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RETROTOPIA- Logicamente, isso é um mecanismo de

exercício de poder e controle sob uma


ZYGMUNT BAUMAN maioria, uma vez que, receosos de tudo
e de todos, submetemo-nos a aceitar
TEMA: A SEGURANÇA qualquer migalha de “respaldo” e
PÚBLICA É UM DOS “assistência” do legislador.
GRANDES DESAFIOS DO É evidente, assim, que a crise na
BRASIL DE HOJE segurança pública brasileira não é uma
falha, mas sim um projeto. E que nós,
POR: MARIA EDUARDA cidadãos imbuídos de pragmatismo,
ANDRADE contribuímos para a consolidação dessa
maquinaria controladora.

RETROTOPIA- “Utopia do
EXCLUSÃO SOCIAL COMO
passado”. Retorno ao passado, de um
FATOR PROMOTOR DE
modo cego, para encontrar indícios de
VIOLÊNCIA:
um futuro melhor. Porque “Vivemos
catástrofe após catástrofe: terrorismo, Além da coercitiva atuação do Estado
crise financeira, estagnação da no que diz respeito à produção de um
economia, desemprego, precariedade..., clima de insegurança, esse mesmo
desconfiança, cada um é para o outro Estado omite seu dever e
um potencial opositor e concorrente, os responsabilidade de fornecer meios para
perigos são omnipresentes.”. combater a exclusão social e,
“A estrada para a guinada do consequentemente, a violência.
futuro parece sinistramente Ou seja, é perceptível a não
uma trilha de corrupção e concretização de direitos
queda.”- Zygmunt Bauman constitucionais: direito à segurança e à
assistência aos desamparados.
A ineficiência do Estado em cumprir
suas promessas promove um desencanto “A combinação de cortes de
generalizado em relação ao futuro. Esse benefícios sociais com
medo do progresso prende os indivíduos qualidades ilusórias
ao passado, e a nostalgia, então, torna- atribuídas à “comunidade”
se um mecanismo de defesa. tem signifcado que o doente,
“Vivemos em um mundo em o inadequado e o imperfeito
que o pragmatismo é a mais recebem pouco a título de
elevada das racionalidades.” – intervenção social
Zygmunt Bauman construtiva. Negligenciados
entre assistência pública e
O Estado atual líquido deixou de ser o setor privado, eles se
defensor guardião da segurança para ser encontram em comunidades
um dentre os diversos agentes que incapazes de tolerá-los ou de
cooperam para elevar a apreensão, a cuidar deles.”. – Stanley
incerteza e a insegurança até o nível de Cohen.
condição humana permanente.
A visão de Cohen coaduna com a ideia (propositalmente impostas) influenciam
de que o legislador é um dos principais bastante nas decisões dos indivíduos
responsáveis pela promoção de pertencentes as classes mais esquecidas.
violência. Pois, ao deixar uma parcela E eles, então, veem na “morte
da sociedade sem subsídios, ela torna-se significativa” uma opção melhor do que
marginalizada e, na ausência de uma vida sem esperança e sem sentido.
oportunidades para um progresso na
E essas “mortes significativas” quase
qualidade de vida, buscam formas
sempre envolvem casos de
simples (e quase sempre ilegais) de
espetacularização da própria morte, isto
ascender socialmente.
é, uma espetacularização da violência –
Contudo, para ele, é nesse “caminho em uma civilização que já é altamente
ilegal para a ascensão social” que o violenta.
Estado – ausente até então – resolve
intervir: “para criminosos e
delinquentes sempre há uma Nota-se, portanto, que a
intervenção, uma pena, que geralmente segurança pública brasileira
conta com a repressão e a violência”. não falha somente em sua
Em suma, há uma forte inoperância execução, mas também nos
estatal até o ponto que para ele é viável embriões de um país que vê
e confortável. Quando essa barreira é no alastramento de ameaça e
ultrapassada, este usa todas as medo uma forma de controle
ferramentas que tem a seu favor. social. Além disso, há também
o planejamento de
marginalização social, que
Essa marginalização intencional, acaba acaba por gerar mais
instigando o surgimento o fenômeno insegurança e violência. Por
conhecido por: fm, tem-se uma massa
abandonada que prefere um
“TERRORISMO SUICIDA”
único e minúsculo momento
Esse fenômeno nada mais é do que um de “glória” em detrimento da
mecanismo de eliminação dos pobres. própria vida.
As forças governamentais contribuem
para propagar uma ideia de que uma
vida estável economicamente, com bom
poder de compra, inserção aos círculos
sociais elevados é uma vida digna de ser
vivida, uma vida esperançosa, com
sentido em si mesma. Em contrapartida,
disseminam a concepção de uma que
uma vida oposta à essa é uma vida
totalmente sem sentido e, por isso,
inútil.
Essas duras condições de sobrevivência
e perspectivas minguantes