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FILOSOFIA

EXPERIÊNCIA AXIOLÓGI CA E NOÇÃO DE VALOR

 AXIOLOGIA - área da filosofia que reflete sobre a dimensão valorativa da ação humana

 VALORES - qualidades, noções gerais de bem que os indivíduos e as coletividades reconhecem


como propriedades ideais.
> Atribuem a ações ou objetos, tornando-os desejáveis de tal forma que são qualidades
que se aspiram ter, realizar ou ser.

JUÍZOS DE FACTO E JU ÍZOS DE VALOR

 Juízos são proposições nas quais se estabelecem relações entre conceitos.


Ex: “O céu é azul” / “A rosa é bela”

 Os JUÍZOS DE FACTO são juízos sobre o modo como as coisas são. Descrevem um estado de
coisas ou uma situação, podendo essa descrição corresponder ou não à realidade.
> São descritivos
> Têm valor de verdade (podem ser falsos ou verdadeiros)
> São objetivos, porque a sua verdade ou falsidade depende de como é a realidade e
não da opinião de cada pessoa.

Ex: Um gato é um mamífero que mia.

 Os JUÍZOS DE VALOR são juízos sobre que coisas são belas ou más, agradáveis ou
desagradáveis, belas ou feias, etc… Os juízos de valor atribuem um valor a um certo estado de
coisas – valor esse que pode ser positivo ou negativo.
> Juízos normativos

Ex: Este quadro é belo. – valor positivo


Este quadro é horrível. – valor negativo

JUÍZOS DE FACTO JUÍZOS DE VALOR

1. Visam descrever a realidade tal como é 1. Dizem-nos como a realidade deve ser, exprimem
apesar de poderem descrevê-la erradamente. o que julgamos que as coisas devem ser. Por isso,
São juízos descritivos. avaliam certas ações como certas ou erradas. São,
em geral, juízos normativos e prescritivos.
2. Têm valor de verdade, ou seja, podem ser
verdadeiros ou falsos. 2. Discute-se que tenham valor de verdade.

3. Pretendem que haja uma correspondência 3. Pretendem que haja uma correspondência entre
entre o que pensamos que as coisas são e o a realidade (o que as pessoas são e fazem) e o que
que as coisas realmente são. pensamos que a realidade deve ser (o que as
pessoas devem ser e fazer).
1. Durante a Segunda Guerra Mundial, os 1. O extermínio de milhões de pessoas pelos nazis
nazis exterminaram milhões de seres foi um ato criminoso e horrendo.
humanos nos campos de concentração.

2. Em vários países é legalmente permitido o


2. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é
casamento entre pessoas do mesmo sexo.
moralmente correto.
3. Eu considero a justiça o valor mais
3. A justiça é o valor mais importante.
importante.
4.Todas as guerras são injustas.
4. No século XX, houve duas guerras mundiais
que causaram mais de 50 milhões de mortos.

TEORIAS SOBRE A NATUREZA DOS JUÍZOS DE VALOR MORAL


SERÁ QUE HÁ VERDADES MORAIS OBJETIVAS?

SUBJETIVISMO MORAL

 Os juízos de valor têm valor de verdade (podem ser verdadeiros ou falsos), mas a sua verdade
não é universal, nem objetiva – varia de acordo com o ponto de vista.

 Todas as opiniões devem ser consideradas igualmente boas.

 A TOLERÂNCIA é o elemento central do subjetivismo moral.

 Ninguém tem o direito de julgar, no lugar dos outros, o que é certo e errado. Cada um de nós é
capaz de distinguir o certo do errado.

Ex: Dizer “roubar é errado” significa “eu desaprovo o roubo”. Se a pessoa que faz este juízo
realmente desaprova o roubo, então esse juízo é verdadeiro pelo menos para ela, ou seja, é
realmente verdade que essa pessoa acha que roubar é errado.

OBJETIVISMO MORAL

 Os juízos de valor têm valor de verdade e essa verdade/ falsidade não depende de pontos de
vista, sentimentos ou gostos de cada pessoa ou de cada cultura.

 Os juízos de valor são uma espécie de juízos de facto com a diferença de que, sobre o seu
conteúdo, ainda não obtivemos certezas.
 Existem verdades morais objetivas

Ex: Se considerarmos os juízos “A eutanásia é moralmente correta” e “ A eutanásia é moralmente


errada”, temos, segundo os objetivistas, de reconhecer que um deles é falso.

RELATIVISMO CULTURAL

 A verdade dos juízos morais depende do que cada sociedade acredita ser moralmente correto.

 Moralmente verdadeiro é igual a socialmente aprovado e moralmente errado é igual a


socialmente desaprovado.

 Os juízos morais são culturalmente relativos.

 As convicções da maioria dos membros de uma sociedade são a autoridade suprema em


questões morais

 Os juízos morais de cada indivíduo são verdadeiros se estiverem em conformidade com o que a
sociedade a que pertence considera verdadeiro.

Ex: Se um português defender o juízo moral «A mutilação genital feminina é inaceitável», outra
pessoa defensora do relativismo educada numa sociedade com padrões culturais diferentes e
favoráveis a essa prática argumentará: «Estás a querer dizer que esta prática é errada em si
mesma, objetivamente errada? Se é isso que estás a querer dizer, estás a transformar a
maneira de pensar e de sentir da maioria dos membros da sociedade a que pertences em
verdade objetiva e universal, que deve valer para toda a gente neste planeta. Mas isso não faz
sentido. O teu ponto de vista é o ponto de vista da cultura a que pertences. Nada mais. Não é a
verdade. Se a minha sociedade aprova a prática da mutilação genital feminina e eu estou de
acordo com isso então estou a agir bem e dispenso lições de moral».

ARGUMENTOS USADOS PELO SUBJETIVISMO E PE LO RELATIVISMO CULTU RAL


 ARGUMENTO DA DIVERSIDADE OU DO DESACORDO

> Os juízos de valor variam de indivíduo para indivíduo e de cultura para cultura
através do tempo e da geografia, variando ao longo da vida do próprio indivíduo.
 ARGUMENTO DA TOLERÂNCIA
> Como estamos em dúvida sobre se temos, ou não, razões sólidas para acreditar
numa das duas teorias em confronto, uma delas, o subjetivismo/relativismo, tem
uma vantagem objetiva que, na dúvida, nos deve levar a optar por ela: promover a
tolerância entre indivíduos e comunidades.
ARGUMENTOS A FAVOR DO OBJETIVISMO

NOTA : Os argumentos aqui


 ARGUMENTO DA COINCIDÊNCIA DE VALORES
apresentados a favor do objetivismo
são críticas ao
> Observação do desacordo entre pessoas e comunidades subjetivismo/relativismo. A única
quanto aos valores morais, estéticos e outros. exceção é o argumento do dissidente
que, por motivos que veremos, se
> Dada a dificuldade natural em descobrir os valores e a apresenta contra o relativismo, mas
enorme diversidade de pessoas, experiências, culturas e não contra o subjetivismo.
tempos, o que é de surpreender é que haja tão grande
coincidência em algumas crenças fundamentais acerca
de valores, mesmo que haja exceções – discordâncias – atribuíveis a erros ou a falta de
formação.

Ex: o homicídio e o incesto são considerados moralmente errados e obras de arte


como as de Homero, da Vinci ou Mozart são consideradas belas por praticamente
todas as pessoas e culturas. Uma maneira simples de explicar isso é defender que eles
são, respetivamente, maus e belos de facto.

 ARGUMENTO DAS CONSEQUÊNCIAS MORALMENTE INDESEJÁVEIS

> Nenhum juízo de valor pode ser rejeitado por não corresponder à verdade dos factos.

Ex: Isso implica aceitar que as perspetivas morais dos antigos acerca dos escravos e das
mulheres, ou as do racismo acerca de como tratar aquilo que consideram “raças
inferiores”, não estão nem mais nem menos corretas do ponto de vista moral do que as
perspetivas das modernas sociedades democráticas. Ora, isto é negar a ideia de progresso
moral.

 ARGUMENTO DA CAPACIDADE EXPLICATIVA

> Se adotarmos o subjetivismo ou o relativismo, um juízo de valor não será nem mais
nem menos objetivamente correto que qualquer outro. Isto vai contra ideias
profundamente enraizadas na maioria de nós. Por um lado, estamos convencidos de
que, quando duas pessoas divergem acerca do valor de um objeto ou ação há
maneiras melhores e piores de discutir. Por exemplo, se se discute o caráter moral de
uma ação, falar da intenção, dos fins ou do grau de consciência com que foi realizada é
importante, mais do que invocar, por exemplo, que uma pessoa célebre aprova essa
ação.
 Mas do ponto de vista subjetivista/relativista, todos estes esforços e razões
são inúteis, e todas as pessoas, incluindo especialistas, estão enganadas e
perdem o seu tempo sob a ilusão de estarem a educar ou a discutir.
> O objetivismo oferece uma solução mais simples: há razões e esforços mais e menos
importantes para a qualidade dos nossos juízos de valor, porque os valores fazem de
facto parte do mundo, ainda que seja especialmente difícil encontrar o acordo e a
verdade sobre eles.

 ARGUMENTO DO DISSIDENTE
> Este argumento contraria a posição do relativismo cultural.

> O facto de alguns juízos de valor serem considerados verdadeiros e outros falsos é
simplesmente o reflexo das crenças de cada cultura e comunidade.

Ex: Ações que o Egito antigo considerava corretas – escravatura, por exemplo – as
atuais sociedades consideram incorretas, facto que para o subjetivismo /relativismo é
suficiente para mostrar que a moralidade e os gostos variam de época para época e de
sociedade para sociedade, não havendo “verdade dos factos”.

Torna incompreensível o fenómeno da dissidência


Consiste em um membro de uma
cultura ou comunidade ir contra os
valores tradicionalmente aceites por
essa comunidade e nos quais foi
educado.

 Existe dissidência.
Ex: Se o Egito, ao longo dos tempos acabou por banir a escravatura, foi porque algumas
pessoas formadas nessa cultura originalmente esclavagista – que tomava o juízo “A
escravatura é moralmente aceitável” como verdadeiro -, chegaram à conclusão de
que esse juízo é afinal falso. Mas, como poderiam fazê-lo, se os juízos de valor,
como propõe o relativismo cultural, fossem sempre o espelho do que a cultura
aceita?
1. A moral não é uma questão de 1. Dado que há discórdia 1. O Subjetivismo Moral e o
gosto pessoal, mas de aprovação entre os seres humanos Relativismo Cultural
social. Só isto evita uma completa sobre o que é moralmente conduzem a consequências
anarquia moral. reprovável ou aceitável, não que são difíceis de aceitar.
há juízos morais cuja 1.1. Se é verdade que
2. Só condenamos um verdade seja indiscutível, ou nenhuma norma moral vale
comportamento por estarmos seja, objetivos e universais. para todas as pessoas em
habituados a viver numa sociedade todos os tempos e lugares,
que o reprova. Se vivêssemos numa 2. Assim sendo, não há razão então juízos de elementar
sociedade que o aprovasse, não o objetiva para me submeter bom senso como «Violar
condenaríamos. às opiniões dos outros ou da mulheres é errado» e «É
sociedade a que pertenço. inadmissível que se
3. Dado que há discórdia entre as Devo seguir os meus torturem pessoas só por
diversas sociedades sobre o que é sentimentos de aprovação divertimento» podem ser
moralmente reprovável ou aceitável, ou de reprovação no que negados.
não há juízos morais cuja verdade respeita a assuntos morais. 1.2. Dizer que nenhuma
seja indiscutível, ou seja, objetivos e sociedade ou nenhum
universais. Por si próprio, fora de um 3. O Subjetivismo Moral indivíduo estão errados no
dado contexto cultural, nenhuma promove a liberdade e a que respeita a questões
prática (hábito ou costume) é boa ou autonomia morais. morais levanta a questão de
má. Só somos livres quando saber com que direito
pensamos e agimos segundo julgámos os atos dos nazis
4. O Relativismo Cultural promove a as nossas convicções e como crimes contra a
coesão social, fundamental para que crenças. humanidade. Afinal, não
as sociedades sobrevivam e evitem a estavam a seguir as
confusão quanto ao certo e ao 4. O Subjetivismo Moral convenções morais da
errado. Essa coesão implica que promove a tolerância entre sociedade em que viviam?
consideremos correto o que a indivíduos com convicções Se o assassínio não for
maioria aprova. morais divergentes. objetiva e universalmente
Os meus sentimentos morais errado, não podemos dizer
5. O Relativismo Cultural afirma que não são melhores nem que os nazis agiram
os costumes e hábitos de uma dada piores do que os dos outros. erradamente.
sociedade só podem ser avaliados
pelos critérios dessa própria 2. Diferentes práticas
sociedade. Não há critérios morais morais e diversas
transculturais. Assim, nenhuma convicções morais não
sociedade pode julgar-se superior a implicam que não haja
outra ou tem o direito de impor os juízos morais objetivos. Os
seus padrões morais a outra. partidários do aborto e os
Devemos aceitar mesmo as práticas seus adversários discordam
de que discordamos quanto ao facto de o aborto
profundamente. ser uma forma de
Assim, o relativismo promove a assassínio. Mas concordam
tolerância e previne os malefícios do que o assassínio é
etnocentrismo. moralmente errado.
Argumentos
1. Do desacordo cultural sobre 1. O Subjetivismo Moral 1. Sobre questões morais,
questões morais não deriva permite que qualquer só há opiniões e pontos de
necessariamente que não haja juízo moral seja vista. Os juízos de valor
verdades morais objetivas. verdadeiro. morais variam de indivíduo
para indivíduo e de
2. Há algumas regras morais que todas 2. Se aceitarmos o sociedade para sociedade.
as sociedades têm em comum, pois Subjetivismo Moral, a
essas regras são necessárias para a educação moral 2. Ignora o contexto no qual
sociedade poder existir. consistirá em ensinar ocorre a valoração, esquece
cada um a seguir os seus que o mundo muda e que o
sentimentos. Ora, será sujeito muda com ele.
3. O Relativismo Cultural pode conduzir correto seguir
à aprovação da intolerância. sentimentos malignos e 3. Os que falam da
perversos? necessidade de existirem
4. Moralmente correto não pode ser juízos morais objetivos e
sinónimo de aprovado pela maioria universais estão, de uma
dos membros de uma sociedade 3. O subjetivismo moral forma mal disfarçada, a
porque muitas vezes a maioria não torna impossível uma querer impor os seus
tem razão. genuína discussão sobre pontos de vista aos outros.
questões morais. Se cada
pessoa tem a sua verdade,
5. O relativismo moral torna não há dicussão possível
incompreensível o progresso moral- sobre quem pode estar certo
Se aceitarmos o RC, podemos falar ou quem pode estar errado.
de melhoria ou de progresso moral
das sociedades humanas? Parece
que não. O RC não admite que acima
de toda e qualquer sociedade haja
padrões morais objetivos que
permitam julgá-las. As sociedades
que aboliram a escravatura,
condenaram a discriminação racial,
etc., são vistas como tendo
melhorado e progredido no plano
moral. Isso implica reconhecer que
as sociedades que aprovavam
aquelas práticas estavam erradas.
Mas para o RC nenhuma sociedade
esteve ou está errada nas suas
crenças e práticas morais. Por isso,
em vez de melhoria ou de progresso,
o RC defenderia que as sociedades
simplesmente mudaram. Tudo o que
podemos dizer é que houve tempos
em que a escravatura era
moralmente aceitável e que agora já
Objeções

não é aceite.
VALORES E CULTURA – A DIVERSIDADE E O DIÁLOGO DE CULTURAS

 CULTURA - totalidade complexa que inclui conhecimentos, crenças, artes, princípios morais, leis,
costumes e quaisquer outras capacidades adquiridas pelos membros da sociedade
> Algo que nos une e cimenta a nossa identidade enquanto membros de um mesmo
grupo
> Realidade que nos separa daqueles que não partilham as nossas expetativas culturais,
visto por nós, muitas vezes, como elementos ameaçadores.

DIVERSIDADE CULTURAL - pode ser fonte de conflitos

 ETNOCENTRISMO E “SUPERIORIDADE CULTURAL”

> séc. XIX e XX – Colonização de alguns países na África e na Ásia


> Dominação dos povos colonizados – Culturas consideradas “inferiores” pelos colonos
desrespeitadas, porque não se ajustavam à norma estabelecida na cultura “dominante”.
> O etnocentrismo, apesar de implicar eventual desrespeito em relação a outras culturas e
dificuldade ou incapacidade para as compreender, é difícil de ultrapassar porque, natural-
mente, cada pessoa e cada grupo cultural tende a considerar a sua cultura superior às
outras.
> meados do séc. XX – descolonização – etnocentrismo politicamente incorreto

 MULTICULTURALISMO E DIREITOS DE GRUPO

> O suporte teórico do multiculturalismo foi o relativismo cultural que reconhece a


diversidade das culturas e manifesta a preocupação de compreender as práticas culturais
no contexto em que ocorrem.
> Segundo o relativismo cultural:
 Todas as culturas têm igual valor; não há culturas superiores e culturas inferiores;
 Todas as culturas têm o direito de preservar a sua identidade.
> O relativismo cultural e o multiculturalismo não podem ser aceites de modo acrítico
 Dizer que todas as culturas merecem respeito e que devemos compreendê-las
não significa que nessas culturas não haja valores e práticas, aceites pelo
respetivo grupo social, que não tenham que ser postas em causa; muito
especificamente, devemos pensar em práticas valorizadas por determinados
grupos sociais que contrariam princípios éticos básicos de respeito pela pessoa
humana.
Ex: mutilação genital feminina, proibição de as mulheres conduzirem automóveis,
condenação à morte da mulher adúltera.

 Com o reconhecimento desses direitos a grupos culturais minoritários, correu-se o


risco de criar guetos culturais ao invés de favorecer a integração equilibrada
dessas comunidades, negligenciando-se a possibilidade de encontrar pontes entre
as diferentes culturas – segregação e exclusão.
 O multiculturalismo não deu oportunidades aos emigrantes de se integrarem na
cultura de acolhimento, pois levou-os a encerrarem-se “compulsivamente” na sua
cultura de origem, o que significou restrição à sua liberdade individual.

 • As políticas do multiculturalismo, geralmente, favorecem as fações mais


tradicionalistas e conservadoras desses grupos sociais, que passam a encarnar o
papel de representantes e de reivindicadores dos “verdadeiros e mais puros
valores” da comunidade.

Ex: Os líderes religiosos passaram a representar as comunidades, o que significou


um retrocesso relativamente a uma aquisição cultural e política muito cara ao
Ocidente: a da separação entre a esfera política e a religiosa.

 INTERCULTURALISMO E INTEGRAÇÃO

> Novo modelo de organização social que pretende fomentar o diálogo entre as diferentes
culturas (e não a mera justaposição assente numa tolerância passiva).

> Visa a procura de valores comuns e universalizáveis.

> É possível encontrar pontos comuns de encontro entre todas as culturas, ou seja, critérios
transsubjetivos ou transculturais, porque todas as culturas são humanas.

> As identidades culturais estão em permanente transformação, resultante da


interpenetração e interação entre povos e culturas através da partilha, do diálogo e do
respeito por valores comuns.

> O interculturalismo defende:

 O reconhecimento da natureza plural e diversificada da cultura humana;

 A promoção do contacto entre as diferentes culturas, partindo-se do pressuposto


de que é possível a compreensão entre si;

 A crença na existência de vínculos que unem as diferentes comunidades;

 A defesa da possibilidade de se compartilharem valores e estabelecerem normas


de convivência assentes em critérios axiológicos universais.

> As dificuldades do interculturalismo

Os partidários do interculturalismo defendem que o diálogo intercultural é alcançável,


nomeadamente através de uma educação assente nos princípios da tolerância e do respeito pela
diferença, sem que se coloque em causa o critério antropológico básico do respeito pela dignidade
humana. No entanto, estas afirmações não são descritivas, são normativas, ou seja, definem uma
realidade desejável que se aspira realizar e que é a da comunhão, da partilha entre povos e culturas,
para lá da identidade específica de cada cultura.
Assim, enquanto que o monoculturalismo (etnocentrismo) assenta na ideia de que a sociedade
deve ser marcada por uma única cultura homogeneizadora e o multiculturalismo aposta numa
simples coexistência, no mesmo espaço político, de várias culturas fechadas sobre si mesmas, que
não interagem umas com as outras, o interculturalismo remete para uma dimensão eminentemente
prática, na medida em que, implicando a interação entre visões do mundo diferentes, requer uma
capacidade de pensar criticamente sobre o modo como nós e os outros vivemos.
Quando uma dada cultura desenvolve uma atitude reflexiva cria o distanciamento necessário para
se descobrir como uma entre outras e percebe que há elementos comuns a todas as culturas, que
constituem instrumentos fundamentais para que elas se transcendam, se abram e comuniquem.
O interculturalismo parece ser, assim, um caminho correto no sentido de se alcançar uma
perspetiva transcultural e transvalorativa que o filósofo espanhol Fernando Savater designa por
perspetiva civilizada.
«A esse transcender a sua própria clausura autossuficiente, que em menor ou menor grau se
encontra em todas as culturas, podemos chamar a perspetiva civilizada. E é indubitável que a tradição
ocidental (amalgama que, como já disse, incorpora muitos elementos orientais) a apresenta desde
as suas origens de maneira especialmente manifesta.»