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Cicatrizes de acne: opção de tratamento com radiofrequência

Acne scars - option of treatment with radiofrequency

Érica de O. Monteiro
Dermatologista colaboradora do setor de Cosmiatria, Cirurgia e Oncologia (UNICCO) do Departamento de Dermatologia da Escola
Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/UNIFESP).

Unitermos: acne, cicatrizes de acne, radiofrequência.


Unterms: acne, acne scar, radiofrequency.

Numeração de páginas na revista impressa: 25 à 29

Resumo

Não há diretrizes gerais disponíveis para aperfeiçoar o tratamento das cicatrizes de acne. Existem várias opções
que combinam múltiplos tratamentos, tanto clínicos como cirúrgicos, e os dispositivos a laser são úteis na
obtenção de melhora significativa. A tecnologia de radiofrequência é uma opção segura para os dermatologistas
e este artigo descreve um caso de cicatrizes de acne tratado com esta tecnologia.

Introdução

A acne pode resolver deixando diferentes tipos de sequelas. O tratamento das cicatrizes de acne sempre foi um
grande desafio para o dermatologista. Não se espera a correção total das lesões, uma vez que a doença pode
atingir toda a pele e o tecido celular subcutâneo. O objetivo final é a obtenção da melhor correção possível,
combinando o máximo de técnicas disponíveis na Medicina1,2.

Considerações sobre as cicatrizes de acne

A cicatriz é parte essencial do processo natural e biológico de cura, após um ferimento na pele. As cicatrizes
são áreas de tecido fibroso que substituem a pele normal que foi danificada durante a lesão. Muitos fatores
influenciam o aspecto final da cicatriz, como características genéticas e hereditárias dos pacientes, localização
da ferida, fatores locais, linhas de força, idade do paciente, estado nutricional, doenças crônicas existentes, uso
de medicamentos, dentre outros 1,2.

Todos os tipos de cicatrizes podem trazer consequências, sendo estas de ordem física ou psíquica. Às vezes,
por questões físicas (como problemas de flexibilidade), quando a cicatriz impede a pessoa de movimentar
facilmente a área afetada, mas também por questões emocionais, uma vez que as cicatrizes têm um forte
impacto na aparência e na autoestima das pessoas.

As cicatrizes de acne podem ter diferentes formas e tamanhos, geralmente são múltiplas. Podemos considerar
dois tipos básicos de cicatriz, dependendo se há perda de tecido (cicatrizes atróficas) ou ganho de colágeno
(cicatrizes hipertróficas).

As cicatrizes atróficas podem ser subclassificadas em ice pick (furador de gelo), boxcar (vagão) e cicatrizes de
rolamento1.

As cicatrizes hipertróficas e os queloides estão associados com a deposição de colágeno em excesso e


diminuição da atividade da colagenase. Cicatrizes hipertróficas são tipicamente avermelhadas e firmes. Os
queloides formam pápulas e nódulos com coloração vermelho-púrpura que proliferam além das bordas da ferida
original.

Algumas opções de tratamento das cicatrizes de acne

A associação de procedimentos geralmente leva aos melhores resultados. Alguns dos tratamentos utilizados são
microdermoabrasão, dermoabrasão, peeling químico e peeling físico, preenchimento, microenxertos, toxina
botulínica, criocirurgia, infiltração (com medicamentos como corticosteroides), subcisão, laser, luz intensa
pulsada. Encontramos citações com o uso da radiofrequência nas publicações recentes como mais uma opção
terapêutica 1-4.
Caso clínico

Paciente feminina de 48 anos, queixando-se de cicatrizes de acne. A paciente não desejava tratamento
invasivo, por temer a dor durante sua realização e também não queria deixar as atividades diárias,
rejeitando qualquer opção que necessitasse de repouso ou pós-operatório.

Optou-se pela radiofrequência, por ser tratamento não invasivo, praticamente indolor e sem pós-
operatório. O aparelho utilizado foi o Hertix da empresa KLD. Foram feitas cinco sessões, com intervalo
de três semanas entre cada sessão. Após limpeza da pele com álcool 70, iniciou-se aplicação da
radiofrequência com a ponteira bipolar do Hertix, movimentando a ponteira nos dois terços inferiores da
hemiface direita e depois na esquerda, com movimentos de “vaivém”. O deslizamento foi auxiliado pelo
uso de gel condutor para ultrassom (Figura 1).

Os parâmetros foram 620 kHz, com 50% da dose, aplicados durante 15 minutos no terço médio e inferior
da hemiface direita e durante 15 minutos no terço médio e inferior da hemiface esquerda. A temperatura
foi monitorizada utilizando um termômetro de superfície, mantendo-a entre 39 e 41 graus Celsius.
Após cada sessão a paciente ficava com a região tratada levemente eritematosa que melhorava após 15 a
20 minutos. Após 30 minutos do procedimento se aplicou filtro solar FPS 30 no rosto todo.

Realizada documentação fotográfica antes e após o tratamento com o equipamento Reveal da Camfield
(Figura 2).

Radiofrequência

A radiofrequência (RF) é uma forma de corrente elétrica alternada cuja frequência varia entre 3 kHz e 300
MHz5,6. As frequências mais utilizadas estão entre 0,5 e 1,5 MHz. As correntes que se encontram abaixo
do 3.000 Hertz (Hz) são empregadas na eletroestimulação e eletroanalgesia, em contrapartida a
radiofrequência é utilizada na Dermatologia para geração de calor por conversão. A conversão se refere à
passagem da radiofrequência com comprimento de onda métrica e centimétrica pelo tecido do indivíduo
que se converte em outra radiação, calor, cujo comprimento de onda está na ordem nanômetro 5.

O mecanismo de ação da RF se baseia no aquecimento volumétrico controlado da derme profunda,


enquanto a epiderme é preservada através de sistemas de resfriamento. A desnaturação imediata das fibras
de colágeno induzida pelo calor seria o mecanismo responsável pela retração imediata tecidual, enquanto
a neocolagênese subsequente pelo efeito clínico tardio 6.

Na RF monopolar a corrente elétrica é emitida através de um eletrodo aplicado na área de tratamento e


retorna ao gerador através de um eletrodo de dimensões maiores localizado à distância (geralmente no
dorso ou abdome). A energia elétrica se concentra próxima à ponteira do eletrodo ativo e diminui
rapidamente com a distância. A profundidade de ação descrita é de até 6 mm 5,6.

A RF bipolar apresenta os eletrodos de saída e retorno da corrente na própria ponteira, gerando dessa
forma um circuito elétrico de efeito mais superficial em relação à RF monopolar (até 2 mm de
profundidade)5,6.

Figura 2 - Imagens fotográficas da paciente antes (dia 6 de abril) e após o tratamento com a
radiofrequência Hertix (dia 4 de julho). Observa-se melhora do relevo cutâneo.

A RF é uma modalidade não invasiva indicada para pacientes com flacidez cutânea leve a moderada sem
uma ptose estrutural significativa, para melhora do contorno facial e corporal, atenuação de sulcos e
rítides, retração moderada da área submentoniana e pescoço e como coadjuvante no tratamento da
lipodistrofia ginoide. O uso da RF é contraindicado a pacientes portadores de marcapasso e
desfibriladores. Além disso, deve-se evitar uso sobre qualquer implante metálico. Pode ser utilizada com
segurança em todos os fototipos e em áreas pilosas 5,6.

Segundo Low e Reed (2001) e Ronzio (2009), a passagem de uma radiofrequência pelo tecido pode
produzir uma série de fenômenos que derivam do aumento de temperatura, estes são três: vibração iônica:
os íons estão presentes em todos os tecidos, ao serem submetidos a uma radiofrequência vibram à
frequência da mesma gerando fricção e colisão entre os tecidos adjacentes, produzindo um aumento de
temperatura, esta é a forma mais eficiente de transformar energia elétrica em calor rotação das moléculas
dipolares: nosso corpo é composto em grande parte por água, apesar de a sua molécula ser eletricamente
neutra em sua totalidade, na sua parte final atrai cargas opostas que convertem em um dipolo, produzindo
uma colisão entre os tecidos adjacentes. Este mecanismo tem menor efetividade de conversão térmica que
o anterior citado distorção molecular: sucede nas moléculas e átomos eletricamente neutros e seus
movimentos serão nulos, pois não possuem carga elétrica, isto gerará uma conversão mínima de energia
elétrica em calor5.

A energia penetra nas células da epiderme, derme e hipoderme e alcança inclusive as células musculares.
Quando passa pelos tecidos, a corrente gera uma ligeira fricção ou resistência dos tecidos com passagem
da radiofrequência, produzindo uma elevação térmica da temperatura tissular. No momento que o
organismo detecta temperatura maior que a fisiológica, aumenta a vasodilatação com abertura dos
capilares, o que melhora o trofismo tissular, a reabsorção dos líquidos intercelulares excessivos e o
aumento da circulação. Com isso, ocorre um ganho nutricional de oxigênio, nutrientes e oligoelementos
para o tecido, influenciado pela radiofrequência, com uma melhora no sistema de drenagem dos resíduos
celulares (toxinas e radicais livres). Estes efeitos proporcionam a possibilidade de fortalecer a qualidade
dos adipócitos, provocando lipólise homeostática e produção de fibras elásticas de melhor qualidade,
atuando nos fibroblastos e em outras células5.
De acordo com Araújo e Velasco (2006), quanto maior a frequência menor o comprimento de onda e
maior a capacidade de gerar bioefeitos em condições naturais. Assim, a radiofrequência não costuma
apresentar efeitos biológicos, mas quando concentrada e aplicada em áreas localizadas, produz ablação
tecidual termogênica que pode ser empregada nas terapias de tumores, como mamários, prostáticos e
hepáticos5.
Os efeitos biológicos da radiofrequência se constituem no aumento da circulação arterial, vasodilatação,
melhorando assim a oxigenação e a acidez dos tecidos, aumento da drenagem venosa, aumentando a
reabsorção de catabólitos e diminuindo edemas nas áreas com processos inflamatórios, aumento da
permeabilidade da membrana celular, permitindo uma melhor transferência de metabólitos através desta
estimulação do sistema imunológico e diminuição dos radicais livres5.
O efeito Joule é o principal efeito térmico da radiofrequência ao atravessar o organismo, efetuando a
produção de calor. Do efeito térmico ocorre outro efeito que é a vasodilatação periférica local. Devido ao
calor gerado, consegue-se um aumento do fluxo sanguíneo e, portanto, produz-se uma melhora do
trofismo, da oxigenação e do metabolismo celular5.
A radiofrequência é aplicada com êxito nos tratamentos da pele na flacidez facial e remodelador
corporal.

Atuação da radiofrequência no tecido colágeno

Na Dermatologia a radiofrequência é utilizada no tratamento da flacidez da pele do rosto, do pescoço e


das mãos, que é um dos maiores problemas causados pelo envelhecimento. Ela age na camada profunda
da pele, modelando fibrilas de colágeno e amenizando as rugas da face. Esta cadeia de processos provoca
o recondicionamento da pele, melhorando a sua elasticidade e a força tensora dos tecidos compostos por
colágeno, com produção de novas fibras de melhor qualidade, gerando melhora da flacidez tanto corporal
como facial5.
A Dermatologia utiliza a radiofrequência de forma não ablativa, o aumento leve de temperatura, a partir
de 5º a 6ºC da temperatura da pele, aumenta a extensibilidade e reduz a densidade do colágeno,
melhorando doenças como o fibroedema geloide e fibroses pós-cirurgia plástica, entretanto, aumentos
maiores de temperatura e manutenção em 40ºC durante todo o período de aplicação diminuem a
extensibilidade e aumenta a densidade do colágeno, conseguindo assim melhorar a flacidez da pele,
promovendo a diminuição da elasticidade em tecidos ricos em colágeno. Este efeito é denominado lifting
pela radiofrequência5.

De acordo com Low e Reed (2001) e Del Pino et al. (2006), o colágeno se liquefaz a temperaturas acima
de 50ºC, que com temperaturas dentro de uma faixa terapêutica aplicável entre 40º e 45ºC a
extensibilidade do tecido colagenoso aumenta. Isso ocorre apenas se o tecido for simultaneamente
alongado e requer temperaturas próximas do limite terapêutico. Corroborando com esta afirmação,
Ronzio (2009) relata que no tecido dérmico o calor modifica suas propriedades elásticas e aumenta a
extensibilidade dos tecidos fibrosos, ricos em colágenos, promovendo a flexibilização de cicatrizes e
aderências.

Discussão

Para o tratamento das cicatrizes de acne geralmente associamos várias técnicas, dependendo da região
afetada, do tipo de pele, das características de cada cicatriz, do paciente e da disponibilidade dos produtos
para tratamento. Após a avaliação desta paciente, verificamos que a mesma utilizava ácido retinoico gel
0,025% há mais de dois anos e o quadro clínico se mantinha clinicamente estável. Recomendamos manter
o mesmo ácido, noites alternadas, e orientamos medidas de fotoproteção e a prescrição de filtro solar de
amplo espectro contra as radiações ultravioleta A e B para uso diurno. Iniciamos as sessões com a
radiofrequência, a cada 21 dias, total de cinco sessões. A paciente tolerou bem as sessões, com
desconforto mínimo descrito como sensação de calor no local da aplicação que melhorava imediatamente
após o término das sessões. Observamos eritema pós-aplicação que se resolvia em cerca de 15 a 20
minutos após a aplicação, sem necessidade de tratamento. Após 30 minutos, aplicávamos filtro solar de
amplo espectro e a paciente retornava a suas atividades habituais.

Após as cinco sessões, comparamos as fotografias feitas antes e após o tratamento (Figura 2) e
observamos melhora no relevo da pele. A paciente ficou satisfeita com o resultado.
Conclusão

A acne, apesar das numerosas opções terapêuticas, provoca ainda, frequentemente, graves sequelas
cosméticas, que em geral interferem no perfil psicológico dos seus portadores, prejudicando a sua
autoestima e dificultando a sua vida social e profissional. Não existe um tratamento padrão, mas a
associação de procedimentos costuma melhorar o aspecto da pele. Existem vários tratamentos e a
radiofrequência tem sido descrita como uma opção.
Neste caso clínico se observa bom resultado clínico e fotográfico com o uso da radiofrequência bipolar do
aparelho Hertix, no tratamento das irregularidades da pele com cicatrizes de acne. O paciente tolerou bem
o tratamento e não precisou afastar-se das atividades do cotidiano.

Nota: A autora declara não ter recebido nenhum financiamento para preparação desse caso clínico.

Bibliografia
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6. Nascimento DS, Niwa ABM, Osório N. Radiofrequência e infravermelho. RBM - Rev. Bras. Med,
Edição Especial Dermatologia & Cosmiatria 2008 Ago; 65:18-20.
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