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RAYNAUT, Claude. As relações ser humano/natureza: arqueologia social de uma ruptura.

Não
publicado

Conferência 2

AS RELAÇÕES SER HUMANO/NATUREZA:


ARQUEOLOGIA SOCIAL DE UMA RUPTURA*

Claude Raynaut**

Em um breve artículo publicado em 1967 e intitulado «The Histarical Roots of Our


Ecological Crisis » (Science, vol. 155, n° 3767, Março 1967), o historiador americano Lynn
White apresenta uma rápida síntese histórica na qual ele afirma que nossa ciência, nossa
tecnologia e nossa visão do progresso - com todas as conseqüências que elas têm na relação
com o ambiente - são extrapolações de uma visão do mundo induzi da pelo Cristianismo, com
a dicotomia que esta religião estabelece entre o Ser Humano e a Natureza, com sua afirmação
do caráter transcendente do Homem, criado como imagem de Deus, em relação com o resto da
Mundo, estatuto que faz dele o "Dono da criação".
Este artigo houve um grande eco e permanece citado e utilizado ate hoje. Ele é muito.
simplificador, mas houve o mérito de colocar em evidência o papel central que desempenha em
nosso sistema de pensamento o paradigma da dicotomia Ser Humano/Natureza. A idéia de
Natureza, as representações mentais coletivas da Natureza, não podem ser soltadas das
idéias e representações do Ser Humano. Em grande parte, cada tema se define por referência
com o outro.
Para levar adiante nossa reflexão, é necessário examinar com mais atenção e de modo
mais detalhado o conteúdo da noção de Natureza. Para isso, convém analisar a genealogia
complexa de uma palavra da qual fazemos um uso banalizado - esquecendo que chega ate
nós, carregado de toda a longa história do pensamento europeu. Não é a toa que a palavra é
ou não é utilizada, em vez de "Environment" ou Meio ambiente - em particular quando se fala
de "conservação da Natureza".

*
Texto subsídio à conferência realizada em Curitiba, no Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente
e Desenvolvimento - MADE!UFPR, em agosto de 2006. Texto não revisado. NÃO PODE SER CITADO.
*
* Antropólogo, diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), França.
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Dentro da própria cultura ocidental, a definição da Natureza nunca foi estável. Pelo
contrário, passou por grandes mudanças, segundo as épocas, sem que as novas definições
eliminassem sempre as prévias. O modelo de análise proposto por White, ligando de modo
exclusivo nossa representação da Natureza à religião cristã, simplifica demais o acontecido. Ao
decorrer de movimentos históricos de diversificação, de divergência, de volta para trás, um
corpus diversificado de variantes da idéia de Natureza constituiu-se e, mesmo quando uma ou
a outra tomou-se dominante, as outras, por diferentes que fossem, não desapareceram e
continuaram a serem defendidas por alguns segmentos da sociedades. Pode-se dizer que,
apesar de termos esquecido o passado, muitos dos debates de hoje se inscrevem na filiação
de controvérsias que cravam suas raízes muito profundamente em nossa cultura e em nosso
passado.
Mais uma vez, para iniciar nossa reflexão, vamos partir da etimologia. As palavras que
utilizamos, mesmo que pensamos as vezes poder submetê-los a nossa fantasia, chegam ate
nós com uma carga semântica que se inscreve de modo durável na sua construção. A
etimologia de uma palavra é o alicerce onde se arraigam todas as suas variantes .
A palavra Natureza origina-se na palavra latina Natura, ela mesma oriunda do participo
passado do verbo nascere: "nascer". Então, sua significação é estreitamente ligada à idéia de
nascimento, de geração. A Natureza no seu sentido latino designa o que nasce, o que emerge
de modo espontâneo. Suas características são inatas, congênitas e intrínsecas.
A partir deste sentido primitivo, o conteúdo semântico não parou de desenvolver-se e
enriquecer-se, ate abranger um amplo leque de significações, pois "Natureza" pode ser
empregada com as seguintes acepções :
 O modo de ser, a essência, a substância de um Ser ou de uma coisa (assim falamos da
"Natureza humana", da "Natureza das coisas").
 A ordem do Mundo, a lei universal (as "Leis Naturais", a "Moral natural")
 A realidade material na sua totalidade, na medida que ela se diferença do Ser Humano,
se impõe a ele na qualidade de um "dado". A Natureza é então, o que existe
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independentemente dos Homens, e se diferencia da parte da materialidade afeiçoada, moldada
por ele: quer dizer que se dá como um artefato.

Em todas estas acepções, a idéia de Natureza exclui o fortuito, o acidental, o artificial


par centrar-se no original, no essencial.
A questão da dicotomia Ser Humano/Natureza é, desde o início, presente nesse
conteúdo semântico na medida em que o Natural se opõe ao Artificial, ao produto da Arte. Mas
é uma questão que não tem uma resposta clara. Ate onde é que o Ser Humano se destaca da
Natureza ? Ate onde integra-se nela? Faz parte da Natureza na medida em que, ele próprio,
nasce, cresce, vive pela força espontânea de seu corpo, sem intervenção da sua vontade.
Destaca-se dela na medida em que, na qualidade Ser pensante e I atuante, confronta-se a ela -
incluindo seu próprio corpo - como a um dado externo que ele se representa mentalmente,
utiliza e transforma fisicamente.
O equivalente grego do latino Natura é a palavra Phusis, com um sentido muito próximo
- associada, ela também, as idéias de"nascimento", "crescimento". Mas, com o pensamento
grego, a ênfase é colocada sobre a própria dinâmica do surgimento das coisas mais do que
sobre o resultado do processo e a presença das coisas no Mundo .
Desde os pensadores da Antiguidade, algumas idéias conexas foram associadas à
aquelas de N atura e de Phusis : uma diversidade que ia inspirar durante séculos, milenares, o
pensamento ocidental.
1) Em primeiro lugar, a idéia de Totalidade. Encontra-se com quase todos os pensadores
da Antiguidade. Conhece-se de Platão, um texto chamado de Timée - a partir do nome
da figura a quem Sócrates dá a palavra neste episódio das discussões que ele conduz
com seus discípulos. É uma descrição da Gênese do Universo. O texto descreve a
modelagem do caos primordial pelo Demiurgo. Toda a matéria informe do Caos, sem
exceção, é assim colocada em ordem, de modo que o Universo se concentra em uma
esfera, sem deixar nada de fora. Esta idéia da Natureza como totalidade acha-se
praticamente em todos os pensadores da antiguidade.
2) Uma segunda idéia associada àquela de Natureza neste mesmo período é de coerência
- ligada àquelas de harmonia, de solidariedade entre todos os elementos que compõem
o Universo.
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• Para Platão, é a coerência da ordem que impõe a Razão. O Universo das idéias e, em
particular o universo matemático dos números e das medidas, preexiste ao mundo das
coisas e foi a introdução da ordem e da proporção que permitiu passar do Caos à
Natureza tal como a conhecemos. Por sinal, a discussão sobre a realidade intrínseca
das idéias - é das idéias matemáticas em particular - permanece um assunto de
discussão epistemológico ate hoje (cf. Changeux -Comes).
• Com Aristóteles a noção de totalidade solidária é também presente, mas a coerência
não foi introduzida a posteriori, ela é consubstancial ao Mundo. Mais do que o produto
da razão e da proporção, ela origina-se no movimento. No seu texto "A Física",
Aristóteles descreve em detalhes todos os tipos de movimentos que dão vida à
Natureza. Na medida que a coerência é consubstancial ao Mundo, isto implica que a
observação da Natureza nas suas manifestações materiais pode permitir chegar ate
as regras de organização que a governam: quer dizer as "leis naturais". Uma parte
importante da sua obra filosófica é dedicada a descrever e analisar os fenômenos
naturais: astros, animais, plantas, fenômenos meteorológicos.
• Com os Estóicos - conhecidos em particular a través das obras de Cícero, um autor
latino que utilizou e divulgou a teoria - a visão dinâmica reforça-se e precisa-se: o que
liga todos os elementos da Natureza é a energia que circula entre eles. Energia -
Impetus - que toma a forma do Sopro, ou do Fogo. Alem de ser uma totalidade
organizada, a Natureza é um Ser animado.

O ponto comum entre estas diversas representações da Natureza é que, de um modo ou


um outro, todos os elementos que a compõem são ligados entre si :
• Quer seja porque eles se encaixam cada um dentro do outro, conforme uma série de
escalas que vão do Macroscomo ate o Microcosmo - a organização de cada nível
abaixo sendo um reflexo em redução do nível acima. Cada nível reagindo aos eventos
acontecendo no nível superior ou inferior. Esta cadeia inclui o corpo humano, concebido
então como uma representação solidária do universo na sua totalidade.
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• Quer seja porque a energia que circula cria correspondências que fazem que o que esta
acontecendo em um ponto particular pode ter conseqüências sobre o conjunto global.

3) Uma terceira idéia presente entre muitos pensadores da Antiguidade é que a Natureza é um
Ser vivo que não apenas tem um corpo, incluindo todos os elementos físicos que o compõe,
mas também tem uma Alma: a "Alma do Mundo" que faz dele um Ser completo, material e
espiritual. A noção de "Alma do Mundo" permanecera no pensamento ocidental, as vezes de
modo metafórico durante muitos séculos. Ela aparece muito viva na poesia romântica.

De um modo geral, em todas estas representações nenhum hiato é introduzido entre a


Natureza e o Ser Humano. O Homem se insere na rede de laços de interdependência que
constituem a unidade do Mundo. Porem, já tem uma certa ambigüidade na tradição epicuriana -
transmitida em particular por um escritor romano, Lucrécio, na sua obra De Natura Rerum.
Nesta teoria, o Ser Humano destaca-se da Natureza, mas não é na qualidade de um Dono,
senão como um "apaziguador" que contribui a ordenar uma realidade que, sem sua
intervenção, tomar-se-ia selvagem .
O fato dominante é que - alem das nuanças na representações desenvolvidas - o
respeito da Natureza, a consciência pungente da interdependência entre todas sua
componentes incluindo o ser humano - são muito presente no pensamento dos poetas e dos
filósofos. Poder-se-ia falar de uma verdadeira "consciência ecológica". Um ótimo livro de um
autor italiano Paolo Fedeli "La natura violata. Ecologia e mondo romano" Selerio ed., Palerma,
1990, traz muitos exemplos a respeito desta atitude.
O declino da civilização e do pensamento antigos é um fenômeno complexo.
Desenvolveu-se ao longo de vários séculos.
Uma primeira cisma operou-se durante o quarto século, entre a fundação de
Constantinopla por Constantino - o primeiro imperador cristão- e a partição do Império em duas
entidades políticas distintas: o Império de Ocidente cujo Roma era a capital e o Império de
Oriente, com capital Constantinopla.
Em 476, a conquista de Roma pelos "bárbaros" marcou a ruína definitiva do Império de
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Ocidente, mas a cidade de Roma permaneceu, e permanece ate hoje, o pólo do mundo
Cristiano - com um sentimento muito forte de filiação com o passado antigo.
O Império do Oriente, ele, ia permanecer mais Mil anos - ata a queda de Bizâncio (o
outro nome de Constantinopla) conquista pelos Árabes em 1450. A Bizâncio, os textos dos
pensadores antigos - com particular destaque para os gregos - foram conservados, lidos e
comentados durante séculos.
A Leste como a Oeste, o fio da civilização Antiga não foi totalmente partido. No entanto,
um transtomo maior nos sistemas de pensamento aconteceu em toda a Europa onde se
estendera, com mais ou menos rigor, o poder do Império Romano. Uma nova representação do
Mundo estava se estabelecendo, veiculada pela religião cristã, mas que achava sua origem na
civilizações mais orientais - do Oriente Médio até Pérsia ou mesmo Índia.
Esta nova representação colocava em segundo plano a Natureza e colocava a ênfase
sobro um Deus criador de todas as coisas, de todos os seres vivos e que - ao contrário do
Demiurgo da Antiguidade - continuava a segurar a sua Criação dentro de suas mãos, sem
parar de agir para mantê-Ia viva. Nesta representação, a Natureza não existe mais como uma
realidade autônoma e intrínseca, senão como uma Criação : manifestação sempre renovada do
pensamento e da vontade de Deus : totalmente suspendido a este pensamento e a esta
vontade.
Na linha da tese de White, diz-se freqüentemente que a religião cristã instituiu o Ser
Humano como "Dono do Mundo" e que isto é a tradição que inspirou as sociedades industriais
na sua relação de dominação sobre a Natureza.

A realidade e muito mais complexa.

Durante um longo período de quase Mil anos (entre a queda de Roma e a Renascença)
- período que foi chamado depois de Idade Media - o Homem foi, por certo, considerado como
criado à "Imagem de Deus", mas também como um elemento da Criação - um elemento que,
por mais acabado que fosse, não deixava de ser também uma criatura de Deus. Duas idéias
fortes limitavam a afirmação da sua supremacia:
1) Primeira convicção da época: o mundo sensível, o mundo visível, não é
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verdadeiro Mundo. Não passa de ser um simples mundo de aparências. O Mundo de verdade
situa-se alem da materialidade e de nossa percepção física. Ele é estruturado conforme um
antigo esquema binário originário da Oriente Media e da Persa. Um esquema que opõe duas
forças - o Bem e o Mal - e dois reinos : o Paraíso (chamado também de "Jerusalém celeste" :
mergulhada na Luz de Deus) é o Inferno, entregue às forças destruidoras de Satã.
2) Segunda idéia dominante - corolário da prévia: O mundo material não passa de ser
um reflexo desta realidade essencial : a luta entre duas forças inimigas a primeira que trabalha
para manter a vida; a segunda que procura destruí-Ia. O que percebemos com nossos sentidos
físicos são apenas "sinais" que falam de uma realidade muito mais essencial mas mascarada.
O que se chamava antes "N atureza" não é nada mais do que um livro que fala de Deus e de
Satã e que devemos aprender a decifrar.

A conclusão destas duas afirmações é que o acabamento último da Criação só se fará


com o sumiço do mundo material, o Fim do Mundo, que verá o triunfo de Deus, da Luz e a
ruína definitiva de Satã e do Escuridão .
Sem a Matéria, sem a Natureza, Satã será despojado da possibilidade de fazer
obstáculo à vontade de Deus. O destino último da Natureza, para uma corrente mística
pungente durante a Idade Media, é sua desaparição como realidade material. E por isto que a
Apocalipse foi o maior texto de referência durante uma grande parte deste período - mais do
que a Bíblia ou os Evangelhos (Duby). É a Apocalipse que se encontra ilustrada em muitas das
fachadas das igrejas Românicas. A expectativa do Fim do Mundo - terror do cataclismo que
acompanhará a cisão definitiva entre o Bem e o Mal (o "Ultimo Julgamento"), mas também
esperança do triunfo do Bem - constitua-se como um elemento constante do pensamento
medieval.
No quadro de um tal sistema de representação, a idéia da dominação do Ser Humano
sobre a Natureza, do Homem como Dono do Mundo, não fazem sentido. É em função de sua
parte imaterial - de sua alma - que o Homem semelha Deus. Saber soltar-se das exigências da
matéria constitui uma condição necessária para ter acesso ao paraíso. Neste contexto, dominar
o mundo material não pode ser um objetivo valorizado pela religião.

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A posição da Igreja Católica não foi sempre tão nítida e clara a respeito da idéias que
acabei de resumir. A vida das idéias não é linear. É uma realidade sempre híbrida, feita de
representações diversas que coexistem, se justapõem, se opõem sem nunca chegar a se
eliminarem totalmente. O modelo que acabei de descrever corresponde a uma vertente mística
da Religião, marcada pela influencia das raízes orientais do cristianismo - é, em particular, da
filosofia Maniqueísta que inspirgra várias heresias - em particular aquelas dos "Albigeois" e dos
"Cathares".
Sem abandonar a imagem ideal da "Jerusalém celeste" nem a idéia da iminência do
Fim do Mundo, a Igreja medieval esforçou-se em achar um caminho intermediário entre:
• Uma visão que desse demasiada importância à Natureza - tornando-a, de um certo
modo, autônoma em relação com Deus (com o risco de restabelecer as filosofias
panteístas da Antiguidade).
• Uma visão oposta que recusasse totalmente o Mundo material como campo de atuação
de Satã e das forças do Mal : rivais de Deus.
A Instituição da Igreja católica combateu com igual determinação essas duas correntes
místicos. Ela desenvolveu uma teoria intermediária que reconhecia a existência da Criação,
como realidade em si. Com certeza a perfeição se situa alem da matéria, a Natureza é um livro
cheio de signos que falam de Deus e de/sua perfeição mas ela é também uma realidade
tangível, ela não se reduz a uma miragem enganadora. Em particular a beleza da Natureza é
uma manifestação tangível do esplendor de Deus.
Foi Santo Francisco de Assis quem desenvolveu com mais força a glorificação da beleza da
Natureza e das criaturas de Deus. Ele próprio bem como os membros de sua congregação - os
Franciscanos - desempenharam o maior papel na luta contra o Catharisme. Mas seu discurso
colocava a ênfase sobre a fraternidade entre todas as criaturas (ele fala de "irmão sol, irmão
vento, irmã aqua") e de jeito nenhum defendia a idéia da dominação do Ser Humano sobre o
resto da criação. De um certo modo sujeitar a Natureza teria sido rivalizar com Deus.
Por certo, a Idade Media - longe de ser um período de escuridão intelectual como as vezes
alguns o apresentavam - foi uma fase de grandes invenções e inovações técnicas que iam,
alguns séculos depois, conduzir a uma revolução agrícola e industrial. Por exemplo foi
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durante a Idade Media que foram inventados meios para recuperar e utilizar as energias
animais e naturais : o jugo para atrelar os bois, o colar para os cavalos, os engenhos para
recuperar a energia do vento e da água. Segundo a análise de Marx, foi o momento quando
começou o movimento de desenvolvimento das forças produtivas que ia conduzir mais tarde à
emergência do capitalismo (tem um ótimo livro de um historiador marxista, Charles Parain,
chamado "Outils, ethnies et développement historique", Terrains, Editions sociales, que
descreve e analisa estas mudanças técnicas). Por certo, foi igualmente durante os séculos 10,
11 e 12 que aconteceram em Europa os movimentos mais maciços de extensão das lavouras
e, em conseqüência, de arroteamento das florestas (apos a grande epidemia de peste que
matou um terço da população de Europa nos meados do século 14 nunca foi recuperada uma
superfície igual de terras cultivadas). Porem todo isto aconteceu sem apoiar-se numa teoria
que legitimasse de modo arrogante a dominação do Ser Humano sobre a Natureza. O
movimento de conquista acompanhava-se - por parte da religião - de uma grande desconfiança
no tocante aos bens materiais. Continuava-se a aguardar o Fim do Mundo como o último
acabamento da Criação.
No entanto, como já falei, é preciso não simplificar o movimento das idéias: várias
interpretações podem coexistir, se justapor, entrar em concorrência. Ao mesmo tempo que
dominava a representação do Mundo que acabei de resumir, a herança dos pensadores da
Antiguidade não tinha-se perdido por completo. Os textos foram lidos e comentados pelos
primeiros teólogos da Igreja (os chamados "Pais da 19reja"). Algumas cópias achavam-se nas
bibliotecas dos monastérios e eram utilizadas, senão em função do interesse dado a seu
conteúdo mas, aos menos, para manter o conhecimento da língua latina que era a língua oficial
da Igreja católica. Alem disto muitas obras gregas originais constavam dos acervos das
bibliotecas bizantinas. Os árabes muçulmanos, em particular apos o saque da grande
biblioteca de Alexandria, tomaram-se depositários de monumentos do pensamento grego que
seus próprios filósofos estudavam.
Foi pela intermediação dos Bizantinos e dos Árabes que a Europa restabeleceu o
contato com as obras antigas originais. Entre o século 11 e o século 13, com as Cruzadas para
a "Terra Santa", com a ocupação de Bizâncio pelos Cruzados, com a reconquista da Espanha
e do Portugal, bem como graças aos encontros de civilização que aconteceram no sul da
península italiana (Sicilia, Napoli), as grandes universidades européias chegaram a redescobrir
textos antigos que todo o mundo achava perdidos ou que estavam conhecidas apenas através
de traduções e cópias de péssima qualidade. Foi o caso, em particular, com
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várias obras do Aristóteles.
Aqueles documentos chegaram em um momento quando os teólogos católicos, em
particular reagindo ao grande Cisma Ortodoxo (nos meados do século 11) bem como às
tentações maniqueístas das correntes Cathares e Albigeois, começavam a repensar a Criação,
em particular o Mundo visível, tangível, a Natureza e as relações que o Homem estabelecia
com a materialidade.
Os textos sagrados da religião começaram a ser analisados com um olhar analítico
mesmo que não crítico - e iniciou-se uma reabilitação do mundo material. Uma evolução do
pensamento ocidental que chegou a sua auge durante os séculos 14 e 15, com a Renascença.
Já, nos inícios do século 12, Abélard, um teólogo que ensinava à Sorbonne a Paris, treinava
seus alunos ao aplicar a Razão analítica no estudo dos Textos sagrados, mas também na
observação da Natureza. Já se amparava no pensamento do Aristóteles, cujas obras
ganharam mais e mais importância na reflexão e no ensino dos teólogos das Universidades -
não foi sempre o caso dentro dos monastérios que ficaram com uma grande desconfiança no
tocante às especulações intelectuais. Durante século 12, Tomás d' Aquino, aprofundou e
sistematizou o estudo do Aristóteles, para fundamentar um método racional de estudo dos
textos sagrados e de discussão das questões teológicas. Um método chamado de Escolástica.
Se, nas Universidades, a Escolástica e Retórica, tomaram-se progressivamente exercícios
intelectuais formais e improdutivos, o apelo para a Razão, e não apenas para a Fé, começou a
aplicar-se igualmente, de modo sistemático, à observação e descrição da Natureza. Apoiando-
se nos trabalhos dos Gregos e dos Árabes, a geometria, a óptica, a astronomia, a botânica,
tomaram-se disciplinas reconhecidas, as quais dedicaram-se numerosos livros.
Pouco a pouco, a Natureza - quer dizer o conjunto das coisas materiais e dos seres
vivos que formam a Criação ao lado dos Seres humanos - deixou de ser vista apenas como um
reflexo de realidades transcendentes, mas como uma material idade que existe em si e cujos
elementos podem ser observados e descritos; uma materialidade cuja estrutura e
funcionamento obedecem a uma certa ordem, a regularidades que podem e merecem ser
estudadas
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A Natureza começou então a recuperar seu estatuto antigo, aquele de uma Totalidade
organizada que a Razão humana pode explorar. É a partir deste momento, talvez, que começa
a se estabelecer a dicotomia Homem-Natureza que, depois, ia a marcar com mais e mais força
o pensamento ocidental.
Pode-se fazer a hipótese, que esta clivagem operou-se à junção entre dois universos de
pensamento.
• Aquele da Antiguidade ré-descoberta, com a visão da Natureza que ela veiculava :
Totalidade coerente e viva, animada por forças espontâneas realidade tangível que
pode ser conhecida por meio do exercício da Razão.
• Aquele do cristianismo - Católico em particular - com sua representação do Ser humano
como auge da criação, imagem de Deus.

Esta junção deu origine a um novo modelo de representação que articulava os seguintes
elementos:
• Um Ser Humano investido de uma posição dominante em relação a tudo que fica ao
seu entorno.
• Uma Natureza que merece ser observada para conhecer suas próprias características e
propriedades - e não apenas na qualidade de reflexo da "Jerusalém Celeste".
• Um espírito humano que acha em si próprio.a capacidade de descrever, medir,
conhecer esta Natureza.

Entre o Século 14 e o Século 16, a Renascença aparece como um momento privilegiado da


História ocidental, um momento em que-as evoluções do pensamento e as dinâmicas da
história social, econômica e técnica iniciadas alguns séculos antes, entraram em sinergia,
dando um forte impulso às mudanças da cultura e da sociedade.
Durante este período, vários fatos históricos e evoluções fundamentais do pensamento
ocorreram, estabelecendo as bases de uma nova representação das relações Ser
Humano/Natureza.

1. O primeiro fato, como já falei, constitui-se num retomo metódico e sistemático em direção do
patrimônio do pensamento Antigo. A herança nunca foi perdida por completo, mas os
esquemas de pensamento da Idade Media, penetrados pelo

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misticismo Cristiano, não permitiam aproveitar plenamente de um ensino que permanecia
sempre subordinado aos dogmas da religião. Com a reabilitação do mundo material e da razão
humana, as obras dos autores antigos recuperaram a totalidade de seu interesse e ajudaram
responder as novas questões que a época se colocava. Não foram apenas as obras escritas
dos poetas, filósofos e cientistas gregos e latinos que se tornaram modelos e referências, mas
também as obras artísticas : monumentos, esculturas e obras gráficas. A Itália - graças à sua
proximidade com as raízes geográficas da civilização romana e a abundância dos testemunhos
do passado foi o líder deste movimento de redescoberta.
2. O segundo fato foi uma revolução estética que se aplicou em particular à pintura e à
escultura. Revolução no decorrer da qual foi colocada e resolvida de modo totalmente nova a
questão da representação do Mundo.
Durante toda Idade Média, as figurações gráficas constituíam-se como uma linguagem
codificada, uma escritura em imagens cujo papel era dar a ver símbolos que tiravam seu
sentido do dogma da religião. Não se tratava de figurar a realidade visível, já que ela se reduzia
apenas a aparências sem valor.
Pelo contrário a partir do momento quando o olhar sobre o Mundo começou à mudar,
quando atribuiu-se interesse a essas aparências, colocou-se o problema da restituição da
imagem que nossos olhos percebem. Foi abordada a questão do realismo na figuração da
Natureza. No caso da pintura sobretudo, os artistas da Renascença trouxeram inovações
técnicas que constituíram grandes avanços quando comparadas às técnicas de desenho
herdadas da Antiguidade.
A grande invenção foi aquela da perspectiva linear com "ponto de fuga" único:
representação que se assemelha muito à imagem que percebe o olho humano. No entanto, por
próxima que seja da visão humana, não passa de uma ficção geométrica uma vez que:

i) nossa percepção da profundidade do espaço em três dimensões se faz com dois olhos que
dão uma visão estereoscópica dos objetos percebidos,
ii) que os olhos não são imóveis mas, pelo contrário, se movem e exploram de modo dinâmico
o espaço
iii) e, terceira diferença, que a superfície do fundo do olho é curva enquanto aquela da tela ou
da folha de papel utilizadas pelo pintor é plana.
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A perspectiva linear não passa de um procedimento geométrico de projeção de um
espaço em três dimensões sobre um plano. Mas, ela se aproxima suficientemente da imagem
dada pela percepção ocular para poder criar ilusão, em certas condições.
Pode-se datar com precisão a invenção desta técnica gráfica. O arquiteto e artista
italiano Ghiberti foi o primeiro a fazer a demonstração do procedimento a Firenze em 1436 na
ocasião de uma experiência famosa. A partir deste momento a técnica foi adotada por todos os
artistas italianos e europeus. Mas as conseqüência da descoberta gráfica vai bem alem do
domínio da pintura e do desenho.
Em um livro famoso ("A perspectiva como forma simbólica") o filosofo da arte alemã
Erwin Panofsky mostra como ela introduz um novo paradigma na representação da relação do
Ser Humano com o mundo exterior. Ela permite unificar a totalidade dos objetos representados
dentro de um único referencial de coordenadas geométricas centrado sobre o olhar do
espectador, que se coloca assim na postura do "observador" do mundo. Ocupa simbolicamente
o lugar de Deus observando a criação. Simbolicamente ainda, o Homem se destaca assim do
resto do mundo, submetendo-o doravante a seu olhar - olhar de geômetra, olhar de dono. É
deste mesmo período que datam as representações realistas das paisagens, das plantas, dos
animais. Os quadros deixaram de figurar um mundo de idéias e símbolos para transformarem-
se em janelas abertas sobre à realidade. Foi uma ruptura maior na representação mental do
Mundo e da Natureza. Em uma época quando não existiam ainda fronteiras estanques entre as
disciplinas, quando a mesma pessoa podia ser pintor, arquiteta, engenheiro, matemático e
filósofo, os avanços, da pintura tiveram uma influência considerável sobre a filosofia e as
ciências dos séculos 15 e seguintes.
3. O terceiro elemento deste transtorno profundo dos quadros de pensamento - em paralela à
nova distância tomada pelo Homem em relação com o resto do Mundo - foi a emergência da
idéia de Sujeito. Por certo, o próprio dogma da religião cristã integra, desde o inicio, a noção de
responsabilidade individual. Mas trata-se aqui da responsabilidade do "sujeito" no sentido inicial
da palavra: quer dizer uma pessoa sujeitada a uma lei e castigada caso a transgrida. Alem
disso, o ideal de desprendimento dos interesses pessoais ficava no centro da mística cristã.
Ao final da Idade Média, os teólogos e os scolásticos começaram discutir a
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noção de indivíduo - no sentido etimológico da palavra: qualquer ser ou objeto que não se pode
dividir - apoiando-se nos textos de Aristóteles. Mas, a partir do momento em que o Ser Humano
começou a soltar-se do resto da Criação para olhá-Ia e conhecê-Ia; a partir do momento
quando ele se colocou de modo mais nítido como consciência e sede do conhecimento do
Mundo, tornou-se necessário pensar a individualidade não apenas do seu olhar mas da
também de sua vontade atuante.
Entre Petrarca, no Século 14, e a publicação do "O livre arbítrio" de Erasmo em 1524
operou-se a construção da noção de Sujeito consciente da sua existência e de sua
possibilidade em decidir do seu destino diante a Deus e diante à Natureza. Com esta nova
representação filosófica do sujeito a dicotomia entre o Ser Humano e o resto do Mundo andou
assim reforçando-se. No domínio da religião a evolução conduziu à reforma protestante -
durante o primeiro quarto do século 16 - Reforma que pregava a autonomia individual de leitura
e interpretação da Bíblia e dos Evangelhos. Do lado da criação artística, ela se traduziu pela
multiplicação dos retratos e auto-retratos que procuravam expressar a singularidade não
apenas das feições físicas mas também da personalidade da pessoa representada .
4. O quarto grande movimento característico deste período da história do pensamento
ocidental foi o fim de uma visão limitada e auto-centrada do universo. Com as descobertas da
ciência astronômica, a visão da centralidade da Terra dentro do Universo - idéia elaborada
pelos autores da Antiguidade, retomada e defendida pela Igreja católica - achou-se colocada
em dúvida. Os primeiros trabalhos de Copérnico contestando o modelo oficial foram publicados
em 1543. Mas levou muito tempo antes que a idéia fosse aceitada pela Igreja, pois quase um
século mais tarde, Galileu foi condenado pela Inquisição por ter defendido as mesmas idéias.
No entanto, mesmo que condenada oficialmente, a nova representação mental do
Universo não parou de progredir entre os pensadores e cientistas da época. Com o uso do
óculo astronômico e a descoberta das estrelas, se revelava um Universo cujos limites
recuavam cada vez mais. A noção de infinito começou a ser vislumbrada.
Quase ao mesmo momento, a descoberta do continente americano veio
15
ampliar imensamente a constatação da diversidade das civilizações, dos seres vivos e das
coisas presentes na superfície da terra. As certezas antigas vacilaram. As fronteiras e limites
estabelecidos desabaram. Os saberes herdados da Antiguidade mostraram suas falhas. A
Bíblia não dava conta de tudo. Tomava-se legitimo e necessário dar-se os meios para descobrir
e conquistar um mundo muito mais rico e diverso do que se pensava antes. Graças à
observação, à dedução, ao cálculo, o Ser humano realizava que podia explorar a Natureza não
apenas como uma metáfora do pensamento de Deus ou o reflexo do esplendor do Mesmo,
mas como uma realidade objetiva, obedecendo à leis naturais intrínsecas cujo conhecimento
não caia fora de alcance do poder explicativo do espírito humano.

Entre os séculos 14 e 15, ao termo de uma longa maturação iniciada vários séculos
antes, um patamar foi assim superado e operou-se uma renovação fundamental dos quadros
de pensamento em Europa. A leitura dos textos sagrados não dava mais conta para interpretar
os signos que o Mundo material dá a ver. É a observação das coisas no seus pormenores, sua
descrição sistematizada, sua classificação metódica, o raciocínio associado à medição que
tomaram possível entender o Universo. É neste momento que foram estabelecidas as bases de
um modelo de pensamento que, durante os séculos seguintes, ia devolver-se e reforçar-se,
opondo o Homem Sujeito observando à Natureza Objeto, submetida a seu olhar.

Foi uma mudança decisiva na história do pensamento ocidental, mas o movimento


estava apenas iniciando-se. A partir desta primeira ruptura, uma serie de aprofundamentos mas
também de bifurcações, ate de voltas para trás, aconteceram. Em um contexto social e político
onde o pensamento oficial da Igreja católica perdia pouco a pouco sua posição dominante - em
particular nos paises ganhados pela Reforma protestante- operou-se uma liberação da vida
intelectual e científica que ia levar, dois séculos mais tarde, ao desabrochamento do chamado
"Século das Luzes", com Voltaire, com a Enciclopedia. Assistiu-se em particular a uma
multiplicação e uma diversificação das hipóteses, das interpretações, das teorias no tocante à
Natureza. É em aquela diversidade que se arraigam muitos dos pontos de vista que se
expressam ate hoje.
Simplificando muito, resumirei aqueles movimentos complexos em algumas grandes
tendências.
16
1. Em primeiro lugar permaneceu uma visão mística do mundo na filiação daquela da Idade
Media. Nossos sentidos são enganadores: a realidade essencial e permanente, escondida
atrás das aparências, não é accessível graças ao trabalho analítico do espírito operando a
partir do que vemos, tocamos, ouvimos, senão pela força do Amor: amor de Deus, amor dos
outros seres humanos. Esta experiência mística da consciência aponta, no final da conta, para
o abandono do "Eu", para uma fusão da individualidade em Deus e no resto do universo.
Procura-se assim a abolir a fratura entre o Sujeito e o Mundo. Neste quadro geral esta corrente
de pensamento revela-se diversa e híbrida.

• Em um primeiro lado, ele se alimenta à tradição monacal da contemplação. O objetivo é


fundir-se no Amor de Deus. Se os sensos não podem informar nossa razão, eles podem
no entanto atingir nossa sensibilidade: a beleza do mundo nos coloca em relação com o
esplendor de Deus. O caminho da contemplação, conforme a interpretação das grandes
figuras místicas do século 17, não supõe que se rejeitem as mensagens dos sensos
carnais, mas, pelo contrário, que se ampare neles, até gozar do prazer que eles
provocam, para atingir um estado de consciência que prefigure o encontro com Deus.
Os textos da Teresa d' Á vila, por exemplo, são reveladores desta visão: fala-se a
respeito deles de um erotismo da êxtase.

• Em paralela a esta corrente mística, apoiando-se as vezes neles apesar de seguir um


rumo diferente, desenvolveu-se durante os séculos 17 e 18 um movimento estético que
explorava e utilizava as aparências e as ilusões dos sentidos: o Barroco. No cerne da
estética barroca acha-se a idéia que o Mundo não passa de ser um grande Teatro.
Apenas vemos, estamos em contato, com ilusões, máscaras.
O tema é muito presente na literatura e no teatro da época: em particular com
Calderón de Ia Barca (La vida es un Sueño) e Cervantes em Espanha, Shakespeare em
Inglaterra.
Os progressos da pintura vêm confirmar a constatação do poder de ilusão dos
sentidos: está doravante possível de reproduzir o real de modo tão verossímil sobre uma
tela o uma parede que o espectador não pode mais distinguir o verdadeiro do falso. O
Barroco foi o grande período dos "trompe-l'oeil" na pintura e na arquitetura. As paredes dos
palácios
17
racham-se para deixar perceber a paisagem do exterior; os tetos abrem-se para o céu e
as nuvens cheios de figuras míticas ou religiosas.
Alem de ser uma corrente estética, o Barroco foi um instrumento de propaganda
da Igreja católica - movimento chamado depois de "Contra-Reforma" - para lutar contra
as idéias do protestantismo. Um dos eixos da estratégia consistia em opor ao
puritanismo protestante um enfoque da religião que apoiava-se sobre a sedução dos
sentidos para conduzir a realidades mais essenciais. A América latina e o Brasil
oferecem inúmeros testemunhos desta estratégia de sedução.

• Um terceiro movimento místico "pós-Renascença" foi menos ligado à visão cristã.


Recriou laços com a tradição antiga do Platonicismo e procurou, atrás das aparências,
atingir o reino das idéias primas, da ordem fundamental, da "Alma do Mundo" que se
manifesta mediante a proporções e números. Alimentou muitos movimentos esotéricos.

Em todos estes casos, o Homem na qualidade de Sujeito e Consciência fica doravante no


centro da reflexão, ma não se coloca numa postura filosófica de ruptura com o mundo
material- ainda menos de dominação do mesmo. A Natureza, mais do que um espaço a
conquistar, oferece-se como uma mediação para conduzir ao essencial e o permanente,
que são imafériais. Pelo intermediário as vezes de filosofias orientais, acham-se hoje em
dia, correntes de pensamento que se inscrevem nesta filiação .

2. Coexistindo com estas correntes místicas, dando continuidade aos avanços da arte e da
ciência que se iniciaram durante a Renascença, desenvolveu-se um olhar analítico sobre o
mundo e sobre a Natureza. A realidade material que os nossos sentidos percebem merece ser
observada e descrita. É necessário reunir quanto mais observações possíveis sobre a
diversidade dos seres e das coisas encontrados no planeta para poder descobrir as leis
subjacentes que organizam esta aparente heterogeneidade. O período pós-Renascença
marcou, para as ciências físicas e naturais, o início de sua estruturação em disciplinas
especializadas.

• Em primeiro lugar a Astronomia, estreitamente ligada à ciência e às técnicas da Ótica.


Ambas disciplinas transtornaram todos os prévios esquemas

18
de representação sobre o nosso planeta e a cosmografia. Astronomia e Ótica
forneceram também a confirmação do que as matemáticas, o cálculo, permitem
descobrir as leis que regem os fenômenos visíveis e prever a ocorrência de eventos
físicos tais como os movimentos dos astros. Os trabalhos de Galileu e de Kepler
evidenciaram assim o fato que os fenômenos naturais são submetidos a uma ordem
que a matemática pode apreender. As descobertas da Ótica permitiram reduzir as
aparências visíveis a uma geometria formal. Isto quer dizer que embora estas
aparências possam enganar, não convém procurar a verdade em um outro nível de
realidade, senão nas leis é princípios que organizam nossa própria percepção das
coisas. Por exemplo, nossos sensos criam a ilusão que o sol gira em torno à terra mas
o raciocínio geométrico - associado à observação e a medidas - restabelece a verdade .

• No domínio das ciências naturais, iniciarem-se durante o século 15 as primeiras


grandes coleções e os primeiros livros de botânica e de zoologia. As universidades de
Padova, Salerna, Bologna - in Itália - aquela de Montpellier na França, voltaram sobre
os passos dos botânicos da Antiguidade - em particular Dioscoride que, no seu De
Materia Medica, catalogara mais de 600 plantas. Viagens foram organizadas para Itália,
Grécia, a Terra santa para tentar encontrar as plantas citadas nos textos da Antiguidade
e na Bíblia. Os viajantes voltando do Oriente traziam espécimes de objetos, plantas,
animais. Livros eram publicados - em particular a partir da invenção da imprensa em
1450 - e reproduziam, em geral de modo muito simplificado, as plantas descritas.
Jardins botânicos foram criados - o mais famoso dentre eles sendo aquele da
Universidade de Padova. Os Papas, os Reis, os Príncipes criaram jardins segredos nos
quais eles acumulavam plantas raras. As coleções naturalistas privadas multiplicaram-
se. No início, tratava-se de "gabinetes de curiosidades" nos quais o valor dos objetos
acumulados era ligado a sua raridade e a seu caráter estranho. A descoberta do
Continente americano - e do Brasil em particular - abriu um campo imenso de objetos
desconhecidos.
Pouco a pouco, as coleções organizaram-se e sistematizaram-se. Jardins e
coleções Reais foram criados, liderados pelos melhores cientistas da época. Durante os
séculos 17 e, sobretudo, 18, expedições foram organizadas
19
pelos governos dos paises de Europa, viagens das quais constavam os especialistas da
época (geógrafos, naturalistas, pintores) cuja tarefa era fazer um levantamento
metódico das riquezas do planeta.
Com os progressos da navegação elas percorriam todos os mares do globo e
traziam sem parar suas descobertas. O grande desafio para os cientistas e o
coleccionadores da época foi a organização metódica desta profusão : como adenar os
objetos de modo a poder achá-los rapidamente, como descrevê-los a partir de critérios
simples, como criar - na diversidade infinita das formas hierarquias, agrupamentos,
categorias que evidenciem a ordem subjacente que à qual obedecem. A Taxonomia foi
uma das grandes tarefas sobre as quais concentrarem-se os naturalistas a partir du
século 15. O resultado mais acabado deste esforço foi o método de classificação
elaborado por Carl Von Linné durante o século 18 - método cujos princípios
permanecem aplicados até agora.
Do ponto de vista filosófico, a forma mais acabada da visão lógica, matemática e
geométrica do mondo foi proposta, desde a primeira metade do século 17 por
Descartes. Segundo ele, todos os fenômenos que podem-se observar na Natureza são
explicáveis mediante à aplicação da Razão e remetem, no final das contas, a questões
de movimento e de cinética. O Mundo não passa de uma grande maquina. Uma
maquina particularmente complexa mas cuja complexidade pode ser reduzida a alguns
princípios inteligíveis.

"Não reconheço qualquer diferença entre as maquinas feitas pelos artesãos e os


diversos corpos criados pela própria natureza ... Ao não ser que os canos e as molas
que causam os movimentos dos corpos naturais são, em geral, pequenos demais para
poderem ser percebidos por nossos sensos" (Descartes, Princípios, artículo 203)

Mas dentro este mundo mecânico o Ser humano destaca-se pela sua faculdade
de pensar : pensar em si próprio, pensar no que se apresenta a ele (o famoso Cogito
ergo sum). É esta faculdade que fundamenta sua singularidade radical bem como sua
supremacia sobre tudo o que fica em seu entorno. O Homem, Ser pensante, pelo
exercício de sua razão, pela sua capacidade de enxergar os
20
princípios que organizam a diversidade do mundo, dos mecanismos que regem seus
movimentos, tem vocação a atuar como "possuidor e dono do Mundo" conforme a
própria expressão do Descartes no "Discours de Ia méthode". Nesta afirmação e nesta
representação mecânica e geométrica do Mundo - finalização de um longo movimento
histórico de cisão - pode-se identificar a raiz principal do esquema dicotômico que
andou estruturando a relação Ser Humano/Natureza na cultura europeu durante os dois
séculos passados.
No entanto esta representação do Mundo tinha ainda muito caminho para percorrer
antes de conquistar uma posição dominante. As teorias de Descartes, caso fossem
conduzi das à suas conseqüências lógicas extremes tomariam inútil apelar para a
existência de Deus para explicar o funcionamento da "Maquina Mundo". A Igreja
católica realizou o perigo que estas representavam e Descartes teve que deixar a
França e exilar-se na Holanda. Mas os teólogos não eram únicos a recusar a teoria
mecanista do Descartes e de seus discípulos. Muitos naturalistas, no estudoque faziam
dos processos da vida, da reprodução dos seres vivos bem como da sua adaptação a
seu contexto, realizavam que os fenômenos que observavam eram muito mais
complexos, flexíveis, aleatórios do que os movimentos de uma mecânica funcionando
segundo princípios rígidos. O mundo vivo que estudavam era submetido a dinâmicas
perpetuais de mudança e de ajustes. Enquanto Descartes recusava a palavra de
"Natureza", preferindo utilizar aquela de "Matéria", a idéia de Natureza e a própria
palavra encontraram um novo sucesso a partir do século 18. Os livros multiplicaram-se
que dissertavam sobre a Natureza e retomavam a acepção etimológica e antiga da
palavra: aquela de uma totalidade viva, coerente, harmoniosa e animada por uma força
espontânea. Para alguns autores esta força era insuflada pela vontade do Criador, mas
ao longo do século.,o apelo para a idéia de Deus reduziu-se pouco a pouco a uma
precaução de linguagem, enquanto a Natureza achava-se descrita como uma entidade
em si, animada pelas suas próprias forças de vida e de mudança. Foi em particular a
concepção apresentada por Buffon na sua "Historia Natural"

"A Natureza não é uma coisa, senão esta coisa fosse tudo. A natureza não é um Ser,
senão este Ser fosse Deus. Mas pode-se considerá-la como uma potência
21

viva, imensa, que abrange tudo, que anima tudo"

A partir do fim do século 18, em particular com o empreendimento muito ambicioso da


Enciclopédia, e durante todo o século 19 assistiu-se à "laicização" completa da ciência. Os
sistemas explicativos não precisam mais apelar para a existência de Deus e para sua
intervenção a fim de dar conta do funcionamento do Mundo e da Natureza. A ciência conquista
sua autonomia. Ela estabelece suas próprias regras de administração da prova e de validação
das hipóteses. Ela faz da Dúvida e não mais da Fé o pilar de seu postura diante ao Mundo. Ela
recorta a realidade em domínios diversificados, as disciplinas, que permitem uma melhor
especialização dos conceitos e dos métodos. Mais do que nunca antes, o Ser humano solta-se,
destaca-se da Natureza que ele observa, analisa, e cujos segredos ele desvenda para poder
agir sobre ela com mais eficácia e para submetê-Ia a seus projetos.

No entanto, mais uma vez, durante este período crítico que vai do século XIX ate hoje,
os sistemas de pensamento não evoluem de modo homogêneo.

1) Em um contexto histórico no qual a acumulação do capital por um lado e o desmoronamento


das hierarquias e dos privilégios sociais antigos, pelo outro lado, liberam um fantástico
potencial de empreendimento e de ação, opera-se uma aliança estreita entre a Ciência como
projeto de conhecimento e a Técnica, como projeto de intervenção sobre a matéria. Graças a
saberes sempre mais aprofundados sobre a Natureza, suas leis, as forças que a regem ;
graças também a uma pungente mobilização do capital procurando novas fontes de lucro;
graças em fim a uma vontade e uma esperança sem precedente de mudar o Mundo, operam-
se durante este período avanços técnicos que dão as sociedades industriais o sentimento que
elas têm realmente os meios de tomarem-se "possuidoras e donas do Mundo"como o
Descartes lho propunha dois séculos antes.
Dando seguimento à antiga visão mecânica do mundo, a ciência positivista - doravante
independente de qualquer preocupação filosófica ou religiosa - dá-se como ambição e tarefa
desmontar pouco a pouco os mecanismos da matéria. Uma nova figura aparece : o engenheiro
ele próprio impregnado de ciência, mas de uma ciência especializada e voltada para a ação.
Ele integra os saberes produzidos é utiliza-os para desenvolver técnicas que permitirão ao Ser
Humano de cumprir suas necessidades e de realizar seus sonhos.
As possibilidades do espírito humano sendo consideradas sem limites, nada poderia
doravante deter este movimento de conquista do Mundo : uma vez que o Homem tem
22
decidido que não apenas a Natureza é ao seu serviço mas que ele tem a capacidade para
exigir tudo dela, uma era de progresso sem limite abre-se para ele.
Dando seguimento às filosofias econômicas do século 18 - em particular os Fisiocrates
na França e Adam Smith em Inglaterra, a economia também torna-se autônoma, na qualidade
de ciência da produção e da circulação dos bens materiais. Neste contexto a Natureza não
passa de ser urna reserva de recursos livremente oferta à atividade humana. A multiplicação
das iniciativas e das inovações guiadas pela busca de uma satisfação individual liberará as
energia e permitirá obter sempre mais da matéria. Graças ao mecanismo do preços e da
concorrência, urna "mão invisível" organizará os interesses particulares conforme as
necessidades do interesse geral.

2) Mas, enquanto a visão positivista ganhava um papel dominante na organização social e


econômica, uma concepção científica e filosófica mais complexa, mais flexível, mais histórica
da Natureza ia se construindo, na filiação das teorias naturalistas dos séculos anteriores. Esta
Ciência não tinha objetivos práticos mas dava continuidade a um esforço secular de
compreensão do mundo, da sua origine, do seu futuro. Mas um mundo sem Deus. Do mesmo
modo que na Antiguidade, a Natureza - abrangendo o Cosmos - é, de novo, considerada como
uma Totalidade animada da qual pode-se questionar o passado, o presente, o futuro. Uma
idéia nova se desenvolve: o Universo não foi dado de vez. Ele tem uma historia, ele muda
conforme uma trajetória, ele evolui. Apos Darwin, evidentemente, mas também na continuidade
de naturalistas anteriores como Buffon ou Lamarck, a historicisação do mundo ganha pouco a
pouco um amplo leque de disciplinas : da Cosmografia ate as Ciências sociais. Neste sistema
explicativo, o Ser Humano conserva sua posição preeminente, não mais como criatura e
imagem de Deus, mas como um produto da Natureza, o resultado mais acabado de um
movimento de complexificação da vida iniciado muitos milênos antes. Um movimento chegado
a um tal grau de aperfeiçoamento com o Homem que lhe confere um estatuto radicalmente
diferente daquele do resto dos seres vivos. Um estatuto que legitima mais uma vez - mas por
um outro caminho - seu papel de Dono e Possuidor.

As sociedades também evoluem : sempre mais complexas, sempre mais eficazes, mais
organizadas, mais morais - desde as sociedades chamadas de "primitivas" ate aquelas mais
"evoluídas" - que são evidentemente as sociedades ocidentais ! Aqui também o grau de
acabamento das sociedades "evoluídas" lhes confere um papel de tutor e de guia em relação
com todas as sociedades "menos avançadas" do planeta.
23
No final das contas, mesmo se o ponto de partida destes grandes sistemas explicativos
e as preocupações que as guiam são diferentes daqueles do positivismo tecnicista todos se
encontram numa mesma filosofia do Progresso que como já o temos visto, constituiu, ate
bem recentemente, o eixo de nosso pensamento econômico.

3) Mas o movimento histórico do pensamento humano não é tão simples e não se deixa reduzir
a esquemas lineares. Os avanços da Ciência, ao mesmo tempo que contribuíram a dar novas
bases à dicotomia entre Ser Humano/Natureza e a consolidá-Ia, participaram também a
regenerar uma idéia da Natureza oriunda do passado mais antigo da cultura ocidental. Uma
ciência que progride sem parar no seu esforço para evidenciar o fato que a matéria obedece a
suas próprias leis, combinada com uma filosofia evolucionista que dá à história do universo
uma direção, uma finalidade, não podia deixar de reforçar a convicção daqueles que
enxergavam na Natureza uma totalidade viva, pungente, movida por uma dinâmica espontânea
e dotada de uma Alma e de uma força que ultrapassa de longe aquela do Ser Humano.

Uma Natureza como esta deve ser respeitada e não é ao perseguirem o sonho
insensato de dominá-Ia que o indivíduos e as sociedades chegaram à felicidade mas, pelo
contrário, ao buscarem entrar em harmonia com ela.
Esta idéia de busca de harmonia com a Natureza já estava valorizada entre os
Romanos. Ela foi prosseguida pelos poetas a partir da Renascença, mas ela ganhou ainda
mais lugar na arte, na literatura, na vida quotidiana das classes dominantes a partir do século
18. Foi em Inglaterra, com destaque no domínio da arquitetura dos jardins, que o movimento de
"volta para a Natureza" começou a sustentar um movimento mais geral de crítica de uma visão
demasiado rígida e geométrica das relações com as paisagens. Os jardins geométricos "à Ia
française" do século 17 (tal como Versailles e Vaux le Vicomte) ilustravam perfeitamente o
projeto intelectual cartesiano de dominação da natureza. Pelo contrário os jardins ingleses
criados a partir do século 18 buscavam esconder todos sinais da intervenção humana, para dar
a impressão que o jardim não era um jardim mas sim uma porção de paisagem natural.
A nova concepção da Arte pretendia permitir que as forças harmoniosas da Natureza se
exprimissem sem restrição. A verdadeira beleza, para esta corrente estética, não se associa a
um artefato mais resulta do livre desempenho das dinâmicas naturais. A revolução estética que
se manifestou assim de modo particularmente espetacular no domínio dos jardins
24
abrangia também muitos outros campos da criação artística, literária e filosófica. A
sopravalorização de uma Natureza livre e selvagem encontrava-se também nas obras de um
escritor e filosofo como Jean-Jacques Rousseau (que, alem disso, teorizou a noção de "estado
de Natureza). Foi um dos temas centrais de todos os românticos de toda a Europa.
Redescobrir a Natureza, re-estabelecer o contato direito com ela representou uma das grandes
modas das classes altas e dos intelectuais do final do século 18 e durante o século 19.
No início tratava-se de uma natureza harmoniosa e pacata - modelo e fonte de
sabedoria - mas, durante o século 19, desenvolveu-se uma outra imagem da mesma, marcada
pela idéia da potência excessiva e terrificante. A contemplação das montanhas, das florestas
selvagens, do mar, especialmente quando livrados às forças sem limites das tempestades, dos
trovões, conduzia à experiência íntima do Sublime (Baldine Saint Girons, «Du sublime dans Ia
fondation de l'art des jardins modernes », in Monique Mosser & Philippe Nys, Le jardin, art et
lieu de mémoire, Les éds. de l'Imprimeur, 1995 (299-322).
Essas emoções de Tenor, de sentido do Sublime desempenharam um papel central na
experiência romântica da Natureza no Século 19. É por meio dos sentimentos inspirados pelo
espetáculo de paisagens selvagens onde o poder da Natureza expressa-se sem restrições que
o Ser humano pode experimentar uma nova forma de êxtase. Uma êxtase que não seja mais
provocada - como no caso dos místicas do século 17 - pela contemplação da Luz de Deus,
mas sim pela fusão da alma humana na Alma da Natureza.
Esta representação mental opunha-se à visão contemporânea dominante, tecnicista e
positivista, que pretendia submeter a matéria aos projetos humanos. Pelo contrário, ela
enxergava na Natureza a encarnação de valores permanentes e essenciais - fonte de
inspiração para o Ser Humano. E a partir desta base conceitual que começou a se elaborar,
durante a segunda metade do século 19 - em particular nos paises de cultura alemã e anglo-
saxônica, as correntes mais radicais de valorização e de defesa da Natureza. Para essas
correntes, não apenas o Homem não deve distanciar-se da Natureza mas é ao tomá-Ia como
modelo que ele chegará à harmonia com sua própria "natureza".
No entanto, em toda Europa - um espaço ocupado, ordenado, transformado por
populações agrícolas há milênios - poucas paisagens podem permitir dar um conteúdo
concreto a esta imagem ideal da Natureza - mesmo as florestas aparentemente selvagens
foram plantadas e manejadas pelos homens. Nos Estados Unidos, pelo contrário, país pioneiro
onde permaneciam ainda ao fim do século 19 amplos espaços não marcados pela atividade
humana, essas idéias conseguiram bater com uma experiência concreta - originando assim o
modelo ideal da Wilderness - uma palavra inglesa que designa os espaços selvagens e
25
intocados, escola de vida onde o Ser humano pode retomar contato com os valores mars
fundamentais da existência (Catherine Larrêre, Les philosophies de l'Environnement, PUF,
1997). É neste país que foi criado, em 1872, o primeiro para41 acional do mundo: o parre
Yellowstone. Em um outro país pioneiro - o Brasil - que, ate os meados do século 20 possuía
amplos espaços de floresta primaria fora da Amazônia, a necessidade de proteger
testemunhos desta Natureza intocada expressou-se muito cedo dentro certos meios
intelectuais. Desde 1878, o engenheiro e militante abolicionista André Rebouças reivindicava a
criação de um parque nacional a Iguaçu e Sete Quedas - conforme o modelo de Yellowstone.
O parco foi criado 60 anos mais tarde, 1939, mas a vontade de proteção tinha-se exprimido
muito antes. O sentimento da Natureza e a vontade de proteção da vida selvagem que anima
muitas organizações ambientalistas brasileiras hoje, têm raízes antigas e fortes.
Alimentada depois pelo desenvolvimento da ciência ecológica e, em particular, pela
visão holística que ela propõe das relações múltiplas e inextricáveis que se tecem dentro da
biosfera, esta visão romântica, as vezes mística da Natureza operou uma nova junção com a
Ciência - achando nela novos argumentos para defender a idéia que a Natureza possui um
valor intrínseca que deve ser respeitado, a idéia que o futuro do Ser Humano é
inexoravelmente ligado á aquele de todas as coisas e todos os seres vivos que ficam em torno
a ele.
Vimos, a traves este resumo muito rápido e muito simplificador que as representações
da Natureza presentes na cultura ocidental- hoje dominante na escala de todo o planeta - são o
resultado de toda uma genealogia. É uma história marcada tanto por grandes continuidades
(certas idéias contemporâneas originam-se nos pensamentos da Antiguidades) quanto por
longas eclipses (como durante uma parte da Idade Média) ou por período de inovações
radicais como aquela aberta pela Renascença e pelo surgimento da ciência laica na charneira
entre os séculos 18 e 19.
Tudo isto mostra que a idéia de Natureza não se origina numa experiência imediata
mas sim que ela é o produto de uma história - hoje ainda, a diversidade das atitudes e das
representações testemunha da riqueza e da complexidade desta história.
26
Diante os problemas que eu evocava na prévia palestra, será que somos enfrentando hoje em
dia a necessidade de uma nova mutação do modo de pensarmos a Natureza? É esta questão
que tentarei tratar amanhã.

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