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ACidadeeasSerras

RESUMO

O narrador Zé Fernandes pretende demonstrar ao leitor a tese segundo a qual a vida no


campo é superior à vida urbana. Para comprová-la, relata a trajetória de seu amigo,
Jacinto. Herdeiro de grande fortuna obtida através da exploração de propriedades
agrícolas de Portugal, Jacinto nasceu em Paris e adorava a cidade. Segundo ele, a capital
francesa era o exemplo perfeito de civilização, o único espaço em que o ser humano
poderia ser plenamente feliz. Chegou a criar uma fórmula, que mostrava que a “Suma
Ciência” (tecnologia e erudição) multiplicada a “Suma Potência” (capacidade humana),
conduzia à “Suma Felicidade”.
Jacinto e Zé Fernandes se conheceram na Universidade em Paris, mas este último teve
que retornar a Portugal por motivos familiares e eles se separaram. Durante sete anos,
Zé se dedicou à administração da propriedade rural de sua família em Guiães, nas serras
portuguesas. Resolvido a tirar um tempo para descansar, foi a Paris rever o amigo.
Encontrou-o entristecido e corcunda, muito distante da vivacidade da juventude. Seu
estado de espírito causava espanto, porque Jacinto tinha transformado seu palacete, no
número 202 da Avenida dos Campos Elísios, em uma verdadeira demonstração de sua
fórmula juvenil, dotando-o dos maiores avanços tecnológicos da época e de uma vasta
biblioteca.
Baixe o livro A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós.
A despeito dessa maquinaria do conforto, Jacinto era infeliz. As amizades eram falsas e
superficiais, a tecnologia de que se cercava não funcionava a contento e, por fim, os
livros que lia lhe causavam aborrecimento.
Ao receber a notícia de um desabamento em sua propriedade em Tormes, localidade
próxima a Guiães, Jacinto decidiu ir até lá. Depois de ordenar reformas no lugar, partiu
com o amigo.
O atraso e a rusticidade de Tormes surpreenderam Jacinto no primeiro contato. Aos
poucos, porém, a natureza o encantou e ele resolver ficar. Reencontrando a antiga
disposição, dedicou-se a algumas reformas na propriedade, melhorando as condições de
vida dos empregados e estabelecendo com eles novas relações de trabalho.
Apaixonado por Joaninha, prima de Zé Fernandes, instala-se definitivamente nas serras.
Da modernidade parisiense, admite apenas a instalação do telefone, que lhe parece útil
ali. Assim, Jacinto encontra a “Suma Felicidade” bem distante da civilização. E Zé
Fernandes dá sua tese por comprovada.
CONTEXTO

Sobre o autor
Eça de Queirós dividia sua obra em três fases. Em seus primeiros livros, ainda
apresentava grande influência romântica. Em um segundo momento, abraçou a causa
realista-naturalista e escreveu narrativas exemplares da estética. Na terceira fase, sem
abandonar o realismo, permitiu-se voos de imaginação que o conduziram às fronteiras
do estilo. Essa fase final é bem representada em A Cidade e as Serras, uma de suas
últimas obras.
Importância do livro
A obra foi publicada um ano depois da morte do autor, em 1901, e seguiu a ideia
principal do conto “Civilização”, também escrito por Eça de Queirós e publicado em
1892. A Cidade e as Serras marca a reconciliação do escritor com a sociedade
portuguesa, depois de obras polêmicas como O Crime do Padre Amaro e Primo Basílio.
Na narrativa é possível identificar a comparação entre campo e cidade, comum nas
histórias do autor, assim como a relação entre a elite e a classe trabalhadora.
É uma importante obra que marca a terceira fase de Queirós, mais pós-realista. O
romance apresenta, na verdade, um notável sincretismo estético. Convivendo com o
realismo-naturalismo, temos, por exemplo, o expressionismo, na descrição chocante da
vida urbana, e o impressionismo, na suavidade e no colorido da paisagem campestre.
Período
A narrativa remonta ao início do século XIX, quando viveram os antepassados do
protagonista. Mas o núcleo da ação se desenvolve no final do século, sendo, portanto,
contemporânea à publicação da obra. O século foi marcado, em Portugal, pela vitória
dos liberais, partidários de uma monarquia moderada, sobre os absolutistas, que
desejavam manter no trono o rei D. Miguel.
ANÁLISE

“Suma Ciência X Suma Potência = Suma Felicidade”, esta é a fórmula criada por
Jacinto na juventude e que servirá de eixo narrativo. Zé Fernandes desenvolve seu relato
no sentido de mostrar que a fórmula é um equívoco.
O romance A Cidade e as Serras é especular, isto é, funciona como um espelho: de um
lado, a vida na cidade, de outro, a vida na serra. A cidade em questão é Paris, que
funciona como metonímia da civilização. A residência de Jacinto, o “202”, reúne
tecnologia e erudição, que são os dois pilares da “Suma Ciência”. O trabalho do
narrador é demonstrar que ambos são falhos: a tecnologia funciona precariamente e a
erudição é tratada como modismo e como instrumento de inatividade, de recusa à ação.
A “Suma Potência” com que sonhava Jacinto se reduzia à melancolia e à angústia
existencial preconizada por filósofos pessimistas. Convidado por Zé Fernandes a avaliar
a situação do patrão, o empregado Grilo acerta no alvo: “Sua Excelência sofre de
fartura”. De fato, entediado, Jacinto não encontra na ciência e na civilização a felicidade
que esperava.
Tormes, de sua parte, funciona como metonímia de Portugal, com seu atraso e seu
apego pelas tradições, como a espera pelo salvador da pátria, um novo D. Sebastião que
reconduzisse o país à glória. Ali, Jacinto entra em contato com suas raízes familiares e
delas retira a seiva necessária ao seu rejuvenescimento. Admirando a beleza e a
variedade da natureza serrana, percebe o quanto tinha estado iludido pela mesmice e
repetição da vida parisiense.
Confira uma análise em vídeo do livro
Aos poucos, o entusiasmo de Jacinto encontra seu ponto de equilíbrio. De fato, a vida
nas serras não é feita só de flores primaveris. Há a pobreza de seus moradores, as
péssimas condições em que vivem e a exploração cruel de que são vítimas. Ao oferecer
novas condições de trabalho aos seus empregados, Jacinto não faz mais que reformar a
propriedade para dela obter ainda mais lucro – ação inserida na lógica capitalista que ele
supõe tratar-se de simpatia pelo socialismo.
Sua esposa Joaninha sintetiza a pátria portuguesa, com sua vitalidade e sua força
procriadora. O encontro com ela representa, para Jacinto, a coroação de seu contato com
a terra de seus antepassados.
Mais uma vez chamado a opinar, Grilo sentencia: “Sua Excelência brotou!” De fato, na
serra, Jacinto renasce. Aparentemente, temos a constatação do fiasco da fórmula de
Jacinto e, consequentemente, a vitória da tese de Zé Fernandes. Mas é preciso atentar
para um detalhe final: Jacinto não despreza a civilização como um todo. Aceita dela a
cultura e certas modernidades úteis, como o telefone, que manda instalar em Tormes.
Assim, a conclusão do livro não corrobora a tese de Zé Fernandes, nem a posição
juvenil de Jacinto. Na verdade, o romance prega o equilíbrio: a preservação das
tradições serranas convivendo com um projeto modernizador. Tal equilíbrio é expresso
já no título do romance, que, longe de opor cidade e serra, une-os por uma partícula
conciliadora: “e”.
PERSONAGENS

- Jacinto: francês rico que reencontra a felicidade em Portugal, terra de seus


antepassados.
- Zé Fernandes: narrador e testemunha das mudanças que se operam no amigo Jacinto.
- Amigos de Jacinto em Paris: formam um grupo caracterizado pela hipocrisia; entre
eles, destaca-se Madame d’Oriol, amante de Jacinto.
- Madame Colombe: prostituta de luxo com quem Zé Fernandes mantém um tórrido
caso amoroso.
- Amigos da serra: comportam-se com sinceridade, rejeitando Jacinto por associá-lo ao
absolutismo miguelista.

- Joaninha: prima de Zé Fernandes, torna-se esposa de Jacinto.


- Grilo: empregado de Jacinto por toda a vida, mostra grande perspicácia em suas
opiniões a respeito do amo.
AUTOR

Eça de Queirós

25 de Novembro de 1845
16 de Agosto de 1900 (54 anos)

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes


Dom Quixote de La Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha, no
original) é uma obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes, publicada em duas
partes. A primeira surgiu em 1605 e a segunda dez anos depois, em 1615. Quando o
livro foi traduzido para inglês e francês obteve um êxito súbito, arrebatando leitores
de diversas origens.

Capa da primeira edição de Dom Quixote.

Considerada a maior obra da literatura espanhola e o segundo livro mais lido da


História, seu contributo para a cultura ocidental é incalculável. Dom Quixote é
apontado como o primeiro romance moderno, tendo influenciado várias gerações de
autores que se seguiram.

As suas personagens parecem ter pulado do livro para o imaginário contemporâneo,


sendo representadas através de diversos meios (pintura, poesia, cinema, música,
entre outros).

Resumo

A obra narra as aventuras e desventuras de Dom Quixote, um homem de meia idade


que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria.
Providenciando cavalo e armadura, resolve lutar para provar seu amor por Dulcineia
de Toboso, uma mulher imaginária. Consegue também um escudeiro, Sancho Pança,
que resolve acompanhá-lo, acreditando que será recompensado.

Quixote mistura fantasia e realidade, se comportando como se estivesse em um


romance de cavalaria e transformando obstáculos banais (como moinhos de vento ou
ovelhas) em gigantes e exércitos de inimigos.
É derrotado e espancado inúmeras vezes, sendo batizado de "Cavaleiro da Fraca
Figura", mas sempre se recupera e insiste nos seus objetivos.

Só volta para casa quando é vencido em batalha por outro cavaleiro e forçado a
abandonar a cavalaria. Longe da estrada, fica doente e acaba morrendo. Nos seus
momentos finais, recupera a consciência e pede perdão aos seus amigos eVer Online
familiares.

Enredo

Primeira parte

O protagonista é um homem de meia idade que se dedicava à leitura de romances de


cavalaria. Confundindo fantasia e realidade, resolve imitar os heróis e partir em busca
de aventuras. Como precisa de uma amada em nome da qual lutar, cria Dulcineia,
grande dama inspirada em uma paixão da juventude.

Encontra um albergue simples que confunde com um castelo. Pensando que o dono é
um cavaleiro disposto a ordená-lo, resolve guardar o lugar durante a noite. Quando
um bando de camponeses se aproxima, pensa que são inimigos e os ataca, acabando
machucado. Depois de uma falsa sagração, o dono do albergue o manda embora,
dizendo que já é cavaleiro. Embora ferido, Quixote volta para casa feliz.

Convence Sancho Pança a se juntar na viagem como escudeiro, com promessas de


dinheiro e glória. A sobrinha do protagonista fica preocupada com sua saúde mental e
pede ajuda ao Padre, que o diagnostica como louco. Decidem queimar seus livros para
resolver o problema, mas ele pensa ser obra de Frestão, seu inimigo feiticeiro.

Parte em busca de vingança e se depara com cenários do cotidiano que a sua


imaginação transforma em adversários. Assim, luta contra moinhos de vento
pensando que são gigantes e quando é empurrado por eles, declara que estavam
encantados por Frestão. Passando por dois sacerdotes que carregavam a estátua de
uma santa, pensa que está perante dois feiticeiros sequestrando uma princesa e
resolve atacá-los. É durante esse episódio que Sancho o batiza de “Cavaleiro da Fraca
Figura”.

Em seguida, tenta enfrentar vinte homens que aparecem para roubá-los e ambos
acabam sendo espancados. Quando recuperam, encontram dois rebanhos que
caminham em direções contrárias e estão prestes a se cruzar. Quixote imagina que
são dois exércitos adversários e decide se juntar ao lado mais fraco. Sancho tenta
chamar o amo à razão mas ele se recusa a escutar e acaba lutando com os pastores e
perdendo até os dentes.

Depois se depara com um grupo de prisioneiros escoltados por guardas, que estavam
sendo levados para campos de trabalho forçado. Vendo que estão acorrentados,
questiona os homens acerca de seus crimes e todos parecem inofensivos (amor,
música e feitiçaria, por exemplo). Decide que é preciso salvá-los e ataca os guardas,
livrando os homens de suas correntes. Eles, no entanto, o agridem e assaltam.

Triste, Quixote escreve uma carta de amor para Dulcineia e manda Sancho entregar.
No caminho, o escudeiro se depara com o Padre e o Barbeiro que o forçam a revelar o
paradeiro do seu amo. O "Cavaleiro da Fraca Figura" é levado para casa mas persiste
nas suas fantasias de cavalaria.

Segunda parte

Logo regressa à estrada e, ao ver um grupo de atores ambulantes, pensar estar


perante demônios e monstros, atacando-os. A cena é interrompida pela chegada de
outro homem, o Cavaleiro dos Espelhos, que afirma que a sua amada é a mais bela e
que está a disposto a duelar quem disser o contrário.

Para defender a honra de Dulcineia, enfrenta o adversário e vence o combate.


Descobre que o Cavaleiro dos Espelhos era, na verdade, Sansão Carrasco, um amigo
que estava tentando dissuadi-lo da vida de cavalaria.

Mais adiante, Quixote e Sancho conhecem um casal misterioso, o Duque e a Duquesa.


Eles revelam que conhecem seus feitos através de um livro que circulava na região.
Resolvem recebê-lo com todas as honras dignas de um cavaleiro, rindo das suas
ilusões. Pregam também uma peça a Sancho Pança, nomeando o escudeiro para o
cargo de governador de um povoado.

Exausto por tentar cumprir todas as obrigações do cargo, Sancho não consegue
descansar nem desfrutar a vida, chegando a passar fome por temer o
envenenamento. Depois de uma semana, resolve desistir do poder e voltar a ser
escudeiro. Novamente reunidos, abandonam o castelo dos duques e partem a
caminho de Barcelona. É aí que surge o Cavaleiro da Lua Branca afirmando a beleza e
superioridade da sua amada.

Por amor a Dulcineia, o protagonista duela com o Cavaleiro da Lua, concordando em


deixar a cavalaria e voltar para casa se perder. Quixote é vencido diante de uma
multidão. O adversário era, mais uma vez, Sansão Carrasco, que montou um plano
para salvá-lo de suas fantasias. Humilhado, regressa a casa mas acaba ficando doente
e deprimido. No seu leito de morte, recupera a consciência e pede perdão à sobrinha e
a Sancho Pança, que continua do seu lado até ao suspiro final.

Personagens

Dom Quixote

O protagonista é um fidalgo de meia idade, sonhador e idealista que te tanto ler


romances de cavalaria e sonhar com feitos heroicos, perdeu a razão. Convencido de
que é um cavaleiro andante, vive em busca de aventuras e duelos para provar o seu
valor e a sua paixão por Dulcineia.

Sancho Pança

Um homem do povo, Sancho é ambicioso e se junta a Quixote em busca de dinheiro e


poder. Realista, vê as fantasias de seu amo e procura ajudá-lo a encarar a realidade
mas acaba se envolvendo nas suas confusões. Apesar de todas as falhas de Quixote,
seu respeito, amizade e lealdade pelo cavaleiro se mantêm até ao final.

Dulcineia de Toboso

Fruto da imaginação de Quixote, Dulcineia é uma dama da alta sociedade,


incomparável em beleza e honra. Inspirada na camponesa Aldonza Lorenzo, seu amor
de juventude, a amada de Quixote é uma projeção das mulheres representadas nos
romances de cavalaria. Querendo lutar por amor, o protagonista cria uma ligação
platônica e indestrutível com essa figura.

Padre e Barbeiro

Por causa da preocupação de Dolores, a sobrinha de Quixote, estes dois personagens


resolvem intervir e ajudar o amigo. Estão convencidos de que o homem teria sido
corrompido pelas suas leituras mas, mesmo quando destroem sua biblioteca, não
conseguem curá-lo.

Sansão Carrasco

Na tentativa de resgatar o amigo, Sansão precisa usar a loucura a seu favor. Assim, é
através da cavalaria que consegue resolver a questão. Para isso, precisa se disfarçar e
derrotar Quixote, diante de todos.

Análise da obra

Dom Quixote de La Mancha é um livro dividido em 126 capítulos. A obra foi publicada
em duas partes, refletindo diferentes influências: a primeira se aproxima do estilo
maneirista e a segunda do barroco.

Inspirado nos romances de cavalaria que já estavam caindo em desuso e no idealismo


que atravessava as artes e as letras, Dom Quixote é, ao mesmo tempo, uma sátira e
uma homenagem.

Misturando tragédia e comédia e combinando registros populares e eruditos de


linguagem, esta é uma obra muito rica. A sua estrutura contribui em larga medida
para a sua complexidade, criando várias camadas narrativas que dialogam entre si.
Na primeira parte, o narrador aponta que esta é a tradução de um manuscrito árabe,
cujo autor é alguém chamado Cid Hamete Benengeli. Contudo, o narrador não se
limita a traduzir, tecendo comentários e fazendo correções frequentemente.

Na parte seguinte, o protagonista e seu escudeiro descobrem a existência de um livro


chamado O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote da Mancha, onde seus feitos eram
narrados. Encontram o Duque e a Duquesa, entre outros indivíduos, que tinham sido
leitores de suas aventuras, passando também a ser personagens.

Romances de cavalaria e amor imaginário

O protagonista, de seu verdadeiro nome Alonso Quijano, é um homem cuja mente


para ter sido "contaminada" pela leitura de romances de cavalaria. Assim, a leitura é
apontada como uma atividade muito poderosa, capaz de mudar o comportamento de
um indivíduo e até mesmo de o corromper.

Atraído pelos valores transmitidos nessas narrativas (glória, honra, coragem), Quixote
troca o tédio da vida burguesa pelas aventuras da cavalaria. Tentando imitar seus
heróis, precisa lutar para defender a honra de sua amada, correndo todos os riscos
para conquistar seu coração. Cria, então, Dulcineia de Toboso.

É através desse amor imaginário que Quixote se mantem motivado e disposto a se


reerguer vezes sem conta. Adotando uma postura petrarquista (sentimento amoroso
como servidão), o protagonista justifica suas ações:

(...) o amor não mira cumprimentos nem guarda termos de razão em seus
discursos, e tem a mesma condição da morte: que assim acomete os grandes
palácios dos reis como as humildes cabanas dos pastores, e quanto toma posse
de uma alma, o primeiro que faz é tirar o medo e a vergonha.

Deste modo, explica que a paixão é uma espécie de loucura permitida, graças à qual
todas as pessoas perdem a razão. O seu sentimento platônico parece ser o mais
duradouro, já que não se concretiza e, por isso, também não se deteriora com o
tempo.

Dom Quixote e Sancho Pança

Um dos elementos que mais captam a atenção dos leitores é a relação entre Dom
Quixote e Sancho Pança e a estranha simbiose que se forma entre eles.
Apresentando visões opostas do mundo (espiritualista / idealista e materialista /
realista), os personagens contrastam e se complementam simultaneamente, criando
uma grande amizade.

Embora durante grande parte da narrativa Sancho seja a "voz da razão", procurando
encarar todos os acontecimentos com bom senso e realismo, começa a ser
contagiado pela loucura do seu amo. Inicialmente motivado pelo dinheiro, abandona
sua família para seguir os delírios do cavaleiro.

Essa é uma das diferenças cruciais entre os companheiros: Quixote era um homem
burguês, com condições financeiras que permitiam passear e viver aventuras. Sancho,
pelo contrário, era um homem do povo, preocupado em sustentar a família e garantir
o futuro.

Ambicioso, acredita nas promessas do cavaleiro e espera se tornar o governador de


um reino conquistado por Quixote. Sua admiração e respeito pelo mestre vão
crescendo e Sancho acaba virando um sonhador também:

Esse meu mestre, por mil sinais, foi visto como um lunático, e também eu não
fiquei para trás, pois sou mais pateta que ele, já que o sigo e o sirvo...

O seu desejo acaba sendo realizado quando o Duque e a Duquesa, que tinham lido
sobre as aventuras e aspirações da dupla, resolvem pregar uma peça a Sancho. A ação
que decorre na Ilha da Barataria é uma espécie de ficção dentro da ficção onde
assistimos ao período em que o escudeiro é governador.

É interessante notar a racionalidade dos conselhos que Quixote dá ao seu amigo sobre
as suas responsabilidades e a importância de manter uma conduta irrepreensível.

O que deveria ser uma brincadeira acaba funcionando e Sancho se revela justo e
competente. No entanto, desiste depois de uma semana, infeliz e exausto. Percebe,
então, que dinheiro e poder não são sinônimos de felicidade e sente saudades de sua
família, decidindo regressar.

Imaginação como lente transfiguradora

Dom Quixote mistura e contrapõe fantasia e realidade, através do olhar do


protagonista. Encarando os livros de cavalaria como um refúgio da vida banal e
monótona, o cavaleiro utiliza a imaginação para reinventar o mundo que o rodeia.
Criando inimigos e obstáculos a partir de objetos do cotidiano, ignora os
contratempos da vida real.

De todos os seus duelos com adversários imaginários, se destaca a cena dos moinhos
de vento: a imagem se tornou um símbolo para as causas impossíveis, para os
idealistas e os sonhadores. Quixote, encarado por todos como um louco, pode ser
apenas visto como um homem disposto a tudo para correr atrás dos seus sonhos.

Apesar da impossibilidade de ser um verdadeiro cavaleiro andante, o protagonista da


obra vive sua utopia, através da fantasia e das aventuras que cria para si mesmo.

Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha juntos é o


começo da realidade.
O "Cavaleiro da Fraca Figura" vai mais longe, moldando e transformando também a
realidade daqueles que o acompanham durante a viagem. Isso acontece com Sancho
Pança, seu maior cúmplice, com o Duque e a Duquesa e também com os próprios
leitores da obra.

Se no início achamos que ele é apenas um louco, aos poucos vamos reparando na sua
sabedoria, na grandeza de seus valores e na sua estranha lucidez face ao resto do
mundo.

Significado da obra

No final da narrativa, quando perde um duelo e é forçado a deixar a cavalaria, o


protagonista fica deprimido e doente. Nesse momento, parece recuperar a
consciência, percebendo que nunca foi um cavaleiro andante. Pede perdão à família e
aos amigos, principalmente a Sancho, o fiel companheiro que arriscou a vida do seu
lado.

A obra, no entanto, deixa o questionamento: será que Quixote estava realmente


louco? Podemos argumentar que o "Cavaleiro da Fraca Figura" estava apenas vivendo
do jeito que queria e mudando sua realidade, de forma a ser mais feliz e reencontrar a
alegria e o entusiasmo.

Sua suposta loucura possibilitou aventuras que não viveria de outra forma, algo que
fica claro no seu epitáfio:

Teve tudo em muito pouco / Porque viveu como um louco

O idealismo do protagonista, em contraste com a dureza da realidade, provoca


gargalhadas e, simultaneamente, conquista a empatia do leitor. Através das várias
peripécias e derrotas de Quixote, Miguel de Cervantes faz uma crítica à realidade
política e social do seu país.

Na sequência do regime absolutista do rei Felipe II, a Espanha enfrentava uma fase de
pobreza causada pelos gastos militares e expansionistas. Ao longo da obra, é notória a
miséria dos vários indivíduos que enganam e roubam para sobreviver, contrastando
em tudo com os heróis dos romances de cavalaria.

Assim, os comportamentos aparentemente tresloucados do protagonista podem


ser interpretados como uma forma de protesto, de crítica social, na busca de valores
que parecem perdidos ou ultrapassados.

Quixote inspira seus leitores a lutar pelo mundo no qual querem viver, lembrando que
nunca devemos nos acomodar nem ignorar as injustiças.

Símbolo de sonhadores e idealistas ao longo dos séculos, o personagem representa


a importância da liberdade (de pensar, ser, viver) acima de todas as outras coisas:
A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam
dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem
que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve
aventurar a vida...

Dom Quixote no imaginário contemporâneo

Uma enorme influência para incontáveis romances que se seguiram, a obra de Miguel
de Cervantes catapultou Dom Quixote e Sancho Pança para o imaginário
contemporâneo. Ao longo de séculos, as figuras têm inspirado artistas das mais
diversas áreas. Grandes pintores como Goya, Hogarth, Dali e Picasso
representaram a obra de Cervantes, que também inspirou várias adaptações
literárias e teatrais.

Livro “Quem me dera ser onda” de Manuel Rui


Monteiro
O romance de Manuel Rui Monteiro “Quem me dera ser onda”, uma história
aparentemente simples, quase infantil, mas que aborda temas sérios presentes na
sociedade angolana, após a independência: as consequências da guerra, a condição
humana, as classes sociais, a corrupção, os preconceitos, a liberdade.

Quem me dera ser onda, escrito em 1982, é, aparentemente, uma história infantil, com
destaque para as personagens principais que são duas crianças e um animal - um porco.
O argumento principal centra-se exatamente nestas figuras, onde nasce uma relação que
era perfeitamente possível num tempo já esquecido pelos adultos.

Na verdade, a figura fundamental que perpassa todo este texto é a ironia e é-o
exatamente pelo facto de se incorporar a este texto, aparentemente simples e
despretensioso, uma incrível mescla política e uma crítica à sociedade de Luanda da
época, que esqueceu e apagou todos os valores antigos.

Quem me dera ser onda deve ser visto como um autêntico relatório dos problemas e
evidências que merecem atenção pela preocupação que despertam: ao longo da leitura
somos embalados e como que convidados a entrar num mundo citadino definitivamente
alienado, em que reina a confusão de situações sociais, culturais e vivenciais que há que
revelar,estudar e entender como factos a rever - a alienação cultural, social e política é-
nos dada através da figura do pai das crianças que não entende certas preocupações
humanas e se revela completamente desintegrado do espaço social representado pelo
prédio e mesmo pela cidade em que vive.
Pela mensagem importante que esta novela fez passar, Manuel Rui Monteiro viu Quem
me dera ser onda ser galardoada com o importante Prémio Nacional Agostinho Neto.

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