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CURSO BULLYING

Material para Estudo Complementar.

V í d e o s
i v r o s e
i g o s , L
A r t

www.inead.com.br
Selecionamos para você uma série de artigos, vídeos e livros que servirão como material
complementar para seus estudos e poderão ser encontradas as referências necessárias
para a realização de seu curso.

ARTIGOS

BULLYING: COMPORTAMENTO AGRESSIVO ENTRE ESTUDANTES


Autor: Aramis A. Lopes Neto

BULLYING: REFLEXÕES SOBRE A VIOLÊNCIA NO CONTEXTO ESCOLAR


Autores: Josi Rosa de Oliveira; Magda Altafini Gomes

BULLYING E EDUCAÇÃO FÍSICA NA ESCOLA: CARACTERÍSTICAS, CASOS, CONSEQÜÊNCIAS E ESTRATÉGIAS


DE INTERVENÇÃO
Autores: Rafael Guimarães Botelho, José Maurício Capinussú de Souza

IMPORTÂNCIA DA IDENTIFICAÇÃO PRECOCE DA OCORRÊNCIA DO BULLYING: UMA REVISÃO DE


LITERATURA
Autores: Kathanne Lopes Almeida, Anamaria Cavalcante e Silva, Jocileide Sales Campos

O FENÔMENO BULLYING NO AMBIENTE ESCOLAR


Autores: Letícia Gabriela Ramos Leão

A COMPREENSÃO SISTÊMICA DO BULLYING


Autores: Naiane Carvalho Wendt Schultz, Denise Franco Duque, Carolina Fermino da Silva, Carolina
Duarte de Souza, Luciana Cristina Assini, Maria da Glória de M. Carneiro

BULLYNG: CONHECIMENTO E PRÁTICA PEDAGÓGICA NO AMBIENTE ESCOLAR


Autores: Sidnéia Barbosa de Almeida, Luciana Roberta Donola Cardoso

BULLYING NO AMBIENTE ESCOLAR


Autores: Juliana Martins Ferreira, Helenice Maria Tavares

VIOLÊNCIA NA ESCOLA: O BULLYING NA RELAÇÃO ALUNO-PROFESSOR E A RESPONSABILIDADE


JURÍDICA
Autores: Juliana Martins Ferreira, Helenice Maria Tavares, Maria Aparecida Alkimin
VÍDEOS

COMO LIDAR COM O BULLYING


Link: https://youtu.be/7DPk9mCnVnc

COMO LIDAR COM O BULLYING NA ESCOLA?


Link: https://youtu.be/ntokU-MCELo

EXCLUSÃO EM SALA DE AULA E BULLYING COMO LIDAR?


Link: https://youtu.be/g7L-wVMHQbg

BULLYING - A CAUSA
Link: https://youtu.be/Y_6Ku-v6UBw

BULLYING, COMO EVITAR ESTA VIOLÊNCIA


Link: https://youtu.be/jljyf8PI_J0

BULLYING E SUAS CONSEQUÊNCIAS


Link: https://youtu.be/s5ueqTaP8qY

BULLYING E AGRESSÕES NAS ESCOLAS


Link: https://youtu.be/CkmgJKnGaMA

BULLYING
Link: https://youtu.be/ZQ0St8VyV1c

BULLYING - DOCUMENTÁRIO
Link: https://youtu.be/3xdQprk_InI
LIVROS
BRINCADEIRAS QUE FAZEM CHORAR!
Carolina Giannoni Camargo – Editora All Print – Brasil

É uma obra prática que permite aos pais e professores conhecerem de forma bem completa o que é o
bullying, como identificar vítimas e agressores e como ajudar os envolvidos nesta violência. Traz ainda
uma reflexão sobre a educação de nossos filhos ou alunos frente ao complexo mundo em que vivemos e
também sobre nosso papel, como educadores, na diminuição dos casos de bullying.

FENÔMENO BULLYING
Cleo Fante – Editora Verus – Brasil

O livro tem como objetivo despertar autoridades educacionais, educadores, pais, alunos e a sociedade
em geral para o assunto, muitas vezes encoberto nas escolas. Embora ofereça um panorama mundial
sobre o problema, a autora destaca a realidade vivida hoje no Brasil e apresenta um programa inédito e
extremamente prático a ser aplicado nas escolas, que já vem sendo desenvolvido em alguns
estabelecimentos de ensino, com sucesso.

BULLYING E DESRESPEITO – COMO ACABAR COM ESSA CULTURA NA ESCOLA


Marie-Nathalie Beaudoin e Maureen Taylor - Editora Artmed – Brasil

Com o objetivo de discutir e apresentar alternativas para enfrentar o problema do bullying, esta obra
reúne conhecimento psicológico e experiência educacional, oferecendo uma abordagem bem-sucedida
para se lidar com um amplo leque de problemas comportamentais. O texto é complementado com
inúmeras atividades e estratégias de fácil implementação, acompanhadas de programas apropriados para
o trabalho nas escolas.

BULLYING – ESTRATÉGIAS DE SOBREVIVÊNCIA PARA CRIANÇAS E ADULTOS


Jane Middelton-Moz e Mary Lee Zawadski – Editora Artmed – Brasil

Em um dos poucos títulos a explorar o bullying, da infância à idade adulta, as autoras deste livro oferecem
uma valiosa ajuda: usam estudos de caso sobre os bullies e suas vítimas para chegar ao centro do
problema, examinando os aspectos de hostilidade explícita e proporcionando um plano para dar um fim
a ele.

BULLYING – COMO COMBATÊ-LO?


Alessandro Constantini – Itália Nova Editora – 2004 – Brasil

Bullying é um tipo de comportamento ligado à agressividade física, verbal ou psicológica e vem sendo
estudado na Europa há dez anos, logo após ter sido evidenciada sua correlação com o suicídio de
adolescentes. A comunicação e a afetividade são os únicos instrumentos eficazes para a aproximação
entre adultos e adolescentes e devem ser usados para enfrentar e prevenir um fenômeno em expansão
entre jovens de todo o mundo. Com este livro, Alessandro Costantini orienta pais e professores naquilo
que mais os assusta e preocupa: uma adolescência problemática.

BULLYING: MAIS SÉRIO DO QUE SE IMAGINA


Pedrinho Guareschi e Michele Reis da Silva (organizadores) – Editora Mundo Jovem – 2007 – Brasil

Este livro procura desvendar as causas e origens do fenômeno chamado bullying, partindo da
conceituação. Faz uma análise das relações entre os seres humanos, dá exemplos concretos, propõe
atitudes para prevenção, sugere atividades e subsídios para estudo e debate sobre o assunto.
BULLYING ESCOLAR - PERGUNTAS E RESPOSTAS
Cleo Fante e José Augusto Pedra – Editora Artmed - 2008 – Brasil

O bullying é uma das formas de violência que mais cresce no mundo e é causa de grande sofrimento.
Como conseqüências, encontram-se o comprometimento da saúde emocional, da qualidade das relações
interpessoais, da construção da cidadania e, principalmente, da ruptura no processo educacional,
podendo ser apontado como uma das causas dos elevados índices de evasão e retenção escolar no país.

TODOS CONTRA DANTE (INFANTO-JUVENIL)


Luis Dill – Editora Cia das Letras – Brasil

Dante é novo na escola. Vem de um bairro mais pobre, gosta de ler A divina comédia, de Dante Alighieri,
e alimenta uma paixão secreta. Logo a aparência dele e sua classe social viram combustível para o riso
dos colegas. A perseguição se torna sistemática e ganha força no ciberespaço, onde, no confortável
anonimato de uma comunidade na internet, inúmeros jovens ridicularizam e hostilizam Dante. O que era
para ser apenas 'brincadeira' de adolescentes ganha dimensões trágicas, extravasa o âmbito virtual e se
instala como ameaça concreta. As conseqüências serão devastadoras.

TEM UM GAROTO NO BANHEIRO DAS MENINAS (INFANTO-JUVENIL)


Louis Sachar – Editora Record – 2006 – 1ª edição

Todos evitam sentar perto de Bradley Chlakers na sala de aula. Ele é brigão, faz brincadeiras de mau gosto
e ameaça bater até nas meninas! Nem mesmo sua professora agüenta mais seu péssimo comportamento.
Ele não faz dever de casa, só tira notas baixas, já repetiu de série e tem uma imaginação muito fértil para
contar mentiras. Quando um novo aluno entra na escola e se oferece para ser seu amigo, Bradley não
consegue acreditar que alguém possa gostar dele. Mas, em pouco tempo, seu comportamento hostil
acaba por afastar seu novo amigo, o que só acaba diminuindo sua auto-estima. Seu desempenho nas aulas
também acaba levando-o para a sala da nova orientadora da escola, uma jovem dinâmica, carinhosa,
competente e engraçada. Ela acha Bradley um menino inteligente e generoso e sabe que ele poderia
mudar se ao menos não tivesse medo de tentar. Algumas vezes, o mais difícil é acreditar em si mesmo...
FILMES
A CLASSE (Klass, Estônia 2007):

Joosep é um adolescente tímido e sensível que virou saco de pancadas do valentão Anders e sua turma.
Diariamente, Joosep é submetido a longas sessões de tortura física e psicológica. A situação piora
quando Kaspar, um dos moleques que marcava posição contra Joosep, muda sua conduta e passa a
protegê-lo. Sentindo sua liderança ameaçada, Anders decide tornar Kaspar vítima tambem das mesmas
atrocidades. Produzido num país sem muita tradição cinematográfica, o filme é um verdadeiro soco no
estômago, feito propositadamente para chocar. A princípio, pode soar sensacionalista, mas está mais
para um ALERTA e dificilmente vai deixar indiferente quem o assistir.

MEU MELHOR INIMIGO (Min Bedste Fjende, Dinamarca 2010):

Cansado de ser humilhado pelos garotos da escola, Alf decide tomar medidas contra aqueles que o
atormentam. Alia-se a outro colega também vítima de bullying e, juntos, inspirados nas lutas de Niccolo,
herói de uma revista em quadrinhos, firmam um pacto secreto para se vingar dos valentões da turma.
Tudo parece ir de acordo com o plano, até que Alf percebe que virar a mesa contra seus algozes, tem
suas consequências. Impactante e triste filme dinamarquês que nos faz refletir sobre nossos atos e este
mundo tão cruel.

ELEFANTE (Elephant, EUA 2003):

Numa escola secundária de Porland, estado do Oregon, a maior parte dos estudantes está engajada em
atividades cotidianas. Enquanto isso, dois alunos esperam, em casa, a chegada de uma metralhadora
semi-automática com altíssimo poder de fogo. Munidos de várias armas que vinham colecionando,
partem para a escola, onde serão protagonistas de um verdadeiro banho de sangue. Inspirado no triste
ocorrido em abril de 1999, quando dois adolescentes mataram 14 estudantes e um professor na
Columbine High School.

BULLYING – PROVOCAÇÕES SEM LIMITES (Bullying, Espanha 2009):

Órfão de pai, Jordi é um jovem educado, bom aluno e talentoso jogador de basquete que, ao se mudar
para uma nova escola em Barcelona, desperta raiva e inveja de um bullie e seu grupo. Humilhações e
espancamentos tornam-se parte de sua vida. Jordi guarda silêncio enquanto a violência se intensifica,
envolvendo-se cada vez mais no perigoso e sádico jogo psicológico do seu agressor. Um longa
angustiante que mostra de maneira severa e chocante a realidade dos que sofrem Bullying e a
importância de se denunciar essa prática

BULLY (Bully, EUA 2001):

Bobby (Nick Stahl) é um valentão que vive abusando fisicamente dos colegas da escola. Cansados de sua
atitude, eles se juntam e decidem lhe dar uma lição, atraindo-o até um pântano e espancando-o até a
morte. O ocorrido provoca reações distintas na comunidade em que vivem, que vão do choque pela
brutalidade do assassinato até mesmo a sensação de que Bobby recebeu o que merecia. Baseado em
fatos verídicos, trata-se de um filme chocante, dirigido pelo polêmico Larry Clark (Kids), especializado
em retratar o ócio e a banalidade da violência na juventude americana.

BEN X – A FASE FINAL (Ben X, Bélgica 2007):

Diagnosticado com Síndrome de Asperger (um Autismo mais leve), Ben é um adolescente com extrema
dificuldade de socialização e comunicação. Para escapar da agressão dos colegas de classe, ele refugia-
se em Archlord, um game jogado por milhares de pessoas online, cada qual operando um personagem
num mundo virtual. A partir do momento em que a opressão leva Ben ao limite, a linha entre a fantasia
e a realidade começa a se tornar perigosamente escorregadia. Um filme tocante e inovador,
supostamente baseado em um episódio real.
EVIL, RAÍZES DO MAL (Ondskan, Suécia 2003):

Problemático jovem de 16 anos, acostumado a tratar todos com brutalidade, devido aos maus tratos de
seu padastro, acaba expulso da escola pública e transferido para um prestigiado colégio privado, onde
sabe que terá sua última oportunidade. O adolescente pretende mudar de vida, porém se defronta com
muitas situações de injustiças e humilhações por parte dos alunos veteranos que ultrapassam os limites
da ética e do bom-senso. Submeter-se ou revidar os maus tratos? Ambientado nos anos 1950, um obra
perturbadora e inquietante que também fala de impunidade.

BANG, BANG! VOCÊ MORREU (Bang, Bang! You’re Dead, EUA 2002).

Ben Foster, então com 21 anos, faz um estudante exemplar que, cansado de ser constantemente
humilhado por um dos jogadores do time de futebol da escola, ameaça explodir o prédio durante o
período de aulas; porém usa uma bomba de mentira. Depois do falso atentado, ele começa a ser visto
com desconfiança pelos colegas, e passa a arquitetar algo realmente violento. Ao falar de preconceito, o
longa mostra claramente do que um jovem é capaz quando o que se espera dele invade os preceitos
morais de um grupo determinado ou de toda uma sociedade.

QUASE UM SEGREDO (Mean Creek, EUA 2004):

Ronny Culkin faz um delicado adolescente continuamente atormentado pelo valentão da escola.
Incentivado pelo irmão mais velho, decide se vingar, atraindo o moleque para uma viagem de barco
onde pretende humilhá-lo. Durante o passeio, passa a enxergar seu algoz sob outra perspectiva – a de
um garoto solitário que só quer um pouco de atenção – e decide cancelar o plano. Mas as coisas dão
errado com consequências trágicas. Um filme instigante, repleto de sarcasmo, sensível e com ótimas
atuações.

CARRIE, A ESTRANHA (Carrie, EUA 1976):

Carrie (Sissy Spacek) é uma jovem tímida que não faz amigos por conta da mãe desequilibrada, uma
fanática religiosa. Ao aceitar ir ao baile do colégio, ela cai numa armadilha preparada para ridicularizá-la
em público. O que ninguém imagina é que a jovem possui poderes telecinéticos e pretende usá-los para
se vingar. Este clássico dirigido por Brian De Palma fala de preconceito e bullying numa época em que a
vida colegial só inspirava comédias ou romances. Engraçado perceber que o título nacional acrescentou
um adjetivo que é, por si só, uma expressão de segregação!
0021-7557/05/81-05-Supl/S164
Jornal de Pediatria
Copyright © 2005 by Sociedade Brasileira de Pediatria
ARTIGO DE REVISÃO

Bullying – comportamento agressivo entre estudantes


Bullying – aggressive behavior among students

Aramis A. Lopes Neto*

Resumo Abstract
Objetivo: Alertar os pediatras sobre a alta prevalência da prática Objective: To warn pediatricians about the high prevalence of
de bullying entre estudantes, conscientizando-os da importância de sua bullying among students, to raise their awareness about the
atuação na prevenção, diagnóstico e tratamento dos possíveis danos à importance of their action in the prevention, diagnosis, and treatment
saúde e ao desenvolvimento de crianças e adolescentes, além da of possible damage to children’s health and development, and about
necessidade em orientar as famílias e a sociedade para o enfrentamento the necessity to instruct families and society on how to face the most
da forma mais freqüente de violência juvenil. frequent form of youth violence.
Fonte de dados: Foram acessados bancos de dados bibliográficos Source of data: Bibliographic databases and relevant Internet
e páginas de relevância na Internet, identificando-se artigos e textos sites were searched for recent articles and texts about the theme.
recentes sobre o tema. Summary of the findings: Aggressive behavior among students
Síntese dos dados: O comportamento agressivo entre estudantes is a universal problem, tradivionally accepted as natural and usually
é um problema universal, tradicionalmente admitido como natural e disregarded or not given proper attention by adults. Studies carried
freqüentemente ignorado ou não valorizado pelos adultos. Estudos out during the past two decades showed that bullying can have
realizados nas 2 últimas décadas demonstraram que a sua prática pode immediate and late negative outcomes for children and adolescents
ter conseqüências negativas imediatas e tardias para todas as crianças who are directly or indirectly involved. The adoption of continued
e adolescentes direta ou indiretamente envolvidos. A adoção de preventive programs in grade schools and in junior high schools has
programas preventivos continuados em escolas de educação infantil e demonstrated to be one of the most effective measures for the
de ensino fundamental tem demonstrado ser uma das medidas mais prevention of alcohol and drug consumption and for the reduction of
efetivas na prevenção do consumo de álcool e drogas e na redução da social violence.
violência social. Conclusion: The prevention of bullying among students
Conclusão: A prevenção do bullying entre estudantes constitui-se represents an essential public health measure that may allow for total
em uma necessária medida de saúde pública, capaz de possibilitar o children’s development, qualifying them for a healthy and safe social
pleno desenvolvimento de crianças e adolescentes, habilitando-os a coexistence.
uma convivência social sadia e segura.

J Pediatr (Rio J). 2005;81(5 Supl):S164-S172: Violência escolar, J Pediatr (Rio J). 2005;81(5 Supl):S164-S172: School violence,
violência juvenil. juvenile violence.

Introdução
A violência é um problema de saúde pública importante buem para respostas violentas mudados. Segundo De-
e crescente no mundo, com sérias conseqüências individu- barbieux & Blaya 6 , não se trata de uma questão de fé, mas
ais e sociais1-4, particularmente para os jovens, que apare- de uma afirmação baseada em evidências. Exemplos bem
cem nas estatísticas como os que mais morrem e os que sucedidos podem ser encontrados em todo o mundo,
mais matam5. desde trabalhos individuais e comunitários em pequena
Hoje em dia, é consenso que a violência pode ser escala, até políticas nacionais e iniciativas legislativas.
evitada, seu impacto minimizado e os fatores que contri- Uma das formas mais visíveis da violência na sociedade
é a chamada violência juvenil, assim denominada por ser
cometida por pessoas com idades entre 10 e 21 anos7,8.
* Sócio Fundador Associação da Brasileira Multiprofissional de Proteção Grupos em que o comportamento violento é percebido antes
à Infância e à Adolescência (ABRAPIA). Coordenador do Programa de
da puberdade tendem a adotar atitudes cada vez mais
Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes. Diretor da
Diretoria dos Direitos da Criança da SOPERJ. Médico da Prefeitura da agressivas, culminando em graves ações na adolescência e
Cidade do Rio de Janeiro. na persistência da violência na fase adulta4,7,9,10.
Como citar este artigo: Lopes Neto AA. Bullying – comportamento Quando abordamos a violência contra crianças e ado-
agressivo entre estudantes. J Pediatr (Rio J). 2005;81(5 Supl):S164-
S172. lescentes e a vinculamos aos ambientes onde ela ocorre,

S164
Bullying – Lopes Neto AA Jornal de Pediatria - Vol. 81, Nº5(Supl), 2005 S165

a escola surge como um espaço ainda pouco explorado, assimetria de poder associada ao bullying pode ser con-
principalmente com relação ao comportamento agressivo seqüente da diferença de idade, tamanho, desenvolvi-
existente entre os próprios estudantes. A violência nas mento físico ou emocional, ou do maior apoio dos demais
escolas é um problema social grave e complexo e, prova- estudantes3,11,17 .
velmente, o tipo mais freqüente e visível da violência
Trata-se de comportamentos agressivos que ocorrem
juvenil9,11-13 .
nas escolas e que são tradicionalmente admitidos como
O termo “violência escolar” diz respeito a todos os naturais, sendo habitualmente ignorados ou não valoriza-
comportamentos agressivos e anti-sociais, incluindo os dos, tanto por professores quanto pelos pais.
conflitos interpessoais, danos ao patrimônio, atos crimino-
A adoção universal do termo bullying foi decorrente da
sos, etc. Muitas dessas situações dependem de fatores
dificuldade em traduzi-lo para diversas línguas. Durante a
externos, cujas intervenções podem estar além da compe-
realização da Conferência Internacional Online School
tência e capacidade das entidades de ensino e de seus
Bullying and Violence, de maio a junho de 2005, ficou
funcionários. Porém, para um sem número delas, a solução
caracterizado que o amplo conceito dado à palavra bullying
possível pode ser obtida no próprio ambiente escolar.
dificulta a identificação de um termo nativo correspondente
O comportamento violento, que causa tanta preocupa- em países como Alemanha, França, Espanha, Portugal e
ção e temor, resulta da interação entre o desenvolvimento Brasil, entre outros18.
individual e os contextos sociais, como a família, a escola e
As pesquisas sobre bullying são recentes e ganharam
a comunidade. Infelizmente, o modelo do mundo exterior é
destaque a partir dos anos 1990, principalmente com
reproduzido nas escolas, fazendo com que essas institui-
Olweus, 1993; Smith & Sharp, 1994; Ross, 1996; Rigby,
ções deixem de ser ambientes seguros, modulados pela
1996 3 . Estudos indicam que a prevalência de estudantes
disciplina, amizade e cooperação3, e se transformem em
vitimizados varia de 8 a 46%, e de agressores, de 5 a
espaços onde há violência, sofrimento e medo.
30% 3,19 .
A escola é vista, tradicionalmente, como um local de
Bullying aprendizado, avaliando-se o desempenho dos alunos com
Estudos sobre as influências do ambiente escolar e base nas notas dos testes de conhecimento e no cumpri-
dos sistemas educacionais sobre o desenvolvimento aca- mento de tarefas acadêmicas. No entanto, três documentos
dêmico do jovem já vêm sendo realizados, mas é neces- legais formam a base de entendimento com relação ao
sário também que tais influências sejam observadas pela desenvolvimento e educação de crianças e adolescentes: a
ótica da saúde. Constituição da República Federativa do Brasil, o Estatuto
da Criança e do Adolescente e a Convenção sobre os Direitos
A escola é de grande significância para as crianças e
da Criança da Organização das Nações Unidas. Em todos
adolescentes, e os que não gostam dela têm maior proba-
esses documentos, estão previstos os direitos ao respeito e
bilidade de apresentar desempenhos insatisfatórios, com-
à dignidade, sendo a educação entendida como um meio de
prometimentos físicos e emocionais à sua saúde ou senti-
prover o pleno desenvolvimento da pessoa e seu preparo
mentos de insatisfação com a vida. Os relacionamentos
para o exercício da cidadania.
interpessoais positivos e o desenvolvimento acadêmico
estabelecem uma relação direta, onde os estudantes que Todos desejamos que as escolas sejam ambientes segu-
perceberem esse apoio terão maiores possibilidades de ros e saudáveis, onde crianças e adolescentes possam
alcançar um melhor nível de aprendizado14. Portanto, a desenvolver, ao máximo, os seus potenciais intelectuais e
aceitação pelos companheiros é fundamental para o desen- sociais. Portanto, não se pode admitir que sofram violências
volvimento da saúde de crianças e adolescentes, aprimo- que lhes tragam danos físicos e/ou psicológicos, que teste-
rando suas habilidades sociais e fortalecendo a capacidade munhem tais fatos e se calem para que não sejam também
de reação diante de situações de tensão15. agredidos e acabem por achá-los banais ou, pior ainda, que
diante da omissão e tolerância dos adultos, adotem compor-
A agressividade nas escolas é um problema universal3,9.
tamentos agressivos.
O bullying e a vitimização representam diferentes tipos de
envolvimento em situações de violência durante a infância A Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à
e adolescência. O bullying diz respeito a uma forma de Infância e à Adolescência (ABRAPIA) desenvolveu o Progra-
afirmação de poder interpessoal através da agressão. A ma de Redução do Comportamento Agressivo entre Estu-
vitimização ocorre quando uma pessoa é feita de receptor dantes, objetivando investigar as características desses
do comportamento agressivo de uma outra mais poderosa. atos entre 5.500 alunos de quinta à oitava série do ensino
Tanto o bullying como a vitimização têm conseqüências fundamental e sistematizar estratégias de intervenção
negativas imediatas e tardias sobre todos os envolvidos: capazes de prevenir a sua ocorrência.
agressores, vítimas e observadores16. Apesar de o estudo ter sido realizado em pouco mais
Por definição, bullying compreende todas as atitudes de 1 ano, de setembro de 2002 a outubro de 2003, foi
agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem possível reduzir a agressividade entre os estudantes,
motivação evidente, adotadas por um ou mais estudante favorecendo o ambiente escolar, o nível de aprendizado,
contra outro(s), causando dor e angústia, sendo executa- a preservação do patrimônio e, principalmente, as rela-
das dentro de uma relação desigual de poder3,11 . Essa ções humanas (Tabela 1 e 2).
S166 Jornal de Pediatria - Vol. 81, Nº5(supl), 2005 Bullying – Lopes Neto AA

Tabela 1 - Percepção dos estudantes quanto à prática de bullying Uma nova forma de bullying, conhecida como cyber-
nas escolas bullying, tem sido observada com uma freqüência cada vez
Dados da pesquisa inicial da ABRAPIA maior no mundo. Segundo Bill Belsey, trata-se do uso da
tecnologia da informação e comunicação (e-mails, telefo-
• 40,5% dos alunos admitiram estar diretamente envolvidos em
nes celulares, mensagens por pagers ou celulares, fotos
atos de bullying, sendo 16,9% como alvos, 12,7% como
digitais, sites pessoais difamatórios, ações difamatórias
autores e 10,9% ora como alvos, ora como autores;
online) como recurso para a adoção de comportamentos
• 60,2% dos alunos afirmaram que o bullying ocorre mais
freqüentemente dentro das salas de aula; deliberados, repetidos e hostis, de um indivíduo ou grupo,
• 80% dos estudantes manifestaram sentimentos contrários aos que pretende causar danos a outro(s)22. A vitimização
atos de bullying, como medo, pena, tristeza, etc. através de telefones celulares foi admitida por 14 a 23% dos
• 41,6% dos que admitiram ser alvos de bullying disseram não adolescentes entrevistados em três pesquisas23-25.
ter solicitado ajuda aos colegas, professores ou família;
• entre aqueles que pediram auxílio para reduzir ou cessar seu
sofrimento, o objetivo só foi atingido em 23,7% dos casos; Fatores de risco
• 69,3% dos jovens admitiram não saber as razões que levam à Fatores econômicos, sociais e culturais, aspectos inatos
ocorrência de bullying ou acreditam tratar-se de uma forma de de temperamento e influências familiares, de amigos, da
brincadeira; escola e da comunidade, constituem riscos para a manifes-
• entre os alunos autores de bullying, 51,8% afirmaram que não tação do bullying e causam impacto na saúde e desenvolvi-
receberam nenhum tipo de orientação ou advertência quanto mento de crianças e adolescentes9,21.
à incorreção de seus atos.
O bullying é mais prevalente entre alunos com idades
entre 11 e 13 anos, sendo menos freqüente na educação
infantil e ensino médio14,17,26.

Tabela 2 - Percepção dos estudantes quanto à prática de bullying Entre os agressores, observa-se um predomínio do
nas escolas sexo masculino, enquanto que, no papel de vítima, não há
diferenças entre gêneros. O fato de os meninos envolve-
Alterações detectadas na avaliação final
do projeto da ABRAPIA rem-se em atos de bullying mais comumente não indica
necessariamente que sejam mais agressivos, mas sim
• 79,9% dos alunos admitem saber o que é bullying; que têm maior possibilidade de adotar esse tipo de
• redução de 6,6% de alunos alvos; comportamento. Já a dificuldade em identificar-se o
• redução de 12,3% de alunos autores de bullying; bullying entre as meninas pode estar relacionada ao uso
• a indicação da sala de aula como local de maior incidência de de formas mais sutis 3,14 .
atos de bullying caiu de 60,2% para 39,3%, representando
Considerando-se que a maioria dos atos de bullying
uma queda de 24,7%;
ocorre fora da visão dos adultos, que grande parte das
• o número de alunos que admitia gostar de ver o colega sofrer
bullying reduziu-se em 46,1%; vítimas não reage ou fala sobre a agressão sofrida 22 ,
• entre os alunos alvos que buscaram ajuda, o sucesso das
pode-se entender por que professores e pais têm pouca
intervenções para a redução ou cessação do bullying teve um percepção do bullying, subestimam a sua prevalência e
crescimento de 75,9%; atuam de forma insuficiente para a redução e interrupção
• o desconhecimento sobre o entendimento das razões que dessas situações 19,27. A ABRAPIA identificou que 51,8%
levam à prática de bullying reduziu-se em 49,1%; dos autores de bullying admitiram não terem sido adver-
• aqueles que admitiram o bullying como um ato de maldade tidos3 . A aparente aceitação dos adultos e a conseqüente
passou de 4,4% para 25,2% das respostas, representando um sensação de impunidade favorecem a perpetuação do
aumento de 472,7%;
comportamento agressivo.
• o número de alunos autores de bullying que admitiu ter
recebido orientações e advertências quanto à incorreção de
A redução dos fatores de risco pode prevenir o compor-
seus atos passou de 45,6% para 68%, representando um tamento agressivo entre crianças e adolescentes. Os esfor-
crescimento de 33,4%. ços devem ser direcionados para a diminuição da exposição
à violência no ambiente escolar, doméstico e comunitário,
além daquela divulgada pela mídia28.

Classificação
Formas de envolvimento dos estudantes
O bullying é classificado como direto, quando as vítimas
são atacadas diretamente, ou indireto, quando estão au- As crianças e adolescentes podem ser identificados
sentes. São considerados bullying direto os apelidos, agres- como vítimas, agressores ou testemunhas de acordo com
sões físicas, ameaças, roubos, ofensas verbais ou expres- sua atitude diante de situações de bullying. Não há
sões e gestos que geram mal estar aos alvos. São atos evidências que permitam prever qual papel adotará cada
utilizados com uma freqüência quatro vezes maior entre os aluno, uma vez que pode ser alterado de acordo com as
meninos. O bullying indireto compreende atitudes de indi- circunstâncias 27 .
ferença, isolamento, difamação e negação aos desejos, A forma de classificação utilizada pela ABRAPIA teve o
sendo mais adotados pelas meninas3,11,19-21. cuidado de não rotular os estudantes, evitando que estes
Bullying – Lopes Neto AA Jornal de Pediatria - Vol. 81, Nº5(Supl), 2005 S167

fossem estigmatizados pela comunidade escolar. Adota- É pouco comum que a vítima revele espontaneamente o
ram-se, então, os termos autor de bullying (agressor), alvo bullying sofrido, seja por vergonha, por temer retaliações,
de bullying (vítima), alvo/autor de bullying (agressor/ por descrer nas atitudes favoráveis da escola ou por recear
vítima) e testemunha de bullying3,29. possíveis críticas. Na pesquisa da ABRAPIA, 41,6% dos
alunos alvos admitiram não ter falado a ninguém sobre seu
sofrimento3. O silêncio só é rompido quando os alvos
Alvos de bullying sentem que serão ouvidos, respeitados e valorizados. Cons-
Considera-se alvo o aluno exposto, de forma repetida e cientizar as crianças e adolescentes que o bullying é inacei-
durante algum tempo, às ações negativas perpetradas por tável e que não será tolerado permite o enfrentamento do
um ou mais alunos. Entende-se por ações negativas as problema com mais firmeza, transparência e liberdade11.
situações em que alguém, de forma intencional e repetida,
causa dano, fere ou incomoda outra pessoa.
Autores de bullying
Em geral, não dispõe de recursos, status ou habilidade
Algumas condições familiares adversas parecem favo-
para reagir ou cessar o bullying. Geralmente, é pouco
recer o desenvolvimento da agressividade nas crianças.
sociável, inseguro e desesperançado quanto à possibilidade
Pode-se identificar a desestruturação familiar, o relaciona-
de adequação ao grupo. Sua baixa auto-estima é agravada
mento afetivo pobre, o excesso de tolerância ou de permis-
por críticas dos adultos sobre a sua vida ou comportamento,
sividade e a prática de maus-tratos físicos ou explosões
dificultando a possibilidade de ajuda. Tem poucos amigos,
emocionais como forma de afirmação de poder dos
é passivo, retraído, infeliz e sofre com a vergonha, medo,
pais3,8,21,26,27 .
depressão e ansiedade. Sua auto-estima pode estar tão
Fatores individuais também influem na adoção de com-
comprometida que acredita ser merecedor dos maus-tratos
portamentos agressivos: hiperatividade, impulsividade, dis-
sofridos3,9,11,14,22,27,30.
túrbios comportamentais, dificuldades de atenção, baixa
O tempo e a regularidade das agressões contribuem
inteligência e desempenho escolar deficiente.
fortemente para o agravamento dos efeitos. O medo, a
O autor de bullying é tipicamente popular; tende a
tensão e a preocupação com sua imagem podem compro-
envolver-se em uma variedade de comportamentos anti-
meter o desenvolvimento acadêmico, além de aumentar a
sociais; pode mostrar-se agressivo inclusive com os adul-
ansiedade, insegurança e o conceito negativo de si mesmo 8.
tos; é impulsivo; vê sua agressividade como qualidade; tem
Pode evitar a escola e o convívio social, prevenindo-se
opiniões positivas sobre si mesmo; é geralmente mais forte
contra novas agressões. Mais raramente, pode apresentar
que seu alvo; sente prazer e satisfação em dominar,
atitudes de autodestruição ou intenções suicidas ou se
controlar e causar danos e sofrimentos a outros. Além disso,
sentir compelido a adotar medidas drásticas, como atos de
pode existir um “componente benefício” em sua conduta,
vingança, reações violentas, portar armas ou cometer
como ganhos sociais e materiais11,21,29,34. São menos
suicídio25,27,31.
satisfeitos com a escola e a família, mais propensos ao
Algumas características físicas, comportamentais ou
absenteísmo e à evasão escolar e têm uma tendência maior
emocionais podem torná-lo mais vulnerável às ações dos
para apresentarem comportamentos de risco (consumir
autores e dificultar a sua aceitação pelo grupo. A rejeição às
tabaco, álcool ou outras drogas, portar armas, brigar,
diferenças é um fato descrito como de grande importância
etc)3,8,35-37. As possibilidades são maiores em crianças ou
na ocorrência de bullying. No entanto, é provável que os
adolescentes que adotam atitudes anti-sociais antes da
autores escolham e utilizem possíveis diferenças como
puberdade e por longo tempo9,27,37.
motivação para as agressões, sem que elas sejam, efetiva-
Pode manter um pequeno grupo em torno de si, que
mente, as causas do assédio26,29,32,33.
atua como auxiliar em suas agressões ou é indicado para
Embora não haja estudos precisos sobre métodos
agredir o alvo. Dessa forma, o autor dilui a responsabili-
educativos familiares que incitem ao desenvolvimento de
dade por todos ou a transfere para os seus liderados.
alvos de bullying, alguns deles são identificados como
Esses alunos, identificados como assistentes ou seguido-
facilitadores: proteção excessiva, gerando dificuldades
res, raramente tomam a iniciativa da agressão, são
para enfrentar os desafios e para se defender; tratamento
inseguros ou ansiosos e se subordinam à liderança do
infantilizado, causando desenvolvimento psíquico e emo-
autor para se proteger ou pelo prazer de pertencer ao
cional aquém do aceito pelo grupo; e o papel de “bode
grupo dominante 11 .
expiatório” da família, sofrendo críticas sistemáticas e
sendo responsabilizado pelas frustrações dos pais.
Nos casos em que alunos armados invadiram as Testemunhas de bullying
escolas e atiraram contra colegas e professores, cerca de A maioria dos alunos não se envolve diretamente em
dois terços desses jovens eram vítimas de bullying e atos de bullying e geralmente se cala por medo de ser a
recorreram às armas para combater o poder que os “próxima vítima”, por não saberem como agir e por descre-
sucumbia. As agressões não tiveram alvos específicos, rem nas atitudes da escola. Esse clima de silêncio pode ser
sugerindo que o desejo era o de “matar a Escola”, local interpretado pelos autores como afirmação de seu poder, o
onde diariamente todos os viam sofrer e nada faziam para que ajuda a acobertar a prevalência desses atos, transmi-
protegê-los3 . tindo uma falsa tranqüilidade aos adultos3,27.
S168 Jornal de Pediatria - Vol. 81, Nº5(supl), 2005 Bullying – Lopes Neto AA

Grande parte das testemunhas sente simpatia pelos Prejuízos financeiros e sociais causados pelo bullying
alvos, tende a não culpá-los pelo ocorrido, condena o atingem também as famílias, as escolas e a sociedade em
comportamento dos autores e deseja que os professores geral. As crianças e adolescentes que sofrem e/ou praticam
intervenham mais efetivamente38,39. Cerca de 80% dos bullying podem vir a necessitar de múltiplos serviços, como
alunos não aprovam os atos de bullying3. saúde mental, justiça da infância e adolescência, educação
A forma como reagem ao bullying permite classificá-los especial e programas sociais.
como auxiliares (participam ativamente da agressão), in- O comportamento dos pais dos alunos alvo pode variar
centivadores (incitam e estimulam o autor), observadores da descrença ou indiferença a reações de ira ou inconformis-
(só observam ou se afastam) ou defensores (protegem o mo contra si mesmos e a escola. O sentimento de culpa e
alvo ou chamam um adulto para interromper a agressão)19. incapacidade para debelar o bullying contra seus filhos
Muitas testemunhas acabam acreditando que o uso de passa a ser a preocupação principal em suas vidas, surgindo
comportamentos agressivos contra os colegas é o melhor sintomas depressivos e influenciando seu desempenho no
caminho para alcançarem a popularidade e o poder e, por trabalho e nas relações pessoais. A negação ou indiferença
isso, tornam-se autores de bullying19. Outros podem apre- da direção e professores pode gerar desestímulo e a
sentar prejuízo no aprendizado; receiam ser relacionados à sensação de que não há preocupação pela segurança dos
figura do alvo, perdendo seu status e tornando-se alvos alunos42.
também; ou aderem ao bullying por pressão dos colegas9. A relação familiar também pode ser seriamente compro-
Quando as testemunhas interferem e tentam cessar o metida. A criança ou adolescente pode sentir-se traído, caso
bullying, essas ações são efetivas na maioria dos casos. entenda que seus pais não estejam acreditando em seus
Portanto, é importante incentivar o uso desse poder advindo relatos ou quando suas ações não se mostram efetivas43 .
do grupo, fazendo com que os autores se sintam sem o apoio
social necessário3,8.
O papel do pediatra
Os efeitos do bullying são raramente evidentes, sendo
Alvos/autores de bullying pouco provável que a criança ou adolescente procure o
Aproximadamente 20% dos alunos autores também pediatra com a clara compreensão de ser ele autor ou alvo
sofrem bullying, sendo denominados alvos/autores. A de bullying. No entanto, é possível identificar os pacientes
combinação da baixa auto-estima e atitudes agressivas e de risco, aconselhar as famílias, rastrear possíveis altera-
provocativas é indicativa de uma criança ou adolescente ções psiquiátricas e incentivar a implantação de programas
que tem, como razão para a prática de bullying, prováveis anti-bullying nas escolas17.
alterações psicológicas, devendo merecer atenção espe-
Sofrer bullying pode ser um fator predisponente impor-
cial. Podem ser depressivos, inseguros e inoportunos,
tante para a instalação e manutenção de sinais e sintomas
procurando humilhar os colegas para encobrir suas limi-
clínicos (Tabela 3). A identificação de algumas dessas
tações. Diferenciam-se dos alvos típicos por serem impo-
queixas pode ser indicativo de maus-tratos perpetrados por
pulares e pelo alto índice de rejeição entre seus colegas
colegas, demonstrando a necessária atenção dos profissio-
e, por vezes, pela turma toda11,17,21 . Sintomas depressi-
nais de saúde3,17,19,24,28.
vos, pensamentos suicidas e distúrbios psiquiátricos são
Existem dúvidas se os danos à saúde precedem o
mais freqüentes nesse grupo40,41 .
bullying ou se são esses atos que afetam a saúde dos alvos.
O estresse causado pela vitimização poderia levar ao surgi-
Conseqüências mento de patologias, mas as crianças e adolescentes com
Alvos, autores e testemunhas enfrentam conseqüências problemas como depressão ou ansiedade podem se tornar
físicas e emocionais de curto e longo prazo8, as quais podem alvos de bullying. Poucos estudos investigaram essa rela-
causar dificuldades acadêmicas, sociais, emocionais e le- ção, mas as duas hipóteses contam com forte apoio19. A
gais12,17. Evidentemente, as crianças e adolescentes não intervenção precoce, tanto com relação aos alvos quanto
são acometidas de maneira uniforme, mas existe uma aos autores, pode reduzir os riscos de danos emocionais
relação direta com a freqüência, duração e severidade dos tardios29,43 .
atos de bullying14. Em casos suspeitos, os fatores de risco devem ser
Pessoas que sofrem bullying quando crianças são mais sempre investigados e abordados. São eles: características
propensas a sofrerem depressão e baixa auto-estima pessoais, influências familiares e comunitárias e problemas
quando adultos. Da mesma forma, quanto mais jovem for escolares21,40.
a criança freqüentemente agressiva, maior será o risco de Não há métodos diagnósticos que indiquem a existência
apresentar problemas associados a comportamentos anti- do comportamento agressivo como fator predisponente a
sociais em adultos e à perda de oportunidades, como a alguma alteração comportamental ou psicossomática. Cabe
instabilidade no trabalho e relacionamentos afetivos pou- ao pediatra buscar informações sobre o processo de evolu-
co duradouros14,22,35. ção escolar de seus pacientes, não só avaliando sua capa-
O simples testemunho de atos de bullying já é suficiente cidade de aprender, como também o desenvolvimento de
para causar descontentamento com a escola e comprome- habilidades relacionadas ao convívio social. Para isso, tor-
timento do desenvolvimento acadêmico e social11. na-se necessário perguntar diretamente à criança ou ao
Bullying – Lopes Neto AA Jornal de Pediatria - Vol. 81, Nº5(Supl), 2005 S169

adolescente se ele se sente bem na escola, se tem amigos, seus colegas merecem atenção, tanto quanto os que são
se testemunha ou se é alvo e/ou autor de agressões físicas por eles agredidos 40 .
ou morais17,27. Os identificados como alvos/autores apresentam maior
A avaliação psiquiátrica e/ou psicológica pode ser ne- probabilidade de desenvolverem doença mental, devendo
cessária e deve ser garantida nos casos em que crianças ou ser considerados como de maior risco. Manifestações como
adolescentes apresentem alterações de personalidade, in- hiperatividade, déficit de atenção, desordem de conduta,
tensa agressividade, distúrbios de conduta ou se mante- depressão, dificuldades de aprendizado, agressividade, além
nham, por longo período, na figura de alvo, autor ou alvo/ de todas as demais já citadas, podem ser encontradas 17,39.
autor11,17,22,29,44. As famílias, tanto dos alvos como dos autores, devem
A prevenção de futuros incidentes pode ser obtida com ser ajudadas a entender o problema, expondo a elas todas
orientações sobre medidas de proteção a serem adotadas: as possíveis conseqüências advindas do bullying. Os pais
ignorar os apelidos, fazer amizade com colegas não agres- devem ser orientados para que busquem a parceria da
sivos, evitar locais de maior risco e informar ao professor ou escola, conversando com um gestor ou um professor que
funcionário sobre o bullying sofrido17,27. lhes pareça mais sensível e receptivo ao problema17,28,29.
Entre os autores, as alterações de comportamento, os Como consultores em escolas, atuando nos departa-
comportamentos de risco e o consumo de álcool e drogas mentos de segurança pública ou em associações comunitá-
são vistos com mais freqüência17. Outros fatores que rias, os pediatras devem esclarecer sobre o impacto que o
contribuem para a agressividade e o desenvolvimento de bullying pode provocar sobre as crianças, adolescentes e
desordens de conduta são as lesões cerebrais pós-trauma, escolas e indicar a importância de criar ambientes onde
maus-tratos, vulnerabilidade genética, falência escolar, sejam valorizados a amizade, solidariedade e o respeito à
experiências traumáticas, etc.41. diversidade17.
O tratamento indicado para o autor de bullying deve
ser o de habilitá-lo para que controle sua irritabilidade,
expresse sua raiva e frustração de forma apropriada, seja Medidas preventivas
responsável por suas ações e aceite as conseqüências de Avaliar o bom desempenho dos estudantes pelas notas
seus atos. Portanto, aqueles pacientes que relatarem dos testes e cumprimento das tarefas não é suficiente.
situações em que protagonizam ações agressivas contra Perceber e monitorar as habilidades ou possíveis dificulda-
des que possam ter os jovens em seu convívio social com os
colegas passa a ser atitude obrigatória daqueles que assu-
miram a responsabilidade pela educação, saúde e seguran-
Tabela 3 - Sinais e sintomas possíveis de serem observados em ça de seus alunos, pacientes e filhos.
alunos alvos de bullying
Todos os programas anti-bullying devem ver as escolas
Enurese noturna como sistemas dinâmicos e complexos, não podendo tratá-
Alterações do sono las de maneira uniforme. Em cada uma delas, as estratégias
Cefaléia a serem desenvolvidas devem considerar sempre as carac-
Dor epigástrica terísticas sociais, econômicas e culturais de sua população.
Desmaios
O envolvimento de professores, funcionários, pais e
Vômitos
alunos é fundamental para a implementação de projetos de
Dores em extremidades
redução do bullying. A participação de todos visa estabele-
Paralisias
Hiperventilação cer normas, diretrizes e ações coerentes. As ações devem
Queixas visuais priorizar a conscientização geral; o apoio às vítimas de
Síndrome do intestino irritável bullying, fazendo com que se sintam protegidas; a consci-
Anorexia entização dos agressores sobre a incorreção de seus atos e
Bulimia a garantia de um ambiente escolar sadio e seguro.
Isolamento
O fenômeno bullying é complexo e de difícil solução,
Tentativas de suicídio
portanto é preciso que o trabalho seja continuado. As ações
Irritabilidade
são relativamente simples e de baixo custo1,3, podendo ser
Agressividade
Ansiedade
incluídas no cotidiano das escolas, inserindo-as como temas
Perda de memória transversais em todos os momentos da vida escolar.
Histeria Deve-se encorajar os alunos a participarem ativamente
Depressão da supervisão e intervenção dos atos de bullying, pois o
Pânico enfrentamento da situação pelas testemunhas demonstra
Relatos de medo aos autores que eles não terão o apoio do grupo. Treinamen-
Resistência em ir à escola
tos através de técnicas de dramatização podem ser úteis
Demonstrações de tristeza
para que adquiram habilidade para lidar de diferentes
Insegurança por estar na escola
formas. Uma outra estratégia é a formação de grupos de
Mau rendimento escolar
Atos deliberados de auto-agressão
apoio, que protegem os alvos e auxiliam na solução das
situações de bullying19.
S170 Jornal de Pediatria - Vol. 81, Nº5(supl), 2005 Bullying – Lopes Neto AA

Os professores devem lidar e resolver efetivamente os Reduzir a prevalência de bullying nas escolas pode ser
casos de bullying, enquanto as escolas devem aperfeiçoar uma medida de saúde pública altamente efetiva para o
suas técnicas de intervenção e buscar a cooperação de século XXI. A sua prevalência e gravidade compelem os
outras instituições, como os centros de saúde, conselhos pesquisadores a investigar os riscos e os fatores de prote-
tutelares e redes de apoio social19. ção, associados com a iniciação, manutenção e interrupção
Aos alunos autores, devem ser dadas condições para desse tipo de comportamento agressivo. Os conhecimentos
que desenvolvam comportamentos mais amigáveis e sadi- adquiridos com os estudos devem ser utilizados como
os, evitando o uso de ações puramente punitivas, como fundamentação para orientar e direcionar a formulação de
castigos, suspensões ou exclusão do ambiente escolar, que políticas públicas e para delinear as técnicas multidisciplina-
acabam por marginalizá-los. res de intervenção que possam reduzir esse problema de
forma eficaz.
Em um país como o Brasil, onde o incentivo à melhoria
Efetividade do programa da educação de seu povo se tornou um instrumento socia-
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os lizador e de desenvolvimento, onde grande parte das
programas que enfatizam as capacidades sociais e a aqui- políticas sociais é voltada para a inclusão escolar, as escolas
sição de competências parecem estar entre as estratégias passaram a ser o espaço próprio e mais adequado para a
mais eficazes para a prevenção da violência juvenil, sendo construção coletiva e permanente das condições favoráveis
mais efetivos em escolas da educação infantil e do ensino para o pleno exercício da cidadania.
fundamental. Um exemplo de programa de desenvolvimen- As instituições de saúde e educação, assim como seus
to social que utiliza técnicas comportamentais em sala de profissionais, devem reconhecer a extensão e o impacto
aula é aquele implantado para evitar o comportamento gerado pela prática de bullying entre estudantes e desen-
prepotente agressivo (bullying)45. volver medidas para reduzi-la rapidamente. Aos profissi-
O Programa de Prevenção do Bullying criado por Dan onais de saúde, particularmente aos pediatras, é reco-
Olweus é considerado como o mais bem documentado e mendável que sejam competentes para prevenir, investi-
mais efetivo na redução do bullying, na diminuição signifi- gar, diagnosticar e adotar as condutas adequadas diante
cativa de comportamentos anti-sociais e em melhorias de situações de violências que envolvam crianças e
importantes no clima social entre crianças e adolescentes, adolescentes, tanto na figura de autor, como na de alvo
com a adoção de relacionamentos sociais positivos e maior ou testemunha.
participação nas atividades escolares14,19,21. Mesmo admitindo que os atos agressivos derivem de
Nas escolas onde estudantes tiveram participação ativa influências sociais e afetivas, construídas historicamente e
nas decisões e organização, observou-se redução dos níveis justificadas por questões familiares e/ou comunitárias, é
de vandalismo e de problemas disciplinares e maior satis- possível considerar a possibilidade infinita de pessoas des-
fação de alunos e professores com a escola15. No projeto da cobrirem formas de vida mais felizes, produtivas e seguras.
ABRAPIA, 63,5% dos alunos participaram ativamente de Todas as crianças e adolescentes têm, individual e coletiva-
seu desenvolvimento3. mente, uma prerrogativa humana de mudança, de transfor-
Os melhores resultados são obtidos por meio de inter- mação e de reconstrução, ainda que em situações muito
venções precoces que envolvam pais, alunos e educadores. adversas, podendo vir a protagonizar uma vida apoiada na
O diálogo, a criação de pactos de convivência, o apoio e o paz, na segurança possível e na felicidade. Mas esse desafio
estabelecimento de elos de confiança e informação são não é simples e, em geral, depende de uma intervenção
instrumentos eficazes, não devendo ser admitidas, em interdisciplinar firme e competente, principalmente pelos
hipótese alguma, ações violentas4,13,15,46. profissionais das áreas de educação e saúde.
O bullying pode ser entendido como um balizador para
o nível de tolerância da sociedade com relação à violência.
Conclusão Portanto, enquanto a sociedade não estiver preparada
As conseqüências geradas pelo bullying são tão graves para lidar com o bullying, serão mínimas as chances de
que crianças norte-americanas, com idades entre 8 e 15 reduzir as outras formas de comportamentos agressivos
anos, identificam esse tipo de violência como um problema e destrutivos 11 .
maior que o racismo e as pressões para fazer sexo ou
consumir álcool e drogas47.
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Bullying: reflexões sobre a violência no contexto escolar
1
Josi Rosa de Oliveira
2
Magda Altafini Gomes

RESUMO - O presente trabalho apresenta reflexões acadêmicas sobre a violência, trazendo nas primeiras
seções um panorama parcial, definições e considerações sobre a temática, enfocando nas seções que se
seguem, a violência nos espaços escolares, suas contextualizações e possíveis soluções coletivas. O
Bullying é apresentado como um problema social que invadiu a escola, ocasionando vários problemas de
ordem estrutural, política e pedagógica. Reflexões são feitas com o objetivo de se conhecer o problema, as
suas implicações no processo de desenvolvimento da criança e do adolescente; caracterizando o bullying, o
mobbing, o cyberbullying e o comportamento dos bullies. Apresenta algumas considerações em relação às
estratégias que possam contribuir na prevenção e na intervenção do bullying na escola, que passa pela
capacitação dos professores, orientação dos alunos, políticas de prevenção e educação para a paz.
Palavras-chave: Bullying; Violência Escolar; Violência Social.

Education as a way of racism elimination: A issue of human rights

ABSTRACT - This article presents academic reflections on violence, bringing in the first sections a partial
overview, definitions and considerations on the subject, focusing on the sections that follow, violence in
school spaces, its contextualization and possible collective solutions. The Bullying is presented as a social
problem that has invaded the school, occasionally several structural problems, political and pedagogical.
Reflections are made with the objective of discovering the problem, its implications for the development of
child and adolescent; characterizing bullying, mobbing, cyberbullying and the behavior of bullies. Presents
some considerations related to strategies that may assist in prevention and intervention of bullying at
school, passing through teacher training, mentoring of students, policies for prevention and peace
education.
Palavras-chave: Bullying; School Violencia; Violencia.Social.

1
Mestranda em Educação pela PUCRS; Especialista em Educação a Distância-SENAC/EAD; Professora Estadual do Ensino
Profissional e Médio e Tutora no Curso de Pós Graduação em Mídias na Educação-UFSM.
2
Mestranda em Educação pela PUCRS; Especialista em Psicopedagogia Clínica e Instituicional pela FEEVALE, Licenciada
em Letras Língua Inglesa e literaturas da língua inglesa pela FACOS/Osório.

Revista Educação por Escrito – PUCRS, v.2, n.2, jan. 2012.


Introdução os municípios mais pobres do território brasileiro
são aqueles em que há menos violência. A mídia,
A sociedade humana é sinalizada por inclusive, apresenta cenários de violência em
processos de criação e de categorização das todas as camadas da sociedade. Em se tratando
pessoas. Neste sentido, o ser humano constrói da violência entre jovens, pode-se encontrar um
sua identidade nas relações que estabelece alto nível de desenvolvimento, também na elite
consigo mesmo e com outros seres, ao mesmo do país.
tempo em que transforma a sociedade, também é A desigualdade e a igualdade, segundo
transformado por ela. Peralva (idem. p.30) são categorias gerais da
Cada sociedade classifica os homens de experiência democrática e que por si só não são
acordo com a sua visão e padrão de normalidade geradoras de violência, mas de conflitos
esquecendo-se por vezes que esta é composta de consideráveis. Neste cenário democrático de uma
homens diversos. Nas relações que se sociedade individualista, a educação dá suporte
estabelecem, condutas violentas têm se formado, ao ingresso em massa da juventude dos extratos
impondo desafios para pesquisadores, populares. Junto a isso a vida urbana exige um
profissionais do ensino, governantes e demais comportamento consumista.
agentes. É preciso que se compreendam os Peralva (2001) afirma, ainda que a
processos produtores da violência na sociedade brasileira nos últimos quarenta anos
contemporaneidade, em especial na escola, para foi marcada por uma significativa redução das
tecermos algumas possíveis soluções, que desigualdades sociais, foi também acompanhada
acreditamos sejam do âmbito das instituições por um ganho de conflitos potenciais, mas
formadoras da sociedade. manteve em níveis exponenciais a desigualdade
Peralva (apud Levisky 2001, p.25), em de renda.
suas reflexões relaciona a violência à A violência que sofre a sociedade hoje tem
democracia. Parece a priori paradoxal, contudo a a ver com as transformações internas que vem
democracia, de certa maneira, traz em si mesma sofrendo em seus diversos campos. O sistema
um potencial de violência que deriva dos social está em desequilíbrio e compreender a
conflitos inter-individuais que sempre crescem violência significa compreender as condutas
paralelamente ao crescimento da igualdade. humanas, as formas como seus agentes
Desde os primórdios, os privilégios dos nobres favorecem ou inibem estas condutas e também
foram pouco tolerados pelas classes minoritárias como respondem a elas.
e, portanto, a necessidade de um regime político Partiremos para um passeio teórico-
que desse conta de reduzir estas distâncias. histórico, objetivando a demarcação de nosso
Por muito tempo e ainda em nossos dias, tema e algumas definições importantes para a
alguns estudiosos atribuem uma das causas da compreensão das idéias.
violência, em grande parte, a pobreza e a
miserabilidade. Todavia, pesquisas apontam que Considerações sobre a violência

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sociedade privatiza a segurança numa tentativa
Em busca de definições que pudessem de conter o que já não está contido.
elucidar nossos estudos, apresentamos algumas Outro tipo a considerar é a justiça ilegal,
que julgamos pertinente. Partimos do conceito do tais como os linchamentos, chacinas que
termo „violência‟ do dicionário Priberan on-line constituem forma de ação direta em resposta a
(2010): s. f. 1. Estado daquilo que é violento. 2. insegurança e a ausência da prestação de um
Ato violento. 3. Ato de violentar. 4. Veemência. serviço público. As políticas públicas deficientes
5. Irascibilidade. 6. Abuso da força. 7. nestas questões e o fato de vivermos num país
Tirania; opressão. 8. Jur. Constrangimento caracterizado por níveis de risco urbano
exercido sobre alguma pessoa para obrigá-la a evidenciam a multiplicação da violência nos
fazer um ato qualquer; coação. (grifos nossos) micro espaços da sociedade.
Como se pode observar, o conceito é A antropóloga Alga Zaluar (apud Levisky
bastante amplo e há ambivalência semântica, 2001, p.43) afirma que nos países em que a lei,
conforme nos diz Aquino (1998). O termo pode em vez de impor limites ao dinheiro, deixa-se
ter conotação positiva, denotando a qualidade do seduzir por ele, o acúmulo de riquezas e dos
que atua com força e grande impulso. Neste instrumentos de violência são fundamentais para
sentido, o autor traz para a reflexão a ação dos capacitar as pessoas na resolução de conflitos.
agentes institucionais, e aqui podemos concluir Refletindo sobre as palavras de Zaluar, nos
que a escola seja um espaço institucional. Diz-se remetemos ao cenário televisivo, onde a
que a ação seria violenta porque transformadora, violência pública e a particular se unem em
ou seja, uma ação desencadeadora de algo novo. detrimento do saber social e caímos na via de
Sob outra ótica do termo, acredita-se que a grande fluxo que são as múltiplas causas da
violência seja um fenômeno dinâmico, histórico violência.
e biopsicossocial que sofre mutações conforme No passeio a que nos propomos,
os ditames e condutas da sociedade. No intuito apresentamos a seguir informações do cenário
de compreendê-la melhor, apropriamo-nos de europeu, colhidas na pesquisa bibliográfica sobre
alguns exemplos de Peralva (2001, p.32-33) na a violência. Debarbieux (2002) em seus
tentativa de esclarecer o leitor e nós mesmas. pressupostos teóricos rumo às ações das
Utilizando o cenário social da atualidade comunidades científicas para lidar com a
trazemos à discussão o tipo de violência policial violência, afirma que os projetos científicos
e sua variante de compromissar-se com o crime. desenvolvidos para este fim devem também ser
Vemos, neste exemplo, a inversão dos valores e éticos. Uma ética de debate andando junto com a
das funções sociais as quais a polícia se destina, e ética da responsabilidade, a luz da razão e aliadas
junto a isso, seguindo o exemplo, temos a para o esclarecimento. Em outras palavras,
delinquência e a criminalidade, oriundas da políticos e cientistas em prol da busca de
impunidade, formando um círculo vicioso. E a soluções para o problema da violência.

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Na Espanha, na década de 1990, um grupo estruturais com o sistema educacional. Possui
de pesquisadores da Universidade de Sevilha equipes de assistência a juventude que trabalham
constatou na realização de estudos, a presença do junto à rede de escolas. Caracterizam-se por
fenômeno das relações e dos episódios de complementarem os serviços de apoio
ofensas verbais, abuso de poder, assédio educacional oferecidos pelas escolas, atuando nas
psicológico, intimidação, ameaças e maus-tratos residências dessas famílias e no seu entorno.
em geral, ocorridos entre colegas, nas escolas. Como Sevilha, a Holanda também tem o desafio
Este mesmo grupo trabalhou sobre o problema de conferir maior poder às necessidades da
em duas direções: a pesquisa e a prevenção. comunidade. De uma maneira geral, acreditam
Observa-se, no exemplo de Sevilha, a que os serviços de saúde e os serviços humanos
preocupação não somente com os dados sediados na escola ou a ela vinculados, são parte
estatísticos, mas com ações preventivas a partir de uma mesma missão, educativa. Amsterdã, por
destas constatações, pois se imagina que um exemplo, adota estratégias de componentes
estado social defectivo não deva se ampliar por múltiplos em seus projetos contra a violência,
força da inércia da sociedade. A natureza do com planejamento a nível urbano e provincial,
fenômeno da violência não é problema só dos com parcerias entre as cidades e as partes
garotos e garotas da escola, mas das famílias, da interessadas, tais como conselhos escolares,
escola e de todas as áreas da sociedade. Os instituições de saúde, etc.
programas-modelo existentes são centrados nas Retornando ao cenário nacional,
crianças, focados nas famílias, direcionados a observamos em Njaine e Minayo (2003), no
prevenção, tendo como base a comunidade e suas artigo intitulado “Violência na Escola:
necessidades. A comunicação é ferramenta identificando pistas para a prevenção”,
fundamental entre os colaboradores e prestadores abordagens interessantes sobre os significados
de serviços educacionais e de outras áreas. diferentes que o fenômeno da violência adquire
Administram conjuntamente e possuem equipes nos contextos sociais diversos. Trazem o perigo
treinadas e qualificadas para o desenvolvimento das armas de fogo nos diversos contextos e
do programa. Entre suas limitações estão a falta ilustram a preocupação com dados dos
de coordenação entre as políticas e as práticas homicídios ocorridos no nosso país, no ano de
dos prestadores de serviços de assistência e 2000: 68% destes, ocorreram pelo uso de armas
também da incapacidade de fazer uso dos de fogo. A grande preocupação é que, no
conhecimentos das próprias famílias, crianças e imaginário de certos jovens, há uma exaltação,
jovens. Seu desafio maior consiste na articulação como símbolo de poder. Aliadas a esta
do sistema escolar e dos sistemas de aprendizado preocupação, estão as armas brancas (canivetes,
e de serviços com base na comunidade. facas, estiletes, etc) que já invadem o espaço
Na Holanda, por sua vez, o sistema de escolar, conforme evidenciam as pesquisas
assistência aos jovens vem sendo lento no denotando o reflexo da violência do bairro, da
tocante ao desenvolvimento das relações família e as condições de privação. A violência

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vivida no contexto da família e do bairro, afeta
direta ou indiretamente o espaço escolar. Cárdia Bullying
(apud Njaine e Minayo, 2003) aponta a escola
como parte do problema, mas também parte da Bullying é uma palavra de origem inglesa
solução. que define o desejo consciente e deliberado de
Podemos apontar com as autoras, algumas maltratar uma outra pessoa e colocá-la sob
das causas da convulsão social que estamos tensão. TATUM E HEBERT (apud Fante, 2008
enfrentando. A primeira a citar são as atitudes de p.199). O termo é muito utilizado nos estudos
agressividade nas relações interpessoais, sobre violência, para designar comportamentos
explícitas ou veladas. Que pode vir numa via de sociais inadequados e/ou agressivos.
mão dupla do pai/mãe para o filho(a), do Nos últimos anos, têm-se falado muito
professor para o aluno e entre estes. Outra sobre o bullying nas escolas e, principalmente, na
possível causa seria o descaso com o semelhante, mídia, em função da repercussão de inúmeros
com seus feitos, seus progressos como pessoa. A casos que têm acontecido. Alguns municípios já
mídia, em especial a televisão, é apontada como criaram, inclusive, leis anti-bullying. Estas leis
a vilã pelos próprios educandos, pois noticia a propõem políticas de educação para a Paz, no
violência com muito mais ênfase do que o faz sentido de diminuir a incidência, principalmente
com as ações e atitudes assertivas da nas escolas.
humanidade, sendo um mau modelo para a A ABRAPIA (Associação Brasileira
formação do caráter. Os educadores, por sua vez, Multiprofissional de Proteção à Infância e à
apontam as famílias como causa, em virtude das Adolescência), que infelizmente fechou suas
desestruturações e da falta de tempo dedicado aos portas por falta de recursos depois de quase duas
diálogos fraternos. Os pais por sua vez, atribuem décadas defendendo o direito das crianças à
a falta de limites e de autoridade do professor, infância, realizou uma pesquisa muito
como uma possível causa da violência e da significativa sobre bullying entre 2002 e 2003.
indisciplina. Esta pesquisa foi realizada com o apoio
Acreditamos que à escola foram delegados financeiro da PETROBRÁS e em parceria com o
muitos papéis e atribuições que, apesar de trazer IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
no seu escopo a formação do ser humano, sabe- Estatística), sem dúvida foi a maior e mais
se que, sozinha, não conseguirá atingir ao seu importante pesquisa realizada sobre o assunto no
objetivo. Brasil. Segundo Fante (2008, p. 11):
Este texto propõe-se às reflexões sobre
os espaços escolares, o que implica também no Alguns fatores propiciam o bullying, sua
banalização e legitimização: atitudes culturais,
restante da sociedade pensar sobre as formas como desrespeito, a intolerância, a
desconsideração ao diferente; a hierarquização
como tem contribuído na construção de soluções nas relações de poder estabelecidas em
possíveis à questão desafiadora do combate à detrimento da fraqueza de outros; o desejo de
popularidade e manutenção do status a qualquer
violência nas escolas. preço; a reprodução do comportamento abusivo

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como uma dinâmica psicossocial expansiva; a são crianças más, e sim crianças tristes.” Pode-se
falta de habilidades de defesa, a submissão a
passividade, o silêncio e sofrimento das vítimas; a observar nas escolas, no contato com estas
conivência daqueles que assistem e o incentivo
às ações cada vez mais cruéis e desumanizantes; a crianças e adolescentes, todos têm uma história
violência doméstica, a ausência de limites, a familiar de violência, abandono e/ou rejeição.
permissividade familiar, a falta de exemplos
positivos; a omissão, o despreparo, a falta de Segundo Moz e Zawadski (2007, p. 128):
interesse e comprometimentos de muitos
profissionais e instituições escolares; a
impunidade, o descaso e a falta de investimentos
Os bullies vivem com medo e ansiedade,
e políticas públicas voltadas à educação e à saúde
sentindo-se inseguros inadequados e solitários.
para o tratamento e a prevenção, dentre outros.
Carecem da capacidade de interagir com os
outros de forma honesta, madura e saudável.
Vários são os comportamentos observados Quanto mais vulneráveis se sentem, mas
percebem a necessidade de estar no controle. A
nos praticantes de bullying: ofender; humilhar; percepção de seu próprio comportamento e do
outras pessoas é distorcida, o que aumenta sua
espalhar boatos; fofocar; acusar; isolar; agredir necessidade de se defender. Eles têm respostas
emocionais inadequadas, que foram aprendidas
fisicamente; expor ao ridículo; ofensas raciais, por meio de experiências sofridas na infância ou
étnicas ou de gênero; entre outras. como resultado de longa vitimização na idade
adulta.
Normalmente, as mulheres praticam o
bullying de maneira diferente dos homens. A Os bullies são extremantes perspicazes, no
tendência das mulheres é de espalhar boatos reconhecimento das suas vítimas. Escolhem
maliciosos, intimidar ou rir em grupos, destruir a pessoas que são ou estão fragilizadas por algum
reputação da amiga, utilizam a exclusão social motivo ou que têm características diferentes do
como principal arma. Os homens em geral se grupo. Outras que são tímidas, retraídas,
utilizam mais de agressões físicas. passivas, submissas, com dificuldades de defesa,
Os bullies, como são chamadas as de expressão e de relacionamento, crianças com
pessoas que praticam o bullying, são pessoas que necessidades educativas especiais, pessoas
vêm de ambientes disfuncionais, utilizam este obesas, magras demais, negras, que usam óculos,
comportamento, muitas vezes para proteger a si com orientação sexual diferente, etc. São muito
mesmo, de ameaças recebidas e de traumas habilidosos no ato de intimidação, sabendo
sofridos durante o seu desenvolvimento. reconhecer o calcanhar de Aquiles de cada uma
Normalmente, estas pessoas são ou foram das suas vítimas. São especialistas em nos
vítimas de bullying e reproduzem mantendo o confundir, pois são encantadores em um minuto e
círculo. Há uma necessidade compulsiva de nos atacam no próximo. São tão poderosos
deslocar esta agressividade sofrida. Segundo porque atacam diretamente o nosso ser, a
Moz e Zawadski (2007, p.54): “Uma criança Segundo Moz e Zawadski (2007, p.15):
insegura e magoada poderá submeter outras a “Os bullies dependem do nosso medo, de nossa
bullying, e/ou colocar a si mesma como alvo de impotência e de nosso silêncio para continuar
bullies. Nunca trabalhamos com um bully cujo com seu comportamento, e o terrorismo nunca
comportamento não estivesse baseado em poderá ser eficaz a menos que vivamos
vitimização. Eles não nascem, são formados. Não amedrontados, impotentes e paralisados”.

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As vítimas de bullying podem sofrer muito comum também, o uso do poder
traumas irreparáveis, comprometendo sua saúde econômico na relação entre pais e filhos. As
física e mental, interferindo no seu ameaças de corte do sustento, de alguns
desenvolvimento tanto cognitivo, quanto privilégios são formas de bullying praticado nas
emocional. As crianças menores vítimas de famílias.
bullying podem apresentar sintomas como dores O bullying também acontece nos
de cabeça, tonturas, náuseas, dores de estômagos relacionamentos afetivos entre homens e
e de barriga, diarréia, enurese, insônia, entre mulheres, e como o bully pode ser gentil e
outras doenças psicossomáticas, como gastrite, amoroso uma boa parte do tempo, as vítimas
bulimia, anorexia, rinite, alergias e problemas acabam ficando muito tempo neste
respiratórios. Estes sintomas aparecem relacionamento na esperança de que a pessoa
normalmente em horários próximos de ir para à mude. Moz e Zawadski (2007, p.104) nos dizem
escola, como tentativas inconscientes de se que:
proteger do bullying. Também se observa muita
ansiedade, tensão, medo, irritabilidade, A vítima aprende a se concentrar no bom
comportamento e começa a negar o quanto a
dificuldades de concentração, tristeza, apatia, situação é realmente ruim. Com o passar do
tempo, pode perder seu amor-próprio, crer em
chegando até em casos mais graves à depressão. tudo o que o bully lhe diz e começar a assumir a
O Bullying acontece praticamente em responsabilidade pelos comportamentos abusivos
deste, acreditando que causou o abuso. Aos
todos os lugares; no ambiente familiar os maus poucos, começa a mudar suas visões, seus
sentimentos e seus comportamentos para agradar
tratos e violência contra a mulher é muito o bully, com esperanças de parar o abuso, ainda
querendo a pessoa que vê 8% do tempo.
comum, tanto que os Conselhos Tutelares e as
Delegacias da Mulher estão cada vez mais No trabalho, o bullying também é muito
atribulados de denúncias; nos locais de trabalho frequente. Moz e Zawadski (2007, p.111)
também é muito frequente, tanto nas grandes comentam que: “O bullying no local de trabalho
empresas privadas, quanto nos ambientes mais tem sido um problema não-falado por anos”.
simples, assim como nas instituições públicas. Estes mesmos autores descrevem o
Na família, o bullying é praticado comportamento bully no trabalho como
principalmente pelos pais, através de ameaças acusações infundadas, críticas desnecessárias,
explícitas e/ou veladas de privação de segurança
fofocas, intimidações, racismo ou assédio sexual.
financeira e/ou emocional. O comportamento Segundo Moz e Zawadski (2007 p.111):
bully na família caracteriza-se por abuso físico:
bater, empurrar, chutar, castigos, etc; e por meios [...] os chefes que são bullies podem preparar
de palavras ou de ações que ferem a autoestima seus alvos para o fracasso, dando-lhes tarefas
demais, de menos, ignorando-os ou atribuindo-
das pessoas, por exemplo, pais que chamam os lhes responsabilidades para as quais não estão
qualificados, o que resulta em acusações de que
filhos e/ou esposas de burros (as), incompetentes, seu desempenho profissional é inadequado e pode
vir a causar a perda do emprego.
feios (as), más, desajeitados (as); expondo as
pessoas a humilhações públicas e/ou privadas. É

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Os ambientes de trabalho onde os chefes
são bullies normalmente são espaçoss opressores, O depoimento deste adolescente mostra o
competitivos e cheios de medo. A rotatividade de sofrimento psíquico pelo qual passam as vítimas
funcionários, baixa produtividade no trabalho e de bullying na escola, chegando até em casos
número de licenças de saúde são muito mais extremos, ao suicídio. Pode-se perceber
significativos, em função da falta de motivação também, através deste depoimento, o medo que
para o trabalho e a psicosomatização dos as vítimas têm de reclamar os abusos para a
problemas. Moz e Zawaski (2007, p.117) direção da escola e até mesmo para os pais. Estes
caracterizam os sintomas normalmente acontecimentos são muito comuns, normalmente
apresentados: as crianças e/ou adolescentes não revelam a
identidade dos bullies para a direção e para os
As vítimas podem apresentar dores de cabeça, professores, pois têm medo de represália.
fadiga, transtornos no padrão de sono, pesadelos,
perda ou ganho de peso, dificuldades de engolir, Suportam todos os abusos calados ou começam a
náusea, problemas no trato digestivo, síndrome
do intestino irritável, diarréia, tontura, dores faltar às aulas por medo e/ou vergonha das
constantes, ansiedade, ataques de pânico; podem situações a que são submetidos. Muitos até
ter sentimentos de confusão, raiva, culpa,
vergonha, medo, terror, aflição, depressão, pedem transferência de escola, antes mesmo de
desesperança e/ou desamparo, baixo amor-
próprio, insegurança e isolamento. tentar uma alternativa, junto às autoridades
competentes.
Bullying e o espaço escolar Na escola, observa-se também o
Mobbing, que seria uma forma de bullying em
No contexto escolar este cenário não é
grupo. Como os adolescentes normalmente
diferente, bem pelo contrário, a ocorrência de andam juntos, eles também se reúnem para
bullying é cada dia maior, e as conseqüências são
praticar o bullying. As gangues, os bondes, as
arrasadoras no desenvolvimento das crianças, na
torcidas organizadas são exemplos de grupos de
construção da autonomia e na autoestima dos adolescentes que praticam o Mobbing. Quem não
jovens. Moz e Zawadski (2007, p.19) relatam o fizer parte pode ser alvo fácil. Muitas vezes
caso de um adolescente que cometeu um suicídio alguns adolescentes sem autonomia de
para escapar do sofrimento psíquico o qual era
pensamento e sem um bom suporte familiar
submetido na escola. O adolescente deixou um unem-se a estes só para ficar imune aos ataques.
bilhete à sua mãe: Com o desenvolvimento da tecnologia, a
internet, os sites de relacionamento, o bullying
Eu poderia pegar uma arma e atirar em todos os
meninos, mas não sou uma pessoa má. Também tomou formas muito modernas, e nos últimos
não vou dizer quem são os bullies. Você sabe que tempos temos também o Ciberbullying, que nada
eles são. Eu ria por fora e chorava por dentro.
Mãe, depois da minha morte, vá até a escola e mais é do que a forma virtual de praticar
fale com os meninos. Diga para que parem com o
bullying, uns sobre os outros, pois isto machuca bullying. Este fenômeno está preocupando muito
profundamente. Estou tirando a minha vida para
mostrar o quanto machuca. (MOHARIB, apud . os educadores e os pais em todo o mundo, pelo
Moz e Zawadski, 2007). seu efeito multiplicador. Na prática desta

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modalidade de bullying é utilizada tecnologias da habituaram à punição ao longo de suas vidas.
Punições como detenções escolares, sair da sala
comunicação e da informação de aula, chamar os pais ou expulsões e
envolvimento em disputas de poder geralmente
indiscriminadamente, com o objetivo de são enfrentadas pelo aluno com desafio e
humilhar, expor e ridicularizar as vítimas. Os indiferença.

adolescentes tiram fotos com seus celulares Mas, então o que se pode fazer para
modernos de cenas constrangedoras, muitas prevenir e/ou amenizar os problemas de bullying
vezes em festas em que estão todos juntos e na escola? Em primeiro lugar, reconhecer que o
colocam em sites como Orkut e Youtube, com bullying é um problema social e que não é só um
legendas ainda mais vexatórias. Fante (2008, p. problema da escola. Como problema social,
10) coloca que: insere-se na escola naturalmente acarretando
vários outros problemas, acontecendo em todas
O bullying interfere no processo de aprendizagem
e no desenvolvimento cognitivo, sensorial e as escolas, não só nas escolas públicas de
emocional. Favorece um clima escolar de medo e periferia, mas também em escolas privadas com
insegurança, tanto para aqueles que são alvos
como para os que assistem calados às mais um bom nível social e econômico. O bullying
variadas formas de ataques. O baixo nível de
aproveitamento, a dificuldade de integração sempre existiu, não é um fenômeno psicossocial
social, o desenvolvimento ou agravamento das
síndromes de aprendizagem, os altos índices de novo, mas só foi nomeado há pouco tempo e a
reprovação e evasão escolar têm o bullying como partir desta nomeação e conceituação, é que se
uma de suas causas.
começou a discutir sobre o assunto.
Este problema tem permeado as É fundamental que as escolas realizem
discussões nas escolas, com o objetivo de pensar formação para capacitar os professores e demais
estratégias de prevenção e de intervenção. Não é profissionais da educação, com o objetivo de
uma discussão muito fácil, pois a maior parte dos entender os prejuízos para o desenvolvimento
educadores não consegue perceber também a global tanto dos bullies, quanto das vítimas em
vitimez do bully, até porque muitas vezes o si. A capacitação dos profissionais possibilita
próprio professor é vítima dos bullies. uma melhor observação nas relações
A tendência nas discussões é de querer interpessoais, a identificação, o que leva a
punir, expulsar do grupo. Como se esta fosse a atitudes mais acertadas em momentos delicados.
alternativa mais acertada. Sabe-se que estas A escola precisa articular políticas de
atitudes não resolvem o problema, pois, se prevenção e de intervenção de uma forma
expulsássemos todos os alunos que praticam ou consciente, responsável e democrática, para que
que são coniventes, teríamos poucos alunos na quando ocorram casos graves de bullying na
escola. Moz e Zawadski (2007 p.88) colocam escola, todos estejam preparados para atuar com
que: responsabilidade social e de forma segura.
Também é de extrema importância
Muitas escolas tentaram gerar mais segurança discutir o assunto com os alunos, principalmente
estabelecendo políticas antibullying, que punem o
autor por seu comportamento. Essa estratégia os adolescentes. Quando se discute o tema,
para tratar o problema mostrou-se ineficaz.
Muitas crianças que praticam o bullying grave se percebe-se que praticamente todos já foram

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vítimas de bullying em algum momento da vida. aproveitar o longo tempo que passam na escola.
(Ibidem, 2006, p. 120).
Muitos alunos, inclusive os próprios bullies,
relatam com detalhes as agressões vividas. Este Estes vínculos podem ser promovidos
tipo de discussão provoca sentimentos de através de atividades extraclasses, como jogos
empatia. Muitos dos alunos não têm esta esportivos, aulas de dança, gincanas solidárias e
capacidade desenvolvida, pois não têm e não outras atividades sociais e de lazer com a
tiveram vínculos saudáveis com seus cuidadores. participação dos professores. Nestes momentos,
os alunos podem ver os professores em outra
É por meio de vínculos saudáveis com cuidadores posição, que não a de donos do saber; podem
adultos que as crianças desenvolvem empatia (ou
seja, capacidade de sentir o que os outros podem falar sobre assuntos não acadêmicos; o que os
sentir em situação semelhante). As sementes de
cuidado, preocupação e vínculo que germinam e torna humanos, diante dos alunos. O bullying
florescem mais tarde, tornando-se a capacidade tende a desaparecer em ambientes onde haja um
de uma criança estabelecer empatia com os
sentimentos de outros, são semeados nos clima afetivo e de confiança entre as pessoas e os
primeiros meses de vida. (MOZ e ZAWADSKI,
2007, p.60). professores têm uma responsabilidade muito
grande na formação deste ambiente.
Segundo Beaudoin e Taylor (2006, p.
Na discussão com os alunos, também
120), “o vínculo é um processo de abertura e
podemos conscientizar os espectadores de que
aceitação a outra pessoa como um todo, com suas
esta atitude também não é bem aceita, já que
múltiplas versões do eu.” Se a empatia não foi
quando se assistem calados, estamos sendo
desenvolvida na primeira infância, nós, enquanto
coniventes com a situação. Fante e Pedra (2008,
educadores, podemos desenvolver em nossos
p.122) colocam que devemos: “converter os
alunos, fazendo-os refletir sobre suas atitudes,
espectadores em alunos solidários, a ação dos
pensar estratégias para que cenas de violência
agressores passa a ser inaceitável. Portanto, se os
não aconteçam mais. É também através do
agressores perdem os aplausos e o incentivo da
vínculo com os alunos, que os professores podem
platéia, consequentemente sua popularidade se
ver significativas mudanças de comportamentos
reduzirá, bem como a motivação para os
dos alunos-problema. O professor ainda é um
ataques.” Com certeza o silêncio é a pior
modelo a ser seguido, e só será seguido e
solução.
admirado se fizer um vínculo saudável e seguro
Quando o bullying já está instalado na
com seus alunos. As autoras citadas acima
escola, precisamos partir para uma proposta de
afirmam que:
intervenção. Moz e Zawadski (2007, p. 130) nos
trazem a definição do termo intervenção: “O
O vínculo impede o surgimento de sérios
problemas entre os alunos, como as brigas, a termo intervir significa vir entre, de forma a
competição, o desrespeito e o bullying, além de
evitar o tédio. Os alunos precisam manter um impedir ou alterar um curso de eventos.
vínculo significativo, com seus colegas e com os Confrontar uma questão é apresentar um
professores, que revele seus eus preferidos. O
vínculo ajuda a ser tolerantes uns com os outros, problema de forma que seja difícil não assumir a
a aceitar a diversidade em sala de aula e a
responsabilidade pela situação. As intervenções

Revista Educação por Escrito – PUCRS, v.2, n.2, jan. 2012. 11


devem ser planejadas com cuidado, e as Beaudoin e Taylor (2006) trazem o
confrontações, firmes, sensíveis e específicas.” A conceito de exteriorização dos problemas. Este
escola precisa ter uma política previamente conceito refere-se ao enfrentamento por parte das
discutida com toda a comunidade escolar para escolas e dos alunos, através do diálogo e da
fazer as intervenções em casos de bullying. As discussão. Segundo as autoras quando se fala
referidas autoras afirmam que: sobre os problemas, os alunos começam a odiar o
problema e não as pessoas que o estão criando, a
Intervir com pessoas que apresentem bullying e perspectiva é alterada. A exteriorização diminui a
comportamento controlador e abusivo é a chave
para interromper estes comportamentos. Demiti- ansiedade e promove a esperança, através de
los, expulsá-los ou livrar-se deles sem
confrontação pode ser um alívio para as vítimas alternativas de resolução dos problemas. Este
atuais, mas não resolve o problema. Eles processo se difere de práticas tradicionais
provavelmente irão para um emprego diferente,
outra escola ou outro relacionamento e autoritárias e como veremos no quadro abaixo,
encontrarão outras pessoas para vitimizar. (MOZ;
ZAWADSKI, 2007, p. 130). proposto pelas referidas autoras têm resultados
mais efetivos.
EFEITO DAS PRÁTICAS DE AUTORIDADES EFEITO DAS CONVERSAS
TRADICIONAIS COLABORATIVAS
 Alunos podem mudar por medo ou pelo  Os alunos mudam por decisão pessoal.
desejo de agradar o adulto.  Os alunos passam a ver com mais clareza
 A motivação é externa (punição ou por que desejam mudar.
recompensa)  A vigilância não é necessária; os alunos
 A vigilância muitas vezes é necessária. em geral têm um compromisso com suas
 É comum a reincidência, especialmente próprias escolhas.
quando os alunos ficam sozinhos.  Se ocorrerem erros, serão infreqüentes e
 Podem crescer a frustração e o ressentimento gerarão autoavaliação.
com a adoção da punição, geralmente  Geralmente cresce a autoconfiança à
aumentando a probabilidade de o aluno medida que os alunos têm mais êxito e
praticar o bullying ou faltar com o respeito. consciência dos efeitos preferidos dos
 A conseqüência e a não lição que se aprende, novos comportamentos.
pode dominar a mente dos alunos.  É comum a congruência dos valores do
 Os alunos ficam cada vez mais aborrecidos, indivíduo com a identidade preferida
ressentidos e afastados em função de seu dominar a mente dos alunos.
relacionamento com os educadores, cuja  Os alunos logo sentem respeito e
experiência geralmente é de desrespeito ou de respeitam cada vez mais os educadores
humilhação. por tratá-los como pessoas dignas de
 Os alunos não expressam para si mesmos, consideração.
com clareza e sentido, como e por que  Os alunos passam a exprimir com
poderiam reagir à situações de um modo bastante clareza os efeitos negativos que
diferente. lhes são importantes e as idéias
exclusivas que lhes possibilitam agir de
um modo diferente.
Fonte: BEAUDOIN ; TAYLOR, 2006, p. 61
Por fim, os problemas de desrespeito e de de respeito à diversidade. Quando trabalhamos a
bullying na escola passam também por uma diversidade, em outra perspectiva, os alunos
prevenção. Como podemos prevenir? entendem que a diversidade contribui para o
Trabalhando uma cultura de paz, de afetividade, crescimento do ser humano. Como o mundo

Revista Educação por Escrito – PUCRS, v.2, n.2, jan. 2012. 12


seria se fôssemos todos iguais? De que forma os O exemplo de Sevilha, a preocupação não
esportes seriam afetados? E a musica e as artes? somente com os dados estatísticos, mas com
Que mundo mais sem graça viveríamos! Com ações preventivas a partir de constatações, se
estas reflexões, os alunos, com certeza chegarão imagina que possa minimizar um estado social
à conclusão de que a diversidade é importante e defectivo que vem sendo causado por força da
que deve ser valorizada aumentando, inércia da sociedade. A natureza do fenômeno da
consequentemente, o respeito em relação aos violência não é problema só dos garotos e garotas
diferentes. da escola, mas das famílias, da escola e de todas
Estes são os limites das instituições as áreas da sociedade.
escolares, mas é claro que a escola não deve estar A escola há que tornar-se atrativa,
sozinha nesta guerra, as parcerias entre as apaixonante e verdadeiramente criadora de
instituições escolares, a instituições dedicadas a espaços diversificados de aprendizagem. As artes
pesquisas, educação, saúde e serviços, podem – música, teatro, dança e as artes visuais –
ajudar o desenvolvimento e à implementação de precisam de maiores espaços nos currículos
programas conjuntos de prevenção e combate a escolares visando à formação de um ser humano
violência; na formulação de políticas públicas sensível e, por conseguinte, tenha condições de
que priorizem a assistência a criança e ao transformar seu entorno para melhor.
adolescente no tratamento de problemas Um elogio sincero a uma atitude assertiva
psicológicos; na formação de lideranças do aluno pode elevar sua autoestima e promover
educacionais colaborativas, construindo arcas o bem-estar capaz de contagiar os demais.
para enfrentar as tempestades. (ORTEGA apud Atitudes positivas precisam ser exaltadas.
DEBARBIEUX, 2002, p.189). Sentimentos positivos precisam ser transmitidos.
Acreditamos que a sociedade comprometida com
Concluindo uma cultura de paz, de afetividade e respeito à
diversidade pode modificar os cenários
Esta produção textual possibilitou uma apresentados e vividos na atualidade.
breve reflexão sobre a sociedade e seus flagelos, Parafraseando Ortega (apud Debarbieux, 2002),
em especial a violência escolar. Todos os debates temos que construir arcas para enfrentar as
sobre os indicadores de violência, delinquência, tempestades e abrigos seguros aos flagelados, a
intimidação e condutas tiranas e irascíveis fim de oportunizar um recomeço exitoso.
apontam para a existência de uma comunidade
operando na busca de soluções.

Referências
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D‟ADESKY, Jacques. Racismo, preconceito e
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Artigo submetido em novembro de 2010


Aceito em dezembro de 2011

Revista Educação por Escrito – PUCRS, v.2, n.2, jan. 2012. 14


ARTIGO DE REVISÃO

BULLYING E EDUCAÇÃO FÍSICA NA ESCOLA: CARACTERÍSTICAS,


CASOS, CONSEQÜÊNCIAS E ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO
Bullying and physical education in school: characteristics, cases, consequences and
strategies of intervention
Rafael Guimarães Botelho1, José Maurício Capinussú de Souza2

Resumo identificação, prevenção e controle deste tipo de violência.


Por este motivo, é necessário que o professor de educação
O objetivo deste artigo é discutir a problemática do
física desenvolva estratégias para prevenção desse
bullying no âmbito escolar da Educação Física. Para tanto,
fenômeno durante toda a educação básica, desde a
foi realizado um estudo exploratório que utilizou pesquisa
educação infantil até o último ano do ensino médio.
bibliográfica. O fenômeno bullying compreende todas as
formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas (de Palavras-chave: Bullying, Violência, Agressão,
maneira insistente e perturbadora), que ocorrem sem Estratégias de Intervenção, Educação Física na Escola.
motivação evidente e de forma velada, sendo adotadas
por um ou mais estudantes contra outro(s), dentro de uma Abstract
relação desigual de poder. Este tipo de violência se The aim of this article is to discuss the problematic of
manifesta, sutilmente, sob a forma de brincadeiras, bullying in school physical education. Was realized an
apelidos, trotes, gozações e agressões físicas. Com relação exploratory study which utilized bibliographic research.
às maneiras que os alunos se envolvem com o bullying, Bullying includes all forms of aggressive attitudes,
eles são classificados em alvos, alvos/autores, autores e intentional and repetitive (in an insistent and disturbing
testemunhas. Considera-se, como uma primeira estratégia, manner), that occur without any evident motivation and in
a identificação desses casos por parte do corpo docente a veiled way, being applied by one or more students against
de educação física. Para a identificação, o primeiro ponto other(s), in an unequal relation of power.This phenomenon
é analisar quais papéis os alunos representam, ou seja, manifests itself in a subtle manner, such as plays, jokes,
como os alunos se envolvem com o bullying. Uma vez nicknames, tricks and physical aggressions. In relation to
identificados, um bom recurso para combatê-lo é aplicar the manner the students get involved in bullying, they can
conceitos da ética e da axiologia às atividades be classified as victims, victims/authors, authors and
desenvolvidas em aulas de educação física. Outras witnesses. It’s considered, as first strategy, the identification
estratégias relevantes para a prevenção desse fenômeno of these cases by teachers of physical education. To this
seriam a elaboração e a utilização, em aulas de educação identification, a point to be considered is to analyze which
física, de materiais impressos, como livros infantis, roles the students play, that is, how the students get involved
infanto-juvenis, gibis e literatura de cordel, que discutam in bullying. Once identified, a good resource to avoid it is to
criticamente o bullying. Conclui-se que, na área da apply concepts of ethics and axiology to the activities
educação física, não há indícios da existência de developed in classes of physical education. Some other
programas educacionais brasileiros voltados para a relevant strategies to the prevention of this phenomenon

1. Universitat Autònoma de Barcelona - Bellaterra - Barcelona - España.


2. Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) - Niterói - RJ - Brasil.
Recebido em 10.08.2007. Aceito em 15.10.2007.
Revista de Educação Física 2007;139:58-70

58
Revista de Educação Física - No 139 – Dezembro de 2007 59

could be the elaboration and utilization, in physical of it, it is necessary that teachers of physical education
education classes, of print materials, like books to children develop strategies of prevention during all basic education,
and teenagers, comic strips, cordel literature, which discuss since elementary school till the last year of high school.
bullying critically. There are no Brazilian educational
programs, in physical education area, related to the Key words: Bullying, Violence, Aggression, Strategies
identification, prevention and control of bullying. Because of Intervention, Physical Education in School.

assim, lembranças negativas da época escolar. Este tipo


INTRODUÇÃO de violência denomina-se bullying.
Nas distintas idades da humanidade, a violência pode
Em princípio, trata-se de um problema mundial, sendo
ser caracterizada como um problema crônico e recorrente.
encontrado em toda e qualquer escola, não estando restrito
Ao se eleger um assunto que ocupe, atualmente, um lugar
a nenhuma instituição: primária ou secundária; pública ou
especial nas conversas cotidianas, poder-se-ia apontar,
privada; rural ou urbana; católica, metodista, evangélica,
sem medo de errar, a agressão e a violência humana.
espírita ou demais religiões. Pode-se afirmar que as
Estas, sem dúvida, são os assuntos mais veiculados em
escolas que não admitem a ocorrência de bullying entre
manchetes de jornais e revistas, em programas de televisão
seus alunos desconhecem o problema ou se negam a
e de rádios, em filmes e em livros de sucesso (Rodrigues,
enfrentá-lo (Programa, 2005).
Assmar e Jablonski, 2000).
Pesquisa efetuada na Grã-Bretanha (Inglaterra, País
Infelizmente, cenas de assaltos, guerras, seqüestros,
de Gales e Escócia) registra que 37% dos alunos do ensino
ofensas, brigas, atos de vandalismo e crimes já se tornaram
fundamental e 10% do ensino médio admitem ter sofrido
naturais em muitos países, sociedades e regiões, não
bullying, pelo menos uma vez por semana. Por sua vez,
importando mais o ambiente (familiar, escolar, social,
levantamento realizado pela Associação Brasileira
hospitalar ou religioso), a idade (bebês, crianças, jovens,
Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência
adultos ou idosos), o sexo, as condições sociais (classes
(ABRAPIA), em 2002, envolvendo 5.482 estudantes de 5ª
baixa, média ou alta), psicológicas e físicas (portadores
a 8ª séries, de 10 escolas do Município do Rio de Janeiro,
ou não de necessidades especiais) das pessoas.
revelou os seguintes dados: 16,9% dos alunos foram alvos
Assim, a violência é um mal a ser entendido sob uma de bullying; 10,9% foram alvos e, ao mesmo tempo, autores
óptica multifatorial e, nesta perspectiva, deve ser analisada de bullying; 12,7% caracterizaram-se como autores de
por diferentes profissionais, como filósofos, sociólogos, bullying; e 57,5% enquadraram-se como testemunhas de
biólogos, psicólogos, cientistas políticos, juristas, bullying (Lopes Neto e Saavedra, 2003).
psiquiatras e professores.
“A educação física é uma disciplina que não tem sido
Em âmbito escolar, são diversas as manifestações de poupada pelas manifestações de violência e as brigas
violência: algumas são direcionadas a professores e a geralmente começam por motivos banais, como uma
funcionários; outras, a alunos. No entanto, há uma forma discussão por causa de uma rixa desportiva. No Rio de
de violência, normalmente velada, que ocorre geralmente Janeiro, um triste exemplo a lembrar é o do estudante

entre os próprios alunos. de classe média que, na saída de um jogo de um


campeonato intercolegial de futebol, sacou uma arma
Hoje, sabe-se que essa forma de violência, não e descarregou-a contra seus ex-colegas do colégio em
visualizada, vem se difundindo e alcançando proporções que estudara e que o provocavam. Mais recentemente,
preocupantes. Por exemplo, quem já não foi vítima de em São Paulo, um estudante de 15 anos matou um
apelidos pejorativos constantes, de brincadeiras agressivas colega dando prosseguimento a um desentendimento
na época escolar e de ser perseguido por alguns colegas, que começou durante a aula de educação física [...]”
(Faria Junior e Faria, 1999: 376).
aparentemente sem justificativa alguma? Com isto, muitas
crianças, perseguidas e rotuladas negativamente, são Nesse relato, fica claro que o problema da violência se
excluídas de brincadeiras, de times de futebol, de grupos estende a todas as disciplinas. No caso da educação física,
de trabalho da escola, de círculos de amizades, guardando, o exemplo mostrou alguns tipos de provocação e suas
60 Revista de Educação Física - No 139 – Dezembro de 2007

conseqüências. Será que este exemplo foi decorrência de MÉTODO


outro tipo de violência? Fante (2005) lembra que o bullying
Este artigo caracteriza-se como exploratório, devido ao
gera e alimenta a violência explícita e que vem se
tema em tela carecer de uma maior abordagem no âmbito
disseminando nos últimos anos no Brasil.
da educação física. Triviños (1987) lembra que o estudo
Essa assertiva é confirmada pela dissertação “Bullying: exploratório permite ao pesquisador aumentar sua
o problema do abuso de poder e vitimização de alunos em experiência em torno de determinado problema e tema,
escolas públicas do Rio de Janeiro”, de Figueira (2002), e além de aprofundar seu estudo nos limites de uma
pela tese “Problematizando o bullying para a realidade determinada realidade, buscando antecedentes, e, com
brasileira”, de Catini (2004), uma das primeiras do gênero isso, um maior conhecimento para planejar uma pesquisa
no país. descritiva ou do tipo experimental.

Recentes livros, na área da educação física, abordam Além disso, foi utilizado o apoio da pesquisa
questões sobre a necessidade de uma cultura voltada para bibliográfica, que diz respeito ao conjunto de
a paz (Beltrão, Macário e Barbosa, 2006;Tubino e Maynard, conhecimentos humanos reunidos nas obras e tem por
2006). No entanto, quando analisados, não incluem o base fundamental a de conduzir o leitor a determinado
problema do bullying como uma preocupação do professor assunto, tema, produção, coleção, armazenamento,
de educação física. Oliveira e Votre (2006: 173) confirmam reprodução, utilização e comunicação das informações
a incipiência do tema quando mencionam que “[...] na coletadas para o desempenho da pesquisa (Fachin, 2001).
educação física ainda não se encontra quase nada a
respeito [...]”. REVISÃO DA LITERATURA

Ciente deste problema, indaga-se: como o corpo Campanhas contra o bullying


docente de educação física lida com esse tipo de violência Sem a preocupação de efetuar uma revisão exaustiva,
na escola? Quais são as suas contribuições para se evitar são destacados, nesta seção, autores e campanhas
e se combater o bullying? internacionais e nacionais mais divulgados sobre bullying.
Dito isso, o objetivo deste artigo é discutir a problemática
Internacionais
do bullying no âmbito escolar da educação física.
Os trabalhos acadêmicos internacionais passaram a
Para tanto, são elaboradas as seguintes questões a
disseminar conhecimentos sobre as causas de bullying e
investigar:
a investigar estratégias preventivas para este fenômeno a
- O que é e como se caracteriza o fenômeno bullying partir da década de 1990.
na escola? Um dos pioneiros a tratar essa questão foi Dan Olweus,
que, desde o final da década de 1970, vem realizando
- Há uma classificação para alunos que se envolvam
pesquisas em escolas da Noruega, dando, mais tarde,
com o bullying?
origem à Campanha Nacional contra o Bullying.
- Quais as conseqüências para os alunos envolvidos?
Ainda na Noruega, o Ministério da Educação criou, em
- Há casos deste fenômeno em aulas de educação 1996, um programa para prevenção e controle do bullying
física? – Norwegian Program of Preventing and Managing
Bullying in Schools – que congregou um conselho de
- Quais estratégias de intervenção poderão ser estudantes e uma rede de profissionais, ambos em
desenvolvidas pela educação física? cooperação com a direção escolar e a associação de pais.
Uma das metas do programa é a continuidade (importância
Espera-se, com este artigo, oferecer um pequeno
de manter-se o programa nos anos subseqüentes), além
referencial teórico a graduandos e a professores de
da integração entre diferentes grupos (Fante, 2005).
educação física que se preocupam com os níveis atuais
de violência que atingiram as escolas, principalmente as Por sua vez, a Inglaterra desenvolve inúmeros projetos
públicas. no sentido de se evitar o bullying. Entre eles, ganha
Revista de Educação Física - No 139 – Dezembro de 2007 61

destaque o inspirado na campanha norueguesa, diagnosticar o fenômeno bullying e aplicar estratégias


coordenado por Peter Smith, em Sheffield. Há, também, psicopedagógicas para combatê-lo. É um programa que
outros programas, como o Childline, que coloca à se baseia em referenciais teóricos, como os valores
disposição um telefone de ajuda para crianças; o Kidscape, humanos da tolerância e da solidariedade, apresentando
que produz material específico sobre bullying; e o Police um esquema psicodinâmico de duas etapas gerais: etapa
Research Group, que indica ações de prevenção (Fante, A – conhecimento da realidade escolar; e etapa B –
2005). modificação da realidade escolar. Cada uma destas etapas
Com o incentivo do Ministério da Educação, algumas apresenta vários passos e estratégias (Fante, 2005).
universidades espanholas desenvolveram ações de Há, ainda, os programas realizados por Marta Canfield
prevenção contra o bullying. Entre elas, está o da e colaboradores, no ano de 1997, em escolas de ensino
Universidade de Sevilha, o Programa SAVE, criado em público em Santa Maria (Rio Grande do Sul), e por Israel
1996 e coordenado por Rosário Ortega Ruiz, cujo objetivo Figueira e Carlos Neto, em 2000/2001, que diagnosticou o
é desenvolver a educação de sentimentos e de valores, bullying em duas Escolas Municipais do Rio de Janeiro
além de melhorar as relações interpessoais (Fante, 2005). (Programa, 2005).
Em Portugal, há vários projetos em desenvolvimento
Fenômeno bullying: histórico e definições
nas escolas. Um deles, bastante interessante, é o Scan
Bullying, que discute, em cartoons, o problema de Cabe lembrar que o bullying, visto como objeto de
maus-tratos.Trata-se de uma história típica de maus-tratos estudo, é caracterizado como um fenômeno recente (Lopes
em uma escola, contada nas entrevistas individuais de Neto e Saavedra, 2003; Fante, 2005). No entanto, se for
alunos de nove, 11 e 13 anos. Esta história, descrita em analisado como ato, ele já aparecia em relatos literários
cartoons, indica uma sucessão de episódios: exclusão, da vida escolar, como em "Os Dias Escolares de Tom
ameaça, gozação, coerção e agressão (Fante, 2005). Brown" (Tom Brown’s Schooldays), clássico relativo à
Na Finlândia, o Ministério da Educação criou o projeto época da Rainha Vitória, na Inglaterra.
"Uma Confiança Sadia em Si Mesmo", com o objetivo de
Uma consulta ao Webster’s New Collegiate Dictionary:
fortalecer a imagem que os alunos têm de si mesmos e de
a Merriam-Webster (1973: 146) indica que bully foi
oferecer seminários, recursos pedagógicos, além de
“provavelmente modificado do holandês boel (lover), do
publicar materiais educativos visando à prevenção do
Middle High German (1100 a 1500, aproximadamente),
bullying (Fante, 2005).
buole. Em sua acepção arcaica de substantivo, bully
significava querida (sweet heart); um bom rapaz (a fine
Nacionais
chap); a pessoa que intimida ao falar ou agir; alguém
No Brasil, os primeiros livros e trabalhos acadêmicos habitualmente cruel com outros mais fracos. Em sua
surgiram a partir do ano 2000 (Lopes Neto e Saavedra, acepção de adjetivo, significa excelente, de primeira
2003; Catini, 2004; Constantini, 2004; Fante, 2005; qualidade. Por fim, em sua acepção de verbo, significa
Beaudoin e Taylor, 2006), como resultado de programas tratar com abuso; usar linguagem ou comportamento
que combateram o bullying. intimidador” .
Nessa perspectiva, um dos programas mais divulgados
Esse termo, proveniente do inglês, ainda sem
é o da ABRAPIA, "Programa de Redução do
equivalente na língua portuguesa, apresenta várias
Comportamento Agressivo entre Estudantes", realizado
nomenclaturas. Em países como Noruega e Dinamarca,
entre 2002 e 2003. Este programa, que contou com o
surge a palavra mobbing; na Suécia e na Finlândia,
patrocínio da Petrobrás, diagnosticou e implementou ações
aparece mobbning; na França, denomina-se harcèlement
efetivas para a redução do comportamento agressivo entre
quotidién; na Itália, como prepotenza ou bullismo; no
estudantes de escolas localizadas no Município do Rio de
Japão, como yjime; na Alemanha, como agressionen unter
Janeiro (Lopes Neto e Saavedra, 2003).
shülern; na Espanha, como acoso y amenaza entre
Outra iniciativa brasileira que merece destaque é o escolares; e, em Portugal, como maus-tratos entre pares
"Programa Educar para a Paz", que tem como objetivos (Fante, 2005).
62 Revista de Educação Física - No 139 – Dezembro de 2007

Para melhor explicar a definição de bullying, faz-se uma QUADRO 1


incursão à Psicologia Social, verificando que ela define VERBOS QUE CARACTERIZAM
agressão “como qualquer comportamento que tem a AÇÕES DE BULLYING.
intenção de causar danos físicos ou psicológicos em outro Violência
organismo ou objeto” (Rodrigues, Assmar e Jablonski, Violência Psicológica Física
2000: 206).
Apelidar Ignorar Agredir
Nessa definição, dois aspectos centrais são essenciais:
Ofender Intimidar Apertar
o primeiro diz respeito à intencionalidade da ação por parte
Zoar Perseguir Bater
do agressor – “só se caracteriza como agressivo o ato que
Gozar Assediar Beliscar
deliberadamente se propõe a infligir um dano a alguém”
Encarnar Aterrorizar Chutar
(Rodrigues, Assmar e Jablonski, 2000: 206); o segundo
ressalta que um ato agressivo não precisa, Provocar Amedrontar Cuspir

necessariamente, ser físico – assédios sexuais e apelidos Sacanear Tiranizar Morder


com teor depreciativo, por exemplo, geralmente podem Humilhar Dominar Empurrar
levar à ansiedade e à depressão, causando agressão Fazer Ridicularizar Ferir
psicológica. sofrer
Discriminar Roubar
Existem dois tipos de ações de bullying,segundo Lopes
Neto e Saavedra (2003:18): “ações diretas: subdivididas Excluir Quebrar
pertences
em físicas (bater, chutar, tomar pertences) e verbais
Isolar
(apelidos, insultos, atitudes preconceituosas). E as ações
indiretas (ou emocionais): relacionam-se com a (Adaptado de Lopes Neto e Saavedra, 2003: 17)
disseminação de histórias desagradáveis, indecentes ou
pressões sobre outros, para que a pessoa seja
discriminada e excluída de seu grupo social”. “é um comportamento deliberado (premeditado) para
Esses dois tipos de ações estão diretamente ofender e machucar; é repetitivo, freqüentemente
durante um período de tempo; para os agredidos, é
relacionados ao conceito de agressão. Por isso, entende-se
difícil se defender; para os que agridem, é difícil
que as principais definições sobre bullying têm suas bases
aprender novos comportamentos socialmente aceitos;
teóricas na questão da agressão e da violência. a pessoa que pratica o bullying tem e exerce poder de
Bullying compreende todas as formas de atitudes forma inapropriada sobre a vítima.”
agressivas, intencionais e repetidas (de maneira insistente
e perturbadora) que ocorrem sem motivação evidente e Classificação dos alunos envolvidos com o bullying
de forma velada, sendo adotadas por um ou mais De acordo com as maneiras que os alunos se envolvem
estudantes contra outro(s), dentro de uma relação desigual com o bullying, eles são classificados em quatro
de poder. Este fenômeno se manifesta, sutilmente, sob a categorias:
forma de brincadeiras, apelidos, trotes, gozações e
agressões físicas (Lopes Neto e Saavedra, 2003; Fante, _ Alvos (vítimas)
2005). São alunos(as) que somente sofrem bullying.
O QUADRO 1 aponta algumas ações de bullying. Ao Normalmente, não dispõem de recursos, status ou
se observar, ver-se-á que as ações, descritas na primeira habilidade para reagir ou fazer cessar os atos danosos.
coluna e na do meio, estão relacionadas à violência São, geralmente, pouco sociáveis, inseguros e têm
psicológica; por sua vez, a última coluna indica violência problemas para se adequarem a grupos de alunos.
física. Apresentam aspecto físico diferenciado dos padrões
impostos por seus colegas (magro e/ou gordo) e têm pouco
Principais características rendimento nos esportes e em lutas devido à coordenação
Cleary (2002:3-4) aponta que o bullying, em geral, motora pouco desenvolvida. A baixa auto-estima é
possui cinco características comuns: agravada por intervenções críticas ou pela indiferença dos
Revista de Educação Física - No 139 – Dezembro de 2007 63

adultos sobre seu sofrimento. Alguns crêem ser _ Autores (agressores)


merecedores do que lhes é imposto. Têm poucos amigos, São os(as) alunos(as) que só praticam bullying. Os
são passivos, quietos e não reagem efetivamente aos atos autores são indivíduos que têm pouca empatia.Além disso,
de agressividade sofridos (Lopes Neto e Saavedra, 2003; são mais fortes do que seus colegas de classe, o que lhes
Fante, 2005; Programa, 2005).

FIGURA 1
ALVO DE BULLYING

(Fante, 2005)

_ Alvos/autores (vítimas agressoras) dá vantagem em determinadas brincadeiras, esportes e


São os(as) alunos(as) que ora sofrem, ora praticam lutas. Freqüentemente, pertencem a famílias
bullying. Habitualmente, esses alunos, que passaram por desestruturadas, nas quais há pouco relacionamento
situações de sofrimento na escola, tendem a encontrar afetivo entre seus membros. Seus pais e/ou responsáveis
indivíduos mais vulneráveis que eles para transferir as exercem sobre eles uma deficitária supervisão, além de,
agressões sofridas (Fante, 2005; Programa, 2005). muitas vezes, oferecerem comportamentos violentos como

FIGURA 2
ALVO/AUTOR DE BULLYING.

(Ilustração de Cristina da Cruz de Oliveira, 2007)


64 Revista de Educação Física - No 139 – Dezembro de 2007

FIGURA 3
AUTOR DE BULLYING.

(Ballone, 2005)

modelo para solucionar conflitos, o que os leva a já Relações de gênero e bullying


apresentarem indícios de mau-caratismo e a adotarem
Com relação ao gênero, os meninos apresentam uma
condutas anti-sociais, como roubo, vandalismo e o uso de
maior freqüência de envolvimento com o bullying: ora como
álcool e nicotina (Lopes Neto e Saavedra, 2003; Fante,
autores, ora como alvos (Ballone, 2005).
2005; Programa, 2005).
Embora com freqüência diferente em relação aos
_ Testemunhas (espectadores) meninos, o bullying também ocorre e se caracteriza com
São os(as) alunos(as) que não sofrem nem praticam as meninas, principalmente como prática de exclusão ou
bullying, mas convivem em um ambiente onde isso ocorre. difamação (Ballone, 2005).
As testemunhas, representadas pela maioria dos alunos,
Principais conseqüências do bullying
convivem com a violência e se calam em razão do temor
de se tornarem as “próximas vítimas”. O medo, a dúvida
_ Alvos
sobre como agir e a falta de iniciativa da escola são fatores
que acabam promovendo um clima de silêncio e de Em geral, ficam amedrontados, estressados e com um
omissão nas testemunhas. O rendimento escolar destes quadro de baixa auto-estima, capacidade mínima de
alunos poderá decrescer, uma vez que passam a auto-aceitação e auto-expressão, podendo até desenvolver
considerar a escola como um espaço inseguro (Lopes Neto doenças de origem psicossomática. Muitos alunos passam
e Saavedra, 2003; Fante, 2005; Programa, 2005). a ter baixo desempenho escolar, resistem ou recusam-se
Revista de Educação Física - No 139 – Dezembro de 2007 65

FIGURA 4
TESTEMUNHAS DE BULLYING.

(Ilustração de Cristina da Cruz de Oliveira, 2007)

a ir para a escola, chegando a simular doenças. Sentem-se DISCUSSÃO


infelizes, sofrem com o medo, desenvolvem quadro de
Nesta seção, são descritas algumas atividades que
depressão e ansiedade.Trocam de colégio com freqüência
podem atuar diretamente na redução, no controle e, até
e/ou abandonam os estudos. Há jovens com extrema
mesmo, na prevenção de atitudes de bullying. Para tanto,
depressão e que se sentem tão oprimidos que acabam
são citados apenas os trabalhos de Puig (1999), Marques
tentando ou cometendo o suicídio. Além disto, podem
et al. (2006), Lopes Neto e Saavedra (2003), Fante (2005)
atingir a vida adulta com os mesmos problemas, tendo
e Oliveira e Votre (2006). Outros referenciais teóricos de
dificuldades para se desenvolverem e se adaptarem ao
Educação, Educação Física, Filosofia, Psicologia e
ambiente de trabalho (Lopes Neto e Saavedra, 2003).
Sociologia trarão, sem dúvida, contribuições para a
_ Autores elaboração de atividades aplicadas à Educação Física.

Admite-se que os alunos que praticam o bullying têm Casos de bullying relacionados à educação física e ao
grande probabilidade de se tornarem adultos com horário do recreio
comportamentos anti-sociais e violentos (por exemplo,
Além do caso apresentado na introdução deste trabalho,
brigas freqüentes e lesões relacionadas a estas, porte de
são descritos outros não menos importantes:
armas), podendo vir a adotar, inclusive, atitudes
delinqüentes e/ou criminosas (Lopes Neto e Saavedra, Aluna da 6ª série, 12 anos:
2003). “Minha vida escolar não é a melhor. Gosto muito dos
professores, mas de umas semanas para cá andam
_ Testemunhas me difamando por causa de um trabalho escolar. Estou
Apesar de não sofrerem as agressões, diretamente, sendo rejeitada por algumas pessoas da minha classe.
Na aula de educação física, dizem que sou baixa e
muitos alunos podem se sentir incomodados com o que
frágil, então não sirvo para nada...” (Fante, 2005: 35).
vêem e inseguros sobre o que fazer. Alguns reagem
negativamente diante da violação de seu direito a aprender Dois meninos, Marcos e Paulo (nomes fictícios),
em um ambiente seguro, solidário e sem temores. Tudo portadores de deficiência mental leve, inseridos em uma
isso pode influenciar negativamente sua capacidade de turma de classe comum do ensino regular:
progredir acadêmica e socialmente (Lopes Neto e “Marcos começou a fazer aula normalmente em uma
Saavedra, 2003). turma com alunos da idade dele. Ele é da classe
66 Revista de Educação Física - No 139 – Dezembro de 2007

FIGURA 5
BULLYING ENTRE MENINOS.

(Ballone, 2005)

especial da escola; os demais alunos da turma, ditos interessou-se pelo jogo, do qual tentava participar
normais, já o conheciam, pois ele é irmão de uma das ativamente. Mas a situação de normalidade no jogo
alunas da turma.A aula de educação física iniciou bem, durou pouco, porque assim que o time percebeu que
mesmo porque fiz questão de dizer a todos que na aula Paulo era diferente e que, durante o jogo, não conseguia
daquele dia havia dois colegas da classe especial que respeitar as regras, constatou que ele é portador de
iriam fazer aula junto com a turma. Aconteceu que o deficiência mental. Os alunos começaram a rir dele e
Marcos não fez questão de participar das atividades chacoteá-lo e, como no time em que ele estava jogando
junto com os outros da turma. No momento em que os colegas estavam perdendo e não conseguiam jogar,
propus um jogo para a turma, vi que todos jogaram, começaram a provocar-me, sem esconder a rejeição e
menos Marcos, que não quis jogar. Vi, também, que o preconceito, dizendo: - a senhora trouxe um maluco
sua irmã parou de jogar e resolveu brincar de corda para cá? Põe o maluco pra fora! A aula não é para
com ele e mais uma colega. Paulo, por outro lado, maluco. Foi então que Paulo, que tem um grau de
Revista de Educação Física - No 139 – Dezembro de 2007 67

FIGURA 6
BULLYING ENTRE MENINAS.

(Ballone, 2005)

deficiência quase imperceptível, veio queixar-se a mim, Veja o exemplo de uma aluna da 5ª série, 11 anos:
dizendo que eles, longe das professoras, só o “Minha vida na escola é muito triste porque meus
chamavam pelos termos maluco e doidinho” (Oliveira e colegas me colocam apelidos de que não gosto. Me
Votre, 2006: 192-193). chamam de ‘sarnenta’, ‘feia’, ‘piolhenta’ e outras coisas.
Outro ponto em que o professor de Educação Física Gostaria que parassem com isso, não agüento mais
tanta humilhação...” (Fante, 2005: 35).
deverá ter atenção é para a manifestação verbal de
bullying. Outro momento no interior da escola em que há
manifestações de bullying é o horário do recreio. Sabe-se
“A título de ilustração do caráter criativo e imagético do
que este é um período em que ocorrem os seguintes
bullying, citamos o caso de uma menina, de boca acima
do tamanho normal, que é chamada de vaso sanitário;
problemas: não há supervisão dos professores; há um
de um garoto orelhudo, chamado de fusquinha de acúmulo de várias turmas e, conseqüentemente, alunos
portas abertas; do garoto narigudo, que é o tromba de de diferentes idades dividem o mesmo espaço; quando há
elefante; do menino portador de olheira funda, que é inspetor de supervisão, normalmente estão em número
chamado de morreu; dos garotos com trejeitos reduzido para o contingente de alunos; em muitas escolas,
afeminados, que são chamados de pit bitoca; das não há atividades orientadas durante o recreio; e há jogos
meninas com alguns traços masculinos, que são com bola na quadra (futebol é o mais comum) sem nenhum
apelidadas de sapata, além dos apelidos clássicos, tipo de supervisão. Com isso, ocorrem diversas
como Maria João” (Oliveira e Votre, 2006: 175). manifestações de agressão, sendo o bullying uma delas.
Para completar a lista acima, citamos o menino que Veja o caso de uma aluna da 3ª série, nove anos:
tem um nariz acima do tamanho normal, caracterizado “Meu dia na escola é dez, mas, quando vou brincar no
como ladrão de oxigênio; a menina com boca acima do recreio, sempre sou ameaçada por vários meninos e
normal, chamada de boca de caçapa; e o garoto orelhudo, não posso brincar. E, se eu contar para algum dos
apelidado de Dumbo. Crianças que tenham a cabeça funcionários, apanho dos meninos. Por isso, tenho muito
medo. Mesmo quando não sou ameaçada por ninguém,
grande ou até com problemas genéticos (por exemplo,
eu sinto muito medo por todos os lados que passo.
hidrocefalia) são apelidadas de cabeça de nós todos, e as Chego até a passar mal quando sou ameaçada pelos
que têm excesso de peso, são alcunhadas de Casas da meninos e meninas...” (Fante, 2005: 34-35).
Banha (nome de antiga rede de supermercados). Sabe-se
que estes apelidos pejorativos são criados baseando-se Estratégias didáticas de intervenção da educação
em aspectos culturais e são circunscritos a determinadas física
épocas e regiões. O que fazer com os casos de bullying descritos?
68 Revista de Educação Física - No 139 – Dezembro de 2007

QUADRO 2 Para exemplificar como desenvolver estas atividades


ATIVIDADES COM ENFOQUE NA em aulas de educação física, utiliza-se um exemplo
ÉTICA E NA AXIOLOGIA QUE PODEM relacionado à atividade de clarificação de valores. Esta tem
SER APLICADAS PELA EDUCAÇÃO “como principal objetivo facilitar a tomada de consciência
FÍSICA PARA COMBATER O BULLYING. dos valores, crenças e opções vitais de cada pessoa” (Puig,
1998: 35).
Construir a identidade moral
Clarificação de valores
O professor deve eleger um caso de bullying que tenha
ocorrido durante sua aula e, imediatamente, utilizar a
Exercícios autobiográficos
atividade de clarificação de valores. Nesta atividade,
Aquisição de critérios de juízo moral
sugere-se o uso das perguntas clarificadoras, ou seja, um
Discussão de dilemas morais
tipo de exercício de clarificação de valores que estimula o
Exercícios de role-playing aluno a esclarecer seus pensamentos e suas condutas.
Desenvolvimento das capacidades de compreensão Eis algumas perguntas clarificadoras que devem ser
crítica
utilizadas com os alunos envolvidos (de preferência na
Compreensão crítica
frente da turma):
Enfoques socioafetivos
- Isso é algo que você aprecia?
Fomentar as disposições para a auto-regulação
- Está contente com isso?
Exercícios de auto-regulação
Reconhecer e assimilar valores universalmente - Como se sentiu quando aconteceu?
desejáveis e informação moralmente relevante - Você dá valor a isso?
Exercícios de role-model
Inúmeras atividades relacionadas à educação física
Exercícios de construção conceitual
poderão ser realizadas baseando-se no QUADRO 2. Para
Reconhecer e valorizar o pertencer às comunidades maiores detalhamentos, pode-se consultar Puig (1998).
de convívio
Há que se lembrar que uma educação calcada em
Habilidades sociais
princípios éticos não pode basear-se somente na
Resolução de conflitos
heteronomia, mas deve, antes de tudo, converter-se em
Atividades informativas
um âmbito de reflexão individual e coletiva, que permita
(Puig, 1998) ao aluno elaborar, racional e de forma autônoma, princípios
gerais de valor que o ajude a defrontar-se criticamente com
realidades como a violência, especificamente o bullying.
Uma primeira estratégia a ser considerada é a
Outras estratégias relevantes para a prevenção desse
identificação desses casos por parte do corpo docente de
fenômeno seriam a elaboração e a utilização, em aulas de
educação física.
educação física, de materiais impressos, como livros
Para a identificação, um primeiro ponto é analisar que
infantis, infanto-juvenis, gibis ou literatura de cordel, que
papéis os alunos representam, ou seja, como os alunos
discutam criticamente o bullying. Tais materiais, além de
se envolvem com o bullying: eles são alvos? Eles são
excelentes recursos pedagógicos, têm uma maior
autores? São alvos e autores? São apenas testemunhas?
disseminação entre as crianças.
Segundo Fante (2005: 75), há uma série de perguntas
(procedimentos interrogativos) para identificar o real papel Como estratégia didática para prevenção do bullying,
dos envolvidos. cabe, ainda, destacar que:
“O professor deve ter cuidado para não se converter
Uma vez identificados, um bom recurso para
em agressor, entrando, assim, em sintonia com os
combatê-los é aplicar conceitos da ética e da axiologia
praticantes do bullying. Para isto deve atentar para
(estudo dos valores) às atividades desenvolvidas em aulas
algumas situações, como: a forma de fazer as correções
de educação física. O QUADRO 2 apresenta finalidades e pedagógicas para não ridicularizar ou rotular alunos;
tipos de atividades de cunho ético e axiológico que podem evitar depreciações quanto ao rendimento deles;
ser utilizados pelo professor de educação física. mostrar preferência por alguns e indiferença a outros;
Revista de Educação Física - No 139 – Dezembro de 2007 69

fazer ameaças, perseguições e comparações entre CONCLUSÕES


eles; colocar apelidos pejorativos, dentre outras
No âmbito internacional, as estratégias de combate ao
posturas inadequadas” (Chaves, 2006: 152).
bullying estão mais consolidadas nas escolas e, também,
E o que se deve fazer com aqueles casos de bullying
mais desenvolvidas no contexto acadêmico.
(ignorados pelo corpo docente) que aparecem no horário
do recreio? Todos os projetos e programas educacionais brasileiros
que combatem e previnem a violência escolar, até onde
O recreio é um período que os professores utilizam para
esta pesquisa avançou, dão maior enfoque à violência
seu descanso ou para preparar materiais das próximas
explícita. Na realidade, ainda são reduzidos os programas
aulas, devendo-se lembrar que, durante este período,
educacionais que objetivam atuar sobre o fenômeno
muitos alunos podem praticar, sofrer e testemunhar ações
bullying.
de bullying, além de muitos terem lesões graves (como
fraturas) e, também, brigarem, muitas vezes como Para que as estratégias de intervenção do bullying
resultado da prática de atividades físicas desorientadas. sejam eficazes, devem ser incluídos, além dos alunos, o
Por isto, considera-se essencial discutir com os alunos, corpo docente, os funcionários da escola, os familiares e
durante as aulas de educação física, algumas ações de a comunidade do entorno.
prevenção.Além disso, é importante que todos os docentes Na área da educação física, não há indícios da
e funcionários da escola elaborem estratégias para evitar existência de programas educacionais brasileiros voltados
estes problemas. A seguir, estão descritas algumas para a identificação, prevenção e controle do bullying em
estratégias: ambiente escolar. Conseqüentemente, a literatura científica
nacional ainda é escassa.
- Identificar os alunos em risco, evitando que se tornem
vítimas e/ou agressores (Marques et al., 2006: 92); O professor de educação física deverá iniciar
estratégias para prevenção deste problema desde a
- Identificar situações que poderão provocar o
educação infantil, uma vez que “a literatura estrangeira
aparecimento de comportamentos negativos
mostra que, quanto mais precoces sejam as intervenções,
(Marques et al., 2006: 92);
melhores são os resultados quanto à redução e ao controle
- Criar mais de um horário de recreio, visando dividir o de bullying nas escolas” (Lopes e Saavedra, 2003: 119).
número de turmas;
Uma vez iniciadas, na educação infantil, estas
- Realizar atividades orientadas; e estratégias de prevenção e de controle ao bullying deverão
- Evitar que os alunos realizem atividades físicas de acompanhar o estudante pelas etapas de ensino
forma intensa, agressiva e sem supervisão (como fundamental e médio, sendo inseridas como conteúdo
jogar futebol, correr e realizarem brincadeiras de luta). específico da disciplina de educação física.

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Endereço para correspondência:


Universitat Autònoma de Barcelona
Facultat de Cièncias de l‘Educaciò
Departament de Didàctica de l'Expressió Musical, Plàstica i Corporal
Edifici G6 Despacho 168
Bellaterra (Cerdanyola del Vallès)
Barcelona - España
CEP: 08193
e-mail: rafaelgbotelho@ig.com.br
Revista de Pediatria

ARTIGO DE REVISÃO

Importância da identificação precoce da ocorrência do bullying:


uma revisão de literatura
The importance of early identification of bullying:
a review of the literature
Kathanne Lopes Almeida1, Anamaria Cavalcante e Silva2, Jocileide Sales Campos3

Resumo Abstract

Objetivo: Informar pediatras, outros profissionais Objective: To inform paediatrician, others


de saúde e educadores sobre bullying e apresentar health professionals and educators about
condutas para minimizar a incidência do problema bullying and to present conducts to minimize
e suas conseqüências a curto e longo prazo. the incidence of the problem and its results in
Metodologia: Revisão bibliográfica utilizando os a short and in a long time.
termos bullying e violência escolar, nos bancos de Methodology: Literature review using the terms
dados do Scielo e Google acadêmico, acrescentando bullying and school violence, in the data-bank
uma revisão não sistemática de artigos em revistas of academic Scielo and Google, plus review
e jornais. no systematic of articles in magazines and
Resultados: Apesar de ser um tema pouco newspapers.
conhecido entre os pediatras e educadores, o Results: Despite being a little known subject
bullying é um problema de saúde publica com between paediatrician and educators, the bullying is
dimensões cada vez maiores em todos os países, a public health problem with progressive dimensions
principalmente pela atual forma de violentar in all countries, mainly for the now a days the cyber-
através dos cyber-bullying. Trata-se, portanto, de bullying way of force. So, it represents physical and
atos de violência física ou psicológica, intencionais psychological actiores of intentional a repeated
e repetidos, relacionados a desequilíbrios de poder. violence related to lack of power equilibrium. It
Atinge crianças e adolescentes que podem estar affects children and teenagers who can be direct
envolvidos direta ou indiretamente, causando or indirectly involved, leading to be possible tragic
possíveis conseqüências trágicas nas varias fases results in different stages of life. It mainly occurs in
da vida. Ocorre principalmente nas escolas e pode schools and can be early detected by observation of
ser detectado precocemente com a observação da behavioral changing. In Brazil there are programs
alteração do comportamento. Existem programas that orient about the correct direction to those who
no Brasil que orientam quanto ao manejo adequado are involved with bullying, resulting in satisfactory
aos envolvidos com bullying, resultando em reduction of the cases.
satisfatória redução dos casos. Conclusion: As all the problems, bullying can be
Conclusão: Como todo grave problema de saúde keeped down if detected and conducted correctly for
pública, o bullying pode ser controlado se detectado the components of its social, familiar and educational
e conduzido adequadamente pelos integrantes do context, following a non isolated way.
seu contexto social, familiar e educacional de forma
não isolada. Key words: Violence, Schools, Child, Adolescent
Behavior.
Palavras-chave: Violência, Escolas, Criança, 1. Médica. Programa Saúde da Família do Centro de
Comportamento do Adolescente. Saúde Vila Cohab, São José do Belmonte- PE.
2. Doutora. Professora titular, da Faculdade de Medicina
Recebido em: 05.04.2008 Juazeiro do Norte, Juazeiro do Norte-CE.
Reapresentado: 06.05.2008 3. Mestre. Professora assistente, Faculdade de Medicina
Aceito em: 06.06.2008 Christus, Fortaleza-CE.

8 ● Rev Pediatr, 9(1): 8-16, jan./jun. 2008


Almeida KL, Silva AC, Campos JS

Introdução condutas para minimizar a incidência do problema


juntamente com suas conseqüências a curto e longo
A violência representa uma ameaça à saúde prazo.
pública e ao processo educacional (ensino-
aprendizagem), ocasionando conseqüências a Metodologia
curto e a longo prazo na vida do indivíduo. A
palavra bullying é pouco conhecida apesar de sua Trata-se de um estudo de revisão de literatura,
definição ser bem compreendida por estar presente ancorado em pesquisa utilizando os termos bullying
em algum momento de nossas vidas e tratar-se de e violência escolar nos bancos de dados do Scielo e
uma forma de violência. Por definição, bullying é o Google acadêmico e revisão não sistemática de artigos
ato de praticar ou se envolver em violência, seja ela em revistas e jornais, no período de 2001 - 2007.
física ou psicológica, de comportamento agressivo, Esse estudo fez parte do Plano de Ação “Saúde na
intencional e negativo com execução repetida Escola”, da disciplina Saúde da Família da Faculdade
da ação, envolvendo crianças e adolescentes que de Medicina de Juazeiro do Norte - FMJ.
apresentam relacionamento com desequilíbrio de
poder. Ocorre em qualquer local onde haja interação BULLYING
entre pessoas. Quando tal situação acontece entre
adultos em seu ambiente de trabalho, dá-se a esse Definição
fenômeno o nome de moobing.
Algumas ações podem identificar a ocorrência Define-se bullying como uma agressão física e/
de bullying como: colocar apelido, ofender, zoar, ou psicológica praticada por crianças e adolescentes,
amedrontar, agredir, humilhar, excluir, isolar, bater, geralmente nas escolas ou suas proximidades,
intimidar. Sendo estas, formas diretas e indiretas intencionada a causar dor ou desconforto repetido
de praticar o bullying. ao longo do tempo e com nítido desequilíbrio
Com o avanço tecnológico surgiram novas de poder, real ou percebido, entre o agressor e a
formas de bullying, as quais utilizam aparelhos vítima.1-3 Fenômeno mundial com raros eventos
e equipamentos de comunicação como meios trágicos, presente nas escolas públicas e privadas
de difundir, de forma avassaladora, difamação entre alunos pobres ou ricos.4
e calúnia. Este método de bullying é conhecido Observa-se nesta definição o ato repetido de
como cyber-bullying. intimidação e a relação de desigualdade de poder
Os personagens do bullying podem ser entre o agressor e o alvo, o que faz diferenciar de
classificados de acordo com o papel desempenhado: conflitos e agressividades presentes nas relações
ativo, passivo, ativo/passivo e neutros ou autores, normais entre crianças e adolescentes.2,5
alvos, autores/alvos e testemunhas. Existem A palavra bullying não tem similar em
alguns riscos que norteiam esses personagens para português. Devido à dificuldade de tradução, este
manifestação do bullying, relacionados aos fatores termo foi adotado em diversas línguas.4, 6
intrínsecos e extrínsecos à pessoa. Assim o bullying compreende todas as
Trata-se de um tema que era tratado apenas atitudes agressoras, intencionais e repetidas, que
na área educacional e atualmente é definido como ocorrem sem motivação evidente, sendo executada
um problema de saúde pública pouco evidenciado dentro de uma relação desigual de poder,
em congressos e revistas médicas, dificultando a tradicionalmente consideradas naturais, ignoradas
atualização de profissionais médicos com relação ou não valorizadas4,6, cujas exteriorizações fazem
ao diagnóstico e meios adequados de intervenção reconhecer quatro diferentes expressões de
precoce. Supõe-se haver desconhecimento da bullying: verbal, físico psicológico e sexual.3,4,6
existência do bullying por esses profissionais, O bullying é considerado um problema mundial
facilitando aumento dos casos e conseqüentemente encontrado em toda e qualquer escola.7
catástrofes isoladas e coletivas.
Este estudo tem como objetivo disponibilizar A origem, ainda na primeira infância
informações ao pediatras, outros profissionais de
saúde e educadores sobre o tema, ressaltando a Sugere-se que o comportamento agressivo
importância da identificação precoce da ocorrência é originado na infância.5 Algumas dificuldades
do bullying, bem como, apresentar algumas vividas pelas crianças e adolescentes se desenvolvem

Rev Pediatr, 9(1): 8-16, jan./jun. 2008 ● 9


Importância da identificação precoce da ocorrência do bullying: uma revisão de literatura

na primeira infância ou são características próprias, substituindo as clássicas paredes dos banheiros
tendo ainda o reforço das circunstâncias ambientais escolares, onde se colocavam agressões a alunos
intra-familiar, extra-familiar e intra-escolar. Atos e professores, de uma forma tão avassaladora
delinqüentes sofrem influência do ambiente seja como nunca vista antes.4 No Orkut, identificam-se
por frustração, seja por ofertas de oportunidade comunidades virtuais que incentivam a constituição
para cometer o delito.8 de redes de proteção e apoio aos alvos de bullying,
A agressividade pode está condicionada a como também, se encontram comunidades
fatores como: distúrbio de personalidade, transtorno incentivadoras a redes de agressão.11
de relacionamento, influência de amigos e família; Os alunos, em algumas escolas americanas são
estrutura escolar e seus métodos pedagógicos; proibidos de levar telefone celular, sendo este um
fatores políticos, econômicos e sociais, ou seja, a meio atualmente usado para divulgação de fotos
violência na escola está ligada ao contexto social, de estudantes nuas em vestuários por meio de
familiar e escolar.9 torpedos e internet.4
Em 2005, houve uma conferência internacional
Moobing - a agressão no trabalho on-line sobre cyber-bullying, na qual participaram
trinta e quatro especialistas de dezessete países não
Os termos mobbing, bullying, assédio moral, chegando à conclusão efetiva sobre as suas formas
assédio psicológico ou terror psicológico no de prevenção.4
trabalho são fenômenos para definir a violência Não existe uma legislação especifica que
pessoal, moral e psicológica, vertical (ascendente trate dos crimes na internet. Estes devem ser
ou descendente) ou horizontal no ambiente de enquadrados no artigo 186 do código civil que
trabalho. O termo mobbing refere-se a adultos no refere a dano moral, no entanto há uma grande
contexto ocupacional, sendo esta uma forma de dificuldade para provar a autoria, pois usa-se a
violência psicológica, já o termo bullying deve justificativa que outra pessoa fez usando seu nome
se referir a crianças e adolescentes no contexto ao cometer o delito. Na internet o agressor se
escolar, sendo preferencialmente uma forma de esconde no anonimato, diferente do bullying físico
violência física.10 que é identificável e tem a característica do forte
contra o fraco.4,12
Tipos de bullying Trata-se de um tema extremamente preocupante
para o qual juristas e outros profissionais da área
A pratica do bullying pode ser2: dos Direitos Humanos e da própria Informática,
devem abraçar, refletir e propor intervenções
a) Direta: ameaçar; bater, implicar, roubar coibitivas e preventivas.
pertences, chamar apelidos pejorativos.
b) Indireta: espalhar boatos maldosos, isolar Personagens e suas características
socialmente a vítima.
Os personagens do bullying diferenciam-
No bullying de prática direta as vítimas são se pelo tipo de relacionamento psicossocial
atacadas diretamente, sendo quatro vezes mais inadequado, comparado aos não envolvidos,
utilizados pelos meninos. Na prática indireta as havendo diferenças significativas entre suas
vítimas estão ausentes, são atos mais adotados por características comportamentais e sociais. Os
meninas.6 envolvidos no bullying são classificados em2:
a) Ativos (“bullies”): demonstram pouca
Cyber-Bullying empatia com as vítimas, tem necessidade
de poder e dominar situações,
Os cyber-bullying têm sido observados como são contestadores, desobedientes a
uma nova forma de bullying que usa tecnologia da regulamentos escolares, possuem auto-
informação e comunicação tipo: e-mails, telefones, estima reforçada. São filhos de pais
celulares, mensagens por pagers e celulares, violentos, sem afeto e sofrem de violência
fotos digitais, sites pessoais difamatórios, ações física;
difamatórias on-line.6 b) Passivos (“victims”): possuem auto-estima
Sites como Orkut e seus similares estão baixa, ansiedade, insegurança, infelicidade,

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Almeida KL, Silva AC, Campos JS

depressão, poucos amigos, isolamento vista como um prestígio, manutenção de posto,


social, são avessos a se defenderem das característica de um indivíduo e refere-se a posse
agressões e sofrem constantemente de de algumas características de personalidade, uma
sintomas físicos. Os pais são extremamente forma de dominação com exercício de poder sobre
protetores; um indivíduo ou grupo.13
c) Neutros: não participam do processo; Adultos agressores têm personalidade
d) Ativo/passivo (“bullies/victims”): são os autoritária, com necessidade de controlar e dominar.
envolvidos nos dois tipos de comportamento, Geralmente, as vítimas têm motivos para temer o
têm maior risco de apresentar distúrbios agressor, por causa de ameaças ou caracterizações
psiquiátricos futuros, principalmente de violências física/sexual, ou perda dos meios de
os relacionados com hiper-atividade. subsistência.5
Comparados aos ativos e passivos possuem Os alvos de bullying apresentam alguma
grau depressivo mais elevado. característica física marcante ou psicológica, não
gostam de falar no assunto e sofrem a perseguição
Os indivíduos passivos são mais débeis e os em silêncio, já os agressores nunca são conscientes
fatores como peso corporal, aparência do vestuário quanto ao motivo da agressão e estão sempre a
ou uso de óculos não é um fator determinante ao procura de alguma característica que sirva de foco
aparecimento de bullying.2 para sua agressão.14
A classificação do bullying utilizada pela Estes agressores precisam ser tratados, eles
ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional apresentam problemas psicológicos e sociais por
de Proteção a Infância e a Adolescência) está trauma na infância ou juventude. Sem cuidados
relacionada com o papel desempenhado pelos especiais podem se tornar delinqüentes e
alunos: criminosos.1
a) Alvos do bullying: alunos que sofrem
bullying; Onde ocorre os principais cenários
b) Alvos/autores de bullying: alunos que ora
sofrem, oram praticam bullying; Locais onde há interação entre pessoas são
c) Autores de bullying: alunos que praticam propensos a práticas de bullying, como escolas,
bullying; universidades, ambiente familiar, entre vizinhos e
d) Testemunhas de bullying: alunos que em locais de trabalho.5 O bullying ocorre em todas
não sofrem nem praticam bullying, mas as escolas, sendo o local preferencial a pracinha de
presenciam. lazer durante o intervalo entre as aulas ou na hora do
lanche escolar, da merenda, trazendo conseqüências
Não há diferenças de predomínio de gênero das negativas, prejudicando o direito de aprender em local
vítimas. Os meninos freqüentemente agem como seguro e tranqüilo.2
ativos por meio de agressões físicas e as meninas Há uma discordância entre autores quanto
por meio de agressões verbais. Há dificuldade em ao horário de maior ocorrência de bullying.
identificar o bullying entre as meninas por estar As pesquisas internacionais demonstram que
relacionada ao uso de formas sutis.2,6,7 a agressão física ocorre geralmente na hora do
Os autores comumente têm pouca intervalo (recreio) sem a presença do professor.
empatia, freqüentemente pertencem a famílias Entretanto, estudos no Brasil afirmam que 80%
desestruturadas, com pouco apoio dos pais. Os alvos acontecem em sala de aula na presença do professor.
não dispõem de recursos, status ou habilidade para Significaria, este fato, uma maior possibilidade de
reagir, geralmente são pouco sociáveis, inseguros, intervenção?
baixa alto-estima, alguns se acham merecedores
das agressões, têm poucos amigos, são passivos e Como identificar precocemente
quietos. As testemunhas, grande maioria, se calam
para não se tornarem os próximos alvos. Muitos se O bullying é um tema praticamente ausente
sentem incomodados com o que vêem e inseguros em congresso e revistas, o que sugere a falta de
sobre o que fazer.7 reconhecimento do problema. Algumas queixas dão
O que determina que o indivíduo seja líder é indícios da ocorrência do bullying na escola, tipo:
sua personalidade e desempenho. A liderança é dor abdominal cíclica, cefaléia, dores de garganta,

Rev Pediatr, 9(1): 8-16, jan./jun. 2008 ● 11


Importância da identificação precoce da ocorrência do bullying: uma revisão de literatura

insônia, sentimento de tristeza ou infelicidade, cinco escolas no interior de São Paulo, analisando
enurese, anorexia e distúrbios escolares.2,11 o comportamento de 2000 estudantes, revelou que
Observa-se que pais e professores têm pouca 49% deles estavam envolvidos com o bullying,
percepção quanto à ocorrência do bullying, em dentre os quais 22% eram vítimas, 15% eram
razão das vítimas não se defenderem ou não falarem agressores e 12% desempenhavam ambos os
do assunto e a maioria desses atos ocorrerem sem papéis.4
a presença de um adulto. A revelação pela criança Já no Rio de Janeiro, ente 2002 e 2003, estudos
quanto à ocorrência de maus tratos é raro por ter com 5.875 alunos, evidenciou 40,5% envolvidos
vergonha e medo de sofrer represália.3,6 com o bullying, sendo 16,9% alvos, 12,7% autores
Alguns indicadores da criança podem estar e 10,96% alvos/autores.7
sendo alvo do bullying, entre os quais: No Brasil, 40% dos estudantes estão envolvidos
• Falta de vontade e medo de ir à escola; na prática de bullying. A incidência de bullying é
• Sentir-se mal ao sair para escola e não quere maior entre 11 e 14 anos e tende a diminuir com a
ir sozinho; idade.9,14
• Mudar o caminho da escola;
• Chegar sempre da escola com roupas e livros Efeito/Conseqüência
rasgados e manchados;
• Calado, arredio, angustiado, ansioso, deprimido; Os efeitos negativos do bullying podem ocorrer
• Baixa auto-estima; tanto a curto ou em longo prazo. Em curto prazo,
• Ter pesadelos freqüentes; nas vítimas, estão relacionados os distúrbios físicos e
• Perder repetidamente pertences e dinheiro; psicológicos, queixas clínicas repetidas e mal definidas
• Não falar sobre o assunto. como: cefaléia, dor abdominal e de garganta, náuseas,
vômitos, anorexia, enurese, distúrbios escolares,
Incidência tristeza e insônia.2
Com relação aos efeitos em longo prazo,
No mundo moderno o bullying se tornou uma são escassos os estudos que afirmam que estas
epidemia social de ampla variabilidade, de 15% crianças serão mais violentas e cometerão crimes,
até 70% entre os países. A incidência é maior nas mas parece haver forte correlação identificada em
séries iniciais do ensino fundamental, atingindo alguns trabalhos. Um deles afirma que 60% dos
porcentagem menor ao término do ensino médio alunos que exerciam o bullying ativo no ensino
e em geral costuma envolver mais meninos que médio sofreram no mínimo uma condenação penal
meninas.2 aos 24 anos. Em outro trabalho há um relato que
A maior pesquisa sobre bullying foi realizada as crianças envolvidas com bullying, tiveram
na Grã-Bretanha e registra o sofrimento por quatro vezes mais riscos de apresentar atitude
bullying pelo menos uma vez por semana em 37% criminosa aos 20 anos de idade, e a maioria dos
dos alunos do primeiro grau e 10% dos de segundo que praticaram bullying como ativos tinha pelo
grau.7 menos uma condenação por crime.2
Um estudo da British Medical Association – Adolescentes com dificuldades de interação
Medical Students Committe revelou: um terço dos social são rejeitados pelos colegas, são tímidos,
estudantes entrevistados sofreram bullying; um em são trancados. Revelam reduzida habilidade
cada quatro foram vitimados por um(a) médico(a), social e muitas vezes são motivo de chacota dos
e um em cada seis por enfermeiro(a). Os tipos de companheiros.8
bullying compreenderam desde discriminação Há uma série de efeitos que o fenômeno
racial e sexual a humilhações na frente de pacientes, bullying persistente ocasiona no indivíduo e no
não excluindo as que ocorreram em salas de ambiente onde ocorre5:
cirurgia. No Brasil, Rego obteve depoimentos de • Efeitos sobre o indivíduo: depressão
estudantes que apontavam esta prática no cotidiano reativa, estresse de desordem, tornar-se
das escolas, como o de que “existem professores agressor, ansiedade, distúrbio gástrico,
que gostam de sacanear os alunos” e “existem dores idiopáticas, perda de auto-estima,
professores que são grosseiros e não respeitam os medo de expressar emoções; problemas de
alunos”.11 relacionamento, abuso de drogas e álcool,
Entre 2000 a 2003, pesquisa realizada em auto-mutilação, bullycídio (suicídio).

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Almeida KL, Silva AC, Campos JS

• Efeitos na escola: Evasão escolar elevada, alta preconceituoso sendo considerado um fator de
rotatividade do quadro de pessoal, desrespeito risco em particular.5
aos professores, faltas sem motivos, porte de
armas por crianças, ações judiciais contra Participação da família
escola e autoridade responsável e contra a
família do agressor. Os autores de bullying geralmente são de
famílias que tem a violência como forma de poder,
• Efeitos sobre a organização (Ex.: local com pouco afeto. As crianças com adversidade
de trabalho): perda de moral, faltas por familiar têm mais probabilidade de ser agressiva.
depressão, ansiedade e dor nas costas, baixa O contexto urbano e familiar está associado à
produtividade e lucro, alta rotatividade de violência vivida nas escolas.3,15,16
pessoa, perda de clientes; má reputação, Os jovens de família e segmentos com
repercussão negativa da mídia, ações judiciais condições sócio-econômicas desfavoráveis podem
contra a organização por injúria pessoal ter amadurecimento psicossocial mais rápido do
e contra organização e agressor (leis anti- que os que apresentam melhores recursos.17
discriminais). É importante que pais e educadores não
entrem em paranóia de coibir qualquer brincadeira.
Estudos longitudinais demonstram que as Algumas brincadeiras são inevitáveis, como
crianças alvo de bullying quando adultas têm maior apelidos, sendo esta, às vezes, uma questão de
dificuldades para se adaptar ao trabalho, podendo brincar e interagir. Com isso a prioridade seria
até sofrer bullying no ambiente de trabalho e avaliar se esses apelidos são maldosos, irreais ou
dificuldade em se relacionar socialmente. Com pesarosos para a criança. A colocação de apelidos
relação aos autores há tendência a comportamento muitas vezes é encarada por pediatras e professores
de risco na adolescência: dirigir sem cinto, usar como normal, sendo este um comportamento
drogas, alcoolismo dentre outros, podem se tornar agressivo que pode levar a repercussão na auto-
adultos agressivos em casa e no trabalho. Existem estima. O uso da agressão física também deve ser
também outros atos como: não respeitar sinais de motivo de preocupação, principalmente quando faz
trânsito, “furar” fila e se considerar acima de tudo uso de arma de fogo usada por alunos com baixa
e de todos.15 auto-estima que procuram ser notados.18,19
A prática do bullying tem conseqüências
negativas imediatas e tardias sobre seus envolvidos: Participação da escola
agressores, vítimas e observadores. Admite-se
para os praticantes de bullying a probabilidade de Os fatores relacionados ao desenvolvimento
serem adultos com comportamento anti-social e/ escolar envolvem as características sociais:
ou violento que podem adotar atitudes violentas ou estrutura familiar, cultura, educação; características
criminosas. Já os alvos de bullying passam a ter individuais: inteligência, atitude, personalidade;
baixo desempenho escolar, recusa a ir à escola com características da escola: estrutura física,
simulação de doença. Os jovens com depressão administração, professor, aluno.14,20
tentam ou cometem suicídio. Com relação às A escola é muito importante no desenvolvimento
testemunhas, estas podem sofrer influência negativa das crianças e adolescentes, sendo este insatisfatório
sobre sua capacidade de progredir acadêmica e aos que não gostam dela, com comprometimentos
socialmente.6,7 físicos e emocionais à sua saúde ou sentimentos
de insatisfação com a vida. Os que apresentam
Fatores de risco relacionamentos inter-pessoal e desenvolvimento
acadêmico positivo terão maior possibilidade
Os riscos da manifestação do bullying estão de alcançar um melhor nível de aprendizado. A
relacionados a fatores sócio-econômicos e culturais, aceitação no grupo é fundamental, aprimora suas
bem como aspectos inatos de temperamento habilidades socais e fortalece a capacidade de reação
e influência familiar, de amigo, da escola e da diante de situações de tensão.6
comunidade.6 A agressividade está presente em todas as
O déficit de habilidades sociais dos escolas, sendo baixa a percepção de sua ocorrência
subordinados do bullying é um ponto de vista pela escola, pelos pais e pela sociedade. A

Rev Pediatr, 9(1): 8-16, jan./jun. 2008 ● 13


Importância da identificação precoce da ocorrência do bullying: uma revisão de literatura

violência nas escolas é um problema social visível, orientar as formas de prevenção e conduta aos
resultante da interação entre o desenvolvimento pais, crianças e docentes; quando necessário
individual e os contextos sociais, como a família, encaminhar ao psicólogo ou psicanalista; atuar
a escola e a comunidade. A violência na escola na prevenção da violência escolar defendendo os
representa uma ameaça aos quatros pilares da direitos da criança.
educação, caracterizada no Relatório Delors, em O trabalho do pediatra também está na escola,
1998, como aprender a conhecer/aprender a fazer/ seja com ações assistenciais, prevenção e promoção,
aprender a viver juntos/aprender a ser. Interfere na seja com grupos de discussão e capacitando
aprendizagem e também na qualidade de ensino.3,6 professores, objetivando a implantação de escolas
O comportamento agressivo sempre ocorreu promotoras de saúde.19
nas escolas, sendo que com o aumento dos padrões O pediatra nesse contexto é pressionado a
estéticos de normalidade houve aumentos do cumprir suas rotinas de consulta inerente ao
comportamento agressivo.4 crescimento e desenvolvimento infantil saudável
bem como a acrescentar orientações sobre
Participação do pediatra ou do médico de família prevenção de injúrias, mantendo sua percepção
aguçada quanto aos vínculos familiares, auto-
O pediatra se confronta com diversos fatores estima e sentimentos de pertencimento, exigindo
de morbidade relacionada a fatores sócio- tempo maior na consulta. O trabalho do pediatra
culturais como: distúrbio do humor e ansiedade é amplo e cheio de possibilidades, desde a atuação
em crianças e jovens, atividade sexual insegura, no consultório/ambulatório, no ambiente escolar,
gravidez na adolescência, obesidade e taxas no bairro, ou nas campanhas educativas.19
desproporcionalmente elevadas de injúrias - É responsabilidade precípua de todo pediatra
violência na escola, atropelamentos, armas de fogo cuidar da criança e do jovem na sua integralidade,
nos domicílios, abuso de álcool e outras drogas, na de sua família e de sua cultura, devendo reforçar
exposição à violência nos meios de comunicação e o relacionamento com as famílias, aproveitando
a substâncias tóxicas no meio ambiente.19 as oportunidades de intervenção construtiva,
Freqüentemente eles se deparam com pais promovendo uma terapêutica baseada na confiança
queixando de dificuldades escolares, já referidas e encaminhando os problemas difíceis a outros
pelo professor. Contudo os pediatras nem sempre profissionais.22
estão habilitados a resolver o problema, quer seja por
falta de formação, desconhecimento do assunto ou Programas de apoio
falta de costume de resolver problemas interagindo
com equipe multiprofissional e interdisciplinar.21 Em artigos internacionais está descrito que
A identificação da ocorrência do bullying a taxa de bullying nas escolas reduz até 80%
pelo pediatra é transcendental, em virtude das quando se implanta o programa antiviolência com
conseqüências imediatas e em longo prazo das a participação de pais, alunos e escola, dispondo
alterações patológicas.2 de ações continuadas com finalidade comum em
Durante a consulta de uma criança com combater a violência, proteção e assistência às
dificuldades escolares, na anamnese o médico vítimas e agressores.3
deve pormenorizar a vida da criança, ter dados da A Associação Brasileira Multiprofissional de
dinâmica, condições familiares, situação sócio- Proteção a Infância e a Adolescência (ABRAPIA),
econômica e cultural. Fazer perguntas de origem desenvolveu o Programa de Redução do
psicológica como timidez, agressividade, ansiedade, Comportamento Agressivo entre Estudantes, onde
fobias, é importante. Sempre afastar causas no período de setembro de 2002 a outubro de
orgânicas para o problema, tais como: alteração 2003, foi possível reduzir a agressividade entre os
da visão, audição, fala, anemias, desnutrição, má estudantes, favorecendo o ambiente escolar, o nível
higiene do sono, alimentação inadequada.21 de aprendizado, a preservação do patrimônio e,
Nas consultas médicas no dia-a-dia passam principalmente às relações humanas. Nesse estudo
pelos médicos pediatras várias crianças e foi revelado que 40,5% dos alunos entrevistados
adolescentes que estão envolvidas com o bullying.2 admitiram relação direta com atos de bullying.6,7
Cabe a esses a responsabilidade de atuar em quatro Em São José do Rio Preto existe o “Programa
aspectos primordiais: reconhecer o problema; Educar para a Paz” que conseguiu reduzir o

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Almeida KL, Silva AC, Campos JS

percentual de vítimas de 22% para 4%, através educação e saúde cabe a implantação de políticas que
da sistematização de estratégias psicopedagógicas garantam proteção e assistência necessária.3
fundamentada na solidariedade, tolerância e Dicas para os educadores incluem: avisar
respeito às diferenças nas escolas. No Rio de Janeiro quanto à intolerância ao bullying; comunicar a
houve o desenvolvimento de medidas preventivas direção sempre que ocorre; promover debate sobre
através de palestras para alunos, professores e o bullying nas salas; incentivar a pesquisa do tema
pais, atividades artísticas, criação de contato de e apresentar o resultado a todos os alunos.14
convivência entre os alunos e grupo de fiscalização Com relação ao bullying é como um câncer que
que vigiavam o comportamento agressivo entre os se alastra às entranhas do organismo social, falta-
colegas.4 nos a oportunidade de difundir a sua existência,
identifica-lo e, principalmente, estabelecer as
Existem caminhos? formas indispensáveis à orientação dos alunos,
dos pais e dos professores no sentido de prevenir
Para o combate eficaz e seguro do bullying é e combater.2
primordial a participação conjunta de médico, pais
e professores.2 Fazem-se necessário a interação Considerações finais
do pediatra com o professor da criança para
saber seu comportamento na escola, as condições O bullying é um problema de saúde publica
psicopedagógicas e ambiente físico da escola.21 que precisa ser identificado e combatido através de
As crianças e os adolescentes devem possuir ações interligadas entre pais, educadores, pediatras
boa relação com seus colegas de escola, caso e médicos de família. É imperioso quando indicado,
contrário, poderá desenvolver sérios riscos à saúde propiciar alterações no ambiente familiar, na
e ao desenvolvimento social, já que o estresse escola e durante a consulta médica, visando sua
psicossocial está envolvido na saúde do indivíduo. estruturação adequada para propiciar apoio a todos
A criança deve ser encorajada a lidar com o os envolvidos com o bullying, independente do
problema, fazer amizades com os não envolvidos personagem que desempenhe a ação.
em bullying e sempre comunicar a alguém caso Existem formas de identificar sua ocorrência
sofra alguma agressão.2,3 precocemente através da observação pelos pais,
Os professores precisam ser treinados a educadores, pediatras e médicos de família, das
conhecer o problema e saber como lidar com os mudanças atípicas no comportamento da criança
alunos envolvidos no processo.2 ou adolescente que chame atenção. Alguns
Durante a especialização, o pediatra deveria estudos demonstram que essas alterações do
aprender a identificar a ocorrência de bullying em comportamento não se restringem apenas a essa
seus pacientes e como manejar adequadamente a fase da vida, persistindo também na vida adulta
situação. Os valores morais não devem ser apenas para todos os envolvidos no bullying de uma forma
voltados à relação médico-paciente, é preciso que a geral, trazendo graves conseqüências.
formação moral seja de fato uma preocupação com A implantação de programas voltados
implementação de políticas com tolerância zero a políticas anti-bullying têm apresentado
com o bullying.2,11 resultados satisfatórios na redução da incidência e
O dever do pediatra é perguntar diretamente prevalência dos casos. Com o intuito de manejá-
a criança se ela sofre algum tipo de agressão, se a los adequadamente a família tem que estar atenta a
criança confirmar é importante elogiar sua atitude mudanças de personalidade do filho, os educadores
de relatar o fato. Os pais devem ser comunicados têm que saber reconhecer o problema e saber
e o assunto precisa ser discutido com o professor e intervir adequadamente e o pediatra e médico de
diretor da escola.3 família devem aprender a identificar, durante a
Cabem as escolas reconhecer e reduzir o problema, consulta, a ocorrência de bullying através de uma
aos profissionais de saúde diagnosticar e adotar anamnese bem dirigida para obter informações
conduta adequada e quanto aos órgãos normativos de que os possibilite agir por meios adequados.

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Importância da identificação precoce da ocorrência do bullying: uma revisão de literatura

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Endereço para correspondência

KATHANNE LOPES ALMEIDA


E-mail: kathanne@bol.com.br

16 ● Rev Pediatr, 9(1): 8-16, jan./jun. 2008


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O FENÔMENO BULLYING NO AMBIENTE ESCOLAR

Letícia Gabriela Ramos Leão


Faculdade Cenecista de Vila Velha

Resumo: Buscou-se no presente trabalho apresentar uma revisão bibliográfica sobre a ocorrência do
fenômeno bullying no âmbito escolar, verificando os efeitos que ele pode causar na vida do indivíduo.
Partindo do pressuposto de que a escola é uma instituição de ensino e deve zelar para que o ensino
possa ser transmitido em um ambiente seguro e saudável, ela tem a obrigação de afastar todos os
tipos de agressões, sejam físicas ou verbais que ocorram em seu espaço físico. A metodologia usada
foi a coleta de dados em livros e artigos para assim, dar uma visão panorâmica da evolução histórica
do fenômeno, definir o termo, relacionar os tipos, apresentar os protagonistas, identificar os
envolvidos, identificar as características, as causas, as consequências e culminar com a implicação
dos aspectos legais.
Palavras-chave: Bullying; Violência Escolar; Vítima; Agressor; Espectador.

Introdução

A escola, vista como uma instituição de ensino deve zelar e estar comprometida com a aprendizagem e
o bem estar da criança. Todavia, esse ambiente que deveria ser agradável e sadio tem sido palco de
atitudes frequentes, que envolvem atos de violência entre os alunos, ficando evidente, dessa forma, a
conduta bullying.

O bullying caracteriza-se por ser um problema mundial encontrado em todas as escolas, sejam elas
privadas ou públicas, o que vem se expandindo nos últimos anos. A conduta bullying nas instituições de
ensino tem sido um sério problema, pois gera um aumento significativo da propagação da violência
entre os alunos.

A prática desse tipo de violência é vista pelos os autores dedicados a esse assunto como “Fenômeno
bullying”. Tal fenômeno apresenta-se de forma velada, intencional e repetitiva, dentro de uma relação
desigual de poder, por um longo período de tempo contra uma mesma vítima, sem motivos evidentes,
adotando comportamentos cruéis, humilhantes e intimidadores, gerando consequências irreparáveis,
sejam elas físicas, psíquicas, emocionais ou comportamentais.

Entre crianças e adolescentes, levando em conta a faixa etária em que se encontram, a prática do
bullying é causada pela necessidade que o sujeito tem de se impor sobre o outro, tanto para
demonstração de poder, quanto para satisfação pessoal. Percebe-se que há uma necessidade de se
auto-afirmarem a todo instante, perante si mesmos e em relação aos outros e para que isso ocorra,
normalmente, o agressor se impõe sobre a vítima, considerada a parte mais frágil da relação e por ter a
certeza de que ela não irá apresentar meios de defesa para reverter a situação.

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Por outro lado, as consequências provocadas pelo bullying geram, por vezes, danos e traumas
irreparáveis na vida da criança, podendo refletir desde logo, como por exemplo, baixa auto-estima,
estresse, depressão, queda no rendimento escolar, pensamentos de vingança para com o agressor e
até mesmo suicídio. A longo prazo, isto é, na constituição da família, na criação dos filhos e
dificuldades de se relacionar com os colegas de serviço.

Isto posto, fica claro que essa forma de violência é difícil de ser identificada, uma vez que a vítima teme
delatar os seus agressores, seja pela vergonha que irá passar diante dos demais amigos de classe, por
medo de sofrer represálias, seja por acreditar que os professores ou seus próprios pais não lhe darão o
devido crédito. Outro aspecto interessante é o fato de alguns professores acreditarem que tais
agressões são apenas brincadeiras de crianças e que irão passar com o tempo, atitude essa que faz
crescer mais ainda a violência nas escolas e banaliza o sofrimento da vítima.

A partir do exposto acima, o interesse pelo tema “O fenômeno bullying no ambiente escolar” ocorreu
quando pode-se presenciar várias cenas, em local de trabalho, de alunos figurando como agressores e
vítimas de tal fenômeno. Diante disso, a professora da série em que estavam ocorrendo às agressões
resolveu desenvolver um projeto que trabalhasse os aspectos de forma geral da conduta bullying, para
que os alunos entendessem melhor esse tipo de agressão. A professora, tendo conhecimento de que
éramos professora de Informática, nos convidou para participar desse projeto, no que tange a parte de
pesquisa na internet. Com isso, tivemos que pesquisar sobre o assunto e este nos interessou bastante,
fazendo com que esse tema fosse escolhido como pesquisa para este artigo.

Com o tema definido, passou-se para a elaboração do problema e decidiu-se investigar que efeito o
bullying poderia causar na vida do indivíduo, o que desencadeou a elaboração do objetivo geral, qual
seja, desenvolver o assunto de forma clara e explicativa para que os acadêmicos de Pedagogia tomem
ciência da importância do fenômeno bullying nas relações entre crianças e adolescentes, como
estimulador de agressões físicas ou verbais.

Para o êxito dos questionamentos já mencionados, foi necessária a consulta a diversos livros e artigos,
havendo, posteriormente, a construção da definição do termo bullying, sua evolução histórica, os tipos,
os protagonistas, a identificação dos envolvidos, as características, as causas, as consequências e os
aspectos legais – embasados na Constituição da República Federativa do Brasil, Declaração dos
Direitos Humanos, Código Penal Brasileiro, Estatuto da Criança e do Adolescente e no Código de
Defesa do Consumidor.

Por fim, acredita-se que a relevância deste trabalho é estimular a reflexão acerca do tema estudado,
para que, tanto pais quanto professores e demais agentes que atuam com jovens e crianças, saibam
lidar com a situação e combatê-la ou preveni-la de forma menos traumática e mais eficaz, a fim de que
sejam evitadas as nefastas consequências dessa prática.

Evolução histórica

O bullying é um fenômeno mundial muito antigo, entretanto passou a ser objeto de investigação e
preocupação a partir da década de 1970. 1 A partir daí foram realizadas, na Suécia, as primeiras

1 FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed. Campinas: Verus,

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investigações sobre bullying, uma vez que foram percebidos problemas de violência entre agressor e
vítima.

Apenas com a realização de pesquisa em 1972 e 1973, na Escandinávia, as famílias puderam


perceber o grau de complexidade dos problemas gerados pela violência escolar. Assim, tal fenômeno
percorreu a Noruega e a Suécia, alastrando-se por toda Europa.

Em 1982, na Noruega, um jornal publicou o suicídio de 3 (três) crianças, com idades entre 10 e 14
anos, que foi provocado por situações graves de bullying. Esse fato gerou grande repercussão nos
meios de comunicação, fazendo com que em 1983, o Ministério da Educação da Noruega criasse uma
Campanha em escala nacional contra os problemas de violência entre agressores e vítimas.

Fante2 citou Dan Olweus como sendo um dos primeiros professores a realizar estudos sobre violência
no ambiente escolar. Tais estudos foram feitos de forma mais específica, e tinha por objetivo diferenciar
a prática do bullying de possíveis brincadeiras de crianças, tais como, gozações ou relações de
brincadeiras entre iguais.

O professor ora mencionado, tendo como base um questionário composto de 25 (vinte e cinco)
questões entrevistou 84 mil (oitenta e quatro mil) estudantes em diversos níveis e períodos escolares,
400 (quatrocentos) professores e 1.000 (Um mil) pais. Com a realização das entrevistas, Dan Olweus
pôde perceber a natureza do bullying, suas possíveis origens, ocorrências, formas de manifestação,
extensão e características.

Esses estudos, como aponta Fante, verificaram que a cada grupo de 7 (sete) alunos, 1 (um) estava
envolvido em situações de bullying. Essa situação gerou uma Campanha Nacional, que de acordo com
relatos, diminuiu em 50% (cinquenta por cento) os casos de bullying ocorridos nas escolas daquele
país. Vale dizer que a criação dessa Campanha fez com que alguns países, como o Reino Unido,
Espanha, Itália, Canadá, Portugal, Alemanha, Grécia, Estados Unidos e Grã-Bretanha também
promovessem Campanhas contra o bullying.

Olweus, apud Fante tinha as seguintes propostas em seu programa de intervenção:


[...] desenvolver regras claras contra o bullying nas escolas, alcançar um envolvimento ativo
por parte dos professores e dos pais, aumentar a conscientização do problema para
eliminar mitos sobre o bullying e prover apoio e proteção para as vítimas. 3

Conforme consta na obra de Gabriel Chalita 4, através de pesquisas, estima-se que na Grã-Bretanha,
por volta do ano de 1990, 37% (trinta e sete) dos alunos do ensino fundamental e 10% (dez) do ensino
médio afirmavam serem vítimas de bullying. Já em Portugal, dos 7 (sete) mil estudantes pesquisados,
22% (vinte e dois) – 1 (um) em cada 5 (cinco) alunos – tinham sofrido bullying. Na Espanha, foi
detectado que 15% a 20% dos alunos eram vítimas de bullying. Com a comprovação dessas
pesquisas, a Europa aprovou uma legislação específica e ações integradas para resolverem tais
problemas.
2005, p. 44.
2 Idem, p. 45.
3 FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed. Campinas, SP:
Verus, 2005. p. 45.
4 CHALITA, Gabriel. Pedagogia da amizade. Bullying: o sofrimento das vítimas e dos agressores. São Paulo: Gente,
2008, p. 104.

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Em consonância com a referida obra já mencionada, nos Estados Unidos, o bullying é considerado um
fenômeno global, pois os índices da prática desse fenômeno é crescente. Através de pesquisas, houve
a constatação que, das crianças entre 6 (seis) e 10 (dez) anos de idade, 11% (onze por cento) diziam
ser vítimas e 13% (treze por cento) mencionavam casos de bullying. Acrescenta-se ainda que o Centro
Médico Infantil Nacional Bear Facts, nos Estados Unidos, coletou dados de que 5.700.00 (cinco
milhões e setecentos mil) meninas e meninos estavam envolvidos com casos de bullying, quer seja,
como autores, vítimas ou autores-vítimas. Atualmente, pesquisas e programas de intervenção anti-
bullying vêm sendo criados na Europa e nos Estados Unidos. 5

No Brasil, como Fante6 afirma, o bullying é pouco estudado, por isso não é possível comparar os
índices da prática de bullying no âmbito escolar com outros países. A falta de estudos e pesquisas em
relação ao fenômeno mencionado faz com que o Brasil apresente 15 (quinze) anos de atraso em
relação à Europa.

Em 1997, no Brasil, foram realizadas diversas pesquisas. A primeira foi pela professora Marta Canfield
e seus colaboradores; a segunda pelos professores Israel Figueira e Carlos Neto em 2000-2001; e a
terceira pesquisa “foi desenvolvida pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e
Adolescência”7. Os dados coletados revelaram que 40,5% dos alunos entrevistados disseram estar
envolvidos em episódios de violência. A pesquisa também “demonstrou que o bullying em nossas
escolas se encontra com um índice mais elevado do que os apresentados em países europeus” 8.

Compreendendo um pouco mais o termo

O termo bullying é derivado de uma palavra inglesa – bully, que traduzida significa valentão, tirano.
Esse termo, normalmente, ocorre nas relações interpessoais, em que há uma relação desigual de
poder, uma vez que, um lado da relação será caracterizado por alguém que está em condições de
exercer o seu poder, através da intimidação, humilhação, atitudes agressivas sobre outra pessoa ou
até mesmo um grupo mais fraco.

Esse desequilíbrio de poder que há entre os protagonistas do bullying se dá pelo fato do agressor
possuir algumas características, tais como, “idade superior a da vítima, estrutura física ou emocional
mais equilibrada, ter apoio dos demais amigos de classe, ser sociável entre os demais grupos da
classe, tamanho superior”.9; tais atributos fazem com que a vítima se sinta inferior, não tendo condições
de se defender diante das ofensas, sejam elas verbais ou físicas. Esses aspectos permitem dizer que,
por definição, a expressão bullying:
[...] é um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem
motivação evidente, adotado por um ou mais alunos contra outro (s), causando dor,

5 CHALITA, Gabriel. Pedagogia da amizade. Bullying: o sofrimento das vítimas e dos agressores. São Paulo: Gente, 2008,
p. 105.
6 FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed. Campinas: Verus,
2005, p. 46.
7 ABRAPIA, apud FANTE. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed.
Campinas: Verus, 2005, p. 47.
8 FANTE,Op cit, p. 47.
9 LOPES NETO, A. A. “Bullying: comportamento agressivo entre estudantes”. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/jped/v81n5s0/v81n5Sa06.pdf>. Acesso em: 8 abr. 2010.

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angústia e sofrimento. Insultos, intimidações, apelidos cruéis, gozações que magoam


profundamente, acusações injustas, atuação de grupos que hostilizam, ridicularizam e
infernizam a vida de outros alunos levando-os à exclusão, além de danos físicos, morais e
materiais [...].10

Tognetta11 afirma que, diante dessa situação de causadores e vítimas de bullying, ambos precisam de
ajuda, a saber:
Por um lado, as vítimas sofrem uma deterioração da sua auto-estima, e do conceito que
tem de si, por outro, os agressores também precisam de auxílio, visto que sofrem grave
deterioração de sua escala de valores e, portanto, de seu desenvolvimento afetivo e moral.

O fenômeno bullying não tem um alvo específico, independentemente de classe social ou econômica,
pode ocorrer em diversos ambientes, desde que exista relação entre os sujeitos, como, nas escolas,
nos locais de trabalho, nas famílias, nas prisões e nos clubes.

A prática do bullying considerada muitas vezes pelos pais e professores como brincadeiras de criança,
briguinhas que envolvem xingamentos e ofensas, mas que passam e, em alguns momentos são
desvalorizadas e a até ignoradas, está longe de ser um comportamento normal e aceito em um
ambiente escolar.

O bullying, ao contrário, caracteriza- se por ser uma agressão que se apresenta de forma velada,
causando dor e angústia à pessoa que está sendo vitimada, podendo levá-la à depressão, isolamento,
baixa auto-estima, queda no rendimento escolar, e até ao suicídio.

As vítimas, muitas vezes, sofrem caladas, carregando o trauma das situações de constrangimento que
vivenciaram para o resto de suas vidas, gerando consequências na fase adulta como problemas de
interação e relacionamento com outros sujeitos.

Oportuno mencionar que o comportamento agressivo por parte do autor do fenômeno em questão
geralmente ocorre pela falta da presença da família no dia-a-dia da criança e até mesmo pela ausência
de limites. Dessa forma, destaca Fante:
É oportuno que os pais façam uma reflexão profunda sobre as suas próprias condutas em
relação aos filhos e sobre o modelo de educação familiar, predominante em casa, que vem
sendo aplicado. Nem sempre os pais se dão conta de que certos comportamentos que o
filho manifesta são aprendidos em casa, como resultado do tipo de interação entre os
familiares que é percebida por ele; muito menos procuram checar e refletir se o que o filho
está realmente aprendendo tem relação com aquilo que “eles pensam” que está sendo
ensinado.12

Os pais então, devem elogiar constantemente as qualidades e capacidades de seus filhos, para que a
auto-estima dos mesmos não seja prejudicada. Outro aspecto importante a ser mencionado é que “os

10 FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed. Campinas: Verus,
2005, p. 28.
11 TOGNETTA, L. R. P. “Um estudo sobre Bullying entre escolas do ensino fundamental”. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 79722009000200005&Ing=pt&nrm=iso>. Acesso em: 8 abr.
2010.
12 FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed. Campinas: Verus,
2005, p. 76.

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pais devem estar atentos para não se precipitarem ao considerar seus filhos vítimas de bullying”.13

Tipos de bullying

O bullying, de acordo com Gabriel Chalita 14, pode ser dividido de forma direta ou indireta. A forma direta
é utilizada com maior frequência entre agressores meninos. E as atitudes mais usadas pelos bullies
são os insultos, xingamentos, apelidos ofensivos por um período prolongado, comentários racistas,
agressões físicas – empurrões, tapas, chutes – roubo, extorsão de dinheiro, estragar objetos dos
colegas e obrigar a realização de atividades servis.

A indireta, por sua vez, é mais comum entre o sexo feminino, tendo como características atitudes que
levam a vítima ao isolamento social, podendo acarretar maiores prejuízos, visto que pode gerar
traumas irreversíveis ao agredido. O bullying indireto compreende atitudes de difamações, realização
de fofocas e boatos cruéis, intrigas, rumores degradantes sobre a vítima e seus familiares e atitudes de
indiferença.

Importante salientar que quando se trata da forma indireta do bullying, os meios de comunicação têm
grande relevância como forma mais rápida de propagação de comentários cruéis e maliciosos sobre
determinada pessoa pública. Esse modo de intimidação, ora mencionado, chama-se de “ cyberbullying,
pois trata-se da utilização dos meios de comunicação, tais como mensagens de correio eletrônico,
blogs, torpedos, fotoblogs e sites de relacionamento”.15; desde que sejam anônimos, para adoção de
comportamentos produzidos de forma repetitiva, por um período prolongado de tempo, de um indivíduo
ou grupo contra uma mesma vítima, com a intenção de causar danos.

Protagonistas do bullying

Fante prevê que os protagonistas envolvidos na prática do bullying podem ser divididos da seguinte
maneira: Agressor, Vítima e Espectador.16

Agressores ou Bullies: são os ditos populares; vitimizam os mais fracos, conseguindo, muitas vezes, o
auxílio dos demais alunos para se auto-afirmarem. Vale dizer que tais alunos que contribuem
juntamente com o agressor para a prática de violência, também são considerados bullies.

Para manter a sua popularidade acabam humilhando, ridicularizando e hostilizando a vítima sem
motivos evidentes, sendo considerados por tais comportamentos como valentões. A conduta do
agressor, normalmente, caracteriza-se pela dominação e imposição mediante o poder e a ameaça para
conseguir aquilo que almeja. Pertence a famílias, por vezes, em que há ausência de carinho, diálogo,

13 FANTE, Op cit. p. 76.


14 CHALITA, Gabriel. Pedagogia da amizade. Bullying: o sofrimento das vítimas e dos agressores. São Paulo: Gente,
2008, p. 82.
15 LOPES NETO, A. A. “Bullying: comportamento agressivo entre estudantes”. Disponível em:
<http://www.scielo.br/pdf/jped/v81n5s0/v81n5Sa06.pdf>. Acesso em: 8 abr. 2010.
16 FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed. Campinas: Verus,
2005, p. 71.

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presença dos pais e de limites.

Os bullies, geralmente, se envolvem em situações anti-sociais e de risco, quais sejam: roubo, drogas,
álcool, tabaco, vandalismo e brigas.

Importante mencionar que tais autores sentem dificuldades em aceitar as normas que lhe são
impostas; não aceitam ser contrariados; não toleram atrasos; são maus- caráter; têm como
característica a impulsividade, a irritabilidade e baixa resistência a frustrações.

Em relação à Vítima, Silva17 aponta 3 (três) tipos, que serão mencionado à seguir:

Vítima Típica:
é pouco sociável, sofre repetidamente as consequências dos comportamentos agressivos
de outros, possui aspecto físico frágil, coordenação motora deficiente, extrema
sensibilidade, timidez, passividade, submissão, insegurança, baixa auto-estima, alguma
dificuldade de aprendizado, ansiedade e aspectos depressivos. Sente dificuldade de impor-
se ao grupo, tanto física quanto verbalmente.

Vítima Provocadora:
refere-se àquela que atrai e provoca reações agressivas contra as quais não consegue lidar.
Tenta brigar ou responder quando é atacada ou insultada, mas não obtém bons resultados.
Pode ser hiperativa, inquieta, dispersiva e ofensora. É, de modo geral, tola, imatura, de
costumes irritantes e quase sempre é responsável por causar tensões no ambiente em que
se encontra.

Vítima Agressora:
reproduz os maus-tratos sofridos. Como forma de compensação procura uma outra vítima
mais frágil e comete contra esta todas as agressões sofridas na escola, ou em casa,
transformando o bullying em um ciclo vicioso.

Espectadores ou Testemunhas: também figuram como personagens de tal fenômeno, entretanto, são
assim chamados por apenas assistirem à prática da violência e não se manifestarem, quer seja, para
interferir na defesa da vítima ou para denunciar o feito. Simplesmente se mantêm inertes. Esse
posicionamento, normalmente, é adotado por medo de serem a próxima vítima.

De acordo com Chalita, os espectadores “[...] aprendem a ser omissos e passivos para se defender
[...]”18. O medo em delatar o agressor ou defender a vítima, pode transformá-los na vida adulta em
cidadãos egoístas, que aceitam e até mesmo legitimam as injustiças sociais.

Identificando os envolvidos

Considerando que uma das características de maior relevância da conduta bullying é a violência

17 SILVA, G. J. “Bullying: quando a escola não é um paraíso”. 2006. Disponível em: <http://www.mundo
jovem.com.br/bullying.php>. Acesso em: 18 abr. 2010.
18 CHALITA, Gabriel. Pedagogia da amizade. Bullying: o sofrimento das vítimas e dos agressores. São Paulo: Gente,
2008, p. 89.

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velada, faz-se necessário, tanto por parte da escola quanto dos pais estarem atentos a qualquer
modificação, por menor que seja, em relação ao comportamento da criança.

Em consonância, o pesquisador Dan Olweus citado na obra de Cléo Fante 19 elenca alguns
comportamentos que devem ser observados para que a vítima e o agressor sejam identificados, tais
como:

Comportamento da Vítima na escola:


- durante o recreio está frequentemente isolado e separado do grupo, ou procura ficar
próximo do professor ou de algum adulto.

- na sala de aula tem dificuldade em falar diante dos demais, mostrando-se inseguro e
ansioso.

- nos jogos em equipe é o último a ser escolhido.

- apresenta-se comumente com aspecto contrariado, triste, deprimido ou aflito.

- apresenta desleixo gradual nas tarefas escolares.

- apresenta ocasionalmente contusões, feridas, cortes, arranhões ou a roupa rasgada, de


forma não-natural.

- falta às aulas com certa frequência (absentismo).

- perde constantemente os seus pertences.20

Comportamento da Vítima em casa:


- apresenta, com frequência, dores de cabeça, pouco apetite, dor de estômago, tonturas,
sobretudo de manhã.

- muda o humor de maneira inesperada, apresentando explosões de irritação.

- regressa da escola com as roupas rasgadas ou sujas e com o material escolar danificado.

- apresenta desleixo gradual nas tarefas escolares.

- apresenta aspecto contrariado, triste, deprimido, aflito ou infeliz.

- apresenta contusões, feridas, cortes, arranhões ou estragos na roupa.

- apresenta desculpas para faltar às aulas.

- raramente possui amigos, ou possui ao menos um amigo para compartilhar seu tempo
livre.

- pede dinheiro extra à família ou furta.

19 FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed. Campinas: Verus,
2005, p. 75.
20 OLWEUS apud, FANTE. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed.
Campinas: Verus, 2005, p. 75.

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- apresenta gastos altos na cantina da escola.21

Comportamento do Agressor na escola:


- faz brincadeiras ou gozações, além de rir de modo desdenhoso e hostil.

- coloca apelidos ou chama pelo nome ou sobrenome dos colegas, de forma malsoante;
insulta, menospreza, ridiculariza, difama.

- faz ameaças, dá ordens, domina e subjuga. Incomoda, intimida, empurra, picha, bate, dá
socos, pontapés, beliscões, puxa os cabelos, envolve-se em discussões e
desentendimentos.

- pega dos outros colegas materiais escolares, dinheiro, lanches e outros pertences, sem o
consentimento.22

Comportamento do Agressor em casa:


- regressa da escola com as roupas amarrotadas e com ar de superioridade.

- apresenta atitude hostil, desafiante e agressiva com os pais e irmãos, chegando a ponto
de atemorizá-los sem levar em conta a idade ou a diferença de força física.

- é habilidoso para sair-se bem de ‘situações difíceis’.

- exterioriza ou tenta exteriorizar sua autoridade sobre alguém.

- porta objetos ou dinheiro sem justificar sua origem. 23

Características do bullying

A caracterização da conduta bullying pode ser observada a partir de alguns aspectos entre os alunos
que são a seguir mencionados:
- comportamentos deliberados e danosos, produzidos de forma repetitiva num período
prolongado de tempo contra uma mesma vítima.

- apresentam uma relação de desequilíbrio de poder, o que dificulta a defesa da vítima.

- não há motivos evidentes.

- acontece de forma direta, por meio de agressões físicas (bater, chutar, tomar pertences) e
verbais (apelidar de maneira pejorativa e discriminatória, insultar, constranger).

- de forma indireta, caracteriza-se pela disseminação de rumores desagradáveis e

21 OLWEUS apud, FANTE. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2.ed.
Campinas: Verus, 2005, p. 77.
22 OLWEUS apud, FANTE. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2.ed.
Campinas: Verus, 2005, p. 75.
23 OLWEUS apud FANTE. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2.ed.
Campinas: Verus, 2005, p. 77.

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desqualificantes, visando à discriminação e exclusão da vítima de seu grupo social. 24

Causas

Cumpre mencionar, conforme destaca Chalita, algumas causas que propiciam o cometimento da
conduta dos bullies, dentre elas:

- influências familiares, por adotarem modelos autoritários e repressores.

- um ambiente familiar superprotetor também pode desencadear o cometimento do bullying, visto que a
criança se tornará dependente de outros, buscando a atenção e aprovação de suas atitudes pelos pais.

- relação negativa com os pais, uma vez que os mesmos não demonstram interesse pelo filho.

- a má educação a que foram submetidos.

- fatores econômicos, sociais e culturais.

- influência de colegas.

- as relações de desigualdade e de poder existentes no ambiente escolar.

Consequências

Fante25 afirma que as consequências da prática do bullying afetam todos os protagonistas do


fenômeno, acarretando problemas físicos, emocionais de curto e longo prazo. Oportuno mencionar que
tais consequências podem se estender e trazer prejuízos no futuro, como por exemplo nas relações de
trabalho, na constituição da família e na posterior criação dos filhos.

Crianças que são vítimas de bullying podem apresentar “explosões de cólera e episódios transitórios
de paranóia ou psicose, comprometendo a regulagem da emoção e da memória”. 26

Levando em consideração a intensidade de absorção do sofrimento vivenciado pela vítima em


decorrência da conduta bullying, ela estará propensa a manifestar reações intrapsíquicas e
extrapsíquicas, apresentando sintomas de natureza psicossomática, tais como:
[...] enurese, taquicardia, sudorese, insônia, cefaléia, dor epigástrica, bloqueio dos
pensamentos e raciocínio, ansiedade, estresse e depressão, pensamentos de vingança e
suicídio, bem como reações extrapsíquicas, expressas por agressividade, impulsividade,
hiperatividade e abuso de substâncias químicas.27
24 FANTE, apud SILVA, G. J. “Bullying: quando a escola não é um paraíso”. 2006. Disponível em: <http://www.mundo
jovem.com.br/bullying.php>. Acesso em: 18 abr. 2010.
25 FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed. Campinas: Verus,
2005, p. 78.
26 FANTE, Op cit, p. 80.
27 FANTE, Cleo. Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2.ed. Campinas: Verus,
2005, p. 80.

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Vale dizer que o fato de a criança não conseguir superar os traumas obtidos pelas agressões sofridas
pode “acarretar problemas no desenvolvimento psíquico e comportamento, gerando insegurança e
dificuldade em se relacionar com o outro”.28

Desencadeam-se, ainda, no processo educacional, alguns aspectos negativos, como, “queda do


rendimento escolar, falta de interesse pelos estudos, absentismo, déficit de concentração e de
aprendizagem, reprovação e evasão escolar”.29

O agressor, em contrapartida, poderá desenvolver condutas anti-sociais e comportamentos


delinquentes, quais sejam:
Agregação a grupos delinquentes, agressão sem motivo aparente, uso de drogas, porte
ilegal de armas, furtos, indiferença à realidade que o cerca, crença de que deve levar
vantagem em tudo, crença de que é impondo–se com violência que conseguirá obter o que
quer na vida... afinal foi assim nos anos escolares.30

E por fim, os expectadores ou testemunhas, caracterizados, como já mencionado, por aqueles que
assistem à prática das agressões e não se manifestam, também sofrem com as consequências,
mesmo que indiretamente, pois a prática do bullying no ambiente escolar “faz com que o aluno não
tenha o direito a uma escola segura, solidária e saudável, o que irá prejudicar o desenvolvimento sócio-
educacional”.31

Aspectos legais

Faz-se notório que a violência e a agressividade entre aluno X aluno é uma realidade no âmbito escolar
e cresce de forma veloz. Diante dessa situação, os indivíduos podem se valer de mecanismos legais,
como a Constituição Federal, Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Código Penal Brasileiro, o
Estatuto da Criança e do Adolescente e o Código de Defesa do Consumidor, para que seus direitos
possam ser preservados.

Constituição federal

A Constituição Federal Brasileira32 elenca como um de seus objetivos fundamentais e que deve ser
respeitado o seguinte, in verbis:
Art. 3º, inc. IV, CF: “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas
de discriminação”.

Prevê ainda, os direitos e garantias fundamentais que devem ser resguardados a todos, in verbis:
28 FANTE, Cleo. “O Bullying: problema individual e social que invade as escolas brasileiras”. Disponível em:
<http://prtalliteral.terra.com.br/artigos/o-bullying-problemaindividualesocialqueinvadeasescolasbrasileiras>. Acesso em: 27
abr. 2010.
29 Idem.
30 FANTE, Op cit. p. 81.
31Idem, p. 81.
32 BRASIL. Constituição federal. São Paulo: Rideel, 1988.

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Art. 5º, caput, CF: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,
nos termos seguintes”.

Art. 5º, inc. III, CF: “ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante”.

Art. 5º, inc. X, CF: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à
indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.

Art. 5º, inc. XLI, CF: “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais”.

Por outro lado, tem-se a proteção do direito social, no que diz respeito à Infância, in verbis:
Art. 6º, CF: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a
proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”.

A mesma Constituição estabelece ainda algumas garantias essenciais em relação à criança:


Art. 227, CF: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade,
o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à
liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão”.

Declaração dos direitos humanos

A Declaração dos Direitos Humanos33, por sua vez, adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da
Assembléia Geral das Nações Unidas é desrespeitada quando a escola permite a existência do
bullying no ambiente escolar, ou seja, entre os alunos, uma vez que a mencionada Declaração prevê
em seu Preâmbulo que “os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o
homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão”.

Acrescenta-se, ademais, que em seus diversos artigos, a Declaração dos Direitos Humanos ratifica a
garantia de tais direitos, como por exemplo, “toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as
liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo,
língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento,
ou qualquer outra condição” – (art. II).

Outra violação à Declaração dos Direitos Humanos que pode ser mencionada ocorre quando há, por
parte do agressor em relação à vítima, espécies de humilhações e agressões, fazendo com que a
suposta vítima se sinta torturada diante de tal situação – (art. V).

Código penal

O bullying pode estar associado a diversas causas e não se confunde com o ato praticado. O
fenômeno ultrapassa os limites da percepção isolada da ação que pode receber um tratamento penal
33 DECLARAÇÂO. Declaração universal dos direitos humanos. 1948. Disponível em:
<http://www.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm>. Acesso em: 12 mai. 2010.

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como é o caso da lesão corporal, da injúria, do dano, que pode ser percebido no Código Penal
Brasileiro.34
Lesão Corporal – Art. 129, CP: “Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem”:

Pena – detenção, de três meses a um ano.

Maus-tratos – Art. 136, CP: “Expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade, guarda ou vigilância, para fim
de educação, ensino, tratamento ou custódia, quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis, quer sujeitando-
a a trabalho excessivo ou inadequado, quer abusando de meios de correção ou disciplina”:

Pena – detenção, de dois meses a um ano, ou multa.

§ 1º - Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave:

Pena – reclusão, de um a quatro anos.

§ 2º - Se resulta a morte:

Pena – reclusão, de quatro a doze anos.

§ 3º - Aumenta-se a pena de um terço, se o crime é praticado contra pessoa menor de 14 (catorze) anos. (Incluído pela Lei
nº 8.069, de 1990)

Calúnia – Art. 138, CP: “Caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato definido como crime”:

Pena – detenção, de seis meses a dois anos, e multa.

§ 1º - Na mesma pena incorre quem, sabendo falsa a imputação, a propaga ou divulga.

§ 2º - É punível a calúnia contra os mortos.

Difamação – Art. 139, CP: “Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação”:

Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.

Injúria – Art. 140, CP: “Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro”:

Pena – detenção, de um a seis meses, ou multa.

Constrangimento ilegal – Art. 146, CP: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver
reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não
manda”:

Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa.

Ameaça – Art. 147, CP: “Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe
mal injusto e grave”:

Pena – detenção, de um a seis meses, ou multa.

Parágrafo único – Somente se procede mediante representação.

34 BRASIL. Código Penal Brasileiro. 1984. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/Decreto-Lei/Del2848.htm>.


Acesso em: 12 mai. 2010.

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Dano – Art. 163, CP: “Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia”:

Pena – detenção, de um a seis meses, ou multa.

Estatuto da criança e do adolescente

Por outro lado, o Estatuto da Criança e do Adolescente 35 tem por finalidade proteger integralmente os
direitos da criança e do adolescente, além de ser um manual de medidas sócio-educativas, visto que
pode ser usado como um guia de orientação para que tais direitos sejam resguardados e devidamente
seguidos, como serão abordados a seguir:
Art. 15, ECA: “A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em
processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis”.

Art. 16, ECA: “O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos”:

V – participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação;

Art. 17, ECA: “O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do
adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos
espaços e objetos pessoais”.

Art. 18, ECA: “É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento
desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”.

Art. 232, ECA: “Submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento”:

Pena – detenção de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos.

Art. 245, ECA: “Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino
fundamental, pré-escola ou creche, de comunicar à autoridade competente os casos de que tenha conhecimento,
envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente”:

Pena – multa de 3 (três) a 20 (vinte) salários de referência, aplicando-se o dobro em caso de reincidência.

Código de defesa do consumidor

À luz do Código de Defesa do Consumidor 36, a escola, como prestadora de serviços, é responsável
pelos atos de violência que ocorrem contra os alunos dentro do estabelecimento de ensino, uma vez
que ela deve zelar pelo bem-estar e segurança das crianças.

A partir do momento que uma escola particular recebe um estudante, ela torna-se responsável pela
preservação da integridade física e psíquica do aluno, independentemente de culpa ou não, visto que a
responsabilidade neste caso é objetiva, assim, ela irá responder pelos danos causados, ou seja, as

35 BRASIL. Estatuto da criança e do adolescente. São Paulo: Rideel, 1990.


36 BRASIL. Código de defesa do consumidor. 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/leis/l8078.htm>.
Acesso em: 12 mai. 2010.

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agressões cometidas, como podemos perceber no artigo, in verbis:


Art. 14 do CDC: “O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos
causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou
inadequadas sobre sua fruição e riscos”.

Considerações finais

Em um primeiro momento, buscamos evidenciar com maior clareza o conceito do termo bullying, para
que assim se tivesse a certeza de o distinguir das brincadeiras de crianças, como é vista por alguns
professores e pais, reafirmando que a conduta bullying seriam todas atitudes agressivas, intencionais e
repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente, de um indivíduo mais forte para com um que não
apresenta meios de defesa.

Posteriormente, tratou-se da evolução histórica, tipos de bullying, os protagonistas, a identificação dos


envolvidos, as características, as causas e as possíveis consequências do fenômeno em questão.
Viram-se também os dispositivos legais de que as vítimas podem se valer diante das agressões e
violência que, por ventura, possam estar sofrendo.

Observa-se que a escola, ao invés de ser vista como um local de aprendizagem e das primeiras
interações com o outro, tem sido palco para o desenrolar da violência, gerando, muitas vezes, graves
consequências no âmbito emocional, psíquico e comportamental das crianças. Pode-se dizer ainda
que, a não superação dos traumas obtidos em decorrência dos atos de violência podem gerar diversos
resultados, tais como, baixa auto-estima, dificuldades de relacionamento e auto-expressão, déficit de
concentração e de aprendizagem e reprovação.

Todos os envolvidos - agressores, vítimas e espectadores - na prática do bullying sofrem diante dessa
situação. Por um lado, o agressor pode se valer dessa atitude agressiva para descontar no outro o que
está vivendo em casa ou até mesmo por não ter a atenção e carinho que gostaria de receber dos seus
genitores. A vítima, na maioria das vezes, sofre em silêncio, por medo de demonstrar covardia perante
os outros amigos ou por temer represália. E por último, os espectadores não se manifestam, por medo
de serem as próximas vítimas.

Diante dessa situação, podemos visualizar que todos sofrem, entretanto de formas diferentes, sem que
a escola ou a família lhe dêem o apoio necessário. Percebe-se que há um descaso em relação às
agressões que tem ocorrido no ambiente escolar e, isso pode criar, no futuro, indivíduos, inseguros,
apáticos, sem poder de decisão.

Outro aspecto importante que foi explanado e corroborado no transcorrer do presente artigo, é a
parceria da escola juntamente com os pais, uma vez que a família é impulsionadora, através da
educação que transmite para os filhos, das atitudes agressivas dos mesmos, quer seja porque são
criados em um ambiente super protetor ou em um ambiente autoritário, fazendo com que os filhos-
agressores, sejam considerados como vítimas também, pois apenas estariam refletindo em outras
crianças as situações vivenciadas em seus lares.

Vale mencionar que, a escola deve propiciar aos alunos um ambiente seguro, sadio e saudável, onde o

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mesmo possa desenvolver suas habilidades intelectuais de forma prazerosa e eficaz. A escola, em
consonância com as individualidades e histórico familiar de cada aluno, deve estar atenta para a
adoção de estratégias mais adequadas em relação ao combate ou à prevenção da prática da violência
em seu espaço físico. Caso contrário, os alunos, desde a mais tenra idade, carregarão marcas
irreversíveis provocadas pelas humilhações, rejeições gozações, perseguições a que foram submetidas
em um dado momento de suas vidas.

Assim, para que a escola seja vista como um ambiente em que a violência ocorra em pequenas
proporções, deve-se ensinar as crianças a lidarem com sua emoções, para que assim propaguem
comportamentos anti-violentos, ou seja, propagadores da paz.

Por fim, este artigo deixa como legado para a experiência dos pesquisadores e como motivação para
outros estudos, a percepção de que a violência nas escolas independe de classe social, cor, sexo ou
religião. Em uma sociedade complexa como a atual, em que os valores ficam meio turvos e as
referências para os jovens ficam difusas, a violência é uma das formas que a juventude tem para
descarregar suas frustrações. Nesse contexto, é necessário que pais, professores e todos os
profissionais responsáveis pela formação das crianças e jovens, bem como o Estado, estejam
preparados para lidar com os conflitos e atuem em conjunto para minimizá-los. Para isso, é necessário
que cada um cumpra, com responsabilidade, o seu papel.

Temas dessa natureza, então, devem ser colocados em debate com frequência, para que se construa
uma massa crítica que conduza a reflexões sérias sobre a importância do acolhimento das crianças e
jovens no meio social.

Referências:

BRASIL. Código de defesa do consumidor. 1990. Disponível em:


<http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/leis/l8078.htm>. Acesso em: 12 mai. 2010.

______. Código penal brasileiro. 1984. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/Decreto-


Lei/Del2848.htm>. Acesso em: 12 mai. 2010.

______. Constituição federal. São Paulo: Rideel, 1988.

______. Estatuto da criança e do adolescente. São Paulo: Rideel, 1990.

CHALITA, Gabriel. Bullying: o sofrimento das vítimas e dos agressores. ______. Pedagogia da
amizade. São Paulo: Gente, 2008.

DECLARAÇÂO. Declaração universal dos direitos humanos. 1948. Disponível em:


<http://www.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm>. Acesso em: 12 mai. 2010.

ESTATUTO. Estatuto da criança e do adolescente. 2009. Disponível em:


<http://pt.wikipedia.org/wiki/Estatuto_da_Crian%C3%A7a_e_do_Adolescente>. Acesso em: 12 mai.
2010.

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FANTE, Cleo. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed.
Campinas: Verus, 2005.

______. “O Bullying: problema individual e social que invade as escolas brasileiras”. Disponível em:
<http://prtalliteral.terra.com.br/artigos/o-bullying-
problemaindividualesocialqueinvadeasescolasbrasileiras>. Acesso em: 10 out. 2009.

LOPES NETO, A. A. “Bullying – comportamento agressivo entre estudantes”. Disponível em:


<http://www.scielo.br/pdf/jped/v81n5s0/v81n5Sa06.pdf>. Acesso em: 20 set. 2009.

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<http://www.mundojovem.com.br/bullying.php>. Acesso em: 7 out. 2009.

TOGNETTA, L. R. P. “Um estudo sobre Bullying entre escolares do ensino fundamental”. Disponível
em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
79722009000200005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 20 set. 2009.

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A COMPREENSÃO SISTÊMICA DO BULLYING
*
Naiane Carvalho Wendt Schultz
#
Denise Franco Duque

Carolina Fermino da Silva
æ
Carolina Duarte de Souza
Φ
Luciana Cristina Assini
θ
Maria da Glória de M. Carneiro

RESUMO. O bullying tem sido foco de pesquisas e intervenções de pesquisadores, educadores e profissionais da saúde do mundo todo,
por ser um fenômeno relacional comumente observado em grupos, sobretudo em escolas, caracterizado pela presença de comportamentos
agressivos, cruéis, intencionais e repetitivos adotados por uma ou mais pessoas contra outras, sem motivação evidente. Com vista ao
enriquecimento das discussões acerca do conceito de bullying, fez-se uma descrição relacional sistêmica desse fenômeno. Para tanto,
procedeu-se ao estabelecimento de uma correlação do bullying com os pressupostos de complexidade, instabilidade e intersubjetividade
que embasam a compreensão desse fenômeno e com a Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano. Os achados dessa
compreensão sugerem que o fenômeno e as intervenções não podem reduzir-se apenas às características individuais dos sujeitos
implicados, tampouco a uma interação entre autor e alvo que ignore a diversidade de pessoas e sistemas envolvidos e a teia complexa de
relações compreendidas para de sua manutenção.
Palavras-chave: Bullying; violência escolar; epistemologia sistêmica.

THE SYSTEMIC UNDERSTANDING OF BULLYING

ABSTRACT. Bullying has been the subject of study and interventions for researchers, educators and health professionals
around the world because it is a relational phenomenon commonly observed in groups, especially schools. It is characterized
by the presence of aggressive, brutal, deliberate and repetitive behaviors adopted by one or more persons against another, with
no obvious motivation. Aiming to enrich the discussions about the concept of bullying, this phenomenon was described in this
article using systemic relational approach. For both we related bullying with the assumptions of complexity, instability and
intersubjectivity that underpin this understanding, as well as with the Bioecologica Theory of Human Development. The
findings suggest that understanding and intervention cannot be reduced solely to the individual characteristics of the
individuals involved, nor to an author-target interaction that ignores the diversity of people and systems and the complex web
of relationships involved in its maintenance.
Key words: Bullying; school violence; systemic epistemology.

*
Professora de Ensino Superior e Psicóloga responsável pelo Serviço de Atendimento ao Aluno.Psicóloga Clínica. Graduação na
UFSC em 2003. Mestre em Processos Psicossociais, Saúde e Desenvolvimento Psicológico pela UFSC em 2006. Formação em
Terapia Relacional Sistêmica pelo Familiare Instituto Sistêmico em 2006.
#
Especialista em Psicologia Clínica, Especialista em Psicoterapia Psicodinâmica pelo CEP e em Terapia Relacional Sistêmica.
Sócia Fundadora, professora e supervisora do Curso de Especialização em Terapia Relacional Sistêmica do Familiare Instituto
Sistêmico em Florianópolis.

Psicóloga clínica com Especialização em Terapia Relacional Sistêmica pelo Familiare Instituto Sistêmico. Consultora do Ciranda
- Consultoria Relacional Sistêmica em Escolas.
æ
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina. Professora do Curso de
Graduação em Psicologia da SETREM - Sociedade Educacional Três de Maio. Psicóloga Pediátrica da Prefeitura Municipal de
Cerro Largo. Especialização em Terapia Relacional Sistêmica pelo Familiare Instituto Sistêmico. Consultora do Ciranda -
Consultoria Relacional Sistêmica em Escolas.
Φ
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade de Maryland - College Park. Psicóloga e mestre
em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Especialização em Terapia Relacional Sistêmica pelo Familiare
Instituto Sistêmico.
θ
Psicóloga clínica com Especialização em Terapia Relacional Sistêmica pelo Familiare Instituto Sistêmico.
Consultora do Ciranda - Consultoria Relacional Sistêmica em Escolas.

Psicologia em Estudo, Maringá, v. 17, n. 2, p. 247-254, abr./jun. 2012


248 Schultz et al.

LA COMPRENSIÓN SISTÉMICA DEL BULLYING

RESUMEN. El bullying ha sido foco de investigaciones e intervenciones de investigadores, educadores y profesionales de la salud de
todo el mundo ya que es un fenómeno relacional comúnmente observado en grupos, especialmente en las escuelas, que se caracteriza
por la presencia de conductas agresivas, crueles, intencionales y repetitivas adoptadas por una o más personas contra otra, sin
motivación obvia. Con el objetivo de enriquecer las discusiones sobre el concepto de bullying se llevó a cabo una descripción
sistémica relacional de lo mismo, relacionándolo con los presupuestos de complejidad, inestabilidad e intersubjetividad, así como con
la Teoría Bioecológica de Desarrollo Humano. Los hallazgos sugieren que la comprensión no debe reducir el fenómeno y las
intervenciones apenas a las características individuales de los sujetos implicados, ni a una interacción autor albo que ignore la
diversidad de personas y sistemas implicados, tampoco la red compleja de relaciones involucradas en la manutención del mismo.
Palabras-clave: Bullying; violencia escolar; epistemología sistémica.

O bullying é objeto de preocupação de desenvolvido em 2002 em escolas do Interior Paulista


pesquisadores, educadores e profissionais da saúde do (Catini, 2004).
mundo inteiro, por ocorrer em qualquer tipo de escola Nos quatro estudos sobre o fenômeno bullying em
- primária ou secundária, pública ou privada, rural ou escolas do Interior de São Paulo entre 2001 e 2003
urbana - e independentemente das condições sociais e realizados por Fante (2005) constatou-se que cerca de
econômicas das pessoas envolvidas. Paradoxalmente, 49,8%1 dos alunos envolveram-se em condutas de
ocorre justamente no lugar em que, em tese, as bullying, aí compreendidos 22,4% de vítimas, 14,9%
crianças e adolescentes deveriam aprender a conviver de autores e 12,83% de vítimas e autores. Entre os
socialmente com respeito ao outro e a exercitar e comportamentos de maior prevalência estavam os
desenvolver sua individualidade e subjetividade sem maus-tratos verbais, predominando os apelidos
coerção (Duque, 2007). pejorativos e as gozações. O local de maior incidência
A palavra bullying é derivada do verbo inglês em todos os estudos foi a sala de aula.
bully, que significa usar a superioridade física para Em 2002 e 2003, em parceria com a Petrobrás, o
intimidar alguém. Também pode ser empregada como IBGE e a Secretaria de Educação Municipal do Rio de
adjetivo, no sentido de valentão ou tirano (Weiszflog, Janeiro, a Abrapia realizou um projeto intitulado
2008). Emprega-se esta expressão para explicar um “Programa de redução do comportamento agressivo
fenômeno relacional comumente observado em entre estudantes em 11 escolas do Rio de Janeiro”. Os
grupos, sobretudo em escolas, caracterizado pela dados parciais coletados na fase de diagnóstico
presença de comportamentos agressivos, cruéis, confirmam os encontrados por Fante (2005) e
intencionais e repetitivos adotados por uma ou mais revelaram que 40,5% dos alunos entrevistados
pessoas contra outras, sem motivação evidente. assumiram ter tido algum envolvimento com bullying
Destaca-se a palavra repetitivo por ser a persistência no ano de 2002, como vítima ou como autor (Lopes,
do comportamento hostil, repulsivo e intimidador Monteiro & Saavedra, n.d.).
contra uma mesma pessoa ou grupo o que determina o Entre os comportamentos identificados, o mais
bullying (Fante, 2005; Almeida, 2008). freqüente foi “apelidar”, com 54,2%. Quanto aos
locais de ocorrência de bullying, 60% se deram em
sala de aula, restando para recreio, portão e
A OCORRÊNCIA DO FENÔMENO corredores 16,1%, 15,9% e 7,8% respectivamente.
No tocante às reações dos alunos-alvo, constatou-
Os primeiros dados estatísticos acerca do bullying se, segundo relato desses mesmos alunos, que
foram divulgados no final da década de 80, por 49,9% davam atenção ao fato ou o ignoravam,
Olweus e Roland, os quais constataram que uma em 16,7% se defendiam, 12,3% pediam que parassem,
cada sete crianças estava envolvida com esse tipo de 8,4% choravam, 4,5% solicitavam ajuda, 3,4%
violência (Lopes, Monteiro, & Saavedra, n.d.). No fugiam ou não iam à escola e 4,5% mencionaram
Brasil, as primeiras pesquisas foram iniciadas na outras reações. Dos alunos que testemunhavam
década de 90. Entre os trabalhos de pesquisa bullying na escola, 33,4% admitiram sentir pena da
realizados destacam-se o de Marta Canfield e vítima e 26,5%, sentir-se mal (Lopes, Monteiro &
colaboradores, desenvolvido em 1997 no Rio Grande Saavedra, n.d.).
do Sul, o de Israel Figueira e Carlos Neto, realizado
em 2000 e 2001 no Rio de Janeiro, e o de Cleo Fante,
1
Média percentual entre os quatro estudos.

Psicologia em Estudo, Maringá, v. 17, n. 2, p. 247-254, abr./jun. 2012


Compreensão sistêmica do bullying 249

Em 2008 a Associação Brasileira caráter físico (bater, chutar, beliscar), verbal (apelidar,
Multiprofissional de Proteção à Infância e à xingar, zoar, insultar), moral (difamar, caluniar,
Adolescência (Abrapia) revelou que 28% das crianças discriminar), sexual (abusar, assediar, insinuar),
brasileiras já foram vítimas de bullying nas escolas e psicológico (intimidar, ameaçar, perseguir), material
15% sofrem agressões semanalmente. Dados do (furtar, roubar, destroçar pertences) e virtual (zoar,
Observatório da Infância sobre o Bullying Escolar discriminar, difamar, por meio da internet e celular).
(2008) indicam que, dentre os estudantes do Ensino O bullying virtual é também chamado de
Fundamental do País, 45% já foram vítimas ou cyberbullying e constitui-se no ataque pessoal por
agressores ou ao mesmo tempo vítimas e agressores. meio de tecnologias interativas, como e-mails,
A partir desses dados é possível constatar que o telefones celulares, blogs, chats, mensagens de texto e
bullying é uma realidade para quase metade das outros dispositivos eletrônicos. No cyberbullying
crianças e adolescentes das escolas brasileiras, recorre-se à tecnologia para ameaçar, humilhar ou
ocorrendo principalmente em sala de aula. Para Fante intimidar alguém por meio da multiplicidade de
(2005), isto pode ser um indicador de que os ferramentas da nova era digital. Embora ocorra
professores não conseguem distinguir violência e virtualmente, em geral o cyberbullying leva a conflitos
brincadeiras próprias da idade entre os escolares, o físicos reais, assim como a sentimentos de depressão,
que contribui para que os casos de bullying não sejam desespero e perda.
identificados e acarreta um falso diagnóstico da Almeida (2008) afirma que é de fundamental
realidade escolar, que por sua vez concorre para que importância distinguir o bullying de comportamentos
esse tipo de violência se perpetue nas escolas. indesejados presentes no convívio escolar. De acordo
Acredita-se que as escolas que não admitem a com a autora, deve-se diferenciar bullying de
ocorrência de bullying entre seus alunos brincadeiras turbulentas, nas quais se verificam sinais
possivelmente desconhecem o problema ou se negam de prazer e diversão em todos os envolvidos, bem
a enfrentá-lo. Segundo Monteiro (2008), a escola que como de atos de indisciplina ou insubordinação, de
afirma não ocorrer o bullying é provavelmente aquela agressividade e de comportamentos antissocias, pois
onde há mais incidência dessa prática, pois nada é estes não envolvem atitudes persistentes de
feito para preveni-la e reprimi-la. Alguns alunos intimidação, controle e domínio contra uma vítima
testemunhas de Bullying, quando percebem que o incapaz de defender-se das ameaças e, ao contrário do
comportamento agressivo não acarreta nenhuma que se verifica em situações de bullying, podem ter
consequência a quem o pratica, poderão também um caráter explosivo, impulsivo e emocional.
passar a adotá-lo. Ainda segundo a mesma autora, as formas diretas
Esses dados parecem ser confirmados pela de ameaça são mais empregadas por meninos e são
pesquisa “Bullying no Ambiente Escolar”, realizada transmitidas ao alvo de forma clara. As indiretas, que
em 2009 pelo Centro de Empreendedorismo Social e se manifestam através de exclusão deliberada, de
Administração em Terceiro Setor (CEATS) e difamação e impropérios propagados anonimamente,
Fundação Instituto de Administração (FIA), a qual são mais comumente empregadas pelas meninas e são
demonstra que a ocorrência do bullying emerge em um ainda mais difíceis de detectar e de solucionar.
clima generalizado de violência no ambiente escolar,
uma vez que 70% da amostra de 5.168 estudantes de
cinco escolas de cada uma das cinco regiões A EPISTEMOLOGIA SISTÊMICA E O BULLYING
geográficas do Brasil responderam ter presenciado
cenas de agressão entre colegas, enquanto 30% deles Com o intuito de enriquecer as discussões sobre o
declararam ter vivenciado ao menos uma situação conceito bullying procura-se neste trabalho fazer uma
violenta no mesmo período (Centro de descrição relacional sistêmica desse fenômeno. Esta
Empreendedorismo Social e Administração em compreensão está pautada no paradigma sistêmico,
Terceiro Setor (CEATS), 2010). que, para Vasconcellos (2002), se fundamenta nos
pressupostos complexidade, instabilidade e
intersujetividade.
AS FORMAS DE BULLYING E SUAS A complexidade refere-se à pluralidade de fatores
IMPLICAÇÕES envolvidos e à necessidade de contextualização dos
fenômenos, assim como à causalidade recursiva ou
Entre as principais formas de maus-tratos ou circular, contrária à causalidade linear de causa-efeito.
intimação mencionadas por Fante (2005) e pelo Relaciona-se a este pressuposto o princípio da
Observatório da Infância (2008) citam-se aquelas de totalidade, segundo o qual se considera que uma

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250 Schultz et al.

mudança ocorrida em uma parte/membro do sistema cultura. Recomendam os autores que não se culpe a
repercute em alterações em todo o sistema. cultura ou os indivíduos isoladamente (sejam estes
A instabilidade diz respeito à constante agressores, vítimas, pais ou professores), mas se
transformação do mundo, reconhecendo-se a considere a interação entre os muitos fatores que
indeterminação, imprevisibilidade e incontrolabilidade contribuem para essa problemática (ainda que
de alguns fenômenos, uma vez que a modificação em involuntariamente) e como esses fatores são sentidos
uma das partes gera modificações - por vezes no contexto da vida dos alunos.
imprevisíveis - no todo, que, por sua vez, afeta o curso Tendo-se em vista estas considerações, é
de um sistema. necessário levar em conta a imprevisibilidade das
Intersubjetividade significa que não há uma situações de bullying, devido à complexidade do
realidade neutra, independente do observador. fenômeno e à intersubjetividade que ele envolve.
Partindo do exposto acima, uma análise sistêmica
do bullying precisa considerar a complexidade das
relações entre os vários sistemas envolvidos na BULLYING E O DESENVOLVIMENTO HUMANO
situação emergente: o alvo, o autor, as testemunhas, À LUZ DA COMPREENSÃO SISTÊMICA
a(s) turma(s) envolvida(s), o/a(s) professor/a(s), a
escola, as famílias dos envolvidos, a comunidade à Urie Bronfenbrenner, autor da Teoria
qual pertence a escola, a cultura na qual estão Bioecológica do Desenvolvimento Humano, que é
inseridos, as regras, os valores e outros fatores. utilizada para se compreender o desenvolvimento na
A complexidade do fenômeno e a consideração de Abordagem Sistêmica, propõe que o desenvolvimento
que a intervenção em um fator repercute em todos os de uma pessoa ocorre a partir de intercâmbios cada
demais faz com que todos os fatores acima citados vez mais complexos entre seus aspectos
estejam implicados não só com a ocorrência do biopsicológicos e os outros indivíduos, objetos e
bullying, mas também com a sua prevenção e símbolos do contexto (Bronfenbrenner, 2011; 1999).
resolução. Ora, como esses episódios geralmente Isso acontece pela interação dinâmica de quatro
ocorrem no contexto escolar, é principalmente à núcleos multidirecionais e inter-relacionados: o
própria escola que cabe tomar providências no sentido processo, a pessoa, o contexto e o tempo (PPCT)
de resolver esse problema. Isso não significa que se (Bronfenbrenner & Morris, 1998):
outros sistemas devam se eximir, mas se considera que 1. Processo são as conexões entre os diferentes
a escola deve ser o contexto de discussão das níveis, papéis e atividades diárias da pessoa em
dificuldades apresentadas (Curonici & McCulloch, desenvolvimento. Para se desenvolver intelectual,
1999). emocional, social e moralmente um ser humano
Ante a diversidade de pessoas e sistemas precisa da participação ativa em interações
envolvidos e suas múltiplas interações, não se pode progressivamente mais complexas e recíprocas
reduzir o bullying apenas às características individuais com pessoas, objetos e símbolos no ambiente
dos sujeitos em questão, tampouco a uma interação imediato. Para ser efetiva, a interação tem que
entre autor e alvo que ignore a teia complexa de ocorrer em uma base bastante regular e em
relações implicadas na manutenção do fenômeno. períodos estendidos de tempo. Os processos
Ademais, é necessário investigar as condições e proximais, considerados os motores do
implicações do sujeito ao se colocar nas posições de desenvolvimento, são aqueles em que há
alvo, autor e/ou testemunha dos episódios de maus- participação efetiva, face a face, constante,
tratos. Por fim, deve-se levar em conta a história e a recíproca e progressivamente mais complexa.
cultura de cada sujeito participante, bem como a 2. o núcleo pessoa diz respeito às características
história de cada relação existente no contexto pessoais que podem influenciar a maneira de os
estabelecido (Catini, 2004). outros interagirem com o sujeito em
Importa ainda atentar para o fato de existirem desenvolvimento. Existem três características da
tantas versões para os episódios de bullying quantos pessoa que influenciam e moldam o curso do
subsistemas (neste caso grupos, turmas, “panelinhas”) desenvolvimento humano: a) disposições - que
estiverem envolvidos. Todas elas precisam ser podem inibir ou colocar os processos proximais
consideradas na compreensão do fenômeno. Beaudoin em movimento e continuar sustentando a sua
e Taylor (2006) afirmam ser incongruente no estudo operação; b) recursos - habilidades, experiências e
do bullying centrar-se apenas em atos isolados de cada conhecimento para que os processos proximais
indivíduo, em fatores isolados ou em determinada sejam efetivos ou não em determinada fase de

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Compreensão sistêmica do bullying 251

desenvolvimento; e c) - características de diversos sistemas. Sob esse enfoque pode-se entender


demanda que convidam ou desencorajam reações que o autor de maus-tratos, por exemplo, não apenas é
do contexto social e podem nutrir ou romper a um agente produtor da violência, mas pode também
operação de processos proximais. ter tido seu desenvolvimento moldado pela violência,
3. o núcleo contexto diz respeito ao meio ambiente por meio de padrões agressivos de interação e fatores
global em que o indivíduo está inserido e onde se facilitadores de bullying e desrespeito, ou seja, pode
desenrolam os processos desenvolvimentais. estar reproduzindo padrões relacionais de outros
Abrange tanto os ambientes mais imediatos nos microssistemas nos quais participa ou que foram
quais vive a pessoa em desenvolvimento, como os aprendidos como meio de resolução de problemas. Há
mais remotos, em que a pessoa nunca esteve, mas evidências de que esse padrão relacional resulta de
que se relacionam e têm o poder de influenciar o comportamento aprendido precocemente (em torno
curso de desenvolvimento humano. Esses dos dois anos de idade) e pode manifestar-se através
ambientes, também denominados de subsistemas, de atos de violência física ou emocional e assumir
estão referidos e descritos a seguir. formas diretas ou indiretas de ameaça (U.S.
Department of Health & Human Services, 2008).
• Microssistema: constitui-se de ambientes do
Os indivíduos ou grupos que praticam bullying
ciclo de relações mais próximas do sujeito,
são chamados autores de bullying, e raramente agem
com os quais ele interage face a face e exerce
diferentes papéis em cada um, como, por sozinhos. Estes atos de intimidação de um alvo se
exemplo, a família, a escola para a criança, o tornarão constantes e serão transformados em bullying
trabalho para os adultos, etc. se houver um grupo de apoiadores que os incentive,
encorajando e valorizando o comportamento do
• Mesossistema: consiste nas inter-relações
valentão ou do grupo de valentões.
entre dois ou mais microssistemas, sendo
Ainda quanto às características pessoais dos
modificado sempre que o indivíduo passe ou
autores de bullying, frequentemente são citadas as
deixe de fazer parte de algum ambiente, a
disposições e atitudes como impulsividade,
saber, as relações entre a família e a escola,
agressividade, irresponsabilidade, ansiedade,
entre a família e o trabalho dos pais, etc.
insegurança e elevada autoestima. A insegurança
• Exossistema: é o subsistema em que o sujeito traduz-se justamente na manutenção de um padrão que
em desenvolvimento não é participante ativo, frequentemente inibe os contatos interpessoais e
mas no qual podem ocorrer eventos que o processos proximais, mas que no contexto em que
afetem e vice-e-versa - por exemplo, os ocorre é encorajado e valorizado, tornando os autores
ambientes de trabalho dos pais para as de bullying reconhecidos, ainda que pelo medo que
crianças. inspiram. Possivelmente por não terem experienciado
• Macrossistema: envolve e permeia todos os padrões relacionais diferentes, esses indivíduos não
outros ambientes, formando uma rede de puderam desenvolver habilidades de relacionar-se de
interconexões que se diferenciam de uma forma pacífica e afetiva. Entre as demandas dos
cultura para outra. Constituem o autores de bullying geralmente se encontram beleza,
macrossistema a economia, política, a alta estatura, utilização de roupas e acessórios da
religião, o sistema de leis e outras moda.
características inerentes a cada cultura. Aqueles que somente sofrem bullying são
4. O núcleo tempo pode ser entendido como o chamados de vítimas ou alvos de bullying (a última é a
desenvolvimento no sentido histórico. A denominação mais comumente encontrada na
passagem de tempo em termos históricos tem literatura), e os que provocam e desafiam os autores
efeitos profundos em todas as sociedades, assim podem ser vítimas passivas ou vítimas provocadoras.
como pequenos episódios da vida familiar podem As pessoas também podem tanto sofrê-lo quanto
ter significativa influência no desenvolvimento praticá-lo. Estas são denominadas alvos-autores
das pessoas da família num dado momento de (Olweus, 1993).
suas vidas. Refere-se tanto às continuidades Os alvos ou vítimas de bullying passivas
quanto às mudanças e interrupções ao longo do apresentam, em geral, disposições como fragilidade,
ciclo vital do indivíduo e das gerações. timidez, baixa autoestima e, por vezes, apatia. Os
Esse modelo de compreensão do desenvolvimento alvos ou vítimas provocadoras podem ter
humano reforça a importância de considerar o bullying características como hiperatividade, inquietação,
como um fenômeno relacional que sofre influência de dispersão e condutas ofensivas. Em relação a seus

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252 Schultz et al.

recursos, podem ser considerados tanto como bons • Os microssistemas compreendem: escolas muito
alunos quanto possuidores de alguma dificuldade de permissivas, sem regras claras ou não preocupadas
aprender, de impor-se ao grupo, dificuldade motora, com o cumprimento de regras, onde impera a
de visão ou de audição. Com relação às demandas, crença de que episódios de bullying não passam de
com frequência falam com sotaque diferente, têm a brincadeiras e/ou que problemas de mau
pele de outra cor, vestem-se de modo pouco usual, comportamento são de responsabilidade da família,
estão acima do peso ou muito abaixo, entre outras etc.; famílias com dificuldades em colocar limites,
características. De modo geral, são considerados pelos pouco participantes da vida dos filhos, podendo
demais como pertencentes a um status social inferior e chegar à negligência, com padrões de
ser transformados em objeto de diversão e prazer por relacionamento que, no caso dos autores, incluem
meio de “brincadeiras” maldosas e intimidadoras desrespeito, agressividade ou violência, etc.;
realizadas por um indivíduo ou grupo (Observatório vizinhança e comunidade pouco participativa ou
da Infância, 2008). ativa na vida/comportamento das crianças e
Eles podem ser reconhecidos por apresentar, com adolescentes, com alta tolerância para com o
frequência, desculpas para faltar às aulas ou desrespeito, agressividade e violência e outros
indisposições como dor de cabeça ou de estômago, comportamentos. Costantini (2004) alega que
diarreia e vômitos antes do horário de ir para a escola, contextos com pouca possibilidade de troca e
solicitação para mudar de sala ou de escola sem ineficazes em construir relações de negociação
apresentar motivos convincentes; desmotivação com entre os seus membros são espaços propícios para
os estudos, queda do rendimento escolar ou a ocorrência de bullying.
dificuldades de concentração e de aprendizagem; • Mesossistemas: podem contribuir com bullying
regresso da escola com humor irritado ou triste, quando há pouca ou nenhuma inter-relação entre
machucado, com as roupas ou materiais escolares os microssistemas ou a comunicação entre eles é
sujos ou danificados; aspecto contrariado, deprimido e falha, tais como pouca ou nenhuma participação
aflito ou medo de voltar sozinho da escola; das famílias no contexto escolar ou conflitos entre
dificuldades de se relacionar com os colegas, de fazer família e escola.
amizades; isolamento, sem querer contato com outras • Exossistemas: incluem os ambientes de trabalho,
pessoas que não sejam os familiares, etc. lazer e hobbies das pessoas significativas
(Observatório da infância, 2008). envolvidas com bullying, nos quais há alta
As pessoas que presenciam e convivem com as tolerância em relação a atitudes de desrespeito,
situações de violência e intimidação perpetradas agressividade e violência, o que por sua vez,
contra o alvo são denominadas como testemunhas. contribui para naturalizar a violência e,
Quando adotam a lei do silêncio testemunham tudo, consequentemente, o bullying. Estes subsistemas
mas nada fazem por medo de ser a próxima vítima. podem exigir em demasia a presença e atenção, por
Também nesse grupo estão alguns alunos que não exemplo, dos pais/professores/coordenadores, o
participam dos ataques, mas manifestam apoio ao que os torna pouco disponíveis para atentar para os
agressor. As principais características das testemunhas comportamentos e sentimentos dos filhos/alunos
referem-se a disposições como ausência de iniciativa e envolvidos em episódios de bullying; podem
de senso de autoeficácia, que os impede tanto de incluir também os ambientes onde são traçadas as
defender o alvo quanto de solicitar ajuda ou praticar os políticas públicas e educacionais que não
ataques. conhecem, nada fazem ou ainda, que não
Disto podemos deduzir que o bullying não é trabalham com vista à prevenção e diminuição do
maléfico apenas para o desenvolvimento dos alvos, bullying.
mas também para o dos autores e das testemunhas. • Macrossistema: inclui todo o sistema educacional e
Esse entendimento permite que se rompa com a a cultura do país/continente, bem como a
dicotomia agressor-vítima, pois se consideram as subcultura regional. Beaudoin e Taylor (2006)
percepções dos diferentes sujeitos envolvidos e se dá ressaltam as especificações da cultura ocidental,
voz aos diversos sofrimentos implicados nos episódios tais como o patriarcado, o capitalismo, o
de bullying (Oliboni, 2008). individualismo, o racismo, a competitividade e o
Os subsistemas comumente envolvidos neste adultismo como incentivadoras e promotoras de
fenômeno são os microssistemas, os mesossistemas, os bullying. O patriarcado contribui com concepções
exossistemas e os macrossistema. socialmente transmitidas a respeito das diferenças

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Compreensão sistêmica do bullying 253

de gênero, as quais atribuem maior valor e poder conjunto, pais, a comunidade e a escola devem criar e
aos indivíduos de sexo masculino do que ao manter regras claras contra o bullying e planejar
feminino. Estas concepções influenciam na estratégias de prevenção e tratamento, pois se sabe que
educação de meninas, tornando-as mais atentas às a falta de intervenções efetivas contra esse fenômeno
necessidades alheias e tendentes a sacrificar-se leva o ambiente escolar a tornar-se totalmente
pelos demais, a desenvolver empatia, ao passo que contaminado por sentimentos de ansiedade e medo
levam meninos a serem durões, pouco afetivos, que acabam por afetar todo o processo de convívio e
pouco sensíveis e protetores e muito independentes aprendizagem.
(Ravazzola, 1997). O sistema capitalista e o A Teoria Bioecológica do Desenvolvimento
individualismo da sociedade ocidental Humano enfatiza a necessidade de compreender o
contemporânea nos têm levado a conceber como bullying como um fenômeno relacional influenciado
naturais o sucesso pessoal e os processos por vários indivíduos e sistemas. Sob esse enfoque não
competitivos concentrados na aquisição de bens é possível reduzi-lo à dualidade agressor/vítima.
materiais e financeiros, privilegiando necessidades Por tratar-se de situações repetidas de violência
e direitos individuais em detrimento da nem sempre identificadas e reconhecidas como tal, é
coletividade. Os discursos racistas fomentam o fundamental a realização de investigações que
surgimento de julgamentos preconceituosos e nos possibilitem o diagnóstico, a fim de caracterizar a
levam a hierarquizar as relações e ao sectarismo incidência e abrangência do problema em cada
social. Finalmente, o adultismo, compreendido instituição de ensino.
como valoração exclusiva do saber e poder adulto, Após este primeiro passo, faz-se necessário o
contribui para o desrespeito às crianças e engajamento de toda a comunidade escolar.
adolescentes, uma vez que os considera incapazes Inicialmente devem ser promovidos meios de informá-
de emitir opinião e de participar das decisões que la sobre em que o bullying se constitui, como se
os afetam. manifesta e quais são as consequências a curto, médio
e longo prazo para cada um dos envolvidos. Por tratar-
Os processos e o tempo referentes ao bullying
se de um fenômeno relacional, qualquer estratégia,
caracterizam-se por episódios constantes, recorrentes e
para ser bem-sucedida, deve trabalhar com base nas
progressivamente complexos, os quais iniciam com relações e abranger os diferentes subsistemas da
pequenas zombarias e intimidações e chegam, em comunidade escolar: alunos, funcionários, educadores,
muitos casos, a atos de violência de fato. As crianças pais e as demais pessoas comprometidas com o
que sofrem bullying, dependendo de suas desenvolvimento das crianças e adolescentes.
características individuais e de suas relações com os
meios em que vivem, especialmente do meio familiar,
poderão não superar, parcial ou totalmente, os traumas REFERÊNCIAS
sofridos na escola. Poderão crescer com uma
autoimagem negativa, baixa autoestima e depressão, e Almeida, A. M. T. (2008). Bullying: teoria, investigação e
desenvolver sérios problemas de relacionamento, programas de intervenção. Trabalho apresentado no
Curso de Bullying: teoria, investigação e programas de
marcados pela desconfiança e insegurança no tocante intervenção, Florianópolis.
a vínculos. Podem vir a assumir também um
Beaudoin, M. N., & Taylor, M. (2006). Bullying e
comportamento agressivo, podendo em seu futuro vir desrespeito: como acabar com essa cultura na escola.
a sofrer ou a praticar o bullying no trabalho. Em casos Porto Alegre: Artmed.
extremos, alguns deles podem tentar ou vir a cometer Bronfenbrenner, U. (1999). Environments in developmental
suicídio. perspective: theoretical and operational models. In S. L.
Friedman, & T. D. Wachs, Measuring environment
across the life span: Emerging methods and concepts
CONSIDERAÇÕES FINAIS (Cap. 1, pp. 3-28). Washington, D.C.: American
Psychological Association Press.
Os estudos sobre bullying que vêm sendo Bronfenbrenner, U. (2011). Bioecologia do
realizados nas duas últimas décadas por pesquisadores desenvolvimento humano: tornando os seres humanos
mais humanos. Porto Alegre: Artmed.
de vários países têm demonstrado que este fenômeno
Bronfenbrenner, U., & Morris, P. (1998). The ecology of
está presente no cotidiano das instituições de ensino,
developmental processes. In: W. Damon. (Org.),
constituindo-se num problema real e grave para quase Handbook of child psychology (Vol. 1, p. 993-1027).
a metade das crianças e adolescentes. Em esforço New York: John Wiley & Sons.

Psicologia em Estudo, Maringá, v. 17, n. 2, p. 247-254, abr./jun. 2012


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jornalista danielle Bittencourt. Recuperado em 20
Recebido em 12/09/2010
outubro, 2008, de
http://www.observatoriodainfancia.com.br/article.php3? Aceito em 06/06/2012
id_article=312&var_recherche=bullying

Endereço para correspondência: Naiane C W Schultz. Rua: Souza Naves, 540, casa 4, Centro, CEP 85301-190, Laranjeiras do
Sul-PR, Brasil. E-mail: naiwendt@hotmail.com.

Psicologia em Estudo, Maringá, v. 17, n. 2, p. 247-254, abr./jun. 2012


BULLYNG: CONHECIMENTO E PRÁTICA PEDAGÓGICA

NO AMBIENTE ESCOLAR

Sidnéia Barbosa de Almeida1

Luciana Roberta Donola Cardoso2

Resumo

O bullyng é um conjunto de comportamentos agressivos, emitidos de maneira


intencional e repetitiva. O objetivo deste estudo foi investigar a percepção dos
educadores quanto à presença de bullyng em sala de aula. A amostra foi composta
por 30 professoras do ensino fundamental I de uma escola particular de São Paulo.
Para coleta de dados foi utilizado um questionário que visava investigar a avaliação
do professor quanto à presença do problema, possíveis causas, ações dos pais e
professores ante os agressores e sugestões de intervenção para resolução do
problema. Os professores assinaram um termo consentindo a participação na
pesquisa. Esta pesquisa ocorreu durante o ano letivo de 2007. Observou-se que
93,3% (n=28) dos profissionais relataram ter presenciado ao menos um episódio de
discriminação durante o ano letivo em sua sala de aula. Os professores relataram
observar mais atos de discriminação praticados por meninos do que por meninas.
Atribuiu-se a presença dos comportamentos discriminatórios à situação
socioeconômica da família, sua cor, raça, aparência física e deficiências físicas e/ou
intelectual. As estratégias de resolução do problema propostas pelos professores
são: explicar aos alunos os prejuízos que seu comportamento pode causar;
conversar com os pais das crianças envolvidas e pedir para que reflitam sobre o que
fizeram. Concluindo, observou-se a presença do fenômeno nas escolas
investigadas. A participação do professor na avaliação e no planejamento da
intervenção parece ser um fator relevante na resolução do problema. Entretanto, as
estratégias adotadas pelos professores estão aquém das sugeridas na literatura.

Palavras-chave: Bullyng. Agressividade. Ensino fundamental.

1
-RA: 555555-5, Curso de Pedagogia EaD Universidade de Santo Amaro, Módulo XII Polo de Marataízes
2
- RA: 444444-4, Curso de Pedagogia, EaD Universidade de Santo Amaro, Módulo XII Polo de Marataízes 

 

INTRODUÇÃO

A violência, tanto em ambientes escolares quanto em outros contextos, tem sido


associada a prejuízos sociais e acadêmicos entre os jovens em idade escolar.
Segundo Fante (2005), a violência em todos os níveis de escolaridade tem
aumentado nas últimas décadas. Com isso, comportamentos agressivos em
contextos escolares como agressões físicas (bater, chutar, tomar pertences) e
verbais (apelidar de maneira pejorativa e discriminatória, insultar e constranger) têm
sido cada vez mais estudados.
Uma das maneiras de se estudar estes comportamentos é por meio de um
fenômeno chamado bullyng (Fante, 2005; Teixeira, 2006).
O fenômeno bullyng é compreendido pela apresentação de um conjunto de
comportamentos agressivos, emitido de maneira intencional e repetitiva, sem um
estímulo motivador aparente (Marini, 2005).
O bullyng é um problema mundial, sendo encontrado em toda e qualquer escola,
não estando restrito a nenhum tipo específico de instituição: primária ou secundária,
pública ou privada, rural ou urbana.
Para melhor entender este fenômeno, Fante (2005) descreve a presença deste
comportamento por meio da classificação dos tipos de papéis desempenhados,
sendo eles: vítima típica: indivíduo que sofre repetidos atos de agressão; vítima
provocadora: aquele que provoca e atrai reações agressivas das quais não
consegue lidar com a consequência; vítima agressora: aqueles alunos que
reproduzem os maus-tratos sofridos, e busca uma criança mais frágil para descontar
nele a agressão sofrida, e o agressor: aquele que pratica a violência física ou verbal
A conduta bullyng torna-se mais perceptível nas salas de aula a partir da 2ª série.
Dos ciclos iniciais (jardins e pré-escola) até a 4ª série, o pátio do recreio é o local
onde ocorre a maior incidência de maus-tratos. Os maus-tratos mais frequentes são
a ofensa e a discriminação, especialmente manifestadas por meio de apelidos e
xingamentos ao aspecto sexual. Nesta fase, as crianças portadoras de deficiências
físicas e de necessidades especiais têm três vezes mais risco de serem vítimas de
bullyng, comparado com crianças sem necessidades especiais. Já com as crianças
de 3ª e 4ª série, os atos de agressividade estão frequentemente associados aos
maus-tratos físicos e chantagens, especialmente em relação aos alunos mais
tímidos (Oliveira & Antônio, 2006; Palacios & Rego, 2006; Teixeira, 2006).
 
 

Os fatores que tendem a estar associados à presença de bullyng em sala de aula


são: agressividade por parte dos pais; desestrutura familiar; falta de limites;
hiperatividade; impulsividade; distúrbios comportamentais; dificuldades de atenção;
baixa inteligência e desempenho acadêmico deficiente (Cabral 1987; Neto, 2005;
Oliveira & Antônio, 2006; Sbaraini & Schermann, 2008).
Em decorrência dessa agressividade, tanto as pessoas que sofrem de bullyng,
quanto as que praticam a agressividade tem mais chance de desenvolver
transtornos psiquiátricos na idade adulta do que aqueles que não tiveram essa
experiência. Por exemplo, sabe-se que crianças agredidas têm mais chance de
desenvolver algum transtorno do humor na idade adulta. Quanto ao agressor, há
uma relação entre agressividade na infância e o desenvolvimento de transtornos de
conduta na idade adulta (Azzi, 1974; Neto, 2005; Teixeira, 2006). Em suma, a
presença do bullyng parece acarretar prejuízos físicos, psicológicos e sociais, tanto
para quem recebe quanto para quem pratica. Esses prejuízos podem ser
observados logo em seguida a sua prática ou no decorrer do desenvolvimento da
criança, podendo perdurar à idade adulta.
Assim, em decorrência dos prejuízos sociais, psicológicos e acadêmicos e/ou
profissionais, o fenômeno bullyng tem sido cada vez mais estudo. As investigações
apontam algumas estratégias que, quando adotadas, tendem a apresentar eficácia
na resolução do problema. Entendendo-se de um comportamento multideterminado,
tanto a avaliação quanto a intervenção tem sido focada no treinamento de
professores, pais e da criança (agredida e agressora) (ABRAPIA, 2008).
As estratégias que têm mostrado maior eficácia são aquelas que visam à
conscientização dos profissionais e dos pais quanto à existência do problema;
treinamento de professores em como agir diante desta situação; e a instalação de
repertório socialmente habilidoso tanto na criança quanto nos adultos que o cercam
(Barros, 2008; Fante, 2005; Petersen & Koller; 2005).
A inserção do professor, tanto na avaliação quanto na intervenção, tem sido
apontada como o fator crucial na resolução do problema nas escolas. O
conhecimento dos educadores quanto à presença desse fenômeno favoreceria um
diagnóstico precoce e uma intervenção melhor planejada. Identificar esse fenômeno
em sala de aula pode diminuir problemas relacionados à aprendizagem e aumentar
a qualidade do ambiente de ensino.

 

Assim, estudar esse fenômeno por meio da avaliação desse profissional (o


professor) parece ser uma medida fidedigna na identificação do problema na escola.
O bullyng pode ser investigado por meio de diversos comportamentos agressivos.
Neste estudo optou-se por investigar comportamentos agressivos associados à
discriminação. Crianças que sofrem discriminação, tanto no ambiente escolar quanto
em outros contextos sociais, têm apresentado prejuízos sociais e acadêmicos mais
frequentes do que crianças que não sofrem este tipo de agressão (Marriel et al.,
2006).
Assim, o objetivo desta pesquisa foi investigar a percepção dos educadores quanto
à presença de bullyng em sala de aula. Especificamente, objetivou-se investigar a
presença de episódios de discriminação praticados por crianças no ambiente
escolar.

MÉTODO

Participantes
A amostra foi composta por 30 professores do ensino fundamental (1ª a 4ª série) de
uma escola particular, localizada na região sul do Município de São Paulo. Os
profissionais tinham idade entre 22 e 35 anos. Todos eram do sexo feminino e
tinham formação em Pedagogia. Instrumento Os dados foram coletados por meio de
um questionário elaborado pelos pesquisadores responsáveis pelo estudo. O
questionário era composto por perguntas abertas e fechadas e tinha por objetivo
investigar a avaliação do professor quanto à presença de discriminação praticada
pelos alunos em sala de aula. Também se investigou: os principais tipos de
discriminação observados pelo professor, diferença entre o gênero e a prática de
discriminação, atitude do professor em relação ao aluno que praticava a
agressividade, posição dos pais em relação ao comportamento do filho (agressor) e
sugestões desses profissionais para alteração desse comportamento no contexto
escolar.

Procedimento

Os pesquisadores entraram em contato com as escolas a fim de apresentar o


projeto e esclarecer o objetivo e o público-alvo da pesquisa, ou seja, quem iria
 
 

responder o questionário. Após os esclarecimentos e assinatura do termo de


cessão, os professores respondiam o questionário e o depositavam numa urna que
ficava disponível na sala dos professores. Esta pesquisa ocorreu durante o ano
letivo de 2007.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os dados obtidos foram descritos e discutidos conforme a formulação da questão.


Para as questões abertas, foi utilizada a técnica de análise de conteúdo, com
agrupamento e categorização de respostas de acordo com a proximidade do
conteúdo. Para as questões fechadas, os dados foram tabulados quanto à
frequência e porcentagem de respostas.
Inicialmente, foram analisados os dados relativos à avaliação do professor quanto à
observação de discriminação em sala de aula. Observou-se que 93,3% (n=28) dos
profissionais relataram ter presenciado ao menos um episódio de discriminação
durante o ano letivo em sua sala de aula. Apenas 6,7% (n=02) dos profissionais
relatam não ter visto nenhuma criança praticar qualquer tipo de discriminação.
Estudos indicam que a prevalência de estudantes vitimizados pode variar de 8 a
46%. Já o de agressores pode variar de 5 a 30% (Neto, 2005; Fekkes et al., 2005;
Palacios & Rego, 2006).
O comportamento agressivo, como o preconceito ou discriminação pode ser
instalado e mantido por diversas razões, dentre elas: por observação dos
comportamentos de adultos e outras crianças; valorização social; carência afetiva,
ausência de limites e maus-tratos físicos e explosões emocionais violentas
(Bandura, Ross & Ross, 1961; Catania, 1999; Fante, 2005).
O gênero também parece ser um fator associado com práticas frequentes de
agressividade verbal e não-verbal. O bullyng é mais observado entre meninos com
idades entre 11 e 13 anos, sendo menos freqüente na educação infantil e no ensino
médio (Fante, 2005; Moreno Jimenez et al., 2006; Neto, 2005).
Corroborando a literatura, neste estudo, 66,7% (n=20) dos professores relatam
observar mais atos de discriminação praticados por meninos do que por meninas.
Na presente pesquisa os professores atribuem os comportamentos discriminatórios
dos alunos, independentemente do gênero, à situação socioeconômica da família,

 

sua cor, raça, aparência física e deficiências físicas e/ou intelectual. Estes resultados
corroboram os encontrados por Teixeira (2006). O autor afirma que estes fatores,
bem como os valores religiosos, são frequentemente relacionados à prática de
discriminação de crianças em contextos escolares e sociais.
Quanto à atitude do professor ao presenciar atos de discriminação entre os alunos,
25% (n=30) dos profissionais relatam explicar a eles o prejuízo que pode causar na
outra criança aquele comportamento, bem co mo enfatizar as diferenças entre os
indivíduos; 16,7% (n=20) dos entrevistados responderam que conversam com os
pais das crianças envolvidas, 12,5% (n=15) pedem para os alunos se redimirem ao
colega que sofreu a discriminação e 10% (n=12) fazem seus alunos refletirem sobre
o que fizeram.
Segundo a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à
Adolescência (2008) a intervenção deve ser baseada em conscientizar os
profissionais da educação sobre o problema, suas causas e consequências; treino
de habilidades sociais e resolução de problema; treinar comportamentos
incompatíveis ao da agressividade; estimular a criação de regras entre o grupo, bem
como solução e modificação do ambiente que aumente os comportamentos
agressivos.
Teixeira (2006) propõe que a escola estimule a participação e integração da família
na resolução do problema por meio de encontros. Nesses encontros, os pais devem
ser estimulados a denunciar ou incentivar que os filhos façam a denúncia aos
responsáveis na escola. Quanto ao papel dos pais em relação às atitudes dos filhos,
80% (n=24) dos professores relatam que os pais têm algum conhecimento sobre os
comportamentos agressivos de seus filhos, mas que isso não impede que as
crianças continuem praticando discriminações na escola, e 20% (n=6) dizem que os
pais não têm conhecimentos sobre o comportamento dos filhos.
O conhecimento dos pais quanto à maneira que seus filhos se comportam na escola
está associada a uma identificação precoce de ameaças e agressões verbais e não-
verbais que possam estar sofrendo e/ ou praticando. É necessária uma orientação
mais específica aos pais, concomitantemente com a mudança do comportamento do
professores em sala de aula no momento em que a criança pratica a agressividade,
tem mostrado resultados mais efetivos na modificação do comportamento agressivo
da criança em sala de aula (Del Prette et al., 1998; Hubner & Marinoti, 2004;
Teixeira, 2006).
 
 

Além disso, é necessário que os professores sejam capacitados e habilitados para


lidar com esse fenômeno, uma vez que ele os atinge diretamente, a considerar o
baixo rendimento, observado em vários alunos como resultado do seu trabalho;
também os afeta veladamente, de maneira sutil e estressante (Hubner & Marinoti,
2004; Sbaraini & Schermann, 2008).
No que se refere aos caminhos pedagógicos para solucionar o problema da
discriminação, os professores sugerem algumas estratégias, como: roda de
conversa, para abordar questões relacionadas à prevenção, orientação e
esclarecimento sobre os comportamentos inadequados; trabalhar com arte onde é
possível se expressar, brincadeiras com toda a turma e diversos trabalhos coletivos.
Os professores relatam acreditar que com essas estratégias seria possível aumentar
a aproximação entre eles, favorecendo a inserção de habilidades de valorização e
empatia.
Segundo Teixeira (2006), algumas atitudes podem ser observadas na detecção do
problema, sendo elas: observar se durante o recreio o aluno está sempre isolado,
separado do grupo, se em algumas vezes prefere a presença de um adulto; na sala
mostra insegurança e dificuldade ao falar com os demais; nos jogos em equipe é
sempre o último a ser escolhido; apresenta-se sempre triste, contrariado, deprimido
ou aflito; apresenta desleixo gradual na tarefa; se está frequentemente contundido
ou com feridas, cortes, arranhões ou a roupa rasgada, de forma não natural; e se
não frequenta as aulas regularmente (absentismo).
Segundo a ABRAPIA (2008), a implantação de um programa com o objetivo de
prevenir e reduzir o bullyng deveria considerar algumas varáveis: não existe solução
simples para a resolução do bullyng; o fenômeno é multideterminado; cada escola
deve desenvolver sua própria estratégia e estabelecer suas prioridades no combate
ao bullyng; e trabalhar concomitantemente, com alunos, pais, professores e
gestores, treino de habilidades social.
Fante (2005) sugere alguns passos a serem seguidos na prática pedagógica: a partir
da própria experiência no cotidiano o aluno deve ser conscientizado sobre o
fenômeno suas consequências; por meio de interiorização os alunos devem ser
capazes de desenvolver a empatia a fim de perceber as implicações e os
sofrimentos gerados por esse tipo de comportamento; que os alunos se
comprometam com um bem-comum, transformando um ambiente de agressão em
um ambiente mais tranquilo. O educador conseguirá trabalhar esses

 

conceitos através de dinâmicas, trabalhos coletivos, trabalhos em geral que façam o


aluno estar próximo ao outro podendo perceber suas qualidades e defeitos e
aprendendo a conviver com eles.

CONCLUSÃO

Com esta pesquisa foi possível mostrar que o fenômeno bullyng está presente nas
escolas. Adotar estratégias de prevenção, bem como detectar precocemente o
problema de agressividade (bullyng) parece ser a maneira mais adequada para
reduzir a chance de que este e outros problemas compor-tamentais, como, por
exemplo, as dificuldades de aprendizagem e os transtornos do humor sejam
desenvolvidos. A participação do professor, tanto na avaliação quanto no
planejamento da intervenção, parece ser a variável central relacionada à eficácia na
resolução do problema.

REFERÊNCIAS
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA MULTIPROFISSIONAL DE PROTEÇÃO À INFÂNCIA
E À ADOLESCÊNCIA - ABRAPIA. (2008). Programa de redução de
comportamento agressivo em estudantes. Recuperado 12 ago. 2008, disponível
http://www.bullyng.com.br
AZZI, R. A análise do comportamento. São Paulo: Pedagógica e Universitária,
1974.
CABRAL, A. Identidade: Juventude e crise. Rio de Janeiro: Norton & Company.,
1987.
CATANIA, C. A. Aprendizagem: Comportamento, linguagem e cognição (4a ed.).
(Deisy das Graças de Souza Trad.). Porto Alegre: Artes Médicas. (Publicação
original 1973), 1999
DEL PRETTE, Z. A. P., DEL PRETTE, A, GARCIA, F. A., SILVA, A.T. B., PUNTEL,
L. P. . Habilidade social do professor em sala de aula: Um estudo de caso.
Psicologia: Relfexão e Crítica, 11(3), 112-120, 1998
FANTE, C. Fenômeno Bullyng: Como prevenir a violência nas escolas e educar
para a paz. São Paulo: Verus, 2005.
BULLYING NO AMBIENTE ESCOLAR

BULLYING NO AMBIENTE ESCOLAR1


Juliana Martins Ferreira*
Helenice Maria Tavares**

RESUMO
Este artigo foi proposto a partir de observações informais do cotidiano e, também, de discussões
intensas sobre o tema da agressividade e violência nas escolas. A metodologia utilizada foi a pesquisa
bibliográfica por meio do estudo de autores, como: Amoretti (1992); Cardoso (1967); Fernandez
(1994); Maluf (2009); Ramos (2008). O texto foi desenvolvido através de análises sobre o que se diz
sobre bullying e agressividade, o papel da escola e da família diante dos comportamentos agressivos, e
ainda, quais as causas mais comuns de agressão no ambiente escolar, bem como, as influências que o
comportamento agressivo pode ter no processo ensino-aprendizagem. Todas estas análises foram
explicadas constatando o objetivo de nosso trabalho, que é possibilitar a compreensão e
esclarecimento do que é o bullying no ambiente escolar e as possíveis transformações de atitude
agressiva em atitudes de companheirismo e solidariedade, respeito e amizade. A partir destas análises
verifica-se a necessidade de desenvolvimento de ações de prevenção ao agressor e que a família e os
educadores estejam atentos a qualquer sinal de ação agressiva, pois se observa que não há métodos
diagnósticos prontos para se determinar o bullyinista, mas pode-se utilizar nas escolas o
desenvolvimento de ações preventivas que visam a conversão de ambientes violentos em espaços de
convivência amigável.
PALAVRAS-CHAVES: Bullying. Agressão. Violência. Escola. Família.

O tema deste trabalho foi estabelecido a partir de observações informais no nosso


cotidiano e, também, no dia-a-dia das escolas. Verifica-se que há uma discussão intensa sobre
o tema da agressividade e da violência, não só na sociedade em geral, mas também, nas
instituições escolares, através do bullying, onde a presença de comportamentos agressivos tem
sido cada vez mais forte.
Diante desse contexto, avalia-se a necessidade urgente não só de debatermos e
compreendermos o bullying como também elaborarmos, em conjunto, ações que possam ser
desenvolvidas junto aos alunos, às suas famílias, às escolas e à sociedade de modo mais
amplo, a fim de minimizá-lo.
O primeiro contato com o conceito de bullying surpreendeu-nos, devido às diversas
formas de violência que hoje encontramos nas escolas. Para tanto, apontamos como questões
norteadoras deste trabalho, as seguintes perguntas: Qual o conceito que se tem sobre bullying?

1
Trabalho apresentado como requisito parcial para conclusão do curso de Licenciatura em pedagogia da
Faculdade Católica de Uberlândia.
*
Aluna do Curso de Graduação em Pedagogia na Faculdade Católica de Uberlândia. Sob a orientação da profª
Helenice Maria Tavares.
**
Orientadora deste trabalho. Professora da Faculdade Católica de Uberlândia.

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BULLYING NO AMBIENTE ESCOLAR

Que ações a escola deve desenvolver diante dos comportamentos agressivos na instituição?
Qual o papel da família diante dos comportamentos agressivos? Quais as causas mais comuns
de agressão no ambiente escolar? Responderemos a estas perguntas considerando a sentença
profundamente significativa de Comte: “a violência gera a violência; só o amor constrói para
a eternidade” (CARDOSO, 1967, p. 39). Pois, segundo a autora, a agressividade pode ser uma
resposta do educando a várias questões que o incomodam, tais como: timidez, medo, cólera,
etc; dado que “o homem é, sobretudo um reflexo do ambiente em que passou sua infância;
este lhe imprimiu sua marca para toda a vida” (CARDOSO, 1967, p. 40).
Diante desta situação, este artigo possui como objetivo, conscientizar aos pais,
professores e demais profissionais da educação sobre a importância da construção de ações
preventivas, diagnósticas e de atuação à comportamentos de bullying nas escolas,
transformando atitudes agressivas em companheirismo e solidariedade, respeito e amizade.
Além de orientar os mesmos quanto ao enfrentamento a esta violência, habilitando os
agressores a uma convivência social sadia e segura.
Para concretizar este objetivo, apresenta-se como proposta metodológica a pesquisa
bibliográfica, a qual possibilita um amplo alcance de informações e permite a utilização de
dados na construção do texto. Segundo Gil:

A pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado,


constituído principalmente de livros e artigos científicos. Embora em quase
todos os estudos seja exigido algum tipo de trabalho desta natureza, há
pesquisas desenvolvidas exclusivamente a partir de fontes bibliográficas
(1999, p. 65).

Devido o bullying evidenciar-se no ambiente escolar, entendemos este comportamento


como uma forma de o indivíduo se reafirmar ou de se impor diante das regras da instituição e
das pessoas com quem convive.
Para o melhor entendimento do tema consideramos imprescindível abordar o conceito
de bullying, descrever e apontar os conhecimentos acerca da agressividade no ambiente
escolar, tendo como ponto de partida a própria raiz do termo, abordando algumas razões da
agressividade.
Bullying, palavra de origem inglesa que tem como raiz o termo bull, “é um termo
utilizado para designar pessoa cruel, intimidadora e/ou agressiva” (GUIMARÃES, 2009, s.p.).
Este termo ganha importância no século XXI, após anos de existência. O bullying se
apresenta enquanto prática de violência sem motivo aparente e que possui como local

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específico, as escolas. Entretanto, esta violência pode ser mascarada pelas brincadeiras
(mesmo que de mau gosto) ou informadas pelos agressores como acidentes. Mas, o que se
presencia são cenas de terror e agressões graves exercidas sobre outros alunos e preocupa
educadores, pais e juristas.
O ato bullying “ocorre quando um ou mais alunos passam a perseguir, intimidar,
humilhar, chamar por apelidos cruéis, excluir, ridicularizar, demonstrar comportamento
racista e preconceituoso ou, por fim, agredir fisicamente, de forma sistemática, e sem razão
aparente, um outro aluno” (RAMOS, 2008, p. 1).
Diante desse conceito é necessário que pais e educadores não ignorem o bullying. À
justiça, “cabe intervir a fim de manter os princípios morais e sociais que todo cidadão tem
direito” (GUIMARÃES, 2009, s.p.), pois conforme descreve o artigo 5º da Constituição
Federal de 1988: “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito
à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade” (BRASIL, 1988, s.p.).
Todavia, é importante ressaltarmos que a cultura a qual pertencemos possui grande
influência em nosso comportamento, e portanto, pode influenciar nas agressões relatadas
pelas vítimas de bullying. Diante desta situação, coloque-se em evidência o entendimento do
que é cultura para Amoretti (1992, p. 122) e que se identifica com o ato bullying. A cultura
deve ser entendida:

Como sendo o conjunto de sentidos e significações, de valores e padrões,


incorporados e subjacentes aos fenômenos perceptíveis de ação e
comunicação de um grupo humano concreto. Este conjunto é vivido pelo
grupo e por ele assumido como expressão própria de sua realidade humano-
social. É um conjunto que passa de geração a geração, conservado como foi
recebido, ou transformado, efetiva ou pretensamente, pelo próprio grupo
(AMORETTI, 1992, p. 122).

Com este conceito entendemos que a cultura da violência pode ser empreendida em
uma sociedade ou em um grupo social que dissemine este tipo de comportamento. Este
conjunto que é disseminado pode ser crescente nas escolas provocando a prática violenta
caracterizada pelo bullying. Neste sentido, podemos atentar se as condutas exasperadas são de
ordem sociais, familiares ou outro problema de distúrbio de ordem psicológica por parte do
agressor.

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Percebendo tal interrogação, e a necessidade de demonstrarmos que o exemplo e o


ambiente em que o indivíduo vive podem desempenhar um grande papel em sua vida,
consideramos o que defende Papalia (1981), na medida em que para ela, o comportamento
agressivo das crianças é incentivado pelo grito dos pais, a humilhação e a provocação que esta
criança pode receber. Observamos claramente, que segundo Papalia, estas crianças reagirão
mais agressivamente às pessoas e situações de seu cotidiano se tiverem estímulos a este
comportamento.
“É dentro deste contexto que nos permitimos perguntar e questionar a existência de
enormes, abrangentes e altamente sofisticados aparelhos repressivos.” (AMORETTI, 1992, p.
127)
Eles disseminam a violência em nossa sociedade e são retransmitidas a outros
agredidos através dos agressores atuais (mas agredidos em outrora). É através da legitimação
desta violência, tida como forma de segurança para a sociedade e de bem-estar para a
população que pode se iniciar os fomentos para as práticas de bullying nas escolas.
Além deste contexto, há outro de grande importância que se mostra pela violência
doméstica, pois através da vivência e do exemplo de caráter agressivo, a criança adquire estes
hábitos e os transforma em forma de poder nas escolas através da prática do bullying. É nesta
ordenação social ou familiar que se desenvolve o criatório do bullying que se desencadeia nas
escolas.
Outro fator que pode gerar a violência diariamente:

o comportamento violento em programas televisivos ou filmes; e o


bombardeio ideológico constante dos meios de comunicação que por um
lado exaltam o ser violento (destrutivo) [...] e, por outro, não permitem
diferenciar esses atos agressivos e destrutivos, da agressividade sadia e
necessária para desconstruir-se e reconstruir-se como sujeito autor da própria
história (FERNANDEZ, 1994, p. 122).

Neste contexto, além dos fatores acima descritos, Maluf (2009, s.p.) descreve que a
cada dia que passa, as crianças estão se tornando mais agressivas e neste sentido, muitos
estudos mostram que há grande número de fatores que elevam o risco do aparecimento de
condutas violentas e de jovens envolvidos para que o bullying se desenvolva, como: ter vivido
cenas violentas ou sofrido violência, abuso sexual, físico, excessiva exposição à violência
através de jogos, televisão, uso de drogas e álcool, fatores sócio-econômicos prejudicados,
família desestruturada, problemas psiquiátricos, entre outros.

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Nesta perspectiva, o comportamento agressivos de várias crianças no ambiente escolar


pode ser uma resposta a comportamentos agressivos que sofrem dos pais ou de qualquer
ambiente em que convivem continuamente, demonstrando apenas que sofreram as influências
das agressões sofridas e que aprenderam a se defender observando o tratamento de outros
dado a ela mesma.
Por este motivo, faz-se imprescindível acrescentar que “a punição física por agressão
pode ter a conseqüência paradoxal de aumentar a agressão, porque o pai ou mãe que pune
serve de modelo para a agressão sob circunstâncias altamente emocionais” (ROSS, 1979, p.
151).
Diante disso, contrariamente à agressão, o apoio é necessário para evitar que essas
crianças sejam futuros delinqüentes ou adultos desajustados. Pois, conforme destaca Tierno
(1996, p. 37):

nas condutas agressivas [...] subjaz um sentimento de inferioridade que a


pessoa tenta anular pelo mecanismo de compensar a inferioridade,
precisamente mostrando-se agressiva”. Sendo que, “quase todos os
comportamentos crônicos [...] são a expressão de sentimentos de profunda
insegurança, carência afetiva, frustração, dificuldades e problemas escolares,
sentimento de incompetência, pouca auto-estima etc.

Assim, cabe aos pais ajudar seu filho independente se ele for agressor ou vítima. Já à
escola, enquanto forma de prevenir as práticas de bullying, deve ser capaz de:

Gerar um pensamento e uma ação crítica e reflexiva sobre o processo da


sociedade, se antecipando moral e pedagogicamente a ponto de distinguir
nas tendências e nas alternativas históricas o traço permanente de uma
valorização do homem como cidadão de seu tempo (AMORETTI, 1992, p.
133).

Por isso, este apoio e incremento a ser realizado pela escola deve se colocar como
forma preventiva do bullying e como formadora de uma educação que gere nas crianças e
jovens comportamentos contrários à conduta no bullyinismo, pois formas agressivas de
controle á estes ataques não são eficazes, dado que a violência gera violência e tratar
pacificamente o ato de bullying é uma das melhores soluções à agressão.
É importante ressaltar que o tratamento preventivo do bullying pode ser uma ação
eficaz e importante, pois a sua vítima ao sofrer s agressão leva consigo por toda a sua vida a
agressão sofrida.

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Para Silva (2006, s.p.), o bullying é um problema sério que pode levar desde o
suicídio, homicídio e dificuldades de aprendizado por parte da vítima. Ela sofre calada, tem
dificuldades de relacionamento, sente-se inferior diante dos outros, provoca fobia social,
psicoses, depressão e principalmente baixo rendimento escolar.
Não acostumados com esta situação de exposição e humilhação as vítimas de bullying
sofrem as agressões muitas vezes caladas e se recolhem em todas as atividades com medo de
serem expostos e ridicularizados. Assim, ações de:

Envolvimento de professores, pais e alunos é fundamental para a


implementação de projetos de redução do bullying. A participação de todos
visa estabelecer normas, diretrizes e ações coerentes. As ações devem
priorizar a conscientização geral; o apoio às vítimas de bullying, fazendo
com que se sintam protegidas; a conscientização dos agressores sobre a
incorreção de seus atos e a garantia de um ambiente escolar sadio e seguro
(NETO, 2005, p. 169).

Por conseguinte, é imprescindível que os pais e professores estejam atentos às crianças


em casa ou na escola, sejam elas vítimas do bullying ou autores do mesmo, a fim de que
percebam o problema no princípio e atuem sobre ele imediatamente, para que expostos, as
vítimas ou agressores não sofram conseqüências graves advindas do bullying, pois, tais
comportamentos de risco podem comprometer não apenas os vitimados ou agressores, mas
colegas não agressivos, professores e os responsáveis pelo apoio pedagógico da instituição,
porque se tornam indivíduos em locais de risco constante. Isto porque não podemos
pormenorizar o resultado de ações agressivas por parte dos autores, nem tampouco, qualquer
alteração de comportamento por parte da vítima.
Perante disso, o bullying tem sido um problema importante e crescente no mundo,
com diversas e sérias conseqüências individuais e sociais. É importante, evitar a agressão e
diminuir os impactos minimizando os fatores que contribuem para a violência no ambiente
escolar, a qual pode ser detectada desde a infância, como conseqüência de problemas
familiares ou sociais.
O comportamento bullyinista freqüentemente começa quando a criança ou adolescente
não quer aceitar uma diferença, podendo envolver religião, raça, estatura física, peso, cor dos
cabelos, deficiências visuais, auditivas e vocais; ou uma diferença de ordem psicológica,
social, sexual e física; ou relacionado à força, coragem e habilidades.

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Este comportamento de bullying por ser agressivo e desrespeitoso, bem como, anti
social inclui conflitos interpessoais e atos criminosos, cujas intervenções podem estar além da
competência e capacidade das escolas. Todavia, é neste ambiente (escola) que o bullying
ocorre e deve ser transformado de espaço violento em ambiente de disciplina, amizade e
cooperação, contrariamente de um ambiente de violência, sofrimento e medo.
Diante desta breve análise pergunta-se: por que tem havido um aumento do
número de agressividade no ambiente escolar por parte dos educandos? O que tem
acontecido no interior e exterior das escolas? O que tem impulsionado a
agressividade nesta instituição e quais as funções da escola, da família e da
sociedade para tentar diminuir a agressão no ambiente escolar?
É importante ressaltar que muitos comportamentos agressivos, baseiam-se nas
condições sócio-históricas das crianças. Além disso, estas reações agressivas e
violentas refletem sua base de formação e na relação dos educandos fora da escola.
Para tanto, baseamo-nos em fundamentos evidentes para o debate sobre o
bullying no ambiente escolar. Todavia, deve-se desfocar esta atitude agressiva, e
trabalhar a transformação do educando com base no respeito e na sensibilidade,
motivando-o a compartilhar e, além disso, ensinando-lhe habilidades sociais para que suas
atitudes violentas façam oposição ao equilíbrio e ao respeito.
O comportamento agressivo através do bullying, produz tristes conseqüências para a
aprendizagem do agressor e da vítima, bem como, transtornos psicológicos graves. Devido à
agressividade na escola ser um problema universal, não sendo apenas um problema da
instituição, mas também da família e da sociedade, ela deve compreender que o agressor e a
vítima de bullying pode ter conseqüências negativas imediatas ou tardias.
Portanto, torna-se necessário que a escola passe a enxergar o problema do bullying
como uma entidade separada e que trabalhe através de intervenções e projetos estimulando os
talentos e valores dos agressores; a fim de mudar o foco do mesmo, passando-o de aluno
problema para talento especial, como os demais. Isto seria uma nova forma de tratamento,
fazendo que se sinta importante como as demais crianças.
Este estímulo e a construção desse respeito, passa a reavivar a memória destas crianças
para a não agressão. Assim, destaca-se uma ação efetiva dos educadores no tratamento destes
alunos com integridade, demonstrando que as interações reproduzem respeito e transformam-
se em experiências vividas necessárias e importantes para toda a vida.

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BULLYING NO AMBIENTE ESCOLAR

De tal modo, o objetivo do educador deve ser de construir nestas crianças idéias de
igualdade e cooperação, sob um aspecto transformador e justo, que demonstrem que bons atos
valem mais do que palavras.
Conseqüentemente, deseja-se que as escolas sejam ambientes seguros e saudáveis que
desenvolvam potenciais intelectuais e sociais, através de uma educação entendida como um
meio de prover o pleno desenvolvimento do educando e preparando-o para o pleno exercício
da cidadania.
De tal modo, principal contribuição é uma análise diária do educador em relação ao
educando, despertando nele os sentimentos de companheirismo, amor e atenção. Além disso,
incentivar sempre a família ao convívio na instituição, não apenas quando houver
comportamentos agressivos das crianças, mas também através de atividades destinadas aos
familiares. Este estímulo à família, deve ocorrer como medida preventiva em relação aos
comportamentos agressivos e como um estreitamento dos laços entre os educandos e a escola.
Portanto, é fundamental que as instituições invistam nestas formas de atrair os
familiares ou responsáveis para a escola, pois com esta parceria, há grande possibilidade de
transformação dos comportamentos agressivos e do ambiente escolar, além de uma (re)
orientação aos educandos.
É a partir destas interações e do trabalho social de exteriorização do problema da
violência que a escola passa a reconhecer que eles não são indicativos do que os alunos
desejam ser, mas conforme reporta Beaudoin; Taylor (2006) são reações das quais eles
procuram fugir e podem aprender a controlar.
Diante disso, é possível perceber que a escola tem a tarefa histórica de gerar um
pensamento e uma ação crítica e reflexiva sobre o processo da sociedade e da violência,
principalmente no ambiente escolar, se antecipando moral e pedagogicamente a fim de ajudar
na construção e valorização do homem como cidadão do seu tempo.
Por conseguinte, a escola tem a função de não manter a agressão, mas sim, tentar
reverter com o apoio da família e da sociedade a agressão em comportamento amigável,
através de intervenções e conversas, estruturando o problema da violência de forma que o ele
se situe na interação do conflito, e não nos agressores.
Portanto, a importância de ações interventivas de exteriorização dos problemas está
baseada no fato de que eles se desenvolvem inúmeras vezes, devido a uma série de
circunstâncias da vida; que devem ser observadas pela família, pela escola e pela sociedade, a

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BULLYING NO AMBIENTE ESCOLAR

fim de evitarmos os comportamentos violentos e as relações de desrespeito, pois o melhor e


benéfico caminho é aumentar as perspectivas de mudança de ações comportamentais
agressivas em ações de respeito com o envolvimento da família.
Imediatamente, cabe à instituição escolar estimular o acompanhamento das famílias na
escola, pois, a questão do bullying ultrapassa as barreiras institucionais e reflete uma estrutura
psicológica e formativa que está além do ambiente escolar.
Logo, a exteriorização dos problemas de violência, além de construir comportamentos
amistosos promovem a responsabilidade, pois todo agressor ou bullyinista deve ser
responsável por sua relação com o desrespeito e a agressividade.
Igualmente, é necessário criar uma doutrina na qual os agressores, reflitam sobre sua
fase agressiva, na infância ou adolescência, e sejam ajudados pelos responsáveis, escolas e
profissionais a mudar esse comportamento.
Em termos específicos, diante desta realidade escolar, os problemas relacionados à
violência devem ser tratados e apresentados com nova roupagem, a fim de fortalecer os
agentes agressores e proteger as vítimas das ações externas relacionados ao agressor e à
violência. Por conseguinte, a escola a partir desta realidade não deve tratar de maneira igual
os desiguais, deve sim, apreciar a diversidade com a intenção de ensinar e valorizar os
aspectos que refletem as diferenças existentes nas salas de aula; tratando os alunos com
respeito, apesar de suas diferenças, pois só assim poderão adquirir valores necessário para seu
desenvolvimento na vida.
Portanto, é fundamental que as instituições invistam em formas de atrair os familiares
ou responsáveis pelos agressores para a escola, para que com esta parceria, haja grande
possibilidade de transformação dos comportamentos agressivos e do ambiente escolar, além
de uma (re) orientação aos educandos.
A escola deve buscar contextualizadamente alcançar seus objetivos determinados nos
casos de prática de bullying visando a realidade e o cotidiano do aluno agressor ou a vítima, a
fim de estabelecer ideais de comportamentos positivos, observando-se a realidade cultural e
social do educando.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

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BULLYING NO AMBIENTE ESCOLAR

O bullying deve ser tratado com grande importância pela escola, família e sociedade
por ser um fator de violência que demonstra desigualdade e injustiça social, além de pressões
psicológicas ou físicas por parte do agressor, desacatando e degradando as diferenças, bem
como, conseqüências físicas e emocionais de curto e longo prazo, as quais podem causar
dificuldades acadêmicas, sociais, emocionais e legais.
Assim sendo, é necessário que se estabeleça ações a serem desenvolvidas objetivando
as ações do agressor e as conseqüências na vítima. É importante, que os educadores e família,
principalmente, estejam atentos a qualquer sinal de ação agressiva, pois não há métodos
diagnósticos prontos para se determinar o bullyinista é necessário que esteja todos cautelosos
às crianças mais propensas à agredirem ou à comportamentos anti-sociais, a fim de se
verificar qualquer prática de bullying.

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VIOLÊNCIA NA ESCOLA: O BULLYING NA RELAÇÃO ALUNO-PROFESSOR E A
RESPONSABILIDADE JURÍDICA

VIOLENCE IN SCHOOLS: BULLYING IN TEACHER-STUDENT RELATIONSHIP AND LEGAL


LIABILITY

Grasiele Augusta Ferreira Nascimento


Maria Aparecida Alkimin

RESUMO
Um dos maiores problemas enfrentados pela sociedade atual é a violência. A escola vivencia o problema de
várias formas, envolvendo alunos, professores e funcionários. Uma das formas de violência do cotidiano
escolar é o bullying, que é caracterizado através de comportamentos agressivos e que tem gerado no corpo
docente um sentimento de impotência, medo e insegurança que afeta a pessoa do professor. Entre as
conseqüências do bullying, além de afetar o processo pedagógico de ensino e aprendizagem, gera
conseqüências psíquicas, com reflexos na esfera cível, envolvendo os pais e as instituições de ensino, no que
tange à responsabilidade civil.
PALAVRAS-CHAVES: violência escolar – bullying – responsabilidade civil

ABSTRACT
One of the biggest problems facing society today is violence. The school experiences the problem in several
ways, involving students, faculty and staff. One form of violence is the daily school bullying, which is
characterized by aggressive behavior and that the faculty has generated a feeling of powerlessness, fear and
insecurity that affects the person of the teacher. Among the consequences of bullying, affect the educational
process of teaching and learning, generates psychological consequences, reflected in the civil sphere,
involving parents and educational institutions, with regard to liability.

KEYWORDS: school violence - bullying - liability

Introdução

Qual é a finalidade da escola na atualidade? Essa é a primeira indagação que surge ao


estudarmos o tema proposto.
Para a socióloga Miriam Abramovay (2009: 1), “a escola é espaço de construção de
saberes, de convivência e socialização”.
Muito além de ser um local de transferência de saberes, a escola
contemporânea tem como finalidade promover a formação integral do aluno, para que tenha condições
de enfrentar a vida adulta de forma equilibrada, tanto sobre o aspecto pessoal, como social, familiar e
profissional.
Através da formação escolar, o educando deve superar problemas como a
pobreza, exclusões sociais e discriminações. Para tanto, a escola deve receber alunos de todas as classes
sociais e oferecer ensino de qualidade para promover a efetiva formação integral e o pleno
desenvolvimento humano. Além disso, a escola precisa ser necessariamente inclusiva e capaz de
proporcionar o desenvolvimento das habilidades técnicas, científicas, profissionais e pessoais.
Infelizmente, porém, a escola muitas vezes é o primeiro espaço que gera a
exclusão, a discriminação e a disseminação da violência, nas suas mais variadas formas, “na medida em
que sua estrutura, seu modo de organização, acaba impossibilitando que ela cumpra seu papel, que é o de
formar, de maneira positiva, crianças e jovens”. (ABRAMOVAY, 2009: 2) Tal realidade se torna ainda
mais presente nas escolas públicas, embora sejam as que recebam a população que mais precisa do apoio
governamental para o seu desenvolvimento pessoal.
Miriam Abramovay também identifica uma cultura “adultocrata” na escola
atual, caracterizada pela ausência do diálogo entre professores e alunos, com a predominância de atitudes
conservadoras, incompatíveis com a mentalidade do jovem atual. (2009:2). Segundo a autora, a idéia da
hierarquização das relações escolares propõe a imposição de regras rígidas, que ao serem questionadas
figuram muitas vezes como fatos geradores de violência por parte dos alunos a elas subordinados. Não
estamos propondo a ausência de regras de convivência, tão essencial em todos os setores da vida em
sociedade, mas apenas que não sejam impostas de modo coercitivo e sem qualquer diálogo entre as
partes envolvidas.
Para promover a formação e a socialização do educando, a escola precisa,
sobretudo, oferecer um ambiente de respeito aos alunos, acompanhando as suas formas de pensar e
vestir, para depois promover seu crescimento intelectual e pessoal. A ausência do respeito, gera
violência.
O objetivo do presente estudo é analisar uma das formas de violência
* Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de 2010 2811
vivenciadas nas escolas e suas conseqüências jurídicas: o bullying na relação aluno-professor.

I) Violência no ambiente escolar: causas e efeitos

Um dos maiores problemas enfrentados pela sociedade contemporânea é a violência.


Em primeira análise, entende-se por violência toda ação que empregue força, opressão,
intensidade. Nas palavras de Julio Groppa Aquino (2000: 159), “trata-se de um constrangimento que se
exerce sobre outrem com o objetivo de obrigá-lo tanto a fazer como a deixar de fazer um ato qualquer”.
A violência pode ser praticada de forma direta ou indireta, atingindo física ou
moralmente a vítima, passando a “designar um amplo espectro de danos impingidos a outrem, em
determinada situação relacional; danificação esta que pode comportar diferentes alvos: desde a integridade
física e/ou moral, passando pelos bens materiais, até a participação simbólica e/ou cultural daquele”
(AQUINO, 2000: 160).
O aumento da violência em diversos setores da sociedade pode ser visualizado na mídia
todos os dias, não sendo um privilégio apenas do Brasil.
Em pesquisa realizada sobre as representações sociais sobre violência (RIBOLLA;
FIAMENGHI JR, 2007:115-116), 28 (vinte e oito) adolescentes de três escolas distintas indicaram 38 (trinta
e oito) revistas de sua preferência. O resultado final elegeu a revista VEJA em primeiro lugar, com 61,39%
dos alunos, seguida pela revista Época (46,07%) e da revista Capricho (34,88%) . Após análise das imagens
ali divulgadas, os adolescentes constataram a predominância de notícias que envolviam cenas violentas, como
explosões e cenas de destruições explícitas, violência nos esportes, violência envolvendo crianças e
adolescentes, violência contra a mulher, objetos associados à violência, cenas de violência relacionadas à
política, crimes, violência cultural, entre outros.
No âmbito escolar, a realidade não é diferente.
Na lição de Sônia Maria Koelher,
“A violência escolar pode envolver tanto a violência entre classes sociais (violência macro) como a
violência interpessoal (violência micro). No primeiro caso, a escola pode ser cenário de atos
praticados contra ela (vandalismo, incêndios criminosos, atentados em geral). No entanto, a escola –
enquanto organismo de mediação social – também pode ser veículo da violência de classe: a violência
da exclusão e da discriminação cuja resultante maior tem sido o fracasso escolar. No segundo caso, a
escola também pode ser cenário de relações interpessoais de violência: relações intergeracionais
(professor-aluno, por exemplo) e relações intrageracionais (aluno-aluno).”(KOEHLER:. 27-28)

Entre as causas geradoras do aumento da violência na escola, além do “adultocentrismo”


relatado por Miriam Abramovay, encontram-se o tráfico ou o uso de drogas. O respeito entre alunos e
professores também ficou prejudicado ao longo dos anos, pela decadência disciplinar e banalização da
violência, sendo a indisciplina uma das principais queixas dos educadores.
Desta forma, “o ensino teria como um de seus obstáculos centrais a conduta
desordenada dos alunos, traduzida em termos como “bagunça”, “tumulto”, “descontrole”, “falta de limites”,
“comportamentos inadequados”, “desrespeito generalizado”, etc.” (AQUINO, 2000:82). Diversos são os
casos de alunos que freqüentam escolas armados, ameaçam os professores mais rígidos, os quais muitas
vezes chegam a ser agredidos física ou moralmente por seus alunos. Vários também são os casos de violência
gerados por denúncias realizadas pelos docentes à direção ou à entidade policial a respeito de atos ilícitos
praticados pelos alunos.
Em pesquisa realizada na cidade de Salvador, por exemplo, constatou-se que os “casos
de violência dentro das salas de aula alcançaram média de uma ocorrência por dia registrada em Salvador
desde março pela Delegacia para o Adolescente Infrator (DAI). (..) Do total, 98% ocorrem dentro de
colégios públicos” (SOMBRA, 2009:01).
A socióloga Miriam Abramovay critica a atuação dos docentes e diretores, entendendo
que não estão preparados para enfrentar os problemas relacionados à violência no âmbito escolar. Segundo
ela, os professores não recebem em sua formação uma visão da realidade e que deveriam ter condutas menos
passivas em relação aos alunos. (SOMBRA:2009:01).
Em virtude dessa realidade, o professor passou a assumir uma condição complexa na
relação educacional, atuando muitas vezes na qualidade de vítima do próprio aluno. O desequilíbrio nesta
relação compromete o processo de ensino-aprendizagem e de formação integral do aluno, ocasionando,
sobretudo, a desvalorização do professor enquanto pessoa e profissional.

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II) Bullying na relação aluno-professor

A escola como espaço para inclusão, socialização, civilização, politização e de


construção e prática da cidadania só tem sentido diante dos dois sujeitos principais no processo ensino-
aprendizagem e de formação integral: o professor e o aluno ou o aluno e o professor.
A relação entre aluno-professor e vice-versa deve se pautar nos princípios éticos,
incluindo o respeito e consideração à pessoa do próximo, onde cada autor desempenha seu papel para que a
escola seja um ambiente de construção de saberes e de formação moral e de socialização, com base na
solidariedade, fraternidade e democracia.
Tratando-se a relação aluno-professor de relação interpessoal constante e que atravessa
vários ciclos e etapas da vida de uma pessoa, é comum nessa relação o surgimento de conflitos que podem
ser controlados pelo professor ou não, transformando-se em microviolências (descaso, xingamentos,
agressões verbais, etc) ou até mesmo macroviolências (agressão física e outras condutas previstas no Código
Penal, por exemplo).
A essa violência do cotidiano escolar os psicólogos, pedagogos e médicos tem
denominado de bullying, que significa a presença da incivilidade (HIRIGOYEN, 2002:17) nas escolas
manifestada através de comportamentos agressivos e que tem gerado no corpo docente um sentimento de
impotência, medo e insegurança que afeta a pessoa do professor nos seus atributos pessoais e profissionais,
tornando-se um grande mal não só para o professor vitimado como também para o aluno, destinatário do
processo ensino-aprendizagem e que depende da ação educativa para formação científica, profissional e para
o desenvolvimento do espírito de cidadania, enfim, representa um mal para a sociedade como um todo.
Importante ponderar que a violência praticada contra o professor tem raízes no ambiente
familiar e social em que a criança ou o jovem vive e quando a violência é constante e não pontual, poderá
corroborar para o desenvolvimento da personalidade agressiva na vida adulta e conduzir o agressor para
delinqüência ou criminalidade, gerando, o bullying, repercussão e reflexos fora do ambiente escolar.
Portanto, o bullying na relação aluno-professor é uma vertente da violência institucional
ou estrutural nas escolas, fruto da desestruturação ou desagregação familiar e social, desigualdades sociais,
preconceitos, desemprego, pobreza e fome, inversão de valores, falta de estrutura nas escolas, menosprezo à
autoridade docente, professores com formação precária e até mesmo despreparados para lidarem com
questões extracurriculares que visem muito mais que a formação curricular e científica, havendo necessidade
de uma formação ampla e interdisciplinar do professor para que tenha habilidades e funcione como mediador
em situações de conflitos e de violência, contribuindo para a formação do jovem de hoje e cidadão ético e
com responsabilidade social de amanhã.

III.a) Conceito de bullying

O bullying é uma expressão em inglês e vem do verbo to bully que significa tratar de
forma grosseira, desumana e bully que se refere a uma pessoa grosseira, autoritária que ataca os mais
fracos (HIRIGOYEN, 2002: 78-79).
Diversos estudiosos denominam o fenômeno bullying de mobbing ou de assédio moral.
Todavia, como bem se posicionou a estudiosa do assunto, a psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen,
as expressões podem ter afinidades, porém, não se confundem. Nesse sentido, apresenta em sua obra
“Mal-Estar no Trabalho-Redefinindo o Assédio Moral”, as seguintes distinções:
-O mobbing se refere a perseguições coletivas ou à violência das organizações, podendo eclodir em
violência física;
-O assédio moral se refere a agressões sutis, de natureza psicológica ou moral, cuja perseguição ou
agressão moral, dificilmente, são provadas;
-Já o bullying é mais amplo, refere-se a simples chacotas, piadas até abuso sexual e violência física;
manifesta-se através de ofensas individuais e não organizacional como nos outros dois casos.
(HIRIGOYEN, 2002: 85).
Feitas essas considerações, podemos definir bullying como sendo um comportamento
abusivo e agressivo, manifestado através de gestos, palavras, atitudes, comportamentos ou qualquer
outro meio, de forma intencional e repetitiva, que atenta contra a dignidade e integridade física e psíquica
de uma pessoa, causando-lhe medo, insegurança, dor, angústia e sofrimento, engendrando,
conseqüentemente, doenças psíquicas e físicas (psicossomáticas), desordem pessoal e profissional, além
de refletir na qualidade e finalidade do processo educativo, bem como na sociedade e na saúde pública.
O bullying na relação aluno-professor é denominado bullying ascendente, ou seja, parte
de baixo para cima, quando o aluno ignora a autoridade do professor e age com instinto de perversidade,
ou até mesmo identifica ato de insegurança e/ou inexperiência do professor, e procura desestabilizá-lo

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e/ou excluí-lo da organização de ensino. A má qualidade do ensino, o tráfico na escola, professores mal
preparados e autoritários, professor que possui atributo pessoal que o diferencia de outros, como idade,
doença, etc, também conduz ao bullying ascendente.

III.b) Formas de manifestação

O bullying pode ser confundido com uma simples brincadeira de criança ou fruto do
amadurecimento do jovem, mas, na verdade, o bullying deriva de fatores estruturais, culturais e
comportamentais, podendo nascer de uma simples brincadeira ou até mesmo de um comportamento
esporádico, evoluindo para a eclosão da violência escola através de agressão física ou violência psíquica ou
moral repetitiva e nem sempre declarada, hodiernamente, denominada de violência simbólica, que atinge a
dignidade e integridade física-psíquica da vítima.
O bullying se manifesta de várias formas:
-verbal: xingamentos, apelidos, insultos, insinuações;
-moral: atentado à honra, difamação, discriminação em razão do sexo, idade, opção sexual, deficiência física,
doença,etc;
-psicológico: perseguição, intimidação, chantagem, ameaça de morte, etc;
-físico: agressão através de empurrões, socos, chutes,etc;
-material: furto de material e pertences, dano a veículo; e
-virtual: divulgar imagens não autorizadas pelo professor, criar comunidades para depreciação da imagem do
professor, enviar mensagens invadindo a privacidade e intimidade do professor.

IV) O bullying como ato ilícito e violador da dignidade e dos direitos da personalidade

IV.a) Ato ilícito: caracterização

O homem tem por natureza a coexistência através de agrupamento social, estabelecendo


relações com o grupo, tanto no seio da família como no trabalho, escola, etc, cuja relação de convivência
é pautada em regras de dever-ser, ou seja, normas de conduta que controlam a atuação do indivíduo na
sociedade, visando adequar o convívio social e atuação humana à vida social e à ordem jurídica.
As regras de conduta podem ser de ordem moral ou ética, ou seja, está situada no agir de
acordo com moral e bons costumes, situa-se na esfera da consciência humana em conceber e praticar o
que é justo e reto, “dar a cada um o que lhe é devido”, “praticar o bem e evitar o mal”, “amar ao próximo
como a si mesmo”, enfim, o descumprimento de uma norma moral causa repercussão no foro íntimo de
cada agente violador, não há coação, pressão externa, tão menos sanção, apenas reprovação na
consciência subjetiva; assim como a regra de conduta pode ser de ordem jurídica, ou seja, quando um
poder acima da vontade da pessoa-o Estado- impõe regras de bem viver na sociedade que, uma vez
violadas, gera sanção e punição para o agente violador.
O convívio ético dita as regras de bem viver numa sociedade e no dizer de Caio Mário da
Silva Pereira: “Para viver em sociedade, tem de pautar a sua conduta pela ética, de zoneamento mais
amplo do que o direito, porque compreende as normas jurídicas e as normas morais .” (Instituições de
Direito Civil, Vol.I, p. 78). Na escola é que se deve aprender e praticar o exercício da cidadania e a
conhecer e respeitar os direitos e garantias dos cidadãos.
A regra de conduta ditada pela ordem jurídica, também denominada ordenamento
jurídico, pertence ao mundo do direito que, por sua vez, tem por base as regras de ordem moral para
ditar regras de convívio na sociedade, logo, pode-se afirmar que a regra jurídica ou a lei escrita é ditada
em razão de uma norma moral. Assim, tudo que violada a ordem jurídica, viola a ordem moral,
maculando o convívio social.
Toda conduta humana que se pauta na observância da ordem jurídica estabelecida pelo
Estado-Legislador denomina ato lícito, ao passo que se a conduta desobedece as normas jurídicas,
gerando dano a outrem denominamos ato ilícito, trata-se de conduta anti-social, antiética e contrária à
moral e aos bons costumes praticados na sociedade ou no grupo social, em destaque, na escola.
O bullying praticado no ambiente escolar em face da pessoa do professor é uma espécie
do gênero violência contra a pessoa, configurando-se, portanto, um comportamento ilícito, ou seja, anti-
social e contrário à ordem jurídica, caracterizando uma violação ao ordenamento jurídico (legislação que
rege a conduta em sociedade). Nesse aspecto, todo aquele que comete um ato ilícito tem a obrigação
legal de reparar o mal causado.
No caso do bullying como agressão à pessoa do professor, manifestada de diversas
formas: comentários depreciativos, preconceituosos, indecorosos, agressão verbal ou até física, ameaças,
falsas acusações, discriminação, etc., constitui-se em um ilícito, pois viola o ordenamento jurídico

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constitucional, que protege a dignidade de toda pessoa e os direitos da personalidade de todo cidadão.
A conclusão lógica, em matéria de proteção jurídica, é que o bullying viola a dignidade e
os direitos da personalidade do professor , e, como sanção a esse grande mal que afeta a dignidade e
integridade psíquica e/ou física do professor é o dever de reparar o dano moral e material causados pelo
cometimento de um ato ilícito, por força do nosso ordenamento jurídico: Código Civil, arts. 186 e 927.
A reparação do dano gerado pela prática do bullying no ambiente escolar e em face ao
professor, merece consideração especial, haja vista que a violência ou agressividade poderá partir de uma
criança ou adolescente ou de uma pessoa adulta, maior de 18 anos, com a plena capacidade civil e penal.
No caso do ato agressivo praticado por criança ou adolescente (VIDE ECA:RODAPÉ:
conceito criança e adolescente), é de se destacar que se tratando de menor de 16 anos de idade, os pais
responderão pelo dano, sem prejuízo da responsabilidade do Estado ou da IE; quando o adolescente tiver
entre 16 e 18 anos de idade, responderá de forma solidária com os pais, e, no caso do agressor maior de
18 anos, responderá de forma independente e por ato próprio, conforme será abordado adiante, no item
V que trata da responsabilidade civil.

IV.b) Dignidade Humana e os Direitos da Personalidade

Dignidade é um atributo de ordem natural inerente a todo ser humano, portanto:


“Somente a pessoa, enquanto ser dotado de razão e liberdade, além de representar uma unidade espiritual
e corporal, possui inerente à sua essência a dignidade, sendo esta, portanto, qualidade peculiar a toda
pessoa humana” (ALKIMIN, 2008a: 39).
Portanto, a dignidade humana como atributo natural e individual não é valorável ou
substituível, pois a dignidade não tem preço; seu valor é intrínseco e absoluto sendo que ela abrange
direitos inerentes à condição humana como a vida, a liberdade, a igualdade, o respeito e consideração, o
trabalho, assistência social, ou seja, tudo aquilo que de forma elementar constitui o mínimo de vida digna
para o desenvolvimento e convivência na sociedade.
Somente se preservará a dignidade humana numa sociedade onde se prima pela liberdade,
igualdade, fraternidade e solidariedade entre as pessoas, e, nesse sentido é o que dispõe a Declaração
Universal dos Direitos do Homem:
“Art. 1o. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em
direitos. Dotados de razão e consciência, devem agir uns para com os outros com espírito de
fraternidade.” (Declaração Universal dos Direitos Humanos de 10/12/1948-ONU)
O legislador constituinte adotou a dignidade humana como um dos fundamentos do
Estado Democrático de Direito (art. 3o, III, da CF/88) e, pautando-se na dignidade humana o mesmo
legislador constituinte instituiu os chamados direitos e garantias fundamentais dando relevância jurídica
ao princípio universal da dignidade humana, através da proteção à vida, à saúde e integridade física e
psíquica, à liberdade, à igualdade, à intimidade e privacidade, ao trabalho, à educação, à propriedade,
enfim, visou proteger aquilo que é essencial para uma vida digna.
Celso Ribeiro Bastos, tratando da dignidade humana afirma que: “embora tenha um
conteúdo moral, parece que a preocupação do legislador constituinte foi mais de ordem material,
ou seja, a de proporcionar às pessoas condições para uma vida digna... este foi, sem dúvida, um
acerto do constituinte, pois coloca a pessoa humana como fim último de nossa sociedade e não
como simples meio para alcançar certos objetivos, como, por exemplo, o econômico”. (2007:
158)
Assim, podemos considerar a dignidade humana como valor supremo e fundamento
primário de todo ordenamento jurídico brasileiro, sendo princípio basilar a ser pontuado em toda relação
humana, pois implica o dever de respeito e consideração à pessoa do próximo.
Nesse sentido, o bullying praticado na escola, seja do professor em relação ao aluno ou
do aluno em relação ao professor constitui-se em flagrante atentado à dignidade humana, pois o bullying,
conforme já ressaltado, é um ato de violência que atenta contra a liberdade, integridade psíquica e física,
intimidade e privacidade, enfim, fere atributos inerentes a toda pessoa vitimada por essa violência que se
constitui em realidade no ambiente escolar, sendo que é forçoso reconhecer que a violação à dignidade
humana implica a violação dos direitos e garantias fundamentais protegidos pela Constituição Federal,
Carta Magna da Nação.
Quando afirmamos que as relações entre aluno-professor e professor-aluno devem ser
pautadas na observância do princípio constitucional da dignidade humana, devemos estender esse dever
de observância aos direitos da personalidade, ou seja, aqueles que dizem respeito aos atributos inerentes
a toda pessoa e que representa valores pessoais que se projetam na sociedade.
Os direitos da personalidade são absolutos e inatos, não possuem valor de mercado, são
tidos como atributos inerentes a toda pessoa humana, tal como: vida, integridade física e psíquica, saúde,
liberdade e vida privada, cujo respeito e consideração à pessoa do próximo condiz com a observância e

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preservação dos direitos da personalidade e, por conseguinte, com a preservação da dignidade humana da
pessoa.
Nesse compasso, quando o aluno xinga o professor, dirige-lhe palavra de baixo calão,
intimida-o, seja com ameaça de morte ou de outra forma, estará em cheio atingindo os direitos da
personalidade do professor, ou sejam, aqueles que integram a essência de toda pessoa, logo, constituem
direitos inerentes à pessoa humana e integram o rol dos direitos fundamentais de todo
cidadão.(ALKIMIN, 2008b: 50).
Os direitos da personalidade estão intimamente relacionados com o princípio da
dignidade humana, consagrado pela Constituição Federal como fundamento do Estado Democrático de
Direito, tendo recebido os direitos da personalidade atenção especial do legislador quando editou o
Código Civil de 2002 e que assim dispôs:
“Art. 11. Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são
intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária.
“Art. 12. Pode-se exigir que cesse a ameaça, ou a lesão, a direito da personalidade, e
reclamar perdas e danos, sem prejuízo de outras sanções previstas em lei.”
Depreende-se que o legislador buscou proteger a dignidade e personalidade de toda e
qualquer pessoa, impondo a todos o dever de não lesar por ato concreto ou por simples ameaça a
personalidade e dignidade de outrem, sob pena de ter o violador que reparar o dano moral e material que
a agressão ou lesão gerar à personalidade de outrem. Reforçando esse dever de observância foi que o
legislador constituinte assim dispôs no art.5o., inciso X da CF/88 (trata dos Direitos e Garantias
Fundamentais):
“São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado
o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.”
Na relação com o aluno, o professor desempenha um papel relevante e de destaque, pois
é o condutor e mediador do processo ensino-aprendizado, em cujo processo detém o poder e autoridade
sobre a pessoa do aluno, que, necessariamente, implica no respeito, consideração e dever de obediência,
sendo certo que numa situação de bullying perpretada pelo aluno o poder e autoridade do professor
ficam ameaçados e até mesmo suprimidos, prevalecendo o medo, a insegurança e a inversão de papéis e
valores na relação aluno-professor.
Para intimidar, rebaixar, humilhar o professor, o aluno através do bullying busca uma
forma de atingir a pessoa do professor e depreciá-lo publicamente, sendo mais comum no ambiente
escolar a violência psicológica ou moral com comentários depreciativos, preconceituosos e indecorosos,
além de gestos que revelam descaso e indiferença; o bullying pode ser praticado de forma insidiosa ou
declarada, e, em muitos casos, o aluno costuma se valer da internet como ferramenta ou instrumento de
agressão, praticando a denominada “cyberviolência” contra o professor, lançando comentários
pejorativos e injuriosos, fotos sem autorização e até montagem visuais com a caricatura do professor.
Não pairam dúvidas que qualquer tipo de violência (psicológica ou física), atinge em
cheio a intimidade, a privacidade, a honra e a imagem do professor, além da sua integridade psíquica e
física, causando-lhe conseqüências danosas na esfera pessoal e profissional, com danos de natureza
psicológica que tendem a serem somatizados e desencadear danos físicos (distúrbios psicossomáticos),
como cefaléias, problemas digestivos, distúrbio hormonal, insônia, estresse, depressão, conduzindo ao
interesse pelo magistério[1].

V) Conseqüências jurídicas do bullying: na esfera civil

V.a) O dano e o dever de indenizar

O bullying como comportamento ilícito e antijurídico gera dano, ou seja, lesa, causa
prejuízos à vítima da agressão, cujo prejuízo ou dano, via de regra, é moral ou extrapatrimonial porque
fere a dignidade e personalidade da vítima- lesão à integridade física ou moral/psíquica- pois causa dor
sentimental, tristeza, angústia, revolta, enfim, sofrimento no foro íntimo da vítima, não sendo possível
aferir de forma certa e determina o valor do prejuízo moral/psíquico; além do dano material que se
caracteriza como sendo aquele que é matematicamente aferível, pois lesa patrimônio da vítima. Qualquer
que seja a natureza do dano (moral ou patrimonial) traz a correlata obrigação de reparar o mal causado.
A conseqüência imediata do bullying é o dano moral, ou seja, aquele que se traduz em
sofrimento humano em razão da lesão à dignidade e personalidade, cujo sofrimento não tem nenhuma
ligação com perda de patrimônio ou perda pecuniária, mas está relacionado à reputação da vítima, à
honra, à sua imagem e autoridade, ao pudor e amor-próprio, à saúde e integridade física e psíquica, bens
jurídicos que não possuem valor de mercado, todavia, valor subjetivo para cada indivíduo, posto que
relacionados a atributos pessoais e individuais com projeção na sociedade.

* Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de 2010 2816
A obrigação de indenizar é a conseqüência jurídica do ato ilícito, ficando os bens do
agressor sujeito à reparação do dano (prejuízo) causado. Segundo Maria Helena Diniz
(2004:794/796): “O ato ilícito (CC, arts. 186 e 187) é o praticado em desacordo com a ordem jurídica,
violando direito subjetivo individual. Causa dano a outrem, criando o dever de reparar tal prejuízo (CC,
art. 927).
Sabemos que a dignidade e personalidade do professor vítima do bullying não tem preço,
e não é a indenização ou pagamento de certa soma em dinheiro que vai resgatar a autoridade e os valores
atingidos pelo comportamento violento através do bullying, ou seja, a indenização por dano moral não
terá o condão de ressarcir os prejuízos morais sofridos pela vítima como ocorre quando se indeniza ou
repara um dano material/patrimonial.
É crível que a indenização pelo dano moral não visa ressarcir os prejuízos morais e
psíquicos, visa, na verdade, compensar toda dor, sofrimento íntimo e angústia que atingem a vítima da
violência, assim como visa proporcionar para o autor da violência uma perda patrimonial como forma de
punição pelo ato ilícito cometido, impedindo que pratique novamente a conduta ilícita e antijurídica.

V.b) Responsabilidade jurídica dos pais

A responsabilidade jurídica nasce com o dever de indenizar, sendo facultado à vítima do


bullying exigir esse dever de reparação dos prejuízos experimentados através do acionamento do Poder
Judiciário por meio da Ação de Indenização.
No caso do bullying cometido por alunos menores de idade (menores de 18 anos) os pais
respondem pelo ato ilícito cometido pelo filho, devendo-se considerar os seguintes aspectos:
a) a lei considera o menor de 18 anos de idade incapaz de reger os atos da vida civil e de assumir
obrigações e responsabilidades, sendo que o legislador dividiu a incapacidade em absoluta (menores
de 16 anos de idade) e relativa (dos 16 aos 18 anos de idade);
b) como são incapazes de assumir obrigações, em especial, o pagamento de indenização pelo ato ilícito
(bullying), os pais, responsáveis pela criação, educação e guarda dos filhos, é que deverão responder.
Aos pais, detentores do poder familiar e do exercício do direito de guarda e proteção em
relação à pessoa dos filhos menores, incumbe o dever de incutir princípios morais rígidos na formação de
seus filhos, dentre eles, respeito e consideração aos seus semelhantes, orientação para que o filho entenda
que a escola é ambiente para convivência social e de construção da civilidade e cidadania, além de exercer
sobre eles vigilância contínua para que sua prole não cause prejuízo a outrem, sob pena de responder pelo
pagamento da indenização causada por ato de violência (bullying) praticada na escola, tratando-se de
responsabilidade com base na culpa por falha na vigilância (“in vigilando”) e na educação (“in educando”).
O Código Civil Brasileiro (arts. 932, inciso I e 933) dispõe de forma clara que os pais
respondem por atos lesivos de seus filhos, pelo simples cometimento do ato ilícito, não importando se agiram
com culpa ou não, o legislador considera, no caso de ato ilícito, como o bullying, por exemplo, cometido por
menor, a culpa presumida (responsabilidade sem culpa) por parte dos pais, não podendo invocar o
argumento de que não tinham conhecimento ou de que não havia obediência por parte dos filhos, trata-se,
como dito, de responsabilidade sem culpa, que decorre de imperativo legal.
Em termos de responsabilidade jurídica dos pais no caso de bullying perpetrado pelo
filho, há de se considerar duas hipóteses:
a) ao filho menor de idade, com idade inferior a 16 anos de idade, em razão de sua incapacidade
absoluta não recairá o dever de indenizar e sim aos pais, detentores do poder familiar e do dever de
guarda e vigilância;
b) o filho maior de 16 e menor de 18 anos de idade que pratica o bullying, como é relativamente capaz,
responderá solidariamente com os pais em eventual ação de indenização pela reparação dos danos
causados pela conduta antijurídica, ou seja, tanto o menor autor do bullying como seus pais poderão
ser acionados judicialmente.

É importante ponderar que tanto no caso de incapacidade absoluta como relativa, o


patrimônio do menor responderá pelo pagamento da indenização, caso seus genitores não disponham de
recursos suficientes para pagamento da indenização fixada pelo Poder Judiciário (art. 928 do Código Civil).

V.c) Responsabilidade jurídica das Instituições de Ensino e do Estado


As escolas públicas são consideradas pessoas jurídicas de direito público, cuja atividade de
ensino corresponde à prestação de serviços públicos sob controle estatal e que visa satisfazer as necessidades
essenciais da coletividade; enquanto que as escolas particulares são consideradas pessoas jurídicas de direito
privado e que prestam serviços públicos por delegação do Estado. A educação é uma atribuição do Poder
Público, tal como a saúde, a segurança, etc.
A escola ou instituição de ensino, através de seus agentes públicos ou privados (dirigentes)
* Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de 2010 2817
deve zelar pela integridade física e psíquica tanto de seus alunos como de seus professores, e assim sendo,
tem o dever de vigiar, fiscalizar e empreender medidas que visem prevenir e evitar que a escola seja um
cenário para a prática do bullying.
A indagação que se coloca é a seguinte: a escola tem responsabilidade jurídica no caso do
bullying praticado no ambiente escolar?
A resposta encontra amparo na doutrina e na legislação brasileira. O Estado responde por
danos causados a terceiros por ato de seus agentes (funcionários ou servidores), cuja responsabilidade
jurídica é denomina de responsabilidade civil objetiva, ou seja, basta a conduta ilícita (bullying) por parte de
seus educandos e o dano (físico e/ou psíquico) causado a um professor, a outros alunos ou a terceiros, cuja
teoria tem como supedâneo o risco de dano que a atividade pública pode gerar para os beneficiários da
prestação do serviço público.
Ao lado da responsabilidade jurídica do Estado está a responsabilidade jurídica das
instituições de ensino privadas, as quais, tal como as escolas públicas, devem zelar pela integridade física e
psíquica dos discentes e docentes, tanto que o legislador civil dispôs que as instituições de ensino respondem
civilmente, ou seja, deverão pagar a indenização e, conseqüentemente, reparar o dano causado por seus
educandos, e certo que de forma objetiva, ou seja, não se pauta a responsabilidade do Estado em eventual
ato culposo (negligência, imprudência ou imperícia) ou doloso (intencional) de seus agentes públicos, pois
mesmo que não haja culpa da parte dos mesmos, o Estado responderá. (arts. 932, inciso IV e 933 do Código
Civil).
Independentemente da responsabilidade objetiva do Estado, é certo que o bullying cometido
na escola caracterizará violação ao dever de vigilância, fiscalização e eleição em relação aos seus discentes,
recaindo a responsabilidade jurídica sobre o Estado, no caso de escola pública, ou sobre a instituição de
ensino, no caso da escola privada.
Tratando-se de bullying cometido por menor de idade, os pais poderão responder
solidariamente com o Estado ou com a IE; no caso do bullying cometido por aluno maior de 18 anos de
idade (maioridade) o aluno responderá por ato próprio, não afastando a responsabilidade solidária da IE ou
do Estado (§ único do art. 942 do Código Civil), conforme o caso.

VI) Considerações finais: Sistema Preventivo de D. Bosco

O Sistema Preventivo de D. Bosco propõe uma educação participativa do professor


junto aos alunos, possibilitando o acompanhamento de seus costumes, preferências, sabores e dissabores.
Agir preventivamente, segundo D. Bosco, é conhecer, participar, dialogar, orientar, fiscalizar e inclusive
repreender os alunos, caso seja necessário.
Seguindo o sistema proposto por D. Bosco, acreditamos que previnir o bullying é medida
para qualidade do ensino, saúde pública e formação do espírito de cidadania, solidariedade e fraternidade.
A escola deve ser um espaço de segurança e de garantia da integridade física e moral dos
alunos e professores, servindo como local para a convivência harmônica e exercício da cidadania. Desta
forma, não basta a criação de lei ou medidas paliativas para repressão, há necessidade de uma educação
preventiva, através de políticas públicas e participação da sociedade. O bullying é um problema social e toda
a sociedade, em especial, pais, professores, pedagogos, psicólogos, sociólogos e juristas, devem participar de
programas de prevenção e combate ao bullying nas escolas.
Para evitar o “adultocentrismo”, identificamos o “diálogo” como o caminho para
reconhecer, discutir e buscar uma solução democrática, ouvindo todos os atores do processo educativo.
Além disso, a escola deve incluir no Projeto Político Pedagógico disciplinas focadas no
conhecimento e prática de cidadania e dos direitos e garantias fundamentais consagrados pela Constituição
Federal, mas, para tanto, os professores necessitam passar por esse aprendizado, somente assim serão
formados bons cidadãos.
Para concluir, destacamos a recente publicação da Lei n. 14.651 de 12/01/2009, que instituiu
o Programa de Combate ao Bullying, de ação interdisciplinar e de participação comunitária nas escolas
públicas e privadas do Estado de Santa Catarina, como uma das boas iniciativas no combate ao blullying nas
escolas.
Acreditamos, contudo, que campanhas, atividades didáticas, orientações, palestras
informativas e educativas, dinâmicas, com a participação de profissionais, pais, educadores, voluntários da
comunidade, direcionadas às escolas e às famílias, sejam medidas de extrema importância e urgência para o
combate ao bullying nas escolas, e que podem ser resumidos pelos pilares: conscientização e prevenção.

REFERÊNCIAS

* Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de 2010 2818
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________________________.Responsabilidade Civil de acordo com a Constituição de 1988. 2 a. edição,
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[1] O professor vitimado pelo bullying tende a desenvolver aquilo que os especialistas em medicina do trabalho denominam de
Síndrome de Burnout, doença ligada a condições de vida e de trabalho degradantes. Gera afastamento do professor por motivo de
doença ou até mesmo medo e insegurança, mudança de ambiente escolar que acaba gerando a denominada rotatividade no meio
escolar, o que significa prejuízo para o processo ensino-aprendizagem.

* Trabalho publicado nos Anais do XIX Encontro Nacional do CONPEDI realizado em Fortaleza - CE nos dias 09, 10, 11 e 12 de Junho de 2010 2819
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