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Uma Voz para os Filhos da Terra

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Aurelio Díaz Tekpankalli

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Uma Voz para os Filhos da Terra

Aurelio Díaz Tekpankalli

Igreja Nativa Americana de ITZACHILATLAN

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Aurelio Díaz Tekpankalli

© 2010 by Wilson A. Ferigollo


Frederico Westphalen - RS - CEP 98400-000
Fone: (55) 3744-1510
wferigollo@atuanet.com.br

ISBN 978-85-89475-39-6

F393s Ferigollo, Wilson A.


Sicredi Alto Uruguai RS/SC: Caminhada
de Sucesso./ Wilson A. Ferigollo. Frederico

216 p.

ISBN 978-85-89475-39-6

1. Cooperativa de Crédito 2. Cooperativa -


história I. Título
CDU: 334.1
334.1(091)

Catalogação na fonte: Marli A. Ribeiro - CRB 10/620


Revisão: Ophélia S. B. Paetzold
Capa, Diagramação e Impressão: Pluma Gráfica-Editora

Toda reprodução de um trecho qualquer deste livro, através de qualquer


processo, é estritamente proibida sem a autorização, por escrito, do autor.

Impresso no Brasil
Printed in Brazil

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Uma Voz para os Filhos da Terra

Glossário..............................................................................................

Prefácio ...............................................................................................

Prólogo ................................................................................................

1- Declaração de Aurélio Diaz diante a Comissão dos Direitos


Humanos da ONU .............................................................................

2- Palavras de Aurélio Diaz no Fórum sobre Espiritualidade


Indígena, Morelia, Michoacán. México..............................................

3- Uma voz para os filhos da Terra ....................................................

4- O avôzinho Medicina......................................................................

5- A origem da Vida............................................................................

6- O Temazcal .....................................................................................

7- O Fogo Sagrado da Meia Lua ........................................................

8- A igualdade do homem e da mulher .............................................

9- A Busca da Visão ............................................................................

10- A Pipa Sagrada .............................................................................

11- Um Ciclo de Busca da Visão ........................................................

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Aurelio Díaz Tekpankalli

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Uma Voz para os Filhos da Terra

Tipi: Tenda indígena da América do Norte. Pode-se utilizar o seu


espaço para cerimônias ou como moradia.

Temazcal: Cerimônia indígena que representa o nascimento dentro


do útero da Mãe Terra. Realiza-se em uma cabana, completamente
no escuro, onde se coloca, no centro, pedras quentes vindas de uma
fogueira feita fora da tenda. Geralmente se faz quatro entradas de
pedras que representam o nascimento, a infância, a adolescência e a
maturidade. Em cada rodada se abre a porta e se introduzem novas
pedras. Em seu interior se reza com palavras, cantos, música e silêncio.

Plantar: Para a cerimônia de Busca da Visão, coloca-se a pessoa em


um pequeno quadrado de terra em baixo de uma árvore rodeada
de seus rezos e bastões. À essa ação, dá-se o nome “plantar”, como
se a pessoa fosse uma semente.

Busca da Visão: Cerimônia em que se vai à montanha para implorar


ao Grande Espírito por uma visão, pela compreensão do sentido
profundo da vida. A pessoa fica “plantada” em jejum e silêncio,
rezando pelo propósito da cerimônia.

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Uma Voz para os Filhos da Terra

“Alguém que queira estar sentado na cadeira que eu estou (Chefe),


deve entender que já não terá mais vida...
Faz muito tempo que eu já não tenho uma vida, que minha vida é
este fogo sagrado...
Faz muito tempo que deitei minha vida neste fogo sagrado...mas
é onde um homem deita a vida dele, que dali mesmo ele vai se
levantar...”

Eu estava sentado ao lado direito do Chefe Aurelio, quando pude Ouvir


este discurso emocionado em uma Cerimônia de 4 tabacos, na força da
sagrada medicina do Peioteee, além de me emocionar profundamente,
pela forma sincera, sua voz firme e musical, e pelas lágrimas em seus
olhos, ao me fitar e fitar a todos enquanto discursava, eu me emocionei
ao ver o Aurélio ser humano. Para mim e para muitos Aurélio é
uma lenda viva. Um ícone. Um exemplo a ser seguido. Sempre tive
para mim que Aurélio era diferente da maioria das pessoas que eu
conhecia. E sim ele se assemelhava muito aos Taitas que eu conhecia,
e neste momento pude entender o destino de Aurélio, e o destino
de todos que colocam a vida no Rezo, e tem o propósito de evitar a
morte da tradição de fazê-la chegar mais longe, cumprindo a sina de
abrir e fechar processos cura física e espiritual, e de expor seu canal
incansavelmente em cerimônias com plantas de poder.
Talvez esta imagem supra humana que temos de Aurélio, seja reflexo
de uma prática e de uma entrega, onde suas vontades totalmente a
serviço do Rezo, de la “gente”, e do grande Espírito. Ouvindo sua
orientação sobre o preço de ser que se é, sobretudo quando não se é
aquilo que deseja e sim o que manda o propósito e o destino.
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Aurelio Díaz Tekpankalli

Refletindo sobre o peso de Aurélio e o peso de todos que seguimos o


caminho das sagradas medicinas, que passa do preconceito de uma
prática edpiritual, que usa substâncias ditas enteógenas, para alteração
de percepção e expansão da consciência, ao perigo institucional do
porte e do uso destas plantas em alguns países onde essas práticas e
substâncias são proibidas.
Quando reflito sobre o quão duro é a vida destas pessoas , reflito
desde minha vivência neste caminho e dos desafios e preconceitos
que enfrento. Mas nada pode se comparar aos desafios do propósito
assumido corajosamente por Aurelio.
Aurelio realmente abdicou de sua vida como ser humano comum,
para um propósito maior. Não precisa passar muito ouvindo o Chefe
para entender que é um espírito antigo de nossos antepassados, que
aqui está para ajudar a cumprir as profecias dos nossos avôs e avós.
Aurelio se preparou a vida toda para ser o grande “guardião da
profecia da águia e do condor”, que fala que quando os representantes
dos povos do norte (águia) se juntassem com os representantes dos
povos do sul (condor), dentro de um grande conselho, uma grande
federação, e a águia e o condor voassem juntos no céu, seria o sinal
de que veríamos os grandes câmbios e mudanças necessários para se
instalar a paz e a felicidade na terra sagrada.
Aurelio viajou nestas décadas de serviço a humanidade, de povo
em povo, visitando chefes, pajés, Taitas, Amaltas, líderes políticos e
espirituais por toda América do Norte, Centro América, América do
Sul, Europa, África, Oriente Médio, fazendo Cerimônias, falando a la
“gente”, contando as lendas e histórias de nossos povos originários,
servindo medicina, curando, sanando, e sobre tudo tecendo alianças,
confenderando a todos que estavam abertos para esta nova tarefa de
unir e organizar os povos tradicionais.
Aurelio é um rezo vivo, que caminha incansavelmente, de fogo em
fogo, de altar em altar, de povo em povo, levando a sua mensagem
viva de esperança, em tempos de crise e transição planetária .

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Uma Voz para os Filhos da Terra

Um homem que não fez fortuna, e que viveu toda a riqueza que a
pobreza lhe podia proporcionar, e viveu toda a riqueza que a riqueza
pode proporcionar, e sempre seguiu vivendo em simplicidade.
Quando estivem em sua casa, pude ver o quão simples é a vida de
um homem considerado uma lenda no xamanismo mundial, o quão
simples é alegrá-lo e agradá-lo, com um bom café com leite, e um
bom tabaco. Que alegria vive o chefe na simplicidade.
Aurelio é do tipo de pessoa que você encontra ele com uma camiseta
hoje, e poderá encontrá-lo quatro anos depois com a mesma camiseta,
limpa, bem cuidada e carregada de poder pessoal.
Muitos poderão pensar que estou rasgando seda para Aurelio, mas
quem conhece nossa linhagem sabe que somos de uma raça guerreira,
e que dispensamos este tipo de abordagem. Inúmeras vezes, viAurelio
desconfortável com elogios exagerados em demasia. Nunca vi Aurelio
deslumbrado com elogios, ou sendo irônico e arrogante no dia a dia
ou em cerimônias.
Teço todos esses elogios de alguém que conviveu com Aurelio, não
tanto como gostaria, mas que alimenta uma grande empatia pela vida
e pelo propósito deste grande guerreiro antigo. Faço-os não para
Aurelio, em si, mas para quem for ler este livro. Sim, há alguns que
não gostam de Aurélio, a maioria nem o conhece, e que tecem críticas
egóicas, que são deveras compreensíveis. Afinal, Aurelio é conhecido
como o Chefe dos Chefes. Mas é preciso estar próximo para entender
pelo que passou e pelo que passa Aurelio, para sustentar um rezo tão
grande e forte que lhe rendeu este título.

“Daqui onde eu estou sentado (cadeira do chefe) eu recebo muitas


flechas que vêm deste fogo sagrado diretamente para meu coração,
mas há também as flechas de alguns covardes, que me atiram pelas
costas... mas mesmo essas flechas covardes, que vêm pelas costas, de
alguma maneira eu as faço chegar em meu coração”

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Aurelio Díaz Tekpankalli

Assim falou nosso Chefe nesta mesma noite, em que tive a honra de
sentar ao seu lado.
Gracias, Aurelio, por tu vida y por tu rezo! Somos uno!

Por, para, e por todas as nossas relações.


AhoMetakiaseOyasín

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Uma Voz para os Filhos da Terra

Vivo tudo isso como um milagre. Estamos na montanha, dentro do


tipi-templo, sentados em círculo frente à Meia Lua e ao Fogo Sagrado.
O avozinho Peiotee e os instrumentos sagrados nos acompanham. As
penas recordam o possível voo.
Aurelio fala. A vibração da sua voz e o conteúdo de suas palavras
despertam a memória desse grupo de novos filhos da Tradição.
- Ajude-me a recordar… - pede o coração palpitante.
O sangue indígena, que circula debaixo de qualquer cor de pele,
vibra e agradece.
Acende-se a Pipa Sagrada e o milagre do rezo direto ao Grande
Espírito se faz possível.
- Grande Espírito, permita-me transitar pelo Caminho Verme-
lho, permita-me viver a Tradição e suas cerimônias, permita-
-me sernessa essência indígena.
E a porta se abre.
O fumo reflete essa pessoa que deseja crescer. Visões, sonhos e pala-
vras verdadeiras indicam o caminho.
A memória se associa ao coração e ajuda a aumentar a consciência.
- Mãe Terra, perdoe-nos. Somos seus filhos, sabemos o dano
que temos feito e queremos lhe curar. Mãe… aqui estão mi-
nhas mãos para acariciá-la, meus pés para dançar e levar sua
mensagem de urgência a outros irmãos, meu coração para
amá-la e amá-la.
Encosto-me nela, minha Mãe. E em um milagre de Amor, sinto que,
na verdade, ela cura meu ser. Tenho náuseas e ela as acalma, tenho
medo e ela é um berço que protege.

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Aurelio Díaz Tekpankalli

Estou plantada na minha Busca da Visão, por sete ias, rodeada pelos
meus rezos feitos no tabaco dentro da tela amarela. Uma árvore me
acompanha desde sua sabedoria essencial. Assusta-me ver a alteração
do ciclo da Natureza. Há poucos dias foi equinócio de primavera
aqui, no Norte, e, no entanto, folhas secas caem ritmicamente sobre
esse quadradinho de terra que me contém.
- Mãe Terra, desculpe-me.
E me apoio, abraçada à Pipa Sagrada, para orar. Agradeço a nossos
antepassados, peço a cura da Mãe Terra. Imploro por minha visão.
Lua cheia, eclipse, cometa, são os sinais no céu da noite, que entrega
seu mistério iluminado de estrelas. Latidos de coiotes, voo de morce-
gos, cantos que não se sabe de onde vêm. Frio, muito frio.
Amanheceres que me ensinam a beber no ar o orvalho quase im-
perceptível. Abelhas, formigas, mamangabas, esquilos, um beija-flor,
algumas outras aves, são visitantes que trazem mensagens. Águias que
voam alto… flores com um perfume que me faz descobrir que posso
beber esse aroma e acalmar,um pouco, a obsessiva sede.
A sede. Protagonista do meu medo e do meu delírio. Desfilam ima-
gens de tantas bebidas! Peço ajuda à árvore e ela me presenteia com
pequeníssimas gotinhas que caem sobre o meu rosto. Observo meu
tamanho… como gostaria de ser um pássaro ou uma abelha, para
me saciar com essa água milagrosa. Mas não, sou uma mulher que
deseja dominar a sede, inimigo terrível.
Cada uma de minhas células aprende o valor da água e da vida que
contém.
O Sol abrasador, o sol quente, a noite… o ritmo do Universo que se
manifesta em total plenitude. Lua vermelha, lua branca, nuvens com
formas que me falam sua linguagem, Grande Espírito. Assim como
as aves e seu canto.
Uma cabeça tolteca aparece nos sonhos, e, na vigília, um desfile de
cenas da minha vida mostra quanta energia eu gastei inutilmente,
quando esforço para o desnecessário, quanta obediência a um sistema
que absorve a vida e mata o verdadeiro.

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Uma Voz para os Filhos da Terra

- Mãe, perdão. Pai, perdão. - e me abraço, pequena, insigni-


ficante, à Pipa Sagrada e às penas que Aurelio me entregou
antes de me plantar.
Veio em mim a vaidade, a violência, a importância pessoa, o orgu-
lho, a competência, a inveja, o egoísmo, a rigidez, a falta de humor,
o auto-engano…
Estoura o silêncio.
- Mãe, perdão. Pai, perdão. E soluço, agradecida a esse tempo,
a esse espaço, à cerimônia da Busca da Visão.
Compreendo a mensagem de algumas visões do passado em que me
foi mostrada a morte.
- Grande Espírito… peço-lhe força, clareza e entendimento
para ser seu instrumento.
Não sei quantas estrelas me acompanham, seu mistério me comove
mais e mais, talvez sejam infinitas.
A sede interrompe tudo. É dolorosa. É cruel. Agora compreendo que
é uma sábia e dura professora. Mostra minha debilidade, meu limite,
meu desespero, minha angústia. Também a paciência e a tolerância.
O Tempo… energia insubornável, veio transitar do dia até a noite.
Da noite até o dia. Não posso detê-lo, não posso acelerá-lo. Só per-
mite que o habite com plenitude no presente absoluto. Então, e a
seu capricho, conduze-me ao passado ou ao futuro, em disparos que
dão material para a reflexão de onde posso, talvez, compreender.
Para que serve esse sacrifício? Ofereço-o a você, Grande Espírito,
humildemente e sabendo que é o mais genuíno que posso lhe dar.
Em generosa resposta, recebo a possibilidade de me dar conta de
que esse é o momento do sacrifício que ajuda a compreender. E que
também dispomos de momentos para desfrutar, para ir, para des-
cansar, para comer, para beber, para criar, para trabalhar, para amar,
para… tantas possibilidades.
No meio da manhã do oitavo dia, chega Aurelioe me diz:
- Bom dia, viemos lhe buscar.

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Aurelio Díaz Tekpankalli

Pego minhas coisas companheiras e atravesso a porta do Leste, ver-


melha, azul, verde e púrpura. Céu. Terra. Coração.
Olho para tudo, agradeço, e caminho com dificuldade até a temazcal
que nos espera.
Nessa cerimônia da temazcal, encontro o ventre de nossa Mãe. No
centro da cabana que nos contém, as pedras quentes e vermelhas são
os anciãos que ajudam no parto, pois todos renascemos.
A Pipa Sagrada, a Temazcal, a Busca da Visão, as Plantas Sagradas,
a Dança do Sol, são a herança majestosa de nossos antepassados.
Aurelio abre a porta para que possamos transitar, passo a passo, pelo
Caminho Vermelho. Até esse momento, sua transmissão foi oral. Tal
como a fizeram os sábios ancestrais; mas hoje, ante à urgência dos
tempos, aceita-se que sejam transcritas suas palavras para poderem
chegar, assim, a mais pessoas sedentas da sabedoria que retorna.
Fala com a poesia intrínseca que descreve o concreto, sagrado, e
simples da Tradição.
- Tudo tem um propósito - diz, e sem pressa, começa a desven-
dar alguns desses propósitos ocultos. Ao fazê-lo, desperta a
memória ancestral. As peças do quebra-cabeça que cada um
tem vão encontrando o sentido profundo.
Aurelio é homem do caminho e herdeiro da Tradição da Meia Lua,
que une todos os povos da Terra. Humilde protagonista desse Tem-
po, dá a nós a oportunidade de nos aprofundarmos no mistério vivo
que nossos avós entregam. Conhece sua missão, e a cumpre como
propósito principal de sua existência.
A origem da vida na Mãe Terra, o papel da mulher e do homem
dentro da Tradição, a cerimônia da Temazcal, as Plantas Sagradas, a
Meia Lua, o Fogo Sagrado, a Busca da Visão, são temas que abrange
com profundidade e simplicidade. Envia, também uma mensagem
em que lembra do perigo de não despertar o real e o verdadeiro.
Suas palavras foram gravadas dentro do tipi, frente à Meia Lua e ao
Fogo Sagrado, durante a Busca da Visão de 1996, na qual dois seres,

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Uma Voz para os Filhos da Terra

Marina e Javier, cumpriram treze dias na montanha. Incluem-se suas


reflexões ao fechar o ciclo de quatro anos.
Ao transcrever a mensagem gravada nas cintas, tratei de respeitar
o estilo de Aurelio, quente e especial. Ganhou o genuíno e potente
das suas frases, ao invés de uma excessiva correção gramatical. O
trabalho foi sendo teiado como uma manta de cores vivas e desenho
real e verdadeiro. Dias e noites povoadas de palavras e silêncio, em
uma tarefa em que o prazer foi seu companheiro permanente. Um
profundo agradecimento a Karina, Mónica e Mirta, da Argentina, e
a Leticia e Delia, dos Estados Unidos, que, generosamente, brinda-
ram seu apoio.
A porta de um templo natural se abre. A unidade do coração, mente
e espírito permitirá receber e compreender. A Mãe Terra, o Pai Sol,
esperam o retorno consciente de seus filhos, que somos todos nós.
O Grande Espírito nos abençoa.
Com Amor, desde o sangue indígena…,

Ahá, METAKIASE OYASÍN!

Mabel Flores OmeCitlali

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Declaração de Aurélio Díaz Tekpankalli diante da


Comissão de Direitos Humanos da O.N.U.

S
enhor Presidente, Senhores membros da comissão, senhores
e senhoras, o Conselho Internacional dos Tratados Indígenas
intervém, nesta oportunidade, para referir-se ao ponto 22 da
agenda, intitulado: “Aplicação da Declaração sobre a eliminação de
todas as formas de intolerância e discriminação fundadas na religião
ou nas crenças”.
Chamo-me Aurélio Díaz Tekpankalli e sou líder da Igreja Na-
tiva Americana de Itzachilatlan.
Senhor Presidente:
O Conselho Internacional dos Tratados Indígenas representa
98 organizações de povos indígenas, e quer, nesta oportunidade,
transmitir a esta Honorável Assembleia, as reflexões de parte da
Confederação do Condor e da Águia das Comunidades, Povos e
Nações Indígenas do Hemisfério Ocidental.
Senhor Presidente:
O artigo 3 da Declaração sobre a eliminação de todas as formas
de intolerância e descriminação fundadas na religião ou nas crenças
diz:
“A descriminação entre os seres humanos por motivos de
religião ou crenças constitui uma ofensa à dignidade humana e
uma negação dos princípios da carta das nações unidas, e deve ser
condenada como uma violação aos direitos humanos e às liberdades
fundamentais...
Nossa presença aqui é para solicitar a esta Comissão apoio e
reconhecimento às formas de vida tradicionais e espirituais das Comu-
nidades, Povos e Nações Indígenas e poder ter a liberdade de praticar
nossas crenças espirituais e tradicionais onde quer que estejamos.

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Aurelio Díaz Tekpankalli

Consideramos que é de vital importância que não se restrinja,


se limite ou se impeça aos Líderes Religiosos o direito de carregarem
com eles os seus instrumentos e materiais necessários para as cerimô-
nias atravessando fronteiras; bem como pedimos que se autorize a
entrada, sem restrições, dos líderes espirituais aos hospitais, prisões,
e a todo lugar onde a nossa gente necessite assistência espiritual.
Estamos trabalhando arduamente para assegurar a continui-
dade histórica de nossas práticas, crenças, cerimônias e tradições
culturais que herdamos de nossos antepassados. Para isso, solicitamos
o respeito, apoio e colaboração de todas as instâncias do sistema das
Nações Unidas para exercer nosso direito a expressar-nos segundo
nossas leis, costumes e tradições com vistas a assegurar a sobrevivência
física, cultural e espiritual de nossa gente.
É fundamental para nossas religiões que se respeite os Líderes
Espirituais, as Cerimônias e os elementos, e os Instrumentos
Sagrados. Para nossas religiões, as penas, as peles de diversos animais,
o Cachimbo (Pipa) e outros instrumentos cerimoniais são muito
sagrados.
São sagrados também as plantas, montes, rios, lagos e a terra
como Mãe dos Povos Indígenas.
Tudo isso, por seu caráter sagrado, é respeitado por nossa gen-
te, porque é parte inseparável da cultura das Comunidades, Povos e
Nações Indígenas, filhos da Mãe Terra.
Nossas cerimônias utilizam, por seu caráter divino e sagrado,
plantas como Ayahuasca, a Folha de Coca, certos Cogumelos e o
Peiotee. Estes são utilizados em cerimônias para rezar ao Criador,
ao Grade Espírito e Avô, com um Fogo e um Bastão sagrado, com
penas de Águia, um abanador, um chocalho, um tambor, com incen-
so de cedro, sálvia, capim doce e copal. Nossos altares são espaços
sagrados que tem sido consagrados para serem utilizados espiritual
e medicinalmente.
Em nossos altares se realizam cerimônias para abençoar matri-
mônios, cerimônias para dar nomes às pessoas, para adotar pessoas,

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Uma Voz para os Filhos da Terra

fazer velórios e funerais. Também fazem parte de nossa espirituali-


dade os Banhos de Purificação, as Danças do Sol, as Danças para os
Espíritos, o encontro com o Fogo, a Busca da Visão, as Cerimônias
de Cachimbo (Pipa), a Amarração de Bambu, o Tributo à Mãe Ter-
ra, a Recordação de Nossos Antepassados, a Oferenda do Tabaco,
a Afirmação das Relações e Amizade e Fraternidade entre os Povos.
Senhor Presidente, Senhores Membros dessa honorável Co-
missão, através de nossas Cerimônias entramos na “Casa” de Nossos
Antepassados, ali renovamos a nossa relação, força, e espírito com
nossas famílias e o Criador, isto nos permite viver harmonicamente
com a natureza.
Para nossa filosofias, o Sol é o nosso Pai que dá o calor da vida.
A Terra é a nossa Mãe que fecunda a vida e doa os alimentos. O Ar é
nosso irmão que todos respiramos e compartilhamos. A Água é nossa
irmã, fonte da vida de qual todos bebemos. Estes quatro elementos
são sagrados, assim nos disseram nossos antepassados, e nós temos o
dever de respeitá-los e transmitir os seus ensinamentos às gerações
futuras.

Os que chegaram à América quinhentos anos atrás não en-


tenderam as formas de vida dos nossos antepassados, muito menos
nossas religiões e espiritualidade. Com sangue e fogo, tentaram impor
suas crenças, que estão divorciadas e em contradição com a natureza.
Sobre nossos lugares sagrados, construíram seus templos e lançaram
a “Santa Inquisição” frente nossas crenças.
Hoje, projetos chamados de “desenvolvimento”, inundam,
destroem ou dessacralizam nossos lugares sagrados, ferindo, assim,
mais uma vez, nossa espiritualidade, negando nossas crenças e
impondo-nos outras. A esse respeito, a situação de Monte Graham,
Monte Sagrado dos Apaches, é outro atropelo que confirma o que
temos dito.
Senhor Presidente, estudos arqueológicos e antropológicos têm
demonstrado, sem lugar a dúvidas, que o Peiotee tem sido utilizado

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Aurelio Díaz Tekpankalli

cerimonialmente há dez mil anos pelas culturas e povos do norte do


Continente Americano. Em 1990, nos Estados Unidos da América do
Norte, se deu o caso de “EmploymentDivisionDepartment V. Smith”,
no qual a Corte Federal deixou aos Estados a opção de criminalizar
ou não o uso do Peiotee. Essa decisão permite aos Estados definir se
o Peiotee é ou não uma droga; isto deixa o Estado com as mãos livres
para perseguir ou condenar os Líderes Espirituais da Igreja Nativa
Americana pelo uso e transporte desta planta sagrada.
Introduzido o documento H.R. 510 (103 D Congress 1st. Ses-
sion). Nós pensamos que isso é prematuro e estamos preocupados
por três razões:
1- O documento não está à altura nem ao nível dos instrumentos
internacionais que dão garantias a liberdade religiosa, nem com
os princípios que está elaborando o grupo de trabalho sobre
populações indígenas.

2- Antes da formulação deste Documento houveram numerosas


audiências em várias partes, porém não houve tempo suficiente
ou vontade para convidar os Líderes Tradicionais ou a membros
da Igreja Nativa Americana, que são os primeiros interessados
que exista uma verdadeira liberdade religiosa.

3- O Governo impôs sua própria definição para decidir quem era


Índio ou não para participar nos debates deste documento. Assim
foi rejeitada a participação de Xicanos-México-Indígenas e outras
culturas indígenas.

Senhor Presidente, Senhores Membros desta Honrável Comis-


são, neste ano que foi declarada pela Assembléia Geral das Nações
Unidas como “O Ano Internacional das Populações Indígenas”,
queremos solicitar que as filosofias, religiões e crenças indígenas
sejam reconhecidas como parte integrante do Patrimônio Espiritual
da Humanidade e que esses direitos tenham um lugar destacado na

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Uma Voz para os Filhos da Terra

“Declaração Universal dos Direitos Indígenas” que a subcomissão


deste grupo de trabalho está preparando.
Senhor Presidente, Senhores Membros desta Honrável Comis-
são, ao mesmo tempo que felicitamos ao Sr. Ângelo Vidal D’Almeida
Ribeiro pelo seu interessante informe, lhe pedimos que considere
em seus trabalhos a situação das religiões indígenas.
Além disso, transmitimos ao Sr. Relator um convite muito es-
pecial para que nos visite em nossas comunidades.
Senhor Presidente, antes de finalizar, permita-me render ho-
menagem aos nossos Anciões, nossos Líderes, Homens e Mulheres
que souberam transmitir suas mensagem espiritual de amor pela
natureza e de respeito para todos os seres humanos.

Tlazocamati, muchasgracias.

Genebra, Suíça.
17 de fevereiro de 1993.

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Aurelio Díaz Tekpankalli

Palavras do Aurelio Diaz Tekpankali no fórum sobre


espiritualidade indígena, Morelia, Michoacán, México.
29 de junho de 1996.

D
iante de tudo, quero tomar um momento para agradecer e
honrar nossos antepassados, honrar os homens, as mulheres,
os anciãos, as crianças que deram a vida para deixarmos um
bom exemplo; um ensinamento, uma sabedoria, e, de alguma maneira,
a memória do espírito da nossa gente.
Deste modo, reconhecendo-os, também gostaria de pedir ao
Poder, ao Mistério e ao Grande Espírito, que permita me dirigir a vocês
e que, de alguma forma, possa me expressar de maneira clara e direta,
sentindo-me unido a todos e a cada um de vocês. Que neste momento
não haja divisão nem separação, que estas paredes desapareçam e
que exista nossa conexão com a natureza, com as montanhas que nos
rodeiam, com todos os espíritos que de alguma maneira estão também
pendentes do que estamos fazendo. Que não haja nenhuma divisão.
Muito humildemente lhes digo que, aqui, neste momento, sinto-
-me bem unido a vocês, que para mim não há nenhuma diferença.
Que tudo o que estamos fazendo é bem importante e que de alguma
maneira podemos fazer juntos, em uma forma unida. Que nós pos-
samos reconhecermo-nos mutuamente e possamos entender isto que
estamos fazendo.
Antes de falar de espiritualidade temos que ser capazes de vivê-
-la, temos que ser capazes de ser a própria espiritualidade, e de ser
nós mesmos. Não podemos falar de algo a parte, porque se assim o
fazemos, estamos falando de algo que não sabemos.
Então, para todos nós, temos que ser capazes de deixar de lado
as histórias, as explicações que nos deram de algo que aconteceu a
um tempo atrás.
Vamos viver este momento.

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Uma Voz para os Filhos da Terra

É bem importante ser isto que queremos ser no momento em


que somos. Se trata de tornar-se isto no momento em que estamos
vivendo, de reconhecer tudo o que há, tudo o que existe, porém não
repeti-lo, não copiá-lo e não imitá-lo. Na verdade digeri-lo e externa-lo
através do nosso coração.
Todas as coisas que nos tem chegado, tem nos tornado o que
somos, porque de alguma maneira não sabemos o que fazer elas e
entram por um ouvido e as vezes saem pelo outro. Ou entram pelo
ouvido e saem de novo pela boca.
Todas as coisas que chegam a nossa vida, devem chegar a nós
e logo devemos levar ao nosso coração antes de levarmos a qualquer
outro coração. Sermos capazes de assumir uma responsabilidade
diante do que estamos fazendo e diante do que estamos vivendo. De
não termos o temor de mostrar nossa ignorância, de mostrar nosso
desejo de aprender.
É bem importante, se vamos falar de espiritualidade, sermos reais
e verdadeiros, sermos capazes de dizer o que somos. Neste momento
eu gostaria de dizer que é a verdade que estamos vivendo.
São momentos reais, momentos de glória, momentos de história.
Se nós os tomamos verdadeiramente, são momentos imortais.
Porém como viver este instante, é de alguma maneira sentando-
-se corretamente, sentindo-se apropriadamente. De alguma maneira
aceitando a situação em que nos encontramos para fazer o melhor
uso dela.
Nossa gente trabalha com a Natureza, sempre inspirada em
harmonizar-se com ela, em estabelecer uma relação com ela.
A importância maior está na relação. A relação que temos com
o Mistério, com o Grande Espírito, com a Suprema Inteligência. A
relação que temos com nós mesmos, com a Natureza, com o ser amado.
Esse é o princípio da espiritualidade da nossa gente e de alguma
maneira sempre tem sido mal interpretada pelos que observam, pelos
que dizem que vem aprender da gente e nunca nos perguntou nada.
E mais, nem se sentam em nossas cerimônias.

27
Aurelio Díaz Tekpankalli

Então já é o momento em que a nossa gente saiba a verdade.


É o momento de compartir a verdade, porque assim está escrito nas
estrelas. Assim está escrito na Terra, assim está escrito, de alguma ma-
neira, no coração de toda nossa gente. Está no nosso próprio sangue,
está na própria respiração.
Este é o momento que nossos antepassado profetizaram, sonha-
ram e desejaram para nós, os descendentes dos descentes originais, de
voltar a casa original de nossa Mãe Terra e de nosso Pai Sol.
Aqui, no Céu e na Terra, nos encontramos de novo caminhando,
porém com consciência, com claridade. Temos um propósito pelo qual
estamos aqui. O propósito de ser claros e verdadeiros, de ser conscientes
de estar em uma boa relação com tudo o que existe; com o visível e o
invisível, com o Mistério da Vida. Então disto que estamos falando, é
algo que aconteceu. Como nós podemos explicar isto que aconteceu:
o impacto psicológico que tem feito à nossa gente a presença de uma
espiritualidade indiferente à nossa.
Quando todo mundo veio em cima de nós e desconheceu nossa
forma de vida, onde torturaram, condenaram, encarceraram e mata-
ram nossa gente por praticar sua fé, seu conhecimento, sua natureza.
Até hoje repercute o temor que cada um de vocês guarda de
voltar à Verdade, a nossa verdade própria.
Muita gente se refugiou no catolicismo. Muita gente se refugiou
nas montanha, ou onde puderam se refugiar. Seja como for, temos
regressado a ocupar nosso lugar e aqui estamos inteirando-nos de
que nossos templos agora são centros arqueológicos ou são áreas de
turismo e isso nos dói muito.
Nossa gente nunca deu nada, nunca vendeu nada. A Mãe Ter-
ra é sagrada e não se pode pôr um preço. Nós seguimos sendo seus
legítimos filhos e guardiões do seu amor, de seu ensinamento, de sua
vida, porque nós sim nos reconhecemos com ela. Então falar sobre a
espiritualidade, é dizer: aqui estou, voltei.

28
Uma Voz para os Filhos da Terra

Quem sou eu? Eu sou o descendente original dos povos nativos


de toda essa Terra. Sei, o tenho claro e é meu direito natural reclamar
a verdade que há em meu coração.
Hoje, neste dia, tristemente aqui, em minha própria Terra,
México, me negam esse direito. Eu tenho pedido o reconhecimento
da Igreja Nativa Americana de Itzchachilatlan no México, e o governo
diz que sou estrangeiro. Diz que não podemos praticar esta forma de
vida porque eles não a reconhecem.
Se o Grande Espírito, a Lei do Universo sim a reconhece, eu
creio que temos que preparar este governo. Se eles são capazes de
reconhecer tantas formas de vida, tantas religiões que têm registrado
e reconhecido no país, porque não vão reconhecer a nossa?
Eu tenho ido e sido preparado pelos Anciões, no deserto, sobre
esta Medicina. Eles me deram de comer até que eu estive cheio.
A primeira vez que me disseram:
- Já está cheio?
- Sim, já estou cheio até aqui (faz gesto com a mão no topo do
pescoço).
- Você precisa ficar cheio até aqui (faz sinal no topo da cabeça).
- Quando eu me enchi até aí, eu disse: “Já estou cheio”. Respon-
deram-me: “lhe falta preencher um outro pedaço, até aqui (sinalizando
com a mão a alguns palmos acima da cabeça). Até que não haja dúvidas
de que você tem uma relação com a medicina.” E então, quando me
dei conta, disse-lhes: “Eu creio que nunca poderia estar cheio desta
medicina.” Disseram-me: “Já está cheio, já sabe do que se trata.”
A forma tradicional dos nossos antepassados existe e tem
sobrevivido e chegado até nós. Aqui, até agora, eu a tenho recebido
diretamente de família, em família, em família. Posso relatar a história
de como a temos conservado, como foi transmitida, e de como deve
continuar sendo transmitida de geração em geração e de família em
família. Esta não é a história oficial, esta é a história real e verdadei-
ra. Esta é, de alguma maneira, a nossa identidade, quem nós somos.
Nós somos os portadores da história do povo, de nossa gente. Nós

29
Aurelio Díaz Tekpankalli

somos os carregadores da verdade não escrita, que está no coração


de nossa gente. Hoje queremos que todos nos escutem. Esta voz se
dirige exatamente a vocês que têm ouvidos, que podem escutar que já
é tempo e que não iremos fazer sozinhos. Devemos fazer com a ajuda
e a participação de todos. Eu tenho clara a memória de Lucen e dos
mil anos que passaram. Não perdi a memória. Tenho minha história
bem clara, tudo o que se tem colocado sobre nós, toda a saturação de
ideias equivocadas. De que descendentes de Adão e Eva, de alguma
maneira, seriam estes nossos pais. Meu único pai é o pai Sol e minha
única mãe é a Mãe Terra, e nunca fomos expulsos do paraíso, este é o
nosso paraíso e está em nossa história. Tudo bem a história de outros
povos, porém, a nossa não tem nenhum problema. Não temos um
criador, porque não existe na forma em que eles o têm, as coisas que
hão colocado sobre nossa gente.
Como é possível que o primeiro casal tenha sido expulso do
Paraíso e que os primeiros filhos, o primeiro irmão, mate o seu outro
irmão e que seja condenado a errar pelo resto da eternidade? Isso
não é assim, meu irmão e minha irmã são o Ar e a Água. E eles nunca
tiveram ciúmes algum nem nunca brigaram um com o outro. Pelo
contrário, funciona, e são uma família real e verdadeira.
Esta é a nossa verdade, essa é a nossa espiritualidade, esse é o
conhecimento dos nossos antepassados. De alguma forma, a saturação
que tem chegado ao nosso povo, de ideias, de seres sábios, de seres
muito sagrados, muito espirituais, iluminados, tem cegado, e, hoje, é
uma venda nos olhos da minha própria gente.
Já é tempo de tirarmos a venda e de vermos o criador, o doador
de vida, como viram os nosso avós.
Já é tempo de que a nossa gente se levante, se una e se reconheça.
E, mais que nada, possa ter uma conexão direta, tal como antes tinha
a nossa gente.
Aqui estamos, neste tempo, invocando a todos e a cada um de
vocês, para que nos ajudem.

30
Uma Voz para os Filhos da Terra

Esta igreja nativa americana que temos nos organizado para


registrar é somente um nome, porque na nossa tradição não existe
a palavra “igreja”, porém, vamos ver se assim nos reconhece o nosso
próprio governo. Que tristeza é essa realidade que estamos vivendo.
Porém, eu pratico a tradição com ou sem a aprovação do go-
verno.
Aqui, no México, estou colocando minha vida em risco, porque
isso é mais importante. Eu não creio que alguém possa deter minha
prática sagrada com o Grande Espírito. Porém, muitos dos meus
irmãos continuam sendo encarcerados e também colocados numa
situação de sentirem-se criminosos, agora, nesta atualidade. A tradi-
ção nos diz que todos somos irmãos, que todos somos uma só família.
Isto, nós temos claro, por isso trato de curar especialmente os que têm
uma posição dentro do governo, uma possibilidade em seu trabalho.
Porque se eles estão curados, talvez possam nos ajudar. Então é bom
curar, imediatamente, àqueles que estão em um lugar de onde podem
fazer as mudanças.
Para isso, temos que nos atrever a dizer o bom, o sagrado que é
tudo isto que estamos fazendo aqui.
Que saia algo que seja medicina, que seja notícia que nosso povo
já não vai mais esperar uma solução de fora, porque a solução está
dentro de nós. Em nossa própria casa.
De alguma maneira, é muito triste isso que nos ocorre, de ver o
irmão como um estrangeiro. E ver o estrangeiro como ele próprio e
o único que tem o poder aqui, nesta casa.
É triste, porém esta é a nossa realidade, e devemos nos
movimentar. Eu, aqui, não estou para me queixar, nem lamentar,
nem para fazer alguém se sentir mal. Estou aqui pedindo ajuda,
especialmente dos meus irmãos, os que vêm de fora, que assumam sua
responsabilidade e nos permitam ter o papel que queremos e devemos
ter. Então, com isso, quem somos nós?
Nós somos a harmonia do universo.
Nós somos os filhos do Sol.

31
Aurelio Díaz Tekpankalli

Nós somos os filhos da Mãe Terra.


Nós somos a relação com todas as relações.
Em nossa herança, nossos avós dizem: IN LAKESH A LAKE,
você é eu e eu sou você.
Nós miramos o Grande Espírito e dizemos: você sou eu, eu sou
você. Desta maneira, vemos o mistério. Desta maneira, nos vemos a
nós mesmos.
Hoje devemos ver e dizer a verdade, e a verdade é que nós vamos
invocar o Grande Espírito para que ele faça por nós, porque, se nós
somos o Grande Espírito, então não estamos falando de um espírito
preguiçoso, estamos nos falando a todos nós, estamos nos dirigindo
diretamente ao espírito que está dentro de cada um, que, por favor,
ponha as mãos, que nos unamos, que nos fortaleçamos, e possamos
renovar a nós mesmos, emendar e, de alguma maneira, redesenhar
a forma sagrada que temos que levar a cabo para o cumprimento do
nosso próprio destino, para as futuras gerações. Porque, de alguma ma-
neira, nós fazemos isso hoje, aqui, para honrar os nossos antepassados.
Porém, nossos antepassados somos nós mesmos, e estamos
fazendo, então, para honrar a nós mesmos. Mas nós mesmos somos
o futuro, estamos nos preparando para termos um futuro melhor.
Assim, simples, é a espiritualidade. Estou falando do que está aqui,
em meu coração. Eu sou naturalmente indígena, eu sou, por gosto,
indígena, eu sou, por direito, indígena e, por prazer, sou indígena.
Isso está na minha natureza de ser e reconheço a todos e a cada um
como indígenas. Por mais que não saibam, todos são indígenas, porque
todos somos filhos da terra. Porém, temos que atuar como tais, temos
que viver como tais.
Aqui estamos, fazendo um trabalho de levar as pessoas de novo
à igreja, ao templo, ao lugar em que iam nossos avós para conseguir
a conexão. Nós, aqui, os levamos à montanha, para dentro do ventre
no Temascal, e à cerimônia de medicina.
Levamos-os lá para que possam abrir os olhos. Para que possa ver
a si mesmos, lá, no universo, para que possam se dar conta de que estão

32
Uma Voz para os Filhos da Terra

mesmo frente ao criador, que estão, de alguma forma, idenficando-se,


aí, com o Grande Espírito, com eles mesmos.
Para que se encontrem e se deem conta de quem são e de onde
vêm. Isso é importante: ali, na montanha, ajudando, rezando, guar-
dando silêncio. O primeiro ensinamento de espiritualidade de nossa
gente é saber escutar.
Então, nós tiramos a palavra da nossa gente, que, por quatro
dias, não pode falar. Que vá para escutar e nada mais. Assim, apren-
dem escutar e, aí, aprendem. Na verdade, aprendem a se dar conta
e a ter isso claro.
E, depois, disso, sabem e têm a revelação do que fazer.
Quando estão ali, vivem um encontro sagrado, um momento
real e verdadeiro.
Esse é o nosso trabalho, na verdade: dizer à nossa gente que a
igreja é a natureza, a árvore, o rio.
Estamos, atualmente, em grande perigo, porque o rio deve levar
a vida e, agora, leva a contaminação. Porque o ar deve ser puro, deve
ter o oxigênio da vida, e, agora, tem contaminação.
Assim ocorre em todos os lugares da Terra e no calor da vida.
Com isso, nada mais, explicando-lhes um pouquinho do que significa
essa espiritualidade que agora vivemos.
Queremos lhes dizer que estamos aqui, presentes, e que talvez
não use uma tanga, talvez não use as coisas que usavam meus avós.
Porém, sou o mesmo, só que reciclado através da energia, através dos
séculos. E, na verdade, sigo sendo o mesmo de milhares de anos atrás.
Que nada mudou. Dirijo-me ao ancião que se encontra dentro
deste corpo que agora vocês têm, ao meu irmão, com o qual vivi mi-
lhares de anos atrás.
Tome novamente a força, o espírito. Tiremos os trajes que, de
alguma maneira, nos atrapalham muito e sejamos um só.
AHO METAKIASE OYASÍN!

33
Aurelio Díaz Tekpankalli

O Avozinho Medicina

E
u sou um homem que tem tomado uma medicina que se
chama Peiotee. Peiotee é algo muito sagrado. Muita gente
não se atreve a falar disto porque está “penado”, tem sido
julgado e condenado. Em nossa história a Inquisição tem torturado,
tem perseguido e tem matado a muitos de nossos líderes, sacerdotes,
pessoas consagrados ao espírito, que é o mesmo espírito Universal,
mas não tem sido entendido.
Em um tempo, o fez a Igreja Católica e ainda hoje a persegui-
ção continua pela ignorância das autoridades do país onde vivemos.
Este Peiotee é um sacramento,é uma planta ancestral, para mim
é um avô. Peiotee que dizer “vibração do coração”, então quando fa-
lamos da vibração do coração estamos falando da filosofia e da mente
de nossos antepassados. Eles também tomavam esta medicina crendo
que é o coração do Grande Espírito sobre a Terra.
Ninguém tem respeitado, na verdade, nunca investigaram,
só julgaram e condenaram. Destruiram os templos, s gravações, a
informação que os avós deixaram aqui para nós. A maioria acabou
em coleções particulares ou em museus; mas tem coisas que estão
gravadas em base original; e é de onde beberam nossos antepassados.
Se diz que a principio, quando uma [pessoa] toma medicina,
este Peioteee, é para receber instruções, visões, ensinamentos ou cura.
Existem muitos propósitos pelos quais uma [pessoa] pode tomar esta
medicina. Estamos tomando pra estar bem em nosso coração, para
estar bem em nossa vida, estar bem em nossa família, em nossa rela-
ção com todos os seres. Este conhecimento foi a maneira que nossos
antepassados compreenderam a vida. Através desta medicina, deste
Peioteee sagrado, desta planta sagrada, eles conheceram as visões e
cerimônias em todos os rincões da Terra.

34
Uma Voz para os Filhos da Terra

O conhecimento do céu e da terra se pode adquirir direta-


mente através de uma boa relação, com um espírito aberto, com um
espírito que não conhece a manipulação ou a mentira. EPeioteee é
este espirito; assim também muitos outros espírito que transmitem
diretamente, como a Ayahuasaca. São agentes que estão a nosso
serviço, a nossa disposição, mas antes de tudo, nós temos que estar
a disposição deles.
Nossa gente um dia saiu em busca do espírito e caminhando
se encontrou uma planta milenar. Esta planta lhe falou e lhe disse:
- Toma-me, eu posso ajudar. – Nossos antepassados a tomaram e
disseram:
-Não te conhecemos, mas queremos te conhecer e queremos
que nos ajude, que nos dê de teu ser, que nos permita conhecer e
saber qual a relação que temos.
No começo do tempo nossa gente foi coletora de plantas e as-
sim foi como coletaram estas plantas, como levantaram esta planta.
Quando eles a tomaram tiveram a visão, tiveram o espírito eu lhes
entregou este desenho, como deveria ser e como deveria leva-lo. Essa
gente se deu conta, então, da vibração que existe nesta planta, que
é o coração do Grande Espírito vibrando sobre a Terra e a puseram
no centro da Terra para pedir-lhes sempre por conselhos.
Este ancião, o avozinho Peioteee, está nesta dimensão. Trans-
formou-se num ser que habita no deserto, e que espera daquelas
pessoas que se aventuram a caminhar por aí, para encontrar sua
mensagem. Este ancião tem esperado por nós há milhares de anos
comunicando-se. Muitos de nossa gente não têm a capacidade de
escuta-lo, por isso não se dão por entender, mas ele sempre está nos
falando, nós somos o que sempre temos escutado. Nossos avós os
levantaram e disseram: -É bom para nossa gente escutar a palavra
do avozinho Peioteee. Por isso o tomaram como o sacramento prin-
cipal de cerimônia, e agora nós estamos levando a todos os rincões
da terra para que a gente escute a mensagem do Grande Espírito
através do avô Peioteee.

35
Aurelio Díaz Tekpankalli

Esta medicina é muito boa e se lhe falamos com sinceridade,


com humildade, ela pode nos ensinar coisas que nunca, nunca pode-
ríamos ver sem a sua ajuda. Percebe-se que não há nenhuma razão
para falar de coisas que não valem a pena, deve-se sempre falar com
humildade, com sinceridade e ele te ajuda. Se alguém fala de outra
maneira ele te dará uma lição, de todas as maneiras te dará um
ensinamento, por isso é melhor ir para ele com um bom espírito e
receber bem a instrução deste ancião.
O avozinho Peioteee tem escrito em seu próprio corpo as cons-
telações que estão nas estrelas, porque foi plantado na Terra pelo
Grande Espírito em pessoa, e que pôs seu coração nele. Assim é como
nosso antepassados o compreenderam, assim é como ele viveram.
O Peioteee, para nós, é a porta para poder cruzar de um lado
ao outro. Se pudermos manter nosso próprio coração em nossas
mãos e verdadeiramente, totalmente lançado e entregue, sem qual-
quer dúvida, ele pode nos receber. Esta é a forma como os nossos
antepassados fizeram, foi assim que eles se conheceram.
Quem diz que isto tem cem ou duzentos anos, está bem equivo-
cado. Nossos anciões tem relação com este avô desde séculos e séculos,
desde milênios, desta maneira tem chegado tem chegado até nós, é
a herança que nos deixou nossos antepassados. Esta medicina, agora
tem sido condenada, julgada, criminalizada, com toda ignorância,
pelas autoridades oficiais, que tem aceitado todos os cultos, porém
dado as costas a nossa própria espiritualidade. Isto é muito triste. O
vinho, que é bebida alcoólica, é permitido nas cerimônias. Por que
eles não se dão conta que existe uma semelhança entre o Peioteee e
qualquer outro sacramento. Para nós este é o corpo, esta é a carne do
Grande Espírito, assim como é. Por isso nós exigimos que nos respeite
em nosso direito natural. Já é tempo das autoridade se prepararem
e se darem conta do universo que existem dentro das expressões e
manifestações da espiritualidade do ser humano.
Aqui, no México, são reconhecidas todas as formas de culto
que existem sobre a Terra, mas a nossa, a nativa do próprio México,
é negada. Para mim isto é muito triste, porque estamos vivendo um

36
Uma Voz para os Filhos da Terra

tempo que supostamente, se diz de abertura, de compreensão, mas


não existe tal compreensão.
Agora mesmo, frente ao ano dois mil, nos damos conta que
ainda nos condenam, que ainda nos perseguem, que ainda nos re-
chaçam. Não sei como é possível que nossa gente tenha ficado assim,
por tantos séculos, com o malefício de abrir sempre os braços igno-
rantemente a todo estrangeiro, rechaçando a si próprio.
Como é possível que se dê as costas ao irmão que tem séculos e
milênios vivendo nesta Terra e se dê as boas vindas a pensamentos e
maneiras que não possuem sequer um ano de existência nessa Terra.
Esta é toda a realidade atual: brindar sempre a todo o desco-
nhecido e rechaçar a si próprio. Para mim, isto é algo que tem que
acabar, que deve mudar. Oxalá que algum dia possam vir e sentarem-
-se aqui, em cerimônia e possam dar conta disto que estamos falando.
Do que é e do que tem sido para nós esta querida e amada maneira
de viver com o sagrado e com a presença de uma boa relação com
o avô Peioteee.
Também é nosso desejo que assim seja, para o cumprimento
do destino de todas as formas de vida, que têm a mesma origem.

37
Aurelio Díaz Tekpankalli

A Origem da Vida

N
ossa origem é daqui, deste solo, o Grande Espírito nos pôs
aqui por um propósito, assim compôs a vida sobre a Terra,
pelo mesmo propósito. A vida se deu simultaneamente em
todos os rincões da Terra, porque em todos os rincões da Terra se
encontra seu poder, sua presença. E isso que andam buscando, um
ponto específico de onde começou a vida é uma grande ignorância.
La Terra deu a vida ao mesmo tempo em todos os rincões, a todos
os lugares, assim foi como aconteceu. Nossa origem é da célula e do
átomo, aí é onde se encontra a vida. Onde quer que haja célula ou
átomo aí está nossa ascendência. Em todas as parte se encontra o
átomo, em árvores, na pedras, em todos os tipos de plantas, em todo
tipo de forma de vida.
Nossa origem é essa, não tem nada a ver com interpretações
sem inspiração ou sem espírito. A maioria das interpretações, dizem,
tristemente, que são feitas cientificamente, através de uma observação
que não tem espírito, que não tem coração.
A nossa origem está na memória da história original desta
Terra. O primeiro homem e a primeira mulher foram criados pelo
ser que nos deu a vida, que é nossa Terra, assim como agora nos ali-
menta, assim como agora nos segue dando a vida; e por nosso Pai Sol.
Os mistérios, as forças criadoras que existem dentro de todas
as manifestações do Criador, como a água, o ar, são sagradas para
nós, e essa é a fonte da vida.
Nós reconhecemos que nossa origem não começou desde o
momento que o homem contabilizou o tempo, é uma história mile-
nar que tem a idade das pedras, que tem a idade do fogo, que tem a
idade do ar, deste oxigênio que respiramos, da água.
Damo-nos conta que as pessoas não têm olhado com sin-
ceridade, com integridade, com humildade o princípio do tempo,

38
Uma Voz para os Filhos da Terra

que para nós é muito importante, porque agora estamos no fim do


Tempo. Na vida há um ensinamento que é o maior ensinamento de
todos os ensinamentos, e que é a realização, a libertação que nossos
antepassados realizaram, usando a simples verdade do amor na re-
lação com a natureza.
Eles entendera bem isto, por isso que os anciões tinham lugar
muito especial dentro da sociedade, na forma de vida antiga. As crian-
ças eram sagradas porque representavam e representam o futuro.
Todos, todos tinham um lugar dentro da vida antiga de nossos
antepassados. Agora não temos um lugar para tudo isso, por isso é
que há tanta gente sem casa, por isso é que nos encontramos na rea-
lidade em que nos encontramos. Tivemos que construir prisões para
prender as pessoas. Na antiguidade isso não existia. Como ocorreu
isso? Através da desconfiança, através da insegurança, através do
deixar de amarmos, ou de queremos, de compreendermos, ou de
termos uma verdadeira relação.
Desta forma temos perdido pouco a pouco tudo aquilo que em
princípio tínhamos, temos perdido de nossa casa, de nossa história
original. Estamos agora deslocados do princípio, é por isso que es-
tamos no fim.
Se regressarmos ao princípio saberemos que todos somos um,
que todos temos a mesma história e que temos a mesma respon-
sabilidade. Por isso é importante compreender que o destino que
corremos é o destino que correm todos. O destino que corre o rio é
o mesmo destino nosso, o destino que corre quem vive no lixo, esse
é nosso próprio destino. Temos que mudar a direção que levamos
para poder voltar ao ensinamento puro, à essência do conhecimento
de nossos antepassados.

39
Aurelio Díaz Tekpankalli

O Temazcal

P
ara nós, um dos primeiros ensinamentos que existem dentro da
tradição, é a origem. A nossa origem é o ventre da Mãe Terra,
e é uma das primeiras cerimônias que temos nesse momento
a tomar forma, a tomar força, a tomar, de alguma maneira, sorte na
vida. Se chama cerimônia de Temazcal.
Esta é uma cerimônia muito bonita, é uma das mais antigas
que existe. É das primeiras cerimônias que foram entregues ao ser
humano. Está baseada na bênção e na purificação do ser humano.
Como? É através do líquido sagrado da água, através do calor da
vida, que se pode receber o sopro da vida.
Este Temazcal é um Temazcal que está baseado no ventre da
Mãe Terra, que é onde somos concebidos, onde somos alimentados
como sementes para chegar a ter a unidade de os poderes do Uni-
verso.
O Temazcal é uma cerimônia que é conhecida como a “Cabana
dos Anciões Pedras”. E é a cerimônia do Fogo Sagrado, onde se leva
primeiro a reativar o calor guardado nestas pedras de lavas.
Se usam pedras que alguma vez tiveram a solidificação, que
tiveram o calor que vem das entranhas da Mãe Terra e que saíram
à superfície. Nós podemos coleta-las e pô-las em um montinho de
madeira onde podemos ascender fogo, pôr um rezo, um bom pen-
samento e pedir uma ajuda a estes Anciões que são as rochas de lava.
Esta rochas são aquecidas e levada a cabana que é o umbigo da Mãe
Terra. Ali se depositam, e é onde todos se reúnem para recebe-las
com plantas aromáticas. Utiliza-se o copal para recuperar a memória;
se utiliza o palo Dulce para conseguir a ternura, a beleza de todos
os espíritos, para aqueles que gostam do que é doce, para ter a do-
çura em nosso coração. Utiliza-se também, a sálvia, para escolher,
somente, aquilo que necessitamos. Também se utiliza o cedro para
benzer tudo o que realmente temos, é o poder que benze todas as

40
Uma Voz para os Filhos da Terra

coisas, esta planta que sempre é verde e que tem o poder guardado
para benzer tudo.
Usam-se muitas plantas dentro do Temazcal para agradecer a
vida, para “bem dizer” a vida. É dessa maneira que vemos a concepção
mesma, dentro do ventre de nossa Mãe. Sentir dentro do calor da
vida, a presença própria, com um bom aroma, com uma boa essência
e com uma boa presença.
Estas plantas de depositam sobre a pedra, é ali onde nos dão de
sua essência, ao serem consumidas pelo calor, pelo fogo que guarda
essas pedras. Depois de poder ter a oportunidade de respirar este aro-
ma, se fecha a porta e todos juntos compartilhamos um mistério, uma
escuridão, um interior, um momento de profundidade no Universo.
Neste momento nós depositamos água sobre as pedras para
receber suas bênçãos, é aí onde nos damos conta de como o Poder se
move, porque esta água que cai sobre as pedras, imediatamente volta
a nós, em uma forma muito mais leve, pois a água volta a caminhar
no ar em forma de vapor.
Aí é onde se gradua a medicina, o conhecimento, a sabedoria,
assim se pode respirar. A isto, nós chamamos a memória da primeira
respiração; a memória do momento quando fomos concebidos.
É uma das cerimônias mais antigas que temos, onde recebemos
o conselho de nossos antepassados, de como foi que obtivemos esta
vida que agora temos. Então, ao pôr esta água, todos os que estamos
ali vivemos por igual, um momento de intensidade dentro do calor.
Estamos compartilhando uma energia que é igual pra todos, para
nada é diferente.
Dentro disto, nós utilizamos rezos para conviver, para guiar.
Também os cantos, tambores ou sonajas para poder dar uma volta
pelo Universo, pela criação, pela origem da vida.
Dentro do Temazcal, tocamos todos os mistérios que existem:
é o princípio, que é o Fogo Sagrado, a energia pura, a presença mes-
ma da criação. Porém, a criação em movimento, para que possamos
coloca-la de volta, aqui na Terra, em uma forma física.

41
Aurelio Díaz Tekpankalli

Este Temazcal nos dá a oportunidade de nos darmos conta


dos presentes que recebemos: o respirar, o dar-se conta que existe
um alimento que é imediato, o ar, que entra dentro de nós de forma
natural, como o primeiro alento, ao chegar aqui, a esta Terra. E desta
maneira funciona dentro do nosso ser, dentro de nossa natureza.
Quando se é capaz de caminhar assim, atrás do tempo, se reativam
todas as medicinas que estão no princípio. Dentro da memória en-
contramos tudo isso.
Também está o presente da água, que é um dos presentes que
aprendemos a receber, depois de respirar. Que é também o presente
do calor, porque esta água vem acompanhada de um calor natural.
Aí também nos damos conta de nosso corpo; que temos um
corpo, que sentimos e que é a presença mesma da Terra, destes quatro
elementos que temos.
Tudo isto é parte da cerimônia de Temazcal, que nos leva a
nos dar conta que primeiro fomos energia, e depois de ser energia,
fomos transformados em movimento e depois de ser transformado
em movimento, fomos canais líquidos que fluíram por todo nosso
ser como nosso próprio sangue, como nossa própria natureza de ser.
Depois de ser estes movimentos e canais, que estavam dentro de nós,
tivemos a base, que é o osso, que são as pedras. Depois tivemos uma
pele, que é a Terra, que é a presença mesma do lugar onde viemos
parar. Porque antes fomos pedras e estas pedras foi um ser que viajou
pelo Universo como um aerólito e que, de alguma maneira encontrou
seu lugar aqui na Terra e tomou corpo, tomou pele, que é a Terra.
Este ser, quando chegou, entrou aqui e viu que não somente
teria este osso, esta carne e esta pele, se deu conta que também tinha
esse líquido sagrado, que é o sangue, que é a água. Tomou consci-
ência de sua natureza de ser e aí criou a sabedoria, o conhecimento;
tomou consciência da unidade de todas as coisas, da presença mesma
do Espírito e destes presentes que Ele tem posto a nosso alcance.
Então, o Temazcal é onde um se une com toda sua família,
dentro da primeira casa que teve em sua existência e que é o ventre

42
Uma Voz para os Filhos da Terra

da Mãe Terra. Aí é onde nos encontramos em cerimônia, celebrando


a vida mesma. É uma cerimônia de puro amor, de pura unidade, de
pura vibração, porque aí é onde voltamos a sentir o bater de nosso
coração. Aí é onde sentimos o funcionamento de nossa capacidade,
ao respirar, ao nos alimentarmos do conhecimento guardado, do
conhecimento perpetuado nas entranhas da Mãe Terra, aí é onde
estão os elementos necessários para encontrar todas as medicinas que
existem, para encontrar como estar bem nesta vida, como não sofrer
nenhuma enfermidade. Como estar em paz, em harmonia.
Este Temazcal representa a casa de nossos antepassados, a casa
original. Para nós, é uma das primeiras cerimônias que todo ser hu-
mano deve conhecer antes de entrar em qualquer outra cerimônia
porque é pela qual viemos a este mundo.
É uma cerimônia de purificação, que tem a ver com o Fogo de
uma maneira importante e bem direta; que tem a ver com a Terra,
com o ar, com a água e com todos os elementos criadores que existem
dentro desse lugar.
Aí se encontra uma das primeiras lições, um dos primeiros pre-
sentes, como é o de aprender a escutar, a prestar atenção. Aprender,
de alguma maneira, a obediência dentro da natureza do ser, dentro
da habilidade do ser, dentro do poder de ser. Esta obediência é como
uma ordem para respirar, é como uma ordem natural de saber que
temos mãos e que podemos movê-la, utiliza-la. Aí é onde estão as
primeiras instruções de como o ser deve recolher-se dentro de si mes-
mo, para pode sair a fora e tratar todos os assuntos que lhe esperam.
Então, este ser se dá conta, de algum modo, que pode escutar, que
pode ver, que pode provar. Tudo isto acontece dentro do Temazcal
de uma forma direta, com uma vibração onde o ser sabe que está em
paz, em harmonia, em seu estado de êxtase total com o todo, Onde
há um som que lhe permite saber que não há diferença com nada; e
ao mesmo tempo saber que dentro dele não difere de nada. Assim,
isto é muito importante, que todas as pessoas que entram no Tema-
zcal possam voltar a totalidade do seu ser, a sua recuperação total.

43
Aurelio Díaz Tekpankalli

Dentro desta cerimônia sucedem muitas situações. Gente que,


por exemplo, chega aqui com um problema que não sabe porque é
que tem essa situação, ou que não sabe porque adoeceu. Assim mes-
mo pode dar-se conta e recuperar sua capacidade de saber porque
é que está como está. De dar-se uma resposta imediatamente e tê-la
clara, resolver e estar bem.
Então, esta cerimônia te permite começar desde o princípio
porque sempre que sair desta cerimônia é como voltar a vida; é como
voltar a nascer. É renovar tua vida, tua relação. Existem coisas que te
bloqueiam e aqui se pode desbloquear tudo. Podes recriar tudo, tê-lo
em uma perspectiva própria e com a fortuna, o benefício da expe-
riência acumulada através do tempo. Para mim é muito importante
aprender e estar de melhor maneir em cada cerimônia de Temazcal,
para ter mais consciência da própria vida, da própria origem na hora
de assumir uma responsabilidade dentro desta mesma vida que temos.
O Temazcal é uma grande oportunidade que temos em nossas mãos
para decidir como queremos nascer.
Há muita gente que se desespera, quer nascer as pressas. Há
muita gente que nasce com um bom pulsar de coração. Então, tudo é
como uma coisa só, que se encontra dentro do ventre da Mãe Terra.
Esta cerimônia, é a cerimonia que nós conhecemos como a ce-
rimônia antes de toda as cerimonias do ser humano, é por esta razão
que se deve fazer antes de subir a montanha. Depois do Temazcal,
se pode ir à montanha, porque já és um ser que caminha depois de
nascer, é um ser que tem vida, que tem corpo. Antes de ir a Dança do
Sol, uma pessoa tem que entrar pelo ventre da Mãe Terra para pode
reconhecer o Pai Sol, para poder dançar ao Sol, para poder dançar
sobre a mesma Terra; necessita ter forma física. Aí vão aprender a
ter forma física, a estar em boa forma física, em boa forma espiritual,
mental; em boa forma, assim, nada mais.
O Temazcal é uma cerimônia onde muita gente reconhece qua-
tro portas, quatro tempos. Primeiro é a cabeça porque é a primeira
que nasce, em seguida é o coração, depois o ventre e por fim são os
pés. Assim são com a quatro estações do ano, assim, como com os

44
Uma Voz para os Filhos da Terra

elementos. Assim é, de algum modo, como é dentro das partes e das


divisões que existem na natureza do ser. Então se diz que dentro
da natureza existem quatro direções, mas também existe o Céu e a
Terra, o coração também está aí, no centro de tudo o que existe, de
todas as direções, porque todas as direções tem que ter um centro de
onde se parte, de onde se equilibra tudo, de onde se harmoniza tudo.
O Temazcal é o caminho original, é por ele que nós viemos até
aqui, a esta Terra.
Tem quatro círculos que são bem importantes. Tem uma estrela
no centro com oito pontas e que representa a saída do Sol, porque no
centro se encontra o Fogo Sagrado e este Fogo Sagrado representa
o Sol que abençoa tudo e que dá a vida.
E esta estrela está velando a vida, para que se possa dar [a vida],
dentro dela própria, onde está toda a luz.1
Estes quatro ciclos que existem são o Mistério, o Grande Mis-
tério da vida. Se diz que existe uma memória universal, que todos
temos e que somos parte desta memória. Esta memória é a relação
dos tempos, a relação com a linha de fluidez da frequência universal
de origem da vida. Daí nós descendemos, aqui na Terra. Este é o
primeiroarcoque nós chamamos de memória.
Então, nos desintegramos desta frequência para tomar a forma
de um segundo arco, que é o arco da forma; o arco da presença física,
onde nos damos conta do exterior de nossa forma de ser. Aqui nos
encontramos na conexão de relação, que representa a relação com
todas as coisas. Tudo é um e um é uno com o todo.
Dentro do segundo, encontramos o terceiro arco que é o que
vamos fazer com esta relação; que é a extensão da relação que vamos
ter com este Fogo Sagrado, este presente, esta memória, a presença
deste corpo físico. Como vamos produzir com ele, e de que forma
vamos viver. É aí que devemos lapidar nosso coração, se quisermos

1 Tradução livre, a partir da minha interpretação. Os colchetes são para dar me-
lhor entendimento da frase, visto que sua supressão pode dar um sentido equivo-
cado à fala. Essa passagem se encontra na p.58.

45
Aurelio Díaz Tekpankalli

ter um elo que seja belo, que tenha harmonia, que tenha o melhor
fruto da relação, pois é a extensão da relação este terceiro arco. En-
tão existe o poder do retorno, a força criadora, que é a totalidade,
que é a iluminação, que é a perpetuação do compromisso que tive-
mos com nossa própria vida. É o retorno a própria fonte. As vezes
retornamos porque não podemos cumprir o propósito e esgotamos
nossa força física. As vezes se chega ao fim da vida com muita força
física e com muitas possibilidades de continuar, porque de alguma
maneira chegamos em um bom estado. Isto é o que chamamos de
Poder: chegar em um bom estado ao início do ciclo da vida, ou ao
fim do ciclo da vida, que é a mesma coisa. Poder levantar tudo o que
você é e dizer:- “chego aqui não porque estou morrendo, chego aqui
porque cruzei através da minha vida e cheguei de forma impecável,
de forma completa; em uma forma onde pude avançar sem grandes
consequências de perda física, mental ou perda espiritual. Então
aqui estou sem me ver perdido, uma vez que estou encontrado na
mesma porta de onde vim, e isso é que é a Força Criadora, o retorno
à Força Criadora.
São quatro anéis, nada mais, e isto é que é o Temazcal, isto é
o que representa as vibrações do Temazcal, de sua presença mesma.
Estamos falando do fulgor da vida, da vibração da vida.
O que fazemos com a vida é bem importante, e isto é a própria
cerimônia de Temazcal: como vivemos dentro de nossa própria vida.
Então, é uma cerimônia muito sagrada, muito simples, muito
bela e que de alguma maneira representa o primeiro lugar que tive-
mos em nossa existência enquanto ser.

46
Uma Voz para os Filhos da Terra

O Fogo Sagrado de Meia Lua

E
ste trabalho que fi zemos através da Igreja Nativa Norte
Americana de Itzachilatlan, nos mostra o Fogo Sagrado de
Meia Lua.
Vamos explicar o que nos foi explicado, o que nos tem trans-
mitido, tal e qual nos explicaram, tal e qual nos transmitiram. É o
conhecimento que nos foi entregado e levado através da relação, da
confiança de entender verdadeiramente o significado de tudo isso.
Nós ampliamos, lhe damos nosso próprio estilo, lhe damos
nossa própria visão, mas sempre na hora de passarmos às outras pes-
soas, retiramos toda essa inspiração, todo este estilo e o transmitimos
tale qual nos foi passado. Assim como veio de geração em geração.
Eu não sou nada para passar algo a alguém, mudando o que me foi
entregue. Em minha vida eu vivo verdadeiramente sob a lisura2 e o
espírito, tal como sou; trato de ser verdadeiro. Mas o compromisso
de levar adiante a Tradição de uma maneira pura é guardar sempre
os ensinamentos originais tal como os recebemos. E desta maneira
entregá-los.
A mim foi dito que esta Meia Lua é o símbolo que representa
nossa Mãe Terra, embora, que na realidade, não seja seu símbolo, é
a representação de nossa Mãe Terra.
É uma montanha, um arco, é a manifestação física de nossa
Mãe Terra com seus dois braços abertos para recebermos, assim como
sempre recebe o Pai Fogo. Este é um caminho que nós chamamos o
Caminho Vermelho. Neste caminho só se começa a andar quando
se toma a consciência de que é de coração, por vontade própria, de

2 Aqui Aurélio Diaz usa o termo “soltura”, em espanhol, que quer dizer: frou-
xidão, ou aquilo que é relativo a agilidade; qualidade de pessoa que fala aber-
tamente com franqueza, honestidade, lisura. Achei que “coube” melhor lisura;
aquilo que é reto, comportamento particular de uma pessoa integra, que age
com retidão.

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Aurelio Díaz Tekpankalli

uma maneira humilde e sincera, com toda a integridade; assim se


entra nesse caminho.
A princípio, passo a passo se vai aprendendo a afinar sua pró-
pria pessoa, as qualidades, para poder estar conectado e ter a fluidez
da mensagem do Grande Espírito.
Dentro desta tradição, a metade direita da Meia Lua é verme-
lha, que representa a vida. Daí se diz que vai caminhando através da
vida, quando se consegue realizar e compreender claramente que a
vida vale a pena se vivida com leveza, com sobriedade, com paz, com
serenidade, de uma boa maneira; mas para fazer isto se devereco-
nhecer todos os ensinamentos e depois deixá-los ir [Grifo do autor].
E chega o momento onde se encontra a si mesmo na metade
do caminho.
A metade esquerda do caminho de Meia Lua é o caminho do
Espírito, que é de cor azul. Nesta metade se encontra o avô Peioteee,
onde se volta a entrar em uma relação. Sim, se deixa ir tudo o que
foi feito durante a vida, se recorda a totalidade de si, toda a existên-
cia. Mas há que deixar-se ir sem nenhum capricho, sem nenhuma
possessão, é onde está a entrega: emcima da montanha, na metade
do caminho.
Ao cruzar esta parte, tem que dar-se conta de que não há volta,
que daí em diante já não há erros, que a vida já não pertence a si,
mas ao Grande Espírito, porque cruzastes o mistério, o lugar onde
o pensamento humano, o pensamento do indivíduo não tem nada a
ver com a totalidade do ser.
Se um é o todo, não pode limitar-se a uma particularidade,
esse é o momento em que se entra no lado esquerdo deste caminho.
O lado esquerdo é o lado do espírito, o lado da entrega, onde se
desprende da idéia de que alguém é individual, então o uno é o todo.
Muitos cruzaram e esperam ali, na metade do caminho, para
receber outro que também cruzem. Há outros que simplesmente
adentram mais em outros mundos, isto é parte dos tempos dentro

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Uma Voz para os Filhos da Terra

dos tempos. E neste tempo, há uma porta para aqueles tempo[Grifo


do autor].
Não há nenhuma separação, tudo é uma só linha. De alguma
maneira, é como a cebola que tem suas capas. Como nossos antepas-
sados construíram as pirâmides.
Assim é o Peioteee: vibração do coração. Quando o coração
vibra, tem várias capas de intensidade de vibração, por isso é que esta
medicina nos permite entrar nestes diferentes mundos, onde nossos
antepassados vivem, são os mundos onde desenvolveram a visão
do paraíso, a visão de como viver por milhares e milhares de anos.
Através destes estados de mente, coração e espírito, eles puderam se
focar e se manter ali por toda a eternidade. Esta é a nave que conduz
nossos antepassados, é a transformação do arco e da flecha em um
fogo sagrado que tem sete flechas e todas apontam ao coração. O
coração é esse avozinho Peioteee que está no meio. As sete flechas são
as sete gerações ou as setes direções, são parte do altar deste templo.
Esta é a Meia Lua que nossos antepassados viram como a
representação da Mãe Terra. Assim é como eles sonharam, como
eles viram e como eles levantaram. Desta forma foram passando de
geração em geração.
Este caminho é bem reto, não tem curvas, não tem emara-
nhados. Se caminhares nele, vai encontrar-se a si mesmo de melhor
maneira a cada passo que der.
Recebes através deste caminho, a refinação de si mesmo, a
solidificação de si mesmo.
Estes são os terrenos dos espaços dos tempos que nossos ante-
passados conheceram como a Terra da felicidade, o lugar onde eles
foram felizes e são felizes. O lugar que desenharam para que nós
vivamos, nos realizemos e morramos nele.
Isso é importante para quem busca sua identidade, quem busca
como nossos avós compreenderam o sagrado.
Aqui está o mistério de tudo o que está sobre a Terra, estamos
falando da vida e do espírito. Através da vida se pode chegar ao

49
Aurelio Díaz Tekpankalli

espírito, através da cor vermelha que nós conhecemos, se pode che-


gar a cor azul, através do dia se pode conseguir tudo o que está na
noite. Deve-se estar realmente alerta, manter-se em guarda contra
si mesmo constantemente, em cada instante, em cada minuto. Tens
que cuidar para não cair nas próprias redes. Tudo está desenhado
para passarmos sem nada desnecessário, sem impurezas. Este é um
filtro fino. Estar no meio do caminho, que dizer que se chegou só
com aquilo que será importante para depois da vida.
Depois da vida, não quer dizer que não seja necessário mor-
rer fisicamente, o que quer dizer é que não está mais apegado, que
rompeu com o que mantinha atado às questões da vida. Quando se
rompe com ele, se dá conta e se pode ver com claridade, que não
vale a pena se preocupar constantemente com coisas que no final das
contas não valem para nada. Isto é o que permite estar bem, realizar-
-se. É o caminho pelo qual andaram nossos avós, nossos antepassados.
Eles se transformaram e seres que puderam estar fisicamente em
todos os templos da Terra, ainda que estivessem neste lugar. Isso só
é possível quando se é capaz de sonhar e viajar através dos sonhos
e da visão, e de ter a força necessária para extrair o benefício destas
viagens. Que não sejam sonhos que se esquece, ou que não se sabe
o que fazer com eles.
Eles desenharam desta forma para que todos nós pudéssemos
chegar lá e conhecer o que há no todo, em todo o Universo, em todos
os mundos que existiram, que existem e que poderão existir.
Foi como viram a questão do tempo. O Tempo é somente a
oportunidade de acumular conhecimento e sabedoria. E se vamos
viver uma eternidade, não somente vamos acumular conhecimento
e sabedoria, como também vamos acumular habilidade, capacidade,
segurança para realizar o que nos propomos, de forma simples ou
complicadas, dependendo do que nos propomos e como o que con-
tamos no momentos em que nos aventuramos a fazer isto. Temos
noção da grande variante que existe em toda a Terra, por esta razão
é que as vezes não compreendemos porque existem tantas formas,
tantas maneiras. Ao fim sempre é o mesmo, o propósito é o mesmo.

50
Uma Voz para os Filhos da Terra

Este fogo é o que está em toda a Terra, é um Fogo que é co-


nhecido por todos os povos antigos e que sabem que o Fogo Sagrado
é o mesmo, não importa a diferença de desenho.
Este Fogo se encontra guardado na montanhas de nossos an-
tepassados. Na montanha do Condor e da Águia. Na montanha da
cúspide e lados do Universo. Nas montanhas de Visão. Nas monta-
nhas de Machu Picchu, nas montanhas de Malinalco, nas montanhas
de Michoacán ou nas montanhas de Black Hills de South Dakota ou
nas montanhas que existem em toda a Terra, na Índia, na África,
na Europa. Muita gente teve este Fogo na forma sagrada. A trans-
formação ante o Fogo é uma das provas que temos: ser capazes de
ver o Fogo interior em nós mesmos, sendo esta, de alguma maneira,
nossa relação com este Fogo.
Esta igreja é milenar, é um templo milenar.

51
Aurelio Díaz Tekpankalli

A Paridade do Homem e da Mulher

N
a tradição, dizem-nos que, no princípio da criação, o Grande
Espírito fez a primeira mulher e o primeiro homem ao mesmo
tempo, simultaneamente.
A primeira mulher e o primeiro homem saíram do Fogo Sagrado,
dentro da obra e inspiração do Grande Espírito.
Para nós, dentro de todo desenho, dentro de todo o “que-fazer”,
dentro de tudo o que tem a ver com a tradição, a mulher tem um papel
de igual responsabilidade que o homem.
Dizem que, no princípio, a mulher se encarregou de cuidar do
trabalho com os filhos e que o homem se encarregou de cuidar e de
fazer chegar o alimento para os filhos.
Assim é como se foi desenvolvendo.
Hoje em dia, o que perdeu mais tem sido o homem, pois era um
caçador que saía em busca de alimentos e que agora não o pode mais
fazer porque a Natureza na qual ele vive mudou. Era um campesino
que se dedicava a trabalhar no campo, e também perdeu esse espaço.
Era o protetor, e agora não pode ser, porque a sociedade em que vi-
vemos mudou tudo. O “que-fazer” da mulher tem mudado, não por
força dos tempos, senão porque essa também se tornou a provedora,
e, de alguma maneira, também a protetora da sociedade em que vi-
vemos. Originalmente, o trabalho sagrado que tinha a mulher era de
transformar os alimentos em comida e dar a primeira educação para
os filhos.
Isso tem mudado, porém não por causa da natureza, já que,
ainda nos primeiros anos de vida dos filhos, a mulher tem, todavia, esse
desenho original. Com isso, estamos dizendo que o que se encontra
totalmente fora do primeiro desenho original é o homem, não a mu-
lher. É bem importante que isso seja compreendido, porque, muitas
vezes, a gente assume que o homem tem todo o espaço espiritual e que
a mulher não tem nada, e isso é totalmente o contrário.

52
Uma Voz para os Filhos da Terra

A princípio, a totalidade da energia do universo, em sua essência,


é feminina, pelo menos é o que foi transmitido até nós.
Sobre a Terra, a maioria da energia é feminina. E, na atualidade,
a população de seres humanos, na sua maioria, é feminina, então é de se
considerar que o papel da mulher é vital: tomar a responsabilidade que
corresponde ao lugar que naturalmente lhe foi entregue no princípio.
Alguém tem que assumir essa responsabilidade e ver que o de-
senho do Grande Espírito é homem e mulher, como pai e mãe, como
avô e avó, ou como tataravó e tataravô, como neta e neto, assim, nessa
relação, um ciclo de família.
Agora tudo isso foi retirado do desenho original em que a
responsabilidade é mútua, do homem e da mulher. Vivemos em um
mundo em que não existe o equilíbrio, é importante assumir uma
responsabilidade para recuperar esse equilíbrio.
Se tomarmos dois para ser um, temos que estar completamente
conscientes de que, igualmente, temos que voltar a ser dois para estar
em um. É uma lei simplesmente natural.
Encontramo-nos perante uma situação alterada, mas, em nosso
tempo, temos que ter um desenho natural e real dentro das circuns-
tâncias nas quais vivemos.
A mulher, para nossos antepassados, tinha uma participação
total no destino da vida, da família, da comunidade, do povo e da
totalidade da compreensão dessa família terrestre universal, ou como
quer que se chame.
A mulher tem um presente que foi entregue em seu próprio
ser: é o cuidado das criaturas, que são o presente do Grande Espírito,
e que chegam ao nosso cuidado.
Ela é que dá, de si mesma, a primeira medicina a essas criaturas,
para a cura de todas as enfermidades.
A mulher é a primeira Mulher Medicina que existe sobre a Terra.
Muita gente esquece qual é a primeira medicina que uma criança rece-
be: é a natureza que existe dentro da obra da criação da mãe e do filho.
Essas coisas são bem sagradas e são bem importantes de entender.

53
Aurelio Díaz Tekpankalli

Dentro de si mesma, a mulher desenvolve a vida de um novo


ser. Dentro dessa bolsa é que tem a primeira benção da água aonde
essa criatura cresce. Chame como chamar, é a natureza que se en-
tregou a esse ser chamado mulher, e que nunca perdeu seu dom,
apesar dos tempos. É triste que agora haja situações de experiências
sobre esse ser tão sagrado.
Dentro de todas as cerimônias existe a participação de um
ancião ou de uma anciã, de um homem ou de uma mulher, de um
menino ou de uma menina. Todas as cerimônias tradicionais são
baseadas na família e todos esses representantes da família têm igual
importância. O desenho não está completo se alguém é tirado do
seu espaço, e cada um tem que entender que, para nós, não existe
a divisão do homem e da mulher. Aquele que separa e que trata de
ter uma tradição machista ou “femista”, está equivocado. A única tra-
dição real é aquela em que todos, todos, somos um, uma só família.
O papel da mulher é vital nos desenhos cerimoniais específicos
em que invocam as forças da natureza, há muitas cerimônias nas
quais o centro é a mulher. E há muitas outras cerimônias em que
o centro é o homem.
O equilíbrio é o mais importante dentro da tradição, se vai
haver uma cerimônia de anciões, então tem que ser para anciãos e
por anciãos. A identidade da cerimônia indica o que tem que ser.
Nunca se busca a separação, a divisão, tudo isso é um só. A
mulher, dentro da cerimônia de medicina, da Igreja Nativa Ame-
ricana de Itzchilatlan, tem um papel vital. Como ela é a primeira
medicina que temos sobre a Terra, porque nos dá de comer de si
mesma quando nascemos, é ela que abençoa os alimentos, para
passar essa medicina para todos nós. Somente uma mulher que já
tenha dado à vida dentro desta Igreja pode ter essa benção. Não
estamos contra a ideia de que uma mulher que não tenha dado à
vida possa abençoar os alimentos, senão o que estamos levando acaba
com um ensinamento antigo e que está baseado na observação do
espírito e da natureza da mulher.

54
Uma Voz para os Filhos da Terra

Tratamos de entender que essa energia da qual estamos falan-


do. Uma mulher dentro de uma cerimônia dedicada ao Sol pode ter
distintas funções. A primeira é a avó, que vem abençoar a todos, todos
aqueles que vão se entregar ao Pai Sol em seu sacrifício. Esta avó lhes
dá seu apoio, e é bem importante.
Muitas pessoas não se dão conta da grande importância que te
a mulher dentro dessa cerimônia
A mulher, em seu ensinamento original, antes que saia o Sol,
prepara a terra, prepara os espíritos, e lhes dá de comer a todos para se
ter uma boa dança do sol. Coisas assim não se podem explicar, porque
são o conhecimento, a sabedoria guardada em forma sagrada. Por essa
razão, é que somente os que vivem e participam sabem exatamente
tudo o que não se pode dizer, porque têm que conservar, de forma
secreta, sagrada, para ter um momento real e verdadeiro dentro da
vivência, da evocação do espírito, cujo propósito é a relação real do
indivíduo e da sua relação com as forças que invoca.
Por essa razão é que nos encontramos numa situação difícil, de
transmitir muitas coisas das quais somente se pode falar diretamente.
Há muito ensinamento que, a mim, como pessoa, talvez não me
corresponda transmitir, seria melhor que uma mulher o fizesse. Ou
talvez compartilhando. Eu não consigo ver a ausência da mulher de
toda tradição que estamos levando a cabo.
Falamos de um tambor cheio de água, que tenha vida dentro.
Que é o tambor, senão a representação mesma da mulher?
Estamos falando de instrumentos que são sagrados para nós e
que, em todos eles, existe a representação da unidade.
Por exemplo, neste chacoalho existe uma cabaça, que é a re-
presentação da mulher. Esta cabaça aqui representa todo o universo
e é uma mulher.
Esse pedacinho de madeira representa o mistério que é o homem
conectado com a mulher, o que está dentro, as sementes nos repre-
sentam a todos nós. Temos, então, o funcionamento da mulher e do

55
Aurelio Díaz Tekpankalli

homem para que possamos existir, para que isso seja. Esse é o espírito
dos nossos antepassados.
A meia-lua é um arco que representa uma mulher, e o Fogo é
uma flecha que representa o homem. Temos também a água horizontal
que representa a mulher. Então, a maioria da água que existe sobre a
Terra é feminina porque é somente quando a água é elevada ao céu e
regressa em forma de chuva, ela é masculina. Se alguém deveria estar
se queixando, deveria ser o homem, mas eu tenho escutado a queixa
da mulher quando nós, na verdade, estamos muito agradecidos.
Eu, como indivíduo, entendo que dentro da Tradição não existe
separação. Que não há tido, até agora, igualdade, eu também o lamen-
to. Como desejo que a mulher possa ver e possa dizer:
-aqui, neste lugar, eu sou reconhecida.
Falar sobre a mulher é falar da nossa outra parte, do mistério que
temos a nossa frente quando falamos da dualidade, de ser apenas um.
Dentro do pensamento dos nossos antepassados, a mulher era a
base de toda a estrutura social, política e espiritual. Ela era reconhecida
como centro de toda empresa porque sempre tinha que ter a segu-
rança de contar com a benção de ser mais amado: a Mãe Terra, e sua
representação feminina é a mulher. Sempre, em todas as memórias,
reconhece-se que o culto maior é dedicado à mulher. Se vamos ao
Museu de Antropologia do México, encontramos que a joia mais pre-
ciosa, mais completa, é a Coatlicue, que é a representação da energia
feminina. Talvez não haja outra obra com inspiração semelhante em
todo o mundo.
Damo-nos conta de que esse era o pensamento dos nossos
antepassados, o pensamento real de reconhecer a importância que a
mulher tinha e tem dentro da Tradição. Para nós, há medicinas que
são reconhecidas pela nossa gente como medicinas femininas, e que
têm a mesma importância que as masculinas.
Dentro desse trabalho que fazemos, a cerimônia da temazcal é o
ventre da Mãe Terra. Também tem os dois elementos, e, além disso, aos
anciões que testemunharam a vida do Fogo Sagrado e da Mãe Terra

56
Uma Voz para os Filhos da Terra

no altar que está no meio e é a unidade do homem e da mulher e que


é a concepção da vida que agora temos. Aí começa a espiritualidade
como par.
É dito que há um tempo se gerava vida dentro das temazcais
e a pessoa que realizava o parto era uma mulher, assim como quem
conduzia toda a cerimônia de nascimento. A mãe da mãe que
estava parindo esperava na frente da porta para receber a criatura.
Atualmente, em poucos lugares essa cerimônia é realizada dessa
maneira. Essa era a primeira benção que a criança recebia, então era
levada imediatamente, da avó até a bisavó, e, dessa maneira, a criatura
recebia uma benção dupla.
Da bisavó era levada até a tataravó e, dela, novamente à mãe,
dessa forma, ela recebia quatro bênçãos na hora do nascimento.
Essa era a cerimônia mais sagrada pela qual passava o ser quando
vinha ao mundo.
Nos nossos dias, se contamos com uma avó no momento em
que nascemos, já é muito, pois muitos de nós nem sequer chegamos a
conhecer os nossos avós. Hoje não contamos com essas bênçãos, que
estão guardadas apenas na memória. Podemos contar nos dedos as
pessoas que ainda têm uma tataravó. Esse é o desenho de uma entre
tantas e tantas cerimônias que são representadas por mulheres.
A Terra representa a mulher; à noite temos a Lua que também
representa a mulher e que, para muitos de nossos antepassados, é
uma mãe ou uma irmã que vela por nós no céu. Há uma cerimônia
da Lua e outra da Terra.
Dessa maneira, há tantas cerimônias dedicadas à mulher que, se
a mulher assume a responsabilidade de seu papel tal e como a corres-
ponde dentro da Tradição, estaria ocupada com cerimônias durante
toda sua vida.
A mulher, assim como o homem, tem um lugar especial e um
papel importantíssimo em todas as cerimônias. É importante ser par,
poder trocar e sustentar o propósito pelo qual se levou a cabo toda a
relação espiritual.

57
Aurelio Díaz Tekpankalli

É dito que o tipi é uma mulher que abraça completamente a


todos que estão dentro, que nos cobre com seu manto, com sua saia, e
que nos dá asilo. As pontas dos paus são o cabelo dessa mulher e essa
é a extensão do espírito.
Encontramos, então, que a identidade dessa casa é feminina.
É um templo: sua base e sua estrutura são femininas, e o Fogo e o vô
Peiotee, que estão no centro, são masculinos. Tudo se combina em
um só ser. Dentro de tudo há um equilíbrio. Diz-se que o lado direito
representa a mulher e, o lado esquerdo, o homem. Isso é, nas divisões
do desenho desse espaço, mas fora delas se diz o contrário: que o lado
esquerdo representa a mulher e, o direito, o homem. Por que em um
lado é de uma maneira e, de outro, de outra? Porque são pares que
se combinam para sustentar a forma de vida, que é somente uma. É
bem fácil. Assim foi desenhado, assim foi criado.
Tudo o que está dentro do tempo possui a dualidade.
Por exemplo, diz-se que a folha de milho, que utilizamos, é
uma mulher, e o tabaco que colocamos dentro dela somos todos nós,
todas as criaturas. Quando se enrola o cigarro, é a mulher que está
nos abraçando em seu interior. A presença do homem aparece com
o fogo que acende. Então, o fumo do tabaco e a folha de milho são a
conexão com o Grande Espírito. Diz-se que a mulher é o ser que deu
asilo a todos os habitantes da Terra, que é o ser mais generoso que há.
Poderíamos dizer muito mais sobre a mulher, mas vamos esperar
que alguém, algum dia, tenha a inspiração, a visão de o fazer. Eu posso
dizer que é bem-vinda e que estamos dispostos a repassar, renovar
todos os conceitos e os utilizar da melhor maneira para o benefício de
toda a nossa família. Buscamos uma identidade que honre a mulher.
Da minha parte, há esse compromisso.

58
Uma Voz para os Filhos da Terra

A Busca da Visão

É
importante que, em algum momento, imploremos por uma
visão. Que vamos à cúspide do Universo, a uma montanha
onde encontraremos o ninho do condor e da águia. Uma
montanha onde encontraremos a presença de nossos antepassados
no encontro consigo mesmo.
A Busca da Visão é um momento da vida onde nos encontramos
nascendo no ventre da Mãe Terra, de alguma maneira, no umbigo
da Mãe Terra. Nós tratamos de construir esse espaço para levar a
nossa gente para que conheça, para queencontre a si mesma ante à
Natureza, ante à presença do sagrado. Que possa abrir os olhos muito
cedo, pela manhã, quando o Sol estiver saindo, e viver o momento
da iluminação na Terra pela Natureza mesma da criação, o Sol. E de
alguma maneira, também o entardecer, o Mistério que existe, estar
à intempérie, onde se encontram as estrelas durante toda a noite,
e que possamos nos dar conta de que sua presença é tão clara, tão
direta. Lá onde podemos respirar e sentir a própria presençado
Grande Espírito. Pensamos que o Grande Espírito veio à nós através
do primeiro suspiro, da primeira memória que temos de quando
respiramos. E cremos que isso está em sintonia ao momento em que
começamos cedinho, pela manhã. Durante toda a noite estamos nos
formando e, ao abrir os olhos, pela manhã, quando se respira o ar
fresco, é um momento muito especial, assim quando saímos do ventre
da nossa mãe e respiramos pela primeira vez.
Estamos, então, vivendo nesse momento, que é muito sagrado
e no qual se sente a presença do Grande Espírito através de todos os
insetos, através de todas as formas que existem na montanha, espe-
cialmente, às vezes, no canto da uma ave, ou na presença da chuva.
Damo-nos conta de que lá está o Grande Espírito, que isso é o que
vamos fazer lá, ao nos encontrarmos com o mesmo, ao conhecer esse
ser tão sagrado, a esse ser tão especial que somos nós mesmos; que é,

59
Aurelio Díaz Tekpankalli

de alguma maneira, tudo o que nos rodeia. Damo-nos conta de quem


é esse ser que habita dentro de nós mesmos, que habita dentro de
todas as coisas. A presença da árvore, a presença das aves, de todos
os seres, de todas as plantas tal e como são, e que ali se encontra
guardado todo o Mistério, a própria presença.
Na Busca da Visão, vamos ao Templo de nossos Antepassados
tal e como eles o faziam. Por isso, temos o propósito de trazer o nosso
povo, para que conheça. Nós cremos que o Grande Espírito está em
todas as partes, em todos os lugares; mas nossa preferência, nosso
próprio gosto, é encontrá-lo na Montanha, na Natureza.
Respeitamos as pessoas que vão ao encontro da presença do
Grande Espírito, inclusive, nos livros, nos Templos que foram cons-
truídos, ou em qualquer outro lugar, porque claro que cremos e assim
é como o sabemos; mas nós preferimos encontrá-lo diretamente.
Se somosde capazes abrir os olhos, de darmos conta de que
estamos na frente d’Ele, que o mesmo está presente através de nós
e que nós mesmos estamos presenciando através de sua própria
presença, damo-nos conta de que tudo que existe é assim, claro, que
estamos cara-a-cara com Ele.
Se eu me curvo diante dEle, Ele se curva diante de mim; se
eu sorrio ante Ele, Ele sorri para mim. Se o olho com felicidade,
Ele me olha com felicidade; se me queixo ou me lamento, também
Ele está se queixando e lamentando diante de mim. Como quisesse
me apresentar diante dEle, é como Ele é diante de mim, porque se
encontra dentro de nós, como nós nos encontramos dentro dEle.
Essa é a verdade, essa é a forma de entender o que é o encon-
trar-se a si mesmo ali, na Montanha. Nós, lá, encontramo-nos sendo
o próprio Mistério, sendo a lenda, a história que transmitiram nossos
antepassados e da qual agora nós somos parte. Nós somos o mito.
Nós somos tudo o que queremos crer que somos, tudo o que cremos
que somos. Uma coisa é como gostaríamos de ser, outra é como nos
vemos. E outra coisa é como realmente somos. Colocando todas essas
coisas juntas, algumas pessoas dizem que somos uma mentira, que

60
Uma Voz para os Filhos da Terra

somos um conto inventado e nada mais, ou que é tudo uma farsa,


um teatro. Dessa maneira, nós gostamos de atuar. Assim gostamos de
ser. Queremos ser um bom teatro, um teatro que se encontre diante
os atores reais e verdadeiros que existem na Terra, e não não diante
de um cenário de mau gosto. Nós queremos recriar nossa vida com
coisas diretas, como sentir o calor, a noite, o dia. Sentir a chuva, sentir
tudo o que nos rodeia de uma forma vívida, verdadeira. Com isso,
o que estamos dizendo é que aqui estamos esperando, aqui estamos
buscando, que aqui estamos nos encontrando, que aqui estamos
realizando a expansão do espírito e da consciência.
Somos homens, mulheres, crianças, anciãos, tratando de viver
verdadeiramente, tratando de estarmos verdadeiramente relaciona-
dos com nosso passado, com nossa memória, com nosso presente,
com nosso futuro. Queremos nos unir e ser capazes de ser tal e como
corresponde ser ante o Céu e a Terra, somente um em relação a
todas as relações que temos; em relação ao estar conscientes de que
todos somos um e de que todos somos parte do todo, e que, dessa
maneira, tudo cabe dentro de nós e nós cabemos dentro de todas as
coisas. Então somos, de alguma maneira, a família que vem desde seu
estado natural de ser, de seu estado silvestre, de seu estado original
de relação. Sim, nós somos os que enviam uma voz, os que rezam à
quatro direções, ao Céu e à Terra, os que põem os rezos de todos os
dias do ano, somos aqueles que desembaraçam nossas vidas. Somos
os que estão colocando uma ordem, uma perspectiva, de tal maneira
que colocamos um sonho, uma visão, que imploramos por uma visão
em cada amarrado de tabaco, esperando que dentro do Mistério se
encontre um rezo neste dia, neste tempo em que estamos vivendo.
Estamos vivendo, e tomando a ordem de como viver nossa
vida de acordo ao que pensamos viver, ao que desejamos viver, ao
que estamos vivendo no momento em que estamos vivendo. É bem
importante levar em conta esse momento, porque esse momento é
como nós estamos introduzindo as coisas dentro de nós. De poder ver
uma e outra vez, talvez e como o queremos ter. Encontramos todas
aquelas partes que, na realidade, não servem para nada, como, por

61
Aurelio Díaz Tekpankalli

exemplo, o medo do que fazer com nossa vida, o que fazer com a
verdade que estamos vivendo, que fazer com o peso de tantas coisas
desnecessárias, como, por exemplo, a preocupação em viver diaria-
mente, da dúvida diária, da consequência dos bens adquiridos em
nossa vida, como propriedades, móveis, coisas que nem sequer têm
uma verdade dentro de nós. E que, mais que nada, são uma cone-
xão dentro de nós. É por essa razão que estamos preocupados se
realmente vamos realizar, através de tudo isso, o propósito da nossa
vida, e, então, percebemos que estamos preocupados com nossa conta
no banco, ou com coisas que fazem parte da nossa maneira de ser.
Aqui é onde nos damos conta de que, na verdade, o pássaro não
necessita de nada, que, na verdade, os animais da Montanha não se
movem com nenhuma dessas coisas, que tomam tudo o que há, tudo
o que existe, em uma forma real e direta. Que quando constroem
algo em uma árvore, por exemplo, não se apropriam, não tomam
posse, e vivem em harmonia e equilíbrio com tudo.
Isso é o que estamos recuperando aqui, voltar a construir em
harmonia com a natureza, a construir de acordo com a natureza do
lugar, com a natureza do próprio ser natural que há dentro de nós.
Recorda de como fizeram nossos antepassados no Machu Picchu,
ou em lugares antigos onde dá pra ver claramente que eles foram e
se uniram ao espírito da montanha, se uniram ao espírito do lugar
e, dessa maneira, criaram uma relação em que em nada alteram a
Natureza.
Isso é importante para que tenhamos harmonia, então é o
que buscamos na montanha: como voltar à forma natural de ser, à
forma silvestre.
A Busca da visão é um dos primeiros ensinamentos que che-
garam a nós.
No princípio da nossa vida, por uma inclinação natural, entre-
gamo-nos à busca da verdade, à busca de tudo o que ignoramos, com
o simples propósito de melhorar nossa relação com o meio ambiente,
com nossa família, com nós mesmos.

62
Uma Voz para os Filhos da Terra

É tanto o que se ignora, que fomos aprender e então nos demos


conta de que, se silenciássemos, poderíamos escutar. E lá estava um
dos primeiros ensinamentos que chegaram: ter atenção. Se temos
atenção, além de escutar, pela simples natureza de guardar silêncio,
podemos compreender e podemos nos compreender, podemos ter
o benefício de saber e, sabendo o que ignoramos, em alguma parte,
podemos fazer algo: podemos assumir uma responsabilidade, se é
que somos verdadeiros em nossos interesse em compreender e não
pelo simples feito de saber por saber.
Nossa gente se deu conta de que isso era importante para o cres-
cimento real e verdadeiro da relação do ser humano com a Natureza.
Nesse mesmo desenho, no princípio do Tempo, milhares de
anos atrás, decidiu-se que os guias do povo, os líderes, aqueles que
tinham a inclinação, por natureza, de serem servidores do povo,
jejuariam, se absteriam e seriam pares homens e mulheres para sus-
tentar a forma de vida. Está nos ensinamentos escritos há milhares
de anos. Então se deram a Busca da Visão.
No princípio da história, homens e mulheres foram em busca do
conhecimento do espírito. Eles sentiram em seu coração que encon-
trariam o pico mais alto da Terra e não lhes importou se a montanha
era feminina ou masculina, pois são igualmente sagradas. Subiam e
colocavam, de forma sagrada, a estudar, a analisar. Na antiguidade
foram feitos centros sagrados exclusivos e especiais para a Busca da
Visão. Talvez não se chamasse assim, talvez fosse, simplesmente, para
observação, ou talvez fosse para aprender a ficar calado e deixar de
lado todas as baboseiras que tinham na mente para poderem real-
mente aprender.
No princípio da Busca da Visão, nossos antepassados se deram
conta da importância da relação que é a observação, que é o poder de
escutar e ter um bom propósito. Por isso, desenhou-se no amarrado
do tabaco aquilo que está incluso no propósito da pessoa: a since-
ridade, a humildade, a integridade, a disponibilidade e a vontade.
Assim foi transmitido.

63
Aurelio Díaz Tekpankalli

Eu o recebi com um desenho ascendente de quatro anos e na


forma de compromisso: quatro dias no primeiro ano, sete no segundo,
nove no terceiro e treze no quarto. O compromisso é, simplesmente,
para provar a sinceridade, a intenção, a seriedade e quão verdadeiro
é o desejo do indivíduo de se comprometer com os ensinamentos do
espírito. É um desenho para sacudir e lograr que somente se apro-
ximem as pessoas dispostas, verdadeiramente, a serem melhores; e
evitar que o façam aqueles que são somente curiosos.
Quando se cumprem os quatro anos, está bem claro que o
compromisso é para toda a vida.
Para a Busca da Visão, realizam-se trezentos e sessenta e cinco
rezos que são os que pedimos para que estejam representados todos
os dias do ano. Alguns o fazem diferente; nós temos tomado esse
desenho baseado em nossa própria maneira de ver a vida, de nos
comprometermos com a vida, de ter um pensamento para cada dia
do ano.
A Busca da Visão vai entrelaçar a própria vida na relação com
tudo que a rodeia. Algumas pessoas irão identificar que é aquilo que
tanto as chama, que é aquilo que tanto as interessa.
Também irá ter atenção, por essa razão, aprendemos a impor-
tância de fazer silêncio. A importância de dar sua palavra, de estar ali,
verdadeiramente, com um propósito, e, mais que nada, conduzidos
por uma pessoa que já passou por ali antes, que sabe como é esse
caminho. Assim nos foi entregado e assim o tomamos.
A Busca da Visão nos permite encarar as quatro direções du-
rante o compromisso dos quatro anos. Uma direção para cada ano.
Esse desenho possibilita ao indivíduo ver como se fecha o círculo,
encontrar respostas para suas perguntas, entregar-se na montanha,
entregar sua vida, deitar sua vida, colocá-la para que o ensinamento
desça sobre ele e o espírito da montanha penetre em seu interior,
para que algum dia esse espírito possa sair dele e vir até nosso povo.
O buscador, a buscadora, estão mandando uma voz às quatro
direções, estão dizendo:

64
Uma Voz para os Filhos da Terra

- Auxílio, socorro. Quero ajuda, quero instruções, que-


ro saber o que fazer com essa vida, quero dar um bom
uso a minha existência, quero ser uma boa pessoa,
quero caminhar de uma boa maneira.
O ser que vai em Busca da Visão é um ser que ama, e que
está ali para acrescentar suas formas de amar, e poder transmitir o
carinho, o amor que o entregaram o Pai Sol e a Mãe Terra, o ar e a
água. Durante o dia e durante a noite, está em alerta total, tratando
de ampliar sua percepção e de receber a instrução tão consciente-
mente quanto puder. Um buscador de visão é aquele que abre um
espaço dentro de si mesmo, deixando irem embora aquelas coisas
que já conhece bem e que não valem a pena, e substituindo por coisas
melhores que realmente valem a pena. A Busca da Visão consiste em
se adentrar no mistério e permitir que o mistério se adentre em nós.
É desembaraçar a própria vida, dar a ela uma perspectiva, um
alinhamento, e colocá-la frente a nós. Isso está representado pelos
amarrados de tabaco que rodeiam o buscador quando está plantado
na montanha. Ele deve compreender que tem que confeccionar cada
um desses amarrados consciente e solidamente com um propósito,
tal como podemos tê-lo em todos os dias de nossas vidas. É bem
importante estar frente a nós mesmos.
A Busca da Visão é nos encontramos e reativarmos tudo aquilo
que temos guardado em nosso interior para poder utilizá-lo de ma-
neira que nos permita tomar o controle de nosso destino, de nossa
existência, de toda a potencialidade que há dentro de nós.
A Busca da Visão permite redescobrir a unidade entre o Céu,
a Terra, e nós; compreender os ensinamentos que estão tanto no
Céu quando na Terra.
É abrir uma porta em nosso coração pela qual tudo possa en-
trar; todo o mistério que existe pode se realizar em nós mesmos, e,
dessa maneira, alcançar a unidade total.
Esse é o propósito com o qual nós decidimos entregar a custódia
de um instrumento sagrado, a Pipa, àqueles que se comprometem

65
Aurelio Díaz Tekpankalli

com a Tradição, pois sabemos que são pessoas que têm tentado e se
têm provado a si mesmas sua verdadeira intenção.
Quando levamos alguém em busca de um lugar na montanha,
dizemos o que estamos plantando, mas, na verdade, estamos enter-
rando, pois queremos que esse ser nasça de novo com a capacidade
de ser real, verdadeiro, de se entregar sinceramente ao povo e de
fazer coisas novas e belas. Nós fazemos um quadradinho como se
fosse uma tumba e colocamos rezos ao seu redor, esperando que o
Sol o fortaleça a cada dia e dê perspectiva à sua vida, esperando que
a noite o temple e o permita acabar com todas as suas dúvidas, que
prove a sua vontade e desfaça temores e fraquezas. Que tenha tal
força, que nem o brilho da claridade o deslumbre. Essa é a intenção
quando uma pessoa empreende o caminho da Busca da Visão, que é
uma visão dos nossos antepassados. Ele prepararam alguns lugares,
com sua própria energia, para esses propósitos. Agora, nós estamos
fazendo o mesmo. Os quatro dias do primeiro ano são para gravar o
primeiro ensinamento do espírito, para escalar, ao menos, as saias da
montanha. Os sete dias do segundo ano permitem chegar à metade
da montanha. Quando se chega ao terceiro ano, o de nove dias, é a
terceira folha e é, na verdade, estar no topo da montanha recebendo
as instruções tal como devem ser. Ao chegar aos treze dias, no quarto
ano, é que o Grande Espírito já o está abençoando para que desça da
montanha com as instruções para seu povo. São quatro folhas deve-
-se registrar, mas, na verdade, são quatro partes de nosso ser: os pés,
que são a humildade, o umbigo, que é a integridade, o coração, que
é a sinceridade, e a cabeça, que é a vontade.
Esses são os ensinamentos da Busca da Visão: unir as quatro
partes de um ser em um desenho, em um ciclo de quatro anos.
É importante que o indivíduo entenda que tem que estar dis-
posto a se transformar por inteiro, a deixar de ser, para poder ser.
Então, um de seus primeiros ensinamentos é apagar toda a história
para poder escrever a história real e verdadeira.
Cremos que, no futuro, como o estamos levando continua-
mente, haverá buscadores de visão que chegarão ao mesmo lugar

66
Uma Voz para os Filhos da Terra

em que outros buscadores estiveram antes e que a energia, ou o eco


da compreensão tida ali, os transmitirá o ensinamento.
Atualmente, podemos dizer que a Busca da Visão existe soli-
damente na Terra do México, que sua base está aqui novamente e é
para a perpetuação da Tradição. O buscador de visão, na atualidade,
enfrenta muitos problemas porque nos encontramos em uma situação
em que tudo foi mudado. Nós estamos começando a trabalhar sobre
tudo isso. Cremos que, em pouco tempo, teremos um conselho que
deve ser criado por aqueles que vivem a Tradição da Busca da Visão,
não podendo participar quem não o tenha vivido. Há muitas coisas
que se esperam, que irão se entregando segundo se vai desenhando.
Entendemos que isso é muito bom para todo nosso povo e que vale
a pena provar sua vontade, sinceridade, integridade e humildade.
Esse desenho será para seres sãos, com capacidade de dar
sempre o melhor de si, de se atentarem a tudo e também de serem
capazes de não restar nada, senão de somar tudo, sustentá-lo nas
mãos e poder ver a verdade tal e como é. Essas pessoas poderão
compreender a real situação na qual nos encontramos e como dar
melhores passos, porque foram capazes de usar o tempo para fazê-lo
bem, pois somente quando se faz as coisas com consciência e com o
ânimo de saber o que se está fazendo, sem pressa, é quando se faz
bem. Toda essa gente é gente nova que está nascendo nesse tempo.
Esse é um novo caminho ainda que seja um antigo caminho que tem
suas origens no princípio da Tradição.
Na Busca da Visão, então, nós buscamos nos fortalecer e am-
pliar a relação com o Pai Sol, a Mãe Terra, com todos dos espíritos
e todos os mistérios que existem, pois estamos invocando a quem
escuta, que nos atenda e nos ajude. Invoca-se que quem tem esse
conhecimento o transmita, o compartilhe; que não seja possessivo com
algo que a todos pertence. Esse é o espírito dos buscadores de visão.
Consideramos que a água é sagrada. Somente podemos apre-
ciar seu valor quando vamos ao mais profundo dos limites, às reservas
daquilo que nos passa despercebido.

67
Aurelio Díaz Tekpankalli

Para podermos entender o sagrado e o vital da água, o de-


senho da Busca da Visão pede que nos abstenhamos de bebê-la
para provarmos, assim, a vontade, a sinceridade, a integridade e a
humildade. A água é o líquido vital e sagrado da vida, é abundante
sobre a Terra e, entretanto, temos a degradado e contaminado. É
uma das primeiras medicinas que existem no ambiente onde nas-
cemos. Todos os seres nascem do líquido sagrado da vida, então é o
mistério. Abster-se desse líquido é realmente aprender que nós não
somos imortais, é confrontar algo que devemos fazê-lo pelo menos
uma vez na vida: ter sede. E não beber, não porque não há água,
mas sim porque decidimos apreciar a importância desse líquido e
cuidar dele. A Busca da Visão tem a prova da sede, a prova da fome,
a prova da solidão, a prova do medo e, a prova mais importante, é
a da claridade, do deslumbre de que quando tudo se vê sobre nós, a
sede, a fome, a solidão, é quando temos que recordar de toda a ajuda
que recebemos na vida: o ar que respiramos, a água que bebemos, e
que entender é uma coisa, mas integrar é outra. Então, é importante
compreender que o milagre do qual somos parte está dividido em
quatro elementos vitais: o calor da vida, o corpo, o ar e a água, que
sustentam essa vida que temos agora.
Uma das principais provas é a da água. Em algum momento,
deveria-se ir ao lugar onde está plantada a pessoa e derramar uma
bandeja de água em sua presença para que possa se dar conta do
quão sagrada; mas nossa gente perdeu muita de sua vontade, perdeu
muita de sua força e, por isso, não o fazemos, podia fazer-nos mal. A
água é bem sagrada para nós, se não a damos seu lugar, então, qual
é o ensinamento? Por isso aprendemos a nos dar conta de quando
necessitamos dela e, assim, reconhecê-la sempre e tê-la em seu lugar
correto.
A Busca da Visão nos permite compreender o mistério, sua
infinita forma e maneira de ser, da qual nós somos parte.
Lembro da experiência pessoal da minha primeira busca de
visão, em 1982, na qual tinha uma pergunta especial: como utilizar
esse instrumento sagrado, como utilizar essa Pipa. Meu coração ti-

68
Uma Voz para os Filhos da Terra

nha a grande necessidade de saber, por instrução direta do Grande


Espírito, que era a maneira correta de utilizar um instrumento tão
sagrado. Recordo que a primeira experiência foi me encontrar comigo
mesmo em um espaço reduzido no qual nos encontramos com tudo
ao mesmo tempo, sozinhos. Encontrei-me com o mistério de que essa
solidão é uma companhia real e verdadeira e que é a única que nos
pode dar sobriedade e sanidade. É uma solidão real, uma solidão
que me deu a consciência de saber que, embora esteja acompanhado,
sempre estou solitário no destino que me foi entregue no princípio
da vida. A compreensão disso é uma responsabilidade importante
quando nos encaramos a nós mesmos e entramos no mais profundo
das verdades que guardamos. Ali se encontram aquelas coisas que são
parte de nós, mas que são inúteis, que não funcionam e não servem
nada mais que para mal usar a energia. Ali aparece o ensinamento
da busca da visão.
Depois da solidão, aproximam-se o temor, a dúvida, a dor cau-
sada pela memória das coisas que nos sucederam na vida e deixaram
uma marca de tristeza. Nós nos damos conta de que a tristeza sacode
o ser porque é a recordação de tudo aquilo que não foi possível fazer,
da rejeição de alguns seres, da partida daqueles que já não estão co-
nosco. Aqui nos damos conta de que essa tristeza é desnecessária, e
que temos que deixar irem essas recordações que escravizam, sacodem
e nos fazem gastar energia sem nenhum sentido.
Quando nos encontramos frente à tristeza causada pela per-
da de um ser querido, pela impotência de não sermos aquilo que
queremos ser, ou de não alcançar aquilo que queremos alcançar, ou
de nos realizarmos, ou de nos sentirmos acompanhados por aquela
pessoa que gostaríamos de ter ao nosso lado, damo-nos conta de que
a única certeza que há na vida é a sanidade, a sobriedade com que nós
vivemos. Como vou viver daqui em diante, como realmente quero
ser. Essa é a oportunidade para acomodar e reacomodar aquilo que
ocorreu através do tempo.
Lembro-me claramente que, estando na minha busca da visão,
pedi ajuda, e foi tamanha a minha insistência, que um animal se

69
Aurelio Díaz Tekpankalli

aproximou de mim, o primeiro que me dei conta, conscientemente,


de que estava ali, era um peru selvagem que aqui conhecemos como
guajolote. Aproximava-se e dava voltas ao redor da pracinha em que
eu estava, e seu canto dizia:
- Gordo, gordo, gordo.

Isso me incomodava muito porque era a primeira vez que


escutava o som desse tipo de ave, e escutar “Gordo, gordo, gordo”
não me caía nada bem, pois não sabia se era seu canto natural ou se
dirigia-se a mim. Lembro que disse a esse animalzinho que entrava
na praça e que me deixaria gordo com o banquete que ia fazer com
ele. Nesse momento, tal era minha situação e minha fome, que não
pensei que esse animalzinho era um visitante, era um transmissor
de conhecimento. Era meu irmão. Foi uma tentação grande, e passei
muito tempo gastando energia desnecessariamente, até que, por fim,
compreendi. Quando o reconheci como irmão, ele voou, foi-se, e eu
senti ele havia me visto e me havia deixado algo.
O segundo animal que me apareceu na Busca da Visão foi
uma cascavel. Lembro que estava rezando com a Pipa quando a vi
e, imediatamente, soube que era minha irmã. Disse-a:
- É verdade que você sabe quem eu sou, é verdade que você
sabe que eu estou rezando aqui? É verdade que você sabe
que não pode se meter aqui, porque se se meter, eu terei que
sair correndo desse lugar, pois temo muito uma picada sua.

Dei-me conta da minha realidade, da minha capacidade de


ver convenientemente as coisas. A serpente, ante a qual me senti em
desvantagem, foi minha parceira imediatamente. Dei-a o crédito de
que entenderia o que estava acontecendo, senti-me pequeno diante
dela e receei com sinceridade, agradecendo-a sua visita e a pedindo
que não se metesse. Dava-me conta de que não a comeria, pois nem
sequer tinha poder para ganhar se houvesse uma luta física com ela.
Olhou-me por um bom tempo, transmitiu-me ensinamentos com sua

70
Uma Voz para os Filhos da Terra

língua, com seu som de cascavel, e, depois de um tempo de rezos


sinceros e reais, empreendeu sua viagem. Também vi falcões, caudas
vermelhas e outras aves.
Por fim, tive uma revelação nessa primeira Busca da Visão, creio
que desmaiei ou acabei dormindo. E tive uma visão em que vi a Terra
toda incendiada, com fogo. Perguntava-me o que havia acontecido,
se era o fim do mundo. Vi à minha frente um ser querido, que era
meu tio David, que já havia morrido. Perguntei a ele:
- Tio, o que você faz aqui?

E ele respondia, perguntando-me o que eu fazia ali. Foram tais


meu susto e minha impressão, que pensei:
- Nossa, será que eu morri?

Encontrar-se com um ser que pergunta isso é uma sacudida


total na memória de quem se é e de onde se encontra. Lembro que
o contestei que estava rezando com uma Pipa, pedindo ajuda, e que,
de repente, ele apareceu. Também disse que havia escutado, antes
de vê-lo, uma voz pedindo auxílio, socorro, em espanhol, senti-me
indignado, mas lembrava que ninguém falava espanhol, então como
poderiam gritar por auxílio e socorro? E também gritavam em inglês,
isso era o mais cômico. Eu escutava em inglês e em espanhol.
Lembro que meu tio me disse:
- Coloque mais atenção ao que você ouve, ao que você vê, e
se dará conta de que é o que é.

Dei-me conta, então, de que eu estive rezando com a Pipa Sa-


grada pedindo ajuda. E, na verdade, pedia auxílio, socorro, a todos
os espíritos. Era eu o que falava na montanha. Ver-me fazendo isso
fez eu me dar conta de que era uma visão muito mais ampla do que
eu havia imaginado: não era somente ver o externo, mas ver a mim
mesmo e me compreender. Agradeci muito por ter podido me escutar

71
Aurelio Díaz Tekpankalli

e saber que isso era real e verdadeiro. Também senti que tinha que
estar alerta, que não podia processar rapidamente os pensamentos
que se tem na Busca da Visão. Concentrei-me ao mundo com minha
própria visão e me dei conta disso.
Disse ao meu tio:
- É que estou sozinho.
- Todos estamos sozinhos -disse-me ele- mas podemos nos unir.

Também me deu conta de que vi o fogo na Terra, era de pes-


soas que estavam incendiadas e que eram parte de alguns indivíduos
que buscavam a outros iguais a eles. Nesse momento me dei conta
de que eu também estava incendiado com o fogo e que o fogo era o
futuro, a esperança, a unidade. Assim recebi a visão desse trabalho
que estamos fazendo: sair ao encontro de todos os meus irmãos que
estão espalhados pela Terra com um propósito semelhante. O ensi-
namento que recebi na montanha, para mim, é importante, por isso
considero que a Busca da VIsão é uma das coisas mais belas que há.
Lembro que estava sentado com a Pipa, meditando sobre tudo
isso que havia visto e observado, quando, de repente, encontrei-me
rodeado de dezenas de pessoas. Não soube se eram reais ou não. De
um salto, caí parado, com o coração palpitando. Não sabia o que fazer,
senão lutar por minha vida e correr. Nesse momento, um deles falou:
- Aurelio, está tudo bem, você terminou a sua Busca da Visão,
viemos por você.

Então me dei conta de que eram meus irmãos. Não sabia onde
estava, nem como eles haviam chegado, mas compreendi quão pro-
funda, imensa e ampla é a Busca da Visão.
Essa lembrança ficou guardada como um tesouro em meu co-
ração, sempre está ali, como ensinamento direto do Grande Espírito
àqueles que o buscam. Por isso eu me entreguei ao trabalho da mon-
tanha, porque é um trabalho real e verdadeiro onde nos conectamos
com a verdade de forma direta e própria. Temos desenhado essa

72
Uma Voz para os Filhos da Terra

forma para todo o povo, é uma boa forma. Essa Tradição deve con-
tinuar, é importante para todas as futuras gerações que não termine.
Há tantas coisas que se vivem na Busca da Visão… lembro,
também, na minha primeira busca, que fui à montanha sem nenhu-
ma cobertura. Cheguei ao lugar de cueca, que estavam húmidas
como se saísse de uma temazcal. Não tinha pensado no frio da noite
nem no calor do dia, mas somente em aprender a forma correta de
caminhar. Um companheiro preparou para mim uma cama com
sálvia que ele cortou. Senti-me tão contente ao ver uma caminha de
sálvia! Há tanto ensinamento em tudo isso, tudo é parte de uma visão.
Recordo que, debaixo das folhas de sálvia, encontrei Nopalesquando
me sentei, e recebi umas tremendas picadas. Deu-me tanta raiva da
pessoa que preparou a cama! Pensei que havia colocado, com toda
maldade, os pedacinhos de Nopal, tão pequenos e com espinhos tão
grandes como só se dá na Dakota do Sul. Peguei o Nopal da raiz e
o tirei fora do círculo. No terceiro dia, ao vê-lo ali, senti-me muito
mal comigo mesmo, pois compreendi que o Nopal era comida e eu
mesmo o havia jogado fora.
Nesse ensinamento, há que se levar tudo em conta, tudo é
importante e não se deve desperdiçar os presentes, as oportunida-
des que o Grande Espírito coloca ao nosso alcance, perto de nós,
com um propósito. Não podemos perder o controle, não devemos
nos incomodar ou ficar com raiva, pois isso faz com que percamos
a perspectiva. Todos os detalhes levam a um ensinamento, a uma
informação, na Busca da Visão. Há gente que leva anos para com-
preender. Às vezes, algumas pessoas entendem no dia seguinte, na
semana seguinte, ou no ano seguinte, mas chega o dia em que se
pode apreciar o ensinamento. Além da solidão, da tristeza, da fome e
da sede, chega a clareza. Temos que ter muito cuidado com ela, pois
podemos nos perder, crendo que compreendemos tudo. É necessário
estar constantemente em guarda para não cairmos como vítimas de
nossa própria visão. Há que se permanecer humilde, sincero, íntegro,
e com a maior vontade possível.

73
Aurelio Díaz Tekpankalli

Algumas mulheres deixaram de buscar a visão, não sei por


quê. Eu sei em meu coração que a Busca da Visão começou em par,
tanto para o homem quanto para a mulher. Não foi uma visão única
e exclusiva para o homem, sinal de que a visão é para todos os seres
da Terra. O pensamento deveria ser: “somos os buscadores da visão
universal sobre a Terra”. Algumas pessoas transmitiram o pensa-
mento, o espírito de nossos antepassados em pedacinhos pequenos,
e isso criou a impressão de que as coisas são diferentes. A visão não
tem limites, também é para as crianças e para os anciões. É para to-
dos aqueles que buscam. É uma das fontes mais importantes para se
reconectar com a memória, com o conhecimento mais antigo.
Para nós, a memória está baseada em um ensinamento antigo
que tem a ver com a reflexão, e a reflexão tem a ver com Texcatli-
pocatl, que é o espelho no qual nós nos vemos, nos encontramos.
É o Universo, são as estrelas, é a lua, é o infinito, é toda a exis-
tência que se tem sobre a Terra. É o espelho esfumaçado, o espelho
que tem o resplendor da vida: é a Pipa Sagrada, que somos nós, é
nossa própria vida. Ali está a fumaça que se eleva ao Grande Espírito,
essa é a memória da origem da vida, do Pai e da Mãe.
Assim é como nós recebemos a Pipa Sagrada na Tradição.
Texcatlipocatlquer dizer Pipa Sagrada. No desenho de nossos an-
tepassados, quando acendemos a Pipa, rezamos, inspiramo-nos e
somos capazes de nos ver através dela, estamos reativando a memória.
Podemos, com esse instrumento sagrado, conectarmos, reajustarmos a
nós mesmos, e darmos a perspectiva de nossa existência. É o espelho
aquele que tem todos os brilhos que existem dentro da escuridão da
obsidiana. No princípio, nossos antepassados utilizaram essa Pipa
para receber conselho e criar o homem e a mulher. Assim é como
nos foi explicado e assim é como agora nós fazemos a esse novos
homens, a essas novas mulheres, ali, na montanha, ante o Grande
Espírito. Eles mesmos se desenredam, para voltar a ter uma ordem,
uma perspectiva no entrelaçar da relação da vida.
Isso é parte da árvore da vida, a árvore que nós visitamos na
montanha e à qual dizemos:

74
Uma Voz para os Filhos da Terra

- Irmão, entregamos este ser a você para que o instrua; deixa-


mos sob sua custódia. O entregamos a você, que tem as raízes
profundas dentro da Terra; que tem o conhecimento que se
encontra nas entranhas da nossa Mãe; que está conectado
com o Grande Espírito através de suas antenas: os braços,
que estão firmes e parados sempre sobre a Terra, sem dar
nunca um passo para nenhum lado. É a testemunha e nos
dá sua beleza. A você encarregamos essa pessoa que vem
aqui para aprender.

Encontramos, dessa maneira, uma árvore na montanha. Ele


será um dos primeiros professores do buscador de visão, dará a ele
a sombra, dará a ele o ânimo. Há, também, outros espíritos vivendo
sobre seus ramos. O conhecimento de nossos antepassados disse que
quem conhece o espírito da árvore, conhece, na verdade, o espírito
da vida.
Quando se planta à pessoa, abre-se uma porta em direção à
saída do Sol e se marca o Oeste, por onde se põe o Sol. Assim encontra-
-se o Norte e o Sul. Coloca-se uma bandeira em cada direção e uma
para o Céu, uma para a Terra e uma para o povo, que, para nós, é
de cor roxa. Essas são coisas que nós temos recebido e nas quais cre-
mos. Diz-se que quem vai à montanha com o coração e pede sincera
e profundamente por uma visão, ela o será concedida. Temos que
ir dispostos a esperar a visão a cada instante, em cada minuto que
decorre na montanha. Estar sempre alerta, pois a manifestação do
Grande Espírito pode se dar através de uma formiguinha, de um
pássaro, da chuva, do ar. É tal o seu poder que pode nos transmitir, de
qualquer maneira e com toda clareza, o conhecimento que buscamos.
A Busca da Visão é o espaço ao qual vamos para desenterrar
tudo aquilo que nos corresponde através dos ciclos e para enterrar
tudo aquilo que já não nos corresponde através dos ciclos. É impor-
tante fazer isso com consciência, com vontade, com sinceridade, com
humildade, com integridade.

75
Aurelio Díaz Tekpankalli

Esses são os ensinamentos da montanha. Ali está o ser mais


humilde que existe sobre a Terra: o avozinho Peiotee, a planta sa-
grada. Nós caminhamos sobre ela, que se dobra e, atrás dos nossos
passos, se endireita. É ali que está o espírito mais real e verdadeiro
de todos os espíritos: o espírito do trabalho, o espírito constante de
estar funcionando, de estar alerta, de estar trabalhando dia e noite.
Esse é um dos ensinamentos mais profundos que encontramos na
montanha: a manifestação do esplendor e da intensidade do puro
entendimento. Isso é bem importante: o puro entendimento; sua
intensidade é o melhor estado em que alguém pode estar, é, então,
quando é possível se calar, deter todas as impressões que foram re-
cebidas e que causaram algum dano.
Nesse estado, pode-se dizer:
- Pelo que entendo, pela minha profunda conexão, hoje é o
momento de curar. Dou-me conta da situação em que vive-
mos: de apego a tantas coisas que consideramos importantes
e que, na verdade, são as que nos escravizam. Também dou-
-me conta de que a nossa própria imagem é o maior peso
que temos. Nos encontramos com o que está conectado com
tudo e que tudo está conectado conosco, não pode ser, então,
que nos apeguemos tanto a uma imagem que é passageira,
que não funciona e que não nos leva a lugar algum.

Sempre estamos em busca, pedindo sinais ao Grande Espí-


rito para ter a certeza de compreender corretamente o que está
ocorrendo. Os antepassados nos disseram que iria haver um tempo
nosso, novo. Um tempo onde nossa gente teria a oportunidade de se
unir novamente para compartilhar o conhecimento e as instruções
originais. Disseram-nos que algum dia tudo isso estaria desenhado
e alinhado tanto na Terra como no Céu, e que se sucederiam coisas
que nos permitiriam compreender que esse tempo havia chegado.
Nós nos damos conta dos acontecimentos que estão suceden-
do; escutamos no Norte, no Sul e em todas as partes, falar de que

76
Uma Voz para os Filhos da Terra

o retorno da sabedoria de nossos antepassados, chegou. A manifes-


tação do espírito, o sinal que se buscava, está sendo dada. Dizia-se
que algum dia o Búfalo Branco voltaria a caminhar sobre a Terra e
esse milagre se sucedeu em nossos dias: o Búfalo Branco hoje existe
e caminho sobre a Terra. Essa é a segurança, a certeza de que esse
é o nosso tempo.
Todos os povos têm um sinal, alguma manifestação do Gran-
de Espírito que os está indicando que é o Tempo. Nós nos damos
conta, depois de ter recorrido à Terra, que há muitos sinais. O que
parecia inimaginável e que se acreditava ser uma fantasia, que só
existe nas lendas, ocorre hoje: nosso Sol chegou e esse é o Tempo.
Está registrado na memória de todos os povos. Ressurgirá o espírito
de nossos antepassados e voltará a estar sobre a superfície da Terra.
Isso aconteceu e o que nos foi pedido para esperar já chegou. Foi-
-nos dito que um dia alguém traria as instruções do Céu nas mãos
e as compartilharia com todo o povo. Hoje olhamos o Céu e vemos
um fenômeno extraordinário: que a Terra está alinhada com o Sol,
com as estrelas, com a Lua. É o milagre constante da voz de nossos
antepassados. Nosso povo saiu da escuridão e entrou na luz.
Nossos antepassados prefetizaram que chegaria o tempo no
qual nosso povo se reuniria para analisar a informação que havia sido
guardada nos diferentes povos, e isso se sucedeu. Também disseram
que algum dia se voltaria a caminha em uma grande peregrinação
pela unidade de todos os povos, de toda a família do Continente.
Encontramo-nos vivendo esse momento.
Em 1993 iniciou-se a grande marcha das Jornadas de Paz e
Dignidade. Foi uma corrida continental cujas intenções eram: voltar
a caminhar com paz e dignidade, honrar aos antepassados, tomar
consciência da Natureza e seu delicado equilíbrio; transmitir a todos
os povos do Continente a mensagem de que era a hora de formar
um novo Conselho Continental que representará a voz de todos os
nativos dessa Terra.
Assim se formou o Conselho da Confederação do Condor e da
Águia. Está na memória de nossos antepassados que, no momento em

77
Aurelio Díaz Tekpankalli

que o Norte e o Sul se reuniram ao redor do Fogo Sagrado e a Meia


Lua formada pela representação do espírito de cada uma das nações,
seria o tempo do cumprimento das profecias. Nós, os descendentes
dos descendentes originais, seríamos a profecia. Foi dito que depois de
uma grande jornada, depois de uma caminhada desse tipo, acontece-
riam coisas belas, coisas novas, porque sempre depois de uma grande
caminhada se encontra a terra prometida. Todas essas coisas que se
sucederam permitem constatar e saber com segurança e com toda a
clareza que esse é o tempo que esperamos. Foi-nos indicado em todas
as partes que sonhamos, que vimos. Que voltam a levantar seu voo a
águia e o condor, que, para nós, são as aves que comandam o destino
de todos os espíritos da Terra. A águia e o condor estreitaram laços e
concordaram que o mais importante é a Tradição dos povos. Devemos
redesenhar e continuar essa relação que temos em comum. Tudo o
que aconteceu nos permite compreender que já não podemos mais
esperar. Estamos vivendo o momento que nossos avós sonharam e
viveram. Nós somos aqueles que eles esperavam. Toca-nos ser e viver
seu sonho. Estamos aqui trabalhando para nossos antepassados, para
que possam se sentir bem ao ver que seus filhos, os descendentes dos
descendentes, estamos agora em seu lugar para cumprir a missão da
unidade de todos os povos sobre a Terra. Foi dito que viria gente de
todas as partes, que se reuniriam e inspirariam para que isso tivesse
continuidade. Foi acordado que a cada quatro anos se realizaria uma
caminhada para manter a Tradição fresca e revivê-la.
Também foi dito a nós que, depois de sete gerações, as pessoas
voltariam a retomar o destino de seu povo. Nessa geração, que é a
sétima, estamos vivendo a profecia e os ensinamentos de nossos an-
tepassados. Eles disseram que essa geração seria a que voltaria por
mais sete gerações para ocupar seu lugar. Também está escrito que
viria gente de todos cantos da Terra, que criaria um Fogo Universal
para formar um conselho e unir toda a família mundial. A Terra
passaria de estar dividida em continentes, a estar unida, ser um só
espírito, uma unidade com todo o Universo. Esse seria o processo e o
meio para entender que todos, todos temos um só pai e uma só mãe.

78
Uma Voz para os Filhos da Terra

Assim voltaremos a nos reunir em casa, que é o seio da nossa Mãe


Terra, e sentir novamente a batida da relação real com a Natureza
Estamos invocando o mistério, as forças do Grande Espírito,
para que nos permitam continuar e ter um novo tempo aqui, sobre
a Terra.
A porta está aberta para todos. Seria muito bom que algum dia
possamos celebrar essa Tradição com a unidade de todos os filhos da
Terra. Uma família espera em um lugar sagrado, com o Fogo aceso
e uma Pipa para compartilhar com toda a Humanidade e todos os
seres da Terra.

AHO! METAKIASI OyASÍN.

Foto: Macchu Picchu. Perú.

79
Aurelio Díaz Tekpankalli

A Pipa* Sagrada

S
ão quatro anos nos quais vamos às quatro direções pedir
instruções sobre esse instrumento, onde vamos pedindo ins-
trução ao Grande Espírito. Ele é um maestro e nos ensina o
que representa isso. Existem pessoas que nos ajudam no caminho
e, esses que nos apoiam, até chegar à montanha, são os guias. Então
existem certas pessoas a que se chama pessoas de Medicina. Líderes,
de alguma maneira, advogados, patrocinadores ou padrinhos. Esse
líder dá o poder a essa pessoa, o poder é a cola da vida, o poder da
vida é a conexão com a Pipa.
E, neste presente, essa pessoa recebe a instrução. A Pipa Sa-
grada é como uma criatura, uma criança. A recebemos em nossas
mãos e a apresentamos às Quatro Direções; ao Céu, à Terra e ao
nosso Coração. Esse instrumento é carregado sempre em nosso lado
esquerdo, pois aí está o nosso coração. Isso não quer dizer que seja
a única forma.
Um Portador de Pipa, toma sua vida: a Pipa, apresenta as
Quatro Direções e reza com elas. Quando essa pessoa passa a Pipa à
outra, não implica que quem a recebe tem que apresentá-la às Quatro
Direções. Não deve-se imitar o que o outro faz com sua própria vida.
Um Portador de Pipa se apresenta ante ao Grande Espírito com sua
conexão com as Quatro Direções. Um bom Portador de Pipa, quando
a recebe, a reconhece, a reverencia, a agradece e reza com ela. Não
a apresenta às Quatro Direções.
Se você conhece essa pessoa e é alguém na vida dessa pessoa,
ou é um ancião, pode apresentá-la às Quatro Direções. É necessária
muita humildade para reconhecer que não é todo mundo que está
na posição de tomar qualquer instrumento sagrado e apresentá-lo
às Quatro Direções. Somente se existir uma alta conexão de relação
e de responsabilidade. É preciso ter um profundo cuidado, muito
carinho, muito amor, e fazer de forma discreta, se for necessário.

80
Uma Voz para os Filhos da Terra

É bem importante entender esse instrumento sagrado.


O respeito que lhe damos representa, na verdade, que estamos
aprendendo com ele.
Essa Pipa é o centro do círculo da Terra, do Universo, o centro
do lugar onde nós vivemos, da casa, o centro de nós mesmos. Se nós
pudermos compreender isso, então a reconheceremos como ela se
encontra: separada ou unida.
Quando a levantamos ao Pai e à Mãe, o que estamos fazendo
é bem simples. Primeiro de tudo, trazemos a presença do Grande
Espírito através da fumaça de uma planta sagrada. Passamos a Pipa
por ele quatro vezes.
Existem diversos estilos individuais, tudo o que eu digo se refere
a vocês mesmos, a como se apresentam ao Grande Espírito e qual é
a sua relação. Existem anciões que, quando a conectam, ao segurá-la
conectada, ali mesmo põem todos os rezos.
Essa Pipa representa o Grande Espírito, o mistério. Deve ser
portada por um indivíduo que está sempre disposto a dar o melhor
de si, a dar uma solução perante todas as situações. Se ele se encontra
preso, enrolado, atrapalhado ou envolvido em algum problema, deve
sair dali e buscar sempre a solução, a total harmonia, o espírito total
de paz. Essa Pipa é um homem e uma mulher, uma relação. Dentro
do nosso coração, dentro do caminho do Grande Espírito, é bem
importante como nós podemos ir e curar. Se, ao chegar a um lugar,
rezar com sua Pipa, tudo vai estar bem.
Quando chega a um lugar e se esquece que leva um instru-
mento sagrado, então coisas podem acontecer. É bem importante
saber que essa é uma chave para abrir todas as portas, contudo que
você a veja como tal.
Há momentos em que você só toma a Pipa em suas mãos e
oferece um tabaco à Terra, e já é o suficiente. Não é necessário que
sempre a esteja enchendo de tabaco. O que é, sim, necessário, é que
você porte em suas mãos a própria conexão com o Grande Espírito.

81
Aurelio Díaz Tekpankalli

Esse instrumento é algo que veio, de geração em geração, até


nós. Foi utilizado em conselho por nossos antepassados na América.
Assim foi em muitos povos que os tinham guardados dentro de sua
própria história.
No povo Lakota, foi recebida uma visita de um ser sagrado, a
Mulher-Búfalo-Branco, que trouxe uma Pipa sagrada e a entregou
ao povo. Lakota quer dizer “gente”.
Ela lhes entregou para que rezassem com ela. Disse-lhes que a
colocassem no centro do círculo da Dança do Sol e, que dessa forma,
iam sempre ter uma boa conexão. Isso realmente aconteceu e essa
Pipa existe até hoje.
A família LookingHorse é a guardiã dessa Pipa, não a exibe,
porém, em certos Círculos Sagrados, a pegam para rezar. Às vezes,
chamam todos que têm uma conexão com a Pipa sagrada para rezar
por um propósito.
De alguma maneira, essa Pipa (a de Aurélio), também está
aliada à pipa da família LookingHorse e com todas as Pipas anteriores
da família, do povo, do povo “da gente”, em Dakota do Sul.
Todos nós temos uma relação em conexão com os ensinamen-
tos originais. Por ela, havemos de ter claro que é esse o ensinamento
original. É dito que essa Pipa é para lembrar a forma de vida que
vamos deixar para nossos filhos, para lembrar o desejo de uma vida
boa entre os povos. É uma memória para que lembremos de rezar ao
nosso Pai e à nossa Mãe, ao Grande Espírito, para que recordemos
que tudo o que recebemos é através desse poder que temos e que
compartilharemos com todas as pessoas.
Assim é como isso significa à nossa família, para podermos
compartilhar esse bem que tanta falta nos faz. Há muitas maneiras de
se obter essas Pipa. Uma delas é através da Busca da Visão. Alguém
vai pedir à Montanha, colocar sua vida na Montanha, ao chegar a
um lugar onde possa se apresentar ao Grande Espírito e lhe dizer o
pouco que sabe e quanto necessita aprender para caminhar. É bem
simples, essa Pipa é um espírito que está ao nosso lado dando con-

82
Uma Voz para os Filhos da Terra

selhos e que, sempre que quisermos, podemos tê-lo frente-a-frente.


É um espírito em que, quando alguém põe o que é, está colocando
em si mesmo. É um espelho. Como a tratamos é como nos tratamos.
É também como mostramos o amor, o respeito pelas coisas que têm
chegado a nós de uma boa maneira.

***

Fala Virgínia, ex companheira de Aurélio:


A Pipa é muito sagrada. É um dos espíritos mais sagrados que
nós temos e do qual tem que se cuidar muito, muito bem.
Foi-me dito que se alguém coloca um pensamento ruim quan-
do está rezando, esse pensamento regressará a ele 10 vezes. O que
alguém coloca aí é muito importante. Por isso, se está mal, doente,
com ódio, é preciso se assegurar que tudo fique bem, que dê o me-
lhor, coloque os melhores rezos e o deposite aí. Como vocês cuidarem
da Pipa, é como o Grande Espírito vai cuidar de vocês. É como um
bebê. Se cuida dele com muito amor e muita ternura, as pessoas
perceberão. Há um mistério, é o mistério do Grande Espírito. Esses
rezos que colocamos aí se queimam, vão ao criador, e ele escuta. É
como uma antena, como o bastão sagrado da cerimônia. Quando
está falando com o coração, o Grande Espírito escuta muito bem. É
como se o som da sua voz fosse mil vezes mais forte. Por isso é bem
importante queimar todo o tabaco. Todos os rezos que depositaram
vão diretamente ao criador.
Há uma maneira de limpá-la e cuidar dela. É importante cui-
dar bem. Que não se tape, que esteja limpa e que não atrapalhe seus
rezos, que flua bem
Disseram-me o que um Portador de Pipa nunca diz:
- Olá, eu sou um Portador de Pipa.
Nunca se utiliza disso para dizer que é melhor, ou que está mais
perto de Deus. É preciso ser muito humilde e não ir anunciando-se
como um Portador de Pipa.

83
Aurelio Díaz Tekpankalli

Porém, sim, pode-se falar entre Portadores de Pipa, sempre


com muito cuidado.
Se você pede conselho com essa Pipa, ela vai aconselhá-lo. É
necessário ter muito cuidado com o que pede, porque ela sempre vai
responder, sendo possível que não seja como você quer.
Seja muito cuidadoso, não só com as palavras, senão também
com os pensamentos, porque eles viajam.
Quando alguém encontra-se doente, no sentido de que tem
algum rancor, algum ódio, é melhor que se se tome um pouco de
espaço e, assim, pode levantar a Pipa de uma boa maneira, ou mesmo
em qualquer cerimônia, por exemplo, um Temazcal.
Quando alguém entrega uma Pipa, deve deixar as instruções
de como manejá-la, de como se cuida. Disseram-me que a melhor
forma de receber instruções é com a Pipa, diante do fogo, em uma
Temazcal, em uma cerimônia de Medicina, pois é algo muito sagrado.
O ensinamento é tão grande, que se você pede que o ensine,
ele vai lhe ensinar. E se pede à Pipa que ensine como cuidá-la, como
utilizá-la, como rezá-la, ela vai lhe ensinar.

****

Continua Aurelio.
Depois de quatro anos de Busca da Visão, o de Dança do Sol, o
de Cerimônias com compromisso, nos damos ao povo. Esse ato tem a
ver bastante com o rezo da Pipa, com a conexão com o espírito de que
estamos trabalhando para o povo. Uma pessoa se torna um portador
de Pipa para ser um servidor da família, do povo. Uma pessoa vai em
busca de uma solução que beneficie um povo, uma comunidade, ou
um círculo familiar. Por isso existe esse desenho que pode ser seguido
para apoiar quem participa dessas cerimônias. Dentro desse círculo
de portadores de Pipa, vai sair alguém que vai mais além. Mas esse
círculo deve ser cuidado para poder apoiar essa pessoa.

84
Uma Voz para os Filhos da Terra

Foi selado um ciclo de Busca de Visão, e a forma de selá-lo bem


é através do Conselho do Círculo, que é formado por aqueles que
cumpriram com esse compromisso. Vão se agregando as pessoas que
vão cumprindo o compromisso, para manter, assim, uma estrutura
permanente que funcione.
Se um portador se retira do círculo sem se manter em contato,
sem informar, tem a obrigação, quando volta, de aprender tudo o
que há no círculo e ensinar tudo o que foi trazido de fora.
Para poder recuperar sua palavra, dentro do círculo, a primeira
coisa a se fazer é reconhecer o círculo. Dar tabaco e dizer:
- Quero informar que tem sido da minha vida nesse tempo
em que eu nada sabia de mim.
Se o que ele fez é benéfico e vale a pena, reconhece-o e lhe diz:
- Aqui está seu lugar.
Se foi-se e esteve com uma má atitude, não pode ocupar seu
lugar no círculo imediatamente; primeiro tem que se currar, aliviar-
-se. Por isso, não tem a palavra da autoridade, até que tenha estado
muito anos no caminho, antes de ir.
Existe gente que, depois de haver cumprido os quatro anos, diz:
- Já não vou fazer mais nada porque já cumpri com minha
palavra.
Isso nós não podemos aceitar, é um abuso.
Uma pessoa que já o cumpriu tem a obrigação de ensinar os
que vêm.
Diz-se que muitos se comprometem por quatro anos, mas,
realmente, ao fim desses quatro anos, dão-se conta de que o com-
promisso é para toda a vida.
Devemos conduzir com essa Pipa, de tal forma, que consigamos
atrair a confiança do povo. Que compreendamos que através da fé,
da entrega e esse instrumento sagrado, solucionam-se todas as coisas.
O feito de ser portador deve nos transformar em pessoas melhores.

85
Aurelio Díaz Tekpankalli

Devemos nos conduzir de maneira sagrada, nunca devíamos


usar substâncias ou beber por vício. Uma mulher na lua não deveria
tocar a Pipa. Se isso acontece, deve-se limpar a Pipa com cedro ou com
saliva para purificá-la e pedir para que tudo fique bem. Se alguém
sabe que uma mulher está na lua, não deveria lhe passar a Pipa.
Existe um ensinamento, em algum tempo o receberam. Mas o
ensinamento real é honrar essa Pipa, que representa a unidade do
homem e da mulher para dar a vida.
Quando a mulher está em seu ciclo, em sua conexão com a
Terra, está realizando uma purificação. Não tocar a Pipa nesses dias
é sua maneira de honrá-la.

Perguntas:
- Quando uma pessoa está em uma tradição e entra no Ca-
minho Vermelho, como decide, se em uma mesma data
coincidem compromissos?
- Sempre há que se reconhecer o ensinamento que chega à sua
vida, na ordem em que ele chega. Fora isso, muitas vezes você
tem que tomar a decisão tal e como ele vive em seu coração
no momento em que se encontra. Tem que tocar as coisas de
tempo em tempo, sabendo que você é capaz de compreender
algo real. Às vezes tem que tomar uma decisão, pois quando
a toma, se sente bem mesmo que não tenha estado nos dois
lugares fisicamente.

Ter um compromisso com uma tradição e logo em seguida


com outra, veio a você como uma expansão do seu potencial, da
sua capacidade, da sua espiritualidade, mas, ao mesmo tempo,
obriga você a manter esse conhecimento em ordem. Não podemos
mesclá-los, revolvê-los. Se vai os mesclar, que seja em seu coração,
mas guardando o desenho que aqui se encontra, e o desenho que lá
se encontra. Porque agora não se tem ainda a informação de como
é que isso deveria se unir. Quando tivermos a informação, faremos

86
Uma Voz para os Filhos da Terra

um conselho e o levaremos a cabo. Por enquanto, deve-se uní-lo em


nossos corações e em nossa vida ordinária, o melhor que se possa.
Assim é como eu o entendo.
Eu já fiz várias alianças e busco e encontro uma forma de levá-
-lo e de aprender dele e tomá-lo como uma oportunidade em minha
vida. Talvez não seja a pessoa que vai realizá-lo de todo, mas se posso
dizer que fui em meu tempo, quando esses caminhos se unirem. O
que vai acontecer talvez o veja nessa vida, ou talvez leve várias vidas.
Tenho que ter paciência para chegar à razão do propósito pelo qual
essas coisas aconteceram.
- É certo deixar a Pipa separada, em um altar, à vista de todos?
- Se a tem com respeito, e não está à vista de todos, senão
somente de sua família, então seria certo. Mas é melhor
deixá-la descansar, em sua bolsa, em sua caixa, e quando
necessitar despertá-la, chamá-la, pegue-a.
- Quando alguém está muito zangado consigo mesmo ou com
alguém e não pode perdoar, é certo carregar a Pipa para
rezar, ou deve-se esperar um momento mais tranquilo?
- Estive na montanha e recebi as instruções de como me portar
corretamente. Você utiliza as instruções que recebeu quando
necessita de toda sua integridade, toda sua vontade. Neces-
sita se transformar, pois nada mais revive o tempo em que
esteve na montanha e se transformou. Faça qualquer coisa
que sirva como recurso para ter uma melhor atitude, estado
ou condição. Lembre que não há tempo, quando pega na
Pipa, para se sentir mal. Se vai pegá-la, apenas ao tocá-la,
imediatamente você vai se sentir bem, porque quando você
reza às sete direções, volta às sete direções. Se manda muito
apoio e muitos pensamentos positivos, isso vai voltar para
você. Trate, simplesmente, de não mandar outra coisa.
- Se estou rezando com uma Pipa, em um círculo, com um
propósito, e alguns dos participantes não são portadores, e

87
Aurelio Díaz Tekpankalli

sucede que não se reza seriamente, nem pelo propósito, tudo


bem cortar e explicar o propósito outra vez?
- Tenha muito cuidado de assegurar que tudo o que necessite
fazer seja feito de forma apoder confiar sua vida ao círculo
em que o faz. Uma vez que começou a rodar a Pipa, e se
sente mal, reze mais que nunca por sua vida, pois ainda que
não a tenha em suas mãos, alguém tem sua vida nas mãos.
Tenham muito cuidado de que o povo saiba o que é essa
Pipa e o que estão pedindo com ela. Você decide como sua
vida vai caminhar, se a tropeções ou se de maneira bela, de
maneira que todo o povo agradeça por sua presença. Te-
nha cuidado com onde você vai, para onde se conduz com
a Pipa. Eu coloquei minha vida nas mãos de gente louca, e
confiei o poder do Grande Espírito . Então, vi que, depois
de tudo, essa gente pôde ser respeitada. Não devemos nos
desconectar nunca.
Eu não recomendo parar uma cerimônia de Pipa por causa do
comportamento das pessoas, mas tenho que respeitar se alguém assim
o faz, porque talvez tenha a melhor das razões em seu coração. O que
se pode fazer é se retirar de um lugar onde, em sua opinião, não esteja
sendo dado o trato devido a esse instrumento sagrado, mas nunca
devemos julgar. Você se dá conta da responsabilidade? No entanto,
cai nessa situação ao parar a cerimônia, então, tão cuidadosamente.
- Quando a Pipa chega apagada a alguém, com o tabaco já
consumido, a pessoa pode fazer o rezo ou deve enchê-la
novamente?

88
Uma Voz para os Filhos da Terra

*Foto: Um jogador de “pelota”, jogo sagrado, oferece seu coração


ao Sol, dá graças ao Sol. Isso não quer dizer que é um sacríficio.
Monumento de Santa LucíaCotzumahualpa, Guatemala. Museu-
mfürVolkerkunde, Berlín.

*Foto: Coatlicue, representação da energia feminina. Museu de


Antropologia e História. México.

89
Aurelio Díaz Tekpankalli

*Foto: Aurelio Díaz Tekpankalli, 1977, Chicago, Illinois. U.S.A.

*Foto: TiahuiTonantzin in Itzachilatlan, 1987, pintura de Aurelio-


DíasTekpankalli.

90
Uma Voz para os Filhos da Terra

O Mistério é tão grande que não tem limites, o ensinamento


está na montanha. Sempre é o Grande Espírito o que tem a resposta,
e nós estamos aqui tratando de dar uma ajuda pela nossa experiência,
para que sirvam alguns conselhos. Sim, existem muitas coisas que
eu não compreendo e que nem eu mesmo sei porque as faço. Digo,
então, “bom, Grande Espírito, você sabe, você vê”. Eu não sinto em
meu coração a ida e o preencher novamente da Pipa para que alcance
a mais pessoas, esse é meu temperamento. Às vezes a alguém não
se prende, e ao próximo sim; porque também o deixo nas mãos do
Grande Espírito. Eu disse a algumas pessoas que se o sentem em seu
coração, quando acaba a Pipa, pois ali voltem a enchê-la e a passar,
embora cada um deveria fazer a si mesmo essa pergunta na montanha,
para que a resposta venha diretamente. Eu não tenho nada contra
isso. Cada um é responsável pela própria vida que está colocando a
serviço de seu próprio povo.
- Vejo que há gente que reza com a Pipa apagada, depois a
acende e a passa. Também há quem trate de mantê-la acen-
dida durante todo o rezo, e depois a passa. As duas coisas
estão corretas?
Sim, as duas estão corretas. Também pode se fazer o rezo com
o tabaco nas mãos antes de acender. Muitas vezes peço às pessoas
que coloquem o tabaco enquanto fazem o rezo, depois se acende e
pode voltar a rezar ou, melhor, não é necessário que rezem. Quando
o que carrega a Pipa reza com ela antes de acendê-la, há de levar em
conta que não seja um rezo pessoal, mas um rezo do círculo. O rezo
pessoal é feito somente se se pediu antecipadamente, com o tabaco,
como propósito para rezar. Então, quando já vem e está acendida, é
um rezo do círculo, esse rezo pessoal.
O tabaco é sagrado para todo o nosso povo, desde o Alaska até
a Terra do Fogo. Existem diferentes formas, bem sagradas, de usá-lo.
Há pessoas que nunca o fumam, o depositam em sua mão e, embora
não esteja aceso, reza com ele, e logo o deposita na Mãe Terra. Há
pessoas que o envolvem em um pano, o amarra com um fiozinho,
e nunca o fuma, mas o rezo está ali. Há pessoas que o agarram e

91
Aurelio Díaz Tekpankalli

o oferecem a uma pessoa, apenas. Há quem o beba, o respire. Há


muitas maneiras.
- Eu ouvi que vocês não compram o tabaco, mas que se deve
usar o tabaco que oferecem a vocês, que os presenteiam. É
assim também para os portadores de Pipa?
- Eu passo ano sem comprá-lo, sempre alguém o compra e me
presenteia, ou o cultiva e me oferece. Agora a situação não é
como era há cem ou duzentos anos. Tratem de tomar muito
cuidado com onde e como conseguem seu tabaco, porque
o tabaco tem seu poder, seu espírito, por isso pede-se que o
conheçam bem, que possam sentir sua presença, sua força.
Cada um vai encontrar a fórmula, a mistura, a maneira de
fazê-lo. Juntem todo o tabaco que puderem, ponham suas
mãos, rezem com ele, misturem-o, peçam que se extinguam
os aditivos que colocam nele, passem-o pelo fumo, e, algum
dia, chegará a vocês de outra maneira. Somente podemos
rezar por ele, talvez algum dia possamos ter um jardim de
tabaco e alguém desse grupo vai encarregar-se de cuidar
dele, de mantê-lo e distribuí-lo a toda a família. Se tiver que
pagar pelo tabaco, eu compreendo, mas vamos mudar a
situação. Talvez umas sementes, e, talvez…
- Podemos fumar diante de um doente, ainda que ele não o
tenha pedido? Podemos fazê-lo em um hospital, ou que tipo
de intimidade se requer?
- Você nunca pode fumar diante de um doente e soprar o
fumo sem que o peça. É uma falta de respeito para com ele,
para a Pipa e para sua vida. Tenha muito cuidado, trate de
fazê-lo com sinceridade, humildade, integridade, vontade…
e através da distância. Se assim o sente por um ser querido,
pode fazê-lo, vai chegar a ele. Pode ir com a Pipa onde qui-
ser, mas enquanto ele chegue sem que se falte o respeito.
Seu amor é tão grande que você quer dar a ele seu melhor
desejo, mas, para dá-lo, tem que se receber. A não ser que
essa pessoa pense: “por que me sopraram esse fumo?”,

92
Uma Voz para os Filhos da Terra

você está gastando seu tempo mal. Mas se o faz a distância,


e ele nem se dá conta, chega melhor dentro do seu poder
e funciona. Isso é ainda muito melhor. Mas se o pede, eu
recomendo que você sopre quanto fumo quer e pode, ou o
quanto aguente, porque o fumo do tabaco é sempre muito
sagrado e muito bom.
- Agora temos duas Pipas em casa. Em que circunstâncias se
pode acender as duas Pipas?
- Pode dizer: “esposa, amiga, companheira, com minha Pipa,
peço que fume sua Pipa comigo”. Em qualquer circunstância,
pode acendê-las, sempre que estejam de acordo, pois são
duas pessoas, duas entidades. Quando desejam acendê-la
juntos, podem acender primeiro uma e passá-la. Quando a
terminarem, acender a outra. Também, às vezes temos que
trocar Pipas ao mesmo tempo. Vocês são um casal e as podem
arrumar a sua maneira. E também podem pedir instruções
ali em cima, na montanha, ao Grande Espírito. Seja como
for, uma Pipa pode ser acendida sempre que for necessário.
Às vezes pode se compartilhar dez ou quinze Pipas em um
dia, então, o mais importante é ter uma atitude de disponi-
bilidade, ao menos entre os portadores de Pipa.
- É possível acender o fogo da temazcal para fumar uma Pipa,
ou somente se acende para a temazcal?

Uma temazcal tem um propósito, ainda que não haja pedras;


estão aliados com a Pipa. As Pipas reconhecem o poder da temazcal,
é o mesmo fogo. Assim, no momento em que o necessite, pode-se ir
diante do mesmo fogo, pedir, primeiro, permissão à Terra e, também,
às pessoas que são responsáveis pelo lugar, para chegar, acender esse
fogo, e assumir a responsabilidade de que vai o apagar quando for
embora. E, se o prende e quer ficar cuidando dele, um, dois, ou três
anos vendo que está preso, também está bem. Uma temazcal é um
bom lugar para ir rezar, dentro e fora dela.

93
Aurelio Díaz Tekpankalli

- Qual é a forma correta de unir o Pai e a Mãe à Pipa Sagrada?


- A maneira é: a madeira, que vem de cima, e a pedra, que
vem de baixo, juntam-se. O que você está fazendo, é trazer
à Terra o Espírito, e se com Ele vem o Espírito do Espírito
do Espírito de todos os Espíritos, pois bem. Quem quiser
que venha, quem quiser que escute, que nos dê seu apoio, a
quem te ouça, está o pedindo ajuda. Somente se deve unir a
Pipa quando já tem claro, de antemão, que vai aunr, e qual é
o propósito, então, diante do fumo, começa a enchê-la com
rezos, que são necessários dentro da Pipa.

A pedra é a Mãe Terra; a madeira, o Grande Espírito, e, ao


juntá-los, você está juntando essas duas forças que existem dentro
de você mesmo. Está juntando as duas partes que têm o Poder para
conduzir qualquer necessidade que seja, dentro do Poder. Pode pe-
dir a alguém que lhe ajude a rezar, pode dizer a um ancião: “quero
presentear-lhe com esta Pipa para que você reze para mim, que reze
para esse propósito, que nos traga a honra de encher essa Pipa para
nós.
Se a entrega assim, ele agarra sua vida, a bendiz, a junta e reza
por você. Essa pessoa tem que ter toda sua confiança para pedi-la
que faça isso com você. Temos que ter muito cuidado. Também pode
conectá-la e levá-la em sua mão e pedir a alguém que lhe ajude com
um rezo e que ele possa por um rezo ali para você, para todo o círculo.
Há muitas maneiras. Assim que vê a montanha e pergunta como é
que você deveria fazê-lo. Sepredevemos utilizar a Pipa quando sentir
que é necessário.
A única forma de encher a Pipa é com um bom propósito, com
sinceridade, humildade, integridade e vontade…
- Na cerimônia de Medicina, no tabaco pessoal, se sinto car-
regar a Pipa, tenho que pedir permissão? Tenho que fazê-lo
com meu próprio tabaco?

94
Uma Voz para os Filhos da Terra

- É importante avisar que você tem uma Pipa com você e


que vai usá-la. Isso não quer dizer que todos os Homens
do Caminho apoiem isso, mas, para mim, tudo bem. Eu
reconheço a Pipa como reconheço o tabaco. Para mim, é o
mesmo meio de palavra. Pode usar seu tabaco, se quiser, e
passá-lo também a seus vizinhos e, assim, compartilhá-lo.
- Quando se deve fumar uma Pipa?
- Com um instrumento sagrado, temos que ter um propósito.
Se pode usá-lo todos os dias, na manhã, pela tarde, ou à meia-
-noite, todos meus respeitos. Não abuse da Pipa, somente
abuse de si mesmo. Se vai rezar, olhe bem a calidadcom a
qual chega ali. Eu trato de chegar ali com uma necessidade,
com muito respeito, com muita humildade, e digo: necessito
de ajuda, meu povo está pedindo ajuda.

Temos que sentir em nossos corações, e também perguntar ao


Grande Espírito: “vale a pena usar esta Pipa para essa causa?”. Você
usa a Pipa para se mostrar verdadeiramente diante do Mistério, para
que Ele lhe conceda a graça do seu poder. Há forças ao redor de você,
que são a manifestação do Grande Espírito, que estão pendentes em
todos os seus atos, e, se você descarta isso, vai se colocar no lugar a
que corresponde. Temos que ter muito cuidado com a razão pela
qual está levantando sua própria vida, sua própria conexão com o
Grande Espírito.
Quando eu uso essa Pipa, é como se estivesse usando um te-
lefone, e, se sei que do outro lado está o Grande Espírito, e às vezes
digo a ele:
- Grande Espírito, desculpa por essa necessidade de sentir,
ao menos, sua presença. Não há nenhuma outra razão, mas
mesmo assim a sinto. Não há nada que dizer, mas o faço
com respeito porque sei que estou invocando a força que
há nesse instrumento.

95
Aurelio Díaz Tekpankalli

Essas perguntas, devem fazê-las na montanha, não somente


aqui.
Quando separarem as partes da Pipa, terão terminado de rezar,
quando as juntarem, começarão a rezar. É importante que, enquanto
estão limpando, ao soprar as cinzas, não as soprem a ninguém. Co-
loquem ali sua mão, e sobremão a depositem. Estejam atentos com
o vento, não deixe que leve as cinzas à cara de uma criança. Dê-as ao
fogo ou busquem um lugar e a depositem na Terra. É bem importante
limpá-la bem, não deixar nada dentro. É muita responsabilidade, mas
se o fizerem bem, é grande o benefício que vão receber. Combinem
de agradecer ao Grande Espírito. É muito bonito, também, encher a
Pipa e agradecer ao Grande Espírito. Muitas vezes, podem levantar
essa Pipa para agradecer por uma boa colheita,por vender aquilo que
vendem, para agradecer que foram e vieram bem. Sempre fazemos
isso e também é parte do ensinamento da Pipa Sagrada.
- Há pedidos que não devem ser realizados com a Pipa?

- Não há nada que não se possa pedir com a Pipa. Tudo pode
ser pedido com a Pipa, mas lembre-se de que está frente ao
Grande Espírito e que está se mostrando a Ele. Tem que
olhar-se para ver o que pede. Tudo pode ser pedido com
sinceridade, humildade, integridade e vontade… Se tem um
problema de família, ou qualquer problema, que melhor
oportunidade para levantar essa Pipa e fixaro problema com
sua própria vida? Você não pode deixar nada fora da Pipa,
ainda que creia que a Pipa não sabe de algo, se o deixa fora,
de qualquer maneira, isso vai cair sobre a sua vida. Muitos
dizem: “além da sua saúde, encontrará o que faz com sua
própria vida”. Cuide para o que você faz valha a pena. Se o
faz bem, vai multiplicar em você também. O que você olha
de lá, também está vindo até aqui. O esforço que faz para
servir ao povo é guardado, também, dentro da sua própria
saúde, dentro da benção do benefício de estar a serviço do
povo. Tudo cabe dentro dessa Pipa. Todo o Universo cabe

96
Uma Voz para os Filhos da Terra

dentro dessa Pipa. Nada fica fora, ainda que você decida
deixá-lo fora.
A razão para a pergunta interior é que, para mim, a Pipa é
muito sagrada. E eu acreditava que havia problemas que era melhor
deixar de fora, não colocar na Pipa.
- Assumi um compromisso de levar uma vida sagrada. Do
que você está falando? Um portador de Pipa é uma pessoa
que entendeu o destino da sua vida e, por isso, agarrou-se
à verdade. Como pode pensar que há algo que não valha a
pena? Você diz que é humilde, mas isso não quer dizer que
seja negligente. Vocês têm que tomar consciência de que, na
vida, têm que sorrir com o coração, com alegria, ainda que
pareça estúpido diante do povo. Mas isso é verdadeiro, e não
quer dizer que seja estúpido. Se o parece, é outra coisa. O
que importa é o que parece diante dos olhos. Ante aos olhos
daquele que critica, ou ante os olhos do Grande Espírito?
É assim que a sua conexão com o Grande Espírito se torna
o mais importante que existe dentro deste caminho. Tudo
conta e tudo é parte, nada se pode deixar de fora. Não há
nada que, para o Grande Espírito, não seja importante. Se
não, isso não o seria dado. Se ele lhe deu uma dor de cabe-
ça, é porque é importante que você a tivesse. Se deu a você
alguma doença, é porque era necessário. Se deu a você um
momento de felicidade e você é capaz de celebrá-lo e dizer:
‘’Graças, Grande Espírito, por me fazer tão feliz, por ter me
ensinado um pouco de compreensão. Apesar de tudo o que eu vivi,
eu me saí muito bem. Agora eu compreendo. Dentro de todas as
relações, essa é a única que conta, porque é verdadeira.”
O espírito que está guardado no Pai e na Mãe, que agora está
em uma forma sagrada, frente à sua vida, dentro de sua vida, caminha
com você a onde quer que você vá, ainda quando a Pipa não está ali
fisicamente, ela está sempre em seu coração.

97
Aurelio Díaz Tekpankalli

Posso rezar com a Pipa se ela não está cheia de tabaco? Se eu


a encho, devo acendê-la?
- Quando essa Pipa se conecta, está conectada com o Espírito,
com o Espírito do Homem e o Espírito da Mulher. Isso é
unido, unicamente quando está disposto a tomar consciên-
cia dentro do Mistério do Grande Espírito, do que ele, de
alguma maneira, vai dar a você. Não se sinta preguiçoso, não
tenha preguiça de colocar o tabaco e rezar. Em seu coração
estão unidos. O que se pede é que não se una, a não ser que
se vá rezar com ela, pois esse é o propósito pelo qual foi feita.
Essa Pipa é muito sagrada. Quando os une, deve colocar o taba-
co e acendê-la e, ao terminar, deixar tudo bem limpo, bem feliz, e ir
descansar. Poucas vezes temos a oportunidade de ter um instrumento
que nos permita dizer: ‘’Fiz amor comigo mesmo e uni minhas duas
partes neste instrumento, para estar em conexão com o Grande Es-
pírito”. Vale a pena enchê-la de tabaco, quantas vezes assim o sentir,
tenha fé para sustentá-la e poder sentir-se como em um estado de
êxtase. Não a tenha em sua mão, sem desejar que estejam juntos.
Elevo esta Pipa aonde quer que eu vá. Às vezes a carrego durante
uma viagem inteira e nunca chego a perdê-la. As vezes a acendo
muito mais do que esperava: “Caramba! Hoje fumei essa Pipa quatro
vezes, o que vai acontecer? Esperamos que não seja assim todos os
dias”. Mas logo digo: “Graças, Grande Espírito, tomara que seja assim
todos os dias, por que não?” É sempre bom que não se desperdice o
tempo enquanto se utiliza essa energia e que seja uma boa direção
para trazer essa felicidade que tanto buscamos, especialmente para
nossos filhos. Disseram-me que se eu não estava pronto para fumar
a Pipa, que não os juntasse.
- Se uma pessoa nos pede uma cerimônia de Pipa Sagrada,
essa pessoa deve se sentar em algum lugar especial dentro
do círculo?
- Sempre que alguém lhe pedir, apresente-a o tabaco, e você
começa a cerimônia. Depois que o fumar, como portador
de Pipa, é essa a pessoa a quem primeiro você entrega essa

98
Uma Voz para os Filhos da Terra

Pipa. Ela se coloca ao seu lado esquerdo, em honra a quem


chamou, quem pediu. Depois ela é compartilhada por todos,
pela ordem que sentir.
- Não sei por quê, sempre viro a Pipa quando me passam,
isso é certo?
- Somente uma pessoa que tem a idade, o tempo, o reconhe-
cimento como ancião, ou como guia da pessoa, pode tomar
a vida de alguém mais e presenteá-la. Somente uma pessoa
que é portadora da própria Pipa, a presenteia, e isso é mais
que suficiente. Logo, cada um reza com ela e a passa. Assim
como a recebe, é como a deve passar, mas com muito mais
cuidado e em melhores condições.
- É conveniente a presença do fogo quando se quer encher e
prender uma Pipa? Um portador de Pipa pode a encher de
tabaco, na cerimônia, quantas vezes for necessário?
- É sempre conveniente que haja algo de fogo no qual você
abençoe e abençoe a essa Pipa, agradeça o momento, dê as
graças ao lugar, ao povo que está ali e a quem você possa
escutar, que faça as pazes antes de por o tabaco, que possa
ter foco e ter claridade. Esse é o propósito do fogo em
qualquer lugar, é uma grande ajuda. Peça que o fumo limpe
tudo, purifique tudo, antes de unir a Pipa. Tudo isso é bem
importante, é necessário, de alguma maneira. Se não há
fogo, pode-se entender que o portador de Pipa se encontrou
diante de uma situação em que teve que tomar a decisão e
olhar desde onde está o Sol, e reconhecer ao Sol como o fogo
sagrado e presenteá-lo com a Pipa. Se é de noite, reconhece
o fogo da noite, que pode ser através do reflexo da sua ou
das estrelas, como você o veja.
Se o tabaco chegou somente até a metade, e você vê que as
pessoas precisam dele, e assim você o decide, avise a todos que você
vai agradecer até esse momento e que vai dar por terminada a metade
do serviço da Pipa. Vai regressar ao fogo, bendizê-la, voltar a juntá-la,

99
Aurelio Díaz Tekpankalli

e continuar de onde havia parado. É importante que explique que é


por alguma razão que o está fazendo assim, que está em seu coração
que o povo receba esse rezo que chegou somente a certo número de
pessoas. O próprio portador é o único que pode encher essa Pipa,
ninguém mais, porque é sua vida. É importante rezar, e, se há uma
grande necessidade, uma Pipa pode ser enchida e se pode ficar du-
rante toda uma noite rezando sobre um ser que o necessite. Pode-se
velar com a Pipa a um ser durante toda uma noite, todo um dia, ou
todo um ano. Não são limitadas as formas do uso da Pipa sempre
que o faça com sinceridade, humildade, integridade e vontade…
- Como se pede a Pipa Sagrada?
- A única maneira que eu conheço é pedí-la com um pouco
de tabaco e, através dele, expressar o desejo de tê-la. Muitas
pessoas dizem que primeiro há que sonhá-la e depois pedi-
-la. Outras dizem que é necessário ter uma visão de tê-la.
Outros dizem que você deve ser instruído para poder ter a
Pipa. Há que se assegurar de que a pessoa que está pedin-
do saiba que está pedindo, que a peça consciente de que é
uma responsabilidade e que é uma pessoa séria. Se vê que
é preciso que amadureça, pois que espere um pouco até
que saiba que a está recebendo. Um amigo me dizia: “Eu
não sei por que essa gente quer uma Pipa. Não sabem que
depois não vão ter vida, não sabem que é muito trabalho?”.
Bem, parece que as pessoas querem trabalhar muito. Sim,
é algo sério portar uma Pipa, porque realmente muda sua
vida. Se é um verdadeiro portador de Pipa, você vive para
o povo, e é um compromisso bem sério. Não pode dizer:
“Sim, gostei de fazer isso durante esses dois anos, mas pre-
firo fazer outra coisa agora”, porque a sua palavra, você a dá
ao Criador. Reze-o muito bem, porque é um compromisso
muito, muito grande.
- Qual é o fogo mais sagrado?
- O fogo mais sagrado é o fogo da vida, é o fogo original. É
um fogo muito sagrado, o do tabaco, que permite a conexão

100
Uma Voz para os Filhos da Terra

com o Grande Espírito através da palavra. Todos os fogos


devem ser reconhecidos por igual, não se pode por um aci-
ma do outro, todos são de vital importância. O fogo que se
encontra ali em cima, o Pai Sol, é sempre muito importante,
e há que reconhecer que todos os dias ele está ali, dando-nos
seu calor por igual.
Há um calor especial nesta Terra, que nos dá tanto para comer,
um fogo guardado dentro desta Mãe Terra. Há um fogo guardado
dentro de todos os frutos, de todos os produtos, de todos os alimentos,
então há que reconhecer que, de alguma maneira, existe um fogo no
Universo que é uma constelação, que é um firmamento de estrelas…
Todos esses fogos estão aliados, são um mesmo fogo. Se você faz um
fogo em reconhecimento, em memória de todos esses fogos, penso
que tudo bem, e, se puder, abençoe-se com ele antes de preparar
sua palavra, seu rezo, na Pipa. Também, na cozinha, prepara-se e
bendiz-se os alimentos com esse mesmo fogo.
- Você pode nos falar sobre o tabaco, sobre seu espírito?
- O tabaco é um dos fogos muito sagrados, é um dos fogos
que abrem todas as portas, que permitem a manifestação do
coração dentro da família. É uma das primeiras medicinas
dentro da compreensão e da clareza. Há outras formas,
outras maneiras, que acompanham essa medicina, como é o
fogo que existe dentro da sálvia, do cedro, do copal. Todos
estão antes do tabaco, estão ali para receber o tabaco, mas
é o tabaco que abre essas portas. É através do tabaco que se
move o propósito. É abençoado pelo poder de esclarecer
o Espírito, de recuperar a clareza da memória do Espírito
dentro do ser do indivíduo.
O tabaco é uma das primeiras medicinas, é o que normalmente
se oferece a todas as direções. Sim, o fogo do tabaco tem uma vital
importância e, sim, é verdade que antes da medicina do Peiotee vem
o tabaco, que antes da medicina da palavra, ou do canto dos instru-
mentos musicais, vem o tabaco.

101
Aurelio Díaz Tekpankalli

É o tabaco que abre a porta dentro da Tradição.


Se chove, há uma tempestade, e vemos raios caindo por ali,
você vai os oferecer o tabaco. O tabaco é muito importante, o fogo
do tabaco é uma das coisas mais sagradas que há. É bem especial que
ele acompanhe tudo.
- Eu gostaria que você nos dissesse algo sobre a Pipa que car-
rega Josep para toda a família. Pode-se rezar com ela pelo
apoio, pela reconciliação, para compreendermos melhor e
dizermos as coisas dentro da família? Ou é melhor com uma
Pipa nossa?
- Um portador de Pipa é a Pipa em si. Devemos aprender a
caminhar com a Pipa, a sonhar com a Pipa, a viver com a
Pipa, a ver com a Pipa, assim esse instrumento pode abrir
todas as portas.
Essa Pipa não é para falar mal de ninguém, não é para falar
de uma maneira ruim. Temos que ter muito cuidado, porque o que
se planta com essa Pipa, é o que se vai colher. É poderosa assim, e
vai lhe dar tudo em quantidades muito grandes. Tratem de plantar
o melhor.
A Pipa que foi entregue a Josep para toda a família “Os filhos
do vento do Leste” pode ser utilizada por toda a família da Igreja
quando for necessário, está ali para esse propósito. Ele é o portador
dela, seu guardião. Quando o pedem assim, ali está a Pipa. Porém,
qualquer Pipa está relacionada, numa mesma família. Cada Pipa é
a vida de um membro da família que se oferece com esse propósito.
Utilize a Pipa tanto quanto for necessário. Você é um portador
de Pipa, reúna sua família para rezar dessa forma, ou, ao menos, faça-
-o você, sozinho. As coisas vão ser como queremos que sejam, sempre
que estiverem como queremos dentro do nosso coração, dentro de
nós mesmos. E, pouco a pouco, através do exemplo, estará nos de-
mais. Agora não vale a pena focar nas coisas que não gostamos, e, se
vamos focar nelas, é porque queremos resolver e aprender com isso.
O que eu posso dizer é que você sempre vai ser colocado à prova.

102
Uma Voz para os Filhos da Terra

Como quer chegar até lá, isso é uma decisão sua. Pegue a Pipa em
suas mãos e reze com ela.
- Quando vamos passar a Pipa à pessoa que está à nossa es-
querda, passa-se pelo fumo ou aponta-se o fogo com ela?
- A pedra é a Mãe e na Mãe está o fogo. A Mãe é o que está
mais perto do ser, do indivíduo. A madeira é o Pai, é o que
está em conexão com o Espírito. Isso funciona de forma
diferente do tabaco. Com a Pipa, chega primeiro a Mãe,
porque está mais perto do coração. Seja como for, vocês
hão de receber essas instruções na montanha. Isso é o que
nós sabemos sobre essa Pipa, ao menos é como eu o passo.
- Alguém me pede, com um tabaco, que carregue a Pipa por
um bom propósito. Eu aceito o tabaco e estou disposto, passa
o tempo e não encontro o momento. O que acontece com
minha vida?
- No princípio, quando recebe, aceita o tabaco e dê sua pala-
vra, é sua responsabilidade com o Grande Espírito. Eu lhe
recomendo que pegue um calendário, fixe uma data, uma
hora e que diga: “estamos de acordo”. Se o postergar, há de
ser com alguém que tem muita confiança de que não se vai
postergar por meses ou por anos, mas que vai fazê-lo. Tenha
muito cuidado com ele. À Pipa não se pode causar danos,
mas a você mesmo, você pode causá-los.
- Se eu peço a um irmão que carregue uma Pipa, por exemplo,
para a cura de uma relação, posso apoiá-lo com minha Pipa
nessa mesma cerimônia?
- Você pode oferecer o tabaco a essa pessoa e dizê-la: “eu
gostaria de pedir a você uma cerimônia de Pipa, e, com esse
mesmo tabaco, queria dizer que adoraria ajudá-la com a
Pipa que eu carrego, que me permita que, no momento em
que você acenda sua Pipa, eu, em seguida, possa acender a
minha para apoiar esse mesmo propósito”.

103
Aurelio Díaz Tekpankalli

- Sendo portador de Pipa, muitas vezes sentir vontade de


compartilhar um tabaquinho ao invés da Pipa, tudo bem
fazer isso?
- A Pipa, à parte da sua vida, é sua palavra, a palavra que está
no tabaquinho. O amor, o respeito que influencia na maneira
de usar o tabaquinho, se dá através do compromisso com sua
própria vida. Conheço uma pessoa que esteve por sete anos
utilizando a Pipa sozinha, até que a compartilhou comigo
pela primeira vez. Como você vai ser, é como você vai ser. Mas
lembre-se de que deu sua palavra de estar a serviço, e tenha
muito cuidado. Sobre o tabaco, tudo bem, eu reconheço por
igual tanto o tabaco quanto a Pipa, não há problema.
Se me pede que eu explique o que representa a pedra, além
de representar o sangue do nosso povo, de representar o caminho,
e também a nossa Mãe Terra, representa a base do templo da Pipa,
as fundações. Essa pedra representa o lugar permanente do fogo
sagrado do tabaco, o lugar onde se acende constantemente para
esse propósito. É um fogo bem pequeno e que pode ser levado para
todos os lados. O vermelho da pedra tem um significado, diz-se que
é o sangue do nosso povo que correu pela Terra, e que, por isso, é
assim, vermelha, e isso é muito sagrado.
- Existe a possibilidade de fazer, você mesmo, o canhão da sua
Pipa? Refiro-me a pegar uma vara que eu sentir que deve
ser utilizada e fazer um canhão.
- O que você tem, é o que você tem, é o que chegou a você para
subir a montanha. Mas pode iruma árvore, rezá-la, pedi-la
ajuda e permissão para pegar parte de seu corpo com toda
a consciência, e trabalhá-lo você mesmo. Pode fazê-lo, e não
quer dizer que substitua ao outro, mas que você tem outro
canhão e que pode utilizá-lo também. Um ou outro.
- A pedra será sempre a mesma?
- A pedra é tradicional, estamos trazendo aqui a tradição do
lugar de onde vem.

104
Uma Voz para os Filhos da Terra

- O que se pode pendurar da madeira como enfeite?


- Diz-se que quando você sobe, no primeiro ano, à montanha,
reconhece a possibilidade de colocar uma pena na sua Pipa.
No segundo ano, pode colocar outra. Assim, quando termi-
nar, pode ter quatro penas ao redor da sua Pipa. Quando
você se compromete na Dança do Sol, pode colocar outra
pena, e depois outra e outra, até fazer um bonito penacho
ali, ao redor da Pipa. Como e, de que maneira coloca as
coisas, depende de como caminha a vida, de como a reza.
O que está colocando sobre a Pipa, está o colocando sobre
sua vida. Que não seja apenas um adorno, que tenha um
valor, um propósito pelo qual está ali. Que o esteja pelo que
representa.
- Você poderia dar um bom conselho, uma orientação, para
os portadores de Pipa?
- O melhor conselho é que tenham muito cuidado com o que
dizem, que não digam algo que não vão viver, sobre o qual
não vão assumir a responsabilidade. Um portador de Pipa
tem que ter um cuidado especial com todas as coisas que são
ditas com a Pipa, mas, especialmente, com as coisas que o
próprio portador diz. Tem que cumpri-las e também tem que
recordar, de alguma maneira, o que o povo pede com essa
Pipa, para seguir rezando com ele, para seguir o apoiando.
Temos que buscar, em nossas vidas, como viver esse rezo,
como encaminhar esse rezo, como colocar em prática esse
rezo todos os dias. Vocês tem que ter muito cuidado com
suas palavras porque, em sua própria vida, nessa Pipa, as
está gravando. Devem ter o cuidado de ser o mais reais e
verdadeiros que puderem, de não utilizar o tempo com uma
atitude ruim ou com um mal espírito. Devem ir cada vez
mais além, tratar de conduzir, na companhia do Espírito que
representa a Pipa. Devemos nos manter nessa companhia
constantemente, de ser possível, através das coisas com as
quais nos encontramos, na situação em que nos encontra-

105
Aurelio Díaz Tekpankalli

mos, ainda através do trabalho, do lugar onde vivemos ou


do lugar onde vamos. É muito importante a forma como
conduzimos cada dia com essa Pipa e com essa energia. Uma
recomendação: mantenham-se alerta, conscientes do que
foi pedido, e que o possam identificar quando vierem ao
seu caminho, que não se distraiam com coisas que os façam
esquecer de quem vocês são.
Se vão a algum lugar, tratem de estar conscientes do que re-
presentam, do que são e do que levam, da sua própria medicina. De
vocês mesmos. Isso é importante porque, quando se reconhecem,
se fortalecem, e quando se desconhecem, creiam que possam levar
a cabo coisas sem que ninguém se dê conta, pois se perde parte do
que levam, pois estão se perdendo a si mesmos.
- Quando é conveniente levar a Pipa?
- Leve-a onde quer que seja necessária. Se vai a um lugar onde
possa correr algum risco, coloque-a em um lugar seguro, em
que não corra riscos. Trate de caminhar com a Pipa, que seja
você mesmo onde se encontre bem e se encontre bem a Pipa.
Desejamo-o ao critério de cada um. Nossa recomendação é
que é uma boa companhia, e, quando a leve, trate de estar
alerta e consciente, de poder viver com ela, usá-la, viver sua
companhia.

106
Uma Voz para os Filhos da Terra

Um Ciclo de Busca de Visão

N
o ano de 1996, Marina e Javier cumpriram o ciclo de quatro
anos da Busca da Visão em Morelia, Michoacán, México.
Compartilharemos algumas de suas reflexões acerca desse
aprendizado na montanha.

Reflexões de Javier
Essa é uma experiência que não tinha antecedentes na minha
vida. Era a primeira vez que me enfrentava com o possível de uma
maneira direta. As possibilidades sempre podem ser medidas mate-
maticamente, mas não há nenhum dado nisso, nem uma maneira
de prever o que irá ocorrer. A experiência final desses quatro anos
tem sido a plenitude de estar unido ao Universo. O Universo se
manifesta com a forma que tem, em seu silêncio. Há um silêncio que
toca as fibras mais íntimas, de tal maneira que jamais se pode esque-
cer essa melodia. Sofrer se torna, realmente, algo secundário. Ficar
se preocupando com ideias, teorias, instituições, é uma banalidade,
porque não é uma instituição, nem uma ideia, nem uma teoria, o que
se busca. Tampouco alguém colocará em prática um método de pen-
samento ou de meditação. É uma entrega ao processo de fecundação
que a Natureza exerce em todos os níveis e em todos seus reinos. É
o contanto com a força originária que criou e cria tudo, e que, por
alguma razão, e por tantas palavras, esquecemos.
No primeiro ano, eu era um homem que tinha muitas ideias,
métodos de discernimento e maneiras de racionalizar. Conhecia a
ciência, a filosofia e a lógica. Enfrentei a mim mesmo, com algo muito
interessante: a profunda debilidade que existe em meu ser interno e
em meu corpo físico. Dei-me conta de que coisas como o orgulho, a
vaidade, a ambição, eram o que sustentava meu hálito de vida. E, no
primeiro ano, ao sofrer, e como sofri, já que nunca antes havia passado
por um jejum tão longo e de maneira tão consciente, compreendi que

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Aurelio Díaz Tekpankalli

eram o orgulho e a banalidade que me faziam dizer que eu era Javier.


Na montanha, compreendi que era um ser humano, que era parte
da Natureza, das árvores, das estrelas. Compreendi, também, que
era irmão de um grupo de seres humanos que durante muitos anos
trabalharam em silêncio e que foram considerados de classe baixa.
A experiência do segundo ano foi mais simples, eu já começava
a ver o que era a folha, a flor, a árvore, o animal. Para mim, nesse mo-
mento, começaram a ser representações da força chamada Universo.
Comecei a praticar comigo mesmo e com todo o entorno, do qual
já me sentia um pouco parte, ainda que, dentro de mim, existissem
muitas dúvidas, teorias, espelhos, palavras.
Havia decidido não assistir ao terceiro ano da minha Busca de
Visão. Dizia a mim mesmo: “o que vai fazer lá? Não há motivo. A dor
não é necessária, você está exagerando”.
Não contava com a mão do Grande Espírito. Uma pessoa à qual,
com poucas palavras, eu havia falado sobre a Visão, um dia me disse:
“estou disposto a ir à Busca da Visão”. Nesse instante, compreendi
o sentido da minha vida. Não era meu ego nem a minha natureza
tagarela que a estavam guiando. Essa pessoa pediu, com a humil-
dadede um servo, para ser levada ao encontro com Deus e, nesse
momento, todo o meu edifício teórico foi derrubado, mental e social.
Disse-a, simplesmente:
- Não sou ninguém para detê-la em seu caminho da Visão.
Você tem o direito de ir, eu sou apenas um meio pelo qual
o Grande Espírito deu a você a oportunidade de ser o que
deve ser. Com honestidade e humildade, digo que não quero
ser a pedra em que você tropeçará.
Eu já havia fechado negócios, compromissos econômicos e
programas para não ir à Visão. Deixei tudo de lado para que meu
irmão pudesse assistir à Cerimônia da Visão. Ele desistiu, desceu da
montanha no segundo dia. Compreendi, então, qual o propósito
da Visão: ver Deus, aproximar-se dEle. Essa pessoa foi um pretexto

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Uma Voz para os Filhos da Terra

para que a última estrutura mental que me afastava da montanha


fosse derrubada.
Recordando agora da minha experiência, os primeiros dias
foram sempre um desafio. Algumas pessoas dizem a si mesmas que
tratarão de não sentir dor, que olharão novamente para tudo, bus-
cando outros detalhes, outras circunstâncias. Cada vez que vou à
montanha, vejo mais vida.
Nesse quarto ano, foi interessante observar que já tinha capa-
cidade para suportar a dor mas eu não conhecia a última parte. Os
primeiros quatro anos, suportei sem sede, sem fome. No sétimo dia,
já começava a sentir um pouco de sede. No nono, já me obrigava.
Aqui me disse que, se já havia visto tudo isso, para que o veria nova-
mente? Mas, no décimo dia, compreendi que não havia visto nada.
Ficaram mais agressivos o frio que me queimou a pele,a fome e sede.
Alastraram-se com a força de um furacão que punha à prova
se queria continuar no caminho. Nunca senti medo, pois desde o
primeiro ano de minha Busca de Visão, compreendi que estamos nas
mãos do Grande Espírito, mas se queremos um gesto dEle, devemos
lutar para ganhá-lo. Dei-me conta de que não podemos sair na metade
da batalha, que devemos seguir adiante, porque é necessário para
nós e também para Ele, como pai e filho.
O tempo, à medida em que passam as horas, se torna eterno.
Os dias eram de oitenta horas, não de vinte e quatro. Quando se
compreende que não se é o dono do tempo, nem das circunstâncias,
só sobra o mais sutil de nós fale com esse silêncio que fez os dias e
noites intermináveis. Eu o fiz e ele respondeu de uma maneira mui-
to simples. Chegou o momento em que já não havia dor, nem sede,
nem importava a duração dos dias. Nós já somos a árvore, a vespa,
a folha. Somos o que Deus quer que sejamos.
Os irmãos da Tradição Vermelha no abriram a porta de sua
casa, permitindo-nos entrar na cozinha, no banheiro, na sala. Esse
ato tão amável e generoso não pode ficar suspenso no ar, deve ser
gravado no coração. O homem que quer conhecer seu próprio ser,

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Aurelio Díaz Tekpankalli

sua própria natureza e sua maneira de sentir e ver as coisas, deve ter
o valor de entrar na casa de nossos queridos irmãos, sem incomodar
a ninguém.
Eu sinto que Aurelio me convidou a entrar nesta casa e me
disse: “Venha, entre, observe tudo e sinta-se confortável. Espere, em
seguida verá o nosso Pai”.

Reflexões de Marina
MetakiaseOyasín. “Por todas as minhas relações”.
Foi-me dito um dia, sobre a Busca da Visão: “É um compromis-
so com o Espírito, consigo mesmo, com seu povo, com sua família, com
as futuras gerações. É uma oportunidade de estar consigo mesmo,
para provar-se, para ter entendimento, clareza”.
Esse caminho é profundo e de transcendência para o Ser, é
uma Tradição, é uma forma de vida. O Caminho Vermelho,Caminho
do Coração.
O Grande Espírito é o que sempre move as coisas. Ele nos dá,
gota a gota, o que vamos necessitando, com muita paciência e, às ve-
zes, não somente gota a gota, mas em jatos, e eu agradeço-o por isso.
Dar-se a oportunidade de se nutrir e tomar os dias necessários
para ir tecendo nossos próprios rezos, vale muito a pena. É se dar a
oportunidade de viver de outra maneira.
Retirar-se em silêncio, em jejum, e impregnando o Ser de todo
o sagrado que rodeia o ambiente, é uma experiência muito profunda
e sagrada.
A Busca da Visão dá a oportunidade de crescer, de ir deixando
tudo o que não é necessário, o que nos impede de crescer, de refle-
tir, e de nos alinhar com a Natureza e nos centrar. Voltamos ao Ser
mais sensível. Recebemos muitos presentes, intangíveis, invisíveis e
indescritíveis.
Vale a pena se arriscar, atrever-se. Para compreender, há que
vivê-lo. O Espírito dá a cada indivíduo o que a ele corresponde. Há

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Uma Voz para os Filhos da Terra

que ter fé absoluta. Sempre chega o que tem que chegar. Talvez não
o que esperamos, o que queremos e temos em mente. Há que aceitar
que o chega é um presente.
Confesso que no primeiro ano, presa em minha absoluta igno-
rância, eu rezava e mirava o céu e o dizia: “Olha, Grande Espírito,
não sei onde você está, não sei como nem quem é, mas estou aqui
com todo meu coração, implorando por uma visão”.
Esse foi meu primeiro rezo, porque euentendia a nível racional.
Mas não é com a razão que se deve entender, é com o coração, pois
esse é o caminho do coração.
Em vésperas do meu primeiro tempo na montanha, recordo
como meu ser se estremecia de medo. Tinha muito medo do frio e da
montanha, medo da solidão e de enfrentar a mim mesma. Também
da fome e da sede, já que antes jamais havia jejuado.
Em relação ao medo, foi importante dar o passo e não ficar
paralisada. Ter a intenção de vencê-lo. Entregar-me a essa oportu-
nidade que estava me tomando. Dar-me conta de que o medo nos
limita, faz com que percamos muitas coisas.
Foi uma recapitulação de muitos aspectos do meu passado,
foi colocar em ordem e harmonizar a maioria das minhas relações.
Sabia que meu compromisso era muito forte, não era ante aos
homens, mas ante ao Grande Espírito e ao Grande Poder. Eu gostava
de me compromissar diretamente com o Criador, de me conectar
com Ele sem intermediários e dizer-lhe: “Estou implorando por
uma visão”. A cada um é dado o que ele necessita. Ali comecei uma
depuração do meu ser. Implorava por uma visão tantas vezes quanto
podia e com toda a humildade possível no meu coração, ainda que
não soubesse bem o que estava fazendo ali.
Havia coisas muito simples e muito profundas. Uma noite,
enquanto dormia, uma força quase elétrica atravessou meu espaço,
muito fugaz, mas muito forte. Despertei e pude sentir como essa ener-
gia estava na planta dos meus pés. Soube que é uma das maneiras em
que o Grande Espírito se manifesta. Não senti medo, pelo contrário,

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Aurelio Díaz Tekpankalli

senti muita paz. Essa experiência do primeiro ano fortaleceu muito


meu ser e veio cheia de presentes.
No segundo ano, sentia-me débil e tinha medo outra vez, não
estava fortalecida mentalmente. Então, vi quantos dos que nos havía-
mos proposto a ser guerreiros, havíamos quebrado. Dos vinte e cinco
que começaram esse compromisso no ano anterior, ficamos somente
cinco. Foi forte poder suportar esse ar, que, mais que uma brisa, era
um tufão que derrubou muitos. Afortunadamente, tive a ajuda dos
espíritos que me acompanharam nessa Busca da Visão. Eles sempre
trazem mensagens do Grande Criador.
Recapitulei toda minha vida de maneira profunda, alinhando
relações, rezando constantemente, resistindo e transpassando o li-
miar da sede, da dor. Vencer dúvidas e medo, confiar nos rezos, foi
uma prova forte. Adquirir valor, força, desenvolver a vontade, a fé,
principalmente.
Tive sonhos que me traziam coisas muito profundas e bonitas,
presenças muito nítidas de espíritos presentes ali. Cada um com uma
mensagem. Também tive visões, estando acordada, de espíritos pre-
sentes: um deles, uma mariposa, talvez o mais sutil. Passou sobre mim
fazendo-me refletir e me recordar como podemos nos transformar:
passar de ser uma larvinha a ter asas e poder voar.
Recebi instruções do que fazer para seguir caminhando. Depois
de tudo, a Imploração da Visão é com o que se vive, não somente nos
dias nos quais nos apresentarmos à montanha, mas cotidianamente.
Na montanha, durante a Busca da Visão, instruem-nospara
saber como trabalhar muitos aspectos de nosso ser e, assim, ir os
harmonizando com o Universo e com a Natureza.
Cada um desses anos foi um caminhar, porta a porta, com
muita paciência, desenvolvendo e polindo o ser. Rezando sempre
por força, valor, entendimento, humildade, paciência, integridade,
honestidade e disponibilidade.
Durante os nove dias do meu terceiro ano, os rezos foram
dirigidos à porta do oeste, ao mistério, ao anoitecer. Há que estar

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Uma Voz para os Filhos da Terra

sempre alerta, já que nos instruem para saber o que fazer com
nossas vidas.
Em uma tarde, choveu muito. Choveu tanto que molhou toda
a minha roupa e a coberta que levava comigo. Não sabia o que fazer,
a noite chegava e o pouco que tinha estava ensopado. Passei toda a
noite rezando em posição fetal para me dar calor a mim mesma. Pude
me dar conta de que a confiança no rezo é muito importante, não
senti o frio. Essa mesma noite me permitiu abandonar grande parte
do volumeque me estorvava para poder caminhar melhor.
Apreciamos muito o apoio que nos é dado desde o Fogo do
Tipi Cerimonia. Essa noite foi muito importante para mim.
Sempre obtive respostas bem precisas sobre situações bem
concretas. Assim, desejo sempre apontar meus rezos em direção ao
céu, sei que sempre são bem recebidos.
Comprir com o compromisso, ao quarto ano, é ir com toda a
humildade possível, rezando por mais humildade, integridade, ho-
nestidade, disponibilidade e vontade. Uma vez perguntei: “quando
deixamos de rezar por humildade?” “Nunca”, responderam-me.
O Criador colocou para nós tudo isso: o Pai Sol, a Mãe Terra,
o irmão vento, a irmã água, o legado e a memória de nossos antepas-
sados, todo o conjunto de seres vivos que ainda existem e que estão
por nascer. Para eles, eram e seguem sendo minhas orações. Esse
ano fui conjugar presente, passado e futuro. Recebi muito, muito,
do Grande Espírito. Abrir os olhos e me maravilhar com profundo
respeito ante a Mãe Natureza, sentir-me sua filha, fundir-me com o
Universo, desapegar-me, de repente: ser nada e ser tudo ao mesmo
tempo. Reconhecemo-nos como filhos ante ao Criador.
O ser recebe muitos presentes, intangíveis e invisíveis. Quero,
através da vida, reconhecê-los e merecê-los. Compartilhar essa ex-
periência com os demais. Esse é um compromisso muito sagrado. É
um compromisso para toda a vida.
Quero fazer um rezo agradecendo ao Grande Espírito por
mover as coisas assim, por fazer-nos ter a oportunidade de conhecer

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Aurelio Díaz Tekpankalli

a Tradição em sua forma mais simples e pura. De conhecer o Fogo,


tocar-nos o coração, despertar nosso amor, desenvolver nossa força,
suavizar nossa vontade, poder olhar e penetrar no Universo. Por nos
dar a oportunidade de sermos melhores, de poder nos sentir um
em tudo e tudo em um. Não são somente gotas, mas correntezas de
bem-estar. Graças à vida, a todas as minhas relações.

Este Livro foi impresso em 28 de agosto de 1996 em Los Talleres Gráficos


“P.S. Graphics”, na cidade de Chicago, USA.

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Uma Voz para os Filhos da Terra

*Foto*

1994. Ichuatzio - Michoacán, México.

Aurelio Díaz Tekpankalli, Purépecha, de Zamora, Michoacán, Mé-


xico, como Chefe Espiritual e líder da Igreja Nativa Americana de
Itzachilatlan, transmite a Tradição do Caminho Vermelho aos seres
que se aproximam para despertar e recordar. Até esse momento, sua
transmissão foi oral, mas hoje aceita que suas palavras sejam difun-
didas por escrito. Nasce, assim, este trabalho, através do qual você
pode espreitar a Sabedoria Ancestral da Tradição Indígena.
Cerimônias sagradas, simbologia, rituais, profecias, abrem-se para que
os Filhos da Terra possam escutar, em silêncio fecundo, os mandatos
do Grande Espírito para esses Tempos Sagrados.

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