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Magda Soares

(BU)
LETRAMENTO
UM TEMA EM TRÊS GÊNEROS

2ª edição
l ª reimpressão

a.
Autêntica
Belo Horizonte
1999
/:71 7-9/
C\QUISIÇÃO POR COMPRA Copyright © 1998 by Magda Soares
\DQUIRIDO DE "E)o " AÀ ~
Projeto gráfico:
Cristiane Linhares
2 2 MAR. 2000

REÇO
'J D O
}.
Capa:
Mirel/a Spinelli
EGi STRO 0 ~ 3 l )". 3 l. } ~ "' 1
Reja ne D ias
1AlA DO REGISTR03 3 JJ, 'lôoQ(sobre o quadro "As Meninas " de Renoi1)

Coordenação:
~
'-O
. ~
CEALF/FaE - UFMG
Sumário
Editoração eletrônica: . ~
Clarice Maia Scolli
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o
Revisão:
Luiz Prazeres
Rosa Maria Drumond Costa 3
\5)

Soares, Magda. APRESENTAÇÃO 09


S6761 Letramento: um tema em três gêneros / Magda Soa-
res . - Belo Horizonte : Autêntica, 1998 .
125p.
ISBN 85-86583-16-2
Letramento em verbete 13
1. Alfabetização. 2. Leitura. 3. Escrita. !. Título.
O QUE É LETRAMENTO?
CDU-3724

..
r

1999 Letramento em texto didático 27


O QUE É LETRAMENTO
Todos os direitos desta edição reservados à
Autêntica Editora E ALFABETIZAÇÃO
Rua Tabelião Ferreira de Carvalho, 584
31170-180 - Belo Horizonte - MG
PABX: (031) 481 4860 Letramento em ensaio 61
LETRAMENTO: COMO DEFINIR,
www.aurenticaeditora.com. hr COMO AVALIAR, COMO MEDIR
/:71 7-9/
C\QUISIÇÃO POR COMPRA Copyright © 1998 by Magda Soares
~DQUIRIDO DE ·9 a " ,,, .; ~
Projeto gráfico:
Cristiane Linhares
2 2 HAR. 2000
/ Capa :
'REÇO t..J DO Mirella Spinelli
EG~STRO 0 · 31 JC. 3 f. J.. Â Refane Dias
>AlA DO REGISTRO;l 3 JJ. ~ôoQ(sobre o quadro "As Meninas " de Renoir)

Coordenação:
CEALE!FaE - UFMG
Sumário
Editoração eletrônica:
Clarice Maia Scolli

Revisão:
Luiz Prazeres
Rosa Maria Drumond Cosia

Soares, Magda. APRESENTAÇÃO 09


S6761 Letramenco: um tema em três gêneros / Magda Soa-
res . - Belo Horizonte : Autêntica , 1998.
125p.
ISBN 85-86583-16-2
Letramento em verbete 13
1. Alfabetização. 2. Leitura. 3. Escrita. 1. Título.
O QUE É LETRAMENTO?
CDU-3724

..
'

1999 Letramento em texto didático 27


O QUE É LETRAMENTO
Todos os direitos desta edição reservados à
Autêntica Editora E ALFABETIZAÇÃO
Rua Tabelião Ferreira de Carvalho, 584
31170-180 -Belo Horizonte -MG
PABX: (031) 481 4860 Letramento em ensaio 61
LETRAMENTO: COMO DEFINIR,
www.aurenticaeditora.com.hr COMO AVALIAR, COMO MEDIR
12 Letramento

dizendo de outra forma: a que leitor se destina este livro?


Há duas respostas a essa pergunta.
A primeira resposta é que, embora os textos sejam, de
certa forma, recorrentes, não se repetem: a especifici-
clacle ela re lação autor-leitor em cada texto conduz a urna
situação discursiva diferente, que constró i um texto
também diferente; assim, os textos antes se somam que
se repetem, cada um ampliando, na seqüência em que ' LETRAMENTO EM
são apresentados, o tema único letramento.
VERBETE:
A segunda resposta é que o que neste livro se pretende
é não apenas discutir uma conceituação de letramento e
alfabetização, em suas diferentes facetas e dimensões,
mas também sugerir ao le itor a possibilidade ele in te-
rações discursivas diferenciadas sobre o mesmo tema,
em textos escritos, em função de diferentes relações autor-
leitor e diferentes condições ele produção, gerando textos
ele diferentes gêneros.
0 QUE É LETRAMENTO?
O leitor pretendido para este livro é, assim, aquele
que se interessa por letramento e alfabetização, por habi-
lidades e práticas socia is ele leitura e escrita, e que tam-
bém se interessa por uma análise discursiva elas práticas
ele produção ele texto e ele leitura, e busca compreender
as relações autor - texto - leitor, e suas conseqüências
na produção ele diferentes práticas discu rsivas e d ife-
rentes gêneros discursivos.

Texto publicado no periódico "Presença Pedagógica': V. 2, n. 10,


jul/ago. 1996, na seção "Dicionário crítico da Educação".
Verbete l 15

Letramento é palavra recém-chegada ao vocabulário


ela Educação e e.las Ciências Lingüísticas: é na segunda
metade elos anos 80, há cerca ele apenas dez anos, por-
tanto, que ela surge no discurso dos especialistas dessas
áreas . Urna elas primeiras ocorrências está em livro de
Mary Kato, de 1986 (No mundo da escrita: uma pers-
pectiva psicolíngüística, Editora Ática): a autora, logo no
início cio livro (p.7), diz acreditar que a língua falada
culta "é conseqüência e.lo letramento" (grifo rneu). 1 Dois
anos mais tarde , em livro ele 1988 (Adultos não alfabeti-
zados: o avesso do avesso, Editora Pontes) , Leda Vercliani
Tfouni, no capítulo introdutório , distingue alfabetização
de letramento: talvez seja esse o momento em que letra-
mento ganha estatuto de termo técnico no léxico e.los
campos da Educação e das Ciências Lingüísticas. Desde
então, a palavra torna-se cada vez mais freqüente no
discurso escrito e falado ele especial istas, de tal forma
que, em 1995, já figura em título de livro organizado
por Ânge la Kleiman: Os significados do letramento : uma
nova perspectiva sobre a prática social da escrita (grifo
meu , ver referência na nota 1).

' Ângel:t Klcirn:tn lev:1nt:1 :t hipótese de que Ma1y Kato é que ter:i cunh:tdo o termo
lct1:1111cnto (\"C:r nota d:t p.17 crn Kl.EIMAN, A. (Org.). Os sip,11i/i"cados do le1ru111e1110: u111a
not•a perspeclim sobre a prâlica social da escrila. Carnpin:ts: Mcrc1do de 1.ctr:ts, 1995).
161 Letramento
Verbete 117
O que explica o surgimento recente dessa palavra!' "letramento" caracteriza a palavra como "ant.", isto é,
Novas palavras são criadas (ou a velhas palavras dá-se "antiga, antiquada'', e lhe atribui o significado ele "escrita";
um novo sentido) quando emergem novos fatos, novas o verbete re mete ainda para o verbo "letrar" a que, como
idéias, novas maneiras ele compreender os fenômenos . transitivo direto, atribui a acepção ele "investigar, sole-
Que novo fato, ou nova idéia, ou nova maneira de compre- trando " e, como pronominal "letrar-se", a acepção de
ender a presença da escrita no mundo social trouxe a "adquirir letras ou conhecimentos literários" - signifi-
necessidade desta nova palavra , letramento!' cados bem distantes daquele que hoje se atribui a letra-
Se a palavra letramento ainda causa estranheza a muitos, mento (que, corno já dito, não aparece no Aurélio, como
outras palavras do mesmo ca mpo semântico sempre nos também nele não aparece o verbo "letrar").
foram familiares: analfabetismo, ana(fabeto, alfabetizm~ Certamente , pois, não fomos buscar no "letramento"
alfabetização, alfabetizado e, mesmo, letrado e iletrado. dicionarizado por Caldas Aulete, e já por ele considerado
Analfabetismo, define o Novo Dicionánó Aurélio da Língua vocábulo antigo, antiquado, o termo letramento com o
PortLtgLtesa, é o "estado ou condição de analfabeto'', e sentido que hoje lhe damos. Onde fomos buscá-lo? Trata-se,
analfabeto é o "que não sabe ler e escrever", ou seja, é sem dúvida, da versão para o Português ela palavra da
o que vive no estado ou condição ele quem não sabe ler e língua inglesa literacy.
escrever; a ação ele alfabetizar, isto é, segundo o ALtrélio, Etimologicamente, a palavra literacy vem do latim
de "ensinar a ler" (e também a escrever, que o dicionário littera (letra), com o sufixo -cy, que denota qualidade,
curiosamente omite) é designada por alfabetização, e condição, estado, fato de ser (como, por exemplo, em
alfabetizado é "aquele que sabe ler" (e escrever). Já innocency, a qualidade ou condição de ser inocente). No
letrado, segundo o mesmo dicionário, é aquele "versado \flebster's Dictionary, literacy tem a acepção de "the condi-
em letras, erudito", e iletrado é "aquele que não tem tion of being literate", a condição de ser !itera te/' e lite-
conhecimentos literários" e também o "analfabeto ou quase rate é definido como "ec!ucated; especially able to reacl
analfabeto". O dicionário Aurélio não registra a palavra and write'', educado, especialmente, capaz ele ler e escre-
"letramento". Essa palavra aparece, porém , num dicio- ver. Ou seja: literacy é o estado ou condição que assume
nário da língua portuguesa editado há mais de um século, aquele que aprende a ler e escrever. Implícita nesse con-
o Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, de ceito está a idéia de que a escrita traz conseqüências
Caldas Aulete: na sua 3ª edição brasileira, 2 o verbete sociais, culturais, políticas, econômicas, cognitivas, lingüís-
ticas, quer para o grupo social em que seja introduzida,
quer para o indivíduo que aprenda a usá-la. Em outras
' O Dicionário Co11te111porâ11eo da Lí11g11a Port11g11esa de Caldas Aulete teve as suas
três primeiras ed ições cm Lisboa (1881, 1925 e 19~8); a quarta cdiç·ão, e primeira palavras: do ponto de vista individual, o aprender a ler e
brasileira , é de 1958 (a segunda edição brasileira é de 1963 e a terceira, citada no escrever - alfabetizar-se, deixar de ser analfabeto,
texto, é de 1974). Como o dicion:hio sofreu nu1nerosas modifi cações ao longo de
suas suce:-;sivas edições, só uma pesquisa ncs:;:is cdiçàes permitiria <lctcnninar se :1
P"la vra letrc1111c11to aparece desde a primeira cd iç:'10, ou se foi introduzida cm cdic:'10
posterior, ou se sofreu mudança cm sua accpç:io ao longo do tempo. Pcsqui:"" ' Enquanto j:í incorporamos ao português a palavra letra111e11/o, correspondente ao
~C~'i:'iª n:iturc%a cm <licion~íric>s contribuem sobrema neira p:ir:1 :1 d:1t:1ç·ão de fatos, inglês /iteracy, ainda não temos palavra correspondente ao inglês /itera/e, que
1dc:1"s e fenàmenos e p·11··1 ·1 ·d
. , ~. ·
t·r· · -
· · · 1 en 1 1c1çao e o processo
1 d e 1r:1ns1ormaç:10
• - desses
designa aquele que vi,·c cm estado ou na condiç·:10 de saber ler e escrever; a pal:'.."r:i
fatos, 1dc 1:1s e fenômenos :io longo cio tempo.
letrado aind:t con:-;crv:1, c111 Po11uguês, o sentido de "versado cm lctr:1s, erudito ·
181 Letramento

tornar-se alfabetizado, adquirir a "tecnologia" do ler e prefácio que faz à obra recente de Justino Pereira ele
escrever e envolver-se nas práticas sociais ele leitura Magalhães,5 porque elas abonam o uso de literacia e
e ele escrita - tem conseqüências sobre o indivíduo, ainda afirmam a diferença entre esse termo e o termo
e altera seu estado ou condição em aspectos sociais, analfabetismo, esclarecendo o sentido do primeiro: Antó-
psíquicos, culturais, políticos, cognitivos, lingüísticos e nio Nóvoa lamenta que Portugal vá "fechar o século XX
até mesmo econômicos; elo ponto ele vista social, a intro- com níveis intoleráveis ele analfabetismo (talvez ela or-
dução ela escrita em um grupo até então ágrafo tem sobre dem dos 15%) e com níveis ainda mais baixos de litera-
esse grupo efeitos ele natureza social, cultural, política , cia, entendida aqui como a utilização social ela competência
econômica, lingüística. O "estado" ou a "condição" que o alfabética" (grifos meus).
indivíduo ou o grupo social passam a ter, sob o impacto
É significativo refletir sobre o fato de não ser ele uso
dessas mudanças, é que é designado por /iteracy. 1
corrente a palavra alfabetismo, "estado ou qualidade ele
É esse, pois, o sentido que tem letramento, palavra que alfabetizado", enquanto seu contrário, analfabetismo,
criamos traduzindo "ao pé ela letra" o inglês literacy: letra-, "estado ou condição de analfabeto", é termo familiar e
elo latim littera, e o sufixo -mento, que denota o resultado de universal compreensão. O que surpreende é que o
ele uma ação (como, por exemplo, em ferimento, resultado substantivo que nega - analfabetismo se forma com o
ela ação ele ferir). Letramento é, pois, o resultado ela ação prefixo grego a(n) -, que denota negação - seja de uso
ele ensinar ou ele aprender a ler e escrever: o estado ou a corrente na língua, enquanto o substantivo que afirma -
condição que adquire um grupo social ou um indivíduo alfabetismo - não seja usado. Da mesma forma, analfa-
como conseqüência de ter-se apropriado ela escrita. beto, que nega, é também palavra corrente, mas nem
Dispúnhamos, talvez, ele uma palavra mais "verná- mesmo temos um substantivo que afirme o seu contrário
cula": alfabetismo, que o Aurélio (que não dicionariza (já que alfabetizado nomeia aquele que apenas aprendeu
letramento, como já dito) registra, atribuindo a essa pala- a ler e a escrever, não aquele que adquiriu o estado ou a
vra, entre outras acepções, a ele "estado ou qualidade ele condição de quem se apropriou da leitura e ela escrita,
alfabetizado". Entretanto, embora dicionarizada, alfabetis- incorporando as práticas sociais que as demandam) .
mo não é palavra corrente, e, talvez por isso, ao buscar A explicação não é difícil e ajuda a clarear o sentido ele
uma palavra que designasse aquilo que em inglês já alfabetismo, ou letramento.
se designava por literacy, tenha-se optado por v~rter a Como foi dito inicialmente, nov_as palavras são criadas,
palavra inglesa para o português, criando a nova palavra ou a velhas palavras dá-se um novo sentido, quando emer-
letramento . Curiosamente, em Portugal tem-se prefe- gem novos fatos, novas idéias, nov-;s ~aneiras de compre-
rido o termo literacia, mais próximo ainda elo termo in- ender os fenômenos. Conhecemos bem, e há muito , o
glês. Vale a pena citar as palavras de António Nóvoa em "estado ou condição de analfabeto", que não é apenas o

' 1\a língua francesa, a palavra corresponde nte a illitemcy é i/le11ris111e, que se ' Ler e escrever no mundo rural do Antigo Regime: 11111 contrib11to para a bistória da
distingue de analpbabétisme analpbabête é o que n:io "'be ler e escrever; illellré é alfábetizaçào e da escolarização em Port11gal. Universidade do Jl..·l inho , In stituto de
o que lê e escreve mal, e 11'10 sabe fazer u'o da leitura e da escrita. Educaçfo, 1994.
'.JJ Letramento
Verbete 121

estado ou condição de quem não dispõe da "tecnologia" Curiosamente, o mesmo fenômeno ocorreu na língua
do ler e do escrever: o analfabeto é aquele que não pode inglesa, em que illiteracy foi termo corrente muito antes
exercer em toda a sua plenitude os seus direitos ele cidadão, que o termo literacy emergisse: o Oxford English Dictio-
é aquele que a sociedade marginaliza, é aquele que não nary registra o termo illiteracy desde 1660, ao passo que
tem acesso aos bens culturais de sociedades letradas e, seu contrário literacy só surge no fim do século XIX.
mais que isso, grafocêntricas; porque conhecemos bem, e Certamente o surgimento neste momento do termo litera-
há muito, esse "estado de analfabeto", sempre nos foi cy representa uma mudança histórica das práticas sociais:
necessária uma palavra para designá-lo, a conhecida e novas demandas sociais ele uso da leitura e da escrita
corrente analfabetismo. Já o estado ou condição ele quem exigiram uma nova palavra para designá-las. (Observe-
sabe ler e escrever, isto é, o estado ou condição de quem se que o que ocorreu na Grã-Bretanha em fins do século
responde adequadamente às intensas demandas sociais XIX, motivando o aparecimento do termo literacy, só agora,
pelo uso amplo e diferenciado da leitura e da escrita, esse em fins do século XX, vem ocorrendo no Brasil, motivan-
fenômeno só recentemente se configurou como uma reali- do a criação elo termo letramento.)
dade em nosso contexto social. Antes, nosso problema
Quanto à mudança na maneira de considerar o signifi-
era apenas o elo "estado ou condição de analfabeto" - a
cado elo acesso à leitura e à escrita em nosso país - ela
enorme dimensão desse problema não nos permitia
mera aquisição ela "tecnologia" elo ler e cio escrever à
perceber esta outra realidade, o "estado ou condição ele
inserção nas práticas sociais ele leitura e escrita, ele que
quem sabe ler e escrever", e, por isso, o termo analfabe-
resultou o aparecimento do termo letramento ao lado
tismo nos bastava, o seu oposto - alfabetismo ou letra-
elo termo alfabetização - um fato que sinaliza bem
mento - não nos era necessário. Só recentemente esse
oposto tornou-se necessário, porque só recentemente essa mudança, embora ele maneira tímida, é a alteração
passamos a enfrentar esta nova realidade social em que elo critério utilizado pelo Censo para verificar o número
não basta apenas saber ler e escrever, é preciso também ele analfabetos e ele alfabetizados: durante muito tempo,
saber fazer uso elo ler e elo escrever, saber responder considerava-se analfabeto o indivíduo incapaz ele escre-
às exigências de leitura e de escrita que a sociedade ver o próprio nome; nas últimas décadas, é a resposta à
faz continuamente - daí o recente surgimento do termo pergunta "sabe ler e escrever um bilhete simples?" que
letramento (que, como já foi dito, vem-se tornando define se o indivíduo é analfabeto ou alfabetizado. Ou
de uso corrente, em detrimento do termo alfabetismo). 6 seja: da verificação ele apenas a habilidade de codificar o
próprio nome passou-se à verificação ela capacidade ele
usar a leitura e a escrita para uma prática social (ler ou
'' U111 claro indicador de que a palavra !etra111e11to é nova no léxico da Língua escrever um "bilhete simples"). Embora essa prática seja
Portuguesa e ainda de circulai;·ão restrita ü área acadê111ica é a tradução que se fez
recente111entc do termo literacy na ve rsão para o Português da import1nte obra
ainda bastante limitada, já se evidencia a busca ele um
Literacy a11d Ora!izy, editada por David H. Olson e l'\ancy Torrance (C11/t11ra escrita "estado ou condição de quem sabe ler e escrever", mais
e oralidade, Editora Ática, 1995): o termo /iteracy, tanto no título da obra quanto ao
longo de todos os capítulos, foi inadequada111cntc traduzido por "cultura escrita ", que a verificação da simples presença da habilidade ele
ignorando-se o termo /etra111e11to (ou mes1110 a!/abetismo) , e prejudicando-se assim codificar em língua escrita, isto é, já se evidencia a tenta-
enormemente a correta compreensão dos textos, j:í que a express:10 "cultur;1 escrita"
de fornu nenhuma exprc~sa o conceito que literac.-J' nnineia.
tiva de avaliação do nível ele letramento, e não apenas
221 Letramento Verbete 123

a avaliação da presença ou ausência da "tecnologia" do nós, brasileiros, quando denunciamos o nosso ainda alto
ler e escrever. índice de analfabetismo), mas estão denunciando um
A avaliação do nível de letramento, e não apenas da alto número de pessoas que evidenciam não viver em
presença ou não da capacidade de escrever ou ler (o estado ou condição de quem sabe ler e escrever, isto é,
índice de alfabetização) é o que se faz em países desen- pessoas que não incorporaram os usos da escrita, não se
volvidos, em que a escolaridade básica é realmente obri- apropriaram plenamente das práticas sociais de leitura e
gatória e realmente universal, e se presume, pois, que de escrita: em síntese, não estão se referindo a índices
toda a população terá adquirido a capacidade de ler e de alfabetização, mas a níveis de letramento . Um
escrever. Assim, de um modo geral , esses países tomam exemplo é a pesquisa desenvolvida na segunda metade
como critério para avaliar o nível de letramento da popu- dos ano 80 nos Estados Unidos, buscando identificar o
lação o número de anos de escolaridade completados nível de letramento (literacy) ele jovens americanos (fai-
pelos indivíduos (4, 5 ou mais, dependendo do país que xa etária de 21 a 25 anos): em primeiro lugar, os instru-
se esteja considerando e ainda do momento histórico: o mentos utilizados avaliaram as habilidades de ler,
número de anos de escolaridade tomado como critério compreender e usar textos em prosa, como editoriais,
" cresce ao longo do tempo, à medida que crescem as reportagens, poemas, etc. e de localizar e usar informa-
"'"'• demandas sociais de leitura e escrita): o pressuposto é ções extraídas de mapas, tabelas, quadros de horários,
que a escola, em 4, 5 ou mais anos, terá levado os indi- etc., o que evidencia que o objetivo não foi verificar se
víduos não só à aquisição da "tecnologia" do ler e do os jovens sabiam ler e escrever - se eram alfabetiza-
escrever, mas também aos usos e práticas sociais da leitu- dos - mas se sabiam fazer uso de diferentes tipos de
ra e da escrita, a uma adequada imersão no mundo da material escrito, compreendê-los, interpretá-los e extra-
escrita. O que interessa a esses países é a avaliação do ir deles informações - que nível de letramento tinham;
nível de letramento da população, não o índice de alfa- em segundo lugar, a conclusão ela pesquisa foi que a
betização, e freqüentemente buscam esse nível pela re- illiteracy (a incapacidade ele ler e escrever, isto é, o
alização de censos por amostragem em que, por meio de analfabetismo) não era um problema entre os jovens, a
numerosas e variadas questões, avaliam o uso que as literacy (a capacidade de fazer uso ela escrita, isto é, o
pessoas fazem da leitura e da escrita, as práticas sociais letramento) é que constituía o problema.
de leitura e de escrita de que se apropriaram. A diferença entre alfabetização e letramento fica
Sendo assim, é importante compreender que é a clara também na área das pesquisas em Educação, em
letramento que se estão referindo os países desenvol- História, em Sociologia, em Antropologia. As pesquisas
vidos quando denunciam, como têm feito com freqüên- que se voltam para o estudo do número de alfabeti-
cia, índices alarmantes de illiteracy (Estados Unidos, zados e analfabetos e sua distribuição (por região, por
Grã-Bretanha, Austrália) ou de illettrisme (França) na sexo, por idade, por época, por etnia, por nível socio-
população; na verdade , não estão denunciando, como se econômico, entre outras variáveis), ou que se voltam
costuma crer no Brasil, um alto número de pessoas que para o número de crianças que a escola consegue levar
não sabem ler e escrever (fenômeno a que nos referimos à aprendizagem ela leitura e ela escrita, na série inicial,
Verbete 125

são pesquisas sobre alfabetização; as pesquisas que a que chamamos alfabetização, e apontam a importân-
buscam identificar os usos e práticas sociais de leitura e cia e necessidade de se partir, nos processos educati-
escrita em determinado grupo social (por exemplo, em vos de ensino e aprendizagem ela leitura e da escrita
comunidades de nível socioeconômico desfavorecido, voltados seja para crianças, seja para adultos, de uma
ou entre crianças, ou entre adolescentes), ou buscam clara concepção desses fenômenos e de suas diferen-
recuperar, com base em documentos e outras fontes, as ças e relações.
práticas de leitura e escrita no passado (em diferentes
épocas, em diferentes regiões, em diferentes grupos
sociais) são pesquisas sobre letramento.
Uma última inferência que se pode tirar do conceito
de letramento é que um indivíduo pode não saber ler
e escrever, isto é, ser analfabeto, mas ser, de certa
forma, letrado (atribuindo a este adjetivo sentido vin-
i
' ' culado a tetramenta). Assim, um adulto pode ser anal-
"'
"'
"' fabeto, porque marginalizado social e economicamente,
mas, se vive em um meio em que a leitura e a escrita
têm presença forte, se se interessa em ouvir a leitura
de jornais feita por um alfabetizado, se recebe cartas
que outros lêem para ele, se dita cartas para que um
alfabetizado as escreva (e é significativo que, em ge-
ral, dita usando vocabulário e estruturas próprios da
língua escrita), se pede a alguém que lhe leia avisos
ou indicações afixados em algum lugar, esse analfabe-
to é, de certa forma, letrado, porque faz uso da escri-
ta, envolve-se em práticas sociais de leitura e ele escrita.
Da mesma forma, a criança que ainda não se alfabeti-
zou, mas já folheia livros, finge lê-los, brinca de escre-
ver, ouve histórias que lhe são lidas, está rodeada ele
material escrito e percebe seu uso e função, essa criança
é ainda "analfabeta", porque não aprendeu a ler e a
escrever, mas já penetrou no mundo elo letramento,
já é, de certa forma, letrada. Esses exemplos eviden-
ciam a existência deste fenômeno a que temos chama-
do letramento e sua diferença deste outro fenômeno