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Uma Crítica Monetarista à Descentralização da Moeda

Autor: João Pedro Passos Nicaretta (2017)

Resumo: O presente artigo apresenta uma argumentação geral acerca da moeda, bem
como a importância de sua centralização, e os problemas que a sua descentralização
geraria. Sendo assim, o objetivo do artigo é expor uma crítica às ideias de descentralização
da moeda, promulgadas principalmente pela Escola Austríaca de Economia, tendo a
grandiosa obra “Desestatização da Moeda”, de F.A Hayek, como referência aos
argumentos desta escola de pensamento econômico.

Palavras-Chave: Moeda; Monetarismo; Estabilidade Macroeconômica; Macroeconomia;

“A inflação é sempre e em qualquer lugar um fenômeno de natureza puramente monetária”

– Milton Friedman
Sumário

1. INTRODUÇÃO
2. POSTULADOS GERAIS ACERCA DA MOEDA
2.1 Teoria Quantitativa da Moeda (TQM)

2.2 Estabilidade Macroeconômica e Políticas Monetárias na Visão Monetarista

3. OS PROBLEMAS GERAIS DA DESCENTRALIZAÇÃO DA MOEDA


4. CONCLUSÃO
Introdução
Em termos econômicos, moeda é tudo aquilo que é aceito para liquidar as transações,
isto é, para pagar pelos bens e serviços e para quitar obrigações, ou seja, de acordo
com esta definição, qualquer coisa pode ser moeda, desde que aceita como
forma de pagamento. Ela é considerada o instrumento básico para que se possa
operar no mercado, pois atua como meio de troca. Quando um indivíduo vende seu
produto, ele receberá moeda pelo produto vendido e, por conseguinte, terá moeda
para comprar aquilo que desejar.
O grande problema desta definição é que a moeda vai muito além disso. A moeda
desempenha a função de unidade de conta (também chamado de denominador
comum de valor), isto é, fornece um padrão para que as demais mercadorias
expressem seus valores, ou seja, funciona como um referencial para que os valores
dos demais produtos sejam cotados no mercado. Por conta disto, faz-se obrigatório
que a moeda possua uma estabilidade, para manter a confiança dos agentes
econômicos e evitar com que percam seus investimentos por flutuações cíclicas da
moeda.
Por conta dessa obrigatoriedade em manter a estabilidade da moeda que o Estado
passou a tomá-la como função, através de um Banco Central (usar-se-á a abreviação
BC). Antes de avançarmos no argumento em defesa do BC, precisamos definir
algumas de suas funções, por motivos didáticos.
Um Banco Central, de forma geral, desempenha as seguintes funções:
– Monopólio da Emissão;
– Banco do Governo;
– Banco dos Bancos;
– Supervisor do Sistema Financeiro;
– Executor da Política Monetária;
– Executor da Política Cambial e Depositário das Reservas Internacionais.
No decorrer do texto, focaremos nas funções que estão diretamente ligadas à
estabilidade monetária: Monopólio da Emissão, Executor da Política Monetária e
Executor da Política Cambial.
Na Antiguidade, com a fixação do homem na terra e o fim do estado de nômade, este
passou a produzir e a trocar o excedente do que produzia. Desta forma, surgiu o
escambo, o qual consistia na troca direta de mercadorias.
A história da moeda se desenvolve como uma consequência natural desse processo
de trocas de bens e serviços. O estabelecimento do uso de moedas foi uma tentativa
de organizar e estabelecer padrões do comércio de produtos, além de substituir a
simples troca de mercadorias, a qual era predominante. No início foram usadas
mercadorias de grande valor como referência, como o sal, a banana, etc.
Nos primeiros séculos de utilização das moedas, estas tinham um valor real, ou seja,
representavam fielmente seus valores de acordo com o metal que era usado na
fabricação. Após certo tempo, os valores passaram a ser apenas nominais.
Com a chegada da moeda fiduciária, ganhamos uma cara nova: a confiança. Desta
vez, o valor da moeda não é baseado em uma commoditie como o ouro, mas sim na
confiança (fidúcia) das pessoas no seu emissor, no caso, o governo. Isto é, surge um
novo período no capitalismo, que é o de moeda crédito. Vivemos hoje nesse período,
mais especificado como período da economia complexa.
O mercado de crédito é importante para os setores que exigem pagamentos de curto
prazo na economia, isto é, as micro e pequenas empresas. Essas empresas são os
principais absorvedores dos investimentos produtivos. Algumas empresas optam por
tomar empréstimos diretamente do público, vendendo títulos de sua empresa, os
quais prometem, além de devolver a quantia emprestada, certa taxa de juros sobre o
montante emprestado, que será pago ao comprador deste título após um determinado
prazo de tempo. O comprador não necessita esperar o vencimento do título, podendo
vendê-lo a outro interessado.

2. Postulados Gerais Acerca da Moeda


Como citado anteriormente, a moeda desempenha a função de unidade de conta, ou
seja, ela é um referencial para o ajuste de preços dos outros bens e serviços dos
agentes econômicos. A partir dessa colocação, podemos concluir que a moeda, de
certa forma, desempenha um papel regulamentarístico, no que tange o nível geral
de preços. Isto é, a Teoria Quantitativa da Moeda (usar-se-á a abreviação TQM)
estaria correta, baseando-se nessa definição, e é a partir disso que discorrerei no
decorrer do texto.
2.1 Teoria Quantitativa da Moeda (TQM)
A Teoria Quantitativa da Moeda ficou muito famosa por conta do economista Milton
Friedman, que foi o mais influente economista da segunda metade do século XX. No
entanto, essa teoria já existia muito antes. Já no século XVIII, o filósofo David Hume
publicara alguns ensaios acerca de postulados quantitativistas.

“O dinheiro não é nada além da representação do trabalho e dos produtos de uma economia, servindo
somente como um método da avaliação ou de mensuração. Onde a moeda se encontra em maior
abundância, maior a quantidade que se exige dela para representar a mesma quantidade de bens,
não podendo ter efeito algum, bom ou mau, além de simplesmente alterar a escrita dos comerciantes.”
(HUME, 1752)

Muito embora Hume (1752) tenha deixado claro que isso não deveria ser entendido
como ponto de maior relevância em sua teoria, ele percebeu a existência de efeitos
transitórios sobre os preços, emprego e quantidade de bens em circulação antes que
o estado da economia alcance o nível de equilíbrio em consequência de uma variação
no estoque monetário. Tais efeitos se dariam pelo fato de que a mudança na
quantidade de moeda não acontece de modo uniforme na economia. Alguns agentes
são privilegiados por que se beneficiam de ter em seu domínio uma maior quantidade
de moeda antes dos demais agentes da economia.

“Quando certa quantidade de moeda é importada por uma nação, de início ela não se dispersa,
permanecendo confinada nos cofres de algumas poucas pessoas que imediatamente procuram tirar
vantagens disso. São industriais ou negociantes (…) que se tornam capazes de empregar mais
trabalhadores os quais não demandam inicialmente por maiores remunerações (…) Esses
trabalhadores agora com mais dinheiro podem comer e beber melhor. O fazendeiro e o jardineiro
percebendo que suas mercadorias estão sendo levadas, esforçam-se em conseguir mais bens de
consumo (…) É fácil perceber que a trajetória da moeda em seu percurso acelera a diligência dos
indivíduos antes que o preço do trabalho se eleve.” (HUME, 1752)

No entanto, essa teoria só veio a se tornar oficial a partir de 1911, com o economista
Irving Fisher (na obra The Purchasing Power of Money).

PY = MV

P = Nível de preços; Y = Nível de produto; M = Quantidade de moeda; V =


Velocidade de circulação da moeda;

A TQM seria, então, uma teoria que tratava da demanda por moeda. Muita atenção
neste detalhe, muitas pessoas acabam confundindo-a como uma teoria de análise do
nível de preços do mercado.
Para tornar a TQM uma teoria de oferta de moeda, e não apenas uma simples
identidade, Fisher assumia que a velocidade de circulação da moeda era constante e
que o produto era dado no curto prazo, determinado pela oferta. Logo, variações no
estoque de moeda levam a variações na mesma magnitude e direção no nível de
preços. Já na segunda equação, assumindo equilíbrio no mercado monetário, isto é
(v = 1/k), o que leva a que (M = Md), tem-se uma demanda por moeda que depende
basicamente dos preços, pois, mantendo as hipóteses feitas por Fisher, a proporção
da renda nominal mantida sob a forma de moeda e o produto são constantes no
equilíbrio. Dessa forma, garante-se a estabilidade da demanda por moeda, no sentido
que, para um dado nível de preços, os agentes sabem o quanto de suas rendas
nominais devem alocar sob a forma de moeda.
Fisher tinha em mente que existe uma relação estável que diz que o estoque de
moeda bancária é um múltiplo do total de moeda básica. Assim, quando este volume
se altera continua valendo a ideia de que o nível de preço muda na mesma proporção.
A forma expandida da equação de Fisher serve para analisar os efeitos temporários
de uma mudança no estoque de moeda. De acordo com Fisher (1911) “quando o
estoque de moeda dobra repentinamente os efeitos iniciais e finais não são os
mesmos”. Uma vez terminado o processo, o nível de preços se multiplica por dois.
Entretanto, durante o período de transição “antes que se alcance um novo equilíbrio
os preços podem oscilar para cima e para baixo”. Uma ideia fundamental em Fisher é
a de que são os movimentos na taxa de juros induzidos pela inflação durante o período
de transição que geram os ciclos econômicos. No clássico The Theory of Interest, de
1930, ele propôs o que se conhece hoje como “Efeito Fisher”, que diz que a taxa de
juros nominal se ajusta na mesma medida da taxa de inflação. Contudo, isso não
acontece de modo imediato e a lentidão deste ajuste, segundo Fisher, é o cerne dos
períodos de euforia e crise da economia.
2.2 Estabilidade Macroeconômica e Políticas Monetárias na Visão Monetarista
O objetivo final da política monetária é o bem-estar da sociedade. Embora seja difícil
discordar deste objetivo, certamente existe grande divergência entre os economistas
de como implementá-lo na prática. Os monetaristas enfatizam a estabilidade do nível
de preços; os economistas keynesianos preferem o nível de emprego. A controvérsia
sobre a curva de Phillips terminou convencendo os economistas keynesianos que no
longo prazo a política monetária afeta somente o nível de preços e não o nível de
atividade econômica.. Todavia, os economistas keynesianos acreditam que mesmo
assim o Banco Central pode contribuir para que a duração de uma recessão seja
abreviada com uma política monetária mais expansionista.
Não podemos falar da estabilidade monetária sem falar do monetarismo, uma vertente
de pensamento liberal associada à Milton Friedman, da Escola de Chicago
(Economia).
Quatro textos se destacam: Friedman (1960), Friedman (1962), Friedman & Schwartz
(1963) e Friedman (1968).

Friedman (1960) mostra como os monetaristas acreditavam que a política monetária


deveria ser gerida. Primeiramente, Friedman propôs que o multiplicador monetário
dos bancos comercias fosse abolido, pois só assim o controle da moeda por parte do
BC seria totalmente eficiente em termos de estabilização. Caso o multiplicador não
fosse abolido, ou ao menos controlado, a política monetária não teria tanto efeito
porque parte da moeda seria criada pelo setor privado. Todavia, ao abolir o
multiplicador, os BCs teriam ainda mais poder sobre a política monetária, o que de um
lado seria positivo, dado que traria mais capacidade à autoridade monetária em
termos de meios de se alcançar a estabilidade, mas, por outro lado, seria negativo, já
que um BC com grande poder em mãos pode gerar tanto estabilização, quanto grande
instabilidade. Para evitar que o caminho adotado pelo BC fosse o da instabilidade,
Friedman propôs que essa instituição adotasse regras para conduzir a política
monetária, e assim evitar a discricionariedade, que na visão do autor era a fonte da
desestabilização. Naquele momento Friedman estava propondo uma regra que
controlasse o crescimento do estoque de moeda (regra monetarista).
Já Friedman (1962) é uma das mais conhecidas obras do autor. Curiosamente, o
enfoque dela não é o pensamento monetarista e sim a defesa do liberalismo
econômico e da liberdade individual, em seus mais diversos aspectos, como a melhor
forma de se organizar a sociedade. Um desses aspectos é a questão do controle do
dinheiro. O argumento do autor era o de que dar ao BC a autoridade de controlar a
moeda é incumbir um poder extraordinário a um pequeno grupo de pessoas. forma as
ações discricionárias dessas pessoas podem levar um abuso de poder monetário 4
que atingiria a sociedade, ferindo assim a liberdade individual. Nessa discussão
travada por Friedman em 1962 reaparecia a questão das regras de política monetária.
Tais instrumentos seriam uma forma de evitar abusos monetários que não só atingem
a liberdade individual, mas principalmente, levam à discricionariedade que impede a
estabilidade macro. O autor lembrou que em sistemas monetários onde a moeda era
lastreada (como padrão ouro e BrettonWoods) o BC tinha muito mais dificuldade de
tomar medidas discricionárias, pois o próprio lastro servia como restrição. Por
exemplo, se existe uma taxa fixa de conversibilidade entre o papel-moeda e uma dada
mercadoria, como o ouro, o BC não pode emitir mais moeda sem que mais dessa
mercadoria seja produzida, ou no caso do ouro descoberta. Acontece que o mesmo
lastro que fornece a limitação para a discricionariedade também limita a política
monetária. Caso o BC tenha que emitir mais moeda ele não poderá tomar tal atitude
a não ser que seja descoberto mais ouro ou qualquer outro lastro. Dessa forma,
Friedman concluiu que o sistema monetário sem lastro é a melhor saída para a
economia, desde que regras sejam estabelecidas para evitar a discricionariedade.

Friedman (1962) volta a sugerir a regra monetarista, mas lembra que ter uma regra é
mais importante do que a regra em si e admitindo que a regra que ele estava propondo
era a melhor naquele momento do conhecimento científico e que poderia ser
modificada no futuro.

No ano seguinte, Friedman voltou a estudar mais especificamente a questão


monetária em Friedman & Schwartz (1963) que trata da história monetária dos EUA.
A novidade trazida pelo texto foi uma reinterpretação para a Grande Depressão dos
anos 1930. Contrariando o senso comum, que, numa visão keynesiana, atribuía a
crise à especulação e aos desequilíbrios do setor privado, sobretudo o mercado
acionário, Friedman & Schwartz (1963) afirmam que a Grande Depressão foi causada
fundamentalmente pelo Fed, que contraiu dramaticamente o estoque de moeda no
final da década de 1920, fazendo com que o nível de preços e renda também
despencasse. O texto consolida a ideia monetarista de que as grandes oscilações
macro são causadas por desequilíbrios na condução da política monetária; os autores
analisam todas as crises econômicas norte-americanas entre 1867 e 1960, e afirmam
que não houve nenhuma crise que não estivesse associada a uma variação
significativa no estoque de moeda, mesmo depois da fundação do Fed.

Sobre o Fed, o texto ressalta que essa instituição foi criada em 1913 com o objetivo
de garantir a liquidez em meio ao padrão ouro. Friedman & Schwartz (1963) lembram
que antes de os EUA terem uma autoridade monetária centralizadora e emissora de
papel-moeda, a moeda era um bem privado emitido pelos bancos comerciais. Em
momentos de crise as pessoas corriam aos bancos e tentavam trocar seus dólares
por ouro. Acontece que nem toda moeda era lastreada em ouro; por esse motivo os
bancos dificultavam a conversibilidade, pois caso a permitissem livremente se
tornariam insolventes. Por esse motivo os próprios banqueiros propuseram a criação
de um banco central que garantisse a liquidez do sistema em momentos de crise, em
meio ao padrão ouro. Ocorre que logo após a criação do Fed eclodiu a Primeira
Guerra Mundial, o que fez com que os EUA abandonassem o padrão ouro.

Sendo assim, Friedman & Schwartz (1963) dizem que logo após ser criado o Fed
perdeu parte do seu sentido e passou a ser uma instituição que detinha o monopólio
sobre a emissão de moeda e que poderia, a partir do fim do lastro, emiti-la sem
limitações. Com esse imenso poder discricionário e certa falta de experiência na
função de emissor único de moeda, o BC americano passou a ser muito mais um
gerador de instabilidade do que um estabilizador. Essa conclusão ratificava a defesa
das regras de política monetária feita por Friedman. As questões levantadas em
Friedman & Schwartz (1963) abriram caminho para Friedman explorar mais ainda os
detalhes da política monetária, o que veio a ocorrer em 1968. Resumidamente, pode-
se afirmar que Friedman (1968) ressalta o que a política monetária pode fazer, o que
ela não pode fazer e o que ela deve fazer. Além disso, o autor tentava mostrar qual
deveria ser o papel dos BCs na economia

Friedman (1968) afirma que o que a política monetária não pode fazer é garantir que
a inflação e o desemprego sejam baixos ao mesmo tempo; segundo o texto a política
monetária só pode afetar variáveis reais no curto prazo, o que consolida a ideia de
que a moeda é neutra no longo prazo. Em relação ao que a política monetária pode
fazer, no longo prazo, Friedman (1968) afirma que ela pode afetar as principais
variáveis nominais da economia (taxa de câmbio, inflação e estoque de moeda). Logo,
se uma regra monetária fosse necessária teria que ser sobre uma dessas variáveis.
Dessa forma Friedman ratificava o que havia dito em 1962: no estágio do
conhecimento daqueles tempos a melhor regra possível era a monetarista – controle
do estoque de moeda – pois das três variáveis a moeda é aquela sobre a qual o BC
tem maior influência. Friedman (1968) fala que uma regra sobre a taxa de câmbio
geraria dificuldades de adaptação aos agentes no mercado e aparentemente não tem
sentido quando o objetivo é controlar a inflação. Por esse mesmo motivo poderia
parecer mais do que natural que o autor propusesse uma regra sobre o nível de
preços, como as metas de inflação, mas ele enfatizou que a política monetária leva
certo tempo para fazer efeito. Na visão do autor essa defasagem seria menor quando
se manipulasse a moeda do que quando se tentasse afetar preços diretamente. Dessa
forma mesmo que o ideal fosse controlar inflação diretamente a defasagem da política
monetária não permitiria tal atitude. Essa justificativa se baseava no fato de que
quanto maior fosse o período de defasagem melhor deveriam ser as previsões. Como
fazer previsões de longo prazo era algo bastante complicado uma regra que
permitisse um período de previsão menor parecia mais viável. Por esse motivo o
Friedman (1968) defende uma regra sobre a moeda.
Dessa forma pode-se dizer que os anos 1960 consolidaram a escola monetarista. A
política monetária, que estava em segundo plano na teoria keynesiana, era colocada
em papel de destaque por Friedman e seus seguidores, uma vez que ideias centrais
do monetarismo como a importância de regras na condução da política monetária, a
função estabilizadora da política monetária e o papel do BC de gerenciador do nível
de inflação foram estabelecidas nessa década.

3. Os Problemas Gerais da Descentralização da Moeda


Baseando-se na argumentação do texto, podemos dizer que a moeda deve ser
estável, isto é, faz-se necessário um crescimento controlado da sua expansão de
oferta, com o intuito de controlar o nível geral de preços da economia, em função do
PIB nominal.
O ponto central do debate acerca da descentralização da moeda é como seriam
fixadas as regulações monetárias e como funcionariam as adaptações da oferta de
moeda às expectativas de mercado, flutuações da demanda por moeda e
externalidades que influenciam no valor da mesma, e dos preços de mercado.
O principal argumento contra a descentralização é o fato da volatilidade desses tipos
de moedas. O fato de não serem reguladas por normas e diretrizes centralizadas de
um BC faz com que fiquem à mercê das flutuações cíclicas e constantes do mercado,
o que destrói o referencial de valor monetário (função de poder de contas). Isto é,
além de provocar desequilíbrios macroeconômicos – o que inclui a quebra de
investimentos, isto é, queda da demanda agregada – uma descentralização da moeda
acabaria com a principal função da moeda, que é o referencial para a fixação de
valores nominais de todos os agentes econômicos.
Ora, a partir do momento em que as flutuações dos níveis de oferta e demanda
agregadas do mercado afetassem a dada moeda, os investidores perderiam a
confiança de seus investimentos naquele mercado, o que acarretaria em quebra de
negócios, aumento de preços, desestabilização da Bolsa de Valores, entre outros
problemas de ordem macroeconômicas, que afetariam toda uma cadeia de produção
e investimentos, ou seja, é uma reação em cadeia de problemas e mais problemas.
Não obstante, as funcionalidades da moeda são tão influenciadoras nas ações e
expectativas racionais dos agentes econômicos, que moedas à mercê das flutuações
de mercado levaria junto toda a produtividade, salários e investimentos numa brusca
alta ou queda de valor. Podemos tomar como exemplo o Bitcoin, que valorizou mais
de 130% no início de 2017, em relação início de 2016. Para a maioria dos defensores
de moedas descentralizadas, isso é algo extremamente positivo, mas a deflação é um
fenômeno monetário que deve ser analisado com muito cuidado, pois, nem sempre,
é um processo positivo para os agentes da economia, ainda mais se for constante,
como ocorre com o Bitcoin. Sabidamente, precisamos insinuar um cenário de
investimentos, em uma dada sociedade onde a moeda “oficial” seria descentralizada.
Agora façamos um raciocínio: qual a lógica em aplicar investimentos em uma moeda
que flutua numa magnitude de 130% em um ano? A possibilidade de perda dos
investimentos é muito maior do que a possibilidade de ganhos futuros, o que faz com
que os investidores desconfiem fortemente da estabilidade de tal moeda, o que torna
esse sistema insustentável e destrutivo. Não há espaço para grandes flutuações no
sistema capitalista, qualquer brusca desestabilização já é suficiente para uma quebra
em efeito dominó da cadeia produtiva, causando desemprego e queda de salários,
isto é, recessões seguidas de resseções ad infinitum.

4. Conclusão
A principal motivação para a escrita de tal artigo é o alto crescimento do ideal austríaco
de repúdio ao Banco Central – que considero o coração da economia. Como sabemos,
é quase que inegável a necessidade da estabilidade macroeconômica, e quando
falamos de macroeconomia, falamos de moeda. A estabilidade da cadeia de agentes
econômicos depende fundamentalmente de uma estabilidade nas flutuações do
referencial obtido por eles para a fixação de seus valores e pagamentos de contas,
bem como dos investimentos. A estabilidade da oferta de moeda é o principal fator
pelo qual o Banco Central existe, e o fim dessa instituição geraria danos gigantescos
na economia, o que acarretaria em quebra do sistema bancário, isto é, seguidamente
de quebra do sistema capitalista moderno. Seria o fim da sociedade pelo qual estamos
acostumados a viver.
A principal teoria de políticas monetárias com o intuito de manter essa estabilidade é
o corpo teórico monetarista, proposto por Milton Friedman. Ademais, sabemos que o
monetarismo fracassou por onde passou, não pelo corpo teórico em si, mas pelas
falhas técnicas de aplicabilidade das políticas, pelo fato de ser muito complexo
monitorar a base monetária, isto é, teríamos que monitor precisamos M1, M2, M3 e
M4, algo praticamente impossível de se fazer, mesmo com toda a tecnologia atual.
No entanto, é óbvio que essas falhas técnicas não derrubaram a tese, que possui
bases muito fortes e postulados muito bem embasados com a realidade em que
vivemos. Evidentemente, os monetaristas fizeram uma espécie de defesa à sua teoria
frente a essa cadeia de choques. Primeiramente, para eles, a regra monetarista foi
mal conduzida pelo Fed e, por conta disso, o seu fracasso não poderia justificar
medidas que se opõem ao monetarismo. Friedman, em 1983 e 1984, afirmou que a
suposta política monetarista adotada pelo Fed no início dos anos 1980 com Volcker
na presidência da instituição, tinha pouca relação com o que os monetaristas haviam
proposto e nada mais era do que a repetição da discricionariedade que se fazia nos
anos 1960, só que dessa vez usando moeda no lugar de juros. Esses textos resumem
a adoção dessa política monetária supostamente monetarista da seguinte maneira:
realmente se adotou o controle de estoque monetário, mas esse controle foi feito de
forma discricionária, e não por meio de regras, e isso não era monetarismo na visão
do autor e, por isso, a estabilidade não foi alcançada. Os resultados dessa política
chamada de antimonetarista por Friedman (1984) – como a recessão americana dos
anos 1980 – eram previstos pela verdadeira teoria monetarista, segundo o próprio.
“A ‘monetary policy experiment’ was conducted from October 1979 to the summer of 1982, but many
commentators have misinterpreted its character and have drawn the wrong conclusions from the
evidence it generated. They have termed it “a monetarist policy” and have interpreted the results as
failure of monetarism. Though the Federal Reserve System’s rhetoric was “monetarist” the actual
policy was antimonetarist (see my 1983 article). And the evidence generated by the experiment
strongly supports rather than contradicts the propositions that recommend monetarist policy.”
Friedman, 1984, p. 397.

Friedman ainda ressaltou que embora o controle do estoque de moeda seja uma clara
proposição monetarista, o monetarismo é muito mais do que isso, pois envolve como
peça fundamental de sua proposição um crescimento estável e previsível de qualquer
agregado monetário que tem como objetivo maior eliminar a instabilidade da política
monetária, algo que Volcker não fez na visão de Friedman. Além disso, os
monetaristas acreditam que mesmo que houvesse certa instabilidade de curto prazo,
o poder do BC é bastante grande sobre a moeda e por mais que não tenha um controle
absoluto sobre essa variável ainda exerce uma grande influência, o que serve de
argumento para ratificar a posição que indica uma falha do Fed ao abandonar o
monetarismo.
Concluímos assim com a certeza de que as teorias de centralização da moeda, com
o intuito de estabilizar a mesma jamais fracassaram em si mesmo, mas sim foram mal
aplicados. Diferentemente do que é dito, o corpo teórico do monetarismo possui fortes
bases, e os problemas técnicos não são suficientemente capazes de derrubar todo o
corpo teórico, mas apenas uma parte dele, que diz questão da aplicabilidade. Além
do mais, isso não muda o fato de que a descentralização da moeda seja uma utopia
no sistema atual. Para isso se concretizar, teríamos que regredir no sistema
capitalista, e revolucionar não só o sistema financeiro e bancário, como também a
funcionalidade da moeda e de reações dos agentes econômicos acerca das
flutuações cíclicas presentes no mercado capitalista.

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