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Buraco do Lume, no Centro, pode virar


um novo espigão
SEPTEMBER ,

Buraco do Lume, no Centro do Rio: área foi vendida durante leilão em São Paulo Foto: Domingos Peixoto
/ Agência O Globo

RIO — Uma polêmica urbanística envolve o futuro de uma área de , mil
metros quadrados encravada no coração do Centro do Rio de Janeiro. A
questão envolve o futuro do Buraco do Lume (ou, pelos registros oficiais, a
Praça Mário Lago), na Avenida Nilo Peçanha, no Castelo. Boa parte da
praça fica na realidade em uma terreno privado, até hoje intocado devido a
regras rígidas para executar empreendimentos no local. O destino do espaço
agora está na mão da Câmara dos Vereadores. O prefeito Marcelo Crivella
mandou para o Legislativo, na semana passada, um projeto que restaura os
parâmetros urbanísticos que vigoraram antes de , que permitem prédios
de  andares ou mais. A iniciativa já provoca críticas de especialistas que
veem na iniciativa do município uma forma de adensar ainda mais o Centro,
que já tem dezenas de salas vazias, e também vai na contramão da estratégia
da própria prefeitura de adensar a Zona Portuária, remodelada pelo projeto
Porto Maravilha.

Ex-secretário municipal de Urbanismo e atual integrante do comitê


organizador do Congresso Mundial de Arquitetura, o arquiteto Augusto
Ivan vê a proposta com preocupação. Ele observa que o terreno fica
exatamente no entorno do Corredor Cultural, com dezenas de imóveis de
interesse histórico no entorno, localizados em vias como a Rua São José e a
Avenida Rio Branco. Augusto Ivan acrescentou que o Lume tem um papel
semelhante à Carioca na integração urbana do Centro.

— Essa proposta da prefeitura é uma agressão à cidade — disse Augusto


Ivan.

Por falta de áreas livres para novas construções no Centro, o mercado


imobiliário estima que o terreno teria um potencial para gerar cerca de R
 milhões em negócios com a venda de lajes comerciais, caso as regras
mudem. Mas o nome do interessado no Lume, bem como o que levou a
prefeitura a propor mudanças nas regras nesse momento, é um mistério. A
iniciativa de Crivella ocorreu um mês depois de o terreno, que pertencia a
uma empresa associada à Bradesco Seguros, ser vendido em um leilão em
São Paulo. O negócio foi fechado por R , milhões e teve um único
candidato. Tanto o leiloeiro quanto o banco não revelam o nome do
comprador alegando sigilo. No º Registro Geral de Imóveis no Rio, a área
permanece em nome da Trenton Empreendimentos e Participações, que tem
o Bradesco como sócio.

Na mensagem enviada à Câmara do Rio, Crivella defende que o terreno


cumprirá sua função social à medida que for retirada "vetusta restrição de
uso de imóvel de propriedade privada (...) a qual vincula sua utliização
unicamente para a implantação de equipamentos destinados a atividades
culturais, quais sejam: cinema, teatro, biblioteca e livraria em verdadeira
dessintonia com a primazia da realidade’’, escreveu o prefeito, referindo-se ao
decreto do ex-prefeito Saturnino Braga, que congelou a área. Na prefeitura,
curiosamente, o projeto não passou pela análise dos técnicos da Secretaria
municipal de Urbanismo. Procurado para explicar o projeto, a secretaria
orientou O GLOBO a procurar Ailton Cardoso da Silva, secretário especial
que responde diretamente ao prefeito. Ailton, por sua vez, não quis dar
entrevistas.

“O Buraco do Lume é uma espécie de "’respiro"’ em uma área


excessivamente urbanizada. É até difícil estimar a altura que o prédio teria
se construções fossem liberadas no local porque a legislação urbanística
nesse trecho é muito confusa”

— O Buraco do Lume é uma espécie de "’respiro"’ em uma área


excessivamente urbanizada. É até difícil estimar a altura que o prédio teria se
construções fossem liberadas no local porque a legislação urbanística nesse
trecho é muito confusa. A cidade, que anda muito mal tratada, não ganharia
nada com essa mudança. Seria mais um empreendimento imobiliário. O que
a prefeitura deve estimular nas proximidades é a ocupação da Zona
Portuária, onde investimentos maciços foram feitos nos últimos anos — diz
arquiteta Andrea Redondo, que também foi secretária de Urbanismo da
prefeitura do Rio.

Foi justamente a preocupação em manter espaços livres no Centro que


motivou o decreto do ex-prefeito Saturnino Braga, que, em , criou
restrições à ocupação do terreno depois de uma série de atos públicos para
defender que o local ficasse intocado. Como o decreto foi editado antes da
Constituição de , a mudança agora tem que ser obrigatoriamente por
lei, o que exige o pronunciamento da Câmara. O presidente da Sociedade de
Amigos da Rua da Carioca (Sarca), Ênio Bittencourt, lembra-se dos
protestos liderados pela entidade:

— Ainda hoje, a área ainda merece ser conservada. Não faz sentido construir
mais prédios no Centro quando há tantas salas comerciais vazias na região
— disse Ênio.

Reduto da esquerda
Outra curiosidade sobre a área é que ela é um tradicional reduto de
manifestações da esquerda do Rio de partidos como o PT e o PSOL. Na
década , o ex-deputado Wladmir Palmeira costumava discursar para a
multidão em pé em cima de um caixote numa espécie de “prestação de
contas’’ para os pedestres que circulam no local. A tradição é mantida ainda
hoje:

— Independente de reduto ou não da esquerda, esse é um espaço


importante para a cidade. É uma contradição tentar aprovar um projeto que
vai gerar mais trânsito no Centro do Rio justamente depois de a prefeitura
investir na revitalização do Centro nos últimos anos — acrescentou o
vereador Tarcísio Motta (PSOL).

Mas mesmo se o projeto for aprovado, o investidor pode ter outros


problemas pela frente para viabilizar qualquer negócio. Em , o Buraco
do Leme foi tombado por una lei de iniciativa do ex-vereador Jorge Ligeiro.
No edital que anunciou a venda do imóvel, o leiloeiro fez uma série de
observações sobre problemas incluindo divergências da inscrição do terreno
no cadastro do imóvel na prefeitura. Outro problema é que a área não está
cercada ou murada, estando fisicamente integrada ao Buraco do Lume.
Origem do nome
A origem do nome Buraco do Lume tem ligação com o passado de projetos
imobiliários para o local. Na década de , a empresa Lume Empresarial
(nome originado das iniciais do dono, o empresário Linaldo Uchoa
Medeiros) adquiriu vários imóveis no lado impar da São José para levantar
um prédio de mais de  pavimentos que daria frente tanto para a Rua São
José quanto para a Avenida Nilo Peçanha. Mas a Lume faliu. Um dos
resquícios do projeto foi um buraco, escavado para as fundações e garagem
do prédio. Anos depois, o espaço foi urbanizado dando origem à praça, mas
o apelido Buraco do Lume ficou.

Em , o terreno foi comprado pelo antigo Banco do Estado da


Guanabara que chegou a vender algumas unidades do futuro
empreendimento. Acabou sendo incorporado ao patrimônio do Bradesco
quando este comprou em  ativos do antigo banco estatal.
https://outline.com/GwDaef COPY

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