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NEGÓCIO JURÍDICO

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ÍNDICE
1.  TEORIA GERAL DO FATO JURÍDICO......................................................................... 4

2.  NEGÓCIO JURÍDICO........................................................................................................7

3.  PLANOS DO NEGÓCIO JURÍDICO ...........................................................................10


Existência.................................................................................................................................................................................... 10
Validade.........................................................................................................................................................................................12
Eficácia...........................................................................................................................................................................................13

4.  CLASSIFICAÇÃO DO NEGÓCIO JURÍDICO............................................................ 18

5.  DEFEITOS DO NEGÓCIO JURÍDICO ........................................................................ 21


Erro...................................................................................................................................................................................................21
Dolo.................................................................................................................................................................................................22
Coação..........................................................................................................................................................................................23
Estado de Perigo...................................................................................................................................................................25
Lesão..............................................................................................................................................................................................27
Fraude Contra Credores.................................................................................................................................................. 29
Simulação.....................................................................................................................................................................................31
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TEORIA GERAL DO
FATO JURÍDICO
1.  Teoria Geral do Fato Jurídico
Se trata de uma parte bastante técnica do Direito Civil. São temas que nos darão
instrumentos para compreender os institutos e ramificações do Direito Civil. Vamos
começar, tratando da Teoria Geral do Fato Jurídico, analisando cada um dos seus
elementos.

Para tratarmos do fato jurídico, precisamos entender antes o que é um fato. “Fato” deriva
do latim, factum, particípio do verbo facere, que significa fazer, ou seja, significa feito,
que algo foi feito, aconteceu. Fato é, então, todo evento, todo acontecimento no mundo.
Designa, portanto, eventos que aconteceram, realidades.

Porém não é todo fato, tudo que acontece no mundo, que interessa ao Direito
obviamente. Interessa ao Direito tudo aquilo que acontece no mundo jurídico. Tais é que
se denominam fatos jurídicos. E tudo que acontece no mundo jurídico tende a ser, ainda
que indiretamente, previsto em normas jurídicas. As normas jurídicas são como óculos:
sem elas, não podemos ver os fatos, a realidade do mundo jurídico.

Estas normas também atribuem consequências a todo fato jurídico. Por isso, o grande
jurista Miguel Reale (você vai ouvir ainda muito esse nome!) os chama de fatos
juridicamente qualificados.

O advogado e jurista Renan Lotufo, por sua vez, trata os fatos jurídicos como todo
e qualquer fato de ordem física ou social, inserido em uma estrutura normativa,
correspondendo a um modelo de organização e comportamento, configurado por uma
ou mais normas jurídicas.

Para conceito mais concreto, vamos ver um exemplo. A chuva que cai é um fato que
ocorre e vai continuar a ocorrer dentro da normal indiferença jurídica, mas, se a chuva
que cai derruba o telhado de um depósito causando quaisquer prejuízos, isso se torna
um fato juridicamente qualificado.

É exatamente isto que gera fatos jurídicos: algum evento que interferiu num bem, mudou
uma situação, provocou alguma criação ou mudança de relação jurídica entre os homens.

Assim, se o homem se veste, come, sai de casa, não importa para vida jurídica. A não ser
quando o vestuário, a alimentação, a locomoção, provocam a atenção do ordenamento
jurídico, ou seja, de uma norma ou de um conjunto de normas.

Os fatos jurídicos podem ser divididos em:

"" Fatos jurídicos em sentido estrito;


"" Atos-fatos jurídicos, e
"" Atos jurídicos em sentido amplo.

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Veremos o que significa cada um deles e como eles, juntos, revelam como se dá um fato
jurídico. Assim, vai ser fácil se lembrar de cada um deles.

Os fatos jurídicos em sentido estrito, também chamados de fatos naturais, são os que
acontecem independentemente da atuação ou vontade humana, e são divididos em:

"" Ordinários, como o nascimento, a morte, o decurso do tempo, e


"" Extraordinários, como um terremoto e uma tempestade.

Já os atos-fatos jurídicos dão importância à consequência do ato. Não levam em


consideração a vontade de praticá-lo. Para ficar mais fácil de entender, vamos pensar em
algo concreto: por exemplo, você naufraga e vai parar em uma ilha onde descobre um
tesouro! Neste caso, para a verificação do ato-fato jurídico, a vontade fica em segundo
plano. O que importa é que, por mais que você não quisesse, você achou um tesouro. E
você achando que era só nos livros do Stevenson que iria ler isso, não é?

Por fim, os atos jurídicos em sentido amplo são, basicamente, as ações humanas que
criam, modificam, transferem ou extinguem direitos. Neste caso, ao contrário dos atos-
fatos jurídicos, existe relevância da manifestação consciente da vontade para alcançar o
resultado que é juridicamente previsto.

Para terminar, os atos jurídicos podem ser divididos em:

"" Ato jurídico em sentido estrito (ato não negocial), e


"" Negócio jurídico (ato negocial).

No ato jurídico em sentido estrito, o efeito da manifestação da vontade já está previamente


fixado pela lei. Como exemplo, podemos citar o reconhecimento de um filho, ato cujos
efeitos já estão predeterminados legalmente, como o dever de prestar alimentos, a
famosa pensão alimentícia.

E, enfim, chegamos ao negócio jurídico, mas por ser o tópico mais relevante da Teoria
Geral do Fato Jurídico trataremos dele em seguida.

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NEGÓCIO JURÍDICO
2.  Negócio Jurídico
Após termos visto os elementos do fato jurídico em sentido amplo, vamos dar início, ao
tema de Negócios Jurídicos.

Para recapitular, os fatos jurídicos são subdivididos em fatos jurídicos em sentido estrito,
atos-fatos jurídicos e atos jurídicos em sentido amplo. O Negócio Jurídico é um ato
jurídico em sentido amplo, negocial. Conforme esse organograma que pedimos para
você desenhar na parede do seu quarto:

É válido, para melhor fixação do assunto, vermos algumas definições de grandes juris-
tas especialistas no assunto:

"" Miguel Reale: negócio jurídico é a espécie de ato jurídico que, além de se originar de um ato
de vontade, implica em declaração expressa da vontade. E esta vontade declarada instaura uma
relação entre dois ou mais sujeitos, tendo em vista um objeto protegido pelo ordenamento jurídico.
"" Renan Lotufo: a diferença dos negócios jurídicos em relação aos atos jurídicos é no sentido de
que, enquanto nos atos jurídicos a gente tem uma ação e uma vontade simples, nos negócios juríd-
icos a gente tem uma ação e uma vontade qualificada. Uma vontade qualificada é assim chamada
por querer produzir um efeito jurídico determinado. É a vontade caracterizada por uma finalidade
específica, que é a constituição, conservação, modificação e extinção de direitos. 
"" Francisco Amaral: o negócio jurídico é composto, essencialmente, por vontade e autonomia
privada.

O desenvolvimento desta Teoria do Negócio Jurídico, porém, começa bem antes


destes juristas. Esta teoria nasce no século XVIII, e se desenvolve e ganha profundidade
significativa com o jurista alemão Friedrich Carl von Savigny (1779-1861), passando a ser

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incorporada enquanto figura autônoma no BGB (Bürgerliches Gesetzbuch), que é o
Código Civil Alemão.

O Brasil, no Código Civil de 1916, preferiu adotar a doutrina unitária francesa, que não
distinguia o negócio jurídico do ato jurídico. A discutida Teoria Dualista, ou seja, essa
diferenciação entre negócio jurídico e ato jurídico, somente é adotada no Brasil pelo
Código Civil de 2002.

Como já ressaltado na definição de Renan Lotufo, o negócio jurídico apresenta uma


finalidade negocial na medida em que objetiva a aquisição, conservação, modificação
ou extinção de direitos.

Renan Lotufo também esclarece que, etimologicamente, negócio jurídico não consiste
num único ato, mas em um conjunto de atividades. A palavra negócio tem origem no
latim, na justaposição das palavras nec e otium, ou seja, a negação do ócio - uma atividade

O negócio jurídico, importante notar, não está restrito ao direito patrimonial. Ele pode
manifestar-se, por exemplo, no Direito de Família, no Direito de Personalidade, etc.

Antes da adoção formal do negócio jurídico pelo Código Civil de 2002, a clássica teoria do
negócio jurídico vinha sofrendo grandes transformações ao longo do século XX. A ideia
da vontade, ainda que continuasse a ser a essência do negócio jurídico, acabou perdendo
gradativamente seu caráter absoluto, na medida em que passou a ser condicionada a
normas de ordem pública.

Em outras palavras, as de Pablo Estolze, “o direito contemporâneo reconheceu que


os agentes emissores da vontade não podiam ser sempre considerados partes iguais
numa dada relação jurídica”. Ele afirma que, se isso acontecesse, certamente acarretaria
situações de injustiça. Diz-se de “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais,
na exata medida de suas desigualdades”.

Assim, a igualdade formal passou a dar lugar à igualdade material e à proteção da


dignidade da pessoa humana (Artigo 1°, inciso III. CF/88). Isso acabou por modificar a
própria interpretação do negócio jurídico, sobretudo em relação à sua principal espécie
– o contrato.

Para compreender a essência do negócio jurídico, é preciso estudar os planos de sua


existência, validade e eficácia.

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PLANOS DO NEGÓCIO
JURÍDICO
3.  Planos do Negócio Jurídico

Existência
Estudamos os aspectos gerais do Negócio Jurídico, sua formação, desenvolvimento, e os
detalhes da sua incorporação no ordenamento jurídico brasileiro. Agora, iremos analisar
o que a doutrina chama de planos do negócio jurídico.

O Negócio Jurídico contem três elementos essenciais: existência, validade e eficácia.


Esta tripartição teve como percursor o jurista Pontes de Miranda (1892-1979), tendo o
Professor Antonio Junqueira de Azevedo (1939-2009) sido um dos seus mais importantes
estudiosos. Deve-se dizer, porém, que, segundo Renan Lotufo, Hans Kelsen (1881-1973)
já havia anteriormente desenvolvido a Teoria do Negócio Jurídico na sua Teoria Pura do
Direito.

Enfim, antes de estudarmos cada um destes planos, é importante alertar que o professor
Moreira Alves, ao elaborar a parte correspondente no Código Civil de 2002, preferiu
adotar a teoria Bipartida (diferenciação entre ato jurídico e negócio jurídico) à qual
prescinde-se a existência, devendo, esta, ser presumida. Para o professor Moreira Alves,
ao se legislar, já se está no campo da validade, que é posterior à existência, não sendo
esta, então, necessária.

Para verificação dos planos que iremos estudar, costuma-se adotar o chamado Método
da Exclusão, por meio do qual a gente consegue aferir progressivamente se o negócio
jurídico é existente, se é válido e se é eficaz.

O Plano da Existência é dos elementos que integram a essência de uma coisa, sua
composição. Neste plano específico, não se pergunta pela validade ou eficácia de um
negócio jurídico. Basta somente a realidade de sua existência.

Não é unânime entre os doutrinadores quais são estes elementos que se situam no plano
da existência. Para Carlos Roberto Gonçalves os elementos são:

"" Declaração de vontade;


"" Finalidade negocial, e
"" Idoneidade do objeto.

A Declaração de vontade figura como elemento de existência porque não pode haver
negócio jurídico se a vontade não for exteriorizada. É precisamente a declaração, segundo
Caio Mário (1913-2004), que torna a vontade conhecida.

A manifestação ou declaração da vontade, como sabido, pode ser:


1. caso ela se dê de modo explícito, permitindo o conhecimento imediato;
2. caso seja deduzida pelo comportamento do agente, ou

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3. quando não se dá de maneira expressa, mas a lei considera presente dados
alguns comportamentos do agente.
Ainda sobre a Declaração de vontade, que é um dos aspectos da existência do negócio
jurídico, devemos tratar de dois aspectos importantes: o silêncio e a reserva mental.

Para que haja uma Declaração de vontade, via de regra, vimos que é sempre necessária
alguma manifestação, comportamento ativo do agente ou uma presunção em virtude
da lei.

Assim, é difícil concluir que o silêncio tenha alguma relevância para efeitos de declaração
de vontade. Porém, veremos, o silêncio é de grande relevância aos efeitos no negócio
jurídico. A título de exemplo, vejamos o artigo 111 do Código Civil Brasileiro de 2002:

Artigo 111. O silêncio importa anuência, quando as circunstâncias ou os usos o autorizarem, e não for
necessária a declaração de vontade expressa.

Fica claro, assim, que o silêncio pode, sim, ser interpretado como manifestação de vontade
quando a lei lhe atribui este efeito, conferindo, destarte, existência ao negócio jurídico.

Com relação à reserva mental, trata-se de uma situação juridicamente prevista em que
um dos declarantes oculta a sua intenção, não desejando, no seu íntimo, o efeito que ela
declara externamente querer.

Neste caso, se a outra parte desconhecer a reserva mental, ou seja, se não sabia dos
desígnios íntimos do outro agente, que são contraditórios à declaração de vontade, não
há repercussão jurídica alguma.

Por outro lado, se a pessoa a quem foi dirigida a declaração conhece a reserva mental,
acaba configurando-se, segundo Moreira Alves, uma hipótese de ausência de vontade,
e, por conseguinte, de inexistência do negócio jurídico.

Por fim, Carlos Roberto Gonçalves cita como exemplo o casamento celebrado por
autoridade incompetente em razão da matéria, como um delegado de polícia. É o nada
jurídico. Seria um casamento “à lá Bonnie e Clyde”, mas, de qualquer forma, inexistente.

O mesmo raciocínio se aplicava, antes das transformações recentes (debatidas no Curso


Hermenêutica Jurídica, mais à frente), ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Este
tipo de casamento, antes da aplicação da hermenêutica constitucional pelo STF ao tema,
era considerado inexistente.

Além da declaração de vontade, figura como elemento de existência do negócio jurídico


a finalidade negocial. Finalidade negocial traduz-se no propósito de adquirir, conservar,
modificar ou extinguir direitos.

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Por fim, segundo Francisco Amaral, temos a idoneidade do objeto, que seria a
apresentação dos requisitos ou qualidades que a lei exige para que o negócio produza
os efeitos desejados.

Um exemplo dado por Silvio Rodrigues (1917-2004) é o negócio jurídico do mútuo. No


mútuo, segundo o artigo 586 do Código Civil, só se consideram objetos idôneos as coisas
fungíveis, e para o comodato, segundo o artigo 579, do Código Civil, as infungíveis.

Validade
Dando continuidade ao estudos dos planos do negócio jurídico, e uma vez já visto o
plano da existência, iremos ver o plano seguinte da tripartição, o plano da validade.

O plano da validade se situa no campo dos requisitos do negócio jurídico, ou seja, das
condições necessárias para o atingimento de um determinado fim. O artigo 104 do
Código Civil de 2002 estabelece que a validade do negócio jurídico requer:

"" Agente capaz;


"" Objeto lícito, possível, determinado ou determinável; e
"" Forma prescrita ou não defesa em lei.

Quanto ao agente capaz, fala-se da capacidade de fato ou de exercício, que somente


alguns detém. Esta é aquela que habilita o agente a exercer direitos e obrigações na vida
civil. Não se trata da capacidade de gozo de direitos, uma vez que esta é comum a toda
pessoa humana, é universal.

Quanto à incapacidade absoluta, é importante notar que com a entrada em vigor do


Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei n. 13.146/2015), a pessoa com deficiência não é
considerada mais absolutamente incapaz. A incapacidade absoluta, então, passa a ser
exclusividade dos menores de 16 anos.

Ou seja, o agente absolutamente incapaz, no caso, o menor de 16 anos, não pode exercer
por si só os atos da vida civil, sob pena de nulidade, dado que ser agente capaz é um dos
requisitos do plano de validade do negócio jurídico.

Além do agente capaz, o negócio jurídico, para que seja válido, requer a presença de
um objeto lícito, possível, determinado ou indeterminável. Veremos cada um destes
conceitos.

Segundo Carlos Roberto Gonçalves, objeto lícito é aquele que não atenta contra a lei,
a moral ou os bons costumes. Assim, se o objeto do contrato é imoral, não é raro os
tribunais aplicarem o princípio de que, ninguém pode se valer da própria torpeza, ou
então, se ambas as partes agiram com torpeza, malandragem, nenhuma delas pode
exigir, por exemplo, em um contrato, a devolução da importância que pagou.

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Com relação à possibilidade, ou seja, objeto possível, tem-se que uma eventual
impossibilidade pode se dar por razões físicas ou jurídicas.  A impossibilidade física nada
mais é do que um evento que não pode acontecer em virtude das leis físicas ou naturais. 

Por exemplo, se o Luan Santana resolve colocar em termos contratuais o que ele canta,
“Dou-lhe o sol, dou-lhe o mar, e como contrapartida espero obter seu coração”, tal
contrato seria, obviamente, inválido por se tratar de objeto impossível; tanto quanto
exagerado. Imagina, o sol e o mar?! Um Neruda, um disco do Chico, um olhar profundo
e um par de ingressos para o Coldplay já seriam suficientes, Luan Santana! Mas enfim.

Já a impossibilidade jurídica se dá quando o próprio ordenamento jurídico expressamente


veda a realização de um negócio jurídico, com relação a determinado bem. Como, por
exemplo, a herança de pessoa viva.

Por fim, diz-se do objeto que deve ser determinado ou determinável. Por essa razão, por
exemplo, é permitida a venda de coisa incerta, em que indicação se dá pelo gênero ou
pela quantidade.

Já como último requisito de validade do negócio jurídico, temos a forma. No nosso direito,
a regra é de que a forma é livre. Podem as partes escolher se celebram um negócio
jurídico por instrumento público, particular ou verbalmente. Com exceção dos casos
em que a lei determina uma forma específica como sendo essencial para validade do
negócio, como ordena o artigo 107 do Código Civil de 2002.

Exemplo clássico é a compra e venda de bem imóvel que custe mais de 30 salários
mínimos, caso este em que se exige escritura pública. Não atendido este requisito legal,
considera-se nulo o negócio jurídico, nos termos do artigo 166, inciso IV do Código Civil
de 2002.

Eficácia
Trataremos agora daquele que, segundo o Professor Antônio Junqueira de Azevedo, é
o último plano do negócio jurídico que a mente humana deve examinar. É o plano da
eficácia.

Ao analisarmos este plano, não iremos tratar de toda e qualquer eficácia prática do
negócio, mas sim da eficácia jurídica. Especialmente, da sua eficácia própria ou típica,
isto é: da eficácia dos direitos manifestados como desejados.

Geralmente, a doutrina costuma tratar o plano da eficácia sob o título de elementos


acidentais do negócio jurídico, que são basicamente:

"" Termo;
"" Condição, e
"" Modo ou encargo.

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Elementos acidentais, segundo Carlos Roberto Gonçalves, são aqueles que se
acrescentam à figura típica do ato para mudar-lhes os respectivos efeitos. São cláusulas
que, inseridas, tanto por declaração unilateral quanto pela vontade das partes, acarretam
modificações na eficácia do ato.

Vamos examinar cada um deles, a começar pela condição.

A condição é prevista  no Código Civil de 2002, em seu artigo 121, como a cláusula
que subordina o efeito do ato jurídico a evento futuro e incerto. Ela se estabelece
exclusivamente por vontade das partes, jamais por imposição de dispositivo legal.

Importante destacar que nem toda condição tem o poder de influir na eficácia de um
negócio jurídico. Para que ela tenha esse poder é necessário que ela seja lícita, ou seja,
não contrarie a lei, a ordem pública e os bons costumes, sob pena de gerar nulidade do
negócio jurídico. São, ainda, vedadas as condições que privam as partes de todo o efeito
do ato ou que o sujeitam ao puro arbítrio de uma das partes.

Além de lícita, a condição tem que ser possível, não havendo nenhum impedimento de
ordem física ou jurídica para seu cumprimento. Já com relação aos efeitos da condição,
há uma divisão bastante importante entre condição resolutiva e suspensiva.

Como bem explica o Professor Flávio Tartuce, condições suspensivas são aquelas que,
enquanto não se verificarem, impedem que o negócio jurídico gere efeitos. Podemos
usar como exemplo o pai que promete dar um carro a seu filho se ele passar no vestibular.

Já as condições resolutivas verificam-se quando o direito transferido pelo negócio


jurídico é resolvido, extinto, diante da ocorrência de um evento futuro e incerto. Outro
exemplo: um pai que combina com o filho que vai lhe dar uma mesada até que ele se
case. Neste caso, o filho já está gozando da mesada, que será extinta caso ele venha a
se casar.

Contudo, existem alguns negócios jurídicos que não admitem condição. Via de regra,
diz o Professor Carlos Roberto Gonçalves, a condição é possível nos atos de natureza
patrimonial, com algumas exceções. Dentro dessas exceções está a aceitação e renúncia
de herança. A condição não pode integrar os de caráter patrimonial pessoal, como os
direitos de família puros, e os direitos personalíssimos, como casamento, o reconhecimento
de filho, a adoção e a emancipação.

O termo, por sua vez, nos dizeres de San Tiago Dantas (1911-1964), pode ser definido como
o momento futuro, que se determina no tempo, em que os efeitos do negócio jurídico
devem começar ou devem cessar de ser produzidos. O momento definido (portanto,
certo), como define Renan Lotufo, pode ser referido diretamente no calendário, sendo,
então, chamado de dies certus quando, ou pode ter como referência um acontecimento
cujo momento não é possível precisar, mas que certamente ocorrerá, aí será chamado
de dies incertus quando.

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O mais comum, porém, é ver essa divisão chamada de termo inicial (dies a quo), em que
têm início os efeitos do negócio, e termo final (dies ad quem), que tem eficácia resolutiva
na medida em que ele extingue os efeitos do negócio. 

Flávio Tartuce alerta-nos para o fato de que não se deve confundir termo com prazo.
Prazo é justamente o lapso temporal que se dá entre o termo inicial e o final.

Com estas explicações, já é possível ver a diferença entre condição suspensiva e termo
inicial. No termo inicial, suspende-se o exercício, e não a aquisição do direito, ao passo
que, na condição suspensiva, suspende-se o exercício e a aquisição do direito.

Em outras palavras, quando há termo inicial, o próprio direito já está adquirido desde
o momento em que o negócio jurídico foi celebrado. O Professor Renan Lotufo explica
melhor: se o contrato está celebrado e válido, sua execução é que está sujeita à ocorrência
do termo inicial, restando o direito da parte ao cumprimento do contrato já adquirido.

Por fim, o Professor Vicente Rao (1892-1978) define modo ou encargo (artigo 136 Código
Civil 2002) como uma determinação, imposta pelo autor do ato de uma liberalidade, que
adere a este ato de liberalidade, restringindo o ato a determinados moldes desejados.
Expliquemos melhor.

O encargo se apresenta como uma cláusula acessória às liberalidades, como, por exemplo,
doações ou testamentos nas quais se impõe ao beneficiário uma obrigação. Também são
possíveis declarações unilaterais de vontade, como a promessa de recompensa. Apesar
disso, não é possível o negócio oneroso, porque equivaleria a uma contraprestação.

A literatura brasileira traz um belo exemplo de encargo no livro Quincas Borba do Machado
de Assis, aquele do famoso “ao vencedor, as batatas!”. Neste livro, o protagonista Rubião
herda todo o patrimônio do falecido Quincas Borba. Só que Quincas Borba colocou

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apenas uma restrição como condição para o recebimento da herança, que era cuidar do
cachorro, também chamado de Quincas Borba. 

No livro assim é redigida a condição: “Cuidar deste cachorro, nada poupando em seu
benefício, resguarando-o de moléstias, de fugas, de roubo, ou de morte que lhe quisessem
dar por maldade. Cuidando como se, finalmente, cão não fosse, mas pessoa humana”.
Genial, não é mesmo?

Com relação à diferença entre encargo e condição suspensiva, o Professor Carlos


Roberto Gonçalves apresenta um resumo interessante: a condição é suspensiva, mas
não coercitiva. Ninguém pode ser obrigado a cumprir uma condição.

Já o encargo é coercitivo, mas não suspensivo.

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4
CLASSIFICAÇÃO DO
NEGÓCIO JURÍDICO
4.  Classificação do Negócio Jurídico
Após vermos a tripartição do negócio jurídico em planos de existência, validade e
eficácia, e as diferenças entre os chamados elementos acidentais -condição, termo e
encargo- veremos quais são as classificações do negócio jurídico.

Uma primeira classificação diz respeito à quantidade de declarantes ou de manifestações


de vontade que são necessários para que um negócio jurídico seja aperfeiçoado. Neste
sentido, é possível dividir o negócio jurídico em unilateral, bilateral e plurilateral.

No unilateral, o negócio jurídico se aperfeiçoa com uma única manifestação de vontade,


como acontece em testamentos, renúncias a herança ou promessas de recompensa. O
negócio unilateral ainda pode ser dividido em:

"" Receptício, em que a declaração de vontade tem que se tornar conhecida do destinatário para
produzir efeitos, como por exemplo, no caso de uma revogação de mandato, e
"" Não receptício, em que é irrelevante o conhecimento do conteúdo da declaração de vontade
por parte de outras pessoas, como acontece com o testamento.

Já no negócio bilateral, o negócio jurídico só se perfaz com duas manifestações de


vontade, coincidentes sobre o objeto. Este objeto pode ser:

"" Simples, quando apenas uma das partes se beneficia, como no caso do comodato, ou
"" Sinalagmático, em que existe uma reciprocidade de direitos e obrigações.

Por fim, o negócio jurídico pode ser plurilateral, ou seja, envolve mais de duas partes,
como acontece com os consórcios de veículos, por exemplo.

Outra classificação possível se dá em relação às vantagens patrimoniais. Quanto a esta


espécie de classificação podemos separar o negócio jurídico em:

"" Gratuito, em que apenas um dos lados das partes goza de benefício, como no caso de uma
doação pura (sem condições impostas), ou no caso do comodato. Assim, nestes casos, inexiste
contraprestação;
"" Oneroso, em que há contraprestação, ou seja, ambas as partes auferem vantagens e acabam
sacrificando bens e direitos. Dentro dos contratos onerosos, ainda há uma outra divisão:

1. Negócios comutativos, em que há prestações certas e determinadas, ou


seja, em que é possível vislumbrar as vantagens e os sacrifícios, e
2. Negócios aleatórios, nos quais o risco é o elemento central do negócio,
havendo uma incerteza quanto às vantagens e benefícios que podem acabar
emergindo.

"" Neutro, que, segundo Carlos Roberto Gonçalves, não pode ser incluído na categoria dos on-
erosos nem dos gratuitos porque lhe falta atribuição patrimonial. Como, por exemplo, negócios
que têm por finalidade a vinculação de um bem, como o que o torna indisponível pela cláusula de

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inalienabilidade, ou o que impede a comunicação com outro cônjuge mediante a cláusula de inco-
municabilidade.
"" Bifronte é o negócio jurídico que pode ser oneroso ou gratuito segundo a vontade das partes. E
isto acontece nos casos de mútuo, de mandato e depósito.

Já com relação ao momento de produção dos efeitos, ainda é possível uma última
classificação dos negócios jurídicos em Inter vivos e mortis causa.

"" Inter vivos, em que os efeitos são produzidos desde logo, estando as partes vivas ainda, como
o casamento e a permuta.
"" Mortis causa, em que os efeito se produzem somente após a morte do agente, como no caso
do testamento.

Ainda, segundo Carlos Roberto Gonçalves, em relação ao modo de existência, é possível


dividir os negócios jurídicos em principais e acessórios.

"" Principais, que são aqueles que tem existência própria, e


"" Acessórios, cuja existência é subordinada ao contrato principal.

Tendo, por outro lado, como referência, as formalidades, os negócios jurídicos podem
ser solenes ou não solenes de forma livre.

"" Solenes, em que deve ser obedecida a forma prescrita em lei para se aperfeiçoarem, ou seja,
para surtirem os efeitos desejados pelas partes, ou
"" Não solenes, de forma livre, em que basta apenas o consentimento para a formação contratual.

Por fim, com relação à quantidade de atos necessários, os negócios jurídicos podem ser
simples, complexos ou coligados.

"" Simples, quando são constituídos por um ato único;


"" Complexos, que são aqueles compostos por várias declarações de vontade que se completam,
e que têm origem no mesmo ou em diversos sujeitos, para que o efeito pretendido seja obtido, e
"" Coligados, em que o negócio é composto de vários outros negócios. O Professor Carlos Rober-
to Gonçalves dá o exemplo do arrendamento de um posto de gasolina, que é coligado pelo mesmo
instrumento, ao mesmo contrato de locação de bombas, de comodato da área para que funcione ali
um restaurante etc. 

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5
DEFEITOS DO NEGÓCIO
JURÍDICO
5.  Defeitos do Negócio Jurídico

Erro
Trataremos agora daquilo que a doutrina e a lei chamam de defeitos do negócio jurídico.
Mas antes, façamos breve recapitulação: estudamos que um dos elementos que atribuem
existência a um negócio jurídico é a declaração de vontade. 

Estudamos também que, para que este negócio seja válido, é necessário que a vontade
seja manifestada de maneira livre. Acontece que, não raras vezes, pode ocorrer de a
vontade vir a ser declarada de maneira distorcida ou deficiente em desfavor do próprio
declarante, de uma terceira pessoa ou em prejuízo da ordem pública.

A partir de agora vamos estudar cada um dos defeitos do negócio jurídico, cuja previsão
legal torna o negócio anulável (passível de anulação). Como bem aponta o Professor
Carlos Roberto Gonçalves, com exceção da fraude contra credores, que é considerada
um vício social, os outros defeitos, como o erro, dolo, coação, estado de perigo e lesão
são todos chamados de vícios do consentimento.

E os vícios do consentimento são assim chamados porque implicam uma manifestação


da vontade que não corresponde com o íntimo, com o verdadeiro querer do agente.
Vamos começar a estudar, então, o primeiro dos defeitos do negócio jurídico, o que
chamamos de erro, ou ignorância.

Nas palavras de Flávio Tartuce, erro ou ignorância é o engano fático. Uma falsa noção em
relação à pessoa, ao objeto do negócio ou a um direito, o que acomete uma das partes
do negócio jurídico.

Orlando Gomes complementa o conceito que acabamos de estudar afirmando que,


tendo uma noção sobre o fato ou sobre um preceito uma noção inexata ou incompleta, o
agente emite sua vontade de modo diverso que manifestaria se dele tivesse conhecimento
exato ou completo. Ele resume: crer verdadeiro o que é falso, ou falso o que é verdadeiro.

Para que o erro seja capaz de anular o negócio jurídico, ele tem que ser substancial,
partindo-se do princípio, segundo o Professor Renan Lotufo, de que, sem que tivesse sido
cometido erro, o negócio não teria se realizado. Ou, se o agente conhecesse a verdade,
não manifestaria vontade de concluir o negócio jurídico.

Em outras palavras, o erro não pode ser acidental. Ou seja, ele não pode estar relacionado
a características secundárias do objeto ou da pessoa, de modo que, ainda que conhecida
a realidade o negócio, ele ainda seria realizado.

O erro substancial, que é o que nos interessa, já que pode anular o negócio jurídico, pode
dar-se:

"" Sobre a natureza do negócio, chamado de error in negotio, que se dá com relação à categoria

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jurídica. Por exemplo, uma pessoa que empresta algo a alguém, e esse alguém entende que ocorreu
uma doação.
"" Sobre o objeto principal da declaração, chamado de error in corpore. Este erro se dá quando a
manifestação do agente se dá com relação ao objeto diverso daquele que ele tinha imaginado. Por
exemplo, a pessoa que adquire uma obra de arte de um aprendiz quando imaginava que essa obra
fosse de um célebre pintor.
"" Sobre as qualidades essenciais do objeto principal, chamado de error in qualitate ou error in
substantia. Neste caso, o negócio é celebrado justamente porque se supunha que existia uma de-
terminada qualidade do bem. Um exemplo importante para esta compreensão é citado por Silvio
Rodrigues: uma pessoa que compra um relógio dourado apenas folheado a ouro quando se consid-
erava que se tratava de ouro maciço.
"" Sobre à qualidade ou quantidade da pessoa a quem se refere a declaração de vontade, é o
chamado error in personae, tendo este aspecto influído de maneira relevante para a celebração do
negócio. Por exemplo, uma doação feita a quem teria salvado a vida do doador, e depois desco-
briu-se que não era essa pessoa.
"" Segundo Caio Mário, há erro substancial que dá-se quando um agente emite a declaração de
vontade no falso pressuposto de que se procede segundo preceitos legais. Vejamos um exemplo
dado pelo Professor Carlos Roberto Gonçalves: uma pessoa que contrata a importação de determi-
nada mercadoria, ignorando que existia uma lei que proibia esta importação, e, como essa ignorân-
cia foi a causa determinante do ato, ela pode ser alegada para anular o contrato.
"" Por fim, pode dar-se erro quando da existência de falso motivo (artigo 140 do Código Civil de
2002), o qual só vicia a declaração de vontade quando é expresso como razão determinante. O
fato é que, via de regra, o direito não cuida do aspecto psicológico, ou seja, dos motivos das razões
subjetivas que levaram alguém a celebrar um contrato, um negócio jurídico. Mas se este motivo foi
a razão determinante para a celebração do negócio e o agente foi prejudicado por uma falsa repre-
sentação da realidade, transmitida pelo outro, o motivo, então, passa a ser relevante ao direito. Olhe
só o exemplo que dá Silvio Rodrigues: se a aquisição de um estabelecimento comercial teve por
motivo determinante a perspectiva de que havia uma boa e numerosa freguesia, garantia e aponta-
da pelo vendedor no próprio contrato, tem-se aí o pressuposto ou razão determinante em negócio.
Assim é porque, não se concretizando aquela perspectiva, o negócio é anulável por erro. Importante
destacar que os motivos devem ter sido apontado de maneira expressa. Ou seja, neste exemplo que
acabamos de ver, o dono do estabelecimento indicou expressamente a perspectiva da boa fregue-
sia e o comprador foi motivado justamente por essa causa.

Dolo
Na definição de Renan Lotufo, dolo é o artifício ou expediente astucioso empregado
para induzir alguém à prática de um ato que o prejudica, aproveitando ao autor ou ao
terceiro com a intenção de causar dano ilegalmente. 

Com esta definição já é possível estabelecermos uma distinção entre dolo e erro. Quando
alguém, por malícia, induz-me a formar uma falsa interpretação da realidade, eu estou
diante de conduta dolosa. Ao contrário, se a falsa interpretação da realidade partiu de
meu próprio engano ou mal entendimento, estou diante de erro.

Existem, ademais, dois tipos de dolo: o dolo principal e o dolo acidental.

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O dolo principal figura como uma causa determinante da declaração de vontade. Ou
seja, o negócio só é realizado porque foi empregado aquele artifício ou expediente
astucioso que acabamos de ver.

Já o dolo acidental, nos termos do artigo 146 do Código Civil de 2002, que é lateral
ou secundário, não chegaria a impedir a celebração do negócio. A consequência desta
distinção é que o dolo acidental não vicia o negócio jurídico. Apenas obriga a satisfação
das perdas e danos.

Carlos Roberto Gonçalves apresenta um exemplo bastante prático para elucidar esta
diferença entre dolo principal e dolo acidental. Se uma pessoa adquire, por 100 mil reais,
um imóvel que, na verdade, vale 50 mil, temos uma hipótese de dolo acidental, que não
permite postular a invalidação do contrato, mas somente exigir a reparação do prejuízo,
que, neste caso, seriam os 50 mil reais pagos a mais.

Existe também uma divisão entre dolus bonus e dolus malus. O primeiro, o dolus bonus, é
um dolo tolerável, destituído de gravidade suficiente para viciar a declaração de vontade.
Dá-se quando os vendedores supervalorizam as qualidades dos produtos que eles
estão vendendo, por exemplo. Acontece com muita frequência, inclusive, não? Quantas
vezes não compramos um hambúrguer cuja foto era sensacional e nos deparamos um
hambúrguer minúsculo e uma alface murcha? Silvio Rodrigues, entretanto, diz que falta
o requisito da gravidade a este exagero no gabar-se das virtudes de uma coisa posta à
venda.

O Professor Washington de Barros Monteiro (1910-1999) faz também uma interessante


ressalva, ainda com relação ao dolus bonus, afirmando que ele pode ter fim lícito, elogiável
e nobre. Por exemplo, quando se induz alguém a tomar um remédio que a pessoa está
se recusando a ingerir e que, no entanto, é necessário a ela.

Já o dolus malus apresenta uma gravidade considerável e é ele que se subdivide em dolo
principal e acidental, como vimos agora há pouco. Existe, ainda, uma terceira divisão que
se pode fazer entre: dolo positivo ou comissivo e dolo negativo ou omissivo.

O legislador equiparou a omissão dolosa à ação dolosa, as duas têm grande relevância.
Importante mencionar que o dolo pode se originar de uma terceira pessoa que é
estranha ao negócio jurídico celebrado. É o que dispõe o artigo 148 do Código Civil, que
diz que “pode também ser anulado o negócio jurídico por dolo de terceiro, se a parte a
quem aproveite dele tivesse ou devesse ter conhecimento; em caso contrário, ainda que
subsista o negócio jurídico, o terceiro responderá por todas as perdas e danos da parte
a quem ludibriou”.

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Coação
Indo direto às definições: a coação, para Carlos Roberto Gonçalves, é toda ameaça ou
pressão injustas exercidas sobre um indivíduo para forçá-lo, contra a sua vontade, a
praticar um ato ou a realizar um negócio. A coação é caracterizada pelo emprego da
violência psicológica para viciar a vontade.

Desde já, porém, precisamos fazer uma consideração extremamente importante!

O legislador não faz nenhuma menção à coação física! Ele menciona somente a coação
moral, que é também chamada de coação relativa.

Mas por que o legislador faria isso? A razão para isso é muito, muito simples. Pensemos:
caso haja coação física, também chamada de absoluta, simplesmente não há qualquer
vontade da parte forçada a ser expressada. Logo, o negócio jurídico celebrado é
inexistente.

O Professor Renan Lotufo aponta que a ameaça ou violência que interessam à coação são
mais duas das várias formas de coação psicológica que podem influenciar a autonomia
da vontade de quem pratica o negócio.

Esta coação psicológica, em verdade, não exclui (como faz a violência física) nem a
vontade do negócio nem a determinação causal da vontade, porém diminui e prejudica
a liberdade dessa determinação.

O Artigo 151 do Código Civil de 2002 dispõe que a coação, “para viciar a declaração de
vontade, tem que ser tal que incuta ao paciente o temor de dano iminente considerável
à sua pessoa, à sua família ou aos seus bens”.

Os termos que o legislador empregou permitem que nós compreendamos a natureza


da coação e que vislumbremos os requisitos que, segundo o Professor Carlos Roberto
Gonçalves, são os seguintes:

"" A coação deve ser a causa determinante do ato;


"" Deve ser grave;
"" Deve ser injusta;
"" Deve dizer respeito a dano atual ou iminente, e
"" Deve constituir ameaça de prejuízo à pessoa, família ou bens.

Vamos analisar cada um destes requisitos.

Quando se diz que a coação deve ser a causa determinante do ato, é necessária a
existência de um nexo de causalidade entre a ameaça que foi realizada e a anuência
para celebração do negócio jurídico, de modo que, sem a coação, o negócio não teria
sido realizado.

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Esta ameaça, contudo, deve ser considerável, ou seja, deve estar revestida de uma
gravidade suficiente para que o agente tenha fundadas razões para que não queira ver
esta ameaça cumprida. Enfim, tem que fazer medo. Nestes casos, avalia-se sempre se as
ameaças são graves pelos critérios pessoais, subjetivos, da vítima, e não pelo critério do
homem e mulher médios.

O Artigo 153 do Código Civil de 2002, entretanto, faz uma ressalva no sentido de que
não se considera coação o simples temor reverencial, ou seja, o receio de desapontar os
pais, ou outras pessoas a quem se deve respeito ou superior hierárquico.

Além de grave, a ameaça tem que ser injusta. Esta injustiça pode ser entendida, nas
palavras do Professor Carlos Roberto Gonçalves, como ilícita, contrária ao direito ou
abusiva.

É por este motivo que existe a prescrição do mencionado artigo 153 do CC de que “não
se considera coação a ameaça do exercício normal de um direito”.

Por exemplo, é plenamente possível considerar o aviso de um credor de que irá protestar
um título de crédito em seu favor caso o pagamento não se realize na data certa.

Por este mesmo dispositivo, podemos entender que a coação não se dá somente
quando o ato praticado contraria o direito, mas também quando a conduta caracteriza
um exercício anormal ou abusivo de um direito.

O dano ainda tem que ser atual ou iminente. Sobre este aspecto, Silvio Rodrigues diz
o seguinte: “parece-me que a ideia de atual ou iminente se traduz de atualidade, de
brevidade do acontecimento do dano. Isto porque a ameaça de um mal se realizar em
um futuro distante surge menos intensa, perde parte de sua força, e carece no sentido
da inexorabilidade de que se deva revestir. A existência de dilatado intervalo entre a
ameaça e o desfecho do ato ameaçado permite à vítima lhe elidirem os efeitos, por meio
do recurso a quem pode protegê-lo”.

Por fim, o próprio dispositivo é bastante cristalino ao mencionar a necessidade de que


a ameaça se dirija à pessoa, à sua família ou aos seus bens, podendo, inclusive, segundo
o Professor Renan Lotufo, ser uma ameaça à liberdade, ao corpo, à vida, à honra, quer
do agente, quer de pessoa da família ou até de pessoas de seu estreito relacionamento.

Estado de Perigo
Ainda dentro dos defeitos do negócio jurídico, iremos tratar do chamado estado de
perigo.

O estado de perigo, juntamente com a lesão, não constava no Código Civil de 1916, tendo
sido introduzido no nosso ordenamento apenas em 2002.

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Nos termos do artigo 156 do Código Civil de 2002, “Configura-se o estado de perigo
quando alguém, premido da necessidade de salvar-se, ou a pessoa de sua família, de
grave dano conhecido pela outra parte, assume obrigação excessivamente onerosa”.

Vários exemplos são dados pelos doutrinadores brasileiros e pelo doutrinador francês
Charles Demolombe (1804-1887), sendo esses exemplos citados por Carlos Roberto
Gonçalves. Vamos dar uma olhadinha em cada um deles.

Um comandante de embarcação que, prestes a naufragar, propõe pagar qualquer quantia


a quem venha a socorrê-lo. Ou um enfermo que, em grave situação de saúde, coloca-se
em total acordo com quaisquer honorários pagos para o cirurgião.

Há também o exemplo do Rei Ricardo III (1452-1485) que se preparava para a maior
batalha da sua vida, lutando contra Henrique Tudor (1491-1547) pela Coroa da Inglaterra.
Na linha de frente, vendo seus homens batendo em retirada fugindo, Ricardo III montou
no seu cavalo e, galopando, foi conclamar seus soldados a não desistirem.

No meio do caminho, seu cavalo perdeu uma das ferraduras, caiu, levantou-se e, em
seguida, saiu em disparada sozinho. Nesta ocasião, sem o seu cavalo, Ricardo III grita,
segundo Shakespeare na sua peça homônima, o famoso “o meu reino, por um cavalo!”

Antes de estudar os elementos do estado de perigo é importante ressaltar que ele não
se confunde com a coação. Como afirma Carlos Roberto Gonçalves, no estado de perigo
não se configura a hipótese de constranger o outro à prática de um determinado ato, ou
a consentir na celebração de um determinado contrato.

Então, no estado de perigo, considera-se o aspecto objetivo, que é a celebração do


contrato em condições abusivas e, também, o aspecto subjetivo, que seria a vontade
perturbada que provoca o desequilíbrio.

Já na coação, considera-se apenas o aspecto subjetivo. Ou seja, a vontade que é declarada


diversa da vontade real do declarante.

Feita essa breve ressalva, vamos dar uma olhada nos elementos que estruturam o estado
de perigo.

Primeiro deles, a situação de necessidade. O declarante deve encontrar-se em uma


situação de necessidade de salvar a si próprio ou a um membro de sua família.

Segundo, o dano deve ser atual, ou seja, iminente, capaz de fatalmente provocar
consequências indesejadas. O dano também tem que ser grave, levando em conta as
circunstâncias.

Terceiro, a declaração de vontade deve ter como causa determinante o perigo de dano
grave.

Quarto, a ameaça do dano deve recair sobre o declarante ou sobre a família do declarante.

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Quinto, a outra parte deve ter conhecimento do perigo.

Se este for desconhecido por ela, ou seja, presumindo-se que a parte não sabia o que se
passava de risco para a outra, ela terá agido de boa-fé, sem o animus de prejudicar, o que
elimina a anulabilidade do negócio.

Sexto, e último, a assunção da obrigação deve ser excessivamente onerosa.

Enfim. Verificados os requisitos em questão, o negócio jurídico se torna anulável. Contudo,


a Professora Teresa Ancona Lopes critica a posição do legislador em permitir apenas
a anulação do negócio, sem possibilitar a sua conservação mediante a oferta de uma
modificação.

Outra observação importante relaciona-se ao caso em que a parte está de boa-fé, não
pretendendo tirar proveito do dano. Carlos Roberto Gonçalves cita o exemplo de uma
pessoa que, atendendo ao pedido de socorro de um náufrago, arrisca sua própria vida
para salvá-lo, quase que de maneira instintiva, apesar da existência de uma elevada oferta.

Nesta situação, a solução mais adequada, apontada pela doutrina, é a conservação do


negócio jurídico mediante uma redução no excesso na prestação do declarante.

Lesão
Entrando de sola na lei, o artigo 157 do Código Civil afirma que “Ocorre a lesão quando
uma pessoa, sob premente necessidade, ou por inexperiência, obriga-se a prestação
manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta”.

Este instituto tem um objetivo moral, na medida em que pretende eliminar a grande
desproporção em benefício de apenas uma das partes. Na lesão, portanto, a parte
decide por si, não por pressão externa, mas movida por circunstâncias de necessidade
ou inexperiência.

Este vício do consentimento apresenta elemento objetivo, que é a manifesta


desproporção entre as prestações. E elemento subjetivo, que é a inexperiência ou
premente necessidade.

O parágrafo primeiro do artigo 157 do Código Civil de 2002, chama a atenção para o
fato de que o magistrado apreciará esta desproporção no caso concreto, verificando se
estava presente no momento da celebração do negócio jurídico.

Já com relação ao elemento subjetivo, Carlos Roberto Gonçalves esclarece que a


necessidade não se relaciona à miséria ou insuficiência virtual dos meios para prover sua
subsistência ou da família. A necessidade é chamada de contratual, que segundo Caio
Mário, relaciona-se à impossibilidade de evitar o contrato. Podemos citar como exemplo
a iminência de decretação de falência do agente ou protesto de um título de crédito que
ele tenha emitido.

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A inexperiência, por sua vez, relaciona-se à falta de conhecimentos relacionados à
natureza do negócio jurídico celebrado. Como exemplo, um jovem de 18 anos que celebra
pela primeira vez um contrato de locação em uma cidade grande e que desconhece a
média dos preços cobrados na região em que se situa o imóvel. Este jovem pode acabar
consentindo ser locatário do imóvel por valores muitos altos em relação aos outros
imóveis de igual padrão do mesmo bairro.

O parágrafo segundo do artigo 157 do Código Civil afirma que “não se decretará a
anulação do negócio se for oferecido suplemento suficiente, ou se a parte favorecida
concordar com a redução do proveito”.

Para que possamos compreender bem este instituto, vamos estudar os aspectos que se
diferenciam do estado de perigo, sendo estes aspectos sistematizados pelo Professor
Carlos Roberto Gonçalves:

"" Primeiro, a lesão pode decorrer da inexperiência do declarante, que não é requisito do estado de
perigo;
"" Segunda, na lesão não é necessário que a outra parte tenha conhecimento da necessidade ou
da inexperiência, ao passo em que no estado de perigo exige-se que a parte que se aproveitou da
situação saiba do perigo enfrentado pela outra;
"" Terceira diferença, na lesão é admitida a suplementação da contraprestação, o que não é possív-
el no estado de perigo.

Importante notar que a lesão ocorre, via de regra, nos contratos comutativos em que há
prestações certas e determinadas e em um contexto em que é possível vislumbrar as
vantagens e sacrifícios.

Diferente do que ocorre nos contratos aleatórios, nos quais o risco é o elemento central
do negócio, havendo uma incerteza quanto às vantagens e benefícios que podem imergir.
Nos contratos aleatórios, só é possível falar-se em lesão, segundo Anelise Becker, quando
a vantagem que uma das partes obtém é excessiva, ou seja, quando é desproporcional
em relação ao risco normal do contrato.

Finalizando mais um dos vícios do negócio jurídico, veremos em seguida um vício social
do negócio jurídico, a chamada fraude contra credores.

Fraude Contra Credores


Nas palavras do Professor Alvino Lima (1888-1975), a fraude contra credores é a prática
pelo devedor de ato ou atos jurídicos absolutamente legais em si mesmos, mas prejudiciais
aos interesses dos credores frustrando conscientemente a regra jurídica que institui a
garantia patrimonial dos credores sobre os bens do devedor. 

O artigo 158 do Código Civil 2002, diz que “os negócios de transmissão gratuita de bens
ou remissão de dívida, se os praticar o devedor já insolvente, ou por eles reduzido à

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insolvência, ainda quando o ignore, poderão ser anulados pelos credores quirografários,
como lesivos dos seus direitos”.

Neste caso, como bem pontua o Professor Carlos Roberto Gonçalves, a fraude contra
credores não conduz a nenhum descompasso entre o íntimo querer do agente e sua
declaração. A vontade manifestada corresponde exatamente ao seu desejo, mas ela é
exteriorizada com a intenção de prejudicar terceiros. Por esta razão, como havíamos
antecipado, a fraude contra credores é tratada como um vício social.

Segundo o Professor Renan Lotufo, a maioria da doutrina aponta dois elementos


inerentes à fraude contra credores:

"" O eventus damni, correspondente ao ato do devedor que é prejudicial ao credor por ter sido
realizado em estado de insolvência ou por tê-lo tornado insolvente; e
"" O consilium fraudis, ou seja, o conluio fraudulento.

Segundo Pablo Estolze, uma respeitável parte da doutrina entende que o consulium
fraudis não é elemento essencial da fraude contra credores, de modo que o estado de
insolvência e o prejuízo ao credor já bastariam para caracterizá-lo.

Ainda que não haja uma unanimidade, segundo Pablo Estolze, a verdade é que, caso se
trate de atos gratuitos de alienação que são praticados em fraudes contra credores, esse
requisito subjetivo representado pelo consilium fraudis é presumido.

Já no caso da alienação onerosa, é necessário comprovar o consilium fraudis.

A anulação do ato praticado em fraude contra credores pode dar-se nas seguintes
hipóteses:

"" Negócio de transmissão gratuita dos bens, segundo o caput do artigo 158 do Código Civil de
2002; 
"" Remissão de dívidas, com base no mesmo dispositivo;
"" Contratos onerosos do devedor insolvente, quando a insolvência for notória ou houver motivo
para ser conhecida pelo outro contratante, nos termos do artigo 159 do Código Civil;
"" Antecipação de um pagamento feito a um dos credores quirografários em detrimento dos de-
mais, com base no artigo 162 do Código Civil de 2002; e
"" Outorga de garantia de dívida a um dos credores em detrimento dos demais, com suporte no
artigo 163 do Código Civil de 2002.

Um ponto bastante polêmico no estudo da fraude contra credores se refere à discussão


sobre a anulabilidade do negócio ou declaração de ineficácia relativa. O Código Civil de
2002 filiou-se à teoria, já adotada pelo Código Civil de 1916, no sentido de que fraude
contra credores gera a anulabilidade do negócio celebrado. Enfim, não seguiu, embora
parte da doutrina afirme, a tese de que deveria ser declarada a ineficácia do ato fraudatório
contra o credor, permanecendo o negócio válido a entre os contratantes.

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Tem legitimidade ativa para propor essa ação, conhecida como Ação Pauliana, os credores
quirografários já que eles não possuem nenhuma garantia especial de recebimento do
crédito, de modo que o patrimônio geral do devedor é a única garantia que resta a eles.

Os parágrafos primeiro e segundo do artigo 158 (§1° e §2°) fazem ressalvas bastante
importantes sobre a legitimidade ativa, afirmando que os credores cuja garantia tenha
se tornado insuficiente também podem ajuizar a ação. Ressalvando, também, que só
podem pleitear a anulação dos atos fraudatórios aqueles que já eram credores ao tempo
da sua realização.

Já com relação à legitimidade passiva, tem-se que a ação anulatória deve ser proposta
contra o devedor insolvente e também contra a pessoa que celebrou o negócio
fraudulento, bem como contra eventuais terceiros adquirentes de má-fé, caso o bem já
tenha sido transmitido a estes terceiros.

Verificada a fraude contra credores, se o adquirente estava de boa-fé, o bem continua na


sua titularidade, sem que o negócio seja anulado. Por outro lado, se o adquirente estava
de má-fé, a qual é presumida quando a insolvência do alienante for notória ou houver
motivo para ser por ele conhecida, a alienação é invalidada.

Por fim, é importante estabelecer uma diferença entre a fraude contra credores e a fraude
à execução.

Nas palavras do Professor Renan Lotufo, enquanto, na fraude contra credores, o devedor
insolvente antecipa-se alienando ou onerando bens em detrimento dos seus credores
antes que eles intentem qualquer espécie de ação, na fraude à execução, que é mais
grave porque viola normas de ordem pública, o devedor já tem contra si um processo
judicial.

E este processo judicial é capaz de reduzi-lo à insolvência e, ainda assim, atua ilicitamente
alienando ou onerando seu patrimônio, em prejuízo, não apenas dos seus credores, mas
do próprio processo. Motivo este pelo qual caracteriza-se uma atitude de desrespeito à
justiça. 

Simulação
Muito embora a simulação não esteja no capítulo que trata dos defeitos do negócio
jurídico, mas sim daquele que trata da sua invalidade, faz mais sentido estudar a simulação
nesta oportunidade pelo fato de ela constituir um vício social.

Ao contrário dos defeitos do negócio jurídico que a gente estudou nas últimas aulas,
que geram a anulabilidade, ou nulidade relativa, já que o negócio pode ser convalidado;
a simulação figura como causa de nulidade! Ou seja, trata-se de um defeito insanável.

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Nas palavras do Clóvis Bevilácqua (1859-1944) simulação é uma declaração enganosa da
vontade que tem por objetivo produzir efeito diverso daquele que foi ostensivamente ou
explicitamente indicado.

Já o jurista italiano Francesco Ferrara (1805-1888) refere-se ao negócio simulado como


aquele que tem aparência contrária à realidade, ou porque não existe em absoluto, ou
porque é distinto do que aparece.

Então trata-se de defeito que não vicia a vontade do declarante, já que, segundo Pablo
Estolze, este último se mancomuna, alia-se de livre vontade com o declaratário para
atingir fins espúrios que são contrários à lei ou em detrimento da própria sociedade.

Ainda segundo Pablo Estolze, a simulação pode ser dividida da seguinte maneira:

Simulação absoluta, caso em que o negócio se forma a partir de uma declaração de


vontade ou confissão de dívida emitida para não gerar efeito jurídico algum. Como
exemplo, o cônjuge que, para livrar-se de partilhar os bens inclusos no regime de
comunhão universal, simula um negócio com um amigo, contraindo, falsamente, uma
dívida, com o objetivo de transferir bens em pagamento e depois os reaver. Neste caso,
não se pretende transferir a propriedade dos bens para pagamento da dívida, mas
permitir que o amigo guarde os bens até que sejam finalizados o divórcio e a partilha;

Simulação relativa (dissimulação), em que se emite uma declaração de vontade ou


confissão falsa com o objetivo de encobrir um ato de natureza diversa cujos efeitos,
que são desejados pelo agente, são proibidos por lei. Neste caso, recebe o nome de
simulação relativa objetiva.

Já quando a declaração de vontade é emitida, aparentando conferir direitos à uma


pessoa, mas transferindo a outra que não integra a relação jurídica, temos a simulação
relativa subjetiva. Um exemplo dado por Pablo Estolze: o homem casado que pretende
doar um bem à sua concubina, mas que, diante da proibição legal, acaba simulando com
ela um contrato de compra e venda.

Ou então, nesta mesma situação, aliena um bem a um amigo, com relação ao qual não
existe nenhuma proibição legal, e este amigo posteriormente doa o bem para concubina.
Via de regra, se a simulação for absoluta, tem-se como efeito a nulidade do negócio
simulado. Contudo, se a simulação for relativa, o negócio dissimulado subsistirá.

Importante não confundir simulado, que é um negócio aparente, com dissimulado, que
é aquele que está oculto e que é verdadeiramente desejado. É o que diz o artigo 167 do
Código Civil, “é nulo o negócio jurídico simulado mas subsistirá o que se dissimulou, se
válido for na substância e na forma”.

O artigo 167, §1° do Código Civil de 2002, estabelece que haverá simulação nos negócios
jurídicos quando:

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Primeiro, aparentarem conferir ou transferir direitos a pessoas diversas daquela às quais
realmente se confere ou transmite. Essa primeira hipótese, segundo Renan Lotufo, é
chamada de simulação por meio de interposta pessoa. Caso em que se vale do chamado
testa de ferro que figura como parte no lugar daquele a quem se concedem os direitos.

Segundo, quando contiverem declaração, confissão, condição, ou cláusula não verdadeira.


A doutrina costuma referir-se a esta modalidade como negócio ilusório, não-negócio, ou
negócio vazio.

Terceira possibilidade, quando os instrumentos particulares forem antedatados ou pós-


datados.

Por fim, uma importante novidade trazida pelo Código Civil de 2002 foi o §2° do artigo 167,
que dispõe que “ressalvam-se os direitos de terceiros de boa-fé em face dos contraentes
do negócio jurídico simulado”.

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Negócio Jurídico

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