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Jiři Orten (1919-1941)

Eternamente

A noite cai de joelhos,


ajoelha-se não crê.

Nada mais na vida me fascina,


calo-me rápido,

e no entanto as mães dos mortos


estão novamente prontas.

Todos nós sobrevivemos


com grande pesar.

Errar eternamente até estar inocente.


Eternamente.

A noite cai de joelhos.


Você irá rezar esta noite, Desdêmona?
Wisława Szymborska (1923-)

Céu

Era preciso começar daí: céu.


Janela sem encosto, sem moldura, sem vidraça.
Abertura e nada mais,
porém muito bem aberta.

Não preciso aguardar a noite amena


nem levantar a cabeça
para perscrutar o céu.
Tenho céu atrás de mim, sob as mãos e debaixo das pálpebras.
Estou enredada de céu
e isto me exalta.

Nem as montanhas mais altas


estão próximas do céu
do que os vales mais profundos.
Não há mais céu num lugar
do que em outro.
A nuvem está atada ao céu
indiferente como o túmulo.
A toupeira é tão feliz
quanto a coruja que abre as asas.
O objeto que cai no precipício
cai do céu no céu.
Partes poeirentas, líquidas, montanhosas,
passageiras e queimadas do céu, migalhas de céu,
brisas de céu, e montes.
O céu é onipresente
até nas trevas sob a pele.
Devoro o céu, rejeito o céu.
Estou com armadilhas, na armadilha,
com o habitante instalado,
com o braço abraçado,
com a pergunta presente na resposta.
A divisão entre céu e terra
na foi pensada de forma adequada
a respeito desta unidade.
Permite até que se sobreviva
num endereço mais exato,
que pode ser achado mais depressa
se me procurarem.
Os meus sinais característicos são
o arrebatamento e o desespero.
Momtchílio Nastassíevitch (1894-1938)

Mágoa em pedra

1
Nem verbo, nem verso, nem ruído
narram minha mágoa;

e arco-íris fátuo
céu e terra
o arco ata e ata

2
Parto e fortuna
fundo me arraiga.

E grito
e no peito feito faca
um grito se finca.

3
Aqui com sangue aqui
Com a mãe em volta.

Desperto auroras,
e no triste entardecer
sumo além-serras.

4
Da matéria mudo
triste amigo emerge.

E triste ave pia


e o bosque verdeja.

5
E machado irado
carvalho corta;

e lobo ao cordeiro — ossos que o dente mói;


mudo é tudo mudo
amigo fiel da mágoa.

6
Liberdade ao escravo — fujo longe
e mais fundo aqui.

E benção ao túmulo
ao berço e maldição —
dívida prorrogada.

7
Tudo chama —
e fico.

Raiz na pedra
tranco o arco da mágoa.

8
Ao sofredor de coração manso
o estrondo da aurora soa estranho.

E estranho,
no próprio ombro,
seu vulto luzidio fixa.

9
Nem verbo, nem verso, nem ruído
narram minha mágoa;

e arco-íris fátuo
céu e terra
o arco ata e ata
Karel Toman (1877-1946)

Sonho setentrional

Vi um pinheiro nodoso e órfão


num lugar qualquer nas montanhas.

Preferido dos raios,


uma acrópole desabava em seu cepo,
e o amor da terra florescia
escuro em seus espinhos verdes.

Tronco triste e duro,


que jamais gerou flor quebradiça,
sempre sugou a seiva no solo firme
e farfalhou sovina,
cumprimentando as distâncias sedutoras.

Silêncio de meia-noite na cidade,


luzes trêmulas bruxuleiam no vento,
imaginação febril me agita.

Tenho o coração tristonho


como o sino de Finados.
Meu crânio partido… Das estrelas
o segredo dos mundos
e o crepúsculo dos deuses
befeja.

Deus, por que me deste


esta penúria?

A perspectiva das distâncias,


a cadência dos oceanos
e também esta fraqueza.

Pinheiro setentrional, meu redentor,


é a ti que eu espero, a ti.