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Protocolo de Avaliação e Controle dos Casos de

Escabiose no Residencial Israelita Albert Einstein

Versão eletrônica atualizada em


Junho – 2010

Junho - 2010
Autores do protocolo: Fernando Gatti de Menezes; Vanessa Maria da Silva
de Poli Correa; Luci Correa; Jacyr Pasternak

Definição

Descreve as ações referentes à avaliação e controle dos casos de escabiose


nos idosos atendidos no Residencial Israelita Albert Einstein, durante sua
permanência na instituição, assim como as orientações para os contatos.

Objetivos

Garantir a excelência no atendimento para os casos de escabiose entre os


moradores no Residencial Israelita Albert Einstein, bem como realizar
investigação epidemiológica no controle dos casos, evitando a transmissão
cruzada e surgimento de surtos.

Indicação

Idosos residentes no Residencial Israelita Albert Einstein (RIAE).

Instruções Específicas
1- Introdução
A escabiose é uma infecção dermatológica, cujo agente etiológico é:
Sarcoptes scabiei var. hominis (artrópode da ordem Acarina). A prevalência
mundial desta doença é estimada em aproximadamente 300 milhões de casos
anualmente e atinge todas as raças, gêneros, faixas etárias e classes sociais1;3.
Nos países em desenvolvimento, a escabiose representa um importante
problema de saúde pública, com prevalência variando entre 3,8% à 8,8%2.
A importância desse assunto em ILP (Instituição de Longa Permanência)
foi demonstrada por um estudo em 1992, envolvendo 130 instituições de longa
permanência no Canadá, onde se observou que cerca de 20% dos residentes
apresentaram pelo menos um episódio de escabiose no primeiro ano de
institucionalização. Outro estudo demonstrou uma incidência anual de 17% em
ILP num estado norte-americano em Michigan5;6.
A transmissão desta infecção ocorre através do contato direto ou indireto
(fômites, etc), sendo que o agente sobrevive até 36 horas no ambiente1.
O período de incubação pode variar entre 24 horas até 6 semanas,
sendo os sintomas clássicos: prurido intenso, que se intensifica à noite,
principalmente nos espaços interdigitais, punhos, axilas, região peri-umbilical,
cintura, nádegas, tornozelos, pênis e região peri-areolar7. A erupção pápulo-
eritomatosa que se forma na pele é considerada conseqüência da infestação e
de uma reação de hipersensibilidade ao ácaro8.
As características clínicas da escabiose nas pessoas idosas podem ser
diferentes do quadro clássico, manifestando de forma atípica como vesículas,
nódulos, crostas, eczemas, o que torna mais difícil o diagnóstico precoce, além
de atrasar o controle de surtos9.
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Entre as complicações clínicas, são descritas infecções bacterianas na
pele (superinfecções causadas por Streptococcus pyogenes e Staphylococcus
aureus), devido ao trauma ocasionado pelo ato de coçar na região afetada pela
dermatose8.
2- Diagnóstico
O diagnóstico é clínico, levando-se em consideração a epidemiologia,
características clínicas da lesão, onde três elementos devem ser observados:
1- sulco (pequena saliência linear que mede até um centímetro, que apresenta
em uma das extremidades uma vesico-pápula perlácea); 2 – localização e
distribuições características das lesões primárias; 3 - presença de lesões
secundárias concomitantes e piora dos sintomas à noite ou após banho quente.
A dificuldade do diagnóstico nos idosos está relacionada à presença de
manifestações atípicas da dermatose e a falta de informações adequadas na
anamnese, devido à presença de síndromes demenciais e quadros
degenerativos que atrasam o diagnóstico e a promoção de medidas de
controle4.
O diagnóstico laboratorial é realizado através da pesquisa do ácaro,
ovos ou cíbalos (fezes) em material obtido da escarificação com lâmina de
bisturi do sulco ou pápula, observado através de microscopia óptica em uma
lâmina com óleo mineral. Entretanto, este teste não exclui a doença, podendo
ser utilizado a biópsia de pele para aumentar a acurácia, bem como realizar o
diagnóstico diferencial com outras dermatoses1;8. Existem outros dois métodos
diagnósticos: vídeo-dermatoscopia e microscopia epiluminescente, pouco
utilizados no dia-a-dia, devido ao tipo especial de equipamento10.
No anexo 2 demonstramos uma proposta de fluxograma de atendimento
de caso suspeito de escabiose para o Residencial Israelita Albert Einstein (vide
abaixo).
3- Tratamento
O tratamento da escabiose pode ser realizado por via tópica ou oral.
Entre os fármacos de uso tópico, temos alguns exemplos: Permetrina creme
5% (considerado a primeira escolha pelo CDC - Atlanta, com resposta clínica
variando entre 76 a 100%), Lindano 1% (loção ou creme, com resposta clínica
acima de 90%). Com relação à terapia oral, a irvemectina apresenta-se com
resposta clínica entre 74 e 100%1;8. Benzoato de Benzila (loção a 10 ou 25%,
resposta clínica entre 47 e 56%) foi excluída como arsenal terapêutico desde
2006 pelo Ministério da Saúde, devido à alta toxicidade e resistência parasitária.
No anexo 1, demonstramos a opção do tratamento escolhido pela instituição,
após avaliação de diversos estudos sobre controle epidêmico de escabiose em
ILP10.
Quanto aos efeitos adversos, de acordo com a Organização Mundial de
Saúde (OMS, 1998), crises convulsivas podem ser associadas com uso de
benzoato de benzila, lindano, malathion e permetrina. Além disso, existem
relatos de diarréia e rash com uso de benzoato de benzila e permetrina10.
Como terapia adjuvante, sugerimos o uso dos seguintes anti-
histamínicos para a queixa de prurido: Cetirizina (Zyrtec®) 10mg VO 1x/d ou
Allegra® 120mg VO 1x/d ou Hidroxizine (Hixizine®) 25mg VO 1x/d à noite.
O prurido e a lesão cutânea podem persistir por 2 semanas após o
tratamento. Além desse período, recomenda-se nova avaliação do caso,
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considerando as seguintes hipóteses: diagnóstico incorreto, aplicação incorreta
do escabicida, pouca penetração do agente na pele e unhas das mãos, re-
infestação por meio de contatos ou fontes contaminadas, eczema secundário,
dermatite de contato causada pela terapia tópica ou resistência a droga8.
4- Prevenção
O Sarcopte scabiei é um parasita obrigatório que completa seu ciclo
biológico no homem e é capaz de sobreviver de 24-36 horas longe do
hospedeiro, em temperatura ambiente6.
A transmissão ocorre por meio do contato direto e indireto, sendo a
primeira forma a mais predominante. A disseminação acontece mais
facilmente de uma pessoa a outra em condições de aglomeração ou em
situações de contato direto prolongado.
Recomenda-se:
- Precaução durante o contato até 24 horas do início do tratamento
efetivo para os pacientes com escabiose;
- Cuidado com roupas e objetos pessoais: lavar numa temperatura
mínima de 60ºC ou ensacá-las por um período de 72 horas;
- Efetuar a troca de lençóis de cama e encaminhá-los para lavagem junto
com o enxoval hospitalar (temperatura de 80ºC);
- Providenciar a limpeza terminal no quarto após início do tratamento
efetivo.
O tratamento da pessoa infectada deve ocorrer ao mesmo tempo de
seus contatos.
Todos os casos de escabiose devem ser notificados ao Serviço de
Infecção Hospitalar do RIAE.
Controle Evolutivo

Após o início do tratamento espera-se que o paciente apresente melhora


dos sintomas, porém o prurido pode permanecer por até 15 dias. Se o
residente não apresentou melhora após o tratamento, deverá ser encaminhado
para avaliação de especialista para que seja levantado diagnóstico diferencial
e/ou realizado exame complementar (biópsia).

Anexos

Anexo 1 - Resumo de Possíveis Opções Terapêuticas Empíricas para


escabiose e contatos

Deve-se iniciar precauções durante o contato para todos os casos


suspeitos até o descarte da hipótese diagnóstica ou 24horas do
início do tratamento efetivo.
- Ivermectina 200 µg/Kg – via oral – repetir após 14 dias
- Permetrina 5% tópica aplicação única (enxaguar após 8 a 14 horas do
contato) – repetir após 7 dias*
- Cuidados com roupas e objetos pessoais – ensacá-las por um período
de 72 horas
- Trocar lençóis de cama – encaminhar para lavagem à alta
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temperatura (lavanderia hospitalar)
- Providenciar limpeza terminal no quarto após início do tratamento
efetivo
- Levantamento dos contatos das últimas 4 a 6 semanas

*deve ser usado combinado à terapia oral quando ocorrer grande


extensão da lesão, suspeita de resistência a irvemectina devido a
recidivas.

Anexo 2 - Fluxograma de Caso Suspeito de escabiose em Geriatria

Gerenciamento do protocolo
a) Indicadores de processo:
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- Percentual de Adesão ao protocolo

A Adesão ao protocolo será avaliada através dos seguintes parâmetros:


- Solicitação de raspado;
- Medicamento escolhido na terapêutica;
- Tempo de uso do tratamento previamente estipulado no protocolo;

b) Indicadores de resultado:

- Densidade de incidência de Escabiose no RIAE


- Incidência de Recorrência de Escabiose no RIAE
- Consumo percentual de medicamentos para o tratamento de Escabiose
- Custo do tratamento

Referências
1. Chosidow O. Scabies. N Engl J Med. 2006; 354: 1718 – 27.
2. Vorou R, Remoudaki HD, Maltezou HC. Nosocomial scabies. J Hosp
Infect. 2007; 65: 9 – 14.
3. Otero L, Varela JA, Espinosa E, Sánchez C, Junquera ML, Del Valle A et
al. Sarcoptes scabiei in a Sexually Transmitted Infections Unit: A 15-Year
Study. Sex Trans Dis. 2004; 31: 761 – 64.
4. Tsutsumi M, Nishiura H, Kobayashi T. Dementia-specific risks of scabies:
Retrospective epidemiologic analysis of an unveiled nosocomial outbreak
in Japan from 1989 – 90. BMC Infec Dis. 2005; 5: 1 – 7.
5. Andersen BM, Haugen H, Rasch M, Haugen AH, Tageson A. Outbreak
of scabies in Norwegian nursing homes and home care patients: control
and prevention. J Hosp Infect. 2000; 45: 160 – 64.
6. Larrosa A, Cortés-Blanco M, Martinez S, Clerencia C, Urdániz LJ, Urbán
J, et al. Nosocomial outbreak of scabies in a hospital in Spain.
Eurosurveillance. 2003; 8: 199 – 203.
7. Zafar AB, Beidas SO, Sylvester LK. Control of Transmission of
Norwegian Scabies. Infect Control Hosp Epidemiol. 2002; 23: 278 – 79.
8. Wendel K, Rompalo A. Scabies and Pediculosis Pubis: An Update of
Treatment Regimens and General Review. Clin Infect Dis. 2002; 35:
S146 – 51.
9. Richards CL. Infection Control in Long-Term Care Facilities. J Am Med
Dir Assoc. 2007; 8: S18 – 25.
10. Leone PA. Scabies and Pediculosis Pubis: An Update of Treatment
Regimens and General Review. Clin Infect Dis. 2007; 44: S153 - 59
Junho - 2010

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