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COnSELHO EDITORIAL

Otávio Velho - PPGAS-Mn/UFRJ, Brasil


Dina Picotti - Universidad nacional de General Sarmiento, Argentina
Henri Acselrad - IPPUR-UFRJ, Brasil
Charles Hale - University of Texas at Austin, Estados Unidos
João Pacheco de Oliveira - PPGAS-Mn/UFRJ, Brasil
Rosa Elizabeth Acevedo Marin - nAEA/UFPA, Brasil
José Sérgio Leite Lopes - PPGAS-Mn/UFRJ, Brasil
Aurélio Viana - Fundação Ford, Brasil
Sérgio Costa - LAI FU - Berlim, Alemanha
Alfredo Wagner Berno de Almeida - CESTU/UEA, Brasil
RESISTÊNCIA DAS
COMUNIDADES ATRAVÉS
DA TRADIÇÃO
Daniel Pinheiro Viegas
Fabiano Buriol

UEA edições
Manaus-2014

Coleção DOCUMEnTOS DE BOLSO no8


PNCSA | PPGSCA-PPGAS/UFAM
Copyright © Daniel Pinheiro Viegas, Fabiano Buriol

Direção da coleção
Alfredo Wagner Berno de Almeida
Capa e projeto gráfico
Grace Stefany Coelho
Foto Capa
Fabiano Buriol
Fotos
Felipe Peres Calheiros
Roberta Amaral
Ficha Catalográfica
.................................................................
V656r Resistência das comunidades através da tradição/ Daniel Pinheiro Viegas,.
Fabiano Buriol. – Manaus, AM: UEA Edições; PnCSA, 2014.
140 p. ; 16 cm. – (Coleção Documentos de Bolso ; 8)

ISBn 978-85-7883-293-3

1. Direito – Povos e comunidades tradicionais. 2. Identidade - Tradição.


3. Resistência. I. Viegas, Daniel Pinheiro. II. Buriol, Fabiano. III. Título

CDU 342.726
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Projeto nova Cartografia Social da Amazônia (PnCSA)


UEA - Edifício Professor Samuel Benchimol. Rua Leonardo Malcher,
1728 - Centro. Cep.: 69.010-170 - Manaus, AM

Fone: (92) 3232-8423 | www.novacartografiasocial.com


E-mails: pncaa.uea@gmail.com pncsa.ufam@yahoo.com.br
SUMÁRIO
11 Apresentação
Alfredo Wagner Berno de Almeida

17 A importância das sementes tradicionais na segurança alimentar e


nutricional
Fabiano Buriol
47 A regularização fundiária como política de redistribuição e
reconhecimento das comunidades tradicionais
Daniel Pinheiro Viegas

87 Utilização de área verde urbana por Povos e Comunidades


Tradicionais em Manaus: Pluriculturalismo e ética ambiental
Fabiano Buriol

119 O Poder Judiciário ante o direito ao reconhecimento territorial


indígena
Daniel Pinheiro Viegas
143 Documentos jurídicos

Lei Federal n.º 10.711, de 05 de agosto de 2003.


Dispõe sobre o Sistema Nacional de Sementes e Mudas e dá outras
providências.

163 Lei Federal n.º 11.346, de 15 de setembro de 2006.


Cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional –
SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação
adequada e dá outras providências.

171 Decreto Presidencial n.º 6.040, de 07 de fevereiro de 2007.


Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos
Povos e Comunidades Tradicionais.

173 Decreto Estadual n.º 23.271, de 05 de setembro de 2003.


Cria o Parque Estadual Sumaúma (PAREST Sumaúma), no
Município de Manaus, e dá outras providências.

179 Lei Federal n.º 9.985, de 18 de julho de 2000.


Regulamenta o art. 225, § 1º, incisos I, II, III e VII da Constituição
Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da
Natureza e dá outras providências
lista de siglas e abreviaturas
AAPA - Associação Agroextrativista de Auti-Paraná
ADCT – Ato das Disposições Constitucionais Transitórias
AMORU - Associação de Moradores do Rio
ASPPROC – Associação dos Produtores Rurais de Carauari
cnpq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
ASTRUJ – Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Juruá
ASPROJU – Associação dos Produtores de Jutaí
ATAMP – Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas do Médio
Purus
CDB – Convenção Sobre Diversidade Biológica
CF/88 – Constituição Federal de 1988
CNS – Conselho Nacional de Populações Extrativistas
CPT – Comissão Pastoral da Terra
CEUC – Centro Estadual de Unidades de Conservação do Amazonas /
ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
IEB – Instituto de Educação do Brasil
INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
ITEAM – Instituto de Terras do Amazonas
MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário
MP – Medida Provisória

7
MPF – Ministério Público Federal
OIT – Organização Internacional do Trabalho
PGE/AM – Procuradoria Geral do Estado do Amazonas
PROnAF – Programa nacional de Desenvolvimento da Agricultura
Familiar
SISAn – Sistema nacional de Segurança Alimentar e nutricional
SPU – Secretaria de Patrimônio da União
STF – Supremo Tribunal Federal

8
coleção
DOCUMENTOS DE BOLSO
Uma das atividades que tem exigido considerável esforço intelectu-
al nos trabalhos de pesquisa concernentes ao Projeto nova Cartografia
Social da Amazônia e aos outros projetos1 que lhe são coextensivos,
diz respeito às iniciativas pedagógicas que visam discutir dispositivos
jurídicos relativos aos direitos de povos e comunidades tradicionais.
Elas abrangem diferentes cursos, ministrados em até doze horas-aula,
para integrantes de associações, movimentos, sindicatos e demais en-
tidades de representação referidas a uma ação coletiva, mais ou menos
formalizada e institucionalizada, empreendida por agentes sociais que
visam alcançar um objetivo compartilhado em torno do uso comum
de recursos naturais imprescindíveis à sua reprodução física e social e
em torno de uma identidade coletiva construída consoante uma pauta

1 Projeto nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais


do Brasil (UFAM/F. FORD/MMA) e Projeto Processos de Territorialização, Con-
flitos e Movimentos Sociais na Amazônia (FAPEAM-CnPQ).

9
de reivindicações face ao Estado. Destaca-se nesta pauta o reconheci-
mento de seus direitos territoriais.
O PnCSA, a partir da discussão destas práticas de pretensão di-
dática, mantem a coleção denominada Documentos de Bolso, que con-
siste numa atividade auxiliar aos mencionados cursos de formação,
visando suprir lacunas bibliográficas e propiciar a um público amplo
e difuso um acesso mais direto a documentos jurídicos que reforçam
os direitos de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, quebradeiras
de coco babaçu, seringueiros, faxinalenses, comunidades de fundos
de pasto, pomeranos, ciganos, geraizeiros, vazanteiros, piaçabeiros,
pescadores artesanais, pantaneiros, afro-religiosos e demais sujeitos
sociais emergentes, cujas identidades coletivas se fundamentam em
direitos territoriais e numa auto-consciência cultural.
O trabalho de direção da coleção ficou a cargo do Coordenador
do PnCSA, Alfredo Wagner Berno de Almeida. Em discussão com
advogados e advogadas, procuradora do MPF e antropólogos e an-
tropólogas, organizadores de cada volume, foram fixados os critérios
de seleção e agrupamento dos documentos. A responsabilidade prin-
cipal da seleção, entrementes, ficou sob a responsabilidade daqueles
especialistas mencionados diretamente referidos aos temas em ques-
tão, concernentes respectivamente a direitos étnicos, culturais e ter-
ritoriais. Os gêneros dos documentos em jogo foram criteriosamente
considerados. nesta coleção foram classificadas: convenções interna-
cionais (OIT, UnESCO, OnU) e protocolos adicionais, declarações
aprovadas em assembléia geral (OnU, UnESCO) e respectivas por-
tarias e decretos ratificadores ou que orientam a sua implementação.
neste oitavo volume foram agrupados trabalho de pesquisas de dois
integrantes da Procuradoria Geral do Estado do Amazonas que cur-
saram o Mestrado em Direito Ambiental da UEA e tiveram excelente
desempenho acadêmico.

10
preFÁCio
Alfredo Wagner Berno de Almeida

Os trabalhos de pesquisa apresentados neste livro refletem uma


relação entre a ciência do direito e a antropologia, tal como focalizada
no curso sobre antropologia jurídica que ministrei junto ao Mestra-
do em Direito Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas
(UEA) no decorrer do segundo semestre de 2013. Os autores, que
tiveram um excelente desempenho no referido curso, se valeram de
tal relação como instrumento analítico para eleger diferentes objetos
de reflexão e interpretar realidades empiricamente observáveis. Assim
é que produziram, de modo criativo e original, artigos referentes tan-
to ao uso das denominadas “sementes tradicionais” em unidades de
trabalho familiar, quanto aos problemas das unidades de conservação
em regiões metropolitanas e às questões concernentes à regularização
fundiária, à emergência étnica e aos direitos territoriais de povos indí-
genas. As interpretações, contidas nos artigos ora apresentados, trans-
cendem aos limites de um exercício de curso e, em certa medida, ao
próprio curso ao privilegiarem a ciência do direito do ponto de vista
da antropologia, sem perder de vista o discernimento de uma aborda-
gem jurídica, consoante a trajetória profissional dos próprios autores.
Um enfoque desta ordem complementa, em certa medida, o esforço
teórico de antropólogos, como Shelton Davis, que se preocuparam
em dar conta da relação aludida e, para tanto, partiram de alguns
pressupostos para constituir interseções entre o campo do direito e a
antropologia, assim sintetizando a questão:

11
“i) em toda a sociedade existe um corpo de categorias culturais,
de regras ou códigos que definem os direitos e deveres legais entre os
homens;
ii) em toda a sociedade disputas e conflitos surgem quando essas
regras são rompidas;
iii) em toda a sociedade existem meios institucionalizados através
dos quais esses conflitos são resolvidos e através dos quais as regras
jurídicas são reafirmadas e/ou redefinidas.
Estas proposições, tão gerais a ponto de serem consideradas uni-
versais, podem ser tomadas como uma definição mínima do campo
coberto pela Antropologia do Direito. Em outras palavras, a Antro-
pologia do Direito é a investigação comparada da definição das regras
jurídicas, da expressão dos conflitos sociais e dos modos através dos
quais tais conflitos são institucionalmente resolvidos. Como tal a An-
tropologia do Direito tem como ponto de partida que os procedimen-
tos jurídicos e as leis não são coincidentes com códigos legais escritos,
tribunais de justiça formais, uma profissão especializada de advogados
e legisladores, polícia e autoridade militar etc.” (Davis, 1973:10).
Esta não coincidência consiste numa modalidade de reflexão que
marca o esforço teórico dos autores ao se debruçarem sobre os saberes
tradicionais em relação às sementes, tal como praticados por unidades
de trabalho familiar do Sul do Brasil, ou sobre o conceito de terras
tradicionalmente ocupadas tal como representadas pelos próprios
indígenas e os movimentos sociais em contraposição à interpretação
de juristas notáveis e ministros de instancias superiores do judiciário.
Para além da teoria a delimitação destes temas e problemas, que con-
vergem para objetos de reflexão, diz respeito também a fatos alusivos
à própria experiência de vida dos autores, seja no âmbito familiar,
como no caso do estudo de Fabiano Buriol acerca das sementes tra-
dicionais, seja no âmbito profissional como soa ocorrer com Daniel
Viegas, quando focaliza os direitos territoriais dos povos indígenas.

12
No caso de Buriol a grandeza dos saberes acerca das sementes é verbal
e não redutível a uma norma escrita ou a um “manual de seleção de
sementes e de orientações para semeadura”. Em tudo um testemunho
tocante, mediante depoimentos vívidos e repletos de êxito, e um pro-
cedimento reflexivo do autor, detidamente elaborado e observando
um rigor científico. Os autores praticam, neste sentido, uma ciên-
cia rigorosa do direito elegendo problemas aparentemente simples,
mas imersos em polêmicas acirradas, enunciando conflitos sociais e
tensões. Não há consenso quando se fala em conhecimentos tradi-
cionais ou quando se fala em direitos territoriais de povos indígenas
ou mesmo quando se analisa as mobilizações políticas em defesa dos
territórios. Assiste-se a uma luta de competências técnicas, de inter-
pretações científicas e em torno da definição dos dispositivos jurídi-
cos. Um dos mais densos e controversos debates concerne ao concei-
to de “tradição”, que é destituído de sua oposição à “modernidade”,
descortinando novas possibilidades analíticas. Pode-se compreender o
alcance desta abordagem examinando-se a gênese social do conceito
de “tradicional”. Embora a noção de tradição apareça em textos clás-
sicos associada ao postulado de “continuidade”, conforme sublinha
Foucault in “Resposta ao Círculo Espistemológico” (1968), importa
sublinhar que o termo “tradicional” da expressão “povos tradicionais”,
não pode mais ser lido segundo uma linearidade histórica ou sob a
ótica do passado ou ainda como uma “remanescência” das chamadas
“comunidades primitivas” e “comunidades domésticas” como diriam
M.Sahlins(1972) e C. Meillassoux (1976) ou como “resíduo” de um
suposto estágio de “evolução da sociedade”. O chamado “tradicional”
antes de aparecer como referencia histórica remota, aparece como rei-
vindicação contemporânea e como expectativa de direito envolucrada
em formas de autodefinição coletiva. Nesta ordem, antes mesmo de
serem interpretadas como “comunidades naturais” e “espontâneas” as
chamadas “comunidades tradicionais” aparecem hoje envolvidas num

13
processo de construção do próprio “tradicional”, a partir de mobili-
zações e conflitos, que tem transformado de maneira aprofunda as
formas de solidariedade apoiadas em relações primárias. Deste pris-
ma, além de ser do tempo presente, o “tradicional” é, portanto, so-
cial e politicamente construído. Há autores como Hobsbawm, que
interpretam tal processo de construção como uma “invenção”. Pode-
-se deduzir, em decorrência, que os chamados “povos tradicionais”
não são necessariamente definidos pela “origem”, como advogam as
análises formalistas. A interpretação de que o “tradicional” encontra-
-se vinculado a reivindicações atuais de diferentes movimentos sociais
afasta a preocupação com a “origem” e com o “isolamento cultural”,
que se insinua de maneira recorrente por detrás de certas formulações
oficiosas e dos discursos jurídicos de inspiração positivista. Evita tam-
bém uma confusão usual entre “tradição” e “costume” que, atrelando
o sentido de “tradicional” ao direito consuetudinário, pensa-o como
“repetição” e “regularidade” ou de acordo com uma fixidez, congelan-
do a dinâmica práticas jurídicas que lhe seriam correspondentes. Ora,
estas práticas só são frigorificadas na cabeça de pensadores eruditos e
dos “manuais de direito”, que concebem tudo na linguagem rígida e
constante da regra e praticam o jurisdismo, como sugere Bourdieu,
ao contrário dos próprios agentes sociais de que falam, que vivem
dinamicamente suas práticas jurídicas. “Tradição, neste sentido, nada
tem a ver com permanência e mais se atém a processos reais e sujeitos
sociais, que transformam dialeticamente suas práticas, mesmo quando
as convertem em normas para fins de interlocução, redefinindo suas
relações sociais com a natureza. Tais processos reais nos levam a pensar
em comunidades dinâmicas, cujos princípios se encontram em trans-
formação, e a rever os componentes do conceito de reprodução social.
Para Hobsbawm: “0 termo “tradição inventada” é utilizado num
sentido amplo, mas nunca indefinido. Inclui tanto as “tradições” re-
almente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas,

14
quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num pe-
ríodo limitado e determinado de tempo - às vezes coisas de poucos
anos apenas - e se estabeleceram com enorme rapidez.” (Hobsbawm,
2002:9)
Daniel Viegas e Fernando Buriol incorporam de maneira implí-
cita estas polemicas acadêmicas a partir do trabalho de pesquisa das
próprias situações sociais que elegeram para examinar, evitando a ên-
fase nas oposições simétricas, como “tradicional” versus “moderno”.
Realizam, de maneira acurada, uma análise concreta de uma situação
concreta chamando a atenção para múltiplas possibilidades analíticas.
Aqui se encontra a relevância maior dos esforços intelectuais realiza-
dos e aqui apresentados, e o motivo pelo qual estamos incitando-os a
lê-los. Bosquejar os meandros do processo de elaboração destes artigos
tornados livro consiste, portanto, na finalidade precípua deste resumi-
do prefácio em que entusiasticamente os convido à leitura.

Referencias bibliográficas

Bourdieu, Pierre – “A força do direito. Elementos para uma so-


ciologia do campo jurídico.” In : O Poder Simbólico. Rio de Janeiro.
Editora Bertrand Brasil Ltda. 2006 pp.209-254.
Castro Faria. L. - Antropologia: duas ciências. Notas para uma
história da antropologia no Brasil. Alfredo Wagner e Heloísa Bertol
Domingues (orgs). Rio de Janeiro. CNPq/Mast. 2006
Hobsbawm, E. e Ranger, T. (orgs) – A invenção das tradições.
Rio de Janeiro. Paz e Terra. 1997
Shelton Davis (org.) - Antropologia do Direito. Estudo Com-
parativo de categorias de dívida e contrato. Rio de Janeiro. Zahar
Editores.1973

15
16
a iMportÂNCia das seMeNtes
tradiCioNais Na seguraNÇa aliMeNtar e
NutriCioNal
Fabiano Buriol

Veremos neste capítulo alguns sistemas de produção de alimen-


tos e suas consequências sociais, alimentares/nutricionais e culturais.
Analisaremos a progressiva substituição de formas de produção e, con-
sequente, de sementes2 e alimentos, acarretando a redução da utiliza-
ção, e até mesmo a extinção, de sementes tradicionais.
Os espaços territoriais de cultivo dessas sementes vêm sendo pro-
gressivamente ocupados por novas formas de produção, acarretando
a sua parcial substituição por sementes específicas, que dão origem a
plantas mais produtivas e mais resistentes aos agrotóxicos. Mas pode-
ria o sistema produtivo e a ciência substituírem sementes tradicionais

2 O termo “sementes” é utilizado neste livro em sentido amplo, abran-


gendo também as mudas, as árvores, os frutos.

17
por sementes padronizadas, uniformizadas, restritas, e inseridas num
sistema nocivo de cultivo, sem prejuízos para a sociedade?
Para encontrar essa resposta serão consideradas circunstâncias
como a marginalização de agricultores, a perda de sementes e das ati-
vidades humanas que dependem dessas sementes para serem man-
tidas. Essa análise nos leva a acreditar que o sistema de cultivo de-
corrente da revolução verde não está de acordo com os fundamentos
da segurança alimentar e nutricional, estabelecidos na Lei Federal n.º
11.346/2006, que cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar
e Nutricional – SISAN com vistas em assegurar o direito humano à
alimentação adequada.
Constataremos então a importância das sementes tradicionais e
de sistemas agrícolas que preservam essas sementes como elementos
necessários à não exclusão ou marginalização de agricultores, à pre-
servação da biodiversidade e à segurança alimentar e nutricional da
sociedade, tanto do meio rural quanto do meio urbano, pois este sofre
os reflexos daquele.

1. A parcial e progressiva migração da poliprodução de sementes e


alimentos na agricultura tradicional e familiar para a monocultura em
grandes propriedades
Analisaremos a evolução (histórica, no tempo) dos sistemas agríco-
las e os seus reflexos na sociedade em geral, incluindo o meio urbano.
A agricultura surgiu de forma independente em várias regiões do
mundo e representou uma grande revolução para a humanidade, pois
o homem deixou a cultura da caça e coleta de alimentos e passou a
cultivar a terra e criar animais, processo esse conhecido como revolu-
ção agrícola neolítica (SANTILLI, 2009). Porém, os seres humanos
não abandonaram completamente a cultura da caça e da pesca, tendo
ocorrido uma relativa substituição ou acréscimo, pois muitos povos

18
permaneceram exercendo essa forma de subsistência, que foi mantida
e complementada pela agricultura.
Após, na revolução agrícola da Antiguidade surgiram sistemas ba-
seados na cultura de cereais e criação de gado, caracterizando-se pelo
uso de ferramentas manuais, sistemas esses que apresentavam baixa
produtividade, o que seria resultado da precariedade dos instrumen-
tos de trabalho e de transporte, acarretando períodos prolongados de
escassez de alimentos (SANTILLI, 2009).
Na revolução agrícola da Idade Média (séculos XI a XIII) os sis-
temas de cereais e criação de gado foram combinados com meios de
transporte e de trabalho do solo mais eficientes, aumentando a produ-
ção e a produtividade agrícolas. Com alimentação de melhor qualida-
de a população tornou-se mais resistente a doenças, e com alimentos
excedentes foram potencializadas outras atividades (industriais, arte-
sanais, comerciais, intelectuais e artísticas), impulsionando a urbani-
zação, e assim no período entre os anos 1000 e 1300 a expansão agrí-
cola alimentou o desenvolvimento demográfico, econômico, urbano
e cultural da sociedade. Mas esse sistema acarretou superpovoamento,
que levou à superexploração dos recursos naturais, à consequente de-
gradação dos ecossistemas cultivados e à redução da fertilidade dos
solos, resultando em prejuízos à produtividade agrícola (SANTILLI,
2009).
Essa crise europeia foi superada pelo “novo mundo”. Os povos in-
dígenas americanos contribuíram para a herança agrícola da huma-
nidade, pois quando da chegada de Colombo à América, em 1492,
tais povos já haviam domesticado diversas sementes que até hoje são
utilizadas na nossa alimentação, como batata, batata-doce, mandio-
ca, pupunha, feijão, tabaco, cacau, tomate, amendoim, abóbora,
pimenta-vermelha, abacate, abacaxi, caju, mamão, maracujá entre
outras, totalizando aproximadamente 257 espécies cultivadas. Mas
os colonizadores desconsideraram todo conhecimento e diversidade

19
de plantas e sistemas agrícolas mantidos pelos indígenas, e substitu-
íram sistemas agrários complexos por monoculturas exportadoras de
cana-de-açúcar, algodão, café, cacau, óleo de palmeira, banana, para
abastecimento dos colonizadores, e como consequência os surgidos
latifúndios monocultores marginalizaram a agricultura camponesa e
indígena e condenaram grande parte da população rural indígena à
fome e à miséria (SANTILLI, 2009).
Percebe-se que, da mesma forma, ainda hoje no Brasil pequenos
produtores rurais e a diversidade de sementes que cultivam são gra-
dativamente substituídos por grandes proprietários de monoculturas
baseadas em algumas sementes específicas, destinadas principalmente
ao abastecimento de mercados diversos. Dentre as razões para a con-
solidação dessa realidade podem ser mencionados os interesses econô-
micos da indústria do agronegócio e o superávit da balança comercial
brasileira.
Posteriormente a Europa passou pela primeira revolução agríco-
la dos tempos modernos (séculos XVI e XIX), recebendo esse nome
porque se desenvolveu ligada à primeira revolução industrial. A marca
dessa nova revolução foram os sistemas de cereais e forrageiras sem
pousio (SANTILLI, 2009).
Pousio, segundo o inciso XXIV do art. 3º da Lei Federal n.º
12.651/2012, é a “prática de interrupção temporária de atividades ou
usos agrícolas, pecuários ou silviculturais, por no máximo 5 (cinco)
anos, para possibilitar a recuperação da capacidade de uso ou da estru-
tura física do solo” (BRASIL, 2014).
O pousio evidencia uma grande diferença de tratamento do solo
se compararmos os sistemas tradicionais e familiares de um lado, e o
sistema monocultor extensivo de outro. Quando a terra é trabalhada
em sistemas preocupados não apenas com a produtividade e com o
lucro, mas também com a sustentabilidade, com a regeneração do solo
(utilização de pousio), este não é degradado, esgotado. A inexistência

20
de pousio, ou a atribuição de período inadequadamente curto para
este, acarretam danos ao solo e perda de produtividade, tornando ne-
cessária a aplicação cada vez maior de adubos.3
A segunda revolução agrícola dos tempos modernos (séculos XIX
e XX) se caracterizou por novos meios de produção, decorrentes da
revolução industrial, como mecanização, motorização e introdução
de produtos químicos tais como fertilizantes, adubos e agrotóxicos, e
também pela seleção de plantas e de raças de animais e especialização
das propriedades rurais, que foram abandonando a poliprodução e se
dedicando a produtos específicos, mais vantajosos economicamente.
Nesse período verificou-se que “os sistemas monoculturais atendem
basicamente aos imperativos comerciais dos mercados e tendem a
exacerbar as diferenças naturais entre as propriedades, privilegiando
aquelas com melhores solos” (SANTILLI, 2009: 57).
Houve exclusão dos agricultores das atividades de concepção e de-
senvolvimento dos bens de produção agrícola, atividades essas que
foram assumidas por técnicos e pesquisadores de instituições públicas
e privadas; e os processos de seleção, cruzamento e melhoramento de
plantas e animais que haviam sido desenvolvidos pelos agricultores
passaram a ser desvalorizados pela modernização agrícola, sendo vistos
como práticas tecnicamente inadequadas (SANTILLI, 2009).

3 Entre os sistemas de pousio e de monoculturas há o sistema de rotação


de culturas, que embora não seja tão eficiente quanto o pousio, não atinge o solo
e o meio ambiente de forma tão agressiva quanto as monoculturas. A rotação de
culturas é um processo de cultivo para a preservação ambiental que interfere positi-
vamente na recuperação, manutenção e melhoria dos recursos naturais, viabilizan-
do produtividade mais elevada com menor alteração ambiental. O uso contínuo
da rotação de culturas preserva ou melhora as características físicas, químicas e
biológicas do solo, e também auxilia no controle de plantas daninhas, doenças e
pragas. Além disso, repõe restos orgânicos e protege o solo em face do clima, facilita
a semeadura direta e diversifica a produção agropecuária (FARIAS, 2004).

21
Nesse período parte da atividade agrícola passou a ser regida por
atores externos ao processo de cultivo, mais preocupados com a adap-
tação do meio à atividade econômica desenvolvida pela indústria
agroalimentar do que com a qualidade da alimentação, com o bem
estar social ou com o meio ambiente.
A “modernização” da agricultura exigiu a utilização crescente de
adubos e fertilizantes químicos, e o desenvolvimento de plantas que
fossem capazes de absorver e potencializar os efeitos de tais insumos,
e ainda a seleção de plantas em função de suas características favorá-
veis à mecanização imposta pela indústria agroalimentar (e não ao
suprimento de alimentos), por serem mais homogêneas na matura-
ção, mais fáceis de colher os grãos etc. Essa padronização e seleção
de espécies envolveu também os animais, sendo escolhidas espécies
capazes de consumir as razões industriais e compatíveis com a meca-
nização, tanto assim que vacas foram selecionadas de acordo com a
sua capacidade de serem ordenhadas mecanicamente (tamanho das
tetas, não retenção de leite, altura padrão às instalações industriais).
Os animais tornaram-se um grande investimento, e para evitar perdas
as empresas passaram a produzir vacinas e antibióticos muito fortes, e
nesse processo de padronizado muitas raças de animais foram perdidas
(SANTILLI, 2009).
Percebe-se que em diversos momentos da história os rumos da
agricultura foram determinados não pelos agricultores e seus saberes,
mas pelos colonizadores e pelas classes industrial e científica, cientes
de que o desenvolvimento das cidades dependia do desenvolvimento
agrícola. Essa transformação da atividade sempre teve como funda-
mento uma maior produção para satisfazer a necessidade de alimentos.
É inegável a importância de produzirmos mais alimentos, principal-
mente em razão do grande número de pessoas que ainda sofrem com a
fome no mundo. Mas as revoluções agrícolas não alcançaram esse ob-
jetivo, e trouxeram consequências negativas, como a marginalização

22
de agricultores, uniformização de sementes cuja segurança alimentar e
nutricional é duvidosa, a consequente perda de diversidade biológica
e cultural. E cabe indagar: não teria sido suficiente a implantação de
medidas como políticas de melhoramento do transporte, incremento
de serviços públicos nas zonas rurais, incentivos públicos às formas
tradicionais de produção?

1.1 A revolução verde


A “revolução verde” iniciou entre as décadas de 50 e 70 do século
passado, e se constitui em mais uma revolução da agricultura funda-
mentada na busca de garantir a segurança alimentar (pensada apenas
em termos quantitativos) dos povos.
É um movimento de base tecnológica, fundamentado no aumento
de produtividade, o que seria alcançado através da adoção de paco-
tes tecnológicos envolvendo manipulação de sementes e utilização de
insumos químicos (BARCELOS, 2011). Caracteriza-se pela intensifi-
cação da utilização de insumos químicos (adubos e agrotóxicos4 ), me-
cânicos (maquinário agrícola) e biológicos e pela seleção e criação de
variedades melhoradas, mas não resolveu o problema da quantidade
de alimentos, e beneficiou apenas alguns segmentos sociais e econô-
micos, como as grandes propriedades rurais, monocultoras e exporta-
doras de alimentos comerciais, ficando alheios a tal revolução muitos
agricultores da América Latina, da Ásia e da África, pois não tiveram
condições econômicas de aderir ao novo sistema (SANTILLI, 2009).
Mas esses agricultores ficaram alheios apenas aos proveitos econô-
micos da revolução verde; não ficaram imunes aos seus efeitos pre-
judiciais. Tornou-se difícil competir em termos de produtividade, e
os mercados exigem cada vez mais quantidades altas de um mesmo
4 Os agrotóxicos foram desenvolvidos principalmente no contexto da Se-
gunda Guerra Mundial, como armas químicas, e somente depois foram adaptados
ao uso industrial e agropecuário para eliminar pragas (SANTILLI, 2009).

23
produto. Uma consequência provável teria sido a de que a produção
rural de pequena escala passou a ter menos aceitação no comércio.
Além disso, os agricultores tradicionais passaram a sofrer influências
negativas como: a) o aumento de pragas (tendo em vista a destruição
de muitos habitats naturais de predadores); b) danos às plantações
em razão dos produtos aplicados nas lavouras próximas, destinados a
plantas resistentes; c) interferência genética em suas lavouras.
Assim, muitos produtores rurais que ficaram alheios à revolução,
localizados principalmente nos continentes mais atingidos pela fome,
foram marginalizados (SANTILLI, 2009). E ainda como consequ-
ências da revolução verde houve degradação ambiental, desequilíbrio
e degradação da agrobiodiversidade, empobrecimento no campo,
concentração da terra, êxodo rural, dependência tecnológica e morte
da cultura e técnicas agrícolas tradicionais das populações campone-
sas, chegando a tal ponto que a referida revolução chegou a alterar a
concepção da natureza, que deixou de ser vista como uma entidade
regenerativa e passou a ser considerada um sistema incapaz de autorre-
generação e de autossustentabilidade (BARCELOS, 2011).
Diante de todas essas consequências o mínimo esperado seria a
suficiência de alimentos, mas a nossa realidade demonstra que não
alcançamos esse objetivo:

Sabe-se que perto de um milhão de habitantes deste pla-


neta padecem de fome e subnutrição. Dados mais alarmantes
chamam a atenção para a possibilidade de colapsos em paí-
ses mais pobres, especialmente da África, em razão da falta de
acesso aos alimentos. Por outro lado, países como o Brasil não
alcançaram níveis de autosuficiência na produção dos alimen-
tos básicos de sua população, ainda que sejamos um dos maio-
res produtores de grãos, fibras e outras matérias primas. Cada
vez mais, os sistemas agroalimentares são dominados por um
número menor e mais poderoso de grandes empresas trans-
nacionais, para as quais os alimentos são, nada mais e nada

24
menos, que mais uma oportunidade de negócio, de geração de
lucro e acumulação de riquezas (CAPORAL, 2009: 15-16).

2. Sementes e conhecimentos tradicionais


O art. 3º, inciso I, do Decreto Presidencial n.º 6.040/2007 estabe-
lece o conceito de povos e comunidades tradicionais: grupos cultural-
mente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem for-
mas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e
recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social,
religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações
e práticas gerados e transmitidos pela tradição (BRASIL, 2014).
Dentro desse conceito consta a referência a conhecimentos, ino-
vações e práticas gerados e transmitidos pela tradição. Esses são os
conhecimentos tradicionais, representados pelas observações, experi-
ências e métodos relacionados a muitos setores da vida dos povos e
comunidades tradicionais. São considerados o método mais antigo de
produção de teorias, experiências, regras e conceitos, ou seja, a forma
mais antiga de ciência (MOREIRA, 2007). Abrangem línguas, técni-
cas de artesanato, ciclo de plantas, biodiversidade e ecossistemas, sabe-
res de cura com o uso de substâncias naturais, produção de expressões
artísticas, cantos, danças e rituais (DOURADO, 2012).
A relevância desses conhecimentos é inegável, e tem se revelado
muito eficiente no campo da medicina, associado à biodiversidade,
pois a observação e a experiência de populações tradicionais no re-
conhecimento e no procedimento aplicado aos recursos biológicos,
especialmente para fins medicinais, têm se mostrado muito efetivas,
despertando o interesse de grandes laboratórios e apropriação desses
conhecimentos.
E quanto ao uso da biodiversidade para finalidade medicinal não
esses conhecimentos não se restringem a um mero repertório de ervas
medicinais ou listagem de espécies vegetais, mas compreendem ainda

25
fórmulas sofisticadas, o receituário e os respectivos procedimentos
para realizar a transformação, respondendo a indagações sobre como
determinada erva deve ser coletada, tratada e transformada num pro-
cesso de fusão (ALMEIDA, 2013).
No que diz respeito às sementes, os povos e comunidades tradicio-
nais aplicam seus conhecimentos na escolha das sementes que serão
coletadas, cultivadas e/ou domesticadas. Essas três formas de sementes
são as chamadas sementes tradicionais, pois acompanham a subsis-
tência humana em diversos aspectos (sociais, culturais, alimentares,
religiosos).
As sementes coletadas são aquelas encontradas livres na natureza
onde se reproduzem, mas que são utilizadas pelos seres humanos, in-
dependentemente da sua finalidade. A sua reprodução não sofre in-
terferência humana.
As sementes cultivadas são aquelas que sofreram interferência hu-
mana no seu processo reprodutivo. A produção pode ser organizada
pelo homem, inclusive em lavouras, mas a perpetuação da espécie não
depende de replantio pelo homem, ou seja, a planta ainda é capaz
de se reproduzir independentemente da intervenção humana, o que
demonstra que pode ser cultivada sem antes ter sido domesticada.
As sementes domesticadas são aquelas que adquiriram caracterís-
ticas adequadas ao convívio com os seres humanos, a tal ponto que
muitas delas perdem a capacidade de se reproduzir sem tal interven-
ção. São exemplos dessas sementes o milho, a mandioca, o feijão, a
batata, e uma infinidade de outras utilizadas na nossa alimentação.
A domesticação é um processo de adaptação da planta ao convívio
com o homem, durante o qual a planta passa do estado silvestre – in-
dependente da ação humana – para uma relação mais estreita com o
homem e suas atividades agrícolas., através de modificações no patri-
mônio genético das plantas, concluindo-se que as mudanças ocorri-
das nas sementes são resultados das práticas agrícolas e também das

26
condições ambientais dos locais em que são cultivadas (SANTILLI
2009).
Essas escolhas ocorrem por motivos diversos relacionados à semen-
te, como a sua cor, o seu sabor, o seu formato, as suas propriedades
ornamentais, alimentares e medicinais, a sua aplicação em rituais, en-
fim, em razão do valor e significado atribuído pelos povos e comuni-
dades tradicionais às sementes.
Além da escolha da semente a ser domesticada e/ou que permane-
cerá sendo cultivada, os povos e comunidades tradicionais utilizam
seus saberes no cultivo de tais sementes, percebendo o local e a forma
de plantio que geram uma melhor produção ou um sabor mais espe-
cífico, a melhor época do ano para produzi-la, adequação ao ciclo das
chuvas. As sementes escolhidas são “lapidadas” por tais agentes sociais,
mediante aplicação dos conhecimentos tradicionais, ao longo do tem-
po, para um melhor aproveitamento, dando origem, por exemplo, às
diversas espécies de feijão existentes hoje. E muitas dessas sementes
passaram a fazer parte da agricultura, desde tempos remotos, até os
dias atuais, conforme visto anteriormente.
Todas essas sementes que passam ou passaram por um processo
de coleta, cultivo e/ou domesticação por comunidades tradicionais e
agricultores, mediante escolha e utilização através de saberes tradicio-
nais, são chamadas sementes tradicionais, que não podem ser desvin-
culadas dos conhecimentos tradicionais.

2.1 As “cultivares tradicionais”


A Lei Federal n.º 10.711/2003, que dispõe sobre o Sistema Na-
cional de Sementes e Mudas, conceitua cultivar tradicional (também
chamada de local ou crioula), da seguinte forma:

Art. 2º Para os efeitos desta Lei, entende-se por:


(...)

27
XVI - cultivar local, tradicional ou crioula: variedade desenvol-
vida, adaptada ou produzida por agricultores familiares, assentados
da reforma agrária ou indígenas, com características fenotípicas
bem determinadas e reconhecidas pelas respectivas comunidades
e que, a critério do MAPA5 , considerados também os descritores
socioculturais e ambientais, não se caracterizem como substan-
cialmente semelhantes às cultivares comerciais (BRASIL, 2014).

O conceito legal observou apenas em certa medida a definição


doutrinária de sementes tradicionais.
Veja-se que o termo “cultivar” significa uma atividade com in-
tuito de produção, a possibilidade de utilização pelo “complexo
agroflorestal”6. Porém, as sementes tradicionais nem sempre são “cul-
tivadas” conforme visto anteriormente. Assim, a lei, ao conceituar as
“cultivares” tradicionais, foi dirigida apenas às sementes tradicionais
cultivadas e/ou domesticadas (já que estas pressupõem o cultivo), não
envolvendo as sementes tradicionais que não são objeto de cultivo
(sementes coletadas).
Outra restrição contida no conceito refere-se aos locais onde as
sementes/cultivares tradicionais podem ser encontradas, pois foram
vinculadas apenas aos “agricultores familiares7 , assentados da reforma
5 Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
6 O inciso XV da Lei n.º 10.711/2003 conceitua “cultivar” como “a va-
riedade de qualquer gênero ou espécie vegetal superior que seja claramente distin-
guível de outras cultivares conhecidas, por margem mínima de descritores, por sua
denominação própria, que seja homogênea e estável quanto aos descritores através
de gerações sucessivas e seja de espécie passível de uso pelo complexo agroflorestal,
descrita em publicação especializada disponível e acessível ao público, bem como a
linhagem componente de híbridos” (BRASIL, 2014).
7 Conforme disposto no art. 3º da Lei Federal n.º 11.326/2006, que
estabelece as diretrizes para a formulação da Política Nacional da Agricultura Fami-
liar e Empreendimentos Familiares Rurais, “considera-se agricultor familiar e em-
preendedor familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo,
simultaneamente, aos seguintes requisitos: I - não detenha, a qualquer título, área

28
agrária ou indígenas”. Foi inadequadamente desconsiderada a partici-
pação de outros povos e comunidades no cultivo dessas sementes. Um
exemplo será tratado adiante, em outro capítulo, e diz respeito aos
povos de matriz africana, que dependem essencialmente dos recursos
naturais para manutenção de seus peculiares modos de vida, e por isso
também cultivam, especialmente ervas aromáticas e medicinais.
A lei condiciona ainda o “reconhecimento” de cultivares locais, es-
tabelecendo que não podem se caracterizar “como substancialmente
semelhantes às cultivares comerciais”. Mas a lei não estabelece o que se
entende por “cultivares comercias”, e esta definição é imprescindível,
pois se as sementes tradicionais são uma exceção (aquelas que, obser-
vadas certas condições, “não se caracterizem como substancialmente
semelhantes às cultivares comerciais”), afinal, como identificar essas
“exceções” sem conhecer a regra (as cultivares comerciais)?
Parece ter ocorrido uma inversão de valores na conceituação de
“cultivares locais” (tradicionais), pois uma semente domesticada há
séculos ou milênios8 , e desde então cultivada por povos e/ou comuni-
dades tradicionais, e posteriormente até mesmo em grandes proprie-
dades, mas que ainda não tenha sido “reconhecida” como “tradicio-
nal”, jamais alcançará esse reconhecimento, pelo simples fato de ser
atualmente usada comercialmente? O uso comercial suplanta a forma
de domesticação e cultivo dessas sementes, durante séculos? Isso signi-
fica que não há sementes tradicionais sendo utilizadas na agricultura,

maior do que 4 (quatro) módulos fiscais; II - utilize predominantemente mão-


-de-obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou
empreendimento; III - tenha percentual mínimo da renda familiar originada de
atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento, na forma de-
finida pelo Poder Executivo; IV - dirija seu estabelecimento ou empreendimento
com sua família” (BRASIL, 2014).
8 Estima-se que o feijão tenha sido domesticado entre 7.000 e 10.000
anos atrás.

29
diante da finalidade comercial dessas sementes? Poderia o uso comer-
cial desnaturar o caráter tradicional de uma semente?
A concepção de cultivares tradicionais envolve a história da semen-
te ou planta, o exame do seu processo de cultivo e/ou domesticação
pelo homem, e a sua evolução e adaptação a diferentes regiões, sempre
como fruto da intervenção humana. São resultados de uma relação
que envolve o homem e a semente que pretende incorporar à sua
subsistência. Essa interação homem-semente-planta é um processo
essencial na caracterização de uma cultivar tradicional. Uma situação
fática que não pode ser desconsiderada no momento da conceituação
legal pelo legislador.
Os agentes desse campo legislativo formalmente habilitado a de-
finir o que é ou não é “cultivar tradicional”, em grande parte inte-
grantes da bancada ruralista (interessados ou talvez apenas desinfor-
mados), estão numa situação privilegiada se comparados aos povos e
comunidades tradicionais, pois uma proposta ou um voto proferido
em segundos pretendem alterar a história e o significado das sementes,
como se uma lei pudesse alterar a sua natureza e o trabalho de quem as
introduziu na vida humana e as aprimorou para melhor atendimento
das nossas necessidades.
Enquanto o voto é proferido, os povos e comunidades tradicionais,
além de agricultores familiares e pequenos agricultores, permanecem
na sua atividade (que hoje tanto nos favorece pela disponibilidade de
alimentos), muitas vezes alheios aos acontecimentos que levam à cria-
ção de leis que dizem respeito justamente à história dessas populações
e suas sementes.
Parece que estamos diante de uma situação descrita por Bourdieu,
que explica como a força (física ou econômica) pode ser exercida pelos
interessados através de mecanismos habilitados para tanto, quando
menciona num “universo social relativamente independente em re-
lação às pressões externas, no interior do qual se produz e se exerce a

30
autoridade jurídica, forma por excelência da violência simbólica le-
gítima cujo monopólio pertence ao Estado” (2005: 211). Trata-se de
uma definição arbitrária; uma imposição que ignora a prática, a reali-
dade, passando o legislador a constituir, pela lei, uma nova realidade,
redefinindo a experiência.9
Pertinente a observação de Duprat ao referir a lição de Wittgens-
tein, segundo a qual “as normas, vistas separadamente das atividades
práticas dos seres humanos, são meros itens mentais ou linguísticos”
(2013: 22). Como, então, apreender o sentido da norma desloca-
da de seu contexto? É ilógico inverter a ordem dos fatos, como se o
uso comercial fosse o primeiro critério para definir o que é cultivar
tradicional.
A produção agrícola decorre dos processos diferenciados de cultivo
e/ou domesticação das sementes realizados por povos e comunida-
des tradicionais. Nesse sentido Meirelles e Rupp referem que houve
um tempo em que as plantas atualmente cultivadas na agricultura
existiam somente como plantas que cresciam de forma selvagem nas
matas e no campo, porém, devido ao acúmulo de conhecimentos so-
bre a natureza e às necessidades humanas essas plantas passaram a ser
domesticadas e cultivadas, há cerca de 10.000 (dez mil) anos atrás,
concluindo então que:
9 Bourdieu explica que “a elaboração de um corpo de regras e de procedi-
mentos com pretensão universal é produto de uma divisão do trabalho que resulta
da lógica espontânea da concorrência entre diferentes formas de competência ao
mesmo tempo antagônicas e complementares que funcionam como outras tantas
espécies de capital específico e que estão associadas a posições diferentes no cam-
po”. Ainda, esclarece que “a entrada no universo jurídico, por implicar a aceitação
tácita da lei fundamental do campo jurídico, tautologia constitutiva que quer que
os conflitos só possam nele ser resolvidos juridicamente – quer dizer, segundo as
regras e as convenções do campo jurídico –, é acompanhada de uma redefinição
completa da experiência corrente e da própria situação que está em jogo no litígio.
A constituição do campo jurídico é um princípio de constituição da realidade (isto
é, verdadeiro em relação a todo o campo)” (BOURDIEU, 2005: 229).

31
Desta forma, podemos dizer que as plantas e animais que
hoje cultivamos e criamos – flores, temperos, hortaliças, frutí-
feras, grãos, fibras, porcos, aves, gado de corte, gado de leite –
são fruto de um processo de domesticação e seleção, realizado
por agricultores e agricultoras, através de gerações e gerações, em
diferentes partes do nosso planeta. Ou seja, a agrobiodiversida-
de é o resultado de um processo milenar de interação entre a
natureza e o ser humano através da prática da agricultura.[...]
No sul do Brasil, a forma de nos referirmos às varieda-
des crioulas varia bastante. Geralmente, o nome que damos
a esse tipo de planta tem relação com o meio natural e com a
história do povo de um determinado lugar (2006: 07-15).

Portanto, é inconcebível uma lei tentar desvincular as sementes da


atividade humana correspondente, neste caso, representada especial-
mente pelos povos e comunidades tradicionais.

3. Segurança alimentar
As revoluções agrícolas, inclusive a revolução verde, sempre ado-
taram uma noção de segurança alimentar amparada apenas no fun-
damento “quantidade”, ou seja, na suficiência de alimentos. Como a
suficiência nunca foi alcançada, passou-se a acreditar que a evolução
natural das espécies não era suficiente ao atendimento da demanda
por alimentos. Assim, a solução encontrada foi o gradativo cultivo
em grandes propriedades, e a substituição de diversas sementes por
algumas específicas. E a partir do momento em que são criadas novas
sementes, gerando plantas mais produtivas e mais resistentes às pragas
e aos agrotóxicos, as sementes tradicionais deixam, gradativamente, de
fazer parte da nossa alimentação.
Mas as novas sementes não possuem a mesma qualidade alimen-
tar e nutricional que as sementes tradicionais, pois é cada vez maior

32
a utilização de agrotóxicos e, consequentemente, o consumo destes
junto aos alimentos. Ainda, os alimentos tornaram-se mais restriti-
vos, pois em certa medida deixamos de consumir diversas sementes
e adotamos apenas algumas. Assim, instaura-se um conflito entre a
necessidade de maior produção de alimentos para atender à deman-
da da crescente população mundial e o bem estar social, a qualidade
dos alimentos produzidos e oferecidos ao consumo e a preservação da
diversidade cultural e biológica representada pelas diversas sementes
tradicionais.
É necessário adotar uma nova concepção de segurança alimentar,
que não se restringe amais apenas ao fator quantidade ou suficiência.
Devem ser consideradas também, por exemplo, a qualidade desses
alimentos e a preservação da diversidade biológica e cultural. Neste
ponto ganha relevo o conceito de segurança alimentar e nutricional
estabelecido na Lei Federal n.º 11.346/2006, que cria o SISAN com
o intuito de assegurar o direito humano à alimentação adequada. A
segurança alimentar e nutricional é assim definida pela referida lei:

Art. 3º A segurança alimentar e nutricional consiste na


realização do direito de todos ao acesso regular e permanen-
te a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem
comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo
como base práticas alimentares promotoras de saúde que res-
peitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultu-
ral, econômica e socialmente sustentáveis (BRASIL, 2014).

A segurança alimentar e nutricional busca assegurar o acesso de


todos, de forma regular e permanente, a alimentos em quantidade e
também em qualidade suficientes, sem comprometer outras necessi-
dades essenciais. Objetiva práticas alimentares promotoras de saúde,
que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural,
econômica e socialmente sustentáveis.

33
Ainda de acordo com a referida lei, a segurança alimentar e nutri-
cional abrange aspectos como: (a) a ampliação das condições de acesso
aos alimentos por meio da produção, em especial da agricultura tra-
dicional e familiar, do processamento, da industrialização, da comer-
cialização, incluindo-se os acordos internacionais, do abastecimento
e da distribuição dos alimentos, incluindo-se a água, bem como da
geração de emprego e da redistribuição da renda; (b) a conservação da
biodiversidade e a utilização sustentável dos recursos; (c) a promoção
da saúde, da nutrição e da alimentação da população, incluindo-se
grupos populacionais específicos e populações em situação de vul-
nerabilidade social; (d) a garantia da qualidade biológica, sanitária,
nutricional e tecnológica dos alimentos, bem como seu aproveitamen-
to, estimulando práticas alimentares e estilos de vida saudáveis que
respeitem a diversidade étnica e racial e cultural da população; (d) a
produção de conhecimento e o acesso à informação; (e) a implemen-
tação de políticas públicas e estratégias sustentáveis e participativas de
produção, comercialização e consumo de alimentos, respeitando-se as
múltiplas características culturais do País.10

10 Lei n.º 11.346/2006: “Art. 4º A segurança alimentar e nutricional


abrange: I – a ampliação das condições de acesso aos alimentos por meio da produ-
ção, em especial da agricultura tradicional e familiar, do processamento, da indus-
trialização, da comercialização, incluindo-se os acordos internacionais, do abasteci-
mento e da distribuição dos alimentos, incluindo-se a água, bem como da geração
de emprego e da redistribuição da renda; II – a conservação da biodiversidade e a
utilização sustentável dos recursos; III – a promoção da saúde, da nutrição e da
alimentação da população, incluindo-se grupos populacionais específicos e popu-
lações em situação de vulnerabilidade social; IV – a garantia da qualidade biológica,
sanitária, nutricional e tecnológica dos alimentos, bem como seu aproveitamento,
estimulando práticas alimentares e estilos de vida saudáveis que respeitem a diver-
sidade étnica e racial e cultural da população; V – a produção de conhecimento e
o acesso à informação; e VI – a implementação de políticas públicas e estratégias
sustentáveis e participativas de produção, comercialização e consumo de alimentos,
respeitando-se as múltiplas características culturais do País” (BRASIL, 2014).

34
Assim, é importante questionarmos em que medida o sistema de
monoculturas amparadas em sementes específicas acarreta prejuízos
à nossa sociedade e desrespeita nossa política legalmente prevista de
segurança alimentar e nutricional.

3.1 As sementes tradicionais na alimentação e nutrição


Analisaremos agora em que medida o sistema produtivo idealizado
pela revolução verde não se amolda ao conceito de segurança alimen-
tar e nutricional estabelecido pela Lei Federal n.º 11.346/2006, es-
pecialmente quanto aos aspectos alimentares/nutricionais e culturais.

3.1.1 Dos prejuízos qualitativos à alimentação


O sistema decorrente da revolução verde, com suas sementes e in-
sumos, acarreta prejuízos à qualidade alimentar e nutricional prin-
cipalmente em razão: (a) do maior consumo de agrotóxicos com os
alimentos; (b) da perda de diversidade de alimentos (alimentação mais
restritiva).
As chamadas sementes transgênicas geram plantas mais resistentes
aos agrotóxicos, e assim é possível aplicar defensivos mais agressivos,
que eliminam com mais eficiência as pragas. Sobre esse tema:

No que tange à qualidade dos alimentos ofertados à popu-


lação brasileira, cabe registrar que as sucessivas pesquisas fei-
tas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA
(www.anvisa.gov.br), do Ministério da Saúde, têm mostrado
que muitos dos nossos alimentos contêm não só excesso de re-
síduos de pesticidas (em relação ao permitido por lei), como
também resíduos de agrotóxicos proibidos para determinados
cultivos, o que é ainda pior. Aliás, nossa chamada “agricultura
moderna” continua abundando no uso de pesticidas (mais ou
menos U$ 2 bilhões por ano). E mais, continuamos usando
alguns venenos cujas pesquisas demonstram serem responsáveis
por enfermidades como diferentes tipos de câncer, entre outras.

35
Portanto, não resolvemos o problema da fome, nem o pro-
blema da qualidade dos alimentos e estamos destruindo os re-
cursos naturais necessários para a produção. Este panorama,
e não precisa mais que isso, nos leva a defender que é urgen-
te e necessário que se adotem todas as medidas para reverter
este processo, estimulando a transição para agriculturas mais
sustentáveis, capazes de produzir alimentos sadios para toda
a população e com menores níveis de impacto ambiental.
Não cabe mencionar aqui as pesquisas já desenvolvidas que
estão mostrando a relação entre a contaminação por agrotóxicos
e inúmeros casos de doenças. Há muitas delas e os interessados
podem encontrar referências, em abundância, numa rápida pes-
quisa na internet. Câncer de mama, de próstata, de estômago,
má formações de fetos, encefalia, e muitos outros exemplos,
estão hoje disponíveis. Portanto, já não nos cabe o direito de
dizer que não sabemos ou não conhecemos (como no tempo
do lançamento do livro “Primavera Silenciosa”. Estamos en-
venenando nossa própria comida, causando danos à saúde dos
agricultores e consumidores, de forma consciente. Inclusive,
cabe um alerta: será verdade que os humanos têm mecanismos
biológicos, fisiológicos ou químicos, capazes de lhes garantir que
não haverá danos à saúde se ingerirmos o que se convencionou
chamar de “dose diária aceitável” de venenos? Há controvérsias.
Em geral, quem nos diz qual é esta “dose aceitável” é a própria
agroindústria dos agroquímicos (CAPORAL, 2009: 17-18).

Além disso, as monoculturas dão ensejo a um aparecimento maior


de pragas, o que certamente acarretará a aplicação de agrotóxicos em
maior quantidade, ou com efeitos mais severos. Nesse sentido o en-
tendimento de Altieri, para quem os monocultivos dificultam o con-
trole biológico de pragas, ao passo que os sistemas de policultivos re-
duzem a presença de pragas, em razão da maior presença de inimigos
naturais (predadores e parasitas) em locais com maior disponibilidade
de néctar e pólen, pela maior cobertura do solo (proteção a certos
predadores) ou ainda pela maior presença de insetos herbívoros que

36
servem como alimentação aos inimigos naturais na época de baixa
população de pragas (2002).
Além do maio consumo de agrotóxicos, outro fator adverso que
está relacionado ao sistema de cultivo decorrente da revolução verde
é a perda da qualidade/variedade biológica e, como consequência, de
alimentos.
A Convenção Sobre Diversidade Biológica – CDB objetiva a con-
servação da diversidade biológica e a utilização sustentável de seus
componentes (art. 1º), e classifica diversidade biológica como a va-
riabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo,
dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossiste-
mas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte, compre-
endendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de
ecossistemas (art. 2º).
No preâmbulo da CDB as partes se declaram conscientes do valor
intrínseco da diversidade biológica e dos valores ecológico, genético,
social, econômico, científico, educacional, cultural, recreativo e esté-
tico da diversidade biológica e seus componentes. Ainda, reconhecem
a estreita e tradicional dependência de recursos biológicos de mui-
tas comunidades locais e populações indígenas com estilos de vida
tradicionais. Também se declaram conscientes de que a conservação
e utilização sustentável da diversidade biológica são de importância
absoluta para atender as necessidades de alimentação, de saúde e de
outra natureza da crescente população mundial.
No art. 10, que versa sobre a utilização sustentável de componentes
da diversidade biológica, a CDB estabelece que cada parte contratante
deve, na medida do possível e conforme o caso: a) incorporar o exame
da conservação e utilização sustentável de recursos biológicos no pro-
cesso decisório nacional; b) adotar medidas relacionadas à utilização
de recursos biológicos para evitar ou minimizar impactos negativos na

37
diversidade biológica; c) proteger e encorajar a utilização costumeira
de recursos biológicos de acordo com práticas culturais tradicionais
compatíveis com as exigências de conservação ou utilização sustentá-
vel; d) apoiar populações locais na elaboração e aplicação de medidas
corretivas em áreas degradadas onde a diversidade biológica tenha
sido reduzida; e) estimular a cooperação entre suas autoridades gover-
namentais e seu setor privado na elaboração de métodos de utilização
sustentável de recursos biológicos. Portanto, a CDB aborda a necessi-
dade de preservação da diversidade, tanto biológica quanto cultural.
No entanto, o sistema produtivo decorrente da revolução verde é
amparado nas monoculturas, as quais se sustentam através de semen-
tes específicas, e não na variedade de sementes. Esse sistema conside-
ra que os sistemas de policultivo não são “adequados” aos objetivos
de produção suficiente de alimentos (demanda de mercado). Assim,
ocorre a supressão de diversas espécies por uma única.
Um exemplo são os milhos de pipoca. A grande parte da população
conhece apenas uma espécie de milho de pipoca, de cor amarela, sem
pontas, com tamanho padrão, e que é produzido por algumas empre-
sas e distribuído em todo o país e no mundo. Essa parcela da popu-
lação desconhece a grande variedade de milhos de pipoca produzida,
cada vez em menor escala, na agricultura tradicional e familiar. Esses
grãos apresentam diversas características peculiares11 (cores, tamanhos
e formatos diversos), restando evidente, apenas num olhar, a grande
diversidade genética presente nestes grãos e que se perde ao serem
substituídos. É inestimável a perda de biodiversidade ao se substituir
diversas formas de sementes por uma única, padrão. E para que o
exemplo se torne de mais fácil compreensão, imagine-se se todas as
espécies de feijão existentes fossem substituídas por uma única, com
uma única cor, um único sabor e tamanho.
11 Nesse sentido, veja-se o depoimento de Orilde Maria Pozzobon Buriol,
na contracapa deste livro.

38
O Brasil se destaca pela grande biodiversidade, porém vem utili-
zando esses recursos de forma excessiva, inclusive desmatando floretas
e outros abrigos da biodiversidade, para implantação de novas frontei-
ras agrícolas, destruindo ecossistemas e inclusive extinguindo espécies
(GRANZIERA, 2009).
É claro que esse processo de substituição não se amolda aos ob-
jetivos da Lei n.º 11.346/2006, antes referida, a qual estabelece que
a segurança alimentar e nutricional consiste na realização do direito
de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade,
em quantidade suficiente, tendo como base práticas alimentares pro-
motoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam
ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis.
Há inclusive movimentos com o intuito de declarar as sementes
tradicionais como patrimônio da humanidade, sob o fundamento de
que a preservação do patrimônio genético representado pelas semen-
tes tradicionais é fundamental para a sobrevivência da humanidade.
Afirma-se que diante das alterações climáticas e crises ambientais e
geopolíticas que se instalam globalmente, e que devem se acentuar, e
considerando a atuação de grupos multinacionais no sentido de con-
quistar o domínio e a propriedade dos bancos mundiais de sementes,
através de manipulações genéticas e das patentes, é de importância
vital e estratégica que a ONU e os governos nacionais se mobilizem
para declarar as sementes tradicionais como Patrimônio da Humani-
dade (PACHECO, 2012).
Ganha relevo a necessidade de preservação de sementes tradi-
cionais. Há projetos voltados a esse tema, merecendo destaque o
banco genético mantido pela Embrapa, que é o terceiro maior do
mundo, com capacidade para abrigar até 750 mil amostras de semen-
tes, dez mil vegetais in vitro, além das coleções mantidas a 180º C
negativos por meio de nitrogênio líquido, método conhecido como

39
criopreservação, que manterá mais de 200 mil amostras vegetais, ani-
mais ou de microrganismos.
Essas sementes estão recebendo, aos poucos, a valorização dos
meios comerciais de alimentação, num movimento de valorização e
descobrimento de sementes específicas, abrindo-se um mercado po-
tencialmente acessível aos representantes da agricultura tradicional e
familiar (COHEN, 2013).
São necessárias iniciativas para refortalecer os agricultores tradi-
cionais, que ainda preservam e descobrem sementes específicas, com
sabores específicos e ainda desconhecidos do mercado. Assim como
o ser humano ao longo da história atribuiu aos vinhos uma grande
valorização, apreciando-se sabores decorrentes de uvas específicas12 ,
mediante processos de produção específicos, seria relevante conhecer
e apreciar as qualidades das sementes tradicionais, tanto para que tais
sementes não sejam extintas, quanto para que os agricultores alheios
à revolução verde possam encontrar formas de subsistência na terra.

3.1.2 Dos prejuízos à diversidade cultural


A perda de diversidade biológica acarreta a perda de diversidade
cultural. Nesse sentido, Antunes analisa a perda da diversidade bioló-
gica como um problema contemporâneo, e destaca o aspecto da perda
da diversidade cultural entre os diferentes povos, em especial as co-
munidades indígenas e locais, afirmando que a perda da flora e fauna
é indissociável da perda da diversidade cultural (ANTUNES, 2005).
Leonardo, estudando a antropologia da alimentação, diz que a
massificação da cultura alimentar ocorre no contexto da urbanização,
da industrialização dos produtos alimentares e do seu marketing de
oferta, pois a mídia impõe os produtos colocados no mercado como
12 A redescoberta de uvas antes consideradas extintas é noticiada no mun-
do inteiro, como ocorreu com a redescoberta da uva Carmenère no Chile .

40
de aquisição obrigatória. Assim, “nesse processo de massificação, to-
dos são induzidos a adequarem a nova moda e onda proposta, e todos
passam a fazer quase que em osmose o que está sendo proposto” (LE-
ONARDO, 2009: 01).
O aspecto cultural da comida é destacado por DaMatta, que dife-
rencia alimento de comida, afirmando que alimento é tudo aquilo que
pode ser ingerido para manter uma pessoa viva, enquanto a comida é
tudo que se come com prazer, de acordo com as regras mais sagradas
de comunhão e comensalidade, aquilo que foi valorizado e escolhido
dentre os alimentos. Ressalta que o alimento é algo universal e geral,
mas comida se refere a algo costumeiro e sadio, alguma coisa que
ajuda a estabelecer uma identidade, definindo, por isso mesmo, um
grupo, classe ou pessoa. Conclui que “comida não é apenas uma subs-
tância alimentar, mas é também um modo, um estilo e um jeito de
alimentar-se”, e que “o jeito de comer define não só aquilo que é inge-
rido como também aquele que ingere”, e por isso “a comida vale tanto
para indicar uma operação universal – ato de alimentar-se – quanto
para definir e marcar identidades pessoais e grupais, estilos regionais e
nacionais de ser, fazer, estar e viver (DAMATTA, 1986: 33-35).
Não pode ser desconsiderado o aspecto cultural da comida. Tanto
é assim que o art. 2º da Lei n.º 11.346/2006 estabelece que o poder
público deve adotar as políticas e ações que se façam necessárias para
promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população,
sendo que a adoção dessas políticas e ações deverá levar em conta as
dimensões ambientais, culturais, econômicas, regionais e sociais.
A supressão de sementes tradicionais representa evidente prejuízo
à cultura, pois a alimentação também é traço característico dos povos,
assumindo peculiaridades regionais. Nesse sentido é pertinente referir
pesquisa realizada sobre as sementes tradicionais no Estado do Rio
Grande do Sul:

41
Nos últimos anos, tem-se dado atenção especial às comuni-
dades agrícolas tradicionais não só como mantenedoras da diver-
sidade biológica natural, em função de suas práticas agrícolas de
baixo impacto, mas também como guardiãs da variabilidade e
biodiversidade das plantas cultivadas e do conhecimento associa-
do a toda essa riqueza. De acordo com Bermejo & León (1992),
as variedades locais são aquelas que possuem a maior parte da va-
riabilidade vegetal dentre as plantas cultivadas e, assim como tan-
tos outros recursos naturais, o que se perde não se recupera mais.
[ . . . ]
O presente estudo analisou o estado da arte das sementes tra-
dicionais, crioulas ou landraces no estado do Rio Grande do Sul.
Através de uma amostragem não probabilística, foi realizado um
estudo etnográfico em 13 propriedades de oito municípios perten-
centes às regiões da Grande Porto Alegre, Serra, Planalto Médio,
Depressão Central e Serra do Sudeste. A pesquisa diagnosticou
uma grande diversidade de plantas cultivadas de origem remota,
mantidas nas propriedades dos agricultores tradicionais através
de bancos de sementes. Ao todo, foram identificadas 39 espécies
de plantas, distribuídas em 12 famílias botânicas, totalizando 258
apontamentos de plantas cultivadas crioulas no total dos entrevis-
tados. A preferência da utilização de sementes crioulas, de acordo
com relatos dos agricultores entrevistados, foi atribuída princi-
palmente a características como a adaptabilidade, valorização dos
costumes, o sabor e qualidade das variedades tradicionais, além
do baixo custo de produção. Em relação às dificuldades de sua
manutenção, as mais freqüentes foram o desinteresse das novas
gerações e a dificuldade em trocar e obter sementes. Foram, ain-
da, diagnosticadas estratégias de manutenção de variedades tra-
dicionais desenvolvidas nas diferentes regiões como alternativas à
conservação (BARROS, FRANK e PELWING, 2008: s/nº pag.).

Veja-se que os agricultores entrevistados destacaram a


valorização de costumes como um dos aspectos relevan-
tes para a manutenção do cultivo de sementes tradicionais.
Assim, e considerando ainda o que analisamos, é inegá-
vel a dimensão cultural inerente às sementes tradicionais.

42
4 Considerações finais
A produção de alimentos migrou, em considerável medida, da po-
liprodução inerente à agricultura tradicional e familiar para as grandes
propriedades baseadas em sementes específicas, modificadas genetica-
mente pela ciência, o que acarreta a gradativa supressão das chamadas
sementes tradicionais, que surgem, como regra, do aperfeiçoamento/
evolução natural, consolidando-se durante séculos, até milênios, atra-
vés da adaptação a cada região em que são cultivadas e também através
da forma de manejo dessas sementes pelas comunidades tradicionais
e agricultores familiares.
Essa mudança na forma de produção de alimentos, que tem influ-
ência direta na nossa forma de alimentação, sempre teve como jus-
tificativa a necessidade de mais alimentos, desconsiderando aspectos
relevantes da segurança alimentar que agora constam expressamente
na Lei Federal n.º 11.346/2006, como a qualidade da alimentação e a
preservação da diversidade biológica e cultural.
O sistema decorrente da revolução verde não observa essas di-
retrizes. Esse sistema de produção de alimentos acarreta prejuízos à
qualidade da alimentação, especialmente em razão da aplicação de
agrotóxicos mais agressivos e em maior quantidade, que ao final são
ingeridos com os alimentos produzidos, bem como da perda da varie-
dade de alimentos. Também causa prejuízos à diversidade biológica,
tendo em vista a supressão de diversas sementes tradicionais, que são
substituídas por sementes específicas e universais. E também causa
prejuízos à diversidade cultural, pois suprime sementes tradicionais
que representam traços característicos de certo povo e até mesmo da
sociedade em geral.
Diante desse quadro, é necessário repensar as formas de produzir
e consumir alimentos, valorizando-se sistemas de cultivo e sementes
sociambientalmente sustentáveis.

43
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SANTILLI, Juliana. Agrobiodiversidade e direitos dos agricul-
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45
46
a regulariZaÇÃo FuNdiaria CoMo politiCa
de redistribuiÇÃo e reCoNHeCiMeNto das
CoMuNidades tradiCioNais

Daniel Pinheiro Viegas

neste capítulo, se analisará o papel do poder público diante da


demanda por regularização fundiária de comunidades tradicionais em
unidades de conservação federais, criadas sobre imóveis de proprie-
dade do Estado do Amazonas, que exigiu novas interpretações dos
marcos legais que tratam do assunto, os quais, muitas vezes, ignora-
vam as características regionais de uma ocupação humana marcada
pela imobilização da mão de obra e pela omissão de políticas públicas
específicas.
A hipótese faz recordar os relatos de Edward Palmer Thompson
(1998), no livro intitulado “Costumes em Comum. Estudos Sobre
a Cultura Popular Tradicional”, em que, a partir do tema costume, o
Autor explora a interface entre a lei e as ideologias dominantes, de um
lado, e os usos do direito comum e a consciência costumeira, de outro.
nessa obra, Thompson observou que

47
Para os proprietários de terra, a propriedade fundiária estava
“se tornando cada vez mais subordinada ao contrato, isto é [...] as-
sumindo as qualidades e funções de capital”, pela liquidez das hi-
potecas e pelas formas complexas de dotes de casamento, fideico-
missos, vinculação de bens de raiz etc. Porém, ao mesmo tempo,
em nome da propriedade individual absoluta, os direitos comuns
e de uso das ‘camadas mais baixas’ eram minados (1998:132).

O conceito de propriedade rural exclusiva, como uma norma a


que outras práticas devem se adaptar, estava então se estendendo por
todo o globo, como uma moeda que reduzia todas as coisas a um valor
comum.
Assim como na Inglaterra do século XVIII, uma equivocada re-
gularização fundiária de comunidades tradicionais no Amazonas do
século XXI - realizada em parcelas individuais e delimitadas -, teria o
mesmo efeito que os “cercamentos” nas aldeias anglo-saxãs, ou seja, o
de desconsiderar o uso da terra pelos modos tradicionais comunitá-
rios, que levou a usurpação das terras comunais pela Coroa britânica
(estado dinástico weberiano), enquanto aqui certamente conduziria
à privatização das terras e a sua inclusão no mercado imobiliário, re-
presentando igualmente uma catástrofe para a cultura dos costumes
(THOMPSON, 1998:145).
Portanto, apesar das diferenças históricas, corria-se o risco de se ter
as mesmas conseqüências, isto é, as terras amazonenses que são ex-
ploradas coletivamente por comunidades tradicionais, se tornarem as
terras comunais e os descampados ingleses, que encolheram no século
XIX e ficaram restritos aos “prados da aldeia”, onde o costume parti-
lhado comunitariamente ficou reduzido aos “costumes do almanaque”
e aos resíduos coligidos pelos folcloristas (THOMPSON, 1998:147),
sendo as terras inglesas incorporadas ao patrimônio da realeza e as do
Amazonas podendo ser eventualmente apropriadas por agentes priva-
dos externos, que aniquilariam a tradicionalidade da ocupação.

48
Em verdade, o que se observa é que “as notações capitalistas dos di-
reitos de propriedade surgiram dos longos processos materiais de mu-
dança agrária, quando o uso da terra se desprendeu dos imperativos de
subsistência e a terra se tornou acessível ao mercado” (THOMPSON,
1998:134), acontecendo na Inglaterra a partir da incorporação das
terras ao patrimônio do Estado, enquanto no Brasil o processo se dá
de modo inverso, com a privatização das terras.
Ambos os processos históricos, não coincidentemente, extinguem
as práticas culturais tradicionais através de uma política pública de
regulamentação fundiária, baseada numa perspectiva patrimonialista
do direito, que como bem registra Thompson, é um conceito que

foi levado pelo Atlântico até o subcontinente indiano e pene-


trou no Pacífico Sul por meio dos colonizadores, administrado-
res e advogados britânicos que, embora soubessem da força dos
costumes e sistemas fundiários locais, lutavam para interpretá-los
segundo sua própria medida de propriedade (1998:134).

Assim sendo, o papel do poder público foi o de exercer uma atu-


ação fundamental na implantação dessa política colonialista, prin-
cipalmente por ter as Constituições dos Estados-nacionais latino-
-americanos incorporado às orientações do modelo europeu, no qual
a Constituição estabelecia um rol de direitos e garantias individuais,
sendo omissas quanto a qualquer direito que não fosse a possibilidade
de aquisição patrimonial individual.
Às comunidades étnicas restava apenas, como direito, a possibi-
lidade de integração como indivíduos, como cidadãos ou, juridica-
mente falando, como sujeito individual de direitos e assim, ganhando
direitos individuais, perdiam o direito de ser povo (MARÉS FILHO,
et. al. 2003), de pertencer a uma coletividade e ser titular de direitos
coletivos e de tal modo reconhecidos pelo poder público.
Todavia, para além desse cenário, é preciso questionar a constru-
ção contemporânea do Estado-Nação, que reflete e é reflexo de um

49
ordenamento jurídico monista, segundo o qual, o direito, enquanto
um sistema normativo é formado apenas pelas normas produzidas
pelo Estado (FAJARDO, 1999). Essa lógica conduz à inverdade de
que, sendo o Estado uma nação, supostamente formada por um só
povo, uma só cultura, um só idioma, uma só religião, seria legítimo
que ele tivesse apenas um sistema normativo, por se supor que este re-
presentaria um conjunto nacional homogêneo em termos de idioma,
religião e cultura (FAJARDO, 1999).
Nesse sentido, é necessário ter em mente que muitas categorias
jurídicas são criadas por esse monismo jurídico, baseadas na ideia de
Estado-Nação, e não são capazes de explicar a existência empírica de
sistemas normativos diferentes do estatal e que correspondem a cul-
turas diferentes da consagrada oficialmente (FAJARDO, 1999), pas-
sando a compreendê-los simplesmente como hábitos culturais, regras
morais e religiosas ou mero folclore, admissíveis apenas como fonte
do direito, que caso se oponham ou estejam em contradição com uma
lei, passam a ser reprimidos, seguindo os ditames dessa perspectiva
jurídica monista.
Entretanto, a nação como um suposto elemento humano na com-
posição do conceito de Estado perdeu, há muito tempo, sua força
explicativa, já que, como observa José Afonso da Silva existem Estados
multinacionais ou multiétnicos, como Estado sem nação, a exemplo
do Vaticano e até “nação sem Estado como os judeus até a fundação
do Estado de Israel” (2005:852).
Essa perspectiva colonialista é rompida com a Constituição Fe-
deral de 1988, em que há uma contraposição a essa valorização do
indivíduo como centro acumulador de patrimônio, necessário para
se integrar ao modelo hegemônico de desenvolvimento e êxito. Há
uma clara opção por aqueles que não se integram e continuam a se
reconhecer como índios, quilombolas, pescadores, ribeirinhos, serin-
gueiros e pequenos posseiros, resistindo sob uma permanente ameaça,

50
principalmente se estiverem sobre terras cultiváveis ou sobre alguma
riqueza vegetal ou mineral economicamente viável, em que suas terras
e territórios passam a ser objeto da cobiça, do engano e da desintegra-
ção (MARÉS FILHO, et. al. 2003).
Superar esse desafio foi exatamente a possibilidade aberta pela
Constituição Federal de 1988, que estabelece o Brasil como um Esta-
do nacional “pluriétnico e multicultural, e que todo o direito, em sua
elaboração e aplicação, tem esse marco como referência inafastável”
(DUPRAT, 2013:11). Com isso a Constituição em seus art.1º, incisos
III e V13 e art.215, § 1º14 (BRASIL, 2014a), reconheceu e assegu-
rou a existência de minorias, não em um sentido demográfico, mas
na perspectiva de grupos que não possuem participação política nas
decisões públicas que lhes afetam.
Reforça essa interpretação do texto constitucional a internaliza-
ção no ordenamento jurídico brasileiro da Convenção 169 da Or-
ganização Internacional do Trabalho (OIT), da Convenção sobre a

13 Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indis-


solúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[...]
III - a dignidade da pessoa humana;
[...]
V - o pluralismo político.

14 Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos


culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização
e a difusão das manifestações culturais.
§ 1º - O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas
e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório
nacional.

51
Promoção da Diversidade das Expressões Culturais e da Declaração
das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, que por
se tratarem de tratados internacionais de direitos humanos, possuem
natureza jurídica de supralegalidade, conforme entendimento do Su-
premo Tribunal Federal (BRASIL, 2014c)15.
Esse arcabouço positivo, com a Constituição da República e com
os diplomas legais internacionais mencionados, inaugura o processo
de reconhecimento do caráter plural e multiétnico do povo brasileiro,
confrontando-se com o arcaísmo jurídico e implicando no afastamen-
to de uma postura cristalizada, expressa através das “práticas jurídi-
cas”, abrindo outras possibilidades de interpretação jurídica que se
encontram para além desses esquemas jurídicos (SHIRAISHI NETO,
2006:28).
Com isso, há um reforço do processo histórico de emergência de
identidades coletivas, que já estava em curso, observado em movi-
mentos sociais através de novas formas de mobilização que revelam as
práticas jurídicas intrínsecas a povos e comunidades tradicionais e que
se apresentam enquanto instrumento de interlocução com o poder
público (ALMEIDA, 2006). Nesse desenho contemporâneo, Almeida
observa o desafio posto ao campo jurídico e aos seus operadores ao
afirmar que

Estes movimentos estão colocando na mesa de negociação


dos conflitos suas formas intrínsecas de uso comum dos recur-
sos naturais e as delimitações de suas territorialidades específicas,
exigindo seu reconhecimento jurídico-formal pelo Estado e re-
querendo de juízes, procuradores, advogados e demais operado-
res do direito, critérios de competência e saber adequados, que

15 No julgamento do Recurso Extraordinário n. 466.343-1/SP, em deci-


são histórica, o Supremo Tribunal Federal posicionou-se pela inconstitucionalidade
da prisão civil do depositário infiel e reconheceu a natureza de “norma supralegal”
dos tratados internacionais de direitos humanos no Estado Brasileiro.

52
relativizem noções pré-concebidas e etnocêntricas e que incorpo-
rem o fator étnico e a “diversidade cultural”. (ALMEIDA, 2006)

No caso em análise, essas práticas jurídicas dos povos e comunida-


des tradicionais surgem em confronto com as práticas jurídicas mo-
nistas, algumas positivadas em leis e outras apenas arraigadas dentro
do serviço público, onde há uma grande dificuldade em construir
uma nova interpretação a partir desse confronto.

1. O diálogo como instrumento de aproximação entre a política de


reconhecimento e de redistribuição
Charles Taylor (1994) alerta para o fato de que ao menos parte
da identidade é formada pela existência ou inexistência de reconheci-
mento, que muitas vezes se dá de maneira distinta ao auto-reconhe-
cimento de alguns grupos minoritários, como conseqüência de uma
imagem limitada, de inferioridade ou de desprezo por eles mesmos,
podendo causar graves prejuízos às pessoas pelas distorções criadas.
Para tanto, ele observa que a natureza dialógica da constituição das
identidades é fundamental, não apenas quando se opera internamente
nos indivíduos, mas também na relação entre os grupos (TAYLOR,
1994), sendo o diálogo entre as etnias minoritárias e o Estado, que
frequentemente é catalisador de uma cultura hegemônica, essencial
para suplantar as eventuais distorções.
Com efeito, a simples regularização fundiária, enquanto uma po-
lítica pública direcionada para permitir o acesso à terra ou para esta-
bilizar o domínio espacial de determinadas comunidades tradicionais
que a usam coletivamente, não pode ser apenas redistributiva, deve
ter elementos que a torne política de reconhecimento, que inevita-
velmente associe a identidade étnica com a territorial, sendo essencial
que esse processo se dê a partir do auto-reconhecimento dos grupos
beneficiados, que precisam ser ouvidos para que isso não ocorra de
maneira equivocada, como alerta Taylor.

53
O que está em jogo nesse processo de regularização fundiária de
comunidades tradicionais na Amazônia não é apenas uma política de
redistribuição, mas uma política de reconhecimento, ou seja, nos ter-
mos do dilema teorizado por Nancy Fraser (1997:249), a complexida-
de social revela que há em relação a essas comunidades uma “injustiça
socioeconômica, enraizada na estrutura político econômica da socie-
dade” e “uma injustiça cultural ou simbólica”, “arraigada a padrões
sociais de representação, interpretação e comunicação”.
Portanto, a reivindicação de acesso à terra e aos conseqüentes cré-
ditos de financiamento (política redistributiva) por si só não seriam
suficientes para atender a demanda dessas comunidades tradicionais,
posto que tal implementação a partir de modelos nacionalmente uni-
formes poderia conduzir a fragilização do auto-reconhecimento como
povo tradicional, ante as especificidades com que exercem a posse do
território (política de reconhecimento).
Não é por outra razão que esse processo se inicia a partir da mo-
bilização das comunidades em provocar a Procuradoria da República,
além de articular um grande número de participantes, tornando esse
protagonismo um dos fatores essenciais para a construção de um mo-
delo de política pública fundiária mais próximo da realidade viven-
ciada na tradicionalidade dos grupos extrativistas envolvidos, e não o
inverso, unindo reconhecimento e redistribuição.
Trata-se de um movimento que ocorre em toda a Amazônia, em
que o protagonismo não é mais exercido por uma entidade sindical,
como comum no passado recente, mas a partir de Associações que
incorporaram fatores étnicos, elementos de consciência ecológica e
critérios de autodefinição coletiva, alterando a maneira convencional
de pautar e de encaminhar demandas aos poderes públicos (ALMEI-
DA, 2008:25)
Infelizmente, neste caso, a participação da comunidade se operou
dentro de um espaço público consentido aos intérpretes (diretores de

54
associações) dos intérpretes (membros das comunidades), que de fato
é um limitador da ampla compreensão da realidade local, descrita ape-
nas pelos representantes da Associação Agroextrativista de Auti-Para-
ná - AAPA, da Associação de Moradores do Rio Unini – AMORU, da
Associação dos Produtores Rurais de Carauari - ASPPROC, da Asso-
ciação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Juruá – ASTRUJ,
da Associação dos Produtores de Jutaí – ASPROJU, da Associação
dos Trabalhadores Agroextrativistas do Médio Purus – ATAMP e do
Conselho Nacional de Populações Extrativistas (CNS), que tinham
que se deslocar até a cidade de Manaus.
Também participaram das discussões representantes da Procurado-
ria Geral do Estado do Amazonas (PGE/AM), do Ministério Público
Federal (MPF), do Instituto de Terras do Amazonas (ITEAM), do
Instituto de Educação do Brasil (IEB), da Comissão Pastoral da Terra
(CPT), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICMBio), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(INCRA), da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), do Programa
Terra Legal do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e do
Centro Estadual de Unidades de Conservação do Amazonas (CEUC),
no que ficou conhecido como “Diálogo Amazonas”.
Logo, é relevante registrar que, embora haja muitos avanços inter-
pretativos nas questões levantadas dentro desse espaço de discussão
da política pública fundiária, observa-se que ainda há a necessidade
de uma maior participação das comunidades nas escolhas políticas,
como observado pelo próprio Manuel Cunha, Coordenador Geral do
Conselho Nacional de Populações Extrativistas (CNS), ao enfatizar
que as unidades de conservação do tipo FLONA não são fruto de um
processo de luta social, como ocorre com a RESEX, mas um modelo
usado pelo poder público sem a participação das comunidades, o que
revela uma distorção da política de reconhecimento.
Manuel Cunha ainda, ao tratar da reivindicação de política redis-
tributiva, fez o registro de que a falta de regularização fundiária tem

55
conseqüências sobre a vida das pessoas que moram nas unidades de
conservação, já que sem ela não se obtêm os licenciamentos ambien-
tais para execução dos planos de manejo, não se tem acesso aos cré-
ditos fundiários para produção, além das dificuldades regionalizadas,
como a existência da figura dos “patrões” nas unidades do Juruá e do
Médio Purus, foco de violência e conflitos pelos recursos naturais.16
Assim, nesses encontros, ficou clara a grave situação do conflito
fundiário, além da especificidade do modo de exploração das comu-
nidades extrativistas, que através de planos de manejos aprovados pe-
los Conselhos Gestores das Unidades de Conservação, revelam uma
utilização coletiva dos imóveis, em harmonia com os ciclos ecológicos
dos animais e vegetais, utilizados pelas famílias para subsistência e
comercialização.
Dessa forma, essas peculiaridades foram balizas que permitiram
a tentativa de adequação dos instrumentos jurídicos para a realidade
local, de maneira que permitisse a manutenção da tradicionalidade
da ocupação, não como algo apenas construído coletivamente desde
o passado, mas como um modelo projetado para o futuro, agregado a
um grande potencial econômico ainda não percebido pelas políticas
públicas.
Para isso, foi necessário superar alguns supostos impedimentos
jurídicos e firmar alguns entendimentos que se afastassem de uma
perspectiva etnocêntrica e estivessem mais próximos dos instrumentos
locais das comunidades, garantindo o respeito pela sua integridade
física e cultural, e ao seu direito territorial, contribuindo para a in-
trojeção, em todos, da ideia de um Estado pluriétnico, como exige o
texto constitucional.
16 Cunha esclareceu que os “patrões” são pessoas que cobram a renda da
castanha, da seringa e de outros produtos extrativistas, deixando as comunidades
em uma situação análoga a de escravos, o que também foi confirmado por José
Maria, presidente da Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas do Médio Pu-
rus – ATAMP.

56
Do mesmo modo, como alerta Nancy Fraser (1997:272), foi ne-
cessária a cautela em equilibrar os “remédios de redistribuição e reco-
nhecimento” enquanto se buscavam soluções para as seguintes ques-
tões postas em debate:
1) Quais as Unidades de Conservação que admitem a manu-
tenção da presença humana caracterizada pela tradicionalidade do
modo de ocupação?
2) A Concessão do Direito Real de Uso seria o instrumento ju-
rídico mais adequado para a regularização fundiária coletiva? Estariam
atendidos os requisitos legais para sua implantação?
3) Haveria interesse social do Poder Público que justifique a
regularização fundiária? Qual seria seu papel dentro do processo his-
tórico em que se deu a constituição das comunidades tradicionais
para solucionar conflitos agrários e permitir o seu desenvolvimento
econômico?
4) Seria possível a Concessão do Direito Real de Uso de manei-
ra coletiva em favor e para uso exclusivo das famílias que compõem as
Comunidades Tradicionais através de suas Associações, a ser realizada
conjuntamente pelo Estado do Amazonas e pela União, nas áreas de
respectivos domínios?
5) Haveria a necessidade ou não de autorização do Congresso
Nacional para realização da Concessão do Direito Real de Uso em
áreas superiores a 2.500 hectares, como prevê o art.188, §1º da Cons-
tituição Federal?
6) Haveria a necessidade ou não de autorização da Assembleia
Legislativa para a Concessão do Direito Real de Uso para famílias cuja
área supere os 1.000 hectares, como exige o art.134, §7º, da Consti-
tuição do Estado do Amazonas?
7) Quanto à gratuidade e o período de concessão do direito
real de uso, o que seria minimamente adequado às necessidades de
desenvolvimento das comunidades tradicionais?

57
Todas essas questões foram exaustivamente debatidas nos encon-
tros do “Diálogo Amazonas”, cujas respostas foram consolidadas no
Parecer Jurídico nº47/2014, elaborador pela Procuradoria Geral do
Estado do Amazonas, com a contribuição de todos os participantes
dos encontros, as quais passam a ser comentadas especificamente nos
itens a seguir.

2. As unidades de conservação que admitem a manutenção da pre-


sença humana caracterizada pela tradicionalidade do modo de ocupação
A Constituição Federal (BRASIL, 2014a), a fim de tornar efetivo
o direito fundamental ao meio ambiente equilibrado enunciou no ca-
put do art. 225, como obrigação do poder público, dentre outras, a
de criação, em todas as unidades da federação, de espaços territoriais
especialmente protegidos, cuja alteração ou desafetação dependeriam
da edição de lei formal específica.
Embora o Estado do Amazonas tenha instituído seu próprio Sis-
tema Estadual de Unidades de Conservação (SEUC), estabelecendo
critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades
de conservação, através da Lei Complementar estadual nº 53/2007,
por trata-se de regularização fundiária em unidades de conservação
federais criadas sobre glebas estaduais, foi preciso considerar como
parâmetro legal a Lei federal nº 9.985/2000.
A mencionada Lei federal regulamentou o dispositivo constitucio-
nal citado e instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação
da Natureza (SNUC), elencando 12 (doze) categorias de manejo dis-
tintas, divididas em dois grupos: as Unidades de Proteção Integral e as
Unidades de Uso Sustentável (BRASIL, 2014d).
O grupo das Unidades de Conservação de Proteção Integral reú-
ne as categorias em que, a princípio, é vedada a utilização direta de
recursos naturais, sendo permitido apenas, conforme o caso, o desen-
volvimento de atividades de pesquisa científica, educação ambiental

58
e turismo ecológico. O objetivo desses espaços é a preservação dos
ecossistemas com o mínimo de intervenção antrópica.
O grupo das Unidades de Conservação de Uso Sustentável reúne
as categorias onde é possível o uso direto dos recursos naturais, desde
que de forma sustentável, dentro dos limites legalmente estabelecidos.
É neste grupo que estão as Florestas Nacionais e as Reservas Extrati-
vistas, onde se encontra a presença de grupos humanos, consequência
do processo de colonização do Estado do Amazonas.
No caso da Floresta Nacional, que somente pode ser criada em
áreas públicas, o art. 17 da Lei nº 9.985/00 a define como

uma área com cobertura florestal de espécies predominantemen-


te nativas e tem como objetivo básico o uso múltiplo sustentável dos
recursos florestais e a pesquisa científica, com ênfase em métodos
para a exploração sustentável de florestas nativas (BRASIL, 2014d).

Portanto, as Florestas Nacionais são criadas, tendo em vista as fi-


nalidades legalmente estabelecidas, como grandes laboratórios geridos
pelo Poder Público para o desenvolvimento de métodos que permi-
tam aos povos da floresta o uso sustentável dos recursos naturais, em
que haja o menor impacto possível, com um grau de aproveitamento
econômico que lhes garantam uma boa qualidade de vida.
Quanto à possibilidade de ocupação humana nessa categoria de
Unidade de Conservação de Uso Sustentável, o § 2º do art. 17 da Lei
nº 9.985/00 admite “a permanência de populações tradicionais que a
habitam quando de sua criação, em conformidade com o disposto em
regulamento e no Plano de Manejo da unidade” (BRASIL, 2014d).
Portanto, não resta qualquer dúvida quanto à viabilidade jurídica de
regularização fundiária em Florestas Nacionais, embora o seu modelo
e forma de criação sejam extremamente questionados pelas lideranças
das comunidades tradicionais.

59
No que se refere às Reservas Extrativistas, recorde-se que foram
previstas originalmente pelo art. 9°, VI, da Lei n° 6.938/81, na reda-
ção que lhe foi emprestada pela Lei n° 7.804/89, tendo sua criação e
gestão sido reguladas pelo Decreto nº 98.897/90. Atualmente, são
disciplinadas pelo art. 18 da Lei n° 9.985/00, que determina:

Art. 18 – A reserva extrativista é uma área utilizada por popula-


ções extrativistas tradicionais, cuja subsistência baseia-se no extra-
tivismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na
criação de animais de pequeno porte, e tem como objetivos básicos
proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o
uso sustentável dos recursos naturais da unidade (BRASIL, 2014d).

Ainda, nos termos do § 1° do art. 18, por ser a RESEX de domí-


nio público, o uso é concedido a partir da assinatura de contratos de
concessão de direito real de uso às populações tradicionais extrativis-
tas, exigindo desapropriação das áreas particulares incluídas em seus
limites.
É importante mencionar que a defesa desse modelo pelas Comu-
nidades Tradicionais, como se observou na fala de Manuel Cunha,
revela que a sua criação formal foi fruto na luta dos extrativistas da
Amazônia, com o objetivo conciliar a proteção ambiental e a sobrevi-
vência das identidades coletivas, física e culturalmente, já que depen-
dem diretamente de uma relação de equilíbrio com o meio ambiente
e com os recursos florestais para sobreviverem.
Portanto, não há qualquer impedimento ao Estado do Amazonas
e a União em realizar a regularização fundiária de famílias de comu-
nidades tradicionais em reservas extrativistas e em florestas nacionais,
posto ser essa a própria razão de ser dessas categorias de unidades de
conservação.
3. A concessão do direito real de uso como instrumento jurídico ade-
quado para a regularização fundiária e o atendimento aos requisitos le-
gais para sua implantação

60
É importante observar que a ocupação dessas terras públicas por
comunidades tradicionais remonta aos séculos XIX e XX, com o po-
voamento decorrente dos chamados ciclos econômicos da borracha,
caracterizados pela imobilização desses imigrantes pelo trabalho força-
do, que em verdade ocorreu em diversos momentos históricos.
Considerando essa informação, em verdade a regularização fun-
diária deveria até se dar através da entrega de títulos definitivos de
propriedade, que permitissem a esses homens e mulheres de coragem
invulgar e capacidade adaptativa surpreendente, a segurança jurídica
necessária para seu desenvolvimento social e econômico de maneira
coletiva.
Entretanto, como exposto acima, em decorrência da criação das
unidades de conservação federais sobre esses imóveis públicos esta-
duais, a expedição de títulos conduziria à privatização das terras, o
que não é admitido nas categorias de unidade de conservação do tipo
FLONA e RESEX, sem mencionar nos eventuais impactos disso na
organização comunitária.
Por essa razão, se concluiu que o instrumento jurídico adequado
seria a Concessão de Direito Real de Uso, prevista na Lei Estadual nº
2.754/2002 (AMAZONAS, 2014b), que regulamentou o art. 134 da
Constituição do Estado do Amazonas (AMAZONAS, 2014a), dis-
pondo sobre aquisição, destinação, utilização, regularização e aliena-
ção de bens imóveis de propriedade estadual.
Nos termos do art. 41, do referido diploma legal, o instituto da
concessão de direito real de uso, é previsto e caracterizado na seguinte
forma:

Art. 41 – Poderá ser instituído sobre imóveis domi-


nicais o direito de superfície ou a concessão real de uso,
como direito real resolúvel, a título gratuito ou onero-
so, por tempo certo, para fins de interesse social, tais
como industrialização, habitação, cultivo e urbanização.

61
§ 1º - Salvo disposição contratual em contrá-
rio, o direito real poderá ser transferido a terceiros, por
ato entre vivos ou por sucessão, assegurado o direi-
to de preferência ao Estado, em igualdade de condições.

§ 2º - Em caso de alienação do imóvel ou de trans-


ferência do direito real, o respectivo titular terá pre-
ferência para aquisição, em igualdade de condições.

§ 3º - Extinta a concessão, o Estado retomará a pro-


priedade plena sobre o terreno, construção ou plantação,
independentemente de indenização, se as partes não ti-
verem estipulado o contrário. (AMAZONAS, 2014b)

Logo, a concessão de uso, como direito real, diferencia-se dos de-


mais direitos reais sobre coisas alheias, porque o imóvel reverteria à
Administração Pública concedente se o concessionário ou seus suces-
sores não lhe desse o uso pactuado ou o desviasse de sua finalidade
contratual.
Com efeito, dada a especificidade do caso, os Termos ou Contra-
tos de Concessão previram cláusulas que impedem a negociação da
utilização das terras por terceiros, estranhos às comunidades ou que
de alguma forma venham a causar algum prejuízo ao modo de explo-
ração coletivo, evitando que haja uma tensão sobre as pessoas para
comercialização das terras.
Desse modo, o poder público e as comunidades tradicionais teriam
a garantia da fiel execução do contrato, assegurando o uso a que o
terreno é destinado e evitando as comuns e prejudiciais especulações
imobiliárias, que possam conduzir à expulsão das famílias beneficiá-
rias por grupos de grileiros que pretendam a aquisição dos imóveis
públicos, em detrimento da coletividade.
Embora a concessão de direito real de uso possa ser outorgada por
escritura pública ou por contrato administrativo, o Instituto de Terras

62
do Amazonas foi orientado a optar por essa segunda alternativa, pro-
movendo, ele próprio, a inscrição no livro do registro imobiliário do
Cartório competente, posto que tal ato, muitas vezes, pode ser extre-
mamente tormentoso para algumas comunidades distantes de Cartó-
rios e de parcos recursos financeiros.

4. Do interesse social – o processo histórico de formação das comu-


nidades tradicionais e a necessidade do estado do amazonas contribuir
com o processo de regularização fundiária dessas famílias para solucionar
conflitos agrários e permitir o seu desenvolvimento econômico
Como condição primeira para a outorga da concessão de direito
real de uso, está a demonstração de que se trata de uma hipótese de
interesse social, tal qual a industrialização, habitação, cultivo e urba-
nização, que são critérios eleitos pelo legislador e dispostos no art. 41,
caput da Lei 2.754/2002 (AMAZONAS, 2014b).
Esse rol da legislação estadual não pode ser considerado exaustivo
e a regularização fundiária como um elemento essencial para a mora-
dia digna, para o licenciamento ambiental, a instituição de planos de
manejo, acesso às linhas de crédito rural e segurança jurídica, revela,
indiscutivelmente, o interesse social para todas as esferas do poder
público.
Deve ainda ser observado que essa regularização fundiária caracte-
rizou-se como um processo inédito, em que se uniu em um mesmo
lado a Sociedade Civil Organizada, Comunidades Tradicionais, Mi-
nistério Público Federal, União e suas autarquias e órgãos, o Estado do
Amazonas com sua autarquia e órgãos, todos com o objetivo comum
de buscar estabelecer uma segurança jurídica à população rural tra-
dicional do interior do Estado e, ao mesmo tempo, proteger o meio
ambiente, abrindo caminho para a implantação e desenvolvimento de
uma política tecnológica voltada ao potencial econômico da Floresta
Amazônica.

63
Portanto, o que os poderes públicos buscam implementar é uma
regularização fundiária sem precedentes históricos, que foge do en-
gano de se imaginar que a Amazônia é uma imensa floresta tropical
desabitada, ou composta apenas por povos indígenas. Em verdade, os
chamados ciclos históricos do Estado demonstram apenas que houve
uma colonização a partir da imobilização de trabalhadores que vieram
em busca do prometido “eldorado”.
Assim, se durante os séculos XVI e XVIII a região amazônica não
representava atrativos à migração e aos colonizadores, a partir de me-
ados do século XIX, especialmente a contar do ano de 1827, surge o
interesse na Amazônia, e consequentemente na sua ocupação, com
a expectativa de lucro e de enriquecimento vinculado à exploração
da borracha, estando a formação cultural da Amazônia intimamente
ligada à colonização e à economia.
É nesse período que a imigração nordestina intensifica-se para o
Amazonas, sendo esses migrantes provenientes do agreste e do sertão
do Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e outros Esta-
dos nordestinos, todos denominados genericamente como “cearenses”
(BENCHIMOL, 2009), numa clara tentativa de homogeneização
de culturas distintas, que passam a ser distinguidos pela experiência
como mão de obra.
Assim, esses nordestinos, ao chegarem para trabalhar nos seringais
eram classificados como brabos (nordestinos novatos e inexperientes
nas operações de extração do látex) ou seringueiros (nordestinos in-
corporados ao seringal) (SANTOS & NOGUEIRA, 2002).
Apesar de não serem escravos, os seringueiros viviam em condição
análoga, na medida em que ficavam atrelados aos seringalistas por um
endividamento contínuo, gerando assim um vínculo eterno que não
permitia sua saída, muito menos qualquer ascensão social e econô-
mica, fenômeno social que ainda persiste nos relatos das lideranças
acerca da figura dos “patrões”.

64
A história tradicional via a migração nordestina como uma fon-
te de transformação no processo cultural da Amazônia, na medida
em que os caboclos, tidos numa perspectiva biológica da época, eram
apenas os descendentes do índio com o branco, adquirindo as mais
distintas e arbitrárias classificações como mulatos, zambo-cafuz e curi-
bocas (BATISTA, 2006).
Todavia, em meio a esses relatos históricos, algumas vezes supre-
macistas, percebe-se, no decorrer de toda a colonização, e ainda hoje,
a imensa diversidade cultural do povo amazônico, que conforme pa-
lavras de Benchimol (2009:182), foi se dando “por justaposição, su-
cessão, diferenciação, miscigenação, competição, conflito, adaptação,
por diferentes levas e contingentes de diversos povos, línguas, religiões
e etnias”.
Também no século XX, a partir do primeiro governo de Getú-
lio Vargas (1930), a ocupação da Amazônia ganha força, com o mo-
vimento denominado marcha para o oeste, cujas ações permitem a
compreensão da ocupação amazônica no século XX.
Todavia, independente do período histórico, que apenas marca a
ancianidade da ocupação, o que houve em comum com todos esses
migrantes e os povos locais, foi que tiveram que criar uma tecno-
logia própria para viver na selva amazônica, convivendo com povos
indígenas e as mais diversas adversidades ambientais da floresta, para
construir um modo próprio de vida, que se reproduz e se desenvolve,
agregando a comunidade nos momentos de conflito em torno de uma
identidade coletiva, caracterizando a tradicionalidade da ocupação.
Ocorre o que Almeida (2008:29) denomina de “territorialidades
específicas”, como resultantes de diferentes processos sociais de terri-
torialização, delimitando dinamicamente as terras de pertencimento
coletivo que convergiram para um território. Assim, para além de um
vínculo histórico, a tradicionalidade da posse dessas comunidades é

65
que legitima o seu direito e o interesse social do poder público, como
observa Almeida, ao perceber que

a noção de “tradicional” não se reduz à história, nem tão


pouco a laços primordiais que amparam unidades afetivas, e
incorpora as identidades coletivas redefinidas situacionalmen-
te numa mobilização continuada, assinalando que as unida-
des sociais em jogo podem ser interpretadas como unidades
de mobilização. O critério político-organizativo sobressai
combinado com uma “política de identidades”, da qual lan-
çam mão os agentes sociais objetivados em movimento para
fazer frente aos seus antagonistas e aos aparatos de estado.
Aliás, foi exatamente este fator identitário e todos os ou-
tros fatores a ele subjacentes, que levam as pessoas a se agru-
parem sob uma mesma expressão coletiva, a declararem seu
pertencimento a um povo ou a um grupo, a afirmarem uma
territorialidade específica e a encaminharem organizadamen-
te demandas face ao Estado, exigindo o reconhecimento de
suas formas intrínsecas de acesso à terra, que me motivaram a
refletir novamente sobre a profundidade de tais transforma-
ções no padrão “tradicional” de relações políticas (2008:30).

Eis, então, o interesse social no processo de regularização fundiária,


ao qual se agrega uma política de redistribuição e reconhecimento em
sintonia com o auto-reconhecimento das comunidades e lhes garante
o direito territorial, além de revelar o grande potencial tecnológico
e econômico, que não diz respeito apenas à utilização extrativista da
Floresta, como se imagina no senso comum, mas as diversas parcerias
que essas comunidades realizam, inclusive com setores da economia.17
17 Cabe registrar que a ocupação tradicional dessas comunidades revelam
a utilização da terra para a produção agrícola, não apenas de subsistência mas abas-
tecendo a feiras locais e da capital amazonense, a exemplo da farinha. Observam-
-se ainda atividades pesqueira e de coleta, as quais também se inserem em outras
cadeias produtivas, como os contratos realizado com a Natura Ekos, que utiliza 14
ativos da biodiversidade brasileira, cujo fornecimento e repartição de benefícios já
geraram recursos de mais de R$ 20 milhões.

66
Considerando tudo isso, há na Lei estadual nº 3.804/2012 um
grande avanço nessa perspectiva ao eleger em seu art.1º, que a regu-
larização fundiária das terras situadas em áreas de domínio do Es-
tado do Amazonas visa prioritariamente à proteção às comunidades
tradicionais.
5. A possibilidade de concessão do direito real de uso coletiva em favor,
exclusivamente, das famílias que compõem as comunidades tradicionais
através das associações, conjuntamente pelo estado do amazonas e pela
união.
Um dos pleitos dos representantes das Comunidades Tradicionais
era que as concessões de direito real de uso, embora dissessem respei-
to aos núcleos familiares que compõem as respectivas comunidades,
fossem realizadas através de um único termo em nome da Associação
“mãe” dos moradores das unidades de conservação.
A preocupação das Comunidades era de fato procedente, uma vez
que a exploração econômica das Reservas Extrativistas e das Flores-
tas Nacionais somente ocorre através de planos de manejo, aprovados
pelo Conselho Gestor das unidades e pelos órgãos ambientais. Assim,
realizar a concessão individual permitiria a desagregação da comuni-
dade, abrindo espaço para a negociação das áreas concedidas individu-
almente, o que conduziria destruição de um modelo historicamente
construído e harmonioso.
Não bastasse isso, comportaria a coação individual de membros da
comunidade por grileiros ou terceiros interessados nas riquezas natu-
rais da floresta, como se observa nos casos de biopirataria de produtos
que hoje são utilizados pela indústria europeia e norte-americana de
fármacos.
Também é relevante observar que aqui não se está pretendendo
uma Concessão de Direito Real de Uso à pessoa jurídica para a re-
gularização fundiária excepcional, nos termos dos arts.18 e 22 da Lei
3.804/12 (AMAZONAS, 2014c), como foi confundido em alguns

67
momento nas reuniões do “Diálogo Amazonas”. Importante esclare-
cer que essa previsão legal destina-se às sociedades empresárias, com
fim de incremento da atividade industrial e não às associações de co-
munidades tradicionais.
Em verdade, a Concessão de Direito Real de Uso realizada através
de um instrumento coletivo, pretende regularizar a situação jurídica
de cada uma das famílias que se reconhecem como pertencentes às
comunidades tradicionais, e assim são reconhecidas, sendo os critérios
de concessão avaliados de acordo com cada família individualmente,
cuja exploração está vinculada ao modo coletivo consagrado através
do plano de manejo, como exige o art.14 da Convenção 169 da OIT:

1. Dever-se-á reconhecer aos povos interessados os direi-


tos de propriedade e de posse sobre as terras que tradicional-
mente ocupam. Além disso, nos casos apropriados, deverão
ser adotadas medidas para salvaguardar o direito dos povos
interessados de utilizar terras que não estejam exclusivamen-
te ocupadas por eles, mas às quais, tradicionalmente, te-
nham tido acesso para suas atividades tradicionais e de sub-
sistência. Nesse particular, deverá ser dada especial atenção
à situação dos povos nômades e dos agricultores itinerantes.

2. Os governos deverão adotar as medidas que se-


jam necessárias para determinar as terras que os povos
interessados ocupam tradicionalmente e garantir a pro-
teção efetiva dos seus direitos de propriedade e posse.

3. Deverão ser instituídos procedimentos adequados no âm-


bito do sistema jurídico nacional para solucionar as reivindicações
de terras formuladas pelos povos interessados. (BRASIL, 2014b)

Portanto, o Termo de Concessão do Direito Real é destinado a cada


família beneficiada, que estará representada pela Associação de mora-
dores que tem assento no Órgão Gestor da Unidade de Conservação,

68
o que apenas qualifica como coletiva a concessão e adequa-se ao modo
tradicional de vida comunitária.
Assim, é imperioso registrar que os moradores das Unidades de
Conservação estão livres para se associar ou não às associações que
representam as comunidades tradicionais, não impedindo essa escolha
que sejam beneficiados pela concessão de uso.
Entretanto, a exploração e uso da terra, que é destinado exclusi-
vamente aos moradores das Unidades de Conservação, estão condi-
cionados aos parâmetros estabelecidos no plano de manejo, sob pena
de serem responsabilizados civil e criminalmente por eventuais danos
causados ao meio ambiente, além de estarem sujeitos as eventuais san-
ções da organização social a que pertencem.
Neste item, cabe ainda uma consideração acerca da proposta apre-
sentada pelos representantes da Procuradoria da República no que se
refere às áreas de terras, dentro da gleba estadual, que são de pro-
priedade da União, uma vez que o art.20, inciso III da Constituição
Federal de 1988, estabelece que são bens da União

os lagos, rios e quaisquer correntes de água em terre-


nos de seu domínio, ou que banhem mais de um Estado,
sirvam de limites com outros países, ou se estendam a ter-
ritório estrangeiro ou dele provenham, bem como os ter-
renos marginais e as praias fluviais (BRASIL, 2014a).

Embora anterior, mas ainda vigente, o Decreto-Lei nº 9.760/46,


estabelece, em seu art. 1º, que se incluem entre os bens imóveis da
União:

a) os terrenos de marinha e seus acrescidos; b) os terrenos


marginais dos rios navegáveis, em Territórios Federais, se, por
qualquer título legítimo, não pertencerem a particular; c) os ter-
renos marginais de rios e as ilhas estes situadas na faixa da fron-
teira do território nacional e nas zonas onde se faça sentir a

69
influência das marés; d) as ilhas situadas nos mares territoriais ou
não, se por qualquer título legítimo não pertencerem aos Estados,
Municípios ou particulares; e) a porção de terras devolutas que
fôr indispensável para a defesa da fronteira, fortificações, cons-
truções militares e estradas de ferro federais (BRASIL, 2014e).

Não é por outra razão que a Secretaria de Patrimônio da União –


SPU possui um Programa de Regularização Fundiária em áreas de vár-
zea, que através da entrega do Termo de Autorização de Uso (TAU),
promove o reconhecimento da posse das comunidades ribeirinhas
(Portaria n° 89, de 15 de abril de 2010).
Portanto, as várzeas federais, os acrescidos marginais de rios fede-
rais, as ilhas federais e rios estaduais e sua ilhas fluviais com influência
de maré, dentre outras, são áreas de domínio da União, ainda que
dentro de imóveis de propriedade do Estado do Amazonas.
Desta feita, não haveria qualquer impedimento jurídico para que
a regularização fundiária fosse realizada através de um mesmo instru-
mento, que é o Termo/Contrato de Concessão, no qual a União e o
Estado do Amazonas autorizem a utilização dos respectivos imóveis
públicos que lhes pertençam e são contíguos.
Aliás, em verdade, a regularização fundiária dessas comunidades
através de uma ação conjunta entre os órgãos federais e estaduais é
uma decorrência necessária do princípio constitucional da eficiência,
previsto no art.37 da Constituição Federal (BRASIL, 2014a), já que o
Estado e a União integram o mesmo Estado federal.

6. A necessidade ou não de autorização do congresso nacional para re-


alização da concessão do direito real de uso para famílias cujas áreas supe-
rem os 2.500 hectares, como prevê o art.188, §1º da Constituição Federal
Nas diversas reuniões do “Diálogo Amazonas”, um dos temas ju-
rídicos mais debatidos foi a exigência de autorização do Congresso

70
Nacional para a concessão de terras públicas prevista no art.188, §1º,
da Constituição Federal, segundo o qual

a alienação ou a concessão, a qualquer título, de terras públi-


cas com área superior a dois mil e quinhentos hectares a pessoa
física ou jurídica, ainda que por interposta pessoa, dependerá
de prévia aprovação do Congresso Nacional. (Brasil, 2014a)

É relevante registrar que a incidência dessa norma só ocorre por


conta de um equívoco na compreensão da concessão de direito real
de uso dentro de um processo de regularização fundiária, em que a
associação dos moradores os representa no Termo de Concessão em
decorrência da especificidade da exploração, mas não é ela a benefici-
ária do direito de usar a terra.
Ou seja, não se está concedendo áreas acima dos limites constitu-
cionais a uma única pessoa, no caso a pessoa jurídica da Associação
dos extrativistas, mas a individualidade de cada núcleo familiar, cuja
exploração é regulada pelo plano de manejo, cuja elaboração conta
com a participação de todos os membros do Conselho Gestor, inclu-
sive do Estado do Amazonas através do IPAAM.
Portanto, a autorização do Congresso Nacional somente seria ne-
cessária caso alguma das famílias beneficiadas recebesse uma área su-
perior ao limite de 2.500 hectares de terra, o que não é interessante
para nenhum desses núcleos familiares, pois, caso a área esteja superior
a 04 (quatro) módulos fiscais, isso os impediria de ter acesso à linha
de crédito do Pronaf Floresta, como prevê o art.3º da Lei 11.326/06:

Art. 3º Para os efeitos desta Lei, considera-se agricultor fami-


liar e empreendedor familiar rural aquele que pratica atividades no
meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos:

I - não detenha, a qualquer título, área maior do


que 4 (quatro) módulos fiscais; (BRASIL, 2014f )

71
Considerando que a extensão do módulo fiscal varia de 5 a 110
hectares, dependendo da localização do município em que está situa-
do imóvel rural, conclui-se que as concessões não irão exceder a 440
hectares de terra por família, o que torna desnecessária a preocupação
com o limite constitucional.
Ainda sim, apenas para uma compreensão da aplicação desse limite
constitucional e da interpretação que o próprio Congresso Nacional
faz da norma, vale mencionar os Pareceres Jurídicos da Comissão Par-
lamentar de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento
Rural, bem como da Comissão Parlamentar de Meio Ambiente e De-
senvolvimento Sustentável, segundo as quais é desnecessária a autori-
zação do Legislativo para regularização fundiária em unidade de con-
servação de uso sustentável, como se observa na transcrição abaixo:

Nesse sentido, a questão quer nos parecer de fácil solução,


uma vez que depende, tão somente, do perfeito enquadramen-
to na esfera do Direito Agrário da atividade extrativista. Nesse
sentido, nossos doutrinadores são unânimes em confirmá-la
como atividade típica agrária. Veja-se, entre outros, Raymun-
do Laranjeira (Propedêutica do Direito Agrário - São Paulo,
LTr, 1975, pag. 39), Fernando Pereira Sodero (Extrativismo
Vegetal e Animal, in Enciclopédia Saraiva de Direito – Direi-
to Agrário) e Gizelda Novaes Hironaka (Atividade Extrativa
– Parte Especial in Revista de Direito Civil, nº 34, pag. 85).
Deste precioso trabalho da insigne mestra da Universida-
de de São Paulo anotamos e transcrevemos o seguinte trecho:

O extrativismo é a atividade desempenhada pelo rurícola ou


extrator, consistente na simples coleta, recolhida, extração ou cap-
tura de produtos do reino animal ou vegetal, espontaneamente ge-
rados e em cujo ciclo biológico não houve intervenção humana.....

Sodero, a seu turno, entende que o “extrativismo, que pode


ser animal ou vegetal, implica coleta de frutos ou produtos desses

72
dois reinos da natureza, quando não há ativa participação do ru-
rícola no processo agrobiológico de produção, ou seja, quando se
desenvolve em floresta nativa ou animais não domesticados.....”

À luz desse conceito, é válido relembrar o posicionamento fir-


mado na Parte Geral deste trabalho (in Revista de Direito Civil, nº
33, pag. 67), no capítulo relativo à classificação da atividade agrá-
ria, segundo o qual a atividade extrativa vegetal ou animal se faria
presente em tal quadro, a exibir-se ora como atividade acessória,
em perfeita convivência com a atividade produtiva, esta agrária
por excelência, ora como atividade principal propriamente dita.

Apesar de não haver uma interferência direta do ho-


mem nos momentos antecedentes à germinação ou ao nas-
cimento, nem mesmo nos momentos subseqüentes de todo
o ciclo biológico de maturação do produto ou do animal, a
mera atividade de extração ou captura há de ser considera-
da agrária, já que se trata, de qualquer forma, de uma pro-
dução da terra, do agro de caráter indiscutivelmente rural.”
No que se refere ao direito positivo, são inúmeras as leis
que, de forma clara, inserem a atividade extrativista no rol da-
quelas tipicamente agrárias. Entre elas, basta citar, para não
voltar muito no tempo: Lei 4.504, de 1964 (Estatuto da Ter-
ra) em seus artigos: 4º, item I; 14; 24 item III; Decreto nº
59.428/66; Decreto nº 59.566/66 e, mais recentemente, a
Lei nº 8.629/93, conhecida com Lei Agrária, que regulamen-
ta os dispositivos constitucionais relativos à reforma agrária.

Para que não paire dúvida quanto à tipicidade da ati-


vidade extrativista como atividade agrária, há que se
partir do conceito mesmo de reforma agrária, nos ter-
mos ditados pelo Estatuto da Terra. Se não, vejamos:

“Art. 1º Esta Lei regula os direitos e obrigações con-


cernentes aos bens imóveis rurais, para fins de execu-
ção da Reforma Agrária e promoção da Política Agrícola.

73
§ 1º Considera-se Reforma Agrária o conjunto de medidas que
visem a promover melhor distribuição da terra, mediante modifi-
cações no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios
de justiça social e ao aumento de produtividade.” (grifo nosso)

Analisando o dispositivo transcrito, temos que


a reforma agrária se faz mediante modificações:

a) - NO REGIME DE POSSE DA TERRA: nesse sen-


tido, a criação da Reserva Extrativista Jaci-Paraná e sua con-
seqüente implantação pelo Estado de Rondônia, interferi-
rá objetivamente no regime de posse vigente, uma vez que
sairá da posse da União para a posse das famílias de trabalha-
dores rurais que vivem da atividade extrativista. A terra pas-
sará, sob o título de concessão de uso, para o Estado e deste
para o uso de vários, atendendo, assim, a um dos objetivos
da reforma agrária, que é uma melhor distribuição da terra;

b) - NO REGIME DE USO DA TERRA: também aqui


a cessão da área para criação da Reserva Extrativista Jaci-Pa-
raná interferirá objetivamente no regime de USO DA ÁREA
CONFIGURADA, uma vez que não somente restringirá ao
extrativismo as atividades a serem desenvolvidas, como, tam-
bém, eliminará a ociosidade que, certamente, acontece em
partes dessa imensa área. Anotação extremamente importan-
te e oportuna cabe neste momento: a de que a atividade ex-
trativista a ser desenvolvida deixa de ser considerada acessó-
ria para ser elevada à condição de atividade agrária principal.

Feitas essas considerações, acreditamos poder inferir que a


concessão da área em referência para a criação da citada Reser-
va Extrativista Jaci-Paraná terá como resultado final um con-
junto de atos que objetivam promover uma melhor distribui-
ção das terras que a integrarão, mediante modificações no seu
regime de posse e uso. Em síntese, que estamos diante de atos
típicos de reforma agrária. Mais do que isso, com a concessão
de uso dessas terras ao Estado de Rondônia para a criação de

74
reserva extrativista, está-se dando cumprimento ao mandamento
constitucional ínsito no art. 188, que permitimos transcrever:
“Art. 188 A destinação de terras públi-
cas e devolutas será compatibilizada com a políti-
ca agrícola e com o plano nacional de reforma agrária.”

Releva anotar que, na esteira desse mandamento constitucio-


nal, o Governo Federal lançou o II Plano Nacional de Refor-
ma Agrária, onde figura como um de seus programas básicos
exatamente a “Reserva Extrativista e o Assentamento Florestal”.

Por todo o exposto, e com apoio na doutrina e no direito


positivo acima expostos, concluímos que a concessão de uso de
112.839,6360 hectares de terras públicas ao Estado de Rondô-
nia, para criação da Reserva Extrativista Jaci-Paraná no Estado de
Rondônia, não depende de autorização do Congresso Nacional,
nos termos claros e precisos do § 2º do art. 188 de nossa Carta
Magna, bastando para a concretização do negócio jurídico, a as-
sinatura de contrato entre o INCRA e o Estado de Rondônia.

Assim, entendendo que a concessão de uso nos termos


e finalidade apontados se circunscreve dentro do poder dis-
cricionário do Executivo, dispensando, portanto, a mani-
festação do Congresso Nacional, VOTO pela devolução do
presente processo à Mesa desta Casa para que, nos termos re-
gimentais, encaminhe nosso posicionamento ao Executivo.
Sala da Comissão, em 23 de novembro de 2006.
Deputado Dr. Rodolfo Pereira
Relator (BRASIL, 2006)”

Portanto, observa-se que por tratar-se de beneficio destinado à re-


gularização de núcleos de famílias rurais, a exigência de autorização do
Congresso Nacional não seria necessária nem na hipótese de alguma
das famílias obter o uso de uma área superior a 2.500 hectares, posto
tratar-se de modalidade de reforma agrária nos termos do Congresso
Nacional.

75
7. A necessidade ou não de autorização da Assembleia Legislativa
para a concessão do direito real de uso para famílias cuja área supere os
1.000 hectares, como exige o art. 134, §7º da Constituição do Estado do
Amazonas
No tocante à autorização legislativa, a Constituição do Estado do
Amazonas, no art.134, §7º, prevê a sua necessidade no caso de alie-
nação ou a concessão, a qualquer título, de terras públicas com áreas
superiores a mil metros quadrados, se urbana, e mil hectares, se rural,
a pessoa física ou jurídica.
Essas normas da Constituição Estadual estão regulamentadas pelo
art. 37 da Lei nº 2.754, de 29/10/2002, segundo o qual:

Art. 37 - A concessão, a qualquer título, de terras públi-


cas com área superior a mil metros quadrados, se urbana, e
a mil hectares, se rurais, deverá ser autorizada pela Assem-
bléia Legislativa e, em qualquer caso, quando superior a dois
mil e quinhentos hectares, dependerá, ainda, de aprova-
ção prévia do Congresso Nacional. (AMAZONAS, 2014b)

Entretanto, no presente caso aplica-se o mesmo raciocínio do item


anterior, quando se tratou dos limites da Constituição Federal, ou
seja, não se trata da hipótese de conceder área de terras superiores
aos limites constitucionais sem autorização, mas apenas dentro dos
limites previstos para cada uma das famílias cadastradas no plano de
manejo dos conselhos gestores das unidades de conservação.
Assim, as áreas objeto de concessão de direito real de uso não po-
derão ultrapassar os limites de 1.000 hectares por família, mesmo por-
que, permitindo assim a regularização fundiária sem necessidade de
autorização da Assembleia Legislativa, já que não se está dispondo de
área superior ao limite permitido.

76
Mais uma vez recorda-se que para ter acesso ao Pronaf Floresta, as
famílias deverão representar isoladamente menos que quatro módu-
los fiscais, que no Amazonas não alcança os 500 hectares por núcleo
familiar.
8. Quanto à gratuidade e ao prazo de concessão do direito real de uso
adequado a necessidades de desenvolvimento das comunidades tradicionais
No que se refere à gratuidade da concessão do direito real de uso, o
art.33 da Lei estadual nº 2.754/2002 dispõe que “a outorga da utiliza-
ção, quando relacionada a atividades de fins lucrativos, será onerosa e,
sempre que houver condições de competitividade, observará os proce-
dimentos licitatórios previstos em lei.” Entretanto, no presente caso,
não havia direcionamento para atividades com fins lucrativos nem
possibilidade de realização de procedimento licitatório.
Também não haveria que se falar em concessão onerosa, posto que
o art.12 da Lei 3.804/12 (AMAZONAS, 2014c) só admite a cobran-
ça de regularização em áreas inferiores a 1.000 hectares no caso de não
enquadramento da família rural como de baixa renda, o que não é o
caso das comunidades tradicionais extrativistas.
Quanto ao prazo, considerando que a Concessão de Direito Real
de Uso é o contrato administrativo pelo qual o poder público confere
ao particular o direito real resolúvel de uso de um imóvel público e
que um dos principais objetivos da regularização fundiária é permitir
o aproveitamento sustentável das várzeas e a preservação das comuni-
dades tradicionais e seus meios de subsistência, mostra-se inviável a
concessão de uso por um prazo exíguo ou determinado.
Observou-se que durante as reuniões do “Diálogo Amazonas”,
enquanto as Comunidades e o Ministério Público Federal reivindi-
cavam a concessão da terra pública por um prazo de 50 (cinquenta)
anos, o ITEAM, por uma leitura equivocada do art.10, inciso III, da
Lei 3.804/12, defendia a concessão por um prazo de 05 (cinco) anos
(AMAZONAS, 2014c).

77
A proposta do ITEAM foi superada pelo esclarecimento de que o
art.10, inciso III, da Lei 3.804/12 (AMAZONAS, 2014c) estabele-
ce como requisito para realização da regularização fundiária o prazo
mínimo de ocupação de 05 (cinco), e não um prazo máximo para a
concessão.
Entretanto, manter um prazo determinado em anos e não condi-
cionado a exploração, a partir de uma interpretação literal da legisla-
ção, teria criado situações esdrúxulas, que ao invés de promover uma
segurança jurídica e permitir o encorajamento para o investimento em
suas atividades, criaria um total desinteresse ante a imprevisibilidade
de manutenção nas áreas.
A situação seria ainda mais incoerente em se tratando de comu-
nidades tradicionais, cuja ocupação da área se deu há mais de um
século, e a sobrevivência não foi garantida pelo Poder Público, mas
pela criação de um modo de vida próprio, o qual também se pretende
proteger a partir da regularização fundiária em Unidades de Conser-
vação de Uso Sustentável.
Portanto, é importante compreender a regularização fundiária
em terras públicas a partir do binômio tensivo “imprescritibilidade-
-função social”. A imprescritibilidade porque as terras públicas não se
podem usucapir, de outro lado, a necessidade de imposição de uma
função social, já que são ocupações consolidadas de terras públicas,
que reclamam algum modo de titulação (AMADEI, 2013).
Assim, a regularização fundiária em terras públicas, com a conces-
são de direito real de uso, surge a partir da impossibilidade de usuca-
pião sobre esses imóveis, não sendo por outro motivo que os requisitos
previstos na prescrição aquisitiva são exatamente os mesmos previstos
a Lei Estadual para a concessão do imóvel de domínio público, inclu-
sive a permanência mínima de 05 anos, o que leva ao equívoco de se
realizar concessões com esse exíguo prazo.

78
Não fosse tal suficiente, a própria Constituição Federal de 1988
prevê no art.188, caput, que “a destinação de terras públicas e de-
volutas será compatibilizada com a política agrícola e com o plano
nacional de reforma agrária” (BRASIL, 2014a), cujo trecho relativo
à regularização fundiária em Reservas Extrativistas, abaixo transcrito,
dispõe da necessidade de fixação dessas comunidades e da proteção de
seus modos de vida:

As Reservas Extrativistas foram criadas pelo Ministério do


Meio Ambiente e expressam o reconhecimento e a incorpora-
ção pelo Estado de uma experiência bem sucedida implantada
pelos povos da floresta, um amplo universo de trabalhado-
res rurais que vivem de atividades e condições diferenciadas.

Estima-se que cerca de 100 mil seringueiros e 60 mil pessoas


vivam da extração da castanha. As quebradeiras de côco de ba-
baçu comporiam um universo de cerca de 300 mil pessoas nos
estados do Tocantins, Maranhão, Pará e Piauí. Estima-se, ainda,
para a região Amazônica, a existência de cerca de 700 mil agri-
cultores familiares com distintas situações de domínio da terra.

Depois destas áreas serem reconhecidas e cadastra-


das pelo INCRA, este segmento da população rural pas-
sa a ter acesso ao crédito do Pronaf e às demais políti-
cas de infra-estrutura social aplicadas aos assentamentos.

Além das Reservas Extrativistas, o reconhecimento das espe-


cificidades dos biomas e a necessidade de não se repetir políticas
fundiárias mal sucedidas na região amazônica levou o governo
federal a propor a criação de um novo modelo de assentamento
nessa região. O assentamento florestal destinado às populações
tradicionais baseia-se num compromisso com a sustentabilida-
de ambiental e com a viabilidade econômica, que corresponde
à implementação de atividades sustentáveis de exploração dos
recursos florestais. O objetivo é identificar alternativas para o
uso dos recursos naturais nos assentamentos, principalmente nos

79
biomas da Amazônia, do Cerrado e da Caatinga. A exploração
da floresta natural poderá associar-se a sistemas agroflorestais
para o atendimento das necessidades de subsistência das famílias.

O Assentamento de Produção Florestal Sustentável, em base


familiar e comunitária – de interesse social, econômico e ambien-
tal –, é um compromisso do governo federal e uma prioridade
do Plano Nacional de Reforma Agrária (BRASIL, 2005:30).

Isso demonstra, portanto, que a regularização fundiária das terras


públicas através da Concessão de Direito Real de Uso deve ser lastre-
ada, necessariamente, sobre duas ideias-fontes: a do equilíbrio susten-
tável aplicado às terras públicas e a da segurança jurídica (AMADEI,
2013).
O equilíbrio sustentável aplicado às terras públicas é a razão jurídi-
ca desse instrumento de regularização, na medida em que concilia ou
equilibra o binômio tensivo “imprescritibilidade-função social” das
áreas públicas de ocupação consolidada e, assim, atende à necessidade
de titulação de ocupantes de áreas públicas, que não são suscetíveis de
usucapião, no quadro maior da função social (ou socioambiental) da
propriedade (AMADEI, 2013).
A segurança jurídica, na medida em que os apontados instrumen-
tos respondem à expectativa de estabilização da situação jurídica dos
ocupantes perante o Poder Público e aos terceiros em geral (AMA-
DEI, 2013). Do ponto de vista do Estado do Amazonas, não haveria
qualquer preocupação quanto ao seu patrimônio imobiliário, uma vez
que essas terras jamais saíram do seu domínio.
Desta feita, estabelecer um limite temporal a uma utilização que
não é recente e muito menos temporária, é tornar a regularização nati
morta e desinteressante para as comunidades rurais, que permanece-
rão sob a insegurança de suas posses, mantendo-se presas a luta pela
terra, enquanto poderiam avançar para uma discussão acerca da pro-
dução e geração de riqueza.

80
Assim, observa-se que a Concessão de Direito Real garante o di-
reito à moradia integral, que não se resume a apenas um teto e quatro
paredes, mas ao direito de ter acesso a um lar e a uma comunidade
seguros para viver em paz, dignidade e saúde física e mental, não sen-
do por outra razão que a Lei estadual n.º 3.804/12, em seu art. 1.º
(AMAZONAS, 2014c), estabelece que a regularização fundiária das
terras situadas em áreas de domínio do Estado do Amazonas visa à
criação de projetos de assentamentos e à proteção às comunidades
tradicionais.
Portanto, o “tempo certo” previsto no art.75, §1º da Lei Com-
plementar 53/2007, deve ser interpretado como uma referência ao
art.10, inciso III, da Lei 3.804/12 (AMAZONAS, 2014c), o qual es-
tabelece como requisito para realização da regularização fundiária o
prazo mínimo de ocupação de 05 (cinco), o qual deve ser verificado
não apenas em relação às Comunidades em Unidades de Conservação,
mas também, em regularizações fundiárias com agricultores rurais.
Acrescenta-se a isso, o fato de que, com o limite de 04 (quatro)
módulos fiscais por família, haverá em muitas Unidades de Conser-
vação áreas que poderão permitir o crescimento do quadro de bene-
ficiados, o que deverá ser avaliado pela própria Comunidade e pelo
Conselho Gestor, considerando sempre a utilização coletiva da terra
exclusivamente pelos membros das comunidades tradicionais, através
do plano de manejo e do controle ambiental realizado pelo ICMbio.

9 Conclusão
A análise desse caso demonstra que à interpretação do direito po-
sitivo deve-se aplicar a ideia de Foucault (1968:17) de que “é preciso
se libertar de todo um jogo de noções que estão ligadas ao postulado
de continuidade”, principalmente considerando todo o histórico de
colonização onde foram se constituindo o sistema jurídico nacional,

81
como um reflexo da Europa, sem observar as diversidades locais, que
conduziram para as distorções das políticas públicas.
Assim, como na Inglaterra do século XVIII, descrita por Thomp-
son (1998), as práticas tradicionais das comunidades rurais amazô-
nicas muitas vezes são criações relativamente recentes e representam
reivindicações de novos “direitos”, que não mais decorrem de estru-
turas institucionalizadas, como sindicatos ou partidos políticos, e
nem ligados ao modo de produção capitalista, mas através do auto-
-reconhecimento de identidades étnicas e da exigência dos direitos
que decorrem dessa afirmação identitária.
Com essa política de regularização fundiária apresentada, o poder
público, ainda que em um caso eventual e isolado, tenta garantir a se-
gurança jurídica dessas comunidades em pleno acordo com o disposto
na Convenção 169 da OIT (BRASIL, 2014b), sobre Povos Indígenas
e Tribais, segundo a qual “os governos deverão assumir a responsabili-
dade de desenvolver, com a participação dos povos interessados, uma
ação coordenada e sistemática com vistas a proteger os direitos desses
povos e a garantir o respeito pela sua integridade.”
Com isso, busca-se um rompimento com a continuidade do di-
reito aplicado, estabelecendo novas relações entre comunidades tra-
dicionais e o poder público em um esforço, ainda que incipiente, de
fazer com que essas minorias sejam apenas demográficas, mas não
mais políticas.

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83
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Submete à apreciação do Congresso Nacional proposta de cessão de
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Gleba Capitão Silvio, com a finalidade de implantação da Reserva
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diretrizes para a formulação da Política Nacional da Agricultura Fa-
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85
86
utiliZaÇÃo de Área verde urbaNa por
povos e CoMuNidades tradiCioNais eM
MaNaus: pluriCulturalisMo e ÉtiCa
aMbieNtal

Fabiano Buriol

Analisaremos neste capítulo a problemática envolvida na utilização


de área verde localizada na zona urbana de Manaus, Amazonas, por
integrantes de Povos Tradicionais de Matriz Africana.
O Pai de Santo Alberto Jorge Silva, representante da Associação
de Desenvolvimento Sócio-Cultural Toy Badé – ATB, filiada à Arti-
culação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz
Africana – ARATRAMA, requereu ao Estado do Amazonas18 a regu-
lamentação da utilização da área, tanto para protegê-la da especulação
imobiliária, quanto para que seja assegurada a sua utilização por po-
vos e comunidades tradicionais. Afirma que essa área é fundamental
para a manutenção da identidade e diversidade cultural inerente aos
18 Em que pese o requerimento tenha sido dirigido ao Estado do Amazo-
nas, ainda está sendo investigada a propriedade da área verde, a qual pode pertencer
a outro Ente Federativo.

87
Povos Tradicionais de Matriz Africana. Porém, conforme veremos, o
importante valor ecológico da área poderá justificar a impossibilidade
de intervenção humana.
No estudo do caso aborda-se inicialmente a definição de “povos
e comunidades tradicionais” contida no Decreto Presidencial n.º
6.040/2007, por ser essencial para uma melhor compreensão desses
grupos sociais. Analisa-se a necessidade de ações concretas de reconhe-
cimento, respeito e valorização desses grupos, que são culturalmente
diferenciados, para que tenham uma visibilidade real, sob pena de
violação ao princípio da dignidade da pessoa humana.
Também é importante entender como esses grupos sociais se rela-
cionam com o território e com a natureza. Nesse ponto é necessária a
análise dos Territórios Tradicionais, cuja definição é dada pelo inciso
II do art. 3º do Decreto. Esses territórios e os recursos naturais ali
disponíveis são utilizados mediante a aplicação dos chamados conhe-
cimentos tradicionais, que também estão previstos no art. 3º do De-
creto n.º 6.040/2007, e representam, em breve síntese, um conjunto
de observações, experiências, práticas, técnicas, usos e saberes apren-
didos pelos povos e comunidades tradicionais na sua relação com o
território e com a natureza.
Após isso será analisada especificamente a relação entre os Povos
Tradicionais de Matriz Africana e a natureza. Esta e seus recursos são
condições insuperáveis para que tais grupos sociais tenham acesso aos
materiais utilizados em seus rituais, medicamentos, ornamentos, en-
fim, para a manutenção da sua cultura, da sua identidade, dos seus
peculiares modos de vida.
Mas essa necessidade de utilização dos recursos naturais nos re-
vela a existência de um conflito ético ambiental no caso concreto:
quando o uso dos recursos naturais representa risco a estes, opõem-se
homem e natureza. Aflora o confronto entre as visões antropocentris-
ta e biocentrista de meio ambiente, e a consequente necessidade de

88
conciliação entre tais valores. E nesse exame deverão ser consideradas
as características peculiares dos povos e comunidades tradicionais que
pretendem utilizar a área verde, pois esses grupos sociais desenvolvem
relações íntimas com o meio ambiente, acarretando o desenvolvimen-
to de formas próprias de manejo do mesmo.

1. Povos e comunidades tradicionais: conceito, conhecimentos e modos


de vida
O conceito de povos e comunidades tradicionais é dado pelo art.
3º, inciso I, do Decreto Presidencial n.º 6.040/2007, que institui a
Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Co-
munidades Tradicionais, segundo o qual:

Art. 3º Para os fins deste Decreto e do seu Anexo com-


preende-se por: I - Povos e Comunidades Tradicionais: gru-
pos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como
tais, que possuem formas próprias de organização social, que
ocupam e usam territórios e recursos naturais como condi-
ção para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral
e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práti-
cas gerados e transmitidos pela tradição (BRASIL, 2014).

Importante esclarecer que apenas recentemente esses grupos so-


ciais passaram a receber tratamento específico na legislação. Somente
a partir da CF/88 e convenções internacionais ratificadas pelo Bra-
sil, especialmente a Convenção da Diversidade Biológica – CDB e a
Convenção n.º 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT,
iniciou o reconhecimento de identidades coletivas no Brasil. Esses
“novos sujeitos de direito” (MACIEL, 2011:173), com identidades
coletivas, são os povos e comunidades tradicionais.
Muito tempo após a CF/88 sobreveio o Decreto n.º 6.040/2007,
que “institucionalizou o reconhecimento, pelo menos formal, de uma

89
sóciodiversidade brasileira historicamente evidente e hoje ainda mar-
cante” (MONTENEGRO, 2012:163). O reconhecimento legal (for-
mal) vem ocorrendo paulatinamente. Mas além do reconhecimento
legal é necessário o reconhecimento real (efetivo).
Shiraishi Neto entende que o direito desses povos e comunidades
tradicionais (também chamados de minorias19) passou do invisível
real para o visível formal, ressaltando que “o direito não tem respon-
dido de forma satisfatória as demandas oriundas dos diversos grupos
sociais, cuja expressão mobilizatória consolida identidades coletivas”,
porque pretende “adequá-las mecanicamente às suas previsões, as
quais se encontram distantes das situações de fato”, concluindo então
que o direito “não tem sido suficientemente sensível às transformações
que vêm ocorrendo no seio da sociedade, caracterizadas pela emer-
gência de grupos sociais politicamente organizados que expressam
demandas específicas e de natureza étnica” (2013:161).
Portanto, é certo que com o advento da CF/88, Convenções Inter-
nacionais e legislação posterior, como o Decreto n.º 6.040/2007, cada
vez mais se firmam, pelo menos na legislação (formalmente), esses
grupos sociais com identidades coletivas próprias, chamados Povos e
Comunidades Tradicionais.
Mas apesar de termos iniciado um reconhecimento formal desses
grupos, ainda é necessário consolidar práticas de respeito e de apoio à
manutenção de seus peculiares modos de vida, o que inclui o respeito
aos seus territórios, aos seus conhecimentos, à sua cultura. Inclusive,
19 Dourado atribui essa qualidade aos povos e comunidades tradicionais.
Com efeito, após ressaltar a importância dos diversos povos e comunidades tradi-
cionais na manutenção da diversidade, tanto biológica quanto cultural, e ao exami-
nar quem são esses sujeitos e comunidades tradicionais, amparada na Convenção
169 da OIT, diz que: “O que parece claro nessas denominações é o fato de que os
grupos sociais referidos apresentam peculiares modos de vida, culturalmente dis-
tintos da sociedade dominante nos Estados onde vivem, razão pela qual são muitas
vezes chamados de ‘minorias’” (2013:34).

90
a percepção de que tais grupos são culturalmente diferenciados é fun-
damental para que não seja violado o princípio da dignidade da pessoa
humana, como veremos a seguir.

1.1 Da necessidade de respeito à diversidade cultural


O reconhecimento da existência de “grupos culturalmente di-
ferenciados” demonstra que um dos fundamentos do Decreto n.º
6.040/2007 é o respeito à diversidade de culturas que formam o
Brasil. Nesse sentido, e amparando-se na Convenção 169 da OIT e
na Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural, Duprat afir-
ma que “no seio da comunidade nacional, há grupos portadores de
identidades específicas”, cabendo ao direito “assegurar-lhes o controle
de suas próprias instituições e formas de vida e seu desenvolvimento
econômico, e manter e fortalecer suas identidades, línguas e religi-
ões, dentro do âmbito dos Estados onde moram”, concluindo que “a
defesa da diversidade cultural passa a ser, para os Estados nacionais,
um imperativo ético, inseparável do respeito à dignidade da pessoa
humana” (2013:11).
Nesse mesmo sentido o entendimento de Dourado, para quem
os direitos culturais devem ser entendidos como direitos humanos,
derivando “do reconhecimento da dignidade da pessoa humana, em
seu contexto individual e social”, ressaltando ainda que “o exercício
desses direitos pressupõe o respeito, o reconhecimento e a valorização
da diversidade cultural” (2013:35).
É fundamental, portanto, o reconhecimento do valor cultural ine-
rente aos povos e comunidades tradicionais. O respeito a esses grupos
culturalmente diferenciados coloca em evidência a importância não
apenas das pessoas, mas também dos seus costumes, dos seus modos
peculiares de vida. Há respeito quando a pessoa ou o grupo social é
compreendido e valorizado considerando a sua cultura, e não como
alguém sem identidade. Devem ser considerados e respeitados os seus

91
peculiares modos de vida, assim como é necessário evitar a tendên-
cia de massificação, de uniformização cultural. As políticas públicas
devem levar em conta a cultura da pessoa ou grupo social a quem se
destinam. Assim começa o reconhecimento efetivo, a visibilidade real.
A cultura vista sob o aspecto nacionalista é restritiva, porque uma
nação não possui uma cultura uniforme. Reduzir o aspecto cultural à
dimensão nacionalista representaria uma uniformização das diferentes
culturas existentes dentro da nação; algo inconcebível no Brasil, um
País tão diverso, formado por povos que sempre estiveram aqui pre-
sentes, e por povos oriundos de diversos continentes (africanos, euro-
peus, asiáticos, americanos), sendo que todos esses grupos sociais pos-
suem rituais, formas de alimentação, de diversão, de comportamento,
religiões diversas, e que se sentem como incluídos em determinados
grupos justamente em razão disso.
O Brasil não tem uma cultura, mas diversas. Se fosse necessário
dar uma qualidade à cultura brasileira, essa qualidade seria a de ser
impossível taxá-la, defini-la, uniformizá-la. A nossa identidade é o
pluralismo.
Esses aspectos culturais inerentes aos povos e comunidades tradi-
cionais constituem elemento especificamente protegido pelo ordena-
mento jurídico. Veja-se que o art. 216 da CF/88 estabelece como “pa-
trimônio cultural” os bens de natureza material e imaterial portadores
de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos
formadores da sociedade brasileira, incluindo as formas de expressão,
os modos de criar, fazer e viver, e os elementos destinados às manifes-
tações artístico-culturais.20
20 “Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natu-
reza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de
referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da so-
ciedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão; II - os modos de
criar, fazer e viver; III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras,
objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações

92
Por sua vez, o art. 215 da CF/88 determina que o Estado garanta
a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da
cultura nacional, devendo apoiar e incentivar a valorização e a difusão
das “manifestações culturais”, bem como proteger “as manifestações
das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e as de outros gru-
pos participantes do processo civilizatório nacional.”21
Dourado, destacando a inclusão dos bens culturais “imateriais” na
lista do conjunto do patrimônio cultural pela UNESCO, diz que essa
inclusão decorre de uma “concepção de cultura adotada oficialmente
a partir dos anos 2000, que privilegia as expressões da diversidade
cultural em lugar das expressões nacionalistas”, e que “atualmente o
rol de bens culturais sob a proteção do Estado é repleto de expressões
intangíveis variadas, de saberes, de celebrações, de tradições orais que
são cotidianas, populares e muito diversas” (DOURADO, 2013:12).
Os modos de vida são tão relevantes que o pertencimento a tais
grupos não decorre essencialmente do nascimento, mas do autorre-
conhecimento das pessoas como pertencentes a tais grupos. Trata-se
da mesma lógica adotada pela Convenção n.º 169 da Organização
Internacional do Trabalho - OIT, sobre povos indígenas e tribais, no
que diz respeito à autodefinição como fundamento na definição dos
povos.22

artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico,


artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.”
21 “Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos cul-
turais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a
difusão das manifestações culturais. § 1º - O Estado protegerá as manifestações das
culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes
do processo civilizatório nacional.”
22 Conforme consta na introdução da referida Convenção, “a autoidenti-
dade indígena ou tribal é uma inovação do instrumento, ao instituí-la como crité-
rio subjetivo, mas fundamental, para a definição dos povos sujeito da Convenção,
isto é, nenhum Estado ou grupo social tem o direito de negar a identidade a um

93
Vale reiterar que sem respeito aos valores culturais desses povos
estará sendo violada a dignidade da pessoa humana. E parte impor-
tante desse processo de reconhecimento dos povos e comunidades tra-
dicionais, considerando sua cultura, suas características, refere-se ao
reconhecimento da linguagem.
Almeida demonstra a importância do reconhecimento da diver-
sidade linguística, ao referir que o reconhecimento dessa diversidade
sempre foi menosprezado pelas políticas educacionais, sendo “inclu-
sive criminalizado pela política de ‘Nacionalização do Ensino’, inicia-
da pela ditadura do Estado Novo, entre 1937 e 1945, que reprimiu
duramente as línguas autóctones” (ALMEIDA, 2013b: 246). E após
referir Lei do Município de São Gabriel da Cachoeira (Amazonas)
versando sobre a co-oficialização de língua indígena, diz que “a iden-
tidade coletiva objetivada em movimento social passa a ter no fator
linguístico um de seus mais destacados fundamentos sociais e de mo-
bilização”, e que “não é a língua em si, senão a sua combinação com a
ação organizada de defesa de direitos básicos que evidencia tal trans-
formação” (ALMEIDA, 2013b: 248).
Outro exemplo legislativo de reconhecimento e proteção dos po-
vos e comunidades tradicionais está na Lei Federal n.º 10.639/2003,
a qual acrescentou o art. 26-A à Lei n.º 9.394/1996, que estabelece as
diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial
da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura
Afro-Brasileira”. E posteriormente a Lei n.º 11.645/2008 deu nova
redação ao dispositivo, incluindo no mesmo os povos indígenas.23
povo indígena ou tribal que como tal ele próprio se reconheça.” E no item 2 do
art. 1º restou estabelecido que “a autoidentificação como indígena ou tribal deverá
ser considerada um critério fundamental para a definição dos grupos aos quais se
aplicam as disposições da presente Convenção.”
23 Após essas alterações o dispositivo passou a ter a seguinte redação: “Art.
26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públi-
cos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira

94
Também merece referência a Lei Federal n.º 12.288/2010 (Estatu-
to da Igualdade Racial), que tem por finalidade garantir à população
negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos
étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e
às demais formas de intolerância étnica.
Mais recentemente a Lei Federal n.º 12.966/2014, alterou a Lei
Federal n.º 7.347/1985 (Lei da Ação Civil Pública), para incluir a
proteção à honra e à dignidade de grupos raciais, étnicos ou religiosos.
Essa lei, ao proteger “grupos raciais, étnicos ou religiosos”, está envol-
vendo diretamente os “Povos e Comunidades Tradicionais” referidos
no Decreto n.º 6.040/2007, e o valor cultural inerente a tais grupos,
decorrente especialmente seus peculiares modos de vida.
Esses são exemplos de reconhecimento, valorização e respeito à di-
versidade cultural, ações essas que foram estabelecidas como um dos
princípios a serem observados nas ações e atividades voltadas para o
alcance dos objetivos da Política Nacional de Desenvolvimento Sus-
tentável dos Povos e Comunidades Tradicionais, conforme consta no
inciso I do art. 1º do Anexo ao Decreto 6.040/2007.24
e indígena. § 1o O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá
diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da popula-
ção brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da
África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura
negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional,
resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes
à história do Brasil. § 2o Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira
e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currí-
culo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história
brasileiras.”
24 “Art. 1º As ações e atividades voltadas para o alcance dos objetivos da
Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tra-
dicionais deverão ocorrer de forma intersetorial, integrada, coordenada, sistemática
e observar os seguintes princípios: I - o reconhecimento, a valorização e o respei-
to à diversidade socioambiental e cultural dos povos e comunidades tradicionais,

95
Inegável a importância do reconhecimento formal. Porém, mais do
que as fontes formais, o efetivo respeito decorre também do reconhe-
cimento do pluralismo, que é um dos fundamentos do Estado Demo-
crático de Direito consagrado na Constituição Federal de 1988 (art.
1º, V). Assim, as formas próprias de organização e comportamento
dos povos e comunidades tradicionais merecem respeito por represen-
tarem manifestações culturais, formas de comportamento eleitas por
tais agentes sociais e que são inerentes à sua identidade.
Cabe ao Direito reconhecer as “novas” aspirações sociais, assim
como vem ocorrendo em outras demandas que exigem novas posturas
inovadoras do Judiciário , reconhecendo-se, com base em princípios
essenciais (como os da dignidade da pessoa humana, da liberdade,
da autodeterminação, da igualdade, do pluralismo, da intimidade, da
não discriminação e da busca da felicidade), o fundamento para a
efetivação de outros direitos. Somente assim serão observados os Prin-
cípios da Liberdade e da Igualdade (art. 5º, caput, da CF/88).
Portanto, a legislação está em processo de evolução no sentido de
reconhecimento e tratamento diferenciado, de acordo com a cultura
dos grupos sociais objeto de políticas públicas. No entanto, deve ficar
claro que essas são medidas ainda incipientes; importantes, mas ainda
muito pontuais e restritas. Mais do que leis, serão necessárias políticas
públicas específicas e educação.
O respeito aos peculiares modos de vida inerentes aos povos
e comunidades tradicionais é fundamental para a preservação do
levando-se em conta, dentre outros aspectos, os recortes etnia, raça, gênero, idade,
religiosidade, ancestralidade, orientação sexual e atividades laborais, entre outros,
bem como a relação desses em cada comunidade ou povo, de modo a não desres-
peitar, subsumir ou negligenciar as diferenças dos mesmos grupos, comunidades ou
povos ou, ainda, instaurar ou reforçar qualquer relação de desigualdade;”
Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário n.º 477554 AgR, Rel.
Min. Celso de Mello, Segunda Turma, julgado em 16/08/2011.

96
patrimônio cultural brasileiro, representado aqui principalmente por
formas de expressão, modos de criar, fazer e viver, criações artísticas
e tecnológicas, obras, objetos, documentos, edificações e demais es-
paços destinados às manifestações artístico-culturais desses grupos
sociais. Somente assim haverá efetivo respeito à dignidade da pessoa
humana.
1.2 Os “Territórios Tradicionais”
Prosseguindo no exame do conceito de povos e comunidades tra-
dicionais estabelecido no inciso I art. 3º do Decreto n.º 6.040/2007,
refere-se a ocupação e uso, por esses grupos sociais, de territórios e re-
cursos naturais como condição para a sua reprodução cultural, social,
religiosa, ancestral e econômica.
O vínculo de tais povos e comunidades com o território é tão rele-
vante que o inciso II do art. 3º do referido Decreto conceitua “Territó-
rios Tradicionais” como os espaços necessários à reprodução cultural,
social e econômica dos povos e comunidades tradicionais, sejam eles
utilizados de forma permanente ou temporária. No caso específico
dos povos indígenas e quilombolas deve ser observado o que dispõem
o art. 231 da CF/88 e o art. 68 do ADCT, respectivamente. 25
25 “Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costu-
mes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradi-
cionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar
todos os seus bens. § 1º - São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por
eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas,
as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-es-
tar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes
e tradições. § 2º - As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a
sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos
rios e dos lagos nelas existentes. § 3º - O aproveitamento dos recursos hídricos,
incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em
terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso Nacional,
ouvidas as comunidades afetadas, ficando-lhes assegurada participação nos resulta-
dos da lavra, na forma da lei. § 4º - As terras de que trata este artigo são inalienáveis

97
São, portanto, os territórios onde os povos e comunidades tradi-
cionais podem exercer seus rituais, encontrar alimentos (coleta, caça,
pesca, plantio), seus medicamentos, os bens naturais e locais neces-
sários aos seus rituais, locais para cultivo e coleta, enfim, o espaço
fundamental à sua subsistência e preservação dos seus peculiares mo-
dos de vida. Sem esses territórios e respectivos recursos naturais não é
possível a manutenção da sua identidade, e como consequência, resta
ferido o princípio da dignidade da pessoa humana.
Nesse sentido, ao analisar a relação entre os novos movimentos
sociais em consolidação “e os processos de territorialização que lhes
são correspondentes”, Almeida destaca as “denominadas ‘terras tra-
dicionalmente ocupadas’, que expressam uma diversidade de formas
de existência coletiva de diferentes povos e grupos sociais em suas
relações com os recursos da natureza” (2008:25).
Refere ainda que suas diferentes formações históricas e variações
regionais foram instituídas na CF/88 e reafirmadas nos dispositivos
infraconstitucionais, porém, existem dificuldades de efetivação destes
e indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis. § 5º - É vedada a remoção
dos grupos indígenas de suas terras, salvo, “ad referendum” do Congresso Nacio-
nal, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no
interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso Nacional, garantido,
em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco. § 6º - São nulos e
extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a ocupa-
ção, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das
riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante
interesse público da União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando
a nulidade e a extinção direito a indenização ou a ações contra a União, salvo, na
forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da ocupação de boa fé. § 7º - Não se
aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, § 3º e § 4º.”
“Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam
ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado
emitir-lhes os títulos respectivos.”

98
dispositivos legais, indicando a existência de tensão quanto ao seu re-
conhecimento jurídico-formal, sendo que isso ocorre “sobretudo por-
que rompem com a invisibilidade social, que historicamente caracteri-
zou estas formas de apropriação dos recursos baseadas principalmente
no uso comum e em fatores culturais intrínsecos” (2008:25-26).
Realmente os povos e comunidades tradicionais vêm travando ver-
dadeira batalha para reconhecerem seus territórios e ali permanecerem
pacificamente.
Nesse sentido, Ayres, analisando as reivindicações de comunida-
des quilombolas pela garantia e efetivação de direitos constitucionais,
afirma que no momento da efetivação do direito ao território desses
grupos sociais “presencia-se burocracia, falta de vontade política do
Estado e o conservadorismo da sociedade brasileira colonialista”, des-
tacando ainda que “essa falta de efetivação do direito ao território
faz com que esses grupos sejam ameaçados das mais diversas formas,
inclusive de morte” (2013: 94).
Percebe-se que embora os legisladores tenham incorporado a ex-
pressão “populações tradicionais” na legislação isso não representou
um efetivo acatamento das reivindicações desses movimentos sociais.
E sem esses territórios e respectivos recursos naturais os povos e comu-
nidades tradicionais não podem manter suas tradições, sua identidade.
Essa situação reforça a afirmação de que são necessárias políticas pú-
blicas de reconhecimento e efetivação do direito aos territórios; caso
contrário será violado o princípio da dignidade da pessoa humana.

1.3 Os conhecimentos tradicionais


Na utilização dos espaços territoriais e recursos naturais antes re-
feridos os povos e comunidades tradicionais aplicam “conhecimen-
tos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição” (art.
3º do Decreto n.º 6.040/2007). São os chamados conhecimentos
tradicionais.

99
Inclusive, “reconhecer, proteger e promover os direitos dos povos
e comunidades tradicionais sobre os seus conhecimentos, práticas e
usos tradicionais” é um dos objetivos específicos da Política Nacional
de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicio-
nais (art. 3º, I, do Anexo ao Decreto n.º 6.040/2007).
Esses “conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos
pela tradição” são representados pelas observações, experiências e mé-
todos relacionados a muitos setores da vida dos povos e comunidades
tradicionais. Esses conhecimentos representam “a forma mais antiga
de produção de teorias, experiências, regras e conceitos, isto é, a mais
ancestral forma de produzir ciência” (MOREIRA, 2007: 33). Abran-
gem línguas, técnicas de artesanato, ciclo de plantas, biodiversidade
e ecossistemas, saberes de cura com o uso de substâncias naturais,
produção de expressões artísticas, cantos, danças e rituais (DOURA-
DO, 2012).
Mais do que isso, envolvem “desde técnicas de manejo de recursos
naturais até métodos de caça e pesca”, e ainda os diversos ecossistemas
e “propriedades farmacêuticas, alimentícias e agrícolas de espécies e
as próprias categorizações e classificações de espécies de flora e fau-
na utilizadas pelas populações tradicionais” (SANTILLI, 2005: 192).
Enfim, os chamados conhecimentos tradicionais abrangem as diversas
formas de interação e convivência entre o homem, seu território e a
natureza.
A relevância desses conhecimentos é inegável, e tem se revelado
muito eficiente no campo da medicina, associado à biodiversidade.
É que a observação e a experiência de populações tradicionais no re-
conhecimento e no procedimento aplicado aos recursos biológicos,
especialmente para fins medicinais, têm se mostrado muito efetivas,
despertando o interesse de grandes laboratórios na apropriação desses
conhecimentos.

100
E quanto ao uso da biodiversidade para finalidade medicinal, os
conhecimentos tradicionais “não se restringem a um mero repertório
de ervas medicinais” ou “listagem de espécies vegetais”, mas compre-
endem ainda “as fórmulas sofisticadas, o receituário e os respectivos
procedimentos para realizar a transformação”, respondendo “a inda-
gações sobre como determinada erva é coletada, tratada e transforma-
da num processo de fusão” (ALMEIDA, 2013a: 20).
A aplicação dos conhecimentos tradicionais aos recursos biológicos
é referida também por Santos, para quem “o uso de plantas medi-
cinais com fins curativos acompanha a trajetória histórica e cultural
da humanidade”, ressaltando ainda que “todo o conhecimento sobre
plantas medicinais foi transmitido oralmente de geração a geração por
meio dos mitos e rituais”, e concluindo que “esses conhecimentos,
juntamente com as práticas africanas, indígenas e europeias consti-
tuíram a base do conhecimento terapêutico tradicional” (SANTOS,
2014: 244).
Tamanha a relevância desses conhecimentos que a CDB (1992)
aborda em vários momentos o tema conhecimentos tradicionais. Por
exemplo: no preâmbulo é reconhecida “a estreita e tradicional depen-
dência de recursos biológicos de muitas comunidades locais e popu-
lações indígenas com estilos de vida tradicionais”; no art. 8º, “j”, é
determinado que os Estados “respeitem, preservem e mantenham o
conhecimento, inovações e práticas das comunidades locais e popu-
lações indígenas com estilo de vida tradicionais relevantes à conser-
vação e à utilização sustentável da diversidade biológica”; no item “c”
do art. 10 foi estabelecido que cada parte contratante deve “proteger
e encorajar a utilização costumeira de recursos biológicos de acordo
com práticas culturais tradicionais compatíveis com as exigências de
conservação ou utilização sustentável.”
E regulamentando dispositivos da CDB sobreveio a Medida Pro-
visória n.º 2.186-16/2001, dispondo sobre o acesso ao patrimônio

101
genético26 e ao conhecimento tradicional associado, a proteção e o
acesso ao conhecimento tradicional associado, a repartição de bene-
fícios e o acesso à tecnologia e transferência de tecnologia para sua
conservação e utilização. O conceito de “conhecimento tradicional
associado” está no inciso II do art. 7º da MP n.º 2.186-16/2001,
como sendo “informação ou prática individual ou coletiva de comu-
nidade indígena ou de comunidade local,27 com valor real ou poten-
cial, associada ao patrimônio genético.” Importante destacar que nos
termos do § 2º do art. 8º da referida MP, o conhecimento tradicional
associado ao patrimônio genético de que trata a referida MP “integra
o patrimônio cultural brasileiro e poderá ser objeto de cadastro, con-
forme dispuser o Conselho de Gestão ou legislação específica.”
Portanto, os povos e comunidades tradicionais se relacionam com
território e natureza mediante a aplicação de conhecimentos tradicio-
nais, que assumem diversas formas de manifestação, como na fabrica-
ção de medicamentos, na realização de rituais, no seu modo de falar,
nas suas técnicas de artesanato, no conhecimento sobre ciclo de plan-
tas, biodiversidade e ecossistemas etc. Esses conhecimentos são tão
importantes que despertaram o anseio de apropriação por parte, por
26 O conceito de patrimônio genético é dado pelo inciso I do art. 7º da
MP 2.186-16/2001, nos seguintes termos: “patrimônio genético: informação de
origem genética, contida em amostras do todo ou de parte de espécime vegetal,
fúngico, microbiano ou animal, na forma de moléculas e substâncias provenientes
do metabolismo destes seres vivos e de extratos obtidos destes organismos vivos ou
mortos, encontrados em condições in situ, inclusive domesticados, ou mantidos
em coleções ex situ, desde que coletados em condições in situ no território nacio-
nal, na plataforma continental ou na zona econômica exclusiva.”

27 Nos termos do inciso III do art. 7º da mencionada MP, comunidade


local é “grupo humano, incluindo remanescentes de comunidades de quilombos,
distinto por suas condições culturais, que se organiza, tradicionalmente, por ge-
rações sucessivas e costumes próprios, e que conserva suas instituições sociais e
econômicas.”

102
exemplo, de empresas farmacêuticas internacionais. Assim, o acesso a
esses conhecimentos necessitou de regramento na Convenção Sobre
Diversidade Biológica, com posterior regulamentação no Brasil pela
Medida Provisória n.º 2.186-16/2001.

2 Povos tradicionais de Matriz Africana


Veremos agora a relação dos povos de Matriz Africana com a na-
tureza, na qual esses grupos sociais têm acesso aos materiais utilizados
em seus rituais, medicamentos, ornamentos, enfim, para a manuten-
ção da sua identidade, da sua diversidade cultural, dos seus peculiares
modos de vida.
No intuito de alcançar tal compreensão, foram realizadas entre-
vistas com o Pai de Santo Alberto Jorge Silva, representante da Asso-
ciação de Desenvolvimento Sócio-Cultural Toy Badé – ATB, filiada
à Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de
Matriz Africana – ARATRAMA. Questionado sobre os recursos natu-
rais necessários à preservação da sua cultura, referiu uma infinidade de
bens naturais e locais, tanto para a realização de rituais, quanto para a
fabricação de medicamentos, realização de oferendas, coleta. Também
explicou que os Povos de Matriz Africana possuem grande diversidade
de tradições, especialmente em razão dos diferentes locais de origem
no continente africano28 (Pai de Santo Alberto Jorge Silva, Manaus,
Amazonas, em 07 de fevereiro de 2014 e 22 de maio de 2014).
28 “Os historiadores afirmam que a vinda forçada de populações africanas
se deu em três grandes ciclos: o primeiro, denominado Ciclo da Guiné (Século
XV) trazendo pessoas da região da Costa da Guiné, expressão usual para designar
toda costa ocidental da África, até porque Portugal e seus aliados ainda não tinham
instalado entrepostos e fortes de apoio ao tráfico até então limitado do ponto vis-
ta numérico; Ciclo de Angola (Século XVII) quando ocorreu o maior comércio
negreiro, trazendo milhões de pessoas, na condição de escravos para o chamado
Novo Mundo e, em especial para o Brasil; Nesse ciclo são representativos do povo
banto, o Angola e o Congo, embora se tenha por certo que subgrupos estiveram

103
Sem os adequados recursos naturais esses povos não podem pre-
servar sua diversidade cultural. A dependência dos recursos naturais
para a preservação dos seus peculiares modos de vida pode ser exem-
plificada pela perda de rituais em razão de eventuais deslocamentos.
Por exemplo, a vinda para o Brasil por força da escravização acar-
retou a perda de rituais pela inexistência, aqui, de recursos naturais
específicos.
Essa circunstância é bem explicada por Cossard, ao esclarecer que
os Orixás yorubás não são mais venerados em sua totalidade no Brasil
em razão do deslocamento, pois a “a vegetação do Brasil não oferece
recursos iguais aos da África”, e por isso “certas folhas, indispensá-
veis a certos orixás, não são encontradas deste lado do oceano; em
alguns casos, houve substituições apoiadas nas semelhanças, mas, em
outros, não foi possível efetuar essa transposição e o culto se perdeu”
(2006:36).
A disponibilidade de territórios e bens naturais, que são utilizados
mediante aplicação de conhecimentos tradicionais, é, portanto, con-
dição insuperável para a manutenção dos peculiares modos de vida
inerentes aos Povos de Matriz Africana (o que evidencia o seu en-
quadramento no conceito de povos e comunidades tradicionais, antes
analisado). Por isso foi solicitada a proteção de área verde existente na
igualmente submetidos ao comércio negreiros, assim como outros da Contra Cos-
ta, provenientes, sobretudo da região de Moçambique. Ciclo da Costa da Mina,
que se entendeu até 1815, quando o tráfico entrou na ilegalidade até 1851. Está
centrado no Golfo de Benim, também denominado Costa dos Escravos, onde se
localizam atualmente Togo, Benim (antigo Daomé) e Nigéria. E nesses períodos
chegaram ao Brasil os Fongbe (os falantes da língua Fon) os aqui reconhecidos
indistintamente por jêjes (mundobim, Savalu, mahin) do Benin e do Togo, Os
iorubás da Nigéria, denominados genericamente de nagôs e outros grupos. As três
tradições que constituirão os Povos Tradicionais de Matrizes Africanas, vieram,
principalmente, nos dois últimos ciclos: Os povos de língua banta, vindos no se-
gundo ciclo, os povos de língua ewé-fon, no terceiro ciclo ao lados dos de língua
ioruba” (ARATRAMA, 2014).

104
zona urbana de Manaus, afirmando-se que aquele local e seus recursos
naturais são necessários à preservação das tradições de Povos de Matriz
Africana.
Mais do que isso, o Pai Alberto Jorge Silva afirmou que há muito
tempo a área é utilizada por Populações Tradicionais e Extrativistas
para conservar suas tradições, fazer coleta de frutos e folhas medici-
nais, ornamentais e aromáticas, tendo então interesse na preservação
daquele espaço. Mencionou ainda certo ritual, denominado Sasanha
(ritual de iniciação), que envolve diversos elementos naturais, espe-
cialmente folhas, e eventualmente exige meses de procura por todos os
recursos naturais indispensáveis à sua realização (Pai de Santo Alberto
Jorge Silva, Manaus, Amazonas, 07 de fevereiro de 2014).
Mas aqui surge uma importante e complexa discussão, que diz res-
peito à possibilidade de utilização da natureza pelos seres humanos, e
os eventuais prejuízos ambientais que essa utilização poderá acarretar
ao meio ambiente. Afinal, é possível priorizar a proteção do homem,
mesmo que isso acarrete prejuízos ao meio ambiente, ou deve pre-
valecer a proteção deste, ainda que neste caso reste comprometida a
diversidade cultural inerente aos povos e comunidades tradicionais
que necessitam daquela área?

3 Homem X Natureza
Importante questão no que diz respeito à utilização da área verde
é a relevância ambiental da mesma. Está próxima ao Parque Estadual
Samaúma, criado pelo Decreto Estadual n.º 23.721/2003, com uma
área de 51 hectares, que foi a primeira Unidade de Conservação Esta-
dual localizada na cidade de Manaus/AM.
Deve-se esclarecer que os Parques (Nacionais, Estaduais ou Mu-
nicipais) têm por finalidade a preservação de ecossistemas naturais de
grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização
de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação

105
e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e
de turismo ecológico. Assim, tais áreas não possibilitam a intervenção
humana, salvo hipóteses excepcionais de visitação e pesquisa científi-
ca, mas não para o extrativismo.
Em que pese a inexistência de estudos ambientais conclusivos so-
bre a área cuja proteção e utilização é solicitada, tudo indica que pos-
sui atributos semelhantes aos que justificaram a criação do Parque Es-
tadual Samaúma, sendo um deles a presença da espécie endêmica de
primata ameaçada de extinção Sauim-de-coleira (Saguinus bicolor),
cujas populações têm sido drasticamente reduzidas na área urbana de
Manaus, devido à supressão dos fragmentos florestais urbanos.29

29 Lei Federal n.º 9.985/2000: “Art. 11. O Parque Nacional tem como
objetivo básico a preservação de ecossistemas naturais de grande relevância eco-
lógica e beleza cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas e o de-
senvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação
em contato com a natureza e de turismo ecológico. § 1º O Parque Nacional é de
posse e domínio públicos, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites
serão desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei. § 2º A visitação pública
está sujeita às normas e restrições estabelecidas no Plano de Manejo da unidade,
às normas estabelecidas pelo órgão responsável por sua administração, e àquelas
previstas em regulamento. § 3º A pesquisa científica depende de autorização prévia
do órgão responsável pela administração da unidade e está sujeita às condições e
restrições por este estabelecidas, bem como àquelas previstas em regulamento. §
4º As unidades dessa categoria, quando criadas pelo Estado ou Município, serão
denominadas, respectivamente, Parque Estadual e Parque Natural Municipal.”
O crescimento da cidade de Manaus tem acarretado a derrubada da floresta
urbana, o que tem afetado gravemente as populações do Sauim-de-coleira, que
estão presentes nesses fragmentos florestais. Além dessa ameaça, nas áreas de en-
torno da cidade o sauim-de-coleira sofre exclusão competitiva com o sauim-de-
-mãos-douradas (Saguinus midas). Assim, os refúgios daquele seriam justamente
as áreas de florestas localizadas na zona urbana de Manaus. Diante dessa situação
o sauim-de-coleira está cada vez mais confinado à cidade, onde as áreas de floresta
são cada vez menores, aumentando assim a responsabilidade dos habitantes quanto
à sobrevivência da espécie (ICMBio, 2014).

106
Diante desse contexto, surge um dos mais importantes conflitos
entre a proteção humana e a proteção da natureza: como o homem se
coloca diante da natureza?
Examinando a relação entre homem e natureza, Rovani diz que a
partir das ideias renascentistas, com as descobertas científicas da física,
química e biologia, surgiu a convicção do homem de que poderia do-
minar a natureza ( ROVANI, 2011:213). Mas afirma que atualmen-
te há é necessário “vincular a racionalidade técnico-científica a uma
racionalidade ética, não apenas por ser uma dimensão essencial da
natureza, mas também por ser a natureza em si um valor e um sujeito
de valores” (ROVANI, 2011:219).
Quanto a essa discussão, Thomé afirma que na relação homem-
-natureza existem dois principais dilemas éticos: o antropocentrismo
e o ecocentrismo. A visão antropocêntrica tradicional caracteriza-se
pela preocupação única e exclusiva com o bem-estar do ser humano,
Segundo afirma, “na Idade Média clássica, por exemplo, o homem entendia-
-se como parte do bem natural, nem superior e nem inferior à natureza, de forma
que, inclusive estava sujeito às interpéries naturais, as quais relacionava estritamen-
te com a punição divina. A partir das ideias renascentistas, devido a descobertas da
ciências como a física, química e biologia, percebe-se a emergência da convicção de
que a natureza pode ser dominada. Propõe-se, então, a natureza como produto a ser
utilizado e transformado de acordo com interesse humano. Emerge a possibilidade
de não mais submeter-se aos efeitos ambientais. O homem, portanto, percebe-se
contraposto à natureza, entendendo-se como dominador daquela. Tal lógica pode
ser extraída das lições de Descartes, por exemplo, nas quais questiona e critica o
senso comum – enquanto ciência predominante na época medieval – como forma
de ciência, colocando ênfase à razão. A natureza é reduzida a uma significação
matemática e, nada restando nela de divino, passa a representar um objeto de ex-
ploração. É considerada como recursos disponibilizados por Deus e disponíveis ao
homem. Descartes afirma ainda, numa sentença que resume boa parte da concep-
ção da época na qual o conhecimento produzido pela matemática era libertador
e capaz de desvincular o homem da dependência das vicissitudes do meio. Para o
pensador, os homens, a partir do desenvolvimento da técnica, passam a ser ‘mestres
e possuidores da natureza’ (Descartes, 1973, p. 51)” (ROVANI, 2011:213).

107
que é considerado o centro do universo, sendo a natureza um bem
coletivo essencial cuja preservação se justifica para o atendimento das
necessidades humanas. Já a visão ecocêntrica considera o ser humano
como mais um integrante do ecossistema, assim como a fauna, a flora,
a biodiversidade (THOMÉ, 2014).
Refere que as concepções podem ser divididas em: (a) “antropo-
cêntrica utilitarista”, a qual “considera a natureza como principal
fonte de recurso para atender as necessidades do ser humano”; (b)
“antropocêntrica protecionista”, a qual “tem a natureza como um bem
coletivo essencial que deve ser preservado como garantia de sobrevi-
vência e bem-estar do homem”, exigindo, portanto, “equilíbrio entre
as atividades humanas e os processos ecológicos essenciais”; (c) “eco-
cêntrica”, para a qual “a natureza pertence a todos os seres vivos, e não
apenas ao homem, exigindo uma conduta de extrema cautela em re-
lação à proteção dos recursos naturais, com clara orientação holística”
(THOMÉ, 2014:59-60).
No que diz respeito a essas visões sobre o meio ambiente e sua
relação com os seres humanos, Fensterseifer e Sarlet abordam o que
chamam de ética ecológica do direito constitucional ambiental: ado-
ção de um antropocentrismo jurídico-constitucional ecológico, com
conciliação e integração dos valores humano e ecológico. “O objetivo
da abordagem jurídica antropocêntrica ecológica é ampliar o quadro
de bem-estar humano para além dos espectros liberal e social, inse-
rindo necessariamente a variável ecológica, somada à atribuição de
valor intrínseco à Natureza.” E convergem para a ideia de ligação entre
fatores, conforme defendia Morin (para quem o pensamento comple-
xo busca distinguir - mas não separar – e ligar) (MORIN, 2014), ao
aduzirem que “a proteção do ser humano é a proteção da Natureza, e
vice-versa”, buscando evitar a separação entre ser humano e Natureza,
e afirmando ser “vital tal ‘religação’, identificando o ser humano como
mais um elemento na cadeia da vida”.

108
Almeida chama a atenção para a necessidade de repensar a questão
ambiental, o que exige “novas modalidades de interpretação sobre o
acesso, o uso e a apropriação, temporários ou permanentes, dos re-
cursos hídricos, florestais e do solo”, concluindo que “a questão am-
biental não pode mais ser tratada como uma questão sem sujeito”
e que “não se restringe ao contorno de um quadro natural isolado,
pensado preponderantemente por botânicos e biólogos” (ALMEIDA,
2013a:27).
Afirma que “os sujeitos dessa questão ambiental na Amazônia têm
se constituído na última década e meia” (referindo-se aos povos e co-
munidades tradicionais, e seu reconhecimento que vem ocorrendo no
período posterior à CF/88), e que “a construção destes sujeitos é cole-
tiva e se vincula ao advento dos vários movimentos sociais que passa-
ram a expressar as formas peculiares de uso e de manejo dos recursos
naturais”, os quais, segundo refere, seriam os “indígenas, quilombolas,
ribeirinhos, seringueiros, quebradeiras de coco babaçu, ou seja, pelas
denominadas ‘populações tradicionais’” (ALMEIDA, 2013a:27).
Esclarece ainda que “o advento nesta última década e meia de ca-
tegorias que se afirmam através de uma existência coletiva [...] trouxe
a complexidade de elementos identitários para o campo de significa-
ção da questão ambiental”, ocorrendo assim “uma ruptura profun-
da com a atitude colonialista homogeneizante, que historicamente
apagou as diferenças étnicas e a diversidade cultural” (ALMEIDA,
2013a:27-28).
Percebe-se que o meio ambiente não pode ser pensado isolada-
mente, sem sujeitos. Mais do que perceber a presença de sujeitos, é
necessário identificar quem são esses sujeitos. Atualmente a questão
ambiental não pode ser pensada sem serem consideradas as caracterís-
ticas de quem está envolvido nessa relação direta com a natureza. As
identidades coletivas, reconhecidas especialmente após a CF/88, con-
forme antes demonstrado, bem como a necessidade de considerar seus

109
fatores culturais, são “novos” fatores que devem ser considerados neste
momento de (re)pensar a relação entre o ser humano e a natureza.
A proteção da natureza é indissociável da proteção humana, con-
siderando o vínculo existente. Esse é um pensamento perfeitamente
aceito de forma ampla e geral, independentemente da identidade do
sujeito; mas quando pensamos nos povos e comunidades tradicionais
adiciona-se um elemento crucial nessa relação entre ser humano e na-
tureza: esses grupos sociais com identidades coletivas são indissociá-
veis do meio ambiente, pois os territórios tradicionais e os recursos
naturais são parte essencial, fundamental das suas identidades, da sua
vivência.
E em razão dessa íntima relação esses grupos sociais desenvolveram
formas próprias de interação com o meio ambiente. Se essas circuns-
tâncias não forem consideradas, mais uma vez estaremos uniformizan-
do a cultura humana, como se ela se posicionasse diante da natureza
sempre de uma mesma forma.
Enquanto não forem realizados estudos mais aprofundados so-
bre as qualidades ambientais da área verde cuja proteção e utilização
foram solicitadas, e sobre quem efetivamente vem utilizando aquela
área (extrativistas, povos de matriz africana etc.), é impossível indicar
um rumo a ser tomado (pela possibilidade ou não de utilização pelos
povos e comunidades tradicionais). O que é certo é que os estudos e
decisões acerca do tema deverão considerar três circunstâncias muito
relevantes:
1) A importância ambiental da área verde e a consequente neces-
sidade de proteção da natureza, que eventualmente dependerá da não
intervenção humana, ou de um controle rígido sobre essa intervenção,
para que não sejam causados prejuízos, por exemplo, à sobrevivência
do Sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) na zona urbana de Manaus,
espaço restrito onde tem encontrado abrigado;

110
2) A necessidade da área verde como território e como local de
coleta de recursos naturais que são fundamentais para a preservação
dos costumes, da identidade de povos e comunidades tradicionais,
fomentando assim o nosso pluriculturalismo;
3) As formas como esses grupos sociais utilizam aquela área verde,
pois os métodos tradicionais de utilização da área por povos e comu-
nidades tradicionais em sua interação com a natureza poderão revelar
a possibilidade de utilização da mesma por tais grupos sociais, sem
prejuízos para o meio ambiente.
Por fim, cumpre registrar que no caso da referida área verde não
ter sido constituída como Parque por nenhum Ente Federativo nos
termos da Lei Federal n.º 9.985/2000 (que regulamenta o art. 225,
§ 1º, incisos I, II, III e VII da CF/88, institui o Sistema Nacional de
Unidades de Conservação da Natureza e dá outras providências), é
muito provável que seja área de preservação permanente. Neste caso,
incidirá o disposto na Lei n.º 12.651/12, segundo a qual área de pre-
servação permanente é área protegida, coberta ou não por vegetação
nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a
paisagem, a estabilidade geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo
gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das
populações humanas (art. 3º, II).
Considerando esses atributos especiais das áreas de preservação
permanente, o art. 8º da Lei n.º 12.651/2012 estabelece que a in-
tervenção ou a supressão de vegetação nativa somente ocorrerá em

111
casos de utilidade pública30 , de interesse social31 ou de baixo impacto
30 O inciso VIII do art. 3º da Lei Federal n.º 12.651/2012 enumera os
casos de utilidade pública: “a) as atividades de segurança nacional e proteção sani-
tária; b) as obras de infraestrutura destinadas às concessões e aos serviços públicos
de transporte, sistema viário, inclusive aquele necessário aos parcelamentos de solo
urbano aprovados pelos Municípios, saneamento, gestão de resíduos, energia, tele-
comunicações, radiodifusão, instalações necessárias à realização de competições es-
portivas estaduais, nacionais ou internacionais, bem como mineração, exceto, neste
último caso, a extração de areia, argila, saibro e cascalho; c) atividades e obras de
defesa civil; d) atividades que comprovadamente proporcionem melhorias na pro-
teção das funções ambientais referidas no inciso II deste artigo; e) outras atividades
similares devidamente caracterizadas e motivadas em procedimento administrativo
próprio, quando inexistir alternativa técnica e locacional ao empreendimento pro-
posto, definidas em ato do Chefe do Poder Executivo federal;”
31 O inciso IX do art. 3º da Lei Federal n.º 12.651/2012 enumera os
casos de interesse social: “a) as atividades imprescindíveis à proteção da integridade
da vegetação nativa, tais como prevenção, combate e controle do fogo, controle
da erosão, erradicação de invasoras e proteção de plantios com espécies nativas; b)
a exploração agroflorestal sustentável praticada na pequena propriedade ou posse
rural familiar ou por povos e comunidades tradicionais, desde que não descaracte-
rize a cobertura vegetal existente e não prejudique a função ambiental da área; c) a
implantação de infraestrutura pública destinada a esportes, lazer e atividades edu-
cacionais e culturais ao ar livre em áreas urbanas e rurais consolidadas, observadas
as condições estabelecidas nesta Lei; d) a regularização fundiária de assentamentos
humanos ocupados predominantemente por população de baixa renda em áreas
urbanas consolidadas, observadas as condições estabelecidas na Lei n.º 11.977, de
7 de julho de 2009; e) implantação de instalações necessárias à captação e con-
dução de água e de efluentes tratados para projetos cujos recursos hídricos são
partes integrantes e essenciais da atividade; f ) as atividades de pesquisa e extração
de areia, argila, saibro e cascalho, outorgadas pela autoridade competente; g) ou-
tras atividades similares devidamente caracterizadas e motivadas em procedimento
administrativo próprio, quando inexistir alternativa técnica e locacional à atividade
proposta, definidas em ato do Chefe do Poder Executivo federal;”
O inciso X do art. 3º da Lei Federal n.º 12.651/2012 enumera as atividades
eventuais ou de baixo impacto ambiental: “a) abertura de pequenas vias de acesso
interno e suas pontes e pontilhões, quando necessárias à travessia de um curso

112
ambiental , e permite o acesso de pessoas e animais para obtenção de
água e para realização de atividades de baixo impacto ambiental.
Importante ressaltar hipóteses previstas na Lei n.º 12.651/2012
que permitem intervenção em áreas de preservação permanente: (a)
com fundamento em interesse social, “a exploração agroflorestal sus-
tentável praticada na pequena propriedade ou posse rural familiar ou
por povos e comunidades tradicionais, desde que não descaracterize
a cobertura vegetal existente e não prejudique a função ambiental da
área”, nos termos do art. 3º, IX, “b”; (b) com fundamento em baixo
impacto ambiental, (b.1) “coleta de produtos não madeireiros para
fins de subsistência e produção de mudas, como sementes, castanhas
e frutos, respeitada a legislação específica de acesso a recursos genéti-
cos”, (b.2) “plantio de espécies nativas produtoras de frutos, sementes,
d’água, ao acesso de pessoas e animais para a obtenção de água ou à retirada de
produtos oriundos das atividades de manejo agroflorestal sustentável; b) implanta-
ção de instalações necessárias à captação e condução de água e efluentes tratados,
desde que comprovada a outorga do direito de uso da água, quando couber; c)
implantação de trilhas para o desenvolvimento do ecoturismo; d) construção de
rampa de lançamento de barcos e pequeno ancoradouro; e) construção de moradia
de agricultores familiares, remanescentes de comunidades quilombolas e outras po-
pulações extrativistas e tradicionais em áreas rurais, onde o abastecimento de água
se dê pelo esforço próprio dos moradores; f ) construção e manutenção de cercas na
propriedade; g) pesquisa científica relativa a recursos ambientais, respeitados outros
requisitos previstos na legislação aplicável; h) coleta de produtos não madeireiros
para fins de subsistência e produção de mudas, como sementes, castanhas e frutos,
respeitada a legislação específica de acesso a recursos genéticos; i) plantio de espé-
cies nativas produtoras de frutos, sementes, castanhas e outros produtos vegetais,
desde que não implique supressão da vegetação existente nem prejudique a função
ambiental da área; j) exploração agroflorestal e manejo florestal sustentável, comu-
nitário e familiar, incluindo a extração de produtos florestais não madeireiros, des-
de que não descaracterizem a cobertura vegetal nativa existente nem prejudiquem
a função ambiental da área; k) outras ações ou atividades similares, reconhecidas
como eventuais e de baixo impacto ambiental em ato do Conselho Nacional do
Meio Ambiente - CONAMA ou dos Conselhos Estaduais de Meio Ambiente.”

113
castanhas e outros produtos vegetais, desde que não implique supres-
são da vegetação existente nem prejudique a função ambiental da
área” e (b.3) “exploração agroflorestal e manejo florestal sustentável,
comunitário e familiar, incluindo a extração de produtos florestais não
madeireiros, desde que não descaracterizem a cobertura vegetal nativa
existente nem prejudiquem a função ambiental da área”.
4 Considerações finais
Foi possível analisar, embora sucintamente, a definição de povos
e comunidades tradicionais contida no Decreto n.º 6.040/2007, e, a
partir dessa definição, a necessidade de ações concretas de reconheci-
mento, respeito e valorização desses grupos culturalmente diferencia-
dos, o que se exige inclusive em razão do princípio da dignidade da
pessoa humana.
Também foi possível examinar como esses grupos sociais se rela-
cionam com o meio ambiente, e como necessitam de espaços territo-
riais e recursos naturais para a sua reprodução cultural, tudo através
da aplicação dos chamados conhecimentos tradicionais, que são um
conjunto de observações, experiências, práticas, técnicas, usos e sabe-
res aprendidos pelos povos e comunidades tradicionais na sua relação
com a natureza. No que diz respeito aos Povos Tradicionais de Matriz
Africada, assim como aos demais povos e comunidades tradicionais,
a natureza é fundamental para que tenham acesso aos materiais ne-
cessários à manutenção da sua cultura, da sua identidade, dos seus
peculiares modos de vida.
Porém, quando a utilização dos recursos naturais representa risco
a estes, opõem-se homem e natureza, aflorando o confronto entre as
visões antropocentrista e biocentrista de meio ambiente. É necessário
então examinar a viabilidade de intervenção humana no meio am-
biente, à luz da legislação pertinente e do princípio da sustentabilida-
de: o ser humano pode, como regra, explorar recursos naturais, desde

114
que isso não comprometa as necessidades das futuras gerações quanto
a esses recursos.
No exame dessa relação “homem x natureza”, buscando encontrar
respostas quanto à possibilidade ou não de utilização da área verde,
é necessário considerar as características peculiares dos envolvidos,
especialmente no presente caso, no qual estão envolvidos povos e
comunidades tradicionais. Isso porque esses grupos sociais convivem
com o meio ambiente de forma muito próxima, possuindo métodos
tradicionais de manejo do meio ambiente que devem ser considerados
no momento de se decidir sobre a possibilidade ou não de intervenção
humana daquela área.

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117
118
o poder JudiCiÁrio aNte o direito ao
reCoNHeCiMeNto territorial iNdigeNa

Daniel Pinheiro Viegas

Dentro do campo jurídico, há um consenso entre os seus agentes,


de que está havendo uma mudança na feição da atividade jurisdicio-
nal no Brasil, a partir de alterações legislativas, que têm permitido
uma atuação mais criadora do direito por parte dos magistrados. Essa
suposta mudança é mais significativamente atribuída ao método de
dizer o direito, provocando alterações em institutos vinculados às ra-
ízes do direito positivo brasileiro, de matriz romano-germânica, cha-
mado de civil law, em que se tem na lei o primado da fonte do direito.
Alega-se que o direito brasileiro passa a sofre forte influência de ins-
titutos do sistema common law, de origem anglo-saxônica, informado
pela teoria do stare decisis, que decorre da expressão latina “stare deci-
sis et non quieta movere”, que significa “mantenha-se a decisão e não
se moleste o que foi decidido” (DIDIER & OLIVEIRA, 2011:289).

119
Ou seja, por mais que possa parecer ambíguo, o que tem acontecido
é a verificação de uma maior atividade criadora dos magistrados, que
passam a fundamentar outras sentenças, em uma codificação de suas
decisões.
Para esclarecer a percepção dessa modificação no campo jurídi-
co, observa-se dois institutos que, especificamente, têm provocado a
aproximação do sistema jurídico brasileiro ao common law, que são
a presença de cláusulas gerais nos textos normativos e o aumento da
força persuasiva dos precedentes judiciais.
Quanto às cláusulas gerais, embora haja inúmeras definições na
doutrina jurídica, a compreensão mais fidedigna ao seu funcionamen-
to e resultado prático dentro do sistema judiciário é a de tratar-se de
um enunciado normativo em que a hipótese fática é indeterminada,
assim como também o é a sua conseqüência, ou seja, os seus efeitos
jurídicos (MARTINS-COSTA, 1998).
A doutrina jurídica tem afirmado que as cláusulas gerais têm um
sentido dinâmico ao direito, permitindo o ingresso, no ordenamento
jurídico codificado, de

princípios valorativos ainda não expressos legislativamen-


te, direitos e deveres configurados segundos os usos do trá-
fego jurídico, de diretivas econômicas, sociais e políticas, de
normas, enfim, constantes de universos metajurídicos, viabi-
lizando a sua sistematização e permanente ressistematização
no ordenamento positivo (MARTINS-COSTA, 2002:118).

As cláusulas gerais desenvolvem-se, no direito nacional, inicial-


mente no âmbito do direito privado, cujos principais exemplos são
as previsões nos textos normativos das expressões “boa-fé”, “função
social da propriedade” e “função social do contrato”.

120
Essa técnica legislativa de cláusulas gerais contrapõe-se a técnica
da subsunção casuística do fato à norma, que tornava o sistema so-
bremaneira rígido e fechado a partir da produção da regra pelo legis-
lativo que, de fato, não é nada adequado às complexidades da vida
contemporânea. Assim, o método de subsunção do fato ao enunciado
normativo, próprio e útil para os casos de textos normativos típicos e
fechados, revelou-se insuficiente diante do contexto social dinâmico.
Com isso, a doutrina jurídica passa acreditar que o Direito começa
a ser constituído a posteriori e reforçam o papel da jurisprudência na
criação de normas gerais, permitindo aos magistrados fundamenta-
rem suas decisões em julgados precedentes.
Portanto, o presente estudo busca filtrar quais elementos de uma
decisão judicial torna-se um precedente e, conseqüentemente, uma
regra geral, que universaliza determinados valores para serem utiliza-
dos em outros casos dispostos no campo jurídico.
A partir disso, se faz uma análise comparativa entre duas decisões
do Supremo Tribunal Federal em relação ao direito territorial indí-
gena, uma de 1961 e outra de 2009, das quais se tentará extrair e
comparar as razões das decisões, para apurar se houve de fato uma
mudança no direito dito ou se houve apenas um novo resultado na
concorrência dos agentes do campo jurídico em dizer o direito diante
de culturas distintas da hegemônica.

1 Em que consiste o precedente judicial?


Necessário esclarecer que um precedente judicial nada mais é do
que uma parte da decisão judicial proferida na resolução de um caso
concreto, a qual, segundo CRUZ e TUCCI, “é composta de duas
partes distintas: a) as circunstâncias de fato que embasam a controvér-
sia; e b) a tese ou o princípio jurídico assentado na motivação (ratio
decidendi) do procedimento decisório” (2004:79).

121
Portanto, o que tem força persuasiva no precedente judicial é a,
chamada no direito inglês, ratio decidendi ou holding, no direito es-
tadunidense (SILVA, 2005), que constitui a essência da tese jurídica
suficiente para decidir o caso concreto, que por sua vez é “composta
de: (i) indicação dos fatos relevantes da causa (statement of material
facts), (ii) do raciocínio lógico-jurídico da decisão (legal reasoning)
e (iii) do juízo decisório (judgement)”(CRUZ e TUCCI, 2004, 83),
sendo

importante assentar que ao decidir uma demanda judicial,


o magistrado cria, necessariamente, duas normas jurídicas. A
primeira, de caráter geral, é fruto de sua interpretação/com-
preensão dos fatos envolvidos na causa e da sua conformação
ao Direito positivo: constituição, leis etc. A segunda, de cará-
ter individual, constitui a sua decisão para aquela situação es-
pecífica que se lhe põe para a análise.” Assim, só se pode con-
siderar como ratio decidendi a opção hermenêutica que, a
despeito de ser feita para um caso concreto, tenha aptidão para
ser universalizada. (DIDIER & OLIVEIRA, 2011:388).

Para melhor esclarecer e identificar as razões de decidir de um acór-


dão, cabe o exemplo do julgamento do Habeas Corpus nº 82.424,
impetrado no Supremo Tribunal Federal em favor de Siegfried
Ellwanger, condenado pelo crime de anti-semitismo e por publicar,
vender e distribuir material anti-semita.
Nesse caso, a partir do art.5º, inciso XLII da Constituição Federal,
que estabelece que “a prática do racismo constitui crime inafiançável
e imprescritível”, os impetrantes alegavam que os judeus não consti-
tuem raça, portanto, não tendo o delito de anti-semitismo conotação
racial, não poderia incidir a regra da imprescritibilidade.
Considerando que a expressão “racismo”, prevista no art.5º, in-
ciso XLII da Constituição de 1988, caracteriza-se como um termo
vago, o STF decidiu que discriminação contra judeus, que resulta do

122
fundamento do núcleo do pensamento do nacional-socialismo, de
que os judeus e os arianos formam raças distintas, é inconciliável com
os padrões éticos e morais definidos na Constituição do Brasil e no
mundo contemporâneo, sob os quais se ergue e se harmoniza o Estado
Democrático de Direito (BRASIL, 2014a).
Assim, consignou-se que o crime de racismo é evidenciado pela
simples utilização desses estigmas, o que atenta contra os princípios
nos quais se erige e se organiza a sociedade humana, baseada na res-
peitabilidade e dignidade do ser humano e de sua pacífica convivência
no meio social (BRASIL, 2014a).
Portanto, observa-se que a ratio decidendi do Supremo Tribunal
Federal, que tem força persuasiva dentro da hierarquizada estrutu-
ra judicial foi a de estabelecer como norma geral de que o delito de
anti-semitismo é uma espécie de racismo e, portanto, inafiançável e
imprescritível. Com isso, tem-se uma regra geral, não escrita em lei,
mas construída na prática precedentalista, que universaliza o juízo de
valor, para fora do campo jurídico, sem participação do legislador.

2 A sociologia dos precedentes


Mas como se dão as escolhas do conteúdo jurídico desses termos
vagos nos precedentes judiciais? Como se formam essas razões de de-
cidir? Há de fato uma mudança no papel do direito na sociedade ou
apenas a revelação da concorrência entre os agentes do campo jurídico
pelo monopólio de dizer o direito?
Para compreender o senso comum doutrinário de que há uma
evolução dos métodos de realização da justiça é necessário recorrer
ao suporte analítico de Pierre Bourdieu (2011), segundo o qual para
explicar o que é o Direito, na sua estrutura e no seu efeito social, é
preciso retornar a lógica própria do trabalho jurídico no que ele tem
de mais específico: a atividade de formalização e os interesses sociais
dos agentes formalizadores. Para Bourdieu

123
Deixando de se perguntar se o poder vem de cima ou de
baixo, se a elaboração do direito e a sua transformação são pro-
duto de um «movimento» dos costumes em direção à regra,
das práticas coletivas em direção às codificações jurídicas ou,
inversamente, das formas e das fórmulas jurídicas em direção
às práticas que elas informam, é preciso ter em linha de con-
ta o conjunto das relações objectivas entre o campo jurídico,
lugar de relações complexas que obedecem a uma lógica re-
lativamente autônoma, e o campo do poder e, por meio dele,
o campo social no seu conjunto. É no interior deste universo
de relações que se define os meio, os fins e os efeitos específicos
que são atribuídos à acção jurídica. (BOURDIEU, 2011:240)

Bourdieu entende que a prática dos agentes encarregados de pro-


duzir o direito e de aplicá-lo deve muito às afinidades que unem os
detentores por excelência da forma do poder simbólico aos detento-
res do poder temporal, político ou econômico, embora possa haver
alguns conflitos de competência que os podem opor (2011), como
na hipótese de uma valorização dos precedentes em detrimento das
disposições normativas legais.
Com isso, Bourdieu oferece um substrato analítico que ajuda a
compreender porque decisões judiciais em relação à demarcação de
territórios indígenas, tomadas pelo Supremo Tribunal Federal, em um
interstício temporal de 50 anos, guardam semelhanças interpretativas,
embora haja uma mudança na base normativa constitucional, que re-
força o poder simbólico exercido em favor de um modo social que
busca se forjar hegemônico.
A comparação dos dois precedentes judiciais demonstram que há
uma inércia própria do campo jurídico, que decorre da eficácia sim-
bólica do direito dito em uma sociedade etnicamente diferenciada, em
que é necessário manter desconhecido o caráter arbitrário do seu fun-
cionamento (BOURDIEU, 2011), por traz do selo da universalidade

124
e da neutralidade das decisões, que legitimam a prática presente com
a compreensão do passado, Bourdieu observa que:

O trabalho jurídico exerce efeitos múltiplos: pela própria for-


ça da codificação, que subtrai as normas à contingência de uma
ocasião particular, ao fixar uma decisão exemplar (um decreto,
por exemplo) numa forma destinada, ela própria, a servir de mo-
delo a decisões ulteriores, e que autoriza e favorece ao mesmo
tempo a lógica do precedente, fundamento do modo de pensa-
mento e de ação propriamente jurídica, ele liga continuamente o
presente ao passado e dá a garantia de que, salvo revolução capaz
de pôr em causa os próprios fundamentos de ordem jurídica, o
por vir será a imagem do passado e de que as transformações
e adaptações inevitáveis serão pensadas e ditas na linguagem
da conformidade com o passado (BOURDIEU,2011:245).

Nota-se que esse mecanismo de universalização das normas jurí-


dicas, seja a partir de precedentes, seja a partir do primado da lei,
em uma sociedade de grande diversidade étnica, como a brasileira,
é muito eficiente no exercício de dominação simbólica, impondo a
legitimidade de uma ordem social uniformizadora.
Esse mecanismo se agudiza quando a diversidade étnica de uma
sociedade faz com que determinados grupos sejam positivamente dis-
criminados e tenham acesso a um determinado território, consideran-
do que nos campos social e político a terra é um elemento econômico
essencial para uma ordem hegemônica. O que é o foco de debate e
disputa pelos agentes formalizadores do campo jurídico.

3 O direito territorial indígena e a mudança processual


O exposto no item anterior é o que acontece com as decisões judi-
ciais relativas aos direitos territoriais dos povos indígenas. Note-se que
nos termos do art.231, §1º da Constituição Federal de 1988, o Estado
brasileiro reconheceu como sendo as

125
terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por
eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para
suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preserva-
ção dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar
e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segun-
do seus usos, costumes e tradições. (BRASIL, 2014b)

Houve uma mudança no regime jurídico desses povos indígenas


em relação a Constituição de 1946, que no seu art.216 previu que
“Será respeitada aos silvícolas a posse das terras onde se achem per-
manentemente localizados, com a condição de não a transferirem”
(BRASIL, 2014c).
Para Pontes de Miranda o texto ainda exigia o pressuposto da lo-
calização permanente, ou seja, desde que houvesse posse e localização
permanente, independente de título de domínio, a terra seria do na-
tivo, uma vez que qualquer alienação por eles seria nula por infração
constitucional. Assim, conclui que a proibição de alienação traz como
consequência:

a) a nulidade de qualquer ato de disposição incluídos


aqueles que só se referem a elementos do direito de proprie-
dade ou da posse (uso, fruto, garantia real, locação); b) não
há usucapião contra “silvícola” ainda que trintenal; c) as sen-
tenças que adjudicarem tais terras a outrem são suscetíveis de
rescisão, dentro do prazo de preclusão, por infringirem tex-
to constitucional (PONTES DE MIRANDA, 1953:335).

Com isso Gilmar Ferreira Mendes (1988:122) entendia ser inegá-


vel que o ato-fato de ocupação permanente produzia, já no sistema
constitucional vigente antes mesmo da Carta de 1967, dois efeitos
jurídicos de extremamente importantes: “a) atribuía aos indígenas a
posse sobre os imóveis ocupados, como todos os seus consectários; b)
outorgava à União o domínio sobre as terras ocupadas pelos indígenas,

126
originando a propriedade, exclusiva e unicamente, do ato-fato relativo
à posse”.
Em verdade, o que diferencia os textos constitucionais e a alteração
da exigência de uma posse permanente em 1946, para a exigência de
uma ocupação tradicional em terras habitadas em caráter permanente.
Ou seja, há a substituição de uma posse civil, nos moldes individuais e
patrimonialistas, por uma ocupação qualificada pela tradicionalidade
do seu exercício, entretanto em nenhum dos dois conceitos há qual-
quer elemento temporal.
Há doutrinadores que entendem que desde a Constituição de
1937 o Brasil já havia admitido a teoria do indigenato de 1912, em-
bora os textos das Constituições de 1937 e 1946 sejam tão distintos
da Constituição de 1988. Todavia, mais relevante do que o disposto
nos textos legais é a norma jurídica que se constrói a partir da herme-
nêutica desses dispositivos.
Ora, seja posse civil, indigenato ou fato indígena, o relevante a se
observar é que nenhum dos textos normativo traz em si uma limitação
temporal ao reconhecimento de um direito que é tido unanimemente
por originário, embora os precedentes judiciais construam interpreta-
ções limitativas e estatualizadas dos direitos territoriais desses povos.
É importante observar que a posse civil, aplicada aos não indíge-
nas, é um tema extremamente debatido na doutrina jurídica e divide
duas correntes de pensamento: uma que afirma tratar-se de um mero
fato e outra, majoritária, que defende tratar-se de um direito, como se
observa na lição de Orlando Gomes:

Se a posse é um direito, como o reconhece, hoje, a maioria


dos juristas, é preciso saber se tem natureza de um direito real ou
pessoal. A circunstância de ceder a um direito superior, como o
de propriedade, não significa que seja um direito pessoal. Trata-
-se de uma limitação que não é incompatível com o direito real.
O que importa para caracterizar este é o fato de se exercer sem

127
intermediário. Na posse, a sujeição da coisa à coisa é direta e ime-
diata. Não há um sujeito passivo determinado. O direito do possui-
dores exerce erga omnes. Todos são obrigados a respeitá-lo. Só os
direitos reais têm essa virtude. Verdade é que os interditos se apre-
sentam com certas qualidades de ação pessoal, mas nem por isso
influem sobre a natureza do jus possessionis. (GOMES, 2004:42)

Dentro dessa corrente que identifica a posse como categoria jurí-


dica e não mero fato indígena, há duas teorias clássicas: a subjetiva,
idealizada por Friedrich Carl Von Saviny; e a teoria objetiva, cujo ex-
poente é Rudolf Von Jhering.
Para os subjetivistas, posse é o poder direto que a pessoa tem de
dispor fisicamente de um bem com a intenção de tê-lo para si e de-
fendê-lo contra a intervenção ou agressão de quem quer que seja. A
posse, para essa teoria possui dois elementos: a) o corpus – elemento
material ou objetivo da posse, constituído pelo poder físico ou de dis-
ponibilidade sobre a coisa; b) o animus domini – elemento subjetivo,
caracterizado pela intenção de ter a coisa para si, de exercer sobre ela
o direito de propriedade (TARTUCE, 2011:759).
A Teoria Objetiva entende que para a constituição da posse bas-
ta que a pessoa disponha fisicamente da coisa, ou que tenha a mera
possibilidade de exercer esse contato. Assim, é relevante registrar que
o Código Civil de 2002, a exemplo do Código Civil de 1916, ado-
tou parcialmente a Teoria Objetiva, ao enunciar em seu art.1.196 que
“Considera-se possuidor todo aquele que tem de fato o exercício, ple-
no ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade” (TARTU-
CE, 2011:760).
Observe-se que não há em nenhum desses conceitos a exigência de
um elemento temporal que condicione o direito, ou seja, é a existência
de uma relação com o imóvel é que permite a constituição do direito.
Já a previsão do indigenato que alguns doutrinadores enten-
dem estar presente na tradição jurídica brasileira desde o texto da

128
Constituição de 1937, entende que a Constituição Federal de 1988,
ao reconhecer aos índios, em seu art.231, os direitos originários sobre
as terras que tradicionalmente ocupam, prestigiou

a tradição jurídica brasileira do instituto do indigenato. O di-


reito indígena sobre suas terras é um direito dominial primário e
congênito. Este direito é anterior e oponível a qualquer reconhe-
cimento ou ocupação superveniente. A posse não se legitima pela
titulação, mas pela efetiva ocupação indígena. Ademais, não seria
respeitoso aos costumes indígenas subordiná-los às formalidades da
legitimação jurídica do registro de terras (VILLARES, 2009:114).

Também aqui, repita-se, não há qualquer elemento temporal que


delimite o início ou o fim desse direito que, ao contrário, é tido como
originário, o que o qualifica como irrevogável diante do regime jurí-
dico que lhe é posterior.
Entretanto, nos dois julgados paradigmas analisados, seja o Recur-
so Extraordinário nº 44.585 de Relatoria para o Acórdão do Ministro
Victor Nunes Leal, de 1961, seja a Petição 3.388, de Relatoria do Mi-
nistro Ayres Brito, de 2009, ambos guardam a semelhança de, embora
reconheçam o direito dos povos indígenas sub judice, estabelecem um
critério temporal para a posse, embora houvesse entre ambos, três fa-
tos históricos que contribuíram para culminar com a atual construção
normativa constitucional que foi a ruptura de importantes segmentos
das ciências sociais e da Igreja Católica com os modelos históricos, a
emergência do movimento indígena e as discussões surgidas a partir
dos movimentos de independência das colônias européias na África,
Ásia e Oceania (LACERDA, 2007:120).
O julgado de 1961 é especialmente interessante, não apenas por-
que é uma referência do entendimento do Supremo Tribunal Federal,
mas porque registra um conflito entre as posições adotadas pelo Tribu-
nal de Justiça do Mato Grosso à época e o Ministro Ribeiro da Costa,

129
que deixou de ser relator para o Acórdão por ter seu entendimento
vencido.
Adequado, portanto, observar a transcrição de trecho da ratio de-
cidendi do Tribunal de Justiça mato-grossense no Mandado de Se-
gurança interposto pelo Serviço de Proteção aos Índios contra a Lei
estadual nº 1.077/50, que reduziu o território indígena do Povo Kan-
diwéu (“Caidineos”), do qual foi interposto o Recurso Extraordinário
apreciado pelo Supremo Tribunal Federal:

Desde 1899, mil oitocentos e noventa e nove (1899), os


dirigentes deste Estado,como que diretamente inspirados por
Deus, dispensaram aos índios Caidineos um tratamento jus-
to, necessário, humano: mandaram — e o fizeram — reservar
a esses índios uma área, cujos limites estão devidamente escla-
recidos em o documento de Raias oito e nove, proveniente da
Delegacia Especial de Terras e Colonização deste Estado em
Campo Grande, sendo que essa situação já em 1903 — mil
novecentos três — recebia a devida aprovação do Chefe do
Executivo Estadual Dr. Alves de Barros, que, assim. consi-
derava acabado o serviço de medição concluído em 23 de
fevereiro de 1900 (mil e novecentos), pelo Dr. José Maciel.
Justo, necessário, humano, dissemos nós Sim, pois porven-
tura não são os índios os verdadeiros donos de Mato-Grosso
e quiça do Brasil? Quem poderá negá-lo em sã consciência?
Sejamos pois justos, humano, decentes, ao menos com os po-
bres índios, que nenhum mal nos fizeram, mas, muito ao con-
trário, eles nos fizeram um grande bem: legaram-nos Isto sim
é insofismável, toda esta riquíssima região, que hoje ostenta
orgulhosamente sem brasão e que se chama Mato-Grosso.
Por que? Por que então tirar-lhes o pouco que os antepassa-
dos nosso, num gesto de homens dignos e esclarecidos decidi-
ram respeitar? Como, pois, admirasse hoje de pequenas reações
que se notam algumas vezes por parte dos índios nas ainda bra-
vias florestas mato-grossenses? Dai-nos forças Senhor, para que
possamos bem cumprir nossos c:adiantes deveres, a fim de que

130
nossos compatriótas de nós não se envergonham e, principal-
mente, para que a Justiça jamais seja por nós próprios sangrada.
Nunca endeusamos o marechal Rondon, porém, hoje es-
tamos sentido que êle tinha razão em sua aparentemente exa-
gerada defesa dos silvícolas. Ele naturalmente sentiu logo em
sua grande luta patriótica pelos nossos se-tees. (Comissão de
Linhas Telegráficas e Estratégicas), que esses nossos infeli-
zes irmãos estava reservado num futuro bem próximo — que
é presente — o espetáculo que hoje nossos olhos marejados
contemplam: Insensatez, ganância, ilegalidade, ingratidão.
Em seu jurídico parecer bem salienta a douta Procura-
doria Geral: O coronel Antonio Mena Gonçalves, quan-
do Interventor no Estado, conhecedor como era da neces-
sidade de ser assegurada a garantia da posse dessas terras,
pelos referidos Indicie, baixou o Decreto n° 54 de nove
de abril de 1931 concedendo-lhes o usufruto das mesmas.
Essa garantia foi posteriormente, assegurada pe-
las Constituições Federais de 1934 no artigo 129? de
1937 no artigo 154 na vigente em o artigo 218.
Do mesmo modo a Constituição Estadual de 1935 de-
clara no artigo 114: “Será respeitada a posse e mantidas sem
restrições, às atuais reservas de terras destinadas aos indíge-
nas matogrossenses, sendo-lhes, no entanto, vedado aliená-
-las. E a Constituição de 1937 não revogou êsse dispositivo.
Como se vê a reserva concedida aos índios Caidiné-
os está plenamente assegurada não só pelos atos gover-
namentais de 1903, reafirmado pelo Decreto Lei ir 54
de 1931, como pelas Constituições Federal e Estadual.
Entretanto, continua a chefia do Ministério Público a As-
sembléia Legislativa do Estado, desrespeitando o principio legal
do direito adquirido e do ato jurídico acabado, estabelecido no
artigo 141, 3° da atual Constituição Federal, votou um proje-
to de lei, modificando o referido Decreto-lei n° 54, reduzin-
do, consideravelmente a área reservada àqueles índios (fls. 24).
Esse projeto a que se refere a Procuradoria é exatamente a
Lei ir 1.077 de vide abril de 1958, contra a qual se levantaram
os índios Caidinéos, por meio dêste mandado de segurança,

131
medida (sem dúvida) cabível, como bem se vê de fls. 20 a 23,
e principalmente da decisão de fls. 48, do Pretório Excelso.
Por outro lado — notório em Mato Grosso que o Servi-
ço de Proteção aos índios existe hã muitos anos, sendo que as
afirmações constantes dos documentos de fls. nove, is fine,
não foram contrariadas pelas informações de folhas dezoi-
to e nem sofreram oposição no documento de folhas 38 a 41.
Enfim, face aos dispositivos acima citados,quem
poderá negar a existência clara, positiva, do direi-
to liquido e certo no caso dos autos? Por acaso não se es-
tendem aos índios, legitimes brasileiros natos, a garantia cons-
titucional prevista no parágrafo 24 do artigo 141 da Lei das leis?
Como, pois, poderemos negar-lhes o único re-
médio que poderá salva-los?Por todos esses motivos,
data venta, é que concedemos a segurança pedida.”
Vencido, o ilustre Desembargador Presidente Antonio de Ar-
ruda, sustentou-se nestes fundamentos (fIs. 110), verbis: “A douta
maioria reconheceu a inconstitucionalidade da lei ventilada nos au-
tos, por infração do art. 218 da Carta Magna. Alega-se o desrespei-
to à posse de terras anteriormente reservadas aos índios Caidinéos.
Data venia, o preceito constitucional citado refere-se à
posse onde os silvícolas se achem permanentemente localiza
dos. Isto significa, a meu ver, que o Estado pode reduzir le-
galmente a área que os índios já não ocupem efetivamente.
E sabido que os selvagens vão assimilando-se à civili-
zação, ficando assim diminuídas as áreas de que porventu-
ra necessitem para a sua existência rudimentar. E o que vem
constantemente ocorrendo, no decurso de nossa história.
As razões do veto, constantes dos autos, não me convençam,
no sentido que, tirante acordo com o Serviço de Proteção aos
índios, só a desapropriação poderia resolver o problema. Este
seria, sem dúvida, o processo mais equitativo e salutar, sobre-
tudo se as terras expropriadas fossem depois cedidas aos re-
menos agricultores. Seria uma solução, velo menos parcial. do
problema agrário, de que hoje tanto se fala. (RTJ/STF, 1962)

132
O Ministro Victor Nunes Leal, no julgamento do Recurso Ex-
traordinário, ao apreciar a inconstitucionalidade da lei do Estado do
Mato Grosso dispôs que:

A Constituição Federal diz o seguinte: “Art. 216: Será res-


peitada aos silvícolas a posse das terras onde se achem perma-
nentemente localizados, com a condição de não a transferirem.”
Aqui não se trata do direito de propriedade comum; o que
se reservou foi território dos índios. Essa área foi transformada
num parque indígena, sob a guarda e administração do Servi-
ço de Proteção aos Índios, pois êstes não tem a e disponibili-
dade das terras, objetivo da Constituição Federal é que ali
permaneçam os traços culturais dos antigos habitantes, não
só para sobrevivência dessa tribo, como para estudo dos etnó-
logos e para outros efeitos de natureza cultural ou intelectual.
Não está em jogo, propriamente, um conceito de posse, nem
de domínio, no sentido civilista dos vocábulos; trata-se do habi-
tat de um povo. Se os índios, na data da Constituição Federal,
ocupavam determinado território, porque desse território tira-
vam seus recursos alimentícios, embora sem terem construções
ou obras permanentes que testemunhassem posse de acordo com
o nosso conceito, essa área, na qual e da qual viviam, era neces-
sária à sua subsistência. Essa área, existente na data da Consti-
tuição Federal, é que se mandou respeitar. Se ela foi reduzida
por lei posterior, se o Estado a diminuiu de dez mil hectares,
amanhã a reduzirá em outros dez, depois mais dez, e poderia aca-
bar confinando os índios a um pequeno trato, até o território da
aldeia, porque ali é que a ‘posse’ estaria materializada nas malocas.
Não foi isso que a Constituição quis. O que ela deter-
minou foi que, num verdadeiro parque indígena, com to-
das as características culturais primitivas, pudessem per-
manecer índios, vivendo naquele território, porque a
tanto equivale dizer que continuariam na posse do mesmo.
Entendo, portanto, que, embora a demarcação desse ter-
ritório resultasse, originariamente, de uma lei do Estado, a
Constituição Federal dispôs sobre o assunto e retirou ao Estado

133
qualquer possibilidade de reduzir a área que, na época da Cons-
tituição, era ocupada pelos indica, ocupada no sentido de uti-
lizada por êles como seu ambiente ecológico. Peça; venta ao
eminente Ministro Relator para acolher a argüição de inconsti-
tucionalidade da Lei estadual n° 1.077, de 1958, confirmando o
acórdão do Tribunal local, que assim dispôs (RTJ/STF, 1962).

Interessante ainda observar que o Ministro Victor Nunes Leal con-


signa em seu entendimento o direito ao “território” indígena ocupa-
do e do qual retiravam sua subsistência e não “terra” indígena como
posteriormente veio a distinguir o Supremo Tribunal Federal. Aqui
cabe recordar a lição de Bourdieu de que a jurisprudência embora se
repita, nunca é do mesmo modo, há distinções, ainda que sutis, mas
reveladoras de disputas do campo político e social, que interferem e
relativizam a autonomia do campo jurídico.
Assim, passando a analisar o julgado de 2009, do caso de Raposa
Serra do Sol, apresenta-se logo a distinção, que marca o primeiro pon-
to de divergência conceitual, em que o Ministro Ayres Brito, autor
do voto condutor do Acórdão, diferencia terra indígena de território
indígena. De acordo com o Ministro, no que foi seguido pelos demais
membros da Corte,

somente o “território” enquanto categoria jurídico-polí-


tica é que se põe como o preciso âmbito espacial de incidên-
cia de uma dada Ordem Jurídica soberana, ou autônoma.
O substantivo “terras” é termo que assume compostura ni-
tidamente sócio-cultural, e não política (BRASIL, 2014a).

Prosseguindo com essa fundamentação conceitual, o Ministro


Ayres Brito justifica que

134
nenhuma das comunidades indígenas brasileiras detém estatura
normativa para comparecer perante a Ordem Jurídica Internacional
como “Nação”, “País”, “Pátria”, “território nacional” ou “povo” inde-
pendente. Sendo de fácil percepção que todas as vezes em que a Cons-
tituição de 1988 tratou de “nacionalidade” e dos demais vocábulos
aspeados (País, Pátria, território nacional e povo) foi para se referir ao
Brasil por inteiro (BRASIL, 2014a).
Assim, após o estabelecimento da distinção entre terra e território
o Acórdão do STF, sob o item 11, intitulado O CONTEÚDO PO-
SITIVO DO ATO DE DEMARCAÇÃO DAS TERRAS INDÍGE-
NAS, passa a estabelecer um critério objetivo para o reconhecimento
do domínio das comunidades indígenas sobre seus territórios, ao in-
terpretar que houve um marco temporal de ocupação, dispondo que

a Constituição Federal trabalhou com data certa -- a data


da promulgação dela própria (5 de outubro de 1988) -- como
insubstituível referencial para o dado da ocupação de um deter-
minado espaço geográfico por essa ou aquela etnia aborígene; ou
seja, para o reconhecimento, aos índios, dos direitos originários
sobre as terras que tradicionalmente ocupam (BRASIL, 2014a).

Em seu voto, o Ministro Ayres Brito sentenciou afirmando que

Terras que tadicionalmente ocupam, atente-se, e não aque-


las que venham a ocupar. Tampouco as terras já ocupadas em
outras épocas, mas sem continuidade suficiente para alcançar o
marco objetivo do dia 5 de outubro de 1988. Marco objetivo
que reflete o decidido propósito constitucional de colocar uma
pá de cal nas intermináveis discussões sobre qualquer outra refe-
rência temporal de ocupação de área indígena. Mesmo que essa
referência estivesse grafada em Constituição anterior. É exprimir:
a data de verificação do fato em si da ocupação fundiária é o
dia 5 de outubro de 1988, e nenhum outro (BRASIL, 2014a).

135
Prosseguindo em seu posicionamento, o Ministro Ayres Brito
também faz uma interpretação de qual seria o sentido da expressão
“terras tradicionalmente ocupadas” cunhada na Constituição Federal,
dispondo que também haveria um marco da tradicionalidade da ocu-
pação, afirmado que

é preciso que esse estar coletivamente situado em certo


espaço fundiário também ostente o caráter da perdurabili-
dade, no sentido anímico e psíquico de continuidade etno-
gráfica. A tradicionalidade da posse nativa, no entanto, não
se perde onde, ao tempo da promulgação da Lei Maior de
1988, a reocupação apenas não ocorreu por efeito de reni-
tente esbulho por parte de não-índios (BRASIL, 2014a).

Observa-se no voto do Ministro Victor Nunes Leal que o seu en-


tendimento em não admitir a redução da terra indígena Kandiwuéu
está alicerçada na interpretação de que a Constituição Federal de 1946
reconheceu aos índios, o território que ocupavam naquela data, ou
seja, a Constituição Federal foi o marco temporal limite do respeito ao
território indígena que na sua promulgação ocupavam e tiravam seus
recursos alimentícios, embora sem terem construções ou obras perma-
nentes que revelassem a posse de acordo com a posse de direito civil.
É exatamente o mesmo entendimento no Ministro Ayres Brito,
que se propondo a “colocar uma pá de cal nas intermináveis discussões
sobre qualquer outra referência temporal de ocupação de área indíge-
na” (BRASIL, 2014a), entende que a tradicionalidade da ocupação
indígena está na identificação das terras em que estavam presentes no
marco objetivo do dia 5 de outubro de 1988.

4 Conclusões
Inevitavelmente, essa decisão faz recordar o Decreto Presidencial
nº 3.912 de 10 de setembro de 2001, que pretendia regulamentar o
procedimento para titulação das terras de quilombo, estabelecendo

136
que seriam contempladas pelo artigo 68 do Ato de Disposições Cons-
titucionais Transitórias da Constituição de 1988 as “terras que eram
ocupadas por quilombos no ano de 1888” e as que estavam “ocupadas
por remanescentes das comunidades dos quilombos em 5 de outubro
de 1988”.
Na época da publicação do Decreto do Presidente Fernando Hen-
rique Cardoso, o Advogado Geral da União era o Ministro do Supre-
mo Tribunal Federal Gilmar Ferreira Mendes, mato-grossense, com
indisfarçáveis ligações com o agronegócio nacional e que participou
do julgamento do caso de Raposa Serra do Sol em 2009.
Essas identificações revelam que os precedentes não se constroem a
partir da compreensão isolada dos Magistrados, seja em 1961 seja em
2009, mas a partir da confluência de interesses meta-jurídicos que re-
lativizam a autonomia e neutralidade do campo jurídico, isto é, como
bem esclarece Bourdieu

o verdadeiro responsável pela aplicação do direito não este ou


aquele magistrado singular, mas todo o conjunto dos agentes, fre-
quentemente postos em concorrência que procedem à detecção e
à marcação do delinquente e do delito, assim também, o verda-
deiro legislador não é o redactor da lei mas sim o conjunto dos
agentes que, determinados pelos interesses e os constrangimen-
tos específicos associados às suas posições em campos diferentes
(campo jurídico, e também campo religioso, campo político,
etc.) elaboram aspirações ou reivindicações privadas e oficiosas,
as fazem aceder ao estado de «problemas sociais», organizam as
expressões (artigos de impressa, obras, plataformas de associações
ou de partidos, etc.) e as pressões (manifestações, petições, dili-
gências etc.) destinadas a «fazê-las avançar» (BOURDIEU, 2011).
Bem observa o Professor Carlos Marés que o nome “território” é
intencionalmente negado já que ‘terra’ é o nome jurídico que se dá à
propriedade individual, seja público ou privada; ‘território’ é o nome

137
jurídico que se dá a um espaço jurisdicional. Assim, o território é um
espaço coletivo que pertence a um povo” (SOUZA FILHO, 2003:93).
Trata-se de reflexo no discurso jurídico de da implantação de uma
política colonialista e etnocentrista, posto ter as Constituições dos
Estados-nacionais latino-americanos incorporado às orientações do
modelo europeu, no qual a Constituição estabelecia um rol de direitos
e garantias individuais, sendo omissas quanto a qualquer direito que
não fosse a possibilidade de aquisição patrimonial individual.
A origem histórica do discurso e das escolhas conceituais e distin-
ções estabelecidas do Ministro Ayres Brito remontam a uma estratégia
de disputa de poder estabelecida após as Revoluções Inglesa, Francesa
e Americana, as quais, segundo Hobsbawn, não poderiam desprezar a
terra como precondição e conseqüência necessária da sociedade bur-
guesa e de todo o desenvolvimento econômico na velocidade em que
se pretendia (HOBSBAWN, 1977).
Observa o historiador que haviam após essas revoluções dois obs-
táculos para as transformações desejadas, que era o campesinato tradi-
cional e, nas colônias, os proprietários de terras pré-capitalistas. Cada
pais implementou sua solução, sendo citados como os mais radicais
por Hobsbawm, os britânicos e os americanos.
A história das relações agrárias da solução americana é parte da
nossa história rural nacional, como bem se observa no trecho do dis-
curso do Comissário para Assuntos Indígenas norte-americano, cita-
do por Hobsbawm:

Dentre as causas mais perniciosas e fatais que impediram


os índios de aprender os benefícios da civilização estavam a
sua posse coletiva de extensões demasiadamente grandes de
terra e o direito a vasta anuidades em dinheiro; a primeira de-
las dando-lhes um grande campo para a sua indulgência em
seus hábitos nômades e errantes e impedindo que adquirissem
um conhecimento da individualidade na propriedade e da

138
vantagem de lares fixos; e a segunda estimulando a preguiça e
o espírito aproveitador, e dando-lhes os meios para gratificarem
seus gostos e apetites depravados (HOBSBAWM, 1977:243).

Ou seja, às comunidades indígenas, restava apenas como direito


a possibilidade de integração como indivíduos, como cidadãos ou,
como sujeito individual de direitos. Assim, ganhando direitos indivi-
duais, perdiam o direito de ser povo, de pertencer a uma coletividade
e ser um titular de direitos coletivos (SOUZA FILHO, 2003).
Portanto, observa-se que a distinção entre terra e território, é na
verdade uma imposição de uma ordem, um modelo ao “outro” e que
justifica a segunda parte desse estudo que é o estabelecimento de um
marco temporal para o reconhecimento da tradicionalidade da ocu-
pação dos povos indígenas, pelo Ministro, no que foi seguido pelos
demais membros da Corte.
O Ministro interpretou o art.231 da Constituição Federal de 1988
para afirmar que haveria ali um insubstituível referencial para o reco-
nhecimento aos índios, dos direitos originários sobre a terra, firmando
uma contradição na própria afirmação de limitar algo que está na ori-
gem do Estado brasileiro.
Justifica, o Ministro, o estabelecimento de uma data como critério
objetivo para fim de se evitar

a) a fraude da subitânea proliferação de aldeias, inclusive me-


diante o recrutamento de índios de outras regiões do Brasil, quan-
do não de outros países vizinhos, sob o único propósito de arti-
ficializar a expansão dos lindes da demarcação; b) a violência da
expulsão de índios para descaracterizar a tradicionalidade da posse
das suas terras, à data da vigente Constituição (BRASIL, 2014a)

Essa é a parte mais etnocêntrica do julgamento do Supremo Tri-


bunal Federal, pois elege uma data para congelar as relações sociais
dinâmicas e complexas, desconsiderando todo o processo histórico

139
anterior e ignorando o contexto de emergência étnica, surgido a partir
dos direitos assegurados pela ordem constitucional em 1988.
Frederik Barth, já em 1969, em seu Grupos Étnicos e suas Fron-
teiras, ensinava que para que as distinções étnicas emerjam, os pré-
-requisitos organizacionais são “1. uma categorização dos setores da
população em categorias estatutárias exclusivas e imperativas, e 2.
uma aceitação do princípio de que as normas aplicadas a uma catego-
ria pode ser diferente daquela aplicada a outra” (BARTH, 1969:199).
Essa diferenciação foi exatamente a discriminação positiva estabe-
lecida pela Constituição de 1988, que criou condições para o ressur-
gimento de povos que sobreviviam latentes nos padrões de relações
sociais impostas, mas que dentro delas mantiveram suas identidades
de grupo e ligação com seu território tradicional.
Portanto, quando o Ministro estabelece que a tradicionalidade da
ocupação está na sua existência no dia 05 de outubro de 1988, crian-
do um critério objetivo para limitar as perspectivas de exercício de
direitos do “outro”, para recordar Foucault, prossegue na implemen-
tação do “nosso” modelo de expansão agrícola e codifica o precedente
jurisprudencial.

Referências

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1988. Disponível <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constitui-
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________. Supremo Tribunal Federal. Pet. 3388-RR, em que se
decidiu pela demarcação contínua da terra indígena Raposa Serra do
Sol. Disponível em <http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.
jsp?docTP=TP&docID=5214423>. Acesso em: 11 Mai. 2014d.
REVISTA TRIMESTRAL DE JURISPRUDÊnCIA DO SU-
PREMO TRIBUnAL FEDERAL – RTJ/STF. Volume 20. Jan., Fev.
e Mar. de 1962. Recurso Extraordinário nº 44.585 de Relatoria para
o Acórdão do Ministro Victor nunes Leal, no Mandado de Segurança
interposto pelo Serviço de Proteção aos Índios contra a Lei estadual
nº 1.077/50, que reduziu o território indígena do Povo Kandiwéu.

142
doCueMeNtos JurídiCos
lei Federal N. 10.711,
DE 05 DE AGOSTO DE 2003:
Dispõe sobre o Sistema Nacional de Sementes e Mudas e dá outras
providências.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso
Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Capítulo i
Disposições preliminares

Art. 1º O Sistema nacional de Sementes e Mudas, instituído nos


termos desta Lei e de seu regulamento, objetiva garantir a identidade

143
e a qualidade do material de multiplicação e de reprodução vegetal
produzido, comercializado e utilizado em todo o território nacional.
Art. 2º Para os efeitos desta Lei, entende-se por:
I – amostra: porção representativa de um lote de sementes ou de
mudas, suficientemente homogênea e corretamente identificada, ob-
tida por método indicado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento - Mapa;
II – amostra oficial: amostra retirada por fiscal, para fins de análise
de fiscalização;
III - amostragem: ato ou processo de obtenção de porção de se-
mentes ou de mudas, definido no regulamento desta Lei, para consti-
tuir amostra representativa de campo ou de lote definido;
IV - amostrador: pessoa física credenciada pelo Mapa para execu-
ção de amostragem;
V - armazenador: pessoa física ou jurídica que armazena sementes
para si ou para terceiros;
VI - beneficiamento: operação efetuada mediante meios físicos,
químicos ou mecânicos, com o objetivo de se aprimorar a qualidade
de um lote de sementes;
VII - beneficiador: pessoa física ou jurídica que presta serviços de
beneficiamento de sementes ou mudas para terceiros, assistida por res-
ponsável técnico;
VIII - categoria: unidade de classificação, dentro de uma classe de
semente, que considera a origem genética, a qualidade e o número de
gerações, quando for o caso;
IX - certificação de sementes ou mudas: processo de produção de
sementes ou mudas, executado mediante controle de qualidade em
todas as etapas do seu ciclo, incluindo o conhecimento da origem
genética e o controle de gerações;
X - certificado de sementes ou mudas: documento emitido pelo
certificador, comprovante de que o lote de sementes ou de mudas

144
foi produzido de acordo com as normas e padrões de certificação
estabelecidos;
XI - certificador: o Mapa ou pessoa jurídica por este credenciada
para executar a certificação de sementes e mudas;
XII - classe: grupo de identificação da semente de acordo com o
processo de produção;
XIII - comerciante: pessoa física ou jurídica que exerce o comércio
de sementes ou mudas;
XIV - comércio: o ato de anunciar, expor à venda, ofertar, vender,
consignar, reembalar, importar ou exportar sementes ou mudas;
XV - cultivar: a variedade de qualquer gênero ou espécie vegetal
superior que seja claramente distinguível de outras cultivares conhe-
cidas, por margem mínima de descritores, por sua denominação pró-
pria, que seja homogênea e estável quanto aos descritores através de
gerações sucessivas e seja de espécie passível de uso pelo complexo
agroflorestal, descrita em publicação especializada disponível e acessí-
vel ao público, bem como a linhagem componente de híbridos;
XVI - cultivar local, tradicional ou crioula: variedade desenvol-
vida, adaptada ou produzida por agricultores familiares, assentados
da reforma agrária ou indígenas, com características fenotípicas bem
determinadas e reconhecidas pelas respectivas comunidades e que, a
critério do Mapa, considerados também os descritores socioculturais
e ambientais, não se caracterizem como substancialmente semelhantes
às cultivares comerciais;
XVII - detentor de semente: a pessoa física ou jurídica que estiver
na posse da semente;
XVIII - fiscalização: exercício do poder de polícia, visando coibir
atos em desacordo com os dispositivos desta Lei e de sua regulamen-
tação, realizado por Fiscal Federal Agropecuário do Mapa ou por fun-
cionário da administração estadual, municipal ou do Distrito Federal,

145
capacitados para o exercício da fiscalização e habilitados pelos respec-
tivos conselhos de fiscalização do exercício profissional;
XIX - híbrido: o resultado de um ou mais cruzamentos, sob condi-
ções controladas, entre progenitores de constituição genética distinta,
estável e de pureza varietal definida;
XX - identidade: conjunto de informações necessárias à identifica-
ção de sementes ou mudas, incluindo a identidade genética;
XXI - identidade genética: conjunto de caracteres genotípicos e
fenotípicos da cultivar que a diferencia de outras;
XXII - introdutor: pessoa física ou jurídica que introduz pela pri-
meira vez, no País, uma cultivar desenvolvida em outro país;
XXIII - jardim clonal: conjunto de plantas, matrizes ou bási-
cas, destinado a fornecer material de multiplicação de determinada
cultivar;
XXIV - laboratório de análise de sementes e mudas: unidade cons-
tituída e credenciada especificamente para proceder a análise de se-
mentes e expedir o respectivo boletim ou certificado de análise, assis-
tida por responsável técnico;
XXV - mantenedor: pessoa física ou jurídica que se responsabiliza
por tornar disponível um estoque mínimo de material de propagação
de uma cultivar inscrita no Registro Nacional de Cultivares - RNC,
conservando suas características de identidade genética e pureza
varietal;
XXVI - muda: material de propagação vegetal de qualquer gênero,
espécie ou cultivar, proveniente de reprodução sexuada ou assexuada,
que tenha finalidade específica de plantio;
XXVII - muda certificada: muda que tenha sido submetida ao pro-
cesso de certificação, proveniente de planta básica ou de planta matriz;
XXVIII - obtentor: pessoa física ou jurídica que obtiver cultivar,
nova cultivar ou cultivar essencialmente derivada;

146
XXIX - planta básica: planta obtida a partir de processo de me-
lhoramento, sob a responsabilidade e controle direto de seu obtentor
ou introdutor, mantidas as suas características de identidade e pureza
genéticas;
XXX - planta matriz: planta fornecedora de material de propa-
gação que mantém as características da Planta Básica da qual seja
proveniente;
XXXI - produção: o processo de propagação de sementes ou
mudas;
XXXII - produtor de muda: pessoa física ou jurídica que, assistida
por responsável técnico, produz muda destinada à comercialização;
XXXIII - produtor de semente: pessoa física ou jurídica que,
assistida por responsável técnico, produz semente destinada à
comercialização;
XXXIV - propagação: a reprodução, por sementes propriamente
ditas, ou a multiplicação, por mudas e demais estruturas vegetais, ou
a concomitância dessas ações;
XXXV - qualidade: conjunto de atributos inerentes a sementes ou
a mudas, que permite comprovar a origem genética e o estado físico,
fisiológico e fitossanitário delas;
XXXVI - reembalador: pessoa física ou jurídica que, assistida por
responsável técnico, reembala sementes;
XXXVII - responsável técnico: engenheiro agrônomo ou enge-
nheiro florestal, registrado no respectivo Conselho Regional de Enge-
nharia, Arquitetura e Agronomia - Crea, a quem compete a respon-
sabilidade técnica pela produção, beneficiamento, reembalagem ou
análise de sementes em todas as suas fases, na sua respectiva área de
habilitação profissional;
XXXVIII - semente: material de reprodução vegetal de qualquer
gênero, espécie ou cultivar, proveniente de reprodução sexuada ou as-
sexuada, que tenha finalidade específica de semeadura;

147
XXXIX - semente genética: material de reprodução obtido a partir
de processo de melhoramento de plantas, sob a responsabilidade e
controle direto do seu obtentor ou introdutor, mantidas as suas carac-
terísticas de identidade e pureza genéticas;
XL - semente básica: material obtido da reprodução de semente
genética, realizada de forma a garantir sua identidade genética e sua
pureza varietal;
XLI - semente certificada de primeira geração: material de repro-
dução vegetal resultante da reprodução de semente básica ou de se-
mente genética;
XLII - semente certificada de segunda geração: material de repro-
dução vegetal resultante da reprodução de semente genética, de se-
mente básica ou de semente certificada de primeira geração;
XLIII - semente para uso próprio: quantidade de material de re-
produção vegetal guardada pelo agricultor, a cada safra, para semeadu-
ra ou plantio exclusivamente na safra seguinte e em sua propriedade
ou outra cuja posse detenha, observados, para cálculo da quantidade,
os parâmetros registrados para a cultivar no Registro Nacional de Cul-
tivares - RNC; (Vide Medida provisória nº 223, de 2004)
XLIV - termo de conformidade: documento emitido pelo respon-
sável técnico, com o objetivo de atestar que a semente ou a muda
foi produzida de acordo com as normas e padrões estabelecidos pelo
Mapa;
XLV - utilização de sementes ou mudas: uso de vegetais ou de suas
partes com o objetivo de semeadura ou plantio;
XLVI - usuário de sementes ou mudas: aquele que utiliza sementes
ou mudas com objetivo de semeadura ou plantio;
XLVII - valor de cultivo e uso - VCU: valor intrínseco de com-
binação das características agronômicas da cultivar com as suas pro-
priedades de uso em atividades agrícolas, industriais, comerciais ou
consumo in natura.

148
Parágrafo único. Aplicam-se, também, no que couber e no que
não dispuser em contrário esta Lei, os conceitos constantes da Lei n.º
9.456, de 25 de abril de 1997.

Capítulo ii
Do sistema nacional de sementes e mudas

Art. 3º O Sistema Nacional de Sementes e Mudas - SNSM com-


preende as seguintes atividades:
I - registro nacional de sementes e mudas - Renasem;
II - registro nacional de cultivares - RNC;
III - produção de sementes e mudas;
IV - certificação de sementes e mudas;
V - análise de sementes e mudas;
VI - comercialização de sementes e mudas;
VII - fiscalização da produção, do beneficiamento, da amostragem,
da análise, certificação, do armazenamento, do transporte e da comer-
cialização de sementes e mudas;
VIII - utilização de sementes e mudas.
Art. 4º Compete ao Mapa promover, coordenar, normatizar, su-
pervisionar, auditar e fiscalizar as ações decorrentes desta Lei e de seu
regulamento.
Art. 5º Compete aos Estados e ao Distrito Federal elaborar normas
e procedimentos complementares relativos à produção de sementes e
mudas, bem como exercer a fiscalização do comércio estadual.
Parágrafo único. A fiscalização do comércio estadual de sementes e
mudas poderá ser exercida pelo Mapa, quando solicitado pela unidade
da Federação.

149
Art. 6º Compete privativamente ao Mapa a fiscalização do comér-
cio interestadual e internacional de sementes e mudas.

Capítulo iii
Do registro nacional de sementes e mudas

Art. 7º Fica instituído, no Mapa, o Registro Nacional de Sementes


e Mudas - Renasem.
Art. 8º As pessoas físicas e jurídicas que exerçam as atividades de
produção, beneficiamento, embalagem, armazenamento, análise, co-
mércio, importação e exportação de sementes e mudas ficam obriga-
das à inscrição no Renasem.
§ 1º O Mapa credenciará, junto ao Renasem, pessoas físicas e ju-
rídicas que atendam aos requisitos exigidos no regulamento desta Lei,
para exercer as atividades de:
I - responsável técnico;
II - entidade de certificação de sementes e mudas;
III - certificador de sementes ou mudas de produção própria;
IV - laboratório de análise de sementes e de mudas;
V - amostrador de sementes e mudas.
§ 2º As pessoas físicas ou jurídicas que importem sementes ou mu-
das para uso próprio em sua propriedade, ou em propriedades de ter-
ceiros cuja posse detenham, ficam dispensadas da inscrição no Rena-
sem, obedecidas as condições estabelecidas no regulamento desta Lei.
§ 3º Ficam isentos da inscrição no Renasem os agricultores familia-
res, os assentados da reforma agrária e os indígenas que multipliquem
sementes ou mudas para distribuição, troca ou comercialização entre
si.

150
Art. 9º Os serviços públicos decorrentes da inscrição ou do creden-
ciamento no Renasem serão remunerados pelo regime de preços de
serviços públicos específicos, cabendo ao Mapa fixar valores e formas
de arrecadação para as atividades de:
I - produtor de sementes;
II - produtor de mudas;
III - beneficiador de sementes;
IV - reembalador de sementes;
V - armazenador de sementes;
VI - comerciante de sementes;
VII - comerciante de mudas;
VIII - certificador de sementes ou de mudas;
IX - laboratório de análise de sementes ou de mudas;
X - amostrador;
XI - responsável técnico.
Parágrafo único. A pessoa física ou jurídica que exercer mais de
uma atividade pagará somente o valor referente à maior anuidade e
à maior taxa de inscrição ou de credenciamento nas atividades que
desenvolve.

Capítulo iv
Do registro nacional de cultivares

10. Fica instituído, no Mapa, o Registro Nacional de Cultivares -


RNC e o Cadastro Nacional de Cultivares Registradas - CNCR.
Parágrafo único. O CNCR é o cadastro das cultivares registradas
no RNC e de seus mantenedores.

151
Art. 11. A produção, o beneficiamento e a comercialização de se-
mentes e de mudas ficam condicionados à prévia inscrição da respec-
tiva cultivar no RNC.
§ 1º A inscrição da cultivar deverá ser única.
§ 2º A permanência da inscrição de uma cultivar, no RNC, fica
condicionada à existência de pelo menos um mantenedor, excetuadas
as cultivares cujo material de propagação dependa exclusivamente de
importação.
§ 3º O Mapa poderá aceitar mais de um mantenedor da mesma
cultivar inscrita no RNC, desde que comprove possuir condições téc-
nicas para garantir a manutenção da cultivar.
§ 4º O mantenedor que, por qualquer motivo, deixar de fornecer
material básico ou de assegurar as características da cultivar declaradas
na ocasião de sua inscrição no RNC terá seu nome excluído do regis-
tro da cultivar no CNCR.
§ 5º Na hipótese de cultivar protegida, nos termos da Lei n.º
9.456, de 25 de abril de 1997, a inscrição deverá ser feita pelo obten-
tor ou por procurador legalmente autorizado.
§ 6º Não é obrigatória a inscrição no RNC de cultivar local, tradi-
cional ou crioula, utilizada por agricultores familiares, assentados da
reforma agrária ou indígenas.
§ 7º O regulamento desta Lei estabelecerá os critérios de perma-
nência ou exclusão de inscrição no RNC, das cultivares de domínio
público.
Art. 12. A denominação da cultivar será obrigatória para sua iden-
tificação e destinar-se-á a ser sua denominação genérica, devendo,
para fins de registro, obedecer aos seguintes critérios:
I - ser única, não podendo ser expressa apenas na forma numérica;
II - ser diferente de denominação de cultivar preexistente;
III - não induzir a erro quanto às características intrínsecas ou
quanto à procedência da cultivar.

152
Art. 13. O Mapa editará publicação especializada para divulgação
do Cadastro Nacional de Cultivares Registradas.
Art. 14. Ficam convalidadas as inscrições de cultivares já existentes
no RNC, na data de publicação desta Lei, desde que, no prazo de 180
(cento e oitenta) dias, os interessados atendam ao disposto no art. 11.
Art. 15. O Mapa estabelecerá normas para determinação de valor
de cultivo e de uso - VCU pertinentes a cada espécie vegetal, para a
inscrição das respectivas cultivares no RNC.
Art. 16. A inscrição de cultivar no RNC poderá ser cancelada ou
suspensa, na forma que estabelecer o regulamento desta Lei.
Art. 17. Os serviços públicos decorrentes da inscrição no RNC
serão remunerados pelo regime de preços de serviços públicos especí-
ficos, cabendo ao Mapa fixar valores e formas de arrecadação.

Capítulo v
Da produção e da certificação

Art. 18. O Mapa promoverá a organização do sistema de produção


de sementes e mudas em todo o território nacional, incluindo o pro-
cesso de certificação, na forma que dispuser o regulamento desta Lei.
Art. 19. A produção de sementes e mudas será de responsabilidade
do produtor de sementes e mudas inscrito no Renasem, competindo-
-lhe zelar pelo controle de identidade e qualidade.
Parágrafo único. A garantia do padrão mínimo de germinação será
assegurada pelo detentor da semente, seja produtor, comerciante ou
usuário, na forma que dispuser o regulamento desta Lei.

153
Art. 20. Os padrões de identidade e qualidade das sementes e mu-
das, estabelecidos pelo Mapa e publicados no Diário Oficial da União,
serão válidos em todo o território nacional.
Art. 21. O produtor de sementes e de mudas fica obrigado a iden-
tificá-las, devendo fazer constar da respectiva embalagem, carimbo,
rótulo ou etiqueta de identificação, as especificações estabelecidas no
regulamento desta Lei.
Art. 22. As sementes e mudas deverão ser identificadas com a de-
nominação “Semente de” ou “Muda de” acrescida do nome comum
da espécie.
Parágrafo único. As sementes e mudas produzidas sob o proces-
so de certificação serão identificadas de acordo com a denominação
das categorias estabelecidas no art. 23, acrescida do nome comum da
espécie.
Art. 23. No processo de certificação, as sementes e as mudas pode-
rão ser produzidas segundo as seguintes categorias:
I - semente genética;
II - semente básica;
III - semente certificada de primeira geração - C1;
IV - semente certificada de segunda geração - C2;
V - planta básica;
VI - planta matriz;
VII - muda certificada.
§ 1º A obtenção de semente certificada de segunda geração - C2,
de semente certificada de primeira geração - C1 e de semente básica se
dará, respectivamente, pela reprodução de, no máximo, uma geração
da categoria imediatamente anterior, na escala de categorias constante
do caput.
§ 2º O Mapa poderá autorizar mais de uma geração para a multi-
plicação da categoria de semente básica, considerando as peculiarida-
des de cada espécie vegetal.

154
§ 3º A produção de semente básica, semente certificada de primei-
ra geração - C1 e semente certificada de segunda geração - C2, fica
condicionada à prévia inscrição dos campos de produção no Mapa,
observados as normas e os padrões pertinentes a cada espécie.
§ 4º A produção de muda certificada fica condicionada à prévia
inscrição do jardim clonal de planta matriz e de planta básica, assim
como do respectivo viveiro de produção, no Mapa, observados as nor-
mas e os padrões pertinentes.
Art. 24. A produção de sementes da classe não-certificada com
origem genética comprovada poderá ser feita por, no máximo, duas
gerações a partir de sementes certificadas, básicas ou genéticas, con-
dicionada à prévia inscrição dos campos de produção no Mapa e ao
atendimento às normas e padrões estabelecidos no regulamento desta
Lei.
Parágrafo único. A critério do Mapa, a produção de sementes pre-
vista neste artigo poderá ser feita sem a comprovação da origem gené-
tica, quando ainda não houver tecnologia disponível para a produção
de semente genética da respectiva espécie.
Art. 25. A inscrição de campo de produção de sementes e mudas
de cultivar protegida nos termos da Lei n.º 9.456, de 1997, somente
poderá ser feita mediante autorização expressa do detentor do direito
de propriedade da cultivar.
Art. 26. A produção de muda não-certificada deverá obedecer ao
disposto no regulamento desta Lei.
Art. 27. A certificação de sementes e mudas deverá ser efetuada
pelo Mapa ou por pessoa jurídica credenciada, na forma do regula-
mento desta Lei.
Parágrafo único. Será facultado ao produtor de sementes ou de
mudas certificar a sua própria produção, desde que credenciado pelo
Mapa, na forma do § 1º do art. 8º desta Lei.

155
Capítulo vi
Da análise de semente e de mudas

Art. 28. A análise de amostras de sementes e de mudas deverá ser


executada de acordo com metodologias oficializadas pelo Mapa.
Art. 29. As análises de amostras de sementes e de mudas somen-
te serão válidas, para os fins previstos nesta Lei, quando realizadas
diretamente pelo Mapa ou por laboratório por ele credenciado ou
reconhecido.
Parágrafo único. Os resultados das análises somente terão va-
lor, para fins de fiscalização, quando obtidos de amostras oficiais e
analisadas diretamente pelo Mapa ou por laboratório oficial por ele
credenciado.

Capítulo vii
Do comércio interno

Art. 30. O comércio e o transporte de sementes e de mudas ficam


condicionados ao atendimento dos padrões de identidade e de quali-
dade estabelecidos pelo Mapa.
Parágrafo único. Em situações emergenciais e por prazo determi-
nado, o Mapa poderá autorizar a comercialização de material de pro-
pagação com padrões de identidade e qualidade abaixo dos mínimos
estabelecidos.
Art. 31. As sementes e mudas deverão ser identificadas, constando
sua categoria, na forma estabelecida no art. 23 e deverão, ao ser trans-
portadas, comercializadas ou estocadas, estar acompanhadas de nota

156
fiscal ou nota fiscal do produtor e do certificado de semente ou do ter-
mo de conformidade, conforme definido no regulamento desta Lei.
Art. 32. A comercialização e o transporte de sementes tratadas com
produtos químicos ou agrotóxicos deverão obedecer ao disposto no
regulamento desta Lei.

Capítulo viii
Do comércio internacional

Art. 33. A produção de sementes e mudas destinadas ao comércio


internacional deverá obedecer às normas específicas estabelecidas pelo
Mapa, atendidas as exigências de acordos e tratados que regem o co-
mércio internacional ou aquelas estabelecidas com o país importador,
conforme o caso.
Art. 34. Somente poderão ser importadas sementes ou mudas de
cultivares inscritas no Registro Nacional de Cultivares.
Parágrafo único. Ficam isentas de inscrição no RNC as cultivares
importadas para fins de pesquisa, de ensaios de valor de cultivo e uso,
ou de reexportação.
Art. 35. A semente ou muda importada deve estar acompanhada
da documentação prevista no regulamento desta Lei.
§ 1º A semente ou muda importada não poderá, sem prévia auto-
rização do Mapa, ser usada, ainda que parcialmente, para fins diversos
daqueles que motivaram sua importação.
§ 2º As sementes ou mudas importadas, quando condenadas, de-
vem, a critério do Mapa, ser devolvidas, reexportadas, destruídas ou
utilizadas para outro fim.

157
Capítulo ix
Da utilização

Art. 36. Compete ao Mapa orientar a utilização de sementes e mu-


das no País, com o objetivo de evitar seu uso indevido e prejuízos
à agricultura nacional, conforme estabelecido no regulamento desta
Lei.
Capítulo x
Da fiscalização

Art. 37. Estão sujeitas à fiscalização, pelo Mapa, as pessoas físicas e


jurídicas que produzam, beneficiem, analisem, embalem, reembalem,
amostrem, certifiquem, armazenem, transportem, importem, expor-
tem, utilizem ou comercializem sementes ou mudas.
§ 1º A fiscalização de que trata este artigo é de competência do
Mapa e será exercida por fiscal por ele capacitado, sem prejuízo do
disposto no art. 5o.
§ 2º Compete ao fiscal exercer a fiscalização da produção, do bene-
ficiamento, do comércio e da utilização de sementes e mudas, sendo-
-lhe assegurado, no exercício de suas funções, livre acesso a quaisquer
estabelecimentos, documentos ou pessoas referidas no caput.
Art. 38. O Mapa poderá descentralizar, por convênio ou acordo
com entes públicos, a execução do serviço de fiscalização de que trata
esta Lei, na forma de seu regulamento.
Parágrafo único. A delegação de competência prevista no caput fica
sujeita a auditorias regulares, executadas pelo Mapa conforme estabe-
lecido no regulamento desta Lei.

158
Art. 39. Toda semente ou muda, embalada ou a granel, armazena-
da ou em trânsito, identificada ou não, está sujeita à fiscalização, na
forma que dispuser o regulamento.

Capítulo xi
Das comissões de sementes e mudas

Art. 40. Ficam criadas as Comissões de Sementes e Mudas, ór-


gãos colegiados, de caráter consultivo e de assessoramento ao Mapa,
às quais compete propor normas e procedimentos complementares,
relativos à produção, comércio e utilização de sementes e mudas.
§ 1º As Comissões de Sementes e Mudas, a serem instaladas nas
unidades da Federação, serão compostas por representantes de entida-
des federais, estaduais e municipais e da iniciativa privada, vinculadas
à fiscalização, à pesquisa, ao ensino, à assistência técnica e extensão
rural, à produção, ao comércio e ao uso de sementes e mudas.
§ 2º A composição, a estrutura, as atribuições e as responsabilida-
des das Comissões de Sementes e Mudas serão estabelecidas no regu-
lamento desta Lei.
§ 3º Cabe ao Mapa a coordenação, em âmbito nacional, das Co-
missões de Sementes e Mudas.

159
Capítulo xii
Das proibições

Art. 41. Ficam proibidos a produção, o beneficiamento, o arma-


zenamento, a análise, o comércio, o transporte e a utilização de se-
mentes e mudas em desacordo com o estabelecido nesta Lei e em sua
regulamentação.
Parágrafo único. A classificação das infrações desta Lei e as respec-
tivas penalidades serão disciplinadas no regulamento.

Capítulo xiii
Das medidas cautelares e das penalidades

Art. 42. No ato da ação fiscal serão adotadas como medidas caute-
lares, conforme dispuser o regulamento desta Lei:
I - suspensão da comercialização; ou
II - interdição de estabelecimento.
Art. 43. Sem prejuízo da responsabilidade penal e civil cabível, a
inobservância das disposições desta Lei sujeita as pessoas físicas e jurí-
dicas, referidas no art. 8º, às seguintes penalidades, isolada ou cumu-
lativamente, conforme dispuser o regulamento desta Lei:
I - advertência;
II - multa pecuniária;
III - apreensão das sementes ou mudas;
IV - condenação das sementes ou mudas;
V - suspensão da inscrição no Renasem;

160
VI - cassação da inscrição no Renasem.
Parágrafo único. A multa pecuniária será de valor equivalente a
até 250% (duzentos e cinqüenta por cento) do valor comercial do
produto fiscalizado, quando incidir sobre a produção, beneficiamento
ou comercialização.
Art. 44. O responsável técnico, o amostrador ou o certificador que
descumprir os dispositivos desta Lei, estará sujeito às seguintes pena-
lidades, isolada ou cumulativamente, conforme dispuser a regulamen-
tação desta Lei:
I - advertência;
II - multa pecuniária;
III - suspensão do credenciamento;
IV - cassação do credenciamento.
Parágrafo único. Sem prejuízo do disposto no caput deste artigo,
fica o órgão fiscalizador obrigado a comunicar as eventuais ocorrên-
cias, imediatamente, ao respectivo Conselho Regional de Engenharia,
Arquitetura e Agronomia - CREA.

Capítulo xiv
Disposições finais

Art. 45. As sementes produzidas de conformidade com o estabele-


cido no caput do art. 24 e denominadas na forma do caput do art. 22
poderão ser comercializadas com a designação de “sementes fiscaliza-
das”, por um prazo máximo de 2 (dois) anos, contado a partir da data
de publicação desta Lei.
Art. 46. O produto da arrecadação a que se referem os arts. 9º e 17
será recolhido ao Fundo Federal Agropecuário, de conformidade com

161
a legislação vigente, e aplicado na execução dos serviços de que trata
esta Lei, conforme regulamentação.
Art. 47. Fica o Mapa autorizado a estabelecer mecanismos espe-
cíficos e, no que couber, exceções ao disposto nesta Lei, para regula-
mentação da produção e do comércio de sementes de espécies flores-
tais, nativas ou exóticas, ou de interesse medicinal ou ambiental, bem
como para as demais espécies referidas no parágrafo único do art. 24.
Art. 48. Observadas as demais exigências desta Lei, é vedado o es-
tabelecimento de restrições à inclusão de sementes e mudas de cultivar
local, tradicional ou crioula em programas de financiamento ou em
programas públicos de distribuição ou troca de sementes, desenvolvi-
dos junto a agricultores familiares.
Art. 49. O Mapa estabelecerá os mecanismos de coordenação e
execução das atividades previstas nesta Lei.
Art. 50. O Poder Executivo regulamentará esta Lei no prazo de 90
(noventa) dias, a contar da data de sua publicação.
Art. 51. Esta Lei entra em vigor 90 (noventa) dias após a data de
sua publicação.
Art. 52. Fica revogada a Lei n.º 6.507, de 19 de dezembro de 1977.

Brasília, 5 de agosto de 2003; 182º da Independência e 115º da


República.
LUIZ InÁCIO LULA DA SILVA
Roberto Rodriques

162
lei Federal N. 11.346,
de 15 de seteMbro de 2006:
cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional –
SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação
adequada e dá outras providências.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso
Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Capítulo i
Disposições Gerais

Art. 1º Esta Lei estabelece as definições, princípios, diretrizes, ob-


jetivos e composição do Sistema nacional de Segurança Alimentar
e nutricional – SISAn, por meio do qual o poder público, com a
participação da sociedade civil organizada, formulará e implementará

163
políticas, planos, programas e ações com vistas em assegurar o direito
humano à alimentação adequada.
Art. 2º A alimentação adequada é direito fundamental do ser hu-
mano, inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à rea-
lização dos direitos consagrados na Constituição Federal, devendo o
poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para
promover e garantir a segurança alimentar e nutricional da população.
§ 1º A adoção dessas políticas e ações deverá levar em conta as
dimensões ambientais, culturais, econômicas, regionais e sociais.
§ 2º É dever do poder público respeitar, proteger, promover, pro-
ver, informar, monitorar, fiscalizar e avaliar a realização do direito hu-
mano à alimentação adequada, bem como garantir os mecanismos
para sua exigibilidade.
Art. 3º A segurança alimentar e nutricional consiste na realização
do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de
qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a
outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares
promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam
ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis.
Art. 4º A segurança alimentar e nutricional abrange:
I – a ampliação das condições de acesso aos alimentos por meio da
produção, em especial da agricultura tradicional e familiar, do pro-
cessamento, da industrialização, da comercialização, incluindo-se os
acordos internacionais, do abastecimento e da distribuição dos ali-
mentos, incluindo-se a água, bem como da geração de emprego e da
redistribuição da renda;
II – a conservação da biodiversidade e a utilização sustentável dos
recursos;
III – a promoção da saúde, da nutrição e da alimentação da popu-
lação, incluindo-se grupos populacionais específicos e populações em
situação de vulnerabilidade social;

164
IV – a garantia da qualidade biológica, sanitária, nutricional e tec-
nológica dos alimentos, bem como seu aproveitamento, estimulando
práticas alimentares e estilos de vida saudáveis que respeitem a diver-
sidade étnica e racial e cultural da população;
V – a produção de conhecimento e o acesso à informação; e
VI – a implementação de políticas públicas e estratégias sustentá-
veis e participativas de produção, comercialização e consumo de ali-
mentos, respeitando-se as múltiplas características culturais do País.
Art. 5º A consecução do direito humano à alimentação adequada
e da segurança alimentar e nutricional requer o respeito à soberania,
que confere aos países a primazia de suas decisões sobre a produção e
o consumo de alimentos.
Art. 6º O Estado brasileiro deve empenhar-se na promoção de
cooperação técnica com países estrangeiros, contribuindo assim para
a realização do direito humano à alimentação adequada no plano
internacional.

Capítulo ii
Do sistema nacional de segurança alimentar e nutricional

Art. 7º A consecução do direito humano à alimentação adequa-


da e da segurança alimentar e nutricional da população far-se-á por
meio do SISAN, integrado por um conjunto de órgãos e entidades
da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e pelas
instituições privadas, com ou sem fins lucrativos, afetas à segurança
alimentar e nutricional e que manifestem interesse em integrar o Sis-
tema, respeitada a legislação aplicável.

165
§ 1º A participação no SISAN de que trata este artigo deverá obe-
decer aos princípios e diretrizes do Sistema e será definida a partir
de critérios estabelecidos pelo Conselho Nacional de Segurança Ali-
mentar e Nutricional – CONSEA e pela Câmara Interministerial de
Segurança Alimentar e Nutricional, a ser criada em ato do Poder Exe-
cutivo Federal.
§ 2º Os órgãos responsáveis pela definição dos critérios de que
trata o § 1º deste artigo poderão estabelecer requisitos distintos e es-
pecíficos para os setores público e privado.
§ 3º Os órgãos e entidades públicos ou privados que integram o
SISAN o farão em caráter interdependente, assegurada a autonomia
dos seus processos decisórios.
§ 4º O dever do poder público não exclui a responsabilidade das
entidades da sociedade civil integrantes do SISAN.
Art. 8º O SISAN reger-se-á pelos seguintes princípios:
I – universalidade e eqüidade no acesso à alimentação adequada,
sem qualquer espécie de discriminação;
II – preservação da autonomia e respeito à dignidade das pessoas;
III – participação social na formulação, execução, acompanhamen-
to, monitoramento e controle das políticas e dos planos de segurança
alimentar e nutricional em todas as esferas de governo; e
IV – transparência dos programas, das ações e dos recursos públi-
cos e privados e dos critérios para sua concessão.
Art. 9º O SISAN tem como base as seguintes diretrizes:
I – promoção da intersetorialidade das políticas, programas e ações
governamentais e não-governamentais;
II – descentralização das ações e articulação, em regime de colabo-
ração, entre as esferas de governo;
III – monitoramento da situação alimentar e nutricional, visando
a subsidiar o ciclo de gestão das políticas para a área nas diferentes
esferas de governo;

166
IV – conjugação de medidas diretas e imediatas de garantia de
acesso à alimentação adequada, com ações que ampliem a capacidade
de subsistência autônoma da população;
V – articulação entre orçamento e gestão; e
VI – estímulo ao desenvolvimento de pesquisas e à capacitação de
recursos humanos.
Art. 10. O SISAN tem por objetivos formular e implementar
políticas e planos de segurança alimentar e nutricional, estimular a
integração dos esforços entre governo e sociedade civil, bem como
promover o acompanhamento, o monitoramento e a avaliação da se-
gurança alimentar e nutricional do País.
Art. 11. Integram o SISAN:
I – a Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricio-
nal, instância responsável pela indicação ao CONSEA das diretrizes e
prioridades da Política e do Plano Nacional de Segurança Alimentar,
bem como pela avaliação do SISAN;
II – o CONSEA, órgão de assessoramento imediato ao Presidente
da República, responsável pelas seguintes atribuições:
a) convocar a Conferência Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional, com periodicidade não superior a 4 (quatro) anos, bem
como definir seus parâmetros de composição, organização e funciona-
mento, por meio de regulamento próprio;
b) propor ao Poder Executivo Federal, considerando as delibera-
ções da Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional,
as diretrizes e prioridades da Política e do Plano Nacional de Segu-
rança Alimentar e Nutricional, incluindo-se requisitos orçamentários
para sua consecução;
c) articular, acompanhar e monitorar, em regime de colaboração
com os demais integrantes do Sistema, a implementação e a conver-
gência de ações inerentes à Política e ao Plano Nacional de Segurança
Alimentar e Nutricional;

167
d) definir, em regime de colaboração com a Câmara Interministe-
rial de Segurança Alimentar e Nutricional, os critérios e procedimen-
tos de adesão ao SISAN;
e) instituir mecanismos permanentes de articulação com órgãos e
entidades congêneres de segurança alimentar e nutricional nos Esta-
dos, no Distrito Federal e nos Municípios, com a finalidade de pro-
mover o diálogo e a convergência das ações que integram o SISAN;
f ) mobilizar e apoiar entidades da sociedade civil na discussão e na
implementação de ações públicas de segurança alimentar e nutricional;
III – a Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutri-
cional, integrada por Ministros de Estado e Secretários Especiais res-
ponsáveis pelas pastas afetas à consecução da segurança alimentar e
nutricional, com as seguintes atribuições, dentre outras:
a) elaborar, a partir das diretrizes emanadas do CONSEA, a Políti-
ca e o Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, indican-
do diretrizes, metas, fontes de recursos e instrumentos de acompanha-
mento, monitoramento e avaliação de sua implementação;
b) coordenar a execução da Política e do Plano;
c) articular as políticas e planos de suas congêneres estaduais e do
Distrito Federal;
IV – os órgãos e entidades de segurança alimentar e nutricional da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; e
V – as instituições privadas, com ou sem fins lucrativos, que ma-
nifestem interesse na adesão e que respeitem os critérios, princípios e
diretrizes do SISAN.
§ 1º A Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricio-
nal será precedida de conferências estaduais, distrital e municipais,
que deverão ser convocadas e organizadas pelos órgãos e entidades
congêneres nos Estados, no Distrito Federal e nos Municípios, nas
quais serão escolhidos os delegados à Conferência Nacional.
§ 2º O CONSEA será composto a partir dos seguintes critérios:

168
I – 1/3 (um terço) de representantes governamentais constituído
pelos Ministros de Estado e Secretários Especiais responsáveis pelas
pastas afetas à consecução da segurança alimentar e nutricional;
II – 2/3 (dois terços) de representantes da sociedade civil escolhi-
dos a partir de critérios de indicação aprovados na Conferência Nacio-
nal de Segurança Alimentar e Nutricional; e
III – observadores, incluindo-se representantes dos conselhos de
âmbito federal afins, de organismos internacionais e do Ministério
Público Federal.
§ 3º O CONSEA será presidido por um de seus integrantes, re-
presentante da sociedade civil, indicado pelo plenário do colegiado,
na forma do regulamento, e designado pelo Presidente da República.
§ 4º A atuação dos conselheiros, efetivos e suplentes, no CON-
SEA, será considerada serviço de relevante interesse público e não
remunerada.

Capítulo iii
Disposições finais e transitórias

Art. 12. Ficam mantidas as atuais designações dos membros do


CONSEA com seus respectivos mandatos.
Parágrafo único. O CONSEA deverá, no prazo do mandato de
seus atuais membros, definir a realização da próxima Conferência
Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, a composição dos
delegados, bem como os procedimentos para sua indicação, conforme
o disposto no § 2º do art. 11 desta Lei.
Art. 13. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

169
Brasília, 15 de setembro de 2006; 185º da Independência e 118º
da República.
LUIZ InÁCIO LULA DA SILVA
Patrus Ananias

170
deCreto N. 6.040,
de 07 de Fevereiro de 2007
Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e
Comunidades Tradicionais.32

O Presidente d República, no uso da atribuição que lhe confere o


art. 84, inciso VI, alínea “a”, da Constituição, DECRETA:
Art. 1º Fica instituída a Política nacional de Desenvolvimento
Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais - PnPCT, na for-
ma do Anexo a este Decreto.
Art. 2º Compete à Comissão nacional de Desenvolvimento Sus-
tentável dos Povos e Comunidades Tradicionais - CnPCT, criada
pelo Decreto de 13 de julho de 2006, coordenar a implementação
da Política nacional para o Desenvolvimento Sustentável dos Povos e
Comunidades Tradicionais.

32 Texto disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-


2010/2007/decreto/d6040.htm>. Consulta em 30 de setembro de 2014.

171
Art. 3º Para os fins deste Decreto e do seu Anexo compreende-se
por:
I - Povos e Comunidades Tradicionais: grupos culturalmente dife-
renciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas pró-
prias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos
naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa,
ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas
gerados e transmitidos pela tradição;
II - Territórios Tradicionais: os espaços necessários a reprodução
cultural, social e econômica dos povos e comunidades tradicionais,
sejam eles utilizados de forma permanente ou temporária, observado,
no que diz respeito aos povos indígenas e quilombolas, respectiva-
mente, o que dispõem Os arts. 231 da Constituição e 68 do Ato das
Disposições Constitucionais Transitórias e demais regulamentações; e
III - Desenvolvimento Sustentável: o uso equilibrado dos recursos
naturais, voltado para a melhoria da qualidade de vida da presente
geração, garantindo as mesmas possibilidades para as gerações futuras.
Art. 4º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 7 de fevereiro de 2007; 186º da Independência e 119º
da República.

Luiz Inácio Lula da Silva


Patrus Ananias
Marina Silva

172
deCreto N. 23.721,
de 05 de seteMbro de 2003
Cria o Parque Estadual Sumaúma (PAREST Sumaúma), no Município
de Manaus, e dá outras providências.33

O Governador do Estado do Amazonas, no exercício da compe-


tência que lhe confere o art. 54, VIII, da Constituição Estadual, e
tendo em vista o disposto no art. 11 da Lei Federal n.º 9.985, de 18
de julho de 2000, e no Decreto Federal n.º 4.340, de 22 de agosto de
2002, e o que mais consta do Processo n.º 4173/2003 – Casa Civil,
Considerando a proposta para a criação de uma Unidade de Con-
servação de Proteção Integral na categoria de Parque Estadual localiza-
da na área urbana da zona norte de Manaus, apresentada a Secretaria
de Estado de Terras e Habitação (SETHAB), Secretaria de Estado do
33 Texto disponível em <http://www.ipaam.br/legislacao/ESTADUAL/
dec.%20est.%20n.%C2%BA%2023.721,%20de%2008.09.03%20(cria%20
o%20parque%20estadual%20sama%C3%BAma).doc>. Consulta em 30 de se-
tembro de 2014.

173
Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS), ao Instituto
de Terras do Amazonas (ITEAM) e ao Instituto de Proteção Ambien-
tal do Amazonas (IPAAM) pelas lideranças e organizações não gover-
namentais locais;
Considerando o anseio da população residente nos bairros Cidade
Nova I e II em promover ações de proteção ambiental da área de
fragmento urbano denominado Parque Sumaúma, conforme abaixo-
-assinado organizado e elaborado pela Associação Comunitária Livre
do Amazonas da Cidade Nova I (CONCLAME);
Considerando que os levantamentos faunísticos realizados por pes-
quisadores da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e da Secretaria Municipal
de Desenvolvimento e Meio Ambiente (SEDEMA), indicam a pre-
sença da espécie endêmica de primata ameaçada de extinção Sauim-
-de-coleira (Saguinus bicolor), cujas populações tem sido drastica-
mente reduzidas na área urbana de Manaus, devido à supressão dos
fragmentos florestais urbanos;
Considerando a necessidade do Estado do Amazonas dar destina-
ção às áreas de sua jurisdição localizadas na área urbana de Manaus,
com intuito de evitar o processo ilegal de ocupação dessas áreas, reali-
zado em desacordo com o planejamento estabelecido pelo Plano Di-
retor de Manaus, e ao mesmo tempo resguardar esses espaços visando
a manutenção da qualidade de vida das populações residentes e da
preservação da biodiversidade local;
Considerando que o entorno da área objeto de criação deste Par-
que Estadual, sofre alta pressão pelos usos inadequados dos recursos
naturais, em função da proximidade com o perímetro urbano, ocor-
rendo dessa forma ameaça de fragmentação do ecossistema existentes;
Considerando que as unidades de proteção integral, são categorias
de unidades de conservação que priorizem a proteção dos atributos
naturais admitidos , contudo, o desenvolvimento de atividades tais

174
como a pesquisa científica, a educação e a interpretação ambiental e o
turismo ecológico, conforme as limitações legais;
Considerando a Política Estadual em nortear o uso dos recursos
naturais de seu território, pautadas na proteção ambiental e nos prin-
cípios do desenvolvimento sustentável;
Considerando a importância da cobertura florestal para conectivi-
dade do corredor central da Amazônia, mantendo fluxo de genes e o
movimento da biota fundamental para conservação da biodiversidade;
Considerando a importância da representatividade de todos os
ecossistemas em áreas protegidas pela criação de unidades de conser-
vação no Estado do Amazonas;
Considerando, finalmente, que por determinação do inciso III do
§1º do art. 225 da Constituição Federal, combinado com o caput do
artigo 229 e inciso V do art. 230 da Constituição Estadual, todos tem
direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao
Poder Publico e à coletividade o dever de defende-lo e preservá-lo para
as presentes e futuras gerações e que para assegurar a efetividade desse
direito, incumbe-lhe definir espaços territoriais e seus componentes a
serem especialmente protegidos;

DECRETA:
Art. 1º - Fica criado o PARQUE ESTADUAL SUMAÚMA (PA-
REST Sumaúma), localizado no Município de Manaus, com o obje-
tivo de preservar os ecossistemas naturais existentes, possibilitando a
realização de pesquisa cientificas e o desenvolvimento de atividades de
educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a
natureza e do turismo ecológico.
Art. 2º - O PAREST Sumaúma localizado na zona urbana da cida-
de de Manaus, totalizando uma área de 509.983,16 m² (quinhentos
e nove mil, novecentos e oitenta e três metros, dezesseis centímetros

175
quadrados), descrita com base no Levantamento Expedido comGPS,
e plotado na Carta Digital de Manaus, escala 1:10.000, executado
por Consórcio Engefoto/Aeroimagem, em abril de 2001, para a
Prefeitura Municipal de Manaus, de acordo com o seguinte memo-
rial descritivo: inicia-se partindo do Ponto 1 de coordenadas UTM
168.380,61 e 9.664.557,20 seguindo por uma linha reta no Azimute
87º08’10’’ e distancia de 204,17m até o Ponto 2, de coordenadas
UTM 168.584,53 e 9..664.567,40; deste segue por uma linha reta
Azimute 180º45’11’’ e distancia de 355,42m até o Ponto 3 de co-
ordenadas UTM 168.579,85 e 9.664.212,01; deste segue por uma
linha reta Azimute 91º24’58’’ e distancia de 261,64m até o Ponto 4
de coordenadas UTM 168.841,41 e 9.664.205,55; desde segue numa
linha reta no Azimute 03º20’06’’ e distancia 101,34m até o Ponto 5
de coordenadas UTM 168.847,31 e 9.664.306,72; desde segue numa
linha reta no Azimute 88º45’02’’ e distancia 97,15m até o Ponto 6
de coordenadas UTM 168.944,44 e 9.664.308,83; desde segue numa
linha reta no Azimute 07º44’01’’ e distancia 214,52m até o Ponto 7
de coordenadas UTM 168.973,30 e 9.664.521,40; desde segue numa
linha reta no Azimute 90º00’00’’ e distancia 259,96m até o Ponto 8
de coordenadas UTM 169.233,26 e 9.664.521,40; desde segue numa
linha reta no Azimute 197º23’57’’ e distancia 534,98m até o Ponto 9
de coordenadas UTM 169.073,29 e 9.664.010,90; desde segue numa
linha reta no Azimute 290º44’52’’ e distancia 58,33m até o Ponto
10 de coordenadas UTM 169.018,73 e 9.664.031,56; desde segue
numa linha reta no Azimute 197º 59’ 48’’ e distancia 594,40m até o
Ponto 11 de coordenadas UTM 168.835,10 e 9.663.466,24; desde
segue numa linha reta no Azimute 269º53’53’’ e distancia 167,93m
até o Ponto 12 de coordenadas UTM 168.667,16 e 9.663.465,31;
desde segue numa linha reta no Azimute 02º 33’44’’, e distancia
de 146,91m até o Ponto 13 de coordenadas UTM 168.673,73 e
9.663.612,71, desde segue numa linha reta no Azimute 273º16’22’’

176
e distancia de 69,73m até o Ponto 14 de coordenadas UTM
168.604,12 e 9.663.616,69; desde segue numa linha reta no Azimute
01º57’00’’ e distancia de 195,68m até o Ponto 15 de coordenadas
UTM 168.611,40 e 9.663.812,25; desde segue numa linha reta no
Azimute 310º00’35’’ e distancia de 99,77m até o Ponto 16 de coor-
denadas UTM 168.534,36 e 9.663.876,39; desde segue numa linha
reta no Azimute 272º23’43’’ e distancia de 139,20m até o Ponto 17
de coordenadas UTM 168.395,28 e 9.663.882,21; desde segue numa
linha reta no Azimute 04º36’13’’ e distancia de 56,42m até o Ponto
18 de coordenadas UTM 168.399,81 e 9.663.938,44; desde segue
numa linha reta no Azimute 279º47’47’’ e distancia de 85,04m até
o Ponto 19 de coordenadas UTM 168.315,06 e 9.663.945,56; se-
gue numa linha reta no Azimute 06º07’02’’ e distancia de 615,14m
até o Ponto 1, inicio desta descritiva, perfazendo um perímetro de
4.257,72m (quatro mil, duzentos e cinquenta e sete metros, e setenta
e dois centímetros).
Art. 3º - A visitação pública do PAREST Sumaúma está sujeita às
normas e restrições estabelecidas no seu Plano de Manejo, às normas
estabelecidas pela SDS e pelo IPAAM, bem como aquelas previstas
em lei e regulamento.
Parágrafo único – A pesquisa cientifica depende de autorização
prévia do IPAAM e está sujeita as condições e restrições por este es-
tabelecidas, bem como àquelas previstas em lei ou em regulamento.
Art. 4º - A gestão do PAREST Sumaúma será realizada pela SDS,
por intermédio do IPAAM, que poderá celebrar instrumento especi-
fico com outras entidades ou instituições públicas ou com organiza-
ções da sociedade civil de interesse público com objetivos afins ao da
unidade.
Art. 5º - O PAREST Sumaúma disporá de um Conselho Consul-
tivo, cujo regimento interno será aprovado pelo Secretario de Estado

177
de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e publicado no
Diário Oficial do Estado.
Parágrafo único – A indicação dos membros do Conselho Consul-
tivo obedecerá, no que couber, às disposições dos artigos 17 a 19 do
Decreto n.º 4.340/2002.
Art. 6º - O Plano de Manejo do Parque Estadual Sumaúma será
aprovado por Portaria do Secretario de Estado de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável, devendo ser elaborado no prazo má-
ximo de 5 (cinco) anos, a contar da publicação deste decreto, nos
termos do art. 27, §3º, da Lei n.º 9.985/2000.
Parágrafo único – A partir da publicação deste decreto devem ser
formalizadas e implementadas pelo IPAAM ações de proteção e fisca-
lização do PAREST Sumaúma.
Art. 7º - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação,
revogadas as disposições em contrário.
Gabinete do Governador do Estado do Amazonas, em Manaus, 05
de setembro de 2003.

EDUARDO BRAGA, Governador do Estado

JOSÉ ALVES PACIFICO, Secretario de Estado Chefe da Casa


Civil

VIRGILIO MAURICIO VIAnA, Secretario de Estado do Meio


Ambiente e Desenvolvimento Sustentável

JORGE HEnRIQUE DE FREITAS PInHO, Procurador-Geral


do Estado

178
lei Federal N. 9.985,
de 18 de JulHo de 2000:
Regulamenta o art. 225, § 1º, incisos I, II, III e VII da Constituição
Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da
Natureza e dá outras providências.34
O VICE-PRESIDENTE DA REPÚBLICA, NO EXERCÍCIO DO
CARGO DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o
Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Capítulo i
Das disposições preliminares

34 Texto disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.


htm>. Consulta em 30 de setembro de 2014.

179
Art. 1º Esta Lei institui o Sistema Nacional de Unidades de Con-
servação da Natureza – SNUC, estabelece critérios e normas para a
criação, implantação e gestão das unidades de conservação.
Art. 2º Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por:
I - unidade de conservação: espaço territorial e seus recursos am-
bientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais
relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de
conservação e limites definidos, sob regime especial de administração,
ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção;
II - conservação da natureza: o manejo do uso humano da na-
tureza, compreendendo a preservação, a manutenção, a utilização
sustentável, a restauração e a recuperação do ambiente natural, para
que possa produzir o maior benefício, em bases sustentáveis, às atuais
gerações, mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades e as-
pirações das gerações futuras, e garantindo a sobrevivência dos seres
vivos em geral;
III - diversidade biológica: a variabilidade de organismos vivos
de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas
terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos
ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade
dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas;
IV - recurso ambiental: a atmosfera, as águas interiores, superficiais
e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os
elementos da biosfera, a fauna e a flora;
V - preservação: conjunto de métodos, procedimentos e políticas
que visem a proteção a longo prazo das espécies, habitats e ecossis-
temas, além da manutenção dos processos ecológicos, prevenindo a
simplificação dos sistemas naturais;
VI - proteção integral: manutenção dos ecossistemas livres de al-
terações causadas por interferência humana, admitido apenas o uso
indireto dos seus atributos naturais;

180
VII - conservação in situ: conservação de ecossistemas e habitats
naturais e a manutenção e recuperação de populações viáveis de es-
pécies em seus meios naturais e, no caso de espécies domesticadas ou
cultivadas, nos meios onde tenham desenvolvido suas propriedades
características;
VIII - manejo: todo e qualquer procedimento que vise assegurar a
conservação da diversidade biológica e dos ecossistemas;
IX - uso indireto: aquele que não envolve consumo, coleta, dano
ou destruição dos recursos naturais;
X - uso direto: aquele que envolve coleta e uso, comercial ou não,
dos recursos naturais;
XI - uso sustentável: exploração do ambiente de maneira a garantir
a perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos eco-
lógicos, mantendo a biodiversidade e os demais atributos ecológicos,
de forma socialmente justa e economicamente viável;
XII - extrativismo: sistema de exploração baseado na coleta e extra-
ção, de modo sustentável, de recursos naturais renováveis;
XIII - recuperação: restituição de um ecossistema ou de uma po-
pulação silvestre degradada a uma condição não degradada, que pode
ser diferente de sua condição original;
XIV - restauração: restituição de um ecossistema ou de uma po-
pulação silvestre degradada o mais próximo possível da sua condição
original;
XV - (VETADO)
XVI - zoneamento: definição de setores ou zonas em uma unidade
de conservação com objetivos de manejo e normas específicos, com
o propósito de proporcionar os meios e as condições para que todos
os objetivos da unidade possam ser alcançados de forma harmônica
e eficaz;
XVII - plano de manejo: documento técnico mediante o qual, com
fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de conservação, se

181
estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso
da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das
estruturas físicas necessárias à gestão da unidade;
XVIII - zona de amortecimento: o entorno de uma unidade de
conservação, onde as atividades humanas estão sujeitas a normas e
restrições específicas, com o propósito de minimizar os impactos ne-
gativos sobre a unidade; e
XIX - corredores ecológicos: porções de ecossistemas naturais ou
seminaturais, ligando unidades de conservação, que possibilitam entre
elas o fluxo de genes e o movimento da biota, facilitando a dispersão
de espécies e a recolonização de áreas degradadas, bem como a ma-
nutenção de populações que demandam para sua sobrevivência áreas
com extensão maior do que aquela das unidades individuais.

Capítulo ii
Do sistema nacional de unidades de conservação da natureza– SNUC

Art. 3º O Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natu-


reza - SNUC é constituído pelo conjunto das unidades de conservação
federais, estaduais e municipais, de acordo com o disposto nesta Lei.
Art. 4º O SNUC tem os seguintes objetivos:
I - contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos
recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais;
II - proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional
e nacional;
III - contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de
ecossistemas naturais;
IV - promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos
naturais;

182
V - promover a utilização dos princípios e práticas de conservação
da natureza no processo de desenvolvimento;
VI - proteger paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza
cênica;
VII - proteger as características relevantes de natureza geológica, ge-
omorfológica, espeleológica, arqueológica, paleontológica e cultural;
VIII - proteger e recuperar recursos hídricos e edáficos;
IX - recuperar ou restaurar ecossistemas degradados;
X - proporcionar meios e incentivos para atividades de pesquisa
científica, estudos e monitoramento ambiental;
XI - valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica;
XII - favorecer condições e promover a educação e interpreta-
ção ambiental, a recreação em contato com a natureza e o turismo
ecológico;
XIII - proteger os recursos naturais necessários à subsistência de
populações tradicionais, respeitando e valorizando seu conhecimento
e sua cultura e promovendo-as social e economicamente.
Art. 5º O SNUC será regido por diretrizes que:
I - assegurem que no conjunto das unidades de conservação este-
jam representadas amostras significativas e ecologicamente viáveis das
diferentes populações, habitats e ecossistemas do território nacional
e das águas jurisdicionais, salvaguardando o patrimônio biológico
existente;
II - assegurem os mecanismos e procedimentos necessários ao en-
volvimento da sociedade no estabelecimento e na revisão da política
nacional de unidades de conservação;
III - assegurem a participação efetiva das populações locais na cria-
ção, implantação e gestão das unidades de conservação;
IV - busquem o apoio e a cooperação de organizações não-gover-
namentais, de organizações privadas e pessoas físicas para o desen-
volvimento de estudos, pesquisas científicas, práticas de educação

183
ambiental, atividades de lazer e de turismo ecológico, monitora-
mento, manutenção e outras atividades de gestão das unidades de
conservação;
V - incentivem as populações locais e as organizações privadas a
estabelecerem e administrarem unidades de conservação dentro do
sistema nacional;
VI - assegurem, nos casos possíveis, a sustentabilidade econômica
das unidades de conservação;
VII - permitam o uso das unidades de conservação para a conserva-
ção in situ de populações das variantes genéticas selvagens dos animais
e plantas domesticados e recursos genéticos silvestres;
VIII - assegurem que o processo de criação e a gestão das unidades
de conservação sejam feitos de forma integrada com as políticas de
administração das terras e águas circundantes, considerando as condi-
ções e necessidades sociais e econômicas locais;
IX - considerem as condições e necessidades das populações locais
no desenvolvimento e adaptação de métodos e técnicas de uso susten-
tável dos recursos naturais; X - garantam às populações tradicionais
cuja subsistência dependa da utilização de recursos naturais existentes
no interior das unidades de conservação meios de subsistência alterna-
tivos ou a justa indenização pelos recursos perdidos;
XI - garantam uma alocação adequada dos recursos financeiros ne-
cessários para que, uma vez criadas, as unidades de conservação pos-
sam ser geridas de forma eficaz e atender aos seus objetivos;
XII - busquem conferir às unidades de conservação, nos casos pos-
síveis e respeitadas as conveniências da administração, autonomia ad-
ministrativa e financeira; e
XIII - busquem proteger grandes áreas por meio de um conjunto
integrado de unidades de conservação de diferentes categorias, próxi-
mas ou contíguas, e suas respectivas zonas de amortecimento e corre-
dores ecológicos, integrando as diferentes atividades de preservação da

184
natureza, uso sustentável dos recursos naturais e restauração e recupe-
ração dos ecossistemas.
Art. 6º O SNUC será gerido pelos seguintes órgãos, com as res-
pectivas atribuições:
I – Órgão consultivo e deliberativo: o Conselho Nacional do Meio
Ambiente - Conama, com as atribuições de acompanhar a implemen-
tação do Sistema;
II - Órgão central: o Ministério do Meio Ambiente, com a finali-
dade de coordenar o Sistema; e
III - órgãos executores: o Instituto Chico Mendes e o Ibama, em
caráter supletivo, os órgãos estaduais e municipais, com a função de
implementar o SNUC, subsidiar as propostas de criação e administrar
as unidades de conservação federais, estaduais e municipais, nas res-
pectivas esferas de atuação. (Redação dada pela Lei nº 11.516, 2007)
Parágrafo único. Podem integrar o SNUC, excepcionalmente e a
critério do Conama, unidades de conservação estaduais e municipais
que, concebidas para atender a peculiaridades regionais ou locais, pos-
suam objetivos de manejo que não possam ser satisfatoriamente aten-
didos por nenhuma categoria prevista nesta Lei e cujas características
permitam, em relação a estas, uma clara distinção.

Capítulo iii
Das categorias de unidades de conservação
Art. 7º As unidades de conservação integrantes do SNUC divi-
dem-se em dois grupos, com características específicas:
I - Unidades de Proteção Integral;
II - Unidades de Uso Sustentável.
§ 1º O objetivo básico das Unidades de Proteção Integral é preser-
var a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos
naturais, com exceção dos casos previstos nesta Lei.

185
§ 2º O objetivo básico das Unidades de Uso Sustentável é compa-
tibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela
dos seus recursos naturais.
Art. 8º O grupo das Unidades de Proteção Integral é composto
pelas seguintes categorias de unidade de conservação:
I - Estação Ecológica;
II - Reserva Biológica;
III - Parque Nacional;
IV - Monumento Natural;
V - Refúgio de Vida Silvestre.
Art. 9º A Estação Ecológica tem como objetivo a preservação da
natureza e a realização de pesquisas científicas.
§ 1º A Estação Ecológica é de posse e domínio públicos, sendo que
as áreas particulares incluídas em seus limites serão desapropriadas, de
acordo com o que dispõe a lei.
§ 2º É proibida a visitação pública, exceto quando com objetivo
educacional, de acordo com o que dispuser o Plano de Manejo da
unidade ou regulamento específico.
§ 3º A pesquisa científica depende de autorização prévia do órgão
responsável pela administração da unidade e está sujeita às condições
e restrições por este estabelecidas, bem como àquelas previstas em
regulamento.
§ 4 º Na Estação Ecológica só podem ser permitidas alterações dos
ecossistemas no caso de:
I - medidas que visem a restauração de ecossistemas modificados;
II - manejo de espécies com o fim de preservar a diversidade
biológica;
III - coleta de componentes dos ecossistemas com finalidades
científicas;
IV - pesquisas científicas cujo impacto sobre o ambiente seja
maior do que aquele causado pela simples observação ou pela coleta

186
controlada de componentes dos ecossistemas, em uma área correspon-
dente a no máximo três por cento da extensão total da unidade e até
o limite de um mil e quinhentos hectares.
Art. 10. A Reserva Biológica tem como objetivo a preservação in-
tegral da biota e demais atributos naturais existentes em seus limites,
sem interferência humana direta ou modificações ambientais, exce-
tuando-se as medidas de recuperação de seus ecossistemas alterados e
as ações de manejo necessárias para recuperar e preservar o equilíbrio
natural, a diversidade biológica e os processos ecológicos naturais.
§ 1º A Reserva Biológica é de posse e domínio públicos, sendo que
as áreas particulares incluídas em seus limites serão desapropriadas, de
acordo com o que dispõe a lei.
§ 2º É proibida a visitação pública, exceto aquela com objetivo
educacional, de acordo com regulamento específico.
§ 3º A pesquisa científica depende de autorização prévia do órgão
responsável pela administração da unidade e está sujeita às condições
e restrições por este estabelecidas, bem como àquelas previstas em
regulamento.
Art. 11. O Parque Nacional tem como objetivo básico a preserva-
ção de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza
cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas e o desen-
volvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de
recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico.
§ 1º O Parque Nacional é de posse e domínio públicos, sendo que
as áreas particulares incluídas em seus limites serão desapropriadas, de
acordo com o que dispõe a lei.
§ 2º A visitação pública está sujeita às normas e restrições esta-
belecidas no Plano de Manejo da unidade, às normas estabelecidas
pelo órgão responsável por sua administração, e àquelas previstas em
regulamento.

187
§ 3º A pesquisa científica depende de autorização prévia do órgão
responsável pela administração da unidade e está sujeita às condições
e restrições por este estabelecidas, bem como àquelas previstas em
regulamento.
§ 4º As unidades dessa categoria, quando criadas pelo Estado ou
Município, serão denominadas, respectivamente, Parque Estadual e
Parque Natural Municipal.
Art. 12. O Monumento Natural tem como objetivo básico preser-
var sítios naturais raros, singulares ou de grande beleza cênica.
§ 1º O Monumento Natural pode ser constituído por áreas par-
ticulares, desde que seja possível compatibilizar os objetivos da uni-
dade com a utilização da terra e dos recursos naturais do local pelos
proprietários.
§ 2º Havendo incompatibilidade entre os objetivos da área e as
atividades privadas ou não havendo aquiescência do proprietário às
condições propostas pelo órgão responsável pela administração da
unidade para a coexistência do Monumento Natural com o uso da
propriedade, a área deve ser desapropriada, de acordo com o que dis-
põe a lei.
§ 3º A visitação pública está sujeita às condições e restrições esta-
belecidas no Plano de Manejo da unidade, às normas estabelecidas
pelo órgão responsável por sua administração e àquelas previstas em
regulamento.
Art. 13. O Refúgio de Vida Silvestre tem como objetivo proteger
ambientes naturais onde se asseguram condições para a existência ou
reprodução de espécies ou comunidades da flora local e da fauna resi-
dente ou migratória.
§ 1º O Refúgio de Vida Silvestre pode ser constituído por áre-
as particulares, desde que seja possível compatibilizar os objetivos da
unidade com a utilização da terra e dos recursos naturais do local pelos
proprietários.

188
§ 2º Havendo incompatibilidade entre os objetivos da área e as
atividades privadas ou não havendo aquiescência do proprietário às
condições propostas pelo órgão responsável pela administração da
unidade para a coexistência do Refúgio de Vida Silvestre com o uso
da propriedade, a área deve ser desapropriada, de acordo com o que
dispõe a lei.
§ 3º A visitação pública está sujeita às normas e restrições esta-
belecidas no Plano de Manejo da unidade, às normas estabelecidas
pelo órgão responsável por sua administração, e àquelas previstas em
regulamento.
§ 4º A pesquisa científica depende de autorização prévia do órgão
responsável pela administração da unidade e está sujeita às condições
e restrições por este estabelecidas, bem como àquelas previstas em
regulamento.
Art. 14. Constituem o Grupo das Unidades de Uso Sustentável as
seguintes categorias de unidade de conservação:
I - Área de Proteção Ambiental;
II - Área de Relevante Interesse Ecológico;
III - Floresta Nacional;
IV - Reserva Extrativista;
V - Reserva de Fauna;
VI – Reserva de Desenvolvimento Sustentável; e
VII - Reserva Particular do Patrimônio Natural.
Art. 15. A Área de Proteção Ambiental é uma área em geral ex-
tensa, com um certo grau de ocupação humana, dotada de atributos
abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes
para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e tem
como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o
processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recur-
sos naturais. (Regulamento)

189
§ 1º A Área de Proteção Ambiental é constituída por terras públi-
cas ou privadas.
§ 2º Respeitados os limites constitucionais, podem ser estabeleci-
das normas e restrições para a utilização de uma propriedade privada
localizada em uma Área de Proteção Ambiental.
§ 3º As condições para a realização de pesquisa científica e visitação
pública nas áreas sob domínio público serão estabelecidas pelo órgão
gestor da unidade.
§ 4º Nas áreas sob propriedade privada, cabe ao proprietário esta-
belecer as condições para pesquisa e visitação pelo público, observadas
as exigências e restrições legais.
§ 5º A Área de Proteção Ambiental disporá de um Conselho pre-
sidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por
representantes dos órgãos públicos, de organizações da sociedade civil
e da população residente, conforme se dispuser no regulamento desta
Lei.
Art. 16. A Área de Relevante Interesse Ecológico é uma área em ge-
ral de pequena extensão, com pouca ou nenhuma ocupação humana,
com características naturais extraordinárias ou que abriga exemplares
raros da biota regional, e tem como objetivo manter os ecossistemas
naturais de importância regional ou local e regular o uso admissível
dessas áreas, de modo a compatibilizá-lo com os objetivos de conser-
vação da natureza.
§ 1º A Área de Relevante Interesse Ecológico é constituída por
terras públicas ou privadas.
§ 2º Respeitados os limites constitucionais, podem ser estabeleci-
das normas e restrições para a utilização de uma propriedade privada
localizada em uma Área de Relevante Interesse Ecológico.
Art. 17. A Floresta Nacional é uma área com cobertura florestal
de espécies predominantemente nativas e tem como objetivo básico o
uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e a pesquisa científica,

190
com ênfase em métodos para exploração sustentável de florestas nati-
vas. (Regulamento)
§ 1º A Floresta Nacional é de posse e domínio públicos, sendo que
as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropria-
das de acordo com o que dispõe a lei.
§ 2º Nas Florestas Nacionais é admitida a permanência de popu-
lações tradicionais que a habitam quando de sua criação, em confor-
midade com o disposto em regulamento e no Plano de Manejo da
unidade.
§ 3º A visitação pública é permitida, condicionada às normas es-
tabelecidas para o manejo da unidade pelo órgão responsável por sua
administração.
§ 4º A pesquisa é permitida e incentivada, sujeitando-se à prévia
autorização do órgão responsável pela administração da unidade, às
condições e restrições por este estabelecidas e àquelas previstas em
regulamento.
§ 5º A Floresta Nacional disporá de um Conselho Consultivo, pre-
sidido pelo órgão responsável por sua administração e constituído por
representantes de órgãos públicos, de organizações da sociedade civil
e, quando for o caso, das populações tradicionais residentes.
§ 6º A unidade desta categoria, quando criada pelo Estado ou Mu-
nicípio, será denominada, respectivamente, Floresta Estadual e Flo-
resta Municipal.
Art. 18. A Reserva Extrativista é uma área utilizada por populações
extrativistas tradicionais, cuja subsistência baseia-se no extrativismo
e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na criação de
animais de pequeno porte, e tem como objetivos básicos proteger os
meios de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso susten-
tável dos recursos naturais da unidade. (Regulamento)
§ 1º A Reserva Extrativista é de domínio público, com uso conce-
dido às populações extrativistas tradicionais conforme o disposto no

191
art. 23 desta Lei e em regulamentação específica, sendo que as áreas
particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas, de
acordo com o que dispõe a lei.
§ 2º A Reserva Extrativista será gerida por um Conselho Deli-
berativo, presidido pelo órgão responsável por sua administração e
constituído por representantes de órgãos públicos, de organizações da
sociedade civil e das populações tradicionais residentes na área, con-
forme se dispuser em regulamento e no ato de criação da unidade.
§ 3º A visitação pública é permitida, desde que compatível com
os interesses locais e de acordo com o disposto no Plano de Manejo
da área.
§ 4º A pesquisa científica é permitida e incentivada, sujeitando-
-se à prévia autorização do órgão responsável pela administração da
unidade, às condições e restrições por este estabelecidas e às normas
previstas em regulamento.
§ 5º O Plano de Manejo da unidade será aprovado pelo seu Con-
selho Deliberativo.
§ 6º São proibidas a exploração de recursos minerais e a caça ama-
dorística ou profissional.
§ 7º A exploração comercial de recursos madeireiros só será admi-
tida em bases sustentáveis e em situações especiais e complementares
às demais atividades desenvolvidas na Reserva Extrativista, conforme
o disposto em regulamento e no Plano de Manejo da unidade.
Art. 19. A Reserva de Fauna é uma área natural com populações
animais de espécies nativas, terrestres ou aquáticas, residentes ou mi-
gratórias, adequadas para estudos técnico-científicos sobre o manejo
econômico sustentável de recursos faunísticos.
§ 1º A Reserva de Fauna é de posse e domínio públicos, sendo que
as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropria-
das de acordo com o que dispõe a lei.

192
§ 2º A visitação pública pode ser permitida, desde que compatível
com o manejo da unidade e de acordo com as normas estabelecidas
pelo órgão responsável por sua administração.
§ 3º É proibido o exercício da caça amadorística ou profissional.
§ 4º A comercialização dos produtos e subprodutos resultantes das
pesquisas obedecerá ao disposto nas leis sobre fauna e regulamentos.
Art. 20. A Reserva de Desenvolvimento Sustentável é uma área na-
tural que abriga populações tradicionais, cuja existência baseia-se em
sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais, desenvolvi-
dos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais e
que desempenham um papel fundamental na proteção da natureza e
na manutenção da diversidade biológica. (Regulamento)
§ 1º A Reserva de Desenvolvimento Sustentável tem como ob-
jetivo básico preservar a natureza e, ao mesmo tempo, assegurar as
condições e os meios necessários para a reprodução e a melhoria dos
modos e da qualidade de vida e exploração dos recursos naturais das
populações tradicionais, bem como valorizar, conservar e aperfeiçoar
o conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente, desenvolvido
por estas populações.
§ 2º A Reserva de Desenvolvimento Sustentável é de domínio pú-
blico, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem
ser, quando necessário, desapropriadas, de acordo com o que dispõe
a lei.
§ 3º O uso das áreas ocupadas pelas populações tradicionais será
regulado de acordo com o disposto no art. 23 desta Lei e em regula-
mentação específica.
§ 4º A Reserva de Desenvolvimento Sustentável será gerida por
um Conselho Deliberativo, presidido pelo órgão responsável por
sua administração e constituído por representantes de órgãos públi-
cos, de organizações da sociedade civil e das populações tradicionais

193
residentes na área, conforme se dispuser em regulamento e no ato de
criação da unidade.
§ 5º As atividades desenvolvidas na Reserva de Desenvolvimento
Sustentável obedecerão às seguintes condições:
I - é permitida e incentivada a visitação pública, desde que com-
patível com os interesses locais e de acordo com o disposto no Plano
de Manejo da área;
II - é permitida e incentivada a pesquisa científica voltada à con-
servação da natureza, à melhor relação das populações residentes com
seu meio e à educação ambiental, sujeitando-se à prévia autorização
do órgão responsável pela administração da unidade, às condições e
restrições por este estabelecidas e às normas previstas em regulamento;
III - deve ser sempre considerado o equilíbrio dinâmico entre o
tamanho da população e a conservação; e
IV - é admitida a exploração de componentes dos ecossistemas na-
turais em regime de manejo sustentável e a substituição da cobertura
vegetal por espécies cultiváveis, desde que sujeitas ao zoneamento, às
limitações legais e ao Plano de Manejo da área.
§ 6º O Plano de Manejo da Reserva de Desenvolvimento Susten-
tável definirá as zonas de proteção integral, de uso sustentável e de
amortecimento e corredores ecológicos, e será aprovado pelo Conse-
lho Deliberativo da unidade.
Art. 21. A Reserva Particular do Patrimônio Natural é uma área
privada, gravada com perpetuidade, com o objetivo de conservar a
diversidade biológica. (Regulamento)
§ 1º O gravame de que trata este artigo constará de termo de com-
promisso assinado perante o órgão ambiental, que verificará a exis-
tência de interesse público, e será averbado à margem da inscrição no
Registro Público de Imóveis.
§ 2º Só poderá ser permitida, na Reserva Particular do Patrimônio
Natural, conforme se dispuser em regulamento:

194
I - a pesquisa científica;
II - a visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais;
III - (VETADO)
§ 3º Os órgãos integrantes do SNUC, sempre que possível e opor-
tuno, prestarão orientação técnica e científica ao proprietário de Re-
serva Particular do Patrimônio Natural para a elaboração de um Plano
de Manejo ou de Proteção e de Gestão da unidade.

Capítulo iv
Da criação, implantação e gestão das unidades de conservação

Art. 22. As unidades de conservação são criadas por ato do Poder


Público. (Regulamento)
§ 1º (VETADO)
§ 2º A criação de uma unidade de conservação deve ser precedida
de estudos técnicos e de consulta pública que permitam identificar a
localização, a dimensão e os limites mais adequados para a unidade,
conforme se dispuser em regulamento.
§ 3º No processo de consulta de que trata o § 2º, o Poder Público é
obrigado a fornecer informações adequadas e inteligíveis à população
local e a outras partes interessadas.
§ 4º Na criação de Estação Ecológica ou Reserva Biológica não é
obrigatória a consulta de que trata o § 2º deste artigo.
§ 5º As unidades de conservação do grupo de Uso Sustentável po-
dem ser transformadas total ou parcialmente em unidades do grupo
de Proteção Integral, por instrumento normativo do mesmo nível
hierárquico do que criou a unidade, desde que obedecidos os procedi-
mentos de consulta estabelecidos no § 2º deste artigo.
§ 6º A ampliação dos limites de uma unidade de conservação,
sem modificação dos seus limites originais, exceto pelo acréscimo

195
proposto, pode ser feita por instrumento normativo do mesmo nível
hierárquico do que criou a unidade, desde que obedecidos os procedi-
mentos de consulta estabelecidos no § 2º deste artigo.
§ 7º A desafetação ou redução dos limites de uma unidade de con-
servação só pode ser feita mediante lei específica.
Art. 22-A. O Poder Público poderá, ressalvadas as atividades agro-
pecuárias e outras atividades econômicas em andamento e obras pú-
blicas licenciadas, na forma da lei, decretar limitações administrativas
provisórias ao exercício de atividades e empreendimentos efetiva ou
potencialmente causadores de degradação ambiental, para a realização
de estudos com vistas na criação de Unidade de Conservação, quando,
a critério do órgão ambiental competente, houver risco de dano grave
aos recursos naturais ali existentes. (Incluído pela Lei nº 11.132, de
2005) (Vide Decreto de 2 de janeiro de 2005)
§ 1º Sem prejuízo da restrição e observada a ressalva constante
do caput, na área submetida a limitações administrativas, não serão
permitidas atividades que importem em exploração a corte raso da
floresta e demais formas de vegetação nativa. (Incluído pela Lei nº
11.132, de 2005)
§ 2º A destinação final da área submetida ao disposto neste artigo
será definida no prazo de 7 (sete) meses, improrrogáveis, findo o qual
fica extinta a limitação administrativa. (Incluído pela Lei nº 11.132,
de 2005)
Art. 23. A posse e o uso das áreas ocupadas pelas populações tra-
dicionais nas Reservas Extrativistas e Reservas de Desenvolvimento
Sustentável serão regulados por contrato, conforme se dispuser no
regulamento desta Lei.
§ 1º As populações de que trata este artigo obrigam-se a partici-
par da preservação, recuperação, defesa e manutenção da unidade de
conservação.

196
§ 2º O uso dos recursos naturais pelas populações de que trata este
artigo obedecerá às seguintes normas:
I - proibição do uso de espécies localmente ameaçadas de extinção
ou de práticas que danifiquem os seus habitats;
II - proibição de práticas ou atividades que impeçam a regeneração
natural dos ecossistemas;
III - demais normas estabelecidas na legislação, no Plano de Ma-
nejo da unidade de conservação e no contrato de concessão de direito
real de uso.
Art. 24. O subsolo e o espaço aéreo, sempre que influírem na esta-
bilidade do ecossistema, integram os limites das unidades de conser-
vação. (Regulamento)
Art. 25. As unidades de conservação, exceto Área de Proteção Am-
biental e Reserva Particular do Patrimônio Natural, devem possuir
uma zona de amortecimento e, quando conveniente, corredores eco-
lógicos. (Regulamento)
§ 1º O órgão responsável pela administração da unidade estabe-
lecerá normas específicas regulamentando a ocupação e o uso dos re-
cursos da zona de amortecimento e dos corredores ecológicos de uma
unidade de conservação.
§ 2º Os limites da zona de amortecimento e dos corredores ecoló-
gicos e as respectivas normas de que trata o § 1º poderão ser definidas
no ato de criação da unidade ou posteriormente.
Art. 26. Quando existir um conjunto de unidades de conservação
de categorias diferentes ou não, próximas, justapostas ou sobrepostas,
e outras áreas protegidas públicas ou privadas, constituindo um mo-
saico, a gestão do conjunto deverá ser feita de forma integrada e par-
ticipativa, considerando-se os seus distintos objetivos de conservação,
de forma a compatibilizar a presença da biodiversidade, a valorização
da sociodiversidade e o desenvolvimento sustentável no contexto re-
gional. (Regulamento)

197
Parágrafo único. O regulamento desta Lei disporá sobre a forma de
gestão integrada do conjunto das unidades.
Art. 27. As unidades de conservação devem dispor de um Plano de
Manejo. (Regulamento)
§ 1º O Plano de Manejo deve abranger a área da unidade de con-
servação, sua zona de amortecimento e os corredores ecológicos, in-
cluindo medidas com o fim de promover sua integração à vida econô-
mica e social das comunidades vizinhas.
§ 2º Na elaboração, atualização e implementação do Plano de
Manejo das Reservas Extrativistas, das Reservas de Desenvolvimento
Sustentável, das Áreas de Proteção Ambiental e, quando couber, das
Florestas Nacionais e das Áreas de Relevante Interesse Ecológico, será
assegurada a ampla participação da população residente.
§ 3º O Plano de Manejo de uma unidade de conservação deve ser
elaborado no prazo de cinco anos a partir da data de sua criação.
§ 4º § 4º O Plano de Manejo poderá dispor sobre as atividades de
liberação planejada e cultivo de organismos geneticamente modifica-
dos nas Áreas de Proteção Ambiental e nas zonas de amortecimento
das demais categorias de unidade de conservação, observadas as in-
formações contidas na decisão técnica da Comissão Técnica Nacional
de Biossegurança - CTNBio sobre: (Incluído pela Lei nº 11.460, de
2007)
I - o registro de ocorrência de ancestrais diretos e parentes silves-
tres; (Incluído pela Lei nº 11.460, de 2007)
II - as características de reprodução, dispersão e sobrevivência do
organismo geneticamente modificado; (Incluído pela Lei nº 11.460,
de 2007)
III - o isolamento reprodutivo do organismo geneticamente mo-
dificado em relação aos seus ancestrais diretos e parentes silvestres; e
(Incluído pela Lei nº 11.460, de 2007)

198
IV - situações de risco do organismo geneticamente modificado à
biodiversidade. (Incluído pela Lei nº 11.460, de 2007)
Art. 28. São proibidas, nas unidades de conservação, quaisquer al-
terações, atividades ou modalidades de utilização em desacordo com
os seus objetivos, o seu Plano de Manejo e seus regulamentos.
Parágrafo único. Até que seja elaborado o Plano de Manejo, todas
as atividades e obras desenvolvidas nas unidades de conservação de
proteção integral devem se limitar àquelas destinadas a garantir a inte-
gridade dos recursos que a unidade objetiva proteger, assegurando-se
às populações tradicionais porventura residentes na área as condições
e os meios necessários para a satisfação de suas necessidades materiais,
sociais e culturais.
Art. 29. Cada unidade de conservação do grupo de Proteção In-
tegral disporá de um Conselho Consultivo, presidido pelo órgão res-
ponsável por sua administração e constituído por representantes de
órgãos públicos, de organizações da sociedade civil, por proprietários
de terras localizadas em Refúgio de Vida Silvestre ou Monumento
Natural, quando for o caso, e, na hipótese prevista no § 2º do art.
42, das populações tradicionais residentes, conforme se dispuser em
regulamento e no ato de criação da unidade. (Regulamento)
Art. 30. As unidades de conservação podem ser geridas por orga-
nizações da sociedade civil de interesse público com objetivos afins
aos da unidade, mediante instrumento a ser firmado com o órgão
responsável por sua gestão. (Regulamento)
Art. 31. É proibida a introdução nas unidades de conservação de
espécies não autóctones.
§ 1º Excetuam-se do disposto neste artigo as Áreas de Proteção
Ambiental, as Florestas Nacionais, as Reservas Extrativistas e as Reser-
vas de Desenvolvimento Sustentável, bem como os animais e plantas
necessários à administração e às atividades das demais categorias de

199
unidades de conservação, de acordo com o que se dispuser em regula-
mento e no Plano de Manejo da unidade.
§ 2º Nas áreas particulares localizadas em Refúgios de Vida Silves-
tre e Monumentos Naturais podem ser criados animais domésticos
e cultivadas plantas considerados compatíveis com as finalidades da
unidade, de acordo com o que dispuser o seu Plano de Manejo.
Art. 32. Os órgãos executores articular-se-ão com a comunidade
científica com o propósito de incentivar o desenvolvimento de pes-
quisas sobre a fauna, a flora e a ecologia das unidades de conservação e
sobre formas de uso sustentável dos recursos naturais, valorizando-se
o conhecimento das populações tradicionais.
§ 1º As pesquisas científicas nas unidades de conservação não
podem colocar em risco a sobrevivência das espécies integrantes dos
ecossistemas protegidos.
§ 2º A realização de pesquisas científicas nas unidades de conserva-
ção, exceto Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patri-
mônio Natural, depende de aprovação prévia e está sujeita à fiscaliza-
ção do órgão responsável por sua administração.
§ 3º Os órgãos competentes podem transferir para as instituições
de pesquisa nacionais, mediante acordo, a atribuição de aprovar a re-
alização de pesquisas científicas e de credenciar pesquisadores para
trabalharem nas unidades de conservação.
Art. 33. A exploração comercial de produtos, subprodutos ou ser-
viços obtidos ou desenvolvidos a partir dos recursos naturais, biológi-
cos, cênicos ou culturais ou da exploração da imagem de unidade de
conservação, exceto Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular
do Patrimônio Natural, dependerá de prévia autorização e sujeita-
rá o explorador a pagamento, conforme disposto em regulamento.
(Regulamento)
Art. 34. Os órgãos responsáveis pela administração das unidades de
conservação podem receber recursos ou doações de qualquer natureza,

200
nacionais ou internacionais, com ou sem encargos, provenientes de
organizações privadas ou públicas ou de pessoas físicas que desejarem
colaborar com a sua conservação.
Parágrafo único. A administração dos recursos obtidos cabe ao ór-
gão gestor da unidade, e estes serão utilizados exclusivamente na sua
implantação, gestão e manutenção.
Art. 35. Os recursos obtidos pelas unidades de conservação do
Grupo de Proteção Integral mediante a cobrança de taxa de visitação
e outras rendas decorrentes de arrecadação, serviços e atividades da
própria unidade serão aplicados de acordo com os seguintes critérios:
I - até cinqüenta por cento, e não menos que vinte e cinco por
cento, na implementação, manutenção e gestão da própria unidade;
II - até cinqüenta por cento, e não menos que vinte e cinco por
cento, na regularização fundiária das unidades de conservação do
Grupo;
III - até cinqüenta por cento, e não menos que quinze por cento,
na implementação, manutenção e gestão de outras unidades de con-
servação do Grupo de Proteção Integral.
Art. 36. Nos casos de licenciamento ambiental de empreendimen-
tos de significativo impacto ambiental, assim considerado pelo órgão
ambiental competente, com fundamento em estudo de impacto am-
biental e respectivo relatório - EIA/RIMA, o empreendedor é obriga-
do a apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação
do Grupo de Proteção Integral, de acordo com o disposto neste artigo
e no regulamento desta Lei. (Regulamento)
§ 1º O montante de recursos a ser destinado pelo empreendedor
para esta finalidade não pode ser inferior a meio por cento dos custos
totais previstos para a implantação do empreendimento, sendo o per-
centual fixado pelo órgão ambiental licenciador, de acordo com o grau
de impacto ambiental causado pelo empreendimento. (Vide ADIN
nº 3.378-6, de 2008)

201
§ 2º Ao órgão ambiental licenciador compete definir as unidades
de conservação a serem beneficiadas, considerando as propostas apre-
sentadas no EIA/RIMA e ouvido o empreendedor, podendo inclusive
ser contemplada a criação de novas unidades de conservação.
§ 3º Quando o empreendimento afetar unidade de conservação
específica ou sua zona de amortecimento, o licenciamento a que se
refere o caput deste artigo só poderá ser concedido mediante autoriza-
ção do órgão responsável por sua administração, e a unidade afetada,
mesmo que não pertencente ao Grupo de Proteção Integral, deverá ser
uma das beneficiárias da compensação definida neste artigo.

Capítulo v
Dos incentivos, insenções e penalidades

Art. 37. (VETADO)


Art. 38. A ação ou omissão das pessoas físicas ou jurídicas que
importem inobservância aos preceitos desta Lei e a seus regulamentos
ou resultem em dano à flora, à fauna e aos demais atributos naturais
das unidades de conservação, bem como às suas instalações e às zonas
de amortecimento e corredores ecológicos, sujeitam os infratores às
sanções previstas em lei.
Art. 39. Dê-se ao art. 40 da Lei n.º 9.605, de 12 de fevereiro de
1998, a seguinte redação:
“Art. 40. (VETADO)
“§ 1º Entende-se por Unidades de Conservação de Proteção Inte-
gral as Estações Ecológicas, as Reservas Biológicas, os Parques Nacio-
nais, os Monumentos Naturais e os Refúgios de Vida Silvestre.” (NR)
“§ 2º A ocorrência de dano afetando espécies ameaçadas de extin-
ção no interior das Unidades de Conservação de Proteção Integral será
considerada circunstância agravante para a fixação da pena.” (NR)

202
“§ 3º ....................................................................”
Art. 40. Acrescente-se à Lei n.º 9.605, de 1998, o seguinte art.
40-A:
“Art. 40-A. (VETADO)
“§ 1º Entende-se por Unidades de Conservação de Uso Sustentá-
vel as Áreas de Proteção Ambiental, as Áreas de Relevante Interesse
Ecológico, as Florestas Nacionais, as Reservas Extrativistas, as Reser-
vas de Fauna, as Reservas de Desenvolvimento Sustentável e as Reser-
vas Particulares do Patrimônio Natural.” (AC)
“§ 2º A ocorrência de dano afetando espécies ameaçadas de ex-
tinção no interior das Unidades de Conservação de Uso Sustentável
será considerada circunstância agravante para a fixação da pena.” (AC)
“§ 3º Se o crime for culposo, a pena será reduzida à metade.” (AC)

Capítulo vi
Das reservas da biosfera

Art. 41. A Reserva da Biosfera é um modelo, adotado internacio-


nalmente, de gestão integrada, participativa e sustentável dos recursos
naturais, com os objetivos básicos de preservação da diversidade bio-
lógica, o desenvolvimento de atividades de pesquisa, o monitoramen-
to ambiental, a educação ambiental, o desenvolvimento sustentável e
a melhoria da qualidade de vida das populações. (Regulamento)
§ 1º A Reserva da Biosfera é constituída por:
I - uma ou várias áreas-núcleo, destinadas à proteção integral da
natureza;
II - uma ou várias zonas de amortecimento, onde só são admitidas
atividades que não resultem em dano para as áreas-núcleo; e

203
III - uma ou várias zonas de transição, sem limites rígidos, onde o
processo de ocupação e o manejo dos recursos naturais são planejados
e conduzidos de modo participativo e em bases sustentáveis.
§ 2º A Reserva da Biosfera é constituída por áreas de domínio
público ou privado.
§ 3º A Reserva da Biosfera pode ser integrada por unidades de
conservação já criadas pelo Poder Público, respeitadas as normas legais
que disciplinam o manejo de cada categoria específica.
§ 4º A Reserva da Biosfera é gerida por um Conselho Deliberativo,
formado por representantes de instituições públicas, de organizações
da sociedade civil e da população residente, conforme se dispuser em
regulamento e no ato de constituição da unidade.
§ 5º A Reserva da Biosfera é reconhecida pelo Programa Inter-
governamental “O Homem e a Biosfera – MAB”, estabelecido pela
Unesco, organização da qual o Brasil é membro.

Capítulo vii
Das disposições gerais e transitórias

Art. 42. As populações tradicionais residentes em unidades de con-


servação nas quais sua permanência não seja permitida serão inde-
nizadas ou compensadas pelas benfeitorias existentes e devidamente
realocadas pelo Poder Público, em local e condições acordados entre
as partes. (Regulamento)
§ 1º O Poder Público, por meio do órgão competente, priorizará o
reassentamento das populações tradicionais a serem realocadas.
§ 2º Até que seja possível efetuar o reassentamento de que trata
este artigo, serão estabelecidas normas e ações específicas destinadas a
compatibilizar a presença das populações tradicionais residentes com

204
os objetivos da unidade, sem prejuízo dos modos de vida, das fontes
de subsistência e dos locais de moradia destas populações, asseguran-
do-se a sua participação na elaboração das referidas normas e ações.
§ 3º Na hipótese prevista no § 2º, as normas regulando o prazo
de permanência e suas condições serão estabelecidas em regulamento.
Art. 43. O Poder Público fará o levantamento nacional das terras
devolutas, com o objetivo de definir áreas destinadas à conservação da
natureza, no prazo de cinco anos após a publicação desta Lei.
Art. 44. As ilhas oceânicas e costeiras destinam-se prioritariamente
à proteção da natureza e sua destinação para fins diversos deve ser
precedida de autorização do órgão ambiental competente.
Parágrafo único. Estão dispensados da autorização citada no caput
os órgãos que se utilizam das citadas ilhas por força de dispositivos
legais ou quando decorrente de compromissos legais assumidos.
Art. 45. Excluem-se das indenizações referentes à regulariza-
ção fundiária das unidades de conservação, derivadas ou não de
desapropriação:
I - (VETADO)
II - (VETADO)
III - as espécies arbóreas declaradas imunes de corte pelo Poder
Público;
IV - expectativas de ganhos e lucro cessante;
V - o resultado de cálculo efetuado mediante a operação de juros
compostos;
VI - as áreas que não tenham prova de domínio inequívoco e ante-
rior à criação da unidade.
Art. 46. A instalação de redes de abastecimento de água, esgoto,
energia e infra-estrutura urbana em geral, em unidades de conserva-
ção onde estes equipamentos são admitidos depende de prévia apro-
vação do órgão responsável por sua administração, sem prejuízo da

205
necessidade de elaboração de estudos de impacto ambiental e outras
exigências legais.
Parágrafo único. Esta mesma condição se aplica à zona de amorte-
cimento das unidades do Grupo de Proteção Integral, bem como às
áreas de propriedade privada inseridas nos limites dessas unidades e
ainda não indenizadas.
Art. 47. O órgão ou empresa, público ou privado, responsável pelo
abastecimento de água ou que faça uso de recursos hídricos, benefi-
ciário da proteção proporcionada por uma unidade de conservação,
deve contribuir financeiramente para a proteção e implementação da
unidade, de acordo com o disposto em regulamentação específica.
(Regulamento)
Art. 48. O órgão ou empresa, público ou privado, responsável pela
geração e distribuição de energia elétrica, beneficiário da proteção ofe-
recida por uma unidade de conservação, deve contribuir financeira-
mente para a proteção e implementação da unidade, de acordo com o
disposto em regulamentação específica. (Regulamento)
Art. 49. A área de uma unidade de conservação do Grupo de Pro-
teção Integral é considerada zona rural, para os efeitos legais.
Parágrafo único. A zona de amortecimento das unidades de con-
servação de que trata este artigo, uma vez definida formalmente, não
pode ser transformada em zona urbana.
Art. 50. O Ministério do Meio Ambiente organizará e manterá um
Cadastro Nacional de Unidades de Conservação, com a colaboração
do Ibama e dos órgãos estaduais e municipais competentes.
§ 1º O Cadastro a que se refere este artigo conterá os dados princi-
pais de cada unidade de conservação, incluindo, dentre outras caracte-
rísticas relevantes, informações sobre espécies ameaçadas de extinção,
situação fundiária, recursos hídricos, clima, solos e aspectos sociocul-
turais e antropológicos.

206
§ 2º O Ministério do Meio Ambiente divulgará e colocará à dispo-
sição do público interessado os dados constantes do Cadastro.
Art. 51. O Poder Executivo Federal submeterá à apreciação do
Congresso Nacional, a cada dois anos, um relatório de avaliação glo-
bal da situação das unidades de conservação federais do País.
Art. 52. Os mapas e cartas oficiais devem indicar as áreas que com-
põem o SNUC.
Art. 53. O Ibama elaborará e divulgará periodicamente uma rela-
ção revista e atualizada das espécies da flora e da fauna ameaçadas de
extinção no território brasileiro.
Parágrafo único. O Ibama incentivará os competentes órgãos es-
taduais e municipais a elaborarem relações equivalentes abrangendo
suas respectivas áreas de jurisdição.
Art. 54. O Ibama, excepcionalmente, pode permitir a captura de
exemplares de espécies ameaçadas de extinção destinadas a programas
de criação em cativeiro ou formação de coleções científicas, de acordo
com o disposto nesta Lei e em regulamentação específica.
Art. 55. As unidades de conservação e áreas protegidas criadas com
base nas legislações anteriores e que não pertençam às categorias pre-
vistas nesta Lei serão reavaliadas, no todo ou em parte, no prazo de
até dois anos, com o objetivo de definir sua destinação com base na
categoria e função para as quais foram criadas, conforme o disposto
no regulamento desta Lei. (Regulamento) (Regulamento)
Art. 56. (VETADO)
Art. 57. Os órgãos federais responsáveis pela execução das políticas
ambiental e indigenista deverão instituir grupos de trabalho para, no
prazo de cento e oitenta dias a partir da vigência desta Lei, propor as
diretrizes a serem adotadas com vistas à regularização das eventuais
superposições entre áreas indígenas e unidades de conservação.

207
Parágrafo único. No ato de criação dos grupos de trabalho serão fi-
xados os participantes, bem como a estratégia de ação e a abrangência
dos trabalhos, garantida a participação das comunidades envolvidas.
Art. 57-A. O Poder Executivo estabelecerá os limites para o plantio
de organismos geneticamente modificados nas áreas que circundam
as unidades de conservação até que seja fixada sua zona de amorteci-
mento e aprovado o seu respectivo Plano de Manejo. (Incluído pela
Lei nº 11.460, de 2007)
Parágrafo único. O disposto no caput deste artigo não se aplica às
Áreas de Proteção Ambiental e Reservas de Particulares do Patrimônio
Nacional. (Incluído pela Lei nº 11.460, de 2007) (Regulamento).
Art. 58. O Poder Executivo regulamentará esta Lei, no que for
necessário à sua aplicação, no prazo de cento e oitenta dias a partir da
data de sua publicação.
Art. 59. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 60. Revogam-se os arts. 5º e 6º da Lei n.º 4.771, de 15 de
setembro de 1965; o art. 5º da Lei n.º 5.197, de 3 de janeiro de 1967;
e o art. 18 da Lei n.º 6.938, de 31 de agosto de 1981.
Brasília, 18 de julho de 2000; 179º da Independência e 112º da
República.

MARCO ANTONIO DE OLIVEIRA MACIEL


José Sarney Filho

208
OS AUTORES
Daniel Pinheiro Viegas
Graduado em Direito pela Universidade Federal de Pernambu-
co – UFPE. Foi assessor jurídico do Conselho Indigenista Missio-
nário – CIMI, da Comissão Pastoral da Terra - CPT, da Federação
dos Trabalhadores Rurais na Agricultura em Pernambuco. Advogado
de comunidades indígenas, quilombolas, pequenos sitiantes e tra-
balhadores rurais sem terra. Atualmente é Procurador do Estado do
Amazonas, lotado na Procuradoria Especializada do Patrimônio Imo-
biliário e Fundiário – PPIF-PGE/AM. Mestrando do Programa de
Pós-Graduação em Direito Ambiental na Universidade do Estado do
Amazonas – UEA.

Fabiano Buriol
Graduação em Direito pela Universidade Federal de Pelotas -
UFPel (1998-2002) e Centro Universitário Ritter dos Reis (2003-
2006). Servidor da Justiça Federal do Rio Grande do Sul desde 2002,
lotado na Vara Federal Ambiental, Agrária e Residual de Porto Alegre
entre 2006 e 2011, onde exerceu a função de Oficial de Gabinete.
Especialista em Direito Público, com ênfase em Direito Constitucio-
nal, pela Escola Superior Verbo Jurídico. Mestrando do Programa de
Pós-Graduação em Direito Ambiental na Universidade do Estado do
Amazonas – UEA. Professor Voluntário de Direito Empresarial na
Universidade do Estado do Amazonas – UEA, 2013/02. Procurador
do Estado do Amazonas desde 2011, atualmente lotado na Procura-
doria Especializada do Meio Ambiente – PMA-PGE/AM. Advogado.

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