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ec Puc Pe, Josafé Carlos de Siqueita 5) e Reiter Pe, Francisco Ivern Sid S} Vice-Retor para Asuntes Académices Prof, José Ricardo Bergmann, Viee-Reitor para Assuntos Administrativs Prof, Luiz Carlos Seavarda do Carmo Vice-Reitor para Assuntos Cormunitarias Prof. Augusto Luiz Duarte Lopes Sampaio Viee-Reitor para Assuntos de Desenvolvimente Prof, Sergio Bruni Prof, Paulo Fernando Carneiro >rols Luiz Roberto A. Cunha (C >of, Luiz Alencat Reis da Silva Mello (CTC Prof, Hilton Augusto Koch (CCBS) Andrade (CTCH} CULTURAE REPRESEN TACKO STUART HALL Organizagio ¢ revisio técnica: Arthur Iruasst Tiadugio: Daniel Miranda e William Oliveira Copyright © da radugio brasicia, 2016 Copyright @ Sage Publications Lid, 2013 ualo original: Riprscutatin Edited by Smart Hall, Jesica Buans and Sean Nisom Tados os dirsitos desta eign eservados © Fairs Apicut © taiors PUC-Ro Ra Semidor Danas 75, la 505 Rus Mangus de S Vice, 225 (Conao ~ Rio de are, RJ ~20031-204 Projet Comarca ~ casa Agéneia/ Econ, Taleo (21) 2524 7635, 22451.900 | Giver — Rio de Janie, R) weapicarcom.b Telfat: (21/3507-176001838 wrmapicuaoenbe edjcriogpuesiaby revmpuc i brllivrapucio Coordenasso Rdicora Apicusi Rosangela Dias Conselho Gestor da Editora PUC Rio Augusto Sampaio, Cesar Romero Jacob, Hilton Augusto Koch, Feroando Si, José Riewdlo Bergmann, Lai Alencar Reis da Sila Mello, Luiz Roberto Cunha, Paulo Feinando Cameo de Andrade e Sergio Bruni ‘radupéos Daniel Mitanda ¢ William Olivera Reviséo de originale: Beatrix Cespo Dinis evisio de provas: Ciisina da Costa Percica Projeto grifico de capae miole: Flavia da Matta Desien Iustragdo decapa: Thiago Ribeiro Toxos osiveitos reservados, Nenhums parte dest eign pode ser wilzada, reproczido em qualquse melo ow fru, sea meciniso ou eltrinico, po fxoespia, por aves etc aproprsda ow etocada em sistema de bancos de dan sem a ‘expe atorzaga das divs se live foi revue segundo Acre Orteric da Lingoa Portus de 1990, se entrow em vigor no Brat em 2009. lun erepreicetayio Soar Hal Orpanirajo «Revs Tévic: Arthur Maas: Trafuses Daniel Meandae Wiliam Olivia, - Rio de arcing: Fal PUC-Rio: Apia 2016 260 psi 21cm Inu bibiogalia ISBN (PUC Rio 978.85.8006195-5 ISBN (Apia: 978-85-8317-018.8 fia). leo, 1. Guta. 2. Repesemagio (Pl D0: 306 SUMARIO [APRESENTACAO Hall, comunicacio ea politica do real INTRODUGAO CAPITULO I= O PAPEL DA REPRESENTACAO 1, Representagao, sentido ¢ linguagem 1.1 Produzindo significados, representando objetos 1.2 Linguagem ¢ representagio 1.3 Compartilhando os césligos 1.4 Teorias da representagaio LS A li 1 dos semaforos 1.6 Resumo 2. O legado de Saussure 2.1 A parte social da linguagem 2.2 Criciea a0 modelo de Saussure 2.3 Resumo. 3, Da linguagem & cultura: da linguistica a semidtica 3.1 O mito hoje 7 31 31 32 38 4 49 53 7 61 63 65 n 160 _ CULTURA EREPRESENTAGKO | STUART HALL Além do mai io da sub- jetividade nunca seré totalmente curada. Alguns realmente veem izem, esca preocupante fenda ou div isso como uma das principais fontes de neurose em adultos. Ou- tuos enaergam problemas psiquicos decorrentes da separagao enire as partes “boas” ¢ “mas” do self perseguidas intemamente pelos aspectos ‘maus”, as pessoas guardam para si ou, alternativamente, projetam nos outros os sentimentos “maus” com os quais nao conse- guem lidar, Frantz Fanon (1986 [1952]) sou a tentia psicanalitica em sua explicagio para o racismo, argumentando que a maioria da lane “Outro” branco em reconhecer “do ponto de vista do outro” a pes- soa negra (ver Bhabha, 1986b; Hall, 1996), Esses debates sobre a “diferenga” ¢ 0 “Outro” foram introduzi- estereotipagem racial e a surgiram a partir da recusa do dos aqui porque este capitulo baseia-se seletivamente em todos eles para a anilise da representagio racial, Neste momento, nio é neces- sirio que voce prefira uma explicagao da “diferenga” em vex das ou- tras, que escolha uma dela. Elas nio sio mutuament usivas, jd que se referem a diferentes niveis de andlise ~ 0 linguistico, o social, © cultural ¢ © psiquico, respectivamente. No entanto, existem dois aspectos getais importantes. Em primeito lugar, vinda de muitas diregées diferentes ¢ de imimeras disciplinas, a questéo da “diferenga” e da “alteridade” passou a desempenhar um papel cada vez mais significativo, Em segundo lugar, a “diferenca” é ambivalente, Ela pode ser tanto posi- tiva quanto negativa. Por um lado, é necessiria para a produsdo de significados, para a formagio da lingua e da cultura, para as iden- tidades sociais e para a percepgio subjetiva de si mesmo como um sujeito sexuado. Por outro, é, a0 mesmo tempo, ameagadora, um local de perigo, de sentimentos negativos, de divisées, de hostilida- de e agresséo dirigidas a0 “Outro”. No restante do capitulo, voce deve sempre ter em mente este carter ambivalente da “diferenga’, seu legado dividido, DO ESPETACULO DO"OLTRO® _ 161 2. Racializando 0 “Outro” Deisando de lado por um momenta essas “ferramentas” teéricas de andlise, vamos agora explorar outros exemplos do repertério de representagio ¢ suas préticas que foram utilizadas para marcar a difecenga racial e significa 0 “Outro” racializado na cultura popular ‘ocidental, Como foi formado este arquivo e quais foram suas figuras ¢ priticas tipicas? Existiram trés momentos importantes de encontro do “Ociden- te” com os negros, que deram origem a uma avalanche de represen- tacdes populares, baseadas na marcagio da diferenga racial. O pri- meiro teve inicio com 0 contato, no século xvi, entre comerciantes ceurops durante trés séculos. Seus efeitos podem ser encontiados na escra- Vidio e nas sociedades pés-escravistas do Novo Mundo (discutidos na Sego 2.2). © segundo momento ocorreu com a colonizagio da os reinos da Africa Ocidental, fonte de escravos negros Africa ¢ sua ‘partilha’ entre as poténcias europeias que buscavam controlar tertitério, mercados e matérias-primas coloniais no perfodo do “novo imperialismo” (veja a seguir, Segao 2.1), O terceito mo- ‘mento ocorreu com as migragoes pés-Segunda Guerra Mundial do “Terceito Mundo” para a Europa ¢ Amética do Norte (exemiplos desse perlodo sio discutidos na Segio 2.3). As ideias ocidentais so bre “raca” e as imagens da diferenca racial foram moldadas profun- damente por esses 8s encontros fatidicos, 2.1 0 RACISMO COMO BEM COMERCIAL: © IMPERIO £ © MUNDO DOMESTICO Comegamos pelo entendimento sobre como as imagens da diferen- «@ macal extraidas do encontro imperial inundaram a cultura popu- lar britinica no final do século x1x. Na Idade Média, a imagem que a Buropa tinha da Africa era ambigua ~ um lugar misterioso, mas 162 _ CULTURA EREPRESENTACAO | STUARTHALL muitas veres visto de modo positivo: afinal, a Igreja Copea era uma das mais antigas comunidades cristas “ultramarinas’, santos negros surgiam na iconografia cristi medieval, ¢ 0 lenditio “Preste Joao” da Exidpi crtistianismo. is leais defensores do, tinha a reputagio de ser um dos m: Gradualmente, no entanto, essa imagem mudou. Os africanos foram chamados de descendentes do personagem biblico Cam, amaldicoados, tal como o filho deste, Cana, a ser perpetuamente “servo dos servos a seus irmaos”, Identificados com a natureza, sim- contraste com o “mundo eivilizade”, bolizavam o “primitivo” O lluminismo, que classificou as sociedades ao longo de uma escala evolutiva de “barbdrie” a “civilizacao”, via a Africa como “a mie de tudo 0 que é monstruoso na natureza” (Edward Long, 1774 apud McClintock, 2010). Curvier apelidou a raga negra de “ribo de macacos”, O filésofo Hegel declarou que a Affica “nao faz parte da hisedria do mundo (...) nio tem movimento ou desenvolvimen- to para expor’. No século x1x, quando a exploragao europeta ea colonizagio do interior afticano comegaram a série, a Africa foi considerada como “encalhada ¢ historicamente abandonada (...) uma terra de fetiche, habitada por canibais, dervixes ¢ feiticeitos” (McClintock, 2010). A exploragio ea colonizagio da Africa produziram uma explo- sio de representagies populares (Mackenzie, 1986). Nosso exemplo aqui éa difusio de imagens e temas imperiais na Gra-Bretanha atra- -vés da publicidade de mercadorias das décadas finais do século xix, © progresso dos grandes exploradores ¢ aventurcitos brancos, bem como os encontros com 0 exético negro africano, foram carto~ sgrafados, registrados e descrisos em mapas ¢ desenhos, em gravuras € (especialmente) por meio da nova fotografia, em ilustragoes ¢ histé- rias jornalisticas, dirios, livios de viagens, tratados erudicos, relaté= tos oficiais ¢ romances de aventura préprios para rapazes. A publici- dade foi uma das formas pela qual 0 projeto imperial ganhow forma CO FSPETACULO DO‘OUTRO _ 162 visual em um meio popula; forjando a ligagso entee o Império Bri- {nico ¢ a imaginagio nacional. Anne McClintock argumenta que, através da racializagio dos antincias (racismo como bem comercial), 0 lar da classe média vitoriana tornou-se um espago para a exibigio do espeticulo imperial e para a reinvengio da raga, enquanto as colbnias em particular da Africa ~ tomaram-se um teatro para a exibigio da cultura vitoriana da domesticidade e da reinvengio do género (2010). AA publicidade de objetos, engenhocas, aparatos ¢ bricabraques ‘com 08 qui «classe média vitoriana enchia suas casas oferecia um “imagis io de como se relacionar com o mundo real” da produgio de bens. Depois de 1890, com o surgimento da imprensa popular, desde 0 Musirated London News até 0 Harmsworth Daily Mail, as imagens da produgio em massa de bens entiaram no mundo das classes trabalhadoras por meio do “esperdculo” da publicidade (Ri chards, 1990), assim chamado porque ela traduzia os objeros em uma fantasia visual de signose fmbolos. A produgto de bens passou a seressociada ao Império ~a busca de mercados ¢ matérias-primas no exterior suplantava os outros motives da expanséo imperial Este trafego bidirecional forjou conexdes entre o imperialismo ¢ a csfera doméstica, piblica e privada. Os bens (e as imagens da vida cdoméstica inglesa) fufam paras coldnias; as matérias-primas (cima- gens da “missio civlizadora” em andamento) eram trazidas para casa Henry Stanley foi um aventureiro do Império que se tornou fa- soso pela sua viager através da Africa Central, em 1871, em busca de David Livingstone (“Dr. Livingstone, cu presumo2”).’ Também 1 Sanley (Pls de Gales 1841. Ingatces 1904) fl jrralinn explora. Em 1867, se comespondente do jornal Now Vrk Hea. Tow 1969 ele pra pat Af, ena rego plo jel de ence isiondio«esplbralr cxoats Divi Liingone que Ie ds rascenies do re No desparcera na Ac et 1866. Em novembo de 1871, Sasky cxconua © misono « supestamente, asim que 0 ¥é ron a Tre, posterormente Fame "De Lvingone, presume” (NE) 164 _ CULTURA EREPRESENTACAO | STUART HALL CO FSPETACULODO “OUTRO” _ 165 foi um dos fundadores do infame Estado Livre do Congo e tentour anexar Uganda para abrir o interior’ Companhia Imperial Bricanica da Aftica On com que a “civil ul, Stanley acreditava que a propagagao de bens faria \si0” na Africa se tornasse inevitével e nomeou eas das mereadorias seus carregadores nativos em homenagem 2s 1 que carregavam ~ Bryant and May, Remington, ¢ assim por diante Suas faganhas ficaram associadas com 0 sabdo Pears, Bo evi tipos de cha Aga cca mais Negra” foram imortalizadas em caixas de fosforos,estojos de agulha, pores de pasta de dente, caixas de lipis, pacotes de cigarro, ia dos herdis imperiais e suas faganhas misculas na “Afri- jogos de tabuleiro, pesos para papéise partituras. ‘As imagens da conquista colonial foram estampadas nas caixas de sabio (..) latas de biscoito, garrafas de uisque, latas de ché e barras Fes 96 blscoes ure ti oles de chocolate. (..) Nenhuma outra forma de racismo organizado havia consegaido aleangar tantas pessoas di centio (McClintock, 2010: ver Figu ances de uma pop 86,78) THE EVENT OF THE YEAR. prprenrana The White Man's Burden How Lord Roberts wrote BOVRIL. |Andincio da Bovtlafrmando representar a marcha hist6vica de Lord Roberts de Kimberley até Bloemfontein durante cure ‘a guerra sul africana (Béeres), 1900) |Andinclos do sabdo Pears ~século xix 165 _ CULTURA EREPRESENTACAO | STUART HALL sabio simbolizava esta “racializagio” do mundo interno © a “domesticagio” do mundo colonial. Por sua capacidade de limpar € purificar, 0 sabso adquiriu, no mundo de fantasia da publicidade imperial, a qualidade de um objeto de fetiche. Aparentemente, ele tinha o poder de tomar branca a pele negra e climinar de casa a f- figem, a sujeira e © pé6 das favelas industrias ¢ seus habitantes ~ os pobres sujos. Ao mesmo tempo, conseguia manter limpo ¢ puro 0 corpo britinico nas zonas de contato racialmente polufdas “Id? no Impétio, No processo, entretanto, o trabalho doméstico das mulhe- res era muitas vezes silenciosumente apagado. ATIVIDADE 7 Observe os dois anuincios do sabao Pears (Figura 8). Antes de conti- nuar aleitura, escreva em poucas palavias o que voc® acha que eles “dizer LEITURA A, ‘Agora leia a analise de Anne McClintock sobre as campanhas publi- citatias do Pears, disponivel como Leitura A,“O espetaculo do sabao das mercadotias’;no final deste capitulo, na p.232. 2.2 ENQUANTO ISSO, LA NAS GRANDES PLANTACOES Nosso segundo exemplo é o periodo da escravidio nas grandes plan- tagées dos Estados Unidos e suas consequén ss. Afirma-se que, no pais norte-americano, a ideologia racializada de pleno direito surgiu centre as classes de proprictirios de escravos (¢ seus simpatizantes na Europa) somente quando « eseravidio foi seriamente desafiada pelos abol tas, no século xix. Frederickson (1987) resume o conjun- CO ESPETACULODO"OUTKO" _ 167 to complexo e, por vezes, contraditério de crengas sobre a diferenga racial deste periode: © argumento histérico contra o homem negro, com base em seu su: posto fracasso em desenvolver uma forma de vida civilizada na Africa foi fortemente enfatizado, Como retratado nos textos pro-escravidio, ‘© continente afticano era, ¢ sempre foi paleo de selvageria irrestrta, de canibalismo, de adoragio ao diabo e de libertinagem. Foi também langada uma forma primitiva de argumento biolégico, baseada nas di: Ferengas fisioldgicas ¢ anatOmicas reais ou imaginirias ~ especialmente nas caracteristicas cranianas ¢ nos ngulos faciais — que supostamente ‘explicavam a inferioridade fisica e mental, Finalmente, havia o apelo 405 profundos medos dos brancos relacionadas & miscigenagao gene- ralizada [relagées sexuais ¢ eruzamentos ene as ragas). Os wedricos prSescravidio buscavam aprofundar as ansiedsdes dos brancos e, para isso, alegavam que a aboli¢do da escravatura levaria ao casamento in- ter-racal e & degeneragio da raga. Apesar de todos estes argumencos jffterem aparccido anteriormente de forma embriondria ou marginal, hi algo surpreendente na rapide com que foram reunidos e organi rados em um padrio rigido € polémico, uma vez que os defensores da escravidao encontravam-se em uma guerra de propaganda com os aholicionistas Frederickson, 1987: 49). Ese discurso racializado esté estruturado em um conjunto de oposigées bindrias. Hi a poderosa oposigio entre “civilizagio” (branco) e “ clvageria” (negro). Existe a oposigao entre as caracteristi- cas hiolégicas ou comporais das “ragas” “negra” e “branca’, polarizadas ‘em seus extremos — significantes de uma diferenca absoluta entre es- péciss ou “tipos” humanos, Estdo presentes as abundantes distingoes agrupadas em torno da suposta ligagéo, por um lado, entre as “ragas? brarcas € 0 desenvolvimento intelectual ~ requinte, aprendizagem ¢ conhecimento, crenga na razdo, presenga de instituigSes desenvolvi- 168 _ CULTURA EREPRESENTAGAO | STUART WALL das, governo formal, lis ¢ “contengio civilizada” em sua vida emo- ional, sexual e civil, os quais estio associados & “Cultura”, Por out lado, a ligagio entre as *ragas” negras e tudo 0 que é instintivo ~ a cexpressio aberta da emogio e dos sentimentos em ver do intelecto, falta de “requinte civilizado” na vida sexual ¢ social, dependéncia dos costumes e rivuais ¢ falta de desenvol igbes tudo isso ligado & “Netureea’. Finalmente, hi a oposigio polarizada wero de inst entre “purera racial” de um lado ea “poluigio”, originada dos casa- mentos mistos, do hibridismo e de cruzamentos raciais. negro, afirmava-se, encontrava a felicidade somente quando cra tutelado por um mestre branco, Suas caracteristicas essenciais estavam fixadas para sempre ~ “eternamente” ~ na natuteza. Provas retiradas das insurreigGes de escravos ¢ da revolia no Haiti (1791) persuadiram os braneos sobre a insiabilidade do caréter do negro Um grau de « ago, imaginavam, havia sido transferido aos es- cravos “domesticados”, mas acreditavam que, no fundo, os escravos ceram brutos, selvagens por sua natureza; ¢ as paixdes hd muito en- terradas, uma vez libertadas, resultariam no “frenesi furioso da vin- ganga € no desejo selvagem por sangue” (Frederickson, 1987: 54). ‘Tal ponto de vista era justificado pelas evidén exnologicas, com base em um novo tipo de “racismo cientifico”. Ao ss ditas cientificas € conctiio da evidencia biblica, afirmou-se que negros ¢ brancos ha- viam sido criados em momentos diferentes — de acordo com a teoria da “poligénese” (muitas criagées). A teoria racial aplicava a distingao cu/tura/natureza de forma di- ference para os dois grupos racializados, Enure brancos, “cultura” opu- nba-se a “natureza”. Entre os negros, aceitou-se que “cultura” coinci dia com “navutera’. Enquanto os brancos desenvolveram a “culeura para subjugar e superar a “natureza”, para os negros, “cultura” © “na- tureza” eram permutiveis. David Green discutiu esse ponto de vista cm relagio & antropologia eb etnologia, as disciplinas que forneciam smuitas “evidéncias cientifcas” para isso. OSPETACIIODO“OUTRO” _ 168 Embota nao estivesse imane 20 “fardo do homem branco” [ou melhor, 4 essa abordagem|, a antropologia direcionou-se, no decorrer do sécu- Jo xrx, ainda mais no sentido das ligagdes caus tre raga e cultura ‘Tendo em vista que as posigies o satus das ragas “infetiores” cram cada ver. mais considerados como fixes, entio as diferengas sociocl- turais passaram a ser entendidas como dependentes das caracteristicas hereditarias. Uma ver que estas Giltimas eram inacessiveis 2 observa 0 deta, prcisavam se infeidas a partir das caracteristias fisicas€ comportamentais que, por sua ver, eram as caracterfsticas que desea vam explicar, As diferengas socioculturais entie as populagdes fran Na tentativa de integradas & identidade do corpo humano individu tragar uma linha de determinacao entre 0 biolbgico ¢ 0 social, 0 corpo torno\ uum objeto totemico, ¢ sua prépria visibilidade tornou-se articulagéo evidente da natuseza ¢ da cultura (Green, 1984: 31-32). © argumento de Green explica por que 0 corpo racializado seus significados passaram a ter tal ressonancia nas representagoes populares da diferenga e da “alteridade’. Fle também destaca a li- fgacio entre o discunso visual ea produc do conhecimente (ravializa- do). © proprio corpo ¢ suas diferengas estavam visiveis para todos «6, assim, ofereciam “a evidénci incontestivel” para a naturslizagio da diferenga racial. A representasio da “diferenga” através do corpo tornou-se o campo discusivo através do qual muito deste “conheci- ‘mento racializado” foi produzido e divulgado. 2.3 SIGNIFICANDO A“DIFERENCA RACIAL [As representagbes populares da “difecenga” racial durante a escra- vidio rendiam a aglomerar-se em corno de dois temas principais. © primeiro era o status subordinado € a “preguiga inata” dos ne- ‘gros —“naturalmente” nascidos ¢ aptos apenas para a servido, mas, 4 mesmo tempo, teimosamente indispostos a trabalhar da forma aprop 114 sua natureza e rentével para seus senhores, 170 _ CULTURA EREPRESENTAGAO | STUART HALL (© segundo tema era o inavo “primiivismo”, a simplicidade ¢ a mente incapazes de “refina- mentos civilizados’, Os brancos divertiam-se imoderadamente com 08 esforgos dos escravos para imitar as maneiras € os costumes dos cchamados brancos “civilizados". (Na verdade, os eseravos miuitas ve- z7¢s parodiavam deliberadamente o comportamento de seus senhores por meio de imitag6es exageradas, rindo dos brancos pelas costas ¢ arremedando-os, A pritica ~ chamada de significagiée ~ ¢ agora re- conhecida como parte bem estabele Veja, por exemplo, a Figura 9, reprod falta de cultura, que os tomava geneti ida da tradicio literiria negra. em Gates, 1988.) ow RY cA ETE OW yyy ae, “Palestra dos negros sobre a frenclogia CO ESPETACULODO*OUTRO _ 171 [A pritica de reduzir as culturas do povo negro & natureza, ou naturalizar a “diferenca” foi tipica dessas politicas racializadas da representagio, A lgica por tris da naturalizagso € simples. Se as di- ferengas entre negros ¢ braneos sio “cultura ent ‘eis podem ser mocificadas ¢ alteradas, No entanto, se elas sio “naturais” ~ como acreditavam 0s proprietirios de escravos -, estio além da hist6ria, séo fixas e permanentes. A “naturalizagio” portanto, uma estra- tégia representacional que visa fixar a “diferenga” e, assim, anconé- -la para sempre. E uma tentativa de deter 0 inevitivel “deslizar” do significado para assegurar 0 “fechamento” discursivo ou ideolbgico. As representagées populares dos séculos xviii e xix a respeito da vida didria sob a escravidao, a propriedade e a servidao sio mostradas como tio “naturais" a ponto de no precisarem dle comenudrios. ia parte da ordem natural das coisas: 0s homens brancos deveriam ficar sentados e os escravos, em pé; as mulheres brancas passeavam a ca valo € as escravos cortiam atris delas, amenizando o sol da Luisiana com uma sombrinha; 0s capatazes brancos deveriam inspecionar as sctavas como se elas fossem animais valiosos e punir os escravos fagitivos com formas de tortura casuais (como marcé-los a ferro ou urirar em suas bocas); por fim, os fugitives deveriam ajoelhar-se cher sta punigéo (ver Figuras 10, 11, 12). para re FicuRA 10 Excravido: ume cena da vida de um senhor de tetras nas indias Ocidentals 172 _ CULTURA REPRESENTACAO | STUART HAL Ficurant Escraviddo: um leo de escravos nas Indias Ocidentais, . 1830 Escraviddo:desenho de uma dama crioula e um escravo negro ras Indias Ocidentais Estas imagens séo uma forma de degradagio ritualizada. Por outro lado, algumas representagies, mesmo estercotipadas, sio idealizadas ¢ sentimentalizadas em ver de degradantes. Est. “selvagens nobres” em comparago aos ‘servos rebaixados” do tipo anterior, Por exemplo, as representagd so os infinitas do “bom” eseravo negro cristdo, como 0 pai Tomés do romance pré-abolicionista de Harriet Beecher Stowe, A cabana do pai Tomds, ou Mammy, a escra- va doméstica sempre fel e dedicada, OSPETKCULO BO"OUTKO 173, 0 grupo ocupa um meio-terme ambiguo — tolerado, mas no admirado. Sio os “nativos felizes” - artistas negros, menes- tndis ¢ tocadores de banjo que pareciam nao ter cérebro, mas canta- vam, dangavam e faziam piadas o dia todo para entreter os braneos; ou os “malandros”, como 0 tio Remus,’ que eram admirados por suas maneiras engenhosas de evitar 0 trabalho duro e por suas his- t6rias mirabo Para os negros, “‘primitivismo” (cultura) e “negritude” (naturezs) soraaram-se neercambidveis. Esta era sua “natuteza” ¢ cles no po- etiam escapar, Como tantas vezes aconteceu na representagio das mulheres, sia biologia era seu “destino”. Os negros nao eram apenas representados em termos de suas caracteristicas essenciais. Eles foram reducides sua esséncia. A preguiga, a fidelidade simples, 0 entrete- imento tolo protagonizado por negros (cooning), a malandeagem e 2 infantilidade pertenciam aos negros como raca, como especie, Para.o escravo de joelhos ndo havia mais nada, sendo sua servidao; nada de pai Tomés, exceto sua tolerincia cristis nada para a Mammy, exceto sua fidelidade & casa dos brancos ¢ aquilo que Fanon chamou de “sho! nuff good cooking”, a comida deliciosa que ela preparava. Em suma, estes sio os esteredtipos. Na Secio 4, voltaremos a exa- minar 0 conceito de estereotipagem de forma mais completa, porém, a “tedurido a podemos agora constatar que “estereoripado” signifi alguns fundamentos fixados pela nature a umas poucas caracte- risticas simplificadas”, O uso de esteredtipos de negros na repre- sentagao popular era tio comum que os cartunistas, ilustradotes & xuristas conseguiam reunir toda uma gama de “tipos negras” com apenas alguns tragos simples ¢ essencializados. + scones dasa Remus sho una colenen de hicas infants escrins por Joel Chandler irr um orale folonstaamador do Sul dos Estos Unis Ses conto era bea sas marinas do "malindro"alroamericano Remus sobe a fganhas do Brer Rabbit, Bre sin’, que frum reciaaser dso reponal pret por lod Chandler Hats i, ver hue peongancylopeliaon/anidesare-cultireucle- remus 174 _ CULTURA EREPRESENTAGAO | STUART HALL (Os negros foram reduzidos aos significantes de sua diferenea fisica = labios grosses, cabelo crespo, rosto ¢ narizlargos ¢ assim por diante. Por exemplo, aquela figura engracada que, como boneco e como em- bblema de uma marca inglesa de marmelada, divertia as criangas por varias geragées: 0 Golliwog (Figura 13), Est € apenas uma das mui tas figuras populares que reduzem os negros a algumas caracteristicas simplificadas, redutoras ¢ essencializadas, Cada pequeno ¢ adorivel pickaninng (crianga pequena negra) foi imortalizado por anos por cau- sa de sua inocéncia sorridente nas capas dos livros Litele Black Sambo" (Negrinho Sambo. Garcons negros serviram milhares de coquet nos paleos em ancincios de revistas, O semblante gordinho da Black ‘Mammy ainda sorria um século apés a aboligio da escravatura, em tados os pacotes de panquecas da marca Aunt Jemima. cura 13 ‘A meninae sev golliwog: istra¢o por Lawson Wood, 1927 + 0 termo Sando se eferea homens afi-amescans de uma forma commenter i cetiel, Hse erect tem una lorga care e¢furdamentd paracrendermos shila dks races racks entre brancas enegos nonteamerianos. Além de degradant, fi usado sob dives Formas pa justia tratameno desumano dipensalo raves, i polica de serreracio, muito requentemente, pa stsze os impala acts nos FUA rlaionadoe swenretenimentn de wna anda branes. [NE] CO ssPETACULO DO‘OUTRO" _ 195, 3. Aencenacao da ‘diferenca’ racial: “eamelodia demorou-se..” Os vestigios destes esteredtipos raciais ~ que poderemos chamar de “regime racializado da representagio” ~ persistiam ainda no final do século xx (Hall, 1981). Obviamente, eles foram sempre contestados. Nas primeiras décadas do século xrx, o movimento contra a escra- vidio (que conduziu abolicao da escravatura britinica em 1834) colocou em circulagao imagens alternativas das relagbes entre negros « brancos ¢ isso foi retomado pelos abolicionistas dos Estados Uni- dos no periodo que antecedeu a Guerra Civil. Em oposigio as repre- sentagies esteteotipadas de diferenga racializada, os abolicionistas adotaram um slogan diferente sobre 0 escravo negro ~ “Voce nio & um homem e um irméo? Voce nio é uma mulher ¢ uma irmi?” izando nio a diferenga, mas a humanidade comum. Moedas comemorativas cunhadas pelas sociedades antiescravi- dio representaram esta mudanga, embora néo o tenham feito sem a arcagio da “diferenga”. Os negros ainda eram vistos como ctian- ¢as, simples e dependentes, mas agora (depois de um aprendizado paternalista) sio considerados como capazes de obter, ou no cami- rnho para aleangar, algo como a igualdade com os brancos. Eram de gratidéo por terem sido libertados e, consequentemente, ainda eram mostra- representados como suplicantes por liberdade ou ch dos ajocthando-se perante seus benfeitores brancos (Figura 14). Esta imagem recorda-nnos que o pai Tomis do romance de Harriet Beecher Stowe no foi escrito apenas para atrair a opiniéo piblica contra aescravatura, mas com a convicgio de que, “com sua gentile- za, sua docilidade humilde— sua afeicao simples ¢ pueril efacilidade de perdao”, os negros estayam, possivelmente, mais bem equipados do que os brancos para “a mais alta forma de vida peculiarmente i” (Stowe apud Frederickson, 1987: 111). Este sentimento con- traria um conjunto de esteredripos (a selvageria) ¢ 0 substitui por