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Parece que só é possível habitar o que se constrói. Este, o construir, tem aquele, o habitar, como meta.

(p.125)

Construir significa originariamente habitar. (p.127)

Ser homem diz: ser como um mortal sobre essa terra. Diz: habitar. A antiga palavra bauen (construir) diz
que o homem é à medida que habita. A palavra bauen (construir), porém, significa ao mesmo tempo:
proteger e cultivar, a saber, cultivar o campo, cultivar a vinha. Construir significa cuidar do crescimento
que, por si mesmo, dá tempo aos seus frutos. No sentido de proteger e cultivar, construir não é o mesmo
que produzir. (127)

Heidegger recobra uma discussão sobre a origem das palavras e seus significados,
afirmando que construir originariamente tem o significado de habitar, no sentido de
cultivar. Fala de 3 coisas da palavra construir (bauen).

Construímos e chegamos a construir a medida que habitamos, ou seja, à medida que somos como
aqueles que habitam. (p.128)

Habitar, ser trazido à paz de um abrigo, diz: permanecer pacificado na liberdade de um pertencimento,
resguardar cada coisa em sua essência. O traço fundamental do habitar é esse resguardo. O resguardo
perpassa o habitar em toda a sua amplitude. Mostra-se tão logo nos dispomos a pensar que ser homem
consiste em habitar e, isso, no sentido de um de-morar-se dos mortais sobre essa terra. (p.129)

A terra é o sustento de todo gesto de dedicação. A terra dá frutos ao florescer. A terra concentra-se vasta
nas pedras e nas águas, irrompe concentrada na flora e na fauna. Dizendo terra, já pensamos os outros
três. Mas isso ainda não significa que se tenha pensado a simplicidade dos quatro.
O céu é o percurso em abóbadas do sol, o curso em transformações da lua, o brilho peregrino das estrelas,
as estações dos anos e suas viradas, luz e crepúsculo do dia, escuridão e claridade da noite, a suavidade e
o rigor dos climas, rasgo de nuvens e profundidade azul do éter. Dizendo céu, já pensamos os outros três.
Mas isso ainda não significa que se tenha pensado a simplicidade dos quatro.
Os deuses são os mensageiros que acenam a divindade. Do domínio sagrado desses manifesta-se o Deus
em sua atualidade ou se retrai em sua dissimulação. Se dermos nome aos deuses, já incluímos os outros
três, mas não consideramos a simplicidade dos quatro. (p.129)

Os mortais são os homens. Chamam-se mortais porque podem morrer. Morrer diz: ser capaz da
morte como morte. Somente o homem morre e, na verdade, somente ele morre continuamente, ao
menos enquanto permanecer sobre a terra, sob o céu, diante dos deuses. Nomeando os mortais, já
pensamos os outros três. Mas isso ainda não significa que se tenha pensado a simplicidade dos
quatro. Chamamos de quadratura essa simplicidade. Em habitando, os mortais são na quadratura.
O traço fundamental do habitar é, porém, resguardar. Os mortais habitam resguardando a quadratura
em sua essência. De maneira correspondente, o resguardo inerente ao habitar tem quatro faces.
(p.130)

Habitar é bem mais um demorar-se junto às coisas. Enquanto resguardo, o habitar preserva a
quadratura naquilo junto a que os mortais se demoram: nas coisas. (p.131)

Cultivar e edificar significam, em sentido estrito, construir. Habitar é construir desde que se
preserve nas coisas a quadratura. (p.131)

Heidegger traz o exemplo da ponte.

Atravessando, não abrimos mão desse ter sobre si. Ao contrário. Sempre atravessamos espaços
de maneira que já os temos sobre nós ao longo de toda travessia, uma vez que sempre nos de-
moramos junto a lugares próximos e distantes, junto às coisas. Quando começo a atravessar
a sala em direção à saída, já estou lá na saída. Não me seria possível percorrer a sala se eu não fosse
de tal modo que sou aquele que está lá. Nunca estou somente aqui como um corpo encapsulado,
Construir, habitar, pensar 137
mas estou lá, ou seja, tendo sobre mim o espaço. É somente assim que posso percorrer um espaço.
(p.136-7)

A ponte é uma coisa desse tipo. O lugar acolhe, numa circunstância, a simplicidade de terra e céu,
dos divinos e dos mortais, à medida que edifica em espaços a circunstância. É num duplo sentido
que o lugar dá espaço à quadratura. O lugar deixa ser a quadratura e o lugar edifica a quadratura. Dar
espaço no sentido de deixar ser e dar espaço no sentido de edificar se pertencem mutuamente.
Enquanto um duplo dar espaço, o lugar é um abrigo da quadratura e, como ainda diz a mesma
palavra, Huis, Haus, uma moradia. Coisas semelhantes a esses lugares dão moradia à demora dos
homens. Coisas semelhantes a esses lugares são moradias, mas não necessariamente habitações, em
sentido estrito. (p.137)

Resguardar a quadratura, salvar a terra, acolher o ceu, aguardar os divinos, acompanhar os


mortais, esse resguardo de quatro faces é a essência simples do habitar. As coisas construídas
com autenticidade marcam a essência dando moradia a essa essência. (p.138)

Exemplo da casa na floresta negra, abriga a quadratura com simplicidade.

Habitar é, porém, o traço essencial do ser de acordo com o qual os mortais são. Quem sabe se nessa
tentativa de concentrar o pensamento no que significa habitar e construir torne-se mais claro que ao
habitar pertence um construir e que dele recebe a sua essência. Já é um enorme ganho se habitar e
construir tornarem-se dignos de se questionar e, assim, permanecerem dignos de se pensar. (p.140)

Construir e pensar são, cada um a seu modo, indispensáveis para o habitar. Ambos são, no entanto,
insuficientes para o habitar se cada um se mantiver isolado, cuidando do que é seu ao invés de
escutar um ao outro. Essa escuta só acontece se ambos, construir e pensar, pertencem ao habitar,
permanecem em seus limites e sabem que tanto um como outro provém da obra de uma longa
experiência e de um exercício incessante. (p.140)

A crise propriamente dita do habitar consiste em que os mortais precisam sempre de novo buscar
a essência do habitar, consiste em que os mortais devem primeiro aprender a habitar. E se o
desenraizamento do homem fosse precisamente o fato de o homem não pensar de modo algum
a crise habitacional propriamente dita como a crise? Tão logo, porém, o homem pensa o
desenraizamento, este deixa de ser uma miséria. Rigorosamente pensado e bem resguardado, o
desenraizamento é o único apelo que convoca os mortais para um habitar. (p.140-1)
Minha síntese

Heidegger traz em seu ensaio sobre Construir, habitar e pensar que existe uma relação
entre o construir e o habitar, sendo que o construir, originariamente é habitar
(Heidegger)

Habitar, ser trazido à paz de um abrigo, diz: permanecer pacificado na liberdade de um


pertencimento, resguardar cada coisa em sua essência. O traço fundamental do habitar
é esse resguardo. O resguardo perpassa o habitar em toda a sua amplitude. Mostra-se
tão logo nos dispomos a pensar que ser homem consiste em habitar e, isso, no sentido
de um de-morar-se dos mortais sobre essa terra. (p.129)

O autor fala da quadratura: terra, céu, deuses e mortais.

Chamamos de quadratura essa simplicidade. Em habitando, os mortais são na


quadratura. O traço fundamental do habitar é, porém, resguardar. Os mortais habitam
resguardando a quadratura em sua essência. De maneira correspondente, o resguardo
inerente ao habitar tem quatro faces. (p.130)

Heidegger acrescenta que o construir e o pensar pertencem ao habitar, sendo


provenientes de um exercício de pensamento e questionamento incessantes. Ele aponta
para uma crise no habitar na atualidade, sufocada pela crise habitacional. O
desenraizamento do homem diz respeito a essa falta de questionamento, de pensar a
essência do habitar, sendo que este mesmo desenraizamento pe o único apelo que
convoca o homem par aum habitar.

A crise propriamente dita do habitar consiste em que os mortais precisam sempre de


novo buscar a essência do habitar, consiste em que os mortais devem primeiro aprender
a habitar. E se o desenraizamento do homem fosse precisamente o fato de o homem não
pensar de modo algum a crise habitacional propriamente dita como a crise? Tão logo,
porém, o homem pensa o desenraizamento, este deixa de ser uma miséria.
Rigorosamente pensado e bem resguardado, o desenraizamento é o único apelo que
convoca os mortais para um habitar. (p.140-1)
Artigo

CONSIDERAÇÕES SOBRE O HABITAR COTIDIANO NO PENSAMENTO DE


MARTIN HEIDEGGER

“Existência e Arte”- Revista Eletrônica do Grupo PET - Ciências Humanas, Estética e Artes da
Universidade Federal de São João Del-Rei - Ano III - Número III – janeiro a dezembro de 2007

JESUS, Marcos Paulo Alves de.

Nesta conferência ele tenta reconduzir o fenômeno do construir e do habitar a


referência originaria que ambos estabelecem com a linguagem. (p.2)

O fenômeno da compreesão mostra-se


sempre de forma prévia, ou seja, esse fenômeno permite que o Dasein já sempre
compreenda o ser do qual ele faz parte - a medida em que esse ser o remete para as
suas próprias possibilidades de ser e estar no mundo. (p.2)

Demorar juntos às coisas é permitir que elas


aconteçam em seu vigor, demorar está relacionado a uma paragem - lugar para se
realizar este encontro. O encontro só pode acontecer mediante o respeito às quatro
faces: terra, céu, deuses, mortais. (p.5)

A morada junto às coisas assume então o significado de um pertencimento no qual o


existir se revela. (p.6)

Este habitar significa


deixar que a vida tome seu curso, de modo a guiar cada gesto do homem em seu
cotidiano – gestos que nascem da simplicidade das relações que esse estabelece com
as
coisas dentro do mundo. Então para Heidegger a compreensão do habitar se traduz
no
modo poético como o homem se encontra sobre a terra. (p.7)

Poeticamente o homem habita

Dizem que é a poesia que permite ao habitar ser um habitar. Poesia


é deixar-habitar, em sentido próprio. Mas como encontramos habitação?
Mediante um construir. Entendida como deixar-habitar,
poesia é um construir. (p.167)
Desse modo, vemo-nos agora diante de uma dupla imposição:
de um lado, cabe pensar, a partir da essência do habitar, o que se
designa por existência humana; de outro, cabe pensar a essência
da poesia, no sentido de um deixar-habitar, como o construir por
excelência. Buscando o vigor essencial da poesia na perspectiva
mencionada haveremos de adentrar a essência do habitar. (p.167)

a linguagem é ela
mesma o apelo mais elevado e, por toda parte, o apelo primordial.
É a linguagem que, primeiro e em última instância, nos acena a essência
de uma coisa. Isso, porém, não quer absolutamente dizer
que, em cada significação tomada ao acaso de uma palavra, a linguagem
já nos tenha entregue a essência transparente das coisas,
de forma imediata e absoluta, como se fosse um objeto pronto para o
uso. O co-responder, em que o homem escuta propriamente o apelo da
linguagem, é a saga que fala no elemento da poesia. Quanto mais poético
um poeta, mais livre, ou seja, mais aberto e preparado para acolher o
inesperado é o seu dizer; com maior pureza ele entrega o que diz ao parecer
daquele que o escuta com dedicação, e maior a distância que separa
o seu dizer da simples proposição, esta sobre a qual tanto se
debate, seja no tocante à sua adequação ou à sua inadequação. (p.168)

Cuidar e colher (coZere, cultura) é


um modo de construir. O homem constrói não apenas o que se desdobra
a partir de si mesmo num crescimento. Ele também constrói
no sentido de aedificare, edificando o que não pode surgir e man-
" ... poeticamente o homem habita ... " 169
ter-se mediante um crescimento. Construídas e edificadas são, nesse
sentido, não somente as construções, mas todos os trabalhos
feitos com a mão e instaurados pelo homem. No entanto, os méritos
dessas múltiplas construções nunca conseguem preencher a essência
do habitar. Ao contrário: elas chegam mesmo a vedar para o
habitar a sua essência, tão logo sejam perseguidas e conquistadas
somente com vistas a elas mesmas. (p.168-9)

O homem, no entanto, só consegue


habitar após ter construído num outro modo e quando
constrói e continua a construir na compenetração de um sentido. (p.169)

Heidegger relaciona o habitar com o construir no sentido de cultivar.

O divino é "a medida"


com a qual o homem confere medida ao seu habitar, à sua morada
e demora sobre a terra, sob o céu. Somente porque o homem
faz, desse modo, o levantamento da medida de seu habitar é que
ele consegue ser na medida de sua essência. O habitar do homem
repousa no fato de a dimensão, a que pertencem tanto o céu como
a terra, levantar a medida levantando os olhos. (p.172)

É possível que a poesia seja uma medida extraordinária. E ainda


mais. Talvez a frase: Ditar poeticamente é medir, deva se pronunciar
com um outro acento: Ditar poeticamente é medir. Na
poesia, acontece com propriedade o que todo medir é no fundo de
sua essência. Por isso, cabe prestar atenção ao ato fundamental
realizado pelo medir. Medir consiste, sobretudo, em se conquistar a
medida com a qual se há de medir. Na poesia, acontece com propriedade
a tomada de uma medida. No sentido rigoroso da palavra,
poesia é uma tomada de medida, somente pela qual o homem recebe
a medida para a vastidão de sua essência. O homem se essencializa
como o mortal. Assim se chama porque pode morrer. Poder
morrer significa: ser capaz da morte como morte. Somente o homem
morre - e, na verdade, continuamente, enquanto se demora
sobre esta terra, enquanto habita. Seu habitar se sustenta, porém,
no poético. Hõlderlin vislumbra a essência do "poético" na tomada
de medida através da qual se cumpre plenamente o levantamento
da medida da essência humana. (p.173)

A medida consiste no modo em


que o deus que se mantém desconhecido aparece como tal através
do céu. O aparecer de deus através do céu consiste num desocultamento
que deixa ver o que se encobre. Deixa ver, mas não no sentido
de tentar arrancar o que se encobre de seu encobrimento. Deixa
ver no sentido de resguardar o que se encobre em seu encobrir-se.
Assim é que o deus desconhecido aparece como o desconhecido
através da revelação do céu. Esse aparecer é a medida com a qual o
homem se mede.
Uma medida estranha, perturbadora, ao menos assim parece
para a representação habitual dos mortais. Uma medida desconfortável
para a facilidade do tudo compreender, que caracteriza o opinar
cotidiano, esse que tanto quer se afirmar como a medida
orientadora de todo pensamento e reflexão. (p.174)

o habitar, contudo, só acontece se a poesia acontece com pro·


priedade e, na verdade, no modo em que agora intuímos a sua ~ssência
ou seja, como a tomada de uma medida para todo medir.
Ela m~sma é a medição em sentido próprio e não mera c~ntagem
com medidas previamente determinadas no intuito de efetiV~r projetos.
A poesia não é, portanto, nenhum construir no sentido de
instauração e edificação de coisas construídas. !odavia, en.qu~nto
medição propriamente dita da di~ensão do habitar, ~ poesia e um
construir em sentido inaugural. E a poesia que permite a~ ~o~.em
habitar sua essência. A poesia deixa habitar em sentido originário. o habitar, contudo, só acontece se a
poesia acontece com propriedade e, na verdade, no modo em que agora intuímos a sua ~ssência
ou seja, como a tomada de uma medida para todo medir.
Ela m~sma é a medição em sentido próprio e não mera c~ntagem
com medidas previamente determinadas no intuito de efetiV~r projetos.
A poesia não é, portanto, nenhum construir no sentido de
instauração e edificação de coisas construídas. !odavia, en.qu~nto
medição propriamente dita da di~ensão do habitar, ~ poesia e um
construir em sentido inaugural. E a poesia que permite a~ ~o~.em
habitar sua essência. A poesia deixa habitar em sentido originário. (p.178)

O homem não habita somente porque mstaura


e edifica sua morada sobre esta terra, sob o céu, ou por~~e,
enquanto agricultor, tanto cuida do cresci~ento como :diflca
construções. o homem só é capaz de constrUir nessa acepçao ~arque
já constrói no sentido de tomar poeticamente uma medida. (p.178)

Pois um habitar só pode ser sem poesia porque, em sua essência,


o habitar é poético. Um homem só pode ser cego porque, em
sua essência, permanece um ser capaz de visão. Um pedaço de madeira
nunca pode ficar cego. Se, no entanto, o homem fica cego, então
sempre ainda se pode colocar a pergunta se a cegueira provém
de uma falta e perda ou se consiste num excesso e abundância desmedida. (p.179)

Minha síntese

Heidegger interpreta um poema de Holderlin à luz do “construir, habitar e pensar”. Ao fim, traz que a
poesia e o habitar tem uma proximidade, sendo a poesia a essencia do habitar no sentido originário, sendo
a poesia tomada como medida para todo medir.