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Síndrome de descontinuação dos antidepressivos

Discontinuation syndrome of the antidepressants

Luiz Fernando Ribeiro da Silva Paulin


Professor associado-doutor do Curso de Medicina da Universidade São Francisco - Bragança Paulista - SP.
Edson Flávio dos Reis
Psiquiatria do Hospital Universitário São Francisco – Bragança Paulista - SP.
Ellen Palácio Rodrigues
Medicina - Universidade São Francisco - Bragança Paulista - SP.
Endereço para correspondência:
Luiz Fernando Paulin
Rua Francisca Domingues Camargo de Oliveira, 420
Jardim Amapola
CEP 12919-520 - Bragança Paulista - SP
Telefax: (11) 4034-8398
E-mail: luizpaulin@saofrancisco.edu.br

Recebido para publicação em 07/2008.


Aceito em 08/2008.

© Copyright Moreira Jr. Editora.


Todos os direitos reservados.

Indexado na Lilacs virtual sob nº LLXP: S0034-72642008001100004

Unitermos: antidepressivos, efeitos adversos, uso terapêutico


Unterms: antidepressive agents, adverse effects, therapeutic use.

Sumário
Os antidepressivos são fármacos muito utilizados na prática médica devido a suas diversas
indicações, como quadros depressivos, transtornos fóbico – ansiosos, entre outros.

Sintomas de descontinuação são sintomas que ocorrem após a retirada ou redução da dose de
uma medicação. São autolimitados, reversíveis pela reintrodução da droga e não podem ser
explicados por recorrência do transtorno para o qual a medicação havia sido prescrita. Esses
sintomas não indicam dependência ao fármaco.

Os antidepressivos, particularmente os tricíclicos (ADTs), são conhecidos por estarem associados


a um grupo de sintomas comuns durante a descontinuação. Eles incluem perturbações
gastrointestinais e/ou somáticas gerais (náuseas, vômitos, dores abdominais, diarréia, calafrios,
fraqueza, cansaço, mialgias e cefaléia) insônia inicial ou média ataques de pânico e delírio
movimentos anormais (acatisia, parkinsonismo).

Os sintomas da descontinuação de inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS) são


diversos, sendo os mais comuns mal-estar generalizado, náuseas, cefaléia, letargia, ansiedade,
parestesias, confusão, tremores, sudorese, insônia, irritabilidade e distúrbios de memória.

O objetivo deste trabalho é efetuar uma revisão da literatura médica a respeito da síndrome da
descontinuidade dos antidepressivos, sua prevalência e principais sintomas.
Como resultado, encontrou-se grande prevalência dos sintomas de descontinuação, tanto de
ADTs quanto de ISRS. Entre estes, os de meia-vida mais curta, como paroxetina, têm maior
probabilidade de provocar tais sintomas. O método empregado consiste em um levantamento
realizado pelo MEDLINE em revistas médicas indexadas.
Através desta revisão, concluímos que os sintomas da descontinuação dos antidepressivos são
freqüentes, podendo levar a não adesão ao tratamento médico.

Sumary
Antidepressants are pharmacos high utilizated in medical pratic due to their several prescriptions,
such as depressive diagnostics, anxious phobic disorder, among other things.
Discontinuation symptoms are those that are followed by the suspension or reduction of a
medication measure. They are high limitated, reversible by the drug’s reintroduction and they
cannot be explained by recurrence of the disruption to which the medication was prescribed.
These symptoms do not imply the dependence in medicines.
Antidepressants, especially tricyclics, are known for being associated to a group of common
symptoms during the discontinuation. These symptoms includes: gastric intestinal disruption
and/or general factors(nauseas, vomits, abdominal pain, diarrhea, anorexia, shiverrings, malaise,
weakness, tiredness, myalgias, cephalea) initial or avarege insomnia, frequently followed by
dreams and/or vivid nightmares pain attacks and delirious abnormal movements(acathisia,
Parkinson’s disease).
The discontinuation symptoms of ive serotonin reuptake inhibitors (SSRIs) are several, and the
most commons are generalized malaise, nauseas, cephalea, lethargy, anxiety, paresthesias,
confusion, tremors, sudorese, insomnia, irritability and memory disorders.
The objective of this thesis is to effect a revision of the medical literature with regard to the
discontinued syndrome of antidepressants, its prevalence and main symptoms. As a result, it was
found a large prevalence of discontinuation symptoms, such of TCAs as of SSRIs. Among them,
the ones of shorter middle life, such as paroxetine, have more probability to cause
discontinuation symptoms.
The employed method consists in a survey carried out by MEDLINE in indexed medical
magazines.
Through this revision, it is conclude that the discontinuation symptoms of antidepressants are
frequent and it can lead to a refusal of the medical treatment. This must be known by the mental
health clinical.

Numeração de páginas na revista impressa: 326 à 330

RESUMO

Os antidepressivos são fármacos muito utilizados na prática médica devido a suas diversas
indicações, como quadros depressivos, transtornos fóbico – ansiosos, entre outros.

Sintomas de descontinuação são sintomas que ocorrem após a retirada ou redução da dose de
uma medicação. São autolimitados, reversíveis pela reintrodução da droga e não podem ser
explicados por recorrência do transtorno para o qual a medicação havia sido prescrita. Esses
sintomas não indicam dependência ao fármaco.
Os antidepressivos, particularmente os tricíclicos (ADTs), são conhecidos por estarem associados
a um grupo de sintomas comuns durante a descontinuação. Eles incluem perturbações
gastrointestinais e/ou somáticas gerais (náuseas, vômitos, dores abdominais, diarréia, calafrios,
fraqueza, cansaço, mialgias e cefaléia) insônia inicial ou média ataques de pânico e delírio
movimentos anormais (acatisia, parkinsonismo).

Os sintomas da descontinuação de inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS) são


diversos, sendo os mais comuns mal-estar generalizado, náuseas, cefaléia, letargia, ansiedade,
parestesias, confusão, tremores, sudorese, insônia, irritabilidade e distúrbios de memória.

O objetivo deste trabalho é efetuar uma revisão da literatura médica a respeito da síndrome da
descontinuidade dos antidepressivos, sua prevalência e principais sintomas.
Como resultado, encontrou-se grande prevalência dos sintomas de descontinuação, tanto de
ADTs quanto de ISRS. Entre estes, os de meia-vida mais curta, como paroxetina, têm maior
probabilidade de provocar tais sintomas. O método empregado consiste em um levantamento
realizado pelo MEDLINE em revistas médicas indexadas.
Através desta revisão, concluímos que os sintomas da descontinuação dos antidepressivos são
freqüentes, podendo levar a não adesão ao tratamento médico.

INTRODUÇÃO

O termo depressão tem sido utilizado na linguagem coloquial para designar um estado normal de
tristeza ou uma doença que requer tratamento médico.
A depressão (como sinônimo de tristeza) é uma emoção sentida pela grande maioria das pessoas
em algum momento da vida. Critérios diagnósticos reconhecidos e padronizados são utilizados
para diferenciar a depressão “normal”, causada por desapontamentos ou “um dia ruim”, dos
transtornos do humor(1).

Nos transtornos depressivos, a alteração psicopatológica fundamental está relacionada ao humor


ou afeto. Essa alteração do humor é, com freqüência, acompanhada por um prejuízo no nível
global de atividade e a maioria dos outros sintomas é secundária ou facilmente compreendida no
contexto de tais alterações. Entre os quadros mencionados na literatura atual, encontram-se
transtorno depressivo maior (Quadro 1), melancolia, distimia, depressão integrante dos
transtornos bipolares etc.

O impacto social da depressão inclui tanto a incapacidade individual como o fardo familiar
associado à doença. Sintomas depressivos e depressão maior são problemas comuns e
importantes que dizem respeito à saúde pública. Os custos da assistência médica, o absenteísmo
e a diminuição da qualidade de vida se associam de forma clara e consistente aos transtornos
depressivos. Estes, apesar de serem transtornos crônicos, são tratáveis e as opções terapêuticas
têm crescido significativamente nos últimos 25 anos.

OS ANTIDEPRESSIVOS

Atualmente os antidepressivos são classificados pela sua ação farmacológica. Podemos dividi-los
de acordo com o mecanismo de ação proposto, ampliando a eficiência sináptica da transmissão
monoaminérgica (particularmente neurônios noradrenérgicos e/ou serotonérgicos). Produzem
aumento na concentração de neurotransmissores na fenda sináptica através da inibição do
metabolismo, bloqueio de recaptura neuronal ou atuação em auto-receptores pré-sinápticos.
Os primeiros antidepressivos – os antidepressivos tricíclicos (ADTs) e os inibidores da
monoaminoxidase (IMAOs) – foram descobertos por meio da observação clínica. Os ADTs
apresentam eficácia terapêutica devido à sua ação, aumentando a disponibilidade de
norepinefrina e serotonina. No entanto, em razão do bloqueio de receptores histamínicos,
colinérgicos e alfa-adrenérgicos, acarretam efeitos colaterais levando a baixa tolerabilidade a esse
grupo medicamentoso. Da mesma forma, o uso dos IMAOs se torna comprometido em virtude do
risco da interação com a tiramina, provocando crises hipertensivas potencialmente fatais.

A nova geração de antidepressivos é constituída por medicamentos que agem em um único


neurotransmissor, como os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), dopamina
(bupropiona), noradrenalina (reboxetina) ou em múltiplos neurotransmissores/receptores, como
venlafaxina, trazodona, nefazodona e mirtazapina. Não apresentam, como alvo, outros sítios
receptores cerebrais não relacionados à depressão, tais como histamina e acetilcolina (Quadro 2).

ANTIDEPRESSIVOS TRICÍCLICOS (ADTs)

O mecanismo de ação comum dos ADTs, em nível pré-sináptico, é o bloqueio da recaptura de


monoaminas, principalmente norepinefrina (NE) e serotonina (5-HT) e, em menor proporção, a
dopamina (DA). Aminas terciárias inibem preferencialmente a recaptura de 5-HT e as
secundárias, de NE. Os ADTs bloqueiam também receptores muscarínicos, histaminérgicos do tipo
1 a-2 e b-adrenérgicos, serotonérgicos diversos e, mais raramente, dopaminérgicos. Tais ações
não se correlacionam necessariamente com efeito antidepressivo, mas com efeitos colaterais. Em
uso crônico, os ADTs dessensibilizam receptores b1-adrenérgicos, serotonérgicos 5-HT2 e,
provavelmente, 5-HT1a no sistema nervoso central. Sistemas mensageiros secundários estão
envolvidos nessas mudanças.

São bem absorvidos no trato gastrointestinal e a vida média de eliminação é variável (por
exemplo, imipramina de 4 a 34 horas amitriptilina de 10 a 46 horas clomipramina de 17 a 37
horas e nortriptilina de 13 a 88 horas). O estado de equilíbrio é atingido em cerca de cinco
dias(3).

Os ADTs podem produzir alterações na condução cardíaca, na contratilidade, na freqüência, no


ritmo e na pressão arterial ortostática. Outros efeitos resultantes do bloqueio muscarínico devem
ser ressaltados, tais como boca seca, constipação intestinal, retenção urinária e visão turva,
enquanto o bloqueio histamínico leva à sedação. Mudanças na função serotonérgica levam à
disfunção sexual, à perda da libido e à anorgasmia.

Os ADTs também tendem a interagir com outras drogas, como o álcool, anestésicos e agentes
hipotensores(4).

INIBIDORES DA MONOAMINOXIDASE (IMAOs)


O mecanismo de ação dos IMAOs foi pouco estudado. Sabe-se que a atividade da enzima
monoaminoxidase (MAO) está inibida, provocando aumento da concentração de serotonina,
noradrenalina e dopamina no sistema nervoso central e na cadeia simpática. Essa enzima é
amplamente distribuída no organismo, com maior concentração no fígado, no trato
gastrointestinal e no sistema nervoso central.

A monoaminoxidase se divide em dois tipos, A e B. O tipo A é responsável pelo metabolismo da


tiramina ingerida e os denominados IMAOs não seletivos (tranilcipromina) a bloqueiam, podendo
acarretar crises hipertensivas.
Caso seja necessário substituir essa medicação, devem-se aguardar 15 dias para introdução de
outro antidepressivo, devido à possível crise serotonérgica.

Atualmente, temos disponível IMAO seletivo do tipo A (moclobemida), que não provoca crise
hipertensiva e pode ser substituído automaticamente por outro antidepressivo.

Os IMAOs são absorvidos pelo trato gastrointestinal e sofrem biotransformação hepática. O início
da ação ocorre entre sete e dez dias, podendo levar de quatro a oito semanas para atingir o
efeito terapêutico pleno(5).

INIBIDORES SELETIVOS DA RECAPTAÇÃO DE SEROTONINA (ISRSs)

Os ISRSs (fluoxetina, paroxetina, citalopram, fluvoxamina e sertralina) inibem, de forma potente


e seletiva, a recaptação de serotonina, resultando em potencialização da neurotransmissão
serotonérgica. Embora compartilhem o mesmo mecanismo de ação, os ISRSs são
estruturalmente distintos, com diferenças significativas no perfil farmacodinâmico e
farmacocinético que incluem meia-vida, farmacocinética linear versus não linear, efeitos da idade
na sua depuração e no seu potencial de inibir isoenzimas metabolizadoras de medicamentos do
citocromo P450 (CYP).

Sertralina e paroxetina são os mais potentes inibidores de recaptação. Citalopram e fluoxetina


são misturas racêmicas de diferentes formas quiral que possuem perfis farmacodinâmicos e
farmacocinético variados. A fluoxetina possui metabólitos de ação prolongados e
farmacologicamente ativos. A meia-vida prolongada da fluoxetina e o tempo necessário para se
atingir o estado de equilíbrio apresentam significado clínico, como a maior latência para o início
da ação antidepressiva.

Os ISRSs reduzem seu metabolismo por ação inibitória dose-dependente das isoenzimas do
citocromo P450. Isso denota que aumentos na dose geram acréscimos consideráveis nos níveis
plasmáticos, meias-vidas e, possivelmente, efeitos colaterais. São rapidamente absorvidos e
metabolizados no fígado(3).

Os ISRSs não mostraram alterações significativas na freqüência cardíaca e pressão arterial. São
potentes inibidores da isoenzima hepática P450-2D6 e podem acarretar mudanças no clearence
das drogas metabolizadas por essa enzima. Isso contribuiria para que os fármacos metabolizados
por essa via, como alguns antiarrítmicos, tricíclicos e fenotiazínicos, elevassem seus níveis, fato
que provocaria cardiotoxicidade. Outros efeitos indesejáveis são epigastralgia, náuseas, diarréia,
agitação, insônia e anorgasmia. Em combinação com o IMAO, os ISRSs podem provocar a
“síndrome serotonérgica” associada a tremor, hipertermia e colapso cardiovascular, resultando
em morte(5).

Quanto às outras classes de antidepressivos denominados atípicos (venlafaxina, mirtazapina,


trazodona etc.), constatou-se elevação da pressão arterial dose-dependente e taquicardia
ventricular em situações raras.

Observa-se que os antidepressivos vêm sendo usados em variadas situações psiquiátricas, tais
como transtornos depressivos e alimentares, quadros ansiosos (pânico e fobias), transtorno
obsessivo-compulsivo e somatizações. Além disso, o médico clínico tem prescrito, com freqüência
cada vez maior, essas medicações para fibromialgia, dor crônica, enxaqueca e até como
coadjuvantes de inibidor de apetite.

Tal situação exige do clínico o conhecimento da medicação, tanto no que se refere à dose como
ao tempo de latência, aos efeitos adversos e à possibilidade de retirada abrupta, provocando a
denominada síndrome de descontinuação.

Verifica-se esta síndrome, relatada nos antidepressivos clássicos, nas medicações mais
modernas, como os ISRSs e os atípicos(6).

SÍNDROME DE DESCONTINUAÇÃO

Sintomas de descontinuação são quadros que se seguem à retirada ou redução de dose de uma
medicação. São autolimitados, reversíveis pela reintrodução da droga e não podem ser explicados
por recorrência do transtorno para o qual a medicação havia sido prescrita. Não indicam
dependência ao fármaco, pois esta inclui tolerância, comportamento de primazia do uso,
dificuldade de controlar o consumo da droga, apesar de seus efeitos nocivos, e síndrome de
abstinência quando interrompido o seu consumo(7).

Em drogas que não causam dependência, o termo reação de descontinuação é preferível ao


termo síndrome de abstinência. Sintomas de descontinuação ocorrem em diversas drogas, como
lítio, agonistas dopaminérgicos, neurolépticos, corticosteróides, anticonvulsivantes, beta-
bloqueadores, nitratos, diuréticos, anti-hipertensivos de ação central e descongestionantes nasais
simpatomiméticos(7).

Critérios devem ser considerados para uma suposta síndrome de descontinuação: a) os sintomas
não são atribuídos a outras causas b) aparecem após a interrupção abrupta, por falhas na
ingestão e, mais raramente, após a redução da dose c) geralmente são leves e de curta duração,
embora possam causar preocupação d) podem ser revertidos com a reintrodução do
medicamento original ou outro fármaco similar e) podem ser minimizados reduzindo
gradualmente a medicação ou administrando medicação da mesma classe, de meia-vida
longa(6,8) .

Há um largo espectro de sintomas somáticos que podem emergir após a descontinuação do


antidepressivo. Os sintomas somáticos mais comuns incluem cefaléia, tontura, inapetência,
fadiga, sudorese, tremores, parestesia, distúrbios do sono (sonhos vívidos e insônia), sintomas
gripais e gastrointestinais (náuseas e vômitos). Outras queixas menos comuns incluem mialgias,
parkinsonismo e dificuldades de equilíbrio.

Quanto aos sintomas emocionais se destacam agitação, ansiedade, ataques de pânico,


irritabilidade, agressividade, disforia, labilidade emocional, hiperatividade, despersonalização,
pensamento lentificado, dificuldades de memória e concentração. Os sintomas tendem a emergir
entre dois e cinco dias após descontinuação do tratamento, mantendo-se, geralmente, por 7 a 14
dias(9).

Os antidepressivos tricíclicos são conhecidos por estarem associados a um grupo de sintomas


comuns durante a descontinuação. Podem ser divididos em cinco grupos: 1) perturbações
gastrointestinais e/ou somáticas gerais (náuseas, vômitos, dores abdominais, diarréia, anorexia,
calafrios, mal-estar, fraqueza, cansaço, mialgias e cefaléia) com ou sem ansiedade e excitação
concomitantes 2) insônia inicial ou média (amiúde acompanhada de sonhos e/ou pesadelos
vívidos) 3) hipomania ou mania paradoxal (ataques de pânico e delírio) 4) arritmias cardíacas 5)
movimentos anormais (acatisia, parkinsonismo), menos freqüentemente.

A taxa estimada de reações de descontinuação com ADTs em 235 pacientes, em sete estudos, foi
de 42,5%. No entanto, essa estimativa foi gerada a partir de estudos não controlados, que não
incluíam comparação com placebo para controle da flutuação natural de sintomas psicológicos e
somáticos entre pacientes psiquiátricos. Entre os IMAOs, a taxa de descontinuação relatada com
fenelzine (32,2%) se mostrou similar a dos ADTs (29,4%) em um estudo único(11).

Em relação aos ISRSs, os sintomas mais comuns são mal-estar generalizado (dizziness),
náuseas, diarréia, cefaléia, letargia, ansiedade, agitação, parestesias, confusão, tremores,
sudorese, insônia, irritabilidade, distúrbios de memória e vertigem(7).

A paroxetina causaria mais efeitos de descontinuação quando comparada aos outros ISRSs. Tal
fato pode ser atribuído à alta afinidade pela serotonina e sua meia-vida curta(10).

Em uma amostra com 171 pacientes tratados ambulatorialmente, observou-se que os ISRSs de
meia-vida curta apresentaram sintomas de descontinuação entre 14% (fluvoxamina) e 20%
(paroxetina). Esse achado difere dos pacientes tratados com ISRS de meia-vida longa: 2,2% dos
que receberam sertralina mencionaram sintomas após interromper a medicação. Nenhum caso foi
descrito com a interrupção da fluoxetina(6,9).

A venlafaxina e a duloxetina, antidepressivos inibidores seletivos de recaptação de serotonina e


noradrenalina, também provocariam reações de descontinuação. Os efeitos adversos mais
comuns após a descontinuação foram vertigem, cefaléia, sudorese excessiva, irritabilidade,
disforia e insônia(11).

Em recente estudo, Shelton(12) relatou maior incidência de complicações perinatais, como


problemas respiratórios, hipoglicemia e icterícia em crianças cujas mães fizeram uso de
paroxetina no terceiro trimestre de gravidez. O autor propõe que mulheres com perspectiva de
engravidar e fazendo uso de ISRSs sejam orientadas quanto à possibilidade da síndrome de
descontinuação. Caso estejam utilizando um ISRS de curta duração, deve-se considerar possível
troca por um antidepressivo de longa duração, como fluoxetina ou sertralina, antes de
engravidar. No entanto, se a mulher engravidar e optar pela retirada total da medicação, o
médico deverá ficar atento à possível recaída que poderia prejudicar a gestante e o feto. Nessa
situação, deve-se avaliar a possibilidade de retornar a medicação ainda na gravidez ou logo após
o parto.

BASE HIPOTÉTICA PARA A SÍNDROME DE DESCONTINUAÇÃO DOS ISRSs

A hipótese proposta como base fisiopatológica da síndrome da descontinuação advém de um fator


comum entre os antidepressivos ISRSs: o bloqueio da recaptação pré-sináptica da serotonina.
Teoricamente, tal bloqueio resulta, ao longo do tempo, em down-regulation ou dessensibilização
dos receptores pós-sinápticos de serotonina e noradrenalina. Pode ocorrer restauração ou
intensificação dos efeitos de recaptação da serotonina com a descontinuidade do antidepressivo,
gerando depleção aguda de serotonina na sinapse. Sua disponibilidade reduzida, para os já
dessensibilizados receptores pós-sinápticos, pode provocar um estado hiposserotoninérgico(9).
Essa hipótese é sustentada por alguns autores, para os quais a descontinuação dos ISRSs origina
um estado de relativa deficiência de serotonina. É possível que o estado hiposserotoninérgico
tenha efeitos diretos ou indiretos em sistemas de neurotransmissores (serotonina, norepinefrina,
dopamina, acetilcolina ou GABA), resultando em uma variedade de sintomas clínicos(13).

A readaptação de tais sistemas deve, em teoria, acontecer em um período de duas a três


semanas, relacionada com a melhora dos sintomas de retirada. Outros potenciais mecanismos
devem ser considerados como readaptação dos receptores 5-HT1A e 5-HT2. Embora os sintomas
pareçam ser limitados no tempo, sabe-se pouco sobre mudanças adaptativas do sistema nervoso
central que ocorrem a longo ou curto prazo, como resultado de exposição a psicotrópicos de ação
central(9).

As diferenças entre os diversos antidepressivos, quanto à freqüência e à intensidade dos


sintomas, podem ser explicadas pelo perfil farmacocinético e farmacodinâmico de cada droga. Os
antidepressivos de meia-vida mais curta estão, em geral, mais associados a sintomas agudos de
descontinuação, comparados às medicações de meia-vida mais longa.
Outro fator associado a sintomas de descontinuação com antidepressivos pode ser um rebote
colinérgico, como descrito com os ADTs. O efeito anticolinérgico mais intenso da paroxetina,
concernente a outros ISRSs, pode contribuir para a freqüência dos sintomas de descontinuação
da droga. Entretanto, esse efeito não seria suficiente para explicar tais sintomas. A maior
potência relativa da paroxetina no bloqueio da recaptação da serotonina, em referência a outros
ISRSs, também é importante para esclarecer o desenvolvimento dos sintomas de descontinuação.

A possibilidade de que a descontinuação de ISRSs esteja relacionada a uma redução aguda de 5-


HT na fenda sináptica tem acarretado a comparação desta síndrome com os sintomas observados
após a depleção aguda do triptofano. A depleção do triptofano reduz, de forma efetiva e rápida,
os níveis sinápticos da serotonina(14).

RECOMENDAÇÕES PARA O MANEJO CLÍNICO

Em painel ocorrido no ano de 1997, nos Estados Unidos, foram propostas estratégias para o
tratamento da síndrome de descontinuação dos ISRSs(10). Essas incluíam: a) tranqüilizar o
paciente, mostrando-lhe que os sintomas associados à síndrome de descontinuação
provavelmente serão breves e de leve intensidade b) em caso de sintomas intensos, a dose deve
ser imediatamente restabelecida e a medicação deve ser diminuída mais lentamente c) todos os
ISRSs, com exceção da fluoxetina, serão retirados gradualmente d) a opção por ISRSs com meia-
vida longa, como a fluoxetina, pode ajudar a diminuir a incidência da síndrome de
descontinuação.

No Quadro 3 apresentamos a recomendação de retirada de alguns antidepressivos,


fundamentado na proposta da American Family Physician(12), no intuito de evitar a síndrome de
descontinuação.

Para o tratamento da depressão, a Associação Médica Brasileira recomenda que, ao retirar o


antidepressivo, deve-se diminuir a dose gradualmente durante, pelo menos, quatro semanas.
Para pacientes em tratamento de manutenção de longa duração, deve-se reduzir a dose
gradualmente durante seis meses(16).

O médico clínico deve ser orientado a distinguir entre o início dos sintomas de descontinuação e o
retorno da depressão. Na prática, um aspecto que ajuda a diferenciar os sintomas de interrupção
da recaída é que aqueles aparecem mais precocemente(6).

Por fim, ressalte-se a necessidade de o profissional da saúde orientar o paciente e seus familiares
que não se pode parar abruptamente o uso do antidepressivo. Devem ser informados a respeito
da síndrome da descontinuação. Como essa medicação é usada por um longo período, observa-se
que o paciente interrompe o tratamento por conta própria, por estar sentindo-se bem, por não
retornar às consultas ou por receio de uma inexistente dependência à medicação.
Conclusão

A síndrome de descontinuação dos antidepressivos não é rara, principalmente naqueles que


possuem meia-vida curta, como a paroxetina. Como os clínicos têm receitado, cada vez com mais
freqüência, os antidepressivos, faz-se necessário o conhecimento desta síndrome, sua
diferenciação da abstinência e uma possível recaída de um quadro depressivo.

Para prevenir a síndrome de descontinuação, devemos considerar a diminuição gradativa da


medicação e orientar o paciente e seus familiares quanto a não retirada abrupta da medicação.

O implemento de tais recomendações poderá minimizar a ocorrência da síndrome.

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