe de estudos;
→ Um ministério específico da Igreja;
→ Capacitação dos neófitos;
→ A reunião das células;
→ Entre outros.
O discipulado é um estilo de vida. No século primeiro, o mundo todo observou um estilo de vida
diferente entre os/as cristãos/as. Ninguém tinha dúvidas para identificá-los/as como seguidores/as
de Jesus.
Na pastoral número 4, de 2008 e 2009, Testemunhar a Graça e fazer discípulos e discípulas, é
apresentada a visão do Colégio Episcopal, baseada no ministério de João Wesley:
“Percebe-se, à primeira vista, que o discipulado, antes de ser um método, é um estilo de vida, uma
maneira de ser, no expressar evangélico de nossa fé. Não visa, de início, ser um processo didático
de aprendizagem. Nem mesmo uma forma pragmática de crescimento para a Igreja. É algo bem
mais relacional, que busca, à luz do próprio Cristo, fundamentar a comunhão, a convivência, a
comunicação e a formação do caráter das pessoas relacionadas com o Senhor e com Sua
comunidade – a Igreja, corpo vivo de Cristo. Essa foi a maneira de ser do Senhor com a
comunidade primitiva e da comunidade apostólica, bem como a convivência inspiradora, fraternal
e comunitária do povo metodista, a partir de sua grande expressão – João Wesley”.

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1. Bãse Bíblicã pãrã o discipulãdo cristão
1.1 – O que é Discipulado?
Como já vimos acima, o Discipulado é o modo de vida, o estilo que caracteriza a vida daqueles
que estão comprometidos com o Reino de Deus, que fazem da Nova Justiça, ou seja, dos valores
éticos e da justiça do Reino uma prioridade na sua vida, e que se dedicam integralmente ao serviço
cristão, ao evangelismo e ao testemunho, em cumprimento à vontade de Deus Pai.
Esse modo de vida é descrito, principalmente, no Sermão da Montanha. (cf. Mateus 5, 6 e 7).
Discipulado busca algo mais do que um mero processo educativo. É um estilo de vida, uma
maneira de ser em que as pessoas se relacionam, entram em comunhão, acolhem umas às outras,
compartilham o que são, sentem e carecem; oram umas pelas outras, louvam e adoram ao Senhor
juntas, estudam a Palavra à luz da graça, da experiência e da razão da comunidade da fé.
Nesse sentido, vivem e cumprem o que a Palavra nos diz:
a) Levar os fardos uns dos outros –
“Irmãos, se alguém for surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais deverão
restaurá-lo com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado.
Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo” (Gálatas 6.1-2).
b) Acolher-se mutuamente conforme Cristo nos acolheu –
“Portanto recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos recebeu para glória de
Deus” (Romanos 15.7).
c) Apoiar, ser o suporte uns dos outros –
“Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa
contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também”. (Colossenses 3.13).
d) Perdoar-se mutuamente –
“Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim
como Deus perdoou vocês em Cristo” (Efésios 4.32).
e) Expressar o amor mutuamente –
“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; E andai em amor, como também
Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro
suave” (Efésios 5.1-2).
f) O mais forte é convidado a suportar e ser o suporte do mais frágil –
“Nós, que somos fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não agradar a nós
mesmos” (Romanos 15.1).
1.2 – O discipulado e a Bíblia
Vimos que não encontramos na Bíblia o termo "discipulado", mas com muita clareza, encontramos
sua prática, especialmente no Novo Testamento. Porém, o discipulado não é uma doutrina
exclusiva do Novo Testamento. Em Êxodo 18.13-27, Moisés, sobrecarregado com o trabalho de
liderar e orientar o povo, recebe de Jetro, seu sogro, uma sugestão: organizar o povo em grupos e
escolher líderes responsáveis. Moisés acatou a sugestão e passou a conviver mais diretamente com
líderes e delegou-lhes funções e atribuições.

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Encontramos também exemplos de discipulado entre os profetas. Em 2 Reis 2, por exemplo, há
três indicações sobre escolas de profetas: em Gilgal, Betel e Jericó. Provavelmente, seu líder era
Elias e elas objetivavam o ensino da tradição e religião de Israel.
Eliseu ingressou no discipulado e abandonou tudo para “seguir” o profeta Elias, como nos atesta 1
Reis 19.20. Outros profetas tiveram seus grupos de seguidores, como, por exemplo, Jeremias
(Jeremias 36.68) e Amós (Amós 7.14).
1.3 – Jesus e o discipulado
É fácil perceber que Jesus foi um grande discipulador, e que usou estratégias para preparar seus
seguidores para o cumprimento da Missão. Em seu ministério público, Ele atendeu as multidões
que o procuravam com as mais diversas intenções. Mas é perceptível que Ele dedicou a maior
parte do seu tempo a ensinar e preparar seus discípulos para a missão (Marcos 3.13-15). Dentre os
ensinamentos de Jesus fica evidente que Ele valoriza a vida, especialmente a vida humana (João
3.16).
A valorização promove transformação: os discípulos que O seguiram mais de perto se tornaram
pregadores, mestres, evangelistas, etc., dando continuidade ao ministério de Jesus. Cristo formou
neles um caráter de humildade, dedicação e serviço.
Como afirma o bispo emérito Josué Adam Lazier, para Mateus, Marcos e Lucas, esta dedicação
aos discípulos foi constante. Um levantamento das palavras de Jesus registradas nos três primeiros
Evangelhos aponta o seguinte:
49,7% das palavras são dirigidas aos discípulos;
25,8% das palavras são dirigidas às multidões;
24,5% das palavras são dirigidas às autoridades
Esse levantamento mostra a importância das palavras de Jesus para os primeiros cristãos, a ponto
de serem conservadas pela igreja primitiva e registradas pelos redatores dos evangelhos. Jesus
dedicou tempo e relacionamento para preparar seus discípulos.
As últimas palavras de Jesus foram: “Indo, portanto, fazei discípulos de todas as nações,
batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as
coisas que vos tenho ordenado” (Mateus 28.19-20a).
Como vimos acima encontramos em Mateus o verbo “matheteusate”, (“fazei discípulos") que, no
Novo Testamento, aparece apenas quatro vezes: três delas nesse mesmo Evangelho (13.52; 27.57;
28.19) e uma em Atos (14.21).
Para entender devidamente o sentido do mandamento é indispensável prestar atenção em um
detalhe gramatical que nem sempre é levado em consideração: no texto grego, “matheteusate” é o
único verbo no modo imperativo. As outras três formas verbais ligadas a este verbo
“matheteúsate” -- “ide”, “batizando-os” e “ensinando-os”-- estão, de acordo com o original grego,
na forma verbal gerúndio e sua função é qualificar a ação a que se refere o verbo principal -- “fazei
discípulos”.
O primeiro gerúndio (no grego) presente na frase é traduzido como “ide”, mas seria mais correto
se traduzido por "indo", e não deve ser interpretado separadamente do mandamento central
expresso pelo verbo no modo imperativo no grego.

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1.4 – O discipulado na Igreja Primitiva
Paulo estava à margem da Igreja após sua conversão, pois os cristãos tinham medo dele, por ter,
inclusive, consentido com a morte de Estevão (Atos 7.58). Barnabé aproximou-se de Paulo e
apresentou-o aos apóstolos, defendendo sua conversão e intercedendo por ele (Atos 9.26-30).
Anos mais tarde, Barnabé foi enviado pela Igreja de Jerusalém a Antioquia, pois muitas pessoas se
converteram ao cristianismo nesta cidade. Ao perceber a ação de Deus, decidiu ficar e pastorear
os/as novos/as convertidos/as. Para auxiliá-lo, foi procurar Paulo em Tarso e lançou-o no
ministério (Atos 11.22-26). Alguns meses depois, a Igreja de Antioquia envia os dois como seus
missionários. No início, Barnabé lidera, mas, da metade em diante, Paulo assume (Atos 13.41, 46,
50; 15.2).
Barnabé e Paulo se desentendem por causa de João Marcos (Atos 15.36-41). Alguns anos mais
tarde, porém, Paulo escreve a Timóteo: “toma contigo a (João) Marcos e traze-o, pois me é útil ao
ministério” (2 Timóteo 4.11). João Marcos discipulado por Barnabé tornou-se útil ao ministério:
escreveu o primeiro Evangelho (segundo Marcos).
Já na lista de Paulo constam outras pessoas: Priscila e Áquila, Lídia, Apolo, Teófilo, Tito, Silas,
Lucas, Filemom e Timóteo. Durante 15 anos aproximadamente, Paulo discipulou Timóteo. E no
final da sua vida, endereçou cartas ao discípulo, orientando-o quanto ao cumprimento do
ministério e transmissão do ensino recebido (2 Timóteo 2.2).
O apóstolo João dirige cartas aos líderes da igreja, provavelmente seus discípulos. A história conta
que João discipulou o bispo Policarpo que, por sua vez, fez o mesmo com Irineu, personagens
importantes na história da Igreja Primitiva.
1.5 – Concluindo...
Como vimos, o discipulado não é uma estratégia de crescimento de igreja ou um método de
pastoreio. Também não é uma opção, é uma ordem, um mandamento de Jesus: "fazei discípulos".
Para ser discípulo tem que gerar fazer discípulos!
A missão de fazer discípulos não é fácil. Mas Jesus após ordenar aos discípulos para fazerem
discípulos, afirmou: "e eis que estou convosco, todos os dias até a consumação dos séculos"
(Mateus 28.20b).

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2. O discipulãdo e ã formãção dã Igrejã
2.1 – O desvio da Igreja
Segundo autor Michael Henderson, Wesley via a história da Igreja como um desvio dos planos e
propósitos de Deus para o seu povo. Podemos afirmar que o primeiro claro desvio da Igreja do
propósito de Deus aconteceu ainda com os apóstolos. Por isso, Deus levanta Estêvão para
estremecer e tirar do comodismo os apóstolos para a continuidade da missão de fazer discípulos.
Os apóstolos se contentaram em permanecer no judaísmo, e com isso perderam o foco da missão
que é: "Portanto indo, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do
Filho, e do Espírito Santo;" (Mateus 28.19). Isso quer dizer que eles esqueceram que Jesus
morreu não apenas para os judeus, mas para os gentios também.
A morte de Estêvão desencadeou uma grande perseguição. E ao ser dispersos, os cristãos falavam
de Jesus por onde passavam. A Igreja começa novamente voltar a essência da evangelização e o
discipulado. Com o passar do tempo, a Igreja foi se desenvolvendo por todos cantos da terra,
através de Paulo e de seus discípulos. Mas infelizmente, com Constantino, o cristianismo se tornou
a religião oficial do Estado, deixando de ser profético e passando a ser político.
Mais tarde aconteceram as Cruzadas como método para estabelecer a supremacia cristã, mostrando
que realmente a Igreja havia perdido o rumo novamente.
2.2 – O desvio da Igreja Anglicana
Na época de Wesley, na Inglaterra do século XVIII, não era muito diferente. A Igreja Anglicana, a
Igreja oficial do Estado, havia se tornado "fria", e um tanto descompromissada com sua função
profética junto aos problemas espirituais, morais e sociais.
Como afirma D. Michael Henderson: "As Igrejas eram subsidiadas pelo governo, e pastores
recebiam "prebendas" das receitas de impostos do Estado. Das 11.000 "prebendas" em 1750,
6.000 eram recebidas por homens que nunca puseram os pés na própria paróquia; eles viviam em
Londres ou no continente, delegando o cuidado de suas paróquias a párocos auxiliares mal
treinados e que recebiam baixíssimos honorários, especialmente naqueles distritos de onde viam
os trabalhadores da indústria" (pág. 20,21).
A Inglaterra estava numa profunda crise social. Os operários e mineiros trabalhavam 16 horas por
dia por um salário que mal dava para o alimento. Milhares de crianças em idade escolar,
trabalhavam e morriam de chagas e frio.
Em 1736 o alcoolismo era tão grande na Inglaterra, que uma a cada seis casas operava como um
botequim. O Consumo de gim chegava a 45 milhões de litros por ano. Mas, de outro lado estava a
casta de nobres, os grandes donos de indústrias, que mantinham o poder de conceder e privar todos
os seres viventes dos meios de subsistência: direito único do Rei.
Nesse contexto foi que surgiu o Movimento Metodista, quando um grupo de estudantes da
Universidade de Oxford, sob a liderança dos irmãos e professores John e Carlos Wesley, passaram
a se reunir para o cultivo da piedade cristã, através da leitura da Bíblia, da prática da oração, do
jejum, da visita aos presos e aos enfermos.

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2.3 – O surgimento do metodismo
João Wesley iniciou o Metodismo com o intuito de fortalecer e renovar o espírito cristão daqueles
que comungavam junto à religião oficial Anglicana. Esse grupo, conhecido inicialmente como
"Clube Santo", marcou sua identidade pelo método: dias fixos para praticar o jejum, hora certa
para a leitura da Bíblia e oração, dia de visitar os presos, de distribuir alimentos, etc.
Por causa dessa organização, esse grupo foi "apelidado" de Metodistas, quer dizer, aqueles que
têm métodos. A partir de então, Wesley desenvolveu um método de discipulado que serviu com
modelo, para praticamente, todos que viriam posteriores a ele.
2.4 – Concluindo...
Mesmo em meio aos desvios, o discipulado foi a base da formação da Igreja Primitiva. Sem o
discipulado, dificilmente seríamos cristãos hoje. Porém, como o desenvolvimento da igreja a
política foi tomando o lugar do Reino de Deus e o discipulado se tornou secundário e dispensável.
Muitos anos depois, em meados do século XVIII, na Inglaterra, através dos irmãos Wesley, que o
discipulado bíblico parece despontar novamente.

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3. João Wesley e o discipulãdo
3.1 – O modelo de discipulado de Wesley
O autor D. Michael Henderson, no livro Um modelo para fazer discípulos – A reunião de classe de
John Wesley, apresenta João Wesley como alguém que criou um sistema de ensino que resultou
numa renovação espiritual na Inglaterra do século XVIII. Suas técnicas de fortalecimento e
treinamento de discípulos cristãos não somente levaram transformação pessoal a dezenas de
milhares de crentes individuais da classe trabalhadora, mas também, uma reforma moral à nação
inglesa.
O autor apresenta o ponto central desse sistema revolucionário, que era um pequeno grupo ou
célula constituído de 06 a 08 pessoas que Wesley denominou de "Reunião de Classe". Eles se
encontravam semanalmente para prestar contas de seu crescimento espiritual pessoal, de acordo
com as regras e seguindo os procedimentos que Wesley tinha elaborado cuidadosamente.
O que marcou esse método de ensino foi que Wesley entendia que deveria agrupar os novos
convertidos para não perder frutos. A partir do Clube Santo, Wesley foi levado para uma técnica
de evangelização por um dos seus ex-alunos e colega do Clube Santo: George Whitefield. Essa
técnica consistia na pregação ao ar livre. A princípio, Wesley rejeitou a ideia de pregar fora da
igreja, mas acabou sendo convencido e pregou o seu primeiro sermão ao ar livre numa olaria em
Bristol.
Wesley escreve sobre esse dia: "Às quatro da tarde, cedi a esse método mais desprezível, e
anunciei as boas-novas da salvação, falando a partir de uma pequena elevação no solo, adjacente
à cidade, para aproximadamente três mil pessoas. ..." (pág. 29)
O autor afirma que Whitefield havia iniciado e popularizado o evangelismo de massa para o povo
sem igreja, mas Wesley organizou o movimento e pôs sob administração sistemática. Wesley
combinou a pregação ao ar livre com as reuniões de classes.
Whitefield converteu centenas de milhares de pessoas, mas seu fruto não foi permanente. Ao
contrário disso, Wesley otimizou a evangelização e cuidou dos novos convertidos, tornando os
frutos do seu ministério duradouros.
No final de seu ministério, Whitefield encontrou com um amigo e discípulo de Wesley, John Pool,
e reconheceu que errou em não cuidar daqueles que haviam se convertido, como fez João Wesley.
O diálogo abaixo deixa claro a frustação de Whitefield:
- Whitefield: "Bem, John, você ainda é wesleyano?
- John Pool: "Sim, senhor, e agradeço a Deus por ter o privilégio de estar ligado a ele, e ser um
do seus pregadores!
- Whitefield: "Você está no lugar certo. Meu irmão Wesley agiu de forma sábia - as almas que
foram despertadas sob seu ministério ele reuniu em classes, preservando assim o fruto de seu
trabalho. Isso eu negligenciei, e meus adeptos desapareceram com água na areia". (pág. 31,32)
O autor afirma que Wesley provocou uma revolução na Inglaterra, no sentido espiritual: "Na
vizinha França, a revolução assumiu a forma de um levante violento: os camponeses tomaram a
Bastilha em 1789 e formaram sua própria república. Na Inglaterra, a revolução foi

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completamente o oposto disso: silenciosa, ordenada e de natureza espiritual. Foi conduzida não
por insurgentes armados, mas por avivadores anglicanos e seus assistentes leigos. Essa foi a
Revolução Wesleyana." (pág. 17)
O método de ensino e discipulado adotado por Wesley se deve, praticamente, à forma que ele foi
educado por Suzana Wesley. Ela defendia que o maior problema das pessoas estava no não
controle da vontade. Para Suzana, a criança deveria ser ensinada desde cedo a controlar suas
vontades, pois grande parte da infelicidade do ser humano estaria na falta desse controle.
Além disso, todas as noites Suzana sentava em particular com um ou dois filhos para discutir
questões religiosas e avaliar seu avanço espiritual. Às quintas-feiras era o dia de Wesley, o qual ele
aguardava ansioso.
Dessa forma, o controle da vontade humana, o uso prudente do dia e a questão do zelo pelo
cuidado e cura das almas, se tornou marca do metodismo nascente porque era uma realidade de
João Wesley desde sua infância em sua família.
Posteriormente, o metodismo se tornaria um método vigoroso, meticuloso e disciplinado devido a
visão que Wesley foi introduzido a partir de sua mãe Suzana. Na Universidade de Oxford Wesley
montou, juntamente com seu irmão, Charles, um grupo que se reunia quatro noite por semanas
para estudar os clássicos e ler o Novo Testamento Grego. Esse grupo era tratado com desprezo
pelos colegas, e era chamado de: "Clube Santo", "Traças da Bíblia" ou "Metodistas".
Porém, o Clube Santo não era uma grande novidade, pois já havia Sociedades Religiosas na Igreja
Anglicana para fins semelhantes. A diferença foi que Wesley não deixou que o grupo fosse apenas
para aquisição cognitiva, mas também exigia que execução prática fizesse parte dele.
Nesse contexto, Wesley é desafiado a assumir a capelania da colônia do General Oglethorpe, na
Geórgia. Porém, seu objetivo final era de evangelizar os índios.
À caminho para Geórgia, no navio Simmonds, Wesley teve seu primeiro contato com os morávios,
que como ele descreve eram "cristãos de vida simples e fé sincera". Wesley se encantou pelas
práticas cristãs dos morávios e pelos seus belos hinos.
Mas, o que realmente marcou a vida de Wesley foi a atitude dos morávios diante de uma
tempestade em alto mar. Faltando aproximadamente 10 dias para chegarem à Geórgia, houve uma
grande tempestade. Wesley teve muito medo, porém reparou que os morávios estavam tranquilos,
e louvavam ao Senhor calmamente com hinos.
Na Geórgia, Wesley dividiu suas congregações em grupos pequenos, segundo o modelo do Clube
Santo. A partir dos primeiros grupos, Wesley escolheu alguns "homens fiéis", com os quais passou
a se encontrar nas tardes de domingo para treinamento mais intensivo.
Wesley, reunido com esse grupo, decidiu que iria dividi-los em dois níveis: um primeiro grupo,
"com os mais sérios", montando uma pequena Sociedade; e o segundo grupo com menos pessoas
para ter uma união mais íntima, na qual iria conversar em particular com cada um.
D. Michael Henderson afirma que "o estabelecimento de dois níveis de participação marcou o
início de um fator-chave no movimento metodista: uma hierarquia de grupos educacionais
baseada na maturidade de cada discípulo e na lealdade num nível inferior".
Mas havia três grandes diferença desses grupos de Wesley na Geórgia do Clube Santo em Oxford.

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1ª – O Clube Santo de Oxford era composto por um grupo de voluntários cristãos à
margem da Igreja anglicana. Na Geórgia era a divisão da própria congregação em
grupos menores.
2ª – A segunda diferença se repousa sobre a natureza da missão e a posição do
missionário. Wesley havia sido exposto desde a infância a dois modelos de missão:
dos pietistas e dos católicos.
Pietistas: Os missionários exerciam o papel de empreendedores religiosos
estrangeiros, agentes de Cristo independentes doando sacrificialmente sua vida para
levar salvação; educação e plenitude aos incrédulos de uma cultura menos
desenvolvida.
Católicos: Os missionários de igreja se consideravam servos internacionais da Igreja
que o enviava. Esse último era o modelo no qual se esperava de Wesley.
Mas Wesley antes de ir para Geórgia escreveu: "Meu principal motivo (em ir) é a
esperança de salvar minha própria alma". Wesley entendia missões como um modo
de crescimento espiritual pessoal. Missões, para Wesley, não era um produto final de
seu discipulado, mas o meio para promovê-lo.
3ª - Na Geórgia Wesley pôde trabalhar segundo padrão igualitário, diferente de
Oxford, que seguia os padrões das castas. Na Geórgia Wesley pôde aprimorar o
Clube Santo. Ele percebeu que o padrão estabelecido no Clube Santo era transferível
para outros contextos, com algumas modificações.
3.2 – As influências que Wesley recebeu
Wesley recebeu diversas influências em relação aos grupos pequenos, mas um de seus primeiros e
mais importante modelos foi o das pequenas sociedades estabelecidas na França pelo católico
monsenhor de Renty, que por sua vez fora influenciado por Thomas a Kempis.
a) O modelo de de Renty
Wesley gostava da ideologia de de Renty em cuidar dos pobres e encorajar os compatriotas a uma
vida santa e devota. Mas o que realmente atraiu Wesley foi o seu método: Grupos pequenos,
intensamente pessoais e altamente eficazes.
b) Os morávios
Como vimos anteriormente, Wesley conheceu esse grupo no navio, na viagem para a Geórgia.
Depois da experiência na tempestade Wesley, embora professor em Oxford, se sente um aprendiz
diante dos cristãos morávios. O pastor dos morávios na Geórgia, Spangeburg, foi logo
perguntando a Wesley se ele tinha certeza da salvação. Wesley se atrapalhou tudo e não conseguiu
dar uma resposta adequada. Ele ficou desconcertado em ter que admitir que não tinha certeza de
sua própria salvação.
Depois de 39 meses, Wesley retorna a Inglaterra desconfortado com sua vida espiritual. Segundo,
Isaac Taylor, Wesley "tinha sido despido daquela religiosidade arrogante sobre a qual se havia
apoiado". Na Inglaterra ele procurou um pastor morávio chamado Peter Bohler que o acompanhou
e lhe orientou durante alguns meses antes da Experiência do Coração Aquecido.

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Depois de tanto procurar e ansiar por uma experiência renovadora, Wesley foi a uma reunião na
rua Aldersgate onde ele ouviu alguém ler o prefácio de Lutero à Epístola de Romanos.
Wesley descreve o que aconteceu:
"Aproximadamente às quinze para as nove, enquanto ele descrevia a mudança que
Deus opera no coração por meio da fé em Cristo, senti meu coração estranhamente
aquecido. Senti que eu de fato confiava em Cristo, para salvação, e recebi uma
certeza de que ele tinha tirado os meus pecados, meus próprios pecados, e tinha me
salvado da lei do pecado e da morte".
A partir de então, Wesley começou a pregar sobre a necessidade de conversão e arrependimento na
vida cristã. A conversão se tornou para o metodismo o dia do nascimento de um novo cristão, em
contraste com teologia Anglicana que colocava esse dia no batismo.
c) O modelo de Herrnhut (morávios da Saxônia):
O líder da colônia de Marienborn era o Conde Zinzendorf. Ele organizava a comunidade em
células compactas ou pequenas companhias para supervisão espiritual e administração
comunitária.
Dos morávios veio um dos marcos do metodismo: a separação entre ensino e edificação como duas
funções distintas. Em Herrnhut havia sessões de ensinos chamadas de "coros"; dedicava apenas ao
ensino. Também havia as companhias que visavam apenas o encorajamento pessoal, ao
compartilhamento íntimo, confissões e relatos pessoais de experiências espirituais.
d) A Sociedade de Fetter Lane
A sociedade de Fetter Lane foi um dos mais importantes experimentos de grupo que Wesley
realizou, e que resultou no sistema metodista em sua forma final. Podemos afirmar que a
Sociedade de Fetter Lane foi um estágio de Wesley na implantação do sistema de grupos.
Wesley dividia a liderança desse grupo com o pastor morário Peter Bohler. Esse grupo era
composto inicialmente por aproximadamente quarenta pessoas e se reunia nas quartas-feiras à
noite em Fetter Lane, uma rua em Londres.
Essa sociedade se diferenciava bastante dos modelos adotados por Wesley até aquele momento.
Uma das principais diferenças é que embora a sociedade estivesse ligada a Igreja da Inglaterra, não
tinha como pré-requisito para entrar no grupo, ser da Igreja. Ou seja, embora tinha regras, mas
qualquer um que quisesse, podia entrar no grupo; desde que estivesse disposto a seguir os 33
artigos que normatizava a admissão no grupo, funções, coesão, exclusão, entre outros.
Na Sociedade de Fetter Lane, Wesley combinou os pontos fortes das sociedades religiosas
anglicanas com os das companhias morávias. As reuniões eram para o ensino. Não havia
compartilhamento por parte dos participantes.
Para o compartilhamento e a "internalização", Wesley dividiu a Sociedade em Companhia de 5 a
10 pessoas do mesmo sexo, aos quais eram incumbida a missão de se encontrarem duas vezes por
semana, além das quartas-feiras, o dia do encontro da Sociedade.
Wesley colocou como líder de companhias homens e mulheres leigos e leigas, contrariando as
regras da Igreja da Inglaterra. Isso se deve diretamente a influência dos morávios.

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Vejamos o resumo dos elementos educacionais na Sociedade de Fetter Lane:

Companhia Sociedade

Propósito Mudança comportamental manifesta Aquisição cognitiva

Líderes Liderança leiga Liderança profissional

Funções de
Líder como capacitador Líder como instrutor
liderança

Interação pessoal; Palestra/sermão;


5 a 10 membros; 50 a 100 pessoas;
Todos do mesmo sexo; Ambos os sexos;
Métodos e Participação ativa; Reação passiva;
técnicas Compartilhar conflitos e aflições; Apresentação bíblica;
Cada pessoa falava; Somente o líder falava;
Ênfase subjetiva; Ênfase objetiva;
Membresia designada. Membresia por escolha.

Pressuposições Precedente morávio; Precedente anglicano;


filosóficas e Sacerdócio de todos; Sacerdócio da elite;
teológicas Deus como imanente; Deus como transcendente;
Fé como experiencial. Fé como inferencial.

e) A Sociedade da Fundição
Em 1739 Wesley foi convidado para pregar num lugar chamado Fundição, uma antiga fábrica de
armas. Pouco depois, Wesley conseguiu dinheiro emprestado e comprou o local, o qual reformou,
terminando nos anos de 1740.
Surgiu a Sociedade Unida. Uma Sociedade que não era nem morávia e nem anglicana. Wesley
criou as Sociedades para o ensino e as companhias para edificação. Ele fazia fichas para os
membros, as quais eram renovadas de três em três meses após entrevista pessoal.
Em junho de 1741, a Sociedade da Fundição já tinha alcançado 900 membros. As Companhias
não cresciam tão rápido quanto as Sociedades, e Wesley ficou preocupado com a necessidade de
uma supervisão mais eficaz.
O método que surgiu para suprir essa lacuna foi criado pelo capitão Foy, da Sociedade de Bristol
para uma campanha de arrecadação de fundos, no qual cada membro da sociedade teria que
entregar um centavo por semana até pagar a dívida. Mas muito deles eram pobres e não tinham
como doar esse valor. Então o capitão disse "deixe 11 pobres comigo. Se puderem dar alguma
coisa está bem. Vou visitá-los semanalmente, e se eles não puderem dar alguma coisa, eu vou dar

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por eles e por mim mesmo. E cada um de vocês visitam 11 dos seus vizinhos semanalmente e
façam o mesmo".
Wesley afirma que não demorou muito e alguns daqueles que visitavam traziam informação de ter
encontrado tal e tal pessoa que não estava vivendo como devia. Então veio o lampejo em Wesley:
“É exatamente isso que buscamos há tanto tempo”.
A partir de então, Wesley criou as classes, compostas pelos seus líderes e pediu que eles
visitassem semanalmente os integrantes das sociedades e checassem o comportamento de cada um
deles. A reunião de classe preencheu a lacuna crítica entre a sociedade e as companhias.
Nesse período Wesley ainda criou a sociedade seleta (santidade pessoal) e a companhia dos
penitentes (reabilitação).
O Sociedade da Fundição se tornou o modelo do método de Wesley e logo foi vista como a igreja-
mãe do metodismo. Wesley mudou pouca coisa a partir da Sociedade da Fundição.
3.3 – Concluindo...
Como vimos Wesley criou grupos diferentes: as Sociedades, as Companhias, as Classes, etc. A
grande questão foi que Wesley trabalhava com esses grupos de forma interligada. E grande parte
da eficiência dessa hierarquia de grupos educacionais se devia ao fato de que cada tipo de grupo
empregava métodos talhados para uma função específica.
Por exemplo, as reuniões de classe eram para mudança de comportamento, as sociedades para a
apresentação de informação, as companhias para o aperfeiçoamento das afeições, entre outros.

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Trãbãlho dã Disciplinã Discipulãdo

► Relatório de leitura do 4º capítulo do livro: Um modelo para fazer discípulos (autor: D. Michael
Henderson).
► Números de páginas: de 2 a 4 páginas.
► Lembrando que a aula do Discipulado apresentou, de certa forma, o resumo dos 3 primeiros
capítulos desse livro, que poderá ajudá-los na confecção do relatório do 4º capítulo.

Bom trabalho!

Pr. Adriel Valverde

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Referenciãs Bibliogrãficãs

1 – Bíblia Sagrada: João Ferreira de Almeida – Revista e atualizada – SBB;

2 – HENDERSON, D. Michael. Um modelo para fazer discípulos: a reunião de casses


de John Wesley. Editora MIC (Ministério Igreja em Célula), 192 páginas;

3 – Pastoral Metodista nº 4, 2008/2009: Testemunhar a Graça e fazer discípulos e


discípulas; Colégio Episcopal.

4 – LAZIER, Josué Adam, Revista Kairós – Missão, Vocação e Metodismo. Ano 2, nº


3, dezembro de 2000.

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