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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Instituto de História
Programa de Pós-Graduação em História Social

O bacharel “pardo”, Eduardo Gonçalves Ribeiro: Escola Militar e mobilidade social


(1862-1887).

Geisimara Soares Matos

Rio de Janeiro, 2019.


Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituto de História
Programa de Pós-Graduação em História Social

O bacharel “pardo”, Eduardo Gonçalves Ribeiro: Escola Militar e mobilidade social


(1862-1887).

Geisimara Soares Matos

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação


em História Social da Universidade Federal do Rio de
Janeiro – UFRJ, como requisito para obtenção do título de
Mestre em História Social.
Linha de pesquisa: Sociedade e Política.

Orientadora: Profa. Dra. Monica Grin Monteiro de Barros.

Rio de Janeiro, 2019.


CIP - Catalogação na Publicação

Soares Matos, Geisimara


S434
O bacharel “pardo”, Eduardo Gonçalves Ribeiro:
Escola Militar e mobilidade social (1862-1887). /
Geisimara Soares Matos. -- Rio de Janeiro, 2019.

116 f.

Orientadora: Monica Ribeiro.


1. Eduardo Gonçalves Grin Monteiro de Barros.
2. Escola Militar
Dissertação
da Praia (mestrado)
Vermelha. - Universidade
3. Pardo. Federal
I. Grin Monteiro de do
Barros, Monica , orient. II. Título.
Rio de Janeiro, Instituto de História, Programa de
Pós-Graduação em História Social, 2019.

Elaborado pelo Sistema de Geração Automática da UFRJ com os dados fornecidos


pelo(a) autor(a), sob a responsabilidade de Miguel Romeu Amorim Neto - CRB-7/6283.
Agradecimentos

Vou pedir desculpa aos meus familiares e amigos, mas vou começar
agradecendo a Di Melo. Pernambucano de Recife, Di Melo fez a música que embalou
os instantes de incerteza em que essa dissertação foi escrita. A música: A vida em seus
métodos diz calma, como mantra, ecoou na minha cabeça desde o momento em que a
conheci, no segundo ano do mestrado. Foi ela que, num momento em que eu achei que
não a terminaria, me ajudou a ter calma e, dessa forma, escrever as últimas linhas dessa
dissertação.
Agradecer a Di Melo e sua música mostra que um pós-graduando precisa de
todo o apoio possível pra enfrentar a empreitada de escrever uma tese ou dissertação. O
trabalho, que por muitas vezes é solitário, só é possível com o envolvimento de pessoas
que possibilitam espaços de cura, entretenimento e, principalmente, acolhimento.
Sem meus pais, Terezinha e Agostinho, esse título de Mestra em História
nunca teria sido possível. O apoio que me deram desde a infância, o investimento
financeiro e de tempo que fizeram para que eu tivesse a melhor formação educacional
que eles poderiam me proporcionar é responsável por tudo isso. Quando decidi vir
estudar no Rio de Janeiro, os dois nunca se opuseram, pelo contrário, incentivaram e
dessa forma, fizeram com que isso tudo fosse real. Agradeço ainda a minhas irmãs,
Lucimara e Geisiany, e ao meu sobrinho Augusto, vocês me proporcionam grandes
aprendizados. Gratidão!
Ainda em Manaus eu agradeço às amigas Lindiara Alves e Juliana Almeida.
Queridas amigas de infância que sempre estiveram ao meu lado e acreditaram no meu
potencial. Grandes saudades!
O começo dessa jornada historiográfica não teria sido possível sem a pessoa
que me apresentou a Eduardo Ribeiro. A minha relação com Eduardo durante todos
esses anos foi possível porque a professora Patrícia Melo me apresentou a ele, na
primeira aula do curso de História da Amazônia II, ainda na graduação. Além de ter
funcionado como cupido, me orientou na monografia de conclusão de curso e me
incentivou a vir explorar outras possibilidades teórico/metodológicas em um programa
de pós-graduação no Rio de Janeiro. Obrigada!
Ainda no corpo docente do curso de História da UFAM agradeço ao professor
Luís Balkar, grande mestre, que me ensinou muito e sempre se preocupou com os
caminhos por que eu enveredava. Agradeço ainda à Patricia Silva, Almir Diniz, Maria
Luiza Ugarte, César Augusto Queiroz, Alexandre Isídio, mestres que eu nunca
esquecerei e que foram muito importantes na minha formação como historiadora.
Agora, parto para os amigos que essa instituição, no meio da floresta
amazônica me deu. O que teria sido de mim sem vocês? Rafaela Bastos, Carol Gaspar,
Tamily Frota, Agda Brito, Raphaela Martins, Jéssyka Samya, Sarah Araújo, Talita
Magalhães, Leonardo Bentes, Priscila Diógenes, Karyna Aguiar, Denize Mota. Escrevo
essas linhas com lágrimas nos olhos, porque sei que sem vocês nada disso teria sido
possível. Obrigada pelos sambas no Caldeira, pelas cervejas no bar do Cabelo, pelos
memoráveis churrascos na casa da Carol. Obrigada por ouvirem os lamentos, ao longo
desses dois anos, de uma manauara que sentia saudades de vocês e de casa. Agradeço
ainda a leitura atenta dos meus textos e pelas discussões teóricas que fazíamos pelo
whatsapp. Muito do que está escrito nas próximas páginas tem o pitaco de vocês.
No Rio de Janeiro, agradeço a minha orientadora Monica Grin. Obrigada por
ter aceitado me orientar mesmo sem saber se eu seria uma orientanda. Obrigada por ter
acreditado no meu trabalho, pelos incentivos, pela empolgação com a minha pesquisa,
pelas sugestões primorosas e leituras atentas que fez do meu texto.
Ainda no PPGHIS, agradeço aos professores Fernando Castro e Lise Sedrez.
Professores importantes durante a minha formação. Agradeço em especial a essa última
que, como coordenadora do curso, é incansável na empreitada de tornar o programa o
melhor possível para alunos e professores. Agradeço ainda a Sandra Helena, secretária
sempre simpática e pronta pra ajudar, o que seria de nós sem você para ajudar nas
burocracias? Gratidão a todos!
Sem financiamento essa pesquisa não teria acontecido. Por isso agradeço à
Capes pela bolsa de mestrado que, durante os últimos dois anos, possibilitou que eu
morasse no Rio de Janeiro, fosse a arquivos, comprasse livros, ou seja, me mantivesse
sem maiores preocupações na cidade. Que venham mais bolsas, mais financiamentos e
prosperidade para a pesquisa no Brasil.
Agradeço à Renata Daflon que gentilmente se propôs a fazer a revisão dessa
dissertação.
Agradeço aos amigos Júlio Dória, Clarice e Ayra Garrido pelo acolhimento na
cidade. Obrigada pelos cafés, pelas saídas, almoços no bandejão e por se importarem
com o meu bem-estar. Tenho certeza de que fiz grandes amigos e sou muito grata por
tudo o que fizeram por mim.
Durante as pesquisas nos arquivos do Rio de Janeiro, não posso deixar de
agradecer ao Capitão Mauro e subtenente Álvaro, do Arquivo Histórico do Exército.
Obrigada pela atenção e pela ajuda com a minha pesquisa sugerindo fontes e leituras
que foram importantes para a confecção do texto. No Museu Casa de Benjamin
Constant agradeço ao Marcos Lopes, que foi muito solícito e conseguiu abrir o arquivo
no final do ano pra que eu pudesse pesquisar.
Agora, subindo a serra, não posso deixar de falar dos amigos de Petrópolis.
Gratidão ao Sidnei Francisco dos Santos, por ter aberto sua casa para mim. Nunca vou
esquecer das inúmeras vezes que corri para Petrópolis, em meio a um turbilhão de
emoções e você sempre me recebeu de braços abertos, sendo um amigo compreensivo e
cheio dos melhores conselhos e conversas.
Ainda em Petrópolis, não poderia deixar de agradecer à d. Margarida e ao
Glauber. Vocês abriram a porta da casa de vocês, me permitiram conviver com seus
familiares e amigos; e cuidaram de mim na medida do possível. Lembrarei e serei grata
para sempre por esses dois anos com que convivi com vocês. O aprendizado que
carrego da convivência com ambos me fez uma pessoa melhor. Obrigada!
Em São Luís – Maranhão, agradeço a Jefferson Maciel e Nalva Maciel. Mãe e
filho me receberam em fevereiro de 2018 em sua casa por quase três semanas pra que eu
pudesse fazer minha pesquisa nos arquivos da cidade. Em especial ao Jefferson, amigo
que fiz e que me acompanhou várias vezes nas idas ao Arquivo Público do Estado do
Maranhão pra me ajudar na difícil empreitada de localizar informações dispondo só de
alguns nomes. Ainda no Arquivo Público do Maranhão tenho que agradecer também a
Silvania pela disposição em me ajudar e a entender melhor os instrumentos de pesquisa,
a ajuda foi essencial.
Por ocasião da qualificação e defesa agradeço imensamente a Matthias
Assunção (Essex University) e Álvaro Nascimento (UFRRJ) pelas preciosas
contribuições que fizeram nas duas ocasiões e que foram imprescindíveis para o
amadurecimento desta dissertação. Agradeço inclusive, pela amizade que pudemos
construir dentro e fora da universidade. Sempre importante para jovens pesquisadores
terem professores tão renomados acreditando no seu trabalho.
Em Minas Gerais agradeço a Cleo, que foi importantíssima na passagem do
mestrado para o doutorado, os momentos de apoio que nos demos demonstraram o
quanto é importante que mulheres negras se ajudarem e se acolham em meio a esse
sistema que nos pretere e nos excluem. Gratidão, sigamos juntas agora o doutorado.
Na Bahia, às amizades de Ana Cruz e Marcelo Lins, gratidão pela comida
baiana, discussões historiográficas e a ida a bares aqui no Rio e em Nova Iguaçu.
Agradeço ainda ao Felipe Melo e Jane Almeida, que fizeram o meu segundo ano
morando no Rio de Janeiro ser mais agradável e menos doloroso, obrigada por tudo, a
companhia e amizade de vocês me fez muito feliz.
Por último, mas não menos importante, agradeço ao meu grande amigo
Richard Kennedy. Lembra quando você foi morar em Petrópolis em 2016? A gente se
falava por telefone todo dia. Você sem amigos, longe da academia, eu fui seu ombro
amigo, mesmo que a 4000 km de distância. Em 2017, chegou minha vez e você estava
lá, estendendo sua mão. Atendia todas as minhas ligações e, principalmente, me recebia
na sua casa sempre que a saudade de casa apertava ou algum problema aparecia. Se não
bastasse, contribuiu incansavelmente nessa pesquisa, com comentários pertinentes e
lendo as várias versões dela. Obrigada. Eu só cheguei até aqui porque você esteve ao
meu lado.
Resumo

A presente dissertação trata da trajetória de Eduardo Gonçalves Ribeiro (1862-1900),


homem negro, nascido em São Luís, capital do Maranhão, que se tornou uma das
figuras mais emblemáticas e conhecidas do Amazonas. Sua trajetória é marcada pela
ascensão ao governo daquele estado (1892-1896), em meio a vários embates políticos e
por ter feito uma política de embelezamento da cidade de Manaus muito conhecida e
longeva na memória histórica amazonense. Para esta dissertação optamos por focar
nossas análises em sua passagem por São Luís, onde foi um dos fundadores do jornal O
Pensador, até sua chegada e permanência no Rio de Janeiro, período em que estudou na
Escola Militar da Praia Vermelha, bacharelando-se em Ciências Físicas e Matemáticas,
em 1887. Ancorados nas discussões mais recentes sobre protagonismo negro e pós-
abolição no Brasil, usaremos a trajetória de Eduardo Ribeiro para pensar as estratégias
de que teria lançado mão e as circunstâncias sociológicas que lhe permitiram uma
extraordinária mobilidade social em uma sociedade que, em fins do século XIX, é
marcada pela racialização e pelo racismo.

Palavras-chave: Eduardo Ribeiro; Escola Militar; Exército; raça.


Abstract

This dissertation analises the trajectory of Eduardo Gonçalves Ribeiro (1862-1900), a


black man, born in São Luís, capital of Maranhão, who became one of the most
emblematic figures of the Amazon region. His trajectory is marked by the rise to the
government of Amazonas State (1892-1896) among several political battles and, for
having implemented a policy of embellishment of the city of Manaus well known and
long lived in the Amazonian historical memory. For this dissertation we chose to focus
our analysis on his trajectory in São Luís where he was one of the founders of “O
Pensador” newspaper; until his arrival and stay in Rio de Janeiro, where he studied at
Praia Vermelha Military School, graduating in Physical and Mathematical Sciences in
1887. Anchored in the most recent discussions on black protagonism and post-abolition
in Brazil, we will use the Eduardo Ribeiro's trajectory to think about the strategies that
he would have used and the sociological circumstances that allowed an extraordinary
social mobility in a society that, at the end of the 19th century is marked by strong
racialization.

Keywords: Eduardo Ribeiro; Military school; Army; race


Sumário

Introdução..................................................................................................................... 7
Capítulo I – Numa casinha mais que modesta, na risonha e poética São Luís. ............. 19
Formação educacional ................................................................................................. 33
Os embates no Jornal O Pensador................................................................................ 38
Capítulo II – Uma ilha de instrução em meio a um mar de analfabetos: a Escola Militar
da Praia Vermelha ....................................................................................................... 47
A vida de estudante ..................................................................................................... 50
O cotidiano dos alunos: para além dos muros da Escola .............................................. 66
Desempenho Escolar e a meritocracia ......................................................................... 70
Capítulo III – As cores dos Bacharéis Fardados. .......................................................... 79
Somando singularidades: trajetórias ajudam a pensar hierarquias raciais. .................... 81
Estruturando a carreira militar: desempenho acadêmico, envolvimento político e cor da
pele. ............................................................................................................................ 92
Adentrando nas classificações de cor........................................................................... 95
Considerações Finais................................................................................................. 108
Referências Bibliográficas ........................................................................................ 111
Listas

Listas de Tabelas

Tabela 1: População livre do município de São Luís considerada em relação a sexo e


raça...................................................................................................................................25

Tabela 2: População escrava do município de São Luís considerada em relação a sexo e


raça. (Fonte: Recenseamento Geral do Império do Brasil de 1872)...........................26

Tabela 3: Distribuição do Exército brasileiro em 1889...............................................50

Lista de Quadros

Quadro 1: Currículo teórico do curso preparatório entre 1874-1889..............................55

Quadro 2: Currículo teórico do curso superior da Escola Militar entre 1874-1889........56

Quadro 3: Origem social dos militares entre 1864-1889.................................................64

Quadro 4: Amostra de militares que frequentaram a Escola Militar entre 1870-1880....89

Lista de Imagens

Imagem 1: Pintura de Eduardo Gonçalves Ribeiro. Atelier Daguirre, Rio, 1896.


Disponível em: Centro Cultural dos Povos da Amazônia.............................................100

Imagem 2: Fotografia de Eduardo Gonçalves Ribeiro, sem data. Disponível em: Centro
Cultural dos Povos da Amazônia...................................................................................101
Introdução

[...] tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro, se não
fossem os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos,
lustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes claros que
reluziam sob a negrura do bigode; estatura alta e elegante; pescoço largo,
nariz direito e fronte espaçosa. A parte mais característica da sua fisionomia
era os olhos: grandes, ramalhudos, cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas
e negras, pálpebras de um roxo vaporoso e úmido; as sobrancelhas muito
desenhadas no rosto, como a nanquim, faziam sobressair a frescura da
epiderme, que, no lugar da barba raspada, lembrava tons suaves e
transparentes de uma aquarela sobre papel de arroz. 1

Você, caro leitor, que não conhece a história do personagem que vamos contar
nessa dissertação e, tendo apenas como referência o título do trabalho, ou, até mesmo
você que já conhece, poderia achar que a descrição acima faz referência a Eduardo
Gonçalves Ribeiro. Bem poderia, retirando-se alguns detalhes. Entretanto, esta é a
descrição física de Raimundo, protagonista de O Mulato, do escritor maranhense
Aluísio de Azevedo.
A história de Raimundo parece algumas vezes confundir-se com a de Eduardo
e vice-versa. Teria Azevedo se inspirado na vida do amigo Eduardo para escrever O
Mulato? Muito pouco provável. Não há indícios de que a obra, publicada em 1881,
tenha sido inspirada em alguma história em especial. O fato é que o autor do livro que
inaugura o naturalismo no Brasil, – inspirado na história do Maranhão e nas
observações que fizera do ambiente em que vivia – preocupou-se em tratar de assuntos
da vida real, e mais especificamente desse mulato que era considerado o resultado dos
estragos que a escravidão havia deixado.
As histórias de Raimundo e Eduardo ilustram o papel que homens livres de cor
tiveram na sociedade brasileira de fins do século XIX. Homens nascidos livres, que
tiveram acesso à educação e que tinham estampado na pele um passado ligado à
escravidão. Mas, o jogo literário vai ficar, por hora, a cargo de Azevedo. Nós, nas
próximas páginas, vamos fazer História.
A pesquisa que se apresenta à apreciação trata da trajetória de Eduardo
Gonçalves Ribeiro (1862-1900), homem negro, nascido em São Luís, capital do
Maranhão, e que se tornou uma das figuras mais emblemáticas e conhecidas do
Amazonas. Sua trajetória é marcada pela ascensão ao governo daquele estado (1892-

1
AZEVEDO, Aluísio. O Mulato. São Paulo: Ed. Moderna. 1994. p. 42.

12
1896) em meio a vários embates políticos e, por ter feito, uma política de
embelezamento da cidade de Manaus muito conhecida e longeva na memória histórica
amazonense.
A proposta aqui contempla com parcimônia o gênero biográfico. A
preocupação consiste em não fazer apenas um compilado de curiosidades da figura de
Eduardo Ribeiro, tendo em vista que o imaginário popular identifica sua trajetória
sempre às situações pitorescas2, seja pela sua morte envolta em mistérios, seja por seus
projetos políticos de intervenção urbana; ou ainda por seu possível enriquecimento
ilícito e desequilíbrio mental. Assim, sem querer reforçar estereótipos, nossa
preocupação é entender sua trajetória dentro de um cenário de questões mais amplas.
A fim de desenvolver a pesquisa sobre sua trajetória, escolhemos enfatizar as
dinâmicas raciais e racistas em que este personagem esteve inserido. Isso significa usar
a trajetória de Eduardo Ribeiro como fio condutor para entender as especificidades das
relações raciais em São Luís (MA) e no Rio de Janeiro (RJ). Mas e o Amazonas? O
leitor se pergunta, com razão. Dados os limites de uma pesquisa de mestrado optamos
por seguir Ribeiro apenas naqueles dois espaços, contextos nos quais Eduardo ainda não
desfrutava de capital social e intelectual estando, portanto, mais vulnerável aos
preconceitos de uma sociedade que se debatia com a manutenção do escravismo e se
definia conforme marcadores raciais e sociais de difícil transposição.
Nascido em São Luís – Maranhão, em 18 de setembro de 1862, teve sua
trajetória nessa cidade marcada por sua atuação como um dos fundadores do jornal O
Pensador, em 10 de setembro de 1880. O jornal, conhecido pelos artigos do escritor
Aluísio de Azevedo, era publicado três vezes ao mês. De caráter anticlerical, tinha como
objetivo se contrapor às ideias do jornal Civilização, representante dos interesses da
Igreja Católica e de seu conservadorismo.
Saindo do Maranhão, Ribeiro senta praça no Rio de Janeiro, em fevereiro de
1881, e inicia seus estudos na Escola Militar da Praia Vermelha. Conclui o curso em
janeiro de 1886, tonando-se bacharel em Ciências Físicas e Matemáticas. Em agosto de
1887, Eduardo Gonçalves Ribeiro chega a Manaus já assumindo diversos cargos de
prestígio e vivenciando vários embates partidários marcados por trocas de acusação, e
de idas e vindas ao governo do Amazonas.

2
A expressão usada por Otoni Moreira de Mesquita. La Belle Vitrine – O mito do progresso na
refundação da cidade de Manaus – 1890/1900. Tese de Doutorado defendido no Programa de Pós-
Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. 2005. p. 277.

13
Consolidando-se como governador no período entre 27 de fevereiro de 1892 e
23 de julho de 1896, tem sua administração reconhecida pelas obras de intervenção
urbana, edificações suntuosas e pela ênfase na modernidade urbana. Obras como o
Teatro Amazonas, o Palácio da Justiça, o reservatório do Mocó, a ponte Benjamin
Constant, dentre outras, são registradas e conhecidas na história do Amazonas como
oriundas de sua administração.3 Sobre isso Mário Ypiranga Monteiro, diz: “tornou-se
lugar-comum admitir-se tudo quanto Manaus possui de bonito e moderno ao governador
Dr. Eduardo Gonçalves Ribeiro”.4
Ao final de seu mandato, e em meio a impasses em sua vida pessoal e com seu
partido, o Partido Republicano, por ocasião das eleições de 1896, Eduardo Ribeiro é
eleito para ocupar uma cadeira no Senado Federal, como representante do Amazonas.
Contudo, Ribeiro não conseguiu assumir o cargo e os motivos ainda precisam ser mais
investigados. Os desgastes políticos eram constantes e as críticas da imprensa à sua
administração continuavam. Além disso, seus problemas de saúde ficaram mais visíveis,
culminando em seu suicídio 5, em 14 de outubro de 1900.6 Após a sua morte, até hoje
apresentada como um mistério, passou a ser visto como herói: o sujeito que trouxe a
modernidade para o Amazonas.
Por sua trajetória política relevante no Amazonas, Ribeiro recebeu olhares
atentos de intelectuais com atuação no Amazonas. No entanto, é bom salientar que essas
obras foram feitas, em sua maioria, por memorialistas, que construíram e ajudaram a
reforçar a sua imagem de herói do Amazonas. Essas obras, normalmente, pontuam
episódios curiosos da vida de Ribeiro e destacam as obras de intervenção urbana
executadas durante sua administração.

3
Havia um projeto de modernização de Manaus, não há como negar, mas é importante destacar que esse
plano foi possível pelo crescimento econômico por que o estado passava, tendo em vista a grande
arrecadação de impostos com a borracha exportada. Por outro lado, o Congresso apoiava Eduardo
Ribeiro, o que fez com que vários de seus projetos enviados ao Congresso fossem aprovados e assim
recebessem financiamento.
4
MONTEIRO, Mário Ypiranga. Negritude e Modernidade. Manaus: Governo do Estado do Amazonas.
1990. p. 95.
5
Sobre a literatura que tem tratado sobre suicídio e questões étnico-raciais ver: SPITZER, Leo. Vidas de
Entremeio: assimilação e marginalização na Áustria, no Brasil e na África Ocidental, 1780-1945.
Tradução Vera Ribeiro – Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001; GRIN, Monica. Modernidade, identidade e
suicídio: o “judeu” Stefan Zweig e o “mulato” Eduardo de Oliveira e Oliveira. Topoi, Rio de Janeiro,
dezembro 2002, pp. 201-220; CARVALHO, Maria Alice Rezende de. Três pretos tristes: André
Rebouças, Cruz e Sousa e Lima Barreto. Topoi, Rio de Janeiro, v.18, n.34, p.6-22, jan./abr.2017.
6
MESQUITA, Otoni. La Belle Vitrine – O mito do progresso na refundação da cidade de Manaus –
1890/1900. Tese de Doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade
Federal Fluminense. 2005. p. 298.

14
Propomos nesse trabalho, novas questões sobre as experiências desse
personagem, nos termos de uma história biográfica, 7 orientada por “temas que fazem
parte de nossa agenda mais contemporânea”, conforme sugere Lilia Schwarcz em Lima
Barreto – Triste Visionário.: “[…] Historiadores são assim: voltam ao passado com
indagações novas; àquelas de sua época.”8
A obra mais conhecida sobre Eduardo Ribeiro foi escrita por Mário Ypiranga
Monteiro, Negritude e Modernidade, de 1990. Neste trabalho fica evidente um critério
de análise e uma narrativa muito recorrentes em escritos sobre Ribeiro, nos quais sua
imagem é construída com os mais notórios adjetivos e superlativos, sugerindo a
afirmação de uma imagem heroica e excepcional. Monteiro, ainda neste livro, trata a
ascendência de Eduardo Ribeiro como um fato ainda misterioso, pois “parece que
ninguém quer falar ou ousa transpor os limites da confidência. Daí supor-se
inevitavelmente que sua origem fosse do tipo daquela que humilhava o grande Machado
de Assis”. 9
Há ainda uma outra obra sobre Ribeiro, Eduardo Ribeiro: Vida e Obra, de
Robério Braga (2011). Expressões como “mito”, ou “grande governador” servem para
ilustrar os termos dessa biografia. Amparado por uma gama de documentação primária,
Robério Braga (advogado e naquela ocasião secretário de cultura do Estado do
Amazonas), reconstrói cronologicamente a vida política de Ribeiro, preocupando-se
apenas em narrar sua carreira, sem a devida problematização de sua vida, seja ao pensá-
lo como homem negro que ascende socialmente, seja na análise dos discursos sobre seu
governo e sobre a sua morte. Ou seja, uma pesquisa realizada em 2011, que não dialoga
com as questões recentes da historiografia e pouco comunica em termos analíticos sobre
a trajetória de Eduardo Ribeiro.

7
É importante destacar aqui de que tipo de biografia estamos tratando. Nossa proposta se distancia
daquelas obras meramente factuais, que narram a vida do indivíduo construindo uma coerência. Esse
distanciamento das biografias tradicionais se deve certamente aos avanços do gênero na história da
historiografia que tratou de “recolocar a possibilidade de articulação entre narrativa biográfica e história-
problema” (SCHMIDT, p. 65, 2003). Nesse sentido, uma questão enfrentada por historiadores biógrafos
e, com a qual. essa pesquisa também se depara, diz respeito à representatividade. Até que ponto Eduardo
Ribeiro é representativo da sociedade em que viveu? O que sua trajetória se diferencia daquela de outros
homens negros que ascenderam socialmente em outros lugares? Sobre isso, Benito Schmidt é elucidativo:
“ao invés de se pretender representativa, a biografia pode servir para introduzir o elemento conflitual na
explicação histórica, para ilustrar, matizar, complexificar, relativizar o mesmo negar as análises
generalizantes que excluem as diferenças em nome das regularidades e das continuidades”. (SCHMIDT,
p. 68, 2003).
8
SCHWARCS, Lilia Moritz. Lima Barreto: Triste Visionário. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras,
2017. Pp. 15-16.
9
MONTEIRO, Mário Ypiranga. Negritude e Modernidade. Manaus: Governo do Estado do Amazonas.
1990. p. 89.

15
Há outros trabalhos que precisam ser citados, como os dicionários biográficos.
A vida de Eduardo Ribeiro mereceu espaço na Antologia Biográfica de Personagens
Ilustres do Amazonas (1995), de Moacir Andrade, e no Dicionário Amazonense de
Biografias: vultos do passado (1973), escrito por Agnello Bittencourt. Esses dicionários
trazem uma pequena biografia de figuras que os autores consideraram importantes para
o Amazonas, na sua maioria de políticos. Eduardo Ribeiro, nessas obras, ganhou
biografias curtas, tendo em vista o perfil desse tipo de produção. Mais uma vez o
destaque é dado a sua atuação política e ao fato de “transformar a grande aldeia que era
Manaus, na cidade moderna que passou a ser”10, destacando ademais o caráter
misterioso de sua morte.
É importante destacar também a tese de Otoni Mesquita, La Belle Vitrine, onde
é dedicado um capítulo à construção da trajetória de Eduardo Ribeiro. A obra de
Mesquita merece destaque já que se preocupou em fazer uma pesquisa histórica de
fôlego, utilizando-se de fontes primárias e discutindo a trajetória de Ribeiro a partir do
aporte teórico-metodológico da História. Procurando se afastar de uma produção de
caráter ufanista e laudatório, Otoni Mesquita resgata pontos interessantes como sua
origem e as dificuldades enfrentadas na Escola Militar.
Assim, diferente das pesquisas já realizadas sobre Eduardo Ribeiro, este
trabalho pretende dialogar com o debate historiográfico mais recente,11 segundo o qual
tanto a integração, quanto a mobilidade social dos negros no pós-abolição, devem ser
tratadas levando em consideração a atmosfera racista tanto nas décadas finais do século
12
XIX, quanto nas primeiras décadas do XX. Dentre os trabalhos representativos dessa
historiografia do pós-abolição, podemos destacar a pesquisa de mestrado de Elciene
Azevedo que resultou no livro Orfeu de Carapinha: A trajetória de Luís Gama na
imperial cidade de São Paulo. Utilizando-se de uma variedade de fontes (como jornais,
textos memorialistas, processos judiciais), Azevedo, sem sucumbir à ilusão biográfica,

10
BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias: vultos do passado. Rio de Janeiro.
Conquista, 1973. p. 196
11
Sobre isso ver: ALBUQUERQUE, Wlamyra. O jogo da dissimulação: abolição e cidadania negra no
Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009; NASCIMENTO, Álvaro Pereira do. Cidadania, cor e
disciplina na Revolta dos Marinheiros de 1919. Rio de Janeiro: Mauad X: FAPERJ, 2008. LIMA, Ivana
Stolze. Cores, marcas e falas: sentidos da mestiçagem no Império do Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 2003; MATTOS, Hebe. Das Cores do Silêncio: os significados da liberdade no sudeste
escravista. 3ª ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2013. GRINBERG, Keila. O fiador dos brasileiros.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
12
SCHWARCS, Lilia Moritz. Lima Barreto: Triste Visionário. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras,
2017. Pp. 15-16.

16
resgata várias faces de Luís Gama, como sua luta pela causa da liberdade dos negros e a
tensão entre o poeta e as suas experiências frente à escravidão. Com essa biografia,
Elciene Azevedo procurou investigar quais as estratégias que Luís Gama se utilizou
para, dentro de um “mundo branco e senhorial”, atuar em favor da liberdade dos
escravos.
Lançado recentemente, Lima Barreto – Triste Visionário, de Lilia Schwarcz, é
outra biografia que merece menção neste projeto. Ao longo de mais de 10 anos de
pesquisa, Schwarcz constrói uma biografia de fôlego. Desde a diversidade das fontes
utilizadas, passando pela pesquisa minuciosa dos espaços de sociabilidade de Lima
Barreto e cercando-se da trajetória de outros membros da família e das pessoas com
quem conviveu, a autora reconstrói toda a atmosfera dos dilemas raciais e morais no
pós-abolição carioca. É digna de nota ainda a discussão feita pela autora sobre loucura e
alcoolismo que, através de uma linguagem simples, mas acadêmica (vide as centenas de
notas de rodapé), constrói a trajetória de Lima em suas ambivalências, com ênfase
questão racial.
Saindo do eixo Rio-São Paulo, é importante destacar o trabalho de Wlamyra
Albuquerque que se dedica a resgatar a trajetória de Teodoro Sampaio. Nascido em
1855, em Santo Amaro da Purificação, Recôncavo Baiano, Sampaio é levado, em 1865,
pelo padre Manoel Fernandes Lopes para o Rio de Janeiro, lugar onde toma contato
com as primeiras letras, formando-se engenheiro em 1878. Por ter opiniões bastante
firmes sobre a escravidão, a trajetória de Sampaio, como bem evidenciado por
Albuquerque, mostra-se importante para a percepção de como esse sujeito interpretou e
percebeu a questão racial no pós-abolição. 13
A escassez de fontes que abrissem perspectivas sobre as percepções pessoais
de Ribeiro acerca da questão racial se mostraram um desafio, que, em contrapartida,
levou-me a questionar o por quê do silenciamento. Como já apontado por Hebe Mattos,
os historiadores que se propõem a investigar a questão racial no século XIX deparam-se
com a dificuldade de encontrar registros sobre a cor dos indivíduos na documentação da
época14, o que não foi diferente no nosso caso. Desta forma, se as fontes raramente

13
ALBUQUERQUE, Wlamyra. Teodoro Sampaio e Rui Barbosa no tabuleiro da política: estratégias e
alianças de homens de cor (1880-1919). In: Revista Brasileira de História. São Paulo, v.35, nº 69, p.83-
99, 2015.
14
MATTOS, Hebe. Das Cores do Silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista (Brasil,
século XIX). 3ª ed. Ver. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2013.

17
tratam da cor, ou por muitas vezes silenciam, é fundamental buscar outros métodos,
fontes e aportes teóricos que possibilitem apreender a atmosfera racial dessa sociedade.
Para essa empreitada, utilizamos corpos documentais de caráter qualitativo que
foram consultados em diferentes arquivos. Perseguir o nome de Eduardo Gonçalves
Ribeiro na documentação primária foi a primeira forma de acompanhar seu itinerário.
Para tanto, foi importante a busca em jornais, na documentação da igreja em São Luís
(livros de batismo) e na documentação do Exército. Pesquisa que nos levou às
publicações da imprensa da época, à sua fé de ofício e ao seu registro de batismo,
pesquisados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, Biblioteca Pública do
Amazonas, Arquivo Histórico do Exército e Arquivo Público do Estado do Maranhão.
Ainda assim, os resultados não foram suficientes para traçar o meio social em
que Eduardo Ribeiro circulou. Isto porque as fontes sobre sua vida no Maranhão e no
Rio de Janeiro são escassas. Diante desta dificuldade, foi importante me cercar de outras
fontes a fim de entender os espaços de sociabilidade em que Eduardo Ribeiro esteve
inserido. Além dos jornais consultados na Hemeroteca Digital, revelaram-se
importantes as cartas de Aluísio de Azevedo e de José Bevilacqua, contemporâneos de
Eduardo Ribeiro, que pude consultar na Academia Brasileira de Letras e no Museu Casa
de Benjamin Constant. Além delas, destaco as fés de ofício e outros documentos
administrativos do Exército que pudemos examinar no Arquivo Histórico do Exército e
no Arquivo Nacional, na Série Guerra.
Como sabemos, fontes não falam por si. Então, para fazê-las responder as
minhas questões foi de total importância adotar procedimentos teórico-metodológicos
que dialogassem com os interesses analíticos aqui sugeridos.
Esta pesquisa se insere no campo das renovações ocorridas na História Política e
isso significou considerar a biografia de forma diferenciada. Em vez de centrar a
narrativa na linearidade da vida do indivíduo, a tendência passou a ser o
estabelecimento de suas relações com o contexto econômico, político, cultural e social.
Nessa perspectiva, o trabalho de Pierre Bourdieu e a sua crítica à “ilusão biográfica”
não podem ser deixados de lado. Para o sociólogo:
Produzir uma história de vida, tratar a vida como uma história, isto é, como o
relato coerente de uma sequência de acontecimentos com significado e
direção, talvez seja conformar-se com uma ilusão retórica, uma representação

18
comum da existência que toda uma tradição literária não deixou e não deixa
de reforçar. 15

Para não correr o risco de cair na “ilusão biográfica”, Bourdieu alerta no sentido
de que a compreensão de uma trajetória individual não pode ser feita sem considerar o
que ele chama de “superfície social”:

O que equivale a dizer que não podemos compreender uma trajetória [...]
sem que tenhamos previamente construído os estados sucessivos do campo
no qual ela se desenrolou e, logo, o conjunto das relações objetivas que
uniram o agente considerado - pelo menos em certo número de estados
pertinentes – ao conjunto dos outros agentes envolvidos no mesmo campo e
16
confrontados com o mesmo espaço dos possíveis.

Sendo assim, é de total importância que escritas memorialísticas, que por muitas
vezes caíram na “ilusão biográfica,” sejam revisitadas a fim de identificá-las como
construção histórica e social que dizem respeito a um “espaço de disputa da memória e
de materialização do passado como patrimônio e lugar de memória – principalmente no
processo de identificação e legitimação entre certos indivíduos e grupos”.17
Nobert Elias em importante biografia sobre Mozart mostra sua preocupação em
desvincular a figura do músico de um discurso que o fez ser considerado um gênio
muito à frente de seu tempo. Segundo ele, é muito comum que “cada figura conhecida
pela magnitude de sua realização” seja “definida, então, como o ponto alto de uma
época ou outra”. Na tentativa de resgatar um aspecto mais comum da pessoa de Mozart,
Elias nos alerta que ele “só emerge como um ser humano quando seus desejos são
considerados no contexto de seu tempo”. Assim, entender a dicotomia entre artista/ser
humano; gênio/ pessoa comum nos possibilita pensar a vida de Mozart como um estudo
de caso “de uma situação cuja peculiaridade muitas vezes nos escapa, já que estamos
acostumados a operar com conceitos estáticos”. 18
Ou seja, precisamos ser capazes de
“traçar um quadro claro das pressões sociais que agem sobre o indivíduo”. 19
Outro historiador preocupado com as discussões em torno da biografia foi
Giovanni Levi. Apesar de apontar os esforços e as preocupações dos historiadores em
pensar esse gênero, Levi aponta também algumas ambiguidades. Nos alerta que “[...]
uma vida não pode ser compreendida unicamente através de seus desvios ou

15
PIERRE, Bourdieu. A ilusão Biográfica. In: AMADO, Janaina; FERREIRA, Marieta de Moraes (Org.).
Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 1996, p. 185.
16
Idem. p. 190.
17
SILVA, Wilton C.L. Vida póstuma de um ilustre desconhecido: a construção biográfica de Clóvis
Beviláqua (1859-1944). In: Revista Maracanan, 8ª edição, janeiro/ dezembro 2012. p. 145.
18
ELIAS, Nobert. Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. p. 15.
19
Idem, p. 18.

19
singularidades, ao contrário, mostrando-se que cada desvio aparente em relação às
normas ocorre em um contexto histórico que o justifica.” 20
Ou seja, “Há uma relação
permanente e recíproca entre biografia e contexto: a mudança é precisamente a soma
infinita dessas inter-relações”. 21 Assim, para ele, a biografia torna-se importante para
verificar o grau de liberdade de que dispõem os agentes e os sistemas normativos que o
circundam, estes que “jamais estão isentos de contradições”.22
Inserindo-se nesse campo de potencialidades que as renovações nos estudos
biográficos propiciaram, o estudo da vida de Eduardo Ribeiro pode lançar luzes sobre o
período da Primeira República, no qual, sem dúvida, a política institucionalizada era
dominada por homens que se percebiam e eram percebidos como brancos. Isso
significava que, de modo geral, os negros, com o racismo cotidiano que enfrentavam,
viam-se impedidos de ascender a certos espaços, por serem estigmatizados como
“eugenicamente patológicos”.23 Entretanto a experiência de pessoas de cor não se
reduzia a isso. Embora percebidos dessa forma, isso não impossibilitou que negros
furassem essa bolha de privilégio branco e encontrassem brechas de inserção social.
Portanto, sua ascensão, “foi possível graças à possibilidade de aproveitar as fissuras e
brechas do sistema racial brasileiro”. 24
Ao analisar as três últimas décadas do século XIX, a historiadora Wlamyra
Albuquerque mostra como esse período foi marcado por um processo de racialização
das relações sociais, no qual:
[...] as formas legais de aquisição de liberdade possibilitaram a um expressivo
número de cativos no Brasil acumular pecúlio, driblar empecilho, fazer
análises e, por fim, ver-se livres do cativeiro antes de 1888. Ainda que muitos
outros tivessem recorrido a meios bem menos amistosos ou nem mesmo
experimentassem tal conquista, ao contrário do que se passava no sul dos
Estados Unidos, antes da abolição a maioria dos negros já havia cruzado a
fronteira entre a escravidão e liberdade. [...] A intensidade de trânsito nessa
fronteira foi uma das marcas das relações escravistas brasileiras. E, embora
essa liberdade estivesse numa zona de litígio, formou-se aqui uma
25
comunidade negra bastante heterogênea.

20
LEVI, Giovanni. Usos da Biografia. In: AMADO, Janaina; FERREIRA, Marieta de Moraes (Org.).
Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 1996. p. 176
21
Idem, p. 180
22
Idem p. 180.
23
DOMINGUES, Petronio. “Vai ficar tudo preto”: Monteiro Lopes e a cor na política. In: GOMES,
Flávio do Santos; DOMINGUES, Petronio. Da nitidez da invisibilidade: legados do pós-emancipação no
Brasil. – Belo Horizonte, MG: Fino Traço, 2013. p 155.
24
DOMINGUES, Petronio.. “Vai ficar tudo preto”: Monteiro Lopes e a cor na política. In: GOMES,
Flávio do Santos; DOMINGUES, Petronio. Da nitidez da invisibilidade: legados do pós-emancipação no
Brasil. – Belo Horizonte, MG: Fino Traço, 2013. p. 155
25
ALBUQUERQUE, Wlamyra. O jogo da dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil. São
Paulo. Companhia das Letras, 2009. p.36

20
Sobre isso, a afirmação de Lilia Schwarz pode ser elucidativa:
[...] a liberdade criava um mundo de indivíduos que iam driblando sua
história de modo a construir locais de inserção nessa sociedade até então
dominada por brancos. Libertos da escravidão, que lhes marcara a história
pregressa de maneira profunda, esses eram indivíduos que haviam sido
26
treinados para manejar sua cor.

Pensar esses indivíduos que alcançavam certo grau de mobilidade social é se


inserir numa discussão sobre a atuação de pessoas de cor durante a escravidão e após.
Como bem apontado pelas historiadoras Hebe Mattos e Ana Lugão Rios, os novos
estudos sobre o pós-emancipação no Brasil possibilitam a reavaliação do postulado de
que a situação do negro é fruto exclusivo da herança da escravidão. Segundo elas “o
ponto de partida foi a percepção de que a construção das identidades raciais negras nas
Américas não se fez como contrapartida direta da violência intrínseca à ordem
escravista”. 27 Isso porque, essas novas pesquisas passaram a:
[...] reconhecer que o processo de destruição da escravidão moderna esteve
visceralmente imbricado com o processo de definição e extensão dos direitos
de cidadania nos novos países que surgiram das antigas colônias escravistas,
E que, por sua vez, a definição e o alcance desses direitos estiveram
diretamente relacionados com uma contínua produção social de identidades,
hierarquias e categorias raciais. Nesse sentido, a historicidade das identidades
e classificações raciais tornou-se questão central para o entendimento dos
processos de emancipação escrava e das formas como as populações
afrodescendentes e as sociedades pós-emacipação, lidaram culturalmente
com os significados da memória do cativeiro. 28

Isso significa dizer que precisamos conferir o aspecto diacrônico ao conceito de


raça, como também entender os contextos e realidades históricas em que ele foi
elaborado. Diante dessa perspectiva, muita reflexão precisa ser feita já que a memória
de Eduardo Ribeiro foi construída em um claro processo de branqueamento, como
atestam os museus da cidade de Manaus. Diante desse processo, pode-se dizer que seria
mais oportuno construir a imagem de um dos políticos mais conhecidos na cidade como
se fora uma figura com a pele mais clara? Será que no contexto amazonense a
racialização vista na corte ou em outros contextos internacionais pode ser observada?

26
SCHWARCZ, Lilia Mortiz. Lima Barreto: triste visionário. 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras,
2017.
27
RIOS, Anala Lugão; MATTOS, Hebe. Memórias do cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-
abolição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. P.28
28
Idem. p. 29.

21
É certo destacar que Eduardo Ribeiro, ao que nos parece, não adotou um
discurso de identidade racial. Este fator não desqualifica, deslegitima ou torna inviável o
estudo deste personagem, cuja cor da pele representava um dos maiores obstáculos para
a ascensão social no final do século XIX. Diante disso, essa pesquisa busca demonstrar
que a educação e a entrada no Exército funcionaram como uma estratégia de mobilidade
social e distinção para homens de cor em fins do século XIX.
No primeiro capítulo, intitulado Numa casinha mais que modesta, na risonha e
poética São Luís, adentramos o universo social e cultural do Maranhão de meados do
século XIX a fim de acompanhar o meio social em que Eduardo Ribeiro nasceu,
localizando seus familiares, o bairro em que morou e seu envolvimento no jornal O
Pensador. Essas vivências abriram espaços para que vislumbrasse a corte como um
locus possível e dinâmico para o desenvolvimento intelectual e político que o Maranhão
não oferecia.
O segundo capítulo, Uma ilha de instrução em meio a um mar de analfabetos:
a Escola Militar da Praia Vermelha, acompanha a inserção de Ribeiro no Exército,
mais especificamente seus estudos na Escola Militar, até se formar engenheiro.
Pretendemos identificar o lugar que a Escola ocupava numa perspectiva intelectual e
profissional naquele contexto, os tipos de alunos que a frequentavam e como era o
ingresso desses indivíduos. Além disso, discutiremos como o discurso meritocrático
fora absorvido pelos alunos e até que ponto funcionou para a ascensão de Ribeiro dentro
da instituição.
E, finalmente, o terceiro capítulo, intitulado As cores dos Bacharéis Fardados,
investiga, através de uma amostragem de 13 fés de ofício, como as classificações de cor
eram utilizadas pelo Exército para marcar a origem social desses alunos. O designativo
“pardo”, usado para classificar Eduardo Ribeiro, tinha um caráter ambíguo. Ao mesmo
tempo em que marcava sua origem social menos abastada (em comparação com outros
alunos designados como brancos), o termo também o diferenciava de outros homens de
cor, que não vivenciaram uma experiência acadêmica como a dele.

22
Capítulo I – Numa casinha mais que modesta, na risonha e
poética São Luís.

Se comparasse uma a uma as comarcas deste velho país com os tenros


Estados do Brasil, a vantagem seria toda nossa. E particularmente de Vigo,
dir-te-ei que isto é uma espécie de Maranhão, mas sem a índole hospitaleira
de nossa terra, sem o oriental asseio dos nossos costumes entre ricos e
pobres, sem aquela doce ingenuidade das famílias do norte do Brasil e aquela
proverbial virtude das senhoras de toda idade e condição, e, principalmente,
sem aquela vivacidade satírica dos maranhenses e aquela dominadora
inteligência de nossos patrícios, que por toda parte se espalha e por toda a
29
parte domina.

As memórias acima reproduzidas são do grande escritor maranhense Aluísio de


Azevedo. As lembranças carinhosas que guardou e narrou, de sua cidade natal, São
Luís, nos levam ao nosso personagem, Eduardo Gonçalves Ribeiro, protagonista deste
estudo, que, também maranhense, era amigo de Azevedo, com quem compartilhou
algumas dessas vivências.
As cartas de Aluísio e, principalmente, seus livros, são ferramentas importantes
para se entender a sociedade brasileira da virada do século XIX para o XX, dada a
preocupação que teve em observar e expressar o seu cotidiano. Retomando novamente o
livro O Mulato, com o qual iniciei a introdução dessa dissertação, destaco que, diferente
do que se possa pensar através do título, não é uma narrativa exclusiva da vida de
Raimundo, seu personagem principal. É mais do que isso. É um romance que se refere a
toda a sociedade maranhense de então. A construção do cenário feita por Azevedo a
partir da descrição do calor entorpecedor, dos casebres, praças e ruas que compunham o
espaço físico da cidade de São Luís; ou dos sons variados que criavam uma sinfonia em
meio aos latidos dos cachorros, o barulho das redes, o anúncio dos pescadores que
chegavam do mar e das peixeiras, quase todas negras, que circulavam pelas ruas do
centro da cidade com o tabuleiro na cabeça, mostra-se como um portal da sociedade
maranhense de fins do século XIX.
A atmosfera intelectual e social permitiu que Aluísio de Azevedo levantasse
questões sobre o papel do mulato na sociedade brasileira no contexto final do sistema
escravista. A formação de um núcleo intelectual em São Luís introduziu novos hábitos e
práticas influenciados pelas questões concernentes ao positivismo e a sua lei dos três
estados, proposta por Auguste Comte. E ainda, tanto os novos desdobramentos

29
AZEVEDO, Aluísio. [Carta] 24 de junho de 1896, Vigo [para] FREIRE, Pedro. In: Academia Brasileira
de Letras, Arquivo Aluísio de Azevedo, Série Correspondência, Dossiê: Correspondência autografa.

23
propiciados pela decadência da escravidão e pela intensificação dos debates sobre o
abolicionismo, que aconteciam em várias regiões das Américas, trazendo à tona
discussões em torno de uma nova forma de pensar a economia, como as teorias raciais
hegemônicas na Europa já em meados do XIX, que começavam a entrar tardiamente em
solo brasileiro, permitiam que um núcleo intelectual se formasse no Brasil e, mais
especificamente, em São Luís do Maranhão.
A relação entre negros, brancos e mulatos é o ponto ao qual se dedica Azevedo
e que quero enfatizar, através do estudo da trajetória de Eduardo Ribeiro. Os fatos
narrados por Aluísio se desenvolvem num período de quase 50 anos, entre 1830 e 1880.
Foi também, neste intervalo de tempo, que Ribeiro nasceu e viveu sua juventude em
São Luís. Sem querer traçar comparações entre Raimundo e Eduardo, o certo é que a
história contada por Aluísio de Azevedo refere-se à atmosfera racista do oitocentos,
atmosfera esta que procuraremos também entender, mas a partir da vida de Eduardo
Ribeiro e de teorias e metodologias próprias da História.
Antes de focar nas últimas décadas do século XIX, é importante que voltemos
no tempo. Até o século XVIII as capitanias do norte do Brasil eram consideradas
colônias periféricas, entre elas o Maranhão. Só a partir das últimas décadas do século
XVIII, com a transformação da sua economia numa economia de plantation, como nas
capitanias do nordeste e sudeste, é que o Maranhão começou a se inserir no sistema
agroexportador, principalmente a partir da criação da Companhia Geral de Comércio do
Grão-Pará e Maranhão, em 1755. Além disso, a guerra de independência das colônias
norte-americanas, que ocasionou a temporária desarticulação de sua economia,
facilitaria a inserção da província maranhense no mercado agroexportador.
Com essa mudança no mercado exportador de produtos tropicais, o Maranhão
começou a dedicar-se à produção de arroz e algodão, para além dos dois fatores já
mencionados acima, devido ao enfraquecimento na produção de cana-de-açúcar e ao
solo fértil para aqueles tipos de culturas. A partir disso, o Maranhão passou a “integrar o
comércio transatlântico de escravos” transformando-se “numa província negra, tanto
que, em 1822, cerca de 53,3% da população era composta por escravos”. 30
Entretanto, apesar da prosperidade econômica proporcionada pela grande
produção do arroz e algodão nesse período, a economia era bastante suscetível às

30
JACINTO, Cristiane Pinheiro Santos. Fazendeiros, negociantes e escravos: dinâmica e funcionamento
do tráfico interprovincial de escravos no Maranhão (1846-1885). In: GALVES, Marcelo Cheche;
COSTA, Yuri (orgs). O Maranhão oitocentista. – Imperatriz: Ética/ São Luís : Editora UEMAA, 2009. p.
179.

24
oscilações do mercado internacional. A produção norte-americana logo conseguiu se
reestruturar causando grande interferência nas exportações da província maranhense.
Esse decréscimo resultou em uma crise econômica31 e na diminuição da importação de
trabalhadores africanos escravizados a partir da década de 1830. 32
A partir desse contexto, a economia maranhense precisou “redirecionar suas
atividades para a produção de açúcar”, que vivia um bom momento para a exportação
no mercado internacional, devido à abolição da escravidão nas Antilhas inglesas, sua
concorrente nessa produção. Assim, “incentivados pelo governo, os fazendeiros se
encaminharam para essa atividade e, por volta de 1870, já existiam cerca de 500
engenhos no Maranhão”. 33
O redirecionamento para a produção de cana-de-açúcar não foi suficiente para
reerguer de forma contundente a economia maranhense. Vislumbrando recuperar seu
capital, o norte agrário do Maranhão passou a vender escravos para as províncias do sul
do Brasil, que viviam o boom da economia cafeeira. A composição demográfica do
Maranhão alterou-se significativamente. Entre 1798-1821 a população maranhense
havia dobrado, chegando ao número de 152.000 habitantes em 1821. O crescimento é
justificado pelo intenso tráfico de escravos e pelo início da imigração nordestina na
região. Nesse período o número de escravos chegou à marca de 84.534 indivíduos, o
que correspondia a 55% da população. Seguindo este crescimento, a população livre de
cor correspondia a 28% do total e o segmento de pessoas brancas estagnou, equivalendo
a 15,7% da população. 34
Quando avançamos ao longo do século XIX, observamos que esse crescimento
da população livre se intensifica e o número de escravizados reduz drasticamente. Entre
1838-1861 houve um crescimento apenas moderado da população, isso se deve, por um

31
É importante destacar que as análises sobre o momento de crise vivenciado pelo Maranhão na última
quadra do século XIX, têm raízes na chamada ideologia da decadência, que consistia na interpretação da
decadência da lavoura a partir de um discurso elitista que acreditava na paralisia da economia da
província do Maranhão. Sobre isso Ver: ALMEIDA, Alfredo Wagner. A ideologia da decadência: leitura
antropológica a uma história da agricultura no Maranhão. Rio de Janeiro: Ed. casa 8/ FUA, 2008; FARIA,
Regina Helena Martins de. Mundos do Trabalho no Maranhão oitocentista: os descaminhos da liberdade.
São Luís: Edufma, 2012.
32
JACINTO, Cristiane Pinheiro Santos. Fazendeiros, negociantes e escravos: dinâmica e funcionamento
do tráfico interprovincial de escravos no Maranhão (1846-1885). In: GALVES, Marcelo Cheche;
COSTA, Yuri (orgs). O Maranhão oitocentista. Imperatriz: Ética/ São Luís : Editora UEMAA, 2009. p.
178.
33
Idem, p, 179.
34
ASSUNÇÃO, Matthias Röhrig. De caboclos a bem-te-vis: Formação do campesinato numa sociedade
escravista: Maranhão 1800-1850. São Paulo: Annablume, 2015. p. 61.

25
lado, à guerra civil da Balaiada, 35 ocorrida entre 1838-1841 e, por outro, à proibição do
tráfico transatlântico de escravos, em 1850. Em 1861 havia na província do Maranhão
83.658 escravos que representavam 27% da população.36 Quando da chegada da década
de 1870 esse número se reduziria ainda mais, chegando a 20,9%. Apesar dessa drástica
baixa no número de pessoas escravizadas, segundo “o recenseamento geral do Império
de 1872, o Maranhão configurava como o terceiro estado com maior número de
escravos, ficando atrás de Rio de Janeiro e Espírito Santo”.37
Nesses termos, podemos dizer que a província do Maranhão e, mais
especificamente a cidade de São Luís, “possuía uma população de cor, majoritariamente
livre, que era quase o dobro da população branca”. 38 Mesmo assim, o sistema escravista
ainda era bastante presente nessa sociedade. Esses negros escravizados concentravam-se
durante o século XIX nas regiões de “São Luís, Alcântara, Caxias, nos vales dos rios
Itapecuru e Mearim e no litoral e baixadas ocidentais”.39 Os escravos eram usados
principalmente na produção de arroz, algodão e participavam ainda na criação de gado,
produção de farinha de mandioca, entre outros.
Falando mais especificamente da escravidão urbana, mesmo que tenha tido
seus contornos em cidades como Alcântara e Caxias, é importante destacar sua
expressão na cidade de São Luís, visto ter sido um importante entreposto comercial.
Para além das ocupações domésticas, esses escravos ocupavam-se em diversas
atividades nas ruas, havendo assim, escravos de ganho que, por não exercerem funções
específicas, circulavam mais livremente pelo perímetro urbano, a fim de realizar
atividades que trouxessem rendimentos para seu senhor.
A classe trabalhadora do Maranhão ainda era composta por trabalhadores
livres, nacionais e imigrantes. Os primeiros viviam da pequena lavoura, como também
da caça e pesca. Além disso, muitos deles mantinham uma relação de compadrio e

35
A Balaiada, também chamada de Guerra dos Bem-te-vis, foi uma guerra civil ocorrida no Maranhão
entre 1838-1841. Ela se deu a partir da insurreição de pequenos fazendeiros de gado e homens livres
pobres do campo contra a elite conservadora. Matthias Assunção defende a tese de que a economia de
plantation caracterizou-se no Maranhão pelo desenvolvimento de uma economia camponesa importante,
diferenciada e autônoma. Essa dinâmica acabou criando um antagonismo entre economia camponesa e
economia de plantation, criando pré-condição para a eclosão da guerra. Ver: ASSUNÇÃO, Matthias
Röhrig. De caboclos a bem-te-vis: Formação do campesinato numa sociedade escravista: Maranhão 1800-
1850. São Paulo: Annablume, 2015.
36
ASSUNÇÃO, Matthias Röhrig. Op. Cit. p. 62.
37
JESUS, Mateus Gatto de. Op. Cit. p.62
38
Idem. p. 67
39
COSTA, Yuri Michael Pereira. Celso Magalhães e a justiça infame: crime, escravidão e poder no
Brasil Império. Tese de Doutorado em História – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo,
2017. p.

26
clientelismo com grandes fazendeiros. Isso significa considerar que boa parte da
população livre naquele momento vivia em condições deploráveis. A imprensa da época
denunciava “a existência, na entrada da cidade, de cortiços superpovoados, abafados e
escuros onde refugiavam-se os escravos foragidos e onde a febre amarela, a varíola, a
tuberculose e o beribéri proliferavam”.40 A situação dessa população livre, em sua
maioria negra, complicava-se ainda mais quando a discriminação estendia-se às suas
práticas culturais que eram consideradas superstições e manifestações obscenas,
primitivas e grotescas
Quanto aos imigrantes, a partir da segunda metade do século XIX, houve um
maior incentivo à migração de colonos estrangeiros. Isso se deu através de leis que se
preocuparam com a instalação de colônias para esses trabalhadores estabelecidas em
lugares como Santa Isabel, Santa Teresa, Arapapaí, Maracassumé, entre outros. É
importante destacar também a entrada de cearenses na província em decorrência,
principalmente, da seca no Ceará no final da década de 1877.41
Quanto à classe dominante, composta por ricos comerciantes, donos de
engenhos de açúcar e fazendeiros de algodão de forma geral, tinha seu poder oriundo da
exportação da agricultura mercantil. Os ricos casarões, facilmente vistos nas cidades de
São Luís e Alcântara, reafirmavam seu prestígio social, assim como a grande quantidade
de escravos, que, além de força de trabalho, funcionavam como elemento de distinção
social. Além disso, muitos desses indivíduos compunham a elite política da época. Essa
rede política sustentada por laços de amizade, matrimoniais e pelos filhos doutores que
voltavam da Europa formados em Direito e Medicina, ajudava a sustentar a distinção
social e a opressão em relação aos demais segmentos, sobretudo os trabalhadores. 42
Como importante espaço de interação econômica e social, a cidade de São Luís
era um território “sobre o qual a capital da província conseguia projetar sua influência
de maneira mais intensa, já que, como sede do poder político e da Igreja Católica, desde

40
MÉRIAN, Jean-Yves. Aluísio Azevedo Vida e Obra (1857-1913). Espaço e Tempo, Brasília, 1988. p.
64
41
COSTA, Yuri Michael Pereira. Celso Magalhães e a justiça infame: crime, escravidão e poder no
Brasil Império. Tese de Doutorado em História – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo,
2017. p.97
42
PEREIRA, Josenildo de Jesus. As representações da escravidão na imprensa jornalística do Maranhão
na década de 1880. Tese de Doutorado em História Social. Universidade de São Paulo. São Paulo. 2006p.
33-34.

27
os tempos coloniais, a cidade concentrava o comércio e a burocracia regional no
[contexto] do império”. 43
O perímetro urbano da cidade de São Luís, durante a segunda metade do século
XIX, era constituído por três freguesias: a Freguesia de Nossa Senhora da Vitória, a
Freguesia de Nossa Senhora da Conceição e a Freguesia de São João Batista (ainda em
expansão no início da década de 1870). O recenseamento geral do Império de 1872, nos
possibilita observar a composição racial dessas freguesias em São Luís. Importante
ferramenta para entendermos o ambiente em que nosso personagem, Eduardo Ribeiro
nasceu.
Este foi o primeiro censo geral do Império com a materialização explícita da
categoria raça. Desde as primeiras tentativas de classificar a população, não havia uma
estipulação de obrigatoriedade de se incluir a cor na identificação populacional. Na
maioria das vezes, antes dos censos, o que acontecia eram divisões iniciais que
classificavam as pessoas entre brancos, pretos, pardos e índios, havendo nelas a
44
intrínseca relação entre cor e condição social (livre ou escravo). Aos índios, que antes
constavam em várias classificações populacionais, foi incorporada a classificação de
“caboclos”, o que indica a “domesticação” desses indivíduos, seja por guerra ou
aldeamentos. Dessa forma, o censo de 1872 indica uma mudança na forma de conceber
a população definida agora pelo conceito de raça, “o que não significava,
evidentemente, deixar de lado a cor, mas ancorá-la em suporte pretensamente mais
rígido”.45

Tabela 1: População livre do município de São Luís considerada em relação a sexo e raça.
(Fonte: Recenseamento Geral do Império do Brasil em 1872).

Município Freguesias Sexos Raças


Mulheres
Homens

Total

Homens Mulheres

43
COSTA, Yuri Michael Pereira. Celso Magalhães e a justiça infame: crime, escravidão e poder no
Brasil Império. Tese de Doutorado em História – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo,
2017. p. 89
44
Sobre isso ver: LIMA, Ivana Stolze. Cores, marcas e falas: sentidos da mestiçagem no Império do
Brasil. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
45
LIMA, Ivana Stolze. Cores, marcas e falas: sentidos da mestiçagem no Império do Brasil. Rio de
Janeiro: Arquivo Nacional, 2003. p. 121.

28
Caboclos

Caboclas
Brancos

Brancas
Pardos

Pardas
Pretos

Pretas
N.S da Victoria 3175 3225 6400 1897 950 282 46 1900 963 299 63

N. S da 3332 4296 7628 1651 1163 502 16 1783 1521 952 40


Conceição

São Luís

São João 3705 3722 7427 1787 1505 376 37 1723 1324 639 36
Baptista

S. Joaquim do 943 1109 2052 349 423 140 31 420 496 162 31
Bacanga

S. João Baptista 577 494 1071 222 276 65 14 176 250 49 19


dos Vinhaes

Tabela 2: População escrava do município de São Luís considerada em relação a sexo e


raça. (Fonte: Recenseamento Geral do Império do Brasil de 1872)

Município Freguesias Sexos Raças

Dos Homens Das Mulheres


Mulheres
Homens

Total

Pardos Pretos Pardas Pretas

337 972

N.S da 1314 1309 2623 389 925


Victoria

N. S da 854 1016 1870 291 563 347 669


Conceição
São Luís

29
São João 777 1105 1882 271 506 425 680
Baptista

S. Joaquim do 299 202 501 120 179 69 133


Bacanga

S. João 77 78 150 24 53 24 49
Baptista dos
Vinhaes

Era na Freguesia de Nossa Senhora da Vitória que se localizava a maior parte


dos prédios públicos e a principal área comercial da cidade. De acordo com o
recenseamento, a maioria da população classificada como branca habitava a Freguesia
de Nossa Senhora da Vitória, assim como a população preta, majoritariamente composta
por escravos. Em contrapartida a população parda e preta livre habitava, em sua
maioria, a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, como podemos observar nos
quadros acima.
Não temos informações concretas de qual seria o bairro em que nasceu
Eduardo Ribeiro, mas uma lista publicada no jornal Diario do Maranhão, de 8 de junho
de 1880, nos dá acesso a uma “lista geral da qualificação de votantes da parochia de S.
João Baptista” da capital São Luís. Nela, Eduardo Gonçalves Ribeiro aparece listado no
número 897 do 17º quarteirão e, aos 26 anos, residente à rua de São Pantaleão, sem
indicação do número da casa.46 Ambas, a paróquia e a rua, localizavam-se na região que
compreendiam a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição. Dos 41 homens listados no
17º quarteirão, 21 deles tiveram o nome da mãe indicado, ou tinham a “filiação
ignorada,” e 30 sabiam ler. As profissões eram diversas e iam desde advogado,
passando por funcionário público, até barbeiros, sapateiros, pescadores, entre outras.
A ocupação de Eduardo Ribeiro indicada na lista é a de “agência”. Sua
ocupação é difícil de classificar. Segundo Cláudia Mauch, no século XIX “viver de
agência’ significava viver de seu próprio negócio, de seus próprios recursos” 47. Ivan de
Andrade Vellasco ao analisar uma documentação diversificada da Comarca de Rio das

46
Jornal Diário do Maranhão, 8 de junho de 1880, São Luís – MA. Ano XI, número 2070.
47
MAUCH, Cláudia. Contando policiais: os registros de pessoal como fonte. História Unisinos. Vol.16,
nº3 – setembro/dezembro de 2012. p. 417.

30
Mortes, em Minas Gerais, a fim de reconstruir uma estrutura ocupacional, classificou
“agenciadores” e as suas variantes, “vive de agência” ou “agenciador,” entre os livres
pobres48. Esses dados nos parecem indicar o perfil socioeconômico dessa região da
cidade de São Luís. A partir da profissão e da renda, o fato de a maioria saber ler e não
ter o registro do nome do pai, indica que esses homens faziam parte das camadas
médias. No caso de Eduardo, de acordo com a ocupação e em comparação com a dos
outros indivíduos, podemos supor que estivesse mais próximo de uma classe pobre. De
todo modo, podemos inferir que, pelo menos por volta dos 26 anos, Eduardo Ribeiro
não compunha os estratos mais baixos da estratificação social maranhense.
Ainda analisando a lista, num primeiro momento, ela parece nos indicar poucas
coisas, como a condição de ser solteiro, saber ler e ter uma mãe chamada Florinda
Maria da Conceição. Mas, há um detalhe interessante e que não podemos deixar passar
despercebido.
Na literatura sobre Eduardo Ribeiro, convencionou-se dizer que seu
nascimento dera-se em 18 de setembro de 1862. Mas, diante de uma pesquisa
documental mais pormenorizada e a descoberta de outras fontes, percebemos que não há
um consenso quanto ao ano de seu nascimento. A dificuldade de precisarmos o ano de
seu nascimento, se dá, especificamente, pelo conflito de informações que as fontes
disponíveis nos apresentam. Vejamos.
Segundo a lista publicada no jornal referenciado acima, Ribeiro faria 27 anos
em setembro daquele ano, o de 1880. Ou seja, diante dessa lista publicada no jornal,
deparamo-nos com a indicação de que seu nascimento acontecera no ano de 1853. Em
outra fonte a que tivemos acesso - seu auto de batismo - verificamos que seu nascimento
aconteceu em 1855, ou seja, datas anteriores ao ano que a história, dita oficial, atribui ao
nascimento de Eduardo, que é o ano de 1862.
Sobre o auto de batismo algumas observações devem ser pontuadas. O batismo
ocorreu em 1863 na Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Considerando-se que
nascera em 1853, isso significa dizer que Ribeiro foi batizado aos 8 anos de idade.
Outro dado interessante é uma espécie de “atualização” feita no seu auto de batismo, em
21 de abril de 1876. Essa espécie de nota, aposta a esse documento, parece ser uma
justificação de batismo. Essa justificação tinha como finalidade confirmar as
informações quanto ao ano de seu nascimento? Infelizmente, não é possível responder.

48
VELLASCO, Ivan de Andrade. O labirinto das ocupações: uma proposta de reconstrução da estrutura
social a partir de dados ocupacionais. Varia História, nº 32, julho, 2004. p. 204.

31
A busca em vários processos de justificação existentes no Arquivo Público do Estado do
Maranhão não surtiu efeito, não sendo possível localizar o processo enviado à Câmara
Episcopal, o que ainda nos deixa sem maiores informações sobre os dados de
nascimento e o motivo da requisição de uma justificação.
Mas voltando ao ano de seu nascimento, há um terceiro documento, muito
utilizado nessa pesquisa: sua fé de ofício. Nela, o ano indicado para seu nascimento era
o de 1861.49 Diante desses dados, temos quatro diferentes anos possíveis para o seu
nascimento: 1853, 1855, 1861 e 1862, este último, é citado como ano de seu nascimento
em biografia divulgada no Diario Official, do Estado do Amazonas, em 18 de setembro
de 1895.
Se não há possibilidade de afirmarmos com certeza o ano de nascimento de
Ribeiro, o que nos resta é questionar o motivo de tantos desencontros quanto a essa
informação. Podemos supor que as diferenças apontadas em nossas fontes, quanto ao
ano de seu nascimento, podem nos indicar uma estratégia por parte de Eduardo Ribeiro
para facilitar seu ingresso, em 1881, na Escola Militar da Praia Vermelha, que exigia
50
dos candidatos a idade superior a 16 anos e inferior a 25, quando da matrícula.
As fontes até aqui analisadas ainda nos geram outro questionamento: a origem
de Eduardo Ribeiro. Na pesquisa documental feita até o momento não encontramos
fontes primárias que permitissem dizer se Ribeiro nasceu livre ou escravo, ou mesmo se
sua mãe viveu a experiência do cativeiro. Mas, algumas questões podem ser levantadas
diante das fontes encontradas e com o aporte metodológico da história social.

“Sendo pobre e obscuro o seu berço”51, muito pouco se sabe sobre a infância de
Ribeiro. A biografia divulgada no Diário Official de 1895 diz ter ele nascido “em uma
casinha de apparencia mais que modesta”.52 Na esteira dessa afirmação, uma literatura
amazonense53 que se dedicou a escrever sobre sua vida diz que talvez fosse descendente
de escravos, mas sem nenhuma indicação de fonte primária sobre isso. No entanto, sua

49
Fé de Ofício: pasta nº III-6-36-SAP-AHEx.
50
Interessante apontar que Benjamin Constant alterou seu ano de nascimento para 1833 (ele havia
nascido em 1836) para que pudesse requerer a admissão na Escola Militar do Rio de Janeiro. Isso parece
ter sido uma prática comum dos estudos que pleiteavam a entrada na instituição. (LEMOS, Renato. 1999,
p. 28)
51
Diário Official do Estado do Amazonas, 18 de setembro de 1895.
52
Diário Official do Estado do Amazonas, 18 de setembro de 1895.
53
Ver: MONTEIRO, Mário Ypiranga. Negritude e Modernidade. Manaus: Governo do Estado do
Amazonas. 1990; REIS, Artur Cezar Ferreira. História do Amazonas, 1989; BITTENCOURT, Agnello.
Dicionário Amazonense de Biografias: vultos do passado. Rio de Janeio. Conquista, 1973; BRAGA,
Robério. Eduardo Ribeiro: Vida e Obra. Manaus: Academia Amazonense de Letras, 2011.

32
mãe, Florinda Maria da Conceição, é citada em vários documentos aqui analisados,
desde a fé de ofício de Eduardo Ribeiro até as disputas pela sua herança logo depois da
morte do filho,54 embora não tenhamos qualquer informação sobre sua ascendência ou
status conjugal. Segundo sua certidão de óbito, ela faleceu em 1910, aos 76 anos, isso
significa que tenha nascido por volta de 1834. Eyder Paes, em coluna no jornal
Pequeno, de 19 de julho de 1990, diz que era uma mulher de cor, que “vendia bolos,
doces e peixe frito na rua de S. Pantaleão”55; mas, novamente, não há indicação do lugar
onde teria obtido essa informação.

Na busca por mais informações no Arquivo Público do Estado do Maranhão e


no Arquivo do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão, nada obtivemos. A procura
em autos de batismo de várias freguesias, em testamentos, inventários e cartas de
alforria (muito poucas), com o objetivo de saber sobre seu possível passado escravo,
não resultou em informação concreta alguma. Apesar dessa falta de registros,
descobrimos que Florinda Maria da Conceição foi sepultada na Igreja de Santo Antônio,
em 10 de setembro de 191056. Num primeiro momento, essa informação parece pouco
importante, mas é interessante destacar que esse tipo de prática de sepultamento em
igrejas já não era muito recorrente no início do século XX, se justificando, no caso de
Florinda, por conta do meio social maranhense mais abastado em que circulou,
provavelmente, a partir da entrada do filho no governo do Amazonas.

A irmã de Eduardo Ribeiro, Cezarina Hercilia Ribeiro, parece, através dos


jornais da época, também ter feito parte de um meio social mais abastado na cidade de
São Luís, não só por haver nota de felicitações por ocasião de seu aniversário (02 de
janeiro), como por ter seu nome associado à Irmandade do Senhor Bom Jesus da
Colunna, sugerindo que integrasse essa fraternidade. 57 Ao que tudo indica, teve uma
vida religiosa bastante ativa, contribuindo, seja para a irmandade, seja para a igreja de
58
Nossa Senhora da Conceição, à época, localizada à rua Grande, no centro da cidade.

54
Ainda sobre sua família os jornais da época nos fazem saber de uma irmã de nome Cezarina Hercilia
Ribeiro (citada também em seu texto intitulado “Contra Calumnia”) e de um filho, Eduardo da Motta
Ribeiro, filho dele com Arsenia de Souza Motta. A criança aparece citada em várias notas em jornais da
cidade pois a mãe de Ribeiro contestava a escritura de perfilhação assinada por ele.
55
Jornal Pequeno, 19 de julho de 1990, São Luís – Maranhão, p. 3.
56
Em sua certidão de óbito, adquirida no Cartório da 1ª Zona de Registro Civil, em São Luís –MA,
Florinda teria falecido aos 76 anos de idade, aparecendo apenas Cezarina na filiação e, como causa da
morte, arteriosclerose.
57
Jornal Pacotilha, 07 de março de 1912, São Luís – MA.
58
Jornal Pacotilha, 21 de junho de 1904, São Luís – MA.

33
Cezarina Ribeiro não parece ter constituído família, pois em seu registro de óbito é
designada como solteira. 59

O pouco que conseguimos levantar sobre as trajetórias da mãe e da irmã de


Eduardo Ribeiro revela a mudança de posição na hierarquia social dessas pessoas.
Mesmo que essa ascensão social não se desse em termos financeiros, já que segundo
Eduardo Ribeiro sua mãe tinha apenas uma casa à rua de Sant’Anna comprada por ele
em 1892 e sua irmã uma pequena casa na rua de São João60, fica claro que a inserção em
outros círculos de sociabilidade configurava uma forma de mobilidade social, muito
provavelmente a partir do status de governador que o filho e irmão havia alcançado.

Em nenhum momento há referência ao pai de Ribeiro. 61 No registro de


batizados da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da capital do Maranhão de
1863, há apenas o registro da mãe, sem menção à paternidade, o que configurava à
época um fato de real importância. Sendo Eduardo Ribeiro filho de pai desconhecido,
muitos jornais oposicionistas do contexto amazonense utilizavam-se desse fato para
sugerir que fosse filho bastardo e assim estigmatizá-lo pelo preconceito contra uniões
não oficiais e para insinuar que Eduardo Ribeiro tivesse vergonha de sua origem. Como
nos mostra Otoni Mesquita, ao analisar o artigo “Represálias”, publicado no jornal
Amazonas, de 23 de maio de 1896:
O artigo intitulado represálias já sugere o tom do conteúdo exposto. O
redator oposicionista invade a vida pessoal do governador, sugerindo
que ele seria filho de sapateiro. O oposicionista insinuava que o
governador ocultava este fato por algum grave motivo de honestidade,
pois, segundo ele, isso seria motivo de orgulho, [...].”62

Mário Ypiranga Monteiro trata sua ascendência como um fato ainda


misterioso, pois “parece que ninguém quer falar ou ousa transpor os limites da
confidência. Daí supor-se inevitavelmente que sua origem fosse do tipo que humilhava
o grande Machado de Assis, filho de lavadeira e de mata-cachorro”.63 Como não temos

59
Inventário de Códices do Arquivo da Arquidiocese do Maranhão. Livro de Registro de Óbitos da
Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Capital. Livro nº 47 de 1915 – 1921. Arquivo Público do
Estado do Maranhão.
60
RIBEIRO, Eduardo Gonçalves. Contra a Calumnia. Typografia do Jornal do Comercio. Rio de Janeiro,
1897.
61
Mário Ypiranga Monteio em Negritude e Modernidade (1990) diz que corria um boato em Manaus de
que o pai de Eduardo Ribeiro era mentalmente desequilibrado. (p. 58)
62
MESQUITA, Otoni. La Belle Vitrine: o mito do progresso na refundação da cidade de Manaus. Tese de
Doutorado em História – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2005. p. 280.
63
MONTEIRO, Mário Ypiranga. Negritude e Modernidade. Governo do Estado do Amazonas, Manaus,
1990. p. 89.

34
informações concretas sobre quem foi seu pai, vamos, por hora, nos deter na discussão
sobre sua cor e origem. Embora não tenhamos condições de afirmar sua origem escrava,
ao analisarmos mais detidamente o registo de batismo, aqui já comentado, podemos
fazer algumas alusões ao que o documento não apresenta de forma clara.
O registro de batismo diz o seguinte:
Aos vinte e quatro de dezembro de mil oitocentos sessenta e três nesta
Matriz de Nossa Senhora da Conceição da Capital do Maranhão
baptizei solenemente a Eduardo nascido em dezoito de setembro de
mil oitocentos cincoenta e cinco filha, digo filho de Florinda Maria da
Conceição, sendo padrinhos Joaquim José de Souza Guimarães, por
seo procurador João Dias de Santa Anna e Roza Maria da Conceição.
Para constar fiz este assento que assigno. 64

O assento assinado pelo vigário Pedro Nicolao Ribeiro indica, primeiro, a


ausência de pai. Isso nos faz crer, que o indivíduo é um filho bastardo; em segundo
lugar, a criança batizada, Eduardo, não possui sobrenome, o que pode nos indicar que
tenha ascendência escrava; o terceiro ponto, e que ajuda a confirmar as outras duas
considerações, é que o sobrenome de Eduardo Gonçalves Ribeiro não é compatível com
o da mãe. Infelizmente, boa parte dos registros de batismos, nos livros que consultamos,
não possuem referência à cor da criança ou da mãe e nem à condição de livre ou
escravo, podendo indicar que a ausência dessas informações seguisse uma composição
fixa de informações para todas as crianças batizadas, independente de sua cor ou
condição sociojurídica. Isso se deve, principalmente, porque a partir da segunda metade
do século XIX, cria-se, o que Hebe Mattos chama de “ausência de cor” nesse tipo de
documentação65.
Ao analisar registros de batismo e de casamentos no Maranhão oitocentista, a
fim de identificar a existência de famílias negras e a presença de crianças oriundas
dessas famílias nas escolas, Mariléia dos Santos Cruz mostra que era comum nesse tipo
de documentação maranhense que os filhos de uniões legítimas fossem “grafados com
prenome e sobrenomes compostos, seguindo a coincidência com os sobrenomes dos
genitores”.66 Dessa maneira, já que não há presença de sobrenome para Eduardo e,
muito provavelmente, o nome da mãe seja o de batismo, pode-se inferir que a união a

64
Arquivo Público do Estado do Maranhão. Inventário do Arquivo da Arquidiocese do Maranhão.
Inventário de Códices nº 162. Livro de Registro de Batismos da Freguesia de Nossa Senhora da
Conceição, p. 250.
65
MATTOS, Hebe. Das Cores do Silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista. 3ª ed.
Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2013. p. 106
66
CRUZ, Mariléia dos Santos. Família e alunos de origem africana no Maranhão do século XIX.
Cadernos de Pesquisa, V41, N. 144, Set/ Dez. 2011. p. 939.

35
que deu fruto era ilegítima e a ascendência de ambos, mãe e filho, era escrava. Ainda
nesse estudo, Mariléia aponta que:
A relação entre a ausência de sobrenomes e a procedência escrava dos
sujeitos é confirmada quando se observa o Primeiro Caderno do
Recenseamento da População da Cidade de São Luís do Maranhão,
em 1855. Neste documento, em que as pessoas são identificadas pelo
endereço, cor, condição, sexo, profissão e idade, pode-se constatar a
relação direta entre os de cor preta e a ausência de sobrenomes neste
livro. 67
E conclui, depois de analisar o primeiro quarteirão:
A mesma tendência permanece em todo o documento, o que permite
inferir haver uma relação direta entre a ausência de sobrenome e a
origem negra dos sujeitos que aparecem na documentação maranhense
do século XIX. Não se identificou um só sujeito branco que possuísse
apenas o prenome, mas observou-se que haviam pretos e,
principalmente pardos com nomes completos. Esse fato permite a
confirmação da hipótese de que os sujeitos que não tinham
sobrenomes eram descendentes de africanos. 68

Apesar de todas essas evidências apontadas por Mariléia Cruz, não nos parece
seguro afirmar com todas as letras que Florinda Maria da Conceição tenha sido escrava,
como falamos anteriormente. Isso porque, no contato com os livros de batismo da
Freguesia de Nossa Senhora da Conceição existentes no Arquivo Público do Estado do
Maranhão, foi possível perceber uma grande quantidade de crianças sem sobrenome e,
muitas das vezes, constava apenas o nome da mãe.

Formação educacional

Manoel de Bethencourt, que foi professor de filosofia do Liceu Maranhense,


escreveu uma homenagem para Ribeiro por ocasião de seu aniversário de 1898, para o
jornal A Federação. Segundo ele, certo dia, por volta do ano de 1878, estava em casa
quando vieram lhe dizer que um moço lhe procurava. O visitante era um “rapaz de
estatura mediana, magro, de voz abarytonada, fluente no dizer, rápido na emissão do
pensamento”. Procurou-lhe para que o ensinasse várias matérias, entre elas o francês e
um pouco de matemática elementar. Este moço era Eduardo Gonçalves Ribeiro. 69

67
Idem. p. 942
68
Idem. p. 942.
69
Artigo de Manoel de Bethencourt sobre Eduardo Ribeiro publicado no Jornal A Federação, Manaus –
AM, 18 de setembro de 1898.

36
Outra vez, em biografia divulgada no Diario Official,70 de 18 de setembro de
1895, também por ocasião do aniversário de Eduardo Ribeiro, fica destacada a sua ânsia
por instrução, o que denota sua consciência de que apenas pelos estudos poderia
alcançar alguma mobilidade e distinção sociais.

Foi elle a escola que lhe temperou de aço a rigidez do caráter, que lhe
tornou inquebrantável o animo e lhe preparou as armas para o grande
combate da vida, fazendo delle um forte na acepção genuína do termo.
Cedo, muito cedo (...) levado pelo veemente desejo de ser um homem,
de fazer um nome, atirava-se aos poucos livros que com dificuldade
adquiria, aproveitando-se para isso do pouco tempo que os afazeres
diurnos roubava. [...]
Desamparado e sem meios, procurava muitas vezes, em longas horas
de desânimo, abafar no peito, como a um sonho de quase impossível
realização, o desejo immenso de, pelo estudo conquistar uma posição
condigna do talento que sentia borbulhar-lhe n’alma.71

Ao destacar a inteligência e o esforço de Ribeiro para estudar, o texto salienta a


fatalidade, ou melhor, o “providencial acaso [...] que o colocou em tão obscuro berço” 72
e, em uma avaliação a posteriori, questiona como um homem de talento e inteligência
poderia ter nascido em tão obscuro berço. Aqui, a cor e a classe mais pobre aparecem
como um infeliz acidente, uma artimanha do destino. Distanciar-se desse acidente
parece ter sido fato que justifica sua ascensão da pobreza e da subalternidade (baseadas
no preconceito de cor e na possível origem escrava) para as elites brasileiras,
predominantemente brancas.
Infelizmente, não sabemos como se deram os primeiros contatos de Eduardo
Ribeiro com as letras, ou quem ou qual instituição foi responsável por sua alfabetização.
Na intenção de achar alguma resposta nesse sentido, procuramos na escassa
documentação da Escola de Educandos Artífices e da Companhia de Aprendizes
Marinheiros, existente no Arquivo Público do Estado do Maranhão, alguma pista de que
ele tenha frequentado essas instituições, mas não achamos indicações nesse sentido. O
fato de saber ler e escrever e de na juventude ter ingressado no Liceu Maranhense não
configurava fato incomum naquela época para um jovem negro, mas também não
significava que o acesso fosse fácil ou que todos conseguiam estudar, ainda que jovens.

70
Embora a autoria da biografia não seja citada, a escrita desse texto biográfico parece-nos ter a pena do
biografado tendo em vista os detalhes da sua descrição.
71
Diario Official de 18 de setembro de 1895. Disponível no Arquivo Público do Estado do Amazonas.
72
Diario Official de 18 de setembro de 1895.

37
Ao resgatar os censos de 1872, Lilia Schwarcz nos diz que a taxa de
analfabetismo era muito alta entre pessoas de cinco anos ou mais. O censo do início da
república (o de 1890) mostra que a porcentagem chegava a 82, 6%. 73 O que essa
informação indica é que “se o acesso dos negros à leitura e à escrita foi menos
observado no período escravista, isso não quer dizer que não ocorreu ou que, quando
aconteceu, tal fato tenha se dado fora da lógica contextual” 74. Ou seja, ter acesso a essa
formação só seria possível por entre as brechas dessa ordem social, especialmente no
Maranhão. Assim, ser alfabetizado “significava a forma certa de galgar a hierarquia
social; fundamental para a integração nesse novo projeto nacional, cada vez mais
urbano”. 75
Como veremos, a educação parece ter tido um papel estratégico, isso porque a
instrução formal foi uma das ferramentas fundamentais da inserção de uma parte da
população negra no grupo branco dominante. No entanto, é preciso examinar de que
maneira a cor da pele determinava o sucesso ou o fracasso de crianças e jovens na
escola. Como podemos pensar uma atmosfera que preteria pessoas não-brancas e de
ascendência escrava, mas que alçou, através da educação, muito jovens negros a uma
melhor posição social, independentemente do berço e da cor? O que pode ter
contribuído para que Eduardo Ribeiro fizesse diferença nesse contexto?
Mesmo dedicando-se aos estudos, sua infância não parece ter sido tranquila e
cheia de brincadeiras, já que teve de iniciar precocemente sua vida de trabalhador,
engraxando botas como ajudante de sapateiro, ou posteriormente atuando como
sacristão de um padre chamado Pedro, ou ainda como ajudante de vaquejada em
Anajutuba. 76 Mas, apesar das dificuldades e, contrariando todas as expectativas de um
contexto fatalmente preconceituoso, parece que seus esforços, tão enfatizados na
biografia do Diario Official, deram resultados.
Fato é que, em 1879, Ribeiro entra para o Liceu Maranhense77, no curso de
humanidades. A instituição, que nasceu em 1838 e foi o primeiro colégio público de
nível secundário no Maranhão, tinha como modelo o Colégio Pedro II do Rio de

73
SCHWARCZ, Lilia Mortiz. Lima Barreto: triste visionário. 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras,
2017. p. 24
74
KABENGELE, Daniela do Carmo. A trajetória do “pardo” Antonio Ferreira Cesarino (1808-1892) e
o trânsito das mercês. Tese de Doutorado em Antropologia Social. Universidade Estadual de Campinas.
Campinas, SP, 2012. p. 43
75
SCHWARCZ, Lilia Mortiz. Op. Cite. 2017. p. 25
76
MESQUITA, Otoni. Ops Cite. p. 281. Ao citar o jornal A federação, de 19 de abril de 1896.
77
Importante salientar que não foi possível ter acesso ao arquivo do Liceu Maranhense. A administração
da instituição alegou insalubridade no lugar.

38
Janeiro. Dirigido pelo gramático Francisco Sotero dos Reis, era exclusivo para o sexo
masculino e funcionava na parte inferior do Convento do Carmo.
O Liceu funcionava como uma espécie de curso preparatório para o ingresso
dos filhos da alta sociedade maranhense no ensino superior e gozou durante décadas do
78
prestígio de ser um espaço formador de intelectuais. Interessante pontuar que um dos
famosos professores do Liceu Maranhense era Manoel de Bethencourt, que assumiu a
cadeira de Filosofia do Liceu e era encarregado de reunir seus jovens alunos e debater
assuntos relacionados às humanidades. Bethencourt foi um dos responsáveis pela
idealização do jornal O Pensador, periódico de que Ribeiro participou, como veremos
nas próximas páginas.
Ingressar no Liceu Maranhense parece fato incomum para um rapaz de origem
humilde e com a ascendência africana estampada na pele. Sobre as condições da
educação na cidade de São Luís, Jean-Yves Mérian diz que,
Entre uma população de 71.292 crianças em idade escolar (de 6 a 15
anos) apenas 8.739 rapazes e 4.844 moças frequentavam a escola em
1874, e de uma população de 215.530 adultos livres somente 44.375
homens e 24.196 mulheres sabiam ler e escrever, conforme o relatório
de César Augusto Marques. Pouco mais de 600 crianças frequentavam
o curso secundário, seja nas escolas privadas, seja no Liceu
Maranhense. 79

Esses números nos mostram que eram poucas as pessoas que conseguiam ter
acesso à leitura e à escrita.

Os mais afortunados enviavam seus filhos, depois dos estudos


secundários no Liceu Maranhense, para universidade em Coimbra,
Lisboa ou Paris, mais raramente para Recife e São Paulo para
estudarem direito e para o Rio de Janeiro a fim de estudar medicina. 80

Se entre as décadas de 1860 e 1870 “apenas 10% da população em idade


escolar estava matriculada nas escolas” 81 em São Luís, isso significava que ter acesso à
educação era um privilégio para poucos. Então, como Eduardo Ribeiro consegue entrar
no Liceu Maranhense e posteriormente ir para o Rio de Janeiro estudar na Escola
Militar? As biografias existentes sobre ele dizem que, para este feito, Ribeiro teria sido
ajudado por um padrinho poderoso e político. Não temos, entretanto, nenhuma fonte

78
MARTINS, Ana Patrícia Sá. A marginalização da literatura maranhense no ensino médio: dimensões
curriculares. Dissertação de Mestrado em Educação – UFMA. São Luís, 2011. P. 58.
79
MERIAN, Jean-Yves. Aluísio Azevedo Vida e Obra (1857-1913). Espaço e Tempo, Brasília, 1988.p.
73.
80
Idem. p. 16
81
Idem. p. 37

39
que comprove essas informações. Apesar desse passo em direção a uma educação de
qualidade, Ribeiro ainda sofria com algumas dificuldades:
Sem poder, porem, frequentar com regularidade as aulas por não lhe
ser possível dispor do necessário tempo, procurava, por um estudo de
ferro, supprir o que das explicações perdia, de modo a prestar sempre
com o maior brilhantismo os respectivos exames, ainda que muitas
vezes não representassem as notas obtidas a expressão real de seu
mérito [...]82

Parece que o esforço de Ribeiro não tinha fim. De acordo com as palavras
referenciadas acima, a educação funcionava como ferramenta importante para que
meninos pobres e negros conseguissem ascender socialmente, como era o caso de
Eduardo Ribeiro. Mas, se o letramento e o acesso à educação por jovens negros já vinha
acontecendo e tornando-se mais comum durante o século XIX, como vários estudos nos
mostram, isso não significava o enfraquecimento do sistema excludente e nem uma
grande flexibilização dessas hierarquias.
A historiografia das últimas décadas vem resgatando trajetórias de vida que nos
mostram as diferentes possibilidades que jovens negros tiveram ao longo do século XIX
e elucidam o aspecto emancipacionista que a educação conferia a homens e mulheres
negros, como podemos observar através das pesquisas consolidadas sobre as vidas de
Luiz Gama83 e Antonio Pereira Rebouças84. Mais especificamente sobre o Maranhão é
interessante resgatar o trabalho de Mateus Gatto de Jesus que, ao estudar as trajetórias
de Astolfo Marques e José do Nascimento Moraes, ambos nascidos em São Luís nas
últimas décadas do século XIX, nos mostra que esses dois intelectuais negros
empreenderam a estratégia de ascensão social aqui discutida: aprender a ler e a escrever
e, na melhor das hipóteses, ter acesso ao mundo escolar. Se bem-sucedida essa
estratégia, homens negros conseguiriam acessar “canais institucionais ou informais que
permitiriam diferenciar-se econômica e culturalmente da situação do cativeiro,
acessando profissões que não implicassem o controle pessoal e direto de patrão ou
supervisor [...]”.85

82
Diario Official do Amazonas, 18 de setembro de 1895.
83
Ver: AZEVEDO, Elciene. Orfeu da Carapinha: a trajetória de Luiz Gama na imperial cidade de São
Paulo. Campinas: Editora da Unicamp. 1999.
84
Ver: GRINBERG, Keila. O fiador dos brasileiros: cidadania, escravidão e direito civil no tempo de
Antonio Pereira Rebouças. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

85
JESUS, Mateus Gatto de. Op Cite. p. 135.

40
O caráter elitista do Liceu Maranhense durante o século XIX nos faz considerar
bem provável que Eduardo Ribeiro fosse um dos poucos alunos negros da instituição.
Isso nos remete a um questionamento: o que significava ser um aluno negro em um
ambiente predominantemente branco em fins do século XIX? Infelizmente nossas fontes
não nos permitem falar da experiência subjetiva de Ribeiro em um ambiente como esse,
mas de modo mais geral podemos dizer que ser um rapaz negro num ambiente escolar
da alta sociedade maranhense representava estar em contato com dinâmicas de
preconceito tanto de ordem racial, quanto de ordem social.

Os embates no Jornal O Pensador

Era o primeiro dia do ano de 1896 quando Aluísio de Azevedo redigia uma
carta, marcada de intimidade, diretamente do Rio de Janeiro, para Eduardo Gonçalves
Ribeiro, com o objetivo de lhe fazer um pedido. Logo de início, Aluísio se desculpa
pelo pouco contato tido com o amigo nos últimos tempos e, com palavras bastante
carinhosas, diz receber as melhores notícias de Ribeiro e de seu governo no Estado do
Amazonas que, segundo ele, era governado “com tanto brilho”. 86
Aluísio, em outras poucas cartas às quais tivemos acesso na Academia
Brasileira de Letras, deixa sempre registrado um viés nostálgico e romanceado de sua
trajetória no Maranhão. Naquele mesmo dia, Azevedo ainda enviaria outra carta, mas,
agora, para Pedro Freire 87, seu amigo e de Eduardo Ribeiro dos tempos de São Luís e
que, até aquele momento, era secretário do governador do Amazonas. Nela, Aluísio
lembra com saudade dos “belos tempos em que, com Ribeiro e outros companheiros,
nos digladiávamos valorosamente embastilhados no nosso glorioso Pensador”. 88

86
AZEVEDO, Aluísio.[Carta] 01 de janeiro de 1896, Rio de Janeiro [para] RIBEIRO, Eduardo.
Amazonas. In: Academia Brasileira de Letras, Arquivo Aluísio de Azevedo, Série Correspondência,
Dossiê: Correspondência autografa.
87
Pedro de Alcantara Freire é natural do Maranhão e nasceu no dia 19 de outubro de 1859. Filho de
Feliciano Xavier Freire (oficial do exército) e Maria Evangelina Vieira Freire, foi criado em um bom
ambiente e logo cedo mostrou seu interesse pelas letras. Com alguns jovens de São Luís, ajuda a fundar o
jornal O Pensador e contribuiu com textos para o jornal A Pacotilha. Lutou no movimento abolicionista
no Maranhão. Depois vai para o Amazonas, assumindo alguns cargos no meio político (mais
especificamente como secretário de Eduardo Ribeiro), lugar onde falece em 17 de julho de 1927.
88
AZEVEDO, Aluísio. [Carta] 01 de janeiro de 1896, Rio de Janeiro [para] FREIRE, Pedro. In:
Academia Brasileira de Letras, Arquivo Aluísio de Azevedo, Série Correspondência, Dossiê:
Correspondência autografa.

41
Digladiar parece um bom verbo para pensar esse grupo de jovens que
encontraria, nos escritos vinculados no jornal O Pensador, um ótimo meio para se
posicionarem em relação aos acontecimentos emblemáticos da década de 1880.
Wlamyra Albuquerque, em seu O Jogo da Dissimulação, nos diz que as três últimas
décadas do oitocentos foram o “período em que, à sombra do emancipacionismo e da
crise da monarquia, estavam sendo reconstruídos, não sem disputas, sentidos sociais e
políticos da liberdade e da cidadania para a chamada ‘população de cor’”. 89
É nesse fervilhar que, na década de 1880, intensifica-se no Maranhão o
surgimento de jornais “que se definiam como ‘noticiosos’, ‘políticos’, ‘religiosos’ e
‘literários’. De outro lado, havia os que se especializavam em criticar os costumes e, por
isso, eram chamados de ‘imprensa baixa”. 90 O cenário era composto por jovens
intelectuais tocados pelas novas ideias vindas da Europa e de centros como Rio de
Janeiro e Recife. Eles defendiam o fim da escravidão e o republicanismo, combatiam os
dogmas da Igreja Católica e propunham um novo modo de fazer literatura e jornalismo.
Essa relação entre ideias europeias e sua inserção/assimilação no contexto brasileiro,
aconteceu através de um “processo que envolve necessariamente supressão,
modificação, recriação”. 91
O Paiz, jornal maranhense, nos faz saber do envolvimento de Eduardo
Gonçalves Ribeiro com a denominada Associação de Mancebos Cultores das Lettras.
Seu nome aparece elencado em uma lista da “comissão de festejos” daquela associação
que organizava os festejos do tricentenário de Camões, a ser realizado no Theatro São
Luiz, na noite do dia 10 de junho de 1880. Segundo Manoel de Bethencourt, os jovens
que compunham essa associação eram pobres e tiveram de recorrer ao público para
realizar o evento. Angariando donativos para a realização do festejo, o corpo estudantil
votou em Eduardo Ribeiro para presidir a festa literária, mas este recusou o cargo e
apontou o nome de Aluísio de Azevedo para tal empreitada. 92
Na ocasião haveria a apresentação da banda de música do 5º batalhão de
infantaria, pronunciamento do vice-presidente da província, sendo finalizado com a

89
ALBUQUERQUE, Wlamyra. O jogo da dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil. São
Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 34.
90
PEREIRA, Josenildo de Jesus. “Vão se os anéis e ficam os dedos”: escravidão, cotidiano e ideias
abolicionistas no Maranhão do século XIX. In:GALVES, Marcelo Cheche; COSTA, Yuri (orgs). O
Maranhão Oitocentista. Imperatriz: Ética. São Luís: Editora UEMAA, 2009. p. 248
91
ALONSO, Angela. Ideias em movimento: a geração de 1870 na crise do Brasil-Império. São Paulo: Paz
e Terra, 2002. p. 33
92
Artigo de Manoel de Bethencourt sobre Eduardo Ribeiro publicado no Jornal A Federação, Manaus –
AM, 18 de setembro de 1898.

42
solenidade de colocação de um busto de Camões no então Hospital Portuguez. 93 No dia
15 de junho, o jornal O Paiz publica uma poesia recitada no evento e, segundo consta,
de autoria de Eduardo Ribeiro.

Elle era um semi-deus – visto craneo d’ideias


Na mente em borbotão jorraram-lhe epopeias!
Elle era um semi-deus – constellação de luz
Fulgindo sóes alem nos céos azues.

Fôra de Portugal o astro mais brilhante


Titan na poesia; na epopeia gigante;
Deixou um poema só: - augusto monumento,
- O pasmo da razão – gloria do pensamento

No mundo em que viveu um nome teve só,


E quando o corpo seu lançado foi no pó,
Qual filho que seu pae na batalha perdeu
No manto do seu poema a nação s’envolveu

Deixou uma epopeia: - foi d’Homero o rival,


E hoje que fulgura o seu gênio immortal,
Dos fortes bem ao pé assignados varões
Um nome sôa audaz – esse nome é Camões. 94

O evento mostrava-se como uma tentativa de dinamizar um cenário


culturalmente acanhado. Aluísio de Azevedo, Manoel de Bethencourt, Artur Jansen
Tavares, João Affonso do Nascimento, Pedro Freire, Antônio Machado, Artur Pereira,
Eduardo Ribeiro, Paula Duarte, dentre outros, procuraram alternativas para expressar
suas ideias, encontrando no jornalismo essa ferramenta. Esse movimento de renovação,
segundo Iramir Alves Araujo, “sensibilizou particularmente os jovens intelectuais, os
alunos do Liceu e os caixeiros”. 95
Jean-Yves Mérian em Aluísio Azevedo: Vida e Obra, elenca 5 jornais que,
entre 1878 e 1881, foram criados para agitar São Luís:
“A Flecha”, lançado por João Afonso do Nascimento e Aluísio Azevedo,
durou de 14 de março de 1879 a 25 de outubro de 1880. [...]
“O Pensador”, publicado sob a direção de uma associação de jovens
“progressistas” – da qual fazia parte Aluísio Azevedo – apresentavam-se
como “órgão dos interesses da sociedade moderna”. [...]
“O Futuro”, “órgão de propaganda progressista”, foi lançado por Manuel
Bithencourt em 16 de junho de 1881. Este semanário defendia as teses
positivistas.

93
O Paiz, São Luís – MA, 10 de junho de 1880, nº 132.
94
O Paiz, São Luís – MA, 15 de junho de 1880, nº 136.
95
ARAUJO, Iramir Alves. A flecha, a pedra e a pena: João Affonso, Aluísio de Azevedo e a primeira
revista ilustrada do Maranhão. São Luís: Editora Aquarela, 2015. p. 69

43
“Pacotilha”, após uma tímida experiência de 30 de outubro de 1880 a 23 de
janeiro de 1881, à razão de 300 exemplares por dia, Aluísio Azevedo, Vítor
Lobato e uma parte dos jornalistas que escreviam em “O Pensador”
publicaram regularmente este jornal vespertino a partir de 13 de abril de
1881. [...]
“Civilização”, semanário criado em 14 de agosto de 1880 pela diocese para a
defesa dos interesses católicos, dirigiu essencialmente seus ataques contra os
quatro jornais que acabamos de citar. 96

Ainda segundo Araujo, na última quadra do século XIX, na cidade de São Luís,
eram publicados regularmente 9 periódicos, dentre eles os jornais citados acima por
Mérian. Entre esses periódicos, destacava-se “o jornal O País, o mais antigo e de maior
prestígio e O Diário do Maranhão, fundado em 1873, por José Maria Correia de Frias”.
97
Sobre esses jornais, achamos oportuno resgatar um texto publicado no A Flecha, de
setembro de 1880, de um colaborador que usou o pseudônimo de Pietrus. Nele, o autor
faz versos sobre os jornais que circulavam naquele momento na cidade.
AS NOSSAS GAZETAS98
Temos à frente de todas
Numa existência feliz,
Vasto Jornal no formato,
No nome vasto – O PAIZ

Apoz se segue, arejado,


Porte sério, assumpto vario,
Um que por grande não poude
Deixar de sahir – DIÁRIO
Por um escrúpulo que a nós
Dizer aqui não pertence,
Respeitamos a velhice
Do PUBLICADOR MARANHENSE.

O TELEGRAPHO em politica
Pinta o sete, faz o diabo!
Mas, coitado, quase sempre,
Tem desarranjo no cabo.

O TEMPO com a foice em punho,


Com o riso de Juvenal,
Vae castigando os abusos
Do partido Liberal.

A FLECHA no tamanho
E nos recursos mesquinha,
Leva a vida que a barata
Vive em terra de galinha
96
MÉRIAN, Jean-Yves. Aluísio Azevedo, vida e obra: (1857-1913). Rio de Janeiro: Espaço e Tempo,
1988. p.146.
97
ARAUJO, Iramir Alves. A Flecha, a pedra e a pena: João Affonso, Aluísio de Azevedo e a primeira
revista ilustrada do Maranhão. São Luís, Editora Aquarela, 2015. p. 67.
98
A Flecha, 21 de setembro de 1880, nº 44, São Luís – MA.

44
Pasma ver como se atreve
O Reverendo Mourão,
Suppor que só elle pode
Nos dar a CIVILISAÇÃO!

Mas leva pior o seu tabaco


O Sr. Padre doutor
Nas Columnas de um jornal
Que se chama O PENSADOR.

Este último surgiu da mobilização dos mesmos jovens que se reuniram para a
solenidade do tricentenário de Camões. A intenção era criar um jornal de pensamento
99
livre, um órgão de opinião que contrabalançasse as opiniões da igreja católica. O
jornal O Pensador nasceu em 10 de setembro de 1880 e é o periódico a que Aluísio de
Azevedo se referia na carta a Pedro Freire com tanta saudade. Publicado três vezes ao
mês (nos dias 10, 20 e 30) e de caráter anticlerical 100, tinha como objetivo contrapor as
ideias do jornal Civilisação, representante dos interesses da “Igreja Católica e de seu
conservadorismo”. Esse jornal foi um meio fecundo para que esses jovens pudessem
expressar suas novas ideias. Apesar de seu objetivo principal ser o de criticar a Igreja
Católica, podemos observar em suas folhas o caráter positivista, oriundo da filosofia de
August Comte. Segundo Mérian, o periódico era “financiado em parte pelas lojas
maçônicas”. 101
Intitulando-se “órgão dos interesses da sociedade moderna”, o jornal O
Pensador, na segunda página de seu primeiro número já diz a que veio: “combater esse
espírito sacerdotal que tanto sangue tem custado à humanidade”. Assim, na última frase
de seu artigo de estreia, Manoel de Bethencourt diz que o programa do Pensador era
“pensar e só pensar. Pensar é rasgar os horizontes do porvir”. 102
A maioria dos artigos
do jornal era escrito por Manoel de Bethencourt e Aluísio de Azevedo, que por várias
vezes assinava com o pseudônimo de O Marquez de Pombal. Faziam parte do grupo
também Pedro Freire, Eduardo Ribeiro, Artur Jansen Tavares, Antônio Machado, Paula
Duarte, Artur Pereira, entre outros.

99
Artigo de Manoel de Bethencourt sobre Eduardo Ribeiro publicado no jornal A Federação, 18 de
setembro de 1898.
100
O conjunto de ideias anticlericais surge a partir da segunda metade do século XIX. rejeitando toda
interferência da Igreja Católica na vida pública e defende a separação entre religião e Estado. O
anticlericalismo mobilizou várias correntes pelo Brasil que defendiam a liberdade de consciência.
101
MÉRIAN, Jean-Yves. Op Cite. 1988. p. 157.
102
O Pensador, São Luís-MA, 10 de setembro de 1880.

45
O jornal não foi o primeiro periódico anticlerical. Antes dele, A Flecha já se
encarregava de fazer suas críticas. Mas, sem dúvida, é com a aparição de O Pensador
que o conflito entre esses jovens positivistas e a Igreja Católica se intensifica. Isso
porque, a partir de 1879, São Luís tinha ganhado um novo bispo, Dom Antônio Cândido
de Alvarenga, que passou a criticar severamente o relaxamento moral por parte do clero
maranhense. Assim, segundo Mérian,
O bispo sentia que era preciso tomar medidas enérgicas para devolver
à Igreja uma credibilidade que esta estava perdendo, sobretudo junto à
juventude do Maranhão. Numerosos padres foram sancionados por
sua vida dissoluta, outros foram transferidos. Estas medidas
disciplinares não eram suficientes; era preciso relançar a propaganda
religiosa e elevar o nível de consciência dos padres e dos fiéis. Para
isto, o bispo lançou um semanário “Civilização” – órgão dos
interesses católicos, a 14 de agosto de 1880. 103

O jornal Civilisação tinha como principais interlocutores “os cônegos Mourão


e Osório Ataíde Cruz, o padre Fonseca e o doutor Antônio Santos Jacinto” e, no
primeiro momento dedicavam-se a combater aqueles que questionassem o papel da
Igreja Católica. A partir de 1880 o debate entre os jornais cresce e “a separação entre
Igreja e Estado, a secularização dos cemitérios, [que] eram também temas
frequentemente abordados”,104 passam a fazer parte da pauta dos jornais anticlericais.
Com o aparecimento do jornal O Pensador, a missão do jornal católico se
complicou. Era na pessoa de Aluísio de Azevedo que a responsabilidade caía em maior
grau, no que tange à redação dos artigos. Além de não se esconder atrás de
pseudônimos, Azevedo “estigmatizava o obscurantismo da Igreja, a ignorância, o
dogmatismo e o fanatismo dos padres. Denunciou assim diversas vezes o ócio dos
clérigos que viviam do trabalho de pessoas honestas e crédulas”. 105

O fato de Eduardo Ribeiro estar ligado a um jornal nitidamente contrário à


política imperial, não nos dá indícios de que tenha lutado diretamente no movimento
abolicionista no Maranhão. Apesar disso, podemos supor que seu envolvimento no
jornal O Pensador (e com a atmosfera de discussões em torno do republicanismo,
positivismo e abolicionismo que essa inserção proporcionava) tivesse relação direta com
a escravidão e seus desdobramentos. Isso porque a luta desses jovens se dava,

103
MÉRIAN, Jean-Yves. Op Cite. p. 156.
104
Idem. p. 157
105
Idem. p 158.

46
sobretudo, em “debates de ideias sobre a abolição da escravatura, a economia e as
finanças, as relações entre a Igreja e o Estado, a Democracia e a República [...]”.106
Em se tratando de um jornal anticlerical é compreensível que esses homens
defendessem a abolição da escravidão. Para eles, a Igreja estava intimamente ligada a
esse sistema, haja vista terem explorado por séculos a mão de obra escrava. Amparado
pelas ideias positivistas, esses homens “viam na escravidão as causas da degradação
moral da família e da sociedade” e o “atraso da economia [...]”. 107
Outro jornal bastante conhecido, com longeva trajetória e que recebeu
contribuições de Aluísio de Azevedo, foi o Pacotilha. Este jornal foi fundado em
outubro de 1880 pelo jornalista Victor Lobato, “a princípio, tinha como proposta ser um
periódico popular sem filiação político-partidária, apresentando-se como um jornal
abolicionista e republicano”. 108
Esses jornais surgem em um momento em que o Brasil sofre grandes alterações
tanto econômicas quanto sociais, especialmente no contexto internacional que, desde a
insurreição dos escravizados em São Domingos (hoje Haiti), em 1791, dando fim a
escravidão em 1794, passando pelo Congresso de Viena de 1815, que reafirmava a
ilegalidade do tráfico internacional de escravos, até, o “duro golpe” para as elites
proprietárias de escravos com a promulgação da Lei Eusébio de Queirós, de 1850, no
Brasil, propiciaram um grande debate na sociedade brasileira sobre o fim da escravidão.
A partir da década de 1860, o movimento abolicionista se intensificou,
principalmente após a Guerra do Paraguai. Partindo de diferentes grupos, classes e
indivíduos, os movimentos em prol da abolição até a sua efetivação em 1888 deram-se a
partir de uma somatória de ações políticas, econômicas e de resistência dos escravos que
negociavam sua liberdade e que, principalmente, se revoltavam em clara desobediência
civil, contra o sistema escravista.
O fim da escravidão era uma das pautas principais da “Geração de 1870”.
Divididos entre a abordagem emancipacionista (abolição gradual) e a abolicionista
(abolição imediata da escravidão), esses indivíduos contestavam a tradição imperial e
propunham “reformas estruturais, que expandissem a cidadania, criassem um novo

106
Idem. p. 150.
107
Idem. p 153.
108
Idem, p. 249.

47
arranjo político-institucional e um mercado livre tanto para o trabalho como para as
mercadorias”. 109
O já aqui mencionado Pedro Freire esteve ligado diretamente ao movimento
abolicionista no Maranhão e foi um dos redatores do jornal Pacotilha em seu início. Em
um de seus textos, no jornal O Pensador, em resposta a um dos ataques sofridos pelo
jornal Civilização, Freire diz:

O Centro Emancipador provar-lhe há mais para adiante que não são precisos
títulos de nobreza e pergaminhos scientificos, para que seus membros possão
fazer alguma cousa a bem da grande causa da abolição. Conto que hei de
mostrar-lhe se tenho ou não idoneidade, mas, não com palavras e sim com
factos. 110

Anos depois Pedro Freire iria para o Amazonas para trabalhar com Eduardo
Ribeiro no governo do Estado. Não trataremos disso agora. O que nos interessa é
compreender um pouco do cenário, os espaços e as pessoas com quem Ribeiro
conviveu. Em nossa pesquisa, não identificamos um discurso de identidade racial por
parte de Eduardo Ribeiro. Também não teve atuação contundente no movimento
abolicionista nem no Maranhão, nem no Rio de Janeiro. Entretanto, nas poucas linhas
aqui escritas já podemos perceber que Ribeiro estava capturado por essa atmosfera, ou
seja, ele não poderia fechar os olhos para o que estava acontecendo.
Como podemos observar, Ribeiro começava a se inserir em um meio
intelectual diferenciado, tendo em vista sua origem humilde que não possibilitava
ascensão social para todos. Esse final do século XIX, marcado pelas agitações
ideológicas e políticas do abolicionismo e do republicanismo, mobilizou jovens
pensadores, de diferentes classes e cores, o que não seria diferente em São Luís.
A pressão para que o Brasil acabasse com a escravidão vinha acontecendo
desde o início do século XIX. A lei Feijó, de 1831, garantiu a abolição oficial do tráfico
de escravos, pela proibição à importação de escravos ao Brasil. Entretanto, a lei nunca
foi efetivamente cumprida. Apenas em 1850, com a lei Eusébio de Queirós, é que se
promove um efetivo combate ao tráfico. Esse período ainda contou com as pressões de
movimentos contrários à escravidão e com a promulgação de leis como a do Ventre
Livre, de 28 de setembro de 1871, e a lei dos Sexagenários, de 28 de setembro de 1885.
A partir da década de 1870 o movimento republicano ganhava força e com ele surgia

109
ALONSO, Angela. Op. Cite. 2002. p. 252.
110
O Pensador, São Luís - Maranhão, 30 de setembro de 1881, ano II, número 38.

48
também “uma série de ideias ‘liberais’ que traziam críticas aos privilégios, às ligações
entre estado e Igreja, à escravidão e à falta de igualdade”. 111
Dentro dessa atmosfera, não podemos deixar de falar do Positivismo que será
muito importante durante toda trajetória de vida de Eduardo Ribeiro, como veremos
adiante. O positivismo cresceu entre os jovens maranhenses a partir da década de 1870.
É importante salientar o forte contato entre positivistas e maçons, já que os primeiros se
encontravam “em grande número em lojas maçônicas”. 112 Estes jovens lutavam “através
da imprensa a favor de uma igreja nacional, independente de Roma, inspirando-se nos
princípios do positivismo.” 113
O ano de 1880 parece ter sido de muitas atividades para Ribeiro, que, mais
precisamente em março, seria nomeado professor interino da 1ª Freguesia da Capital do
Maranhão. Os episódios sobre a vida de Eduardo Ribeiro no Maranhão, tratados até
aqui, demonstram, apesar de não sabermos se houve algum tipo de apadrinhamento, que
ele identificava na educação uma ferramenta importante para a emancipação intelectual
e financeira, assim como uma maneira de participar de uma sociabilidade mais
qualificada, ou seja, diferenciada da sociabilidade dos outros homens de cor. Se essa
estratégia de valorização e aposta na educação como um meio de emancipação das suas
origens, já começara a surtir efeito ainda em São Luís, será consolidada com a sua ida
para o Rio de Janeiro, para a Corte, local em que frequentaria as aulas do curso superior
da Escola Militar da Praia Vermelha.

111
Idem, p. 38.
112
MERIAN, Jean-Yves. Aluísio Azevedo, vida e obra: (1857-1913). Rio de Janeiro: Espaço e Tempo,
1988.p. 78
113
Idem. p. 79.

49
Capítulo II – Uma ilha de instrução em meio a um mar de
analfabetos114: a Escola Militar da Praia Vermelha

Eduardo Ribeiro tinha a nobre ambição de “fazer um nome”. Natural que


alimentasse a fagueira esperança de transportar-se um dia à grande capital brasileira.
Fez isso “com meia dúzia de mil réis e grande somma de força de vontade.”115As
motivações que o levaram à capital, segundo a biografia do Diário Official, seriam a
expectativa de projetar seu nome, de tornar-se conhecido e, para tanto, só a ida para o
Rio de Janeiro possibilitaria tal feito. Infelizmente, a biografia do Diário Official não
nos permite identificar seu autor. Acredita-se, pela riqueza de detalhes e pelo tom
laudatório em que o texto é construído, que tenha sofrido influência direta do
biografado, Eduardo Ribeiro.
Por que Eduardo Ribeiro e Aluísio de Azevedo116, contemporâneos e amigos,
tiveram projetos de vida e de ida para a Corte realizadas de forma diferenciada? O que
significava para um negro transpor, no contexto oitocentista, as barreiras da educação
formal, especialmente quando se sabe que os atores em fins do século XIX dispunham
de recursos que variavam de acordo com a classe e a raça a que pertenciam?
Aluísio era filho de David Gonçalves de Azevedo, comerciante português
respeitado em São Luís. Na década de 1850, David foi ainda vice-cônsul e chanceler do
Consulado Português. Aluísio de Azevedo viveu confortavelmente, tendo acesso à
educação de qualidade, em meio a uma família bem estruturada economicamente. Em
1876, aos 19 anos de idade, Aluísio partiu para a corte com o propósito de estudar na
Academia de Belas-Artes e aperfeiçoar-se na pintura. Durante os dois anos em que
viveu no Rio de Janeiro, exerceu muitas atividades: foi professor de desenho, deu aulas
particulares de gramática, foi retratista e até gerente de hotel. Morou numa pensão em

114
Esse título faz referência à seguinte afirmação do historiador John Schulz: “Nos anos cinquenta, a
academia militar da capital continuou a ser uma ilha de instrução em uma sociedade constituída por uma
maioria analfabeta.” SCHULZ, John. O Exército na Política. Origens da intervenção militar (1850-1894).
EDUSP: São Paulo, 1994. p. 31.
115
Diario Official do Amazonas, 18 de setembro de 1895.
116
O biógrafo mais conhecido de Aluísio de Azevedo foi Jean-Yves Mérian. Em seu livro “Aluísio de
Azevedo Vida e Obra (1857-1913)”, Mérian trata da ida de Azevedo para o Rio de Janeiro de forma
diferente da de outros jovens, que iam para a corte em busca de empregos mais comuns como de caixeiro,
ou amanuense.

50
Santa Teresa com dois amigos, Artur Barreiros117 e Veridiano Henrique dos Santos
Carvalho. 118
Durante o tempo em que viveu no Rio, Aluísio frequentou um círculo social de
jovens intelectuais e escritores que marcaram a vida cultural da cidade nas últimas
décadas do século XIX. Teve como amigos Teixeira Mendes, que anos depois fundaria
a igreja positivista no Brasil; Lopes Trovão, futuro deputado republicano, e José do
Patrocínio, um dos jornalistas abolicionistas mais ativos da época. A presença do irmão
Artur Azevedo, na cidade, que já trabalhava em vários jornais satíricos, ajudou para que
entrasse mais rapidamente no meio intelectual e jornalístico.
O primeiro contato com os jornais se deu através de sua habilidade com
caricaturas, permitindo que contribuísse em jornais satíricos ilustrados, a exemplo de O
Fígaro e O Mequetrefe.119 Se os estudos na Academia não tinham vingado (só cursou
algumas disciplinas como ouvinte), Aluísio de Azevedo logo começou a se destacar
com as suas caricaturas que aguçavam as discussões políticas de então. Além disso,
havia conseguido penetrar no universo do teatro onde contribuiu como autor e cenarista.
120

Apesar das dificuldades financeiras, já que os trabalhos como caricaturista não


rendiam muito lucro, Aluísio conseguiu em pouco tempo tornar-se conhecido através da
sua arte, opiniões políticas e textos. A volta para o Maranhão deu-se por ocasião da
morte de seu pai, havendo a necessidade de regressar para auxiliar sua mãe e irmãos. Se
a ida de Azevedo para a corte se fez com o desejo de aperfeiçoar-se na pintura,
contando com a ajuda do irmão Artur, que já vivia no Rio há dois anos e começava a ser
conhecido como autor dramático e jornalista, a viagem de Eduardo Ribeiro seguiu outro
roteiro.
Ribeiro seguiu para o Rio de Janeiro, a “great attraction da mocidade
brasileira”. Ainda segundo a biografia do Diário Official, a corte era o desejo de todos
aqueles que queriam “aparecer, fazer um nome na sciencia, na politica, nas letras ou nas
artes”. Com a “alma sedenta de instrucção” e “em busca de um futuro mais que

117
Sem muitas informações sobre Artur Barreiros, Jean-Yves Mérian diz ter nascido em 1856. Também
tinha iniciado sua vida de jornalista e escritor mais ou menos no mesmo momento em que Aluísio de
Azevedo esteve no Rio de Janeiro. (Mérian, 1988, p. 96).
118
Dez anos mais velho que Aluísio, Veridiano era português e na época em que conheceu Azevedo
exercia atividades comerciais e no jornalismo. (Merian, 1988, p. 96).
119
Mérian, Jean-Yves. Aluísio de Azevedo Vida e Obra (1857-1913). Rio de Janeiro. Espaço e Tempo,
1988. p. 104.
120
Idem. p. 140.

51
duvidoso,” Ribeiro lançou-se sem “medir sacrifícios” e “vencendo todos os obstáculos”,
conseguiu sentar praça em 24 de fevereiro de 1881, no Exército. 121
Segundo o biógrafo anônimo do Diario Official, Ribeiro passou por
dificuldades nessa nova vida, o que o leva a indagar o leitor: “que de momentos
amargos não teria elle passado, que de luctas não travaria a sua vontade hercúlea contra
o desfallecimento que de continuo o perseguia?”. Que luta foi travada por Ribeiro?
Seria a luta contra os estigmas que a origem negra e pobre trazia? O próprio biógrafo
responde a pergunta: “luctas intimas, combates secretos que nascem e morrem dentro de
122
nós, ignorados do mundo que só pode descobrir o que na superfície se passa.”
Diferente do amigo Aluísio, Eduardo foi “lançado n’aquella grande capital,
sem amigos, sem dinheiro e baldo [desprovido] de protecções”. Talvez vislumbrando
uma forma de se alçar ao mundo cosmopolita do Rio de Janeiro (apesar da falta de
relações pessoais que o auxiliassem), ingressou no Exército.
Cabe aqui uma problematização sobre o tom em que a biografia do Diário
Official foi escrita. Feita por ocasião do aniversário de Ribeiro, é natural que
evidenciasse todas as dificuldades por que ele tenha passado, a fim de consagrar a
imagem de um herói de carne e osso, alguém em quem a população devesse se
inspirar.123
De todo modo, o texto da biografia e as circunstâncias em que se deram a ida
de Ribeiro e de Azevedo para a corte, nos levam a alguns questionamentos: Por que a
escolha pela área militar? A experiência no jornal O Pensador, no Maranhão, com o
amigo Aluísio de Azevedo, não o teria feito criar gosto pela escrita e pelo meio
jornalístico? Seria o ingresso no Exército um caminho mais fácil de ascensão social para
jovens negros? Era uma das possibilidades que se abria para que conseguisse certo
prestígio e ascensão social? Se o ofício de escritor ou o de jornalista não eram funções
necessariamente vedadas a negros, talvez possamos pensar que a segurança financeira
falasse mais alto que seu gosto (e habilidades) com as letras, a ponto de influenciar sua
escolha.
É o que tentaremos entender melhor ao longo desse capítulo. Resgatando
informações sobre a Escola Militar, sua forma de ingresso, a trajetória escolar de

121
Diario Official do Amazonas, 18 de setembro de 1895.
122
Diario Official do Amazonas, 18 de setembro de 1895.
123
Sobre a construção de heróis na Primeira República, ver: BONAFÉ, Luigi. Como se faz um herói
republicano: Joaquim Nabuco e a República. Tese de Doutorado. Universidade Federal Fluminense,
Departamento de História, 2008; CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da
República no Brasil. Companhia das Letras, São Paulo, 1990.

52
Eduardo Ribeiro e a atmosfera ideológica em que esteve inserido, assim como entender
a maneira como a Escola Militar poderia promover sua ascensão social. Acreditamos
que, ao enfatizar sua escolha pela carreira militar, poderemos entender as estratégias de
que teria lançado mão para ascender na hierarquia da instituição.

A vida de estudante

O Exército Brasileiro surge, enquanto instituição, durante o processo de


independência do Brasil, em 1822. À época de D. João VI, era uma instituição
desorganizada, derivada da tradição militar portuguesa que, já no século XVIII, vinha
criando instituições baseadas na perspectiva moderna de ciência. A instituição ganharia
uma reviravolta com a criação da Real Academia Militar, em 1810 . Apesar do maior
número de unidades do Exército estarem localizadas no Rio de Janeiro e no Rio Grande
do Sul, sua presença era vista em todos os cantos do Brasil. Para exemplificar essa
afirmação, Frank MacCAnn traz uma tabela com a distribuição do Exército Brasileiro
por estados no ano de 1889.

Tabela 1.1 – Distribuição do Exército brasileiro em 1889. 124

Unidades RS PR RJ MT SC SP MG PE BA NE125 GO PA AM Totais126

Infantaria 8 1 6 3 - - - 2 2 4 1 1 3 32

Cavalaria 5 1 1 1 - 1 1 - - - - - - 10

Transportes 1 - - - - - - - - - - - - 1

Artilharia 3 1 2 1 - - - - - - - 1 - 8

Engenharia 1 - 1 - - - - - - - - - - 2

Totais 18 3 10 5 1 1 1 2 2 4 1 2 3 53

Dessa forma, o Exército, segundo Frank MacCann, tinha, em 1889:

124
McCANN, Frank D. Soldados da Pátria: história do exército brasileiro, 1889-1937. São Paulo:
Companhia das Letras. p. 39.
125
Nordeste do Brasil: 1 São Luís, 1 Fortaleza, 1 Maceió, 1 Paraíba
126
As unidades totalizavam 50, mais a unidade de transporte e as guarnições dos fortes na Amazônia.

53
[...] uma força pouco numerosa, composta de aproximadamente 13,5
mil homens divididos pelo território brasileiro em cinquenta
regimentos e batalhões com menos de trezentos homens em média em
cada um; essas unidades, juntamente com uma unidade de transporte e
com guarnições na fronteira e nos fortes na Amazônia, eram
controladas por três quartéis-generais de brigada, dois no Rio de
Janeiro e outro em Curitiba. O corpo de oficiais tinha um efetivo
autorizado de 1595 homens. 127

A concentração dessas unidades acontecia no Rio de Janeiro e Rio Grande do


Sul, e as unidades de Infantaria e Cavalaria eram as que recebiam maiores
investimentos. “Embora isso refletisse a distribuição de armas convencionais no campo
de batalha, também estava relacionado a verbas reduzidas para as Forças Armadas, a
uma postura externa defensiva e as missões de controle internas.” 128
Ainda segundo MacCann, boa parte desses oficiais eram oriundos de áreas
litorâneas e vinham de famílias que não tinham condições de propiciar um tipo de
educação e profissionalização diferenciados para seus filhos. Não podendo arcar com os
custos dos estudos dos filhos nas faculdades de Direito e Medicina, essas famílias viam
no serviço militar um bom meio para encontrarem um ofício. 129 Assim, na ausência de
suporte financeiro e de relações com a elite, “só restava a possibilidade de se tornarem
empregados em repartições do Estado [...]”. 130
Ao se confrontarem com essa situação, os rapazes que desejavam construir
uma carreira sólida e de prestígio visualizavam as três escolas militares, localizadas nas
cidades do Rio de Janeiro, Fortaleza e Porto Alegre, como alternativas de mobilidade
social e distinção. O destaque ficava com a escola da Praia Vermelha, na corte, principal
espaço de preparação desses jovens que influenciaram a incipiente República brasileira.
A história da Escola Militar nos remonta à criação da Real Academia Militar.
Criada em 1810 pelo príncipe regente Dom João, através da carta lei de 4 de dezembro
daquele ano131 e alojada, a partir de 1812, no Largo de São Francisco, ela representava
uma tendência internacional de “profissionalização e burocratização da carreira militar”.
Na França, por exemplo, foram criadas diversas escolas para formação de oficiais que,
até o final do século XVIII, eram responsáveis pela formação de um grupo técnico forte.

127
McCANN, Frank D. Soldados da Pátria: história do exército brasileiro, 1889-1937. São Paulo:
Companhia das Letras, 2007. p. 39
128
Idem, p.39.
129
Idem. p. 40
130
LEMOS, Renato. Benjamin Constant, vida e história. Topbooks, 1999.p. 30
131
Carta de Lei de 04 de dezembro de 1810. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/atividade-
legislativa/legislacao/doimperio/colecao1.html. Acessado: 08/12/2018.

54
Foi o momento em que os países, logo após as guerras napoleônicas, começaram a criar
essas academias e a relaxar as restrições de ingresso na carreira militar, especialmente
porque se propunham a fornecer um acesso “democratizado”, sem exigências de berço
para o ingresso.132
O objetivo com a criação da Academia era a formação de oficiais de artilharia,
geógrafos e engenheiros topógrafos. O curso a princípio não configurava fator
indispensável para o ingresso no corpo de oficiais, bem como para a ascensão na
hierarquia militar, o que só passaria a acontecer a partir da década de 1850, mesmo
133
assim de forma progressiva. Ao fim e ao cabo, a engenharia “nascia em berço militar
e com o objetivo de construir fortificações para defender a Coroa Portuguesa e depois o
Império do Brasil”. 134
A partir da década de 1850 há um desdobramento da Academia Militar em
duas: em 1855, há a instalação da Escola Militar e de Aplicação, na Fortaleza de São
João, que em 1857 é transferida para a Praia Vermelha; e, em 1858, a Escola Central,
localizada no Largo de São Francisco 135. Em 1874, a Escola Central passa a denominar-
se Escola Politécnica e passava a receber apenas alunos civis, enquanto a Escola Militar,
136
no mesmo ano, passou a formar inteiramente os militares.
Com forte ênfase na matemática, o curso baseava-se na chamada nova fase da
matemática francesa, “marcada pela instalação das escolas e academias que conferiam
extrema importância ao ensino da disciplina durante a formação dos engenheiros
militares.”137 O fortalecimento dos estudos científicos se deu a partir da década de 1840,
com a criação do título de alferes aluno, recebido apenas pelos alunos que se
destacavam nas matérias, especialmente com a introdução, em 1844, do título de
“bacharel em matemática e ciências físicas” para os que completassem todo o curso. Os
alunos que cumprissem os sete anos do curso receberiam o grau de bacharel, enquanto
aqueles que conquistassem a aprovação “plenamente” (notas acima de 7), em todos os

132
NASCIMENTO, Fernanda de Santos. A Imprensa periódica militar no século XIX: política e
modernização no Exército brasileiro (1850-1881). Tese (Doutorado) – Pontífice Universidade Católica do
Rio Grande do Sul. Programa de Pós Graduação em História, Porto Alegre, 2015.p. 188.
133
CASTRO, Celso. Os militares e a República: um estudo sobre cultura e ação política. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 1995. p. 19.
134
SCHWARCZ, Lilia Mortz. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo, Companhia das Letras, 2017.
p.116.
135
CASTRO, Celso. p. 43
136
SCHWARCZ, Lilia Mortz. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo, Companhia das Letras, 2017. p.
116.
137
LEMOS, Renato. Benjamin Constant, vida e história. Topbooks, 1999. p. 32.

55
sete anos, passariam a ter o grau de doutor em ciências matemáticas.” 138 Receber o grau
de bacharel tornou-se um ideal de vida, especialmente porque os cursos superiores
conferiam um status social por muitos almejado. Esse era também o caso de Eduardo
Ribeiro, bacharelado em Matemática e Ciências Físicas em 1887.
Ribeiro matriculou-se nas aulas do curso preparatório da Escola Militar da
Praia Vermelha em 24 de fevereiro de 1881, tendo, nesta mesma data, assentado praça e
jurado bandeira voluntariamente. O fato de ter jurado bandeira voluntariamente tem
como pano de fundo a divisão dos alunos em duas classes: a de obrigados e a de
voluntários. Os obrigados deveriam sentar praça como soldados ou cadetes de artilharia
e tinham mais privilégios, como preferência em todos os exercícios científicos. Os
jovens que se matriculavam como voluntários eram normalmente estrangeiros ou
aqueles que não pretendiam se tornar militares. 139 Essa última constatação de Celso
Castro nos leva a pensar que o fato de Eduardo Ribeiro ter assentado praça
voluntariamente, denota que o seu ingresso não se deu pelo sonho de se tornar militar,
mas possivelmente como uma estratégia de ascensão social naquele contexto.
Quando Eduardo Ribeiro se matriculou na Escola Militar, o regimento em
140
vigor era o de 1874. De acordo com ele, os candidatos deveriam ler e escrever
corretamente o português, ter mais de 16 e menos de 25 anos de idade na ocasião, ter
prática nas quatro operações sobre números inteiros e gozar de boa saúde, esta última
verificada na inspeção de saúde. O regulamento da Escola Militar não explicitava, de
forma direta, barreiras sociais ou de condição social (livre ou escravo) e muito menos de
cor para o ingresso. Ou seja, não proibia legalmente o ingresso de alunos pobres, negros
ou que tivessem um passado escravo, por exemplo.
De qualquer forma, é bom salientar que, se o único limite para se candidatar à
vaga, segundo o regulamento, era comprovar conhecimentos básicos em português e
matemática, apenas alguns poucos naquela conjuntura poderiam ser contemplados. A
taxa de analfabetismo, segundo o censo de 1872, marcava 82,3% para as pessoas de
cinco anos ou mais, taxa que se manteve quase inalterada até o censo de 1890, quando
chegava à marca de 82,6% de pessoas analfabetas141. Isso significa dizer que esses

138
Idem, p.33.
139
CASTRO, Celso. Op. Cit. p.30.
140
O regimento de 1874 pode ser localizado nas Ordens do Dia do mesmo ano, no Arquivo Histórico do
Exército. Ref: 3500.
141
SCHWARCS, Lilia Moritz. Lima Barreto: Triste Visionário. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras,
2017. p. 24.

56
rapazes faziam parte de uma pequena porcentagem de pessoas que àquela época podiam
receber uma educação.
A fé de ofício de Eduardo Ribeiro, como dito no primeiro capítulo, indicava o
nome da mãe, mas não trazia referência alguma à sua origem ou às atividades por ela
exercidas. Em outras fés de ofício analisadas nessa pesquisa142 há, em sua maioria,
somente o nome do pai e a referência explícita à patente militar do pai, quando era o
caso. O regulamento também não exigia atestados anteriores de origem, boa conduta ou
de presença de militares na família. Em contrapartida, como veremos no terceiro
capítulo, é bem possível que ter um pai com patente militar ou “conhecidos” dentro do
Exército, pudesse influenciar de forma positiva no ingresso desse aluno na instituição.
Mas, de toda forma, o regimento não incluía barreiras à entrada por razões relacionadas
à condição social do aspirante. É possível que se manifestassem durante o curso, de
forma indireta: seja pela dificuldade de se manter na corte ou pelo grau de dificuldade
do curso.
Apesar disso, a instituição se caracterizou por receber alunos oriundos de
segmentos sociais menos abastados. Isso possibilitava que os poucos meninos pobres
que conseguiam ter acesso às primeiras letras, pudessem aspirar a uma vaga em uma
instituição que os levaria a maior integração na sociedade. Ou seja, mais do que uma
questão ideológica, a escolha pelo ingresso no Exército poderia expressar uma estratégia
de ascensão social.
Depois do ingresso, vinham as aulas que tinham um grau de dificuldade muito
grande e a forte presença do ensino de matemática em seu currículo. O estudo da
ciência, e em especial da matemática, investia o aluno de um capital simbólico de
diferenciação social muito importante para os jovens daquela época. Longe de ser
apenas uma escola para práticas militares, a Escola Militar era parte de uma tendência
internacional que se consolidava desde a primeira metade do século XIX, qual seja, a da
“profissionalização e burocratização da carreira militar”. 143
O ensino teórico do curso superior das Escolas Militares do Império era
composto, em um primeiro momento, de um curso preparatório. Este curso, anexo ao

142
Além de Eduardo Ribeiro, utilizamos a fé de ofício de outros 12 indivíduos seus contemporâneos. A
escolha desses nomes se deu a partir do Almanaque Militar de 1888, em que Ribeiro está assinalado. A
partir dele escolhemos pessoas que provavelmente, pela data de conclusão do curso, haviam estudado na
Escola Militar a partir da década de 1870. Essas fontes serão mais bem trabalhadas no terceiro capítulo,
momento em que vamos analisar a designação de cor desses homens.
143
CASTRO, Celso. Os militares e a República: um estudo sobre cultura e ação política. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 1995, p. 18.

57
ensino militar, era destinado ao ensino das doutrinas preparatórias exigidas para os
cursos militares. O curso preparatório tinha a duração de três anos, mas os alunos que
tivessem realizado disciplinas em algum preparatório anterior poderiam frequentar aulas
em um só ano, o que parece ter sido o caso de Ribeiro. De acordo com sua fé de ofício,
ele teria cumprido em apenas um ano. Seu currículo revela as disciplinas enumeradas no
quadro abaixo:

Quadro 1: Currículo teórico do curso preparatório entre 1874 -


1889144
1º ano 2º ano 3º ano
Gramática nacional, Língua Vernácula, Língua vernácula,
Geografia, Francês, Francês, Inglês, Inglês, História (Idade
Aritmética e História Antiga, Média, Moderna,
Desenho Linear. Álgebra e Desenho Contemporânea e
Linear. Pátria), Geometria e
Trigonometria plana,
Desenho linear e
Geometria prática.

No currículo do curso preparatório podemos perceber a ênfase em um ensino


voltado para as humanidades, acentuando-se o estudo das línguas, tendo, inclusive, a
disciplina História se destacado em relação à Geografia. Segundo Jehovah Motta isso
aconteceu porque “o Brasil continuava preso nos limites de um ensino médio
fortemente literário e humanístico [...]”.145 Eduardo Ribeiro matriculou-se no curso
preparatório em fevereiro de 1881. Em janeiro de 1882, consta ter sido aprovado
solenemente com grau nove em Aritmética, grau oito em Geometria, Álgebra e
Trigonometria e simplesmente com grau três em Exercícios Práticos e Desenho.
Com relação ao currículo do ensino superior, o curso era dividido em 5 anos,
como podemos ver no quadro abaixo. Os dois primeiros anos compreendiam o curso de
Infantaria e Cavalaria. Se o aluno terminasse o terceiro ano, teria o curso de Artilharia.
Depois, no quarto ano, o curso de Estado-Maior; e, finalmente, todos os 5 anos
compreendiam o curso de Engenharia Militar. Sobre o ensino das três armas (Infantaria,

144
Quadro feito com base no regimento de 1874 que pode ser localizado nas Ordens do Dia do mesmo
ano, no Arquivo Histórico do Exército. Ref: 3500.
145
MOTTA, Jehovah. Formação do Oficial do Exército: currículos e regimes na Academia Militar 1810-
1944. Editora Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1976.

58
Cavalaria e Artilharia), nada mudou no novo regulamento, em relação ao de 1863.
Importante salientar que o curso de Infantaria e Cavalaria foram reduzidos a apenas um
ano entre 1881 e 1887. 146

Quadro 2: Currículo teórico do curso superior da Escola Militar entre 1874 - 1889147
1º ano 2º ano 3º ano 4º ano 5º ano
1º Álgebra Tática, estratégia, Mecânica Trigonometria Construções
superior, história militar, racional e sua esférica, ótica, civis e
cadeira geometria castramentação, aplicação às astronomia militares,
analítica, fortificação máquinas, geodésia hidráulica,
cálculo passageira e balística; estrada
diferencial e permanente, ordinárias e
integral; compreendendo vias férreas,
ataque e defesa principalmente
dos em relação à
entrincheiramentos arte da guerra;
e das praças de
guerra, e noções
elementares de
balística;
2º Física Direito Tecnologia Administração Química
experimental, internacional militar, militar, noções orgânica,
cadeira compreendendo aplicado às compreendendo de economia mineralogia,
elementos de relações de guerra, o política e de geologia e
telegrafia noções de direito desenvolvimento direito botânica; aula:
elétrica militar; internacional e da telegrafia e administrativo; noções de
química direito público, iluminação aula: desenho arquitetura
inorgânica; direito militar, elétrica da geográfico, civil e militar,
aula: desenho análise da defesa das redução de desenho de
topográfico, Constituição do praças, noções cartas. arquitetura,
topografia e Império; aula: de mineralogia, execução de
reconhecimento geometria geologia e projetos.
do terreno. descritiva, planos botânica,
cotados e sua artilharia e
aplicação ao minas militares;
desenfiamento das aula: desenho de
fortificações fortificação e
militares. das máquinas de
guerra

O ensino prático era dividido em três categorias: 1) instrução geral militar (para
todos os alunos); 2) instrução especial das armas; 3) instrução complementar. Abarcava
assuntos como: limpeza de armas portáteis, marchas, acampamentos, passagens de rio,

146
CASTRO, Celso. Op. Cit. p. 50.
147
Quadro feito com base no regimento de 1874 que pode ser localizado nas Ordens do Dia do mesmo
ano, no Arquivo Histórico do Exército.

59
esgrima de espada, natação, entre outros.148 Apesar de abarcar muitas atividades esse
currículo prático não teve muita proeminência, sendo sufocado pelo ensino teórico.
O currículo da Escola Militar permite visualizar o tipo de militar que o
Exército procurava formar. Voltado para o caráter tecnológico e científico, formou
engenheiros mobilizados pela ideia de uma nação “civilizada,” a partir da transformação
do espaço urbano, muito mais do que pela prática de exercício militar. Tendência
absorvida por Ribeiro que, quando governador do Amazonas (1892-1896), implementou
uma política de embelezamento da cidade de Manaus, que possibilitou a construção de
muitas obras importantes na cidade, como o Teatro Amazonas. Ou seja, havia uma ânsia
de modernizar o Brasil.
Essa profissionalização do Exército e a ênfase dada ao ensino teórico, que
acabava por diferenciar esses estudantes do restante do Exército, foi motivada e ganhou
intensidade também a partir da inserção de novas ideias na instituição. Por terem
formação técnica em engenharia, davam a devida importância à indústria e aos novos
métodos de transporte, especialmente as ferrovias. 149
Essa geração foi exposta a um “dogma científico que desafiava toda a estrutura
de privilégio existente na política (monarquia), na economia (escravatura), na religião (a
Igreja Católica oficial) [...]”.150 Baseados ainda nas discussões sobre evolucionismo,
darwinismo e materialismo, esses jovens exaltavam a ciência, “atribuindo-lhe o poder
de solucionar todos os problemas do homem e da sociedade”. 151 Ideias com que
Eduardo Ribeiro já havia tomado contato em São Luís, dado o seu envolvimento no
jornal O Pensador, como vimos no capítulo anterior.
A partir da década de 1870 as turmas de oficiais entraram em contato com o
agnosticismo, com a exaltação à ciência, com discussões sobre dinâmicas políticas e
sociais e proclamavam-se abolicionistas, positivistas e republicanos. A Escola Militar
da Praia Vermelha fora invadida pelo positivismo 152, difundido pelo seu mais conhecido

148
MOTTA, Jehovah. Op. Cit. p. 199 – 200.
149
SCHULZ, John. O Exército na política. Origens da Intervenção Militar (1850-1894). EDUSP: São
Paulo, 1994. p. 31.
150
SKIDMORE, Thomas. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1976. p. 29.
151
MOTTA, Jehovah. Formação do oficial do exército: currículos e regimes na Academia Militar, 1810-
1944. Editora Companhia Brasileira de Artes Gráficas, 1976, p. 187-188.
152
O Positivismo é uma doutrina filosófica que teve como idealizador Auguste Comte (1798-1857). Tem
como principal característica uma filosofia da história que se baseia na lei dos três estados. De acordo
com esta lei o entendimento humano precisa passar por três fases: a teleológica, a metafísica e a positiva.
Como ponto de partida, na primeira fase o ser humano explica a realidade a partir dos agentes
sobrenaturais. Já a fase de transição, o estado metafísico, o ser humano usa de argumentos abstratos para

60
professor, Benjamim Constant, um dos membros fundadores da Sociedade Positivista
em 1876 e por quem os jovens militares tinham grande fascínio e respeito.
Jehovah Motta, em seu conhecido estudo sobre a Escola Militar, atribui a
Benjamin Constant a adesão que o positivismo teve nesse meio. Segundo ele, a partir de
1850 alguns professores e alunos já haviam descoberto as formulações matemáticas de
Comte, mas é só com a chegada de Constant, em 1872, que o comtismo ganhou outros
contornos. A partir daí, “além das formulações sobre a filosofia da matemática, foram
tomando corpo também as definições comteanas nos campos da filosofia da história e
da sociologia”. 153
Marcada profundamente por essa doutrina, a geração de 1870, não se ateve ao
que no positivismo havia de religião, mas sim ao “que se poderia chamar [de uma]
concepção positivista da vida”.154 No Brasil, o positivismo ganhou espaço com as
ciências aplicadas, o que justifica sua grande aceitação por parte dos alunos da Escola
Militar.
Brasileiros que estudavam matemática e engenharia no Rio, por volta
de 1860, ouviram de seus professores que as doutrinas filosóficas de
A. Comte eram a aplicação lógica da ciência à sociedade. Tais ideias
levaram muitos ao positivismo; e numerosos dentre esses, diplomados
da Escola Militar e da Escola Politécnica, vieram tornar-se eminentes
oficiais e engenheiros do exército. 155

Essa incorporação do positivismo no meio militar aconteceu, sobretudo porque


“os militares tinham formação técnica, em oposição à formação literária da elite civil, e
sentiam-se fortemente atraídos pela ênfase dada pelo positivismo à ciência, ao
desenvolvimento industrial”. 156
Outro tema importante do positivismo é a classificação das ciências. Nela uma
escala se inicia a partir de um objeto simples em direção a um objeto mais complexo:
“matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia”. A sociologia seria
dividida em sua dimensão estática na qual se visualizavam as condições constantes da

explicar sua realidade, ao invés do sobrenatural. E, finalmente, a fase positiva seria a etapa definitiva no
qual o sobrenatural e os argumentos das fases anteriores seriam substituídos pela observação. A passagem
pelos três estados era considerado por Comte como “a consequência inevitável de uma lei histórica
necessária”.
153
Idem, p. 188.
154
COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à república: momentos decisivos. 8.ed. São Paulo: Fundação
Editora UNESP, 2007. p. 418.
155
SKIDMORE, Thomas E. Op. Cite. p. 28.
156
CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. Sã Paulo:
Companhia das Letras, 1990. p. 28

61
sociedade (ordem) e na dinâmica social (progresso). Dessa forma, era entendida como o
objeto que permitiria a totalização do saber. 157
O fato de o Positivismo ganhar forte adesão na Escola Militar é justificado pela
importância que a doutrina dava ao método científico e ao ensino da matemática,
aspecto que se inseria no âmbito de um projeto de reforma social no qual a
“reorganização intelectual ocupava um lugar estratégico”158, já que seria a ciência a se
encarregar de conduzir as sociedades até o estado positivo.
Como dito anteriormente, é dada muita importância à pessoa de Benjamin
Constant para a disseminação das ideias positivistas na Escola da Praia Vermelha. O
próprio Constant teve contato com a doutrina na metade de seus estudos na Escola
Militar, fato que teria ocorrido por volta de 1856. Os caminhos que o levaram ao
Positivismo são pouco conhecidos, mas, sem dúvida, ele a tomou como doutrina
159
norteadora da sua vida, seja como professor ou como cidadão. Benjamin Constant
tornou-se professor da Escola Militar em 1872, como coadjuvante do curso superior. No
final de 1873 presta o concurso e é classificado em 1º lugar para o cargo de repetidor.
Quando da criação do Clube Acadêmico Positivista, 160 em 20 de maio de 1879,
por alunos da Escola Militar da Praia Vermelha, Benjamin Constant foi homenageado e
convidado para sócio honorário. Os alunos o “convocavam a assumir suas
responsabilidades como ‘guia’ daquela juventude na reorganização da sociedade
brasileira, conforme a perspectiva de reforma social apresentada pelo Positivismo.” 161
Isso sugere, segundo Renato Lemos, que os alunos da Escola “alimentavam uma
expectativa messiânica” em relação a Constant. 162 Agindo como uma ferramenta de
mobilização social para esses alunos, o Positivismo refletia as ânsias simbólicas dessa
juventude que queria um novo mundo.
Era, sem dúvida, admirado pelos alunos. Alexandre Leal, ex-estudante da
Escola Militar afirmava que o Dr. Benjamin Constant não fazia propaganda de suas
ideias políticas em sala de aula. Era apenas um professor, dava sua aula e nada mais.
Ainda segundo ele, as aulas de Constant, no período em que esteve na Escola (por volta

157
CASTRO, Celso. Op. Cite p. 64
158
LEMOS, Renato. Op. Cite, p. 36
159
LEMOS, Renato. Op. Cite. p. 40-43
160
Uma das lideranças desse clube foi Lauro Sodré. Natural do Pará ingressou na Escola Militar em 1877,
ao longo do curso sustentava-se com aulas particulares de matemática, além de se ocupar com os clubes e
eventos estudantis e, quando de volta para o Pará, lutou contra católicos e monarquistas nos jornais A
Província do Pará e Diário de Notícias. (ALONSO, 2002, p.131)
161
LEMOS, Renato. Op. Cite. p. 265
162
Idem. p. 266

62
de 1885) eram de tarde e ele chegava com outros professores em escaler que partia de
Botafogo.

[...] dirigia-se imediatamente para o gabinete de Física e Química


onde mudava o paletó pela sobrecasaca de Tenente-Coronel de Estado
Maior e encaminhava-se para a sala de aula, em anfiteatro, onde já o
esperava o Cap. Tromposky seu assistente e repetidor da Cadeira. O
Dr. Benjamin Constant dava Analítica pelo compêndio de Augusto
Comte, o Capitão Tromposky encarregava-se do Cálculo, outra parte
da Cadeira. 163

Outro ex-aluno da Escola Militar, Luís Arthur Lopes, ingressante em 1889, diz
ter sido Benjamin Constant uma pessoa que contagiava a todos.

Desde que entramos, já encontramos um ambiente de grande


admiração e respeito, mercê de seu grande saber, modéstia e notável
caráter. Como professor era completo, claro, preciso, sem rodeios; não
se limitava apenas a dar programa escolar, pois fazia empenho para
que os alunos aprendessem de fato o que ministrava. Era um espírito
superior, um homem de valor, símbolo de uma geração, orgulho da
classe que tanto dignificava. 164

Os depoimentos desses dois ex-alunos nos mostram que a postura de Benjamin


Constant em sala de aula era eminentemente curricular. O fato de Benjamin Constant ter
sido escolhido pelos alunos para ser o “guia em direção ao novo”, pode ser justificado
por alguns requisitos que Constant preenchia. O primeiro era o fato de ter uma
mensagem para lhes transmitir, que era “essencialmente existencial”. Como vimos
através dos relatos acima, ele não era um “homem engajado nas lutas político-
partidárias”; sua atuação acontecia dentro da sala de aula e constituía-se de uma
atividade eminentemente intelectual. Nesses termos, ele era muito respeitado como
professor e matemático. 165 Benjamin Constant também ganhou a admiração e o respeito
de Eduardo Ribeiro como intelectual positivista.
A proposta positivista atraiu os alunos em três pontos principais: Primeiro, a
importância que a doutrina dava à matemática e ao conhecimento científico; segundo, a
oposição que fariam aos bacharéis em Direito, que representariam o “estágio
metafísico”, aquele a ser superado e, terceiro, o lugar de destaque que assumiriam

163
LEAL, Alexandre. Reminiscências. Revista do Clube Militar nº50, 1939, p. 42-43.
164
LOPES, Luís Artur. Eu fui cadete da Escola Militar da Praia Vermelha de 1889, Revista do Clube
Militar, abr. 1961, p. 37-44.
165
LEMOS, Renato. Op. Cite. p. 274

63
quando da chegada do “estágio positivo”, momento em que se constituiria a nova “elite
científica”. 166
Mas, como era de se imaginar, os alunos da Escola Militar não formavam um
grupo homogêneo e muito menos os professores, entre os quais muitos não se
vinculavam ao positivismo. Caracterizando-se por um ambiente intelectual heterogêneo,
a única característica que os unia era o apreço pelo cientificismo. Dessa forma, a Escola
foi também um ambiente de disseminação das doutrinas evolucionistas, do Darwinismo,
da filosofia de Spencer e do evolucionismo alemão de Haeckel. O mais importante para
esses jovens não eram as doutrinas, tal qual eram pregadas, mas o espírito que delas
emanava.
Um dos pontos em comum dessas doutrinas seguidas pelos alunos da Escola
era a oposição à metafísica e a renúncia ao catolicismo. A maioria dos alunos era de
ateus ou agnósticos. Mesmo a Religião das Humanidades, pregada por Comte, não
reconhecia a existência de um deus ou de entidades sobrenaturais, tratando-se
exclusivamente de um sistema moral.
Como vimos no capítulo anterior, isso não era exclusivo dos ensinamentos
veiculados na Corte. Os jovens maranhenses também se articularam contra a Igreja
Católica e vincularam suas ideias anticlericais em jornais. No caso de Eduardo Ribeiro,
a ida para a corte teria alargado os laços e o conhecimento já adquiridos em São Luís.
Daí talvez a sua escolha por ingressar na Escola Militar. Ou seja, a escolha certamente
não foi feita de forma aleatória.
Mas se não havia um culto religioso, havia muitas comemorações cívicas
mobilizadas pelos alunos, que relacionavam-se a “vultos importantes”, como a festa
pelo tricentenário de Camões e a recepção a Carlos Gomes, quando de sua volta ao
Brasil. Assim, mais uma vez, o culto explica-se pelo ideal positivista que substituía o
167
culto às divindades sobrenaturais pelo culto aos “homens ilustres”.
Muitos dos alunos que fizeram parte da geração 1870-1880, que Celso Castro
chamou de “Mocidade Militar”, tornaram-se parte ativa no movimento abolicionista na
década de 1880, acompanhando uma onda de desenvolvimento da campanha
abolicionista que acontecia em todo país. As categorias de Comte davam instrumento
para que os estudantes da Escola Militar questionassem a monarquia e a escravidão. A
luta dos positivistas contra a escravidão tinha como base a sua interpretação do Brasil.

166
CASTRO, Celso. Op. Cite. p. 67.
167
CASTRO, Celso. Op. Cite. p. 75

64
Isso porque para eles a escravidão no Brasil seria fruto do sistema colonial baseado na
escravização de africanos, dinâmica pela qual a Igreja Católica seria corresponsável.
A escravidão colonial seria a transposição “aberrante” para o fim do
estado metafísico de uma instituição própria ao estado teológico.
Situação agravada por sua conversão a uma base racial – ausente na
servidão antiga. Assim, embora amparada por leis e instituições, a
situação de anomalia da escravidão brasileira parecia aos positivistas
abolicionistas definitivamente merecedora de “reprovação filosófica”.
168

Para eles, a escravidão era um câncer que impedia a sociedade brasileira de


seguir seu rumo até a fase positiva e somente a abolição poderia fazer o Brasil transitar
do mundo feudal para o capitalismo. Como acreditavam num progresso da atividade
econômica, apenas a abolição possibilitaria o declínio de um padrão econômico agrícola
para a emergência de um padrão industrial urbano. Esses positivistas abolicionistas
eram radicais e, diferentemente dos liberais republicanos, que defendiam a abordagem
emancipacionista (abolição gradual), eles defendiam o fim imediato, sem indenização
dos proprietários. A escravidão era antes de tudo imoral, por isso o prejuízo econômico
ficava em segundo plano. 169
Quando se trata da participação do Exército na campanha abolicionista,
sabemos ela que se deu desde o início de suas discussões. O jornal Tribuna Militar,
intitulando-se “órgão das classes militares”, de 28 de julho de 1881, publicou uma nota
intitulada “Escola Militar”. O texto informava ter acontecido no dia 23 daquele mês, nas
dependências da Escola, uma entusiástica festa abolicionista do Clube de Emancipação.
Segundo o texto, esse clube era um agrupamento de jovens inteligentes, que constituíam
um núcleo forte de atividades e que trabalhava pela regeneração da pátria brasileira.
Caracterizados como “homens do futuro”, eram moços que haviam se apossado “da
febre de ideias grandes e entraram na arena do pugilato social [...]”. 170 A festa havia
reunido quatrocentos convidados dos quais cento e cinquenta eram mulheres. Quem
abriu a sessão foi o então comandante da Escola Militar, o general Severiano da
Fonseca, que ainda durante o evento distribuiu cinco cartas de liberdade em nome do
Clube.
O evento ocorrido na Escola Militar não foi o único e seguia o sentimento
abolicionista existente entre os jovens militares, justificado pelas “ideias de progresso,

168
ALONSO, Angela. Ideias em Movimento: a geração 1870 na crise do Brasil-Império. São Paulo: Paz e
Terra, 2002. p. 213.
169
Idem. p. 250-251
170
Tribuna Militar, Rio de Janeiro, 28 de julho de 1881.

65
cientificismo e evolução presentes no universo cultural da ‘mocidade militar’”. Outra
organização abolicionista surgida no seio da Escola Militar foi a Sociedade Acadêmica
de Emancipação. Presidida por Jaime Benévolo, essa sociedade promovia a libertação
de escravos. A “Emancipadora”, como ficou conhecida, foi ainda uma das doze
sociedades que criaram a Confederação Abolicionista, em 12 de maio de 1883. 171
Importante salientar que o mestre desses estudantes, Benjamin Constant,
também era contra a escravidão. Em 1874 escreveu um projeto que tinha como objetivo
auxiliar o governo na libertação de escravos. Ainda nesse ano, expôs ao visconde do
Rio Branco, então presidente do Conselho dos Ministros, um plano especial para a
libertação de escravos no Brasil. Apesar de toda a iniciativa, as propostas não vingaram.
Não teve uma ação direta no movimento abolicionista mas, por ter recebido em 1887 o
título de sócio honorário da Confederação Abolicionista, indicava que sua posição
contra a escravidão já era conhecida e pública. 172
Além de abolicionista, a geração da Escola Militar que estamos analisando aqui
era republicana. Parece contraditório a atração por parte dos militares a uma versão
positivista da República visto que, de acordo com o positivismo, um governo militar
seria uma “retrogradação social” 173. Acontece que o republicanismo dessa geração era,
conforme Castro, “oriundo da valorização simbólica do mérito individual somada à
174
cultura cientificista hegemônica entre os alunos e jovens oficiais ‘científicos’”.
Como podemos observar, a Escola Militar não estava alheia às ideologias que
se construíram no contexto das últimas décadas do oitocentos, posicionando-se várias
vezes sobre temas políticos relevantes como o abolicionismo, a república e o fim do
Império. Alinhamento ideológico que Eduardo Ribeiro manifestaria anos depois em seu
governo do Amazonas.
Toda essa movimentação intelectual e científica na Escola foi importante para
a formação de uma elite política militar e intelectual em busca de espaços de poder,
tornando-se solução para uma nação imperial em crise, cuja elite dirigente abrigava
bacharéis de Direito, em sua maioria. Muitos dos engenheiros formados pela Escola
Militar foram, posteriormente, assumindo cargos políticos, como é o caso de Eduardo
Ribeiro, que se torna governador do Amazonas entre 1892-1896, e Marcos Franco

171
CASTRO, Celso. Op. Cit. p. 78.
172
Idem. p. 122
173
CARVALHO, José Murilo. A Formação das Almas: o imaginário da republica no Brasil. São Paulo,
Companhia das Letras, 1990. p. 28.
174
CASTRO, Celso. Op. Cite. p. 80.

66
Rabello, governador do Ceará entre 1912 e 1914, egresso da Escola Militar da turma de
1880.175
Mas, afinal de contas, qual era o perfil dos alunos que ingressavam na Escola
Militar? Qual sua origem social? Eduardo Ribeiro é um exemplo do perfil social dos
indivíduos que estudaram nas faculdades do Império na década de 1870? Angela
Alonso destaca dois perfis básicos: 1) os indivíduos de famílias socialmente bem
enraizadas, mas economicamente decadentes, que não vislumbravam perspectivas na
carreira e não encontravam seu lugar no Império e 2) os beneficiários da reforma
educacional de Rio Branco de 1874, que ascendiam socialmente através do ensino
superior. Segundo ela, “eram pobres relativos, de famílias sem recursos econômicos e
sem laços com a sociedade de corte [...], tinham ingressado a duras penas nas escolas
superiores, tendo de sobreviver de pequenos empregos nos anos de estudo”.176 O
primeiro continuou ingressando nas escolas tradicionais do Império (Direito e
Medicina), já o segundo grupo foram atraídos para as escolas politécnicas e militares.
O quadro a seguir é uma modificação da apresentação de dados levantados por
John Schulz, feita por Celso Castro, que nos mostra as três origens sociais que
compunham o Exército, em três períodos diferentes. No período de 1864-1889,
momento em que Eduardo Ribeiro frequentou a Escola Militar, podemos observar um
número significativo de alunos que tinha origem na “não-elite”, formada por pequenos
fazendeiros, funcionários públicos, oficiais subalternos etc.

Quadro 3: Origem social dos militares entre 1831-1889177


1831 - 1864 1864-1889 1889 – 1894
Elite178 85,5% 42,9% 35%
Talvez elite 9% 19,6% 22,5%
Não-elite 5,5% 37,5% 42,5%

O quadro apresentado mostra o aumento significativo, a partir da segunda


metade do século, de militares oriundos da “não elite”. Ainda sobre isso, José Murilo de
Carvalho diz que os “alunos vinham em geral de famílias militares ou famílias
175
Arquivo Histórico do Exército. Fé de Ofício de Marcos Franco Rabello: pasta nº IV-1-11.
176
ALONSO, Angela. Ideias em movimento – a geração de 1870 na crise do Brasil Império. P. 125.
177
CASTRO, Celso. Op. Cit. p. 26. O quadro foi feito com base nos dados presentes no livro de John
Schulz, Exército na Política (SCHULZ, 1994).
178
A elite aqui é entendida por John Schulz como aquela classe que participava da política e que poderia
permitir a estadia de seus filhos na Corte com bastante conforto. (SCHULZ, 1994, p. 28)

67
remediadas, quase nunca de famílias ricas, sua educação era técnica e positivista, em
179
oposição à formação jurídica e eclética da elite civil”.
Celso Castro procurou identificar quem eram os alunos que assinaram os
pactos de sangue (nome pelo qual ficaram conhecidas as manifestações de solidariedade
a Benjamin Constant, dias antes da Proclamação da República) e, a partir daí, tentou
mapear o perfil dos alunos da Escola Militar naquele período. Castro percebeu um
número considerável de pessoas de todo o Brasil atraídos pela Escola Militar. Com esse
resultado, concluiu que “o membro típico da ‘mocidade militar’ era oriundo do
‘Norte’180, tinha menos de 30 anos ao ser proclamada a república, e estudou na Escola
Militar da Praia Vermelha no período posterior a 1874 [...]”.181
A conclusão de Castro vai ao encontro do que observamos aqui através das fés
de ofício analisadas. Dos doze alunos que observamos, seis deles eram oriundos do
então conhecido “norte” do Império: Maranhão, Alagoas, Bahia, Pernambuco (dois
deles) e Ceará. Havia ainda representantes de Goiás, Santa Catarina, São Paulo e três do
Rio de Janeiro. Nitidamente a Escola Militar atraía os alunos de diversas províncias, que
pareceriam visualizá-la como uma estratégia para ganho de capital simbólico e, porque
não, de soldos que pudessem ajudar suas famílias. 182
E quanto à cor desses alunos? A historiografia mais tradicional que trata da
Escola Militar e do Exército é modesta em abordar o racismo na instituição. Essa
questão só aparece como problemática para a História mais recentemente. Outros
trabalhos também se preocuparam em perseguir vidas de homens de cor que
ingressaram nas Forças Armadas. Podemos destacar a vida de Joaquim José de
Mendanha, pesquisada por Letícia Rosa Marques. A carreira militar de Mendanha,
classificado como pardo, mostrou-se como uma estratégia para obter distinção social.
Como músico militar, enquadrou-se em um espaço que crescia, de bandas de música
dos regimentos, tendo em vista a chegada da Corte ao Brasil. 183
É certo que esses homens de cor também estavam inseridos na Escola Militar.
Esse é o caso de Eduardo Ribeiro. Oriundo de uma província do Norte, sem um nome

179
CARVALHO, José Murilo. A construção da ordem: a elite política imperial. Brasília: Ed.
Universidade de Brasília, 1981, p. 61.
180
O norte do Império do Brasil correspondia ao atual território do Norte e Nordeste do Brasil.
181
Idem, p. 31.
182
As fés de ofício analisadas nessa pesquisa foram consultadas no Arquivo Histórico do Exército.
183
MARQUES, Letícia Rosa. O maestro Joaquim José de Mendanha: música, devoção e mobilidade
social na trajetória de um pardo no Brasil oitocentista. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação
em História, PUCRS, Porto Alegre, 2017.

68
importante e pardo184, entrou no Exército ambicionando uma ascensão social. Veremos
a questão da cor desses indivíduos mais detalhadamente no capítulo 3.

O cotidiano dos alunos: para além dos muros da Escola

Se por um lado a ida de Eduardo Ribeiro para a Corte se deu de forma


diferenciada daquela de seu amigo Aluísio de Azevedo, como vimos no início do
capítulo, por outro, teria sido parecida com a de outros alunos da Escola que, como ele,
sabiam da importância de estudar naquela instituição. O deslocamento em direção à
Corte significava o envolvimento com uma cultura e com um “ritmo de vida”
diferenciados, quando, distantes da família, a convivência e as trocas de ideias com
alunos e professores tornavam-se suas principais referências.
Se não podemos resgatar as impressões pessoais de Eduardo Ribeiro sobre o
Rio de Janeiro e o cotidiano da Escola Militar da Praia Vermelha, vamos recorrer a
quem foi seu contemporâneo, José Bevilacqua. Colegas de instituição, Ribeiro e
Bevilacqua fizeram juntos, em 21 de junho de 1882 um exame de Álgebra, obtendo
resultados bem diferentes. Enquanto Bevilacqua não se saiu bem, recebendo reprovação
na matéria, Ribeiro recebeu a aprovação plena com grau 8. 185 Não sabemos muito da
relação entre ambos, mas aparentemente não foram indiferentes um ao outro. Quando da
posse de Eduardo Ribeiro como governador do Amazonas, em junho de 1892,
Bevilacqua recebeu, do gabinete do então governador, comunicado do ocorrido, com os
seguintes dizeres ao final: “Como particular podeis dispor dos meus serviços como for
186
de vosso agrado”. Bevilacqua continuaria suas relações com o estado do Amazonas
durante as primeiras décadas do século XX e que merecem ser investigadas. Mas, por
hora, voltemos à Escola Militar.
Bevilacqua chegou ao Rio de Janeiro em 14 de outubro de 1879. Nascido na
província do Ceará, tinha uma origem modesta, sendo sua mãe professora primária e seu
pai, encarregado de obras, que por vezes se via desempregado. Antes de ir para a Corte,
Bevilacqua tinha estudado os últimos anos em Belém, capital do Pará, lugar onde

184
A única fonte que encontramos, e que faz referência a cor de Eduardo Ribeiro, é a sua fé de ofício,
documento em que foi designado como pardo.
185
Museu Casa de Benjamin Constant, Fundo Benjamin Constant – Subsérie Alunos. Código de
referência: Esc.Mil.882.06.21.
186
Museu Casa de Benjamin Constant, Fundo José Bevilacqua – Série Correspondentes: Eduardo Ribeiro.

69
também fizera os estudos secundários e sentara praça, um dos requisitos para o seu
ingresso na Escola da Praia Vermelha. 187
Em uma das cartas enviadas à mãe, Mariana, Bevilacqua diz ter entrado em
contato com o pai para saber se havia a possibilidade de receber uma mesada, já que o
soldo de 3$000 não era suficiente para pagar roupa lavada e engomada, sapatos, roupas
e fardamentos, como camisas, ceroulas, coletes, meias e lenços. Sem falar no material
escolar como papel, pena e tinta de que tanto precisava. A preocupação de Bevilacqua
não era sem cabimento. A lista das peças de fardamento não era pequena. Os alunos
deveriam adquirir sobrecasaca de pano, blusas e calças de brim pardo, calças de brim
branco, calças de pano azul, gravata de couro, gravata de seda, pares de sapato e botina.
O que perfazia uma quantia significativa no orçamento dos alunos. 188
Além disso, pede dinheiro para aquisição de luz particular. Isso porque,
segundo ele, durante a noite só havia bicos de gás que não iluminavam suficientemente,
o que, provavelmente, dificultava seus estudos. Comenta ainda com a mãe que não
havia conseguido alunos, como o colega José Clarindo. Sua intenção era completar os
rendimentos através de aulas particulares, como faziam muitos alunos na época.
Enquanto não conseguia alunos continuava a depender da pequena quantia que os pais o
enviavam. Se uns davam aulas, outros alunos se transformavam em verdadeiros
camelôs, “vendendo coisas, utensílios, etc., para obterem algum dinheiro extra”. 189 Para
resolver seu problema financeiro, Bevilacqua cogita na carta pegar um empréstimo com
seu tio Thiago para conseguir sanar as despesas com transporte e colchão. 190
A situação não parecia das melhores naqueles primeiros anos longe de casa
para o jovem Bevilacqua. Em uma das cartas enviadas por sua mãe, ela o adverte sobre
os passeios que fazia de bonde. Para ela não seria um problema tal distração se “por
ventura suas posses fossem suficientes”. Tendo em vista sua situação financeira
precária, “as repedidas viagens a bonde no fim do mês perfaz uma soma crescida e a pé,
gasta muito sapato e para você tudo faz diferença”. 191 Economias precisavam ser feitas.

187
CASTRO, Celso. Op. Cit. p. 33.
188
Arquivo Nacional, Fundo: Série Guerra - Escolas, IG3 – 15. Repartição do Quartel Mestre General.
Tabela comparativa dos preços do fardamento atual dos alunos da Escola Militar.
189
LOPES, Luís Arthur. Eu fui cadete da Escola Militar da Praia Vermelha de 1889. Revista do Clube
Militar, abr.1961, p.37-44.
190
Museu Casa de Benjamin Constat, Fundo José Bevilacqua – Série Correspondência familiar: Mariana
Belivacqua (19 de fevereiro de 1880)
191
Museu Casa de Benjamin Constat, Fundo José Bevilacqua – Série Correspondência familiar: Mariana
Belivacqua (27 de janeiro de 1881)

70
Em outra carta, de 20 de abril de 1881, recomenda ao filho que pedisse
proteção ao tio Thiago para entrar no curso a fim de obter a proposta de alferes e, dessa
forma, não precisar mais da sua mesada, visto que a família estava “indo de mal a
pior”.192 Não temos informações sobre o tio Thiago, nem de sua influência sobre o
jovem Bevilacqua. O que nos importa nas ponderações de D. Mariana Bevilacqua é a
preocupação de que o filho se tornasse logo alferes aluno, fato que só se daria no início
de 1885. O grau de alferes aluno possibilitaria a emancipação financeira do filho,
permitindo até que pudesse ajudar a família no Ceará.
Se a vida financeira para alguns dos alunos não era fácil, a distância da família
comprometia ainda mais a situação. Com o ingresso na Escola, esses jovens acabavam
tendo como referência apenas uns aos outros e os professores com que conviviam
diariamente, porque passavam a viver em regime de internato, com alojamentos e
refeições compartilhadas. As aulas começavam ainda na primeira semana de janeiro e a
Escola recebia um número significativo de estudantes. Em 1879, a Escola iniciava o ano
com 350 estudantes, entre os matriculados no curso superior e no curso preparatório.193
O programa de distribuição dos trabalhos teóricos e práticos dos alunos, no
triênio 1880-1882, nos permite ter acesso a uma rotina milimetricamente elaborada.
Com aulas de segunda a sábado, das 9h às 18h, os alunos tinham apenas os domingos
194
livres para recreação, após as 8h. Antes disso tinham de comparecer à missa. O
asseio e o café deveriam ser feitos entre 5h e 6h, das 8h às 8h30 acontecia o almoço.
Somente às 9h era dado início às aulas, momento em que cada aluno encaminhava-se
para o curso correspondente. Às 10h30 havia uma parada para o descanso de 1 hora,
retomando às atividades às 11h30. Às 14h havia o jantar, que durava meia hora. As
aulas eram restabelecidas às 16h e só terminavam às 18h. Os alunos ceavam às 18h30 e
realizavam estudos livres de 19 até as 22h, momento em que, finalmente, deveriam
fazer silêncio e deitar-se para que a rotina reiniciasse no dia seguinte.
De início os alunos tinham uma espécie de rito de passagem, momento em que
“suas roupas civis eram trocadas por um uniforme, sendo-lhe atribuídos um nome-de-
guerra e um número”.195 Havia ainda o trote muito famoso entre os alunos, uma tradição
aplicada, claro, pelos alunos veteranos. Chamado de “período bichal”, os três primeiros

192
Museu Casa de Benjamin Constat, Fundo José Bevilacqua – Série Correspondência familiar: Mariana
Belivacqua (20 de dezembro de 1881)
193
Arquivo Nacional, Fundo: Série Guerra - Escolas, IG3 – 15.
194
Arquivo Nacional, Fundo: Série Guerra - Escolas, IG3 – 15. Programa de distribuição dos trabalhos
teóricos e práticos dos alunos desta Escola no triênio de 1880 – 1882.
195
CASTRO, Celso. Op. Cit. p.. 34

71
meses eram o momento em que o novato “era sistematicamente submetido a situações
humilhantes, com as quais deveria resignar-se”196. Segundo Luis Arthur Lopes, que
ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha em 1889 e que rememora décadas depois
sua passagem na Escola, o bicho (como era chamado esse novo aluno), “só tinha direito
a não ter direito a nada”. Entre as situações humilhantes, eram dadas aos “bichos”
ordens “vexatórias e impossíveis” de serem realizadas. Essas ordens tinham como
intuito “confundi-los, obrigando-os a inúmeros recursos de inteligência e habilidade
para contornar as situações sem desobedecer aos veteranos.”197
Com base em textos autobiográficos de ex-alunos, Celso Castro diz que eles
enfatizavam que não havia ofensas pessoais e que não sofriam por serem “fulano de
tal”, mas por estarem em “condição de bicho”. Dessa forma, o trote era considerado
como um momento de socialização entre alunos sem considerar “atributos de distinção
198
social da vida dos novatos antes do ingresso na Escola”. Passados os três meses,
ainda segundo Lopes, estabelecia-se a harmonia entre bichos e veteranos e:
[...] não se pensava mais nisso, mesmo porque passavam a prevalecer
mais intensamente as obrigações da vida escolar e as instruções
práticas, que tinham muito a nos preocupar, pois os professores e
instrutores não eram de brincadeira: eram exigentes, competentes e
muito respeitados.199

Mas nem só de estudos viviam os alunos. Apesar de a Escola Militar ter à


época uma localização de difícil acesso e com escasso transporte, havendo, muitas
vezes, que se fazer o percurso a pé, os jovens cadetes também buscavam seus momentos
de lazer. Dentre essas atividades se destacavam os piqueniques nos morros da Urca e
Babilônia, passeios a cavalo até a praia de Copacabana ou mesmo passeios de barco e
pescarias. Tinham ainda idas ao teatro e serenatas que aconteciam no bairro de
Botafogo. 200
Os laços entre os alunos ainda podem ser identificados através das sociedades,
sejam elas científicas, filosóficas, artísticas ou literárias criadas por eles. Entre 1874-
1889 existiram, mesmo que não de forma contínua as seguintes sociedades: “Fênix
Literária”, “Recreio Instrutivo”, “Amor à Tribuna”, “Clube Acadêmico”, “Família

196
Idem. p. 34.
197
LOPES, Luís Arthur. Eu fui cadete da Escola Militar da Praia Vermelha de 1889. Revista do Clube
Militar, abr.1961, p.37-44.
198
CASTRO, Celso. Op. Cite. p. 35.
199
LOPES, Luís Arthur. Eu fui cadete da Escola Militar da Praia Vermelha de 1889. Revista do Clube
Militar, abr.1961, p.37-44.
200
CASTRO, Celso. p. 37.

72
Acadêmica” e “Sociedade Dramática”. A Fênix, como o nome já diz, trazia publicações
essencialmente literárias; “O Recreio Instrutivo” destacava-se pela biblioteca com
centenas de livros muito “consultados pelos alunos pobres”. Já o “Clube Acadêmico”
promovia sessões para a comemoração de fatos e personalidades nacionais e
internacionais e conseguiu manter entre 1881 e 1888 a Revista do Clube Acadêmico.201
A socialização desses alunos, que acontecia muito além das quatro paredes da
sala de aula e dos muros da Escola Militar, foi importante para a construção da
mentalidade característica desse grupo de novos cientistas e para a construção de laços
afetivos e políticos.

Desempenho Escolar e a meritocracia

Nas primeiras décadas do século XIX, o Exército não possuía uma unidade
interna e a organização dos postos e da hierarquia era feita com base nas relações
pessoais que os indivíduos estabeleciam, na maioria dos casos por razões de
nascimento.202 Isso só mudaria na década de 1850, com as reformas que aconteceram
para ingresso e promoção dentro da instituição.
Essa mudança no Exército brasileiro, que passou a considerar o talento
individual, teve origem na “reforma da lei de promoções feita pelo ministro da Guerra,
Manuel Felizardo de Sousa e Melo, em 1850”, e se opunha à lei de recrutamento dos
quadros militares, criada em 1824, que permitia a promoção a partir de avaliações
subjetivas. Para que esses jovens acreditassem nas possibilidades de ascensão social
foram dadas as ferramentas necessárias para adotarem esse horizonte de desejo. Uma
delas foi a construção do discurso da meritocracia, desenvolvido pelo Exército e
materializado na lei de promoções de Manuel Felizardo. Como sabemos, o discurso
meritocrático vende a ideia de que só é possível alçar degraus dentro da hierarquia
social aqueles que se esforçam e se mostram capazes para tanto. Naquele momento era
um princípio que premiava os mais aptos, partindo da premissa de que ser capaz era um
valor em si, que dependia apenas da capacidade dos indivíduos. Ou seja, todos partiriam
das mesmas condições, possuíam as mesmas oportunidades e possibilidades, sejam elas
financeiras ou intelectuais.

201
CASTRO, Celso. Op Cit. p. 59-60
202
SOUZA, Adriana Barreto de. O Exército na Consolidação do Império. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 1999. p. 182

73
Dessa forma, o Exército começou a aumentar a importância dos esforços que
esses alunos e oficiais envidavam dentro da instituição em detrimento de fatores
externos. Isso significa que fatores como a origem social, apadrinhamento político e
laços de parentesco teriam sua importância diminuída dentro da instituição. Importante
destacar que esse discurso meritocrático não foi exclusivo da Escola Militar. Ele
expressava um fenômeno social que já era observado em muitos outros Exércitos
ocidentais.
Como estamos tratando aqui de um sistema escolar, o mérito dos indivíduos
era medido pelo desempenho intelectual que demonstravam durante as aulas do curso.
Dessa maneira, com a nova lei, racionalizava-se o sistema de promoções, impedindo a
promoção motivada por questões políticas. 203
Com isso, cada vez mais o espírito do oficialato- sua identidade social
– deixou de estar referido a um espírito de classe aristocrático e
passou a centrar-se na própria instituição. A hierarquia da instituição
militar tendeu a desvincular-se da hierarquia social. Se, nos exércitos
pré-modernos, o corpo de oficiais estava “ancorado” na sociedade em
virtude de sua origem aristocrática, com a profissionalização,
desenvolveu um ethos específico. Tornou-se dessa forma, um grupo
profissional dotado de relativa autonomia em relação ao restante da
sociedade. A aristocracia de berço foi progressivamente substituída
pela aristocracia do mérito, aferido através da educação.204

A lei funcionava como mais um incentivo para os estudos já que determinava


que os oficiais da engenharia, artilharia e estado-maior concluíssem o nível universitário
da respectiva arma. Aqueles que não tinham diploma eram transferidos para a infantaria
e para a cavalaria. A lei estabeleceu ainda requisitos mínimos de educação e tempo de
serviço, o que significou uma modificação no perfil social da oficialidade. Importante
salientar que esse novo perfil na composição do Exército, não se caracteriza pela
inserção dos segmentos mais pobres da sociedade. Estamos falando de um aluno com
pequeno capital social, embora raramente de família nobre. 205 Os segmentos mais ricos
eram atraídos pelas escolas de Direito e de Medicina, já que o salário do oficialato não
era dos mais atraentes.
Se havia uma lei de promoções baseada no mérito, havia um regulamento para
sua execução, que foi aprovada em 6 de setembro de 1850. As qualidades que
constituíam merecimento militar eram: subordinação, valor, inteligência, zelo,

203
CASTRO, Celso. Op. Cit. p. 27
204
Idem. p. 19.
205
SCHULZ, John. Op. Cit. P. 27 - 29

74
instrução, disciplina militar e bons serviços prestados na paz ou na guerra. Essas
qualidades seriam averiguadas nos seguintes documentos: fés de ofício, títulos e
diplomas científicos, relações semestrais de conduta, nas ordens do dia dos
comandantes e em livros especiais de registro dos comandantes dos corpos, armas e
presidentes de província.
O ingresso no Exército parecia ser uma brecha para os jovens menos abastados,
que viam na instituição a possibilidade de galgar uma posição diferenciada na hierarquia
social. Apesar dessas mudanças, Celso Castro diz que esses oficiais “científicos” não
tiveram privilégio dentro do Exército. Não houve uma valorização da performance
acadêmica e nem ampliação de unidades e vagas que pudessem absorver esses
profissionais. Dessa forma, muitos desses engenheiros acabaram exercendo funções
burocráticas ou dedicaram-se ao magistério206. Esse último era o caso de Ribeiro que,
em abril de 1887, passou a exercer interinamente o cargo de Diretor da Escola
Regimental, em Belém do Pará, cargo que deixou em primeiro de julho do mesmo ano,
visto que precisava juntar-se ao seu batalhão em Manaus207.
Nas 12 fés de ofício que usamos como amostra, para fins comparativos com a
fé de ofício de Eduardo Ribeiro, é possível perceber o esforço daqueles jovens para
serem aprovados no curso. Como dito anteriormente, o curso de ciências físicas e
matemáticas não era fácil, tendo em vista o grau de exigência científica dessas
disciplinas. Mesmo assim, os alunos observados tiveram um bom desempenho
acadêmico, sendo, em sua maioria, aprovados nas disciplinas.
A vida acadêmica de Eduardo Ribeiro durante o curso na Escola Militar foi
excepcional. Foi aprovado em todas as disciplinas, muitas delas com o grifo
“plenamente”. O desempenho acima da média de Ribeiro pode ter entre suas
motivações o Art.104, da seção VII, do Regimento de 1874. Tal artigo previa que os
alunos do 3º ano com aprovações plenas receberiam as vantagens de 1º sargento e
continuariam a receber os vencimentos mesmo que recolhidos aos seus respectivos
corpos. Isso significa que muito provavelmente Eduardo Ribeiro tenha se esforçado
bastante para o bom desempenho no curso, a fim de obter os vencimentos que o
206
CASTRO, Celso. Op. Cit. p. 44
207
O Jornal do Comércio do Rio de Janeiro anunciava, no dia 20 de janeiro de 1887, que, a fim de se
juntar ao seu batalhão, Eduardo Ribeiro partiria no paquete nacional Espírito Santo em direção ao Pará.
Por ordem da Presidência da Província do Pará, em 1º de março do mesmo ano, foi mandado juntar-se ao
4º Batalhão da mesma arma, em Belém do Pará, sendo essa a sua primeira passagem pelo Norte. Em 6 de
abril de 1887, é nomeado interinamente diretor da escola regimental e, em 2 de agosto de 1887, é
desligado do batalhão onde servia em Belém para que se reunisse ao 3º Batalhão de Artilharia a Pé em
Manaus.

75
ajudariam a se manter na Corte e, talvez, ajudar sua família no Maranhão. Eduardo
sempre manteve o contato com o Maranhão. Antes da sua ida para Manaus deu uma
rápida passada por São Luís. Em pequeno texto publicado no jornal Pacotilha, ele
agradecia a recepção e afirmava que, em qualquer lugar onde fosse, estaria sempre
208
pronto para servir seus amigos. Em 1882, foi aprovado solenemente nas disciplinas
de aritmética, álgebra e trigonometria, concluindo assim o curso preparatório. Nesse
ano, ainda seria nomeado sargenteante em 24 de janeiro, sendo dispensado dos serviços
a 26 de julho, por ter completado com bom aproveitamento o tempo desse serviço
exigido por lei. Em 24 de fevereiro, foi louvado pelo bom serviço, de que foi incumbido
de desempenhar durante o carnaval.
Nos anos seguintes, seu desempenho escolar se manteve excepcional. Em 1883
recebeu distinção grau 10 na primeira cadeira, concluindo o curso de Infantaria e
Cavalaria. Além do esforço nos estudos, Ribeiro fazia ótimos serviços extraclasse,
culminando no recebimento de vários elogios (inteligente, leal, honesto) pelo
comandante de sua ordem.209 Parece que Eduardo Ribeiro esforçava-se para que sua
estadia na Corte não passasse despercebida.
Em 1884, através do decreto de 12 de janeiro, é finalmente nomeado alferes
aluno, um dos títulos mais ambicionados pelos alunos, somente concedido àqueles que
obtivessem aprovação plena em todas as disciplinas durante dois anos da Escola Militar,
inclusive em desenho e nos exercícios práticos. Dessa forma, o princípio do mérito se
materializava no título de “alferes aluno”. 210
Como vimos, alcançar o posto de alferes aluno também resultava em um
aumento de seus ganhos e de modo muito significativo, já que o soldo passava de 3$000
para 70$000, chegando a 120$000 no último ano do curso. 211
A Escola Militar representou, no Império, uma rara possibilidade de
ascensão social para pessoas que não pertenciam à elite tradicional e
cujas famílias não podiam custear cursos superiores nas faculdades de
direito e medicina; a Escola Naval também era inviável, pelo
caríssimo enxoval que o novo aluno precisava adquirir – um filtro
social. Muitas vezes, encontramos nas memórias de ex-alunos o
reconhecimento de que seguiram para a Escola Miliar mais por
necessidade que por vocação. O ingresso na carreira militar e a
ascensão por mérito, concretizada no título de alferes-aluno,
representava assim, muitas vezes, a única possibilidade de ascensão

208
Pacotilha, São Luís - MA, 27 de fevereiro de 1887.
209
Fé de Ofício: pasta nº III-6-36-SAP-AHEx. Arquivo Histórico do Exército.
210
CASTRO, Celso. Op. Cit. p. 45
211
Idem. p. 47.

76
social aberta para esses jovens e um bem simbólico fundamental para
a construção de sua identidade social. 212

Receber o título de alferes aluno era motivo de orgulho para alunos, familiares
e conhecidos. A nomeação de Eduardo Ribeiro ganhou destaque no jornal maranhense
Pacotilha, de 1º de fevereiro de 1884. A nota de 4 linhas deixa bem evidente a alegria
com que os editores do jornal haviam recebido a notícia do seu “talentoso
comprovinciano”. Todos sabiam a importância que o título carregava. Com o
recebimento do título, Ribeiro deixava de ser um simples aluno da Escola. 213
No mesmo dia em que se tornou alferes aluno, Eduardo Ribeiro foi promovido
para a 1ª Companhia. Agora matriculado no terceiro ano do curso superior, segue para o
Realengo de Campo Grande, no dia 3 de março, para ingressar na bateria de artilharia
de alunos, regressando em 10 de agosto. Em 1885, fez parte da Comissão de
Engenheiros nos exercícios práticos gerais realizados na Imperial Fazenda de Santa
Cruz, tendo sido elogiado pelo seu bom serviço na referida comissão.
Até aqui, observamos o excelente desempenho de Eduardo Ribeiro. Ele parece
ter absorvido o discurso meritocrático do Exército. Afinal de contas, segundo ele, sua
ascensão dependeria de seus esforços. Por hora, valem os questionamentos: Até que
degrau na hierarquia militar, os alunos conseguiam chegar apenas através do mérito? O
fato de Eduardo Ribeiro ter ascendido dentro da instituição, até sua chegada ao governo
do Amazonas, seria uma excepcionalidade ou as oportunidades estavam sendo lançadas
pela sociedade e pelo estado naquele contexto?
A fé de ofício de Eduardo Ribeiro é repleta dos melhores elogios referentes à
sua personalidade e ao seu bom desempenho. Refiro-me às expressões “leal”, “zeloso”,
“inteligência”, “dedicação”. Essas palavras à primeira vista parecem apenas se referir às
qualidades do desempenho de Ribeiro nas atividades escolares., mas, se formos além,
poderemos ver que também fazem referência à posição social do elogiado.
A fé de ofício, mesmo sendo um documento oficial da instituição, tinha como
objetivo reunir todas as atividades do militar fossem elas boas ou ruins (prisões também
são mencionadas). O desempenho nessas atividades algumas vezes ganhava descrições
elogiosas, como no caso de Eduardo Ribeiro. Diante disso, é bom lembrar que a fé de

212
Idem, p. 48.
213
É bem provável que Eduardo Ribeiro tenha tido relações com os membros que compunham o jornal
Pacotilha. O mesmo surgiu na mesma época que jornal O Pensador e ambos recebiam contribuições de
Aluísio de Azevedo.

77
ofício e outros documentos administrativos eram analisados quando da ocasião de
promoção no Exército. Ou seja, essas palavras parecem estar se referindo às qualidades
que seriam inerentes ao tipo de militar que receberia a promoção a algum cargo.
Esses elogios foram dados pelo comandante do Batalhão em que Ribeiro havia
prestado serviços. Acredito que muito mais do que a relação com o mérito particular,
esses elogios tinham como objetivo reiterar as qualificações de Eduardo Ribeiro e, dessa
forma, articular um passe para que o militar alcançasse postos prestigiosos. Ou seja,
denotam uma forma de proteção e os laços que ele vinha construindo dentro da Escola
Militar.
O que parece, até aqui, é que havia uma ambiguidade na ideia de mérito. Num
primeiro momento, ela faz sentindo, pois se trata de um indivíduo “pardo”, de origem
pobre e que se destaca na Escola Militar por seus esforços e capacidade. Por outro lado,
os elogios podiam ser uma estratégia da própria instituição para promover seus
estudantes.
O discurso do mérito pode ser colocado em questão se analisamos outra fé de
ofício: a de Clodoaldo da Fonseca. De cor branca, era sobrinho de Deodoro da Fonseca.
Clodoaldo teve uma trajetória diferente da de Eduardo se compararmos suas fés de
ofício. Ingressou na Escola Militar em 1879, mas nos primeiros anos obteve muitas
reprovações, sendo ainda preso por várias vezes por faltas e perturbações.
Depois da reprovação em aritmética em 1883, tranca a matrícula e recolhe-se a
seu corpo em Mato Grosso. Depois, em 1885 tenta retomar ao curso na Escola Militar,
mas agora no Rio Grande do Sul. Não se forma engenheiro militar, conclui apenas o
curso de Artilharia. Apesar desse currículo não tão venturoso, Clodoaldo tornou-se
figura importante no movimento de quinze de novembro. A patente de capitão veio em
1890, mesmo ano em que é nomeado ajudante do chefe de governo. Mais tarde, se torna
governador de Alagoas, entre 1912 – 1915. Ao que parece, no caso de Clodoaldo, os
laços consanguíneos lhe deram proteção e consequentemente, cargos importantes.
Se Eduardo Ribeiro vinha construindo suas relações pessoais a partir da sua
entrada na instituição, vislumbrando galgar outras posições na hierarquia, podemos
inferir que Clodoaldo já havia saído em vantagem por conta da família em que havia
nascido. Seu currículo, se compararmos ao de Ribeiro, deixa a desejar, não funcionando
para Clodoaldo o princípio do mérito. Aqui, aparece novamente a ambiguidade da
meritocracia. O contexto em que essas trajetórias são construídas promovem as
capacidades do jovem Eduardo Ribeiro, sem apadrinhamento ou laços consanguíneos, e,

78
ao mesmo tempo, mantém a proteção através da velha ordem, no caso de Clodoaldo da
Fonseca. O que pretendo deixar claro com essas comparações é que o mérito não
igualava quanto à condição social, mas a condição social podia desqualificar o princípio
do mérito.
Para não ficarmos apenas nesses exemplos, já que a documentação de caráter
oficial da instituição, como as fés de ofícios e os regimentos, não nos dão indicações
precisas do favorecimento pessoal que ocorria dentro da instituição, é necessário utilizar
outras fontes que podem indicar percepções pessoais do que acontecia dentro do prédio
da Escola Militar.
Celso Castro diz que há cartas no arquivo de Benjamin Constant em que são
efetuados pedidos de “proteção” para alunos. Uma assinada por Duque de Caxias pedia
“benevolências” para com um parente nos exames. 214 Quando da ocasião para se tornar
alferes aluno, José Bevilacqua encaminhou uma carta a sua mãe explicando a aprovação
das matérias e a importância de ganhar o título de “alferes aluno” que, segundo ele, é
“uma promoção muito considerada no Exército, visto ser por lei e por estudos,
independentemente da vontade do ministro, que no outro caso promove aos
protegidos”215. A afirmação de Bevilacqua traz à tona o favorecimento de alunos para a
ascensão a cargos na Escola, muito aquém do pregado pelo discurso meritocrático do
Exército. É como se a instituição vivesse em dois regimes: um em que os indivíduos
ascendiam através de indicações e proteções; e outro em que o mérito funcionava e se
abria brechas para os que não possuíam esses favorecimentos.
Os escritos pessoais de Bevilacqua permitem perceber o que acontecia no
cotidiano da Escola Militar. Apesar de não termos mais dados sobre esses
favorecimentos, podemos supor que acontecessem. Certamente os alunos mais bem
relacionados poderiam receber proteção e cargos melhores. Em outra carta trocada entre
Bevilacqua e sua mãe, ela recomenda que o filho peça proteção ao seu tio Thiago para
entrar no curso a fim de obter a proposta de alferes e, dessa forma, não precisar mais da
sua mesada, visto que estavam “indo de mal a pior”.216 Não sabemos as relações que o
tio de José Bevilacqua tinha no Exército, mas podemos inferir a preocupação de
Mariana em ter alguém que intervisse pelo filho na Escola, ajudando-o a galgar outros
patamares dentro da instituição.

214
CASTRO, Celso. Op. Cit. p. 45.
215
José Bevilacqua, carta de 09/07/1884. Apud: CASTRO, Celso. Op. Cite, p. 45.
216
Museu Casa de Benjamin Constat, Fundo José Bevilacqua – Série Correspondência familiar: Mariana
Belivacqua (20 de dezembro de 1881).

79
Ernesto Seidl, em seu estudo sobre a formação da elite do Exército entre o
Império e a Primeira República, confirma esses favorecimentos. Para a investigação
proposta, o autor utilizou 56 trajetórias de generais gaúchos, cujo ingresso na carreira
aconteceu a partir de 1850. Através delas, Seidl observou o uso de recursos e estratégias
extrameritocráticas, “em especial o uso de relações baseadas na reciprocidade
pessoal”217, para ascensão na carreira.
O exame dessas trajetórias revela traços comuns com a de Eduardo Ribeiro.
Muitos dos generais gaúchos estudados por Seidl tinham uma forte proximidade com
oficiais dos primeiros postos da hierarquia. Isso significava que ocuparam, durante suas
carreiras, cargos burocráticos que permitiram o contato direito ou indireto com os
oficiais de alta patente. Se voltarmos à fé de ofício de Ribeiro, vamos perceber que
também ele ocupou espaços a partir de cargos que possibilitariam esse contato, como o
cargo de ajudante de ordens que exerceu em 1883, revelando chances objetivas de
progressão hierárquica na instituição. Ou seja, parece que Ribeiro impressionou seus
superiores e, dessa forma, conseguiu furar o cerco elitista. Se a ascensão de Eduardo
Ribeiro na instituição se deu por seus méritos, podemos considerar que foi um caso
excepcional dentro de uma norma de favorecimento pessoal.
Quando buscamos as trajetórias de outros estudantes dentro da Escola Militar,
percebemos similaridades com a própria trajetória de Eduardo Ribeiro. Parece ter
havido uma busca incessante pelo bom desempenho acadêmico. Os alunos acreditavam
no mérito como forma de galgar uma posição melhor dentro da instituição, culminando
em vigoroso esforço para se fazer notar na instituição, como é o caso de Ribeiro.
Entretanto, isso não significava que valores outros, que não os da meritocracia, não
tenham sido acionados para alçar degraus mais altos na instituição. Muito pelo
contrário. Parece que o mérito, ao estimular a mobilidade ascendente desses indivíduos
única e exclusivamente através de seus esforços, reforçava ainda mais a estratificação
dentro da instituição. A excepcionalidade de Eduardo Ribeiro possibilitou que fosse
notado por seus superiores e, dessa forma, construísse redes de sociabilidade e as
acionasse quando preciso.
Ribeiro sabia que uma trajetória acadêmica bem-sucedida auxiliaria sua
ascensão social, mas não seria o suficiente. Ancorado a isso, ele precisou galgar espaços
que o deixassem mais perto dos indivíduos que ocupavam os cargos mais altos dentro

217
SEIDL, Ernesto. Elites militares, trajetórias e redefinições político-institucionais (1850-1930). Revista
de Sociologia política V.16, nº30: 199-220 Jun, 2008.

80
da Escola Militar e do Exército. Afinal de contas, ele precisava ser notado e isso parece
ter sido possível através de seu ótimo desempenho acadêmico e dos bons serviços
prestados em cargos administrativos ocupados ao longo do tempo na Escola, momento
inclusive em que ele se destacou e recebeu elogios de seu comandante que, muito
provavelmente, ajudaram na conquista de suas promoções e, por que não, de prestígio e
contatos, que o levariam a alçar o governo do Amazonas anos depois.
Mas e a cor? Até que ponto o mérito igualava quanto a cor e condição social?
Se o mérito por si só não possibilitava a ascensão na carreira, sendo necessário, por
muitas vezes, lançar mão de outros artifícios, é de se esperar que alguns marcos
ajudassem ou dificultassem essa escalada: a cor e origem social. Assunto de que
trataremos no próximo capítulo.

81
Capítulo III – As cores dos Bacharéis Fardados.

O enredo do romance O Mulato inicia-se com o retorno de Raimundo da


Europa. Filho da escrava Domingas com o fazendeiro José, foi mandado ainda criança
pelo pai para Lisboa, onde cresceu e se formou em Direito. Já adulto, volta para o
Maranhão para se encontrar com o tio, Manuel Pescado, a fim de saber mais de sua
origem. Mas o que Raimundo não contava era que se apaixonaria por Ana Rosa, filha de
Manuel, e dessa forma, se daria conta das dinâmicas cruéis do racismo.
A recusa do casamento com Ana Rosa se dá sem explicações, causando uma
série de questionamentos em Raimundo. Tentando entender o motivo, vai ao encontro
de Manuel e se depara com uma resposta inesperada: tinha nascido escravo. Ser um
homem de cor, filho de uma escrava era o motivo da recusa. Manuel não podia permitir
que sua família fosse manchada com a presença de um mulato. Defrontando-se com sua
cor, Raimundo passa a entender os mesquinhos escrúpulos que a sociedade maranhense
tinha com ele. A partir daquele momento tudo parecia fazer sentido.
[...] a frieza de certas famílias a quem visitara; a conversa cortada no
momento em que Raimundo se aproximava; as reticências dos que lhe
falavam sobre os seus antepassados; a reserva e a cautela dos que, em
sua presença, discutiam questões de raça e sangue; a razão pela qual
dona Amância lhe oferecera um espelho e lhe dissera: “Ora, mire-
se!”.218

Mulato. A palavra que, como uma chave, abriu os olhos de Raimundo para a
figura híbrida que representava naquela sociedade. Aos poucos, Raimundo foi
percebendo as pequenas doses de racismo a que foi exposto sem perceber, desde sua
chegada a São Luís. Realidade com que muitos homens, com a descendência africana
estampada na pele, tinham sempre de lidar para transpor as barreiras que a cor da pele
lhes havia imposto. Se, por muitas vezes, a cor de Raimundo havia sido silenciada pelas
pessoas de seu convívio, ela jamais era apagada, manifestando-se de diversas formas em
seu cotidiano.
Se o livro de Aluísio de Azevedo é fruto de seu tempo, ou seja, produto de uma
sociedade que hierarquizava os indivíduos social e racialmente, é natural supormos que
Eduardo Ribeiro, vivendo nessa dinâmica, tenha passado por situações como a de

218
AZEVEDO, Aluísio. O Mulato. Editora Moderna. São Paulo, 1994. p. 155.

82
Raimundo, afinal, ser um homem de cor que circulava em espaços de brancos poderia
causar momentos como os experimentados pelo mulato de Azevedo.
É provável que sim. Apesar de termos poucas fontes que tratem disso, sua
biografia no Diário Official é enfática: havia se desenvolvido “contra elle, na Escola
[Militar], uma guerra surda e tenaz com o fim único de impedir que ali se bacharelasse
um homem de obscuro nascimento”. 219
Pela ênfase dada à guerra travada na Escola
Militar, parece que o contato com o contexto cosmopolita do Rio de Janeiro, tenha
contribuído para que Eduardo Ribeiro desenvolvesse maior consciência de sua condição
periférica, tendo em vista sua origem em uma província do norte, negro e pobre.
No periódico A Federação, de 22 de maio de 1896, foi publicado um artigo
chamado “Represálias”. Pelo conteúdo do texto, parece ser uma resposta a ataques
pessoais feitos a Eduardo Ribeiro 220. Os ataques faziam menção a sua vida privada e
analisavam sua origem e da “pessoa d’aquella que lhe deu o ser [...]” e, dessa forma,
faziam “pezar sobre um homem todo o preconceito do seu nascimento”.

[...] fazendo disso cavalo de batalha, a pedra de toque por onde


se pode avaliar dos merecimentos de um cidadão que tem valor
real, intrínseco, por que tudo o que é deve aos seus esforços;
descompõem em todos os tons, injuriam de todas as maneiras,
apuram branquidade n’uma sociedade que ainda tem bastante
nítida a macula da escravidão.
[...] Acham razoável discutir a procedência do dr. Eduardo
Ribeiro, que não é principesca. [...]221

A origem social e a ascendência compunham o alvo predileto para a


ridicularização de Eduardo Ribeiro. Ou seja, “o lugar social privilegiado ocupado por
estes indivíduos fez com [que] a cor dos mesmos fosse, na maioria dos casos,
invisibilizada, sendo acionada ou exteriorizada em momentos de conflito, como item
depreciativo.”222 O jornal A Federação, que fazia a defesa de Ribeiro, usava os ataques
a seu favor e, dessa forma, construía a imagem de um homem que passou por todas as
adversidades até chegar onde chegara, à frente do governo do Amazonas. Mesmo
silenciada por várias vezes, a cor se fazia presente.

219
Diario Official do Amazonas, 18 de setembro de 1895.
220
Não conseguimos localizar a publicação ao qual o jornal a Federação faz menção.
221
A Federação, Manaus, 22 de maio de 1896.
222
MARQUES, Leticia Rosa. O maestro Joaquim José Medanha: música, devoção e mobilidade social na
trajetória de um pardo no Brasil oitocentista. Tese de Doutorado em História. PUC-RS, Rio Grande do
Sul, 2017. p. 63.

83
Então, diante do silenciamento da cor e do racismo, como pensá-lo dentro da
Escola Militar, que, através da educação, pretendia alçar as pessoas a uma melhor
posição independente do berço e mesmo da cor? Como pensar esse paradoxo diante da
atmosfera mais ampla em que indivíduos não brancos e de ascendência escrava eram
preteridos? Para além de considerar a cor dos militares apenas como um mero atributo
físico, entendemos que sua análise é ferramenta importante para entendermos a
“historicidade das percepções e classificações raciais” 223 dentro da instituição.
Enfrentando esse problema, procuraremos mostrar, ao longo das próximas
páginas, a origem social e a cor de alguns alunos da Escola Militar a fim de entender
como se davam as classificações de cor dentro da instituição. Utilizando como amostra
13 trajetórias, entre elas a de Eduardo Ribeiro, vamos entender as classificações de cor
constantes nessas fés de ofício e seus significados, a fim de trazer à tona as cores desses
alunos militares e, dessa forma, tentar entender se a cor e a origem social influenciavam
na ascensão social dentro da instituição.

Somando singularidades: trajetórias ajudam a pensar hierarquias raciais.

Há indivíduos que fazem de sua obscuridade uma reputação


universal, outros que por mais direito que tenham a um nome na
sociedade, cançam-se, e sucumbem no meio dos mais ingentes
esforços sem nada adiantarem na trilha afanosa de conquistar um
título à gratidão de seus concidadãos. 224 [grifo nosso]

Retirada do Jornal Tribuna Militar, de 1º de janeiro de 1882, as palavras acima


foram publicadas no artigo intitulado: “Episódios Militares: Fidelis Paes da Silva”. O
objetivo do autor J. Pimentel era resgatar um episódio da Guerra do Paraguai em que o
Coronel Fidelis da Silva havia sido a “alma”. A narrativa trata do ataque ao povoado de
Santo Izidro, em outubro de 1869, no qual Fidelis havia saído vitorioso. Com uma força
reduzida a 28 homens, o coronel conseguiu aprisionar um regimento de 400 indivíduos
que estavam no povoado. Mas quem era Fidelis? Segundo o autor, “era um homem
obscuro, analfabeto”, mas com qualidades, tais como: “vivo, perspicaz, empreendedor e
ousado”.

223
LIMA, Ivana. Op. Cit. p. 20.
224
Tribuna Militar, Rio de Janeiro, 1º de janeiro de 1882.

84
J. Pimentel enfatiza várias vezes a característica “obscura” do homem narrado.
Parece ser esse dado importante para a construção da história que estava contando. Não
conseguimos dados biográficos de Fidelis Paes da Silva, o que não torna a história
contada por J. Pimentel inútil, muito pelo contrário. A caracterização do coronel como
um “homem obscuro” ilustra o argumento que vamos construir ao longo do capítulo e
denota um dos poucos momentos em que conseguimos localizar a cor nas fontes.
Pimentel fez questão de iniciar a narrativa do episódio com as características
do homem a quem o texto era dedicado. Até aí tudo bem, mas o que chama atenção ao
longo dos parágrafos é a presença da palavra obscuro, sempre sucedida de elogios e
enaltecimentos dos feitos de Fidelis. Por que não apenas silenciar? Por que enfatizar
tantas vezes a “obscuridade” daquele homem? O que significava ser um coronel
obscuro? Era uma tentativa de mostrar que um “nome obscuro” poderia iluminar-se?
Certamente o autor do artigo quis salientar que, apesar da cor escura (naquele
período ligada à degenerescência225), Fidelis era um homem bravo, de talento e
inteligência. Ser um “homem obscuro” era um acidente, uma artimanha do destino que
deveria ser evocada a fim de servir de exemplo de um homem que não sucumbiu e nem
mediu esforços para conquistar uma reputação de respeito. A história de Fidelis parece
ter sido mais uma, entre tantas outras, em que homens de cor haviam conseguido
mobilidade social e prestígio através de suas trajetórias no Exército. Como salienta Leo
Spitzer, ao estudar a trajetória da família Rebouças226, a emergência desses indivíduos
foi marcante durante o século XIX.
Embora os brancos monopolizassem sistematicamente as posições de
influência em todo Brasil, uma minoria da população de negros livres
conseguiu penetrar no campo dos dominadores em todas as regiões do
país, obtendo certo grau de aceitação e, vez por outra, até mesmo
proeminência econômica e social. Em geral, nos lugares onde os
desequilíbrios demográficos não eram suficientemente acentuados
para criar uma necessidade natural de participação ativa de negros nas
áreas oficial ou oficiosamente restritas da sociedade, a proteção de um
membro receptivo da elite branca contribuía para sua aceitação e
ajudava a eliminar os empecilhos a ela. O talento e o dinheiro também
compravam aceitação e status e influenciavam as percepções dos
brancos, uma vez ocorrido o ingresso na elite. 227

225
Sobre isso ver: SCHWARCZ, Lilia. O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no
Brasil (1870-1930). Companhia das Letras, 1993.
226
É importante salientar que os três membros da família Rebouças que ascenderam socialmente
passaram pelo serviço militar, da mesma forma, vale lembrar que a ascensão do pai, Antonio Rebouças, já
pavimentara o caminho dos filhos.
227
SPITZER, Leo. Vidas de Entremeio: assimilação e marginalização na Áustria, no Brasil e na África
Ocidental, 1780-1945. Tradução Vera Ribeiro – Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001. p. 122-123.

85
Esses indivíduos incluíram, durante seu processo de ascensão social, um
complemento cultural (o bacharelato científico), para favorecer ainda mais sua aceitação
e, talvez, uma condição de vida melhor. Assim como os membros da família Rebouças,
Eduardo Ribeiro e tantos outros tiveram o seu sucesso construído a partir do destaque
que tiveram na profissão. O acúmulo de conhecimento, em muitas situações,
compensava “a falta de um título de nascimento ou sobrenome famoso”.228
Mas como identificar o racismo em uma instituição como o Exército e mais
especificamente na Escola Militar? O que o caso de Ribeiro representava de excepcional
naquele contexto? E ainda, seria o seu caso indicativo de que o racismo naquela
instituição era relativo? Até que posto, dentro da carreira militar, um negro podia
ascender?
Infelizmente, não há estatísticas oficiais que nos forneçam dados sobre a cor
desses militares e, muito menos, dos estudantes da Escola Militar, fato que leva os
historiadores ao encalço de outras fontes, mesmo extratos, a fim de saber a cor desses
indivíduos. Essa foi uma das preocupações do historiador Hendrik Kraay que analisou o
Exército e as milícias na cidade de Salvador entre 1790 e 1840, dando papel de destaque
à “raça” ou “cor” em sua análise. As instituições militares no período colonial
mantinham a seguinte segregação hierárquica racial: brancos, pardos e pretos.
Mesmo sendo um estudo dedicado a entender o Exército nas décadas finais do
período colonial (suas preocupações dirigem-se às circunstâncias em que a
Independência é realizada), ele é importante para compreendermos os desdobramentos
ao longo do século XIX. Primeiro ponto observado por Kraay é o da composição social
da oficialidade. Ele percebeu nos homens que tinham patente de oficial (considerando a
partir do título de alferes ou segundo tenente), que eles possuíam experiências de
carreira bem diversas e uma variedade de origens sociais que impediam a formação de
uma casta de oficiais. No topo da hierarquia do Exército baiano havia uma pequena elite
rica composta por oficiais generais que combinavam o sucesso na carreira militar com o
comércio ou o cultivo de cana-de-açúcar. 229 Kraay não traz dados estatísticos e por isso
apenas sugere, a partir da ausência de indicadores raciais sobre esses indivíduos, que

228
GRINBERG, Keila. O fiador dos brasileiros: cidadania, escravidão e Direito Civil no tempo Antonio
Pereira Rebouças. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. p. 71.
229
KRAAY, Hendrik. Política racial, Estado e Forças Armadas na época da independência: Bahia,
1790-1850. São Paulo, Hucitec, 2011. p. 71-73.

86
esses oficiais eram homens brancos. Ou seja, para ele as questões raciais eram
silenciadas na oficialidade. 230
Quanto à cor dos praças, havia uma legislação, no final do período colonial,
que apontava uma preferência racial por peles mais claras. Isso porque, estavam sujeitos
ao recrutamento “homens brancos solteiros, e ainda pardos libertos, cuja cor não fosse
mui fusca”. 231
Esse e outros indícios apresentados por Kraay sugerem que se operava,
pelas autoridades brancas, uma preferência por aqueles que lhes eram semelhantes.
Apesar dessa discriminação, a ambiguidade da categoria pardo não impediu o
recrutamento desses indivíduos como soldados rasos, sendo raramente promovidos além
disso. Dessa forma, é observado um recrutamento discriminatório onde havia
preferência por homens brancos, uma exclusão dos pretos (categoria ligada à
escravidão) e uma relutância na admissão de pardos no Exército colonial baiano. 232
Já no caso das milícias na cidade de Salvador, a cor constituía característica
fundamental, pois as corporações eram separadas pela cor, “rotulando pública e
visivelmente os homens como brancos, pardos ou pretos”. A cor e a classe importavam
em grau significativo, pois “os oficiais do Primeiro e do Terceiro Regimentos
constituíam, respectivamente, as elites de comerciantes luso-brasileiros e de artesãos
afro-brasileiros”. 233
Quando da chegada da década de 1820 e com os desdobramentos da guerra de
Independência, o perfil do Exército e mais especificamente da oficialidade baiana
mudou bastante. O resultado foram vínculos menos sólidos com os senhores de
engenho, em comparação com o período colonial. Apesar dessa mudança, “a brancura
continuou sendo um atributo do oficialato” e o Exército seguiu não fazendo registros
234
raciais de seus oficiais. Se a brancura era atributo do oficialato, a guerra de
Independência mudou significativamente a composição social e racial das fileiras,
obscurecendo-a “e também enfraquecendo as preferências raciais que haviam excluído
os pretos das fileiras”. 235
A década de 1830 observou um processo que acabou com as barreiras raciais
para o recrutamento de não brancos, provocada principalmente pela lei de 1837, que

230
Idem, p. 89-93.
231
Idem, p. 126.
232
Idem, p. 131-132.
233
Idem, p. 163-164.
234
Idem, p. 186.
235
Idem, p.211.

87
sujeitava os “cidadãos brasileiros” entre 18 e 35 anos ao recrutamento. Sem nenhuma
indicação de cor, essa mudança indicava que os pretos crioulos não deveriam ser
isentados do recrutamento. Esta lei marcou uma mudança importante “pois os pretos e
os crioulos vieram a constituir mais de um quarto dos recrutas entre 1838 e 1850”, na
Bahia. 236
Além de ser um momento bem anterior ao que estamos tratando, não podemos
generalizar a experiência baiana para todo o Império. Mas o que a pesquisa de Kraay
nos sugere é que a brancura era um atributo do oficialato e que, ao longo do século XIX,
o Exército vai se abrindo para a presença de indivíduos não brancos em suas fileiras.
Essa mudança no perfil social e racial do Exército se intensifica a partir de meados do
século XIX, com mudanças significativas que o Ministério da Guerra começou a
implementar a partir da década de 1850, como a lei de promoções que vimos no capítulo
2. Apesar dessa abertura, apresentada por Kraay, é bom salientar que não se eliminaram
práticas difusas e informais de racismo, impedindo, por exemplo, a alçada de homens
negros ao topo do oficialato. O Exército teria apenas um Marechal (maior posto) negro
em 1955, o Marechal João Baptista de Mattos.237 As “exceções individuais permitiram
aos brasileiros cultivar a ideologia da sua sociedade como democracia racial”. 238
Ao contrário da pesquisa de fôlego de Kraay, que se preocupou em tratar da
questão racial no Exército nas últimas décadas do período colonial, de modo geral, a
historiografia que trata do Exército na segunda metade do século XIX é mais modesta
ao mostrar o racismo nessa instituição. Vejamos, por quê. Há uma dificuldade de
encontrar a cor desses indivíduos nas fontes? É certo que sim, mas isso inviabiliza uma
pesquisa que aborde essa questão? Acredito que não.
O que me propus neste capítulo foi rastrear alguns dos alunos da Escola Militar
que seriam contemporâneos de Eduardo Ribeiro. Além dos fins de comparação, a
intenção é também problematizar as classificações de cor que eles recebiam e, dessa
forma, visualizar se a origem social e a cor influenciavam na carreira desses indivíduos.
Para tal empreitada busquei nas fés de ofício essas respostas, já que a quantidade de
informações que elas nos fornecem sobre a carreira militar desses indivíduos merece
destaque.

236
KRAAY, Hendrick. Op. Cit. p. 291
237
Sobre isso ver: FRANCISCO, Alessa Passos. “Um preto de alma branca”: escritas de si, redes de
sociabilidade e mobilidade social na trajetória do Marechal João Baptista de Mattos nas primeiras décadas
do século XX. Dissertação de Mestrado em História. Universidade Federal Fluminense, 2017.
238
KRAAY, Hendrick. Op. Cit. p. 378-380.

88
As fés de ofício contém dados, tais como lugar de nascimento, filiação, cor da
pele e, algumas vezes, cor e textura dos cabelos. Além disso, permitem-nos conhecer
todas as atividades que esses homens realizaram na instituição, por exemplo, quando
assentaram praça, ano de ingresso em curso preparatório e na Escola Militar, notas,
atividades que exerceram na instituição, entradas e saídas da enfermaria, lugares em que
serviram. As 13 fés de ofício que analisamos parecem seguir um padrão: primeiro, os
dados de origem como nome do pai, cidade, data de nascimento, ofício e características
físicas; depois, são indicadas as atividades realizadas em cada ano.
As fés de ofício não tinham objetivo estatístico. Esses documentos reuniam
informações constantes em ordens do dia, relatórios dos corpos e batalhões, etc. Sua
finalidade era construir um documento com toda trajetória militar desses indivíduos. De
acordo com José Iran Ribeiro, as fés de ofício “permitem inúmeras possibilidades de
análise e comparações dificilmente alcançáveis a partir de outras fontes”. Ainda que nos
permitam acompanhar apenas a vida militar, as fés de ofício permitem o
acompanhamento “dos percursos realizados e, a partir disto, o exame das balizas
norteadoras das ações dos indivíduos [...] assim como as alternativas que criaram e os
obstáculos que conseguiram ultrapassar”. 239
O objetivo dessa pesquisa era entender como um jovem negro e pobre vindo de
uma província do Norte do Império do Brasil conseguiu ascender socialmente em um
contexto de exclusão racial. Como vimos ao longo desse trabalho, as fontes sobre
Eduardo Ribeiro, seja na cidade de São Luís, ou do Rio de Janeiro, são escassas. Além
disso, há uma inexistência de fontes sobre percepções pessoais, sobre o significado de
ser um homem de cor nessa sociedade, o que dificulta o trabalho, mas não o
impossibilita. Se é difícil ter acesso às percepções de Ribeiro quanto ao que é ser um
homem de cor e pobre na Escola Militar, outra estratégia precisou ser adotada. Isso
significou acompanhar outros alunos que, contemporâneos a ele, talvez tivessem uma
trajetória semelhante à dele na carreira militar.
É importante salientar que os trabalhos clássicos 240 utilizados ao longo dessa
pesquisa, sobre o Exército e mais especificamente sobre a Escola Militar da Praia

239
RIBEIRO, José Iran. Nem oficiais, nem soldados: perfis dos militares de patentes intermediárias do
Exército Imperial brasileiro durante a Guerra dos Farrapos. In: Locus: revista de história, Juiz de Fora,
v.15,n.1 p.99-110, 2009. p. 101.
240
Aqui me refiro principalmente aos trabalhos de Celso Castro: “Os Militares e a República” (1995) e
“Formação do Oficial do Exército” (1976), de Jehovah Motta. Essas obras são importantes para entender
o funcionamento da Escola Militar durante o século XIX. Entretanto, não fazem análises significativas
sobre a origem social dos alunos e, muito menos, tratam do preconceito de cor na instituição.

89
Vermelha, para o período aqui proposto, não se preocuparam em identificar e analisar a
cor dos estudantes da Escola e muito menos as possíveis circunstâncias de preconceito
de cor, que por ventura tenha ocorrido. No máximo, o que esses trabalhos nos permitem
conhecer é o perfil social desses alunos, ainda assim com carência de informações. O
silenciamento da cor desses indivíduos é quase ensurdecedor. Utilizamos, contudo,
pesquisas mais recentes241 que nos auxiliaram na análise da questão proposta.
Pois bem, a única informação sobre a cor de Eduardo Ribeiro que possuímos
durante o levantamento de fontes é a constante em sua fé de ofício. Nela, Ribeiro é
designado como pardo, possuindo cabelos pretos e crespos. Esses dados nos levaram a
alguns questionamentos: que outros termos eram utilizados pelo Exército para
classificar a cor? Se a designação da cor da pele não faz apenas referência cromática,
então, qual lugar social ocupava um indivíduo classificado como “pardo” dentro dessa
instituição?
Para responder a essas perguntas achamos que seria interessante encontrar
outros indivíduos que haviam estudado na Escola Militar, por volta da década de 1870-
1880 e, dessa forma, visualizar as designações de cor e de outros traços físicos. Achar
esses indivíduos ao acaso não era uma alternativa, então a estratégia encontrada foi
localizar o Almanaque do Ministério da Guerra do ano de 1888. Por que esse em
específico? Lembremos que Eduardo Ribeiro formou-se engenheiro em 1887, então era
bem provável que seu nome pudesse ser localizado no Almanaque do ano seguinte.
Localizado o nome de Ribeiro, entre os segundos-tenentes, procuramos primeiro entre
os que, como ele, tinham a mesma patente e uma passagem pela Escola Militar no
mesmo momento.
Depois disso, e com as informações que o próprio almanaque forneceu,
escolhemos alguns nomes que nos interessavam, tendo como critérios o ingresso na
Escola Militar durante o recorte temporal proposto. No fim, 19 nomes pareciam nos
interessar, mas apenas 12 deles tinham suas fés de ofício no Arquivo Histórico do

241
Ver: MARQUES, Leticia Rosa. O maestro Joaquim José Medanha: música, devoção e mobilidade
social na trajetória de um pardo no Brasil oitocentista. Tese de Doutorado em História. PUC-RS, Rio
Grande do Sul, 2017; KABENGELE, Daniela do Carmo. A trajetória do “pardo” Antonio Ferreira
Cesarino (1808-1892) e o trânsito das mercês. Tese de Doutorado em Antropologia Social. Unicamp,
Campinas, 2012; FRANCISCO, Alessa Passos. “Um preto de alma branca”: escritas de si, redes de
sociabilidade e mobilidade social na trajetória do Marechal João Baptista de Mattos nas primeiras décadas
do século XX. Dissertação de Mestrado em História. Universidade Federal Fluminense, 2017.

90
Exército. Com as informações fornecidas pelos documentos, construímos o quadro a
seguir. 242
Seja pela forma como foram escolhidas, seja pela pequena quantidade, não é
possível assegurar o quanto essa amostragem é representativa da quantidade de homens
de cor que entraram ou tentaram ingressar na Escola Militar. As tendências apontadas
com base nessas trajetórias não servirão como afirmações definitivas, mas são tentativas
de apontar questões e hipóteses que nos permitam pensar a trajetória de homens de cor
no Exército.

Quadro 4: Amostra de militares que frequentaram a Escola Militar entre 1870-1880

Nome Naturalidade Filiação Cor da pele Nascimento Textura e cor do


cabelo

Alexandre José Pernambuco Joaquim Barbosa Branca 23/03/1862 Castanho claro


Barbosa Lima 243 Lima

Braz Antonio da Goiás Evaristo Antonio da Morena 1859 Pretos e crespos


Silva Fonseca244 Fonseca

Clodoaldo da Rio de Janeiro Pedro Paulino da Branca 1860 Não consta


Fonseca245 Fonseca

Eduardo Gonçalves Maranhão Florinda Maria da Parda 1861 Cabelos pretos


Ribeiro246 Conceição crespos

Felippe Antonio Alagoas Capitão Francisco Não consta 13/09/1861 Não consta
Galvão247 Antonio Galvão

Joaquim Severo dos Santa Catarina Joaquim Maximiano Não consta 1856 Não consta
Santos248 dos Santos

242
Importante destacar que nosso objetivo não foi um trabalho quantitativo dos alunos de cor existentes
na Escola Militar no período em que Eduardo Ribeiro a frequentou. É apenas uma amostra a fim de
pensar as classificações de cor utilizadas nas fés de oficio.
243
Fé de Ofício: pasta nº I-1-78. Arquivo Histórico do Exército.
244
Fé de Ofício: pasta nº II-7-27. Arquivo Histórico do Exército.
245
Fé de Ofício: pasta nº II-15-12. Arquivo Histórico do Exército.
246
Fé de Ofício: pasta nº III-6-36. Arquivo Histórico do Exército.
247
Fé de Ofício: pasta nº III-18-15. Arquivo Histórico do Exército.
248
Fé de Ofício: pasta nº V-18-35. Arquivo Histórico do Exército.

91
José Eulálio da Maranhão João da Silva Branca 1859 Cabelos e olhos
Silva Oliveira249 Oliveira castanhos

José Joaquim Pernambuco Tenente Coronel da Morena 26/11/1864 Castanhos crespos


Firmino250 Guarda Nacional
José Joaquim
Firmino

Marcos Franco Ceará Antonio Franco Branca 20/04/1861 Castanhos crespos


Rabello251 Alves Rabello

Octavio da São Paulo Filho de pais Parda Clara 1862 Castanhos


Fonseca252 incógnitos

Olympio de Rio de Janeiro Coronel Severiano Não consta 27/01/1857 Não consta
Carvalho253 Martins

Pedro de Alcantara Rio de Janeiro Pedro José da Não consta 1854 Não consta
Fonseca Filho254 Fonseca

Tertuliano José da Bahia Cyrillo José da Não Consta 04/08/1856 Não Consta
Silva Tinoco255 Silva Tinoco

Ao visualizar a tabela é normal que surjam questionamentos como: Quem


indicava a cor? O próprio aluno? Se o Exército, quais eram os procedimentos e critérios
de classificação e identificação seguidos pela instituição? Como é de se esperar, não se
tratava de autoatribuição, a tarefa ficava a cargo do próprio Exército, regulamentada
pelo Ministério da Guerra. No Almanaque dos Oficiais Efetivos, Reformados e
Honorários das diferentes armas do Exército do Império do Brasil, de 1855, há na
segunda parte “Explicações paras as informações dos oficiais e praças”. Esse
documento fornece instruções para a instrumentalização dos dados institucionais e

249
Fé de Ofício: pasta nº V-6-1. Arquivo Histórico do Exército.
250
Fé de Ofício: pasta nº V-6-30. Arquivo Histórico do Exército.
251
Fé de Ofício: pasta nº IV-1-11. Arquivo Histórico do Exército.
252
Fé de Ofício: pasta nº III-12-3. Arquivo Histórico do Exército.
253
Fé de Ofício: pasta nº III-11-10. Arquivo Histórico do Exército.
254
Fé de Ofício: pasta nº VI-5-41. Arquivo Histórico do Exército.
255
Fé de Ofício: pasta nº IV-8-9. Arquivo Histórico do Exército.

92
256
pessoais de cada indivíduo que compunha o quadro do Exército. Essas informações
deveriam ser enviadas semestralmente e eram usadas, anos depois, para a confecção das
fés de ofício. 257
Essas informações sobre os oficiais e praças deveriam contar com dados fixos,
repetidos todos os semestres, que seriam: o corpo a que pertencia, o número, a
companhia, praça e posto atual. Nesses relatórios individuais ainda tinham de constar
dados como: filiação, estado civil (e se possuía filhos), idade, estudos, prêmios que teria
recebido, licenças, doenças, entre outros. Havia também as informações designadas
como “sinais de assentamento de praça”, que eram muito provavelmente as informações
atribuídas no momento do ingresso no Exército. Esses sinais de assentamento de praça
eram aqueles que designariam perfeitamente as “circunstâncias” físicas do indivíduo,
para que pudesse ser sempre conhecido e evitasse, dessa forma, ser confundido com
outro. Dos sinais de assentamento de praça dois nos interessam no momento: a filiação
e as características físicas.
Na parte “Filho de....” é recomendada a necessidade de se examinar bem e
escrever o nome do pai e o respectivo emprego, mas apenas se fosse notável. Quando o
indivíduo não tivesse pai conhecido, se declarava o nome da mãe, ou pais incógnitos.
Quanto às descrições físicas, as explicações são bem claras: no quesito altura, deveria
ser aferida na craveira; quanto aos cabelos, deveriam ser descritos como “lisos, crespos,
ou carapinha”. A informação sobre o rosto deveria assinalar se era “redondo ou
comprido, claro, trigueiro, índio, pardo, etc”; dos olhos, a cor e qualquer outro sinal; da
barba, se era pouca, muita, cerrada e sua cor. A indicação direta da cor da pele não
constava nessas explicações ficando, acredito, essa característica incluída na descrição
do rosto.. Ainda sobre o rosto, é interessante destacar a variedade de classificações
indicada: “trigueiro, índio e pardo”.
Podemos dizer que essa padronização na classificação dos militares
acompanhou mudanças decisivas que ocorreram a partir de 1850. Nesse ano, além do
fim do tráfico de escravos e da Lei de Terras, houve ainda a autorização do governo,

256
Este almanaque pode ser consultado através da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional no
periódico Relatório: Ministério da Guerra (RJ) do ano indicado.
257
Não havia uma obrigatoriedade de que todas as informações constantes nesses relatórios individuais,
que eram enviados semestralmente, fossem colocadas nas fé-de-ofício. A falta de algumas informações
nas fés de ofício podem significar várias coisas. Em alguns casos as informações foram perdidas, ou os
critérios de feitura da fé-de-oficio foram mudadas ou simplesmente porque quem fazia o documento
achava que aquela informação não deveria constar no texto. Mas, de qualquer forma, as fés de ofício aqui
analisadas seguem um padrão relativamente fixo das informações.

93
através da lei nº 586, para a feitura de um censo geral, que teve seu regulamento
estabelecido, no ano seguinte. Concomitantemente, foi criado o Regulamento para o
registro dos nascimentos e óbitos, implementado somente em 1888. Como podemos
observar, havia uma preocupação em classificar e quantificar as pessoas. Essa prática
procurava ordenar a população em um discurso que partia de combinações de diferentes
princípios (cor, idade, condição jurídica, etc). O Exército parece ter se inserido nessa
dinâmica através da preocupação em padronizar as informações de seus componentes.
Essa preocupação em registrar aspectos fenotípicos pode ter ainda relação com
as teorias raciais que já circulavam na Europa em meados do oitocentos. Apesar de
terem recebido uma atenção maior no Brasil apenas na década de 1870, é de se supor
que o Exército já tomava conhecimento e consumia a literatura a respeito do assunto. O
registro das características físicas não tinha um uso “ingênuo”, apenas para não
confundir homens, como diz o documento. O Exército não era a única instituição que
classificava em termos raciais. Hospitais para alienados também o faziam. Lima
Barreto, por exemplo, quando da sua primeira internação no Hospital Nacional de
Alienados, teve sua cor indicada como branca. Nas etapas seguintes de registro havia
ainda mais dados antropométricos do paciente como o nariz, as orelhas, crânio; com o
objetivo de classificar a fisionomia dos doentes.258
Se voltarmos à discussão sobre a meritocracia no Exército (do capítulo
anterior) e pensarmos nas classificações de cor da instituição, algumas perguntas podem
ser levantadas: se dispositivos extrameritocráticos seriam considerados para a promoção
dentro da instituição ou se o mérito seria capaz de igualar quanto a cor e a condição
social. O mérito reforçaria posições sociais de origem? Até que posto dentro da carreira
militar esses indivíduos não-brancos ascendiam? Talvez a análise da trajetória desses
indivíduos possa nos dar alguns esclarecimentos.

Estruturando a carreira militar: desempenho acadêmico, envolvimento político e


cor da pele.

Ao examinar o itinerário profissional desses militares observamos a construção


de trajetórias de forma bastante diferenciadas. Entretanto, isso não impede de visualizar

258
Sobre isso ver: SCHWARCZ, Lilia. Lima Barreto: Triste visionário, Companhia das Letras, 2017;
SCHWARCZ, Lilia. O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-
1930). Companhia das Letras, 1993.

94
alguns traços comuns. As fés de ofício analisadas seguem um padrão de estrutura:
iniciando sempre como o nome do indivíduo, nome do pai (ou, quando desconhecido, o
nome da mãe), data de nascimento e data em que assentou praça. Em 8 delas há menção
à cor da pele (branca, parda, parda clara e morena). Em 7 delas há a menção a outros
traços fenotípicos como cor dos olhos e cabelos (preto ou castanho) e sua textura
(crespos na maioria deles).
Em primeiro lugar, acho importante o exame da presença do nome do pai no
documento. Dos 13 indivíduos analisados, apenas Octavio da Fonseca recebeu a
designação: “filho de pais incógnitos” e apenas Eduardo Ribeiro recebeu a declaração
do nome da mãe, já que o pai não era conhecido. Todos os outros indivíduos tiveram o
nome do pai assinalado em suas fés de ofício e apenas três tiveram o emprego do pai
indicado: os pais de Olympio de Carvalho, Felippe Antonio da Fonseca e José Joaquim
Firmino, por terem um “emprego notável”, todos com patentes militares. Partindo do
pressuposto de que a presença do pai indica em tese uma família econômica e
socialmente mais estruturada, vamos perceber que a maioria dos alunos (11 deles) pode
ter usufruído de infância e juventude mais seguras e estáveis. Isso se considerarmos que
o meio social e os recursos a que tiveram acesso, por trás das vantagens carregadas pelo
nome do pai, facilitaram o acesso à educação e consequentemente o ingresso na Escola
Militar.
Um traço ainda mais interessante é que apenas 3 desses indivíduos tiveram a
profissão do pai destacada e os 3 com patentes militares (coronel, tenente-coronel e
capitão). Segundo Celso Castro, os documentos de matrícula de alunos raramente
registravam a ocupação do pai, acontecendo apenas quando se tratava de um filho de
oficial. 259 O fato dos pais terem construído uma trajetória dentro do Exército pode ter
interferido na vida profissional dos indivíduos aqui analisados.
Dos três que tinham pai com patente militar apenas José Joaquim Firmino
tornou-se Engenheiro Militar. E foi o único também que teve a indicação da cor feita na
fé de ofício: foi classificado como “moreno”. Firmino teve uma trajetória destacada no
Exército. No mesmo ano em que se formou engenheiro militar, em 1888, foi nomeado
oficial da força encarregada da fundação de uma colônia militar em Foz do Iguaçu e da
construção de estradas estratégicas no Paraná, expedição que resultou na ocupação

259
CASTRO, Celso. Op. Cit. p. 28.

95
desse território. Firmino teve uma atuação bem destacada à frente desta expedição,
tendo seu nome reconhecido na história da região.
Já Felippe Antonio da Fonseca e Olympio de Carvalho Fonseca não
concluíram o curso na Escola Militar. Olympio ainda conseguiu completar o curso de
Artilharia, depois disso ocupou vários cargos de ajudante até ser nomeado, em 1891,
secretário interino do presidente da república, cargo onde não ficou por muito tempo.
Depois disso, ocupou cargos na secretaria de inspeção do Asylo de Inválidos da Pátria e
na Escola Prática da capital federal. Posteriormente embarcou para a Bahia para assumir
cargos de comando. E, em 1903, foi promovido a Coronel.
Felippe Antonio teve que trancar sua matrícula na Escola Militar em 1885,
momento em que passou a exercer algumas funções em São Gabriel e San’t Anna do
Livramento, ambos no Rio Grande do Sul. Antes de servir na Guerra de Canudos, na
expedição de Artur Oscar, em 1901, Felippe Antônio havia participado de uma banda de
música também no Rio Grande do Sul. Em 1901, foi promovido ao posto de Capitão.
A três trajetórias são muito interessantes e demonstram a participação em
eventos importantes da história do Brasil. Todos, muito jovens, ocuparam cedo cargos
burocráticos, como ajudante de ordens, por exemplo, que os permitiram um contato
maior com o alto escalão do Exército. Felippe Antonio e Olympio de Carvalho, mesmo
não tendo concluído o curso na Escola Militar, conseguiram ascender na hierarquia da
instituição, sendo promovidos a capitão e coronel respectivamente. Já José Joaquim
Firmino que concluiu o curso de engenharia e logo se envolveu na expedição rumo a
Foz do Iguaçu, foi promovido a major em 1900.
Dos três, apenas este último, José Joaquim Firmino, teve sua cor assinalada na
fé de ofício: morena. Além dele, apenas Braz Antonio fora designado com “cor
morena”. Mas Braz, em comparação a Firmino, teve uma trajetória no Exército mais
modesta. Frequentou a Escola de Tiro de Campo Grande, não cursou a Escola Militar e
logo foi mandado para o Paraná onde serviu em diversas funções. Sua fé de ofício se
encerra com informações do ano de 1883.
Se considerarmos que tanto Braz Antonio, quanto José Firmino tiveram seus
respectivos pais assinalados na fé de ofício, poderíamos supor que o designativo
“moreno” foi utilizado para marcar uma ascendência mais abastada, ou seja, uma
melhor posição dentro da hierarquia social que a dos outros classificados como pardos?
“Moreno” parece, nesses casos, fazer referência a uma pessoa mais clara em relação às
designadas como “pardas”. Digo isso se considerarmos que, muito provavelmente,

96
quem foi designado como “pardo” tinha maior probabilidade de possuir um passado
ligado a pessoas de cor. Para entender melhor esse argumento, vamos voltar às
trajetórias de Eduardo e Octavio da Fonseca.
Se formos em direção às trajetórias desses alunos, que foram designados como
pardos e, principalmente, não tiveram o nome do pai assinalado na fé de ofício, vamos
observar algumas nuances. Primeiro, a trajetória de ambos: enquanto Ribeiro teve uma
trajetória de ascensão culminando com o cargo de governador do Amazonas entre 1892
e1896, Octavio da Fonseca não apresenta a mesma proeminência. Fez o curso na Escola
Militar, tornou-se alferes aluno em 1884 e engenheiro militar em 1889. Teria ainda
trabalhado como engenheiro de 2ª Classe no prolongamento da Estrada de Ferro Central
do Brasil260. Segundo o Guia Militar de 1893, Octavio teria falecido em 1892. 261
Podemos inferir que o desconhecimento do pai (e isso se agrava para Octavio
que não teve nem a mãe indicada), demonstra que esses dois homens tiveram uma
origem menos abastada que os outros 11 indivíduos com filiação paterna indicada.
Além disso, é de se destacar que apenas os dois, que não tinham o nome do pai, foram
indicados como “pardos”.
Não podemos negar que a família representava um importante capital político
naquela época. Mesmo que houvesse diferentes realidades familiares, como é o caso de
Eduardo, que tinha a família formada em torno da mãe e da irmã, o ideal partilhado pela
sociedade era de que essas famílias fossem chefiadas por homens, o que garantiria um
capital simbólico para os membros da família. Ou seja, “um chefe de família expandia o
círculo daqueles que, como dependentes, reconheciam sua autoridade.” 262
O segundo ponto que gostaria de tratar são os cargos políticos assumidos por
alguns desses alunos. O fato de um militar ter de assumir um cargo político não era algo
incomum naquele momento. Entretanto, parece incomum que um engenheiro militar
pardo, sem pai, tenha alcançado tal posição. Entre os indivíduos pesquisados, outros três
tiveram cargos políticos. Alexandre José, classificado como branco, havia sido eleito
governador de Pernambuco entre 1892 e 1896 e teria se formado engenheiro militar em
1888. Marcos Franco Rabello, também classificado como branco, concluiu o curso de
engenharia militar em 1887, mesmo ano que Eduardo Ribeiro, e assumiu em 14 de julho
260
Relatório do Ministério da Agricultura, Rio de Janeiro, junho de 1891. Consultado na Hemeroteca
Digital da Biblioteca Nacional.
261
Guia Militar, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1893. Consultado na Hemeroteca Digital da
Biblioteca Nacional.
262
GRAHAM, Richard. Clientelismo e Política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro, Editora da
UFRJ, 1997. p.37.

97
de 1912, o cargo de governador do Ceará, permanecendo até 1914. E Clodoaldo da
Fonseca, sobrinho de Deodoro da Fonseca, também classificado como branco, foi
governador de Alagoas entre 1912 – 1915. Tornar-se governador parece ter sido uma
característica dessa geração de militares que frequentaram a Escola Militar.
Sabendo um pouco dessas trajetórias, podemos observar algumas situações
interessantes. Todos eles assumiram cargos em estados ao norte do país: Amazonas,
Pernambuco, Ceará e Alagoas, compondo dessa maneira uma elite política oriunda do
Exército nesses locais. Outro ponto interessante é que apenas Eduardo era “pardo”, os
outros três, brancos. Além disso, Alexandre José e Marcos Franco Rabello assumiram o
cargo de governador em seus estados de origem; Eduardo, ao contrário, assumiu o cargo
no Amazonas, lugar onde não tivera relação anterior a 1887. Se as relações pessoais e a
cor da pele auxiliavam a inserção na elite política, podemos supor que Alexandre,
Marcos e Clodoaldo tiveram uma maior facilidade para adentrar esses espaços. Ao que
parece, Ribeiro aproveitou bem as fissuras e os laços que construiu ainda na Escola
Militar, para se alçar na política.

Adentrando as classificações de cor

Neste ponto o leitor já percebeu que a cor não pode ser considerada apenas
como referência cromática, mas sobretudo como marcador de lugar social. Como
sabemos “a cor no Brasil sempre foi um marcador social da diferença dos mais
operantes, a despeito de carregar certa fluidez e indeterminação”, isso porque ela
considera critérios “ora mais circunstanciais, ora mais econômicos, sociais e culturais”.
Ou seja, a cor ora tornava o indivíduo mais branco, ora mais negro. 263 Dessa forma,
discutir questões raciais mostra-se tarefa complexa e limitá-las à dicotomia
negro/branco acaba por essencializar essas relações, desconsiderando suas variações no
tempo e espaço. Quando tratamos da classificação de cor como parte do jogo político da
época estudada, procuramos nos distanciar de uma análise que considera as categorias
de cor de forma neutra. 264

263
SCHWARCZ, Lilia. Lima Barreto e a experiência da Mímesis: Agência e Loucura no Brasil da
Primeira República. In: ABREU, Martha; DANTAS, Carolina Vianna; MATTOS, Hebe. Histórias do
pós-abolição no mundo atlântico: identidades e projetos políticos – volume 1. Niterói: Editora da UFF,
2014.p. 156.
264
Assumimos essa análise a partir dos estudos de Ivana Stolze Lima em “Cores, marcas e falas: sentidos
da mestiçagem no Império do Brasil” (2003).

98
Antonio Sérgio Guimarães nos alerta de que a cor “nunca é um conceito
analítico, a não ser talvez na pintura, na estética, na fotografia; [...] mas, nas ciências
sociais, ela é sempre nativa, usada para classificar pessoas nas mais diversas
sociedades”.265 O que Guimarães salienta ao analisar categorias de cor é que em algum
momento na história, na medida em que o avanço social dos ex-escravos e de seus
descendentes se dava, passou-se a considerar predominantemente como classificação
social a cor da pele e não a raça.
Já salientamos nesse trabalho que houve um crescimento considerável da
população negra e mestiça livre. Segundo o censo de 1872 constituíam 55% da
população266 durante o século XIX. O que não sabemos é como essa dinâmica se deu
dentro de uma instituição como o Exército. Pesquisas sérias sobre a presença desses
homens de cor, os cargos que ocupavam e suas trajetórias, ainda precisam ser trazidas à
superfície. Por hora, este trabalho analisará de forma qualitativa o uso dos termos pardo,
pardo claro e moreno, que observamos a partir das fontes pesquisadas. Sem fugir de
nosso personagem, pelo contrário, as análises propostas nos permitem apreender melhor
sua trajetória como homem pardo dentro da Escola Militar.
Como já dito no capítulo anterior, nada havia no regulamento da Escola Militar
que impedisse o ingresso de jovens pobres e negros no corpo discente da instituição, o
que não significa que não usassem de outros meios para os excluírem social e
racialmente. Mas de qualquer forma é inegável que, a partir de meados do século XIX,
houve uma abertura para o ingresso de homens pertencentes a segmentos sociais mais
modestos no Exército e, mais especificamente, na Escola Militar.
Os termos usados para classificar a população não branca demonstram as
características das relações raciais no Brasil e criam, para os pesquisadores, problemas
de interpretação. A historiografia vem apontando que denominações como: “moreno”,
“pardo”, “mulato”, “preto” e “trigueiro” eram utilizadas para classificar os indivíduos e,
dependendo da época e do lugar, ganhavam significados diferentes, ora podendo ser
utilizadas para afirmar uma imagem positiva do sujeito, ora para desqualificar. Temos
um leque farto de designações raciais, que, longe de serem classificações neutras, elas
fazem parte do jogo político da época.

265
GUIMARAES, Antonio Sério Alfredo. Como trabalhar com “raça” em sociologia. In: Educação e
Pesquisa, São Paulo, v. 29, n.1, p. 93-107, jan/jun. 2003. p. 98
266
SCHWARCZ, Lilia. O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil – 1870-
1930. São Paulo, Companhia das Letras, 1993. p. 13

99
De acordo com Thomas Skidmore “o Brasil não teve nunca, pelo menos desde
o fim da colônia, um sistema birracial rígido. Havia sempre uma categoria mediana (os
chamados mulatos e mestiços)”.267 A partir de 1850, com a derrota de rebeliões
provinciais, com o fim do tráfico de escravos e o crescimento econômico continuado,
foi se observando a ascensão econômica de uma parte da população afro-brasileira.
George Andrews, resgatando alguns dos escritos de Sílvio Romero, nos diz que, apesar
de não haver estatísticas disponíveis, observou-se no século XIX centenas de mulatos se
268
formando nas recentes faculdades de Direito e Medicina.
Os homens livres, de cor, representavam 10% a 15% em 1819 da
população total. Durante o seguinte meio século essa população livre
de cor aumentou para 42% da população, enquanto que a população
escrava ficou reduzida a menos de 16 por cento. Em 1872, havia quase
três vezes mais homens livres que escravos na população de cor. 269

Indicar a cor da pele na fé de ofício funcionava, primeiramente, como uma


obrigatoriedade, já que é um documento de registro militar e de cunho mais oficial,
Pode-se dizer, que a categoria “pardo”, muitas vezes usada nesse tipo de documento,
seria a forma como a linguagem oficial via e classificava homens de cor.
Muitas vezes o termo pardo é interpretado como fazendo referência a “mulato,”
sendo utilizado também para fazer referência a uma condição social diferenciada entre
negros e os demais. Dessa forma, é bem possível que o próprio Eduardo se visse como
“pardo”. Não há motivos para achar o contrário, já que o mais complicado socialmente
era ter ascendência escrava.
Em Das cores do silêncio, Hebe Mattos ao tratar do fim da escravidão no
sudeste do Brasil, mais precisamente analisando as relações sociais entre escravos e
senhores e os significados de liberdade para os primeiros, nos apresenta análises de
processos oriundos da Corte de Apelação. Neles, Mattos evidencia o silenciamento
sobre a cor das pessoas que eram parte nos processos. Para a autora, tratava-se, ao não
mencionar a cor da pele desses indivíduos, de uma espécie de silenciamento, mais do
que uma tentativa de branqueamento. A autora tenta demonstrar que (...): “A noção de
‘cor’, herdada do período colonial, não designava, preferencialmente, matizes de

267
Idem, p. 55.
268
ANDREWS, George Reid. América Afro-Latina (1800-2000). São Carlos: EDUFSCar, 2007, p. 143.
269
SKIDMORE, Thomas E. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1976, p. 57

100
pigmentação ou níveis diferentes de mestiçagem, mas buscava definir lugares sociais,
nos quais etnia e condição estavam indissociavelmente ligadas.” 270
Ao analisar ainda registros de óbitos de adultos em Cachoeira do Muriaé na
década de 1890, Hebe Mattos nos mostra que a designação “negro” se referia ainda ao
passado do cativeiro, ou seja, à experiência da escravidão. E quanto ao termo pardo? A
autora diz não concordar com análises que entendem o termo como uma referência à
pele mais clara. Para ela, “a designação ‘pardo’ era usada, antes como forma de registrar
uma diferenciação social, variável conforme o caso, na condição mais geral de não
branco”. Dessa forma, ela salienta que todo escravo descendente de homem livre
branco, ou que tenha nascido livre e trouxesse a marca da sua ascendência africana era
designado como pardo. 271
O termo “pardo” parece, no caso de Eduardo Ribeiro, possuir uma
ambivalência. Se por um lado essa classificação faz referência a sua origem racial e
social, por outro, ela parece diferenciá-lo de outros indivíduos negros que não tiveram
acesso a uma formação educacional como a dele. Ou seja, a utilização do termo pardo o
ajudou a ter suas qualidades reconhecidas. Ser pardo representava um capital simbólico
diferente do ser negro e, dessa maneira, reforçava as diferenças. Seguindo essa
discussão, achamos interessante resgatar outra fonte, agora iconográfica. 272

270
Idem.p. 106.
271
MATTOS, Hebe. Op. Cite. p. 42.
272
As imagens aqui analisadas foram disponibilizadas pela Secretaria de Estado de Cultura do Amazonas,
através de sua Gerência de Acervos Digitais. Podendo ser obtida no Centro Cultural dos Povos da
Amazônia.

101
Imagem 1. Pintura de Eduardo Gonçalves Ribeiro. Atelier Daguirre, Rio, 1896. Disponível em: Centro
Cultural dos Povos da Amazônia.

Trajando uma vestimenta militar, esse retrato pintado de Eduardo Ribeiro nos
remete às descrições físicas constantes em sua fé de ofício, que seriam: “cor parda,
cabelos pretos e crespos” e possuindo um metro e sessenta de altura. Não sabemos em
que circunstâncias a pintura foi realizada e nem a identificação do pintor. A cor de
Eduardo, como podemos observar, é retratada de maneira escura. Na imagem 2, por
exemplo, já percebemos um Eduardo Ribeiro mais claro, muito provavelmente pela
iluminação da fotografia que permitiu que ele ficasse com um tom de pele mais claro.
Dessa forma, é certo dizer que a situação, o documento, (e quem o produzia), interferia
na sua tonalidade.

102
Imagem 2. Fotografia de Eduardo Gonçalves Ribeiro, sem datação. Disponível em: Centro Cultural dos Povos
da Amazônia.

Esses apontamentos nos fazem perceber que a linha de cor entre negros e
pardos é tênue e entre brancos e pardos ainda mais. Se hoje conseguimos visualizar
claramente Eduardo Ribeiro como um homem negro, naquele período, não
necessariamente. Assim, nos parece que “ao invés de perceber a história da formação da
sociedade brasileira como composta por brancos, negros, índios e mestiços, conceber
uma história dos termos branco, negro, índio e mestiço e de tantos outros”, se faz mais
oportuno, como sugere a historiadora Ivana Lima. 273
Voltando a nossa lista de estudantes da Escola Militar, Octavio da Fonseca foi
outro que recebeu a designação parda em sua fé de ofício, mas diferentemente de
Ribeiro teve o termo “claro” acrescido a sua caracterização. Por quê? Fonseca era
natural da província de São Paulo, filho de pais incógnitos havia nascido no ano de
1862. Com olhos e cabelos castanhos, 1,59 m de altura, era solteiro e sem ofício.
Assentou praça em 1880, um ano antes de Ribeiro. Matriculando-se na Escola Militar,

273
LIMA, Ivana Stolze. Cores, marcas e falas: sentidos da mestiçagem no Império do Brasil. Rio de
Janeiro: Arquivo Nacional, 2003. p. 18.

103
passou a pertencer ao corpo de alunos em 16 de junho daquele ano. Fonseca também
teve um bom desempenho na Escola, recebendo aprovações durante seus anos de
formação. O título alferes aluno veio em 12 de janeiro de 1884 e o de Engenheiro
274
Militar em 1889. Contemporâneo de Eduardo Ribeiro e do também já citado neste
trabalho Marcos Franco Rabello, há uma grande possibilidade de que os três tenham
estudado juntos já que se tornam alferes aluno no mesmo momento. Difícil dizer o por
quê do termo “claro” ter sido acrescido na descrição de Fonseca, talvez ele realmente
tivesse a pele mais clara que a de Ribeiro, mas, como não podemos nos contentar com
essa justificativa, outras hipóteses devem ser levantadas.
O termo pardo era uma expressão bastante utilizada para designar pessoas
durante toda a história do Brasil, mas teve por várias vezes seu significado mudado, a
depender também da situação em que era empregado. Essas formas oficiais de
classificação da população tinham como objetivo ordenar a população em um discurso
combinando uma variedade de dados: idade, filiação, naturalidade, sexo, cor etc. É
importante salientar que essa classificação acontecia de diferentes formas, dependendo
dos interesses. Segundo Ivana Lima:
Se para a polícia a cor foi um dos critérios básicos de sua atuação na
vigilância da ordem pública, da mesma forma que um presidente de
província poderia incluir sua menção, em benefício de um
conhecimento mais detalhado as riquezas e ameaças de sua região, os
ministros de Estado, com a incumbência de organizar os cômputos
gerais sobre a população, preferiram muitas vezes calar sobre o tema,
mesmo quando houvesse “dados” disponíveis e já recolhidos. 275

Se, como bem apontado pela historiadora Ivana Lima, a cor da população era
ativada de diferentes formas, conforme os setores do Estado, então, qual era o critério
do Exército para classificar quanto a cor de seus praças e oficiais? Segundo as
“Explicações para as informações dos oficiais e praças” que vimos no início do capítulo,
essas informações precisavam ser coletadas com precisão para que não ocorressem
equívocos ou confundir pessoas. Mas essa justificativa não encerra a questão.
A variação do termo “pardo” para “pardo claro” pode ser justificada primeiro
pela variação do olhar de quem atribuía a cor, já que poderia variar diante de inúmeras
situações. Segundo, se eles conseguiam seguir as instruções de classificação, podemos
dizer que Octavio tinha a pele mais clara que a de Eduardo Ribeiro. Ainda uma terceira
justificativa pode ser a intenção da instituição em ser o mais precisa possível na
274
Fé de Oficio de Octavio da Fonseca, referência: III-12-3. Arquivo Histórico do Exército
275
LIMA, Ivana. Op Cite. p. 206.

104
classificação desses homens, já que em uma sociedade miscigenada a linha tênue entre
uma cor e outra se tornava cada vez maior.
O que quero dizer, ao discutir essas hipóteses sobre classificação de cor de
Eduardo e Octavio, é que o termo “pardo” abarcava, como nenhum outro, a união entre
a classificação racial e social. Isso porque homens livres, que tinham um passado ligado
aos africanos, para tornarem-se pardos necessitavam de um “reconhecimento social de
sua condição de livres construído com base nas relações pessoais e comunitárias que
estabeleciam”. 276 Ou seja, o pardo era aquele que não podia ser classificado como
branco (embora reúna atributos que o aproximassem do branco) e não podia ser
classificado como negro, pois tal designação fecharia a ele todas as portas da ascensão
social. É um termo que, dependendo da condição social do indivíduo, sempre trai os
polos branco e negro. Dependendo das circunstâncias e da condição social, podia-se
passar como um pardo mais próximo do branco ou como um pardo mais próximo do
negro.
A utilização dessa categoria nos remete também ao primeiro censo nacional, o
de 1872, feito pela Diretoria Geral de Estatística. Apesar desses termos já terem sido
utilizados em censos anteriores, só agora e, pela primeira vez, “o conjunto da população
era apreendido oficialmente em termos raciais”. 277 Assim, a classificação racial dividia a
população em “pretos”, “pardos”, “brancos” e “caboclos”, esse último em referência ao
elemento indígena.
Nesse contexto, o recenseamento de 1872 fornecia o conhecimento das cores
da população. Ao introduzir o quesito “raça” separado do de “condição”, o
censo buscava realçar as marcas do cativeiro na apreciação da população (e
não a inferioridade racial, fortemente presente no censo de 1890),
evidenciando a formação de uma nova hierarquia social, indispensável à
278
transição para o regime de trabalho livre.

Não me parece que o uso do termo pardo tenha sido utilizado como uma
ferramenta de branqueamento de Eduardo Ribeiro. Neste momento, o que parece é que
esse indicativo de cor tinha como objetivo deixar evidente que se tratava de um homem
negro mais abastado em comparação a outros homens de cor sem acesso à educação. 279

276
MATTOS, Hebe. Op. Cit. p. 42.
277
CAMARGO, Alexandre de Paiva Rio. Mensuração racial e campo estatístico nos censos brasileiros
(1872-1940): uma abordagem convergente. In: Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v.4,
n 3, p. 361-385, set – dez, 2009. p. 366
278
Idem, p. 367.
279
KABENGELE, Daniela do Carmo. A trajetória do “pardo” Antonio Ferreira Cesarino (1808-1892) e
o trânsito das mercês. Tese de Doutorado em Antropologia Social. Universidade Estadual de Campinas.
Campinas, SP, 2012. p. 9.

105
É possível que se reconhecer e ser reconhecido como pardo tenha trazido vantagens
para seu processo de ascensão social e até de realização social e pessoal.
Ainda sobre o termo pardo, Ivana Lima, em Cores, marcas e falas: sentidos da
mestiçagem no Império do Brasil, atribui o uso da expressão para se referir a uma
identidade brasileira que estava em construção no século XIX. Isso porque, segundo a
autora, o termo pardo “é indefinível de forma fixa e acabada”, por fazer referência à
mestiçagem, à união das três raças, argumentos muito utilizados para a construção da
noção de brasileiro que se articulava.
A questão vai muito além de um simples dado fenotípico. Como apontado nas
páginas anteriores, as cores desses homens funcionavam como um marcador do lugar
desses indivíduos na hierarquia social. Ou seja, podemos perceber que as informações
recolhidas não pareciam funcionar como mero recolhimento de dados e informações
desses militares. E, ao que parece, o termo “moreno”, referente à cor da pele, pareceria
funcionar como atenuação e assim marcar diferenças dentro da instituição em relação
aos pardos. Se, como mostra Ivana Lima, nos censos populacionais do século XIX havia
uma intrínseca participação da cor e da condição (livre ou escravo) na classificação
dessa população, na classificação do Exército havia uma intrínseca relação entre cor e a
origem social desses indivíduos.
Essa flexibilidade no uso dos termos parece pretender a maior precisão
possível das diferentes cores, conforme também a dinâmica social de que se é parte.
Desta forma, a diversidade de classificação estaria muito longe de algo aleatório, fruto
da incapacidade da instituição em seguir um padrão. O gradiente de cores nos permite
também pensar o perfil dos alunos da Escola Militar além do corriqueiramente
analisado, ou seja, a origem social. A meu ver, as duas questões precisam ser analisadas
em conjunto, por estarem estreitamente ligadas. As dicotomias “elite” e “não-elite” e
branco e negro não dão conta do complexo universo de classificações no qual esses
personagens estavam inseridos.
Digo isso, pois a ascensão social e econômica de mulatos e mestiços durante o
século XIX, dependia “sem dúvida da aparência (quanto mais ‘negroide’, menos móvel)
e do grau de ‘brancura’ cultural (educação, maneiras, riqueza) que era capaz de
atingir”.280 Observa-se nesse período “um mundo de indivíduos que iam driblando sua

280
Idem, p. 56.

106
história de modo a construir lugares de inserção nessa sociedade até então dominada por
brancos”. 281
Tendo em vista essa discussão, é importante resgatar o texto de Gilberto Freyre
sobre a ascensão do bacharel e do mulato. Nele, Freyre pretende que, no contexto do
século XIX, diante de campanhas de abolição e propaganda republicana, era possível
perceber dois novos personagens que emergiam com bastante força: a figura do bacharel
e a do mulato. Sobre o bacharel, Freyre nos diz que essa figura surge no Brasil dentro de
um contexto em que a Europa burguesa torna-se o exemplo de internalização de novos
estilos de vida, contrários ao rural. Esses novos valores tornaram-se insígnias de uma
nova aristocracia, a dos sobrados, e de uma nova nobreza, a dos bacharéis e doutores.
Esse bacharel era principalmente o filho legítimo do senhor de engenho ou do
fazendeiro, rapazes da burguesia que se bacharelavam na Europa e de lá voltavam com
novas ideias. Segundo ele, “a ascensão dos bacharéis brancos se fez rapidamente no
meio político, em particular”.282 Freyre cita ainda a geração de bacharéis que saíam das
Escolas para fazer a Abolição ou a República. Segundo ele, nessa geração nem todos se
“extremaram em radicalismos, embora alguns viessem a ostentar ideias anticlericais e
outros, certo republicanismo jacobino [...]”.283
Assim, o que Gilberto Freyre procura pontuar é o fenômeno do declínio do
patriarcado rural brasileiro face à ascensão do burguês intelectual (esse bacharel e, às
vezes, mulato) e também o surgimento de uma geração de militares (em vários casos
também negros). A partir desse último, ele destaca que a carreira militar também “foi
outro meio de acesso social do mulato brasileiro”. Freyre compreende essa atração pelo
exercício militar por parte do mestiço tendo em vista ser a “farda agradável à sua
vaidade de igualar-se ao branco pelas insígnias de autoridade e de mando e, ao mesmo
tempo, instrumento de poder e elemento de força nas suas mãos inquietas”. 284
Se homens de cor queriam escapar das marcas da escravidão através da
inserção em um círculo intelectual e político, isso não excluía que visualizassem no
Exército uma maneira mais fácil de obterem profissão e melhor renda para a família. De
qualquer maneira, a assertiva de Freyre parece se encaixar no caso de nosso

281
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo, 1ª ed. Companhia das Letras,
2017, p.25.
282
FREYRE, Gilberto. Ascensão do bacharel e do mulato. In: FREYRE, Gilberto. Sobrados e
Mucambus: decadência do patriarcado e desenvolvimento urbano. 15 ed. – São Paulo: Global, 2004, p.
713.
283
Idem, p. 725.
284
Idem, p. 726.

107
personagem. Havia a ambição de alçar degraus na hierarquia social e tornar-se
conhecido. Ou seja, a tentativa de ascensão social por ele empreendida não se fez
apenas pela busca da aquisição de riquezas, mas também por tratar-se da obtenção de
capital cultural e simbólico diferenciado.
Se ser alfabetizado em fins do século XIX traduzia-se em galgar uma
mobilidade social já bastante significativa, bacharelar-se em um curso na Escola Militar
285
configurava um ganho extraordinário nessa corrida. A inserção de Eduardo Ribeiro,
homem negro, em um círculo intelectual branco, ainda muito cedo, nos indica que os
homens livres de cor tiveram não raro papel de destaque muito antes do período do pós-
abolição no Brasil, “conseguindo atingir considerável mobilidade ocupacional [...]”. 286

A distinção simbólica e os laços que esses indivíduos cultivavam dentro da Escola


Militar possibilitaram que se deslocassem dentro da hierarquia social construindo um
novo perfil político nos primeiros anos da República.
A escolha pela Escola Militar por parte de alunos pobres ou de cor não se deu
apenas pela abertura que a instituição garantiu a partir das reformas que aconteceram no
Exército, especialmente na década de 1850. Foi mais do que isso. Por ser uma
instituição conhecida pelos estudos científicos, mais do que uma profissão ou carreira
militar, ela possibilitava que esses alunos adquirissem capital simbólico. Para esses
alunos, e até mesmo para Eduardo Ribeiro que já havia tomado contato com o
Positivismo em São Luís, formar-se engenheiro militar possibilitava um ganho de
capital simbólico que lhe permitiu transitar até o topo da hierarquia social.
É bom lembrar que o acesso à educação, à formação superior e à participação
direta na política, entre outras formas de ascensão social não era aberto a todos. Isso não
significava, porém, que a sociedade estivesse totalmente fechada, como tentamos
mostrar nas páginas anteriores.
Através do caso de Eduardo Ribeiro, não nos foi possível desvendar o contexto
de uma clara política racial no Brasil, sobretudo quando observamos as ambivalências
quanto à inserção de homens de cor na sociedade brasileira. Essas pequenas aberturas ao
longo do século XIX parecem mais “apontar para a manutenção das hierarquias raciais”
e talvez para a “habilidade das estruturas [...] para neutralizar o conflito racial, definindo

285
SCHWARCZ, Lilia Moritz. Op. Cite. 2017, pp. 24-25.
286
SKIDMORE, Thomas E. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1976, p. 60

108
a cor flexivelmente para os indivíduos e abrindo oportunidades para pequenos números
de homens [...]”.287
Apesar do ingresso de homens de cor em postos importantes no Exército (e a
partir dele o acesso a cargos políticos) não ter sido algo corriqueiro, parece interessante
perceber como Eduardo Ribeiro soube se utilizar das brechas que a sociedade brasileira
deixava. Contudo, não acho que seja o caso de conferir a Ribeiro uma trajetória
excepcional e um protagonismo isolado. Outros homens negros também conseguiram
usar de outras estratégias para se lançar em degraus mais altos na hierarquia social.
Se a trajetória de Eduardo Ribeiro nos permite visualizar a presença de homens
de cor no Exército durante o século XIX (mais especificamente, a partir de meados
desse século), essa abertura parece ter se fechado já nas primeiras décadas do século
XX, no chamado pós-abolição. O historiador Fernando Rodrigues ao pesquisar as
reformas no modelo de ensino do Exército entre 1905-1946, observou que, entre o
período de 1931 e 1946, a Escola Militar passou a aplicar padrões de discriminação para
selecionar seus alunos. Isso significa dizer que a Escola acionou instrumentos que
dificultavam a entrada de comunistas, judeus, islâmicos, inferiores racialmente e, claro,
de estudantes negros. Mas como isso era efetivamente feito?
O primeiro impacto nesse sentido se deu em 1937 quando foram realizadas
sindicâncias para a apuração e expulsão de alunos que “eram portadores de estigmas
raciais e ideológicos concernentes ao judaísmo e ao comunismo”. 288
Segundo o
Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, o Exército não podia admitir
indivíduos que conflitavam “com as instituições políticas e sociais a que as Forças
Armadas montam guarda [...]”.289
Quanto ao racismo, fica evidente em nota secreta de 1941. O Ministro, sem
meias palavras, recomendava ao comandante da Escola Militar que a seleção dos
oficiais deveria ser feita em meio homogêneo a fim de que “diversidades de raças, de
mentalidades, de pigmento [...] jamais pudessem transformar o quadro de nossos
oficiais num amontoado amorfo de indivíduos [...]”. Ainda segundo ele, essa
discriminação em relação à cor não tinha como intuito desmerecer esses indivíduos, mas
objetivava evitar situações constrangedoras no futuro, das quais não poderia abolir “pois
constituíam normas e praxes de uso corrente na sociedade e às quais teriam de se

287
KRAAY, Hendrik. Op. Cit. p. 226.
288
RODRIGUES, Fernando. Op. Cit. p. 165.
289
Idem, p. 164.

109
amoldar”. As restrições iam ainda em direção aos judeus que, segundo Dutra, eram uma
raça “desradicada” da terra e seus membros não teriam “credenciais para o exercício da
profissão militar.” 290
O racismo acontecia ainda em vários casos de candidatos negros que eram
considerados inaptos em seus processos de admissão. Essas exclusões vão ao encontro
da articulação da ideia de que era necessário formar um oficialato brasileiro
desvinculado de uma “raça inferior”. E, assim, fechavam-se as portas para os
“indesejáveis”.
Como vimos durante esse capítulo, Hendrik Kraay percebeu em sua pesquisa
uma exclusão de indivíduos não brancos no Exército nas últimas décadas do período
colonial. Agora, com a pesquisa de Fernando Rodrigues, através de estudo sobre a
Escola Militar de Realengo na década de 1930, observa-se o preterimento de indivíduos
negros na instituição. O que a trajetória de Eduardo Ribeiro, entre esses períodos, pode
nos indicar? Teria acontecido uma abertura na sociedade brasileira entre o final do
século XIX e o imediato pós-abolição, que promoveria a inserção de indivíduos não
brancos em espaços anteriormente eram vedados a eles? Uma fugaz abertura e aceno a
esse homem livre não-branco, que, como vimos, se fecharia logo adiante, através do
preterimento de negros (e também de outros grupos étnicos), dessa forma fortalecendo o
racismo? Talvez a análise da trajetória de Eduardo Ribeiro, depois de sua saída da
Escola Militar, de sua reconhecida passagem pelo governo do Amazonas, bem como os
desdobramentos dos seus últimos anos de vida, possam melhor responder a essas
perguntas.

290
Idem. p. 168-169.

110
Considerações Finais

Não espere que aqui se revele o triste fim de Eduardo Ribeiro e Raimundo.
Não é o caso, fica para a próxima oportunidade. O que importa nessas considerações é
apresentar os resultados obtidos ao seguir uma vida a partir de métodos científicos.
Investigar uma trajetória de vida demanda um olhar atento dos historiadores para não
cair em algumas armadilhas, como a construção de vidas contínuas, ordenadas e
coerentes; ou ainda, transformar nossos personagens em figuras de proeminência, uma
curva fora de seu contexto, com o risco de apresentá-los como heróis. Na tentativa de
não cair nessas arapucas, acabamos caindo em outra: a de preencher todos os vazios que
as fontes insistem em trazer.
Mas o objetivo aqui não foi criticar o gênero biográfico e sim dizer que a
tentativa de driblar essas armadilhas e construir a narrativa de uma vida considerando
suas contradições e ambiguidades, nos permite visualizar individualidades que lançam
luz sobre a sociedade em que viveram.
Neste trabalho buscamos reconstruir a vida de Eduardo Ribeiro no Maranhão e
no Rio de Janeiro. Levamos em consideração como a atmosfera social e racial desses
dois ambientes influenciaram suas escolhas e expectativas. Acredito que a falta de
fontes que se referissem diretamente a ele ou que nos permitissem saber sobre suas
percepções pessoais, não tornaram o trabalho menos importante. Pelo contrário,
surgiram questões e hipóteses que talvez um diário ou uma carta não nos teriam
permitido elaborar. O que essa dissertação procura mostrar para o leitor é que em um
ambiente marcado por forte racismo nas relações sociais, a educação e a carreira militar
configuravam estratégias de mobilidade social para homens de cor.
Partindo de sua vida em São Luís – Maranhão, mostramos como o
envolvimento com o círculo intelectual da cidade, através do contato com Manoel de
Betthencourt e outros jovens, como Aluísio de Azevedo, principalmente através do
jornal O Pensador, foi mecanismo importante utilizado por este indivíduo para se tornar
conhecido. Essas escolhas possibilitaram que sua jornada ganhasse contornos diferentes
da de outros jovens negros com os quais provavelmente conviveu ainda em sua cidade
natal.
Através da pesquisa nos arquivos da cidade de São Luís foi possível resgatar
algumas nuances da vida de Eduardo Ribeiro, como também desmistificar outras que se

111
solidificaram sobre sua memória. A primeira foi que muito provavelmente sua mãe,
Florinda Maria da Conceição, não foi escrava, e muito menos Eduardo. Também foi
interessante perceber que a mãe e a irmã desfrutaram de certo prestígio na sociedade
maranhense visualizado através da presença da irmã Cezarina nos jornais da cidade
participando de eventos e irmandades e da mãe sepultada na igreja de Santo Antônia em
1910, momento em que esse tipo de prática já não ocorria com frequência. Prestígio este
que muito provavelmente tenham adquirido a partir da entrada do filho e irmão no
governo do Amazonas.
Outro ponto que acho importante destacar sobre sua vida em São Luís, refere-
se a sua residência à rua de São Pantaleão, a mesma onde se passaram alguns dos
eventos narrados por Aluísio de Azevedo em O Mulato. Esta rua não parece ter
abrigado, pelo menos não na altura do 18º quarteirão (onde ele residiu), ex-escravos e
pessoas paupérrimas, pelo contrário. Analisando os homens votantes daquele quarteirão
percebemos que um número considerável deles tinha instrução e uma renda que
indicava fazerem parte da classe econômica intermediária. Ou seja, Eduardo não sai da
pobreza rapidamente e se alça a governador, como as memórias sobre ele nos fazem
acreditar. Sua trajetória de mobilidade já vinha se construindo desde muito antes.
As análises correspondentes a sua passagem pela Escola Militar são o principal
ponto dessa dissertação. O intuito era perceber, para além do espaço de sociabilidade no
qual esteve inserido, como a instituição possibilitava a inserção de alunos de origem
social menos abastada e de homens de cor. Ao longo da pesquisa percebemos que o
princípio do mérito era um discurso bastante difundido no Exército e absorvido pelos
alunos. No entanto, essa absorção não impediu que estratégias extrameritocráticas
fossem acionadas por eles para galgarem melhor posição dentro da instituição. Laços
familiares e apadrinhamentos eram corriqueiramente acionados, mas não só isso.
No caso de Ribeiro, foi necessário que ele construísse laços e se inserisse em
espaços que o deixassem mais próximos do alto oficialato. Isso possibilitou que sua
pessoa, inteligência e esforços fossem percebidos, levando, consequentemente, a que ele
se destacasse. Os elogios feitos a sua pessoa e ao seu profissionalismo, salientados em
sua fé de ofício, foram importantes para que o vissem como alguém apto a assumir
cargos mais altos e de confiança dentro da instituição e fora dela.
Quando iniciei essa pesquisa tinha em mente resgatar as percepções raciais
sobre Eduardo Ribeiro. Mas logo de início percebi que não seria tarefa simples. Diante
da ausência de fontes que me permitissem visualizar o racismo na Escola Militar, acabei

112
trilhando outro caminho. Se a fé de ofício de Ribeiro indicava sua cor, era bem possível
que com outros alunos isso também acontecesse. Então utilizei mais 12 desses
documentos. Através da indicação da cor dos alunos, da presença ou não dos nomes dos
pais e da trajetória de alguns, pude perceber que o designativo “pardo” tinha relação
direta com a origem social dos alunos.
Os únicos alunos que receberam o designativo “pardo” foram Eduardo Ribeiro,
que tinha pai desconhecido; e Octavio, que tinha “pais incógnitos”. A partir disso e
através da trajetória desses e de outros alunos, percebemos que ter uma origem familiar
mais sólida e, dessa forma, poder usufruir dos laços que os pais haviam construído,
transformava o aluno em mais branco, facilitando sua ascensão social. Entre os dois
“pardos”, apenas Eduardo conseguiu proeminência; Octavio, depois que se formou,
assumiu um cargo de engenheiro, mas veio a óbito anos depois. Muitos dos alunos
classificados como brancos tiveram trajetórias de ascensão, subindo na hierarquia e
assumindo cargos de governador em diversos estados do Brasil, ainda na Primeira
República.
Ao fim e ao cabo, a trajetória de Eduardo Ribeiro nos mostra que a sociedade,
através de suas instituições, impunha rígidos obstáculos e barreiras para a mobilidade
social de homens de cor. Entretanto alguns indivíduos conseguiam ultrapassá-los e,
dessa forma, galgar espaços de atuação, desmobilizando, em muitos casos com
altíssimo custo pessoal, as barreiras raciais e os estigmas da escravidão.

113
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