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TRANSMISSÕES POR CADEIA

1. INFORMAÇÕES GERAIS

A transmissão por cadeia é constituida pela roda estrelada mandante


(motriz ou motora) e roda(s) estrelada(s) mandada(s) (movida). Estas rodas
são circundadas por uma cadeia (ou corrente) que engrena com os dentes das
rodas estreladas (figura 13.1). Também se utilizam transmissões por cadeia
com várias rodas estreladas mandadas (fig. 13.2). Para além dos elementos
mencionados a transmissão por cadeia pode ter mecanismos de tensão da
cadeia, mecanismos de lubrificação e de abraçamento. A cadeia é constituida
por órgãos unidos por articulações que garantem a mobilidade e flexibilidade
da mesma (fig. 13.13, fig. 13.4).
As transmissões por cadeia podem ser utilizadas numa vasta gama de
parâmetros de trabalho, com potências até 150 kW . As velocidades podem
alcançar valores até 25 m/s, com relações de transmissão até 10.
As cadeias comuns transmitem movimento entre veios paralelos, mas
há excepções.
As transmissões por cadeia utilizam-se amplamente nas máquinas
agrícolas, transportadores, plataformas de petróleo, motorizadas, bicicletas e
automóveis. Também se utilizam:
a) para distâncias interaxiais médias nos casos em que as transmissões
por engrenagens exigiriam escalões intermédios ou rodas dentadas parasitas,
mesmo que não houvesse necessidade de obtenção de uma relação de
transmissão elevada;
b) em exigências de grande rigor nas dimensões;
c) quando há necessidade de funcionamento sem deslizamento (em
casos de inconveniência de utilização de transmissões por correia).
Para além dos accionamentos por cadeia, na construção de máquinas
utilizam-se mecanismos com cadeia, i.e., transmissões que usam cadeias
como órgãos de trabalho (como alcatruzes, raspadeiras, etc.), nos
transportadores, elevadores, escavadores e outras máquinas.

Vantagens das transmissões por cadeia


1) capacidade de utilização numa vasta gama distâncias interaxiais;
2) dimensões inferiores às das transmissões por correia;
3) ausência de deslizamento;
4) alto rendimento (η≈0,96...0,98);
5) pequenas forças sobre os veios, visto não haver necessidade de uma
força inicial de tensão;
6) facilidade de substituição da cadeia;
7) possibilidade de transmissão do movimento a várias rodas estreladas
e para distâncias que podem atingir 5...8 metros.

Desvantagens:
1) o funcionamento das articulações em condições de lubrificação
deficiente provoca o desgaste destas, que é piorado pela acumulação de
poeiras e sujidade; o desgaste das articulações aumenta o passo dos elos e o
comprimento da cadeia suscitando a necessidade de utilização de
mecanismos de tensionamento;
2) exige-se um maior grau de precisão na colocação dos veios,
relativamente às transmissões por correia e a manutenção é mais complexa
devido à lubrificação e regulação;
3) muitas vezes, as transmissões requerem a colocação em caixas
protectoras (por exemplo, cárteres);
4) a velocidade do movimento da cadeia não é constante, especialmente
quando o número de dentes das rodas estreladas é pequeno, o que provoca
oscilações na relação de transmissão instantânea, apesar de as oscilações não
serem muito grandes (figura 13.8, fig. 13.9).
5) as transmissões por cadeia são mais ruidosas que as transmissões por
correia.

Cadeias
As cadeias utilizadas na construção de máquinas dividem-se em dois
grupos, segundo o carácter de execução do trabalho: cadeias de transmissão
(motrizes, de accionamento) e cadeias de tracção. As cadeias são
normalizadas e são produzidas em fábricas especializadas.
As cadeias de transmissão são do tipo de rolos, de espigões e de dentes.
Nestas cadeias usam-se passos tipicamente pequenos (para reduzir as cargas
dinâmicas) e as articulações são resistentes ao desgaste (para aumentar a
longevidade).
Os parâmetros geométricos principais das cadeias são: o passo e a
largura da cadeia e, como característica principal, a força de ruptura que é
determinada experimentalmente. De acordo com normas internacionais

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utilizam-se cadeias com passos que são fracções de 25.4 mm (uma polegada).
Por exemplo, na ex-U.R.S.S. fabricavam-se as seguintes cadeias de rolos e de
espigões:
ΠPΛ - de rolos, monofilar, de precisão normal;
ΠP - de rolos, de alta precisão;
ΠP∆ - de rolos, com elos compridos;
ΠB - de espigões;
ΠP**I- de rolos, com placas acotoveladas.
Também há cadeias de rolos para as instalações de sondagem
geológica ou de perfuração (nas transmissões rápidas), fabricadas segundo
normas específicas.
As cadeias de rolos (figura 13.3) são cadeias com elos constituidos por
duas placas prensadas em cavilhas (nos elos externos) ou em casquilhos (nos
elos internos). Os casquilhos são montados sobre as cavilhas dos elos
conjugados formando as articulações. Os elos externos e internos da cadeia
são dispostos em forma alternada. Os casquilhos, por sua vez, sustentam os
rolos que entram nas cavidades interdentais das rodas estreladas, engrenando
com estas. Devido aos rolos, em vez do atrito de deslizamento entre a cadeia
e as rodas estreladas, obtém-se o atrito de rolamento. Este facto reduz o
desgaste dos dentes das rodas estreladas. O deslizamento ocorre entre o rolo e
o casquilho.
O contorno das placas dos elos faz lembrar a cifra "8", por se tentar
fazer uma aproximação entre as placas e corpos de resistência uniforme à
tracção. Por outras palavras, a secção das placas é aproximadamente
constante ao longo do seu comprimento útil. As cavilhas (eixos que entram
nos casquilhos) são fabricadas com forma lisa ou escalonada. As
extremidades das cavilhas são recalcadas e, por isso, os elos comuns da
cadeia são inseparáveis. As extremidades da cadeia são unidas por
dispositivos de ligação com fixação das cavilhas por troços, freios ou rebites.
Em caso de necessidade de utilização de cadeias com número ímpar de elos
usam-se elos intermediários especiais, mas estes são menos resistentes que os
elos principais e, por isso, o emprego de cadeias com um número par de elos
é muito recomendável.
Em casos de grandes cargas e velocidades, para se evitar o uso de
cadeias com grandes passos (nocivos sob o ponto de vista das cargas
dinâmicas) utilizam-se cadeias multifilares (figura 13.3 b)). Estas cadeias são
constituidas por elementos similares aos das cadeias monofilares mas as suas

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cavilhas têm um comprimento maior. As potências transmitidas e as cargas
de ruptura das cadeias multifilares são quase proporcionais ao número de
filas.
As características das cadeias de rolos de alta precisão ΠP estão na
tabela 13.4.
As cadeias de rolos de precisão normal ΠPΛ são normalizadas na faixa
de passos 15.875...50.8 e são calculadas para uma força de ruptura 10...30%
menor que a das cadeias de alta precisão.
As cadeias de rolos com elos compridos ΠP∆ são feitas com um passo
que é o dobro do passo dos elos das cadeias vulgares. Por isso, elas são mais
leves e baratas que as cadeias vulgares. As cadeias com elos compridos só
são recomendáveis em casos de velocidades pequenas, frequentemente na
construção de máquinas agrícolas.
Segundo a sua construção, as cadeias de espigões ΠB assemelham-se
às de rolos diferindo destas pelo facto de não terem rolos. Isto torna-as mais
baratas e diminui as dimensões e a massa. Estas cadeias fazem-se com um
único passo de 9.525 mm e utilizam-se, frequentemente em motorizadas e
automóveis (para o accionamento do veio de distribuição). Estas cadeias
demonstraram que têm uma razoável capacidade de trabalho.
As cadeias de rolos com placas acotoveladas são constituidas por elos
iguais. Visto que as placas dos elos funcionam sob flexão as mesmas têm alta
cedência (i.e., têm baixa rigidez) e, por isso, as cadeias tendem a esticar sob o
efeito da força de tracção. Estas cadeias são utilizadas em casos de cargas
dinâmicas (choques, cargas com inversão do sentido). Na especificação das
cadeias de rolos ou de espigões indicam-se: o tipo, o passo, a força de
ruptura e a norma
As cadeias dentadas (figura 13.4) são cadeias constituidas por
conjuntos de placas. Cada placa tem dois dentes com uma cavidade entre
eles. Esta cavidade permite a livre passagem de um dente da roda estrelada.
As superfícies de trabalho (externas) dos dentes destas placas (i.e., as
superfícies de contacto com as rodas estreladas) são planos que estão
inclinados formando um ângulo mútuo "β" igual a 60º. Cada elo assenta por
estas superfícies em dois dentes não contíguos da roda estrelada. Os dentes
das rodas estreladas têm um perfil trapezoidal. As placas de cada elo estão
uniformemente distanciadas num valor igual à espessura de uma ou duas
placas de elos conjugados. Actualmente é comum fabricarem-se cadeias com
articulações rolantes (figura 13.5). Para a formação das articulações,

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introduzem-se prismas com superfícies de trabalho cilíndricas nos furos dos
elos. Os prismas apoiam-se por "arestas" (linhas de contacto). Com o
tratamento especial dos furos das placas e das superfícies conjugadas dos
prismas podem ser obtidas articulações com rolamento quase puro. Segundo
dados experimentais e da exploração destas cadeias, a longevidade das
cadeias dentadas com articulações rolantes é muito superior à das cadeias
com articulações deslizantes. Para se evitar o deslizamento lateral das cadeias
dentadas e fazer a centragem da cadeia sobre uma das rodas estreladas usam-
se placas centrantes, que são placas similares às demais excepto no facto de
elas não terem a cavidade entre as superfícies de trabalho dos dentes. Nas
placas comuns, esta cavidade permite a livre passagem de um dente da roda
estrelada. A sua ausência faz com que a placa toque na superfície lateral do
dente, posicionando a cadeia na direcção axial a roda estrelada. Este
posicionamento constitui um meio de centragem. As placas centrantes podem
ser laterais ou internas. O uso de placas centrantes internas faz com que seja
necessário tornear uma ranhura nas rodas estreladas, sobre os dentes desta.
Este tipo de placas permite uma centragem eficiente a altas velocidades
enquanto que as laterais têm larga aplicação para velocidades baixas.
Comparadas às cadeias de rolos, as cadeias dentadas têm as seguintes
vantagens:
- menor ruido;
- altas precisão cinemática e velocidade admissível;
- alta segurança de serviço, devido à multiplicidade das placas.
Apesar das vantagens citadas estas cadeias têm fabrico relativamente
complexo, são pesadas e caras. Por isso têm uso limitado e são preteridas a
favor das cadeias de rolos.
As cadeias de tracção dividem-se em três grupos: de placas,
desmontáveis e de elos arredondados. Estas últimas subdividem-se em
cadeias de resistência normal e cadeias de alta resistência .
As cadeias de placas servem para o deslocamento de cargas sob
qualquer ângulo relativamente ao plano horizontal. Usam-se em
transportadores tais como transportadores suspensos, transportadores de
alcatruzes, elevadores, escadas rolantes e outros. Em geral, estas cadeias são
constituidas por placas de forma simples e eixos com ou sem casquilho.
Nestas cadeias são típicos os grandes passos visto que as placas laterais são,
muitas vezes, utilizadas para a fixação da tela (ou outro portador de carga) do
transportador. Em geral, a velocidade de deslocamento destas cadeias não
ultrapassa 2...3 m/s.

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As cadeias de elos arredondados são muito utilizadas na elevação e
suspensão de cargas. Porém, também existem cadeias especiais que
transmitem movimento entre rodas estreladas com eixos mutuamente
perpendiculares. As "cavilhas" de dois elos consecutivos destas cadeias são
mutuamente perpendiculares.

PARÂMETROS PRINCIPAIS DAS TRANSMISSÕES POR CADEIA PARA


ACCIONAMENTO

As potências desenvolvidas nas transmissões por cadeia podem variar


de fracções de kW até centenas de kW. As distâncias interaxiais podem
atingir os 8 metros (os transportadores por cadeia podem ter dezenas de
metros de comprimento). As frequências de rotação das rodas estreladas e as
velocidades são limitadas pela magnitude da força de choque que surge entre
os dentes das rodas estreladas e as articulações da cadeia, pelo desgaste e
pelo ruido das transmissões. Os valores máximos recomendáveis das
frequências de rotação das rodas estreladas, n1, em rpm, e o passo máximo
recomendado, estão na tabela abaixo:

cad. de rolos z1≥15 1250 1000 900 800 630 500 400 300
c. dentada z1≥17 3300 2650 2200 1650 1320 - - -
pcmax, em mm 12.70 15.87 19.05 25.40 31.75 38.10 44.45 50.80

Em geral, a velocidade de deslocamento das cadeias não ultrapassa os 15 m/s


(n até 500 rpm), embora nas transmissões com cadeias e rodas estreladas de
alta qualidade e com emprego de métodos eficientes de lubrificação se possa
atingir os 35 m/s (n até 3000 rpm). A velocidade média da cadeia, expressa
em metros por segundo, é dada por:

z ⋅ n ⋅ pc z ⋅ n ⋅ pc
v= ou v= , para passos em metros (12.1)
60 ⋅ 1000 60

onde:
z - é o número de dentes da roda estrelada;
n - é a frequência de rotação da roda estrelada, em rpm;
pc - é o passo da cadeia, em mm (ou metros);

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60 - é um coeficiente de conversão de minutos para segundos, em
s/min;
1000 - é um coeficiente de conversão de milímetros para metros, em
mm/m.
A relação de transmissão é definida da condição de igualdade das
velocidades médias das cadeia sobre as duas rodas estreladas: mandante e
mandada (figura 13.1), que se expressa do seguinte modo:

z1 ⋅ n 1 ⋅ p c z 2 ⋅ n 2 ⋅ p c
= (12.2)
60 ⋅ 1000 60 ⋅ 1000

A relação de transmissão é a razão entre as frequências de rotação das


rodas estreladas mandante e mandada:

n1 z 2
i= = (12.3)
n 2 z1

onde:
n1 e n2 - são as frequências de rotação das rodas estreladas mandante e
mandada, respectivamente, em min-1;
z1 e z2 - são os números de dentes das rodas mandante e mandada,
respectivamente.
A relação de transmissão é limitada pelas dimensões da transmissão,
pelo ângulo de abraçamento e pelo número de dentes. Para casos gerais
recomenda-se i ≤ 6...7. Em alguns casos de transmissões lentas pode-se
admitir uma relação de transmissão i ≤ 10.
O número de dentes das rodas estreladas é limitado pelo desgaste das
articulações, pelas cargas dinâmicas e pelo ruido das transmissões. Quanto
menor for o número de dentes das rodas estreladas maior é o desgaste das
articulações visto que o ângulo de rotação destas quando os elos galgam a
roda estrelada e quando a abandonam é 360º/z (i.e., é função inversa do
número de dentes da roda estrelada).
Com a redução do número de dentes aumenta a irregularidade da
velocidade do movimento da cadeia e cresce a velocidade de choque dos elos
contra a roda estrelada. Em função da relação de transmissão, o número
mínimo de dentes das rodas estreladas das cadeias de rolos escolhe-se de
acordo com a seguinte fórmula empírica:

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z1min = 29 − 2 ⋅ i ≥ 13 (12.4)

Dependendo da frequência de rotação, o valor mínimo do número de


dentes pode ser escolhido usando as seguintes recomendações:

z1min = 19...23 - para altas frequências de rotação;


z1min = 17...19 - para frequências de rotação médias;
z1min = 13...15 - para frequências de rotação baixas.

Nas transmissões por cadeias dentadas o valor de z1min deve ser


incrementado em cerca de 20...30%.
A escolha do número de dentes faz-se respeitando as recomendações
seguintes, que são ligeiramente superiores aos valores mínimos dados pela
expressão (12.4):

i 1...2 2...3 3...4 4...5 5...6 >6


z1 30...27 27...25 25...23 23...21 21...17 17...15

Os maiores valores de número de dentes usam-se para maiores


velocidades. Para velocidades acima de 25 m/s deve-se ter z1 > 35. Para
baixas velocidades, o número de dentes pode ser menor que o tabelado, mas
maior que o valor mínimo recomendado (cerca de 7). O valor máximo de
numero de dentes para cadeias com rolos é 100...120. Este máximo ajuda a
limitar o alongamento da cadeia devido ao desgaste.

À medida que o desgaste da cadeia vai ocorrendo, as articulações vão


subindo pelos flancos dos dentes da roda estrelada, desde os pés até às cristas
destes (fig. 13.11), culminando na destruição da conjugação cadeia/roda
estrelada. Este fenómeno deve-se ao aumento do passo da cadeia, provocado
pelo desgaste (fig. 13.10). Este aumento do passo tem um limite admissível
que é tanto menor quanto maior for o número de dentes da roda estrelada. Por
esta razão, também se limita o número máximo de dentes da roda estrelada.
Quando se utilizam cadeias de rolos o número máximo recomendável de
dentes da roda estrelada é 100...120; para cadeias dentadas é 120...140.
Sob o ponto de vista do desgaste, é preferível construir rodas estreladas
com um número de dentes ímpar (especialmente a menor). Isto, combinado
com o número par de elos da cadeia faculta um desgaste uniforme dos

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conjuntos visto que assim aumenta a probabilidade de engrenamento de um
dado elo em diferentes dentes.

Distância interaxial das rodas estreladas e comprimento da cadeia


A distância interaxial mínima amin, em milímetros, é definida a partir
da condição da ausência de interferência (ou seja, sobreposição) das rodas
estreladas:

amin > 0.5 ⋅ (d e1 + d e 2 ) ou amin = 0.5 ⋅ (d e1 + d e 2 )+30...50 (12.5)

onde:
de1 e de2 - são diâmetros externos das rodas estreladas.
Para que o ângulo de abraçamento da cadeia sobre a roda estrelada
menor seja maior que 120º, i.e., para que a inclinação de cada ramo
relativamente à linha que une os centros das rodas estreladas seja inferior a
30º, já que sen 30º = 0.5, recomenda-se fazer amin > d2 - d1. Esta
recomendação provém do facto de se ter:

sen30 d 2 − d1
≥ (12.6)
cos 30 2⋅a

A distância interaxial óptima é, porém, dada por:

aopt = (30...50) ⋅ pc (12.7)

Os valores próximos de 30 são para i ≈ 1...2 e os valores próximos de


50 são para i ≈ 6...7, ou seja, quanto maior for a relação de transmissão maior
deve ser a distância interaxial.

Em geral, recomenda-se a limitação da distância interaxial pelo valor:

a max = 80 ⋅ pc (12.8)

O número de elos necessários "Lc" para formar a cadeia determina-se


partindo da seguinte expressão:

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2
2 ⋅ a z1 + z 2 z z pc
Lc = + + 2− 1 ⋅ (12.9)
pc 2 2 ⋅π a

O valor de "Lc" obtido pela expressão dada deve ser arredondado até
ao número mais próximo (preferivelmente par). Esta fórmula deduz-se de
modo análogo ao da dedução da fórmula para os comprimentos das correias,
z1 + z 2
dando um valor aproximado. Note-se que representa o número
2
aproximado de elos que abraçam as duas rodas estreladas e a parte restante da
fórmula corresponde ao comprimento das partes livres da cadeia entre as
rodas estreladas. Os dois primeiros termos da fórmula representam o número
de elos requerido quando z1=z2, sendo que, neste caso, os ramos da cadeia
são paralelos; o terceiro membro tem em conta a inclinação dos ramais.
A distância entre os eixos das rodas estreladas para um determinado
número de elos da cadeia (sem contar com a flecha dos ramos da cadeia) é
dada pela seguinte fórmula:

2 2
pc z + z2 z1 + z 2 z 2 − z1
acalc = ⋅ Lc − 1 + Lc − −8⋅ (12.10)
4 2 2 2 ⋅π

A cadeia deve ter uma certa flecha, i.e., deve estar ligeiramente frouxa
para evitar o surgimento de altas cargas sobre os veios devidas ao peso e ao
batimento radial das rodas estreladas. Por esta razão a distância interaxial real
deve ser menor que a calculada em 2...4 milésimos:

a real = (0.996...0,998) ⋅ acalc (12.11)

O passo da cadeia é tido como parâmetro principal da transmissão por


cadeia. As cadeias com grandes passos têm grande capacidade de carga mas,
em contrapartida, as frequências de rotação admissíveis nas rodas estreladas
são relativamente baixas. Quando as cadeias com passos grandes funcionam
com certa velocidade surgem elevadas cargas dinâmicas e ruido intenso. Para
uma dada carga, é recomendável escolher uma cadeia com o mínimo passo
admissível. Em geral usam-se recomendações para a limitação da relação
entre o passo e a distância interaxial e estas são:

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a a
≤ pc ≤ (12.12)
80 25

[compare esta recomendação com as fórmulas (12.7) e (12.8)]

O passo das cadeias dentadas pode ser reduzido a expensas do aumento


da largura. Nas cadeias de rolos o passo pode ser reduzido recorrendo ao
emprego de cadeias multifilares. A tabela antes dada contém passos máximos
admissíveis segundo a rapidez da transmissão.

Diâmetros de cálculo das rodas estreladas

O diâmetro de cálculo das rodas estreladas corresponde ao diâmetro no


qual se localizam as articulações da cadeia. Para uma roda estrelada com z
dentes, o ângulo ao centro correspondente a um passo é 2⋅π/z (em radianos).
Segundo a figura 13.6, a projecção do raio de cálculo da roda sobre a linha
correspondente à distância entre duas articulações da cadeia é o seno da
metade deste ângulo, i.e., sen (π/z). Como esta projecção corresponde a
metade do passo, então o passo inteiro será a projecção do dobro do raio de
cálculo, que é o diâmetro de cálculo. Assim sendo, as relações entre o raio de
cálculo, o diâmetro de cálculo e o passo podem ser expressas por:

pc
2 pc
r= ou seja d= (12.13)
π π
sen sen
z z

CRITÉRIO DE CAPACIDADE DE TRABALHO DAS TRANSMISSÕES


POR CADEIA

As transmissões por cadeia podem ficar inutilizadas devido às


seguintes razões fundamentais:

1. Desgaste das articulações - o desgaste das articulações origina o


alongamento da cadeia (fig. 13.11 b)) e causa perturbações no engrenamento
entre esta e os dentes da roda estrelada (este é o critério de capacidade de
trabalho para a maioria das transmissões).

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2. Fadiga - a destruição dos olhais das placas é o critério de capacidade
de trabalho principal para cadeia de rolos sobrecarregadas e rápidas que
funcionam em cárteres fechados, com boa lubrificação.
3. Saída dos espigões, cavilhas e casquilhos dos elos dos locais de
fixação - é a causa comum da inutilização das cadeias e é frequentemente
relacionada com a má qualidade de fabricação.
4. Quebra e destruição dos dentes.
5. Excesso de flecha no ramo frouxo - é um dos critérios utilizados para
transmissões com distâncias interaxiais não reguláveis que funcionam sem
mecanismo de tensão e que têm dimensões exteriores confinadas (por um
cárter ou outro objecto).
6. Desgaste dos dentes das rodas estreladas.

Do estudo das causas de inutilização das transmissões por cadeias


mencionadas conclui-se que a vida útil da transmissão é sobretudo
condicionada pela longevidade da cadeia. A longevidade da cadeia depende,
em primeiro lugar, da resistência das articulações ao desgaste.
O material e o tratamento térmico das cadeias são de grande
importância para a vida útil da cadeia. As placas dos elos são feitas de aços
de médio teor de carbono ou aços de liga temperados: 45, 50, 40X, 40XH e
30XH3A, com dureza HRC40...50; para as placas das cadeias dentadas é
recomendável usar o aço 50. As placas dos elos das cadeias com placas
acotoveladas são feitas de aços de liga. Em função do uso das cadeias as
placas dos elos são submetidas à têmpera para durezas até HRC40...50.
Os órgãos das articulações - casquilhos, espigões e prismas - são feitos
de aços cementados 15, 20, 15X, 20X, 12XH3, 20XH3A, 20X2H4A,
30XH3A que são submetidos à têmpera até durezas HRC55...65. Convém
utilizar aços de liga para o fabrico das transmissões por cadeia modernas
devido às altas exigências no funcionamento destas. O emprego da têmpera
com cianuretação gasosa nas superfícies de trabalho das articulações é muito
eficiente para o aumento da longevidade. Através da cromagem das
articulações por difusão pode-se conseguir uma multiplicação da longevidade
das cadeias.
A resistência à fadiga pode ser controlada por meio da escolha da
secção apropriada dos furos das placas e é aumentada por meio do tratamento
por jactos de granalha de aço.
Nas articulações de cadeias que funcionam sem lubrificação ou com
lubrificação deficiente convém empregar materiais poliméricos.

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As rodas estreladas são feitas de aços das marcas 45, 40X e afins.
A vida útil das transmissões por cadeia nas máquinas estacionárias é de
cerca de 10...15 mil horas de trabalho. Em geral, a vida útil não deve ser
inferior a 3...5 mil horas.

A potência desenvolvida na transmissão pode ser expressa por:

P = Ft ⋅ v

onde:
Ft - é a força tangencial útil na roda estrelada motriz, em N. Esta força
é quase igual à força de tensão da cadeia, no ramo tenso. O seu valor exacto é
dado pela fórmula (12.26).
v - é a velocidade de deslocamento da cadeia, em m/s

CAPACIDADE DE CARGA E CÁLCULO DAS TRANSMISSÕES POR


CADEIA

De acordo com o principal critério de capacidade de trabalho das


transmissões por cadeia - resistência das articulações da cadeia ao desgaste
- a capacidade de carga das transmissões por cadeia pode ser definida pela
condição de limitação da pressão nas articulações; a pressão que as forças de
trabalho exercem sobre os elementos das articulações não deve superar o
valor admissível, estipulado para as condições de exploração dadas. O
critério de cálculo pode ser expresso como:

Ft Ft
p= = ≤[ p ]
A B⋅d
onde:
Ft - é a força tangencial útil na roda estrelada motriz, em N;
A - é a projecção da área de contacto da articulação, em mm2;
B - é o comprimento do casquilho (que é igual à largura do elo interno,
Bint), em mm (tabela 13.4);
d - é o diâmetro da cavilha ou espigão, em mm.
p - é a pressão nas articulações, nas condições reais de exploração, em
MPa;
Assim, a força útil admissível que pode ser transmitida na pela cadeia
com articulações deslizantes é:

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Ft = [ p ] ⋅ B ⋅ d = [ p ] ⋅ A =
[ p0 ] ⋅ A (12.14)
Ke
onde:
Ft - é a força transmitida pela cadeia;
[p0] - é a pressão admissível nas articulações, em MPa, para condições
médias de exploração (tabela 13.1);

Tabela 13.1 - Pressões admissíveis [p0]

Pressões admissíveis [p0] nas articulações de cadeias de rolos,


em MPa, para frequências de rotação n01em min-1
Passo pc <50 200 400 600 800 1000 1200 1600
12.7...15.875 35 31.5 28.5 26 24 22.5 21 18.5
19.05...25.4 35 30 26 23.5 21 19 17.5 15
31.75...38.1 35 29 24 21 18.5 16.5 15 -
44.45...50.8 35 26 21 17.5 15 - - -

A superfície de apoio da articulação, nas articulações de rolos e de


espigões pode ser expressa por:

A= d ⋅B (12.15)

Nas fórmulas acima:

Ke - é o coeficiente de exploração; este coeficiente pode ser


considerado como um produto dos seguintes coeficientes:

Ke = Kd ⋅ Ka ⋅ Ki ⋅ Kreg ⋅ Klub ⋅ Kr ⋅ Kt (12.16)


onde:
Kd - é o coeficiente de carga dinâmica:
- para cargas suaves: Kd = 1;
- para cargas com choques: Kd =1.2...1.5;
- para cargas com choques fortes: Kd = 1.8;

Ka - é o coeficiente de comprimento da cadeia (ou coeficiente da


distância interaxial); quanto mais comprida for a cadeia menor é a frequência

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 14


dos ciclos de contacto de cada elo com as rodas estreladas e, portanto, menor
é o desgaste das articulações;
- para a < 25⋅pc Ka = 1.25
- para a = (30...50)⋅pc Ka = 1
- para a = (60...80)⋅pc Ka = 0.8

L0
(pode-se, também, utilizar a expressão K a = 3 , onde "L0" representa o
Lc
comprimento da cadeia para a = 40⋅pc e "Lc" representa o comprimento
calculado da cadeia - estes valores de comprimentos podem ser em passos
pois só importa a sua relação);

Ki - é o coeficiente de inclinação da transmissão relativamente ao plano


horizontal - quanto maior for a inclinação da transmissão relativamente ao
plano horizontal menor é o desgaste sumário admissível da cadeia; se se
designar por ψ o ângulo de inclinação da linha que une os centros das rodas
estreladas relativamente ao plano horizontal tem-se:

- para inclinação ψ até 60º Ki = 1;


- para inclinação ψ maior que 60º Ki = 1,25 ou K i = 0.15 ⋅ ψ ;

Kreg - é o coeficiente de regulação da tensão da cadeia:


- para transmissões com regulação da posição do eixo de uma das
rodas estreladas Kreg = 1.0;
- para transmissões com regulação por meio de rodas estreladas
tensoras ou por rolete tensor Kreg = 1.1;
- para transmissões sem regulação da tensão Kreg = 1.25;

Klub - é o coeficiente que considera o carácter da lubrificação da


transmissão:
- para transmissões com a lubrificação constante em cárteres ou por
meio de uma bomba Klub = 1.0;
- para transmissões com lubrificação gota a gota regular ou com
lubrificação do interior da articulação Klub = 1;
- para transmissões com lubrificação esporádica Klub = 1.5;

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 15


Kr- é o coeficiente que tem em conta o regime de trabalho da
transmissão:
- para trabalho num turno Kr = 1;
- para trabalho em dois turnos Kr = 3 2 = 1. 25;
- para trabalho em três turnos Kr = 3 3 = 1. 45;

Kt - é o coeficiente de temperatura do meio:


- Kt = 1 para temperaturas entre -25 e 150ºC;
- noutras condições Kt > 1;

Ao fazer a análise do coeficiente de exploração "Ke" deve-se


considerar que certos factores que nele influem são estocásticos.
Se, segundo o cálculo, o valor do coeficiente de exploração Ke > 2...3,
então devem ser tomadas medidas construtivas para melhorar o trabalho da
transmissão.

A força admissível "F" na cadeia com "mf" filas é:

Ft =
[ p0 ] ⋅ A ⋅ m =[ p ]⋅ A ⋅ m (12.18)
f f
Ke
onde:
mf - é o coeficiente que considera a irregularidade de distribuição da
carga pelas filas e substitui o número de filas por um valor relativamente
menor, para efeito de cálculo da força transmissível:

zf = 1 . . . . . . . 2 3
mf = 1. . . . . . 1.7 2.5

Utilizando os valores antes obtidos para o cálculo da potência


transmissível pode-se reescrever [veja as fórmulas (12.1) e (12.14)]:

P1 =Ft ⋅ v=[ p ] ⋅ A ⋅ v =
[ p0 ] ⋅ (B ⋅ d ) ⋅ z1 ⋅ n1 ⋅ pc (12.18)
Ke 60

Note-se que se o passo for expresso em milímetros a velocidade será expressa


em milímetros por segundo, mas esta fórmula subentende a utilização do
passo em metros para se obter a potência em W, apesar de se usar uma

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 16


pressão em MPa e área em milímetros quadrados, já que B e d são expressos
em milímetros.

Uma vez que os valores de [p0] são determinados experimentalmente


para determinados valores de frequências de rotação n01 e de números de
dentes z01, é preciso corrigir os valores das potências transmissíveis
utilizando factores de correcção respectivos. Assim, discriminam-se os
coeficientes:

z 01 n01
Kz = e Kn =
z1 n1

O valor experimental de z01 é 25 e os valores de n01 são 50, 200, 400,


600, 800, 1200, 1600.

Introduzindo estes coeficientes na fórmula (12.18) tem-se:

P1 =
[ p0 ] ⋅ (B ⋅ d ) ⋅ z01 ⋅ n01 ⋅ pc
Ke K z ⋅ K n ⋅ 60

Deste desenvolvimento, pode-se discriminar uma potência de cálculo


que corresponde à consideração de todos os coeficientes de correcção:

z01 ⋅ n01 ⋅ pc
P1 ⋅ K e ⋅ K z ⋅ K n =[ p0 ] ⋅ (B ⋅ d ) ⋅ =Pcalc
60

Repare-se que os valores na expressão do meio correspondem às condições


experimentais e por isso podem ser extraídos de tabelas. Assim sendo, os
valores de Pcalc podem ser tabelados. Isto simplifica o cálculo projectivo de
transmissões por cadeia ao cálculo dos coeficientes Ke, Kz e Kn e
posteriormente Pcalc, que nos facultam a escolha de uma cadeia com
potência [Pcalc] transmissível nas condições experimentais (z0, n0, p0) igual
ou superior à potência calculada Pcalc:

Pcalc = P1 ⋅ K e ⋅ K z ⋅ K n ≤ Pcalc

A tabela 13.4 mostra os valores de [Pcalc] para os quais a pressão nas


articulações não supera os valores admissíveis. Com o valor de [Pcalc]

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 17


tabelado pode-se ler o passo necessário na coluna respectiva. Subentende-se
uma cadeia monofilar. Depois de se obter o valor do passo necessário,
compara-se este valor com os passos admissíveis (dados na tabela da secção
"Parâmetros principais das transmissões por cadeia para accionamento"). Às
vezes o passo necessário é muito grande para este tipo de cadeias e por isso
tenta-se reduzir o passo aumentando número de filas, o que reduz o valor da
potência a transmitir por cada fila e o respectivo passo.
Para cadeias com filas múltiplas:

P1 ⋅ K e ⋅ K z ⋅ K n

Pcalc = ≤[Pcalc ]
mf

ou seja, cada fila deve transmitir uma fracção da potência total não superior
à potência admissível. O valor do coeficiente que considera a irregularidade
da distribuição da carga pelo número filas, mf, foi já abordado.

O momento torsor admissível, em N·m, na roda estrelada menor é:

Ft ⋅ d1 Ft ⋅ pc ⋅ z1
T1 = = (12.19)
2 ⋅103 2 ⋅ π ⋅103

Subentende-se que o passo e o diâmetro estão expressos em milímetros


e a força tangencial está expressa em Newtons.

FORÇAS NOS RAMOS DA CADEIA E CARGAS SOBRE OS VEIOS

O ramo mandante (tenso) da cadeia é submetida a uma força "F1"


durante o funcionamento. Esta força é constante e composta pela força útil
"Ft" e pela força de tensão no ramo mandado (frouxo) da cadeia "F2". (Esta
força é assim designada pois tende a esticar (tender) a cadeia. Assim, a
expressão "tensão" , neste contexto, não significa um estado de solicitação do
material.) A força no ramo mandante é:

F1 = Ft + F2 (12.20)

A força "Ft" (ou, simplesmente, "F") pode ser determinada por:

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 18


2 ⋅ T1
Ft = (12.21)
d1

A força de tensão no ramo mandado é considerada, com certa margem


de segurança, como sendo:

F2 = Fq + Fv (12.22)

onde:
- Fq - é a força de tensão exercida pela aceleração da gravidade (≈F0);
- Fv (ou Fc) - é a força centrífuga.
A força de tensão "Fq" (em N) é determinada de modo aproximado,
considerando a cadeia como um filamento absolutamente flexível e não
extensível, por meio da seguinte fórmula:

F0 =K f ⋅ a ⋅ q ⋅ g (12.23)

onde:
- q - é a massa linear específica da cadeia (massa de um metro de
cadeia, de acordo com os catálogos), em kg/m;
- a - é a distância interaxial, que é aproximadamente igual à distância
entre os pontos de suspensão da cadeia l, em metros;
- g - é a aceleração da gravidade, em m/s2;
Kf – é um coeficiente que considera o efeito do atrito e da disposição da
transmissão na força sobre os veios; para um coeficiente de atrito
f = 0,01...0,02 tem-se:

Kf = 6 - para disposição horizontal da transmissão;


Kf = 3 - para disposição da linha entre eixo a 40º relativamente ao
plano horizontal;
Kf = 1 - para disposição vertical.

A componente da força de tensão na cadeia devida às forças centrífugas


Fv (ou Fc) é determinada de modo similar ao da determinação da força de
tensão nas transmissões por correia (em N):

Fv = q ⋅ v 2 (12.25)

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 19


onde:
- v - é a velocidade linear de deslocamento da cadeia, em m/s.

A força centrífuga exercida ao longo de todo o contorno da cadeia


provoca um desgaste complementar das articulações.

Para fins práticos, a soma da força centrífuga e da força de tensão


devida à gravidade são valores muito pequenos em comparação com a força
tangencial útil, ou seja, F2 ≈ 0 e consequentemente F1 ≈ Ft. Por isso, a carga
de cálculo nos veios da transmissão por cadeia é apenas um pouco maior que
a força tangencial útil ("Ft" ou "F") devido à carga que a massa da cadeia
causa, mesmo em condições de repouso. A carga de cálculo dos veios é
considerada como sendo:

Fveio = km⋅Ft (12.26)


onde:
- km - é um coeficiente que depende do ângulo de inclinação da
transmissão:
- para transmissões horizontais: km = 1.15;
- para transmissões verticais: km = 1.05.

As transmissões por cadeia de todos os tipos são testadas quanto à


resistência empregando os valores da força de ruptura "Frup" (tabela K 32) e
da força de tensão no ramo mais carregado "F1max". Deste teste define-se,
condicionalmente, uma margem de segurança quanto à resistência:

Frup
K= (12.27)
F1max
onde:
- F1max = Ft + Fq + Fv + Fd (12.28)

("Fd" representa a carga dinâmica, grandeza a ser tratada adiante)

Quando o valor do coeficiente de segurança K > 5...6 considera-se que


a cadeia satisfaz a condição de resistência estática.

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 20


OSCILAÇÕES DA RELAÇÃO DE TRANSMISSÃO E CARGAS
DINÂMICAS

Durante o funcionamento das transmissões por cadeia, o movimento


desta é determinado pelo movimento da última articulação a entrar em
engrenamento com a roda estrelada motriz. Cada elo faz com que a cadeia se
desloque no valor de um passo angular e depois cede o lugar ao elo seguinte.
Por esta razão a velocidade de deslocamento da cadeia não é estritamente
constante mas sim cíclica, apesar de a velocidade angular da roda estrelada
motriz ser constante. A velocidade da cadeia é máxima quando a roda
estrelada está numa posição tal que o segmento de recta traçado entre a
articulação e o centro da roda estrelada tem uma posição perpendicular ao
ramo mandante da cadeia. Em posições arbitrárias da roda estrelada, estando
a articulação deslocada angularmente num valor "θ" relativamente à linha
perpendicular ao ramo mandante (figura 13.8 a)), a velocidade linear de
deslocamento da cadeia pode ser expressa por:

v = ω1 ⋅ r1 ⋅ cosθ (12.29)
onde:
- ω1 - é a frequência angular da roda estrelada mandante;
- r1 - é o raio de disposição da articulação, relativamente ao centro da
roda estrelada mandante (raio do círculo primitivo).
Dado que o ângulo "θ" varia de -π/z1 a +π/z1, a equação anterior
assumirá valores entre "vmax" (igual a ω⋅r1) e "vmax⋅cos (π/z1)". Esta
relação provém do facto de o ângulo ao centro de duas articulações
consecutivas ser 2⋅π/z1 e as posições extremas máximas dos elos verificarem-
se em intervalos angulares iguais ao passo angular dos elos, que é igual ao
ângulo ao centro. Portanto, a distância angular entre uma posição extrema
máxima e uma mínima é metade deste valor, ou seja, é igual a π/z1.
A velocidade angular instantânea da roda estrelada mandada,
determinada pelo movimento da cadeia, é:

v
ω2 = (12.30)
r2 ⋅ cos β
onde:
- r2 - é o raio de disposição da articulação, relativamente ao centro da
roda estrelada mandada (raio do círculo primitivo);

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 21


- β - é o ângulo de rotação da articulação da cadeia, adjacente ao ramo
mandante da roda estrelada; este ângulo é definido pela perpendicular ao
ramo mandante que passa pelo centro da roda estrelada mandada;
similarmente a "θ", o valor de "β" varia entre -π/z2 e π/z2.
Destas fórmulas pode-se deduzir que a relação de transmissão
instantânea pode ser definida por:
ω r cos β
i= 1 = 2⋅ (12.31)
ω2 r1 cosθ

Analisando esta fórmula e a figura 13.6 pode-se inferir que:


1) a relação de transmissão não é um valor constante;
2) a uniformidade do movimento é tanto maior quanto maiores forem
os números de dentes das rodas estreladas, visto que cosθ e cosβ crescem
aproximando-se da unidade; o aumento do número de dentes da roda
estrelada menor tem maior impacto na uniformidade do movimento visto que
θ > β e, portanto, cosθ < cosβ;
3) a uniformidade do movimento pode ser sensivelmente aumentada se,
no ramo mandante, se dispuser um número inteiro de elos; caso esta condição
se verifique, a uniformidade do movimento será tanto maior quanto mais
próximos forem os números de dentes das rodas estreladas mandantes e
mandada pois, neste caso, o valor de θ é aproximadamente igual ao de β;
idealmente, se "z1"for igual a "z2" pode-se obter um estado em que a relação
de transmissão instantânea ("i") é constante.
A estabilidade da relação de transmissão, em condições de rotação
uniforme da roda estrelada mandante, pode ser avaliada por meio do
coeficiente de irregularidade da rotação da roda estrelada mandada:

ω 2 max − ω 2 min
ε= (12.32)
ω 2med

Por exemplo, para uma transmissão com z1 = 18 e z2 = 36 o valor de ε


varia entre 1.1 e 2.1%. O valor menor é para os casos em que se coloca um
número inteiro de elos "Lc" no ramo mandante da cadeia. O valor 2.1 é para
os casos em que o número de elos no ramo mandante da cadeia está mais
distante de um número inteiro, i. e., quando o número de elos está
exactamente no meio de dois números inteiros consecutivos, podendo ser
representado pela expressão Lc + 0.5.

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 22


Cargas dinâmicas nas transmissões por cadeia
As cargas dinâmicas nas transmissões por cadeia são provocadas por:
a) variação da relação de transmissão - esta variação provoca o
surgimento de acelerações e desacelerações das massas ligadas à transmissão;
b) choques dos elos da cadeia contra os dentes das rodas estreladas, no
instante em que os elos engrenam nas rodas estreladas.
A carga dinâmica máxima na cadeia, segundo a Lei de Newton e
considerando a cadeia como um corpo absolutamente rígido, é:

dv
Fd = m2 ⋅ = 0.5 ⋅ m2 ⋅ ω12 ⋅ pc (12.37)
dt max

onde:

m2 - é a massa cálculo da roda estrelada mandada e dos elos unidos


reduzida à articulação da cadeia, considerando o momentos de inércia em
relação ao eixo de rotação da roda estrelada.

Esta força é dada para fins de demonstração e não será usada nos
cálculos práticos.

A energia do impacto do elo sobre a roda estrelada pode ser calculada usando
a velocidade máxima de aproximação entre o elo e a roda estrelada:
2
1 1 1 z ⋅ p ⋅n
Ek = ⋅ m ⋅ v y2max = ⋅ q ⋅ pc ⋅ (v ⋅ senθ max ) = ⋅ q ⋅ pc ⋅ 1 c 1 ⋅ senθ max
2

2 2 2 60

Pode-se deduzir que a energia do impacto é muito influenciada pelo


passo da cadeia e frequência de rotações. É por isso que se dão
recomendações para o passo máximo da cadeia de acordo com a frequência
de rotações.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 23


Sequência de cálculo das transmissões por cadeia
São considerados como dados iniciais:
- a potência no veio motor P1;
- a frequência de rotação do veio motor n1;
- a relação de transmissão i (a a frequência de rotação do veio movido,
n2)
- o ângulo de inclinação da transmissão ψ;
- o tipo de lubrificação e de protecção da transmissão;
- o regime de funcionamento da transmissão;
- o tipo de regulação da tensão da cadeia;
- o tipo de cadeia, se for pré-determinado.

Se estes dados não estiverem completos é preciso determiná-los ou


seleccioná-los usando algum critério.

A escolha de transmissões por cadeia faz-se de acordo com a ordem a


seguir.

1. Ao começar, determina-se ou escolhe-se o número de dentes da rodas


estrelada motriz (mais precisamente, a menor), usando as recomendações
tabeladas. Determina-se o número de dentes da roda estrelada maior.

2. Arbitra-se a relação entre a distância interaxial e o passo da cadeia. A


recomendação é:

a = (30...50)⋅pc

3. Determina-se a potência de cálculo Pcalc, escolhendo os coeficientes que


integram o coeficiente de exploração e calculando Kz e Kn

z 01 n01
Kz = e Kn =
z1 n1
4. Para n0 e Pcalc escolhe-se o passo da cadeia da tabela 13.4 e verifica-se
escolhido pc < [pcmax] (tabelado), para o tipo de cadeia e frequência de
rotações. Calcula-se a distância interaxial "a" em função do passo pc.

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 24


5. Calcula-se a velocidade da cadeia (fórmula 12.1), para ajudar a escolher o
tipo mais conveniente de lubrificação :

z1 ⋅ n1 ⋅ pc
v=
60 ⋅ 1000

6. Calcula-se o comprimento da cadeia em termos de número de elos:


2
2 ⋅ a z1 + z 2 z z pc
Lc = + + 2− 1 ⋅
pc 2 2 ⋅π a

e recalcula-se a distância interaxial arbitrada no ponto 2 usando a fórmula:

2 2
p z + z2 z + z2 z − z1
a calc = c ⋅ Lc − 1 + Lc − 1 −8⋅ 2
4 2 2 2 ⋅π

Do valor obtido é preciso reduzir 2...4 milésimos, ou seja:

ared = (0,996...0,998)⋅acalc

7. Acham-se os diâmetros de cálculo das rodas estreladas por

pc pc
d1 = d2 =
π π
sen sen
z1 z2

O cálculo pode terminar por aqui, mas há valores adicionais.

Um dos cálculos mais comuns é o da força no ramal mais carregado


"F1max", que se compara com a força de ruptura "Frup" tabelada (tabela
K 32), para achar o coeficiente de segurança quanto à resistência, usando a
fórmula (12.17):

Frup
K=
F1max

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 25


onde, pela fórmula (12.49):

F1max = Ft + Fq + Fv + Fd

Quando o valor do coeficiente de segurança K > 5...6 considera-se que


a cadeia satisfaz a condição de resistência estática.

P1
A força tangencial (útil) é dada pela fórmula seguinte, em N: Ft =
v

v - é a velocidade da cadeia, em m/s;

A força devida à gravidade, em N, é (12.23): F0 =K f ⋅ a ⋅ q ⋅ g

q - é a massa linear da cadeia, em kg/m (tabela K32)


a - é a distância interaxial, em metros;
g - é aceleração da gravidade: 9,81 m/s2

A força centrífuga, em N, é dada por (12.25): Fv =q ⋅ v 2

dv
A força dinâmica é dada por (12.50): Fd = m2 ⋅ = 0.5 ⋅ m2 ⋅ ω12 ⋅ pc
dt max

F1 1
Frequência crítica, em min-1: ncrit = 30 ⋅ ⋅
q z1 ⋅ a

A frequência crítica compara-se com n1 para determinar a possibilidade de


ressonância.

O cálculo de cadeias pode ter variantes. Uma delas consiste no cálculo


simplificada através da carga de rutpura.

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 26


Cadeias: Problemas sobre cálculos projectivos de cadeias
Dados: Potência P1= 5,5 kW; n1=80 rpm; i = 3,15; ψ =
80°
Lubrificação em cárter fechado; regulação da tensão por rolo tensor; trabalho
em dois turnos; cargas com choques; temperaturas entre 20 e 90 ºC.

••o00OO00oo••
Resolução:
1. Escolhe-se o número de dentes das rodas estreladas e recalcula-se a relação
de transmissão real:

z1=25 dentes (para i ≈ 3); z2 = i⋅ z1 = 78,75 79 < z2max


=100...120

79
ireal = = 3,16 (∆i = 0,01/3,15 < 4%)
25

2. Escolhe-se a distância interaxial, em termos de números de passos:

a = 40⋅pc (de aopt = (30....50)⋅pc - fórmula 7)

3. A potência calculada é dada por:

Pcal = P1 ⋅ Ke ⋅ Kz ⋅ Kn = P1⋅ 1,49 = 8,2 kW < [ Pcal]

onde:

Ke = Kd ⋅Ka ⋅ Ki⋅ Kreg ⋅ Kllub ⋅ Kr ⋅ Kt = 1,3 ⋅ 1⋅ 1,34⋅ 1,1 ⋅ 1,0 ⋅ 1,25 ⋅


1=2,39

sendo:
Kd = 1,3 - para cargas com choques;
Ka = 1 - para a = (30...50) ⋅ pc;
Ki = K i =0.15 ⋅ ψ = 1,34;
Kreg = 1,1 - para regulação da tensão por rolo tensor;
Kllub = 1,0 - para cárter fechado;
Kr = 1,25 - para regime de dois turnos;
Kt = 1,0 - para temperaturas entre -25 e 150ºC

z 01 25 n01 50
Kz = = = 1,0; Kn = = = 0,625
z1 25 n1 80

Ke ⋅ Kz ⋅ Kn = 2,39 ⋅ 1⋅ 0,625 = 1,49

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 27


Das tabelas escolhe-se a cadeia ΠP - 38,1 - 127000, com capacidade para
10,5 kW,
passo real pc = 38,1 mm e massa linear da cadeia q = 5,5 kg/m (tabela K32).

4. Da tabela antes da fórmula (1) vê-se que pc max > 50,8 mm, para n <
300rpm, o que significa que a cadeia com 1 fila de elos é adequada. Por conseguinte,
pode-se continuar o cálculo da distância interaxial por:

a= 40.pc = 40; 38,1 = 1524 mm

5. A velocidade de deslocamento da cadeia é :

v = z⋅ pc ⋅ n/60.000 = 1,27 m/s ( usada para escolher o tipo de


lubrificação)

6. O número de elos é calculado por:


2
2 ⋅ a z1 + z 2 z −z pc
Lc = + + 2 1 ⋅ =
pc 2 2 ⋅π a

2
2 ⋅ 1524 25 + 79 79 − 25 38,1
= + + ⋅ = 80 + 52 + 1,85 = 133,8
38,1 2 2 ⋅π 1524

Escolhe-se um número inteiro de elos, preferivelmente par: L = 134 elos.


A distância interaxial re-calculada é:

2 2
p z + z2 z + z2 z − z1
a cal = c ⋅ Lc − 1 + Lc − 1 − 8⋅ 2 =
4 2 2 2π

2 2
38,1 25 + 79 25 + 79 79 − 25
= ⋅ 134 − + 134 − −8⋅ = 1527mm
9 2 2 2 ⋅π

Assim, a distância interaxial real será:

areal = (0,996 ... 0,998)⋅acal = 1520 ... 1524 mm

Escolhe-se a = 1524 mm.

7. Os diâmetros de trabalho das rodas estreladas são:

pc 38,1 38,1
d1 = = = 303,99≈ 304mm;d 2 = ≈ 958mm
π π π
sen sen sen
z1 25 79

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 28


As forças na transmissão podem ser calculadas por:

P1 5,5 ⋅10 3
Ft = = = 4331N
v 1,27
Fv = q ⋅ v 2 = 5,5 ⋅ 1,27 2 = 8,87 N

F0 = K f ⋅ a ⋅ q ⋅ g = 1 ⋅ 1,524 ⋅ 5,5 ⋅ 9,8 = 82,1N

A frequência de ressonância pode ser determinada por:

F1 1 4331 1
n1crit = 30 ⋅ ⋅ = 30 ⋅ ⋅ = 22rpm < n1 = 80rpm
q z1 ⋅ a 5,5 25 ⋅ 1,524

Assim, não há ressonância.

Cadecurt: Transmissões por cadeia - Rui V. Sitoe - 2001 Página 29