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ÍKARO LIMA CAVALCANTE

RESENHA: “A ARTE COMO UM SISTEMA CULTURAL”, IN: O SABER LOCAL –


CLIFFORD JAMES GEERTZ

SETEMBRO 2019

MÚSICA E SOCIEDADE

PROF. CARLOS SANDRONI

UFPE – CAC – DEPARTAMENTO DE MÚSICA

Em seu ensaio “ A arte como um sistema cultural”, O antropólogo Clifford


Geertz faz uma construção crítica sobre a dificuldade que as pessoas tem sobre a
capacidade de descrever certos aspectos das artes sejam elas obras literárias, sonoras,
pinturas, entre outros. Geertz nos revela que o olhar de boa parte dos pesquisadores
quando fazem análises das obras de artes, principalmente pesquisadores do ocidente,
tendem a desconsiderar questões importantes da cultura dos indivíduos que produzem as
mais diferentes manifestações artísticas.

Nesse sentido, a compreensão da arte produzida por certos povos é vista como
mera produção das atividades cotidianas e da vida social desses povos, não levando em
consideração o discurso dito por eles. A construção da crítica de Geertz leva em
consideração o fato de que boa parte dos estudiosos das artes primitivas analisam o
discurso dos povos que fazem suas artes como algo misterioso e resumido, pouco
aprofundado segundo parâmetros estilísticos específicos.

Nesta direção, o autor cita a etnia ioruba como exemplo revelando que fatores
da vida sensível, social e coletiva, uma vez compreendidos, nos afastam de uma visão
estética ocidental sobre obras desse povo. As produções estão conectadas a interesses
amplos e densos capazes de revelar uma realidade somente alcançada considerando
além do que se é dito como descrição de uma obra.

Na segunda parte do capítulo em questão, o antropólogo passa a fazer


considerações a respeito da pintura no período renascentista chamada de quattrocento e
da poesia islâmica. Geertz levanta o fato de que as experiências de análise das obras
quatrocentista, tanto do ponto de vista do observador quanto do ponto de vista do pintor,
não levam em consideração aspectos técnicos somente, mas a forma de vida
quatrocentista. As experiências totais de vida do sujeito é o que os auxiliariam a
conseguir fazer a leitura das obras de sua própria época. A sociedade é parte dessa
leitura na medida em que determina de certa forma, a bagagem intelectual do indivíduo
direcionando o seu olhar. Nesse sentido, olhar do observador e do artista é voltado para
aquilo que a sociedade de sua época mais valoriza.

Ainda sobre o período do quattrocento, o antropólogo afirma que é


fundamental considerar o aspecto da religião para a interpretação das obras. Parte da
produção da época tinha a intenção de conscientizar o homem espiritualmente a partir
da fé cristã. Assim, o olhar do observador da época estava sendo orientado pelo prisma
do cristianismo, onde o sujeito seria capaz de compreender e refletir as cenas retratadas
a partir de sua memória cultural e do conjunto de informações que ele tinha a respeito
daquilo.

Do ponto de vista histórico, o autor fala que havia muitas instituições culturais
que trabalhavam sobre o olha da época no século XV na Itália. Além disso, outros
aspectos da vida social auxiliavam na leitura das obras de arte. A dança, por exemplo,
era muitas vezes representada por artistas da época, uma vez que pintores presumiam a
existência da capacidade de leitura das obras por parte do observador por se tratar de
algo que ele interagia de modo rotineiro. Assim, leituras de obras, como O Nascimento
de Vênus de Botticelli, eram feitas de modo natural dada a familiaridade com as formas
existentes na dança.

Como terceiro exemplo para demonstrar a arte como catalizadora da cultura,


Geertz analisa a poesia islâmica considerando três dimensões que devem se inter
relacionar. Ele destaca o Corão devido a sua peculiaridade diante da cultura islâmica
como primeira dimensão. A segunda seria o próprio contexto em que a poesia islâmica
vive e a terceira seria a natureza de como essa comunicação se dá dentro da cultura
islâmica. Sua análise começa pelo Corão, onde Geertz coloca como questão central o
entendimento que os islâmicos tem do Corão.

Segundo o autor, O Corão representa a própria palavra de Deus, o que o difere


em importância da Bíblia como principal elemento do cristianismo. O Corão estaria
mais próximo da representação do próprio Cristo para os cristãos do que a Bíblia.
Assim a representação de Deus para o islamismo está intimamente relacionada com a
linguagem, uma vez que Deus se revelou a partir de sua própria fala. Isso caracterizaria
a linguagem como algo sagrado. Tudo isso é reforçado na própria estrutura de vida
muçulmana tradicional através da escola, por exemplo. Tratando de como a vida árabe é
permeada por essas questões, Geertz afirma

“Tais atitudes e tal formação faz com que a vida cotidiana seja
pontuada por linha do Corão e outras citações clássicas. Além
das situações especificamente religiosas, a conversa cotidiana é
tão intercalada com fórmulas do Corão que até os assuntos mais
mundanos parecem estar inseridos em uma moldura sacra.”
(Geertz, 1997, p.170)

Por fim, Geertz ressalta que para criarmos uma verdadeira semiótica da arte
devemos considerá-la como uma ciência social assim como a antropologia, levando em
em conta a capacidade que deve-se ter em compreender os símbolos e a etnografia dos
veículos que transmitem esse conjunto de significados, articulando-os com o seu papel
dentro da sociedade. A semiótica da arte deve considerar os seus estudos como forma de
pensamentos, uma linguagem que revela seus significados e que deve ser interpretada.

Geertz, Clifford. O saber local. Vol. 20. Petrópolis: vozes, 1997.