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Universidade Estadual de Campinas.

Claudio Qureshi, RA 137920


Instituto de Matemática, Estatı́stica e Computação Cientı́fica.

Dois exercı́cios bacanas de Conjuntos Algebricos e generalizações.


Curso de Curvas algébricas 2013.

Neste material vamos resolver dois exercı́cios muito bacanas da disciplina de Curvas
Algébricas, que consistem em provar que certos conjuntos da forma {(x, f (x)) : x ∈ R} não
podem ser conjuntos algébricos. Além disso vamos ver posı́veis generalizações.

Exercı́cio 1. Provar que X = {(x, cos(x)) : x ∈ R} não pode ser um conjunto algébrico
em R2 .

Prova. Suponhamos que seja algébrico, então X = Z(S) para algúm S ⊆ R[x, y].
Como X 6= R2 então S 6= ∅ e podemos considerar P ∈ S, e por definição devemos ter
P (x, cos(x)) = 0 ∀x ∈ R.

π
Podemos escrever P (x, y) = Q(x, y)y + p(x) e consideremos a sequência θk = 2
+ 2kπ
para k ∈ N. Temos que

p(θk ) = P (θk , 0) = P (θk , cos(θk )) = 0

portanto p = 0 (por ter infinitas raices). Como P era genérico, probamos que y|P para
todo P ∈ S, logo (x, 0) ∈ Z(S) = X para todo x ∈ R o qual é absurdo pois por exemplo
(1, 0) 6∈ X.

O ponto clave aquı́ na prova foi usar o fato que cos(x) tem infinitas raices. Vamos a
provar usando os mesmos argumentos uma generalização.

Generalização. Se X ⊆ R2 é um conjunto tais que para alguma reta r não contida


em X, se verifica que r corta a X em infinitos pontos, então X não é um conjunto algébrico.

Prova. Seja v = (a, b) 6= (0, 0) um vetor gerador de r, por hipótesis existe uma seqüen-
cia crescente (tk )k≥1 tais que (atk , btk ) ∈ X ∀k ≥ 1.

Suponhamos que X seja algébrico, então X = Z(S) para algúm S ⊆ R[x, y]. Como
X 6= R2 (pois não contém r) então S 6= ∅ e podemos considerar P ∈ S. Consideremos o
polinomio em uma variável p(t) = P (at, bt).

Logo temos que p(tk ) = P (atk , btk ) = 0, ∀k ≥ 1 (pois P ∈ S e (atk , btk ) ∈ X = Z(S))
e portanto p = 0 por ter infinitas raices. Dai temos que p(t) = P (at, bt) = 0 ∀t ∈ R e
portanto r ⊆ Z(P ). Como P ∈ S era genérico então devemos ter r ⊆ Z(S) = X o qual
contradiz a hipótese. Logo X não pode ser um conjunto algébrico.

Outros exemplos. Usando a versão geralizada podemos probar que outros exemplos
do mesmo tipo não são conjuntos algébrico por exemplo X = {(x, sen(x)) : x ∈ R} ou
X = {(x, sen2 (x)) : x ∈ R} ou X = {(x, x cos(x)) : x ∈ R} (nos primeiros dois exemplos
podemos pegar a reta y = 0, no último podemos pegar a reta y = x).

Exercı́cio 2. Provar que X = {(x, ex ) : x ∈ R} não pode ser um conjunto algébrico em


R2 .

Prova. Suponhamos que seja algébrico, então X = Z(S) para algúm S ⊆ R[x, y].
Como X 6= R2 então S 6= ∅ e podemos considerar P ∈ S, e por definição devemos ter
P (x, ex ) = 0 ∀x ∈ R. Como Z(0) = R2 6= X podemos escolher P que não seja o polinomio
nulo.

Podemos escrever P (x, y) = am (x)y m + . . . + a1 (x)y + a0 (x) onde am não é o polinomio


nulo. Como P ∈ S e X = Z(S) temos que

P (x, ex ) = am (x)emx + am−1 (x)e(m−1)x + . . . + a1 (x)ex + a0 (x) = 0, ∀x ∈ R

Chamando de bi (x) = − aami (x)


(x)
para i = 0, 1, . . . , m − 1 temos que

emx = bm−1 (x)e(m−1)x + b1 (x)ex + b0 (x) (1)


1
dividindo ambos lados por e(m− 2 )x temos que
1 bm−1 (x) b1 (x) b0 (x)
e2x = 1
x
+ ... + (m− 32 )x
+ 1
e 2 e e(m− 2 )x
O qual é absurdo pois quando fazemos lı́mite para x → +∞ o lado esquerdo vai para ∞
enquanto o lado direito vai para zero. Portanto X não pode ser um conjunto algébrico.

O ponto clave na prova foi a fato de que ex vai para +∞ mais rápido que qualquer
polinomio. Com os mesmos argumentos não é dificil obter a seguinte generalização.
Definição. Uma seqüencia {(sn , tn )}n≥1 é dita superpolinomial se lim sn = ∞ e
n→∞
tn
lim = ∞ para todo polinomio não nulo p.
n→∞ p(sn )

Observe que no caso do Exercı́cio 2, a seqüencia {(n, en )}n≥1 é claramente uma seqüen-
cia superpolinomial em X.

Generalização. Se X ( R2 contém uma seqüencia superpolinomial então X não é um


conjunto algébrico.

Prova. Suponhamos que seja algébrico, então X = Z(S) para algúm S ⊆ R[x, y].
Como X 6= R2 então S 6= ∅ e podemos considerar P ∈ S. Por definição devemos ter
P (sn , tn ) = 0 ∀x ∈ R. Como Z(0) = R2 6= X podemos escolher P que não seja o polinomio
nulo.

Podemos escrever P (x, y) = am (x)y m + . . . + a1 (x)y + a0 (x) onde am não é o polinomio


nulo (e portanto am (sn ) 6= 0 para n >> 0).

Ao igual que a prova do exercı́cio 2, usando que P (sn , tn ) = 0, chamando de bi (x) =


m− 12
− aami (x)
(x)
para 0 ≤ i ≤ m − 1, isolando tm
n e dividindo ambos lados por tn temos

1 bm−1 (sn ) b1 (sn ) b0 (sn )


tn2 = 1 + ... + (m− 3 )
+ (m− 12 )
tn2
tn 2 tn
O qual é absurdo pelo fato de ser a seqüencia {(sn , tn )}n≥1 superpolinomial. Portanto X
não pode ser um conjunto algébrico.

Observação: Lembremos que o conjunto original para provar que não era um conjunto
algébrico no exercı́cio 2 era X = {(x, ln(x)) : x > 0}, mais isso é conseqüencia direta de que
o conjunto X 0 = {(x, ex ) : x ∈ R} não é um conjunto algébrico. Em efeito, por serem a ex-
ponencial e o logaritmo funções inversas, os conjuntos X e X 0 são simétricos respeito da reta
y = x. Por tanto se X fosse algébrico então X = Z(S) para algúm subconjunto S ⊆ R[x, y],
se definimos S 0 pela propiedade f (x, y) ∈ S 0 ⇔ f (y, x) ∈ S então X 0 = Z(S 0 ) serı́a um
conjunto algébrico que já probamos que não é. Logo o conjunto X = {(x, ln(x)) : x > 0}
não é um conjunto algébrico.

Outros exemplos. Usando a versão geralizada podemos probar que outros exemplos
2
do mesmo tipo não são conjuntos algébrico por exemplo X = {(x, ex ) : x ∈ R} ou X =
x2 −cos(x)
{(x2 , 2x ) : x ∈ R} ou X = {(cos(x) + x, Arctg(x)+e
1+sen2 (x)
) : x ∈ R} (pois em estos cassos
X = {(f (x), g(x)) : x ∈ R} com lim g(x)/p(x)k = ∞ para k > 0 fixo, então temos a
x→∞
seqüencia superpolinomial pn = (f (n), g(n)) n = 1, 2, . . . contida no conjunto X).

Outra prova diferente do Exercı́cio 2 e uma segunda generalizacão.

Agora vamos a utilizar a sugestão dada pelo Prof. Torres de utilizar que ex é invariante
por derivação. para obter uma prova um pouco mais algébrica.

Segunda prova para o Exercı́cio 2. Com o mesmo começo da prova anterior, su-
pondo que X fosse algébrico chegamos a que tem que se verificar a equação (??) e portanto
o conjunto {1, ex , . . . , emx } serı́a linearmente dependente no R(x)-espaço vetorial formada
pelas funções reais continuas C(R). Podemos então considerar o mı́nimo natural k tais que
o conjunto {1, ex , . . . , ekx } seja linearmente dependente sobre R(x). Claramente {1} é `.d.
portanto k ≥ 1, como {1, ex , . . . , ekx } é `.d. mais {1, ex , . . . , e(k−1)x } é `.i. (pela minimali-
dade de k) então por álgebra linear básica debem existir escalares c0 (x), . . . , ck−1 (x) ∈ R(x)
tais que
ekx = ck−1 (x)e(k−1)x + . . . + c1 (x)ex + c0 (x) (2)
Derivando de ambos lados temos:

kekx = (k − 1)ck−1 (x) + c0k−1 (x) e(k−1)x + . . . + (c1 (x) + c01 (x)) ex + c00 (x)

(3)

Multiplicando por k a equação (??) e restando a equação (??) temos que


k−1
X
((m − i)ci (x) − c0i (x)) eix = 0 (4)
i=0

E usando a independeça linear de {1, ex , . . . , e(k−1)x } temos que cada coeficiente da equação
(??) tem que ser zero e portanto ci (x) é solução da equação diferencial (m − i)y(x) = y 0 (x).
Resolvendo obtemos que ci (x) = αe(m−i)x para algúm α ∈ R, mais como ci (x) é uma função
racional em x a única posibilidade é α = 0 e portanto ci ≡ 0 para i = 0, 1, . . . , k − 1 o qual
contradiz a equação (??).

O ponto clave nesta nova prova foi o fato de que o conjunto formado pelas potências de
x
e serem linearmente independentes no k(x)-espaço vetorial C(R). Logo o argumento vale
trocando ex por qualquier função que possua essa propriedade. Por exemplo considerando
f (x) = eq(x) onde q(x) ∈ k(x) não constante, temos a seguinte generalização.
Generalização.
 Se q(x) é uma função racional não constante então o conjunto algébrico
X = { x, eq(x) : x ∈ R} não pode ser um conjunto algébrico em R2 .

Prova. Pelo argumento feito na prova anterior basta provar que para todo k ≥ 0
o conjunto {1, eq(x) , . . . , ekq(x) } é linearmente independente. Por absurdo, se existisse um
k ≤ 0 tais que o conjunto {1, eq(x) , . . . , ekq(x) } seja `.d., podemos pegar o menor k com
essa propriedade. Claramente esse menor k vai ser positivo (pois {1} é `.i.). Pelo mesmo
argumento da prova anterior existem c0 (x), . . . , ck−1 (x) ∈ R(x) tais que

ekq(x) = ck−1 (x)e(k−1)q(x) + . . . + c1 (x)eq(x) + c0 (x) (5)

Derivando de ambos lados temos:

kq 0 (x)ekx = q 0 (x)(k − 1)ck−1 (x) + c0k−1 (x) e(k−1)q(x) + . . . + (q 0 (x)c1 (x) + c01 (x)) eq(x) + c00 (x)


(6)
0
Multiplicando por kq (x) a equação (??) e restando a equação (??) temos que
k−1
X
(q 0 (x)(m − i)ci (x) − c0i (x)) eiq(x) = 0 (7)
i=0

E usando a independeça linear de {1, eq(x) , . . . , e(k−1)q(x) } temos que cada coeficiente da
equação (??) tem que ser zero e portanto ci (x) é solução da equação diferencial q 0 (x)(m −
i)y(x) = y 0 (x). Resolvendo obtemos que ci (x) = αe(m−i)q(x) para algúm α ∈ R, mais como
ci (x) é uma função racional em x a única posibilidade é α = 0 e portanto ci ≡ 0 para
i = 0, 1, . . . , k − 1 o qual contradiz a equação (??).

Outros exemplos. Usando esta versão generalizada


 do exercı́cio 2 podemos probar
x3
n x
 o
por exemplo, que os conjuntos X = x, e 1+x 2
: x ∈ R ou X = x, e 1+x 2
:x∈R
n 1
 o
ou X = x, e x : x ∈ R∗ não podem ser conjuntos algébricos (observar que os últimos
dois exemplos não estabam contemplados na primeira generalização feita do exercı́cio 2).

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