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Descobertas

Quem descobriu o Brasil?


A viagem de Pedro Alvares Cabral e as notícias da época mostram
que a descoberta da nova terra surpreendeu a todos.

JOAQUIM ROMERO DE MAGALHÃES

Depois da descoberta por Vasco da Gama, em 1499, do caminho


marítimo para as Índias — proeza magnífica dos súditos do rei de
Portugal, “que merece os elogios de toda a Cristandade” —, a
Coroa portuguesa logo entendeu que devia repetir a expedição à luz
das informações recolhidas pelo navegante. Seria uma armada
cuidadosamente preparada, e desta vez não poderiam faltar os
metais preciosos indispensáveis para as compras de especiarias,
cuja falta se sentira na primeira expedição. Para capitão-mor da
armada seria indicado o próprio Vasco da Gama, recentemente feito
almirante do mar da Índia. Mas não foi o que aconteceu. Acabou
sendo nomeado capitão-mor Pedro Álvares de Gouveia, depois
conhecido por Pedro Álvares Cabral. Dele, como de tantos outros
navegadores, pouco se sabe, mas algumas qualidades decerto já
teria mostrado para lhe ser entregue o comando da maior frota que
até então zarpara de Portugal, rumo a paragens tão longínquas.
Fidalgo beirão, Pedro Alvares era um dos vários filhos do alcaide-
mor de Belmonte Fernão Cabral e de Dona Isabel de Gouveia.
Nascido entre

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1468 e 1469, já em 1484 era moço-fidalgo, primeiro grau de nobreza con-
ferido aos jovens da Corte, da casa de D. João II. Antes de 1495, já fizera
por merecer uma tença de 26 mil-réis, em conjunto com o seu irmão
João Fernandes Cabral. Tença era um favor real que reconhecia serviços
anteriormente prestados, embora estes se desconheçam. Fidalgo da casa
real, depois teria Pedro Álvares Cabral chegado a cavaleiro da Ordem de
Cristo, a mais importante ordem de cavalaria de Portugal, por volta de
1494, com mais uma tença de 40 mil-réis, e também alguma coisa tivera
feito para merecê-la. É tudo o que se sabe da sua biografia.
Mesmo se a razão da escolha como capitão-mor tenha resultado da sua
ligação a algum grupo cortesão, Pedro Álvares havia de ser considerado com
certeza uma pessoa de qualidade para deter o comando que lhe era entregue.
Era considerado “homem avisado”, “de bom saber, muito auto para isso”.
Nenhum documento se refere a ele como “experimentado em coisas do mar”,
como se disse de Vasco da Gama. Mas não devia ser totalmente ignorante da
arte de navegar. Algumas provas havia de ter dado no mar para merecer um
comando tão importante, pois não é crível que um ignorante em navegação
tivesse sido escolhido para comandar a maior e mais dispendiosa expedição
naval que até então se armara em Portugal. O capitão-mor não era o piloto
da frota, mas também não se limitava a ser uma figura decorativa; tampouco
seria apenas um diplomata, enquanto outros se responsabilizariam apenas
pela navegação. Uma tão cortante divisão de funções não era um pressuposto
em finais do século XV. O capitão-mor comandava os homens da armada
em terra e no mar. É sentir-se-ia à vontade nesse comando.
Depois de suntuosas cerimônias com que o rei honrou o capitão-mor,
a armada saiu do Tejo em 9 de março de 1500. Eram 13 navios, muito
provavelmente dez naus e três caravelas, com mais de 1.500 homens
embarcados. A época do ano era a mais adequada para a travessia do
Atlântico Sul. Depois de uma navegação direta até o arquipélago de Cabo
Verde, passando embora à vista da ilha de São Nicolau, rumou para o sul
e descreveu uma larga volta pelo sudoeste, esta muito mais pronunciada
que a efetuada pela armada de Vasco da Gama, sem aproximar-se da costa
africana. Era a rota certa para aquela época do ano. Fugia-se, assim, das
calmarias equatoriais, e essa boa escolha parecia indicar que a esquadra
sulcava rotas anteriormente conhecidas.

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À 21 de abril de 1500 avistam-se da frota, nas palavras do escrivão
Pero Vaz de Caminha, “alguns sinais de terra”. No dia seguinte, “topamos
aves, a que chamam fura-buchos. E neste dia, a horas de véspera, hou-
vemos vista de terra, isto é primeiramente d'um grande monte, mui alto
e redondo, e d'outras serras mais baixas ao sul dele e de terra chã com
grandes arvoredos, ao qual monte o capitão pôs nome o Monte Pascoal e
a terra a Terra de Vera Cruz”. E há um deslumbramento perante a “terra
nova que se ora nesta navegação achou”. Terra até então desconhecida,
de belos arvoredos, povoada de indígenas nus, gente mansa e pacífica,
pouco espantadiça, cuja linguagem ninguém consegue entender. “Esta
terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até
outra ponta que contra o norte vem (...) será tamanha, que haverá nela bem
vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar, em algumas
partes, grandes barreiras, delas vermelhas e delas brancas, e a terra, por
cima, toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é
toda praia parma, muito chã e muito formosa (...). A terra porém em si é de
muito bons ares, assim frios e temperados (...). Águas são muitas, infindas.
E em tal maneira é graciosa que, querendo-se aproveitar, dar-se-á nela
tudo por bem das águas que tem.” Assim o escrivão descreve a terra ao rei.
À 22 de abril de 1500, a armada comandada por Pedro Álvares Cabral.
que pelo oceano Atlântico ia a caminho da Índia, deparou com terra a
ocidente. Tudo - exceto a vontade persistente de alguns historiadores,
sem documentos ou resquício de prova - leva a concluir que esse “acha-
mento” não foi propositado. Para alguns deles, nem se trata de suspeita,
mas de uma certeza cuja ausência de provas funciona como evidência
afirmativa. O descobrimento ocasional da costa ocidental banhada pelo
Atlântico decorre, com certeza, de uma excessiva inflexão para sudoeste
da rota da armada de Cabral. Ainda no século XVI um cronista escreveu:
“É porque os pilotos já melhor entendiam que encurtavam caminho não
indo costeando a costa de São Tomé, foram navegando direitos ao cabo
da Boa Esperança e por acerto viram terra de sua mão direita.” Podia à
terra já antes ter sido entrevista? Talvez apenas suspeitada. No relato da
Viagem de Vasco da Gama, em 1497, lê-se que da sua armada se viram
“pássaros que voavam como se fossem para terra”. Era, evidentemente.
uma suposição. Só agora, com Cabral, essa terra era observada e de sua
existência se passava a ter certeza.

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Nenhum documento permite afirmar que Pedro Álvares Cabral partira
Je Lisboa com o propósito de descobrir novas terras. A intencionalidade da
descoberta não encontra fundamento em nenhuma das testemunhas, seja
Pero Vaz de Caminha, Mestre João ou o piloto anônimo. A armada partiu
com destino à Índia, e foi só isso. Nem os fragmentos das instruções de
Vasco da Gama para a viagem permitem suspeitar de uma missão adicional.
É arriscado demais supor que tivessem sido redigidas outras instruções
secretas - quando as que se conhecem também não eram públicas. E nada,
depois do achamento, indicia qualquer segredo anterior bem guardado:
não seguiam a bordo quaisquer padrões de pedra para assinalar descober-
tas, como acontecia nas viagens de exploração de terras desconhecidas;
Cabral apressou-se a reunir um conselho dos capitães que decidiu enviar
a Lisboa em um navio da armada para anunciar o descobrimento. Reunião
que seria absurda se tivesse instruções para a descoberta. Tudo isso para
mascarar um achamento intencional? Não parece aceitável.
Desinteressantes são também os argumentos que partem da nego-
ciação de Tordesilhas. Não convence que D. João II insistiu em alargar
a área limitada pelo meridiano separador dos hemisférios castelhano e
português, a 370 léguas para ocidente das ilhas de Cabo Verde, tendo um
suposto conhecimento prévio de terras nessa borda do Atlântico. Muito
simplesmente, o que o rei português certamente pretendia com a linha de
Tordesilhas era garantir a navegação pela Índia com toda a segurança, sem
o eventual perigo de castelhanos nas proximidades da rota. Não se pode
esquecer que Cristóvão Colombo já chegara às Antilhas em 1492, o que não
faz forçosamente imaginar que em Portugal se tivesse certeza da existência
de terras a ocidente. Quando muito, se trataria de uma forte suspeita, e de
querer garanti-las para Portugal se de fato essas terras existissem, como
parte da segurança da navegação em todo o Atlântico.
O Atlântico, então, era apenas parcialmente conhecido. Durante dez
anos, entre a passagem pelo sul da África por Bartolomeu Dias (1488) e a
partida da armada de Vasco da Gama para a Índia (1497), o oceano funcio-
nou, para os portugueses, como um vasto “laboratório de navegação. À
segurança com que Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral empreenderam
a travessia do Atlântico Sul demonstra que seus trajetos não podiam ser
frutos do acaso. A precisão revelada exigia o conhecimento prático dos

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ventos e das correntes dominantes, saber este que só se adquiria navegan-
do. O achamento da nova terra, porém, não passou de um acontecimento
que por felicidade se adicionou à missão principal que era a Índia, para
onde, feita a aguada (abastecimento de água), a armada se dirigia. Nem
sequer se podia dizer, naquele momento, se os navegantes estavam numa
Llha ou num continente.
À notícia do achamento da nova Terra de Vera Cruz (a que o rei passa
a chamar Terra de Santa Cruz) difundiu-se pela Europa através da cor-
respondência de mercadores que passaram por Lisboa e de um escrito do
próprio monarca. À carta de D. Manuel aos Reis Católicos - Fernando de
Aragão e Isabel de Castela -, de 1501, é clara ao afirmar que a frota “che-
gou a uma terra que novamente descobriu a que pôs no nome Santa Cruz
(...) a qual pareceu que nosso Senhor milagrosamente quis que se achasse
porque é mui conveniente e necessária à navegação da Índia porque ali
corrigiu suas naus e tomou água, e pelo caminho grande que tinha para
andar não se deteve para se informar das coisas da dita terra, somente
me enviou um navio a notificar-me como a achara, e seguiu seu caminho
pela via do cabo da Boa Esperança”. No ato notarial (registro de tabelião)
de Valentim Fernandes, de 20 de maio de 1503, registra-se solenemente
que a armada de Pedro Álvares Cabral descobrira “no incógnito mar, sob
a linha equinocial (...) outro orbe desconhecido de todos os autores”.
Uma outra notícia - “nuovamente trovato unuovo mondo” (“novamente
encontrado um novo mundo”) - foi transmitida de Lisboa para Florença
pelo rico mercador Bartolomeu Marchione, logo após o regresso de Cabral
a capital portuguesa, em julho de 1501. Fica claro, por esses documentos,
que o descobrimento do Brasil representava para Portugal e todo o Velho
Mundo um fato absolutamente novo.

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Transcrição dos artigos


RENATA BRAVO SALLES
FABIANO PARRACHO

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MEYRELLE TORRES | FILIGRANA

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO


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História do Brasil para ocupados: os mais importantes historiadores apresentam de um
jeito original os episódios decisivos e os personagens fascinantes que fizeram o nosso
país. / organização Luciano Figueiredo. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Casa da Palavra. 2013.
Inclui bibliografia
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Brasil - História. 2. Brasil - Civilização - História. 3. Brasil - Condições sociais. L
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