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MAR MORTO

Hoje o Mar Morto me visitou.


Curiosamente, não por eu estar tomando banho de mar na Enseada do
Sonho Verde... No Atlântico Sul. Mas, por um motivo qualquer, de que não me
dou conta...
O Mar Morto não é feio. É lindo. Pode ser inóspito, mas não é hostil.
Guardo dele os tons de azul, azul claro, prateado, da água, das brumas,
das manhãs. E os tons de rosa, azul; compostos com os tons de alaranjado e
alaranjado forte, da tarde, e do anoitecer. É interessante, mas esses tons
lembram os tons suavíssimos e esmaecidos, e tão próprios, das cores dos
mármores do Taj Mahal, ao amanhecer, e ao final da tarde...
Lembro o vento forte, e cálido, da tarde, no Vale do Rio Jordão, entrada
do Mar Morto, em Ein Gedi. E, naturalmente, o calor... Que fazia com que a
noite ainda fosse quente, e que nos reuníssemos no pátio, na frente da
Pousada, em papos regados de cerveja, até as tantas... O deserto e as
montanhas inóspitas do Deserto do Sinai, ocres e gretadas, terra gretada,
quase que totalmente despida de vegetação. Lembro os aviões cargueiros de
Israel, seguindo a rota do Rio Jordão, e do Mar Morto, em direção às fronteiras
ao sul.
O Mar Morto é um momento do profundo sulco geológico que nasce no
Mar da Galiléia, desdobra-se com o Vale do Rio Jordão, e percorre o seu
curso; até aí desaguar, no Mar Morto – o ponto mais baixo da crosta terrestre.
Daí, o Rio Jordão, e o seu vale, seguem, para desaguar no belo e
acolhedor Mar Vermelho, no Golfo de Akaba, próximo às cidades de Eilat, em
Israel; e a Akaba, na Jordânia, já em pleno Deserto do Sinai. Parece um lago.
À vista, na outra margem, a costa da Jordânia.
No extremo Sul do Vale do Rio Jordão, o Mar Vermelho é uma
reentrância do Oceano Indico, que invadiu geologicamente, e preencheu com
suas águas, um vale do Deserto do Sinai, subindo para o Norte, em direção ao
Vale do Rio Jordão.
As margens do Mar Vermelho são terras do Deserto do Sinai, que se
precipitam no mar, em belíssimas encostas suaquáticas, de vertiginosas
profundidades, de 50, 100, ou 200 metros. Encostas frequentemente cobertas
por multicoloridas, e belíssimas, florestas de corais – um paraíso para os
mergulhadores de todo o mundo. Nadando, para todos os lados e por todos os
cantos, peixes e cardumes, de todos os tipos e tamanhos, que não temem os
humanos, e que por eles passam, indiferentes, com eles interagindo com
curiosidade eventualmente.
Surgindo no Mar da Galiléia, e seguindo, como o Vale do Rio Jordão, no
sentido Norte Sul, até o Mar Morto; e, daí, para o Mar Vermelho (o vale do
Deserto do Sinai preenchido pelo Oceano Indico), a fenda geológica deságua
com o Mar Vermelho no Nordeste da África, onde se prolonga como o Vale da
Grande Fenda, que de Norte a Sul percorre esta região.
O Mar Morto é o momento mais profundo deste percurso. Na verdade, a
região mais profunda da crosta terrestre.
É azul, azulíssimo, salpicado em algumas regiões por formações
brancas de sal. A salinidade do Mar Morto, é de cerca de 35% a mais do que a
dos oceanos. Esta salinidade inviabiliza a presença neste mar de vida, tanto
animal quanto vegetal. E certamente inspirou a metáfora: Vós sois o sal da
terra...
Por esta salinidade, as águas do Mar Morto são densas. Um ovo nela
colocado não submerge. Também não afundamos quando nela boiamos.
Boiamos. Nas águas do Mar Morto não podemos mergulhar, só boiar, de
costas. Não é prudente molhar o rosto, dada a quantidade de sais, que não se
limitam ao cloreto de sódio. Por isso, também é prudente lavar-se com água
doce, depois de cada meia hora de banho. A margem é de pedrinhas, e as
lamas do Mar Morto, assim como suas águas são medicinais, sevem à
confecção de cosméticos, e atraem turistas de todo o mundo.
Fiquei por uns dias na Youth Hostel de Ein Gedi, na margem do Mar
Morto. Diante da pousada, a estrada que percorre o Deserto da Judéia,
margeando o Mar Morto. Cruzando-a, a borda do Mar, e o próprio Mar. Para
além do Mar, a costa da Jordânia. Mais ao Sul, um resort; e a Masada.
Um pouco acima do Albergue de Juventude, entrando num mini cânion,
duas inesperadas cachoeiras, procedentes de duas correntes de água que
percorrem subterraneamente o Deserto, e se precipitam em Ein Guedi em duas
quedas, deliciosamente inesperadas. Por elas, Ein Guedi é um oásis no
Deserto do Sinai. Seu pequeno cânion é coberto de vegetação, o que é bem
atípico para a região.
Podíamos tomar banho no Mar Morto, e irmos nos lavar demorada e
ludicamente nas cachoeiras, cientes de que vivíamos momentos únicos,
enquanto secávamos rapidamente, ao sol, e à baixa umidade.
De cima morros, de onde se precipitavam as quedas d’água, éramos
constantemente observados pelos Ibex, as cabras selvagens montanhesas da
região, de chifres enormes e torneados. Para os visitantes, havia avisos com
relação aos Pumas, que também frequentam a região. ...Não corram se
encontrarem um deles... E nos perguntávamos jocosamente, e o que fazer ??
De cima da Massada é o melhor lugar para contemplar o Mar Morto.
Certamente que a vista do Mar Morto do alto da Massada não era um
elemento qualquer do cotidiano desta comunidade de Judeus do Século 70,
que resistiu, com o suicídio coletivo, ao assédio do império romano. Do alto da
Massada temos, a oeste, a visão do Deserto da Judéia, de suas inóspitas
montanhas, grotas, e gretas... À Leste temos, contraditória, a visão suave e
tranquila do Mar Morto, com os seus suaves tons de azul, rosa, prata... Daí,
podemos ver em longas extensões.
Pode ser morto o Mar Morto, mas é suave, suavíssimo, e bonito.
DAHAB

Ah, (...) O mistério de cada ida e de


cada chegada
(...) a frescura das manhãs em que se
chega,
E a palidez das manhãs em que se
parte...
F. Pessoa

Por toda a noite eu atravessara o Deserto do Sinai, entre o Cairo e


Sharm Al Sheik, no Nordeste do Egito, com destino a Dahab, no Golfo de
Akaba, depois do Golfo de Suez, nas margens pedregosas do Mar Vermelho.
Eu lamentava que fosse à noite. Gostaria que fosse durante o dia, para
que eu pudesse contemplar a paisagem...
Mas era o melhor que eu houvera conseguido, na Rodoviária do Cairo,
depois de ter voltado exausto, de trem, de Asswan para o Cairo. Pelo menos
aquele ônibus era um ônibus bastante razoável, diferente dos que vão ao longo
do Nilo. Nos quais eu penara nas semanas anteriores.
Mesmo assim, eu ainda chegaria com um dia de atraso ao encontro com
a Susana e o Dan -- e com Gorge e Suzy, seus filhos -- amigos de Telaviv. A
Susana nascida no Brasil, e amiga de longa data.
Na volta, eu corrigiria a falha, voltando durante o dia.

Em Telaviv, havíamos decidido passar juntos os feriados do Rosh


Hashaná, o Ano Novo Judaico, de 5753, em Dahab, na Península do Sinai, no
Egito, nas proximidades da fronteira com Israel.
Eu iria, antes, passar alguns dias na Cidade do Cairo, no Egito, e
viajando pelas cidades ao longo do Nilo. Encontrar-nos-íamos, em seguida, em
Dahab, Blue Star Guest House, um ou dois dias antes do Ano Novo.
Consegui, na recém aberta Embaixada do Egito em Telaviv, o visto para
ir ao Egito. Eu era dos primeiros que conseguiam este tipo de visto, na recém
aberta, depois dos acordos de Camp David, Embaixada do Egito em Telaviv.
Parti numa manhã, exatamente da frente da mesma Embaixada, em
direção à Faixa de Gaza. Na Faixa de Gaza os passageiros passavam do
ônibus Israelense para um ônibus Egípcio. Ambiente meio tenso, com soldados
por todos os lados. Eventualmente prourando bombas nos lixeiros.
Meu visto foi solenemente riscado, no próprio passaporte, no Controle
de Passaportes do Egito. Quando viu minha indignação, o funcionário
comentou displicente, você vai ter que revalidá-lo no Cairo... Era a
consideração que os Egípcios tinham por um visto de entrada emitido por uma
embaixada em Telaviv...
Tínhamos agora, no novo ônibus, um “guia de viagem”. Simpático, mas
não fazia muita questão de esconder que era um militar...
À tarde já avistávamos Árabes do Deserto sentados na porta de suas
casas, a conversar em torno de suas chaleiras de Chá... Pouco tempo depois,
a surpresa com o azul cintilante das águas do Mediterrâneo, já próximo ao
Golfo de Suez.

Passei alguns dias no Cairo, e depois desci (subi?), de ônibus, as


margens do Nilo, em direção a Luxor, Assuwan, e Abu Simbel.
Terminara o tempo, então, e eu voltara para o Cairo, para embarcar para
o Nordeste do Egito, em direção ao Golfo de Akaba, no Mar Vermelho, e
Dahab.
Exausto, depois de chegar, de trem, pela manhã ao Cairo, vindo do Sul
do Egito; e de tomar, à noite, aquele ônibus para Dahab, eu dormira
pesadamente durante quase toda a viagem.
Relutantemente, acordava agora, com o ônibus parado.
O dia amanhecia.
Era Sharm-Al-Sheik, conforme descobri depois. Ainda a uma ou duas
horas de Dahab.
Eu não queria ainda e resistia acordar.
Relaxado e preguiçoso, depois das tensões e esforços da viagem
anterior, e do corre-corre, para, finalmente, poder sentar-me na poltrona
daquele ônibus.

O que eu via, entretanto, pelos olhos com dificuldade entreabertos, me


puxava mansa e fascinadamente do sono.
Conectando-me lentamente com a realidade, entendi que era, nada mais
nada menos, do que o amanhecer de um dia às margens do Mar Vermelho, no
Deserto do Sinai...
Quase que involuntariamente, eu sorvia, lento e preguiçosamente
fascinado, a beleza e a alegria calmas daquele amanhecer. O ônibus estava
parado numa loja/restaurante da estrada...
Tantos amanheceres eu vivera já na beira do mar... Mas a Oeste de
Greenwhich, às margens do Atlântico Sul... Eu estava agora singularmente a
Leste de Greenwhich, no Deserto do Sinai, na borda de seu encontro com o
Mar Vermelho...
Em algum lugar ali por perto Moisés abrira as águas do mar, para que o
Povo Hebreu pudesse passar. E elas se fecharam, em seguida por sobre os
perseguidores exércitos do Faraó. Um pouco a Oeste, estava o verdadeiro
Monte Sinai, onde de Deus Moisés também recebera as Tábuas da Lei,
segundo a Tradição Bíblica.
Nada disso, confesso, me impressionava e seduzia tanto, nada me
emocionava tanto, naquele momento, como o manso, decidido e belo
amanhecer daquele lugar. A lenta metamorfose da noite em dia, a lenta
metamorfose da escuridão em cores esmaecidas e pálidas, acinzentadas,
prateadas; uma estrela remanescente ainda brilhando na claridade, e a
paulatina e radical transformação e intensificação das tonalidades, à medida
em que o fortemente alaranjado disco solar ascendia no limpo azul do céu. O
azul tranquilo do mar, dito Vermelho, o ocre das montanhas rochosas e
plenamente áridas, a areia esbranquiçada do deserto...
Quantas gerações dos Povos do Deserto -- de povos que tanto por ali
vagaram, e que hoje tanto estão em nós -- havia, daquele mesmo lugar,
presenciado as cores, o ritmo, os lugares da maravilha daquele amanhecer, no
aconchego de suas tendas e acampamentos... Pensar nisto deleitava-me e
fascinava.
Alegrei-me por um instante que o ônibus estivesse parado. Por um
instante mesmo eu queria que o tempo estivesse parado. Condição mais
condizente com o manso e lento espírito daquela manhã, e com o meu próprio,
preguiçoso, e fascinado espírito.

A Moisés Deus dera as Tábuas da Lei. A mim, modestamente, a graça


tão simples da beleza e da impregnação de sentidos daquele amanhecer. E, no
meio da preguiçosa modorra de recém despertar, eu não cabia em mim de
alegria. Era tudo tão bonito, tão singular, e tão gratuito... Deus nada pedia de
mim, e dava-me mais do que eu pedia, porque, de fato, eu não cabia em mim
de alegria...
Celebrei a primorosa dádiva de viagem, e acordei...

Finalmente, eu chegara ao Mar Vermelho, no Golfo de Áqaba.


Azulíssimo era o Mar Vermelho. Mais parecido com um lago, como os mares
internos de Israel: o Mar da Galiléia e o Mar Morto. Como no caso dos outros,
dava para avistar a outra margem. No caso a Arábia Saudita, e, mais acima, a
Jordânia.
O ônibus pôs-se novamente em movimento, e, efetivamente, eu
acordava para um novo mundo...

Daí a alguns minutos eu chegaria a Dahab. Mal podia conter a alegria, e


acreditar, que, em breve, naqueles lugares, encontraria a amizade
companheira e a camaradagem da Susana, do Dan (tão dali), e de seus filhos
Gorge e Suzy. Eles teriam cruzado de carro, no dia anterior, como faziam
muitos Israelenses naqueles feriados do Ano Novo Judeu, a fronteira entre
Israel e o Egito, e já deviam estar em Dahab.

Encontrei-os, ainda despertando, na pousada em que tínhamos


combinado. Uma pousada rústica e muito simples, a poucos passos da orla
pedregosa do mar. Pequenos quartos, separados, tipo chalé, digamos, meio
enterrados na areia, para refrescar, com paredes de pedra nua, cobertos por
esteiras -- praticamente não há chuva por ali. Colchonetes sobre um chão
limpo, coberto de tapetes. Banheiros coletivos, um masculino e outro feminino.
Não havia energia elétrica, e não há luz à noite. Chamava-se Blue Star Guest
House, ou algo assim.
Eles mudaram para um aposento maior e ficamos todos juntos.
Como era tudo superlativamente simples, e especial, naquela manhã...
A Susana é uma amiga antiga, que, por indicação de uma amiga de
Salvador, hospedou-se em minha casa, em Maceió, com algumas colegas de
viagem, de São Paulo, quando éramos ainda adolescentes. Depois disto, não
nos encontramos por muitos anos.
Encontrei com mais frequência uma destas suas colegas de viagem, a
Lilite, em minhas idas ao Rio e a São Paulo. E terminamos por ficar bons
amigos, os três. Ainda que, por um longo período, cerca de doze anos, eu e
Susana não tivéssemos nos encontrado. Tínhamos notícias um do outro
através da Lila. Eu e Lila hospedávamo-nos de vez em quando nas casas um
do outro, à medida que estas mudavam de cidade. Lila hospedou-se em minha
casa em Maceió, e em Recife. Eu hospedei-me em suas casas no Rio, e em
Londres -- quando os encontrei de passagem, durante um período de três anos
que ela e Rafa, seu marido, moraram na Inglaterra.
Reencontrei a Susana quando me preparava para fazer o curso de pós-
graduação, em São Paulo. Era incrível. Apesar de cerca de doze anos que não
nos víamos, éramos velhos amigos. E fui brindado com a hospitalidade da
Susana, com a sua amizade, inteligência, franqueza e companheirismo, no
período em que tentava me adaptar à vida em São Paulo, iniciando o
mestrado. Tantas vezes, me lembro, semi-deitados nas almofadas e tapete da
sala da casa dela, com amigos dela, tomando vinho e mordiscando queijo, no
frio do inverno paulistano. Ou conversando deliciosamente, sentado à mesa da
cozinha, enquanto ela preparava algum “rango”, depois de chegarmos, à noite,
de nossas atividades diárias. Ou o papo gostoso, enquanto ela esquentava o
leite, no frio da manhã...
Não se pode agradecer o companheirismo e a amizade... Se se
pudesse, eu teria um problema complicado para ser justo com a amizade e o
companheirismo da Susana.
Lilite juntou-se com o Rafa, e foram juntos viver em Londres. Voltaram
para o Brasil três anos depois. Foram de Londres para a Costa Oeste dos
Estados Unidos, e vieram “descendo”, por terra, através do México, da América
Central; até Letícia, na Colômbia. Onde tomaram um gaiola, e desceram o
Amazonas, até Manaus. Em seguida, por rio, e por terra, prosseguiram pela
Costa Norte do Brasil, até chegar ao Nordeste. Naquele tempo, eu não havia
ido ainda para São Paulo, e eles ficaram em minha casa, em Maceió.
Depois de toda esta viagem, eles procuravam um lugar para se
restabelecerem no Brasil. Não queriam morar em São Paulo, nem no Rio.
Cogitavam de morar em Maceió ou em Salvador.
Rafa caiu doente. Estava com febre tifóide, contraída, como boas vindas
de volta a terra, no Amazonas. Tratamos dele por um mês. Ao início
preocupadamente, depois divertida e animadamente.
Seguiram viagem para Salvador, e gostaram mais do que viram por lá.
Estão lá até hoje. Com quatro filhos.

Susana foi visitar a Lila no carnaval, em Salvador, e conheceu o Dan,


um Sabra Israelense, que terminava o curso de arquitetura em Nova Iorque, e
que, também, havia ido passar o carnaval em Salvador.
Engancharam-se, ainda que o Dan continuasse em Nova Iorque, e ela
em São Paulo. De vez em quando ele vinha a São Paulo, ou encontravam-se
para viajar. Encontramo-nos umas duas vezes, quando de suas passagens por
São Paulo.
Partiram, um belo dia, para uma viagem de um ano de “volta ao mundo”.
Susana não voltou mais para morar no Brasil. Voltaram para Telaviv, em Israel,
onde moram até hoje. Tiveram o Gorge e a Suzy.
O Gorge é sério, compenetrado, inteligente e brincalhão. A Suzy é
incrivelmente risonha e doce.
O Dan, pintor e arquiteto, agudamente inteligente e lúcido, hospitaleiro,
bem humorado e camarada, excelente intérprete de Música Popular Brasileira,
ao violão. Nascido em Israel, conhece profundamente toda a realidade de
Israel e do Oriente Médio. No final da adolescência e início da juventude, serviu
no exército, nas tropas Israelenses que ocuparam a Península do Sinai.
Conhecia muito bem a Península, por onde viveu por cinco anos. Mergulhador,
conhece bem o Mar Vermelho, suas bordas e o seu fundo.

A situação em Dahab era muito particular. Israel tinha uma paz precária
com o Egito, primeiro País Árabe a assinar um tratado de paz com Israel. A
Península do Sinai foi devolvida por Israel aos Egípcios, como parte desses
acordos de paz. Havia naturalmente, no entanto, alguma tensão na fronteira.
Em especial, na tensa Faixa de Gaza. Mas Israelenses como Dan haviam
vivido muito tempo do final de sua adolescência e início da juventude naquela
região, à qual se ligavam afetiva e culturalmente, e à qual conhecem
profundamente. Durante a ocupação, os Israelenses fizeram boas relações
com os Beduínos do Deserto, e são bem vindos por eles na região. De modo
que muitos Israelenses cruzam a fronteira e vêm veranear nesta região egípcia
do Sinai.
Dahab é uma pequena vila de Beduínos, de casas muito simples e
pobres, que vivem do mar. E que atrai mochileiros de todo o mundo. Por causa
de suas águas, nas margens do Deserto, por causa de suas “florestas” de
corais, bem próximas à borda do Mar Vermelho, por causa do fácil acesso à
riqueza da diversidade e da cor de seus peixes e seres marinhos, por causa do
deserto, pelos camelos, pelos Beduínos, e tamareiras, por suas montanhas
pedregosas e áridas, pelos tons alaranjados e rosáceos de seu pôr do sol, pela
proximidade com o Monte Sinai, pela sua paz alegre...
Tudo é muito simples. Os bares e restaurantes, na beira da praia, não
têm mesas com cadeiras. Quatro troncos de tamareiras formam um quadrado
na areia. Dentro do quadrado assim formado, o chão de areia é coberto por
tapetes, com inúmeras almofadas. Ao centro uma pequena e baixa mesa. Um
bar ou restaurante tem várias dessas unidades. Cada grupo ocupa uma destas.
As pessoas espicham-se nos tapetes e nas almofadas, enquanto comem,
bebem, conversam, “riem ou choram”... Frequentemente, a poucos passos da
orla do mar, entre palmeiras de tâmaras.
Como não há energia, com a chegada da noite acendem-se velas dentro
de garrafas plásticas cortadas, e tudo é iluminado à luz de velas. A orla fica
toda salpicada desses pequenos pontos de iluminação. As pessoas são
Beduínos, que são os donos do lugar, Israelenses que vêm veranear, e
mochileiros de todo o mundo, em particular Europeus. (Com certeza havia um
Sul Americano naquela passagem do Ano Novo Judaico de 5753).
De repente eu estava com eles. Era meio insólito, mas estritamente real.
De shorts e sandálias, nas margens do Mar Vermelho, como se estivéssemos
em qualquer praia do Nordeste do Brasil.
Passávamos os dias nos “bares”, na borda do mar. Alugávamos
equipamentos de snokering, e íamos nadar e mergulhar. O Mar Vermelho
nesta região é único no mundo. Depois de uma margem rasa e pedregosa, de
quatro ou cinco metros de extensão, precipita-se um abismo de cinquenta
metros, às vezes de duzentos metros. A vertigem do abismo é de cortar o
fôlego. As encostas são revestidas por uma incrível comunidade de corais,
muito vivos em muitas áreas, e de uma incrível e belíssima diversidade de
formas e de cores. Como se não fosse o bastante, há peixes e cardumes de
todas as formas, cores e tamanhos, convivendo com você, no impressionante
silêncio daquele submarino mundo azul. Há crustáceos e moluscos, há ouriços
com espinhos enormes e brancos...
Eu nadava, receoso no início, na superfície, com o equipamento de
snokering, mas rigorosamente fascinado. Perambulava por aquele mundo
fantástico.
Levantar os olhos da água faz-nos deparar com o relevo de pedra, ocre
e árido, das montanhas do Sinai. Mundos tão diferentes, o subaquático, e o do
deserto. Uma insólita conjugação.
O Mar Vermelho resulta da invasão de um vale do deserto pelo Oceano
Índico, no Golfo de Áden. De suas bordas, é impressionante pensar que
estamos na verdade na borda de uma montanha, e que, abaixo, precipitam-se
submersos os seus abismos, preenchidos pelo mar. Quanta beleza e mistério
não guardam... Na verdade, o Oceano Índico invadiu uma fenda geográfica que
se prolonga, ao Norte, até o ponto mais baixo da superfície terrestre, o Mar
Morto. A fenda prolonga-se ainda mais ao Norte, como o Vale do Rio Jordão.
Nadamos por ali, e em outros pontos perto de Dahab, conhecidos do
Dan e da Susana. Sempre a mesma e incrível beleza. Marinheiro de primeira
viagem naquele tipo de atividade, às vezes receoso, o Avner sempre me
orientava por onde ir e o que fazer.
Fomos a um local onde tínhamos que passar por uma barreira do
Exército Egípcio. Mas sem problemas. Havia três piscinas naturais. Fantásticos
mundos submarinos. Mais rasos do que nos locais de precipícios, de modo que
podíamos nadar mais horizontalmente, e passar de uma piscina para a outra,
através de incríveis passagens.
De volta à Vila, comíamos em um dos restaurantes, e voltávamos para a
pousada. O Dan pegava sempre o violão e tocava música brasileira. Aprendeu
no Brasil, em São Paulo, enquanto namorava a Susana. No final da tarde,
descansávamos e papeávamos, ou dormíamos. À noite voltávamos para os
bares da Vila, na beira do mar. Não havia bebidas alcoólicas, proibidas pelas
leis muçulmanas. Comíamos peixe e tomávamos um tipo de batida espessa e
quente, deliciosa e reanimadora. Voltávamos papeando para a pousada, e o
papo ainda rolava até tarde, enquanto o Dan tocava o violão.
Houve outros amanheceres, até que chegou o fim daquela semana
deliciosa.
Despedimo-nos à noite. No dia seguinte, eu sairia antes de amanhecer.
Tomaria um jipe até um povoado próximo, e de lá tomaria um ônibus que iria
para o Oeste, em direção à Cidade do Cairo. Onde tomaria, alguns dias depois,
um vôo para a Grécia. Eles seguiriam de carro para o Norte, em direção à
Telaviv.

Acordei de madrugada.
Depois do toalete, e de arrumar o que faltava de minha mochila, ainda
me despedí do Dan, que acordara. A Susana e as crianças continuavam
dormindo. Na Vila, tomei o jipe para o povoado, onde tomaria o ônibus para o
Cairo.
Mais uma vez, como a todo dia, o dia amanhecia. Como sempre, a brisa
fresca da manhã do deserto fazia-me um bem enorme... Feliz e leve, queimado
do sol do Deserto, e do Mar Vermelho, sentei na calçada, próximo do ponto,
enquanto esperava o ônibus. E para tomar um iogurte, que eu comprara na
véspera...
De lí ci a...
Voltei pelo meio do deserto, e de incríveis tempestades de areia, que eu
só vira em filmes. Diferentemente dos atores e dos povos do deserto,
entretanto, eu vivia aquela tempestade de dentro de um confortável ônibus,
todo fechado e com ar refrigerado. Quase que completamente confortável, não
fosse pelo som alto de um aparelho de TV à bordo, passando barulhentos
filmes de aventuras de espiões Egípcios, modernos...