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SUMÁRIO

O QUE É LIBERDADE? 5
HUMANIDADE E LIBERDADE 5
LEI, POVO E MERCADO. ESTADO E LIBERDADE. PODER E DINHEIRO 6

O MERCADO 9
AÇÃO 9
TEMPO 9
CONHECIMENTO 10
TROCAS 11
MOEDA 12
PROCESSOS DE MERCADO 12
JUROS 14

O VILÃO 16
A INEFICIÊNCIA COMPETITIVA DO ESTADO 17
COMO O ESTADO ATRAPALHA O POVO 18
A VERGONHA DO ESTADO: A FORÇA! 21
A CAPACIDADE DA AÇÃO 23
A LEI 30
O Homem é. 30
O Homem Age segundo sua Lei. 31
O direito é o estudo das leis. 31
A justiça é o processo de hermenêutica das leis particulares em prol de uma lei universalmente
cognoscível. 32
Direito é consensual e não-consensual. 33
A lei evolui. 34
O homem justo busca a lei justa 34
A ÉTICA LIBERTÁRIA 37
Porque ética? Comentários acerca da filosofia platônica 37
Como se dá a ética? Comentários acerca de Aristóteles 38
Sobre John Locke e Considerações sobre individualismo 38
Kant e o Imperativo Categórico 39
Quem é o ser? Resposta de Heidegger 40
Signos, Significados, Semiótica e Verdade com Peirce 41
Consciência Semiótica e Bakhtin 42
Reflexões Racionais Comunicativas 43
O ideal e a filosofia Habermasiana 43
Rothbard e a Autopropriedade
Rothbard, o pai do austro libertarianismo; o maior inimigo do estado que já viveu. Aquele que
ficou marcado para história com um sistema baseado em um mínimo normativo, qual seja o de
que: 45
Ética Argumentativa Hoppeana 47
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 50
Justiça 50
Conceitos 50
Nossas teses passariam pela maiêutica de Sócrates? 50
Céfalo e Polemarco. 51
Trasímaco, o político 56
Justiça Privada 59
Teoria jurídica 59
Devido Processo Legal 59
O estoppel 60
Os tribunais privados. 65
Ambientes de leis privadas 67
A internet 67
As relações internacionais 68
Notas dos Autores 70
Economia 71
Sobre a Liberdade 73
Sobre a Liberdade Positiva 74
Sobre a Liberdade Negativa 75
Sobre as concepções mais gerais de Liberdade 75
Aproximando a Liberdade de Vontade da Liberdade Negativa e Propriedade 77
O Estado Contra a Liberdade 77
Liberdade de Expressão, o fluir das ideias 83
Liberdade de Expressão, seus limites, e arbitrariedades estatais 84
O Estado e sua Arbitrariedade para com a Liberdade de Expressão 86
Liberdade de Expressão Negativa 88
Conclusão 89
Propriedade Intelectual 91
Do Tangível ao Intangível 91
Direitos, Escassez e o Imaterial 92
Acerca da PI 93
Utilitarismo e PI 95
Notas dos autores 96
Referências Bibliográficas 96
As Polêmicas Error! Bookmark not defined.
Libertários estão apenas contra o Estado 98
O que é Propriedade Privada 99
Escassez vs. Não Abundância 99
Libertários são contra toda força e coerção 100
– Autopropriedade – 103
Sistemas de Proteção Privada 105
Distinção entre Estado e Governo 106
Criação de um Estado em uma Anarquia Libertária? 107
Restituição vs. Retribuição 109
Sobre a Punitividade Retributiva 111
Sobre a Punitividade Restitutiva 113
Libertários são apenas contra Agressão e Ameaças Diretas 114
– Ameaças Indiretas – 115
– Culpabilidade Indireta – 117
Nas Obrigações Positivas 119
O Caso do Lago 121
O Aborto 122
Responsabilidades Tutelares 123
Transferência de Guarda 125
REFERÊNCIAS 126

PARTE IV: DA ESTRATÉGIA 128


Os Caminhos 129
Da ilegitimidade do estado 129
Breves comentários a respeito das estratégias 130
Libertarianismo Cultural 130
A vida intelectual do libertário 132
A liberdade de expressão como arma contra a represália estatal 135
Uma solução de dentro para fora: secessão e autonomia 137
Demais vertentes da ação libertária 139
Princípios: Sobre Fusionismo, Purismo, Gradualismo e Agorismo 139
Estética: Humanitário e Brutalista 141
Notas dos autores 142
Referências Bibliográficas 142
INTRODUÇÃO
O QUE É LIBERDADE?
HUMANIDADE E LIBERDADE
Se você está lendo esse livro, provavelmente, é uma das duas coisas a seguir: ou um
amante da liberdade ou um crítico de livros. É interessante como o capitalismo funciona,
fortalecendo fortemente a produção é capaz de tornar algo como criticar livros uma
função válida na sociedade, função que de outra forma, em uma sociedade baseada
totalmente na subsistência, não seria possível. O motivo para isso e para todas as grandes
perguntas que são respondidas pelo mercado é a liberdade.

Liberdade, um termo usado comumente - e que por demasiado uso e má aplicação do


termo, gastou-se e tornou-se um tanto quanto cliché. A partir deste gancho, indago: é
possível ser totalmente livre? Para ser totalmente livre, no sentido literal, precisamos ser
infinitamente livres. Para isso ser possível, todas as possibilidades deveriam ser acessíveis
a nós. Liberdade seria então a possibilidade infinita. Só que vivemos no mundo do finito,
de recursos escassos e nesse mundo, a infinitude é apenas um conceito abstrato em si
mesmo. Resta-nos, então, buscar qual o tamanho da nossa liberdade?

A nossa liberdade poderia ser mínima. Nesse caso, nossas possibilidades seriam apenas
uma ilusão, todas as nossas grandes decisões teriam sido tomadas desde já pelo arcabouço
de elementos que fizeram parte da construção da nossa personalidade. Isso significaria
que nada decidiríamos sobre coisa alguma. Curioso, não é mesmo? Mas afirmar isso é
afirmar que todas as nossas escolhas poderiam ser previstas e então o mundo já estaria
inteiramente calculado em alguma instância. Então ler livros ou sonhar seriam apenas
mais do mesmo.

Recuso; recuso (reafirmo!) veementemente a afirmação de que sonhar e viver sejam em


si as mesmas coisas. Apenas alguém que não sonhou ou que não viveu aceitaria uma tese
dessas. E o motivo para isso é simples, o extraordinário é um elemento vívido mas é um
elemento que se retira da imaginação. Aquilo que imaginamos é aquilo que concebemos
como possível ainda que não tenha sido jamais nos dado.
Você poderia imaginar um trem com pernas ainda que jamais tenha o visto. Porque? A
resposta para isso está na nossa capacidade de abstrair. Então, ainda que todas as decisões
tivessem sido nos entregues, ainda poderíamos abstrair sobre elas e as mudar. Nessa visão
somos senhores dos nossos próprios destinos porque somos senhores daquilo que não
vivemos e nem podemos viver.

Em suma, a Liberdade só pode ser algo nesse meio termo, algo entre a liberdade máxima
e a liberdade mínima. Por fim, pensar nisso é pensar na liberdade como algo que precise
ser medido, definido por um conceito humano não absoluto mas fixo que nos possibilite
pensar melhor em tudo isso. A luta por entender e definir a liberdade é uma luta
eminentemente humana e o que isso significa?

Que todo e qualquer conceito que adotemos de liberdade deve ser capaz de expressar a
nossa humanidade e descrever-nos como seres completos. Para você que está aqui porque
há demanda por críticos de livros, você pode dizer desde já que o autor passa o livro
inteiro defendendo a tese de que liberdade é o poder que cada ser possui de determinar
nossos objetivos finais e que ele fará isso através de coisas como propriedade privada,
livre mercado e contratos. Mas isso seria apenas parte da verdade.

O que se intenciona aqui é demonstrar uma forma de pensar nova e reveladora, um


conjunto de reflexões acerca do eu, do próximo e da liberdade que transcendem o sentido
e são responsáveis por re significar o mundo.

Essa forma de pensar é tão verdadeira quanto humana, capaz de mover as peças e
amadurecer pensamentos. O que faremos aqui será uma jornada de questionamentos e
ponderações acerca das coisas que consideramos que conhecíamos.

LEI, POVO E MERCADO. ESTADO E LIBERDADE.


PODER E DINHEIRO
Revisto isto, assumindo nova roupagem e modificando as percepções até mesmo do mais
cético dos homens. E é com esse projeto que começamos essa obra e ao final, espera-se
que tenhamos descoberto o âmago do que é ser humano e do que isso significa para a
liberdade.
Voltamos ao começo. Só que agora não somos mais os mesmos. Aprendemos coisas
acerca de nós mesmos, dessa realidade extremamente complexa que ronda as mais
simples escolhas e agora somos versões diferentes de nós. Versões que tomarão decisões,
que amarão, que odiarão e que inevitavelmente irão vislumbrar sucessos e fracassos. É
justamente a beleza desse processo que faz com que a liberdade seja a coisa mais bonita
que já existiu, porque ela não é nada até que se traduza em tudo.
PARTE I: DO ESTADO
O MERCADO
Ação
A ação é uma característica presente em todos os indivíduos. Podemos definir ação como
toda conduta deliberada. Os indivíduos agem, segundo Mises, no intuito de obter um fim
que, na sua visão subjetiva, seja mais harmonioso e confortável. Se o humano se sente
satisfeito com o seu estado atual, ele não age.

Ao agir, todo homem pretende alcançar determinados fins, que descobriu que são
importantes para si. Meio é tudo aquilo que o agente (indivíduo) acredita ser
subjetivamente adequado para conseguir o fim. Utilidade é a apreciação subjetiva que o
agente faz ao meio, em função do valor do fim que ele pensa que o meio lhe permitirá
alcançar. Neste sentido, valor e utilidade são correlatos, uma vez que o agente projeta o
valor subjetivo que dá ao fim para o meio que acredita ser útil para alcançá-lo,
precisamente através do conceito de utilidade.

Os fins e os meios nunca estão dados; pelo contrário, são o resultado da atividade
empresarial essencial que consiste precisamente em criar, descobrir ou, simplesmente,
compreender quais são os fins e meios relevantes para o agente em cada circunstância na
sua vida. E, a partir da concepção da ação, podemos, então, entender o conceito de tempo,
o qual é essencial para a prospecção de toda ação. 1

TEMPO
Toda ação necessita do tempo para ser concebida. Mas, o sentido de “tempo” comumente
utilizado é o “Newtoniano”, determinista, ou seja, a ideia de que o tempo é uma linha
homogênea na qual o indivíduo apenas pode projetar novas ações a partir do que ele
passou naquela determinada linha do tempo. Mas na sua concepção subjetiva, aquele que
é adotado pela Escola Austríaca, ou seja, tal como o tempo é subjetivamente sentido e
experimentado pelo agente dentro do contexto de cada ação. De acordo com esta
concepção subjetiva do tempo, o agente sente e experimenta o seu transcorrer à medida
em que age, ou seja, à medida em que cria, descobre, ou simplesmente se dando conta
dos novos fins e meios, de acordo com a essência da já explicada função empresarial. A
ação enquanto é causada e efetuada pelos indivíduos faz com que haja uma sequência
temporal, a qual sem a mesma não haveria o sentido de passado, presente e a ideia de
futuro.

CONHECIMENTO
Há dois tipos de conhecimento, segundo Hayek, o técnico-científico, ou seja, o do tipo
articulável, presente em materiais como: jornais, artigos e livros. E o que não é articulável
e encontra-se disperso nas mentes dos indivíduos, para Hayek esse é o conhecimento mais
relevante para a ciência econômica e, portanto, para a coordenação da sociedade.

O conhecimento relevante para as ciências econômicas possui algumas características que


se distinguem do conhecimento científico, são elas:

i) subjetivo do tipo prático, no sentido de que cada agente interpreta frações da


informação, através da ação, de maneira pessoal e, portanto, subjetiva;

ii) conhecimento exclusivo, no sentido que ele se encontra fragmentado em pequenas


porções de toda a informação gerada transmitida a nível social e apenas ele o possui,
conhece e o interpreta, de maneira privada;

iii) encontra-se disperso nas mentes dos indivíduos, no sentido de que ele não é “dado”,
mas sim, disseminado por uma parcela dos indivíduos integrantes da sociedade;

iv) conhecimento do tipo tácito não articulável, no sentido de que, diferentemente do


conhecimento científico, é dificílimo de ser explicado e articulado devido a seu alto de
subjetividade, abstração e especificidade.

v) conhecimento gerado ex nihilo, a partir do nada, no sentido de que é formado mediante


o exercício da função empresarial;

vi) conhecimento transmissível, no sentido de que ele é transportado através dos


processos sociais.2
TROCAS
Toda ação visa trocar uma situação presente de insatisfação, por uma situação mais
satisfatória no futuro. O valor de fim esperado alcançado na ação, menos o custo da ação
é o lucro da ação.

Quando a ação humana não envolve outros agentes, mas somente um agente e os meios
e fins da ação, podemos denominar de troca austística*. Commented [1]: wtf???

Existem situações em que um agente A precisa de um meio R para executar a ação


planejada, que não está a sua disposição, mas outro agente B, tem este meio R em grande
quantidade, mas os fins buscados pelo agente B são diferentes dos planos de A. Essa
situação é chamada de descoordenação.

Os agentes A e B podem fazer uma troca interpessoal. Onde um agente transfere um meio
que considera menos útil, e pega da outra parte um meio que considera mais útil para seu
plano de ação. A ação de troca interpessoal somente acontece se as duas partes da ação
considerar que o meio que vão receber é mais útil do que o meio que vão entregar. Caso
o meio que fosse entregue ser considerado mais útil, do que o recebido pelo agente, a
ação de troca interpessoal não se realizará.

Assim o agente A pode oferecer a B um meio que seja considerado útil por B, em troca
B entrega à A o meio R de que tanto precisa para usar na sua ação planejada.

Os dois agentes terão atingido condições mais satisfatórias, o agente A terá adquirido o
meio que precisava para executar seu plano de ação, e atingir o fim que está buscando. E
o agente B adquiriu um outro meio que poderá ser útil para seu plano de ação, e atingir o
fim que está buscando, que é diferente do fim que A busca.

Assim a troca interpessoal resulta na coordenação entre os agentes, que atingem fins mais
satisfatórios excludentes por meio de uma ação que envolve a cooperação entre os dois
agentes. Que disponibilizam meios para os outros agentes executar seus planos de ação,
ao mesmo tempo que recebe de volta deles outros meios que são úteis para seus próprios
planos de ação.3
MOEDA
Moeda é usado como meio de troca entre indivíduos, ou seja, serve como ponte para
empreendimentos onde – antes do surgimento – era dificultado por falta de um
denominador comum. Antes da moeda, as trocas eram feitas de forma arbitrária e, por
isso era impossível se criar uma complexa “estrutura de produção” formada por fatores
de produção como bens de capital, mão-de-obra e terra. Todos estes fatores são
combinados de modo a aprimorar o processo produtivo em cada estágio da cadeia de
produção. E todos estes fatores são pagos em dinheiro.

É mais barato usar moeda do que não usar moeda, ficar no escambo, e ter que descobrir
qual meio em específico o agente B acredita ser útil.

Nesta circunstância o agente A, pode ser que não tenha o meio que B queira, terá que
encontrar outro agente C que tenha o meio que o agente B quer, e adquirir por meio de
troca interpessoal com o agente C o meio que B quer. Mas também pode acontecer que o
agente A não tenha o meio que C quer, e então terá que encontrar um agente D, que tenha
o meio que C quer.

A criação do dinheiro traz outro grande benefício. Uma vez que todas as trocas são feitas
em dinheiro, todas as ‘taxas de câmbio’ ou ‘razões de troca’ são expressas em valores
monetários, de modo que as pessoas agora podem comparar o valor de mercado de cada
bem em relação aos demais. Se um aparelho de televisão é trocável por três onças de ouro,
e um automóvel é trocável por 60 onças de ouro, então nota-se que um automóvel “vale”,
no mercado, vinte aparelhos de televisão. Tais ‘taxas de câmbio’ ou ‘razões de troca’ são
os preços, e o dinheiro-mercadoria serve como um denominador comum para todos os
preços. É o estabelecimento de preços monetários no mercado o que permite o
desenvolvimento de uma economia civilizada, pois somente os preços permitem ao
empreendedor fazer o cálculo econômico*.

PROCESSOS DE MERCADO
São os milhões de agentes, exercendo ações de troca interpessoal. E a partir dessas trocas
interpessoais, geram os preços e os preços demonstram a preferência subjetiva dos
agentes que compõe a sociedade, além disso, transmite o conhecimento aos agentes de
que, outros agentes executaram ações de troca interpessoal no passado, e que foi trocado
por X preço, produto ou serviço. E baseado no preço presente os agentes fazem ações
visando no futuro obter algum lucro.

Quanto mais os compradores estiverem dispostos a comprar o serviço ou produto X,


menos disponibilidade ou mais escassez de X terá, e por consequência o preço aumentará.
E quanto menos dispostos estiverem os compradores a comprar X serviço ou produto,
mais disponibilidade ou menos escassez de X haverá, e por consequência o preço
diminuirá.

Tendo o preço de X serviço ou produto aumentando, a margem de lucro dos vendedores


que vendem X aumenta, isso cria incentivos e transmite conhecimento tácito ao vendedor
para ser criado novas empresas e fábricas que produza esse X serviço ou produto, e
colocado a disponibilidade aos compradores mais do produto ou serviço X. Estarão sendo
desprendidos investimentos na produção de serviços e produtos menos lucrativos, onde
os compradores estão menos dispostos a comprar, e alocados na produção de X serviço
ou produto, para atender essa maior procura dos compradores, sendo o incentivo o lucro.

Tendo o preço de X serviço ou produto diminuído, a margem de lucro dos vendedores de


X diminui, e até poderão entrar em prejuízo, haverá incentivos e transmitirá ao vendedor
o conhecimento tácito para alocar os investimentos da produção de X, em que os
compradores estão menos dispostos a comprar, para a produção de outros serviços e
produtos que estejam mais lucrativos. Ou seja, que esteja sendo mais procurado pelos
compradores, de maneira que a disponibilidade de X diminui, enquanto a de outros
produtos e serviços mais procurados pelos compradores aumenta.

Por meio das escolhas compradoras, um vendedor obtém prejuízo ou maior lucro pela
venda de seus serviços e produtos, e o processo empresarial de lucro e prejuízo, guia os
vendedores a melhor alocar os recursos escassos de maneira a produzir e vender os
serviços e produtos que melhor atenda as demandas compradoras.

Se um vendedor não conseguir deixar os compradores em condições mais satisfatórias,


ou seja, não conseguir atender as demandas compradoras, com os produtos e serviços que
vende, menos compradores estarão dispostos a comprar serviços e produtos deste
vendedor, e por consequência o vendedor perderá clientes.

As empresas concorrentes que tiverem entregando serviços e produtos que deixe os


clientes em condições mais satisfatórias ganharão clientes. Os clientes preferem serviços
e produtos que os deixem em condições mais satisfatórias. Sendo que são eles que
subjetivamente determinam se X ou Y serviço e produto os deixam em condição mais
satisfatória.

Perdendo clientes o vendedor por consequência terá menos lucro, e até poderá entrar em
prejuízo, o que por consequência poderá levar ele a falência, ganhando mais clientes o
vendedor terá mais lucro, receberá mais unidades monetárias das trocas interpessoais
feitas com os compradores, e por consequência enriquecerá mais do que o vendedor que
não conseguir satisfazer as demandas compradoras.

No mercado os recursos são direcionados pelos compradores para os vendedores que


melhor satisfazem suas vontades, desejos e demandas. Os vendedores eficientes
enriquecem e os ineficientes empobrecem. Assim o processo empresarial de prejuízo e
lucro tem uma função muito importante, de coordenação da sociedade, em que possibilita
os recursos escassos ser mais bem alocados para satisfazer as às demandas compradoras.

JUROS
Os juros, para Böhm-Bawerk, não podem ser explicados pela produtividade física do
capital. Imagine que um casal de patos gere seis patinhos daqui a vinte e oito dias (que é
o tempo médio de incubação da espécie) e que cada pato - filhote ou adulto - custe R$
50,00. Então, os seis patinhos excedentes não explicam os juros, pois, em caso contrário,
seria interessante para qualquer um comprar hoje o casal de patos por qualquer preço
menor do que R$ 400,00 para vendê-lo daqui a vinte e oito dias - quando, então, já seria
de oito o total de animais - pelos R$ 400,00. Porém, acontece que as forças de mercado
(entre elas a competição e as expectativas) fariam com que o preço presente dos oito patos
subisse para os R$ 400,00.

Três motivos levaram o economista austríaco a explicar os juros pelas preferências


intertemporais: primeiro, as necessidades presentes são mais urgentes do que as futuras;
segundo, os agentes econômicos preferem o presente porque o futuro, além de incerto e
desconhecido, é subjetivamente imaginado com imperfeição; e terceiro, os bens presentes
podem valer mais, já que podem ser investidos agora em processos produtivos mais
longos, que resultam em maior produtividade. Este último motivo - a maior produtividade
dos processos produtivos de longo prazo - é fundamental na teoria bawerkiana do capital.5

Quanto maior a preferência temporal menos disposta estará a pessoa de fazer ações que
demoram mais tempo, e quanto menor a preferência temporal mais disposta estará a
pessoas de renunciar ao fim das ações mais curtas e executar ações que demoram mais
tempo.

Quanto maior a preferência temporal das pessoas na sociedade, menos pouparam, por
consequência a oferta de poupança será menor, em contrapartida o consumo presente
maior, o que causará um aumento da demanda compradora por poupança, ao mesmo
tempo uma oferta vendedora menor de poupança, o que causará um aumento dos juros.

Tendo a preferência temporal da maioria das pessoas diminuído por consequência terá
um consumo presente menor, tendo então por consequência uma demanda compradora
por poupança menor, e um aumento da poupança, resultando em juros mais baixos.

1-DE SOTO, Jesús Huerta. 2013. Socialismo, Cálculo econômico e Função empresarial.

2-HAYEK, Friedrich A. 1945. The Use of Knowledge in Society

3-VON MISES, Ludwig. 2010. Ação humana

4-ROTHBARD, Murray N. 2013. O que o governo fez com o nosso dinheiro?

5- IORIO, Ubiratan Jorge. 2010. A Teoria Austríaca do Capital.


O VILÃO
Dizem que a escrita é algo diferenciado porque ela é justamente o ato de formalizar
impressões, ideias, sentimentos e pensamentos em elementos que podem ser conhecidos
por qualquer um que se deparar com determinada sentença. Nesse sentido, é evidente que
existem elementos que são mais ou menos próximos da nossa compreensão e então são
abstraídos melhor pela nossa cognição. Isso significa que existem frases que gritam mais
alto do que outras e agora iremos demonstrar como é que existem frases que estão em
agonia no seio da sociedade sem serem ouvidas.

A primeira das frases é a de que o estado é essencialmente um interventor. Essa frase por
si só para qualquer particular seria o suficiente para fazer com que um indivíduo fosse
considerado um grande mal. Pense comigo, diga assim “Pedro é essencialmente um
interventor”. O que você pensa sobre Pedro? Bom sujeito não pode ser.

Vamos falar mais de Pedro. Digamos que Pedro tenha realmente bons motivos para
intervir, seria uma boa que ele fosse um interventor em essência ainda assim? Bem, basta
pensar que um interventor em essência sempre interferirá no curso das coisas ainda que
o curso das coisas não exija intervenção. Haverão situações onde Pedro estará justificado
em intervir, é verdade. Mas se pararmos para pensar, a maior parte das ações precisa ser
voluntária em essência para que haja coesão social o suficiente para se organizar uma
sociedade.

Sendo assim, um interventor por essência faz diversas intervenções negativas que em
muito ultrapassam suas intervenções positivas. E é exatamente isso que acontece com o
estado. O estado interfere nos aspectos econômico-sociais de diversas formas. Para isso,
vale-se de meios que ultrapassam em muito o imaginário do indivíduo. Por enquanto,
vamos nos ater apenas aos aspectos sociais e aos problemas que a própria existência do
mesmo traz, trouxe e pode vir a trazer na vida de todos que estão caminhando nessa
jornada Espero que esteja pronto o leitor para que perceba, entenda e sinta de uma vez
por todas o quão maléfico o estado é em essência e que reveja suas ações toda vez que
cruzarem o caminho de um interventor como esse.
A INEFICIÊNCIA COMPETITIVA DO ESTADO
É plenamente concebível que aquele que nos lê acredita veementemente que o estado é
um bom interventor, um ladrão no melhor estilo Robin Hood que é capaz de mudar o
fluxo da riqueza de forma que beneficie igualmente a todos e que sem sua existência, o
mais pobre seria o maior prejudicado. É possível que acredite que sem estado não há
segurança, educação, saúde e justiça. É possível que acredite sinceramente que
diariamente é beneficiado por esse bom camarada.

Mas vamos refletir por apenas um instante; o que pensaria do estado se fosse esse um
indivíduo? Pense num indivíduo que certo dia adentrou na sua casa e que lhe cobra por
serviços que você não requereu. Pense que esse mesmo indivíduo comece a controlar
aquilo que gasta e comece a te escravizar em uma porcentagem da renda que recebe todo
mês. Como você se sentiria com isso? Isso. com certeza, lhe causaria muita estranheza,
não é mesmo? Então porque não é estranho quando esse mesmo indivíduo faz alguma
dessas coisas com um pedaço de papel o autorizando?

Liberdade é sobre opções, sobre aquilo que nos é possível. A força é o extremo oposto da
possibilidade porque ela fala de uma necessidade imperativa que não dialoga com os
nossos esforços de compreender o mundo. Quando o estado limita nossas ações através
de um monopólio da violência e da justiça, é evidente que mesmo nas melhores das
intenções, longe de criar segurança, a está minando. O estado não tem como ser o protetor
da propriedade privada porque é o primeiro a desrespeitá-la.

Pense num sujeito que lhe dissesse essa frase: “Ora, se eu sou a única alternativa, porque
haveria de ser melhor? Ou ainda que quisesse ser melhor, seria melhor usando-me de que
referencial?” Essa é a genuína mentalidade do estado e a indicação de porque os serviços
estatais são tão desconectados da realidade. E como não poderia ser? Ao optar por
favorecer todos os referenciais a todo o tempo, o estado acabará por satisfazer nenhuma
ou apenas uma parcela destes. Normalmente aqueles que tiverem mais condições de
exercer lobby por sobre a ação do próprio estado, os chamados amigos do rei.
COMO O ESTADO ATRAPALHA O POVO
A próxima frase é a de que o estado mata. E isso é mais comum do que possa parecer.
Vamos contar uma história aqui, do tipo de história que você com certeza já ouviu em
algum lugar, com alguém próximo ou consigo mesmo.

Havia uma garota com um problema em uma de suas pernas, carregava consigo uma dor
excruciante. Quase não conseguia se locomover e seus pais tiveram que levantar a filha
que embora pesasse mais do que quando criança, parecia leve diante do fardo que
suportavam para o hospital na esperança de que lá encontrasse atendimento. Infelizmente
para a família que estamos acompanhando, este hospital fazia parte do nosso Sistema
Único de Saúde (SUS).

Acredito que deva existir uma crença no SUS de que se você marcar a consulta para muito
tempo depois do agendamento, a pessoa pode simplesmente superar aquele status e não
precisar mais do médico, talvez em virtude da cura, provavelmente da morte. E digo isso
porque essa me parece ser a única explicação para que uma garota tenha que esperar 9
meses por um atendimento enquanto sente o mundo se partindo em suas pernas. É a
gestação da indiferença.

A eles, apenas restou se dirigir ao primeiro hospital que pôde e requerer que algum
daqueles seres iluminados, chamados naquela situação de médicos, lhe enxergando como
um ser padrão lhe entregasse alguma resposta padrão que ao menos ajudasse ela com a
dor. Só que o problema das respostas padrões é que elas são incapazes de se comunicar
com a realidade tal com ela é. E a realidade grita. Foi o que aconteceu quando a garota
teve uma reação medicamentosa devido à negligência médica e seu pai que carregava o
peso do mundo teve que carregar o fardo de salvar sua filha.

Sem enfermeiros, sem médicos. Ele e apenas ele teve que salvar sua filha. Um
observador atento poderia enxergar a enfermeira mais próxima com seu smartphone em
mãos ou o médico assistindo o jogo logo ali. E o que mais causa espanto sincero no meio
disso tudo é justamente o quão próximas de nós essas frases estão. Nenhuma dessas frases
causa estranheza de ler. A verossimilhança é mantida e isso poderia ter ocorrido com
qualquer um que use serviços públicos a qualquer momento. E por que isso acontece?
Bem, a resposta pode estar mais aparente do que imaginamos. Pensemos em duas
situações onde um sujeito precise de um serviço médico. Pensamos? Ótimo. Vamos
descartar agora essas duas situações. Iremos usar a minha perspectiva de como as coisas
acontecem. A partir de agora estamos falando de um bilionário dono de centenas de
hospitais no mundo todo. “Mas, como assim? Porque?” Pode ser a pergunta clara que
alguém faria sobre uma afirmação estapafúrdia como essa. Porque eu tenho a força.

É literalmente isso que o estado é. Um intérprete centralizado da realidade tentando


resolver problemas universalmente complexos com uma sequência de informações
naturalmente enviesadas. Eis como o estado interpreta nossas demandas:

Mas não somos também seres assim? Não somos apenas intérpretes parciais da realidade
com informações enviesadas e que tentam resolver diversos problemas através da
mensuração objetiva da realidade? O estado assim nos parece eminentemente humano,
compatível até, não? O ser humano ciente da própria incompletude olhou para o próximo
e encontrou nele a resposta para suas demandas. Eis como a sociedade interpreta
demandas:
Nós olhamos para o mercado, com nossas necessidades e nossas habilidades e refletimos
acerca da possibilidade de satisfazermos algumas das nossas demandas e termos algumas
das habilidades usadas em troca. Isso significa que o mercado não erra? Bem, o mercado
é em si eminentemente humano porque é justamente fruto das interações humanas em seu
estado mais primitivo então é claro que embora seja a soma das perspectivas humanas,
nossas próprias perspectivas são incompletas acerca da realidade, sendo essa soma mais
precisa mas não exaustiva.

Aliás, o estado e o mercado como instituições podem ser levados a última circunstância
quando analisamos seu caráter humano. Veja bem, um ser humano sozinho no mundo
não é capaz de vislumbrar mau ou bom. Tudo o que ele faz é uma inflexão para dentro de
si mesmo. Seus atos são. É somente com a existência de um outro ser que se vislumbra a
possibilidade de haver um parâmetro de correção das ações. É evidente que o mal e o bem
existem no mercado, mas esses pressupostos existem justamente em função da existência
dessas interações.

Isso significa que toda interação é mercadológica? Essa é uma reflexão interessante. Ela
levanta o que há de mais primordial sobre a sociedade. Tudo aquilo que fazemos no nosso
dia a dia é um processo de valoração dos sujeitos de um mundo entre os mundos que ele
poderia escolher. Sendo assim, somos então os substratos de compras diárias dos mundos
em que queremos viver. O estado é o ente de uma razão que utiliza o mundo como
instrumento das suas necessidades primordiais e o mercado é o ente de uma razão do
consenso, horizontal, voltada à satisfação dos interesses de cada um e de cada qual.
E um dos principais instrumentos para isso é justamente a burocracia. Ao criar a
burocracia, o estado está dizendo que você deve fazer o que ele quer nas condições em
que ele quer. Veja bem, já sabemos que o estado não é capaz de perceber o que
precisamos, mas é importante lembrar que ele também não é capaz de perceber a melhor
forma de fazer até mesmo aquilo que ele acredita que precisamos. O estado assim é o não
absoluto, negação dos meios e também dos fins.

A VERGONHA DO ESTADO: A FORÇA!


O estado é essencialmente força. E a razão para isso é que a sua inflexão não assume
plurais, o consenso como extremo oposto da força é uma das maiores e mais sinceras
razões pelos quais o mercado jamais poderá ser garantido pelo estado, apenas restringido.
Mas como é que o estado pode fazer isso sem que percebam? O motivo está na sua forma
de atuação em relação a sua própria legitimidade.

O caminho direto da força é um caminho difícil de seguir porque ele representa a


evidenciação da soberania irracional do estado por sobre o indivíduo, sendo assim, o
estado se apresenta primeiro como uma ameaça intermitente onde a própria força é um
fato dado como presente em todas as ações mas que não se conclui, para então restringir
as outras formas de agir que não o envolvam. Dessa forma, ele se apresenta no imaginário
como a única opção viável e apara as arestas daqueles que não corresponderem a esse
ideal.

Maquiavel em “O Príncipe” já nos afirmou que a maneira que alguém deveria governar
a população seria por meio do medo e da imposição. Esta prática foi adotada ao longo da
história por diversos países, e nos últimos tempos tem sido adotada em todas as ditaduras
da atualidade e da época contemporânea. Na Coréia do Norte, as pessoas são obrigadas a
chorar em um dia pré-determinado pela morte de um imperador, e podem ser mortas caso
se recusem.

O estado assim como um batedor de carteiras diz para os indivíduos “Ou seu dinheiro, ou
sua vida”, e por mais que o governo não saia de um arbusto ou de um beco e coloque uma
arma em sua cabeça tomando todo seu dinheiro, o roubo sistematizado que ele produz
não deixa de ser um roubo, o estado em sua vergonha é mais sutil do que um assaltante,
já que este último assume os riscos e a responsabilidade de seus crimes, e diferentemente
do governo, ele não toma seu dinheiro sobre a promessa de que o defenderá de outros
criminosos, ele não diz que pretende usar o seu dinheiro para você melhor do que você,
ele não te infantiliza desta forma.

Mais do que isso, ao se prostrar desde cedo como um fato na infância através da educação
institucional, nosso processo de socialização passa necessariamente pelos programas que
foram idealizados para a perpetuação da sua própria ideia. Cada geração se então mais
subserviente do que a outra. Em algum momento, mais do que ser a única viável, ela se
torna a única desejável. O motivo para isso é curioso.

O ramo da viabilidade é o ramo do que é razoável e o ramo do desejável é o ramo do que


é preferido. O que é viável é sobre aquilo que tomamos para nós como sendo caminhos
razoável que a ação poderia transcorrer a fim de alcançarmos os nossos fins e o que é
desejável é sobre aquilo que mais valoramos para alcançar determinado fim. Sendo assim,
temos que é evidente que um jatinho é a opção desejável para ir do ponto X ao ponto Y,
mas se ela não for uma opção viável, nós iremos escolher entre as que são e preservam
maior identidade com o que identificamos como desejável.

Então quando temos apenas uma possibilidade, a preferência é indiferente. Então como
isso pode se dar? É que a noção da viabilidade é apenas uma aparência. Não deixamos de
ter personalidades, um eu interior que possui suas próprias necessidades e fins. Mesmo
ao se chocar com os fins do estado, o indivíduo mantém sua individualidade e mistura
seus próprios fins com os fins do estado conquanto única possibilidade viável. Nesse
sentido, projetamos nossas vontades e desejos de como deve ser o mundo no próprio
estado. Isso resultou na criação da democracia.

Vou lhe apresentar uma brilhante frase de um grande anarco-individualista, Lysander


Spooner, e gostaria que você, caro leitor, refletisse sobre ela. “Um homem não deixa de
ser escravo por estar autorizado a escolher um novo mestre de vez em quando.”. A
perspectiva da democracia é a de que tendo em vista que há algo nosso no que compõe a
perspectiva do estado em si, haveria então uma suposta legitimidade dada por nós mesmos
no todo. Essa legitimidade existe?
Essa é uma questão complexa. O motivo para isso é que sim, há no processo de escolha
algo que corresponde aos nossos desígnios. O problema é em si o resultado desse
consenso. Com regras pré determinadas por uma razão instrumental, as decisões que
possam ser abstraídas pela coletividade já estão postas e a liberdade não é em si uma
escolha. Além disso, o próprio processo de escolha é viciado porque tem forte viés de
confirmação, a própria democracia é lida apenas como ideal e não como um elemento
real de construção. Então será que existe algum local onde a democracia realmente se
efetue?

O mercado é imparcial, sem leis que não as mercadológicas, universalmente humano e


acima de tudo reativo. Isso será demonstrado minuciosamente nos capítulos seguintes,
mas essencialmente, pode se dizer que o mercado possui todas as características
necessárias de uma verdadeira democracia.

A CAPACIDADE DA AÇÃO
Nós somos livres ou somos escravos? Conseguimos escolher e optar por aquilo
que melhor nos satisfaça, ou alguém dita isso para nós? A frase de Spooner nunca fez
tanto sentido quanto no nosso século. A potencialidade da ação é tomada do indivíduo
pelo estado, e ele mesmo determina quais meios e fins nos são possíveis.

Em sua obra intitulada “A revolta de Atlas” Ayn Rand postula uma frase que é em muito
digna de reflexão:

“- Olhe ao seu redor - disse ele. - Uma cidade é a forma


concretizada da coragem humana - a coragem dos homens
que pensaram pela primeira vez em cada parafuso, cada
rebite, cada gerador necessário para construí-la. A coragem
de dizer não 'a meu ver', mas 'o fato é o seguinte', e apostar
sua própria vida no seu julgamento. Você não está sozinha.
Esses homens existem."

De que adiantaria existir sem agir; se a ação é a força motriz de todas as mudanças
na sociedade e do mundo que nos rodeia? Não devemos nos abalar por conta das tiranias
impostas por esta entidade maléfica, o povo tem capacidade de ação enquanto a ação no
governo está restrita à capacidade de uma parcela de homens armados, mas impotentes
em sua casca humana, para resistir, existem diversos mecanismos de mercado que
envolvem desobediência que podem efetivamente e gradualmente diminuir mais ainda a
potência do estado e estes conceitos serão elucidados posteriormente.

Algumas das contradições mais ferrenhas do estado estão justamente atrelados à


sua forma de arrecadação e tomada de decisões. Vejam bem, a questão de como as coisas
serão financiadas leva a instâncias onde a mãe de uma vítima é obrigada a ajudar a
sustentar o sistema que mantém o seu algoz vivo.

Ao mesmo tempo, perdemos de vista a necessidade de sermos virtuosos em nossas


próprias vidas quando temos essa caridade forçada. Com a sensação de que alguém
resolverá o problema, sua responsabilidade moral sobre o fato é reduzida
consideravelmente, diminuindo a própria importância de cada indivíduo no processo.

Além disso, temos a própria perspectiva de que a ação violenta do estado em geral é
desconexa com a interação voluntária dos indivíduos, sendo assim, muitas vezes aquilo
que se faz cotidianamente nada tem a ver com a lei em si. Afinal, continuamos a ter
necessidades independente do estado ser incapaz de as suprir. Então como é esse processo
de resolução das nossas necessidades? Esse processo passará por instituições,
movimentos sociais e a política em si. Iremos expor como elas funcionam e então
demonstrar de que forma o estado as prejudica.

Instituições. É interessante refletir nesse conceito. Uma instituição é o resultado


material de um conjunto de vontades de mesma direção e sentido. Quando um indivíduo
decide manifestar uma preferência por compor uma família, o que está acontecendo é que
ali ele interage com o conceito criado abstratamente por todos aqueles que manifestaram
a mesma preferência. O significado de Família é a junção de todos esses significados e a
instituição família passa a estar fortemente atrelado ao que fizermos dela.

O grande problema disso é que a própria instituição Família irá necessariamente


compor uma gama enorme de possibilidades de forma difusa, permitindo assim uma
maleabilidade social muito ampla. A forma de resolver isso em prol de um entendimento
coletivo bem organizado é a própria eficiência dessa instituição em seus mais diversos
formatos até que haja então a possibilidade de aferir uma unidade sólida.
O estado ao enxergar essas instituições, independentes em si mesmas, decide por
formalizar seus conceitos, prendendo-as às esferas que ele mesmo através de seus agentes
de poder prefira, trazendo assim um prejuízo incomensurável para a concorrência interna
desses institutos e deturpando os significados das mais diversas instituições.

Mas as instituições não mudam apenas de dentro para fora. Os movimentos sociais
são responsáveis por modificar os estados de coisas que moldam as instituições, servindo
como mecanismos de enfrentamento sócio-cultural que culminam num processo de
reflexão dos agentes em torno das unidades estabelecidas. Em um cenário de livre
concorrência, os movimentos sociais são bem vindos porque possui enfrentamento
equânime com a unidade e essa relação é simbiótica.

Mas o estado também deturpou os movimentos sociais. Ao fortalecer os mesmos


artificialmente, eles criam um ambiente em que os movimentos agem de forma predatória
para com as instituições e sintetizam a influência de uma parcela das pessoas beneficiada
artificialmente em detrimento de outras. A solução para isso poderia ser uma resistência
política dos cidadãos restantes através de contra-movimentos que adequam a unidade para
onde estava originalmente, minimizando a influência desses movimentos.

Mas o estado também se apropriou da política, ao tornar um fenômeno da vida em


sociedade como um elemento que acontece apenas dentro de seus limites, ele restringe a
própria concepção da política, sendo manifestamente a representação fidedigna das
maiores forças envolvidas com o próprio estado e não uma manifestação espontânea dos
próprios conflitos de vontade inerentes à própria organização social.

Segue-se então algo como isso:


Resistência

Instituiçõ Movimento
es s

Resistência

Que é transformado nisso:

Esta

Resistên

Instituiçõ
es
Moviment

Esta

Resistênci

As relações que deveriam ser intersubjetivas passam a ser interinstitucionais. A ordem


deixa de ser espontânea e passa a ser carregada da intenção daqueles que estão no poder.
Até mesmo as revisões acerca da própria instituição estado passam pelo crivo do estado,
algo que pode ser lido assim:
Estad

Resistên

Moviment
os
Isso resulta num viés estatista que faz com que até mesmo as mais simples
questões sejam pensadas através do estado e não através dos próprios indivíduos. É essa
a mentalidade estatista, mentalidade essencialmente fascista, relembrando as palavras de
Mussolini:

“Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do


Estado” (Atribuída ao ditador Benito Mussolini)

Com o passar do tempo, as outras instituições perdem identidade e isso se aplica


à família, ao mercado, ao casamento, à linguagem e outras. O leitor com certeza pode se
lembrar de um par de leis direcionadas à essas instituições. Esse é o modus operandi do
estado e aquele que tentar se opor a isso será tido como um tolo de pouca importância,
alguém que “não entendeu” e ainda pior, um traidor da sua pátria. O que nos leva a pensar,
até que ponto o pensamento patriótico não é em si mesmo um viés de confirmação do
estado?

Pense conosco, existe forma melhor de preservar algo do que através de um mito? As
mais diversas mitologias chegaram praticamente intactas ao longo de milhares de anos e
a razão para isso é o elemento transcendente que carregam que se mistura ao imaginário
criando uma sensação de pertencimento a um mundo maior do que nós mesmos. O estado
cria uma narrativa onde somos todos parte de uma mesma identidade nacional e que essa
identidade nacional ajuda a nos definir. Não somos mais apenas João, Maria, Daniel,
Eduardo, somos brasileiros. E como tais, temos deveres para com aquele que inventou
esses mesmos símbolos. Curioso, não é mesmo?

Bem, vamos investigar isso. Será que a identidade nacional artificialmente criada
é válida? Bem, símbolos são importantes. Eles diminuem de fato o custo de informação
e transladam para o próximo o máximo de informações sobre nós. Nesse sentido pode
parecer que a identidade nacional é importantíssima porque nos traz informações sobre a
nossa própria formação e sobre o processo de socialização pelo qual passaremos. Mas
será que isso é verdade?

Identidade tem a ver com encontrar correspondência ou no próximo ou no símbolo


para com algo que há dentro de nós. Isso significa que a mera declaração formal de que
algo faz parte da identidade nacional não significa que faça, assim como dizer que a sua
identidade patriótica corresponde à identidade nacional é uma correspondência apressada.
Na verdade, a própria questão formal é incapaz de traçar uma linha material eficiente e
são os elementos materiais que podem tentar ser traduzidos pela forma.

Sendo assim, identidade só faz sentido numa visão de baixo para cima. O patriotismo
nacional é uma casca vazia de sentido e acima de tudo, um instrumento de dominação das
massas tal como são, sinceras. Bem, até aqui tratamos o estado como um ente neutro e
até mesmo concebemos um governo de pessoas bem intencionadas. Mas será que isso é
possível?

Poder. Se tivéssemos que traduzir tudo o que o estado é, diríamos que ele é a mais sincera
manifestação do poder na sociedade. Ele não apenas restringe o poder que é
legitimamente devido como o realoca para aqueles que deseja apoiar através da liberdade
dos outros. E o que isso nos diz sobre que tipo de pessoa são os governantes? Os
governantes, em geral, são aqueles que vêem o poder como instrumento para atingir seus
fins. Essa categoria de pessoa ao invés de escolher a liberdade, escolheu o controle. É
sobre alguém que deseja ver seu ideal estabelecido na realidade a todo e qualquer custo.
Seria contraditório que do poder pudesse vir a liberdade, eis que um é ausência de coerção
e o outro é coerção pura.

Então o que isso significa na prática? O que foi ganhado aqui? O que diferencia esses
argumentos ácidos contra o estado de qualquer outro argumento contra o “sistema”? Se
ele é muito maior do que nós, se ele é poder puro, se é por ele e somente ele que podemos
fazer qualquer alteração no sistema, porque qualquer uma dessas coisas importaria? Isso
tudo não é apenas uma utopia? Todas essas perguntas serão respondidas nos próximos
capítulos e acreditamos que passem pela forte perspectiva de que não importa o quão
nefastas as coisas pareçam estar, elas são resultado da ação humana e será através da ação
humana que ela voltará ao seu lugar, ou nas palavras de Rothbard:

O caso a favor do otimismo libertário pode ser feito numa


série do que podem ser chamados de círculos concêntricos,
começando com as considerações mais abrangentes e um
prazo mais longo e avançando para as de um foco mais
específico em tendências de menor prazo. No sentido mais
amplo e de longo prazo, o libertarianismo acabará por
vencer porque ele e apenas ele é compatível com a natureza
do homem e do mundo. Apenas a liberdade pode conquistar
a prosperidade, a satisfação e a felicidade do homem. Em
suma, o libertarianismo será bem-sucedido porque ele é
verdadeiro, porque ele é a política correta para a
humanidade, e por que a verdade eventualmente vencerá.
(ROTHBARD, 1973)
A LEI
O Homem é.

O. Em gramática é definido como um artigo definido. Essa simples letra é responsável


por nos indicar que estamos falando de algo individualmente referenciado e definido.

Homem. Essa palavra assume a conotação de representar uma categoria, que através de
um exercício reflexivo será concebido como classe. Homem aqui assume um caráter
fortemente atrelado às características que usamos para saber que quando nos referimos a
João, Mariana e a Pedro, estamos falando de pessoas que fazem parte da mesma classe.

É. Essa palavra expressa diretamente dois conceitos, a existência do Homem, algo que se
manifesta no tempo-espaço de forma continuamente presente e mais ainda, em seu
sentido atributivo nos dirá que é infinitamente definido ou ainda indefinido em si. Não
podemos estamentar esse ser porque ele não cabe em nossas mensurações mais simples, Commented [2]: desconheço essa palavra.

passamos a reconhecer o caráter dinâmico e complexo do Homem. Essa busca é até Sei que quer algo relacionado à estamento

mesmo dicotômica, porque a definição do Homem por si só nos fará buscar características
básicas essenciais onde possamos nos apoiar para nos diferenciar. Enquanto a afirmação
do É nos dirá que todas essas afirmações são temporais e limitadas.

Nossa saída? Se tivéssemos uma saída para as definições possíveis do ser, esse seria um
livro de fenomenologia, não apenas um livro de fenomenologia, mas O livro de
fenomenologia. O manual definitivo do homem. Ao invés disso, reconhecemos nossa
distância para com uma referência exata do ser. Trabalharemos com essa indefinição e
vamos para o mundo normativo com a próxima afirmação.
O Homem Age segundo sua Lei.

Age. Essa palavra que já foi abordada no capítulo Mercado e nos diz que o homem é
homem agente, busca os melhores meios para alcançar os fins que almeja.

Segundo. De acordo com, em conformidade para. Assume-se aqui que a ação assume um
caráter de subordinação a essa conformidade.

Sua. Aquilo que lhe pertence. É interessante porque passa a ser um dos atributos do
próprio homem, dono dos seus desígnios e por isso mesmo livre. Autores como Sartre
diriam que somos até mesmo condenados a ser livres.

Lei. Lei é o parâmetro de correção da própria ação. É um estado de coisas almejado, algo
que vai até mesmo para além da valoração do bem e do mal, abarcando aquilo que é justo
e injusto, desejável e indesejável. A lei aqui é o que irá restringir a ação e é onde se
manifesta a individualidade do agente, pois, sem isso teríamos que todo agente nas
mesmas circunstâncias agiria da mesma forma, o que é uma inverdade, eis que possuímos
em nós mesmos uma descrição de personalidade que aceita determinados estados de
coisas e recusa outros.

Como podemos ver, a lei aqui possui um caráter extremamente subjetivo nessa primeira
etapa. Ela se dá a nível individual, bottom-top e possui forte relação com a própria
personalidade do agente. Essas características são as que definem a lei em sua essência e
ao esquecermos disso não estaremos falando da lei em si, mas de uma construção
puramente formal da mesma.

Esse capítulo é sobre a lei e sobre a forma como o estado deturpa a mesma. Mas para
entender isso, precisamos simplesmente desmoralizar a academia explicitando o óbvio;

O direito é o estudo das leis.

As leis se dão a nível individual através de uma análise metafísica, ontológica e


principalmente valorativa da realidade e isso não tem e nem poderia ter relação direta
com o processo de codificação em si. A codificação é única e exclusivamente a
ferramenta de formalização da lei e confundir o estudo da codificação com o estudo das
leis, chamando ao primeiro de direito e ao segundo de sonho jusnaturalista é deveras um
sacrilégio jurídico de tal forma que a disciplina de Ética deveria ser obrigatória em todos
os centros de estudo do direito no Brasil, sob pena de não estarem fazendo mais do que
balbuciando valorações que determinados deputados e senadores fizeram em relação a
como deve ser o mundo.

A justiça é o processo de hermenêutica das leis particulares em prol de uma


lei universalmente cognoscível.

Existimos, valoramos e normatizamos. Fato, Valor e Norma. Essa afirmação de Reale


sobre a realidade do direito teve muito menos valor do que merecia assim como uma
análise em muito mais superficial. Afirmar que o corpo da lei é dotado dessas
características sem entender que elas advém justamente da percepção dos agentes acerca
da realidade é olhar um processo acabado e acreditar que ele surge daquela forma. Mas
beira à insanidade acreditar que esse processo seja de alguma forma passível de ser
atribuído à existência do estado como ficção jurídica ou que tenha sua legitimidade
determinada pelo mesmo.

Tudo o que o estado é capaz de fazer é atribuir a um determinado conjunto de indivíduos,


indivíduos esses que agiram justamente em busca desse controle, o processo
hermenêutico de busca da justiça. Esse processo precisa ser universalmente participativo
para com aqueles que for alcançar e a razão para isso é simples, qualquer coisa menor do
que isso apenas fará menção a uma expectativa moral das leis e não para a moralidade
das leis em si. O processo de representação é então um processo de expectativas e que
como tal é incapaz de descrever mais do que uma possibilidade.

Sem um elo lógico causal correspondendo a um conteúdo jurídico, temos tão somente
estamentos que são políticos em si mesmos, descrevendo a forma como o próprio agente
vê o mundo e quer que nós vejamos esse mundo e acreditar que isso poderia substituir de
alguma forma um consenso universalmente reconhecível dos agentes é um salto lógico
tremendo.
Direito é consensual e não-consensual.

Qualquer afirmação normativa que tiver pretensões de ser válida deve ser capaz
de perceber que a própria normatividade estará em torno daquilo que é e que não é aceito
pelo indivíduo e que conquanto os elementos universais adquiridos pelos consensos entre
as leis particulares transcendam o próprio homem, qualquer tentativa de privilegiar
determinado conjunto de leis particulares em prol de outras nos assuntos onde não for
possível encontrar consenso será em si mesmo inválida.

A busca da justiça, o objetivo excelente do direito, é em último grau também a


busca pelo consenso e da valorização da ausência do consenso, essa mesmo sendo
responsável pela transcendência do indivíduo numa comunidade jurídica, como ente que
analisa a comunidade e participa de seu desenvolvimento, refinando-a em busca do
consenso ativo. Lido dessa forma, todo curso de direito que tratou o direito tão somente
como elemento representativo da força do estado baseado nas intervenções legislativas e
análises de princípios jurisdicionais, cometeu a maior fraude que já poderia ter sido
denunciada; não tendo ensinado direito algum, mas uma quimera juspositivista que
fortalecida por um falso consenso de intelectuais prepotentes é tão somente uma casca
vazia e rasa sem qualquer conexão com a realidade.

Isso, senhoras e senhores, é a causa do maior dilema do intelectual em ciência do


direito que se depara com a realidade da própria filosofia do direito. Se resolve se calar
sobre a fraude será apenas mais um instrumento do viés de confirmação, onde as suas
próprias teorias serão lidas exclusivamente através do arcabouço formal da codificação,
sem possuir os elementos materiais que o precede obrigatoriamente. Mas, se resolve ao
contrário disso falar, será tido como um louco tal como tomaram sócrates, condenado ao
exílio político e à morte como reconhecido intelectual. Que isso cesse tão logo seja
possível e que o direito do século 21 seja também o direito da razão, eis que único
manifesto possível da humanidade tal como ela é e única fiadora das representações
culturais e políticas postas na realidade.
A lei evolui.

Apenas alguém que não tenha percebido as amarras do estatismo é capaz de


acreditar que existe alguma vantagem em aferirmos uma lei tão antiga quanto pudermos
em prol de segurança jurídica. A razão para isso é simples; se são as expectativas dos
agentes que são responsáveis por entregar os elementos não consensuais e essas
expectativas mudam no tempo, como é que poderíamos ter normas não universais que
não mudassem no tempo e ainda assim estarmos entregando o requerido? Mais ainda, que
não mudassem de acordo com as mudanças geográficas ou ainda que mudassem baseado
em mudanças geográficas aleatórias como nossas linhas imaginárias que chamamos de
fronteiras?

É através de uma cultura jurídica dinâmica que converse com a comunidade


jurídica que podemos falar apropriadamente em uma lei que corresponda aos nossos
anseios contemporâneos e a única instituição capaz de nos dar a dinamicidade necessária
é justamente o mercado até porque e justamente porque é o mercado que demanda a
segurança jurídica e qualquer segurança jurídica que advenha de um processo não
mercadológico correrá o risco de ser excedente ou ausente.

O homem justo busca a lei justa

Um argumento muito utilizado por estatistas contra o libertarianismo consiste em afirmar


que haja uma suposta impossibilidade de aferirmos justiça real então ficaríamos com um
modelo imperfeito mas que se mostrou ao menos sustentável e para isso é preciso afirmar
desde já que nosso ponto não é que determinado sistema será naturalmente perfeito ou
que haja alguma característica inerente ao mercado que garante a moralidade perfeita e
circunscrita da lei. Nosso ponto é que a busca pela justiça é essencialmente aquilo que
diferencia bons sistemas e maus sistemas jurídicos e se o sistema estatal se conforma com
suas injustiças, não conseguirá competir com um sistema de leis privadas quanto mais
numerosos forem esses.

Mais ainda, dentro das possibilidades do ser, algumas são dicotômicas, ser justo é não ser
injusto e isso é tudo aquilo que podemos falar sobre a justiça, pois sem essa perspectiva
toda visão que tivermos será a mensuração de uma justiça pessoal que nada diz sobre a
coletividade, um erro tão grave quanto o de ignorar a individualidade. A justiça assim é
muito mais do que entregar a cada um o que é seu, é enxergar os sujeitos como seres de
direito e entender como as interações entre eles criam as leis e as modificam em busca de
um mundo idealmente estabelecido e através daí perceber a lei no universo de
possibilidades normativas que então se abre como já dizia o ditado jurídico:

Diga-me os fatos e lhe direi o direito.


PARTE II: DA SOLUÇÃO
A ÉTICA LIBERTÁRIA
Esse talvez seja o capítulo mais difícil desse livro para nós. O motivo disso é a
importância da compreensão do que será exposto aqui. E para isso, nós iremos percorrer
um longo caminho na história da filosofia.

1. Porque ética? Comentários acerca da filosofia platônica

Platão. Vivemos. Entre o morrer e o nascer, vivemos. Fundamentalmente é essa a história do


homem. Ainda assim há coisas que são melhores do que outras, vidas que valem mais a pena ser
vividas, caminhos melhores a serem tomados. A escolha desses caminhos é, geralmente, realizada
a nível individual. Assim, a vida que vale a pena ser vivida é em si a vida que você escolhe viver
dentre as opções que se manifestam a sua frente. Mas, nem todo caminho que se pode seguir é
um caminho que se deve seguir. A razão para isso é clara, o processo de valoração das ações é
em última escala justamente o processo de corte de determinados caminhos em detrimento de
outros superiores. Sendo assim, concebemos um parâmetro de correção individual baseado
intrinsecamente nos fins que decidimos tomar para nós.

A percepção de que existe algo em comum em todos os agentes, qual seja a própria
racionalidade, nos dá a perspectiva de que haveriam fins universalmente valorados através da
própria razão. O alcance desses fins então seria um alcance universalmente valorado e dos quais
os agentes não poderiam se furtar de conhecerem. A esse estado universalmente valorado damos
o status de Dever.

"A filosofia corresponderia a um método para se atingir o


ideal em todas as áreas pela superação do senso comum,
estabelecendo o que deve ser aceito por todos, independente
de origem, classe ou função. É isso que significa a
universalidade da razão." (MARCONDES, 1997)

Platão iria mais longe ainda e diria enfim que esse status de dever, de busca de um bem
universalmente valorado seria também a busca por uma medida em cada ação, sendo assim,
haveria em todo o agir uma justa medida, uma forma correta de agir em detrimento de outras
tantas erradas e que o buscar disso seria o buscar da ordem em si.

“Desta forma se introduz uma das noções mais


fundamentais da ética: a do dever. Os seres humanos são
livres. Em princípio, podem agir como bem entenderem,
dando vazão a seus instintos, impulsos e desejos; porém, o
dever restringe essa liberdade, fazendo com que seja
limitada por normas que têm por base os valores éticos.”
(MARCONDES, 2007)

2. Como se dá a ética? Comentários acerca de Aristóteles

A percepção de que haveria uma medida justa para tudo, fará Aristóteles então
questionar-se das implicações disso e ainda mais, a pensar na questão acerca da identidade. Se há
uma medida justa para tudo, é porque há uma singularidade em cada coisa que dirá e definirá qual
é essa medida a ser alcançada, através da indicação dos fins. Assim, o ser é percebido por si
mesmo e a sua comparação será apenas o encontrar dos elementos da singularidade semelhantes
e diferentes entre os seres mas que nada dirá acerca do ser em si.

Ele ousará ir até mais além e dirá que aquilo que irá nos igualar será justamente o alcance desse
fim bom em si mesmo, chamando a isso de eudaimonia. Sendo assim, todos temos uma
possibilidade para o alcance das nossas próprias medidas e é nessa possibilidade que a ética faz
morada. Essa determinação individual seria de tal magnitude que infinitamente valiosa auxiliaria
o encontrar de uma ordem universalmente valorada e para o qual valeria a pena viver, vida boa.
Com isso, temos que o agir ético é o agir que nos conecta à sociedade como instrumentos de nós
mesmos e que indo mais longe ainda é o que é capaz de nos situar como indivíduos completos
para com nós mesmos.

“[...]; mas o bem supremo é evidentemente final. Portanto,


se há somente um bem final, este será o que estamos
procurando, e se há mais de um, o mais final dos bens será
o que estamos procurando.” (MARCONDES, 2007)

3. Sobre John Locke e Considerações sobre individualismo

A descoberta de que ao percebermos uma natureza semelhante para os seres


humanos percebemos também uma base de ações legítimas comum e que dessa base se
extraiu o permitido e o proibido de tal forma que possamos falar de obrigações
mutuamente estabelecidas e que dessas obrigações resulte uma relação de reciprocidade
que é conhecida de todos os membros dessa sociedade através das nossas alterações no
mundo, principalmente através do trabalho, será aquilo que definirá a ética lockeana.
“Ainda que a terra e todas as criaturas inferiores pertençam
em comum a todos os homens, cada um guarda a
propriedade de sua própria pessoa; sobre esta ninguém tem
qualquer direito, exceto ela. Podemos dizer que o trabalho
de seu corpo e a obra produzida por suas mãos são
propriedade sua. Sempre que ele tira um objeto do estado
em que a natureza o colocou e deixou, mistura nisso o seu
trabalho e a isso acrescenta algo que lhe pertence, por isso
o tornando sua propriedade.” (LOCKE, 1689)

Somos donos de nós mesmos, donos daquilo que pudermos misturar nosso
trabalho através do primeiro uso e principalmente, os próprios juízos do que é justo e
injusto. Longe do papel teleológico de um arcabouço político, são os indivíduos através
de uma teia de sentido que são responsáveis por mensurar a possibilidade de direito e de
almejar e buscar uma ordem justa. Nessa ética, não há quem se estabeleça por cima do
outro, são todos igualmente valorosos como agentes éticos, eis que partilham da mesma
natureza. A ética aqui é uma ética com fortes valorização do indivíduo que é o juiz e
garantidor de uma ordem que é estabelecida através da observância das consequências
das ações, mais do que buscarmos nossos fins, agora buscamos não impedir que a própria
ordem se estabeleça pela ação justa do próximo.

4. Kant e o Imperativo Categórico

Kant, de certo, um homem intrigante. O homem que reformulou a metafísica, pondo ela
sob bases diversas. Seu projeto ético está em torno de uma parte da razão que seja
inteiramente voltada ao que há desde antes da experiência em si, uma razão apriorística.
Kant chamará essa parte da razão de razão pura. Kant possui a concepção da razão prática
também que lidará com as questões morais da realidade. Kant dirá que a razão prática
pura será aquela que poderá lidar com os elementos éticos de forma que qualquer sujeito
poderá chegar naquelas mesmas conclusões por si mesmo. Então, ele nos propõe um
exercício, maximizamos as nossas ações e então vemos se essa ação vem de fato da razão
prática pura. A esse exercício, Kant chamou de imperativo categórico.

“Mas aqui não se deve, como a filosofia especulativa o


permite e por vezes mesmo o acha necessário, tornar os
princípios dependentes da natureza particular da razão
humana; mas, porque as leis morais devem valer para todo
o ser racional em geral, é do conceito universal de um ser
racional em geral que se devem deduzir.” (KANT, 1785)

O que tornou-se o diferencial, o grande insight de Kant então é tentar excluir aquilo que
diferencia a qualquer dois sujeitos para lidar apenas com os aspectos onde encontramos
semelhanças, dessa forma chegando a conclusões universais. Conclusões interessantes e
que afastariam totalmente um empirista (que acredita que as conclusões acerca da verdade
natural/moral será baseada na experiência) como Locke e que se baseiam fortemente nos
apontamentos de David Hume e Francis Bacon (ironicamente um empirista).

“Uma vez que a universalidade da lei, segundo a qual certos


efeitos se produzem, constitui aquilo a que se chama
propriamente natureza no sentido mais lato da palavra
(quanto à forma), quer dizer a realidade das coisas,
enquanto é determinada por leis universais, o imperativo
universal do dever poderia também exprimir-se assim: Age
como se a máxima da tua acção se devesse tornar, pela tua
vontade, em lei universal da natureza.” (KANT, 1785)

5. Quem é o ser? Resposta de Heidegger

Apesar da descoberta interessante como a de Kant, havia homens que estavam prontos a
criticar certas afirmações estabelecidas como a de que não seria possível conhecer o ser
em si. E um desses homens, talvez o mais significativo foi justamente Martin Heidegger.
O que Heidegger quer afirmar essencialmente falando é qual a verdade do ser, seu sentido.
E a sua percepção passará pela separação necessária entre ente e o ser.

O inicio da verdade do Ser é a própria constatação da existência. Como assim? Heidegger


irá pontuar que o ente é a parte de nós que interpreta e vive no mundo. Sendo assim,
investiga o mundo e é influenciado por ele, sem necessariamente refletir acerca do próprio
ser. Em algum momento, carecendo de referenciais, nós somos jogados para um mundo
de angústia e é nesse mundo, anterior às constatações empíricas do mundo que nós
conseguimos conceber o ser.
A partir desse momento, em que percebemos que existimos no mundo, em um lugar aí
desse tal mundo, percebemos que analisar o ser só é possível como ser-em-um-mundo
porque esse local de existência e esse contexto é indissociável da análise do ser. Sendo
assim, concebemos o nosso ser e podemos questionar esse ser acerca de suas
características e cogitar o que é realmente individual e o que só existiu com o contato da
coletividade através dos nossos próprios atos, como característica do ente. Essas
ponderações acerca de como diferenciar um elemento que exista por si só e o que é através
da coletividade serão extremamente úteis para a nossa exposição.

6. Signos, Significados, Semiótica e Verdade com Peirce

É interessante pensar em Peirce porque ele foi um homem curioso. Sua vida no
mínimo excêntrica o diferencia de muitos dos outros filósofos na mesma medida que a
complexidade de seu trabalho. Peirce diria que vemos o mundo através de signos. Esses
signos representam uma primeira instância da interação do mundo, na medida em que são
representações das coisas. Uma espécie de imagem mental que faz correlação com o
objeto na medida que através da razão encontramos significado para essa imagem.

Peirce diria que essa compreensão da realidade passará por 3 possibilidades, a


possibilidade sintática, de relação com outros signos, a possibilidade semântica, de
construção de sentido e a possibilidade contextual que diz respeito ao arcabouço de
experiência do agente que ele utiliza para compreender aquele signo. Nesse sentido, isso
leva-nos a perceber que a verdade mudaria de acordo com o agente que a está enunciando.

A saída de Pierce pro problema foi perceber 4 coisas que são extremamente
importantes para a construção do conhecimento. São elas:

“Não há nenhuma distinção conceitual que não consista de nada que seja uma
diferença prática.” Procurar citação: The Cambridge Companion to Peirce (Mizak
2004). Isso significa que toda vez que distinguimos um algo de outro algo é em função
do fato que eles possuem diferenças práticas que possam ser percebidas para possibilitar
a distinção conceitual. Pense numa tesoura e numa tesoura sem ponta e a verdade dessa
afirmação fica deveras simples de ser percebida.
O conjunto de coisas que sabemos acerca do mundo são conjuntos de significações e
abstrações da verdade em si, já que só podemos conhecer aquilo que há para ser
conhecido, que é cognoscível. Nesse sentido, aquilo que eu sei sobre o mundo ainda que
através do “senso comum” será essencialmente conectado à própria verdade real. É claro
que em muitas vezes falhamos em perceber coisas simples acerca da realidade que estão
no senso comum e são falhas, mas é o processo crítico desse senso comum que irá resultar
na verdade e o motivo para isso é que não podemos originar a verdade, apenas
transformar nossa experiência em verdade.

Nesse sentido, a verdade é o aperfeiçoamento daquilo que é percebido acerca do conteúdo


que há no mundo. E quem será responsável por alcançar a mesma será justamente a
comunidade científica através de métodos de verificação das teses. A Verdade é a
verdade da comunidade.

Mas como saber que chegamos nessa verdade? Peirce dirá que a verdade é aquilo que
não é disputável, aquilo que por um tempo razoável se demonstra sólido ao ponto
de representar a verdade para aquela comunidade. Isso situa a verdade como algo
dinâmico, como algo que está mudando em função do contexto, capacidade de verificação
da realidade e principalmente do choque com outras verdades.

7. Consciência Semiótica e Bakhtin

Bakhtin. É na sociedade que aprendemos a ser quem somos e a consequência disso será
que a nossa consciência é e só poderia ser semiótica, onde a própria matéria prima da
nossa consciência são os signos que usamos para expressar a nossa compreensão do
mundo. (Marx e a Filosofia da Linguagem)

Bakhtin está nos dizendo para percebermos que a nossa própria capacidade de pensar os
signos advém do fato que nós fomos ensinados por alguém, dizendo que a comunidade
comunicativa foi responsável até mesmo pelas nossas mais singelas ponderações sobre a
realidade e até pelo fato que pudemos ponderar em primeiro lugar. Isso faz com que não
consigamos mais pensar o homem fora da sociedade em que nasceu.
8. Reflexões Racionais Comunicativas

Karl Otto Apel. A percepção de que só nos individualizamos através da


linguagem, de que não é possível conceber verdade que não seja uma verdade da
comunidade, de que tudo tem e precisa de contexto fará Apel perceber que todas as nossas
ponderações normativas só serão possíveis em torno desse mesmo arcabouço. Ele dirá
mais ainda; que existem determinados pressupostos que são parte necessária desse
arcabouço e chamará esses pressupostos do a priori da argumentação e na medida em
que são disputáveis, configuram-se como verdade até que sejam aprimorados:

A existência de algo como verdade, diferente da falsidade; a


existência de proposições que podem ser tidas por
verdadeiras; a existência de proposições a respeito das quais
pode haver concordância intersubjetiva; a existência de uma
comunidade de comunicação, na qual tal concordância pode
ou não se dar; e, por fim, certas regras que funcionam como
condição normativa da possibilidade de discussão: o
reconhecimento do outro como um igual falante e a não
violência no uso do argumento. (APEL, 1993, p. 312-313)

Qualquer tentativa de contrariar esses argumentos cairá em contradição com o


contexto que o indivíduo está inserido ao fazer os próprios argumentos; o que ele chama
de auto contradição pragmática (uma modalidade de contradição performativa, tipo de
contradição onde a performance do indivíduo contradiz o que está sendo dito). Algo como
afirmar “Eu, aqui e agora, não estou lendo essa frase” A intenção derradeira de Apel foi
a pensar em quais são as condições transcendentais que o mundo pragmático exige para
ponderações da verdade, chegando assim no que ficou conhecido como sua Pragmática
Transcendental.

9. O ideal e a filosofia Habermasiana

Jurgen Habermas. Foi orientador do doutorado de Hans Hermann Hoppe e


responsável por muito das bases discursivas da Ética Argumentativa Hoppeana.
Habermas tem alguns insights interessantes que serão abordados aqui:
● Razão Comunicativa vs Razão Instrumental: A razão instrumental é a razão que
está presa no sujeito, ela é voltada unicamente à atender os objetivos individuais dos
agentes e não leva em consideração mais do que o aspecto sintático-semântico das
afirmações, carecendo de contexto. A razão comunicativa é a que busca o entendimento
através da coordenação de contextos subjetivos em uma comunidade comunicativa
intersubjetiva.

● Agir Comunicativo X Agir Estratégico - O agir comunicativo é aquele que,


carregado de considerações acerca da comunidade, busca o consenso enquanto o agir
estratégico busca a sobreposição dos interesses individuais de qualquer natureza sobre o
meio.

“O conceito da ação comunicativa alude a um tipo de ação


(social) mediada pela comunicação. A linguagem é o meio
de comunicação que serve ao entendimento. Porém, os
atores, ao se entenderem entre si para coordenar suas ações,
perseguem, cada um, uma determinada meta, de modo que
não se trata primariamente de atos de comunicação, mas de
um tipo de interação coordenada mediante atos de fala”

● Princípio DE: Habermas percebe que a única forma de possuir uma verdade
pragmática é por uma verdade onde todos os sujeitos podem vir a interferir na construção
da verdade, adicionando suas próprias construções individuais ao plano geral:

“Mas, se as argumentações morais devem produzir um


acordo desse gênero, não basta que um indivíduo reflita se
poderia dar seu assentimento a uma norma. Não basta nem
mesmo que todos os indivíduos, cada um por si, levem a cabo
essa reflexão, para então registrar os seus votos. O que é
preciso é, antes, uma argumentação “real”, da qual
participem cooperativamente os concernidos. Só um
processo de entendimento mútuo intersubjetivo pode levar a
um acordo que é de natureza reflexiva; só então os
participantes podem saber que eles chegaram a uma
convicção comum”.

● Princípio de Universalização: É o instrumento que torna possível os acordos na


medida em que serve como ponte entre os sujeitos.
"[...] uma norma de ação só é válida se todos os que podem
se ver afetados por ela (e pelos efeitos de sua aplicação)
chegarem, como participantes de um discurso prático, a um
acordo (racionalmente motivado) acerca de se a norma há de
entrar (ou seguir) em vigor". (Habermas, 2003)

● Lebenswelt: um conjunto de parâmetros (sejam eles crenças, critérios, valores,


definições, etc.) compartilhados entre falantes que serve de pano de fundo para sua
comunicação. Esses “parâmetros” devem, segundo ele, ser destituídos de controvérsia,
possuindo como característica não serem passíveis de problematização. A ideia do
Lebenswelt é corresponder a um acervo de concordâncias, ao que constituem os
mecanismos aos quais os agentes sociais podem recorrer quando encontrarem em
desacordo sobre aspectos internos da sociedade, funcionando como um ponto-pacífico
entre interlocutores, onde estes reconhecem determinados consensos sobre a utilização
da comunicação linguística para determinarem as resoluções de suas práticas sociais.
(João Victor Aragão, 2019)

● Discurso Ideal: É a situação ideal de fala onde todas as regras necessárias para o
chegar de conclusões morais universalizáveis são atingidas e é possível então falar de
instâncias do dever, normas éticas.

10. Rothbard e a Autopropriedade


Rothbard, o pai do austro libertarianismo; o maior inimigo do estado que já viveu.
Aquele que ficou marcado para história com um sistema baseado em um mínimo
normativo, qual seja o de que:

Toda pessoa é a proprietária de seu próprio corpo físico


assim como todos os recursos naturais que ela coloca em uso
através de seu corpo antes que qualquer um o faça; esta
propriedade implica no seu direito de empregar estes
recursos como lhe convém até o ponto que isto afete a
integridade física da propriedade de outro ou delimite o
controle da propriedade de outro sem seu consentimento.
Mais especificamente, uma vez que um bem foi apropriado
pela primeira vez ou "homesteaded"[9] através da "mistura
do trabalho de alguém" com ele (frase de Locke), então a
propriedade deste bem só pode ser adquirida por meios de
transferência voluntária (contratual) do título desta
propriedade do anterior para o próximo proprietário. Estes
direitos são absolutos. Qualquer violação deles estará sujeita
a um processo legal movido pela vítima desta violação ou
por seu representante, e é litigável de acordo com os
princípios de responsabilidade estrita e da proporcionalidade
da punição.

Essa citação de Hoppe na introdução do livro A ética da liberdade nos dá uma boa noção
dos conceitos principais de Rothbard, quais sejam:

● Autopropriedade: direito de empregar seus recursos como lhe convém até o


ponto que isto afete a integridade física da propriedade de outro ou delimite o controle da
propriedade de outro sem seu consentimento.

● Homestead: Resgatando o primeiro uso, Rothbard percebe que o único sistema


em que a apropriação de recursos escassos não nos gerará conflitos é o sistema de
primeiro uso. E isso acontece porque só existem 3 possibilidades lógicas que satisfaçam
esse problema:

“A pessoa tem 100% de propriedade sobre ela, e aqui não


ficam dúvidas sobre o controle e a propriedade;

A pessoa não tem 100% de propriedade sobre ela e aplica-


se o conceito comunista de que todos têm direitos iguais.
Assim, todos teriam direitos a uma minúscula parte de cada
pessoa no mundo. Rothbard explica que esta solução gera
uma série de problemas operacionais, como por exemplo a
necessidade de aprovação de toda a humanidade para uma
simples decisão. Sem falar no problema de todas as pessoas
não estarem no controle da pessoa em questão.

A pessoa não tem 100% de propriedade sobre ela e um grupo


tem propriedade sobre parte desta pessoa. O problema
apresentado por Rothbard nesta possibilidade é a
impossibilidade de uma ética universal e igual para todos os
seres humanos, uma vez que sempre terá um grupo superior
ao outro, com regras arbitrárias de que grupo terá direito
sobre outro grupo ou indivíduo.”

Rothbard irá argumentar que a única forma que não irá gerar mais conflitos será
justamente a alternativa onde há direitos de propriedade bem definidos.

Princípio da Não Agressão: É um princípio que orienta a nossa ação em torno de ações
voluntárias e de coordenação entre os sujeitos. Rothbard o define da seguinte forma:

(1963) Murray Rothbard - "Ninguém deve ameaçar ou


cometer violência (agressão) contra outro homem ou sua
propriedade. A violência só pode ser aplicada contra aquele
que inicia cometendo-a; ou seja, apenas no ato de defesa da
agressão do outro. Em resumo, nenhuma violência deve ser
empregada contra um não-agressor. Esta é a regra
fundamental da qual pode ser deduzido todo o corpo da
teoria libertária

11. Ética Argumentativa Hoppeana

O argumento de Hoppe é atualmente o que há de mais sólido dentro da perspectiva


libertária e foi resumido da seguinte forma pelo mesmo em palestra para o PFS 2016:

● Todas as afirmações de verdade – todas as afirmações de que uma dada


proposição é verdadeira, falsa, indeterminada ou indecidível ou que um
argumento é válido e completo ou não – são afirmadas, justificadas e
decididas no curso de uma argumentação.

Vimos que a única forma de uma proposição ser universalmente verdadeira ou ainda
verdadeira no sentido pragmático como pensado por Peirce é que ela leve em
consideração a comunidade comunicativa por meio do princípio do discurso, onde os
sujeitos participam como sujeitos ativos da ponderação moral.

● A verdade desta proposição não pode ser negada sem cair em contradição,
dado que qualquer tentativa de fazê-lo teria que ser feita na forma de um
argumento. Daí o “a priori” da argumentação.
Apel fundamentou a necessidade do discurso ao demonstrar que o ato de contrariar as
considerações pragmáticas essenciais acerca da própria argumentação seria contraditório.

● Argumentação não são sons flutuantes, mas uma ação humana, isto é, uma
atividade humana propositada empregando meios físicos – o corpo de uma
pessoa e várias coisas externas – a fim de alcançar um fim ou objetivo
específico: a obtenção do acordo sobre o valor verdade de uma dada
proposição ou argumento.

A argumentação lida aqui como uma ação humana, numa visão misesiana, indica que a
própria escolha de argumentar está carregada de uma valoração, qual seja da escolha de
um agir comunicativo como em Habermas em detrimento de um agir estratégico.

● Embora motivado por algum desacordo inicial, disputa ou conflito sobre a


validade de alguma afirmação de verdade, toda argumentação entre um
proponente e um oponente é em si uma forma de interação pacífica –
mutuamente acordada, pacífica – destinada a resolver o desacordo inicial e
chegar a uma resposta mutuamente acordada quanto ao valor verdade de
uma dada proposição ou argumento.

Hoppe aqui está nos afirmando que muito embora possa ter havido um momento de não
concordância, o momento da argumentação é concordância, ainda que seja a
concordância de dois sujeitos quanto ao fato que eles não concordam.

● A verdade ou validade das normas ou regras de ação que tornam a


argumentação entre um proponente e um oponente possível – os pressupostos
praxeológicos da argumentação – não pode ser argumentativamente
contestada sem cair em uma contradição pragmática ou performativa.

Aqui Hoppe quer afirmar que os pressupostos praxeológicos da argumentação, que ele
vai expor a seguir, são parte do a priori da argumentação e não podem ser como tais
contestados, igualando essas condições ao nível da transcendentalidade e mais
importante, ao mundo da vida.

● As pressuposições praxeológicas da argumentação, então, isto é, o que torna


a argumentação uma forma específica de atividade de busca da verdade, são
duas: a) cada pessoa deve ter o direito de controle exclusivo ou propriedade
de seu corpo físico (significa que ele e somente ele pode controlar
diretamente, através da vontade) de modo a poder agir independentemente
um do outro e chegar a uma conclusão por conta própria, ou seja, de forma
autônoma; e b), pelo mesmo motivo de autonomia e por serem mutuamente
independentes, tanto o proponente quanto o oponente devem ter direito às
suas respectivas posses prévias, ou seja, o controle exclusivo de todos os
outros meios de ação externos apropriados indiretamente por eles anterior e
independentemente de um do outro e antes do início da argumentação.

Aqui Hoppe faz sua grande sacada, Ele estabelece aqui algo como o seguinte: “Estou
vendo que existem essas condições, essas chamadas regras de ação que determinam quais
são as normas legítimas a serem seguidas na comunidade, mas eu reparei que essas regras
de ação para a universalização são exatamente tal como como a autonomia que é descrita
pela autopropriedade rothbardiana.”

Essa correspondência não é puro acaso, que as regras da ação envolvendo a autonomia
sejam a própria autopropriedade, na verdade é que a própria autopropriedade ao ser lida
como direito de autonomia (direito de decisão dos próprios fins) é a expressão mais
sincera do que significa ser dono de si.

E diferente do discurso ideal habermasiano que era algo etéreo, ao trazer a


autopropriedade pro campo, Hoppe também traz uma perspectiva muito mais tangível do
que é efetivamente respeitar as regras de ação: não violar a auto propriedade alheia. Algo
que foi definido, comentado e estudado pelos austro libertários nos últimos 50 anos.

● Qualquer argumento contrário: que o proponente ou o oponente não seja


reconhecido como proprietário exclusivo de seu corpo e de todos os bens
anteriores não pode ser defendido sem cair em uma contradição pragmática
ou performativa. Pois, ao se engajar na argumentação, tanto o proponente
quanto o oponente demonstram que buscam uma solução pacífica e livre de
conflitos para qualquer divergência que dê origem à argumentação. No
entanto, negar a uma pessoa o direito à autopropriedade e a posses anteriores
é negar sua autonomia e sua posição autônoma em um julgamento de
argumentos. Afirma, ao invés disso, dependência e conflito, ou seja,
heteronomia, em vez de um acordo livre de conflitos e voluntário e é,
portanto, contrário ao próprio propósito da argumentação.

E então hoppe encerra a nossa conversa dizendo que a consequência dessa


correspondência será tal que ao desrespeitar a autopropriedade, estamos contraditórios tal
como estaríamos ao desrespeitar o próprio a priori da argumentação. Conectando assim a
autopropriedade ao próprio ato de descobrir normas éticas universalmente válidas. Uma
defesa única à uma ética também única.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

APEL, Karl-Otto. Fundamentação última não-metafísica? In: Stein, ERNILDO; BONI, Luís A. de (Org.)
Dialética e liberdade: Festchrift em homenagem a Carlos Roberto Cirne Lima. Porto Alegre: Editora da
Universidade; Petrópolis-RJ: Vozes, 1993

HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro,
2003. v. I. ______. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro,
2003. v. II

Justiça
1. Conceitos
a. Nossas teses passariam pela maiêutica de Sócrates?

No momento em que há o convívio entre indivíduos capacitados a fazer valorações


morais, ou seja, uma sociedade racional, que delibera sobre certo e errado, bem e mal,
legítimo e ilegítimo, cabe a discussão do conceito “justiça”, pois é nela que a virtude de
um indivíduo dentro de sua comunidade é exercida, e na qual, a ausência, só sobra a
barbárie. Me soa de boa fé então começar, dado a primordialidade do tema, a tratar da
justiça com quem de fato o fez pela primeira vez na história da filosofia. Claramente, tal
pioneirismo vem dos gregos, e sua busca pela Pólis ideal.

Não é entretanto, da intenção desse autor, cometer qualquer tipo de anacronismo


histórico, ou dar a entender que tais filósofos seriam “libertários sem saber”, ou qualquer
coisa do tipo, é propriamente um desafio, já que é relativamente mais simples discorrer
sobre uma teoria, quando é você mesmo a dar os termos e definições, ao contrário,
pretendo usar aquelas já criadas e usadas há milênios, e por elas, apresentar quais seriam
os comentários e paralelos que um libertário faria, assim como as sustentações da suas
teses perante a essas visões de mundo. Em A República de Platão, é relatado um dos
diálogos mais famosos de Sócrates, que se dá entre ele e seus colegas gregos, Céfalo,
Polemarco e Trasímaco, cada um trazendo uma perspectiva ao filósofo.

Por tal, proponho analisar nesses pontos tão antigos e basilares, a fim de evidenciar não
só a atemporalidade de discurso, da relativamente recente tese libertária, mas também a
flexibilidade de se realizá-lo, seja em um contexto moderno ou não.

b. Céfalo e Polemarco.

Céfalo e Polemarco, defendem uma tese que a justiça se dá respectivamente ao: “dizer a
verdade e restituir o que se tomou” e “dar a cada um o que se lhe deve, fazendo bem aos
amigos e mau aos inimigos”. É importante ressaltar que, ambos aqui se fundamentam em
Simónides de Ceos, importante poeta grego, a qual o próprio Sócrates atribui as
qualidades de sábio e divino, e não se propondo a refutar sua tesa, apenas as más
interpretações feitas por seus colegas, da mesma.

Primeiro, a Céfalo:

Mas essa mesma qualidade da justiça, diremos assim simplesmente que ela consiste na verdade e em
restituir aquilo que se tomou de alguém; ou diremos antes que essas mesmas coisas, umas vezes é justa,
outras injusta? Como este exemplo: se alguém recebesse armas de um amigo em perfeito juízo, e este,
tomado de loucura, lhes reclamasse, toda a gente diria que não se lhe deviam entregar, e que não seria
justa restituir-lhes, nem tão pouco consentir em dizer toda a verdade a um homem nesse estado.
Mais do que salientar a contingência em parte da definição dada, na medida que é
indispensável o uso da sapiência para cumprir corretamente um imperativo, me permito
disto, uma crítica a como o estado, quase sempre, faz do direito um mero arranjo
burocrático, afastando-se inclusive do que a própria população considera justo.

No momento em que um juiz a serviço do estado, por preferência ou obrigação, aplica


uma decisão que faça valer apenas o que é previsto em lei, ao detrimento do que é
dedutivamente correto, colocando a predileção dos legisladores acima da própria razão e
até da moralidade mais básica, está cometendo o mesmo erro de Céfalo, e o pior, é ganha
mérito e incentivos por fazê-lo.

A resposta libertária a esse problema, vem, primeiro, de uma teoria jurídica totalmente
justificada no direito natural, visando unicamente a prevalência da mesma, e segundo, a
interesse dos indivíduos que serão agora tratados como clientes, não mais subordinados.
Mais singelamente, esclareço nesse contexto, uma propensão de alguns libertários a
preferir a common law[1] como regime melhor que a civil law[2], uma vez que essa última
leva menos em conta os fatores particulares. Deixando claro que, no anarcocapitalismo,
cada um poderia escolher um sistema que melhor lhe atendesse.

E depois para Polemarco:

Polemarco, acontecerá que, para muitos, quanto errarem no seu juízo sobre os homens, será justo
prejudicar os amigos, pois são maus aos seus olhos, e ajudar os inimigos, pois os têm por bons. E assim
afirmamos exatamente o contrário do que fizemos dizer a Simónides.

Sócrates aqui avisa o quão perigoso é seguir por essa definição, ao que nos lembra da
nossa própria falibilidade, fica claro o risco de, em erro, acabar por tratar da forma que
cremos ser devida ao amigo, alguém que, em acerto, entenderíamos como inimigo, assim
vice-versa.

O socialista e o comunista, ao menos aquele que se acredita estar “ingenuamente bem


intencionado”, toma para si como amigos seus camaradas e líderes, cego nas doutrinas de
lealdade, ignora que possa ele mesmo estar ali simplesmente sendo usando como uma
“ferramenta” em um projeto de poder, que ao refletir melhor, compreenderia como
egoísta e obtuso. Ao mesmo tempo, trata a pessoa bem sucedida, como inimigo, o
chamado “burguês opressor”, que pode ser na verdade, só mais uma pessoa nesse mundo
tentando prosperar na vida, ao passo que fornece serviços, e melhora a condição dos
outros, inclusive, a do próprio militante e daquele que é humilde, que o socialista diz tanto
proteger.

Também o nacionalista fanático, que prega preferências e privilégios para si e todos


aqueles que, meramente por seu local de nascimento, são determinados pelo mesmo como
superiores, que os alheios a suas fronteiras, discriminando os considerados indignos de
estar dentro dela. Ele Ignora que a virtude é passível aos humanos em geral, assim como
a justiça é devida igualmente a todos.

Pode surgir ao leitor a dúvida, “mas e o libertário, ele também acusa o governista, não?”,
veja, é o estadista, seja rei ou político, legislador ou executor, que nos obriga a distingui-
lo, pois é aquele que almeja o poder ou que já o detém, que precisa reafirmar para si e
para os outros, sua posição acima dos demais. Tudo o que fazemos é apontar a
agressividade e ilegitimidade dessa postura, tanto quanto, a imoralidade de se mantê-la
ou advoga-la. Em outras palavras, não dividimos a sociedade, como meio ou fim, nós
apontamos aqueles que o fazem, deixando bem claro que não concordamos com isso.

Sócrates também nos explica que, mesmo que convictos do nosso julgamento, isso não
importaria, pois o justo jamais faria o mal, mas sim, sempre o bem, pois é nele que a
própria justiça se da.

Sócrates — É próprio de um homem justo fazer mal a qualquer espécie de homem


Polemarco — Precisamente. Deve-se fazer o mal aos perversos e inimigos,
Sócrates — E se fazemos mal aos cavalos, eles se tornam melhores ou piores?
Polemarco — Piores.
Sócrates — Relativamente à virtude dos cães ou à dos cavalos?
Polemarco — A dos cavalos.
Sócrates — Então, quanto aos cães a que fizermos mal, eles se tornarão piores em relação
à virtude dos cães, e não à dos cavalos?
Polemarco — Exatamente.
Sócrates — E quanto aos homens a quem se faz mal, podemos também afirmar que se
tomam piores conforme a virtude humana?
Polemarco — Isso mesmo.
Sócrates — Por acaso, é possível a um músico, por intermédio de sua arte, tomar outras
pessoas ignorantes em música?
Polemarco — Isso é impossível.
Sócrates — E, por intermédio da arte eqüestre, pode um cavaleiro tomar outras pessoas
incapazes de montar?
Polemarco — Também é impossível.
Sócrates— Mas a justiça não é virtude especificamente humana?
Polemarco — Sim.
Sócrates — Por conseguinte, meu amigo, os homens contra quem se pratica o mal
tornam-se obrigatoriamente piores.
Polemarco — Concordo.
Sócrates — Mas, através da justiça, é possível que um justo tome alguém injusto? Ou,
de forma geral, pela virtude, os bons podem transformar os outros em maus?
Polemarco — Não podem.
Sócrates — Realmente, creio que ao calor não é dado esfriar, e sim o contrário.
Polemarco — Justamente.
Sócrates — Nem à aridez é dado umedecer, mas o contrário.
Polemarco — Não há dúvida.
Sócrates — Nem ao homem bom fazer o mau, mas o contrário.
Polemarco — E o que parece.
Sócrates — Portanto, o homem justo é bom?
Polemarco — Evidentemente.
Sócrates — Então, Polemarco, não é adequado a um homem justo fazer o mal, seja a um
amigo, seja a ninguém, mas é adequado ao seu oposto, o homem injusto.
Polemarco — Estás dizendo a pura verdade, Sócrates.
Sócrates — Por conseguinte, se alguém declara que a justiça significa restituir a cada um
o que lhe é devido, e se por isso entende que o homem justo deve prejudicar os inimigos
e ajudar os amigos, não é sábio quem expõe tais ideias. Pois a verdade é bem outra: que
não é lícito fazer o mal a ninguém e em nenhuma ocasião.
Polemarco — Parece-me inteiramente verdade o que dizes, Sócrates.
Ora, não é esse comportamento o exato oposto do pregado por doutrinas que insistem na
luta de classes, pureza racial, fanatismo religioso, xenofobia , e afins? Como podem essas
serem justas ao se retro alimentam da vingança e do ódio? Não é clara a maldade daquele
que clama por violência e opressão contra grupos inteiros, sejam estes de fato comuns,
ou classificados assim a dedo de quem os condena? Novamente, talvez o leitor se
pergunte, “mas o libertário não prega o mesmo para os membros do governo ou para
bandidos?”

Para responder a isso, é preciso esclarecer que a ética libertária se limita a descrever o
que é legítimo e ilegítimo dentro do que cabe a propriedade privada, ao passo que a teoria
jurídica, nos dá os parâmetros para qual as ações sempre se realizarão no exercício do
direito, e nunca em sua violação. Dito isso, cabe ao indivíduo refinar seus próprios valores
morais e pessoais, culturais e religiosos, para se adequar a uma vida justa. Dessa forma,
qualquer um que em seus discursos ignora o que é cabível eticamente, o que está nos
limites da proporcionalidade, propondo o que já não pode ser justificado, não está falando
sobre libertarianismo, ou respeitando suas bases fundamentais. Indo mais além, afirmo
que, fazer a justiça nos parâmetros que a define, é fazer o bem, inclusive para a parte
criminosa.

Antes de mais nada, fazer o bem não é meramente cumprir a vontade de alguém, ou prover
bem estar material, mas sim, alcançar o que lhe é próprio. Não podendo ser justo a um e
injusto ao outro, é próprio ao homem virtuoso então, por meio da razão, se civilizar,
refinando o agir de maneira a se afastar cada vez mais da barbárie.

Com isso em mente, imaginemos então um ambiente sem indivíduos dispostos a


respeitarem o direito um do outro, a princípio, a primeira coisa a ser perdida aqui é a
possibilidade de uma vida pacífica, ou seja, em oposto a esse cenário, o primeiro bem que
uma sociedade ética fornece ao infrator, é a oportunidade de reconciliação com a mesma,
a chance de se integrar a uma vida correta e estável.

Mesmo na ausência da lei, onde juridicamente falando, não há definição de crime ou


criminoso, isso não aboliria os anseios pessoais de cada um, afinal do contrário o ladrão
não roubaria, pois não teria ânsia por qualquer coisa. Todos os sentimentos ainda estão
lá, amor, ódio, gratidão e rancor, a única diferença é que não há nada para comedi-los.
Isso significa que ainda teríamos simpatia por aqueles que nos agradam, neutralidade
perante os neutros, e rancor perante aqueles que acreditamos estar nos prejudicando, se
já não ficou claro aonde quero chegar, veja o segundo bem que uma sociedade que se faz
cumprir a lei entrega ao bandido, a garantia, não só de que nada mais será feito a ele, se
não a cobrança do que se deve restituir, mediante a um processo que lhe permita
argumentar em defesa própria, como também, forneça salvaguarda caso alguém resolva
passar desse limite, sendo assim, punido por fazê-lo.

É frequente em locais precários no fornecimento de justiça, principalmente pelo trabalho


inapropriado que o estado se presta a fazer, a ocorrência de linchamentos, perseguições,
dentre outras coisas, execuções e vingança. Mesmo aquele que comete um crime
hediondo, e não mais poderia argumentar em favor da própria integridade, poderá ter um
fim mais digno e ameno do que normalmente teria se imperasse não a propriedade, mas
a universalização das suas respectivas transgressões, no Brasil por exemplo, é prática
recorrente entre os presidiários, estuprar presos condenados por estupro, e outras
“punições” mais viscerais, para pedófilos, até mesmo o empalamento.

c. Trasímaco, o político

Trasímaco dá aquela que é a definição que todo estadista oculta dentro de si, diz ele: “O
que está no interesse do mais forte”. É claro o absurdo de se afirmar isso nos dias de hoje,
afinal, dentro de nossa própria modernidade, buscamos sair do famoso estado de
natureza[4] e viver no domínio do direito, justamente para que não se impere a “lei do
mais forte”, que em suma, nada mais é que a pura violência. Agora, engana-se o leitor se
concluiu até aqui que Trasímaco simplesmente acredita na simples selvageria. Na
realidade, embora o Grego seja conhecido por seus sofismas, o mesmo descreveu
magistralmente a maneira que se dá um governo e a imposição de uma “sociedade
civil[5]”:

“E cada governo faz as leis para seu próprio proveito: a


democracia, leis democráticas; a tirania, leis tirânicas, e as
outras a mesma coisa; estabelecidas estas leis, declaram
justo, para os governados, o seu próprio interesse, e
castigam quem o transgride como violador da lei, culpando-
o de injustiça. Aqui tens, homem excelente, o que afirmo: em
todas as cidades o justo é a mesma coisa, isto é, o que é
vantajoso para o governo constituído; ora, este é o mais
forte, de onde se segue, para um homem de bom raciocínio,
que em todos os lugares o justo é a mesma coisa: o interesse
do mais forte.”
(Platão, A República, Livro I)

Ou seja, para Trasímaco, o mais forte impõe a sua conveniência o que chama de justiça,
e o mais forte dentro de uma sociedade é o governo, logo é ele quem tem a palavra final
sobre o que é justo ou injusto, a preservar seus próprios interesses… É curioso como isso
soa parecido com a visão hobbesiana do estado de natureza não é? “O homem é o lobo
do homem”, bom, ao que parece, tudo o que o Estado conseguiu fazer na prática desde
sempre é designar um líder para a matilha. Em verdade, se ele não deve ser assim, então
por que é? E se ele existe para nos tirar da selva, porque age como a pior das feras? Mas
das várias respostas possíveis que Sócrates poderia ter dado, a qual podem incluir apontar
falácias, exceções ou descrições mais coerentes, etc… Apenas usando de seu impecável
método, a maiêutica[3], forçou seu oponente a aceitar a refutação, sem precisar atacar a
definição dada:

Sócrates — Pois bem! Poderiam os olhos desempenhar bem a sua função se não
possuíssem a virtude que lhes é própria ou se, em lugar dessa virtude, possuíssem o vício
contrário?
Trasímaco — Como poderiam? Queres, por acaso, dizer a cegueira, em vez da vista?
Sócrates — Qual é a sua virtude, pouco importa; ainda não te pergunto, mas apenas se
cada coisa desempenha bem a sua função por virtude própria e mal pelo vício contrário.
Trasímaco — É como dizes.
Sócrates — Posto isto, os ouvidos, sendo privados da sua virtude própria,
desempenharam mal a sua função?
Trasímaco — Sem dúvida.
Sócrates — Este princípio pode ser aplicado a todas as outras coisas?
Trasímaco — Julgo que sim.
Sócrates — Então, analisa agora isto: a alma não possui uma função que nada, a não
ser ela, poderia desempenhar, como vigiar, comandar, deliberar e o resto? Podemos
atribuir estas funções a outra coisa que não à alma e não temos o direito de dizer que
elas lhe são peculiares?
Trasímaco — Não podemos atribuí-las a nenhuma outra coisa.
Sócrates — E a vida? Não afirmamos que é uma função da alma?
Trasímaco — Com certeza.
Sócrates — Portanto, afirmamos que a alma também possui a sua virtude própria?
Trasímaco — Afirmamos.
Sócrates — Então, Trasímaco, a alma executará bem essas funções se for privada da sua
virtude própria? Ou será impossível?
Trasímaco — Será impossível.
Sócrates — Em decorrência disso, é obrigatório que uma alma má comande e vigie mal
e que uma alma boa faça bem tudo isso.
Trasímaco — É obrigatório.
Sócrates — Ora, não concluímos que a justiça é uma virtude e a injustiça, um vício da
alma?
Trasímaco — Concluímos.
Sócrates — Por conseguinte, a alma justa e o homem justo viverão bem e o injusto, mal?
Trasímaco — Assim parece, de acordo com o teu raciocínio.
Sócrates — Então, aquele que vive bem é feliz e afortunado e o que vive mal, o contrário.
Trasímaco — Não há dúvida.
Sócrates — Portanto, o justo é feliz e o injusto, infeliz.
Trasímaco — Que seja!
Sócrates — E não é vantajoso ser infeliz, mas ser feliz.
Trasímaco — Sem dúvida.
Sócrates — Por conseguinte, divino Trasímaco, jamais a injustiça é mais vantajosa do
que a justiça.
Trasímaco — Que seja esse, Sócrates, o teu festim das festas de Bendis[6]!

Esse diálogo é importantíssimo para compreender que, quando os libertários apontam as


desvirtudes do Estado, a crítica vai muito além do trivial e institucional, não é uma
questão de mudar as leis ou trocar de pessoal. Afinal de contas, não somos nós, eu e você,
também sucessíveis a tentação ou ao mau julgamento? E qual a melhor fonte de poder
dentro de uma atribuição de dever, senão o Estado? O problema está no “Trasímaco
interior” que cada membro do governo tem dentro de si, que sempre lhe dirá: “a injustiça
é em si mesma vantagem e lucro.”

Também é interessante perceber que, ao se rejeitar o monopólio da força, o domínio


coercitivo na deliberação e interpretação da lei, e ao oposto, advogar pela
descentralização desse setores ao próprio indivíduo, o libertário descreve uma situação
social onde não há qualquer incentivo para se desvirtuar de uma conduta confiável. É
claro que sempre haverão ignorantes, que completamente cegos pela cobiça, não poderão
enxergar os fatos por além de seus próprios vícios, mas dado que a dinâmica do mercado
é muito diferente da do estado, quando o nosso Trasímaco interior tentar nos seduzir a
agir ilicitamente, surgirá sempre um “Sócrates capitalista” dizendo em nossas mentes: “
A injustiça nunca será melhor que a justiça… e isso se aplica ao seu bolso”.

Talvez seja essa a verdadeira saída para o estado de natureza, que o libertário propõe, ao
buscar nas palavras e não nas garras, um mundo melhor. Se o homem é o lobo do homem,
então deixemos de ser lobos, para de fato, sermos homens.

2. Justiça Privada
a. Teoria jurídica
No que tange a justiça em uma sociedade livre, esta seria tratada como qualquer outro
serviço, fornecida pelo mercado, estando sempre submetida à lei de propriedade privada,
tendo como função manutenção dos contratos e resguardar a propriedade privada.

b. Devido Processo Legal

O devido processo legal trata de uma série de normas a serem seguidas, punir qualquer
indivíduo sem seguir todos os critérios é uma ação ilegítima. Em um sistema de estado,
o devido processo legal prevê que ninguém pode ser punido antes de seu julgamento, em
alguns casos indo além, como por exemplo somente depois de dois ou três julgamentos…
Obviamente ele exige que não se pode privar nenhuma das partes do seu direito de fala,
e que sempre que uma parte apresentar um argumento, a outra deve poder retruca-lo.

Outro critério apresentado é de que a decisão nunca pode ser monopolizada somente por
um juiz, sendo assim, o indivíduo julgado sempre deve poder recorrer a 2° instância, além
de nenhuma das partes poderem escolher o juiz que fará qualquer um dos julgamentos. O
leitor atento deve notar que, excluindo o último ponto, que garante que nenhuma das
partes possam escolher o juiz, o sistema de justiça privada pode atender todos os
requisitos, isso mostra mais uma vez como o estado sequer é necessário para executar as
questões mais basilares de uma sociedade.

A grande diferença de um sistema de justiça privada dentro da questão do devido processo


legal é seu último critério, pois em um sistema libertário, ambas as partes teriam de entrar
em acordo sobre qual juiz deveria julgar o caso em questão.

c. O estoppel

Escrito por Stephan Kinsella, e que pode ser considerado uma complementação da Ética
Argumentativa escrita por Hans Hermann-Hoppe, ambas derivadas jus racionalmente,
tem como base a common law, e é semelhante a Lei de Talião, mas verdadeiramente
fundamentada. A Lei de Talião consiste basicamente na reciprocidade da relação com
crime e pena, a lei diz que o criminoso deveria ser punido em mesma ou semelhante
medida ao dano causado pelo mesmo, e que o executor da punição deveria ser a vítima,
a parte lesada. A lei é popularmente conhecida pela famosa expressão popular:“olho por
olho, dente por dente”, o objetivo da lei era balancear juridicamente as ações dentro de
uma sociedade.

Com o fim de balancear juridicamente as ações dentro de uma sociedade, evitando


violência descontrolada e possivelmente seu próprio fim, tal lei, embora tenha cumprido
bem seu papel em um contexto primitivo, é incompleta. Podemos observar isso na
seguinte situação:

Imagine que uma mulher pouco dotada de beleza quebre uma garrafa de vidro, e então
ataque uma jovem modelo a início de carreira. Veja, a modelo depende de sua boa
aparência para seguir sua profissão, já a agressora, se meramente tiver seu rosto cortado,
sofrerá muito menos prejuízo, logo não seria justo simplesmente “dar o troco na mesma
moeda”, pois além de não representar qualquer “equidade”, de nada beneficiaria, senão
momentaneamente a satisfação um sentimento de vingança a vítima, que continuaria
tendo que lidar com todos os problemas causados pela injusta agressão.
Abordamos agora de forma mais precisa a teoria jurídica propriamente dita, o estoppel.
Como afirma Kinsella no início de seu artigo formulando sua tese:

“Sem dúvida a pena serve a muitos propósitos. Ela tem o


poder de coibir o crime e pode prevenir que o criminoso
cometa outros crimes. A pena pode até reabilitar certos
criminosos, se não for capital. Pode satisfazer a sede de
vingança da vítima, ou o de seus familiares. A pena também
pode ser usada como uma alavanca para obter restituição,
uma compensação por parte do dano causado pelo crime.”

O autor, de início, explica o propósito da pena, abordando logo depois sobre o que seria
uma punição, além do próprio conceito da aplicação da mesma, como descreve a seguir:

“A pena, portanto, compreende a violência física praticada


contra o corpo de uma pessoa ou contra qualquer outra
propriedade que esta pessoa possua legitimamente, ou contra
quaisquer direitos que essa pessoa tenha. A pena é em razão
de, ou em resposta a, uma ação, inação, aspecto, ou status da
pessoa punida; se fosse de outra forma, ela seria
simplesmente a prática aleatória de violência, que
geralmente não é classificada como pena.”

De forma resumida, o autor explica o porquê de um agressor ser estopped de contestar


sua punição no seguinte trecho:

“O diálogo é uma atividade que procura a verdade, os


participantes são impedidos de fazer afirmações
explicitamente contraditórias, já que elas subvertem o
objetivo da busca da verdade por serem necessariamente
falsas. Pela mesma razão, um argumentador é impedido de
afirmar algo que contradiga outra coisa que ele
necessariamente sustenta ser verdadeira, ou que contradiga
algo que é necessariamente verdadeiro porque é uma
pressuposição do debate ou, de fato, se é necessariamente
verdadeiro enquanto aspecto inegável da realidade. Ninguém
pode discordar destas conclusões gerais sem contradizer-se,
dado que qualquer um que discorde de qualquer coisa é um
participante de um debate, e portanto necessariamente
valoriza a busca da verdade e, logo, a consistência.”

Além disso, Kinsella faz questão de introduzir o coração por trás da ideia de um
impedimento legal contido na ideia de consistência de pensamento, ele explica:

“O insight básico por trás desta teoria dos direitos é que uma
pessoa não pode contestar consistentemente sua punição se
ela mesma deu início ao uso da força. Ela é (dialogicamente)
"impedida" de afirmar a impropriedade do uso da força para
puni-la, por conta de seu próprio comportamento coercivo.
Esta teoria também estabelece a validade da concepção
libertária dos direitos enquanto direitos estritamente
negativos contra a agressão, a iniciação de força.”

É necessário explicar como acontece a punição para o que ele chama de “comportamento
agressivo”, e nesse ponto, resumidamente o autor afirma:

“No que segue eu assumirei que a própria vítima (B), ou seu


agente, C, tenta punir um suposto condenado A. A identidade
ou natureza específica do agente C não é relevante para
nossos propósitos aqui. Suponha que A mate B, e o agente
C de B condena e prenda A. Agora, se A contestar sua pena,
ele estará alegando que C não deve tratá-lo dessa forma. Se
feito de qualquer outra maneira, ele falhará em apresentar
sua objeção. O dever aqui é bem "estrito", já que A alega que
C não deve puni-lo. Mediante este palavreado normativo, A
alega que ele tem um direito a não ser punido. Para
"contestar" sua pena, A deve pelo menos necessariamente
alegar que o uso da força é errado (para que C deva portanto
não punir A). Contudo, esta alegação é flagrantemente
inconsistente com o que deve ser sua outra posição: como ele
matara B, o que é claramente um ato de agressão, suas ações
indicaram que ele (também) sustenta a opinião de que a
agressão não é errada.’”

O leitor atento deve ter ideia de como Kinsella discorre sua derivação dessa tese que viria
a ser a teoria jurídica libertária. Tratado como ocorre a punição para o comportamento
agressivo, acredito que seja necessário tratar de argumentos, obviamente inválidos, que
um agressor poderia usar em sua defesa.
Sobre isso, o autor alega primeiramente:

“Primeiramente, A poderia alegar que é inválida nossa


classificação das ações entre agressivas ou não agressivas.
Nós poderíamos estar infiltrando uma norma ou um juízo de
valor ao descrever o homicídio como "agressivo", em vez de
simplesmente descrever o homicídio sem estes sobressaltos
valorativos. Esta norma infiltrada poderia ser o que
aparentemente justifica a legitimidade de punir A, deixando
então a justificação circular e, portanto, falha.”

Após isso, Kinsella demonstra outro argumento, também falho que um agressor poderia
utilizar em sua defesa:

“A universalização é então uma pressuposição do debate


normativo, e qualquer argumentador que violar o princípio
da universalidade[8] está sustentando posições
inconsistentes (de que a universalização é necessária e de
que não é necessária), e é então impedido [estopped] de fazê-
lo. Somente proposições normativas universalizáveis são
consistentes com o princípio de universalização que é
necessariamente pressuposto pelo argumentador ao entrar no
debate.”

Agora, Kinsella aponta um fator extremamente importante para a derivação de sua teoria,
o tempo, ao contrário dos marxistas, os austríacos levam em conta esse fator. Sobre isso,
o autor demonstra resumidamente, mas de forma mais longa que as anteriores o seguinte:

A poderia igualmente tentar refutar esta aplicação do


estoppel alegando que ele, de fato, sustenta atualmente que
a agressão é inadequada; que ele mudou de ideia desde que
matara B. Então não há inconsistência, nem contradição,
porque ele não sustenta simultaneamente ambas as ideias
contraditórias, e não é impedido de contestar seu
aprisionamento.

Se tal requisito absurdo de simultaneidade é operante, a cada


momento consecutivo do ato da punição, qualquer objeção
ou ação defensiva de A é direcionada a ações no passado
(imediato), e então torna-se imediatamente irrelevante e
voltada ao passado. Logo, a irrelevância da simples
passagem do tempo não pode ser negada por A. Dado que,
para efetivamente contestar ser punido, ele deve presumir
que a passagem do tempo não faz diferença para imputar aos
indivíduos ações que lhes sujeitam à responsabilidade.

d. A natureza da mediação

Sendo os conflitos entre indivíduos algo inevitável em uma sociedade que precisa lidar
com a escassez de recursos, resolvê-los é essencial para que a boa convivência se
mantenha pacífica e produtiva.

De fato, a teoria legal libertária, dirá qual o direito básico de cada um, como
racionalmente pensar a proporcionalidade e as punições, que se deve seguir o devido
processo legal para se minimizar os erros de um julgamento... Mas acaba aí, não existe
perícia libertária, não existe método investigativo libertário, ou qualquer coisa do tipo, os
fatores materiais e “práticos” por assim dizer, já não estão mais nos limites teóricos e
cabíveis a deduções puramente lógicas. Para servir de ponte entre o que deve ser e como
faremos, estamos acostumados a recorrer a um intermediário, que será isento e imparcial,
mas veja, uma sociedade pode ser composta por apenas dois indivíduos, e se for o caso,
não existe a possibilidade de um terceiro ser o árbitro. Então isso significa que o conflito
não pode ser resolvido? Lógico que não.

É plenamente possível duas pessoas entrarem em acordo, e usando da inteligência, chegar


a uma resolução ética nos direitos de cada um. O inconveniente aqui, é que isso é
extremamente complicado de se fazer, pois em uma disputa entre partes, ambos acreditam
estar certos, e mais do que isso, QUEREM estar certos, o que dificulta ainda mais
permanecer comprometido com a razão, já que é do interesse de ambos, atingirem seus
fins, o que leva a outro incômodo plausível entre as partes... Por que confiar na palavra
do outro? Ele pode mentir, fraudar ou agir de má-fé, não há garantias do contrário, e
talvez ele teria motivos para isso...

Mas agora imaginamos o seguinte, um terceiro sujeito aparece no cenário. Problema


resolvido, certo? Bom, isso significa que ele automaticamente seria o mediador? Ele
poderia ser obrigado pelas partes a servir como juiz caso não queira? Ou ao contrário, ele
pode se declarar mediador mesmo que as partes não o queiram? E se uma das partes
aceitar, mas a outro não, deve necessariamente obrigar o discordante a se submeter? No
ato de se recusar, cria-se um conflito dois contra um, teríamos que esperar uma quarta
pessoa na para resolver o problema? A única resposta justa e racional possível para todas
essas perguntas é um “não”. Por isso, segue-se uma das conclusões mais importantes para
compreender a justiça em uma sociedade livre: Mediação não é direito, nem uma
prescrição obrigatória no convívio, mas em fato, é uma conveniência, extremamente
básica e muito útil, mais ainda assim, somente um serviço. Para afirmar o contrário, seria
necessário demonstrar que esse fator não é contingente, e por tudo que já foi dito, fica
claro que ele é.

3. Os tribunais privados.

Formalizar serviços é uma ótima maneira para se conseguir produtividade e visibilidade.


Nós começamos com vendinhas em tendas, e logo passamos para grandes centros
comerciais até chegar a transações em escala mundial, essa evolução se deu justamente
pela sofisticação das tecnologias disponíveis em cada época, mas mais do que tudo, pela
nossa própria demanda por eficiência. Se esse desenvolvimento é próprio de todos os
serviços, sair do arcaico, onde leis são talhadas em pedras e executadas por líderes locais,
e a versão moderna disso, onde compilados de normas são criadas por políticos despóticos
e aplicadas por juízes ineptos, é inevitável. Se é nos mecanismos de mercado que são
satisfeitas as necessidades das pessoas, será por ele que os litígios serão resolvidos
também. Mas como de fato será isso?

Em um ambiente de competição, a disponibilidade de informação acaba por ser uma


tendência muito forte, uma vez que, tudo aquilo que fizer um tribunal se tornar menos
confiável aos olhos dos clientes, gerará prejuízo e oportunidade para a concorrência. Selos
de qualidade, auditorias públicas e registros avaliativos, são demandas que representam
então, a verdadeira supervisão, com seu valor atrelado credibilidade de seus realizadores.
Portanto, a não existência de um estado, não significará a ausência de inspeção, ao
contrário, por si só qualquer fiscalização ou regulamentação feitas pelo governo geram
inúmeros incentivos a corrupção e negligência, pois esse não dá as pessoas a oportunidade
de contestar seu valor, cujo a inspeção será compulsoriamente dada como válida e
obrigatória, independente de sua qualidade ou aceitação.

O cenário anarcocapitalista é tão mais promissor que, caso você não se sinta confortável
com as avaliações fornecidas pode sem intermédio, realizar as próprias investigações, e
se a empresa responsável pelo tribunal ou pela auditoria, não quiser liberar as informações
que satisfaçam as tuas preocupações, ou que cumpram os teus critérios escolhidos, basta
buscar uma que o faça, ou até mesmo começar seu próprio negócio, atendendo a quem
tiver as mesmas demandas que você, afinal de contas, empreender é uma escolha válida
e louvável.

Talvez uma das últimas preocupações do leitor até aqui, sejam os custos financeiros da
justiça privada, afinal, a estatal é sustentada por impostos, e no anarcocapitalismo, cada
um teria que bancar a si mesmo. Então como um mendigo, ou alguém muito pobre teria
acesso?

Fornecer serviços de baixo custo, investindo no barateamento o processo, mantendo a


qualidade do serviço, é uma das coisas mais lucrativas que existem, já que a alta somatória
de pessoas pagando pouco, gera uma alta quantidade de dinheiro, não falta incentivos
para que sejam abundantes os tribunais especializados a atender pessoas muito humildes
Ademais, pleitos encerrados tem seu custo jogados a parte perdedora, então aqueles com
causas justas, não ficariam no prejuízo, muito pelo contrário, seriam indenizados no final,
valendo a pena até mesmo solicitar um empréstimo para abrir uma disputa, ou assinar
algum tipo de “plano de seguro”, com alguma empresa ou diretamente com o tribunal.

Outra solução extremamente criativa, é a venda de causas. Suponhamos que sujeito A


tenha seus direitos violados por sujeito B, A entretanto, não possui meios para iniciar um
ação, então ele recorre a sujeito C, que aceita pagar a abertura do processo em troca de
alguma porcentagem do que vier a ser a indenização paga por B.

Pode-se pensar, “e se a causa de A for pouco atraente na perspectiva de lucro, ou não


possuir evidências muito convincentes”, bom, nada que empresas especializadas em
pequenas causas e investigações não resolvam. “E se C resolver se aproveitar da situação
e exigir um valor muito alto da indenização” bom, basta que A recuse o contrato, e faça
a mesma proposta para outras pessoas, até achar a melhor oferta disponível.
Ainda que em apresentação simplificada, podemos a imaginar a potencialidade dos
desdobramentos que essa possibilidade nos dá, ao transformar o que até os dias de hoje é
dinheiro de tributo, em investimento.

a. Ambientes de leis privadas

O mercado não pode esperar a burocracia do estado, tempo é dinheiro, boas e más
decisões podem arruinar um negócio, e ninguém quer depender de fatores assim. Não é
atoa que é relativamente comum a existência de serviços de arbitragem privada no meio
empresarial. Alguns exemplos de associações com fins de mediação bem sucedidas, que
atuam inclusive a nível internacional são, a Associação Americana de Arbitragem —
AAA (American Arbitration Association) fundada em 1926, e Câmara Internacional do
Comércio — CCI (International Chamber of Commerce) fundada em 1919.

Entretanto alguém pode pensar, “mas essas instituições, como tudo, estão submetidas ao
governo não é? O que garante que sem ele as mesmas não deixariam de funcionar”. Bom,
para tornar as coisas mais interessantes, demonstrarei a seguir, ambientes que funcionam
“livres” de uma autoridade central.

b. A internet

Um dos exemplos mais acessíveis e contemporâneos a serem citados é da internet. Sendo


de certa forma, grande e dinâmica de mais para ser regulamentada em sua totalidade, a
rede mundial de computadores, opera majoritariamente por meio de leis privadas.
Inúmeras comunidades, fóruns, sites e afins impõem suas próprias regras, e até tribunais,
que a propósito, nem sempre estão de acordo com a legislação do país a qual o usuário as
acessam, mas funcionam bem por atender os anseios de seus frequentadores. Nesses
locais, a punição para quem quebra essas regras é em geral, o boicote, por meio de
banimento e ostracismo, dependendo do caso, até mesmo a exposição pública de
informação, punições essas que por si só, já são suficientes para manter a ordem nesses
ambientes.

Outra coisa, é que a não são as leis do governo que mantém a internet um local “amigável”
a quem usa. É bem verdade que existem regulamentações, e até serviços policiais
especificamente designados a punir crimes virtuais, mas veja, o real fator de civilização
virtual é o próprio interesse dos criadores de conteúdo em ter seu material visualizado e
divulgado.

Pense comigo, o que motiva o Google a não permitir certos conteúdos em suas
plataformas? Será que sem o estado para proibir pornografia infantil, vídeos de estupro,
sites mal intencionados e criminosos entre outros, a empresa simplesmente iria os
ignorar? É evidente que não, uma empresa precisa zelar por boa reputação para atrair
mercado, assim como, na maioria do tempo, não é o governo que faz o Facebook e Twitter
deletarem postagens, até porque, muito do que é excluído sequer é ilegal, mas vai contra
os interesses do que os donos entendem ser a vontade dos clientes para qual a plataforma
é direcionada.

É a nossa própria evolução de decência que dita os padrões sociais aceitáveis, tanto para
empresas, quanto para o estado, que ao contrário do que se pensa, não é assegurador da
moral, mas assim como qualquer instituição que preze pela própria sobrevivência, precisa
se adequar a tal, para não ser massivamente rejeitada. Prova disso, é que os maiores
responsáveis por combater materiais sórdidos e criminosos, nas partes mais
descentralizadas e anônimas da internet, são especialistas independentes ou de alguma
célula ativista. Não há porque pensar que em um ambiente de livre mercado, estes, não
continuariam a ser incentivados a prestar o mesmo serviço, talvez até recebendo
pagamento para expandi-lo, já que é da própria sociedade, a vontade de se preservar.

c. As relações internacionais

É até bem estranho, mas você já parou pra pensar que não existe um “estado mundial”?
A ONU é só uma de várias associações, qualquer país pode entrar e sair dela a hora que
quiser, e nem mesmo precisa acatar a todas as suas resoluções. Pois é, uma nação se
relaciona com as outras na exata mesma condição a qual os anarcocapitalistas entendem
que os indivíduos de uma sociedade livre o farão, ou seja, através de acordos voluntários
e reciprocidade.

Veja essa pequena “anedota” para entender melhor:

O Sr. Brasil a algum tempo, que mora no bairro América Latina, teve um
desentendimento com a Sra. Inglaterra em decorrência de certo prejuízo que a mesma
acabou tendo ao transitar pela calçada do sujeito. O Sr. Brasil, por sua vez, não acreditava
ser responsável e não estava disposto a pagar qualquer indenização solicitada pela Sra.
Inglaterra, que ficou extremamente furiosa, chegando a ameaçar do uso da força contra o
Sr. Brasil, o Sr. Brasil, também levantou a voz e disse que se ela quiser partir pra
violência, ele também vai. A situação ficou tensa, até que o Sr. Brasil resolveu pedir ao
Sr. Belga, que morava no mesmo bairro que a Sra. Inglaterra, Europa, para mediar a
situação. O Sr. Belga avaliou a situação e disse:

- Bom, Sr. Brasil, era sua responsabilidade cuidar da situação da calçada da sua casa,
então você precisa pagar os danos a Sra. Inglaterra, mas de fato ela foi muito deselegante
e não deveria ter te ameaçado, então o mínimo que ela precisa fazer é te pedir desculpas.

E como toda boa história, o final é feliz, Sr. Brasil pagou para a Sra, Inglaterra o que
devia e ela pediu desculpas por ter se excedido, voltando a se relacionar normalmente.
Claramente, isso só é só uma analogia, tentando se aproximar, para fins didáticos em um
episódio real, conhecido na história diplomática brasileira, como questão Christie[7].
Mas vamos pensar em alguns cenários possíveis que poderiam ter acontecido. Veja, na
época, a marinha real chegou a enviar um navio de guerra para a costa brasileira, e o
nosso Imperador na época, Dom Pedro II estava disposto a responder a mesma altura, não
seria muito difícil essa situação escalonar para um conflito armado, só que, que bem isso
faria para ambos? Nenhum, o Brasil perderia um importante parceiro comercial, assim
como a Inglaterra, um bom cliente e fornecedor, sem falar nos prejuízos com o conflito.
Mais do que isso, a Bélgica não tinha meios para obrigar militarmente qualquer
um a seguir a decisão tomada, e se essa fosse de alguma forma absurda, não só seria
rejeitada pelas partes, como sua execução seria vista como ilegítima pelo resto da
comunidade internacional, comprometendo seriamente a reputação do Rei Belga, o juiz
e de quem a aceitasse. Da mesma forma, como a deliberação foi nitidamente razoável,
mesmo qualquer lado podendo simplesmente se recusar a fazer o que lhe foi solicitado,
seria de quem agisse desse modo, o prejuízo a reputação, que acumularia aos próprios
infortúnios de se manter o conflito sem resolução.
Notas dos Autores

[1] Civil Law, sistema jurídico baseado no direito romano a qual sua essência se dá pela
codificação e fornecimento de leis escritas que devem ser seguidas pelos juízes dentro da
legislação.

[2] Common Law, sistema jurídico baseado no aperfeiçoamento do direito através da


jurisprudência, que nada mais é que o histórico de julgamentos anteriores em determinado
local.
[3] Maiêutica ou método socrático consiste numa técnica desenvolvida por Sócrates
onde, através de perguntas, o interlocutor é levado a descobrir a verdade sobre algo;

Estado de natureza é, segunda Thomas Hobbes em O Leviatã, a condição segundo o qual


os homens podem todas as coisas e, para tanto, utilizam-se de todos os meios para atingi-
las;

[5] Estado Civil, passagem do estado de natureza à sociedade civil, onde os indivíduos
renunciam à liberdade natural e à posse natural, concordando em transferir a um terceiro
– o soberano – o poder da criação e aplicação de leis, tornando-se autoridade política.

[6] Bendis, Deusa Grega, equivalente a Ártemis, deusa da lua.

[7] Questão Christie, crise diplomática entre os governos do Império do Brasil e do


Império Britânico ocorreu entre 1862 e 1865.

[8] Princípio da universalidade, dever de universalizar o acesso aos direitos.

Referências Bibliográficas

Agressão, pena e proporcionalidade - como estabelecer os limites? - Stephan Kinsella

A República - Platão

Ética a Nicômaco - Aristóteles

Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo - Hans Hermann-Hoppe


Economia
PARTE III: LIBERDADES
Sobre a Liberdade

Muito embora o leitor já tenha sido agraciado com uma básica narrativa sobre a liberdade,
faremos um pedido de que, por hora, se esqueça das informações anteriormente
apresentadas e, com suspensão de descrença, se concentre no que virá a seguir para que
possa entender o que está sendo apresentado. Imagine um quebra cabeças. É certo que as
peças iniciais sobre a liberdade o foram apresentadas, mas, agora, lhes serão dados alguns
motivos e algumas peças complementares para que possa terminar de montá-lo assim
como serão apresentadas algumas teorias sobre a liberdade. Então, preparado? Esperamos
que sim, pois, por agora, a liberdade começará a ser dissecada, parte por parte, pedaço
por pedaço.

O que é a liberdade? Como ela nasce e se finda nos homens? Como conciliar propriedade
e liberdade? E, por fim, o que o estado faz com a liberdade dos homens? Questões como
essas são essenciais para descrever uma sociedade libertária, afinal, não somos nós
aqueles que pregam a liberdade, mesmo que negativa? Somos e é nesse ponto que iremos
nos concentrar por agora; o conceito de liberdade. Esse conceito não assume aqui a
mesma conotação de livre-arbítrio, liberdade de vontade, ou simplesmente livre
deliberação, pois não existe tal coisa como liberdade irrestrita, e, como defendemos uma
sociedade ética, não poderia ser um termo, tal que englobasse violações dessa ética, e
ainda assim fosse tido como aceitável.

Mas então, o que significa liberdade para um libertário? Qual a melhor concepção de
liberdade e quais limitações são estas que são inerentes a todo homem? Primeiramente,
as tais limitações de liberdades, naturais a todo homem, são as limitações que habitam o
campo das limitações físicas, biológicas, ou até mesmo limitações mentais, cognitivas.
Por exemplo, e apenas para ilustrar a questão, não podemos pensar, ao menos atualmente,
em um homem que por sua livre deliberação de vontade possa dar um salto e alcançar a
lua.

Agora, falemos sobre a concepção comumente aceita de liberdade, o modelo que mais
frequentemente é idealizado.
Sobre a Liberdade Positiva

Comecemos então falando sobre a liberdade positiva, a liberdade que, pelo menos neste
livro, trataremos como sendo algo como o oposto da concepção de liberdade negativa 1.
Essa concepção se trata de uma liberdade de agir fora de quaisquer limites, uma liberdade
que se dá pela capacidade de se auto direcionar, sem restrição alguma, que se amplia ou
se diminui de acordo com as vontades do indivíduo, nas palavras de Isaiah Berlim:

"O sentido 'positivo' da palavra 'liberdade' deriva do desejo por parte do indivíduo em ser seu próprio
mestre. Eu desejo que minha vida e minhas decisões dependam de mim mesmo, não em forças externas de
qualquer tipo."(BERLIM, Isaiah, Four Essays On Liberty, 2002)

E qual o problema com essa liberdade para um libertário? Bom, essencialmente, defender
tal concepção de liberdade implica, em alguma instância possível, em defender também
possíveis violações de outros indivíduos alheios a si mesmo e essa liberdade, por mais
tentadora que seja, é também uma possível fonte, ao menos em teoria, de limitações de
iguais liberdades em outros indivíduos. Vejamos por exemplo o caso de um sequestro,
tomemos por sinais, o indivíduo que sequestrou chamaremos ele de X, e o indivíduo que
foi sequestrado o qual chamaremos de Y. X amarrou Y e o levou a um celeiro em algum
local isolado, no qual está o mantendo em cárcere.

Nesse caso, evidentemente X exerceu sua plena liberdade positiva, ao, sem quaisquer
restrições, alienar a liberdade positiva de Y, que agora se encontra limitado, por conta da
liberdade positiva de X. Claro que esse é apenas um caso de exemplo, mas não é difícil
encontrar vários outros possíveis exemplos do que uma liberdade ilimitada e irrestrita
causaria (tomando aqui ainda limitações físicas).

E essa liberdade, claro, é também um possível atentado contra as concepções éticas para
um libertário, pois se todos podem fazer tudo a qualquer momento, não há sequer como
pensar em um direito de propriedade privada, o qual é essencialmente fruto de liberdades

1
Estaremos utilizando um conceito relativamente bem definido sobre liberdade

positiva e negativa, muito embora, filósofos como John N. Gray tenham defendido

uma posição mais parcialista em relação ao uso dos termos.


negativas. Mas então, como é essa liberdade defendida pelos libertários, e por que ela é a
mais adequada?

Sobre a Liberdade Negativa

A liberdade que defendemos, como dito anteriormente, é a liberdade negativa, a liberdade


de agir dentro de seus limites, limites que se definem socialmente, limites que se
estabelecem no próximo. A liberdade negativa, nada mais é do que enxergar que tanto
você, quanto outrem, possuem igual direito à liberdade e é prezar por esse direito, o que
alguns chamariam de preço por se viver em sociedade. Esse preço existe em qualquer
sociedade e, no caso dos libertários, ele se define pela autocontenção de ação em prol do
respeito do direito de outrem.

Portanto, desde que defendemos a propriedade privada, a liberdade negativa se torna o


tipo ideal de liberdade a ser almejado. É no respeito à propriedade do próximo, da não
violação, que conseguimos ser realmente livres, uma liberdade essencialmente política,
nas palavras de Isaiah Berlim:

“Eu sou normalmente dito ser livre ao nível em que nenhum homem ou grupo de homens interferem na
minha atividade. Liberdade política nesse sentido é simplesmente a área em que um homem pode agir
dentro não obstruído por outros. Se eu sou prevenido por outros de fazer o que eu poderia de outra forma,
eu sou em certo nível não livre; e se essa área for retraída por outros homens além de um certo mínimo, eu
posso ser descrito como sendo coagido, ou, talvez, escravizado” (BERLIM, Isaiah, Four Essays On Liberty,
2002)

Agora, falaremos de aspectos mais profundos da liberdade (concepção geral), e também


de alguns desafios ao conceito de liberdade.

Sobre as concepções mais gerais de Liberdade

Primeiramente, cabe a nós entender que, a liberdade, agora tomada como uma concepção
mais geral, de liberdade de vontade, não é algo a ser dado, ou algo a ser construído, a
liberdade de decidir existe em cada momento da vida do ser humano, é algo fundamental
e basicamente elemento intrínseco a qualquer ser humano racional, principalmente numa
racionalidade essencialmente prática.
A liberdade humana surge no seio de qualquer decisão racional, pois, essencialmente,
somos seres que são colocados constantemente em situações de decisão, situações de
possibilidade, situações essas que nos forçam a agir de determinadas formas, ou de
deliberar sobre formas de agir em determinados casos. Tome por exemplo o caso de
alguém lhe perguntar se prefere café puro ou com leite. Mesmo um adepto do
determinismo teria de fazer essa escolha pois ele não poderia simplesmente dizer
“HAHA, eu sou adepto ao determinismo físico epifenomenalista e vou esperar que a
causalidade decida por mim". A pessoa poderia ficar ali durante todo o tempo de vida e
ainda assim não receber uma resposta.

Aqui vemos a necessidade de uso de nossa racionalidade prática para escolhermos entre
diferentes possibilidades, as tornando verdadeiras. Mesmo que o determinismo fosse
verdadeiro, não é possível conceber um modo de tornar esse aspecto da experiência
menos verdadeiro. Nas palavras de Searle:

“Liberdade humana é apenas um fato da experiência. Se nós quisermos alguma prova empírica desse fato,
nós podemos simplesmente apontar o subsequente fato de que é sempre nossa responsabilidade falsear
quaisquer previsões que alguém disponha a fazer sobre nosso comportamento. Se alguém prevê fazer algo,
eu posso muito bem é fazer outra coisa. Agora, esse tipo de opção não está aberto a geleiras descerem
escostas de montanhas ou bolas rolando abaixo um plano reclinado ou os planetas se movendo em suas
órbitas elípticas.” (SEARLE, John Rogers, ‘Minds, Brains and Science’, 2003)

E então podemos, por fim, entender como a concepção de liberdade apresentada agora e
a concepção de liberdade negativa diferem em definição, mas, não são de nenhuma
maneira excludentes.

Mas essa concepção geral não é basicamente o mesmo que a liberdade positiva? Não
necessariamente. Essa concepção geral é apenas uma abstração existente na própria
racionalidade e quando falamos de liberdade positiva, geralmente o fazemos pensando a
nível social, ou ao menos, a nível individual dentro de uma sociedade, embora isso não
pareça fazer muita diferença, é crucial para que possamos enxergar a liberdade
(positiva/negativa) como essencialmente um modo de agir dentro da sociedade, e não
apenas como a fundamentação da liberdade (que é a concepção geral de liberdade de
vontade).
Aproximando a Liberdade de Vontade da Liberdade Negativa e Propriedade

O que torna a liberdade de determinação próxima da liberdade negativa é, essencialmente,


pelo menos para os humanos, a essência da liberdade e o corpo político que toma ao ser
negativa. Vejamos, a liberdade negativa, por excelência, permite que tomemos a
deliberação de agir dentro de certos limites justificáveis, limites esses que, para
libertários, se constituem essencialmente de propriedade privada.

Qual outra forma melhor de sociedade senão a que visa valorizar e conciliar a liberdade
de vontade de um indivíduo com; o produto de seu trabalho livre e deliberado, sua
apropriação, seu homesteading, e tudo que ele pode fazer dentro dos limites objetivos
desse produto, desde que não interfira na também valorizada apropriação de outros seres
humanos? A liberdade negativa para libertários, portanto, não é apenas um fato, é também
um ver social que busca conciliar a deliberação de vontade de um, aqui expresso como o
produto de seu trabalho e suas relações sociais, para com todos.

O Estado Contra a Liberdade

O estado, a liberdade e a propriedade privada. Termos aparentemente simbióticos na visão


da grande maioria das pessoas, e para alguns, até mesmo inseparáveis. Como o estado é
incompatível com uma defesa racional da liberdade negativa, e consequentemente com a
propriedade, a propriedade privada, em essência, é incompatível com o estado.
Estado

Propriedad
e
Privada

Mas por que isso se dá? Simples, o estado, com sua suposta “defesa” a propriedade e ao
mercado, acaba por simplesmente violá-los. O que o estado em essência é?

Nas palavras de Murray Rothbard:

“O que é o estado? O estado, nas palavras de Oppenheimer, é "a organização dos meios políticos"; é a
sistematização do processo predatório sobre um determinado território [04]. Pois o crime é, no máximo,
esporádico e incerto; já o parasitismo é efêmero e a coerciva ligação parasítica pode ser cortada a qualquer
momento por meio da resistência das vítimas. O estado, no entanto, providencia um meio legal, ordeiro e
sistemático para a depredação da propriedade privada; ele torna certa, segura e relativamente "pacífica" a
vida da casta parasitária na sociedade “ (ROTHBARD, Murray, A Anatomia do Estado, 2009)

Como pode uma instituição que se diz defensora da propriedade e do mercado, depredar
e alienar as propriedades dos indivíduos? Seja com cobrança de impostos, seja com
expropriações coercitivas de propriedades legítimas, seja com ameaças de violência para
aqueles que o desobedecem (em alguns casos com o efetivo uso da violência), seja com
intervenções econômicas na propriedade de indivíduos e seu direito livre de escolher o
que fazer com ela, tal como excessivas regulações e muros burocráticos sobre o mercado,
o estado continuamente possui formas (e encontra novas formas) de espoliar indivíduos
pacíficos, alienar sua vontade e infringir danos profundos na sua liberdade negativa,
demonstrando-se incompatível com a liberdade negativa.

Podemos então, sintetizar as informações apresentadas nos seguintes pontos:

1. A liberdade que libertários defendem, é negativa, e se opõe veementemente a


liberdade positiva, ou seja, existe da deliberação racional dentro de certos limites, que
para nós, é a propriedade privada.

2. O ser humano é um ser racional, um ser que é constantemente posto em situações


de escolha e possibilidade, é pressuposto da própria razão e raciocínio prático que exista
alguma deliberação livre de vontade para com essas situações.

3. A liberdade de vontade e a liberdade negativa, embora diferentes, não são de


forma alguma opostas, a liberdade de vontade complementa a negativa, que busca ser
uma liberdade essencialmente política.

4. O estado é um ente parasitário que se estabelece por meio de medo, violência, e


controles social, informacional, e cultural.

5. A liberdade negativa, e a propriedade privada, em sua plena essência não pode


sobreviver enquanto um estado estiver a violando e a colocando em risco, e como essa é
a característica essencial da manutenção de um estado (a sobrevivência parasitária), o
estado é incompatível com o libertarianismo.

Concluímos, portanto que, como defensores da liberdade, uma liberdade que pende tanto
a nós mesmos, quanto ao próximo, libertários são naturalmente incompatíveis com a
existência do estado. Bom, agora que chegamos aqui, para que possamos continuar, irei
voltar na questão da liberdade positiva, e apresentaremos, dessa vez, algumas críticas
mais concisas a mesma, de modo a demonstrar a fraqueza de uma concepção de liberdade
assim.
Primeiramente, iremos demonstrar, com argumentos, o motivo da liberdade positiva ser
socialmente nula, ou seja, incompatível com qualquer defesa de uma liberdade para todos.
O motivo, é bem simples, a liberdade negativa, como antes dito, é a liberdade
universalizável, uma concepção de liberdade perfeitamente compatível com a sociedade
(e não somente uma libertária), pois permite que todos os indivíduos se expressem dentro
de seus próprios limites de ação, uma liberdade que não interfere na dos outros.

O grande problema com a liberdade positiva, é que, ao contrário da negativa, ela é


naturalmente incompatível com a sociedade, mesmo sendo também um modo de agir
social. E daí surge o grande Ás da questão; a liberdade positiva, quando concebida para
uma sociedade não caótica, é em última instância uma forma de liberdade negativa.
Entendemos que isso pode não fazer sentido, portanto vamos tentar tornar mais claro e
simples toda essa questão, então, separando as concepções dos dois tipos de liberdade,
apenas para deixar bem claro, em dois pontos:

Liberdade positiva é agir conforme sua própria vontade, independentemente de qualquer


coisa, ou da vontade/integridade de qualquer um.

Liberdade negativa é agir conforme sua própria vontade, mas dentro de certos limites,
estes que podem variar, desde a integridade de alguém, até, no caso de uma sociedade
libertária, a propriedade privada de outrem.

Agora que temos essas duas concepções de forma resumida; podemos nos concentrar em
pensar sobre a questão que foi apresentada com um exemplo. Tomemos que, em certa
sociedade anárquica, seja aceita a liberdade positiva e agora todos podem fazer o que
quiserem. Bom, é evidente que, nessa sociedade, no exato momento em que alguém
resolvesse danificar a vida de outras pessoas, ou as suas posses, essa atitude seria um ato
completamente legítimo. Porém, reflete-se, dentro de algum tempo, e começa-se a
perceber que, estão ocorrendo certos assassinatos, sequestros e agressões com as pessoas
pacíficas dessa sociedade de forma exagerada, e decidem que agora, todos os que
quiserem violentar ou ferir outras pessoas, terão de ser expulsos dessa sociedade (seja por
métodos igualmente bárbaros, seja por meio de ostracismo) Dentro de algum tempo após
esse novo acordo, as pessoas agora podem viver em paz. Bom, mas então, o que podemos
tirar do exemplo acima? Primeiramente, vamos analisar o que ocorre como primeiro caso,
com a liberdade positiva dessa sociedade. Os indivíduos, estavam sendo alienados de suas
vontades, ou seja, indivíduo X, estava alienando a vontade do indivíduo Y, coagindo,
restringindo, ou até mesmo cessando sua liberdade positiva.

O que isso nos diz? Simples, indivíduo Y agora não poderia exercer mais sua liberdade
positiva, em detrimento do exercício da liberdade positiva de X, está criada uma situação
onde prevaleceu o mais forte, e para o mais fraco lhe sobrou apenas uma liberdade
negativa, fruto de limites colocados coercitivamente por X. Algo como isso:

LIBERDADE
POSITIVA X
Y

LIBERDADE
Y NEGATIVA
X

Agora que vimos que a liberdade negativa, existiu mesmo com a idealização de uma
liberdade positiva, ao menos para o lado mais fraco do conflito, começamos a ver o
problema de uma liberdade positiva. Mas, não somente isso, agora veremos também o
que ocorreu, como instância de ação da sociedade, a reação a essa liberdade positiva. Os
indivíduos dessa sociedade, prezando pela ordem acima do caos, resolveram adotar suas
próprias medidas para conter tais casos de violação de pessoas inocentes (como
mencionado, a solução poderia envolver ostracismo ou remoção por meio de coerção), e,
portanto, agora os indivíduos contém uma limitação socialmente incentivada para que
não pratiquem atos desse porte.
Agora também pudemos ver que, em essência, após as mudanças dessa sociedade, com
as novas normas morais implementadas, instaura-se também um limite à liberdade
positiva, e então, como podemos dizer que uma liberdade que se propõe a ser irrestrita,
que esta seja restrita socialmente? Não podemos, a liberdade, que uma vez foi concebida
como positiva, agora se demonstra, em alguma instância, negativa. Creio que agora que
dissecamos a questão das falhas gerais da liberdade positiva, temos o suficiente para
descartá-la como caótica e socialmente insustentável, e portanto, podemos prosseguir
com nossa análise da liberdade.

Pois bem, temos que a liberdade positiva é falha, e agora, esmiuçaremos também alguns
modos de como o estado controla sua vida, e interfere na sua liberdade, não precisamos
ir longe para refletir sobre isso, veremos coisas do próprio Brasil.

Serviço Militar Obrigatório: Uma forma moderna de escravidão disfarçada também


chamada de conscrição; o serviço militar obrigatório é um absurdo completo a qualquer
pessoa que preza pela liberdade de agir onde o estado coloca em você amarras artificiais,
as quais lhe compelem a servir, mesmo forçosamente, a esse sistema, e quem não o faz
se vê prejudicado em relação a tantas coisas básicas como conseguir um emprego (que,
por culpa também do estado, depende de uma série de necessidades artificiais, como a de
uma carteira profissional, que é também inibida), que acaba se vendo compelido a se
sujeitar a isso. Além disso, também incorre aquele que não se sujeita a essa forma de
escravidão moderna, em uma multa, e um impedimento da emissão ou validação de
passaporte, que por sua vez, é necessário para que o indivíduo em questão possa sequer
sair do país.

Limites à liberdade de expressão: O estado, mesmo com seu discurso sobre a


preservação da liberdade de expressão2, não o faz de forma efetiva, eis que ele a limita de
forma arbitrária, justificando-se em pautas socialmente aceitas como discriminação e
ofensa e ao fazê-lo, cria uma barreira tão inescrupulosa a liberdade de expressão, que se
torna fatidicamente outro limitador à liberdade negativa, tal como defendida por

2
A liberdade de expressão, embora possa ser concebida de formas positivas, não
será tratada neste capítulo como tal, pois existe em uma instância totalmente alheia a
quaisquer limites físicos que a liberdade positiva e negativa poderiam se instaurar.
libertários, pois as violações a essa suposta integridade mental que advém de “ofensas e
discriminações”3 é punida com restrições reais a liberdade de expressão física do
indivíduo.

Impostos e seus custos jurídicos positivados: No ramo empresarial, existe outro fator
sério que é a limitação da liberdade sobre a propriedade, uma violação clara sobre o
indivíduo, na forma do imposto, nesse caso específico, o imposto sobre as empresas4,
onde as consequências de se rebelar (sonegar) a esse ato tirano de cobrar tributos sobre
empresas são variadas, indo desde a cobranças de multas com juros altíssimos (que
acarretam também em outros problemas, caso sejam ignorados), até confiscos de
propriedade e bloqueio de fundo monetário.

Agora, o leitor pode também pensar; “mas é liberdade negativa da mesma forma, apenas
está sendo imposta pelo estado”. E é justamente por isso que não se pode ser aceito, a
liberdade negativa para um libertário, é fruto de uma organização voluntarista de
sociedade, baseada na ética de propriedade privada e o estado, por sua vez, é uma
instituição criminosa e impositiva, que demarca arbitrariamente seus territórios, e trata
como gado seus prisioneiros. Qualquer limite imposto por uma instituição assim deve ser
veementemente combatido e repudiado.

Agora, falaremos um pouco sobre a liberdade de expressão, qual a diferença para com as
liberdades positiva e negativa, por que deveria ser categorizada de maneira aparte, e quais
são seus limites e suas arbitrariedades.

Liberdade de Expressão, o fluir das ideias

Agora, tratemos de falar sobre a liberdade de expressão. Ela aqui se define, não
como uma ação comum, como se mover ou comer, mas como uma ação comunicativa ou

3
Ainda no campo da ofensa a liberdade de expressão, existe algo que pode ser
claramente descartado como arbitrário, mas ainda assim é mantido como crime capaz de
ser punido, falaremos sobre a arbitrariedade de ofensas e discriminações após o ponto
sobre a liberdade de expressão.
4
Note que, pela defesa verdadeira dos direitos de propriedade, apenas considero
aqui as empresas legítimas, que não possuem ligações corporativistas com o estado,
empresas que foram fundadas e são mantidas de formas legítimas.
monológica, ações que expressam idéias, pensamentos e opiniões. E então, tomemos que,
embora a liberdade de expressão seja uma das possíveis instâncias das liberdades gerais,
positivas, e negativas, ela está em uma categoria especialmente diferente, pois, mesmo
com tais correlações, ela possui propriedades únicas que a tornam essencialmente
diferente das ações causais não comunicativas.

Um exemplo é quando se conversa com alguém. Neste ato existe uma inerente exposição
de opiniões entre os sujeitos do discurso, exposição essa que pode ser realizada até mesmo
através de ofensas, mas, ainda assim, nenhum deles está violando a propriedade privada
do outro, e sim partilhando locuções verbais carregadas de intencionalidade. Agora,
quando temos dois indivíduos brigando em um bar, a situação começa a se demonstrar
diferente, pois, agora, ambos estão desferindo golpes uns nos outros, violando suas
propriedades. Essa distinção, parece ser apenas uma questão superficial, mas é essencial
para que possamos compreender os limites da liberdade de expressão, em relação a
liberdade negativa advinda da propriedade privada.

Liberdade de Expressão, seus limites, e arbitrariedades estatais

Agora, vamos pensar na liberdade de expressão e no que chamamos de casos de borda


(instâncias específicas em que se cabe limitá-la), bem como pensar no que o estado cria
com algumas delimitações arbitrárias do que pode ou não ser considerado liberdade de
expressão, e o que se enquadra em relações causais de violação. Primeiramente, falaremos
dos casos de borda, que podemos descrever, mais especificamente, no campo das
violações não fisicamente diretas de propriedade, causadas pelas ações de terceiros (ou
do que profere, mas em instâncias de ameaça), essas instâncias, esses casos de borda, não
deveriam sequer serem chamados de liberdade de expressão, em um sentido negativo
(vide liberdade negativa, estendendo-se seu significado para este termo).

Tomemos então alguns exemplos, bem como uma explicação da forma como eles
efetivamente interagem de formas causais e objetivas nas pessoas, e suas propriedades.

Marcelo tinha uma rixa com Diego, e então Marcelo mandou que duas pessoas, pagas
por ele (vamos os chamar de X e Y), matassem toda a família de Diego.
Como pudemos perceber, Marcelo, diretamente5, não causou dano algum a Diego ou sua
família, apenas X e Y, porém, ainda assim Marcelo foi o responsável causal pelo estado
da família de Diego, pois dos atos dele, causaram se os efeitos que levaram a família de
Diego a ser assassinada (por X e Y), ambos, Marcelo, X, e Y, são os responsáveis por
esse crime, ambos são violadores de propriedade, e precisam ser punidos.

‘Carlos quer extorquir Maxwell, e então Carlos ameaça sequestrar e ferir a irmã de
Maxwell, Maxwell, por sua vez, ignora os “pedidos” de Carlos, e segue em frente. Por
conta disso, Carlos sequestra a irmã de Maxwell, e pede um resgate.

Nesse caso, o que temos que perceber é que, ainda que Carlos, pelo menos no início,
embora não houvesse feito mal algum a ninguém, apenas incitado que cometeria6 algo, e
houvesse realmente o feito, ainda poder-se-ia incorrer em punições. Os crimes nesse caso,
foram tanto a ameaça, quanto a ação posta em prática, o fato dele ter realmente feito algo,
e o de considerar atos como aquele legítimos durante a ameaça per se, vemos que esse é
mais uma das instâncias que se classifica como caso de borda.

Podemos sintetizar a questão dos casos de borda nos seguintes pontos:

1. Toda expressão não diretamente causal, no sentido que exista uma interferência
direta de 1 ou mais agentes alheios a quem profere, ou do resultado de suas ações (de
proferir), mas que causa ainda assim uma violação ética, é um caso de borda.

2. Toda expressão posta ou não em prática, desde que legitimados determinados


cursos de ação para o agente (ex: “Eu vou te matar Taranthela!”, matar é um dos cursos
de ação considerados legítimos pelo agente, que o levou em conta ao proferir isso a
Taranthela.), incorre em um caso de borda.

5
Em um sentido bem estrito, diretamente aqui denota uma ação direta do ator,
sem nenhuma interferência externa.
6
Esse caso, configura um caso de borda, pois as conclusões a serem tiradas dele
estão sustentadas em cima de um curso de ação que Carlos julgou como legítimo,
dentre todas as possibilidades de deliberação prática, o sequestro e a tortura foram
considerados por ele válidos, e, embora não se possa saber se Carlos vai ou não
fazer o que disse, pois Carlos, até o momento, não havia realmente ferido ninguém,
por conta de tais ameaças, é possível se valer da força para impedi-lo.
Agora que vimos um pouco sobre os casos de borda, vamos falar das arbitrariedades que
o estado faz com a liberdade de expressão, constituindo seus próprios casos de borda,
porém sem relações de causalidade objetivamente analisáveis, ou mesmo defensáveis.

O Estado e sua Arbitrariedade para com a Liberdade de Expressão

O estado, porém, não respeita a questão da causalidade que pode ser obtida de modo
objetivo, ele impõe os próprios limites, cujos quais acha necessários às situações que
julga. Ao fazer isso, ele reduz a liberdade de expressão, não de modo justo ou ético, mas
de modo a obter poder de julgamento arbitrário sobre os casos que ele julga excepcionais,
seja por interesses como instituição, seja por interesses que julgam-se de interesse
coletivo.

Poder-se-á falar sobre alguns casos que o estado julga como excepcionais, para que
possamos traçar algum paralelo sobre sua arbitragem.

Gretzel era um homem facilmente irritável e se vestia de forma vulgar, certo dia, ele
encontra uma moça de cor escura em um bar, Jéssica, e após algum tempo de conversa,
ela diz algo que o deixa ofendido, sobre a vulgaridade com que ele se vestia, insinuando
que pessoas como ele não deveriam frequentar aquele tipo de bar (Gretzel não era um
homem dotado de muitas riquezas de fato, mas ainda tinha sua dignidade), e então, ele
desfere uma ofensa a raça de Jéssica, uma ofensa relativamente leve, mas resultado de
um ato que tentava restaurar um pouco de sua dignidade.

Após ser ofendida, Jéssica vai até uma delegacia e faz uma denúncia contra Gretzel, que,
por sua vez, é encarcerado pelo estado, respondendo por racismo7.

Nesse exemplo, Gretzel se defende das acusações de Jéssica, porém, ao mesmo tempo,
desferiu afirmações contra a raça (conjunto arbitrário de pessoas definido pela cor de
sua pele) de Jéssica, que o levou a ser preso, acusado de cometer um crime inafiançável.

7
Para melhor tipificação, Gretzel ofendeu a raça de Jéssica em um ato de fúria, ao
invés de ofender apenas a cor de Jéssica. Racismo se tipifica pelo estado como crime
inafiançável.
Esse caso definitivamente não é um caso de borda, e, mesmo tirando-se as ofensas
desferidas por Jéssica, digamos assim, mesmo se Gretzel tivesse apenas simplesmente
ofendido sua raça, ainda seria um julgamento arbitrário, além de um julgamento
incompatível com a ética libertária8. Arbitrário pois, na última instância da vontade, não
há como apontar que uma ofensa possui relação de causalidade na deliberação de agir de
um indivíduo, não há como dizer que, por conta de uma ofensa, X ou Y ficarão ofendidos,
ou mesmo se isso sequer iria importar, já que, como anteriormente dito, não existe
violação de propriedade neste ato.

Agora, imaginemos uma situação mais simples:

Andrei xinga Fernandino, que por sua vez, o leva a ser preso por cometer um crime de
Ofensa Contra a Honra.

Nesse caso, Andrei apenas xingou Fernandino, mas existe um limiar objetivo que pode
ser extraído em xingar alguém? Veja, digamos que André tenha xingado Gordinez, que
por sua vez era seu amigo, e tomou a ofensa como algo bobo, e até divertido, digamos,
Gordinez também trocou alguns insultos com Andrei, ambos são velhos amigos. Qual a
diferença qualitativamente objetiva entre Andrei ter xingado Fernandino e Gordinez?
Simples, a subjetividade emocional de Fernandino, algo que não poderia de forma alguma
servir de parâmetro objetivo para um julgamento não arbitrário, pois veja, se Gordinez
relevou a ofensa, por que motivos Andrei poderia ter pensado que Fernandino não o faria
também? Ou mesmo que o leitor argumentasse sobre a amizade, também poderia-se dizer
que Gordinez e Andrei se conheceram justamente por conta de uma troca de ofensas,
talvez, num jogo de sinuca ou algo assim.

8
A ética libertária busca apenas lidar com crimes materiais, o que não se encaixa
de forma alguma em meras ofensas sem efeito causal que incorre em violação de
propriedade.
Muito embora isso não signifique que Gretzel, caso tivesse ofendido ela de forma
realmente discriminatória e não defensiva, devesse sair disso impune, uma sociedade
voluntarista libertária tende a ser discriminatória com os que assim merecem (no
julgamento moral das pessoas é claro), ou seja, Gretzel, e quem mais fosse, digamos
assim, “babaca”, seria ostracizado da sociedade (como Hans-Hermann Hoppe
costuma dizer, ‘fisicamente removidos’).
A situação, além de arbitrária, é incompatível com os princípios libertários, uma vez que
a subjetividade emocional, no que tange a não gerar violações de propriedade
objetivamente definíveis. Agora que temos essas informações, podemos entender os
casos de arbitrariedade/antieticidade libertária de julgamento, dentro dos seguintes
pontos:

1. Caso em que a expressão em questão se demonstra incompatível com os casos de


borda.

2. Caso em que a expressão em questão se demonstra arbitrária demais para produzir


julgamentos adequados.

Liberdade de Expressão Negativa

Para que possamos encerrar a questão da liberdade de expressão, vamos inseri-la no


mesmo campo das liberdades negativas, pois, como visto anteriormente, ela pode
perfeitamente ser delimitada, de modo a manter a ordem social, tal como uma conduta
ética.

Os casos de borda, como assim foram chamadas as instâncias de ação que ultrapassam
os limites considerados eticamente aceitáveis para determinadas comunicações,
constituem um legítimo limite sobre a liberdade de expressão, e com tais limitações
sociais sobre esse modo de agir, ela se situa, portanto, compatível com concepções
negativas de liberdade.

Agora, cabe também sobre algumas instâncias de quebra desses casos de borda, falar
sobre como elas devem ser tratadas, quando ocorrem. Primeiramente, falemos sobre as
ameaças, como anteriormente dito, casos em que o ator profere afirmações, que contém
em si mesmas determinadas legitimações de possíveis cursos de ação, que são anti éticos
ao ver libertário. Tomemos como exemplo uma ameaça de morte, indivíduo X, sobre
determinadas circunstâncias, digamos assim, com uma corda, ameaça individuo Y de
morte, esse individuo Y, então, pode se defender de X por meio do mínimo possível de
violência.
Digamos assim, que nesse caso, esse limite venha a ser simplesmente tomar a corda das
mãos de X, utilizando-se de uma arma, por exemplo (uma situação de forças claramente
desproporcionais, porém ainda assim possível). Porém, Y resolve, ao invés de apenas
ameaçar X para que largue a corda, atirar e matá-lo. Y foi claramente desproporcional, a
diferença de forças era notável, e a situação poderia ter se resolvido de forma diferente,
nesse caso, Y se torna um agressor, e deve ser punido.

Como acabamos de ver, nesses casos onde a liberdade de expressão ultrapassa seus
limites, ela deve ser punida, pois se comporta em âmbito social como uma liberdade
negativa (uma extensão da mesma, que se comporta de forma diferente em várias
instâncias), porém, tal como falado no tópico sobre a liberdade negativa, não devemos
aceitar todas as formas de limitação a essa liberdade, pois, como libertários, apenas nos
valemos de limites racionalmente justificáveis, de modo ético, e não meramente
arbitrário, e, como antes exposto no tópico sobre arbitrariedades estatais, reforço que o
estado, com suas leis positivadas, não possui legitimidade para julgar quais formas de
liberdade de expressão deveriam ou não serem limitadas em uma sociedade.

Dever-se-á notar que, quando afirmo que o estado é um delimitador de liberdade negativa,
isso per se não se aplica a ele, que é tal como uma instituição que, por meio da força e do
poder social nele depositado (a confiança das pessoas nessa instituição), ele ganha então
um status tal como possuidor de liberdade positiva, e nessa liberdade, ele acaba utilizando
da força para delimitar a liberdade de outrem.

Conclusão

Como pudemos ver neste capítulo, a liberdade assume várias formas, sejam elas positivas,
sejam negativas, ou sejam instâncias especiais da liberdade que se valem através da
comunicação ou monólogo. Todas essas formas de ser da liberdade, fazem parte do que
somos como humanos, do que somos como seres livres e racionais, e do que somos como
seres sociais, a liberdade que temos, é um aspecto intrínseco a nossa racionalidade, um
fato prático de ser humano.

Podemos então sintetizar, de modo geral, todas as posições apresentadas, de modo a


tornarmos as peças desse quebra cabeças mais acessíveis, em seis breves pontos.
1. A liberdade é um aspecto intrínseco de nossa racionalidade, e se expressa através
de nossas inúmeras decisões sobre possibilidades de ação durante nossa vida.

2. A liberdade positiva é uma liberdade que se expressa como algo supremo ao


controle do indivíduo, dentro de nossas fracas concepções humanas, é uma liberdade de
agir sem limites.

3. A liberdade negativa é uma liberdade que se expressa de modo a fomentar um


convívio social, este que tenha como objetivo ser ético e moral.

4. A liberdade negativa é arbitrariamente definida pelo estado em nossa sociedade,


o qual nos limita de modo a satisfazer suas próprias necessidades, acima de qualquer lei
que possa ser justificada de modo racional pela imposição de força, inserção social, e
medo.

5. A liberdade de expressão é a forma como expressamos comunicativamente, de


como expomos nossas idéias, sentimentos e opiniões.

6. A liberdade de expressão é perfeitamente compatível com a liberdade negativa,


sendo, por meio de um ponto de vista libertário totalmente possível delimitá-la de modo
a manter uma sociedade saudável e ética.
Propriedade Intelectual

Do Tangível ao Intangível

É intrínseco ao libertarianismo o fato de que todo objeto tangível é passivo de ser


apropriado. A propriedade nasce no momento em que misturamos nosso trabalho a um
objeto, quando trocamos entre si objetos trabalhados desta forma, quando usamos,
delimitamos, e defendemos determinada área [1]. Todavia ao sair do campo físico da
apropriação (onde é possível, por parâmetros e definições, mensurar; e até mesmo valorar
de forma mais intuitiva) e entramos no campo imaterial, quando entramos naquilo que
está metafísico (i.e. além do tangível) a concepção de apropriação e, inclusive, de
mensuração torna-se algo extremamente confuso.

De modo que, por fim, resta algumas indagações: O indivíduo tem direito exclusivo sobre
tal propriedade imaterial?; Ou teria a lei que amparar esses direitos? A partir de
questionamentos comuns a estes, discorrerá-se sobre.

Para facilitar nossa comunicação, doravante, Propriedade Intelectual será referido como
PI.

Direitos, Escassez e o Imaterial

Antes de tudo, faço uma atividade recursiva e questiono: O que torna o tangível passível
de apropriação? A resposta é escassez. Um ponto de inflexão mostrará que é a escassez
desses bens – isso porque a finitude dos elementos nos leva ao fato de que podem haver
conflitos; visto que duas ações sob o mesmo recursos escasso com propósitos diferente
são excludentes. Assim, a função social e ética fundamental dos direitos de propriedade
é prevenir conflito interpessoal quanto a recursos escassos. Acerca da ética, Hoppe diz:

Apenas porque existe escassez existe um problema de formular leis morais; apenas se os bens são
superabundantes (bens “livres”), nenhum conflito quanto ao uso dos bens é possível e nenhuma
coordenação de ação é necessária. Consequentemente, disso segue que qualquer ética, corretamente
concebida, deve ser formulada como uma teoria da propriedade, ou seja, uma teoria da atribuição de direitos
de controle exclusivo sobre meios escassos. Só assim se torna possível evitar conflitos até então inevitáveis
e sem solução (HOPPE, 1989, p.239).

Este é o grande diferencial do recurso escasso. Ele contempla a necessidade de ser


demonstravelmente justo. O que se dá, evidentemente, por ele ser tangível.

Direitos de propriedade devem ser demonstravelmente justos, bem como visíveis, porque eles não podem
cumprir sua função de prevenir conflitos a menos que sejam aceitos como justos por aqueles afetados pelas
regras. Se os direitos de propriedade são alocados de maneira injusta, ou simplesmente agarrados à força,
é como se não houvesse direito algum; é novamente o poder contra a justiça, isto é, a situação anterior aos
direitos de propriedade. Mas como os libertários reconhecem, seguindo Locke, é apenas o primeiro
ocupante ou usuário de tal propriedade que pode ser seu dono natural. Apenas a regra do primeiro ocupante
garante uma alocação ética e não arbitrária de propriedade sobre recursos escassos. Quando direitos de
propriedade sobre meios escassos são alocados de acordo com a regra do primeiro (KINSELLA, 2017,
p.26)

Acerca da PI

Avant-garde dessa parte do texto, usaremos a seguinte definição de PI:

A propriedade intelectual é um conceito amplo que cobre diversos tipos de direitos legalmente reconhecidos
sobre algum tipo de criatividade intelectual, ou que estão de alguma forma relacionados a idéias. Direitos
de PI são direitos sobre coisas intangíveis – sobre idéias, conforme expressas (direitos autorais), ou
conforme materializadas numa aplicação prática (patentes) (KINSELLA, 2017, p.9).

Nos sistemas atuais a PI é aplicada à direitos autorais, marcas registradas e patentes. Os


direitos autorais são concedidos a autores e criadores de obras como livros, filmes,
programas de computador, jogos, artigos e qualquer outra coisa que você possa pensar
que encaixe neste contexto. Trata-se de um direito de uso exclusivo sobre determinada
obra. As patentes são destinadas a produtores de invenções, como máquinas, carros, entre
outras coisas.

Um produto patenteado tem seu direito de produção unicamente a empresa que o


desenvolveu, criando um monopólio sobre a produção deste invento. Uma marca
registrada pode ser considerada uma frase, uma logotipo, um slogan de um produto que
o diferencia dos demais concorrentes.

Como dito anteriormente, o direito à propriedade sendo definido como direito ao uso
exclusivo sobre determinado objeto, é aplicável a objetos tangíveis, mas e na questão de
idéias, patentes, e marcas registradas? Como poderia e se deveria ser aplicável um
conceito tão material à objetos tão imateriais?

Façamos um exercício imaginativo: Este livro - que lê agora - está dentro da definição
estatal do direito à propriedade intelectual; mesmo com você o tendo em suas mãos neste
momento, ou o tendo como arquivo em seu computador, dentro de seu disco rígido que é
capaz de ligar e coordenar todos os arquivos armazenados por conta da sua ligação à rede
elétrica. Mesmo que você o tenha comprado ou ganhado, ainda assim, de acordo com os
direitos autorais (caso este livro estivesse sobre o campo de jurisdição estatal), o caro
leitor não teria o direito para poder copiar, transcrever, imprimi-lo ou que assim seja,
mesmo que a tinta seja sua, que o papel seja seu, que todos os meios imagináveis capazes
de copiar uma obra sejam seus, ainda assim neste caso o direito a cópia estaria em nossas
mãos. É por esse e outros motivos, que criou-se termo em inglês copyright que determina
quem possui o direito a cópia sobre determinada obra criativa. Toda a construção de
palavras, as idéias expressadas neste livro, os conceitos formulados, todos pertenceriam
única e exclusivamente ao autor (isto na definição de direito autoral).

É de estarrecer-se ao pensar que num mundo onde existem tantas pessoas com
pensamentos criativos, caso duas pessoas pensem na mesma coisa, na mesma construção
e colocação de palavras, na mesma idéia de uma nova máquina ou invenção, de acordo
com a lógica da PI, haveria um conflito entre estes indivíduos.

A propriedade tem a função normativa de determinar quem é o possuidor do direito sobre


determinado recurso. Isso se torna totalmente ilógico quando apontamos nossas
investigações a quais objetos podem ser apropriados pelos agentes atuantes. É impossível
imaginar o direito de propriedade sendo concedido a um objeto que não seja escasso. O
seu corpo, este livro, os dados de um computador, uma rocha na rua que ao ser trabalhada
se torna uma pedra, uma folha caída de uma árvore, minérios extraídos de uma jazida, e
qualquer outro objeto que, por mais abundante que seja, não seja infinito; pode ser
entendido como passível de apropriação, ou, de modo subsequente, como uma
propriedade de outrem.

Mais uma vez, façamos uma atividade imaginária. Imaginemos que existem duas pessoas:
Mateus e Henrique. Logicamente, é possível que Mateus e Henrique pensarem no
conceito de uma nova invenção ao mesmo tempo, sem que eles entrem em um conflito.
Todavia, no momento em que se tangibiliza tal conceito, é impossível que Mateus e
Henrique aloquem, sob uma motivação subjetiva, essa nova invenção para usos
excludentes sem que se gere um conflito. É clara a diferença entre algo tangível ao nosso
mundo e algo puramente conceitual, imaterial, que está apenas presente em nossa
consciência.

Para a lógica dos direitos autorais, ao redigirmos este livro que você está lendo, o direito
ao uso destes conceitos postulados é apenas nosso, dos autores. Mas da óptica libertária,
onde a lei de propriedade é a única racionalmente defensável e capaz de resolver conflitos,
toda essa idéia sobre posse de produtos imateriais cai completamente por terra.

O fato de eu descobrir a cura para alguma doença, e você a usá-la também, não me priva
da minha capacidade de continuar a usufruir desta idéia. É completamente diferente de
alguém possuidor de uma vacina ter ela tomada de suas mãos por outro indivíduo, o
conflito entre os agentes é claramente notado aqui, diferentemente do primeiro exemplo.
Agora demonstrando a não escassez das idéias, vamos mostrar algo que Kinsella
maravilhosamente escreveu:

O que, afinal, está realmente errado em reconhecer “novos” direitos de propriedade? Afinal, uma vez que
novas ideias, criações artísticas e inovações continuamente nos enriquecem, qual é o mal em se
“modernizar” e reconhecer novas formas de propriedade? O problema é que se direitos de propriedade são
reconhecidos sobre recursos não escassos, isso necessariamente significa que direitos de propriedade sobre
recursos tangíveis são correspondentemente diminuídos. Isso porque a única forma de reconhecer direitos
ideais em nosso mundo real, escasso, é alocar direitos sobre bens tangíveis. O fato de eu possuir um direito
efetivo de patente – um direito sobre uma ideia ou padrão, não sobre um recurso escasso – significa que eu
tenho algum controle sobre os recursos escassos de todos os outros. De fato, podemos perceber que direitos
sobre PI implicam uma nova regra para adquirir direitos sobre recursos escassos, que desloca o princípio
libertário de primeira ocupação. Isso porque, de acordo com a apropriação original libertária-Lockeana, é
o primeiro ocupante de um recurso escasso previamente sem dono que se torna seu dono, isto é, se apropria
dele. Uma pessoa que chega depois e toma controle de tudo ou parte de tal propriedade é simplesmente um
ladrão, porque a propriedade já tem dono. O ladrão efetivamente propõe uma nova e arbitrária regra de
apropriação para substituir a regra do primeiro ocupante, de fato a regra particularista “eu me torno o dono
da propriedade quando eu forçadamente a tomo de você”. É claro, tal regra não pode ser considerada como
tal, e é claramente inferior à regra do primeiro possuidor. A regra do ladrão é particular, não universal; ela
não é justa e certamente não é apropriada para evitar conflitos (KINSELLA, 2013, p.35)

Utilitarismo e PI

De certo, acima e outrora, já fora provado as inconsistências da defesa da PI sob o ponto


de vista ético. Porém, há aqueles que insistem em defendê-la - seja por interesses próprios
ou etc, isso independe e ainda não interfere na análise - utilizando-se de argumentos
utilitários.

Discute-se muito sobre o fato de direitos autorais e patentes são causal e factualmente
agentes da fomentação da produção de trabalhos criativos e invenções, ou se os lucros
vindos de inovações ultrapassam os custos de um sistema que impõe a PI. Estudos
econométricos não mostram conclusivamente ganhos líquidos em riqueza (KINSELLA,
2017, p.19). Possivelmente existiria ainda mais geração de produtos e renda se não
houvessem leis que obrigam a existência da PI; talvez mais dinheiro para pesquisa e
desenvolvimento estivesse disponível se não estivesse sendo gasto em patentes e
tribunais. É possível que companhias tivessem um incentivo ainda maior para inovar se
elas não pudessem contar com um monopólio de quase vinte anos dessas invenções.
Afirma-se isto, porque, indiscutivelmente, existem custos do sistema de patentes.

É evidente que as patentes são obtidas apenas após a tangibilização de uma ideia, após
sua aplicação; mas o mesmo não contempla ideias mais abstratas ou teóricas. O que
completado em:

Não fica claro se a sociedade está melhor com relativamente mais invenções práticas e relativamente menos
pesquisa e desenvolvimento teórico. Adicionalmente, muitas invenções são patenteadas por motivos
defensivos, resultando em salários de advogados de patentes e taxas de escritório de patente. Essas grandes
despesas seriam desnecessárias se não existissem patentes. Na ausência de leis de patente, por exemplo, as
companhias não gastariam dinheiro obtendo ou se defendendo contra patentes ridículas como as do
Apêndice. Simplesmente não foi mostrado que a PI leva a ganhos líquidos na riqueza. Mas não deveriam
aqueles que defendem o uso da força contra a propriedade de terceiros satisfazer o ônus da prova
(KINSELLA, 2017, p. 19, 20)?

Mas de certo que, um ponto utilitário não serve como parâmetro de justiça. E mesmo que
PI proporcionasse maiores lucros ou riquezas a sociedade (o que não é, necessariamente,
de fato), ora, a lei deve buscar a justiça, evidentemente; e não fatores financeiros.

Notas dos autores

[1] Apropriação original, ou no inglês homesteading, é a forma pela qual um pioneiro


ganha direitos de propriedade sobre um recurso previamente sem dono, ao ocupar e
misturar seu trabalho com tal recurso. Isso se dá pela indissociabilidade do trabalho da
pessoa.

Referências Bibliográficas

HOPPE, Hans-Hermann, A Theory of Socialism and Capitalism. Boston: Kluwer


Academic Publishers, 1989.
KINSELLA, Stephan. Contra a Propriedade Intelectual. São Paulo: Instituto Ludwig
Von Mises Brasil, 2017.

As Polêmicas
Muito se fala sobre libertarianismo, muito se fala sobre o estado, muitas coisas são ditas
por agentes do estado, muitas coisas são ditas pelos próprios libertários, e muitas dessas
coisas, particularmente, não são bem esclarecidas, existem por todos os lados defesas e
ataques feitos de maneira errônea ao libertarianismo, detalhes que, embora possam
parecer danosos ou tão graves, impactam na forma sobre como as pessoas enxergam o
libertarianismo per se, falamos sobre muitas dessas coisas nesse capítulo, e buscamos
esclarecer algumas delas, em prol de uma melhor visão sobre o que é realmente o
libertarianismo.

Avançando mais, falaremos também sobre as polêmicas que existem no meio libertário,
digamos assim, conflitos internos do movimento libertário, objetos de problematização,
que carecem de consenso, coisas como o aborto, a causalidade, a questão do voto, etc.
Tentarei falar sobre esses itens também, bem como também exporei de modo parcial
minha visão sobre alguns desses assuntos.

Bom, anunciado nosso tema, vamos iniciar nosso tour sobre as polêmicas mais famosas
envolvendo o libertarianismo.

– Expressões Errôneas do Anarcocapitalismo –

Temos que, ao menos em certa quantidade, é comum ocorrerem exposições incorretas de


ideais libertários, vejamos alguns casos, e algumas correções a essas exposições a seguir:
Libertários estão apenas contra o Estado

Essa é uma questão definitivamente muito expressada, que libertários apenas se opõe ao
estado, sendo assim todas as outras formas de espoliação, grandes latifundiários de terras
ilegitimamente apropriadas, e mesmo empresas mancomunadas ao estado, estariam
perdoadas.

Alguns argumentos que já tive a oportunidade de ouvir, durante um bom tempo que passei
debatendo com pessoas, vindo também inclusive de libertários, e que reforçam essas
ideias incorretas, são:

“Sem o estado empresas gigantes (insira o nome de alguma aqui, rs) poderiam fornecer
serviços de forma mais barata!”
“Sem o estado a concorrência acabaria com as imensas empresas, abrindo assim um
caminho ao livre mercado!”

Mas isso de forma alguma poderia ser verdade! Anarco-Capitalistas não defendem apenas
o fim do estado, defendem o fim de todas as formas de hierarquias injustificadas,
hierarquias meramente impostas a base da força! Bem como defendem também o fim de
todas aquelas instituições, empresas ou pessoas que estão mancomunadas com o estado!

Isso obviamente inclui, e não exclusivamente, corporações com suas ligações com o
estado, que perdem quaisquer direitos de proclamar propriedade sobre si mesmas,
propriedade essa que possui como constituinte atos e meios anti éticos. Também inclui
aqueles que, com o grande estado protetor, mantém imensos latifúndios de terra,
propriedades ilegítimas mantidas pela força da imposição do estado! Não melhores do
que ele próprio, muitas essas propriedades não foram sequer apropriadas pelo princípio
de homesteading9, sendo supostamente fruto de pedaços de papel com a adesão de suposta
“legitimidade” advindos da instituição de coerção em massa chamada estado. E por

9
Para recursos escassos externos ao corpo, utiliza-se o princípio de apropriação
original lockeano, onde o primeiro e efetivo usuário de um meio inapropriado, toma
para si os direitos de propriedade sobre esse meio (a propriedade privada é de quem
possuir o melhor vinculo objetivo para com o meio em questão). Para mais detalhes,
ver ‘Journal of Libertarian Studies Volume 17, no. 2 (Spring 2003), pp. 11–37 ‘ Por Stephan
Kinsella.
último nessa listagem, mas não menos importante, empresas que se prestam a aceitar com
todo animo fundos do estado, produtos da espoliação feita a indivíduos pacíficos,
simplesmente por que não conseguem ser capazes o bastante de suprir as necessidades do
mercado, sim, falo deles, os chamados “incentivos” do estado sobre determinados
mercados10. Não cabendo a esse momento falar ou não da suposta efetividade de tais
serviços (que tende a ser negativa), apenas da questão ética, se não devolvidos (de modo
legítimo, obviamente), esses “incentivos” podem ser transferidos das empresas que os
receberam, de forma a punir o ato.

O que é Propriedade Privada

Propriedade privada, na concepção que melhor expressa seu conceito, pode ser descrita
como o direito socialmente reconhecido de controle sobre determinado meio escasso.

Portanto, poder-se-á dizer que a propriedade privada não é o meio em si, mas a relação
entre ator e meio.

Escassez vs. Não Abundância

O que é escassez? Qual a diferença entre escassez e não abundância? Simples, quanto que
a abundância é uma propriedade quantitativa dos recursos, a escassez é um atributo
qualitativo de meios de ação, poderiam existir infinitas quantidades de maça pelo
universo ou pelo planeta, mas ainda assim maçãs seriam escassas, não por conta de sua
quantidade, mas porque, vez que se tornem meios de ação, sempre estarão sujeitas a
conflitos de fins.

O que é um conflito? O que é um fim?

10
Não necessariamente poder-se-ia enquadrar o chamado “incentivo” de isenção
de impostos nessa categoria como anti éticos, visto que são casos excepcionais
(instância de não conformidade com o padrão) de não agressão. Em todo caso, são
apenas exceções, e não serão tratadas nesse texto, sendo consideradas apenas as
instâncias de ação de “incentivo” governamental pautadas em distribuição ou
expropriação de recursos ilegitimamente obtidos pelo estado (todos).
Um conflito nada mais é do que o emprego de fins contrapostos para determinado meio
por 1 ou mais atores. Um fim nada mais é do que aquilo que determinado ator intenta em
tornar factual.

Tomemos a seguinte situação como exemplo:

“Robert está comendo uma maçã”

Nessa situação, Robert possui um fim (comer a maçã totalmente), e está empregando
meios (seu corpo, a maçã) para atingir esse fim.

Agora, pensemos na questão da escassez, digamos que, Roberto, irmão gemio de Robert
quisesse usar a maçã que Robert está comendo para atingir o mesmo fim (comer a maçã
inteiramente).
Vemos nessa situação que, embora exista uma única maça (não abundância local), dois
indivíduos atribuíram fins exclusivos para ela11, um conflito foi criado, pois apenas um
dos indivíduos pode verdadeiramente performar a ação (comer a maçã por inteiro),
portanto dizemos que esse meio é escasso.

Libertários são contra toda força e coerção

Isso não poderia ser mais inexato, libertários não se opõe ao uso da força ou coerção, o
uso da força e coerção é essencial para que uma sociedade voluntariamente organizada
em torno de uma ética objetiva e racional possam resolver seus conflitos internos, o item
a qual os libertários são veementemente contra, e que os define em essência, é a agressão,
o uso/iniciação de força injustificada (agressão)12.

11
Não necessariamente todos os fins são exclusivos, um fim é exclusivo apenas
quando em uma situação em que múltiplos fins são atribuídos ao meio (sendo do
próprio ator ou também de outros), sendo esse um deles, esse fim conflita com
outros fins desse escopo de ações.
12
A natureza da agressão não se perfaz apenas sobre o uso de força física, pois, no
geral, a agressão se dá em cursos de ação, a agressão é uma ação que possui conexão
Podemos pensar em alguns casos de ação, para que possamos compreender essa questão
de uma forma mais clara.

“Sales e Trogel entram no armazém, mas Sales estava armando algo contra Trogel, ele
fecha a porta do armazém por dentro e guarda a chave em seu bolso, em seguida, pega
um martelo e bate com ele na perna esquerda de Trogel”

Esse é um claro exemplo de iniciação do uso de força injustificada, uma agressão, Trogel
não havia feito nada de anti ético contra Sales para que este ato fosse justificável.
Agora, vejamos como essa situação se desenrolou:

“Trogel, quando percebe um momento de distração de Sales, remove o martelo de suas


mãos e o usa para nocauteá-lo, de forma a conseguir sair dessa situação”

Agora, de forma totalmente defensiva, Trogel se viu em uma situação na qual deveria
retirar o martelo das mãos de Sales, e nocauteá-lo com ele, para que pudesse fugir deste
local com vida, nesse caso, Trogel usou o mínimo de força possível para que pudesse
resolver o problema13.

Agora vejamos a situação novamente, dessa vez por outro ângulo, voltando ao momento
em que Trogel foi atingido:

“Trogel vislumbrou uma chance de vingança, encontrou no canto de um dos balcões uma
arma, no momento em que Sales estava distraído conseguiu pegá-la e apontar para Sales.
Sales, agora rendido, foi ordenado a largar o martelo, e assim o fez, em seguida, Trogel

causal entre o uso de um meio e um fim que inicia um ato ilícito. A força física,
portanto, é apenas uma das formas de agressão, falaremos mais sobre isso a frente.
13
O mínimo de força necessário é o modelo utilizado por libertários para que
sejam resolvidos conflitos diretos/indiretos como esse, que necessitam do uso de
força física.
Tome como exemplo um soco e um assassinato, entre esses dois eventos existe uma
clara diferença de força, pois de um lado o soco apenas machucou o alvo, porém o
assassinato é caracterizado pelo cessar da ação, e entre esses dois graus de força
existe um abismo quase intransponível.
ordenou a sales que lhe entregasse a chave para que pudesse fugir, dessa forma,
normalmente, a situação teria se resolvido com o mínimo de coerção necessária. Porém,
após receber a chave, Trogel resolve, em um ato de vingança furioso, matar Sales,
atirando contra sua cabeça.”

Essa situação difere substancialmente da anterior, ao passo que, entre o ato de matar e de
acertar a perna de alguém com um martelo, existe um abismo de desproporcionalidade
praticamente impossível de ser transpassado14.

Podemos então, sintetizar a questão da força e agressão nos seguintes pontos:

1. Agressão pode ser descrita como a iniciação do uso de força injustificado (e.g.
Forçar alguém a te beijar), mas também, de forma mais precisa, como a conexão causal
entre utilizar um meio para se alcançar um fim ilícito (que viole a propriedade privada),
[e.g. Mandar alguém matar uma pessoa], para tornar a explicação mais simples, apenas
casos de iniciação de força física direta foram inseridos nesse tópico.

2. Toda punição por uma agressão, deve ser ou proporcional ao ato, ou


simbolicamente apropriado15.

3. Toda retaliação por meio do uso da força que seja maior do que a força utilizada
na agressão iniciada, possui a pena de se tornar ela mesma uma agressão.

14
Muito embora seja possível pensar em casos onde essa situação seja justificada,
por exemplo, se Sales tivesse cúmplices no armazém, de modo que a única solução
possível para que Trogel pudesse fugir fosse matar Sales, um modo interessante de
dizer isso é, cada caso é um caso.
15
Um modo mais, por assim dizer, civilizado, e com maiores chances de
ressocialização criminal, de realizar punições em uma sociedade libertária, como
Kinsella uma vez disse, é com um sistema de restituições materiais monetárias,
desde que a parte agredida concorde, é claro.
Outra vantagem do sistema de restituições é a segurança jurídica, uma vez que, por
exemplo, se você matar um assassino que na verdade era inocente, você também
seria punido com a morte, mas se você tivesse apenas exigido uma restituição,
poderia apenas devolvê-la.
Agora que falamos um pouco sobre a agressão, uso da força, e coerção, falaremos também
sobre a questão da autopropriedade, uma grande fonte de controvérsias e confusões no
meio libertário.

– Autopropriedade –

Uma das importantes controvérsias do meio libertário sobre a autopropriedade, vem da


questão dela ser ou não ligada ao homesteading, discorrerei sobre isso agora.

A autopropriedade, ao contrário do que se pode pensar, não vem do primeiro uso sobre o
corpo, mas sim de sua relação especial para com ele. Para que essa situação se torne mais
clara, vamos pensar de forma a fazer uma análise sobre a questão.

O proprietário de uma propriedade privada é aquele cujo qual possui o melhor


vinculo objetivo para com o meio.

O melhor modo de definirmos qual aquele que possui o melhor vinculo com um
meio não apropriado, é por meio da primeira apropriação, do homesteading, realizar a
mistura de seu trabalho para com esse meio.

Um outro modo de obter tal vínculo, é com uma transferência de propriedade, que
pode ocorrer tanto por meios contratuais, quanto por meios restitutivos.

De certo modo, o primeiro a misturar seus recursos com seu corpo são seus pais,
ao alimentá-lo, vesti-lo, e cuidá-lo.

Porém, isso não significa que eles tenham o melhor vinculo objetivo para com
você, pois existe um vínculo, vínculo esse que existe de forma especial, que é sua
identidade, você é um ser de direito, que em alguma instância, é expresso também pelo
seu corpo, você é representado diretamente por ele, mas também o controla, seu corpo é
tanto uma referência sua quanto seu meio de ação primário, e essa ligação especial é o
motivo de você, e não seus pais ou qualquer outra pessoa que interaja com você, ser seu
autoproprietário.

Esse direito de propriedade sobre si mesmo, porém, não é de todas as formas


inalienável, pois, embora não possa ser transferido por meio de um contrato, é possível
perdê-lo ao cometer um ato de agressão para com outrem.
Uma forma de se pensar sobre a distinção entre corpo como meio de ação primário, ao
mesmo tempo que lhe representa, pode ser expressa, para um materialista, por exemplo,
ao se pensar sobre a distinção conceitual necessária a ser feita entre um corpo e um ser
de direito. Quando alguém morre, por exemplo, e pensamos nesse alguém, não pensamos
apenas nele como um cadáver em decomposição, mas também como um conceito, uma
representação, uma ideia.

Essa explicação demonstra, de modo efetivo, a distinção clara a ser feita entre o corpo de
ação, e o indivíduo de direito, pois, não se trata de afirmar ou não que existe um dualismo
entre consciência e matéria, e a consciência seria algo mistico ou de outro mundo, mas
sim que existe uma diferença clara entre o modo como se analisa o indivíduo de direitos,
e o corpo desse indivíduo.
Tome como exemplo o seguinte:

“Michael cortou Davidson com uma faca de manteiga, Michael foi condenado a pagar
uma restituição a Davidson”

Não foi apenas a mão de Michael que cortou Davidson, de fato ela foi o meio de ação,
mas a ação tem que se dar com uma intenção, um fim a ser almejado, esse fim reside no
indivíduo, e não no meio, quando Michael feriu Davidson, portanto, Michael feriu
Davidson, Michael é um agressor, e não sua mão.

Essa distinção, embora possa não parecer a primeira vista, é grandemente necessária, de
modo que só é possível imputar um crime sobre um indivíduo, e não sobre meios, sendo
o corpo um meio de ação, esse corpo não pode ser o culpado de um crime, mas sim o
indivíduo ligado a ele, de forma que essa situação de perfaz sobre uma distinção de
categorias16, a distinção entre meio e ator.

E nessa relação prima facie entre meio de ação primário e indivíduo, que surge a questão
da autopropriedade, um reconhecimento intersubjetivo necessário a um discurso sobre

16
Muito embora, como anteriormente dito, essa distinção de categorias não
implique em uma distinção de natureza física ou mistica, apenas implica em uma
necessidade de categorização por sobre diferentes componentes de um indivíduo
(seu corpo, representação, e meio de ação, e sua natureza conceitual geral).
normas, cujo qual é um meio de ação primário, por que é o único meio que o indivíduo
pode usar de forma direta, e que todos os meios usados de forma indireta dependem, em
alguma instância, do uso desse meio.

Na imagem a cima, podemos perceber a distinção feita para a análise do indivíduo,


categorizando o corpo de ação física separadamente de sua intencionalidade, não como
se estivessem em mundos diferentes, mas sim como se fossem objetos de estudo
diferentes (e são).

[Apenas por diversão, pode ser interessante empregar a questão “Armas não matam
pessoas, pessoas matam pessoas” nessa questão, pois a culpa de um assassinato não é da
arma per se (embora envolva relação de causalidade com ela), mas do indivíduo que a
empunha, culpa advém como resultado de ações humanas. Uma arma, em circunstâncias
normais, não se levaria a atirar.]

Sistemas de Proteção Privada

Essa é uma questão que criou algumas controvérsias no meio libertário, como por
exemplo, algumas pessoas pensam que não se pode os utilizar contra agressores que não
concordaram com a empresa, um problema gerado em boa parte pela concepção
Rothbardiana de contratos.
A razão pela qual podemos utilizar de força contra um agressor17, não é por que houve
uma quebra de contrato, mas sim por que, ele mesmo, ao inciar o uso de força contra
você, concordou, mesmo que implicitamente, com a jurisdição na qual você está
submetido, de forma que retaliar contra ele não é uma violação do direito do agressor,
mas sim uma forma de fazer valer a justiça. A força de retaliação, é, como o próprio nome
indica, uma retribuição de força a nível proporcional, como já explicitado em explicações
anteriores.

Distinção entre Estado e Governo

Um outro tópico que gera certa confusão, é a questão sobre se nos opomos ou não a todos
os tipos de governo.

Isso, de forma clara, é um equívoco, libertários não se opõe a todas as formas de governo,
libertários se opõe a estados, e estados, embora sejam formas de governo, diferem
substancialmente de formas de governança privada.

Para deixar a questão mais clara, vamos definir o que é um estado:

O estado é uma instituição que pode ser descrita de diversas formas, mas podemos, ao
menos para fins de explicação, relacioná-lo a ao menos uma das seguintes características
(muito embora a esmagadora maioria dos estados, se não todos, possuam ambas as
características):

1. Se proclamar impositivamente como tomador de decisões jurídicas final sobre


determinado território ou região

2. Ter o poder de exercer taxações sobre aqueles dentro de sua região.

Quando falamos de governança, não necessariamente estamos falando de um estado, uma


propriedade privada, por exemplo, quando alguém é proprietário de uma casa ou empresa,
essa pessoa decide quais regras existem e quais normas devem ser seguidas (a partir dos
limites dessa propriedade). Avançando mais ainda, poderíamos chegar a ideia de cidades
privadas, condomínios, hotéis, todas essas formas de governanças privadas, em que os

17
Refere-se a tanto o indivíduo agredido, quanto sua agência de segurança privada,
quanto um possível terceiro em algumas instâncias específicas.
integrantes não foram impositivamente colocados sobre, mas sim escolheram de forma
voluntária sua participação.

Portanto, podemos tomar que, embora libertários se oponham a formas


impositivas/agressivas de governança e estados, não existe oposição para com
governanças privadas.

Criação de um Estado em uma Anarquia Libertária?

Falarei agora sobre um tópico, por assim dizer, controverso, diversas instâncias desse
argumento foram formadas ao longo do tempo, como o argumento de Holcombe sobre
agências de segurança privadas, mas não falarei sobre esses em específico no momento,
apenas sobre um, resumidamente, o argumento de que em uma sociedade libertária, com
o acumulo de propriedades por uma pessoa, acabaríamos com algum tipo de
autoproclamado novo estado, com esse proprietário sendo o administrador.

A lógica desse argumento é baseada em uma concepção errônea do que é a propriedade


privada, sob essa ótica, dever-se-ia considerar algumas pressuposições incorretas, entre
elas:

1. Um meio, uma vez apropriado (ou trocado), permanece com seu proprietário até
o fim dos tempos (seu horizonte de vida, para ser mais exato)

2. Uma vez que a propriedade é eterna (dentro de determinado tempo de vida), uma
pessoa poderia se apropriar de vastos territórios ao longo de sua vida (ou comprá-los,
supondo-se que exista alguém rico o bastante para isso), e, ao fazê-lo, ela obteria o poder
de controle sobre esses territórios.

3. Vez que a quantidade de terrenos a serem apropriados diminuiriam com tais


aquisições, as pessoas seriam inevitavelmente forçadas a viver sob a propriedade desse
indivíduo, e, por conta disso, ele teria agora um status de poder equivalente ao de um
estado.

As falhas desse argumento, no entanto, devem ser delicadamente expostas, para que se
desfaçam em cinzas.
Primeiramente, apropriar-se de um meio não o torna sua propriedade para toda vida, mas
sim até que o meio em questão seja visivelmente não trabalhado, ou seja, que o trabalho
inserido por sobre o terreno seja impossível de se distinguir de um terreno em estado de
natureza.
Ou seja, um grande latifundiário, eventualmente se depararia com o problema de manter
suas terras consistentemente apropriadas, de forma que isso se tornaria potencialmente
insustentável em vastos territórios18.

Como se pode notar, vez que o primeiro ponto é resolvido, os dois subsequentes
acabariam se tornando inúteis. Porém, para fins recreativos, desmantelaremos também o
terceiro ponto, uma propriedade dá lhe o poder de um estado por sobre seus moradores?

A resposta curta é, depende, essa é uma situação que deve ser analisada sobre diferentes
perspectivas.
Podemos pensar nesse poder como sendo o poder de violentar os moradores em questão,
nesse caso, poder-se-á de objetar sobre a natureza dessa violência, desde que não exista
um contrato entre o dono da propriedade em questão e seus moradores, especificando que
ambos consentem sobre esse ato, não existe motivo para que esse proprietário não
houvesse de restituir seus moradores.
Outro modo de analisar essa situação, é pela questão contratual, vez que é possível
perceber a ligação entre consentimento contratual e ausência de agressão, se pode objetar
que o ato não seria uma agressão a propriedade propriamente dito, se antes houvesse
algum consentimento contratual por sobre essa relação. O que não implica, obviamente,
que aqueles que não consentiram com esse contrato estejam sob suas regras19.

18
Poder-se-á contestar essa informação, utilizando-se de argumentos sobre mão de
obra, como uma pessoa contratada que manteria esses locais. Porém, como deveria
ser evidente, em uma situação na qual a propriedade se torna vasta o bastante para
fazer com que as pessoas fiquem sem territórios o bastante para se apropriar, os
custos de manter tais empregados seriam elevados as alturas. Outra possibilidade
seria se as pessoas em questão não aceitassem o trabalho, e, ao invés disso,
simplesmente resolvessem também se apropriar da terra, de forma que
eventualmente a propriedade desse latifundiário acabaria sendo fragmentada.
19
Dada a natureza das relações sociais humanas, não é de se surpreender que as
pessoas sob esse vínculo contratual obtivessem filhos (ou mesmo que já tivessem,
mas que os mesmos fossem demasiadamente pequenos para sequer saberem das
Anunciados esses dois argumentos interessantes sobre essa questão (que é basicamente
irrelevante, visto que são apenas conjecturas sobre a ação humana), passemos ao próximo
tópico.

Restituição vs. Retribuição

Uma outra área que causa bastante confusão em muitos libertários, é a área das posições
a serem tomadas em relação a violações éticas, e sobre isso falaremos agora.

Antes de mais nada, quando tratamos de violações da ética libertária, temos de separar as
medidas a serem tomadas em duas categorias, são elas:

Restituição → Restituição é o pagamento de uma violação, uma forma mais civilizada

de ação punitiva, que envolve o agressor ceder algo para o agredido, de forma que o

uso de força física contra o agressor seja descartado/diminuído.

Retribuição → Retribuição pode ser caracterizada como uma forma de devolução de

força, podendo ser tanto punição posterior ao crime, quanto algo que se pode se

mostrar necessário em uma retaliação em casos de ameaça e/ou agressão20. (diga-se


que retaliação se enquadra como forma de retribuição sobre situações de risco aqui)

O ônus da prova de demonstrar que determinada punição é ou não proporcional recai


sobre o agressor.
Resumidamente, na situação em que um agressor achar que a punição infligida a ele foi
ou não proporcional, além das situações gerais de instâncias comuns a serem levadas em

decisões de seus pais), esses filhos, por não possuírem vinculo contratual com o
dono da propriedade, estariam fora dessa relação contratual (o que não implica que
ele não poderia expulsar as crianças do local, desde que com o mínimo de violência
necessário).
20
É importante notar que aqui a retribuição e restituição são ambas formas de
punição, apenas possuem propriedades distintas, de forma de categorizá-las
diferentemente se mostra adequado.
conta21, situações que carregam muita subjetividade em seus julgamentos levam a uma
maior dificuldade de mensurar proporcionalidade22, porém, sendo elas causadas pelo
agressor e não pela vítima, recai sobre o agressor demonstrar que a punição advinda da
vítima é desproporcional e injusta e não a vítima.

Como demonstrado na imagem acima, a diferença entre restituição/retribuição é melhor


explicitada ao separarmos retribuições de danos físicos de restituições sobre recursos,
nessa imagem apenas se explicitam os casos posteriores ao crime crime.

Tratando-se dessas duas posições, falaremos um pouco sobre a retribuição,


especificamente sobre como ela seria ministrada em situações de punição e/ou retaliação
direta (em casos de ameaça a integridade física de alguma propriedade).
Em seguida, explicaremos algumas das características de ambos os modos de punição, de
modo a demonstrar que determinadas formas de punição podem sobrevaler-se em relação
a outras, e como algumas formas de determinação da proporcionalidade podem não ser
exatamente objetivas, ao se considerar determinados casos (já falado sobre em uma nota
anterior, será melhor explicado a seguir).

21
Situações gerais de crimes comuns, e que podem ser objetivamente mensuradas
punições, e.g. Roubo de um chiclete não seria, em casos normais, compatível com
uma execução, porém uma execução ou tentativa de execução da vítima sim.
22
Situações que não possuem mensuração demasiadamente objetiva em relação a
suas punições, podem acarretar nessa situação, estas que podem variar de diferenças
de habilidades corporais, até a sentimentos psicológicos subjetivos da vítima em
relação a situação imposta a ela pelo agressor. (Nessas situações onde o agressor
acaba por ter de provar a desproporcionalidade de sua punição, cabe a contratação
de algum filósofo ou jurista, por exemplo), Para mais informações consulte o artigo
de Stephan Kinsella: Punishment and Proportionality: The Estoppel Approach
Sobre a Punitividade Retributiva

A punitividade retributiva, como anteriormente falado, se refere a punições posteriores a


crimes e/ou retaliações que ocorrem durante crimes / enunciação de crimes. Dividir-se-á
então as duas questões em pontos específicos:

1. Retaliação Imediata

A retaliação imediata (relembrando que se prostra aqui como sinônimo de uma possível
autodefesa sobre situações de risco/agressão), possui como característica ser, na maioria
dos casos de ameaça de agressão / ocorrência continua de agressão (ambas formas de
agressão), subjetiva, tanto estados mentais psicológicos causados pelo agressor quanto
características físicas dos indivíduos envolvidos na situação de conflito podem interferir
na determinação do que pode ou não ser considerado proporcional durante uma retaliação,
sendo assim a vítima possui a maior reivindicação sobre seus atos durante a situação do
que o agressor, de forma que a responsabilidade do ato per se não é da vítima, mas dele23.

2. Retaliação Posterior ao ato

A retaliação posterior ao ato (nesse ponto se torna uma forma de punição do crime que
já ocorreu, e não apenas uma forma de autodefesa) ocorre quando a vítima de um crime
exige certa punição para com o agressor, de forma que, por exemplo, alguém que teve as

23
Isso pode ser melhor ilustrado ao se pensar em uma situação de risco, como
alguém apontando uma arma para você, uma ameaça de morte, normalmente não
seria possível, por exemplo, dizer que absolutamente todas as pessoas estariam
apontando a arma com a intenção de matar seu alvo (considere, por exemplo, uma
situação onde alguém lhe pregaria uma peça, por algum motivo bizarro, rs), porém,
devido à periculosidade da situação, agregado a possível alteração do estado
psicológico do indivíduo agredido, poder-se-á defender uma resposta a nível por
sobre a agressão, de modo que o indivíduo agredido possa sobreviver.
mãos cortadas, pode vir a exigir que seu agressor também as tenha24, e alguém que teve
o celular destruído, pode vir a exigir que o celular de seu agressor também o seja25.

Quando pensamos em uma situação de punição, cabe-se (como explicitado nas notas da
página anterior) que seja possível descrever uma punição que nos leve a certa
proporcionalidade, porém nem sempre isso é algo possível26, e algum nível de alegação
pode vir a ser exigido, considerem o seguinte exemplo:

Individuo X roubou uma caixa de leite de indivíduo Y

Muito embora esse exemplo pareça tornar simples uma determinação de


proporcionalidade, poder-se-iam existir variáveis que mudariam o rumo de possíveis
punições proporcionais.
Digamos assim, se o indivíduo Y precisasse da caixa de leite para alimentar seu filho
recém-nascido, e que a única forma de o fazer fosse utilizando essa caixa de leite. E, por
conta do roubo da caixa de leite ter sido roubada por X, o filho de Y acabou vindo a
falecer.

Essa simples inserção de informação nos leva a possibilidades de análise totalmente


novas, o ato deliberado de roubo que X cometeu, levou a morte de uma pessoa, X é um

24
Muito embora, no caso de quem teve as mãos cortadas, poder-se-á objetar por
uma punição mais rigorosa, no caso de um pintor por exemplo, que precisa de suas
mãos para que possa se sustentar, de forma que seja ideal cortar ambas as mãos do
agressor, ou mesmo todos os seus membros.
25
No caso de uma destruição de propriedades externas ao corpo, pode vir a ser
preferível pelo proprietário em questão que ele tenha uma restituição, muito embora
a restituição apenas seja a forma de se reaver o que foi perdido, e não uma punição
per se, portanto é possível que a vítima também exija uma recompensa adicional
como punição para o criminoso.
26
Muito embora seja interessante citar, ao menos de forma branda, que existem
certos tipos de crimes com determinadas linhas de proporcionalidade objetivamente
definíveis, embora não sobre todos esses casos essa determinação de proporção seja
precisa, devendo-se então levar a análise os casos como ocorrências individuais.
Tome como exemplo de eventos com punições retributivas claramente demarcáveis
o assassinato e o roubo de uma caixa de fósforos, nos fica claro que o assassinato
possui como punição possível o assassinato, o que não cabe ao roubo da caixa de
fósforos (as possibilidades de exceção de casos assim ainda serão tratadas).
assassino, e agora novas formas de punição tomam ares de possibilidade, como por
exemplo, a morte de X27.

Dever-se-á, em casos como esses (obviamente incluindo variações de menor grau, e


mesmo outros casos), que a vítima determine o quanto de punição possa vir a ser aplicado,
sendo tarefa do agressor, e não da vítima, buscar por uma proporcionalidade punitiva28
(já explicado anteriormente de forma branda sobre a questão da retaliação durante o ato,
estender-se-á a prévia explicação a essa nova forma punitiva).

Sobre a Punitividade Restitutiva

Agora sobre a questão da restituição, temos que é interessante considerá-la uma forma,
como diria Kinsella, mais civilizada de fazer as coisas. A restituição, como anteriormente
explicitado, é a forma de punição que envolve o retorno de determinado recurso a vítima
de um crime, de forma a amenizar (ou quitar) seu crime, tomemos o seguinte exemplo
como norte:

X pessoa rouba 10.000,00$ de Y pessoa.

Pode-se esperar que, em determinadas circunstâncias padrão, com as variáveis


normalizadas, que a restituição para esse crime venha a ser a devolução dos 10.000,00$
a vítima. Porém esse ato não é realmente uma punição, poder-se-á dizer que se trata de
uma restituição, sim, porém, estamos tratando aqui de um tipo especial de restituição, as
punitivas.

27
Um grande problema com a ideia de punição retributiva, e mesmo a restitutiva, é
que a punição pode nunca vir a ser proporcional, e que a vítima não realmente se
satisfaça de alguma forma com a punição (retributiva), de modo que alguém com a
mão cortada não realmente ganharia sua mão de volta ao cortar a mão de seu
agressor (isso não implica que a punição não tenha um motivo, ou seja, efetiva). E
nos casos de restituição, uma proporcionalidade pode também nunca vir a ser
efetivada, pois quantidades de valor material podem não repor um dano psicológico
ou corporal, apenas confortar a vítima.
28
Como na questão do pintor que teve suas mãos cortadas, ou do homem que teve
a caixa de leite que era vital para seu filho furtada, poder-se-ão essas vítimas
requererem a punições decididas por si mesmos, cabendo ao agressor e não a vítima
a questão de tratar se a sentença é ou não proporcional.
Ao contrário do simples ato de devolver o recurso roubado a vítima, que deveria apenas
ser classificado como restituição da vítima, a punição restitutiva pode ocorrer de formas
diferentes, como a vítima obtendo mais 10.000,00$, ou até mais, cabendo, como dito
anteriormente, ao agressor se defender dessa condenação.

Agora, tomemos um outro exemplo, dessa vez um exemplo um pouco mais grave (eu
pessoalmente diria extremamente mais grave, rs):

X estupra Y

Nesse exemplo, digamos que o padrão em determinada sociedade libertária, seja o


pagamento, digamos assim, de 1M$ (M = Milhão) a vítima desse tipo de crime horrendo.

Porém, esse valor não necessariamente reflete uma punição proporcional ao ato, e de fato,
as variáveis contam mesmo aqui, desde os sentimentos subjetivos e estados psicológicos
da mulher estuprada, até questões sobre o estado financeiro do estuprador29.

Supondo-se, por exemplo, que o estuprador fosse bilionário, 1M$ não seria uma grande
perda para ele se fosse apenas uma questão de pagar, porém, talvez, fosse negociável que
arrancassem suas pernas e braços, ou que o torturassem lentamente, ou simplesmente que
ele entregasse metade de seu dinheiro (ou mesmo todo ele), de forma à ao menos tentar
convencer a vítima.

E no caso de um agressor sem muitos recursos, poder-se-á fazê-lo de escravo até que
pague suas dívidas, ou mesmo fazer as agressões físicas que citei acima, como antes dito,
é dever do agressor e não da vítima determinar que uma punição é desproporcional.

Libertários são apenas contra Agressão e Ameaças Diretas

Essa é uma outra questão que permeia o pensamento libertário a um bom tempo, algo só
pode ser punido se puder ser classificado como violação física iminente ou violação per

29
Os argumentos apresentados no tópico sobre retribuição punitiva podem ser
aplicados mesmo em estupro, principalmente a questão sobre a proporcionalidade
inalcançável, vez que o estuprador não necessariamente poderia obter uma punição
que fosse equivalente ao causado na vítima (mesmo um estupro para esse estuprador
não equivaleria ao ocorrido com a mulher, visto que seus corpos são diferentes, bem
como seus estados psicológicos).
se, incluindo que apenas aqueles que estiveram diretamente envolvidos com a agressão,
possam ser considerados culpados.

A grande questão sobre isso, é que atos de agressão/violação podem ocorrer mesmo
quando indiretamente causados, bem como quando ameaças não diretas são firmadas30.

Para que possa ser feita uma melhor relação, vamos tratar de ambos os casos
separadamente.

– Ameaças Indiretas –

Como anteriormente dito nesse capítulo durante uma nota de rodapé, ameaças diretas e
imediatistas são um ponto de retaliação valido da vítima por serem uma alteração de
estados psicológicos causais, onde as ações do agressor tomam as possibilidades de ação
da vítima, até que somente sobre uma possível reação.

Porém, não apenas a ameaças diretas se vale uma reação de retaliação retributiva, poder-
se-á também retaliar contra ameaças indiretas, de forma que estas são também formas de
agressão, embora menos físicas31, para exemplificar, tomemos a seguinte questão:

“Um chefe mafioso chamado Charlattone ameaça o indivíduo Jefferson de morte em uma
semana, caso o mesmo não saia da cidade.”

Nessa situação, fica clara a questão da retaliação, Charlattone, ao ameaçar Jefferson,


tomou como válido o curso de ação possível onde ele mata Jefferson, se a condicional,

30
Ameaça direta assume aqui uma conotação de iminência e materialidade, tome
como exemplo alguém apontando uma arma para sua cabeça.
Já uma ameaça indireta poderia aqui ser definida como atos de fala com
intencionalidade aberta a possibilidade de ação por sobre o alvo, tome como
exemplo uma ameaça de morte.
31
Ameaças se tornam formas de agressão na medida em que são também formas
de planejamento de ação, poder-se-á dizer que durante uma ameaça de morte por
exemplo, o agressor em questão está legitimando, dentro de todos os cursos de ação
possíveis para esse indivíduo, uma violação à vítima, e, portanto, restringindo o
número de possibilidades de ação da vítima, de forma que a retaliação se torna uma
das formas de autodefesa evidentes como curso de ação.
Para mais detalhes sobre ameaças verbais desse nível, consulte o capítulo sobre
direito, no tópico acerca da liberdade de expressão.
sair da cidade, não for satisfeita. Bem como, ao tomar esse curso de ação como valido,
Charlattone também restringiu o curso de ações de Jefferson, de modo que agora as
opções que ele possui para que não seja efetivamente morto são apenas:

A. Sair da cidade

B. Eliminar a ameaça que Charlattone de algum modo (considere que exista alguma
forma possível de o fazer)

Desse modo, Charlattone é um agressor de Jefferson, que agora está coagido a escolher
entre apenas duas opções (limitadas ao escopo do exemplo) para que possa sobreviver,
para que não tenha sua autopropriedade violada. Poder-se-á, portanto, dizer que Jefferson
pode legitimar o curso de ação em que ele “cuida” da ameaça que Charlattone representa,
e Charlattone não poderia objetar contra esse curso de ação, visto que ele mesmo já havia
o legitimado, ele é estopped32 de fazer isso.

Na imagem acima, podemos observar mais claramente os cursos de ação que Jefferson
poderia tomar, por conta das ações agressivas de Charlattone.

32
Estopped é um termo utilizado na teoria punitiva libertária Estoppel, que advoga
por uma incapacidade do agressor de negar seus próprios fatos, venire contra factum
proprium (ninguém pode negar seus próprios atos). Para mais informações sobre o
Estoppel, leia o capítulo Justiça, tópico O Estoppel.
Encerrada essa questão, partamos para a próxima.

– Culpabilidade Indireta –

Esse tópico já se torna mais complexo de elucidar, tendo em vista que é demasiadamente
controverso no meio libertário, variando de determinados autores para outros
determinados autores, porém, por motivos de consistência, colocarei aqui a posição de
Stephan Kinsella, desenvolvedor da teoria punitiva libertária, Estoppel.

Tomemos o seguinte exemplo (retirado do artigo Causation and Agression, de Stephan


Kinsella), para que possamos dissecá-lo e compreender a questão:

“Um terrorista (atribua-o a X) envia uma bomba em uma caixa para alguém, sendo
transportado e entregue por um carteiro (este será Y), ela chega ao alvo, em seguida, após
recebê-la e entrar em casa, o alvo (chamaremos no de Z) abre a caixa, e, como resultado,
ela explode, matando Z.”

O responsável do exemplo acima claramente é o terrorista, muito embora posso pensar


que algum libertário que diga que não existe causalidade quando intervenientes interagem
no evento, sendo assim eu poderia dizer que o carteiro é o criminoso? Ou quem sabe, a
vítima, afinal foi de livre deliberação dela abrir a caixa com o explosivo, foi um suicídio!

Não creio que preciso dizer o absurdo do que acabo de dizer, mesmo que a caixa tenha
sido entregue pelo carteiro, e mesmo que a vítima seja quem tenha aberto a caixa com o
explosivo, a culpa dessa relação de eventos causais é do terrorista, que à enviou, que
utilizou o carteiro de meio para atingir seu fim.

Poder-se-á dizer que pessoas não podem ser utilizadas como meios, porém, como acabo
de explicitar, e darei outro exemplo a seguir, isso não é verdade, muito embora não
possamos (a menos que isso envolva coerção, mas não estamos tratando desses casos
ainda) controlar as ações de indivíduos, pois estes possuem livre deliberação, ainda assim
podemos utilizar deles como meios para nossas ações, para que atinjamos nossos fins, o
que, obviamente, não remove a culpa ou responsabilidade desses indivíduos33, vejamos
agora outro exemplo:

“O líder de uma nova seita religiosa (será chamado de X) ordena a um de seus seguidores
que rapte e esquarteje uma pessoa. Seu seguidor (será atribuído a ele o símbolo Y) o faz,
raptando e matando uma pessoa (denominada como Z).”

Como pudemos perceber no exemplo anterior, muito embora tenha sido um ato de livre
deliberação de Y matar Z, não exclui-se o fato de que X empregou-o como meio de ação,
e que Y empregou também meios para concluir sua ação de matar Z, o fato de ambos
terem livre-arbítrio, ou de que as ações do líder da seita não tenha direta ligação com o
ato ocorrido (direta no sentido de ser aquele que matou) não muda esses fatos, portanto,
poder-se-á, nesse caso, atribuir a culpa criminal do fato a ambos, líder e seguidor.

33
Muito embora dever-se-á notar que o carteiro em questão, embora parcialmente
responsável, não é realmente um agressor, tendo em vista que a estrutura da
agressão seja o emprego de meios (que podem ser meros objetos, mas também
outros atores, com ou sem seu conhecimento) calculados para causar uma violação
das fronteiras físicas de uma pessoa não agressora ou sua propriedade.
Agora que terminamos essa questão, devemos ressaltar que, embora existam casos onde
a aplicação da culpa e relacionamento de causalidade seja relativamente simples de traçar,
não em todos os casos assim o seria, todos os casos são diferentes, ocorrem em
circunstâncias diferentes, e portanto, devem ser analisados de maneiras diferentes,
individualmente, a cada um com sua própria análise.

Passemos então para a próxima questão, que incluíra a substancial análise de casos
polêmicos e controversos entre os libertários, relacionados com a questão de causalidade,
culpabilidade e punibilidade em algumas relações.

Nas Obrigações Positivas

Agora, um de nossos assuntos que mais controversos, variando sobre inúmeros pontos de
vista, a questão das obrigações, deveres positivos, bem como existem libertários que dirão
que isso não pode existir, também existem os que dirão que podem (como o próprio
Kinsella), e, como demonstrado durante boa parte desse capítulo, estou seguindo esta
linha, e, como esses argumentos ainda não foram respondidos devidamente, creio serem
uma posição sólida o bastante para que continuemos.

Primeiramente, o que diferencia obrigações positivas de negativas?


Bom, para começar, obrigações negativas são obrigações que lhe compelem a não fazer
algo, a se abster de algo, ao passo que obrigações positivas34, ao contrário desta última,
nos compelem a agir de forma positiva, fazer algo.

Alguns exemplos de ambos os casos:

– Obrigações Negativas

Não invada

Não atravesse as delimitações de propriedade

Não use sem o consentimento do proprietário

– Obrigações Negativas (Se produto de ações deliberadas)

Por crime (restituições, por exemplo)

Por causalidade direta (empurrar alguém em um lago, por exemplo, o que não
ocorre se a pessoa em questão tiver caído sozinha, ou outra pessoa a tiver empurrado)

Por causalidade indireta (gerando um filho → obrigações parentais [mais sobre

isso depois])

Dissecaremos agora algumas das obrigações positivas mais controversas (alguma


possivelmente nem tanto).

34
Muito embora, dever-se-á ressaltar que obrigações positivas, ao contrário do que
dão a parecer, funcionam basicamente do mesmo modo que obrigações negativas
para um libertário. Estando no mesmo campo da propriedade privada, as obrigações
positivas são formalidades abstratas para o que seria um impedimento de violação de
propriedade, vez que não cumpri-las acarreta em violações, como a pessoa jogada no
lago, que pode acabar vindo a morrer, aumentando sua punibilidade criminal.
O Caso do Lago

De longe uma das melhores maneiras que posso pensar para ilustrar essa questão, o caso
do lago é uma das melhores exemplificações de obrigatoriedade positiva (e também é um
dos exemplos muito usados por Kinsella), mas, como esse caso funciona? Veja o
exemplo:

“Rothgerald e Bricks estavam no na borda um lago com uma cachoeira, fazendo uma
expedição, quando de repente, Rothgeral resolve, em um ato maléfico, empurrar Bricks
(que não sabe nadar) diretamente ao fundo do lago em que a cachoeira deságua.”

Nesse exemplo, Rothgerald acaba de contrair uma obrigação positiva para com Bricks,
por conta de seus atos deliberados, agora Bricks se encontra em uma situação de
dependência e, se vir a morrer, agora Rothgerald não apenas seria culpado pelo estado de
dependência de Bricks, mas também por sua morte35 (aumentando absurdamente sua
pena, pois é um crime capital).

Portanto, a solução para que Rothgerald possa se livrar dessa pena capital, é salvar Bricks
de seu destino (criado por Rothgerald), resgatando-o do lago.

35
Ao contrário do que se possa pensar, violações de propriedade não estão restritas
ao direto momento do ocorrido de uma ação causal (veja os exemplos dados em
outras situações pelo capítulo), ao contrário, podem se develar durante diversos
outros momentos, entre diversas outras ações intermediarias (como no caso do
terrorista e a bomba, ou do líder da seita religiosa e, nesse caso específico, das ações
de Rothgerald que acarretaram a situação de Bricks).
O Aborto

Nesse ponto, chegamos a um dos casos que cria gigantesca controvérsia no


libertarianismo, de um lado, com defensores ávidos do aborto, de outro, fortíssimos
argumentos contra o mesmo. Agora exporei uma visão causal baseada em princípios de
responsabilidade e obrigatoriedades positivas (anteriormente explicadas) para justificar o
motivo do aborto ser um ato anti ético (exceto em uma circunstância, que também
explicarei).

O ato de gerar uma criança, é, antes de qualquer coisa, um ato de responsabilidade, um


ato de vontade, quando um casal se relaciona sexualmente, e desse relacionamento surge
uma criança, não é um algo não possível, não é um algo não causal, os atos intencionais
e deliberados de dois indivíduos causaram eficientemente uma vida no mundo, não
importando se foi ou não um acaso ou uma exceção a regra (no caso de uso de
anticoncepcionais), a responsabilidade causal que o ato carrega, ato voluntário, e
absolutamente distinguível de um ato não deliberado (estupro), é a da criação de um ser
de direito, ser esse que fora lançado no mundo, em uma situação de dependência,
dependência para com seus geradores. Poder-se-á dizer que o ato de aborto36

36
Vale lembrarmos que, quando o termo sendo usado é aborto, estamos apenas
descrevendo a situação de interrupção da gravidez que acarreta / causada pela morte
da criança. É perfeitamente possível justificar um ato de aborto, se esse for
Agora, qual a situação onde não podemos imputar essa obrigatoriedade? Simples, o
estupro, um ato deliberado apenas por uma pessoa, que ainda assim gera uma criança,
porém que não contém relações causais com a mãe. Para explicar melhor a diferença das
duas situações (deliberação e estupro), siga os dois exemplos:

1. X pessoa sequestra Y pessoa e a leva para uma cabana em uma situação com uma
forte e letal nevasca.

2. Z pessoa joga Y pessoa na cabana de pessoa X durante uma forte e letal nevasca.

Em ambos os casos, Y pessoa se encontra em um estado de dependência de X pessoa,


como se pode ver, porém, apenas em um dos casos, o caso em que X pessoa sequestrou
(leia-se foi responsável causal pela situação de Y pessoa) Y, que existe a obrigatoriedade
positiva de manter essa Y pessoa ali dentro, inclusive mantendo-a viva, pois sem as ações
deliberadas que X tomou e levaram Y a ficar nesse estado, Y não estaria nessa situação.

Já no segundo caso, a culpa da situação de Y, não é de X, porém apenas de Z, se Y morrer,


não recaí sobre X a responsabilidade criminal, mas sim sobre Z, de forma que X pode
perfeitamente, nessa situação e se assim o quiser, expulsar Y de sua propriedade.

Da mesma forma funciona a gravidez fruto de atos deliberados de ambos os pais com
reais consequências, e a gravidez fruto de atos deliberados de apenas um dos pais (o
estuprador), sendo que suas subsequentes consequências apenas recairiam sobre este, se
a mãe resolvesse abortar nesse caso, não se poderia objetar sobre suas ações, apenas
responsabilizar o “pai” pelo destino de seu filho.

Responsabilidades Tutelares

Outro ponto que causa demasiada intriga entre os libertários, é a questão das
responsabilidades de tutela, as responsabilidades existentes na efetiva criação de um filho,
e sobre isso, seguindo novamente a mesma linha de quase todo capítulo, de
responsabilidades causais, discorrerei a seguir.

concebido como apenas a interrupção da gravidez sem a morte da criança, como no


caso de, em algum futuro próximo talvez, existir uma tecnologia que permita esse
ato sem acarretar em danos para a criança.
Colocar uma criança no mundo traz responsabilidades, responsabilidades essas que são
frutos de seus atos causais, atos que vieram a colocar essa criança como efetiva
dependente de seus pais, que existem naquele momento do espaço e do tempo. Vejamos
um exemplo, para esclarecer essa explicação:

“Toreau acaba, como resultado de seus atos deliberados, fraturando as mãos de seu amigo
Oichi, que é um programador, e depende delas para sobreviver, como resultado, e pelo
fato deles serem amigos37, Toreau fica a cargo de cuidar de Oichi até que o mesmo possa
se recuperar dessa fratura, sendo responsabilidade legal de Toreau que alimente e ajude
Oichi até o momento de sua ‘alta’”.

Em uma situação em que Toreau não cumprisse com essa responsabilidade, e deixasse
Oichi morrer de fome ou qualquer outra necessidade de dependência, dependência
causada exclusivamente em alguma instância pelas ações de Toreau, o mesmo poderia
ser responsabilizado com uma pena capital, ou equivalente a tal.

Do mesmo modo funcionam as relações causais entre pais e filhos, sendo


responsabilidade legal que os mesmos cuidem de suas crias até que elas possuam
capacidade legal de se autodeterminar, de se desprenderem dessa necessidade de
dependência38.

37
Não implicando que apenas exista essa relação em casos de amizade, apenas
ressaltando que, por eles terem essa amizade, Oichi resolve não pedir uma
restituição monetária gigantesca ou punições retributivas violentas para Toreau, mas
apenas essa ajuda. (Esse exemplo é apenas analogo a situação da criança, pois, Oichi
tem a opção de acabar por pedir uma restituição financeira, ou uma punição
retributiva para Toreau, o que não existe no caso da criança, tendo em vista que a
mesma se encontra em uma situação de dependência exclusiva de tutoria).
38
Tendo em vista que essa independência é um caso de análise, e não exatamente
fora delimitado em que momento a criança estaria em uma situação de
independência (Hans-Hermann Hoppe por exemplo, afirmaria que essa situação se
dá quando a criança possui a capacidade de fugir e dizer não a possíveis tentativas
de recaptura), poder-se-á dizer que não é uma questão fechada no meio libertário.
Porém, assim como com as demais questões, a visão que me parece mais qualificada
para gerar essa delimitação, vem da teoria do desenvolvimento moral de Kohlberg.
Agora que falamos da tutoria, das responsabilidades legais de pais para com seus filhos
(desde que responsáveis causais pelo estado dos mesmos), falaremos de uma subquestão
desse tópico.

Transferência de Guarda

Quando se fala em responsabilidade legal, poder-se-á também falar sobre a venda ou


doação da guarda (tutela) de uma criança, de modo que a mesma possa vir possivelmente
a receber um lar melhor que o anterior (?).

Afirmando-se que é perfeitamente possível uma transferência de guarda, devo deixar


salientado que, mesmo nessa instância, ainda é possível atribuir responsabilidade causal
de seus tutores originais para com seus novos tutores, de modo que a transferência de
guarda, se feita de tal modo que se suceda da morte da criança (digamos que os pais
tenham-na vendido para um psicopata, por exemplo), a responsabilidade causal recaia
tanto nos assassinos quanto nos tuteladores originais.

Para que essa questão se torne mais clara, veja uma ramificação do exemplo anterior:

“Toreau, ao invés de cuidar de seu amigo, pediu para que outra pessoa, chamada Febrette
o fizesse, pois precisaria de sua casa completamente durante aquele tempo (por quaisquer
motivos que sejam). Porém, essa pessoa acabou deixando que seu amigo Oichi morresse.”

Nesse caso, Toreau agora é responsável pela morte de Oichi, ao passo que Fabrette não
poderia ser assim responsabilizado, pois não possuía essa cadeia de responsabilidade que
Toreau possuía39.

39
Dever-se-á notar que Fabrette não possui a mesma responsabilidade causal de
Toreau, que causou o estado de dependência de Oichi, porém, isso não exclui
quaisquer violações que Fabrette cometa, como no caso específico em que ele
resolve matar Oichi, ainda existe uma violação, e ambos, Fabrette e Toreau,
acabariam por serem responsabilizados pela situação final de Oichi.
REFERÊNCIAS

Stephan Kinsella, ESTOPPEL: A NEW JUS'TIFICPLTION FOR INDIVIDUAL


RIGHTS;
A LIBERTARIAN THEORY OF CONTRACT: TITLE TRANSFER, BINDING PROMISES,
AND INALIENABILITY; PUNISHMENT AND PROPORTIONALITY: THE ESTOPPEL
APPROACH;
CAUSATION AND AGGRESSION.
PARTE IV:
DA
ESTRATÉGI
A
Os Caminhos

Da ilegitimidade do estado

O estado é personificado por um punhado de burocratas que facilmente poderiam ser


guilhotinados se o povo assim quisesse. Fossem os parasitas muitos, já haviam matado o
hospedeiro, é fato que o parasita depende do hospedeiro para sobreviver, portanto é
necessário que o estado seja composto por um número muito menor de pessoas do que as
que são exploradas. Mesmo com o apoio de um exército, o estado ainda está em grande
desvantagem numérica.

Pois bem, o que então mantém o estado como detentor do monopólio jurídico, sendo ele
o maior agressor da justiça e da liberdade? As pessoas apoiam decisões se elas virem que
elas forem justas e morais. Ou seja, se as pessoas enxergarem que as ações praticadas
pelo estado forem justas e morais, elas dão legitimidade ao grande leviatã. O estado, ao
deter legitimidade aos olhos de seus subordinados, não corre o risco de uma revolta e de
ser aniquilado enquanto ele pratica suas várias agressões. Até mesmo que o estado fosse
aniquilado por uma revolução armada, se as pessoas continuarem vendo a necessidade e
legitimidade de um estado, logo outro, provavelmente mais agressor, seria posto em
prática.

Dessa forma, podemos constatar que a batalha contra o estado não é uma batalha de
armas. O campo de batalha é intelectual, ele existe na mente de cada uma das pessoas.
Não surpreendentemente, o estado alicia os meios intelectuais para propagar sua falsa
legitimidade. Desde criança, somos expostos à doutrinação estatal por educação
obrigatória, intelectuais comprados, mídia tendenciosa e dependência de programas
governamentais.

Os ataques mais contundentes ao estado são aqueles que deterioram sua falsa
legitimidade. O humor tem a capacidade de transformar as maiores atrocidades e
agressões em riso, por um momento conseguimos olhar além do nefasto e rir da
absurdidade. Hans-Hermann Hoppe pontua de forma precisa:
O estado presume que você deve respeitá-lo, que você deve levá-lo muito a sério. Hobbes dizia que era
algo muito perigoso o fato de as pessoas rirem do governo. Portanto, tente sempre seguir a seguinte regra:
ria e zombe do governo o máximo possível (HOPPE, 2010).

Jordan Peterson uma vez disse em uma palestra que os humoristas são os canários na
mina de carvão da liberdade de expressão. Quantos humoristas já receberam processos
por engravatados que se sentiram ofendidos por serem expostos pela luz do humor? O
bobo da corte é o único que pode falar a verdade para o rei. Quando o bobo da corte é
morto por falar a verdade, sabemos que estamos vivendo na pior das tiranias
(PETERSON, 2018).

Breves comentários a respeito das estratégias

Após elucidarmos brevemente a respeito do alvorecer da liberdade, é possível afirmar


que o libertarianismo é a filosofia política correta e ética - sem titubear. De certo que,
outrossim, torna-se uma responsabilidade moral para aqueles que são amantes e
conhecedores da filosofia e da ética (esta última como ramo da filosofia) criar a ponte
entre o ideal e o real; é necessário tirar o libertarianismo do mundo das idéias para um
mundo tangível. Para isto se tem as estratégias, o caminho para a liberdade. É correto
afirmar, também, que as estratégias nada mais são do que ferramentas, e assim como
todas as ferramentas é necessário usá-las da forma correta - Ora, posso muito bem utilizar
de um martelo (i. e. uma ferramenta) para martelar um prego; como posso utilizá-lo para
agredir outrem - Para utilizar as estratégias da forma correta é necessário dissociar os
maus agentes, dos bem intencionados; ou ainda mais simplesmente, diferenciar o bem do
mau.

Libertarianismo Cultural

Trago, num primeiro cenário, de antemão à dissertação sobre libertarianismo cultural, o


que é a mais importante separação no campo das idéias: a dissociação do pragmático e
do ideológico. Para isso, antes de começar minha elucidação sobre, amparo-me no ombro
da historiadora conservadora Gertrude Himmelfarb, que diz:
Como distinguir os Whigs dos Liberais? Um é pragmático, gradual, sempre pronto para ceder. O outro
pratica princípios filosóficos. Um é um político visando a uma filosofia. O outro é um filósofo buscando
uma política (HIMMELFARB, 1962, p. 209).

Himmelfarb neste breve trecho separa, estupendamente, os pragmáticos - os wings; dos


liberais genuínos - que à altura, o autor quer dizer com libertários (ROTHBARD, 2010).
Enquanto libertários genuínos anseiam por aquilo que deveria ser, independente daquilo
que é, outro é governado pelo acomodamento, e recapitulando a citação acima está
sempre pronto para ceder. Pode-se afirmar, portanto, que os libertários estão
comprometidos com o sistema natural de liberdade.

A cultura possui funções de significação no sentido de sua capacidade para elaborar


experiências contingenciais. Ela é, de certo modo, uma forma de reação antropológica
ancorada no homem, pois se baseia no histórico ou na experiência de vida pessoal. Desse
modo, afirmando isto, há o libertarianismo cultural, acreditando que se o libertarianismo
não ocupar espaços culturais de nada adiantará quaisquer conquistas futuras (ALMEIDA;
PAGLIARIN, 2019). No entanto, devido à comodidade e a ocupação cultural - que
eliminou o outro lado do debate, ocupando os espaços culturais - trazem ao senso comum
a ideia de que o estado é um mal necessário; ou até mesmo (em estado de pasmem e
incredulidade) que o estado deve ser quem oferece os mais diversos serviços econômicos
- o que é de certa forma, uma anulação ao principal motor da economia: o empreendedor
(MISES, 2010). Criando o que chamarei de cultura estatal. E a cultura estatal, como
Huerta de Soto fez muito bem a analogia, como um vírus do ebola (SOTO, 2014); o qual
só tende a crescimento intermitente.

De certo que a transição para uma sociedade libertária não iria ocorrer da noite para o dia,
visto o vírus da cultura estatal presente na sociedade atual. Esta é a natureza da realidade
temporal em que vivemos. Todavia, o objetivo da liberdade imediata não deve ser
considerada algo utópico, porque a sua realização é dependente da vontade do homem,
sem demais restrições. Se, por exemplo, todo mundo repentina e imediatamente
concordasse com as vantagens predominantes da liberdade, então a liberdade total seria
alcançada imediatamente. Em suma, apesar de ser necessária uma conquista cultural, o
libertarianismo não é utopia.
Ademais, após a explanação de que o libertarianismo não é uma filosofia-política utópica,
é necessário elucidar, esclarecer os mecanismos, ou estratégias que utilizaremos para o
alvorecer da liberdade. Antes de tudo é necessário criar uma vacina para o vírus da cultura
estatal - diria que até mesmo retirar o tumor do câncer estatista. Acerca das estratégias e
ferramentas utilizadas para alcançarmos uma sociedade libertária, Hans-Hermann Hoppe
diz:

Como o estado e a doença estatista podem ser detidos? Darei início agora às minhas considerações
estratégicas. Em primeiro lugar, três princípios norteadores ou insights fundamentais devem ser
identificados. Primeiro:que a proteção da propriedade privada e a lei, justiça e a imposição da lei, são
essenciais para qualquer sociedade humana (HOPPE, 2013, p. 25).

Ora, pois, não há uma única explicação que justifique a atividade monopolística de tal
tarefa. O que, por fim, Hoppe completa:

"Na verdade, o que ocorre é precisamente que tão logo se tenha um monopolista se encarregando dessa
tarefa, ele irá necessariamente destruir a justiça (HOPPE, 2013, p.25)"

Conjectura-se, após breve explanação sobre a cultura, , que um libertarianismo cultural


defebde vertentes as quais apresentam teses acerca da modificação cultural para o
alvorecer de uma sociedade libertária. Nesse sentido, pode-se citar o brutalismo e o
localismo. O primeiro termo originou-se a partir do movimento arquitetônico brutalista –
década de 50 e 60 -, o qual defendia deixar a estrutura de edificações visível, a fim de
descartar o uso de adornos desnecessários. Traça-se um parâmetro disso com o
brutalismo libertário; este afirma que uma ideia deve ser defendida partindo do princípio
ético, sem o uso de adornos – isto é, utilitarismo ou apelo à emoção – para justificar uma
proposição. Através de uma cultura brutalista, aos poucos, os argumentos baseados em
humanitarismo se abstraem, fortalecendo a ética libertária como o ponto central de uma
justificação.

A vida intelectual do libertário

Culturalmente, os intelectuais - sejam pensadores ou professores - cumprem papel


augusto para o que seria "a legitimação de um certo pensamento", já que estes
representam no imaginário coletivo o que é o pico da montanha do conhecimento, a
academia. Neste sentido, os acadêmicos cumprem papel fundamental, também, no
libertarianismo cultural.

Todavia, antes de abrir a explanação acerca do papel dos intelectuais no alvorecer da


liberdade, é necessário ressaltar que enquanto mais o estado utiliza da coerção e agressão
o mesmo recorre, fazendo constantes aportes na área do conhecimento, à sociedade
intelectual, à academia. Assim como, àquela altura, houve a invasão horizontal (no chão;
i.e. no campo de batalha) dos bárbaros seja no Império Romano ou na Península Ibérica,
ou nos mais diversos acontecimentos históricos[1], acontece na atualidade do sistema
educacional: uma invasão vertical (essa, além do tangível, cultural) na cultura, animalesca
e fruto de (pseudo)intelectuais que disseminam a desinformação, acabando com o real
sentido do conhecimento; estes acadêmicos são os bárbaros neste cenário. O que torna o
método da academia um tanto quanto vicioso e tendencioso. Acerca disto, Hoppe disse:

Para assegurar a predominância do correto pensamento estatista, um monopolista de proteção irá utilizar
sua posição privilegiada de operador de um esquema de extorsão para estabelecer rapidamente um
monopólio da educação. Mesmo durante o século XIX sob condições monárquicas decididamente
antidemocráticas, a educação, ao menos no nível da educação básica e universitária, já era em grande parte
organizada monopolisticamente e financiada compulsoriamente (HOPPE, 2013, p. 39).

Ademais, corroborando com a tese acima, a educação, quando pública, se torna o modelo
de doutrinação - e independente da doutrinação ser de esquerda ou de direita, é sempre
uma afirmação ao estado, uma doutrinação da cultura estatista. No tocante a isto,
nenhuma outra fala se fez a maior prova gritante da lobotomização que não a seguinte
afirmação de um dos patronos da educação pública:

Jeremy Belknap em um “Sermão Eleitoral” pregado em 2 de junho de 1785, perante o Tribunal Geral de
New Hampshire, idealizou uma educação pública e obrigatória à todos os jovens americanos. Ele apelou
para o exemplo da antiguidade quando, de acordo com Licurgo, onde os jovens deveriam pertencer mais
ao estado do que aos pais (KOHN, 1946, p. 304)

E isto fez com que o sistema educacional se torna-se compulsivo e encarecido. Ao invés
de gastarem milhões sobre temas frívolos e vazios, estariam gastando esse dinheiro de
forma muito mais otimizada com resultados muito mais produtivos à sociedade, de forma
geral. Entretanto, todo esse sistema educacional compulsório agrada muito o ego dos
professores e demais profissionais da área; pois, de certo que o estado gera diversos
empregos nesta área. Caso essa engenharia social sumisse, conjectura-se que diversos
profissionais estariam desempregados, e outros com salários à uma pequena fração
comparado ao atual. Por fim, isto gera em torno do estado, devido aos interesses
econômicos, um muro de legitimação intelectual, por assim dizer. Criando um
desequilíbrio político-ideológico, uma invasão bárbara na educação.

Resumidamente, o alicerce de uma obra é a estrutura da construção em si. Assim, é a


fundação a qual faz com que a obra fique em pé e se sustente até a finalização. Para que
essa estrutura seja segura, há uma série de cálculos e detalhes os quais precisam ser
seguidos à risca, a fim de que não desabe. Desse modo, tanto os cálculos quanto a
construção do alicerce devem ser bem executados. Neste ponto, é perceptível que o
alicerce, ou fundação, é responsável por transferir toda a estrutura da obra para uma área
maior no solo. Na prática, isso significa que é a partir do alicerce que um imóvel se
sustenta no solo. Assim também tem de ser o movimento intelectual para com o
libertarianismo cultural: consistente e embasado. Um ambiente onde o χάος (caos)[2]
esteja estabilizado, que haja separação entre os firmamentos.

Para isso se faz necessário (no libertarianismo cultural) um movimento contra os


acadêmicos, contra a invasão dos bárbaros - não horizontalmente, de forma agressiva
(evidentemente); mas verticalmente, no campo das idéias: já que só estas podem iluminar
a escuridão. Este trabalho contra-acadêmico se dá por meio do debate acadêmico,
produções de diversos artigos e livros, ocupando o espaço intelectual e universitário. Para
isso, de modo análogo, cita-se o slogan da Nike, Just Do It. Apenas faça. De modo
inteligente, mas faça. Pois quem não produz, habitua-se à passividade. É necessário ser
paciente e começar, pois com o tempo virá a prática. Sobre isso deixo um breve trecho
do livro A Vida Intelectual, de Pe. Sertillanges:

O trabalho criador exige ainda outras virtudes. Reúno aqui três das suas exigências que mutuamente se
corroboram, para que uma obra não seja curta nem indigente. Precisamos de trabalhar com constância, com
paciência, com perseverança. A constância mantém-se a pé firme, a paciência suporta as dificuldades, a
perseverança [...] Durante as horas de trabalho intenso, assalta-nos a tentação de interromper o esforço,
desde que o menor incidente traz a languidez e provoca o tédio [...] Nos momentos de inspiração, estas
armadilhas não oferecem grande perigo, porque a alegria da descoberta ou da produção opera como freio;
mas as horas ingratas não se fazem esperar e, enquanto dura, é poderosa a tentação (SERTILLANGES,
2010, p. 167, 168, 169).
E sobre a educação pública e compulsória: evidentemente que para um libertário genuíno,
o sistema educacional não deve ser centralizado, e ainda menos monopolizado. Acerca
de como se daria a educação e da vida intelectual no libertarianismo, apoiar-me-ei no
livro Educação Livre e Obrigatória de Rothbard. Inicialmente diz:

A educação deve ser conduzida num cenário institucional de liberdade, ou deve ser financiada e
administrada compulsoriamente? Esta é uma antiga questão que remonta aos primórdios da filosofia
política, mas que raramente é discutida hoje, no entanto, torna-se especialmente pertinente neste tempo de
aumento da violência e de declínio de valores nas instituições de educação pública. Decidir que o governo
e não a família é o principal responsável pela supervisão da educação da criança pode, num primeiro
momento, parecer uma pequena concessão. Mas [...] não é fácil – e pode de fato ser impossível – controlar
o poder político, uma vez que este ganha o controle da escolaridade. (ROTHBARD, 2013, p. 9)

A educação em massa é uma negação ao protagonismo individual e um dos piores


arranjos para desenvolver de fato a sociedade. Já que existe uma padronização, onde
indivíduos são submetidos aos mesmos testes e julgados por meio disso. E como diz o
ditado: "um peixe jamais deve ser avaliado por sua habilidade de subir em árvores".
Acerca disto, ainda foi dito:

A educação é um processo de desenvolvimento pessoal, padronizá-lo é o mesmo que impedir o


desenvolvimento das pessoas, e esse cenário piora ainda mais quando a educação se torna coletiva. Além
disso, a educação é algo fundamental para a formação cultural da sociedade, e por esse motivo esse é um
setor estratégico para o estado, que ao dominá-lo consegue controlar diretamente a cultura, incluindo
agendas induzidas por governantes e militantes partidários. Assim também, a defesa da manutenção de
certos fatos sociais de ampla aceitação e louvor pelas massas. Isso pode ser visto no mundo inteiro visto
que todos os governantes precisam de uma base de legitimação psicossocial sobre a qual estabeleça as
pautas que defenderá publicamente. A educação obrigatória tem como único intuito criar obediência aos
seus governantes, e a criação de massa de manobra (ALMEIDA, 2019).

A liberdade de expressão como arma contra a represália estatal

A liberdade de expressão deve ser protegida, pois ela é a ferramenta usada no campo de
batalha intelectual. Todo tipo de tentativa a cercear a expressão deve ser identificada e
contida. O estado vai ser sorrateiro, criando leis de discurso de ódio ou uso obrigatório
de pronomes. Tudo isso não passa de uma maneira de controlar o que você pode ou não
falar, e ao controlar o que você pode ou não falar, ele está ultimamente alterando a própria
pessoa que você é. Devemos lembrar que a liberdade está nunca a mais de uma geração
a ser extinta (REAGAN, 1961), se não defendermos a liberdade de expressão hoje, a
próxima geração ao crescer sem liberdade não terá armas para lutar contra o leviatã, é só
ver regimes totalitários ainda existentes como a Coréia do Norte. A China pós-Mao ainda
vive sem saber o que é liberdade, salvo uma região chamada Hong Kong. Uma pequena
dose de liberdade já foi suficiente para gerar uma revolta popular contra a tirania[3].

Nossas crianças são sequestradas pelo estado para centros de doutrinação e lavagem
cerebral. O estado chama isso de escola, mas nós sabemos muito bem o que é isso. As
crianças são a nova geração, as herdeiras desse mundo que herdamos de nossos
antepassados, elas devem ser vacinadas contra a tirania e controle mental do estado. Por
mais que a doutrinação estatal seja obrigatória, a família como instituição tem o dever
moral de educar os filhos, pois o futuro deles depende deles não serem mais uma cabeça
de gado. O arcabouço ético libertário é uma vacina contra os absurdos pregados por
estatistas, a defesa da propriedade privada e a liberdade de expressão permitem que uma
criança questione falsas autoridades presentes na escola. O homeschooling ainda é
proibido no Brasil, mas isso não significa em jogar a toalha ainda, a maioria de nós
estudamos em escolas cujo conteúdo é administrado pelo MEC, ainda assim você está
lendo esse livro.

A educação é condição necessária para o triunfo da liberdade. A curiosidade deve ser


despertada e fomentada, pensadores são uma ameaça ao sistema. Anti-coletivista, o
filósofo tem capacidade de enxergar além das ideologias e questionar o status quo. Ao
debater um esquerdista, você debate uma ideologia personificada, cujo maior antídoto é
o pensamento livre e individualista.

A Internet é vital para a liberdade de expressão. Nunca foi tão fácil, barato e
descentralizado o acesso à informação. Não nos surpreende o fato de estados ao redor do
mundo anseiam a regulamentação e monitoramento da Internet. Fomos alertados há muito
tempo, antes mesmo da Internet existir, sobre o perigo do monitoramento em massa por
George Orwell em seu livro “1984”. A Internet nos permite comunicar e procurarmos
informações de maneira livre e anárquica. Se soubermos que estamos sendo monitorados,
nós já agiremos de maneira diferente. O estado vai utilizar as mesmas desculpas de
sempre, dizendo que eles monitoram pela nossa segurança, mas de novo isso foi provado
mentiroso recentemente com Edward Snowden expondo o programa de vigilância interno
da NSA.

A liberdade de expressão é ameaçada quando a Internet passa a ser regulamentada e


fortemente monitorada. Jogar a Internet fora e recomeçar é muito trabalhoso e
desnecessário, pessoas preocupadas com a liberdade desenvolveram alternativas a fim de
preservar a privacidade online através de algoritmos de criptografia e redes alternativas,
já desenvolvidas com o propósito de segurança contra vigilância. Temos dentre os mais
conhecidos a rede TOR (popularmente conhecida como Deep Web), protocolos baseados
em blockchain como Bitcoin, entre outros. O estado vai tentar associar o uso dessas
tecnologias com bandidagem, alegando que quem usa Deep Web ou Bitcoin são pessoas
ruins, mas a verdade é que eles tem medo e não querem que você nem sequer saiba que
isso existe.

Uma solução de dentro para fora: secessão e autonomia

Após elucidação sobre a estratégia cultural, resta-nos dois insights a respeito: (i) de que
tentar alterar a estrutura educacional atual se torna pragmaticamente insustentável, com
o passar do tempo. Porque seria necessário bater de frente com toda a estrutura estatal já
existente (abro este parêntese para dizer que: devemos sim lutar contra o aparato estatal;
como devemos, também, ser realistas, a ponto de reconhecer a falibilidade de um
plano/estratégia). Além do mais que ao utilizar a via intelectual, de certa forma,
afirmarmo-a. (ii) Nem toda a população, nem educadores e intelectuais, são
completamente homogêneos ideologicamente.

Em contramão à abordagens mais macro, surge uma solução que visa os grupos pequenos.
Seccionando, então, a sociedade.

E para concluir a introdução, tomo de uma citação de Hoppe:

Uma vez que o número de territórios implicitamente separados atingisse uma massa crítica – e cada ação
bem sucedida em uma pequena localidade promoveria e alimentaria a próxima – o movimento seria
inevitavelmente mais radicalizado em um movimento de municipalização espalhado por toda a nação, com
políticas locais explicitamente de secessão e pública e insolentemente demonstrando desobediência à
autoridade federal.
E então, será em uma situação como esta – quando o governo central for obrigado a abdicar de seu
monopólio da violência e da tomada suprema de decisões judiciais, e quando a relação entre as autoridades
locais (em ressurgimento) e as autoridades centrais (prestes a perder seus poderes) puderem ser colocadas
em um nível puramente contratual – que recuperaremos o poder de defender nossa própria propriedade
novamente (HOPPE, 49, 2013).

O estado quer te tornar dependente dele (seja para que você pense sobre ele como algo
justo, ou que torne impossível imaginar como seria a vida sem um ditador; sempre para
perpetuar a cultura estatal. Torna-se, então, difícil pensar como funcionam coisas básicas
como estradas, praças, segurança pública, etc), o estado te torna dependente de um serviço
o qual ele monopoliza, e te faz acreditar que sem ele não o teria. Os burocratas te quebram
as pernas, para depois te darem muletas e dizerem que sem o estado você não andaria. Dê
um peixe a um homem e ele votará em você nas próximas eleições, ensine-o a pescar e
ele nunca mais precisará das migalhas de um burocrata.

A autonomia do indivíduo é um antídoto a toda essa dependência. Podemos levar isso


adiante, defendendo a autonomia de regiões territoriais. O poder de secessão, além de ser
ético, é uma arma contra o estado. Somos forçados a termos uma identidade
compartilhada com pessoas que não são como nós, sob o pretexto de pertencer a uma
“nação”. Baboseiras estatistas, seu livre arbítrio o permite se associar e desassociar de
quem queira. A cultura local, comum entre pessoas, cria o sentimento de pertencer, esse
sim legítimo e voluntário, não forçado por uma lealdade obrigatória à bandeira e o hino.
O livre mercado local, a moeda local, a cooperação local, além de não reforçarem a
legitimidade do estado, ainda a minam.

A segurança é mais um vetor de defesa contra o estado. A soberania individual é


defendida pelo indivíduo bem armado. Além de deixar de depender da proteção da polícia
estatal, você está se protegendo contra as próprias atrocidades que o estado possa te fazer.
Uma comunidade local bem armada, além de protegerem a si mesmos individualmente,
protegem uns aos outros. Lembre-se, ao defender a propriedade e liberdade do seu
vizinho, você protege e reforça as suas próprias.

Sem imposição local, através da complacência das autoridades locais, as determinações


do governo central não são muito mais do que palavras ao vento. Todavia, este apoio e
cooperação locais são exatamente o que precisa estar faltando. Sem dúvida, enquanto o
número de comunidades liberadas ainda for pequeno, o assunto parece ser um tanto
quanto perigoso. No entanto, mesmo durante esta fase inicial da luta pela libertação,
podemos ficar bem confiantes. (HOPPE, 2013, p. 48)

Demais vertentes da ação libertária

O libertário é um devoto da justiça. A lei natural é sua filosofia e seu arcabouço, todas as
suas ações são norteadas pela ética. O objetivo da sua penosa luta é o fim da injustiça e a
alvorada da liberdade.

Por esta razão, o objetivo libertário, a vitória da liberdade, justifica os meios mais rápidos possíveis para se
alcançar o objetivo, mas estes meios não podem contradizer, e com isso enfraquecer, o próprio objetivo
(ROTHBARD, 2013, p. 340).

Talvez pelo próprio fato do libertarianismo estar relacionado com descentralização e


competição em livre mercado, as estratégias libertárias também são muitas e por vezes
antagônicas em alguns sentidos. E quem saberá ao certo qual é a melhor estratégia, e se
quer só devemos usar uma única estratégia?

Podemos observar as diferentes vertentes do pensamento no que se refere a estratégias de


ação libertária. Levando em consideração a base ética intransigente do libertário, é
comum identificar contradições e erros em ações feitas por libertários, e, geralmente,
quem mais identifica e cobra consistência geralmente são outros libertários. Ao leitor fica
a responsabilidade de observar e chegar às conclusões de quais meios são melhores e
éticos por si mesmo.

Princípios: Sobre Fusionismo, Purismo, Gradualismo e Agorismo

A pergunta central aqui é: É ético usar a máquina estatal contra ele mesmo? Pode parecer
uma pergunta simples, mas a resposta tem repercussões extensas sobre o ponto de vista
estratégico.

Se considerarmos que sim, podemos concluir que existam políticos libertários? Veja, o
político é um funcionário do estado, que não está sujeito à competição de mercado e que
não gera riqueza, ele recebe dinheiro por roubo (o leitor já sabe do que estamos falando).
Não seria isso incompatível com a ética libertária? Por outro lado, se o suposto político
libertário revogar leis e diminuir impostos, não estaria criando um saldo positivo contra
o dinheiro que ele se apropria? Essa é a vertente dos Gradualistas. Não é de se surpreender
que seja uma vertente extremamente controversa dentre libertários.

Ao lado dos Gradualistas também se encontram os Fusionistas, que defendem alianças e


parcerias com não-libertários, desde que a meta seja compatível o suficiente com o
objetivo libertário de abolir o estado e defendem a ética de propriedade privada. Podemos
imaginar, por exemplo, que um socialista que brigue pelo direito de usar drogas, por mais
que suas razões não sejam compatíveis com o libertarianismo, tem um objetivo final
compatível com a ética libertária, de usar seu corpo como bem entender.

O Gradualista, ao utilizar a política para obter resultados em curto prazo, pode prejudicar
o movimento libertário ao longo prazo. Ao utilizar o perverso meio político, ele
inerentemente legitima o próprio sistema, quando o objetivo final do libertário é a
extinção do estado. Contra todo tipo de uso de sistemas estatais existe o Purista, que
constata que “Gradualismo na teoria é perpetuidade na prática” (ROTHBARD, 2010, p.
338). Segundo o Purista, os meios graduais são incompatíveis com o libertarianismo. O
Purista é um abolicionista, a liberdade deve ser defendida em sua totalidade, não existe
“meia-liberdade” agora para se ter liberdade completa depois. Não se negocia com o
inimigo. Porém se não pelos meios políticos que podem enfraquecer o estado de maneira
infiltrada, como aniquilar o estado por meios invasores?

No momento em que este livro foi escrito, estamos em um mundo estatizado. Nesse
momento, o Purista apertaria um botão que acabasse com toda a forma de estado se
existisse tal botão. Mas esse botão não existindo, que opções nos restam? O estado por
maior que seja, não consegue abranger e prever toda a ação humana. É possível agir por
baixo dos panos, enganando o estado e diminuindo o alcance de suas agressões.

O Agorismo é a vertente que busca a emancipação do indivíduo em um ambiente estatal,


usando meios que elevem sua soberania. Esses meios são muitos, obviamente
considerados ilegais pelo estado, como sonegação de impostos, contrabando, mercado
paralelo e uso de moedas de curso não-forçado. Em resumo, fazer que o estado acredite
que você segue as regras dele, mas utilizar os furos criados pela enorme burocracia para
se livrar das agressões. O Agorista acredita que ao fazer isso, o estado perde alcance e
que eventualmente vai morrer por inanição.

Estética: Humanitário e Brutalista

Além da estratégia que o libertário adota, as maneiras dele agir podem ser apresentadas
de maneiras diferentes. O libertário pode decorrer de sua ética diariamente, em conversas,
debates, textos. A apresentação do conteúdo pode ter várias formas estéticas, ele pode ser
contundente, persuasivo, hilário, motivacional. Essa é outra dimensão em que os
discursos libertários podem se diferenciar. Mais especificamente, temos duas estéticas
prevalecentes, o Humanitarismo e o Brutalismo.

A ética libertária é radical em algumas de suas conclusões, tanto que não é surpreendente
a resistência acadêmica sobre a filosofia ética libertária. Como uma maneira de expor o
libertarianismo, os Humanitários o adornam, utilizando pautas mais leves como igualdade
e minorias a fim de deixá-lo mais atraente para o público. O Humanitário foca em pautas
como paz e liberdade, por vezes deixando de mencionar as pautas mais radicais como a
defesa de desassociação e discriminação.

O Brutalista, termo inspirado da arquitetura brutalista que utiliza as vigas e o concreto


aparente como parte da sua estética sem uso de adornos, enaltece de maneira contundente
as conclusões mais controversas a fim de não diluir a filosofia libertária. O Brutalista é
politicamente incorreto, dispõe de um arsenal de sarcasmo e por isso é mal visto em
alguns círculos sociais.

O libertarianismo permite que ambos façam sua defesa do libertarianismo, pois eles não
agridem a propriedade de ninguém ao fazê-la. Qual será a maneira mais eficaz de
apresentar a ética libertária? Da mesma maneira que há grande discussão sobre Purismo
e Gradualismo, há uma grande discussão sobre as vantagens de um discurso sedutor
humanitário e um discurso não-diluído rigoroso brutalista. Nas palavras de Rothbard,
“libertarianismo não oferece um modo de vida; ele oferece liberdade, para que cada
pessoa seja livre para adotar e agir sob seus próprios valores e princípios morais.”
Notas dos autores

[1] A história nos relata que houve muitas invasões horizontais de bárbaros; hoje, porém,
vivemos uma invasão vertical de bárbaros, que é a que penetra pela cultura – como se vê
entre intelectuais que insistem em justificar o terrorismo, músicos que defendem uma
vida desregrada ou artistas que zombam da beleza

[2] Caos (em grego antigo χάος, khaos) refere-se a sem forma ou vazio que precede a
criação do universo ou cosmo no mito da criação na tradição grega, ou ao "hiato" inicial
citado para a separação original do céu e da terra da tradição abraâmica (KIRK, 1984).

[3] Hong Kong, após mais de um século como colônia britânica, teve sua soberania
regredida à China em 1997 sob o plano de um país, dois sistemas. Diferentemente do
regime socialista chinês, Hong Kong manteve seu sistema econômico e social que previa
direitos de propriedade, liberdade de imprensa e ocupação (CMAB, 2007). Em 2019, o
governo chinês propôs uma emenda de lei sobre extradição, o que causou preocupação
no povo de Hong Kong por temerem ficarem sujeitos ao sistema legal chinês. Uma grande
onda de protestos em massa ocorreram a favor da soberania de Hong Kong. Um deles,
em Victoria Park, 16 de junho de 2019, estima-se ser o maior protesto até então da história
de Hong Kong, com quase dois milhões de pessoas (REUTERS, 2019).

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