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O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

O Tantra do Vajra Cortante


da Consciência Lúcida

Da Matriz de Aparências Puras e Consciência Primordial,


A Quintessência do Grande Mistério do Mantrayāna,
O Espaço Absoluto Primordialmente Puro de Samantabhadrī,
A Fonte de Tesouros Espontaneamente Manifesta1 da Grande Perfeição

Transmitido por
Düdjom Lingpa

Traduzido para o inglês por


B. Alan Wallace

Traduzido para o português por


Jeanne Pilli e Marcelo Nicolodi

1
Düdjom Lingpa, O Tantra do Vajra Cortante da Consciência Lúcida: Da Matriz de Aparências Puras e Consciência
Primordial, A Quintessência do Grande Mistério do Mantrayāna, O Espaço Absoluto e Primordialmente Puro de
Samantabhadrī, A Fonte de Tesouros Espontaneamente Manifesta da Grande Perfeição. Dag snang ye shes drwa ba las,
ka dag kun tun bzang mo’i dbyings, lhun grub rdzogs pa chen po’i mdzod, shes rig rdo rje rnon po’i rgyud, gsang chen
sngags kyi yang bcud. Collected Works of the Emanated Great Treasures, the Secret, Profound Treasures of Düdjom
Lingpa, Volume 17 (Phuentsoling, Bhutan: Lama Kuenzang Wangdue, 2004), 609–22.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 1 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Sumário de “A Essência do Significado Claro”

I. O Significado do Título ..............................................................................................................................................5


A. O Título ...................................................................................................................................................................... 5
B. Uma Explicação do Significado do Título ................................................................................................................... 5
1. A Base da Qual Ele Surge....................................................................................................................................... 5
2. O Título do Dharma que Surge Dela ...................................................................................................................... 6
C. Como o Título Foi Escolhido ....................................................................................................................................... 7
D. A Razão Dessa Escolha ............................................................................................................................................... 7
II. O Significado do Texto .............................................................................................................................................7
A. A Homenagem como um Ramo do Texto como um Todo ......................................................................................... 7
B. A Verdadeira Explicação do Significado do Tantra..................................................................................................... 7
1. A Causa que Deu Origem ao Pronunciamento do Tantra...................................................................................... 7
a. Como as Aparências dos Fenômenos se Dissolveram no Espaço Absoluto dos Fenômenos ............................................... 7
b. Como a Natureza da Existência da Realidade Última se Manifestou ................................................................................... 8
c. Como as Aparências Espontaneamente Manifestas Emergiram como o Mestre e Seu Círculo de Discípulos ..................... 8
d. O Adendo sobre as Qualidades dos Discípulos .................................................................................................................... 9

Fase Um: Tomando a Mente Impura como Caminho ...................................................................................................9


2. A Condição Auxiliar: A Solicitação para que Seja Pronunciado ............................................................................. 9
3. O Resultado: A Compreensão Completa do Verdadeiro Significado do Tantra................................................... 10
a. O Caminho do Atravessar até a Pureza Original ................................................................................................................ 10
i. Identificando o Criador de Todos os Fenômenos como Sendo a Mente ....................................................................... 10
ii. Estabelecendo a Mente como Destituída de Base e de Raiz ........................................................................................ 11
iii. Como Indivíduos com Faculdades Específicas Podem Entrar no Caminho. ................................................................. 12
A’ Como Indivíduos com Faculdades Superiores Entram no Caminho ........................................................................ 12
B’ Como Indivíduos com Faculdades Medianas e Inferiores Entram no Caminho ...................................................... 12
1’ Como Indivíduos com Faculdades Medianas Entram no Caminho .................................................................... 12
2’ Como Indivíduos com Faculdades Inferiores Entram no Caminho..................................................................... 12
a’ Tomando Aspectos da Mente como Caminho .............................................................................................. 13
i’ O Ensinamento ......................................................................................................................................... 13
ii’ A Explicação Elaborada de Como Isso Ocorre.......................................................................................... 13
+.A’’ Atenção Plena, a Natureza Essencial do Caminho............................................................................... 13
+.B’’ Experiências Meditativas Específicas a Serem Purificadas .................................................................. 14
+.C’’ Reconhecendo a Natureza Essencial daquilo que Deve Ser Abandonado e Seu Remédio Direto como
o Caminho Principal..................................................................................................................................... 14
+.D’’ Como Nunca se Separar da Experiência das Instruções Práticas ........................................................ 15
iii’ A Síntese ................................................................................................................................................. 16
Fase Dois: Revelando Sua Própria Face como o Vajra Cortante de Vipaśyanā ............................................................ 17
b’ Tomando a Natureza Essencial como Caminho ............................................................................................ 17
i’ O Caminho da Lucidez Prístina, Livre de Elaborações Conceituais ........................................................... 17
+.A” O Ensinamento .................................................................................................................................... 17
+.B” A Explicação Elaborada ........................................................................................................................ 18
+.+.1” Como a Lucidez Prístina, Livre da Mente, é Diferenciada por Seis Características ........................... 18
+.+.2” Repousando na Natureza Essencial do Estado Intrínseco ................................................................. 19
+.+.3” Como as Qualidades do Caminho e da Fruição São Aperfeiçoadas .................................................. 19
+.+.4” A Grandiosidade dos Indivíduos que Obtêm essa Realização ........................................................... 20
Fase Três: Revelando o Dharmakāya da Base ............................................................................................................ 20
ii’ Identificando Diretamente em Si Mesmo a Lucidez Prístina da Base, a Grande Liberdade dos
Extremos ..................................................................................................................................................... 20
+.A” A Natureza da Base Pura ..................................................................................................................... 21
+.+.1” Como as Aparências Delusórias do Saṃsāra Não Estão de Fato Ali .................................................. 21
+.+.+.a” Determinando a Ausência de Identidade de Pessoas como Sujeitos ............................................. 21
+.+.+.+.i” O Ensinamento ............................................................................................................................. 21

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O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

+.+.+.+.ii” A Explicação ................................................................................................................................ 22


+.+.+.+.+.A’’’ Reconhecendo a Concepção de uma Essência Pessoal como a Raiz da Existência Mundana 22
+.+.+.+.+.B’’’ Demonstrando Que É Vazio na Medida em Que Meramente Aparece .................................. 22
+.+.+.b” Determinando a Ausência de Identidade dos Fenômenos como Objetos ..................................... 23
+.+.+.+.i” Buscando as Bases de Designação dos Rótulos............................................................................ 23
+.+.+.+.ii” Pondo Fim à Reificação das Coisas .............................................................................................. 23
+.+.+.+.iii” Combatendo as Falhas de Benefício e Dano .............................................................................. 24
+.+.+.+.iv’’ Fazendo Colapsar a Falsa Caverna de Esperanças e Medos ....................................................... 26
+.+.+.c’’ Reconhecendo-os Fundamentalmente como a Vacuidade Única.................................................. 27
+.+.+.+.i’’ Um Breve Resumo ....................................................................................................................... 27
+.+.+.+.ii’’ Uma Explicação Elaborada .......................................................................................................... 28
+.+.+.+.+.A’’’ Identificando o Espaço Absoluto dos Fenômenos como Aquilo a Ser Realizado.................... 28
+.+.+.+.+.B’’’ A Consciência Primordial Subjetiva que Surge de Acordo com Isso ....................................... 29
+.+.+.+.+.C’’’ Instruções Práticas sobre a Dissipação de Obstáculos e Aprimoramento da Prática ............. 29

Fase Quatro: Determinando as Características e Qualidades da Base ........................................................................ 30


+.+.2’’ Uma Explicação das Características da Natureza Essencial Não Delusória, dos Kāyas e das Facetas
da Consciência Primordial ........................................................................................................................... 30
+.+.+.a” O Ensinamento ............................................................................................................................... 30
+.+.+.b” A Explicação ................................................................................................................................... 30
+.+.+.+.i” A Grande Perfeição da Base da Existência ................................................................................... 30
+.+.+.+.+.A’’’ As Características Manifestas da Base.................................................................................... 30
+.+.+.+.+.B’’’ A União de Meios Hábeis e Sabedoria .................................................................................... 32
+.+.+.+.+.+.1’’’ A União de Meios Hábeis ..................................................................................................... 32
+.+.+.+.+.+.2’’’ A União de Sabedoria .......................................................................................................... 32
+.+.+.+.+.+.3’’’ Sua Necessidade e Propósito e a Apresentação Deles......................................................... 33
+.+.+.+.+.C’’’ O Resumo ............................................................................................................................... 33
+.+.+.+.ii” A Grande Perfeição do Caminho da Realização .......................................................................... 34
+.+.+.+.+.A’’’ Como as Apresentações dos Yānas até a Anuyoga são Aperfeiçoados no Caminho da Grande
Perfeição ..................................................................................................................................................... 34
+.+.+.+.+.+.1’’’ Uma Explicação Elaborada ................................................................................................... 34
+.+.+.+.+.+.2’’’ Um Resumo ......................................................................................................................... 35
+.+.+.+.+.B’’’ Ensinamentos Inequívocos sobre o Caminho da Grande Perfeição ....................................... 36
+.+.+.+.iii” A Grande Perfeição da Experiência da Fruição........................................................................... 36
+.+.+.+.+.A’’’ A Fruição Propriamente Dita .................................................................................................. 36
+.+.+.+.+.B’’’ Como Ela É Livre dos Dois Extremos ....................................................................................... 37
+.B” A Gênese dos Nomes Convencionais ................................................................................................... 37

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O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

‘A Essência do Significado Claro’:


Um Breve Comentário sobre
‘O Tantra do Vajra Cortante
da Consciência Lúcida’ 2

de Düdjom Lingpa

Editado por
Pema Tashi

Traduzido para o inglês por


B. Alan Wallace

Traduzido para o português por


Jeanne Pilli e Marcelo Nicolodi

2
Düdjom Lingpa, A Essência do Significado Claro: Um Breve Comentário sobre ‘O Tantra do Vajra Cortante da
Consciência Lúcida’, Shes rig rdo rje rnying po’i rgyud kyi ’grel chung don gsal snying po (Collected Works of the Emanated
Great Treasures, the Secret, Profound Treasures of Düdjom Lingpa), vol. 21 (Phuentsoling, Bhutan: Lama Kuenzang
Wangdue, 2004), 339–463.

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O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

[340] Da coroa da minha cabeça, imploro ao rei do Dharma, o grande revelador de tesouros, o regente de
Padmasambhava 3 , que verdadeiramente vê o significado da Grande Perfeição da consciência lúcida
inalterada, e é hábil em disseminá-la a outros: que eu nunca seja separado de você até que alcance a grande
iluminação!
Este [tratado] é um sinal excepcionalmente maravilhoso de que é chegada a hora das experiências e
realizações meditativas que advêm do treinamento de muitas gerações anteriores na insuperável Escola da
Tradução Antiga, a tradição Nyingma, que é o Dharma essencial do caminho veloz para o estado búdico em
uma só vida.
Aqui apresentarei da melhor maneira possível um comentário conciso sobre o Tantra do Vajra Cortante da
Consciência Lúcida, uma síntese da quintessência do grande mistério do Mantrayāna, [341] que revela
corretamente a natureza do atravessar até a pureza original e o caminho da travessia direta até a
manifestação espontânea. Isso inclui três seções: (I) o significado do título, (II) o significado do texto e (iii) o
colofão.

I. O Significado do Título
Esta seção possui quatro partes: (A) o título, (B) uma explicação do significado do título, (C) como o título
foi escolhido e (D) o motivo dessa escolha.

A. O Título
Aqui está apresentado o Tantra do Vajra Cortante da Consciência Lúcida: Da
Matriz de Aparências Puras e Consciência Primordial, a Quintessência do Grande
Mistério do Mantrayāna, o Espaço Absoluto Primordialmente Puro de
Samantabhadrī, a Fonte de Tesouros Espontaneamente Manifesta da Grande
Perfeição

B. Uma Explicação do Significado do Título


Esta seção tem duas partes: (1) a base da qual ele surge e (2) o título do dharma que surge dela.

1. A Base da Qual Ele Surge


Pelo poder da familiarização com o caminho profundo dos estágios de geração e completude, seja como for
que os objetos apareçam, todos surgem apenas como aparências puras. [342]
Quando se chega ao seu pleno amadurecimento, o poder criativo do sujeito que apreende essas aparências
– a consciência primordial que conhece a realidade como ela é e percebe toda a gama de fenômenos – torna-
se o meio para alcançar os siddhis supremos e comuns.4

3
Refere-se a Düdjom Lingpa, o guru de Pema Tashi.
4
O siddhi supremo é a iluminação perfeita de um buda, enquanto os siddhis comuns incluem: (1) o siddhi dos reinos
celestiais, a capacidade de permanecer nos reinos celestiais enquanto ainda se está vivo; (2) o siddhi da espada, a
capacidade de superar qualquer exército hostil; (3) o siddhi das pílulas medicinais, a capacidade de se tornar invisível
segurando pílulas de bênçãos nas mãos; (4) o siddhi dos pés velozes, pelo qual se pode caminhar ao redor de um lago
em um instante usando botas abençoadas; (5) o siddhi do vaso, pelo qual você pode criar um vaso que torna inesgotável
tudo o que se coloca dentro dele, seja comida ou dinheiro, por exemplo; (6) o siddhi dos yakṣas, o poder de transformar
os yakṣas em seus servos; (7) o siddhi do elixir [sct. amṛta ou “ambrosia”], que lhe dá uma vida tão longa quanto a do
sol e da lua, a força de um elefante, a beleza de uma flor de lótus e faz você se sentir leve como o algodão sempre que

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O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Uma vez que as entradas para o caminho dos meios hábeis e da sabedoria surgem dela sem limites, diz-se
que esse [tantra] provém da matriz. O significado de matriz é que [o poder criativo dessa consciência
primordial] conecta muitas coisas. Em resumo, todas as coleções de Dharma que emergem do poder criativo
da sabedoria que surge da meditação são chamadas de matriz de aparências puras e consciência primordial.
Assim disse [Düdjom Lingpa].

2. O Título do Dharma que Surge Dela


Quando a natureza da existência é apreendida em si mesma, ela transcende palavras e conceitos e, assim, a
apresentação dos estágios e caminhos do bodisatva não pode ser aplicada a ela. [343] No entanto,
dependendo da maneira como surge para os discípulos, são utilizadas as convenções de base, caminho e
fruição.
De acordo com isso, a união da natureza essencial primordialmente pura da realidade suprema, o espaço
absoluto primordialmente puro de Samantabhadrī, imutável ao longo dos três tempos, com a clara luz
natural, espontaneamente manifesta, abrange completamente todos os fenômenos de saṃsāra e nirvāṇa,
sem misturá-los. Portanto, essa é a Grande Perfeição. Uma vez que ela é a base da qual emergem todas as
qualidades dos caminhos e da fruição, é como uma fonte de tesouros, e este é o tantra da base.
O sujeito que surge de acordo com o objeto, o espaço absoluto dos fenômenos, [344] é sua própria
consciência primordial lúcida com respeito a si mesma, ou sabedoria, e esse é o verdadeiro tantra do
caminho. Quando os símbolos que o representam surgem na forma de nomes, palavras e letras, esse é o
tantra do caminho imputado. Suas três divisões incluem tantras que se manifestam como sons,5 tantras que
são pronunciados como sons6 e tantras simbólicos.7
Sua natureza essencial é a sabedoria, e eles estão imbuídos das sete qualidades do vajra. 8 Devido à
familiarização com a realização, as aparências reificadas, juntamente com suas propensões habituais, são
penetradas e demolidas, por isso é chamado de Vajra Cortante. Tantra tem o significado de presença
constante, sem interrupção, por isso se diz que tantra se refere a um continuum.
Além disso, o tantra da base, o sugatagarbha, está constantemente presente desde o momento em que se
é um ser senciente até o estado búdico. O Continuum Sublime (Uttaratantra) declara: “É a realidade suprema
imutável, que será no futuro como era no passado.”9 Suas duas divisões incluem a base como a essência da
natureza da existência e a base delusiva e imputada. Este [tantra] revela a primeira explicitamente e a
segunda implicitamente.
O caminho conecta a base e a fruição, por isso é um tantra. Quanto à sua classificação, entre meios hábeis e
liberação, pertence à última.
Quando obscurecimentos adventícios são purificados por meio do caminho, e a natureza essencial da
indivisibilidade da base e da fruição se torna manifesta, esse é o tantra da fruição. Suas duas divisões incluem
o dharmakāya para benefício próprio [345] e o rūpakāya para benefício de outros. Este Dharma sintetiza a
quintessência dos sūtras e coleções de tantras definitivos que constituem o grande mistério do Mantrayāna.
Diz-se que é apresentado aqui, pois é esse o caso.

se levanta do assento; e (8) o siddhi do bálsamo da visão mágica, que, quando aplicado aos seus olhos, permite que
você veja coisas sob a terra, como tesouros e assim por diante.
5
Os tantras que se manifestam como sons são a transmissão da visão ou a transmissão da visão e simbólica.
6
Tib. sgrar grags pa’i rgyud. Os tantras pronunciados como sons consistem na transmissão oral de grandes mestres.
7
Tib. brdar gyur pa’i rgyud. Tantras simbólicos foram transformados em símbolos.
8
As sete qualidades de um vajra são invulnerabilidade, indestrutibilidade, realidade, incorruptibilidade, imutabilidade,
desobstrução total e invencibilidade.
9
Tib. rgyud bla ma; sct. Uttaratantra.

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O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

C. Como o Título Foi Escolhido


Em geral, entre as várias maneiras de designar um título, aqui o título foi escolhido com referência ao
significado.

D. A Razão Dessa Escolha


Isso é óbvio.

II. O Significado do Texto


Esta seção tem duas partes: (A) a homenagem como um ramo do texto como um todo, e (B) a verdadeira
explicação do significado do tantra.

A. A Homenagem como um Ramo do Texto como um Todo

Ao supremo e Onipresente Senhor de todas as famílias e maṇḍalas búdicas –


Ao sugatagarbha, eu me curvo com fé inabalável.

O sugatagarbha é a base de emanação de todas as famílias búdicas, pois é a natureza do corpo, fala, mente,
qualidades sublimes e atividades iluminadas de todos os jinas dos três tempos. Embora a realidade suprema
seja única, para benefício dos discípulos ela meramente surge como manifestações distintas e, portanto, é o
Senhor Onipresente de todas as maṇḍalas de deidades pacíficas, expansivas, poderosas e iradas.
Por aparecer como o progenitor de todos os budas, é ainda mais supremo que os budas. Sustentar o fluxo
de não meditação na qual sua própria face se manifesta como o revelador único da Grande Perfeição – o
protetor original Samantabhadra, a lucidez prístina, o sugatagarbha – é curvar-se com fé inabalável. [346]
A realização de sujeito e objeto como não duais é a homenagem de encontrar a visão suprema. O objetivo
da homenagem é que, aperfeiçoando as acumulações, os obstáculos sejam pacificados, o tratado seja
concluído, a inteligência seja aperfeiçoada e a realização sublime seja alcançada.

B. A Verdadeira Explicação do Significado do Tantra


Esta seção possui três partes: (1) a causa que deu origem ao pronunciamento do tantra, (2) a condição
auxiliar: a solicitação para que ele fosse pronunciado e (3) o resultado: a compreensão completa do
verdadeiro significado do tantra.

1. A Causa que Deu Origem ao Pronunciamento do Tantra


Esta seção tem quatro partes: (a) como as aparências dos fenômenos se dissolveram no espaço absoluto dos
fenômenos, (b) como a natureza da existência da realidade última se manifestou, (c) como as aparências
espontaneamente manifestas emergiram como o Mestre e seu círculo de discípulos, e (d) o adendo sobre as
qualidades dos discípulos.

a. Como as Aparências dos Fenômenos se Dissolveram no Espaço Absoluto dos Fenômenos

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O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Na igualdade de saṃsāra, nirvāṇa e caminho,


a vacuidade pervasiva do espaço prístino,
Eu, o grande iogue do dharmakāya, livre de elaborações conceituais,
surgi como uma exibição aparente da consciência primordial.

Devido ao poder das qualidades sublimes adquiridas ao longo de muitas vidas, todos os fenômenos incluídos
no saṃsāra, nirvāṇa e caminho, por surgirem delusivamente para a ignorância, dissolveram-se na igualdade
da base primordial originalmente pura, espaço absoluto, a vacuidade pervasiva do espaço prístino.
Por algum tempo fiquei completamente imerso nesse modo de existência e compreendi diretamente o
significado final de atravessar até a pureza original, tomando como caminho a natureza essencial da maneira
como as coisas são.

b. Como a Natureza da Existência da Realidade Última se Manifestou


Quando eu, o grande iogue, como o Buda original Samantabhadra [347], ou o dharmakāya, livre de
elaborações conceituais, emergi como uma aparência daquela base, sem sucumbir deludidamente às
aparências como "outro", tornei-me consciente da realidade última como minha própria extraordinária
aparência.
Consequentemente, tomei como caminho as aparências do brilho da lucidez prístina e percebi diretamente
o caminho final da travessia direta para a manifestação espontânea. Na consciência primordial única da
natureza essencial, grande pureza, surgiu uma exibição aparente de um campo búdico, o Mestre e seu vasto
círculo de discípulos. Aqui está como eles apareceram.

c. Como as Aparências Espontaneamente Manifestas Emergiram como o Mestre e Seu Círculo de Discípulos

O dharmakāya da base, o sugatagarbha,


livre de elaborações conceituais e imbuído das três portas da liberação, é
primordialmente iluminado.
Como exibições espontaneamente manifestas da união dos três kāyas no espaço
absoluto,
Surgiram o Mestre e seu círculo de discípulos, cujas mentes eram indivisíveis.

Pelo fato de o dharmakāya da base original, o sugatagarbha, ser livre dos oito extremos de elaborações
conceituais10 e ser imbuído das três portas da liberação11, ele é primordialmente iluminado. É iluminado
como o progenitor de todos os budas, e seu brilho natural incessante, espontaneamente manifesto, é o
saṃbhogakāya Samantabhadra, o Vajra Nascido do Lago.
Suas exibições criativas surgiram sob várias formas como nirmāṇakāyas, incluindo o bodisatva Vajra da
Consciência Pristina12. No espaço absoluto da união dos três kāyas, surgiram o Mestre e seu círculo de
discípulos como exibições cujas mentes eram indivisíveis.

10
As oito elaborações conceituais são: originação e cessação, existência e inexistência, ir e vir, singularidade e
diversidade.
11
As três portas da libertação são: vacuidade, ausência de sinais e ausência de desejos.
12
Tib. rig pa’i rdo rje.

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O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Na dependência de seus surgimentos, eu facilmente apreendi e compreendi esse Dharma profundo. Naquele
lugar e no momento do surgimento daquela assembleia de Mestre e seu círculo de discípulos [348],
definitivamente surgiu o significado do tantra. Portanto, para classificar esse discurso em termos de
ensinamentos comuns e incomuns, ele é do último tipo.

d. O Adendo sobre as Qualidades dos Discípulos

Isso surgiu como o esplendor de um ótimo carma, orações e méritos


meus e de alguns indivíduos com boa fortuna semelhante à minha.
Aquelas pessoas que não têm o impulso cármico desse caminho
não obterão mais dele do que de um desenho de comida e riqueza.
Esta fonte de tesouros do espaço da realidade última é concedida como uma
herança para pessoas de boa fortuna.

Essa entrada sublime para a consciência primordial não conceitual das mentes de todos os jinas dos três
tempos surgiu como o esplendor de um ótimo carma, orações e méritos adquiridos ao longo de muitas vidas
anteriores por mim mesmo, um vidyādhara, e por outros indivíduos com boa fortuna semelhante à minha.
Aquelas pessoas que não têm o impulso cármico de terem seguido esse caminho [no passado] não o
encontrarão ou, mesmo que o encontrem, não serão atraídas por ele. Mesmo que se sintam levemente
atraídas e se dediquem aos ensinamentos e a ouvi-los, devido à sua pouca inteligência e entusiasmo
hesitante, não obterão nada disto, como se tivessem encontrado um desenho de comida e riqueza. Se
memorizarem, não reterão as palavras; se ponderarem, não conseguirão compreendê-lo; e se meditarem,
ele não surgirá em seus fluxos mentais.
Portanto, esta fonte inexaurível de tesouros do espaço da realidade última é concedida como uma herança,
ou conferida, pelo autossurgido Padmasambhava a pessoas de boa fortuna dotadas de fé, entusiasmo e
inteligência. Ele sugeriu com esta afirmação que, no futuro, muitas pessoas poderão alcançar a liberação na
dependência desse caminho. [349]

Fase Um: Tomando a Mente Impura como Caminho

2. A Condição Auxiliar: A Solicitação para que Seja Pronunciado

Para a satisfação da exibição aparente de seu círculo de discípulos,


o supremo Mestre Samantabhadra, o Onipresente Senhor Vajra,
declarou: “Ouçam!”, ao seu círculo de discípulos, que eram a exibição não dual de
seu próprio poder criativo.

O pedido para que seja pronunciado é a exortação para explicar o que deve ser discutido, o significado do
tantra, pois essa é a condição que contribuiu para o surgimento do ensinamento.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 9 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Nesse caso, foi o som natural da realidade suprema que exortou o círculo de discípulos a fazer a solicitação,
pois o significado do tantra que surge de acordo com as mentes dos discípulos do futuro não depende deles
para seu surgimento.
Para a satisfação de seu círculo de discípulos, que era uma exibição de aparências da consciência primordial,
o Mestre supremo naturalmente surgido, que supera outros budas, Samantabhadra, o Senhor Onipresente,
o grande Vajradhara, declarou: "Ouçam!" Tendo capturado sua atenção, o Mestre falou ao seu círculo
emanado de discípulos, que eram a exibição não dual de seu próprio poder criativo.
Entre os ensinamentos comuns e incomuns, este é do último tipo, pois as mentes do Mestre e de seu círculo
de discípulos eram indivisíveis, ou seja, o Mestre, ele próprio exortou e ensinou, e mais ninguém.
Nesse contexto, os quatro aspectos pelos quais [o tantra] está relacionado ao seu propósito são: (1) o tema
desse tantra, ou seja, a lucidez prístina que está presente como o dharmakāya da base; (2) o objetivo, ou
seja, obter a realização ouvindo e refletindo sobre as palavras desse tantra, que expressam seu tema; (3) o
objetivo final, ou seja, obter a liberação nesta vida ou no período intermediário, praticando o significado
realizado [350] com entusiasmo inabalável; e (4) a relação, ou seja, existe uma relação interdependente entre
esses aspectos. Esses quatro aspectos são características de um tantra ou tratado autêntico.

3. O Resultado: A Compreensão Completa do Verdadeiro Significado do Tantra


Esta seção tem três partes: (a) o caminho do atravessar até a pureza original, (b) o caminho da travessia
direta para a manifestação espontânea e (c) a maneira pela qual a natureza indivisível da base e da fruição é
experienciada.

a. O Caminho do Atravessar até a Pureza Original


Esta seção tem três partes: (i) identificando o criador de todos os fenômenos como sendo a mente, (ii)
estabelecendo a mente como destituída de base e de raiz e (iii) como indivíduos com faculdades específicas
podem entrar no caminho.

i. Identificando o Criador de Todos os Fenômenos como Sendo a Mente

Examine o corpo, a fala e a mente e reconheça qual é o primordial como o


monarca que tudo cria.

Aqui está a maneira de examinar o agente, ou o monarca, que cria todos os fenômenos como sendo a mente,
que é primordial entre o corpo, a fala e a mente.
Durante o dia, a noite e o período intermediário, devido à autofixação da mente, o corpo e a fala surgem
para a mente. Ao longo da vida é a mente que experimenta alegria e tristeza. Ao final, quando o corpo e a
mente se separam, o corpo é deixado para trás como um cadáver. Quando a fala desaparece sem deixar
vestígios, a mente segue o carma e é o agente que vagueia no saṃsāra.
De uma perspectiva, por essas três razões, reconheça aquilo que é primordial como sendo a mente. De outra
perspectiva, nenhum desses três é outra coisa além da mente; [351] portanto, ao determiná-los como sendo
apenas a mente, reconheça aquilo que é primordial como sendo a mente. A primeira perspectiva é
determinada de acordo com o modo convencional das aparências, enquanto a última perspectiva é
determinada de acordo com o modo convencional da existência.
Para explicar um pouco mais o significado dessa última perspectiva, o tratado do Mahāpaṇḍita Nāropā, A
Síntese da Visão, afirma:

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 10 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Todos os fenômenos que surgem e passam a existir


não têm existência separada da mente autoconsciente,
pois esta faz com que surjam e fiquem claros,
assim como a experiência da própria lucidez.
Se eles não fossem a mente,
não teriam relação com a mente e nem mesmo surgiriam.
Determine a realidade enganosa13 dessa maneira.14

Para a mente deludida, o corpo e a mente surgem como se fossem diferentes, mas em termos de seu modo
de existência, eles se apresentam diretamente à consciência não conceitual e são claramente experienciados.
Isso indica que eles existem não como algo material, mas simplesmente como a iluminação natural da própria
consciência, como a consciência que experiencia alegria e tristeza. Se eles não fossem a mente, mas fossem
matéria, como luz e escuridão, nunca poderiam interagir com a mente e, portanto, nunca poderiam surgir.
Por essas razões, o corpo e a fala – na verdade todos os fenômenos aparentes – são estabelecidos como
sendo a mente.

ii. Estabelecendo a Mente como Destituída de Base e de Raiz

A forma e a cor do monarca que tudo cria,


assim como sua origem, localização e destino são a expansão livre de objetos.
Essa é a manifestação espontânea da natureza do caminho do atravessar. [352]

Examinando dessa maneira se a mente, que é o monarca que tudo cria, criador do corpo, da fala e da mente,
ou de todos os fenômenos, é realmente existente ou realmente inexistente, verifica-se que a mente não tem
base ou raiz, não se estabelecendo como tendo qualquer forma ou cor.
Os cinco elementos e os cinco objetos (sensoriais) surgem como objetos da mente, e seu próprio corpo surge
como sua base. Mas se todos eles forem investigados a partir de uma perspectiva última, serão considerados
como semelhantes ao espaço, sem serem realmente estabelecidos nem como uma coisa e nem como muitas.
Determinar a origem, a localização e o destino (da mente) como expansão livre de objetos é a manifestação
espontânea da natureza do caminho do atravessar. Isso não é algo recém alcançado, mas é simplesmente
o conhecimento do modo de ser da natureza da existência.

13
Tib. kun rdzob, sct. saṃvṛti. Esse adjetivo geralmente ocorre como um modificador de um dos dois tipos de realidade.
O adjetivo tibetano e sânscrito significa "totalmente obscurecedor", pois essa realidade obscurece completamente a
dimensão mais profunda da realidade última (tib. don dam bden pa, sct. paramārthasatya). “Realidade totalmente
obscurecedora” parece muito estranho em inglês e português e também não alcança o significado pois, segundo
Candrakīrti, é a ignorância que obscurece a natureza da realidade, não as próprias aparências. Portanto, as aparências
são "enganosas", mas para aqueles que são enganados pelo véu obscurecedor da ignorância, elas parecem ser "reais".
Assim, elas são "enganosamente reais" e constituem o que é conhecido como "realidade enganosa".
14
Tib. lta ba mdor bsdus.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 11 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

iii. Como Indivíduos com Faculdades Específicas Podem Entrar no Caminho.


Esta seção tem duas partes: (A’) como indivíduos com faculdades superiores entram no caminho e (B’) como
indivíduos com faculdades medianas e inferiores entram no caminho.

A’ Como Indivíduos com Faculdades Superiores Entram no Caminho

Indivíduos simultâneos entram no caminho sem base e sem raiz.


Outros deveriam repousar no espaço,
e dentro de três semanas entrarão no caminho do mistério definitivo.

Assim, ao simplesmente determinarem a natureza última da mente como sendo sem base e sem raiz,
indivíduos com faculdades superiores, pertencentes à classe dos simultâneos, identificam a vasta
consciência desimpedida que permanece depois de a inteligência discriminativa ter desaparecido
naturalmente. Como essa é a consciência primordial, que transcende a mente, eles entram no caminho
autêntico. [353]

B’ Como Indivíduos com Faculdades Medianas e Inferiores Entram no Caminho


Esta seção tem duas partes: (1’) como indivíduos com faculdades medianas entram no caminho e (2’) como
indivíduos com faculdades inferiores entram no caminho.

1’ Como Indivíduos com Faculdades Medianas Entram no Caminho


O primeiro desses dois tipos de indivíduos, ou seja, os outros que não têm a boa fortuna de identificar a
consciência primordial daquela maneira, devem se retirar para um lugar solitário, praticar guru yoga e
receber as quatro iniciações.15
A seguir, deveriam meditar sobre o domínio do espaço16 externo, uma pedra, um graveto ou coisas como
uma imagem de buda ou sílaba-semente, ou poderiam visualizar em seu coração uma esfera radiante de luz
das cinco cores. Sustentando sua atenção e repousando em equilíbrio meditativo, dentro de três semanas
eles verão a natureza primordial da existência com os olhos da sabedoria. Então, entrarão no caminho do
mistério definitivo, que é a Grande Perfeição.

2’ Como Indivíduos com Faculdades Inferiores Entram no Caminho


Esta seção tem duas partes: (a’) tomando aspectos da mente como caminho e (b’) tomando a natureza
essencial como caminho.

15
As quatro iniciações são (1) iniciação do vaso ou da água, (2) iniciação secreta ou da coroa, (3) iniciação da sabedoria-
gnose ou vajra e (4) iniciação da palavra ou do sino.
16
Sera Khandro, em Jardim para o Deleite dos Afortunados, diz: “Quanto ao espaço externo, todos os fenômenos
incluídos no vasto ambiente externo e inanimado, as multidões de seres sencientes internos, as aparências bem exibidas
dos cinco sentidos, seu próprio corpo, agregados, domínios sensoriais e elementos, e todos os estados mentais e
aparências de seres sencientes comuns são espaço externo.” [GDF 87]

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 12 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

a’ Tomando Aspectos da Mente como Caminho


Esta seção possui três partes: (i’) o ensinamento, (ii’) a explicação e (iii’) a síntese.

i’ O Ensinamento

Aqueles da classe com faculdades inferiores


identificam quietude e movimento,
e, tomando a mente como caminho, são conduzidos ao domínio da lucidez
prístina.

Aqueles da classe com faculdades inferiores, não tendo a boa fortuna de identificar (a consciência
primordial) daquela maneira, primeiro reconhecem a diferença entre a quietude com respeito à consciência
e ao movimento dos pensamentos. E, tomando primeiro os aspectos da mente como caminho, finalmente
são conduzidos ao domínio da lucidez prístina.

ii’ A Explicação Elaborada de Como Isso Ocorre


Esta seção tem quatro partes: (A’’) atenção plena, a natureza essencial do caminho [354], (B’’) experiências
meditativas específicas a serem purificadas, (C’’) a natureza essencial daquilo que deve ser abandonado e
seu remédio, e (D’’) como nunca se separar da experiência das instruções práticas.

A’’ Atenção Plena, a Natureza Essencial do Caminho

O primeiro é a unificação em uma só direção dos dois.


A seguir, repousando sem observar, seu poder natural se manifesta.
Permaneça de forma livre, sem atenção plena, em uma claridade vazia e
amplamente aberta;
e o repouso em uma vacuidade luminosa é chamado de atenção plena
autoiluminadora.
Os dois primeiros tornam manifesto o que quer que surja,
Enquanto os dois últimos são unicamente modos de cognição.
Uma vez que os pensamentos cessam, eles são não conceituais.

De acordo com os ensinamentos existem quatro tipos de atenção plena, que são a natureza essencial do
caminho. O primeiro envolve distinguir entre quietude e movimento, e pelo poder da familiarização com
suas diferentes aparências, há atenção plena em um único sentido da unificação dos dois.
A seguir, mesmo enquanto repousa sem observá-los com esforço como antes, como seu poder natural se
manifesta, há atenção plena manifesta.
Permanecer de forma livre sem atenção plena em uma claridade vazia e amplamente aberta, uma
vacuidade espaçosa, é como deitar-se em uma cama desprovida de atenção plena, que é o substrato.
Uma vez que a atenção plena grosseira tenha sido reduzida, repousar em uma vacuidade luminosa é
chamado de atenção plena autoiluminadora, ou consciência substrato.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 13 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Os dois primeiros tipos de atenção plena (atenção plena unifocada e atenção plena manifesta) tornam
manifestas quaisquer exibições criativas que surjam, enquanto os dois últimos (a ausência de atenção plena
e atenção plena autoiluminadora), embora permaneçam unicamente na dependência de um modo sutil de
cognição, todas as aparências que são sua radiância e pensamentos que são suas exibições criativas cessam;
portanto, há apenas a ausência de conceitos.
Esses tipos de atenção plena são despertados pelo caminho e, uma vez que descem para os dois tipos de
substrato,17 são chamados de substratos de descida. [355] Alguns professores consideram o primeiro como
o “sabor único” e o segundo como “livre de elaborações conceituais”. Outros afirmam que é eticamente
neutro, mas, seja lá o que digam, a natureza essencial da mente foi alcançada.18

B’’ Experiências Meditativas Específicas a Serem Purificadas

Pois todas as várias experiências de bem-aventurança, vacuidade e luminosidade


tornam-se objetos de desejo intenso e apego;
e experiências meditativas de doenças e desconforto no corpo, fala e mente
surgem esporadicamente ao longo do tempo.

Em todos os momentos desse caminho, por estarem vinculadas a modos grosseiros e sutis de cognição
associados à atenção plena, podem surgir, indeterminadamente, várias experiências, como a bem-
aventurança semelhante ao calor do fogo, luminosidade como o raiar do sol no amanhecer, e vacuidade, ou
ausência de conceitos, como um oceano não perturbado pelas ondas.
No entanto, se você não souber que não deve acreditar ou confiar nessas experiências meditativas
enganosas, e se você se fixar a elas como se fossem sublimes qualidades supremas, fazendo com que se
tornem objetos de desejo intenso e apego, elas passarão a ser nada além de causas de renascimento nos
três reinos da existência mundana. Portanto, mesmo que as cultive por um longo tempo, você não
ultrapassará o saṃsāra.
Além disso, com base nos ensinamentos de seu guru, você deve compreender inteiramente como as
perturbações externas das aparições de deuses e demônios, as perturbações internas de doenças físicas e as
perturbações secretas de várias alegrias, tristezas e assim por diante, surgem esporadicamente ao longo do
tempo como várias experiências meditativas de doenças e desconforto no corpo, fala e mente. [356]

C’’ Reconhecendo a Natureza Essencial daquilo que Deve Ser Abandonado e Seu Remédio Direto como o
Caminho Principal

Sempre que você orgulhosamente esperar por coisas boas e se apegar a elas,
e temer coisas ruins e reificar aqueles que infligem danos,
você terá encontrado uma encruzilhada perigosa que poderá desviá-lo.

17
Os dois tipos de substrato são o substrato verdadeiro e o substrato temporariamente luminoso. O primeiro é uma
vacuidade desprovida de mente, como o céu ao escurecer, coberto pela escuridão, enquanto o segundo possibilita que
os pensamentos apareçam, assim como um espelho polido reflete um rosto.
18
Essas duas sentenças são comparáveis a [VE 47].

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 14 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Sempre que você cair sob a influência de orgulhosamente esperar e se apegar a coisas que parecem boas,
como ganho material, respeito e renome – passando a vida humana dessa maneira – e temendo coisas que
parecem ruins, como má conduta, abuso e calúnia por seus inimigos, isso gera angústia e sofrimento.
Em resumo, na medida em que você reificar todos os deuses e aqueles que infligem danos e todas as alegrias
e tristezas, você terá encontrado uma encruzilhada perigosa e obstrutiva que poderá desviá-lo.
Pensando: "Eu serei incapaz de ascender à cidadela suprema da grande liberação", leve isso a sério.
Quaisquer que sejam as boas e más experiências, alegrias e tristezas, e assim por diante, que surgirem, não
há necessidade de combatê-las, pois meras aparências não são capazes de aprisioná-lo, como escreveu o
Ācārya Āryadeva:
Essas são meras aparências e não devem ser bloqueadas.
Em vez disso, pare de reificá-las.

A verdadeira raiz daquilo que deve ser eliminado é a mente que reifica as aparências. Externamente, tudo o
que aparece como demônios, espíritos malévolos e māras enganosos não surge de outro lugar além dessa
raiz. [357] Consequentemente, se não subjugá-la, subjugar todos os demônios externos e espíritos
malévolos, um por um, será uma tarefa sem fim.

A síntese geral que é o ponto único e vital do caminho


é determinar todas as experiências de prazer, dor e indiferença
como impressões falsas de experiências meditativas irreais.
Liberando-as, sem bloqueá-las ou abraçá-las,
você porá fim aos desvios e perdas, e esse é o olho único da sabedoria.

A síntese geral que é o remédio para tudo o que deve ser abandonado e o ponto único e vital de todos os
caminhos é determinar que, embora todas as boas e más experiências de prazer, dor e indiferença surjam,
elas são aparências irreais e delusórias, nada mais do que impressões falsas de experiências meditativas
irreais.
Liberando-as como sendo de um único sabor, sem bloquear as más ou abraçar as boas, as circunstâncias
adversas surgirão como caminho e condições obstrutivas surgirão como auxiliares. Ao fazer isso, você põe
fim às adversidades de desvios, perdas e erros.
A felicidade da sabedoria de ver infalivelmente o profundo significado da natureza da existência é
indispensável para entrar no caminho, portanto esse é como o olho único. Uma explicação mais elaborada
sobre a maneira como tudo o que surge consiste de aparências delusórias que não são estabelecidas como
reais será apresentada posteriormente.
Esse é o caminho real louvado pelos jinas para realizar o significado da ausência de esforços, mas, para que
isso ocorra, você deve primeiro se familiarizar com a união de śamatha focada e vipaśyanā investigativo.
Os iniciantes devem praticar śamatha desde a fase do foco único até a experiência da consciência lúcida, bem
como vipaśyanā, que é ensinado implicitamente aqui, sem deixá-los se degenerar. Portanto, aqui eles são
ensinados sequencialmente.

D’’ Como Nunca se Separar da Experiência das Instruções Práticas

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 15 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Aqueles que se distanciaram dos sublimes guias espirituais


deveriam prezar os cinco tópicos como a qualidade sublime do caminho.
Se você se esforçar demais para praticar a atenção unifocada,
o poder da sua mente diminuirá; e com a atenção plena estagnada,
embora seu corpo seja humano, sua mente se tornará a de um animal.
Algumas pessoas se perdem em delírio,
portanto, dedique-se a um guia espiritual de forma inseparável.

Aqueles que se distanciaram dos sublimes guias espirituais que revelam o caminho podem não saber
distinguir entre o que é e o que não é o caminho, ou como cortar suas incertezas e falsas suposições.
Portanto, os cinco tópicos apresentados anteriormente sobre quietude e movimento e os quatro tipos de
atenção plena são a qualidade sublime do caminho. Ao se aventurar na prática, você deve saber que eles
são indispensáveis e deve prezar esse conhecimento obtendo uma certeza firme da compreensão adequada.
Alguns consideram a prática que é meramente preliminar como sendo a natureza última da existência e se
esforçam apenas na prática da atenção unifocada. Ou, sem saber como aplicar o grau apropriado de esforço
de acordo com o estado de seus próprios fluxos mentais, como bloquear um canal de água, eles consideram
a mera atenção unifocada de interromper os pensamentos como a visão e meditação mais elevadas.
Então, se eles se esforçarem demais na prática, o funcionamento dos canais e elementos – para aquelas
pessoas que têm dominância de elemento água ou do elemento terra – faz com que o poder analítico de
suas mentes diminua. Sua atenção plena se torna estagnada e, embora seus corpos sejam humanos, suas
mentes se transformam na de um animal, estúpidas e adoecidas.
Com isso em mente, Panchen Sakya Mañjughoṣa escreveu:
Esforçar-se apenas na meditação, sem estudar,
leva ao renascimento como animal.

Algumas pessoas com dominância do elemento fogo ou do elemento terra se perdem no caminho à medida
que suas mentes ficam confusas devido ao delírio, desmaios e assim por diante. Portanto, elimine suas falsas
suposições dedicando-se inseparavelmente a um guia espiritual sublime, que saiba ensinar os pontos
essenciais desse caminho corretamente.
Mesmo que você não tenha tão boa fortuna, é indispensável que, sem cair na indolência, procure se
familiarizar adequadamente com as instruções práticas dos vidyādharas do passado que alcançaram siddhis
através desse caminho.

iii’ A Síntese

Em resumo, mesmo que você se esforce diligentemente nessa fase de práticas por
um longo tempo,
tomar a mente como caminho
não o aproximará nem um pouco dos caminhos
da liberação e da onisciência,
e sua vida certamente terá sido gasta em vão!

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 16 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Portanto, pessoas afortunadas, compreendam isso.

Em resumo [360], essas práticas desde śamatha até a consciência clara e cognoscente e a consciência
substrato, como ensinadas anteriormente, constituem a fase de tomar os aspectos da mente como caminho.
Mas, enquanto estiver separado do vipaśyanā de conhecer a natureza da existência, isso não o aproximará
nem um pouco do caminho da liberação do sofrimento da existência mundana e do caminho da onisciência
que liberta dos dois extremos19.
Assim, mesmo que você se esforce diligentemente nessas práticas por um longo tempo, isso não fará nada
além de perpetuar o saṃsāra. Portanto, compreenda como sua vida certamente terá sido gasta em vão!
Com essas palavras, ele ofereceu conselhos compassivos para as pessoas afortunadas que estão seguindo
esse caminho.
No entanto, independentemente de terem identificado ou não a lucidez prístina, aqueles que caíram em uma
confusão dispersa, devido à distração e preguiça, deveriam às vezes fazer o seguinte.
Primeiro, como a mente discursiva é como um aleijado que monta a energia vital – que é como um garanhão
selvagem e cego –, você deveria amarrar sua montaria com a estaca da experiência meditativa e atenção
sustentada.
Então, pouco a pouco, você será capaz de meditar ininterruptamente e, por fim, parecerá que todos os
pensamentos obsessivos grosseiros e sutis foram purificados – e a consciência primordialmente presente se
manifestará naturalmente, sem artificialidades ou modificações.
Então, quando for a hora de estabelecer-se na grandiosa não meditação da lucidez prístina [361], as
instruções diretas do guru atingirão facilmente seu alvo. Por esse motivo, e por ser muito importante para
os discípulos não se perderem em caminhos falsos, estava implícito aqui que esse ponto deve ser ensinado
claramente.
Isso conclui a síntese desta fase, revelada no Tantra do Vajra Cortante da Consciência Lúcida.

Fase Dois: Revelando Sua Própria Face como o Vajra Cortante de Vipaśyanā

b’ Tomando a Natureza Essencial como Caminho


Esta seção tem duas partes: (i’) o caminho da lucidez prístina, livre de elaborações conceituais e (ii’) a lucidez
prístina da base, a grande liberdade dos extremos.

i’ O Caminho da Lucidez Prístina, Livre de Elaborações Conceituais


Esta seção tem duas partes: (A”) o ensinamento e (B”) a explicação

A” O Ensinamento

Com a manifestação do vajra cortante da sabedoria,

19
Nesse contexto, os dois extremos são o extremo da existência mundana, ou saṃsāra, e da paz, ou nirvāṇa.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 17 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Para todos os seres sencientes – sem distinções entre bons ou maus – a sabedoria suprema primordialmente
presente é o vajra cortante, que não pode de forma alguma ser separado da vacuidade. No passado ela
estava obscurecida pela ignorância, mas nesta fase, pelo poder de instruções essenciais profundas e
sublimes, ela se manifesta e é vista, como se estivesse despertando do sono.

B” A Explicação Elaborada
Nesta seção há quatro partes: (1”) como a lucidez prístina, livre da mente, é diferenciada por seis
características; (2”) repousando na natureza essencial do estado intrínseco; (3”) como as qualidades do
caminho e da fruição são aperfeiçoadas; e (4”) a grandiosidade dos indivíduos que obtêm essa realização.
[362]

1” Como a Lucidez Prístina, Livre da Mente, é Diferenciada por Seis Características

a lucidez prístina transcende a base eticamente neutra.

A lucidez prístina que conhece e identifica, por meio da grande sabedoria pervasiva, o estado eticamente
neutro – a base da confusão para os seres sencientes, que não se transformou em nada bom ou ruim – desde
o instante primordial, tem a característica de transcender a base eticamente neutra. Essa distinção é
apresentada explicitamente, enquanto as outras cinco características estão implícitas, como se segue.
Nesse momento, o acesso às aparências no domínio da lucidez prístina está desimpedido e, sem reificação
ou fixação dualista, a lucidez prístina é imbuída do poder da sabedoria que realiza a ausência de identidades.
Essa é a característica de transcender a compreensão dualística.
No mesmo instante em que a sabedoria abre o olho da consciência primordial, surge a distinção de a lucidez
prístina ser diferente da mente. Ela mantém em si a radiância de ambos os tipos de consciência primordial,
que têm domínio sobre a natureza essencial e sobre sua radiância natural, respectivamente; portanto, tem
a característica de ser naturalmente liberada em si mesma.
Sem ser submetida ao intelecto ou à análise, a lucidez prístina sustenta-se em sua própria base, em si mesma;
portanto, tem a característica de não depender de objetos ou de condições auxiliares.
A consciência que está livre de tais crenças tem domínio sobre a grande liberação natural, por isso tem a
característica de permanecer e de ser um buda em sua própria base. Assim é explicado.
Em geral [363] é ensinado que essas são as características da lucidez prístina do caminho, mas são meros fac-
símiles. A manifestação única está presente apenas na experiência da lucidez prístina da base, com sua
grande liberação dos extremos, conforme declarado nos ensinamentos sobre o “cortar”: 20
Meditar sobre manifestações externas de objetos que aparecem logo ali, em seu
próprio lugar,
sobre o "eu", ou "essência pessoal", aqui, em seu próprio lugar,
e sobre a vacuidade não qualificada entre os dois
é o que acontece quando o interior de um bloco de gelo se transforma em água.
Note que poucos alcançam a liberação [dessa maneira].21

20
Tib. gcod. O cortar (chöd) é uma prática meditativa de oferecer na imaginação todo o seu ser como um meio de
realizar a natureza vazia de todos os fenômenos, cortar todos os apegos às aparências dos três reinos e realizar que
todos os deuses e demônios não são nada além de suas próprias aparências.
21
Tib. gcod khrid kyi skabs.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 18 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

2” Repousando na Natureza Essencial do Estado Intrínseco

Não sendo absolutamente nada, transcende todas as expressões de fala e


pensamento.
Na expansão natural, sem modificação, negação ou afirmação pela meditação,
é espontaneamente manifesta como o vajra cortante da sabedoria.

A natureza essencial da lucidez prístina desimpedida não se enquadra no extremo da existência ou da


inexistência, portanto, não é absolutamente nada.
Uma vez que todos os movimentos de palavras e pensamentos cessam, ela transcende todas as expressões
de fala e pensamento. Permanecer na expansão natural – autoiluminadora, livre de qualquer objeto
reificado, e sem modificação, negação ou afirmação por qualquer visão ou meditação – é o vajra cortante
da sabedoria, a natureza essencial espontaneamente manifesta.
Nesse momento, como o poder criativo é desimpedido, todas as aparências se tornam manifestas. Embora
isso seja semelhante ao que ocorre com os pensamentos de um ser senciente, uma vez que eles
desaparecem, não duais em relação a seus objetos, dispersando-se aos poucos, sem que nem sequer um
único deles tenha qualquer referente, eles não são, portanto, os pensamentos de um ser senciente. [364]
Assim, a atividade mental se torna sabedoria, o poder criativo se torna consciência primordial, e nisso a
estabilidade é alcançada, o que é análogo à água livre de sedimentos. Então, é muito importante saber disso.
Se você não identificar esse caminho – e, sobre essa base, realizar o dharmakāya, a consciência primordial
que está presente como a base da existência –, então além do poder de impulsioná-lo aos reinos da forma e
da não forma, isso apenas não o permitirá alcançar a iluminação onisciente.
Portanto, quando identificar isso, se você praticar unifocadamente, sem cair novamente em um estado
eticamente neutro, finalmente a consciência primordial discriminativa brilhará como o poder criativo, e você
experimentará autenticamente a realidade última, a natureza da existência da talidade. Dessa maneira, você
se tornará iluminado como Samantabhadra, o dharmakāya primordial e original da base.

3” Como as Qualidades do Caminho e da Fruição São Aperfeiçoadas

Todas as qualidades da visão, meditação e conduta, bem como da base, caminho


e fruição,
juntamente com o refúgio, a bodicita, as seis perfeições e as maṇḍalas de
deidades e mantras,
todos, sem exceção, são aperfeiçoados quando unificados dentro do vajra
cortante.

Se você realizar verdadeiramente a natureza profunda da existência dessa maneira, e se engajar nos estágios
de equilíbrio meditativo e na prática pós-meditativa, eis como as acumulações imensamente eficazes de
mérito e conhecimento serão simultaneamente aperfeiçoadas: com uma visão que não tem ponto de
referência, a meditação que não tem modo de cognição e a conduta suprema que não tem modificação,
assim visão, meditação e conduta são aperfeiçoadas.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 19 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

A base da grande liberação primordial, o caminho do grande repouso natural e a fruição da grande liberação
natural são meramente divisões nominais, pois têm a mesma natureza essencial. Assim, todas as qualidades
da base, do caminho e da fruição são aperfeiçoadas.
A natureza essencial originalmente pura é o dharmakāya, a natureza espontaneamente manifesta é o
sambhogakāya, e a compaixão onipresente é o nirmāṇakāya, e assim, todos os três kāyas são aperfeiçoados.
A lucidez prístina autoemergente é a natureza essencial das Três Joias, então isso é verdadeiramente tomar
refúgio na natureza da existência.
Uma vez que libera na igualdade de saṃsāra e nirvāṇa, aperfeiçoa a bodicita absoluta.
A não fixação é generosidade, a não confusão é disciplina ética, o não alterar é paciência, o não esforço é
entusiasmo, a não meditação é meditação e o não errar é sabedoria. Portanto, as seis perfeições são
simultaneamente aperfeiçoadas.
Tome o dharmakāya Samantabhadra como guru; unifique a essência de toda a miríade de jinas pacíficos e
irados e dedique-se a essa essência como sua deidade pessoal; em seguida, unifique de modo não dual todas
as ḍākinīs do espaço absoluto da consciência primordial no céu de Samantabhadrī, que é o próprio espaço
absoluto.
Uma vez que isso é entrar em seu ventre, as maṇḍalas de deidades e mantras – todas as maṇḍalas sem
exceção – são aperfeiçoados quando unificados dentro do vajra cortante, na natureza essencial da lucidez
prístina, desprovida de atividade. Portanto, esse ponto é de profundo significado e é muito potente. [366]

4” A Grandiosidade dos Indivíduos que Obtêm essa Realização

Seres sencientes sob o domínio dos māras da ignorância e das aflições mentais
São diferenciados desde o instante
em que manifestam a perfeita iluminação da onisciência,
e se tornam campos de mérito para seres sencientes, incluindo deuses.

É assim que os seres sencientes angustiados sob o domínio dos māras do carma e das aflições mentais na
escuridão sombria da ignorância, dentro da prisão aterrorizante do saṃsāra, são diferenciados e
enobrecidos – uma vez que seus fluxos mentais não são mais como eram antes – desde o instante em que
reconhecem sua própria face como a lucidez prístina da natureza da existência.
Desse momento em diante eles manifestam apenas o estado da perfeita iluminação da onisciência, sem
jamais retomarem caminhos inferiores ou falsos. Em vez disso, eles se tornam campos sublimes para seres
sencientes, incluindo deuses, para a acumulação de mérito.
Isso conclui a segunda fase do Vajra Cortante.

Fase Três: Revelando o Dharmakāya da Base

ii’ Identificando Diretamente em Si Mesmo a Lucidez Prístina da Base, a Grande Liberdade dos Extremos
Esta seção tem seis partes: (A’’) a natureza da base pura; (B’’) os referentes dos rótulos convencionais; (C’’)
o processo de delusão no saṃsāra impuro; (D’’) preces para realizar e experienciar rapidamente o significado
do tantra; (E’’) confiar nas instruções práticas para o momento da morte e assim por diante, se você não tiver

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 20 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

se dedicado sinceramente à visão nesta vida; e (F’’) ensinamentos únicos da Grande Perfeição sobre as
diferenciações claras. [367]

A” A Natureza da Base Pura


Esta seção tem duas partes: (1’’) como as aparências delusórias do saṃsāra não estão de fato ali, e (2’’) um
ensinamento sobre a natureza essencial não delusória, a base primordial, como os kāyas e facetas da
consciência primordial.

1” Como as Aparências Delusórias do Saṃsāra Não Estão de Fato Ali


É assim que, a partir do momento em que os pensamentos dualistas surgem, saṃsāra e nirvāṇa parecem ser
diferentes, embora nunca se afastem da expansão da base da existência. O Tantra Raiz da Reverberação do
Som declara:
Não conhecer como sua própria natureza essencial
a raiz que é a única causa indivisível,
é o princípio de saṃsāra. 22

Ao determinar que todos os fenômenos do saṃsāra podem ser sintetizados no par de sujeitos e objetos, você
rapidamente cortará a força vital da delusão. Aqui, então, determinaremos a natureza de sujeitos e objetos.
A intenção iluminada é de que, primeiro determinando isso em um nível grosseiro e depois em um nível sutil,
será fácil realizar o nível muito sutil. Com isso em mente, existem os ensinamentos sobre as três divisões de
sujeitos e objetos como externos, internos e secretos.
Dentre esses, nesta fase determinaremos primeiramente a natureza dos sujeitos e objetos externos. Para
isso, há três seções: (a’’) determinando o sujeito – aquele que é apreendido como uma essência pessoal –
como sendo desprovido de identidade, (b’’) determinando os objetos – que são apreendidos como
fenômenos – como sendo desprovidos de identidade e (c’’) reconhecendo-os fundamentalmente como uma
única vacuidade. [368]

a” Determinando a Ausência de Identidade de Pessoas como Sujeitos


Esta seção tem duas partes: (i’’) o ensinamento e (ii’’) a explicação.

i” O Ensinamento

O vajra cortante da sabedoria discriminativa


destrói a montanha de conceitos de identidade do saṃsāra.

O vajra cortante da consciência primordial, que desponta do poder criativo da sabedoria discriminativa,
destrói completamente a poderosa e imponente montanha de propensões habituais do saṃsāra que brotam
do nosso hábito sem princípio de conceber a natureza essencial como uma essência pessoal.

22
Tib. sgra thal ’gyur rtsa ba’i rgyud.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 21 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

ii” A Explicação
Esta seção tem duas partes: (A’’’) reconhecendo a concepção de uma essência pessoal como a raiz da
existência mundana, e (B’’’) demonstrando que ela é vazia na medida em que é uma mera aparência.

A’’’ Reconhecendo a Concepção de uma Essência Pessoal como a Raiz da Existência Mundana

Investigue a origem, localização e destino do nome e do referente


daquilo que é apreendido como o “eu”, que é a raiz do saṃsāra.

Aqui está a raiz do vaguear no saṃsāra: devido ao continuum da consciência que apreende a expansão da
base da existência como o “eu”, embora não exista um “eu” ali, todas as aparências e estados mentais
emergem de modo fugaz, embora não existam. Por quê? É da natureza das coisas – sempre que o
pensamento de apreender um “eu” estiver presente, as aparências e os estados mentais surgirão
naturalmente. As fontes escriturais e o raciocínio demonstram autenticamente que, se não houver a
apreensão do “eu”, as aparências e estados mentais também não ocorrerão. Assim, o pensamento de fixar-
se a um "eu" onde não existe um "eu" é indubitavelmente determinado como a raiz da existência mundana.

B’’’ Demonstrando Que É Vazio na Medida em Que Meramente Aparece

Reconhecê-lo definitivamente como vacuidade sem objeto


é determinar a ausência de identidade pessoal.

Aqui está como essa essência pessoal é determinada como sendo vazia investigando sua origem, localização
e destino, bem como seu nome e seu referente: todas as aparências possíveis surgiram primeiramente do
próprio eu; portanto, sua origem é vazia de estar em qualquer outro lugar. Uma vez que tenham surgido,
elas estão presentes no domínio do próprio eu e, portanto, são vazias de estarem localizadas em qualquer
outro lugar. Finalmente, elas desaparecem juntamente com o próprio eu, sendo vazias de qualquer outro
destino.
De maneira semelhante, eis como a realidade da base de designação de meu próprio nome é não
estabelecida. Entre corpo e mente, nem eu nem meu nome é estabelecido como sendo o corpo. Cada parte
do corpo tem seu próprio rótulo, por isso não recebe meu nome. A coleção de todos os seus componentes
pode ser chamada de coleção ou corpo, mas isso não leva meu nome. A mente, que não tem base ou raiz, é
designada como mente, mas não leva meu nome. Portanto, a base de designação do meu nome é vazia, o
que significa que nem o eu nem o meu nome existem.
Além disso, não há identidade que seja estabelecida como algo além do corpo e da mente. Se tal identidade
existisse, ela deveria aparecer e, portanto, ser observável, mas não é. Portanto, a identidade de um indivíduo
não é estabelecida como algo real ou substancial. Em resumo, como a base de designação de seu nome não
é estabelecida como a identidade de um indivíduo, nem a identidade nem o nome dele existem. [370]
Como a identidade de um indivíduo não é estabelecida como substancialmente real, sua base de designação
também não é estabelecida como real. Como ela não existe, o nome que lhe é imputado não passa de mera
conversa. Portanto, de fato, a assim chamada identidade nada mais é do que uma aparência e uma
designação na dependência do corpo e da mente. Quando é definitivamente reconhecido como vacuidade
sem objeto, aquilo que é apreendido como uma essência pessoal é determinado como desprovido de
identidade.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 22 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

b” Determinando a Ausência de Identidade dos Fenômenos como Objetos


Esta seção tem quatro partes: (i’’) buscando as bases de designação dos rótulos, (ii’’) pondo fim à reificação
das coisas, (iii’’) combatendo as falhas de benefício e dano e (iv’’) fazendo colapsar a falsa caverna 23 de
esperanças e medos.

i” Buscando as Bases de Designação dos Rótulos

Busque as bases da designação dos rótulos da essência pessoal e dos objetos,


e reconheça-os definitivamente como vacuidade sem objeto.

Ao buscar, com discernimento, as bases de designação dos rótulos do eu subjetivo e de tudo o que surge
como objetos para o eu, como os cinco agregados e os cinco objetos dos sentidos que parecem ser "meus",
reconheça-os definitivamente como vacuidade sem objeto, uma vez que todos os rótulos nada mais são do
que imputações interdependentes e suas bases de designação não são estabelecidas como inerentemente
reais.

ii” Pondo Fim à Reificação das Coisas

Investigue como todas as coisas, desde as partículas elementares indivisíveis,


são vazias no sentido de serem desprovidas de natureza inerente.
Então, reconheça definitivamente os fenômenos dos mundos aparentes desta
vida, ou de além desta vida e dos sonhos,
como sendo o espaço absoluto da vacuidade sem objeto.

Em termos de aparência, todas as coisas parecem ser absolutamente existentes, reais e permanentes; mas
se forem investigados, [371] todos os fenômenos que surgem como grosseiros não passam de meras
aparências que surgem na dependência de configurações de numerosas partículas elementares.
Nem um único fenômeno grosseiro é estabelecido como sendo inerentemente real. Até mesmo partículas
elementares nada mais são do que aparências que surgem na dependência da agregação de seus
componentes direcionais.
Portanto, nem uma única partícula elementar é estabelecida como sendo inerentemente real e, na verdade,
não possui partes. Ou seja, investigando como as partículas indivisíveis são vazias no sentido de serem
desprovidas de natureza inerente desde o momento em que surgem, todas as aparências – seja como for
que apareçam – são determinadas apenas como meras aparências claras, e não há nada que corresponda à
consciência que se habituou a seus desejos e medos.
Em termos dos mundos aparentes desta vida, ou de além desta vida e dos sonhos, os fenômenos dos
mundos físicos, as aparências de seus habitantes sencientes e todas as aparências dos cinco sentidos físicos
devem ser definitivamente reconhecidos como o espaço absoluto da vacuidade sem objeto.
Para elaborar esse ponto, se todos os fenômenos fossem de fato estabelecidos como realmente existentes
e não fossem meras aparências delusórias, eles certamente deveriam ser plenamente dotados de todas as

23
Tib. rdzun phug rdib, lit. “Colapso da falsa caverna”, que é o falso abrigo de esperanças e medos delusórios.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 23 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

sete qualidades de um vajra, isto é, seriam invulneráveis, indestrutíveis, reais, incorruptíveis, estáveis,
impossíveis de serem obstruídos e totalmente invencíveis.
Mas eles não têm sequer uma dessas qualidades, pois é evidente que não são estabelecidos como reais e
nada mais são do que meras aparências delusórias, como as de um sonho.
A afirmação de que o espaço é plenamente dotado de todas essas qualidades [372] tem como premissa o
ponto crucial de que a vacuidade não é estabelecida como existindo por suas próprias características.
Tomando isso como modelo, é imperativo realizar o modo de existência da realidade última, desprovido de
transição e mudança. Mas isso não é ensinado a fim de descrever o espaço como permanente e
verdadeiramente existente versus os elementos e propriedades emergentes como não sendo permanentes
ou realmente existentes.
Aqui está um resumo de todos os ensinamentos que refutam, por muitas razões, a concepção equivocada de
que as aparências diurnas permanecem onde estavam quando o indivíduo está dormindo à noite: se o modo
delusório de aparências é considerado convincente, isso implicaria que as aparências diurnas permaneceriam
durante a noite, porque as pessoas deludidas sentem que suas percepções são confiáveis.
Se a natureza convencional da existência é considerada convincente, a cognição válida convencional invalida
a noção de que elas permanecem, pois a cognição válida estabelece que todas as aparências diurnas
desaparecem e as aparências noturnas emergem. É certo que o fato de elas não permanecerem é inequívoco,
como é declarado no Sūtra Rei do Samādhi:
Os sentidos visual, auditivo e olfativo não são cognições válidas,
nem são o gustativo, tátil ou mental.
Se esses sentidos fossem válidos,
quem precisaria do caminho dos āryas?24

Isso é dito porque aquilo que é percebido por pessoas comuns e infantis é delusório, não é válido. [373] Esse
ensinamento neutraliza essa percepção delusória e mostra como os ensinamentos sobre a natureza
convencional e enganosa da existência são inequívocos. Isso ilustra todos esses raciocínios, mas se nenhuma
distinção clara for feita, penso que seria difícil obter a liberação dos nós da incerteza.

iii” Combatendo as Falhas de Benefício e Dano

Além disso, compreenda definitivamente que as relações cármicas de virtude e


falha, bem como o benefício e dano de deuses e demônios,
são da natureza da expansão sem objeto.

Se as relações cármicas de virtude e falha, bem como o benefício e dano de deuses e demônios, são
investigados com relação ao espaço absoluto dos fenômenos, que é a natureza do espaço prístino, todas as
virtudes e falhas acumuladas por meio de corpo, fala e mente não existem em lugar algum.
Se tudo isso desaparece na natureza da nulidade – a expansão da vacuidade sem objeto –, então todas as
virtudes e falhas causais e as consequentes alegrias e tristezas não passam de meras aparências de realizar
ações e experienciar suas consequências.

24
Tib. mdo ting ’dzin rgyal po; sct. Samādhirājasūtra.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 24 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Mesmo que você ache que elas beneficiam ou prejudicam seu corpo ou mente, uma vez que objetos e
sujeitos são estabelecidos como não sendo mais reais do que sonhos, todas as virtudes e falhas são atividades
mentais e todas as alegrias e tristezas são apenas aparências experienciais.
Portanto, compreenda definitivamente todas as ações, alegrias e tristezas como não tendo existência física
ou substancialmente real. O termo além disso indica que tanto a virtude quanto a falha, bem como os
fenômenos de benefício e dano por deuses e demônios, são da natureza da vacuidade única que é a base da
existência. [374]
Até que essas aparências delusórias se dissolvam no espaço absoluto dos fenômenos, quaisquer ações
positivas e negativas, grosseiras ou sutis, que você cometer, irão se somar aos seus renascimentos neste
mundo do saṃsāra, até que seus resultados totalmente amadurecidos se esgotem. Portanto, o bem-estar
eterno certamente não será alcançado.
Aqui está a razão pela qual é necessário determinar a natureza da virtude dessa maneira. O principal caminho
para alcançar os estados de liberação e onisciência é a sabedoria, como escreveu Śāntideva:
O Sábio ensinou todo esse sistema
pelo bem da sabedoria.
Portanto, com o desejo de afastar o sofrimento,
Todos deveriam desenvolver sabedoria.25

No entanto, quando pessoas tolas, atraídas por experiências que envolvem desejo intenso, meditam sobre a
vacuidade, uma vez que isso não satisfaz seu desejo, elas perdem a confiança e a fé. Como isso não envolve
nenhum esforço ou modificação, elas pensam que é uma perda de tempo e, portanto, dedicam-se a
prostrações, circum-ambulações e assim por diante. Portanto, isso é ensinado a fim de ajudá-las a entender
que essa meditação é superior àquilo.
Além disso, algumas pessoas que se orgulham por serem contemplativas marginalizam a visão, que é a
natureza essencial da meditação, e meditam apenas na mera luminosidade e vacuidade da mente. Isso é
ensinado para que essas pessoas saibam como não dedicar suas vidas apenas àquilo ou a prática das virtudes
físicas e verbais, [375] mas para praticarem integrando a visão e a meditação.
Determinando a natureza do mal, você descobre que a natureza essencial de todos os obscurecimentos é a
ignorância de sua própria natureza. Entenda que isso não pode ser purificado meramente por práticas físicas
e verbais virtuosas, mas apenas cultivando a lucidez com respeito à sua própria face – a natureza da
existência. Assim, você deve ter convicção no caminho autêntico, renunciar aos nove tipos de atividades e
dedicar-se [à prática] até o final do processo da morte.
Se você investigar os deuses protetores e demônios perigosos, descobrirá que os cinco elementos objetivos,
juntamente com coisas como montanhas, pedras, paredes e casas, não dão origem a deuses ou demônios.
Esses não são seus locais de moradia depois de terem surgido; e não há lugar para onde eles se vão ao final.
Por quê? Porque eles não são estabelecidos como existindo na realidade – são todos suas próprias
aparências, como fenômenos delusórios em um sonho. Deuses e demônios não são estabelecidos como
sendo substancialmente reais porque não se estabelecem como objetos com forma, som, cheiro, sabor ou
toque.
Em termos da realidade convencional e enganosa, embora um deus ou um demônio certamente existam
como separados de seu próprio fluxo mental, é impossível para eles prestar ajuda ou prejudicar, pois não são
entidades físicas que ajudam ou prejudicam entidades físicas. Se deuses e demônios fossem físicos, eles
deveriam ser observáveis, mas não são. [376]

25
Śāntideva, Bodhicaryāvatāra IX: 1.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 25 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

E coisas não físicas não podem ajudar ou prejudicar coisas físicas, não mais que o chifre de uma lebre pode
infligir um ferimento. Em suma, seja como eles apareçam – como físicos ou não físicos – tratados e raciocínios
confiáveis estabelecem que eles não são nada mais que suas próprias aparências.
Em geral, embora haja referências a muitos tipos de deuses e demônios, os deuses mencionados nesse
contexto são aqueles que habitam como deuses mundanos, não supramundanos, e os demônios
mencionados são demônios mundanos que habitam o saṃsāra. Portanto, alcance um entendimento
definitivo de que todos os deuses e demônios, assim como toda a ajuda e dano que lhes são atribuídos, são
exibições vazias e sem objeto, que são aparências delusórias, impressões falsas extraídas das experiências de
seres sencientes individuais.
Se isso não for determinado, então, assim como desde o momento em que os agregados que são apreendidos
como “meus” são estabelecidos há aparências contínuas das seis classes de seres sencientes; do mesmo
modo, enquanto houver o agarrar mental que se fixa, se funde com e depois atrai para si o objeto da
percepção com relação ao observador, o objeto da meditação com relação ao meditador, e assim por diante,
é certo que ocorrerão distúrbios externos, internos e secretos.
Ao considerá-los demoníacos, você se afasta do caminho autêntico e se perde. Em sua meditação sobre
deidades na prática do estágio de geração, se você os considerar falsamente como substancialmente
existentes, isso conceitualmente os transforma em demônios. Dessa maneira, os demônios são forçosamente
conjurados, tornando-se māras para a sua força vital.
Colocando suas esperanças em deuses e temendo demônios, [377] seus pensamentos surgem como
inimigos, levando a um fluxo interminável de doenças, alegrias e tristezas. Reconhecer todos os deuses e
demônios como suas próprias aparências, como ilusões e sonhos, é a natureza essencial do cortar, e este é
um ensinamento especialmente profundo sobre cortar os pensamentos que se fixam a deuses e demônios.
Portanto, é particularmente indispensável para aqueles que praticam o cortar.

iv’’ Fazendo Colapsar a Falsa Caverna de Esperanças e Medos

Atravesse a base e a raiz da origem, localização e destino


dos budas e exibições de campos búdicos,
e das aparências, estados mentais e objetos dos três reinos do saṃsāra.
Reconheça verdadeiramente tudo como sendo da natureza da vacuidade sem
objeto, sem que isso seja apenas da boca para fora.

Se você investigar isso de maneira inteligente, uma vez que são desprovidos de qualquer base ou raiz, os
objetos puros da nossa esperança, ou seja, os budas, e as vastas, numerosas e belas exibições de campos
búdicos imbuídos de abundantes qualidades sublimes, não devem ser vistos como outra coisa além de
aparências dos próprios seres sencientes.
O Tantra da Essência Interior afirma: “Apresentar budas como objetos é um caminho equivocado.”26
O Continuum Sublime afirma:
Assim como o reflexo físico do Rei dos Deuses aparece
na base pura de lápis-lazúli,
o mesmo acontece com o reflexo físico do Senhor dos Sábios,

26
Tib. nye ba’i snying po’i rgyud.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 26 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

que surge na base pura das mentes dos seres sencientes.

Devido ao ponto crucial de que o dharmakāya de todos os budas também não é nada além da base primordial
da existência, o sugatagarbha, [378] ele surge como reflexos da lua nos vasos com água da fixação de cada
discípulo a um "eu", sob qualquer maneira apropriada para treiná-los.
Da mesma forma, objetos impuros, ou seja, os três reinos de saṃsāra, incluindo as aparências dos vastos
mundos físicos, seus numerosos habitantes sencientes e todas as aparências bem exibidas dos cinco objetos
dos sentidos, são suas próprias aparências delusórias – meros sonhos.
Um Guia para o Modo de Vida do Bodisatva afirma:
Quem inventou o piso de ferro aquecido?
E de onde vêm essas chamas?
O Sábio declarou que tudo isso
surgiu da mente maligna.27

Se você investigar isso por meio do raciocínio, descobrirá que a origem inicial de onde surgem, a localização
onde existem e o destino final para o qual eles vão são todos inexistentes.
Além disso, ao atravessar até a base que os sustenta, e ao cortar a raiz que os gera, eles são vistos como
reflexos; portanto, nada mais são do que delusões de sua própria mente e não existem como objetos
autônomos.
Portanto, sem que isso seja apenas da boca para fora, com base na realidade, reconheça isso
verdadeiramente até obter uma certeza real, sem dúvidas, de como tudo tem um único sabor na natureza
da vacuidade sem objeto.

c’’ Reconhecendo-os Fundamentalmente como a Vacuidade Única


Nesta seção há duas partes: (i’’) um breve resumo e (ii’’) uma explicação elaborada. [379]

i’’ Um Breve Resumo

O espaço da grande vacuidade é estabelecido como a base das aparências do


saṃsāra.

Agora, não consideramos que exista algo chamado de sugatagarbha além da realização e do
reconhecimento, exatamente tal como é, da natureza da existência do espaço da grande vacuidade que
surge durante o dia, a noite e o período intermediário.
Com isso em mente, Machig Labdrön28 disse: “O Buda é a mente e os seres sencientes são espaço”, e o Siddha
Bagompa29 disse: “Sonde esse espaço! Se ele for realizado como destituído de objeto, o grande prego da não
meditação será atingido.”

27
Śāntideva, Bodhicaryāvatāra V: 7-8.
28
Tib. ma chig.
29
Tib. grub thob rba sgom pa.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 27 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Portanto, como não afirmamos a existência de nenhum buda separado da natureza manifesta da mente ou
a existência da natureza manifesta da mente separada do espaço, quando esse espaço não é realizado, ele
também serve como base das aparências do saṃsāra.

ii’’ Uma Explicação Elaborada


Esta seção tem três partes: (A’’’) identificando o espaço absoluto dos fenômenos como aquilo a ser realizado,
(B’’’) consciência primordial subjetiva que surge de acordo com isso e (C’’’) instruções práticas sobre a
dissipação de obstáculos e aprimoramento da prática.

A’’’ Identificando o Espaço Absoluto dos Fenômenos como Aquilo a Ser Realizado

Entenda definitivamente todos os fenômenos como a expansão panorâmica do


espaço livre de objetos;
depois estabeleça o espaço como a base de tudo.
O espaço prístino é o buda,
o dharmakāya da base, o sugatagarbha.

Assim, ao entender definitivamente a natureza essencial de todos os fenômenos como a expansão


panorâmica do espaço vazio e sem objetos, esse espaço é estabelecido como a base das aparências de todo
o saṃsāra e nirvāṇa.
Além disso, a natureza essencial do espaço não é a imaterialidade desprovida de falhas e virtudes, mas é
estabelecida como a pureza primordialmente prístina, livre de falhas e contaminação, da natureza da clara
luz.
Essa é a natureza da existência e é o verdadeiro buda, e é chamada de dharmakāya da base, o sugatagarbha,
conforme declarado nos Dois Segmentos (Hevajra Tantra):
Seres sencientes, eles próprios, são budas,
mas estão temporariamente obscurecidos por contaminações.
Quando elas são dissipadas, eles são budas.30

Algumas pessoas afirmam que, embora a natureza essencial das mentes dos seres sencientes possa ser
considerada como buda, a natureza manifesta da mente e do espaço não é a mesma, porque a afirmação em
todos os sūtras e tantras de que a mente não tem base e nem raiz, como o espaço, sugere uma distinção
entre a realidade e a metáfora.
Essa afirmação é feita da perspectiva de como as coisas surgem no modo convencional das aparências. No
entanto, a posição aqui é principalmente da perspectiva de seu modo convencional de existência, portanto
não há contradição. Em resumo, para todos os fenômenos que são determinados como aparências de vocês
mesmos, não pode ser encontrada outra base para seu surgimento além do espaço; portanto, não há
alternativa senão afirmar que o espaço e a natureza manifesta da mente são não duais. [381]

30
Tib. brtags gnyis.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 28 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

B’’’ A Consciência Primordial Subjetiva que Surge de Acordo com Isso

Portanto, realize todos os fenômenos como vacuidade.


A experiência da consciência lúcida da ausência de identidade
é o próprio vajra cortante, que é a consumação da lucidez prístina que está
presente na base.

Por essa razão, portanto, a consciência lúcida que realiza a ausência de identidade – que consiste da
determinação contínua que realiza a natureza essencial de todos os fenômenos como realidade última, que
é da natureza do espaço vazio – é o próprio vajra cortante.
A experiência direta da natureza do espaço pela grande sabedoria onisciente é a consumação do
dharmakāya, lucidez prístina que está presente na base. O que você deve entender é que, como isso é o
ponto último a ser investigado com inteligência, não há nada melhor do que isso para aprimorar a prática.

C’’’ Instruções Práticas sobre a Dissipação de Obstáculos e Aprimoramento da Prática

Por fim, para fazer colapsar a caverna de fixações a esperanças e medos,


visualize seu corpo, fala e mente como os três vajras,
e com os pontos vitais das instruções práticas sobre os três grandes princípios,
vagueie aleatoriamente em terrenos assombrados,
e faça a oferenda suprema do seu corpo estimado.
Pelo poder dessa prática, a falsa caverna de esperanças e medos entrará em
colapso.

Dessa forma, aqueles que chegam à investigação final da visão, fazem colapsar diretamente a falsa caverna
de fixações a esperanças e medos. Para cortar vigorosamente os laços de estima ao corpo, que é a fonte de
todas as falhas e problemas, visualize seu corpo, fala e mente como a natureza dos três vajras
primordialmente presentes; assim, os mundos inanimado e animado não são nada além de suas próprias
aparências.
Os três grandes princípios são o domínio inicial, o domínio intermediário e o domínio final. Dotado dos
pontos vitais das instruções práticas sobre o profundo significado do cortar, considere seu corpo como um
cadáver, sua consciência como o portador do cadáver [382], o desejo como a corda, o terreno assombrado
como um terreno de cremação e deuses e demônios como abutres.
Embora não existam demônios externamente, a fim de despertar forçosamente os demônios internos dos
pensamentos obsessivos, vagueie aleatoriamente sozinho, sem companheiros, em lugares aterrorizantes e
perigosos, como cavernas nas montanhas, terrenos de cremação, casas abandonadas, cavernas rochosas,
rios e lagos. Imbuído do espírito da vacuidade e da compaixão, faça a oferta suprema do seu corpo estimado.
Pelo poder de tomar essa como sua principal atividade, devido a uma sucessão de experiências desafiadoras
e seus desfechos bem-sucedidos, saṃsāra e nirvāṇa serão realizados como suas próprias aparências. Assim
a falsa caverna de esperanças e medos entrará em colapso e, sem abandonar os quatro māras, eles serão
liberados exatamente onde estão.
Isso conclui a terceira fase de O Vajra Cortante, ou seja, experienciando o dharmakāya.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 29 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Fase Quatro: Determinando as Características e Qualidades da Base

2’’ Uma Explicação das Características da Natureza Essencial Não Delusória, dos Kāyas e das Facetas da
Consciência Primordial
Esta seção tem duas partes: (a’’) o ensinamento e (b’’) a explicação.

a” O Ensinamento

A natureza essencial de todos os mundos possíveis das aparências é vacuidade.


A grande vacuidade é espontaneamente manifesta como a natureza essencial do
caminho.

Portanto, a natureza essencial de todos os mundos possíveis das aparências é determinada com a lucidez
prístina como sendo vacuidade, e essa grande vacuidade é primordial e espontaneamente manifesta como
a natureza essencial do caminho. É como acordar para a natureza da existência dentro de si mesmo, [383]
ou como o raiar do sol, pois não é produzido com esforço.

b” A Explicação
Esta seção tem três partes: (i’’) a Grande Perfeição da base da existência, (ii’’) a Grande Perfeição do caminho
da realização, e (iii’’) a Grande Perfeição da fruição da manifestação.

i” A Grande Perfeição da Base da Existência


Esta seção tem três partes: (A’’’) as características manifestas da base; (B’’’) o contexto dos meios hábeis e
sabedoria; e (C’’’) o sumário de seu significado.

A’’’ As Características Manifestas da Base

A natureza essencial, o dharmakāya, o sugatagarbha,


não é modificada ou alterada pelo saṃsāra ou pelo nirvāṇa.
Livre dos extremos da elaboração conceitual, está imbuída das três portas da
liberação.
É espontaneamente manifesta como os cinco kāyas,
as cinco famílias búdicas, as cinco facetas da consciência primordial,

A natureza essencial de todos os fenômenos que podem ser conhecidos é o dharmakāya, o sugatagarbha,
que não é modificado ou alterado pelas falhas ou virtudes do saṃsāra ou do nirvāṇa. É livre dos extremos
da elaboração conceitual e está imbuído das três portas da liberação. Está primordialmente presente em
uma natureza quádrupla, como os cinco kāyas, as cinco famílias búdicas, as cinco facetas da consciência
primordial e assim por diante.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 30 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

(1) Este sugatagarbha da base nem aprimora nem é aprimorado – nem será jamais aprimorado – por todas
as facetas da consciência primordial e qualidades do domínio do estado búdico, pois não tem nenhum objeto.
(2) Esse sugatagarbha da base não surgiu com um começo, fim ou ínterim, não surge e não vai surgir, por isso
é livre do extremo do nascimento. Como nunca se torna inexistente, [384] é livre do extremo da cessação.
Como não cai no extremo da existência e da substancialidade, e como não foi visto, não é visto e não será
visto, mesmo com os olhos dos jinas, ele está livre do extremo da permanência.
Uma vez que não cai no extremo da inexistência ou da nulidade e é estabelecido como a base do saṃsāra e
do nirvāṇa, é livre do extremo da aniquilação. Como não há um lugar de onde tenha vindo ou agente pelo
qual foi estabelecido, é livre do extremo de vir. Como transcende o ter algum lugar para onde ir ou ter
qualquer agente no passado, presente ou futuro, é livre do extremo de ir. Uma vez que é o sabor único como
a natureza essencial de saṃsāra e nirvāṇa, é livre do extremo da diversidade.
(3) Uma vez que não é estabelecido como tendo qualquer parcialidade e como não cai em nenhum extremo,
é a porta da liberação que é a vacuidade. Como não pode ser representado por palavras, analogias ou
referentes, é a porta da liberação que é a ausência de sinais. Como a liberação é alcançada por meio da
confiança em si mesmo, e não há o menor desejo de uma liberação resultante de qualquer outra coisa – na
qual alguém iria para outro lugar – é a porta da liberação que é a ausência de desejos.
(4) Aqui há quatro subdivisões:
(a) Quanto aos cinco kāyas, todos os fenômenos (dharmas) do saṃsāra e do nirvāṇa estão naturalmente
presentes no sugatagarbha, e portanto [385] é chamado de dharma. Como os fenômenos são reunidos, ou
agregados, por assim dizer, sem serem misturados em termos de aparências, é chamado de kāya (etim. tib.
chos kyi sku).31
Uma vez que os kāyas espontaneamente realizados e as exibições da consciência primordial são
naturalmente aperfeiçoados como deleites, é chamado de saṃbhogakāya (etim. tib. longs spyod rdzogs pa'i
sku).32
Uma vez que é emanado de maneiras variadas como nada além de si mesmo e está naturalmente presente
– sem se mover de sua própria natureza ou nunca sendo enviado –, é chamado de nirmāṇakāya (etim. tib.
sprul pa'i sku).33
Uma vez que os três kāyas têm em essência um só sabor e são naturalmente surgidos, é chamado de
svabhāvikakāya (etim. tib. ngo bo nyid kyi sku).34
Uma vez que não se move e nem se altera nos três tempos, é imutável. É invulnerável a todas as aflições
mentais e propensões habituais. É indestrutível por todos os objetos e circunstâncias. Uma vez que é
originalmente puro por sua própria natureza essencial, é real. Uma vez que não pode ser contaminado por
falhas ou virtudes ou por qualquer coisa boa ou ruim, é incorruptível. Uma vez que não se move e nem se
altera nos três tempos, é estável. Por ser capaz de penetrar tudo, incluindo obscurecimentos cognitivos sutis,
não pode ser obstruído. Como não pode ser transformado por nada, é invencível. Uma vez que é imbuído
dessas sete qualidades, é um vajra. Uma vez que todas as facetas da consciência primordial e das qualidades
sublimes são naturalmente aperfeiçoadas, é um kāya (etim. tib. mi 'gyur rdo rje'i sku).35
(b) Quanto às cinco famílias búdicas, a base originalmente pura da existência é a família Buda. A base da
existência é invencível e indestrutível, por isso é a família Vajra. Na base da existência a consciência
primordial é perfeita, por isso é a família Joia. [386] A grande bem-aventurança da base da existência é a
família Lótus. A perfeição espontaneamente realizada da base da existência é a família Carma.

31
Isso revela a etimologia de “dharmakāya” (tib. chos kyi sku).
32
Isso revela a etimologia de “saṃbhogakāya” (tib. longs spyod rdzogs pa’i sku).
33
Isso revela a etimologia de “nirmāṇakāya” (tib. sprul pa’i sku).
34
Isso revela a etimologia de “svabhāvikakāya” (tib. ngo bo nyid kyi sku).
35
Isso revela a etimologia de “vajrakāya imutável” (tib. mi ’gyur rdo rje sku).

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 31 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

(c) Quanto às cinco facetas da consciência primordial, a natureza essencial da base, a vacuidade que tudo
permeia, é a consciência primordial do espaço absoluto dos fenômenos. Sua natureza manifesta
autoiluminadora é a consciência primordial semelhante ao espelho. A igual pureza do saṃsāra e do nirvāṇa
é a consciência primordial da igualdade. A luminosidade desimpedida das qualidades da consciência
primordial é a consciência primordial do discernimento. A liberdade original e primordial é a consciência
primordial da realização.
(d) Quanto às cinco ḍākinīs, o espaço absoluto vazio da base é a ḍākinī Buda. O estado livre de falhas é a
ḍākinī Vajra. A densa variedade de qualidades sublimes é a dākinī Joia. A liberação do apego é a dākinī Lótus.
A manifestação espontânea da perfeição é a ḍākinī Carma. Sua natural perfeição na própria base é a
característica que verdadeiramente define a base suprema da existência. Ao realizar gradualmente essa
natureza da existência de acordo com suas faculdades, como descrito anteriormente, e ao familiarizar-se
com esse caminho de prática sem depender de outros caminhos, a liberação se manifesta nesta mesma vida
ou no estado intermediário.

B’’’ A União de Meios Hábeis e Sabedoria


Esta seção tem três partes: (1’’’) a união dos meios hábeis, (2’’’) a união da sabedoria, e (3’’’) sua necessidade
e propósito e a apresentação deles.

1’’’ A União de Meios Hábeis

os cinco campos búdicos, as cinco deidades masculinas, as cinco deidades


femininas, as Três Joias,
as Três Raízes, as classes, maṇḍalas, iniciações e aproximação,
como a natureza essencial da mahāyoga. [387]

Esses caminhos relativos e com esforço são ensinados para o benefício daqueles que não entendem o
caminho supremo e sem esforço, ou que não confiam nele, mesmo que o entendam. De acordo com a base
do saṃsāra, que deve ser purificada, os purificadores são os cinco campos búdicos, os cinco kāyas com suas
faces, mãos e marcas, as cinco famílias búdicas, as cinco deidades masculinas, as cinco deidades femininas,
as Três Joias, as Três Raízes, as classes pacífica, enriquecedora, de poder e irada (de deidades) e maṇḍalas,
as quatro iniciações, aproximação e consumação, aplicações das atividades e assim por diante.
Todas essas apresentações do caminho da mahāyoga do Mantra Secreto são avaliadas e apresentadas apenas
como maneiras distintas de entender as qualidades sublimes do sugatagarbha da base sob diferentes
perspectivas. Assim, o sugatagarbha é espontaneamente manifesto como a natureza essencial de todos os
caminhos da mahayoga.

2’’’ A União de Sabedoria

As cinco exibições que permanecem dentro do corpo,


a purificação, transmutação, ignição e descida dos canais, energias vitais e
bindus,
juntamente com as iniciações e as quatro bem-aventuranças, são todos
emanados do aspecto espontaneamente manifesto do sugatagarbha.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 32 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

As exibições que permanecem dentro da cidadela do corpo ou o agregado vajra – incluindo os cinco chakras
dos canais, os três canais estacionários, incluindo avadhūti, lalanā e rasanā, as energias vitais em movimento
e as exibições dos bindus da bodicita – são purificados e transmutados pelos caminhos dos meios hábeis da
respiração do vaso, adhisāra36, [388] a ignição e descida de caṇḍālī37, as quatro iniciações e os caminhos,
juntamente com as quatro bem-aventuranças. Embora nenhum deles seja estabelecido como real em
termos absolutos, por razões práticas, todos são emanados e apresentados em termos do aspecto
espontaneamente manifesto do sugatagarbha, suas qualidades sublimes. Portanto, essa é, ademais, a
natureza essencial de todos os caminhos da anuyoga do Mantra Secreto.

3’’’ Sua Necessidade e Propósito e a Apresentação Deles

Em suma, o dharmakāya, espaço absoluto desprovido de sinais,


está vinculado a nomes, modos e sinais de acordo com os caminhos do saṃsāra.
Para guiar discípulos que se fixam à permanência,
e neutralizar seis tipos de desejo,
visualização, pureza e vacuidade servem como remédios.

Em suma, o dharmakāya, espaço absoluto desprovido de sinais, de acordo com os caminhos do saṃsāra,
está vinculado a nomes, modos e sinais, incluindo as direções, campos búdicos, deidades masculinas,
deidades femininas e atendentes, juntamente com seu círculo de filhos espirituais.
Os ensinamentos sobre eles, como se de fato existissem, servem para guiar os discípulos que reificam e se
fixam à permanência dos mundos inanimados e animados, e neutralizam seis tipos de desejo por lugares
para viver, por si mesmo, por outros, roupas, ornamentos e tronos.
Visualizar aspectos das deidades, recordar a pureza e a vacuidade de natureza inerente dos fenômenos
aparentes serve como remédio para as aparências impuras e delusórias do saṃsāra.
Estes são os casos em que sinais são usados para neutralizar sinais, assim como um incêndio pode ser
apagado sendo dominado pelo fogo. Essas aparências impuras e delusórias são então transformadas em
exibições de deidades puras da consciência primordial [389] e, ao estabilizá-las, a liberação é alcançada como
um saṃbhogakāya no período intermediário.

C’’’ O Resumo

Portanto, esses Dharmas artificiais e relativos de todos os yānas


são emanados e reabsorvidos no sugatagarbha,
como rios que emergem do oceano e a ele retornam.
Portanto, isto é conhecido como a Grande Perfeição da base da existência.

Portanto, por necessidade temporária, os ensinamentos sobre os Dharmas artificiais e relativos do estágio
de geração e as apresentações do caminho do estágio de consumação – assim como toda a gama inconcebível

36
Tib. ’khrul ’khor.
37
Tib. gtum mo.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 33 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

de yānas – são emanados inicialmente do sugatagarbha e, por fim, são reabsorvidos identificando sua
natureza e experienciando diretamente confiança nele.
É como todos os rios do mundo, que emergem primeiramente do grande oceano e finalmente retornam
para ele. Em resumo, mesmo que a base seja experienciada como um estado eticamente neutro, e seja
confundida com as aparências e estados mentais do saṃsāra, todas as exibições dos kāyas, facetas da
consciência primordial e qualidades sublimes são autoemergentes e perfeitamente presentes no brilho
interior, sem se tornarem inexistentes. Portanto, é conhecida entre todos os eruditos e grandes praticantes
como a Grande Perfeição da base da existência.

ii” A Grande Perfeição do Caminho da Realização


Nesta seção há duas partes: (A’’’) como as apresentações dos yānas até a anuyoga são aperfeiçoados no
caminho da Grande Perfeição e [390] (B’’’) ensinamentos inequívocos sobre o próprio caminho da Grande
Perfeição.

A’’’ Como as Apresentações dos Yānas até a Anuyoga são Aperfeiçoados no Caminho da Grande Perfeição
Nesta seção há duas partes: (1’’’) uma explicação elaborada e (2’’’) um resumo.

1’’’ Uma Explicação Elaborada

Em relação aos tīrthikas, que buscam um caminho enquanto se apegam aos


extremos do eternalismo e do niilismo,
aqueles cujos fluxos mentais [giram] a roda da delusão agarrando-se e reificando
as aparências e a mente,
os śrāvakas, que tomam a ausência de identidade pessoal como o caminho,
os pratyekabuddhas, cujo caminho apreende a vacuidade e os elos da origem
dependente em ordem direta e reversa,
os Cittamātrins, que veem o mundo das aparências como a mente,
os Mādhyamikas, que apreendem todos os fenômenos como vazios,
os seguidores do kriyā, que enfatizam principalmente a higiene e se apegam aos
reinos,
os seguidores do upāya, que integram as visões e condutas superiores e inferiores,
os seguidores do yoga, que consideram o samayasattva e o jñānasattva como
autonomamente diferentes,
os seguidores do mahāyoga, que equivocadamente veem os objetos como
autonomamente reais,
o caminho do anuyoga, no qual existe o pressuposto de consumar a causa e a
fruição do espaço absoluto e da consciência primordial -

Quando o dharmakāya, a lucidez prístina que está presente como a base, se torna manifesto, uma vez que a
realidade definitiva não cai no extremo do eternalismo ou niilismo, isso aperfeiçoa as mentes dos tīrthikas,
que buscam um caminho enquanto se apegam aos extremos do eternalismo e do niilismo.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 34 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

Deixando a mente e as aparências descansarem em seu próprio estado sem modificação, isso aperfeiçoa as
mentes e as aparências dos seres sencientes comuns, que se agarram e reificam as aparências e a mente e
cujos fluxos mentais, consequentemente, vagueiam na roda da delusão.
Ao ver diretamente, sem esforço, a realidade da ausência de identidades, isso aperfeiçoa o śrāvakayāna, no
qual a ausência de identidade pessoal é tomada como o caminho.
Ao realizar todas as aparências e estados mentais como tendo a natureza de eventos dependentemente
relacionados, isso aperfeiçoa o caminho do pratyekabuddhayāna, pelo qual se apreendem principalmente
os elos da originação dependente na ordem direta e reversa e a mera luminosidade e vacuidade da mente.
Ao entender definitivamente todas as aparências como nada além da mente, isso aperfeiçoa o
cittamātrayāna, pelo qual se veem os mundos das aparências como a mente.
Ao realizar o significado de ambos os tipos de ausência de identidade, isso aperfeiçoa o Madhyamakayāna,
pelo qual se [391] apreendem todos os fenômenos como vazios.
Ao realizar a vacuidade que purifica causas e condições onde elas estão, isso aperfeiçoa o kriyāyāna, que,
entre os dois, visão e conduta, enfatiza principalmente a conduta de rituais de purificação e higiene e que
se apega à existência substancial de deidades puras que habitam reinos externos.
Ao realizar a natureza perfeita da não dualidade da visão e da conduta, isso aperfeiçoa o upāyayāna, que
integra as visões e condutas superiores e inferiores.
Ao realizar a primazia da visão, isso aperfeiçoa o yogayāna, pelo qual você se considera como sendo o
samayasattva, e a deidade como o jñānasattva, autonomamente diferentes.
Ao realizar a não dualidade da deidade e da própria mente, isso aperfeiçoa o mahāyogayāna, pelo qual se
têm visões equivocadas de deidades e campos búdicos puros como objetos existentes por suas próprias
características e autonomamente reais.
Ao realizar a natureza não dual do espaço absoluto e da consciência primordial, isso aperfeiçoa o caminho
do anuyogayāna, no qual se purificam os canais causais e impuros, bindus e energias vitais como exibições
puras do espaço absoluto, resultando no pressuposto de consumar a fruição da consciência primordial.
Além disso, ao realizar a ausência de aumento e diminuição, e de movimento e mudança na realidade última,
a visão da permanência é aperfeiçoada e, realizando-a como sem base e sem raiz, a visão do niilismo é
aperfeiçoada.
Quando a mente não tem objeto referente e não é modificada nem alterada, uma vez que é semelhante à
das pessoas comuns, aperfeiçoa suas aparências.
Todas as qualidades dos caminhos e frutos desde o Vaibhāṣika do śrāvakayāna até o anuyoga [392] são
simultaneamente aperfeiçoadas na experiência do dharmakāya, lucidez prístina que está presente como a
base, e isso é apresentado como a perfeição das qualidades dos caminhos e fruições de todos os yānas.
A razão para isso é de que, independentemente do yāna no qual se inicia, a fruição final não pode ser
alcançada sem que o indivíduo se dedique ao caminho da Grande Perfeição. Assim, todas as qualidades
desses caminhos e fruições estão incluídas no caminho da Grande Perfeição, onde o mais elevado incorpora
o inferior.

2’’’ Um Resumo

todas as bases, caminhos, experiências meditativas e realizações desses (yānas)


são facetas espontaneamente manifestas da Grande Perfeição.
Como considerar a água retirada do oceano como todo o oceano,

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 35 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

todos os yānas são vistos como lamentáveis por aqueles que percebem o
significado disso.

Portanto, todas as qualidades das bases e caminhos causais e as experiências e realizações meditativas
resultantes desses yānas são apresentadas de acordo com os temperamentos e capacidades dos discípulos,
para que possam alcançar o caminho supremo.
Cada um deles é visto como facetas, ou aspectos, da clara luz espontaneamente manifesta da natureza da
existência, a Grande Perfeição; e presume-se meramente que eles sejam o caminho completo para alcançar
o estado búdico.
Isso é como tirar uma gota de água do oceano para saciar sua sede e considerá-la como o oceano inteiro.
Portanto, se avaliados por aqueles que realmente realizam o significado dessa Grande Perfeição, todos os
yānas do anuyoga para baixo [393] são vistos como obscurecidos por forçadamente abandonarem e
remediarem as coisas, por não terem a visão do significado da liberação natural e intrínseca. Por isso são
vistos como lamentáveis.

B’’’ Ensinamentos Inequívocos sobre o Caminho da Grande Perfeição

No espaço absoluto da lucidez prístina, experienciada pela sabedoria e pela


consciência primordial,
o Buda Samantabhadra, que é livre de renúncia e atingimento,
é a Grande Perfeição, a natureza essencial de saṃsāra, nirvāṇa e do caminho.
Portanto, isso é conhecido como a Grande Perfeição do caminho.

No espaço absoluto da lucidez prístina, que é experienciada pela natureza essencial, sabedoria e seu poder
criativo, grande consciência primordial, o Buda Samantabhadra primordial, que é livre da renúncia às falhas
que existiam antes e de novo atingimento de qualidades que não existiam antes, é a natureza essencial
inequívoca de saṃsāra, nirvāṇa e do caminho. Uma vez que esta é a experiência autêntica da natureza da
existência da Grande Perfeição, é universalmente conhecida como a Grande Perfeição do Caminho.

iii” A Grande Perfeição da Experiência da Fruição


Esta seção tem duas partes: (A’’’) a fruição propriamente dita e (B’’’) como ela é livre dos dois extremos.

A’’’ A Fruição Propriamente Dita

A base que é considerada a fruição de todos os yānas causais


é consumada no sugatagarbha, Samantabhadra.
Aparências e estados mentais do saṃsāra são naturalmente liberados, sem serem
abandonados,
como kāyas e facetas da consciência primordial – esse é o ensinamento autêntico
de todas os jinas.
Todas as pressuposições sobre outras fruições são cansativas.
Portanto, tudo isso é a fruição de todos os Dharmas -

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 36 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

manifesta espontaneamente como a Grande Perfeição da fruição.

Embora haja pressuposições de que todos os bodisatvas que entram nos yānas causais da investigação
filosófica acumulam mérito e conhecimento e purificam obscurecimentos por três incontáveis éons e assim
por diante, finalmente culminando no atingimento da fruição da onisciência, A Nuvem do Dharma do Décimo
Estágio afirma: “A base do tathāgata da iluminação total não é alcançada.”38 [ 394]
Isso ocorre porque as propensões habituais para as três aparências pertencentes à transferência não foram
abandonadas.
Nesse contexto, primeiro você identifica a natureza da existência da lucidez prístina, o sugatagarbha; então
você adquire confiança nisso; e finalmente você realmente o consuma. Ao fazer isso, nesta vida ou no estado
intermediário, é alcançado o estado supremo de Samantabhadra, o protetor original.
Essa é uma característica única desse caminho. Como uma geleira derretida, todas as aparências e estados
mentais do saṃsāra são naturalmente liberados, sem serem abandonados, como kāyas e facetas da
consciência primordial. Isso é estabelecido pelos raciocínios autênticos e pelos ensinamentos de todas os
jinas.
Todos os outros pressupostos sobre alguém que atravessa as perfeições uma a uma ou que alcança uma
fruição dualística – com algo a alcançar e alguém que o alcança – são cansativos. Não é apenas exaustivo,
mas é impossível que a iluminação seja o seu resultado. Portanto, a lucidez prístina, o sugatagarbha, é a
fruição suprema de todos os Dharmas do caminho, e por esse motivo é espontaneamente manifesta e
completamente concluída como a Grande Perfeição da fruição.

B’’’ Como Ela É Livre dos Dois Extremos

Sem cair nos extremos da existência mundana ou da paz,


o grande poder criativo da consciência primordial que conhece [a realidade como
ela é] e vê [a completa gama de fenômenos] resplandece.

Além da lucidez prístina, o sugatagarbha, livre de ambos os tipos de obscurecimentos39, juntamente com
suas propensões habituais [395], o estado de buda é impossível.
Sem cair no extremo da existência mundana, como seres conscientes comuns, e sem cair no extremo da
paz, como śrāvakas e pratyekabuddhas, o grande poder criativo da consciência primordial que conhece a
realidade como ela é e que vê toda a ampla gama da realidade resplandece.
Tendo completado os próprios interesses, ele serve eternamente, de forma totalmente pervasiva e
espontânea, às necessidades dos seres sencientes com grande compaixão sem objeto pelo tempo que o
espaço existir, para que os interesses dos outros sejam atendidos.

B” A Gênese dos Nomes Convencionais

Embora a gênese dos nomes não seja diferente,

38
Tib. sa bcu pa chos kyi sprin.
39
Esses são os obscurecimentos aflitivos e obscurecimentos cognitivos; os primeiros impedem a realização do nirvāṇa,
e os segundos impedem a realização da iluminação perfeita de um buda.

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 37 / 38


O Tantra do Vajra Cortante – parte 1

para benefício dos discípulos, recebe nomes convencionais.

Todos os nomes específicos, de acordo com a realidade enganosa convencional, não são nada além de rótulos
para a lucidez prístina, o sugatagarbha; pois todos os fenômenos não são nada além disso, e a natureza última
da existência é inefável e inconcebível.
Portanto, embora os referentes de nomes, as apresentações das bases e caminhos, e assim por diante, não
sejam estabelecidas como diferentes, rótulos convencionais são temporariamente dados para que o
sugatagarbha possa ser revelado com nomes e palavras e os discípulos possam realizá-lo.
Nesta seção há cinco partes:
Primeira, o Mantra Secreto Vajrayāna é chamado de secreto porque está imbuído de dois grandes segredos.
É chamado de mantra porque é o local de liberação de todos os yānas. O dharmakāya, lucidez prístina que
está presente como a base [396], é chamado de vajra, porque é dotado das sete qualidades de um vajra.
Como não é modificado ou alterado pelo saṃsāra ou nirvāṇa, é o seu próprio yāna (etim. tib. gsang sngags
rdo rje'i theg pa).40
Segunda, a bodicita absoluta é o significado último da realidade, o mais sublime de todos os fenômenos,
puro, livre de falhas e máculas; e uma vez que inclui completamente todas as facetas da consciência
primordial e qualidades sublimes e é igualmente liberada no saṃsāra e no nirvāṇa, é a realidade última da
mente (etim. tib. don dam byang chub kyi sems). 41
Terceira, a Grande Perfeição aperfeiçoa os significados pretendidos pelos nove yānas. É a base universal de
todos os yānas, por isso é grandiosa (etim. tib. rdzogs pa chen po). 42
Quarta, o bindu único é denominado bindu, pois transcende a parcialidade dos conceitos, e é chamado de
único, pois tem o sabor único de todo o saṃsāra e nirvāṇa (etim. tib. thig le nyag gcig).43
Quinta, o kāya vaso jovem é chamado de jovem porque é livre de nascimento, morte, envelhecimento e
degeneração. É chamado de vaso, pois sustenta a manifestação espontânea, e é chamado de kāya porque é
completo, com as facetas da consciência primordial e das qualidades sublimes (etim. tib. gzhon nu bum sku).44
Dessa maneira, é indicado com rótulos, pois é preciso realizar sem falhas o que é indicado, ou seja, a natureza
da existência do sugatagarbha.
Isso conclui o resumo da quarta fase do Tantra do Vajra Cortante da Consciência Lúcida.

40
Isso revela a etimologia de “mantra secreto do Vajrayāna” (tib. gsang sngags rdo rje’i theg pa).
41
Isso revela a etimologia de “bodicita absoluta” (tib. don dam byang chub kyi sems).
42
Isso revela a etimologia de “Grande Perfeição” (tib. rdzogs pa chen po).
43
Isso revela a etimologia de “bindu único” (tib. thig le nyag gcig).
44
Isso revela a etimologia de “kāya vaso jovem” (tib. gzhon nu bum sku).

Lama Alan Wallace – Retiro no CEBB CM – Outubro de 2019 38 / 38