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Não há líderes

2010 Entrevista com Márcio Valadão Publicado em 23.01.2012

originalmente publicado em 03.11.2010

O que há de errado? A nação requer liderança e não há ninguém em casa? A Igreja


requer liderança e aonde ela está? Para onde se foram os grandes líderes? A Igreja e os
ministérios a ela ligados devem selecionar, recrutar, treinar e sustentar seus líderes. A
fim de obter os líderes necessários, é imprescindível que a Igreja tenha uma estratégia
para desenvolver líderes. Não estamos dispostos a pagar o preço? Sua organização
desenvolve líderes? A falta de líderes gera falta de seguidores. E a falta de seguidores
produz falta de futuros líderes. Charles Swindoll disse: "A liderança não é opcional. Ela
é o ingrediente essencial ao sucesso de qualquer organização. Deixe de lado a liderança
e a confusão substituirá a visão."

Para falar sobre este assunto entrevistamos o Pr. Márcio Valadão, pastor presidente
da Igreja Batista da Lagoinha de Belo Horizonte- MG há 40 anos . A Igreja conta
com mais de 40 mil membros.

Lemos em várias revistas de administração, assim como


em jornais que há um "apagão" de líderes, esta também tem
sido uma realidade em algumas Igrejas. Sua Igreja conta com
200 ministérios, várias atividades/eventos e 40 mil membros, o
Sr. também tem tido este tipo de problema: o desaparecimento
de bons líderes?

A Igreja Batista da Lagoinha é uma igreja em crescimento. Quando


partimos desta premissa e de que não existe uma igreja grande ou
pequena, mas que todas as igrejas estão em crescimento, essa
compreensão passa a ser realmente o retrato da igreja Lagoinha.

Assim, a necessidade por mais líderes não acontece simplesmente, não apenas se faz
presente, mas passa a ser imprescindível e o investimento se faz constante porque à
medida que a igreja cresce, a demanda por líderes devidamente preparados e capazes é
maior para acompanhar esse crescimento. Não é pelo fato de termos muitos líderes que
a igreja irá crescer, mas o crescimento da igreja irá gerar o aumento de líderes. A
demanda por mais líderes nunca vai acabar, pois o próprio crescimento gera a
necessidade por mais deles.

Como a Igreja Batista da Lagoinha tem desenvolvido sua estratégia para formar
líderes?

A premissa de formar cada membro da igreja num líder, a de buscarmos realmente e ver
nas casas a possibilidade de nelas existir uma célula, isto faz com que a palavra "líder"
deixe de ser apenas muito falada no púlpito, mas se torne uma realidade na igreja como
um todo. Na igreja, temos líderes de célula, de louvor, do diaconato, e em cada
departamento. A formação de um líder na Lagoinha é realizada em nossa Escola de
Líderes. Uma escola não apenas acadêmica, mas prática, permitindo aos líderes
desenvolverem seus dons, tendo a possibilidade de crescerem no ministério a partir do
momento que se formam. As pessoas vão caminhando por esse caminho aos poucos, até
que se tornem um líder.

No caso das células, a pessoa que se torna um líder, em seguida pode se tornar um
supervisor, liderando outros líderes de células, e assim por diante. Os membros têm uma
facilidade muito grande de identificar quem são os líderes dos diversos ministérios da
nossa igreja. Aqui, pelo fato de termos essa compreensão de buscarmos ser uma igreja
em crescimento, a necessidade de liderança vai sendo suprida pelos líderes que são
preparados ao longo do tempo. Líder, essa palavra é muito forte aqui na Igreja Batista
da Lagoinha.

A questão de maior interesse na liderança é conseguir causar nas pessoas um


sentido de comprometimento a longo prazo. Como fazer para investir o tempo, sem
perder muitas oportunidades e desperdiçar energia com líderes
descompromissados?

A única maneira de termos líderes totalmente comprometidos é se nós, pastores, nos


comprometermos com eles. Não existem líderes comprometidos se a própria liderança
da igreja não estiver comprometida com eles. Eles precisam ver e receber esse
compromisso da liderança da igreja e a liderança precisa investir de uma forma muito
intensa em novos líderes. Precisamos investir nosso tempo, nossas orações, nossa vida e
nossas oportunidades. Percebemos também que se a liderança da igreja é comprometida
em investir nos líderes, o resultado do comprometimento deles para com a liderança da
igreja vai aumentar na razão direta do compromisso da liderança pastoral com a própria
igreja. Muitas vezes um líder é descomprometido por causa de problema de caráter, de
paixão ou da própria formação, mas o importante é que a liderança pastoral seja
comprometida e seja um modelo para ele.

Nós pastores dizemos assim: "Ah, os pastores precisam viver o que pregam". Isso é
verdade, mas por outro lado, nós temos que pregar o que nós vivemos. Eu não posso
exigir das pessoas que estou liderando algo que não exija de mim mesmo. É verdade
que hoje existem coisas que pelo passar dos anos, que pela idade e experiência eu não
faço, mas não irei pedir para outros líderes fazerem uma coisa que eu mesmo não faço
ou não fiz no passado. Mas, acima de tudo, o compromisso moral, o compromisso da
integridade, o compromisso da fé, isso nós não podemos abrir mão. Quanto mais a
liderança da igreja mantém esse compromisso fiel com o Senhor, mais os liderados vão
perceber isso e vão querer ter o mesmo nível de comprometimento.

Vemos a exigência de fazer mais com menos e melhor, onde um único líder é
responsável por uma quantidade de pessoas cada vez maior ou ainda, o mesmo
líder assumindo várias responsabilidades (por exemplo: líder de célula, supervisor,
diaconia, louvor, etc.). O que fazer se a Igreja depende destas pessoas, que se doam
tanto, porque o crescimento da Igreja é mais rápido do que a formação de líderes?

É verdade que quanto menos líderes estiverem assumindo muitas responsabilidades isso
pode se transformar num fardo. O ministério é uma paixão e a igreja normalmente é
movida pelos voluntários. Os líderes são voluntários. Por causa disso eles precisam
mais do que nunca sempre se recordar das palavras de Jesus que dizem: "O meu fardo é
leve". A liderança deve ser uma coisa leve, suave e apaixonante. Ao mesmo tempo se o
líder permite que ele concentre tudo sobre seus ombros, isso vai passar para os outros.
Quanto mais o líder diversificar, quanto mais investir para que o maior número de
líderes assuma funções, no intuito de que a obra seja concretizada, melhor será para
todos. Nós dependemos das pessoas. Uma igreja em crescimento depende das pessoas.
As pessoas são extremamente necessárias, são imprescindíveis. Contudo, nós temos que
ter a compreensão também de não esmagá-las. É preciso ter essa compreensão para não
perdermos a alegria de ser crente, a alegria de ser um líder na obra do Senhor.

Se nós dependemos das pessoas, temos que sempre investir nelas, separar tempo para
elas, cuidar delas, honrando-as, para que não percam a alegria de servir ao Senhor. À
medida que a igreja cresce, as pessoas que atuam para esse crescimento precisam ver de
uma forma muito clara, que as pessoas que chegam, devem ter um número de líderes
suficientemente capazes para cuidar delas. Quando a gente define o que é um líder, a
gente sabe que é um facilitador, é alguém que sabe qual é o caminho, que sabe o que
fazer. Um líder é alguém que olha para trás e percebe que algumas pessoas não estão
acompanhando. Um líder é aquele que sabe aonde quer chegar. É aquela pessoa que tem
uma visão, mas é muito importante que o líder tenha uma visão de Igreja, para que ele
não comece a liderar só para ele. É preciso ter a visão de Reino, caso contrário ele pode
ser apenas um quisto (um tumor), gerando muitos problemas.

Precisamos de líderes e temos esperado os "líderes inatos", mas os líderes são


feitos, são ensinados, treinados e desenvolvidos para liderar (não para serem
guiados). São pessoas de propósito, visão, planejamento, motivação e "transvisão"
(passam a visão a outrem). Como motivar pessoas com potencial para serem
forjados em líderes com estas características?

É verdade que existem alguns líderes que receberam de Deus um dom natural. Isso é
inato neles, não apenas na compreensão física, intelectual e emocional. Por outro lado, a
maioria dos líderes é formada por aqueles que normalmente seriam colocados no
escanteio num processo de seleção dentro de uma empresa. Usando uma ilustração do
apóstolo Paulo, se ele fosse preencher alguns requisitos exigidos por determinadas
associações missionárias ele seria anulado não apenas pelo seu físico, por sua aparência,
mas também por seu zelo, sua paixão e coisas assim. Muitas vezes nós achamos que
aquele que não é, é, e, aquele que é, não é. É fácil caminharmos e fazermos escolhas
apenas pela aparência, negligenciando outros valores.

A história de Davi é um exemplo. O próprio pai de Davi dizia que ele não tinha
condição nenhuma para ser rei. Ele não era de boa aparência, mas tinha outros valores e
nenhum rei foi mais amado do que Davi. Percebo que os líderes são formados também e
que precisam saber de uma forma clara aonde eles devem chegar. Eles precisam ter uma
visão clara de tudo, e uma convicção do chamado de Deus. Como diz a Palavra "O
homem não pode receber coisa alguma, se do céu não lhe for dado". Se nós investirmos
em alguém, esse dom vai sendo lapidado na vida dessa pessoa. Ela já tem uma
convicção do propósito da vida, mas se oferecermos incentivo, a convicção do chamado
do Senhor/ vocação,o seu dom vai sendo aperfeiçoado e assim poderá cumprir sua
vocação.

Mesmo em meio às lutas, às dificuldades, aos conflitos, quando o líder tem uma
convicção de que o que ele está fazendo não é só porque ele foi treinado, mas porque ele
tem a certeza de que seu chamado é fazer a vontade do Senhor e alegrar o coração do
Pai, os desafios não o abalam. O que mantém um líder na liderança não é apenas a sua
posição, não é tanto uma questão de cargo, mas de um encargo que é o de alegrar o
coração do Senhor.

Em sua opinião, qual é o maior problema na Igreja: (1º)Líderes que centralizam


as informações e não abrem espaço para uma nova liderança, (2º) pessoas
acomodadas porque acreditam que já há líderes instituídos e por isso elas não
precisam se envolver, ou (3º) pessoas que temem a liderança por acharem que
serão sobrecarregadas com "as coisas" da Igreja?

Um pouco delicado responder essa questão porque esses problemas são enfrentados por
todas as igrejas. No caso dos líderes que centralizam as informações e não abrem espaço
para novas lideranças é uma situação que nos mostra um líder que atua de uma forma
egoísta. No segundo caso, em uma igreja em crescimento não há espaço para
acomodação porque os próprios olhos vão mostrando e revelando as pessoas que estão
chegando e os ministérios que vão nascendo.

Terceiro, as pessoas que temem a liderança por acharem que serão sobrecarregadas com
as coisas da igreja é porque agem como o primeiro caso. Eles se sentem ameaçados,
mas se nós oferecermos essa visão de que ele está servindo ao Senhor, essa pessoa que
centraliza e teme que outro fique assentado em sua cadeira mudará de consciência. Pois,
não é uma questão de outro ficar assentado em sua cadeira, é questão do líder perceber
que onde tem apenas uma cadeira pode ter duas, três, quatro ou cinco. À medida que a
igreja vai crescendo é preciso multiplicar a liderança. A liderança não é instituída
simplesmente por tempo de casa. A liderança é uma vocação, é uma oferta que a pessoa
está fazendo, como oferecimento de sua vida para cumprir esse chamado.

Quais os conselhos para pastores e líderes que desejam formar com uma maior
eficácia novos líderes em suas Igrejas?

Reconheço que aqueles que desejam formar com maior eficácia novos líderes em suas
igrejas devem ter a liderança pastoral como o modelo. Se o pastor não for o modelo de
liderança, o povo não vai acompanhar porque não é uma questão de ser acadêmico.
Creio que para estar à frente do rebanho do Senhor ele recebeu a vocação, a vocação de
ser pastor. A vocação de ser pastor não é apenas de pastorear as ovelhas, mas a vocação
de preparar outros pastores para pastorear o rebanho porque ele vai crescer. Quanto mais
ovelhas, maior vai ser a exigência por mais pastores. Os líderes pastores vão formar
mais pastores e mais pastores vão formar mais líderes.

Quanto mais o pastor for eficaz, quanto mais ele buscar a vida de dependência de Deus,
quanto mais ele buscar desenvolver essa capacidade que Deus deu a ele de ser pastor,
mais líderes serão formados com esse coração. Dentro dessa capacidade existe o aspecto
da liderança. O líder sabe para onde vai e quando ele olha para trás há pessoas o
seguindo. Ele influencia, a vida e o nome dele influenciam. O menor tempo da vida do
pastor é o tempo em que ele está com o microfone na mão falando ao povo. A maior
parte do tempo é a vida dele sendo demonstrada para o povo, se a vida dele for
condizente com a mensagem que ele prega, os líderes brotarão de uma forma muito
espontânea.

O investimento dele na vida dos novos líderes deve ser consequência natural, como foi
com Jesus ao chamar seus discípulos, caminhando com eles. Dentro da própria liderança
o nível de relacionamento é estabelecido espontaneamente, como encontros divinos.
Nós lemos que na ressurreição de Jesus 500 estavam assistindo a ascensão; em
Pentecostes 120; depois ele tinha 70; tinha 12; tinha 3; tinha 1. O nível de
relacionamento e as marcas do pastor sobre seu rebanho são marcas que devem
perpetuar passando para eles a confiabilidade e deixando um legado para uma nova
geração. Um legado de pastor em uma igreja não deve ser apenas a quantidade de almas
que pela bondade do Senhor ele conseguiu ganhar para Jesus na igreja onde ele está,
mas a quantidade de líderes que ele deixou ali para continuar a obra que foi iniciada por
ele.

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Título do artigo: Não há líderes
Autor: Márcio Valadão