Você está na página 1de 9

TRIBUNAL DE JUSTIÇA

PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Registro: 2019.0000490581

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Remessa Necessária


Cível nº 1045223-04.2017.8.26.0053, da Comarca de São Paulo, em que é
recorrente JUÍZO EX OFFICIO, é recorrido SIDNEY SHELDON GARCIA
(JUSTIÇA GRATUITA).

ACORDAM, em 10ª Câmara de Direito Público do Tribunal de


Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Negaram provimento à remessa
necessária, V.U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores


TERESA RAMOS MARQUES (Presidente sem voto), ANTONIO CARLOS
VILLEN E ANTONIO CELSO AGUILAR CORTEZ.

São Paulo, 17 de junho de 2019.

MARCELO SEMER
RELATOR
Assinatura Eletrônica
TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Remessa Necessária Cível nº 1045223-04.2017.8.26.0053


Recorrente: Juízo Ex Officio
Recorrido: Sidney Sheldon Garcia
Interessado: Estado de São Paulo
Comarca: São Paulo
Voto nº 12773

REMESSA NECESSÁRIA. Ação do rito ordinário. Pleito


do autor de que fosse declarada a nulidade do ato que o
eliminou do concurso público em decorrência da idade e,
ainda, fosse a ré condenada a compensá-lo a título de danos
morais. Sentença que julga parcialmente procedente a ação,
afastando a condenação na compensação dos danos morais.
Manutenção. Exigência de idade máxima prevista no edital
que deve encontrar amparo em lei e não apenas no ato
regulamentador. Ingresso na carreira militar é matéria
reservada à lei, por força dos artigos 42, § 1º e 142, § 3º, X,
da Constituição da República. Precedentes das Cortes
Superiores e deste Tribunal. Sentença mantida. Remessa
necessária desprovida.

Trata-se da remessa necessária da r. sentença que


julgou parcialmente procedente a ação do rito ordinário, por meio da
qual visava o autor fosse declarada a nulidade do ato que o eliminou do
concurso público em decorrência da idade e, ainda, fosse a ré
condenada a compensá-lo a título de danos morais.

Entendeu, então, a r. sentença (fls. 162/164), em


resumo, que: (i) a LCE n.º 697/92 não estabelece idade máxima para a
participação no concurso, sendo o limite etário adotado pelo edital sido
fixado pelo Decreto n.º 54.911/09; (ii) cabendo à lei fixar as condições e
os requisitos de investidura em cargo público, conforme o art. 37, II, da
CR, não poderia ter sido fixado limite etário por meio de decreto; (iii)
mesmo que houvesse lei nesse sentido, deveria criar discriminação

Remessa Necessária Cível nº 1045223-04.2017.8.26.0053 -Voto nº 12773 2


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

razoável, o que não se trata no caso; (iv) o autor não deve ser
indenizado por danos morais, porém.

Não houve recurso voluntário da r. sentença, tendo


sido distribuído o processo a esta 10ª. Câmara de Direito Público, em
remessa necessária (fl. 203).

É O RELATÓRIO.

Trata-se de demanda em que se discute a legalidade


ou não da exclusão do autor do concurso público de Soldado PM diante
de limitação etária..

E a r. sentença que julgou parcialmente procedente a


ação merece ser mantida.

Com efeito, o concurso público configura


procedimento administrativo cujo escopo é a seleção dos melhores
candidatos para provimentos de cargos e empregos públicos, mediante a
averiguação das capacidades pessoais dos concorrentes.

Por conseguinte, a Administração Pública afere as


aptidões dos inscritos no certame.

Além disso, o certame é regido pelos princípios da


legalidade e da igualdade, porque possibilita que todos os interessados

Remessa Necessária Cível nº 1045223-04.2017.8.26.0053 -Voto nº 12773 3


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

disputem as vagas existentes em condições idênticas.

In casu, o Edital nº DP 1/321/15 prevê, em seu


item 1.2, do Capítulo II (fl. 28), como requisito para ingresso no cargo
de Soldado PM de 2ª Classe, a idade mínima de 18 (dezoito) anos e a
máxima de 30 (trinta) anos.

E o E. Supremo Tribunal Federal editou enunciado


de Súmula, de nº 683, validando o estabelecimento da exigência da
idade nos concursos públicos desde que haja consonância com o cargo
em disputa: “o limite de idade para a inscrição em concurso público só
se legitima em face do art. 7º, XXX, da Constituição, quando possa ser
justificado pela natureza das atribuições do cargo a ser preenchido”.

No entanto, a Suprema Corte possui o entendimento


de que o limite de idade previsto no edital, além de guardar pertinência
com o cargo, também deve encontrar suporte em lei:

“ADMINISTRATIVO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO


EXTRAORDINÁRIO. ESTADO DE SERGIPE. CONCURSO
PÚBLICO. POLICIAL MILITAR. FIXAÇÃO DE IDADE
LIMITE EM EDITAL. IMPOSSIBILIDADE. PREVISÃO EM LEI
POSTERIOR. APLICAÇÃO RETROATIVA. DESCABIMENTO.
PRECEDENTES. 1. O Supremo Tribunal Federal possui a
orientação pacífica de que é legítima a limitação de idade
máxima para a inscrição em concurso público, desde que
instituída por lei e justificada pela natureza do cargo a ser
provido. 2. Segundo o firme entendimento desta Corte, os
requisitos para a inscrição em concurso público devem ser
aferidos com base na legislação vigente à época de realização
do certame. 3. Agravo regimental a que se nega provimento”

Remessa Necessária Cível nº 1045223-04.2017.8.26.0053 -Voto nº 12773 4


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

(AgR no RE n.º 595.893, Rel. Min. TEORI ZAVASCKI,


Segunda Turma, julgado em 10/06/2014).

“AGRAVO REGIMENTAL. CONCURSO PÚBLICO. POLÍCIA


MILITAR DO DISTRITO FEDERAL. APLICAÇÃO DA LEI
FEDERAL 7.176/1983 AFASTADA PELO TRIBUNAL DE
ORIGEM. LIMITAÇÃO DE IDADE APENAS EM EDITAL.
IMPOSSIBILIDADE. O Tribunal de origem afastou a aplicação
da Lei 7.176/1983 ao caso concreto. Impossível chegar a
conclusão contrária sem o reexame da referida norma, o que
enseja o descabimento do recurso extraordinário. A fixação do
limite de idade via edital não tem o condão de suprir a
exigência constitucional de que tal requisito seja estabelecido
por lei. Agravo regimental a que se nega provimento” (AgR no
AI n.º 563536, Rel. Min. JOAQUIM BARBOSA, Segunda
Turma, julgado em 15/05/2012, g.n.).

Nesse mesmo sentido, verifica-se o posicionamento


do E. Superior Tribunal de Justiça quanto à necessidade de lei formal a
servir de arrimo ao limite de idade constante de edital de concurso:

“ADMINISTRATIVO. CONCURSO PÚBLICO. POLICIAL


MILITAR. LIMITE DE IDADE. POSSIBILIDADE. PREVISÃO
EM LEI E NO EDITAL. 1. Esta Corte já assentou o
entendimento de que a limitação de idade em concurso público
para ingresso nas Forças Armadas é válida, desde que prevista
em lei em sentido formal. O que não se mostra compatível com
o ordenamento jurídico é a limitação etária prevista apenas no
edital ou regulamento. 2. Conforme de verifica dos autos, a
idade máxima para ingresso na Polícia Militar do Estado da
Bahia está prevista, de forma clara, tanto na Lei Estadual nº
7.990/2001, como no instrumento convocatório, regra que não
pode ser alterada no sentido pretendido pelo impetrante, a fim
de que seja considerada a idade na data da inscrição no
concurso público e não na do curso de formação. Precedentes:
RMS 31923/AC, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJe
13/10/2011; AgRg no RMS 34.018/BA, Rel. Min. Humberto
Martins, DJe 24/06/2011; RMS 32.733/SC, Rel. Min. Herman
Benjamin, DJe 30/05/2011; RMS 31.933/AC, Rel. Min. Mauro
Campbell Marques, DJe 12/11/2010; e RMS 18759/SC, Maria

Remessa Necessária Cível nº 1045223-04.2017.8.26.0053 -Voto nº 12773 5


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Thereza de Assis Moura, DJe 01/07/2009. 3. Agravo regimental


não provido” (AgRg nos EDecl no RMS n.º 34.904/BA, Rel.
Min. CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em
22/11/2011, g.n.).

“DIREITO ADMINISTRATIVO. CONCURSO PÚBLICO.


EDITAL. LIMITE DE IDADE. POLÍCIA MILITAR DO
ESTADO DE SANTA CATARINA. PREVISÃO LEGAL.
NATUREZA DO CARGO. LEGALIDADE. 1. É firme no
Superior Tribunal de Justiça o entendimento de que é possível
a definição de limite máximo e mínimo de idade, sexo e altura
para o ingresso na carreira militar, levando-se em conta as
peculiaridades da atividade exercida, desde que haja lei
específica que imponha tais limitações. 2. O art. 11 da Lei
Estadual 6.218/1983 (Estatuto dos Policiais Militares do Estado
de Santa Catarina) aponta a idade como um dos critérios a
serem observados no ingresso à Polícia Militar catarinense. 3.
Deve-se reconhecer a legalidade da exigência de idade máxima
estabelecida pelo Edital 002/CESIEP/2005, da Secretaria de
Estado da Segurança Pública e Defesa do Cidadão do Estado
de Santa Catarina, considerada a natureza peculiar das
atividades militares. Não há, portanto, falar em ofensa a direito
líquido e certo do impetrante. 4. Recurso Ordinário não
provido” (RMS n.º 32.733/SC, Rel. Min. HERMAN
BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 24/05/2011,
g.n.).

A Constituição da República, com efeito, prescreve,


em seu artigo 42, § 1º, que “aplicam-se aos militares dos Estados, do
Distrito Federal e dos Territórios, além do que vier a ser fixado em lei,
as disposições do art. 14, § 8º; do art. 40, § 9º; e do art. 142, §§ 2º e 3º,
cabendo a lei estadual específica dispor sobre as matérias do art. 142,
§ 3º, inciso X, sendo as patentes dos oficiais conferidas pelos
respectivos governadores”.

Remessa Necessária Cível nº 1045223-04.2017.8.26.0053 -Voto nº 12773 6


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

A seu turno, o mencionado artigo 142, § 3º, X, da


CR, determina que: “a lei disporá sobre o ingresso nas Forças
Armadas, os limites de idade, a estabilidade e outras condições de
transferência do militar para a inatividade, os direitos, os deveres, a
remuneração, as prerrogativas e outras situações especiais dos
militares, consideradas as peculiaridades de suas atividades, inclusive
aquelas cumpridas por força de compromissos internacionais e de
guerra” (g.n.).

Via de consequência, a regulamentação do ingresso


à carreira militar é matéria reservada à lei, em sentido formal.

No caso em análise, a previsão do instrumento


convocatório encontra suporte apenas no artigo 36, do Decreto Estadual
nº 54.911/09.

Desse modo, na ausência de arrimo legal à


disposição do edital, era de rigor procedência parcial da ação, não
havendo, assim, o que reformar na r. sentença.

A propósito, cite-se o entendimento desta C. Câmara


em caso assemelhado ao presente:

“AGRAVO INTERNO - Servidor Estadual - Concurso público -


Policial militar Posse - Limitação de idade - Apelação - Art. 57,
do Código de Processo Civil - Negado seguimento -
Possibilidade: - Não demonstrada qualquer inconsistência no
fundamento da decisão, é manifestamente infundada a

Remessa Necessária Cível nº 1045223-04.2017.8.26.0053 -Voto nº 12773 7


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

irresignação do agravante. Ementa da decisão: SERVIDOR


ESTADUAL - Concurso público - Policial militar Posse -
Limitação de idade - Impossibilidade: - A limitação etária para
ingresso nas careiras militares somente é legítima quando
prevista em lei” (Agravo Interno nº
1004028-78.2013.8.26.0053/50000. Rela. Teresa Ramos
Marques, j. 30/06/2014).

Este posicionamento também é verificado em


decisões proferidas por outras Câmaras deste E. Tribunal:

“CONCURSO PÚBLICO. Seleção para Soldado da Polícia


Militar. Imposição de limite máximo de idade, com base em
decreto regulamentar. Descabimento. Incabível a imposição de
limite de idade fixado em edital, pois a matéria deve ser
estabelecida por lei específica, nos termos do art. 142, §3º,
inciso X da CF. Decreto que não pode exorbitar seu poder
regulamentador, sob pena de ofensa ao princípio da legalidade.
Súmula nº 683 do STF que admite a fixação de idade máxima
para adequação à função, mas através de lei. Precedentes do
Eg. STF, STJ e deste TJ/SP. Nulidade do ato administrativo que
reprovou o candidato. Sentença mantida, neste aspecto.
SUCUMBÊNCIA. Diante da sucumbência recíproca, aplica-se o
art. 21 do Código de Processo Civil, ressaltando-se que o autor
é beneficiário da assistência judiciária gratuita. Reexame
necessário parcialmente provido; improvido o recurso
voluntário da Fazenda” (Apelação nº
0017754-39.2013.8.26.0053, Rel. Cláudio Augusto Pedrassi, 2ª
Câmara de Direito Público, j. 24/06/2014).

“APELAÇÃO - Mandado de Segurança - Concurso Público -


Polícia Militar - Limite de idade imposto em edital - Impetração
objetivando a participação no concurso - Irresignação quanto à
restrição contida no edital do concurso que estabelece, como
limite máximo, a idade de trinta anos para a inscrição dos
candidatos no concurso - Matéria em questão deve ser fixada
por lei, conforme art. 142, § 3º, inciso X, da Constituição
Federal - Precedentes jurisprudenciais - Sentença de concessão
da segurança mantida - Recurso não provido, desacolhido o
reexame necessário” (Apelação nº 1011762-80.2013.8.26.0053,

Remessa Necessária Cível nº 1045223-04.2017.8.26.0053 -Voto nº 12773 8


TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Rel. Rebouças de Carvalho, 9ª Câmara de Direito Público, j.


25/06/2014).

“APELAÇÃO - Concurso Público - Polícia Militar - Limite de


idade imposto em edital - Candidato com idade acima de 30
anos na data provável da posse - Exclusão do certame -
Irresignação - Cabimento - Matéria em questão deve ser fixada
por lei, conforme art. 142, § 3º, inciso X, da Constituição
Federal. Sentença reformada. Recurso provido” (Apelação nº
1013322-57.2013.8.26.00653, Rel. Danilo Panizza, 1ª Câmara
de Direito Público, j. 01/07/2014).

“CONCURSO PÚBLICO. Anulatória de ato administrativo.


Polícia Militar. Seleção para Soldado PM de Segunda Classe.
Limite de trinta anos de idade imposto no edital. Ilegalidade
caracterizada. Inteligência dos artigos 142, § 3º, X, c/c artigo
42 § 1º, ambos da Constituição Federal e artigo 141, § 2º, da
Constituição Estadual. Sentença mantida. Recurso e reexame
necessário não providos” (Apelação nº
0038549-03.2012.8.26.0053, Rel. Edson Ferreira, 12ª Câmara
de Direito Público, j. 24/07/2014).

E também em precedentes de minha relatoria:


Agravo de Instrumento nº 2232604-74.2015.8.26.0000, j. 30.11.2015;
Apelação nº 1009286-69.2013.8.26.0053, j. 25.08.2014.

Assim, nada havendo que se reformar, resta a r.


sentença mantida em seus exatos termos.

Ante o exposto, pelo meu voto, nego provimento à


remessa necessária.

MARCELO SEMER
Relator

Remessa Necessária Cível nº 1045223-04.2017.8.26.0053 -Voto nº 12773 9