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SECAGEM E ARMAZENAGEM DE

PRODUTOS AGRÍCOLAS

JUAREZ DE SOUZA E SILVA


EDITOR

2ª EDIÇÃO – REVISADA E AMPLIADA


2008
SECAGEM E ARMAZENAGEM
DE
PRODUTOS AGRÍCOLAS

Editor
Juarez de Sousa e Silva
Professor Titular Associado
Departamento de Engenharia Agrícola / CBP&D-Café
Universidade Federal de Viçosa

VIÇOSA – MG
2008
2a edição – 2008

copyright 2008 by
ISBN -----------------

Editora Aprenda Fácil


Rua José Almeida Ramos, 37 – Ramos
CEP: 36.570-000 Viçosa – MG

Ficha catalográfica preparada pela Seção de Catalogação e


Classificação da Biblioteca Central da UFV

Secagem e armazenagem de produtos agrícolas / Editor


S444 Juarez de Sousa e Silva. – Viçosa : Aprenda Fácil,
2008 2008.
Xiv,560p. : il.(algumas col.)+1 CD-ROM (4¾ pol.)
29cm
Disponível também em CD-ROM.
Inclui bibliografia

1. Produtos agrícolas - Secagem. 2. Produtos agríco-


las - Armazenamento. I. Silva, Juarez de Sousa e, 1944-.

CDD 22.ed. 631.568

Impresso no Brasil
PREFÁCIO

Há trinta e oito anos, em associação com os meus colegas e alunos, tento


acumular conhecimento e experiência profissional na área de Secagem e
Armazenagem de Produtos Agrícolas. Antes, como professor e pesquisador
efetivo da Universidade Federal de Viçosa, e hoje como professor voluntário da
mesma instituição e pesquisador do CBP&D – Café (Consorcio Brasileiro de
Pesquisa e Desenvolvimento do Café), venho participando de uma das equipes
mais importantes e ativas do Brasil no que se refere aos assuntos da pós-colheita
de produtos agrícolas. Dessa forma, o material aqui apresentado, é um registro de
partes dos conhecimentos adquiridos por nossa equipe, que vêm, de maneira
responsável, estudando e trabalhando para o engrandecimento da área de estudo e
da agricultura brasileira.
Pode parecer, para grande parte dos leitores que nos honraram com a
leitura do nosso primeiro livro (Pré-Processamento de Produtos Agrícolas e
editado em 1995) que o material em pauta seja, numa primeira vista, semelhante
ao material apresentado naquela época. De certo modo, o leitor está correto.
Entretanto, quatorze anos se passaram, aprendemos mais e novos colegas se
juntaram à nossa equipe para acrescentar não somente material novo, mas também
novos conhecimentos para esta segunda edição.
Com capítulos e assuntos adicionais importantíssimos, nova abordagem,
racionalização de páginas e com nova e extensa ilustração, este livro vem
preencher lacunas, tanto nas áreas de cereais e perecíveis como também na de
preparo e armazenagem do café. Colocamos também, à disposição do leitor, as
novas tecnologias relacionadas ao assunto, que foram desenvolvidas nos últimos
oito anos na UFV.
Esta obra contém, na sua forma eletrônica, figuras e vídeos que podem
auxiliar o professor a preparar suas aulas para o ensino de pós-colheita.
É parte fundamental do CURSO BÁSICO DE SECAGEM E
ARMAZENAGEM DE PRODUTOS AGRÍCOLAS oferecido, via Internet, pelo
SITE (www.pos-colheita.com.br).

O Editor
DEDICATÓRIA
Dona Amélia José de Sousa, minha mãe “in memoriam”
Eugênio de Sousa e Silva, meu pai “in memoriam”.
Dona Sônia Maria de Sousa e Silva, minha esposa.

Homenagem Especial:
- meus professores e funcionários do DEA/UFV
- meus alunos e colaboradores
- meus filhos e netas

Agradecimento Especial:
Geraldo Lopes de Carvalho Filho
(pela grande amizade)
EDITOR:
JUAREZ DE SOUSA E SILVA
Professor Titular Aposentado - DEA – UFV / CBP&D - Café - PhD
Contatos: juarez@ufv.br

COLABORADORES:
ADÍLIO FLAUZINO DE LACERDA FILHO
Professor Adjunto – UFV – DS

ADRIANO DIVINO LIMA AFONSO


Professor Adjunto – UNIOESTE /PR – DS

CONSUELO DOMENICI ROBERTO


DS em Engenharia Agrícola

DANIEL MARÇAL DE QUEIROZ


Professor Adjunto - UFV- PhD

DANIELA CARVALHO LOPES


DS em Engenharia Agrícola

EDNEY ALVES MAGALHÃES


DS em Engenharia Agrícola

EVANDRO DE CASTRO MELO


Professor Adjunto - UFV – DS

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Ministério da Agricultura - DS

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Professor Adjunto -UFV - PhD

FRANCISCO DE ASSIS CARVALHO PINTO


Professor Adjunto - UFV – PhD

FREDERICO FAÚLA DE SOUSA


Professor Adjunto – UFLA - DS

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Professor Adjunto UFD - DS

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Professor Adjunto - DEA – UEG - DS
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Professor Titular – DEA-UFV

JOSÉ CARDOSO SOBRINHO


Professor Adjunto UFRS – DS

LÊDA RITA D'ANTONINO FARONI


Professora Adjunta – UFV - DS

PAULO CESAR CORRÊA


Professor Adjunto – UFV – DS

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Professor Adjunto – UENF -DS

MARILSON GONÇALVES CAMPOS


Técnico de Operações – CONAB- SUREG/GO DS

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Prof. Adjunto - UEG - DS

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MS em Engenheira Agrícola

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Professor Adjunto - UFRRJ - DS

SÉRGIO MAURÍCIO MAURÍCIO LOPES DONZELES


Pesquisador da EPAMIG - DS

SOLENIR RUFFATO
Professora Adjunta DEA- UFMT

SUELY DE FÁTIMA RAMOS SILVEIRA


Professara Adjunto –UFV – DS
I

SUMÁRIO

Páginas
CAPÍTULO - 1
ARMAZENAGEM E COMERCIALIZAÇÃO DE GRÃOS NO BRASIL 1

1. INTRODUÇÃO 1

2. O POTENCIAL AGRÍCOLA BRASILEIRO 2


2.1. Estimativa da Área Plantada 3
2.2. Estimativa da Produção 4

3. SEGURANÇA ALIMENTAR E IMPORTÂNCIA DA PEQUENAPRODUÇÃO 5

4. A ESTRUTURA BRASILEIRA DE ARMAZENAGEM 8


4.1. Armazenagem e a Pequena Produção 12

5. COMERCIALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO 14

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS 16

7. LITERATURA CONSULTADA 17

CAPÍTULO - 2
ESTRUTURA, COMPOSIÇÃO E PROPRIEDADES DOS GRÃOS 19

1. INTRODUÇÃO 19

2. ESTRUTURA E FUNÇÕES DOS GRÃOS 19


2.1. Cobertura Protetora 20
2.2. Tecido Meristemático 20
2.3. Tecido de Reserva 20

3. PROPRIEDADES FÍSICAS DOS GRÃOS 22


3.1. Ângulo de Repouso 22
3.2. Massa Específica Granular 24
3.3. Porosidade 26
3.4. Velocidade Terminal 28
3.5. Tamanho e Forma dos Grãos 28
3.6. Condutividade Térmica 30
3.7. Difusividade Térmica 31
3.8. Calor Específico 31
II

3.9. Resistência Elétrica 32


3.10. Propriedades Dielétricas 32

4. LITERATURA CONSULTADA 35

CAPÍTULO - 3
PRINCÍPIOS BÁSICOS DE PSICROMETRIA 37

1. INTRODUÇÃO 37

2. PROPRIEDADES DO AR ÚMIDO 38
2.1. Temperaturas de Bulbo Seco (t) e de Bulbo Molhado (tm) 38
2.2. Pressão Parcial de Vapor (pv) e Pressão de Saturação (pvs) 39
2.3. Razão de Mistura (w) 39
2.4. Umidade Relativa (UR) 39
2.5. Umidade Absoluta (Ua) 39
2.6. Umidade Específica (Ue) 40
2.7. Grau de Saturação (Gs) 40
2.8. Temperatura do Ponto de Orvalho (tpo) 40
2.9. Volume Específico (ve) 40
2.10. Entalpia (h) 40

3. MEDIÇÃO DA UMIDADE DO AR 41

4. CÁLCULO DA TEMPERATURA DE BULBO MOLHADO 43

5. TABELAS E GRÁFICOS PSICROMÉTRICOS 45


5.1. Exemplo de Aplicação da Tabela Psicrométrica 46
5.2. Gráfico Psicrométrico 49

6. OPERAÇÕES QUE MODIFICAM O AR 55


6.1. Aquecimento e Resfriamento do Ar 57
6.2. Secagem e Umedecimento 57
6.3. Mistura de Dois Fluxos de Ar 59

7. LITERATURA CONSULTADA 61

CAPÍTULO - 4
INDICADORES DA QUALIDADE DOS GRÃOS 63

1. INTRODUÇÃO 63
III

2. PERDA DE GRÃOS ARMAZENADOS 64


2.1. Considerações Gerais 64
2.2. Fungos de Campo 64
2.3. Fungos de Armazenamento 64

3. INDICADORES DA QUALIDADE 66
3.1. Aspectos Relacionados à Secagem 67
3.2. Teor de Água ou Umidade Contida nos Grãos 69

4. MÉTODOS DE DETERMINAÇÃO DO TEOR DE UMIDADE 74


4.1. Métodos Diretos ou Básicos 74

5. TEOR DE UMIDADE DE EQUILÍBRIO 86


5.1. Pressão de Vapor x Umidade de Equilíbrio 89
5.2. Determinação da Umidade de Equilíbrio 91

6. CALOR LATENTE 92

7. AMOSTRAGEM 93
7.1. Tipos de Amostragens 94
7.2. Equipamentos 95
7.3. Formação e Apresentação das Amostras 98
7.4. Identificação das Amostras 98

8. AFERIÇÃO E CALIBRAÇÃO DE DETERMINADORES DE UMIDADE 99


8.1. Métodos de Calibração de uma Escala de um Determinador Indireto 99
8.2. Equipamentos Necessários 100
8.3. Calibração 100
8.4. Operacionalização dos Testes 101

9. LITRARURA CONSULTADA 107

CAPÍTULO - 5
SECAGEM E SECADORES 109

1. DEFINIÇÃO E IMPORTÂNCIA 109

2. PRINCÍPIOS GERAIS DA SECAGEM 109

3. SISTEMAS DE SECAGEM 113

4. SECAGEM NATURAL 114


IV

5. SECAGEM ARTIFICIAL 115


5.1.Ventilação Natural 115
5.2. Ventilação Forçada 115
5.3. Manejo e Recomendações para Ventilação em Silos Secadores 118
5.4. Formas de Carregamento do Silo 118
5.5. Movimentação do Produto no Silo 120
5.6. Operação e Monitoramento da Secagem 122
5.7. Duração da Secagem 122
5.8. Considerações 123

6. SECAGEM COM ALTAS TEMPERATURAS 124


6.1. Classificação dos Secadores com Altas Temperaturas 124
6.2. Classificação Quanto à Operação 140
6.3. Classificação Quanto à Utilização 141
6.4. Modificações e Recomendações na Operação e no Manejo 143

7. ANÁLISE DO CONSUMO ENERGÉTICO 145

8. LITERATURA CONSULTADA 145

CAPÍTULO - 6
ESTUDO DA SECAGEM EM CAMADA ESPESSA 147

1. INTRODUÇÃO 147

2. EQUAÇÃO DO BALANÇO DE ENERGIA 147


2.1. Solução pelo balanço de energia 150

3. MODELOS DE SECAGEM 152


3.1. Modelo de Hukill 153
3.2. Modelo de Thompson 164
3.3. Validação dos Modelos 172

4. LITERATURA CONSULTADA 176

CAPÍTULO -7
SECAGEM DE GRÃOS COM ENERGIA SOLAR 179

1. INTRODUÇÃO 179
V

2. SECAGEM SOLAR EM TERREIROS 179


2.1. Manejo e Características Técnicas do Terreiro 181

3. SECADOR HÍBRIDO (TERREIRO-BIOMASSA) 182

4. ENERGIA SOLAR 184


5. O COLETOR DE ENERGIA SOLAR 185
5.1. Construção do Coletor Solar 186

6. SECAGEM COM ENERGIA SOLAR 188


6.1. Manejo dos Secadores Solares 190
6.2. Quantidade Necessária de Secadores Solares Rotativos 192
6.3. Terreiro Suspenso Portátil 193
6.4. Terreiro Suspenso Móvel 193
6.5. Secador Flex 194

7. FUTURO DA SECAGEM COM ENERGIA SOLAR 195

8. LITERATURA CONSULTADA 197

CAPÍTULO - 8
ENERGIA NO PRÉ-PROCESSAMENTO DE PRODUTOS AGRÍCOLAS 199

1. INTRODUÇÃO 199

2. COLHEITA E ENERGIA 200

3. RACIONALIZAÇÃO DE ENERGIA 201


3.1. Recomendações Práticas 201
3.2. Manutenção de Equipamentos e Iluminação 202

4. CONSUMO DE ENERGIA E EFICIÊNCIA DE SECAGEM 204


4.1. Eficiência do Secador 206

5. COMBUSTÃO, COMBUSTÍVEIS E FORNALHAS 207


5.1 Combustão 207
5.2. Combustíveis 207
5.3. Transformações Químicas Relacionadas com a Combustão 209
5.4. Ar Necessário à Combustão 209
5.5. Fornalhas 212

6. ADAPTAÇÃO DE FORNALHAS 222


6.1. Construção das Fornalhas 223
VI

7. CUIDADOS PRELIMINARES 224


7.1. Início de Operação 224

8. LITERATURA CONSULTADA 224

CAPÍTULO - 9
COMPOSIÇÃO DO CUSTO DE SECAGEM 229

1. INTRODUÇÃO 229

2. CLASSIFICAÇÃO DOS CUSTOS 230

3. O CUSTO DA MÃO-DE-OBRA 232

4. OUTRAS CLASSIFICAÇÕES DE CUSTOS 232


5. DESEMPENHO DE SECADORES 234
5.1. Avaliação do Desempenho 234

6. CUSTO DE SECAGEM 236

7. EXEMPLO DE APLICAÇÃO 238


7.2. Parâmetros Relativos ao Ar 238
7.3. Uso de Energia 239
7.4. Especificação do Secador 239
7.5. Simulação de Secagem 240
7.6. Custos 240
7.7. Análise dos Resultados 240

8. LISTA DE SÍMBOLOS 244

9. LITERATURA CONSULTADA 246

CAPÍTULO - 10
ELEÇÃO E CONSTRUÇÃO DE VENTILADORES 249

1. INTRODUÇÃO 249

2. CLASSIFICAÇÃO 249

3. USO DOS VENTILADORES NA SECAGEM 252


VII

4. GRANDEZAS CARACTERÍSTICAS 252


4.1. Altura de Elevação 252
4.2. Potências 253
4.3. Rendimentos 253

5. ESPECIFICAÇÃO DOS VENTILADORES 254


5.1. Queda de Pressão no Produto 255
5.2. Queda de Pressão na Chapa 256
5.3. Queda de Pressão em Dutos 256

6. CURVAS CARACTERÍSTICAS DOS VENTILADORES 256


6.1. Curva Característica do Sistema 259
6.2. Lei de Semelhança 259

7. VENTILADOR CENTRÍFUGO DE PÁS RADIAIS 260

8. O VENTILADOR E SUA CONSTRUÇÃO 261


8.1. Descrição do Ventilador 262
8.2. Construção e Detalhes dos Componentes 262
8.3. Montagem dos Componentes 264
8.4. Materiais Necessários 268

9. LITERATURA CONSULTADA 268

CAPÍTULO - 11
AERAÇÃO DE GRÃOS ARMAZENADOS 269

1. INTRODUÇÃO 269

2. OBJETIVOS DA AERAÇÃO 270


2.1. Resfriar a Massa de Grãos 270
2.2. Inibir a Atividade de Insetos-praga e Ácaros 271
2.3. Inibir o Desenvolvimento da Microflora 273
2.4. Preservar a Qualidade dos Grãos 276
2.4. Uniformizar a Temperatura 277
2.5. Prevenir o Aquecimento dos Grãos 278
2.6. Promover a Secagem Dentro de Certos Limites 279

3. SISTEMA DE AERAÇÃO 279

4. OPERAÇÃO DO SISTEMA DE AERAÇÃO 282


4.1. Como Resfriar ou Aquecer uma Massa de Grãos 283
VIII

5. SUCÇÃO OU INSUFLAÇÃO DO AR 285


5.1. Ventilação Positiva 285
5.2. Ventilação Negativa 286

6. ACONDICIONAMENTO DO PRODUTO 286

7. SISTEMA DE TERMOMETRIA 287


7.1. Instalação do Sistema de Termometria 288
7.2. Monitoramento do Produto Armazenado 288

8. CÁLCULO DE UM SISTEMA DE AERAÇÃO 290

9. LITERATURA CONSULTADA 294

CAPÍTULO - 12
MANUSEIO DE GRÃOS 297

1. INTRODUÇÃO 297

2. TIPOS DE TRANSPORTADORES 297


2.1. Transportador Helicoidal ou Rosca Sem-Fim 298
2.2. Elevador de Caçambas 305
2.3. Fita Transportadora 312
2.4. Transportadores Pneumáticos 319

3. LITERATURA CONSULTADA 322

CAPÍTULO - 13
BENEFICIAMENTO DE GRÃOS 325

1. INTRODUÇÃO 325

2. BASES PARA SEPARAÇÃO 325


2.1. Tamanho 326
2.2. Peso 327
2.3. Forma 328
2.4. Cor 329
2.5. Condutividade Elétrica 329
2.6. Textura do Tegumento 330
IX

3. ETAPAS DO BENEFICIAMENTO 331


3.1. Recepção 332
3.2. Pré-Limpeza 332
3.3. Secagem 332
3.4. Limpeza 332
3.5. Separação e Classificação 332
3.6. Tratamento 333
3.7. Transportadores e Acessórios 333

4. PLANEJAMENTO DE UMA UBS 334

5. CONTROLE DE QUALIDADE E CLASSIFICAÇÃO 334

6. QUALIDADE DOS PRODUTOS 334


6.1. Teste de Envelhecimento Precoce 335
6.2. Fatores que Afetam a Qualidade 336

7. PADRONIZAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO 336


7.1. Elaboração dos Padrões 337
7.2. Certificado de Classificação 339
7.3. Operacionalização da Classificação 340

8. LITERATURA CONSULTADA 340

CAPÍTULO - 14
ESTRUTURAS PARA ARMAZENAGEM DE GRÃOS 343

1. INTRODUÇÃO 343

2. CARACTERIZAÇÃO DE UNIDADES ARMAZENADORAS 344


2.1. Unidades para Armazenagem a Granel 345
2.2. Armazenagem a Granel na Fazenda 346
2.2. Fumigação e Vedação do Silo 352
2.3. Armazenagem Convencional 354

3. OPERAÇÕES DE ARMAZENAGEM 355


3.1. Cálculo da Capacidade de um Armazém 358

4. ELABORAÇÃO DE PROJETOS 360


4.1. Localização e Dimensionamento 360
4.2. Aspectos de Engenharia 361
4.3. Investimentos e Financiamentos 362
X

5. PÓ ORIUNDO DO MANUSEIO DE GRÃOS 366


5.1. Origem do Pó 367
5.2. Características do Pó Combustível 368
5.3. Concentração de Pó 368

6. LITERATURA CONSULTADA 369

CAPÍTULO - 15
MANEJO DE PRAGAS NO ECOSSISTEMA DE GRÃOS ARMAZENADOS 371

1. INTRODUÇÃO 371

2. PRINCIPAIS FATORES DE DETERIORAÇÃO 372


2.1. Temperatura da Massa de Grãos 372
2.2. Umidade 373
2.3. Estrutura do Armazém e suas Inter-relações 373
2.4. Disponibilidade de Oxigênio 373
2.5. Longevidade das Sementes 373
2.6. Respiração 374
2.7. Maturidade Pós-Colheita 374
2.8. Germinação 374
2.9. Microrganismos 375

3. DETERIORAÇÃO DOS GRÃOS POR MICRORGANISMOS 375


3.1. Fatores que Afetam a Atividade dos Microrganismos 376
3.2. Controle dos Microrganismos de Grãos Armazenados 376

4. INSETOS DE GRÃOS ARMAZENADOS 377


4.1. Danos Diretos em Grãos e Subprodutos 377
4.2. Danos Indiretos em Grãos e Subprodutos 378

5. ÁCAROS 379

6. ROEDORES E PÁSSAROS 380

7. CONSEQÜÊNCIAS DA ARMAZENAGEM INADEQUADA 381

8. PRINCIPAIS INSETOS E SUAS CARACTERÍSTICAS 383

9. PROGRAMA DE CONTROLE 385

10. CONTROLE DE INSETOS 386


10.1. Controle Legislativo 387
XI

10.2. Controle Físico 387


10.3. Controle Químico 391

11. LITERATURA CONSULTADA 404

CAPÍTULO - 16
CONTROLE DE PRAGAS POR ATMOSFERAS CONTROLADAS 407

1. INTRODUÇÃO 407

2. USO DE ATMOSFERA CONTROLADA 408

3. EFEITOS DAS CONDIÇÕES AAC 409


3.1. Composição Gasosa 409
3.2. Efeito da Temperatura 410
3.3. Efeito da Umidade Relativa 411
3.4. Efeito da Hermeticidade da Célula Armazenadora 411

4. AMBIENTES COM BAIXAS CONCENTRAÇÕES DE OXIGÊNIO 412

5. CONSIDERAÇÕES PRÁTICAS 414

6. LITERATURA CONSULTADA 416

CAPÍTULO - 17
SECAGEM E ARMAZENAGEM DE PRODUTOS AGRÍCOLAS 417

1. SECAGEM E ARMAZENAGEM DE MILHO 417


1.1. Secagem Artificial do Milho 418

2. SECAGEM E ARMAZENAGEM DE ARROZ 424


2.1. Classificação do Arroz 424
2.2. Grupos 425
2.3. Subgrupos 426
2.4. Classe 426
2.5. Grãos quebrados 427
2.6. Fragmentos de grãos 428
2.7. Secagem do Arroz 428
2.8. Secagem de Arroz para Sementes 434
2.9. Secagem de Arroz Parboilizado 435
2.10. Armazenagem do Arroz 436
XII

2.11. Armazenagem a Granel 436

3. PREPARO, SECAGEM E ARMAZENAGEM DE CAFÉ 439


3.1. Classificação e Qualidade do Café 440
3.2. Secagem em Terreiro Convencional 443
3.3 - Terreiro Híbrido - Solar e Biomassa 449
3.4 - Secagem em Altas Temperaturas 450
3.5. Secagem em Lote com Leito Fixo 451
3.6. Secadores de Fluxos Concorrentes 454
3.7. Seca-aeração 454
3.8. Secagem Parcelada 455
3.9. Secagem com Energia Solar 455
3.10. Secagem com Ar Natural e em Baixas Temperaturas 455
3.11. Secagem Combinada 456
3.12. Armazenamento e Beneficiamento 462
3.13. Armazenamento de Café Beneficiado 466

4. SECAGEM E ARMAZENAGEM DE TRIGO 469


4.1. Anatomia e Composição Química do Grão de Trigo 469
4.2. Limpeza do Trigo 469
4.3. Secagem do Trigo 470
4.4. Armazenamento do Trigo 472
4.5 – Classificação do Trigo 474

5. SECAGEM E ARMAZENAGEM DE FEIJÃO 475


5.1. Secagem a Altas Temperaturas 475
5.2. Aeração do Feijão 476

6. SECAGEM E ARMAZENAGEM DE SOJA 480

7. SECAGEM E ARMAZENAGEM DE CACAU 482


7.1 - Cuidados na Secagem 482
7.2. Secagem com Ventilação Natural 483
7.3. Secagem em Alta Temperatura 484

8. CURA DA CEBOLA 488


8.1. Colheita 488
8.2. Perecibilidade 488
8.3. Cura 489
8.4. Armazenamento da Cebola 491

9. FENAÇÃO 493
9.1. Características Gerais da Fenação 493
9.2. Técnicas de Produção de Feno 493
9.3. Secagem no Campo 494
XIII

9.4. Uso de Secadores 494


9.5. Armazenamento do Feno 495

10. LITERATURA CONSULTADA 496

CAPÍTULO - 18
ARMAZENAMENTO DE FRUTAS E HORTALIÇAS 501

1. INTRODUÇÃO 501

2. CONSIDERAÇÕES GERAIS 502

3. RESPIRAÇÃO 503

4. PRODUÇÃO DE ETILENO E SEUS EFEITOS 504

5.VIDA DO FRUTO 506


5.1. Crescimento e Desenvolvimento 506
5.2. Maturação 507
5.3. Amadurecimento 508
5.4. Senescência 508

6. PERDA DE ÁGUA 509

7. CONSIDERAÇÕES PRÁTICAS 511

8. DISTÚRBIOS FISIOLÓGICOS 512


8.1. Distúrbio Devido ao Congelamento 512
8.2. Distúrbio Devido ao Frio 512

9. DISTÚRBIOS CAUSADOS PELA CÂMARA 514


9.1. Umidade Relativa 514
9.2. Concentração de O2 514
9.3. Concentração de CO2 515
9.4. Concentração de Etileno 516
9.5. Distúrbios Provocados pela Luz 517

10. TRATAMENTOS PRÉ-ARMAZENAGEM 517


10.1. Limpeza 517
10.2. Classificação por Tipo e Qualidade 518
10.3. Tratamentos Profiláticos 518
10.4. Recobrimento da Superfície 519
10.5. Pré-resfriamento 519
XIV

11. ARMAZENAGEM REFRIGERADA 523


11.1. Princípios de Refrigeração 523
11.2. Componentes do Sistema de Refrigeração 524

12. CONSTRUÇÃO DE CÂMARAS 525


12.1. Umidade 526
12.2. Armazéns Revestidos 526
12.3. Ventilação 526

13. DETERMINAÇÃO DE CARGA TÉRMICA 526


13.1. Tempo de Funcionamento do Equipamento 527
13.2. Cálculo da Carga Térmica 527
13.3. Carga de Calor Cedido pelas Paredes 528
13.4. Exemplo de Aplicação 533

14. LITERATURA CONSULTADA 537

CAPÍTULO - 19
SEGURANÇA DE PRODUTOS NA PÓS-COLHEITA 539

1. INTRODUÇÃO 539

2. PRODUÇÃO PRIMÁRIA 540


2.1. Produção de Grãos e Derivados: Micotoxinas 540

3. PROGRAMAS PRÉ-REQUISISTOS 542


3.1. Boas Práticas Agrícolas na Produção de Produtos Agrícolas 543

4. O SISTEMA APPCC 545


4.1. Definições Importantes 546
4.2. Etapas e Princípios do APPCC 547

5. APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DO APPCC NA SEGURANÇA DO CAFÉ 551

6. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 559


Capítulo

1
ARMAZENAGEM E COMERCIALIZAÇÃO DE GRÃOS NO BRASIL

Juarez de Sousa e Silva


Marilson Gonçalves Campos
Suely de Fátima Ramos Silveira

1. INTRODUÇÃO

O setor agrícola brasileiro vem contribuindo para o crescimento econômico e a


ele são delegadas importantes tarefas, como, por meio do aumento da produção e da
produtividade, ofertar alimentos e matérias-primas para o mercado interno; gerar
excedentes para exportação, ampliando a disponibilidade de divisas; transferir mão-de-
obra para outros setores da economia; fornecer recursos para esses setores; e consumir
bens produzidos no setor industrial.
A modernização da agricultura brasileira contou com acentuada participação do
Estado. Esse processo teve início a partir dos anos 30, mas somente no período que se
estende dos anos 60 ao final dos anos 70 foi verificado aprofundamento maior nas
transformações do setor.
A criação do Sistema Nacional de Crédito Rural, em 1965, e a disponibilidade
de crédito a juros subsidiados nos anos 70 foram decisivas para a consolidação tanto da
agricultura capitalista no País quanto de um parque industrial de insumos e máquinas
agrícolas.
Até o fim da década de 70, o crescimento da produção agrícola ocorreu devido
principalmente à expansão da área cultivada, com a incorporação de terras pertencentes
à fronteira agrícola. Apesar de que novas áreas, ainda, continuam sento abertas para dar
lugar a cana-de-açúcar e a soja, foi a partir daquela data que essa tendência começou a
mudar, e já nos anos 80 o crescimento da produção vem ocorrendo em virtude do
incremento na produtividade, com incorporação de novas variedades e técnicas
modernas de produção.
Com o grande crescimento da economia brasileira durante a década de 70, a
agricultura apresentou avanços significativos, principalmente as culturas destinadas ao
mercado externo. Nesse período, além de elevadas taxas de crescimento da agricultura
brasileira como um todo, houve pronunciada segmentação da produção em produtos
exportáveis e de consumo doméstico.

1
Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

No início dos anos 80, com aumento das taxas de inflação, redução do volume
de crédito rural e conseqüente elevação das taxas de juros, por iniciativa do Estado, a
ênfase dada ao crédito rural deslocou-se para a apólice de garantia de preços mínimos,
que a partir daí iria tornar-se o principal instrumento de política agrícola brasileira,
contribuindo para a consolidação da produção capitalista na agricultura.
Em breve relato sobre o crescimento da economia brasileira nos anos 80,
GASQUES e VILA VERDE (1990), comparando as taxas de crescimento entre os
setores da economia, constataram que a agricultura foi um dos setores mais dinâmicos,
com crescimento médio anual de 3,1%, superando o crescimento industrial. Esses
autores verificaram que:
a) As lavouras de subsistência foram superadas por lavouras comerciais, como
as de café, cacau, milho e soja.
b) O crescimento da agricultura ocorreu mais em função da substituição de
cultura do que pela incorporação de novas áreas.
c) Houve enfraquecimento do modelo de crescimento extensivo baseado na
expansão de área, sendo o aumento de produtividade agrícola o principal responsável
pelo aumento de produção.
d) A queda dos preços agrícolas marcou o comportamento do mercado na
década de 80, problema este que praticamente atingiu todos os produtos, tanto da
agricultura quanto da pecuária. As características da agricultura, os aumentos na
produtividade e as quedas nos custos de produção, juntamente com as políticas
agrícolas, foram os principais fatores que possibilitaram o crescimento da agricultura
mesmo com preços reais decrescentes.

2. O POTENCIAL AGRÍCOLA BRASILEIRO

Em comparação com outros países cuja agricultura possui importância


econômica, o Brasil apresenta condições privilegiadas para, de forma rápida, ampliar a
produção e modernizar o comércio de produtos agrícolas. Alguns fatores que podem
contribuir para viabilizar estas condições são:
a) Sistema de transporte - abertura de novas vias de transporte e utilização e
ampliação das hidrovias em substituição ao transporte rodoviário contribuirão,
significativamente, para reduzir os custos de escoamento da produção das regiões
produtoras para regiões consumidoras e portos.
b) Novas agroindústrias – se adaptadas às novas exigências de
competitividade e instaladas, preferencialmente, próximas às regiões produtoras,
contribuirão para a redução do custo de transporte da matéria-prima. Prova disso, é que,
além de indústrias de transformação, o número de abatedouros para aves, suínos e
bovinos que vêem sendo instalados no Centro Oeste e Norte do Brasil.
c) Educação empresarial – faz-se necessária uma mudança do perfil do
empresário agrícola brasileiro no sentido de se adaptar, de forma rápida, às exigências
de um mercado globalizado, principalmente no que diz respeito as Boas Práticas de
Produção que melhorem a qualidade final do produto e a segurança alimentar.
d) Educação comercial - postura semelhante deve ocorrer no setor de
comércio externo brasileiro em relação a seus parceiros do resto do mundo, com

2 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

mudança na forma de exportação.


e) Novo mercado interno – devido ao tamanho da população brasileira, são
importantes o incremento e a modernização do mercado interno em função da adoção e
do desenvolvimento de novas tecnologias e novos produtos.
f) Uso racional da terra – a ocupação racional da terra e o uso de técnicas
modernas de produção, além de evitar os custos de ociosidade, manteriam a qualidade
do solo.
g) Disponibilidade de áreas - grandes áreas contínuas mecanizáveis e
apropriadas para cultivo durante todo o ano a custo relativamente inferior ao de outros
países produtores favorecem o investimento na produção.
h) Qualidade total.
Novos modelos administrativos, com técnicas mais eficientes para
gerenciamento e comercialização da produção, podem promover grandes produção de
alimentos.

2.1. Estimativa da Área Plantada


Em sua oitava avaliação para a safra 2007/2008, a CONAB estimou uma área
plantada total 1,6% superior à cultivada na safra anterior, passando de 46,21 milhões de
hectares para 46,97 milhões, o que indica que foram incorporados quase 760 mil
hectares (Tabela 1). Se comparado com o incremento verificado em períodos,
imediatamente, anteriores à primeira edição deste livro, pode-se notar que nos últimos
11 anos, o aumento de área plantada foi, em média, 1,1 milhões de hectares por ano
agrícola. Sugere-se ao leitor, consultar os dados de estimativas de safra e de área
plantadas, que são publicados mensalmente e distribuídos, gratuitamente, pela CONAB
(www.conab.gov.br)
Outras culturas que não constam da Tabela 1, como batata, banana, abacaxi,
cebola, alho e uva etc, também se destacam pelos expressivos volumes de produção,
pela dimensão das áreas cultivadas e pelo contingente de mão-de-obra envolvido. Vale
ressaltar a área atualmente ocupada com cana-de-açúcar (acima de 7 milhões de
hectares para a safra 2008) e, segundo o (IBGE - 1996) a atividade com a pecuária, em
1996, ocupava a expressiva área 177 milhões de hectares sendo 56% com pastagens
plantadas, principalmente nas regiões onde se exercem controles rigorosos na área de
sanidade animal, visando à obtenção de altos rendimentos de leite e carne, bem como a
liberação das exportações de produtos pecuários.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 3


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

TABELA 1 - Estimativa de área plantada no Brasil - safras 2006/2007 e 2007/2008

SAFRA VARIAÇÃO
PRODUTO 06/07 07/08 Perc. Abs.
(a) Abril /08 (b) Maio/08 (c) (c/a) (c-a)
ALGODÃO 1.096,8 1.095,1 1.090,4 0,6 6,4
AMENDOIN TOTAL 102,6 112,8 115,3 12,3 12,6
ARROZ 2.967,4 2.928,0 2.924,5 1,4 43,0
FEIJÂO (Safras 1, 2, e
4.087,8 3.830,8 3,897,6 4,7 190,2
3)
MILHO Safras (1 e 2) 14.054,9 14.469,8 14.605,4 3,9 550,5
SOJA 20.686,8 21.158,5 21.219,1 2,6 532,3
TRIGO 1.757,5 1.818,9 1.818,9 3,5 61,4
DEMAIS PRODUTOS 1.561,4 1.400,4 1.413,1 9,5 148,4
BRASIL 46.212,6 46.701,5 46.969,0 1,6 756,4
Fonte: CONAB (www.conab.gov.br) – Levantamento Maio/2008

2.2. Estimativa da Produção


A estimativa da produção brasileira de grãos da safra 2007/2008 foi de 142,12
milhões de toneladas, o que representa aumento de 7,9% ou 10,36 milhões de toneladas
superior a da safra de 2006/2007 (Tabela 2).
Com um incremento 10,044 milhões de hectares, em relação ao ano 2000
(primeira edição deste livro), ou seja, com 37% de aumento de incremento de área
plantada, foi verificado, para o mesmo período um incremento de 71% na produção de
grãos. Esse fato vem comprovar que o aumento da produção brasileira não se deveu
somente ao aumento de área plantada mas, também, pela adoção de tecnologia moderna
que aumenta a produtividade.

TABELA 2 - Estimativa da produção de grãos no Brasil (em mil toneladas).

SAFRA VARIAÇÃO
PRODUTO 06/07 07/08 Perc. Abs.
(a) Abril /08 (b) Maio/08 (c) (c/a) (c-a)
ALGODÃO (caroço) 2.383,6 2.436,9 2.432,4 2,0 48,8
ARROZ 11.315,9 11.955,4 11.996,1 6,0 680,2
FEIJÂO
3.339,8 3.437,0 3.500,7 4,8 160,9
(Safras 1, 2, e 3)
MILHO Safras (1 e 2) 51.369,8 56.233,2 57.877,1 12,7 6.507,4
SOJA 58.391,8 59.988,7 59.502,6 1,9 1.110,8
TRIGO 2.233,7 3.824,0 3.824,0 71,2 1.590,3
DEMAIS RODUTOS 2.716,1 2889,2 2.982,5 9,8 266,4
BRASIL 131.750,6 140.774,4 142.115,5 7,9 10.364,9
Fonte: CONAB (www.conab.gov.br) – Levantamento Maio/2008

4 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

A Figura 1 mostra os dados oficiais sobre a atual capacidade armazenadora


brasileira que, com exceção da região sudeste, continua mostrando um déficit de
capacidade. Nos últimos cinco anos, conforme a CONAB (www.conab.gov.br), a
capacidade estática instalada no Brasil vinha crescendo numa média de 3,7 milhões de
toneladas ano (Tabela 3). Para o ano 2006 a capacidade total foi de, aproximadamente,
122 milhões de toneladas, sendo que 22% desse total é, ainda, constituído por
armazenagem convencional e, segundo a distribuição da capacidade por Entidade, as
oficiais ficam com 5%, as cooperativas com 21% e a grande maioria (74%) com
entidades privadas.

Figura 1 – Capacidade armazenadora e produção de grãos no Brasil.

TABELA 3 – Evolução anual da capacidade estática de armazenagem no Brasil (em


mil toneladas)

PERÍODO 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006


Capacidade 87.833,0 89.227,0 89.734,2 93.358,6 100.056,0 106.538,7 121.987,7
Evolução - 1.394,00 516,2 3.624,4 6.697,4 6.482,7 15.449,0
Fonte: CONAB Dez/2006 (www.conab.gov.br)

3. SEGURANÇA ALIMENTAR E IMPORTÂNCIA DA PEQUENA PRODUÇÃO

A segurança alimentar é um assunto de relevância para todos os países, estando


sua importância diretamente relacionada ao tamanho da população e à extensão
territorial.
Em países populosos e com grandes extensões territoriais como o Brasil, deve-se
priorizar a regularidade do abastecimento de alimentos e matérias-primas agrícolas que
fazem parte do consumo diário da população, adequando os preços à demanda de todas
as classes de renda. A dependência de fontes instáveis, estabelecendo insegurança na
oferta de produtos agrícolas, cria variabilidade de preços e torna-se intolerável para a

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 5


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

população com hábitos de consumo conservador e de baixa renda.


Historicamente, foi atribuída à pequena produção a função de fornecer ao
mercado consumidor os produtos alimentares básicos - arroz, feijão, milho e mandioca.
Também a ela estão associados os conceitos de pequeno produtor, baixa produtividade,
baixa capitalização, baixa modernização, baixa produção e baixa qualidade.
Em geral, os produtores tradicionais produzem arroz, feijão e mandioca,
produtos que apresentam elasticidade-renda pequena mesmo entre as populações de
baixa renda, que são os principais consumidores destes produtos. Mesmo quando
produz frutas, hortaliças, soja, café e proteína animal, cuja elasticidade-renda é alta, este
grupo tem produção pequena para proporcionar aumento significativo em sua renda.
No que se refere à importância dos pequenos produtores quanto à produção de
alimentos básicos (arroz, milho, feijão e mandioca), é importante ressaltar que tais
produtos são típicos do subsetor de subsistência e baixa renda da agricultura. Não
obstante, existem pequenos proprietários que se dedicam à produção tecnificada de
hortigranjeiros, suínos, aves e mesmo grãos. Estes diferem dos pequenos produtores
tradicionais por produzirem produtos de alta elasticidade-renda, adotarem tecnologia
moderna, possuírem nível de instrução mais elevado e alta capacidade administrativa e,
geralmente, estarem ligados a grandes grupos, a cooperativas ou a esquemas de
comercialização eficientes.
Entende-se por agricultura moderna aquela fortemente integrada ao mercado
urbano de insumos e produtos, baseada em intenso fluxo de informações sobre preços,
quantidades demandadas/ofertadas, em observação de padrões de qualidade e acesso às
tecnologias disponíveis. Portanto, a agricultura moderna é compatível não somente com
grandes empresas agrícolas, mas com qualquer agricultor individualmente, capaz de
interpretar mensagens e aplicá-las na atividade produtiva. Na agricultura moderna,
rompem-se os padrões de produção e administração que redundam na produtividade de
fatores muito aquém daqueles que apresentam condições técnicas, econômicas e
socialmente justificáveis, conforme definido por ALVES (1987).
O modelo de desenvolvimento atualmente implantado no Brasil, baseado na
industrialização intensiva em capital, apesar de provocar mudanças positivas nas
relações agricultura-indústria, enfatizando o uso de insumos modernos na agricultura,
concentra-se principalmente nas grandes e médias propriedades, cujos proprietários têm
facilidade de acesso ao crédito subsidiado e, ainda, estímulo à produção de exportáveis.
Esse modelo é incapaz de resolver os problemas estruturais do setor composto pelos
pequenos produtores, que permanecem, na sua maioria, atrelados ao ciclo do
subdesenvolvimento: baixo nível de renda - baixa capitalização - baixa produção - baixa
produtividade.
Em decorrência do processo de modernização, coube à agricultura comercial a
ocupação de terras mais férteis, enquanto que, para os pequenos produtores, exceto
aqueles que ocupavam menores extensões de terra, pouco a pouco foram deslocados
para áreas que apresentam menor fertilidade relativa. Os produtores mais competentes e
donos de terras férteis substituíram as culturas de arroz, feijão e mandioca pelas de
cana-de-açúcar, soja, café, laranja e outros produtos mais rentáveis, principalmente na
Região Sudeste, excetuando-se os cultivos irrigados de arroz e feijão, que são altamente
tecnificados.

6 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

No caso da pequena produção de grãos, a maioria dos produtores caracteriza-se


por empregar técnicas tradicionais de produção voltadas, basicamente, para o sustento
da unidade familiar, gerando pouco excedente para comercialização. Contudo, quando
computados conjuntamente, estes produtores geram produções expressivas. Neste caso,
a produção está associada aos produtos domésticos (típicos da pequena produção) e aos
preços muito instáveis, contribuindo para que o nível de renda monetária destes
produtores seja, em média, muito pequeno. Assim, os pequenos produtores, com
exceção daqueles organizados nas estruturas dos complexos agroindustriais e/ou no
sistema de cooperativas, têm poucas possibilidades de comercializar a produção
diretamente com os mercados consumidores, ou de retê-la, aguardando melhores preços.
Em geral, vendem o produto aos atravessadores, que percorrem as unidades produtivas,
comprando o produto ao preço que melhor lhes convém e transportando-o para os
mercados consumidores, onde obtêm melhores preços. Desse modo, o lucro da atividade
do pequeno produtor é transferido para o “atravessador” ou agente de comercialização,
que transaciona diretamente o produto.
A presença marcante de pequenos produtores na agricultura, embora com baixo
nível de renda e à margem do processo de modernização, é demonstrada pela estrutura
fundiária brasileira (Tabela 4). Segundo o IBGE, em 1995 havia, aproximadamente,
3,406 milhões de estabelecimentos rurais ocupando área de 42,839 milhões de hectares
com média de 12,58 hectares por estabelecimento que representa 12% da área de todos
os estabelecimentos.

TABELA 4 – Distribuição percentual, por tamanho, das propriedades rurais no Brasil


em 2003.

Estratos de área Imóveis Área total


(hectares) Quantidade % Hectares %
Até 10 1.409.752 32,9 6.638.598,60 1,6
De 10 até 25 1.109.841 25,9 18.034.512,20 4,3
De 25 até 100 1.179.173 27,5 57.747.897,80 13,8
De 100 até 1.000 523.335 12,2 140.362.235,80 33,5
Mais de 1000 68.381 1,6 195.673.396,40 46,8
Totais 4.290.482 100,0 418.456.640,80 100,00
Fonte: Apuração Especial do SNCR, realizada em outubro de 2003 (INCRA, 2003a). OBS: Dados brutos, excluídos os imóveis com
inconsistência na situação jurídica.

Quanto à produção de grãos, especificamente as culturas de arroz, milho, feijão e


soja, os estabelecimentos com área até 50 ha foram responsáveis, em média, no ano de
1970, por 43% da produção de arroz, 64% da produção de milho, 73% da produção de
feijão e 60% da produção de soja. No ano de 1985 ocorreu redução na participação das
propriedades desse estrato de área, na produção destas culturas. Contudo, em relação ao
total produzido, os percentuais de participação das propriedades na faixa de até 50 ha
são significativos, sendo, para cada cultura mencionada, respectivamente, de 27%, 53%,
66% e 26%.
A maior participação dos pequenos produtores de grãos concentra-se nas
culturas de feijão e milho, os quais contribuíram com, aproximadamente, 60% da
produção total do País, em 1970 e 1985 (Tabela 5).

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 7


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

Segundo SANTOS (1993), o número de pessoas ocupadas e a produtividade da


exploração são também importantes indicadores quando se considera a pequena
produção. Em 1980, 52% das pessoas ocupadas na agricultura estavam em propriedades
que abrangiam áreas de até 20 ha e 69%, em propriedades com áreas de até 50 ha.

TABELA 5 - Distribuição percentual da produção de grãos, segundo o tamanho das


propriedades rurais, em 1970 e 1985

Estrato de área Arroz Milho Feijão Soja


(ha) 70 85 70 85 70 85 70 85
Até 10 19,5 11,8 19,9 15,3 32,8 28,2 14,5 3,1
10-20 8,9 4,7 18,6 15,5 18,4 16,4 21,4 7,5
20-50 14,9 10,3 25,6 21,8 22,0 22,2 24,9 15,2
50-100 11,5 10,6 11,3 12,1 10,0 12,3 8,9 11,0
até 1.000 33,9 38,9 20,4 27,9 14,8 18,0 25,6 41,7
até 10.000 10,7 20,9 4,0 7,0 1,9 2,8 4,6 6,3
Acima 0,6 2,8 0,2 0,5 0,1 0,1 0,1 0,2
Fonte: FIBGE (Censo Agropecuário – 1970 a 1985).

De acordo com o último censo do IBGE, a agricultura familiar está presente em


86% dos estabelecimentos agrícolas brasileiros, ocupando 30,5% da área total e que a
sua força econômica é traduzida por representar 38% do Valor Bruto da Produção
Nacional, sendo responsável pela produção de 84% da mandioca; 67% do feijão; 49%
do milho; 31% do arroz e quantidades expressivas de soja, suínos, leite e outros
produtos importantes para o abastecimento interno e para as exportações.

4. A ESTRUTURA BRASILEIRA DE ARMAZENAGEM

A produção brasileira de grãos (cereais, leguminosas e oleaginosas) na safra


2007/2008, estimada pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), foi de,
aproximadamente, 142 milhões de toneladas. Como dito anteriormente, na última
estimativa foi detectado um acréscimo corresponde ao acréscimo de 7,9% em relação à
safra anterior, em que foram produzidas 131,7 milhões de toneladas, até então
considerada recorde. Os pesquisadores atribuem esse resultado ao melhor emprego da
tecnologia disponível e ao uso de variedades mais produtivas, já que a produção foi,
proporcionalmente, muito maior que o aumento de área plantada.
Apesar da expressiva produção de grãos e do aumento de capacidade estática
verificada nos últimos anos, a rede armazenadora brasileira é, ainda deficiente tanto em
relação à sua distribuição espacial quanto à modalidade de manuseio da produção
agrícola.
Do seu surgimento até o início da década de 70, a rede armazenadora brasileira
concentrou-se no litoral e só avançou para o interior em condições muito especiais,
conforme a cultura. Sua modalidade, em termos de manuseio dos produtos, voltou-se,
predominantemente, para a guarda e conservação em sacaria, e a partir dos anos 70 o

8 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

sistema de armazenagem a granel foi adotado. Em 2005 a armazenagem a granel já


correspondia a 51% do total. Ganhou mais destaque ainda e, em 2006, segundo a
COBAB, a armazenagem a granel já representava 78%.
A falta de uma estrutura armazenadora bem dimensionada, que garantisse um
fluxo de abastecimento uniforme durante o ano, reduzindo as excessivas flutuações nos
preços dos produtos agrícolas, preocupava as autoridades governamentais. Em 1956,
visando promover o estabelecimento de um sistema coordenador de armazéns e silos
capaz de fazer face às questões de infra-estrutura, foi criada a Comissão Consultiva de
Armazéns e Silos, diretamente vinculada à Presidência da República.
Os governos estaduais, por sua vez, criaram órgãos para atuar no setor, como a
Companhia Estadual de Silos e Armazéns (CESA-RS), Companhia de Armazéns e
Silos do Estado de Minas Gerais (CASEMG), a Central de Entrepostos e Armazéns
Gerais do Estado de São Paulo (CEAGESP), a Companhia Paranaense de Silos e
Armazéns (COPASA), dentre outros.
No entanto, já naquela época, a política de armazenamento foi distorcida,
fazendo restrições à atividade da armazenagem em fazendas, pois, no entender do
governo, o agricultor, com a posse do produto, poderia exercer pressões e provocar o
estabelecimento de preços elevados.
Nos anos 60 foram criadas a Superintendência Nacional de Abastecimento
(SUNAB), a Companhia Brasileira de Alimentos (COBAL), a Companhia Brasileira de
Armazenamento (CIBRAZEM) e a Comissão de Financiamento da Produção (CFP),
voltadas para as questões de produção, abastecimento e preços. Por muitos anos, a CFP
desempenhou importante papel na fixação de preços mínimos dos produtos agrícolas e
no delineamento da política agrícola brasileira.
A CIBRAZEM tornou-se órgão central do Sistema Nacional de
Armazenamento, encarregado de coordenar e normatizar o setor.
O Cadastro Nacional de Armazenagem, implantado a partir de dezembro de
1974, com o objetivo de quantificar e qualificar a rede nacional de armazenagem, e o
lançamento do Programa Nacional de Armazenagem (PRONAZEM), com o objetivo de
financiar a construção de unidades armazenadoras, a juros subsidiados, proporcionaram
a expansão da rede de armazenagem do País. O PRONAZEM possibilitou a ampliação
da capacidade estática de armazenamento, de 38,3 milhões de toneladas, em 1975, para
72 milhões de toneladas, em 1988, tendo a rede oficial uma capacidade de 10,8 milhões
de toneladas e a rede particular a capacidade de 61,2 milhões de toneladas. Apesar desse
esforço, o armazenamento nas fazendas continua inexpressivo e em 2006, segundo a
CONAB (Figura 2), a armazenagem na fazenda participou com apenas 15% da
capacidade estática total.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 9


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

Figura 2 – Distribuição da capacidade armazenadora por localização.

Nos anos 80, o processo de aceleração inflacionária e a falta de uma política


específica para o setor armazenador contribuíram para o descompasso entre a produção
e a armazenagem, afetando também a estrutura do sistema armazenador. Em 1990, com
base na Lei nº 8.029, de 12 de abril, e com o objetivo de realizar uma ampla reforma
administrativa, o Governo Federal fundiu a CIBRAZEM, a COBAL e a CFP em uma
única estrutura, denominada Companhia Nacional de Abastecimento-CONAB, com a
missão de atuar como instrumento do Estado no subsídio à formulação e à execução das
políticas agrícola e de abastecimento, visando assegurar o atendimento às necessidades
básicas da sociedade, preservando e estimulando os mecanismos de mercado.
Tendo iniciado suas atividades em 1º de Janeiro de 1991, a CONAB tornou-se a
empresa oficial do Governo Federal, encarregada de gerir as políticas agrícolas e de
abastecimento, visando assegurar o atendimento das necessidades básicas da sociedade,
preservando e estimulando os mecanismos de mercado. Possui estrutura convencional,
contando com Conselho de Administração, Conselho Fiscal e Diretoria Colegiada,
integrada pela Presidência, Diretoria de Gestão Administrativa e Financeira (Diafi),
Diretoria de Logística e Gestão Empresarial (Digem) e Diretoria de Gestão de Estoques
(Diges).
A CONAB, que pode ser acessada pelo SITE (www.conab.gov.br) atua em todo
território nacional, por meio de suas Superintendências Regionais e, vinculadas a elas,
existem 96 Unidades Armazenadoras (UA). Tem como instrumentos básicos a Política
de Garantia de Preços Mínimos (PGPM), Prêmio para Escoamento de Produtos (PEP),
Contrato de Opção, Prêmio de Risco para Aquisição de Produto Agrícola Oriundo de
Contrato Privado de Opção de Venda (PROP), Prêmio Equalizador Pago ao Produtor
(PEPRO), Prêmio para Equalização do Valor de Referência da Soja em Grãos
(PESOJA), Vendas em Balcão - programa destinado aos pequenos criadores e
agroindústrias de pequeno porte.
Promove, através de meio seguro, a comercialização eletrônica de produtos e
serviços relacionados às atividades finalísticas e de produtos e insumos para terceiros e,
também, presta serviços de armazenagem e de classificação de produtos agrícolas.
Realiza levantamento de safras, mantém informações e séries históricas de indicadores
agropecuários, análise de mercado e conjunturas agrícolas.
Na área social, atua em parceria com o Fome Zero, do Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), sendo responsável pela logística do
recebimento, armazenamento e distribuição dos donativos. Promove, também, via leilão

10 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

eletrônico, a compra de alimentos para atendimento aos índios, quilombolas e


assentados que se encontram em situação de carência alimentar. Atuando no Programa
de Apoio à Agricultura Familiar, realiza a compra direta, a compra antecipada e os
contratos de garantia de compra.
Os produtos agropecuários adquiridos pelo Governo são vendidos através de
leilões, ou em “balcão”, para pequenos criadores. Realizados nas Bolsas de Cereais ou
Mercadorias, em rede interligada nacionalmente, os pregões públicos são amplamente
divulgados, o que garante a transparência aos negócios.
O sistema de armazenagem é um dos componentes da política agrícola cuja
finalidade principal é garantir o fluxo de abastecimento constante, proporcionando
maior estabilidade de preços e de mercado.
É necessário que a rede de armazenagem pertença a um sistema integrado, a fim
de dinamizar a comercialização, reduzir custos e beneficiar os agentes de produção e
consumidores.
O crescimento da produção brasileira de grãos nos últimos anos é um indicador
da necessidade de formular e efetivar uma política de armazenagem que proporcione ao
setor condições de crescimento e modernização compatíveis às alcançadas pela
economia agrícola nacional.
O Brasil tem, atualmente, capacidade para armazenar cerca de 122 milhões de
toneladas de grãos (Figura 1). Porém, dos armazéns existentes, ainda existem 22% é do
tipo convencional, e, destes, muitos se encontram abaixo do padrão técnico exigido para
a boa conservação de produtos agrícolas. Assim, existe a necessidade de ampliar de
modo considerável o número de unidades armazenadoras que atendam os padrões
técnicos de armazenagem. Além disso, é preciso modernizar, recuperar ou construir
novas unidades armazenadoras nas regiões carentes. Como a política do governo visa
manter apenas uma rede para a armazenagem estratégica, a ampliação da rede brasileira
de armazenagem fica a cargo da iniciativa privada que de qualquer modo, vem
paulatinamente aumentando a sua capacidade.
A estrutura brasileira de armazenagem de grãos apresenta-se distribuída da
seguinte forma: 15% na propriedade agrícola (fazenda), 79% coletora (cooperativa,
armazém, indústria, armazéns gerais e comércio), 2% intermediária (terminais
intermodais) e 6% terminal (portos, indústria e comércio).
Apesar dos esforços realizados, o sistema brasileiro de abastecimento demonstra
fragilidade e inadequação, quando comparado ao da Argentina. Nos Estados Unidos,
65% da capacidade total de armazenagem está localizada na fazenda, enquanto na
Argentina ela corresponde a 35%. Já a armazenagem coletora representa,
respectivamente, 30% e 25% do total instalado nesses países (Tabela 6).
O atual sistema de escoamento da safra brasileira prejudica o sistema de
armazenagem, em razão da estrutura precária dos sistemas de transporte rodoviário,
ferroviário e hidroviário. Esta situação prejudica principalmente o produtor, que
comercializa seu produto, na maioria das vezes, a preços inferiores ao custo de
produção.
Para tornar sua produção agrícola competitiva nos mercados interno e externo,
estimular o incremento da produção e incentivar o investimento em tecnologia, o Brasil
deverá modificar o atual perfil da estrutura de armazenagem, adequando-a às

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 11


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

necessidades de oferta e demanda e incentivando, prioritariamente, a armazenagem na


fazenda, juntamente com outras medidas que tornem as unidades coletoras e
intermediárias adequadas ao processo.

TABELA 6 - Percentual da capacidade instalada de armazenagem a granel no Brasil,


nos Estados Unidos e na Argentina

Armazenagem Brasil EUA Argentina


Fazenda 15* 65* 35
Coletora 79* 30 25
Intermediária 2 10 20
Terminal 6* 10 10
Outras - - 10
Fonte: Ministério da Agricultura
* Conab 2006

4.1. Armazenagem e a Pequena Produção


Como visto, a armazenagem na fazenda representa ao redor de 15% da
capacidade total de armazenagem no Brasil, o que induz efeitos perversos, como perdas
quantitativas e qualitativas de grãos, já que o segmento de pequenos produtores
praticamente ao possuem unidades armazenadoras com o mínimo de adequação. A
deficiência de armazenagem na fazenda, aliada à descapitalização do pequeno produtor,
exige comercialização imediata da produção. É muito freqüente realizar-se a colheita
antes que o produto atinja condições ideais de comercialização. Este fato, aliado à
estrutura de transporte inadequada, favorece o aumento do índice de perdas. Por outro
lado, por questões culturais ou financeiras, parte do produto que fica retido na
propriedade é manuseada e armazenada inadequadamente, contribuindo para
intensificar as perdas.
Dentre os diversos fatores que têm contribuído para o baixo índice de
armazenagem nas fazendas, destacam-se a inadequação das tecnologias difundidas e o
baixo nível de renda dos produtores.
Como dito anteriormente, a participação do pequeno produtor e do agricultor
familiar em culturas de arroz, milho, feijão e soja atingem percentuais significativos em
relação à produção total. No entanto, principalmente para o milho e feijão, parte da
produção é destinada ao autoconsumo. A inadequação da armazenagem dessa parcela da
produção acarreta perdas superiores a 20% do total armazenado, devido ao ataque de
roedores, pássaros, insetos e microrganismos.
Programas de extensão e assistência técnica ao produtor rural promovidos pelos
governos federal e estaduais, como o MG II, em Minas Gerais, e o Pró-Rural, no
Paraná, alcançaram relativo sucesso com a instalação de microunidades armazenadoras
em comunidades de pequenos produtores. Por falta de continuidade, ou por falta de
conhecimento da tecnologia por parte do serviço de extensão, pouco contribuíram para
alterar o perfil da armazenagem nesse segmento da produção.
Com algumas exceções, o pequeno produtor apresenta características peculiares,
como baixo grau de instrução e pouca capacidade de associação, o que dificulta a

12 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

construção de unidades armazenadoras comunitárias. Nos estados das regiões Sudeste e


Sul encontram-se as principais forças do movimento cooperativista, que, nos últimos
anos, vêm se estendendo para os estados da Região Centro-Oeste. Nesses estados, a
agricultura moderna está mais acessível aos pequenos produtores, principalmente os
integrados à agroindústria, sobressaindo os do Estado de Santa Catarina.
A falta de uma política governamental voltada para a pequena produção, os
baixos salários dos técnicos e o ineficiente sistema de extensão são alguns dos fatores
que causam lentidão no processo de mudança do sistema tradicional para o sistema
moderno de produção. Além dos fatores mencionados, na grande maioria, o volume de
produção por produtor e a parcela comercializável são muito pequenos, quando
considerados isoladamente.
O baixo valor comercial do produto resulta em baixo nível de renda monetária
para o pequeno produtor tradicional. Dessa forma, torna-se difícil para a extensão rural
prover técnicas de secagem e armazenagem seguras e compatíveis com a capacidade de
investimento do pequeno produtor. Portanto, o provimento de técnicas compatíveis para
o segmento da pequena produção constitui um desafio e deve ser solucionado com a
participação efetiva do governo.
Também, a dificuldade de acesso ao crédito por parte de pequenos e médios
produtores e a inexistência de uma linha especial de financiamento para a construção de
silos, secadores, etc. constituem outro empecilho para a expansão da armazenagem nas
fazendas.
Apesar dos problemas apresentados, inclusive a limitação dos recursos
disponíveis para pesquisas, o esforço de técnicos e pesquisadores de algumas
instituições de pesquisa vem proporcionando o desenvolvimento de equipamentos e
sistemas de secagem e armazenagem de baixo custo, de fácil adaptação para o pequeno
produtor, além de processos que permitem manter a qualidade dos grãos armazenados,
visando maior controle de pragas e menores danos causados durante o manuseio e o
transporte dos produtos agrícolas.
Secadores de grãos de pequena e média capacidade, construídos em alvenaria e
equipados com fornalhas de alta eficiência energética e aparelhos de determinação de
umidade, de baixo custo e de simples operação, foram desenvolvidos na Universidade
Federal de Viçosa e, amplamente, difundidos entre pequenos e médios produtores de
várias regiões brasileiras.
Pequenos secadores de grãos e silos que empregam diferentes tecnologias de
fabricação vêm sendo desenvolvidos e testados por algumas empresas de pesquisa e
extensão em trabalho conjunto com produtores. A Companhia Estadual de Silos e
Armazéns do Rio Grande do Sul (CESA), a EMATER/RS e EMBRAPA/SC têm obtido
êxito junto a pequenos produtores e núcleos comunitários, oferecendo-lhes tecnologia
para pequenos silos e secadores comunitários, que são utilizados para o processamento
de milho, feijão, trigo, cevada, alfafa, erva-mate e raspas de mandioca. No
Departamento de Engenharia Agrícola da UFV, encontra-se à disposição do agricultor
tecnologia para a fabricação de silos em ferro-cimento e solo-cimento, com contenção
de tela metálica e impermeabilização plástica, com capacidade estática variada. Devido
ao baixo custo e à facilidade de manuseio, estes silos podem ser amplamente utilizados
por pequenos e médios produtores de grãos.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 13


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

5. COMERCIALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

Em virtude da inadequação da rede armazenadora brasileira, a comercialização


de grãos, principalmente por pequenos e médios produtores, é realizada imediatamente
após a colheita, ou até mesmo antes dela, resultando em perdas na colheita, no
transporte e no valor do produto.
Em grande parte, os produtos são colhidos antes de atingirem a umidade ideal
para colheita, o que facilita a ocorrência de danos físicos aos grãos e ataque de pragas.
O sistema rodoviário é responsável por grande parte do escoamento da produção
agrícola brasileira. A precariedade das rodovias (ABAG, 1993) implica elevação de
50% no consumo de combustíveis e 38% no custo operacional dos veículos de carga.
Do mesmo modo que a estrutura da armazenagem brasileira não é totalmente
adequada e eficiente, a estrutura de transporte de cargas não é apropriada e apresenta a
seguinte composição: 63% rodoviária, 22% ferroviária, 12% cabotagem e 3%
hidroviária.
Apesar de o frete rodoviário implicar elevações de custo, que muitas vezes
causam a perda na competitividade do produto brasileiro (a exemplo da soja), a maior
parte da produção é comercializada durante o período de safra, provocando elevação
nos preços dos fretes rodoviários de até três vezes o praticado no período da entressafra.
O desgaste das rodovias, o grande movimento de veículos de carga e o acúmulo
de caminhões nas unidades coletoras, que resultam da necessidade de deslocamento
imediato da safra, implicam maiores custos e riscos para o produtor, o qual ainda arca
com o ônus de estar transportando grande massa de água e impurezas, uma vez que o
produto não foi processado na fazenda.
A estrutura em que se apóia a pequena produção de grãos, particularmente a de
produtos alimentares como arroz, feijão e milho, processados em pequenas quantidades
e em unidades impróprias, dispersas espacialmente, sujeitos a limitações de capital e
dependentes da obtenção de créditos, contribui para agravar as deficiências do sistema
de comercialização. O caminho percorrido pelo produto segue, na maioria das vezes,
complicadas trajetórias entre a área de produção e os armazéns terminais ou centros
consumidores.
Esse “passeio” do produto, sob condições inadequadas, compromete sua
qualidade e contribui para a elevação das perdas.
Em mercados desenvolvidos, produção e consumo estão separados no espaço e
no tempo. Entre produtores e consumidores existem muitos intermediários, como
transportadores, processadores e armazenadores, que realizam com eficiência a
movimentação dos produtos das regiões produtoras para os centros consumidores.
Em se tratando da pequena produção, os produtores que se associam às
cooperativas ou integram-se aos complexos agroindustriais conseguem melhores
condições para produzir e comercializar sua produção e, conseqüentemente, melhorar
seu nível de renda.
As constantes flutuações de preços dos produtos agrícolas causam desequilíbrio
na oferta, na procura e na renda do produtor. A instabilidade dos preços leva os
produtores, principalmente os pequenos, a formar expectativas pouco otimistas quanto à
renda futura, incentivando-os cada vez mais a se precaverem no sentido de reduzir os

14 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

riscos. As várias limitações defrontadas pelos pequenos produtores, as constantes


flutuações dos preços e o baixo nível de renda por eles auferidos resultam em falta de
estímulo para produzir e investir em novas tecnologias.
A armazenagem na fazenda não só beneficia os produtores, como também
contribui para a redução dos problemas de comercialização das safras agrícolas. Se
forem previstas corretamente as demandas futuras em relação às ofertas e se for
armazenada a quantidade “correta”, os preços irão subir na entressafra somente o
suficiente para cobrir os custos da estocagem desde a colheita até o período em que os
produtos forem ofertados ao mercado.
A implementação de uma política agrícola voltada para a armazenagem na
fazenda e para a implantação de unidades armazenadoras em regiões produtoras onde a
demanda de armazenagem seja elevada contribuirá para a elevação do nível de renda do
produtor, que terá redução nas perdas e nos riscos decorrentes das flutuações dos preços
e estará contribuindo para o desenvolvimento da comercialização. Por outro lado, tal
política favoreceria também os consumidores, que contariam com o abastecimento
contínuo e se beneficiariam com preços mais estáveis.
Ao considerar os aspectos relativos ao crédito para comercialização, verifica-se
que, nos últimos anos, o programa governamental tem se concentrado na Política de
Garantia de Preço Mínimo (PGPM), que visa reduzir os riscos dos preços a que os
produtores estão sujeitos. O Preço Mínimo de Garantia é estabelecido pelo Governo e
divulgado anualmente antes da época de plantio. Se o preço de mercado for inferior ao
PMG, por meio das Aquisições do Governo Federal (AGF), o governo garante a compra
dos produtos que irão compor seus estoques.
No Brasil, buscando ampliar a participação da iniciativa privada na
comercialização dos produtos agrícolas, no final dos anos 80, o Governo Federal criou o
Preço de Liberação de Estoque (PLE), visando estabelecer um limite a partir do qual irá
vender seus estoques. Tal limite será determinado pela igualdade entre o PMG e o PLE.
A CONAB coloca à disposição do Governo Federal os seguintes instrumentos
para sustentação da Política de Garantia de Preços Mínimos – PGPM:
1. AGF (Aquisição do Governo Federal). O produto limpo, seco e classificado,
deve ser posto em armazém credenciado pela CONAB. É disponibilizado para
produtores e cooperativas e o acesso ocorre através da CONAB ou da agência local do
Banco do Brasil.
2. EGF/SOV (Empréstimo do Governo Federal/Sem Opção de Venda). O
produto deve ser colocado em armazém credenciado, sob ordem do banco credor. O
valor do empréstimo é calculado de acordo com o preço mínimo do produto em
garantia. Os bancos têm adotado a praxe de conceder empréstimo no valor máximo de
70% do preço mínimo em vigor. É disponibilizado para produtores e cooperativas e o
acesso ocorre através do agente financeiro interessado em operar com a PGPM.
3. EGF – Indústria. O setor de processamento faz o contrato de EGF com o
agente financeiro de sua preferência, com o valor limitado a 50% da capacidade de
produção. Deve ser comprovado o pagamento de, pelo menos, o preço mínimo ao
produtor. Estão incluídos todos os produtos amparados pela PGPM, exceto arroz e soja.
O acesso ocorre através de contato direto entre o produtor/cooperativa e o
processador/industrial interessado.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 15


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

4. CPR (Cédula do Produto Rural). Processadores de produto podem contratar


financiamento para aquisição de CPR com o agente financeiro interessado. Toda CPR
deve estar vinculada a uma promessa de entrega de produto do produtor/cooperativa, em
uma data acertada entre as partes. Produtos autorizados: algodão, arroz, milho e trigo. O
acesso ocorre através do agente financeiro (financiamento para aquisição mediante a
apresentação da CPR).
5. PEP (Prêmio de Escoamento de Produto). O Governo Federal, através da
CONAB, faz leilão público de um prêmio aos interessados em adquirir produto
diretamente do produtor/cooperativa. O prêmio é representado pela diferença entre o
“valor de referência” fixado e o preço de mercado. O arrematante do PEP compromete-
se a utilizar o produto contemplado em regiões de destino previamente determinadas
pelo aviso correspondente. O objetivo é garantir o valor de referência ao produtor e à
cooperativa, viabilizando o abastecimento do mercado interno.
6. CONTRATO DE OPÇÃO. Trata-se de uma modalidade de seguro de preço
bastante difundida em países com mercados agrícolas mais desenvolvidos. Esse contrato
é o de Opção de Venda, que dá ao produtor o direito – mas não a obrigação – de vender
a sua produção para o Governo, numa data futura, a um preço previamente fixado.
Serve para proteger o produtor contra os riscos de queda nos preços de seu produto. Os
produtos autorizados atualmente são: algodão, arroz, milho e trigo. Produtores
interessados, quando o programa estiver ativo em sua região, devem procurar um
corretor de bolsas de mercadorias para poderem participar dos leilões. O arremate
somente é possível àqueles que oferecem os maiores prêmios para os contratos.
7. EQUIVALÊNCIA EM PRODUTO. No financiamento do custeio o produtor
adquire o direito de pagar a sua dívida com o produto de sua colheita. O preço de
referência para a conversão da dívida em quantidade de produto é o preço mínimo. O
acesso se dá através dos financiamentos de custeio, por meio do PRONAF (Programa de
Fortalecimento da Agricultura Familiar). Os produtos autorizados atualmente são:
algodão, arroz, milho e trigo.
Ao incidir sobre o valor dos produtos e principalmente sobre os produtos
alimentares básicos, o ICMS tem efeitos indesejáveis tanto para os produtores
(geralmente pequenos e médios) quanto para os consumidores de baixa-renda, que
gastam mais de 30% do total de sua renda em alimentação.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

1- A abertura da economia brasileira ao mercado internacional, no início da


década de 90, a implementação do plano de estabilização da economia (Plano Real) e a
implementação da Tarifa Externa Comum, em janeiro de 1995, para os países que
integram o Mercosul, fazem com que os responsáveis pela Política Agrícola passem a
desenvolver mecanismos de proteção dos produtos agrícolas brasileiros contra a
competição internacional.
2 - A colheita de supersafra nem sempre resulta em ganhos elevados para os
produtores, porque seus produtos perdem competitividade tanto no mercado interno
quanto no externo, devido às deficiências na rede armazenadora, na estrutura de
transportes e em todo o processo de comercialização.

16 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

3 - Medidas imediatas relacionadas à estrutura de armazenagem do País, visando


corrigir os problemas de má distribuição, aumentar a capacidade estática e,
principalmente, incentivar a armazenagem na fazenda, poderão trazer benefícios ao
setor agrícola e, especialmente, aos pequenos e médios produtores de grãos.
4 - Em especial, destacam-se alguns dos principais benefícios decorrentes do
incentivo à armazenagem na fazenda, para os pequenos e médios produtores:
a) O produtor que dispõe de um sistema de armazenagem em sua propriedade
poderá programar a melhor forma para comercializar sua produção, ficando habilitado,
inclusive, a utilizar os sistemas de EGF e AGF.
b) Não se concentrando no período da colheita, a distribuição e a venda dos
produtos agrícolas, ao longo do ano, possibilitarão a obtenção de melhores preços na
comercialização, resultando na diminuição das pressões da demanda por transportes,
contribuindo para a redução de custo dos fretes e descongestionamento das rodovias e
unidades coletoras.
c) Sendo a secagem dos produtos realizada na propriedade agrícola (veja
capítulo 5, Secagem e Secadores), menor volume de combustível (óleo, gás, lenha ou
carvão) será consumido, quando comparado àquele consumido nas grandes unidades
armazenadoras. Por exemplo, uma redução no consumo de lenha permitirá um melhor
manejo das áreas destinadas ao plantio de eucaliptos para essa finalidade. A redução da
poluição nas regiões onde se localizam as grandes unidades armazenadoras,
principalmente aquelas próximas aos grandes centros urbanos, é um benefício para o
meio ambiente, trazido pela armazenagem na fazenda.
d) Armazenando o produto na propriedade e processando-o adequadamente, o
produtor poderá cuidar melhor de sua produção. Produto com conteúdo umidade
correto, livre de impurezas e armazenado em local adequado, conserva as características
semelhantes àquelas observadas no momento da colheita. Assim, além de preservar a
qualidade dos grãos armazenados, estes cuidados irão resultar em diminuição das perdas
de grãos na propriedade, beneficiando o produtor no momento da comercialização, não
só por dispor de um produto de boa qualidade, mas também pela redução no volume de
perdas.
5 – O Brasil tem, atualmente, capacidade para armazenar cerca de 90 milhões de
toneladas de grãos, nas mais variadas condições, com poucas apresentando
características técnicas ideais. Dos armazéns existentes, quase a metade é do tipo
convencional, e, destes, cerca de 70% encontram-se abaixo do padrão técnico médio
exigido para a boa conservação dos produtos agrícolas.

7. LITERATURA CONSULTADA

1. ABAG - ASSOCIACÃO BRASILEIRA DE AGRIBUSINESS. Segurança


alimentar: uma abordagem de agribusiness. São Paulo, Edições ABAG,
1993.162 p.

2. AGUIAR, D.R.D. Políticas agrícolas: objetivos, instrumentos e eficácia. viçosa,


DER/UFV, 1994.18p. (Apostila)

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 17


Capítulo 1 Armazenagem e Comercialização de Grãos no Brasil

3. ALVES, E. Pobreza rural no Brasil: desafios da extensão e da pesquisa. Brasília,


CODEVASF, 1987.79p.

4. BARBOSA, T. A pequena produção no Brasil e suas perspectivas. Informe


Agropecuário. Belo Horizonte, 14(157): 5-l0, 1988.

5. BARROS, G.S.C. de. Economia da comercialização agrícola. Piracicaba, FEALQ,


1987.306p.

6. CONAB - COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Previsão e


acompanhamento de safras. (Acompanhamento da safra 93/94). Brasília, nº 5,
julho, 1994. 44p.

7. BROOKER, D.B; BAKKER-ARKEMA, F.W. & HALL,C.W. Drying and storage


of grains and oilseeds. New York, An AVI BOOK, 1992. 450p.

8. CONAB - COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Indicadores da


Agropecuária. Brasília, Ano VIII -Nº 04, Abril/1999. 45p.

9. CONAB - COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO. Indicadores da


Agropecuária. Brasília, Ano VIII -Nº 05, maio/1999. 44p.

10. FIBGE - FUNDAÇÃO INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E


ESTATÍSTICA. Censo Agropecuário do Brasil. Rio de Janeiro. 1970 a 1985.

11. GASQUES, J.G. e VILLA VERDE, C.M. Crescimento da agricultura brasileira


e política agrícola nos anos oitenta. Brasília, IPEA, 1990. 21p. (série Texto
Para Discussão).

12. MARA - MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, DO ABASTECIMENTO E DA


REFORMA AGRÁRIA. Programa nacional de armazenagem a nível da
propriedade agrícola. Brasília, março, 1993. 39p.

13. SANTOS, M. L. dos. Abastecimento alimentar e o pequeno produtor. São


Paulo, USP, 1993. 201p. (Tese D.S.).

18 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo

2
ESTRUTURA, COMPOSIÇÃO E PROPRIEDADES DOS GRÃOS

Paulo César Corrêa


Juarez de Sousa e Silva

1. INTRODUÇÃO

Uma noção sobre estrutura, composição e propriedades físicas dos produtos


agrícolas com grãos e derivados, deve ser pré-requisito para o estudo sobre secagem e
armazenamento destes produtos. Por exemplo, para aumentar o teor de água ou secar
determinado produto, o fluxo de água, em forma de vapor, necessariamente deve passar
pelas várias camadas dos diferentes tecidos celulares que formam as sementes. Isto
significa que, dependendo da composição química dessas camadas, o produto pode
apresentar diferentes características quanto ao equilíbrio higroscópico com o ambiente
onde estiver armazenado. Assim, os grãos oleaginosos, como soja, amendoim e girassol,
devem apresentar teor de umidade mais baixo do que os grãos amiláceos, como arroz,
milho, trigo e sorgo, quando armazenados sob as mesmas condições atmosféricas.
O rompimento da película externa da semente provoca aumento na taxa de
ganho ou perda de água. Esta película externa protege o grão contra o ataque de
microrganismos e, em alguns casos, oferece resistência ao ataque de insetos.
Forma, tamanho, densidade e outras características físicas podem afetar o
desempenho das máquinas de limpeza, de secagem e de beneficiamento, enquanto a
proporcionalidade relativa entre os componentes químicos das sementes pode afetar as
características indispensáveis à industrialização, como ocorre com o milho dentado e o
milho duro, durante a separação do gérmen.

2. ESTRUTURA E FUNÇÕES DOS GRÃOS

As sementes das monocotiledôneas (milho, arroz, trigo etc.) e das dicotiledôneas


(soja, feijão, café etc.) são formadas basicamente pelo tegumento e embrião (cotilédones
e eixo embrionário), além de um terceiro componente, denominado endosperma,
algumas vezes ausente. Do ponto de vista funcional, as sementes são compostas de uma
cobertura protetora (tegumento), um tecido meristemático (eixo embrionário) e um

19
Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos
tecido de reserva (endospermático, cotiledonar ou perispermático), cada parte exercendo
funções específicas.

2.1. Cobertura Protetora


Consiste na estrutura externa que delimita a semente. Pode ser composta apenas
pelo tegumento e, algumas vezes, também pelo pericarpo. O tegumento é uma cobertura
constituída por camadas celulares originárias dos integumentos ovulares. O pericarpo é
originário da parede do ovário e, em alguns casos, desenvolve-se intimamente ligado ao
tegumento, sendo impossível identificar qualquer ponto delimitante, como no caso das
sementes de várias gramíneas. Recebe, nestas, o nome de cariopse. As sementes das
espécies mais conhecidas apresentam tegumento seco.
A cobertura externa tem função protetora, reguladora e delimitante, como
especificado a seguir:
a) Manter unidas as partes internas da semente.
b) Proteger as partes internas contra choques e abrasões.
c) Servir como barreira à entrada de microrganismos.
d) Regular a velocidade de reidratação, evitando ou diminuindo os possíveis
danos causados pelas pressões desenvolvidas durante a embebição.
e) Regular a velocidade das trocas gasosas.
f) Regular a germinação, provocando dormência nas sementes, em alguns casos.

2.2. Tecido Meristemático


O eixo embrionário é a parte vital da semente, pois apresenta a capacidade de se
desenvolver, graças ao tecido meristemático presente em suas duas extremidades.
Devido a este fato, apresenta condições de, por meio das divisões celulares,
desenvolver-se em dois sentidos, ou seja, o das raízes e o do caule, e originar uma
plântula em condições de fixar-se no solo e fotossintetizar as substâncias necessárias a
seu desenvolvimento. O cotilédone funciona como tecido de reserva.
Nas dicotiledôneas, o embrião maduro é constituído pelo eixo embrionário e por
duas estruturas foliares, os cotilédones. A parte do eixo situada abaixo da inserção dos
cotilédones (nó cotiledonar) é denominada hipocótilo, enquanto a porção terminal
inferior dá origem ao primórdio da raiz ou radícula. Este primórdio é representado pelo
meristema apical da raiz e é revestido pela coifa. A parte do eixo acima do nó
cotiledonar é formada pelo epicótilo e pela plúmula, sendo estas, por sua vez,
constituídas pela gema apical e por primórdios foliares (Figura 1A).
Nas monocotiledôneas há certa dificuldade de interpretação da morfologia do
eixo embrionário. Quando observado no interior de uma cariopse madura, o embrião
apresenta-se justaposto ao endosperma por meio de um cotilédone maciço, denominado
escutelo (Figura 1B).

2.3. Tecido de Reserva


O tecido de reserva das sementes pode ser constituído por endosperma,
cotilédones e, em alguns casos, pelo perisperma. É graças às substâncias acumuladas
nestes tecidos que o eixo embrionário, por ocasião da germinação, consegue energia e
material metabolizado para se desenvolver e originar uma plântula autotrófica, ou seja,

20 Secagem e Armazenagem de Grãos no Brasil


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos

aquela capaz de sintetizar suas próprias substâncias orgânicas por meio da fotossíntese.

Figura 1 - Estruturas básicas das sementes de feijão (A) e milho (B).

2.3.1. Localização das Reservas


As substâncias de reserva da semente podem se localizar no endosperma, nos
cotilédones ou no perisperma.
Endosperma: é encontrado em quantidade variável nas sementes e resulta da
fusão dos núcleos polares com um núcleo espermático do grão de pólen, iniciando um
processo contínuo de divisões celulares. Quando completamente desenvolvido, sua
estrutura varia consideravelmente. Devido ao fato de ter sido utilizado parcial ou
completamente para o desenvolvimento do embrião, o endosperma pode não apresentar
substâncias de reserva. Em muitas plantas, porém, o endosperma se diferencia como
tecido de reserva a ser consumido por ocasião da germinação. O material mais
comumente armazenado é o amido, mas o endosperma pode armazenar outros
carboidratos, assim como óleos e proteínas.
Nas sementes dos cereais, a camada de aleurona encontrada na periferia do
endosperma é viva. Esta camada, além de outros componentes, é rica em proteínas, que
se encontram sob duas formas principais: glúten e grãos de aleurona. Durante a
germinação, estes servem como substância de reserva e auxiliam a degradação do
amido, ativando o processo germinativo das sementes.
Cotilédones: originam-se do próprio zigoto e, juntamente com o eixo
embrionário, são partes do embrião. Os cotilédones podem armazenar substâncias de
reserva e/ou sintetizá-las. Algumas plantas apresentam cotilédones bem delgados, que
não armazenam reservas, mas tornam-se verdes e passam a realizar a fotossíntese após
emergirem do solo. Outras plantas, como a maioria das leguminosas, apresentam
cotilédones volumosos e armazenam quantidade apreciável de reservas alimentares.
Sendo parte do embrião, os cotilédones são tecidos vivos, ou seja, dispõem de todo o
aparato enzimático necessário para promover a degradação e o transporte de suas
próprias substâncias de reserva, a fim de nutrir o crescimento do eixo embrionário
durante o processo de germinação.
Perisperma: resulta de parte da nucela que se conservou, isto é, que não foi
totalmente absorvida pelo embrião durante o seu desenvolvimento. O perisperma é

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 21


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos
comumente encontrado como tecido de reserva em sementes de café e beterraba.

2.3.2. Composição das Sementes


As principais substâncias armazenadas pelas sementes são carboidratos, lipídeos
e proteínas. O principal carboidrato de reserva nas sementes é o amido. Quando o amido
é a substância de reserva predominante, a semente é denominada amilácea. As sementes
são denominadas oleaginosas quando os lipídeos são as substâncias de reserva
predominantes e protéicas quando estas substâncias são as proteínas. As principais
proteínas de reserva são glúten e grãos de aleurona. Em pequenas quantidades, podem
ainda ser encontrados minerais, vitaminas e outras substâncias. Em geral, as sementes
de gramíneas possuem alto teor de carboidratos, e as das leguminosas, alto teor de
proteínas.
Na Tabela 1 encontram-se as composições químicas aproximadas de sementes
de algumas espécies de interesse econômico. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Semente)

3. PROPRIEDADES FÍSICAS, TÉRMICAS E DIELÉTRICAS DOS GRÃOS

O conhecimento das características físicas dos produtos agrícolas e dos seus


princípios tem grande importância para a construção e operação de equipamentos de
secagem e armazenagem, bem como para a adaptação de equipamentos já existentes,
visando obter maior rendimento nas operações de processamento.

TABELA 1 - Composição aproximada das sementes de algumas espécies de interesse


econômico

Espécie Carboidratos (%) Lipídeos (%) Proteínas (%)


Algodão 15 33 39
Amendoim 12 48 30
Arroz 65 2 16
Feijão 57 1 23
Milho 64 5 10
Soja 18 25 38
Trigo 70 2 11
Girassol 19 26 18
Sorgo 72 4 10
Mamona 0 64 18

3.1. Ângulo de Repouso


Pode ser definido como o ângulo máximo do talude formado pelos grãos em
relação à horizontal (Figura 2) e é altamente influenciado pelo teor de umidade, pelo
tamanho, pela forma e pela constituição externa do grão. O conhecimento do valor do
ângulo de repouso dos grãos é importante para a determinação da capacidade estática
dos silos, da capacidade de correias transportadoras e do dimensionamento de moegas,
dutos e rampas de descarga de grãos.

22 Secagem e Armazenagem de Grãos no Brasil


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos

Figura 2 – Representação esquemática do ângulo de repouso.

Existem vários dispositivos para a determinação do ângulo de repouso. Dentre


eles, um dispositivo simples (Figura 3) consiste em um tambor provido de uma abertura
no fundo, sobre o qual se eleva uma plataforma circular, de raio conhecido. Com uma
abertura gradual do registro, forma-se um cone de grãos sobre a plataforma. O ângulo
de repouso pode ser calculado pelo arco-tangente do quociente do dobro da altura do
cone pelo raio da plataforma, conforme a equação 1.
A Tabela 2 fornece os valores de ângulo de repouso para diferentes espécies de
grãos ou sementes.

Figura 3 - Dispositivo para determinação do ângulo de repouso.

 2h 
α = arc tg   eq.1
 d 
em que:
h = altura do talude natural dos grãos;
d = diâmetro da plataforma circular, e
α = ângulo de repouso dos grãos.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 23


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos
TABELA 2 - Ângulo de repouso ou de talude natural (em graus), de algumas espécies
de grãos

Umidade Ângulo de Umidade Ângulo de


Produto Produto
(%b.u.) repouso (o) (%b.u.) repouso (o)
Arroz 12-16 36,0 Milho 7,5 34,0
Soja 12-16 30,0 13,0 34,9
Cevada 7,9 29,0 16,2 35,1
10,7 30,5 19,5 39,0
13,3 31,0 23,1 43,5
16,2 32,2
19,5 33,0 Trigo 7,3 29,6
23,1 33,8 11,0 29,3
14,1 31,0
17,1 35,6
19,3 41,0
Fonte: BROOKER et al., 1974.

Clique para ver: vídeo 1 vídeo 2

3.2. Massa Específica Granular


Também conhecida como peso hectolítrico (PH) ou densidade granular pode ser
definida como a razão entre a massa e o volume de determinada quantidade de produto,
incluindo os espaços intergranulares. Mais precisamente, o peso hectolítrico (PH)
corresponde à massa de 100 litros do produto. A aplicação do conceito de massa
específica granular se dá em comercialização, dimensionamento de silos, secadores,
depósitos e sistemas de transportes, podendo também ser utilizado para determinar
teores de umidade e danos causados por insetos e pragas nos grãos armazenados. No
caso do trigo, ele é um importante índice de avaliação do rendimento em farinha.
Para determinar a massa específica granular de um determinado produto, utiliza-
se um volume conhecido de grãos e pesa-se a massa deste volume. No mercado existem
aparelhos mais apropriados e conhecidos para determinar a massa de um volume de
grãos, os quais são conhecidos como balanças de peso hectolítrico (Figura 4), com
capacidade de até 1,0 litro.

24 Secagem e Armazenagem de Grãos no Brasil


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos

Figura 4 – Balança para determinação do peso hectolítrico (PH).


A utilização de balanças com cilindros de maiores volumes e operada segundo
as normas do fabricante fornece resultados mais próximos do real. A Tabela 3 fornece
os valores de massa específica granular para diferentes espécies de grãos em diferentes
teores de umidade, e a Tabela 4 dá valores da massa específica granular para grãos em
condições de armazenagem. A aplicação do conceito de peso hectolítrico será vista no
capítulo 12 – Manuseio de Grãos.

TABELA 3 - Massa específica granular, em kg.m-3, de algumas espécies de grãos

Massa Massa
Grãos Umidade Grãos Umidade
Específica Específica
(%b.u.) (%b.u.)
Granular Granular
Cevada1 7,9 585,0 Arroz1 12,0 586,0
10,8 593,0 14,0 588,0
13,3 593,0 16,0 605,0
16,6 577,0 18,0 615,0
19,5 569,0 Trigo1 7,3 790,0
1
Milho 7,3 753,0 11,0 790,0
13,0 737,0 14,1 756,0
16,2 721,0 17,1 727,0
19,5 689,0 19,3 703,0
24,9 656,0 Milho 12,5 769,2
Sorgo1 6,8 753,0 BR 2012 13,9 762,5
12,0 753,0 14,8 757,8
14,3 753,0 16,7 749,8
18,6 737,0 18,1 737,3
22,1 721,0 20,3 714,2
Milho-Pipoca3 10,2 783,1 23,5 696,0
11,5 772,0 25,9 679.8
11,7 769,0 27,4 669,8
14,2 764,9 Am. de 12,8 855,8
17,2 750,6 cacau4 17,2 916,8
23,5 696,0 18,7 851,1

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 25


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos
25,9 679,8 20,0 897,1
27,4 669,8 25,6 936,8
Café em coco5 12,1 387,5 30,2 937,4
16,9 394,7 42,6 942,5
23,3 400,8 51,3 999,5
30,9 418,1 Girassol6 10,8 400,1
40,2 466,9 13,2 392,7
47,2 516,9 15,9 350,7
59,3 550,5 19,7 339,6
65,4 566,7 23,8 336,1
(1) BROOKER et al., 1974; (2) FRANCESCHINI et al., (1995); (3) RUFFATO et al., 1999; (4) ALMEIDA, 1979; (5)
AFONSO, 1994; (6) BRAGA FILHO, 1986.
-3
TABELA 4 - Massa específica granular, em kg.m , utilizada em cálculos de
“cubagem”, segundo USA (umidade comercial).

Espécie Massa Específica Granular (kg m-3)


Cevada 618,0
Milho 721,0
Aveia 412,0
Canola 644,0
Arroz 579,0
Sorgo 721,0
Soja 772,0
Girassol 309,0
Trigo 772,0
Fonte: BROOKER et al., 1992

3.3. Porosidade
É a relação entre o volume ocupado pelo ar existente na massa granular e o
volume total ocupado por esta massa. Tem grande influência sobre a pressão de um
fluxo de ar que atravessa a massa de grãos, refletindo-se no dimensionamento dos
ventiladores, nos sistemas de secagem e aeração e na potência dos motores.
A porosidade pode ser determinada despejando-se um volume conhecido de
tolueno ou outro fluido, como óleo de soja, em um recipiente graduado contendo
determinado volume de grãos. Pela diferença, obtém-se o espaço granular. A porosidade
pode também ser determinada por meio de picnômetros. O esquema de um modelo
mostrado na Figura 5 é simples e fornece resultados iguais aos de equipamentos mais
sofisticados. O equipamento deve ser operado da seguinte forma:

a) Primeiramente certificar-se de que o volume da câmara 1 seja igual ao


volume da câmara 2 e que todo o sistema esteja hermético.
b) Colocar uma amostra de grão na câmara 2.
c) Com a válvula 1 aberta e a válvula 2 fechada, fornecer ar a uma determinada
pressão.
d) Fechar a válvula 1, esperar que o sistema entre em equilíbrio e fazer a leitura
de P1.

26 Secagem e Armazenagem de Grãos no Brasil


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos

e) Fechar a válvula 3, abrir a válvula 2, esperar que o sistema entre em


equilíbrio e fazer a leitura P2.
f) Porosidade = V2/V1 = (P1-P2)/P2.

A Tabela 5 fornece os valores de porosidade para diferentes tipos de grãos ou


sementes em diferentes teores de umidade.

Figura 5 - Esquema de um picnômetro.

TABELA 5 - Porosidade, em %, de algumas espécies de grãos

Grão Umidade Porosidade Grão Umidade Porosidade


(%b.u.) (%) (%b.u.) (%)
Arroz1 12,0 59,6 Milho 13,4 40,1
14,0 59,3 14,9 39,6
16,0 57,9 16,8 40,5
18,0 56,9 19,4 42,7
Sorgo1 14,3 42,0 22,7 48,7
18,6 43,0 Milho 25,4 50,9
22,1 45,5 BR 2012 26,9 51,3
Milho-
10,2 41,8 28,4 51,7
pipoca3
6
11,5 42,1 Canola 6,5 38,4
12,4 42,2 6,7 38,9
14,4 42,3 Trigo duro6 9,8 42,6
Trigo
19,4 43,8 9,8 39,6
mole6
Amêndoas
12,8 51,8 Milheto6 9,4 36,8
de cacau4
5
17,2 53,3 Girassol 10,8 44,5
18,7 50,7 15,9 45,5
20,0 49,1 19,7 56,5
30,2 45,4 23,8 49,7
42,6 44,0 Soja1 7,0 36,1

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 27


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos
Aveia1 10,3 55,5

(1) BROOKER et al., 1974; (2) FRANCESCHINI et al., (1995); (3) RUFFATO et al., 1999; (4) ALMEIDA, 1979; (5) BRAGA
FILHO, 1986; (6) ASAE STANDARDS, 1998.

3.4. Velocidade Terminal


A partir do momento em que um corpo em queda livre alcança a velocidade
constante, a força do campo gravitacional é anulada, em termos, pelo efeito resultante
da força de arraste, ou seja, sua aceleração é nula. Esta velocidade atingida é
denominada velocidade terminal e é influenciada pela densidade, pelo tamanho e pela
forma do produto.
A determinação do valor da velocidade terminal real consiste em submeter uma
determinada quantidade de grãos a um fluxo de ar vertical e ascendente, fazendo com
que os grãos possam flutuar sem se deslocar de uma determinada seção de um duto
vertical (Figura 6). Ela pode ser definida como a velocidade que se pode impor ao ar
para que ele não arraste os grãos durante sua passagem em determinado processo. Esta
propriedade é utilizada no dimensionamento de sistemas de separação e limpeza,
transportes pneumáticos, secagem, resfriamento, seleção densimétrica, etc.

A velocidade do
ar que matem os
grãos flutuando é
conhecida como
velocidade

Figura 6 – Sistema para determinação da velocidade terminal.

3.5. Tamanho e Forma dos Grãos


O tamanho e a forma são características específicas de cada produto, definidas
geneticamente, que podem ser influenciadas pelo ambiente durante e após o período de
sua formação e que influencia as demais propriedades físicas do produto. Esses dados
são utilizados para o dimensionamento do tamanho e da forma dos furos das peneiras
em equipamentos destinados à separação e classificação.
O tamanho é determinado pelas medições dos eixos perpendiculares do grão, e,
quanto mais irregular, maior o número de medições (Figura 7). Já a forma é
determinada pela comparação com um formato-padrão predeterminado. Por exemplo, o
grão é comparado visualmente com formas esférica, cilíndrica, oval, cônica, etc.

28 Secagem e Armazenagem de Grãos no Brasil


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos

A circularidade e a esfericidade são os principais parâmetros a serem definidos,


ou seja, quanto mais próximos da unidade estiverem estes valores, mais próximos de um
círculo ou de uma esfera estará o grão em estudo. A circularidade é a razão entre a
maior área projetada do grão em repouso natural (Ap) e a área do menor círculo
circunscrito (Ac). Já a esfericidade é a razão entre o diâmetro do maior círculo inscrito
(di) e o diâmetro do menor círculo circunscrito (dc) (Figura 8). A Tabela 6 mostra
valores de X, Y e Z para algumas espécies de grãos.

Figura 7 –Eixos perpendiculares para avaliação do tamanho.

Figura 8 – Determinação aproximada da esfericidade e da circularidade.

TABELA 6 - Forma e tamanho de algumas espécies de grãos

Grão Umidade (%b.u.) Esfericidade Y X Z


(%) (mm) (mm) (mm)
Cevada 7,8 44,5 10,4 3,5 2,7
Linho 6,5 45,1 5,2 2,6 1,0
Aveia 8,7 34,2 12,9 2,9 2,3
Arroz 8,9 46,7 8,5 3,1 2,3
Trigo 7,7 61,5 6,6 3,2 3,1
Alfafa 5,8 65,6 2,3 1,5 1,0

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 29


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos
6,3 63,4 2,4 1,4 1,0
6,6 63,3 2,5 1,4 1,0
Milheto 9,2 84,7 4,3 4,1 2,8
Fonte: MOSHENIN, 1978.

3.6. Condutividade Térmica


Denomina-se condutividade térmica a taxa de calor que flui por condução
normal a uma superfície e por unidade de tempo, quando é estabelecido um gradiente de
temperatura entre esta superfície e outra paralela.
Esta propriedade dos materiais biológicos é variável segundo o próprio produto,
o seu teor de umidade e a temperatura. A condutividade térmica dos grãos e das
sementes de cereais, normalmente, varia direta e linearmente com o seu teor de umidade
na faixa de 0 a 35 % (b.u.) e para temperaturas de 20 a 45 0C.
A determinação desta propriedade para os produtos agrícolas torna-se bastante
complexa, devido, principalmente, ao transporte simultâneo de calor e massa e às
alterações químicas e de estrutura que podem ocorrer nas diversas operações unitárias
que compõem o processamento e durante a sua conservação pós-colheita. São
utilizados, basicamente, dois métodos para se determinar a condutividade térmica: o
estacionário e o transiente.
Os dois métodos consistem na solução da equação básica da difusão de calor
para um regime estacionário ou transiente em placas paralelas, cilíndricas ou esferas
concêntricas contendo a amostra do produto em estudo.Usualmente adota-se o método
de estado transiente para determinar a condutividade térmica de produtos agrícolas,
devido a grande vantagem deste em requerer menor tempo de teste e apresentar maior
precisão dos resultados.
A determinação em regime estacionário não é muito recomendável
principalmente devido ao longo período de tempo necessário para atingir este regime,
possibilitando a migração de umidade devido à diferença de temperatura no grão
durante um longo período de tempo, podendo ocorrer transformações físico-químicas no
produto durante os testes.
Reidy e Rippen (1971) discutindo sobre os métodos de determinação das
propriedades térmicas em estado transiente concluíram que o método mais adequado
para grãos, é o método do cilindro teoricamente infinito com fonte linear de
aquecimento. Este método consiste na utilização de um cilindro de alumínio (Figura 9)
com diâmetro e comprimento pré-determinado, tendo no centro um fio condutor pelo
qual passa-se uma corrente com baixa amperagem e voltagem.

30 Secagem e Armazenagem de Grãos no Brasil


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos

Figura 9 - Esquema do dispositivo para determinação da condutividade térmica.

O cilindro teoricamente infinito é uma idealização que possibilita adotar a


hipótese da condução unidimensional na direção radial, sendo considerado uma
aproximação razoável se a razão entre o comprimento e o raio do cilindro for igual ou
inferior a 10.

3.7. Difusividade Térmica


A difusividade térmica pode ser definida como uma propriedade que expressa a
capacidade de um dado material em transmitir e o quanto ele armazena de energia.
Esta propriedade, nos produtos agrícolas, normalmente diminui com o aumento do
teor de umidade, pelo fato de a difusão térmica da água ser superior à destes produtos. O
método para se obter a difusividade térmica consiste na determinação conjunta desta
propriedade e da condutividade térmica, utilizando-se o processo da fonte linear
(método transiente) ou de forma indireta através da Equação 2:

k
α= eq. 2
ρ cp
em que:
cp = calor específico;
k = condutividade térmica;
ρ = massa específica; e
α = difusividade térmica.

3.8. Calor Específico


O calor específico de um corpo pode ser definido como a quantidade de energia
necessária para variar uma unidade de temperatura em uma unidade de massa de algum
produto. Os principais processos para a determinação do calor específico são:
a) relação indireta entre a condutividade térmica, a massa específica e a
difusividade térmica;
b) método de misturas;
c) calorímetro de varredura diferencial;

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 31


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos
d) calorímetro de gelo; e
e) bomba calorimétrica.

O primeiro método é indireto e consiste na determinação inicial da


condutividade térmica, da massa específica e da difusividade térmica do produto. Os
demais métodos citados são baseados no equilíbrio térmico estabelecido entre a amostra
cujo calor específico será determinado e uma outra substância com esta propriedade
conhecida.
A metodologia mais utilizada para a determinação do calor específico dos grãos
e sementes é o método de misturas com o auxílio do calorímetro (Figura 10).
Neste método, o produto com massa e temperatura previamente determinadas
são colocadas dentro de um calorímetro com capacidade calorífica conhecida contendo
água com temperatura e massa conhecidas. O calor específico é determinado pelo
balanço de calor cedido e recebido pela água e o calorímetro e aquele perdido ou ganho
pelo produto.

Figura 10 - Desenho esquemático do calorímetro.

3.9. Resistência Elétrica


Quando uma corrente elétrica flui através de um condutor, há uma relação direta
entre a diferença de potencial no condutor e a intensidade da corrente, ou seja, a razão
entre a voltagem e a corrente é igual a uma constante, conhecida como a resistência
deste condutor. Esta relação, denominada Lei de Ohm, se resume na seguinte expressão:

R =V / I eq. 3
em que:

R = resistência elétrica;
V = voltagem; e
I = corrente.

Os metais, em sua maioria, são bons condutores de eletricidade, por


apresentarem baixa resistência elétrica; nos produtos agrícolas esta propriedade está
intimamente relacionada com o teor de umidade. Com base neste princípio, vários
modelos de determinadores de umidade, principalmente para grãos e sementes, foram
projetados e atualmente são bastante populares nos sistemas de comércio, na indústria e
na conservação destes produtos. O teor de umidade de uma amostra submetida à

32 Secagem e Armazenagem de Grãos no Brasil


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos

passagem de uma corrente elétrica é inversamente proporcional ao logaritmo da


resistência elétrica:

U = k (1 / log R ) eq. 4
em que:

U = teor de umidade;
K = constante para cada produto; e
R = resistência elétrica.

3.10. Propriedades Dielétricas


Os condensadores são constituídos de duas placas metálicas paralelas e
separadas por um material isolante chamado de dielétrico e são capazes de armazenar
cargas elétricas. Ao se conectar estas placas a uma fonte elétrica, uma das placas
adquire carga positiva, e a outra, carga negativa, originando uma diferença de potencial
entre elas, segundo a relação:

C = Q /V eq. 5
em que:

C = capacitância;
Q = carga; e
V = voltagem.
As propriedades dielétricas dos alimentos estão gradativamente chamando a
atenção dos setores de pesquisa e produção, principalmente devido aos processos de
aquecimento dielétrico e por microondas.
Nesse contexto, as propriedades de maior interesse são: a constante dielétrica, ε‘,
e o fator dielétrico de perda, ε”. A constante dielétrica, ε‘, de uma amostra é definida
como a relação da capacitância do material com a capacitância do ar ou do vácuo sob as
mesmas condições do ensaio. À medida que se aumenta a constante dielétrica, aumenta
a capacidade de armazenamento de energia do condensador. Assim, o processo de
medida da capacitância pode ser utilizado para medir as propriedades dielétricas.
A constante dielétrica depende de vários fatores do ambiente e de características
da amostra, principalmente a temperatura, o teor de umidade e a freqüência aplicada.
O fator dielétrico de perda, ε”, é a medida da energia que um componente
dissipará quando este é submetido a um campo elétrico alternado. Em um circuito de
corrente alternada com um condensador ideal, o ângulo entre a corrente e a voltagem é
de 90o. Quando um material dielétrico é introduzido no condensador, este ângulo
geralmente é reduzido. A redução medida em graus recebe o nome de ângulo de perda
(δ).
O fator de perda dielétrico pode ser relacionado com a constante dielétrica, pela
seguinte equação:
ε” = ε’ (tg δ) eq. 6

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 33


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos
A Tabela 8 fornece as propriedades elétricas de algumas espécies de grãos.

TABELA 7 - Propriedades térmicas de algumas espécies de grãos.

Calor Condutividade Difusividade


Umidade
Grão específico térmica térmica
(%b.u.)
(kJ kg-1 K-1) (W m-1 K-1) (m2 h-1) 10-4
Milho1 1,0 1,532 0,1405 3,67
5,1 1,691 0,1466 3,54
9,8 1,834 0,1520 3,55
14,7 2,026 0,1591 3,26
20,1 2,223 0,1636 3,12
24,7 2,374 0,1700 3,20
30,2 2,462 0,1724 3,33
Continuação da tabela 7
Trigo duro1 9,2 1,549 0,1402 4,14
Trigo mole1 9,2 1,398 0,1170 3,34
Cacau2 12,8 2,449 0,0918 5,40
17,2 2,567 0,0928 5,12
18,7 2,688 0,0970 4,99
20,0 2,738 0,0981 4,90
25,6 2,805 0,0991 4,72
30,2 2,876 0,1044 4,25
42,7 3,090 0,1259 4,64
51,3 3,538 0,1659 5,32
(1) ASAE STANDARDS, 1998; (2) ALMEIDA, 1979.

TABELA 8 - Propriedades dielétricas de algumas espécies de grãos

Espécie Umidade Freqüência (kHz)


(%b.u.) 0.25 1,0 5,0 10,0 20,0
Alfafa 6,8 ε’ 5,5 4,3 4,0 3,8 3,7
ε” 3,33 1,48 0,53 0,39 0,26
Milho 12,0 12,0 8,5 6,3 5,6 5,3
4,4 3,6 2,0 1,5 1,1
14,2 17,8 13,6 9,6 8,3 7,2
6,1 5,1 3,6 3,0 2,6
Algodão 7,9 10,5 8,1 4,8 3,9 3,4
(semente) 2,2 3,5 2,8 2,0 1,5
9,9 11,9 10,6 7,8 6,2 5,0
2,6 2,4 3,2 3,1 2,6
Sorgo 12,0 11,2 8,6 6,2 5,8 5,4
2,5 3,0 1,8 1,3 1,0
15,1 14,2 13,9 12,4 11,1 9,4
0,8 1,1 2,6 3,0 3,1

34 Secagem e Armazenagem de Grãos no Brasil


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos

Aveia 12,6 15,9 13,5 9,1 7,1 5,6


2,6 3,9 4,3 3,8 3,9
14,0 18,7 16,9 13,1 11,1 8,8
3,0 3,4 4,5 4,6 4,3
Soja 7,8 4,9 3,8 3,3 3,2 3,1
2,4 1,3 0.6 0,5 0,3
9,5 11,0 8,2 5,5 4,8 4,4
2,8 3,2 2,2 1,7 1,3
FONTE: ASAE STANDARS, 1998; ALMEIDA, 1979.

4. LITERATURA CONSULTADA

1. AFONSO, A.D.L. Gradiente de pressão estática em camadas de frutos de café


(Coffea arábica L.) com diferentes teores de umidade. Viçosa, 68p.
Dissertação (Mestrado em Engenharia Agrícola) Universidade Federal de
Viçosa, 1994.
2. ALMEIDA, B.V. Determinação das propriedades físicas de amêndoas de cacau
(Thebroma cacao L.). Viçosa, 70p. Dissertação (Mestrado em Engenharia
Agrícola) Universidade Federal de Viçosa, 1979.
3. ASAE. STANDARDS 1998. American Society of Agricultural Engineers. St.
Joseph, Michigan, 979p, 1998.
4. BRAGA FILHO, J.M. Curvas de secagem em camada delgada e propriedades
físicas de girassol (Helianthus annus L.). Viçosa, 100p. Dissertação (Mestrado
em Engenharia Agrícola) Universidade Federal de Viçosa, 1986.
5. BROOKER, D.B.; BAKKER-ARKEMA, E.W.; HALL, C.W. Drying cereal grains
and their products. Westport, Connecticut, The AVI Publishing Company, 265
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6. BROOKER, D.B.; BAKKER-ARKEMA, E.W.; HALL, C.W. Drying and storage
of grains and oilseeds. New York, The AVI Publishing Company, 450p.1992.
7. CARVALHO, N.M. & NAKAGAWA, J. Sementes: ciência, tecnologia e
produção. 3. ed. Campinas, Fundação Cargill, 1988. 424p.
8. COPELAND, L.O. Principles of seed science and technology. Minneapolis,
Burgess Publishing Company, 1976. 369p.
9. ESAU, K. Anatomia das plantas com sementes. São Paulo, Edgard Blücher, 1974.
293p.
10. FRANCESCHINI, A.S.; CORRÊA, P.C.; RAMOS, M.G. Determinação de
algumas propriedades físicas de milho híbrido BR-201. Revista Brasileira de
Armazenamento, Viçosa, v. 21, n0 1 e 2, p. 22-27, 1996.
11. http://pt.wikipedia.org/wiki/Semente em 28/05/2008
12. LEWIS, M.J. Physical properties of foods and food processing systems. Ellis

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 35


Capítulo 2 Estrutura, Composição e Propriedade dos Grãos
Harwood Ltd. Publisher, Chichester, England, 495p, 1993.
13. LUCENA, E.M.P & SILVA, J.S, Estrutura, composição e propriedades das
sementes. In: Pré-processamento de produtos agrícolas, Juiz de fora, Instituto
Maria, 1995. 509p.
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York, Gordon & Breach Sci. Pub.Inc., 1978. 742p.
15. Afonso Junior, Paulo Cesar. Aspectos físicos, fisiológicos e de qualidade do café
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16. POPINIGIS, F. Fisiologia da semente. 2.ed. Brasília, AGIPLAN, 1985. 289 p.
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18. SASSERON, J.L. Características dos grãos armazenados. Viçosa,
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19. RUFFATO, S.; CORRÊA, P.C.; MARTINS, J.H.; MANTOVANI, B.H.M.; SILVA,
J.N. Influência do processo de secagem sobre a massa específica aparente, massa
específica unitária e porosidade de milho-pipoca. Revista Brasileira de
Engenharia Agrícola e Ambiental, Campina Grande, v.3, 1999.

36 Secagem e Armazenagem de Grãos no Brasil


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

Capítulo

3
PRINCÍPIOS BÁSICOS DE PSICROMETRIA

Juarez de Sousa e Silva


Roberto Precci Lopes
Daniela de Carvalho Lopes
Ricardo Caetano Rezende

1. INTRODUÇÃO

A psicrometria ou higrometria é a parte da termodinâmica que trata da


quantificação do vapor de água presente na atmosfera. O ar é constituído por uma
mistura de gases (nitrogênio, oxigênio, dióxido de carbono, etc.), vapor de água e uma
série de contaminantes, como partículas sólidas em suspensão e outros gases. A
quantidade de vapor de água presente no ar ambiente varia de quase zero a
aproximadamente 4% em volume. O ar seco existe quando, do ar natural, removem-se
todo o vapor de água e os contaminantes. A composição do ar seco é relativamente
constante, apesar das pequenas variações em função da localização geográfica e
altitude. Essa composição média percentual é apresentada na Tabela 1.

TABELA 1 - Composição aproximada do ar seco

Conteúdo (% por
Componente Fórmula
volume)
Nitrogênio N2 78,084
Oxigênio O2 20,948
Argônio Ar 0,934
Dióxido de carbono CO2 0,033
Outros - 0,001

O conhecimento das condições de umidade do ar é de grande importância para


muitos setores da atividade humana, como o dimensionamento de sistemas para
acondicionamento térmico de animais e plantas, a conservação de frutas, legumes, ovos
e outros alimentos, os sistemas de refrigeração ou a estimativa de tempo e energia

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 37


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

requeridos por processos de secagem, armazenamento e processamento de grãos.


Às vezes, o índice de conforto térmico de uma atmosfera depende mais da
quantidade de vapor de água presente no ar do que da temperatura propriamente dita.
Desse modo, um aparelho de condicionamento do ar promove maior controle da
umidade e apenas pequenas variações no valor da temperatura do ambiente. Por tudo
isso, o estudo detalhado da mistura de ar seco (N2+O2+CO2+ outros) e vapor de água,
passou a ser uma disciplina específica, denominada psicrometria.

2. PROPRIEDADES DO AR ÚMIDO

As propriedades do ar úmido estão relacionadas à temperatura, quantidade de


vapor de água, volume ocupado pelo ar e energia nele contida.

Propriedades relacionadas à temperatura:


- temperatura do bulbo seco;
- temperatura do bulbo molhado; e
- temperatura do ponto de orvalho.
Propriedades relacionadas à umidade (massa de vapor d'água):
- pressão de vapor;
- razão de mistura;
- umidade específica;
- umidade absoluta;
- umidade relativa; e
- grau de saturação.
Propriedades relacionadas ao volume ocupado e à energia:
- volume específico; e
- entalpia.

2.1. Temperaturas de Bulbo Seco (t) e de Bulbo Molhado (tm)


A temperatura do bulbo seco (t) do ar é a temperatura medida com um
termômetro comum. Caso o termo temperatura seja usado sem uma especificação, o
leitor deve entendê-lo como sendo a temperatura de bulbo seco.
Outra medida importante de temperatura, quando se fala de secagem de grãos e
outros processos agrícolas, é a temperatura de bulbo molhado (tm). Para obtê-la, cobre-
se o bulbo de um termômetro comum, cujas características devem ser semelhantes às do
termômetro de bulbo seco, com um tecido de algodão embebido em água destilada. O
bulbo molhado deve ser ventilado, com o ar que se quer conhecer, a uma velocidade
mínima de 5 m.s-1. Uma observação deve ser feita em relação às temperaturas
psicrométrica e termodinâmica de bulbo molhado: a temperatura psicrométrica de bulbo
molhado (tm) é a temperatura do ar indicada pelo termômetro de bulbo molhado, como
descrito anteriormente; já a temperatura termodinâmica de bulbo molhado é aquela de
equilíbrio, alcançada quando o ar úmido sofre um processo de resfriamento adiabático,
devido à evaporação da água no ar, até atingir a temperatura da água, mantendo-se a
pressão constante. Na prática, estas temperaturas são consideradas iguais.
O conhecimento das temperaturas de bulbo seco e de bulbo molhado (t e tm),

38 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

expressas em graus Celsius (oC) e determinadas por meio de psicrômetros, permite, com
o uso de tabelas, gráficos ou equações, a determinação rápida da umidade relativa do ar.

2.2. Pressão Parcial de Vapor (pv) e Pressão de Saturação (pvs)


O vapor de água, como os gases componentes da atmosfera, exerce pressão em
todas as direções, pressão esta que depende da concentração do vapor.
A quantidade de vapor que pode existir em determinada atmosfera é limitada para
cada valor de temperatura. Temperaturas mais elevadas permitem a existência de maior
quantidade de vapor do que em um ambiente com temperaturas mais baixas. Quando o
ar contém o máximo de vapor de água permissível para determinada temperatura, diz-se
que o ar se encontra saturado e a pressão de vapor nessa circunstância é dita máxima ou
de saturação. Se a quantidade de vapor não é suficiente para saturar o ar, sua pressão é
chamada de pressão parcial de vapor.
A pressão de vapor de saturação pode ser calculada (em kPa), conhecendo a
temperatura (T em K), por meio da equação 1, que apresenta exatidão de 0,3% para
temperaturas entre 0 ºC e 100 ºC, ou pela equação 2, quando a faixa de temperatura
estiver entre 0 ºC e 374 ºC.

pvs = 6.1025/(1000 T5).exp(-6800 / T) eq. 1

pvs = (2,2087.107 exp((0,01/T) (647,286-T) ∑( Fi (0,65-0,01(T-273,16))i-1)) +


+ 1,412 exp (0,0386 (T-273,15)))/1000 eq. 2

em que
F1 = -741,9242; F2 = -29,7210; F3 = -11,552860; F4 = -0,8685635
F5 = 0,1094098; F6 = 0,4399930; F7 = 0,2520658; F8 = 0,05218684

2.3. Razão de Mistura (w)


É definida como a razão entre a massa de vapor de água e a massa de ar seco (g.
-1
g ) em dado volume da mistura. Seu cálculo depende da pressão de vapor e da pressão
atmosférica (pv e P), como mostra a equação 3:

w = 0,622 pv / (P - pv) eq. 3

2.4. Umidade Relativa (UR)


A umidade relativa do ar é a razão entre a pressão parcial de vapor exercida pelas
moléculas de água presentes no ar e a pressão de saturação, na mesma temperatura,
sendo normalmente expressa em porcentagem (equação 4).

UR = 100 pv / pvs eq. 4

2.5. Umidade Absoluta (Ua)


É a relação entre a massa de vapor de água e o volume ocupado pelo ar úmido (g.
-3
m ), expressa pela equação 5. Essa relação pode ser decomposta para o cálculo das
umidades absolutas do vapor de água e do ar seco (equações 6 e 7), respectivamente.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 39


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

Ua = (348,37 P – 131,69 pv) / T eq. 5

Uav = 216,68 pv / T eq. 6

Uad = 348,37 (P – pv)/T eq. 7

2.6. Umidade Específica (Ue)


É a relação entre a massa de vapor de água e a massa do ar úmido (g g-1), expressa
pela equação 8.

Ue = (0,622 pv)/(P – 0,378 pv) eq. 8

2.7. Grau de Saturação (Gs)


Expressa em porcentagem, esta propriedade relaciona a razão de mistura atual e
a razão de mistura do ar em condição de saturação, à mesma temperatura e pressão
(equação 9).

Gs = 100 w/ws eq. 9

2.8. Temperatura do Ponto de Orvalho (tpo)


É a temperatura em que o ar úmido se torna saturado, ou seja, quando o vapor de
água começa a condensar-se, por um processo de resfriamento, mantendo constantes a
pressão e a razão de mistura. A equação 10 pode ser empregada para calcular esta
propriedade e expressá-la em °C.

tpo = (186,4905 – 237,3 log10 (10 pv)) / (log10 (10 pv) – 8,2859) eq. 10

2.9. Volume Específico (ve)


É definido como o volume por unidade de massa de ar seco e expresso em m3 kg-
1
. A potência requerida pelo ventilador, em um sistema de secagem, é afetada pelo
volume específico do ar que pode ser calculado por meio da equação 11.

ve = 0,28705 T (1+ 1,6078 w) / P eq. 11

2.10. Entalpia (h)


A entalpia (h) de uma mistura ar seco e vapor de água é a energia contida no ar
úmido, por unidade de massa de ar seco, para temperaturas superiores a uma
determinada temperatura de referência (0oC). Como somente a diferença de entalpia
representa interesse prático em processamento de produtos agrícolas, o valor escolhido
para a temperatura de referência torna-se irrelevante. A entalpia, que é expressa em kcal
ou kJ por kg de ar seco, é muito importante para o dimensionamento de aquecedores e
sistema de secagem e composição do custo operacional dos diferentes sistemas. A

40 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

equação 12 pode ser usada para calcular a entalpia e expressá-la em kJ kg-1.

h = 1,006 (T – 273,15) + w (2501+1,775 (T – 273,15)) eq. 12

3. MEDIÇÃO DA UMIDADE DO AR

A determinação da umidade do ar não é feita a partir de uma amostragem, que é


um procedimento muito utilizado para a quantificação da umidade do solo, de produtos
agrícolas a de outros materiais higroscópicos. Essa metodologia, embora possa ser
utilizada, exigiria equipamentos de alto custo, que em alguns casos inviabilizariam a sua
determinação. Na prática, a umidade do ar é determinada indiretamente por meio da
pressão parcial exercida pelo vapor de água na atmosfera. Os instrumentos usados para
esta finalidade são denominados higrômetros. Os mais comuns são:
a) Higrômetros de condensação: baseiam-se na determinação do ponto de
orvalho.
b) Higrômetros de absorção: usados em laboratório. A determinação é feita
passando-se, através de uma substância higroscópica, um volume conhecido
do ar cujas propriedades se deseja determinar. O resultado é obtido pela
variação do peso devido à umidade absorvida.
c) Higrômetros elétricos: baseiam-se na variação da resistência elétrica de um
fino filme de um condutor eletrolítico contendo um sal higroscópico, em
função da umidade.
d) Higrômetro ótico: por meio da intensidade de luz refletida, mede a
espessura de um filme higroscópico, a qual varia com a umidade.
e) Higrômetros de difusão: constam de uma câmara fechada, tendo uma placa
porosa numa das paredes. O ar no interior da câmara é continuamente
submetido à ação de um agente dessecador ou umedecedor. A difusão do ar
através da placa porosa produz mudança na pressão interna da câmara, que é
medida por um manômetro. No ponto de equilíbrio, o valor da mudança de
pressão depende da pressão de vapor do ar exterior e da temperatura da
câmara.
f) Psicrômetro: consta de dois termômetros semelhantes, um dos quais tem o
bulbo recoberto por tecido de algodão umedecido em água destilada (Figura
1). A evaporação da água sobre o bulbo umedecido causa abaixamento na
sua temperatura, sendo dependente do estado higrométrico do ar. O
termômetro de bulbo seco indica a temperatura do ar. A diferença de
temperatura entre os dois termômetros indica a umidade, bem como outras
propriedades do ar, bastando utilizar os dados obtidos para dar entradas em
tabelas, gráficos ou fórmulas. Os psicrômetros podem ser de ventilação
natural (psicrômetros comuns) ou de ventilação forçada. O mais comum é o
psicrômetro giratório.
g) Higrômetros de fio de cabelo: o cabelo humano livre de gorduras tem a
propriedade de aumentar em comprimento ao absorver umidade e de
diminuir em comprimento quando a perde. Essa variação é
convenientemente ampliada e transmitida a um ponteiro, sobre um

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 41


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

mostrador, que indicará diretamente a umidade relativa do ar. Trocando-se o


ponteiro por uma pena contendo reservatório de tinta e o mostrador por um
cilindro rotativo movido por um mecanismo de relojoaria, tem-se o
higrômetro registrador ou higrógrafo.

Figura 1 – Psicrômetros de parede e giratório.

Um higrômetro de fio de cabelo ou um higrógrafo fornecem diretamente a


leitura da umidade relativa do ar. Isto não acontece quando se usa um psicrômetro ou
um higrômetro de condensação, pois, nesse caso, a umidade relativa só será conhecida
após operações usando esses dados em fórmulas, tabelas ou gráficos psicrométricos.
Nestes casos, conhecendo-se a temperatura do ponto de orvalho e a temperatura
do ar (ambas em K), a umidade relativa (em %) pode ser determinada pela equação 13.
Outra opção é aplicar as equações 1 ou 2, seguidas das equações 14 e 4, como mostra o
exemplo a seguir.

UR = 100 exp (5417 ((1 / T) - (1/Tpo))) eq. 13

pv = pvsm - [A. P . (t - tm)] eq. 14


em que
pvsm = pressão de saturação à temperatura de bulbo molhado, kPa;
A = constante do psicrômetro, igual a 6,7 x 10-4 para psicrômetros
aspirados e 8,0 x 10-4 para psicrômetros não aspirados, ºC-1;

Exemplo:
As leituras de temperatura de bulbo seco e de bulbo molhado, dadas por um
psicrômetro de aspiração, foram, respectivamente, de 27°C e 18°C ao nível do mar
(101,325 kPa). Determine a umidade relativa do ar.

42 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

Solução
Determinação das pressões de vapor saturado às temperaturas de bulbo molhado
e bulbo seco (equação 1):
pvsm = 6.1025/(1000x(291,15)5)exp(-6800 / 291,15) = 2,06 kPa =
= 20,6 mbar = 15,5 mmHg
pvs = 6.1025/(1000x(300,15)5)exp(-6800 / 300,15) = 3,57 kPa =
= 35,7 mbar = 26,8 mmHg

Observação: Dependendo da aplicação, diferentes unidades podem ser usadas


para expressar os valores de pressão. Portanto, ressalta-se que as seguintes regras de
conversão podem ser aplicadas, caso seja necessário:
1 atm = 101,325 kPa = 760 mmHg = 1013,25 mbar e 1 mmH2O = 9,80665 Pa

Determinação da pressão de vapor d’água no ar (equação 14):


pv = 2,06 - [6,7x10-4x 101,325 x (27-18)] = 1,45 kPa =
= 14,5 mbar = 10,9 mmHg

Logo, a umidade relativa do ar será (equação 4):


UR = 100 x 10,9 / 26,8 = 40%

4. CÁLCULO DA TEMPERATURA DE BULBO MOLHADO

A temperatura de bulbo molhado pode ser estimada de maneira iterativa,


conhecendo-se a temperatura de bulbo seco e a razão de mistura ou a umidade relativa
de um determinado ponto de estado. Neste caso, a temperatura de bulbo seco é
progressivamente decrementada, mantendo-se constante o valor de entalpia, até se
alcançar um ponto de estado cujo valor de umidade relativa seja igual ou bem próximo a
100%.

Exemplo:
O termômetro e o higrômetro de um experimento montado ao nível do mar (P =
101,325 kPa) estão medindo 20ºC e 90%, respectivamente. Qual a temperatura de bulbo
molhado?

Solução
Cálculo de pvs para a temperatura de bulbo seco (equação 1):
pvs = 6.1025/(1000x(293,15)5)exp(-6800 / 293,15) = 2,34 kPa

Cálculo da pressão de vapor (equação 4, isolando-se pv):


pv = 90 x 2,33 / 100 = 2,10 kPa

Cálculo da razão de mistura para a temperatura de bulbo seco (equação 3)


w= 0,622 x 2,10 / (101,325 – 2,10) = 0,013 g g-1

Cálculo da entalpia para a temperatura de bulbo seco (equação 12):

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 43


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

h = 1,006 x 20 + 0,012 (2501+1,775 x 20) = 53,56 kJ kg-1

Iniciar repetições:
A cada iteração serão calculados os valores de razão de mistura, pressão de
saturação, pressão parcial de vapor e umidade relativa, considerando-se uma
temperatura de bulbo molhado igual à temperatura usada na iteração anterior
decrementada de um valor escolhido previamente. Neste exemplo, será considerado um
decremento inicial de 1ºC. A condição de parada também deve ser estipulada quando do
cálculo de tm. Neste exemplo, a repetição ocorrerá até que a diferença entre a UR
calculada e a UR de saturação seja inferior a 0,5%. Estes valores foram escolhidos
visando agilizar os cálculos realizados manualmente. Mas, quando este método é
empregado em programas computacionais, tanto o decremento inicial quanto a condição
de parada podem e devem ser menores, possibilitando a obtenção de resultados mais
exatos.

Iteração 01: Considerando tm = t - 1 = 19ºC


Cálculo da razão de mistura para tm (equação 12, isolando-se w)
w= (53,56 - 1,006 x 19) / (2501 + 1,775 x 19) = 0,0136 g g-1
Cálculo de pv para tm (equação 3, isolando-se pv)
pv = 0,0136 x 101,325 / (0,622+ 0,0136) = 2,17
Cálculo de pvs para tm (equação 1)
pvs= 6.1025/(1000x(292,15)5)exp(-6800 / 292,15) = 2,20 kPa
Cálculo de UR para tm (equação 4)
UR = 100 x 2,17/2,20 = 98,7 %
A diferença obtida nesta repetição foi de 1,33%.

Iteração 02 - a: Considerando tm = tm anterior - 1 = 18ºC


Cálculo da razão de mistura para tm (equação 12, isolando-se w)
w= (53,56 - 1,006 x 18) / (2501 + 1,775 x 18) = 0,014 g g-1
Cálculo de pv para tm (equação 3, isolando-se pv)
pv = 0,014 x 101,325 / (0,622+ 0,014) = 2,23
Cálculo de pvs para tm (equação 1)
pvs= 6.1025/(1000x(291,15)5)exp(-6800 / 291,15) = 2,06 kPa
Cálculo de UR para tm (equação 4)
UR = 100 x 2,23/2,06 = 108,1 %
Neste caso a UR ultrapassou 100%, indicando que o incremento usado foi muito
grande. Quando isto acontece, deve-se refazer a iteração, dividindo o incremento
anterior por 2.

Iteração 03 - b: Considerando tm = tm anterior – 0,5 = 18,5ºC


Cálculo da razão de mistura para tm (equação 12, isolando-se w)
w= (53,56 - 1,006 x 18,5) / (2501 + 1,775 x 18,5) = 0,0138 g g-1
Cálculo de pv para tm (equação 3, isolando-se pv)
pv = 0,0138 x 101,325 / (0,622+ 0,0138) = 2,20
Cálculo de pvs para tm (equação 1)

44 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

pvs= 6.1025/(1000x(291,65)5)exp(-6800 / 291,65) = 2,13 kPa


Cálculo de UR para tm (equação 4)
UR = 100 x 2,20/2,13 = 103,3 %
Novamente o valor de UR ultrapassou a saturação. O decremento deverá ser
ainda menor.

Iteração 04 - c: Considerando tm = tm anterior – 0,25 = 18,75ºC


Cálculo da razão de mistura para tm (equação 12, isolando-se w)
w= (53,56 - 1,006 x 18,75) / (2501 + 1,775 x 18,75) = 0,0137 g g-1
Cálculo de pv para tm (equação 3, isolando-se pv)
pv = 0,0137 x 101,325 / (0,622+ 0,0137) = 2,18
Cálculo de pvs para tm (equação 1)
pvs= 6.1025/(1000x(291,9)5)exp(-6800 / 291,9) = 2,16 kPa
Cálculo de UR para tm (equação 4)
UR = 100 x 2,18/2,16 = 101,0 %
Novamente o valor de UR ultrapassou a saturação. O decremento deverá ser
ainda menor. Mas, já é possível observar que o método está convergindo, ou seja, a UR
calculada está se aproximando do valor de 100%.

Iteração 05 - d: Considerando tm = tm anterior – 0,125 = 18,875ºC


Cálculo da razão de mistura para tm (equação 12, isolando-se w)
w= (53,56 - 1,006 x 18,875) / (2501 + 1,775 x 18,875) = 0,0136 g g-1
Cálculo de pv para tm (equação 3, isolando-se pv)
pv = 0,0136 x 101,325 / (0,622+ 0,0136) = 2,17
Cálculo de pvs para tm (equação 1)
pvs= 6.1025/(1000x(292,025)5)exp(-6800 / 292,025) = 2,18 kPa
Cálculo de UR para tm (equação 4)
UR = 100 x 2,17/2,18 = 99,8 %
Este valor corresponde a uma diferença de 0,2% com relação a UR de saturação,
sendo menor que o valor estipulado como condição de parada. Portanto, pode-se dizer
que para o ponto de estado deste exemplo, a temperatura de bulbo molhado é
aproximadamente 18,9°C.

5. TABELAS E GRÁFICOS PSICROMÉTRICOS

Além das equações psicrométricas específicas e dos programas computacionais


que incluem essas equações para o cálculo das propriedades do ar, as tabelas e os
gráficos psicrométricos foram criados para facilitar a determinação destas propriedades.
Mesmo com a disponibilidade de computadores, os gráficos e as tabelas são bastante
utilizados, principalmente quando se necessita de determinações rápidas em locais onde
o computador não está disponível.
A Tabela 2 é usada na determinação aproximada da umidade relativa do ar e
apresenta entrada dupla. Nela encontram-se a temperatura de bulbo molhado, na
primeira coluna, e a depressão psicrométrica (diferença entre as temperaturas de bulbo
seco e de bulbo molhado), na primeira linha. Os diversos valores da umidade relativa

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 45


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

constituem o corpo da tabela.

5.1. Exemplo de Aplicação da Tabela Psicrométrica


Determinar a umidade relativa do ar sabendo-se que um psicrômetro indica
t = 26,0 oC e tm = 20,3 oC.

Solução
Procura-se o valor de 20,3 oC na coluna correspondente ao termômetro de bulbo
molhado (tm) e, daí, segue-se horizontalmente até a coluna cuja depressão psicrométrica
(t - tm) seja igual a 5,7 oC, isto é, (26,0 oC - 20,3 oC).
Quando os valores de t e (t - tm) não estão expressos na tabela, é preciso fazer
uma interpolação, a qual pode ser feita indistintamente nas colunas ou nas linhas.
Somente após conhecer os valores intermediários das colunas ou das linhas, é possível
calcular a umidade relativa.
Fazendo a interpolação nas colunas da Tabela 2, tem-se:
Coluna (t - tm) = 5,6 oC: para tm = 20 oC o valor de UR = 58% e para tm = 21 oC o
valor de UR = 59%. Assim, a UR varia em 1% para uma variação de 1 oC (21 oC –
20 oC). Logo, para uma variação de 0,3 oC (20,3 oC - 20 oC), a UR vai variar em 0,3%.
Desse modo, pode-se dizer que na coluna (t - tm) =5,6ºC, para tm = 20,3 oC,
corresponderá uma UR = 58,3%.
Coluna (t - tm) = 5,8 oC: para tm = 20 oC, o valor de UR = 56%, e para tm = 21 oC,
o valor de UR = 57%. Observa-se aqui, também, que para uma variação de 1 ºC a UR
variou em 1% e, conseqüentemente, para a variação de 0,3 oC (20,3 oC - 20 oC ) a UR
variará em 0,3%. Portanto, o valor da UR para tm = 20,3 oC e (t - tm) = 5,8 oC será de
56,3%.
Para conhecer a UR nas condições propostas, basta interpolar os valores
encontrados na linha correspondente a tm = 20,3 oC. Ou seja, para (t - tm) = 5,6 oC, o
valor de UR = 58,3%, e para (t - tm) = 5,8 oC o valor da UR = 56,3%. Assim, para uma
variação de 0,2 oC em (t - tm) = (5,8 oC - 5,6 oC), a UR variou em 2%. Para uma variação
de 0,1 oC em (t - tm) = (5,7 oC - 5,6 oC ), a UR variará em 1%. Portanto, nas condições
propostas, a UR é 57,3, como mostra a Tabela 3.

TABELA 3 – Determinação da umidade relativa (%) em função de t e de (t – tm)

t - tm (°C)
tm (°C)
5,6 5,7 5,8
20,0 58,0 57,0 56,0
20,3 58,3 57,3 56,3
21,0 59,0 58,0 57,0

46 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

TABELA 2 - Valores de umidade relativa para valores conhecidos de t e tm

Temp. tm DEPRESSÃO PSICROMÉTRICA (T - Tm)


°C 5,2 5,4 5,6 5,8 6,0 6,2 6,4 6,6 6,8 7,0 7,2 7,4 7,6 7,8 8,0 8,2 8,4 8,6 8,8 9,0
10 47 46 44 43 41 40 39 37 36 35 33 32 31 30 29 28 26 25 24 23
11 49 47 46 45 43 42 41 40 38 37 35 34 33 32 31 30 29 28 27 26
12 50 49 48 46 45 44 42 41 40 38 37 36 35 34 33 32 31 30 29 28
13 52 51 49 48 46 45 44 43 41 40 39 38 37 36 35 34 33 32 31 30
14 53 52 51 49 48 47 45 44 43 42 41 40 39 37 36 35 34 33 32 31
15 55 53 52 51 49 48 47 46 45 43 42 41 40 39 38 37 36 35 34 33
16 56 54 53 52 51 50 48 47 46 45 44 43 42 41 40 39 38 37 36 35
17 57 56 54 53 52 51 50 48 47 46 45 44 43 42 41 40 39 38 37 36
18 58 57 56 54 53 52 51 50 49 48 46 45 44 43 42 41 41 40 39 38
19 59 58 57 55 54 53 52 51 50 50 48 47 46 45 44 43 42 41 40 39
20 60 59 58 56 55 54 53 52 51 50 49 48 47 46 45 44 43 42 41 40
21 61 60 59 57 56 55 54 53 52 51 50 49 48 47 46 45 44 43 43 42
22 62 61 59 58 57 56 55 54 53 52 51 50 49 48 47 46 45 45 44 43
23 63 61 60 59 58 57 56 55 54 53 52 51 50 49 48 47 47 46 45 44
24 63 62 61 60 59 58 57 56 55 54 53 52 51 50 49 49 48 47 46 45
25 64 63 62 61 60 59 58 57 56 55 54 53 52 51 50 50 49 48 47 46
26 65 64 63 62 61 60 59 58 57 56 55 54 53 52 51 50 49 49 48 47
27 65 64 63 62 61 60 59 58 57 56 56 55 54 53 52 51 50 49 49 48
28 66 65 64 63 62 61 60 59 58 57 56 55 55 54 53 52 51 50 50 49
29 67 66 65 64 63 62 61 60 59 58 57 56 55 54 54 53 52 51 50 50
30 67 66 65 64 63 62 61 60 60 59 58 57 56 55 54 54 53 52 51 50
31 68 67 66 65 64 63 62 61 60 60 58 58 57 56 55 54 53 53 52 51
32 68 67 66 65 64 64 63 62 61 60 59 58 57 57 56 55 54 53 53 52
33 69 68 67 66 65 64 63 62 61 61 60 59 58 57 56 56 55 54 53 53
34 69 68 67 66 66 65 64 63 62 61 60 59 59 58 57 56 55 55 54 53
35 70 69 68 57 56 65 64 63 63 62 61 60 59 58 58 57 56 55 55 54
37 70 69 68 67 66 66 65 64 63 62 61 60 60 59 58 58 56 56 55 54
39 71 70 69 68 67 67 66 65 64 63 62 61 61 60 59 59 58 57 57 55

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 47


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

5.2. Gráfico Psicrométrico


O gráfico psicrométrico é o modo mais simples e rápido para a
caracterização de determinada massa de ar..
A Figura 2 mostra um gráfico psicrométrico à pressão constante de 760
mm de Hg (1.013 mbar ou 101,325 kPa), que poderá ser usado em outras
condições, desde que sejam feitas as devidas correções. À primeira vista, parece
uma figura bastante complexa. Entretanto, antes de tentar compreendê-lo na sua
forma final, vamos, a partir desse ponto, detalhá-lo parte por parte para, ao final
desse capítulo, poder usá-lo dentro da precisão em que foi confeccionado e com
conhecimento do assunto.
O eixo das abcissas expressa as temperaturas do termômetro de bulbo
seco em oC. Do lado direito da figura, correspondendo ao eixo das ordenadas,
encontra-se a razão de mistura, expressa em gramas de vapor d'água por
quilograma de ar seco e, do lado esquerdo encontra-se a pressão de vapor em
milibares e mm de mercúrio (Figura 2).
As linhas curvas entre os três parâmetros descritos correspondem às linhas
de umidade relativa (Figura 3). A mais extrema é a linha UR = 100%, ou linha do
vapor saturante ou de saturação, sobre a qual se lêem as temperaturas do
termômetro de bulbo molhado e do ponto de orvalho (Figura 4). Acima da curva
UR = 100%, encontram-se segmentos de retas, onde se lê a entalpia, ou seja, a
quantidade de calor envolvida nas mudanças de estado. A entalpia está expressa
em kcal/kg de ar seco (Figura 5).
Começando a leitura pelo eixo das temperaturas de bulbo seco (tbs),
encontram-se, inclinadas para a esquerda em aproximadamente 65o, as linhas de
volume específico do ar seco, que indicam o número de metros cúbicos de ar
necessário por quilograma de ar seco (Figura 6).

5.2.1. Uso do gráfico


Conhecendo a temperatura do ponto de orvalho e a temperatura de bulbo
seco ou temperatura do ar, para obter a umidade relativa, traça-se, a partir do
ponto de orvalho lido sobre a linha de umidade relativa igual a 100%, a paralela à
linha das temperaturas de bulbo seco. A seguir, levanta-se uma perpendicular ao
eixo das temperaturas de bulbo seco, a qual corresponde à temperatura do ar. O
cruzamento das linhas traçadas determina no gráfico um ponto denominado
“ponto de estado”, a partir do qual podem-se conhecer as outras propriedades do
ar:
a) Umidade relativa: como as linhas curvas indicam a UR, basta
observar qual linha coincide com o ponto de estado. Caso não haja
coincidência, faz-se a interpolação visual.
b) Razão de mistura: a partir do ponto de estado traça-se, para a direita,
uma paralela ao eixo das temperaturas do termômetro de bulbo seco e
lê-se, na escala, o número de gramas de vapor d'água por quilograma
de ar seco.
c) Pressão de vapor: a partir do ponto de estado traça-se, para a esquerda
até às escalas de pressão de vapor, uma paralela ao eixo das

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 49


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria
temperaturas do termômetro de bulbo seco, fazendo a leitura em
milibares ou milímetros de mercúrio.
d) Entalpia: a partir do ponto de estado, traça-se uma linha paralela às
linhas que partem da escala da entalpia, onde se lê o número de
quilocalorias por quilograma de ar seco.
e) Volume específico do ar seco: o ponto de estado determina o valor do
volume específico do ar seco. Quando ele não coincide com uma das
linhas traçadas no gráfico, é feita uma interpolação visual,
determinando o número de metros cúbicos de ar por quilograma de ar
seco.
As Figuras 7 e 8 ilustram, como um exemplo, como é possível determinar os
diferentes valores das propriedades psicrométricas do ar úmido, conhecendo-se os
valores de duas outras propriedades não alinhadas.

Exemplo
Determine as propriedades termodinâmicas do ar úmido (temperatura de
bulbo seco, t = 25 oC, e a temperatura de bulbo molhado, tm = 18 oC), como
indicado na Figura 7.

Solução
Para determinar o ponto de estado, levanta-se a perpendicular ao eixo das
temperaturas de bulbo seco, a partir do valor da temperatura do ar. A seguir,
partindo da temperatura tm, obtida na curva de saturação, traça-se a paralela às
linhas de entalpia. O cruzamento das duas linhas determina o ponto de estado. Os
demais parâmetros são encontrados como descrito anteriormente (Figura 8).
- umidade relativa = 50%;
- volume específico = 0,863 m3/kg de ar seco;
- razão de mistura = 10,0 gramas de vapor/kg de ar seco;
- pressão de vapor = 15,0 mbar; e
- entalpia = 16,5 kcal/kg de ar seco.

50 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

Figura 2 – Gráfico psicrométrico

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 51


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

Figura 3 – Componentes básicos do gráfico psicrométrico (curvas de


umidade relativa)

Figura 4 - Componentes básicos do gráfico psicrométrico (Temperatura de


bulbo molhado e ponto de orvalho)

52 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

Figura 5 - Componentes básicos do gráfico psicrométrico (linhas de entalpia)

Figura 6 - Componentes básicos do gráfico psicrométrico (volume específico)

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 53


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

Figura 7 – Determinação do ponto de estado a partir de t e tm.

Figura 8 – Determinação das propriedades do ar a partir do ponto de estado.

54 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

Conhecendo-se o ponto de orvalho po e a temperatura do ar t, para obter a


umidade relativa, traça-se, a partir do ponto de orvalho ar lido sobre a linha de
saturação ou de umidade relativa 100%, uma paralela à linha das temperaturas de
bulbo seco ou abcissa. A seguir, levanta-se uma perpendicular ao eixo das
temperaturas de bulbo seco, a qual deve corresponder à temperatura do ar t. O
cruzamento das linhas traçadas determina no gráfico o ponto de estado P, a partir
do qual se determinam as outras propriedades, de modo semelhante ao da Figura
9.

Exemplo: que características apresentam uma massa de ar cuja


temperatura de bulbo seco é 27 oC e a temperatura do ponto de orvalho (po) 13
o
C?
Solução
Pela Figura 9 e pelo procedimento semelhante ao da Figura 8, serão
determinadas as seguintes propriedades do ar:

- umidade relativa = 42%;


- volume específico = 0,867 m3/kg de ar seco;
- razão de mistura = 9,0 gramas de vapor/kg de ar seco;
- pressão de vapor = 14,0 mbar ou 11,0 mmHg;
- entalpia = 16,5 kcal/kg de ar seco; e
- temperatura de bulbo molhado = 18,3 oC.

O ponto de estado pode ser determinado por meio de dois parâmetros


quaisquer, desde que não sejam interdependentes.

6. OPERAÇÕES QUE MODIFICAM O AR

Como dito anteriormente, nos diversos ramos das áreas de pré-


processamento, transformação e conservação de alimentos, a utilização do ar na
sua forma natural ou modificada é bastante comum. Por exemplo, na operação de
secagem deve-se, muitas vezes, aquecer o ar para que ele tenha o seu potencial de
absorção de água aumentado, para reduzir, dentro de limites seguros, o tempo de
secagem de determinado produto.
Na conservação de perecíveis são utilizadas câmaras especiais com
recirculação do ar a baixas temperaturas (frigo-conservação), para que o produto
possa ser transportado e adquirir maior vida-de-prateleira, durante a
comercialização e com o máximo de qualidade. Em outras operações, deve-se,
com freqüência, modificar outras propriedades, como a quantidade de vapor de
água.
O processo de secagem de grãos em camada fixa pode ser representado em
um gráfico psicrométrico, como mostrado na Figura 10. Assim que o ar move
através do aquecedor (ponto de estado 1 para o ponto de estado 2), sua
temperatura e sua entalpia aumentam, e, ao atravessar a camada de grãos (ponto
de estado 2 para o ponto de estado 3), a umidade relativa e a razão de mistura

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 55


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria
aumentam, a temperatura de bulbo seco diminui e a entalpia permanece constante.
Nesse caso, como será visto no Capítulo 5 (Secagem e Secadores), a camada de
grãos deve ser revolvida periodicamente.

Figura 9 - Determinação do ponto de estado a partir da temperatura do


ponto de orvalho (tpo) e da temperatura do ar (t).

Figura 10 – Modificação do ar durante a secagem de uma camada de grãos.

56 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

6.1. Aquecimento e Resfriamento do Ar


Ao fornecer calor “seco” ao ar, a temperatura deste aumenta, enquanto a
razão de mistura ou umidade absoluta permanece constante, porque não há
aumento nem redução na quantidade de vapor presente. Aquecido o ar, o ponto de
estado move-se horizontalmente para a direita, conforme Figura 11, onde o ar com
UR =50% e t1 =23 oC foi aquecido para t2 =34 oC. O ponto de estado deslocou-se
horizontalmente para a direita e a umidade relativa caiu para 26%,
aproximadamente. A entalpia variou de 15 para 18 kcal por quilo de ar seco. Isto
significa que foram necessárias 3,0 kcal para elevar a temperatura do ar de 23 para
34 oC, por quilograma de ar seco, considerando uma transferência de calor a
100%.
No resfriamento, o ponto de estado move-se horizontalmente para a
esquerda. Quando a curva de saturação (UR = 100%) é atingida, tem-se o ponto
de orvalho. Continuando o resfriamento, o ponto de estado move-se sobre a linha
de saturação, indicando que o vapor d'água está condensando.
A Figura 12 mostra o resfriamento para 8 oC de uma massa de ar que
inicialmente apresentava 23 oC e UR =50%. O ponto de estado desloca-se
horizontalmente para a esquerda até atingir UR=100%, onde o ponto de orvalho é
12 oC. A partir desse ponto, desloca-se sobre a curva de saturação até atingir 8 oC,
mantendo a UR= 100%. Isto significa a condensação de dois gramas de vapor
d'água por quilograma de ar seco, correspondendo a uma mudança na razão de
mistura de 8,5 para 6,5 gramas por quilograma de ar seco.
A entalpia variou de 15 para 10 kcal por quilograma de ar seco. A
diferença entre esses valores indica a necessidade de 5,0 kcal de refrigeração por
quilograma de ar seco, para que este passe de t1 =23 oC para t2 = 8 oC.

6.2. Secagem e Umedecimento


A adição ou retirada de umidade do ar, sem adicionar ou retirar calor, leva
o ponto de estado a se deslocar sobre uma linha de entalpia constante. No caso de
adição de umidade, o ponto de estado desloca-se para cima e para esquerda, e,
mediante a retirada de umidade, este ponto desloca-se para baixo e para a direita.
A Figura 13 mostra que, em condições iniciais de 25oC e razão de mistura de 9,0
gramas de vapor por quilograma de ar seco (ponto 1), o ar perderá 4,0 gramas de
vapor d'água por quilograma de ar seco, quando o ponto de estado se deslocar
sobre a linha de uma mesma entalpia até atingir a temperatura de 35 oC (ponto 2).
Novamente, partindo-se das condições iniciais (ponto 1), quando se
acrescentam 3,0 gramas de vapor d'água por quilograma de ar seco, o ponto de
estado desloca-se para o ponto 3 à temperatura de 18 oC. Nota-se que a entalpia
permanece constante, a 16,0 kcal por quilograma de ar seco.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 57


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

Figura 11 – Deslocamento do ponto de estado devido ao aquecimento da


massa de ar.

Figura 12 – Deslocamento do ponto de estado devido ao resfriamento da massa de


ar.

58 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

Figura 13 – Operação de secagem e umedecimento da massa de ar.

6.3. Mistura de Dois Fluxos de Ar


Em grande número de secadores agrícolas, são misturadas duas massas de
ar com diferentes fluxos e propriedades termodinâmicas (Figura 14). As condições
finais da mistura resultante podem ser determinadas por meio de gráficos
psicrométricos.
. .
Considerando dois fluxos de massa m1 e m 2 , temperaturas t1 e t2, razões
.
de misturas w1 w2 e entalpias h1 e h2 , a mistura final terá fluxo de massa m 3 ,
temperatura t3, razão de mistura w3 e entalpia h3. Os balanços de energia e de
massa para esse processo são:
. . .
m1 + m 2 = m 3
. . .
m1 w 1 + m 2 w 2 = m 3 w 3 e
. . .
m1 h 1 + m 2 h 2 = m 3 h 3

.
Substituindo m 3 , tem-se
. .
m1 (h3 - h1) = m 2 (h2 - h3)
. .
m1 (w3 - w1) = m 2 (w2 - w3)

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 59


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

Portanto
.
m1 h2 − h3 w 2 − w 3
= =
.
m2 h3 − h1 w 3 − w1

A condição final da mistura dos dois fluxos é encontrada na linha que liga
os pontos (h1, w1) e (h2, w2) no gráfico psicrométrico. O ponto (h3, w3) pode ser
encontrado algebricamente ou aplicando-se a propriedade dos triângulos
semelhantes diretamente no gráfico psicrométrico.

Figura 14 – Mistura de duas massas de ar.

Exemplo
Em um secador de fluxo concorrente, 300 m3/minuto de ar com
temperatura de bulbo seco de 35°C e temperatura de bulbo molhado de 30°C (ar
1), proveniente da seção de resfriamento, são misturados na entrada de uma
fornalha com o ar ambiente (ar 2), cuja vazão é de 300 m3/minuto, com
temperatura de bulbo seco de 20°C e umidade relativa de 80 %. Determine a
temperatura de bulbo seco e de bulbo molhado do ar resultante da mistura (ar 3)
que a fornalha deverá aquecer.
Solução
A partir dos pontos de estados dados pelas condições do ar 1 e do ar 2,
tem-se:
Volume úmido do ar 1 (v1): 0,911 m3/kg de ar seco
Razão de mistura do ar 1 (w1): 24,7 g de vapor/kg de ar seco
Entalpia do ar 1 (h1): 27,8 kcal/kg de ar seco
Volume úmido do ar 2 (v2): 0,851 m3/kg de ar seco
Razão de mistura do ar 2 (w2): 11,8 g de vapor/kg de ar seco
Entalpia do ar 2 (h2): 16,1 kcal/kg de ar seco
. .
Determinação da vazão mássica m1 e m2 :

60 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria
. Q1 300m 3 . min −1
m1 = = = 329,3 kg de ar seco/minuto
v1 0,911m 3 .kg −1

. Q2 300m 3 . min −1
m2 = = = 352,5 kg de ar seco/minuto
v2 0,851m 3 .kg −1
. .
Substituindo os valores de m1 , m2 , h1 e h2, w1 e w2 nas expressões:
. .
m1 h − h3 m w − w3
= 2 e .1 = 2
m2 h3 − h1 m2 w3 − w1
.

tem-se o ponto de estado 3, resultante da mistura do ar 1 e do ar 2, caracterizado


por:
h3 = 21,7 kcal/kg de ar seco; e
w3 = 18 g de vapor/kg de ar seco.

A partir do ponto de estado 3 podem-se determinar todas as propriedades


da mistura, sendo a temperatura do bulbo seco de 27°C e a do bulbo molhado de
24,5°C.
As transformações efetuadas serão consideradas mais detalhadamente em
estudos sobre a secagem e armazenagem dos diversos produtos agrícolas.

Clique para acessar: Aplicativo 1 Aplicativo 2

7. LITERATURA CONSULTADA

1. BROOKER, D.B.; BAKKER-ARKEMA, F.W. & HALL, C.W. Drying


and storage of grains and oilseeds. New York: An AVI Book, 1992.
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2. JOHANNSEN, A. Equations and procedures for plotting psychrometric
charts in SI units by computer. CSIR Report ME 1711, Pretoria, 11p.
1981.
3. HUNTER, A. J. An isostere equation for some common seeds. Journal
Agric. Eng. Research, v.37, p. 93 – 107. 1987
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5. PEREIRA, J.A.M. & QUEIROZ, D.M. Psicrometria. Viçosa:
CENTREINAR. 27p.
6. PUZZI, D. Abastecimento e armazenagem de grãos. Campinas: Instituto
Campineiro de Ensino Agrícola, 1986. 603p.
7. SILVA, J. S.; REZENDE, R. C. Higrometria IN: Pré-processamento de

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 61


Capítulo 3 Princípios Básicos de Psicrometria

produtos agrícolas. Juiz de Fora: Instituto Maria, 1995. 510p.


8. VIANELLO, R. L., ALVES, A. R. Meteorologia básica e aplicações.
Viçosa: UFV, 1991. 449 p.
9. WILHELM, R. L. Numerical Calculation of psychrometric
properties in SI units. Transactions of ASAE. V.19, n.2, p.318 –
325. 1976
10. ZOLNIER, S. Psicrometria I. Viçosa: Engenharia na Agricultura,
Série - Caderno Didático, No13, 1994. 14p.

62 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Capítulo

4
INDICADORES DA QUALIDADE DOS GRÃOS

Juarez de Sousa e Silva


Pedro Amorim Berbert
Solenir Rufato
Adriano Divino Lima Afonso

1. INTRODUÇÃO

O conceito de teor de água (umidade) tem origem no fato de os grãos serem


constituídos de substâncias sólidas e de certa quantidade de água retida sob várias
formas. Para as operações de colheita, secagem e armazenamento, consideram-se que o
grão é formado apenas por matéria seca e água. Assim, teor de umidade é a quantidade
relativa de água presente no grão.
O teor de umidade é considerado o fator mais importante que atua no processo
de deterioração de grãos armazenados. Mantendo-se este em níveis baixos, os demais
terão seus efeitos gradualmente diminuídos: menor ataque de microrganismos e
diminuição da respiração dos grãos. O teor de umidade influencia, acentuadamente, as
características necessárias aos processos, como colheita, manuseio, secagem, tempo de
armazenagem, germinação, processamento etc. Portanto, desde a colheita até o
processamento, é de primordial importância o conhecimento do teor de umidade dos
produtos. Por exemplo, a compra de um produto com teor de umidade acima do ideal
representa prejuízo para o comprador, que estará pagando pelo excesso de água, além
de colocar em risco a qualidade final do produto. A venda com umidade abaixo do ideal
prejudicará o vendedor, pois ele incorreu em gastos desnecessários com energia para
secagem e desgastes do equipamento, além de afetar a qualidade do grão.
Sendo um processo que trata materiais biologicamente ativos, a secagem pode
ser definida como um método universal de condicionamento de produtos agrícolas
(grãos em geral) , pela remoção da água a um nível tal que os mantenha em equilíbrio
com o ambiente de armazenamento, preservando a aparência e a qualidade nutritiva
para alimentação animal e/ou humana e a viabilidade como semente.
Muitos consideram os termos "secagem" e "desidratação" como sinônimos.
Entretanto, a desidratação consiste na remoção de umidade até que o material fique
completamente seco, ou seja, até que o conteúdo de umidade do material se aproxime de

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 63


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

zero (maiores detalhes sobre o assunto serão vistos nos capítulos referentes à teoria e
aos métodos de secagem).
Os agentes biológicos que danificam a qualidade e diminuem o peso dos
produtos armazenados são os roedores, insetos, pássaros e fungos. Em menor escala, a
respiração também pode contribuir para a perda de matéria seca durante a
armazenagem.

2. PERDA DE GRÃOS ARMAZENADOS

No Brasil, segundo estudos realizados em 1968 pela Universidade Federal de


Viçosa, a perda de grãos de milho, como conseqüência da armazenagem inadequada em
fazendas e unidades armazenadoras chegava a 35 %. Atualmente, com boas técnicas de
armazenagem que vem sendo adotadas, este valor deve estar abaixo de 20%. Nos
Estados Unidos, onde as condições favoráveis de clima, facilidades de transporte e
armazenagem propiciam menor desenvolvimento de pragas, as perdas não são elevadas
e estão próximos a 5%. Ainda assim, os custos de prevenção e controle dos agentes
causadores de perdas se aproximam de um bilhão de dólares anuais.

2.1. Considerações Gerais


Sementes ou grãos são suscetíveis ao ataque de fungos durante o crescimento, a
maturação e após a colheita. No armazém, pode também ocorrer o ataque de insetos e
roedores, que, juntamente com os fungos, causam diminuição do peso, fermentação,
rancificação e outros processos que alteram as propriedades sensoriais do produto. As
perdas de produtos provocadas por microrganismos durante o armazenamento
inadequado podem comprometer a totalidade da massa armazenada.
Atualmente, os fungos são considerados os principais causadores de danos e
deterioração nos produtos agrícolas, visto que no combate aos insetos e roedores são
empregados técnicas mais modernas de controle.
Os fungos são os maiores agentes causadores de doenças nas plantas cultivadas.
Aqueles que atacam as sementes ou os grãos são classificados como fungos de campo e
fungos de armazenamento.

2.2. Fungos de Campo


São aqueles que atacam os grãos ou as sementes antes da colheita, ou seja, no
seu período de crescimento e na maturação. Tais fungos requerem, para seu
crescimento, uma umidade relativa em torno de 90%, o que, para a maioria dos grãos,
corresponde a um teor de umidade em torno de 25% b.u. Estes microrganismos
paralisam seu crescimento quando o teor de umidade e a temperatura dos grãos são
baixos. Os fungos dos gêneros Alternaria, Cladosporium, Fusarium e
Helminthosporium são os mais comuns.

2.3. Fungos de Armazenamento


Os fungos ecologicamente denominados fungos de armazenamento são aqueles
que se desenvolvem em sementes e grãos com teores de umidade abaixo de 17%, ou
seja, quando possuem teores de umidade em equilíbrio, com umidades relativas na faixa

64 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

de 65-85%. Estes fungos, principalmente os dos gêneros Aspergillus e Penicillium, não


se desenvolvem em produtos com teor de umidade superior a 25% b.u.
Os fungos mais comuns e que causam a deterioração dos grãos armazenados
são: Aspergillus repens, A. amstetodami, A. ruber, A. restrictus, A. glaucus, A.
halophilicus, A. candidus, A. ochraceus, A. flavus, A. parasiticus e algumas espécies do
gênero Penicillium.

2.3.1. Causas do desenvolvimento de fungos


Como dito anteriormente, os principais fatores que influenciam o
desenvolvimento dos fungos em produtos armazenados são: teor de umidade,
temperatura e tempo de armazenagem dos grãos, grau de infestação por fungos no
campo, presença de material estranho e atividade de insetos e roedores. O fator isolado
mais importante no desenvolvimento de fungos é o teor de umidade elevado. Na
realidade, os fungos não são afetados diretamente pelo teor de umidade do produto, mas
pela umidade relativa de equilíbrio do ar intersticial (veja mais adiante neste capítulo).
Temperaturas elevadas também favorecem a proliferação dos fungos que se
desenvolvem melhor em temperaturas entre 10 e 35 oC e umidades relativas elevadas.
Durante a colheita, os grãos estão sujeitos a impactos mecânicos, que podem
resultar em rachaduras e quebras que servirão de entrada a fungos e insetos. Em
condições desfavoráveis, durante a colheita e armazenagem, o teor de umidade do
produto pode ser alto e suficiente para permitir o desenvolvimento de fungos,
aquecimento e outros danos à massa de grãos armazenada. Esses danos caracterizam-se
por descoloração, perda de germinação, aumento do teor de ácidos graxos dos grãos e
degradação das qualidades nutritivas. O aumento do teor de ácidos graxos em sementes
é devido, principalmente, ao ataque por fungos. Este aumento constitui também o
principal sintoma de deterioração das sementes, quando o teor de umidade destas está
em torno de 14% b.u.
O processo de respiração envolve a liberação de energia devida à oxidação de
carboidratos e outros componentes orgânicos. Quando a respiração ocorre rapidamente
e a produção de calor acontece mais intensamente do que pode ser dissipado, a
temperatura do produto armazenado sobe e pode aumentar as chances de crescimento
dos fungos.
A maior parte, se não todo, do aquecimento acima de 20 oC é causada por
microrganismo. O desenvolvimento dos fungos diminui quando a umidade relativa
estiver abaixo de 70% ou quando a temperatura estiver abaixo de 0 oC.

2.3.2. Danos causados por fungos de armazenamento


Os principais danos provocados pela invasão dos fungos de armazenamento nos
produtos agrícolas são: diminuição na germinação, descoloração, produção de toxinas,
aquecimento, transformações bioquímicas, modificações celulares, emboloramento e
apodrecimento.
Muitos fungos de campo e de armazenamento produzem substâncias tóxicas que,
em altas concentrações, podem causar a morte ou comprometer seriamente o
desenvolvimento dos animais. Estas substâncias são conhecidas como micotoxinas e sua
produção depende da espécie do fungo e das condições ambientais a que está submetido

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 65


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

o produto quando do seu armazenamento. O desenvolvimento prolongado de fungos em


grãos de milho com elevado teor de umidade, em temperaturas na faixa de 2 a 7 oC ,
pode resultar na formação de grandes quantidades de toxinas. As micotoxinas mais
comuns e potencialmente mais perigosa são a Aflatoxina, produzida pelo A. flavus, e a
Ochratoxina, pelo A. ochraceus.

2.3.3. Detecção de fungos


O isolamento e conhecimento dos fungos de armazenamento que proliferam no
produto podem fornecer informações a respeito do tipo de deterioração sofrida pelos
grãos. Uma observação direta sob luz ultravioleta e a mensuração da produção de gás
carbônico (CO2) podem ser usadas para determinar a perda de qualidade dos grãos e
predizer o tempo permissível de armazenamento. O TPA é o período máximo de tempo
que o produto com determinado teor de umidade pode ser armazenado ou mantido sob
determinadas condições de temperatura e umidade relativa.

2.3.4. Controle
As condições do ambiente de armazenamento e a característica do grão
armazenado influenciam a qualidade final do produto. Um armazenamento seguro
depende da qualidade do grão armazenado. Para a obtenção de um produto de melhor
qualidade, os cuidados devem ser iniciados na lavoura, evitando-se a ocorrência de
danos mecânicos, ataque de insetos no campo e atraso na colheita. Uma pré-secagem
do produto é de extrema importância, assim como a trilha e o transporte, que devem ser
executados com equipamentos limpos, para que não se tornem focos de contaminação.
Independentemente do grau de tecnologia usado para o armazenamento de grãos,
a limpeza do local onde será armazenado o produto é de fundamental importância.
Grãos limpos podem ser armazenados por mais tempo, quando comparados com grãos
contendo impurezas. Adicionalmente, todo cuidado deve ser observado para prevenir o
ataque de insetos e roedores, o que pode favorecer o desenvolvimento de fungos durante
o armazenamento.
O controle dos roedores poderá ser feito pela vedação do armazém e por iscas
venenosas. Para os insetos poderão ser usados produtos químicos ou o controle da
temperatura e umidade do produto armazenado. O melhor método para evitar a
proliferação de fungos em grãos é a secagem destes, em níveis de umidade em que a
disponibilidade de água não seja suficiente para ser utilizada no desenvolvimento desses
microrganismos. A combinação baixo teor de umidade e baixas temperaturas é o meio
mais eficiente para o controle dos fungos durante o armazenamento (Veja aeração de
grãos).
O uso da técnica de aeração da massa de grãos para diminuição e manutenção de
baixas temperaturas é um procedimento de grande valia para o bom armazenamento.

3. INDICADORES DA QUALIDADE

Qualidade de grãos é um termo polêmico. Seu significado depende da finalidade


ou do uso final do produto. Em situação lógica, é o comprador final que deve
especificar as características de qualidade do grão de tal maneira que o produtor ou o

66 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

processador possa fornecer um produto com qualidade a um mínimo custo. Portanto,


produtor e comprador devem, necessariamente, estar conscientes da importância da
qualidade para comercialização, pois diferentes compradores de grãos requerem
propriedades qualitativas diferentes.
Muitas vezes, os efeitos da secagem artificial sobre composição, valor nutritivo,
viabilidade e características ideais dos grãos para o processamento industrial não são
considerados na classificação comercial; de modo geral, para fins comerciais, os grãos
podem ser classificados de acordo com três ou mais das seguintes características:
a) teor de umidade;
b) peso hectolítrico;
c) porcentagem de grãos quebrados ou danificados;
d) porcentagem de materiais estranhos e impurezas;
e) dano por calor ou outros;
f) suceptibilidade à quebra;
g) característica de moagem;
h) teor de proteína;
i) teor de óleo;
j) germinação;
k) presença de insetos;
l) contagem de fungos; e
m) tipo do grão e outros.

3.1. Aspectos Relacionados à Secagem


Estudiosos afirmam que o calor tem efeito definitivo sobre o valor nutricional
dos grãos. Uma diminuição na qualidade comercial, devido à secagem em elevadas
temperaturas, nem sempre corresponde a um decréscimo no valor do grão como ração
animal. Verificou-se que o valor nutritivo do milho, para suínos, não foi reduzido
quando este produto foi secado à temperatura entre 60 e 104 oC. Já a disponibilidade de
lisina foi reduzida quando o milho, com teor de umidade a 14 e 23% b.u., foi secado a
150 e 127 oC, respectivamente. O teor de niacina não foi afetado pela temperatura, mas
a disponibilidade de pirodoxina foi significativamente reduzida quando, com teor de
umidade a 14% b.u., o milho foi secado a 160 oC (SILVA 1980).
Quando a soja para fins industriais é submetida à secagem em camada fixa, a
temperatura do ar pode atingir 60 oC. Pesquisas mostram que a 88 oC houve redução na
produção de óleo. A 232 oC, usando um secador de fluxo concorrente, não foram
observadas alterações na produção e qualidade do óleo. Nos EUA, é comum a utilização
de temperaturas da ordem de 90 oC para a secagem em indústrias de transformação de
soja.
Embora a maioria dos pesquisadores não concorde que as alterações no valor
nutricional do milho ou da soja sejam devidas às altas temperaturas de secagem, eles
são unânimes em afirmar que as características físicas e químicas, como consistência,
conteúdo de energia, palatabilidade, dureza, cor, umidade e teor de proteínas e
aminoácidos, são afetados pela temperatura de secagem (SILVA 1980).

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 67


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

3.1.1. Densidade
O peso hectolítrico (veja capítulo 2 – Estrutura, Composição e Propriedades dos
Grãos) geralmente sofre alterações durante o processo de secagem. A intensidade dessa
mudança depende do teor de umidade inicial e final do produto, de temperatura de
secagem, da variedade dos grãos, do tipo e da quantidade de impurezas e intensidade de
danos. Geralmente, um baixo peso hectolítrico (PH = kg/100L) reduz o valor do milho
para moagem, independentemente da causa desse baixo valor.
Sob condições normais, quanto menor o teor de umidade do produto, maior será
seu peso hectolítrico, com exceção do café em coco, arroz em casca e cevada. A
secagem excessiva de um produto a temperaturas muito elevadas danificará o material,
que, conseqüentemente, terá menor peso hectolítrico. A uma mesma faixa de umidade
final, quanto mais alta for a temperatura de secagem, menor será o peso hectolítrico.

3.1.2. Quebrados
A secagem, unicamente, não aumenta a porcentagem de grãos quebrados.
Contudo, grãos secados de modo inadequado apresentam maior tendência à quebra
quando transportados.
Um dos principais danos sofridos pelos grãos durante o processo de secagem são
rachaduras no seu interior, sem ocorrência de ruptura em suas camadas mais externas
(Figura 1). Além da temperatura do ar de secagem, outros fatores podem provocar essa
maior susceptibilidade à quebra; dentre estes encontram-se o teor de umidade inicial dos
grãos, o sistema de secagem utilizado e a taxa de resfriamento. Em geral, a
susceptibilidade à quebra diminui à medida que os grãos submetidos à secagem
apresentam teores de umidade inicial mais baixos.
Para secagem em altas temperaturas, um teor de umidade inicial acima de 18%
b.u. parece provocar aumento significativo na susceptibilidade à quebra. Já a interação
entre tempo de aquecimento e mudança de umidade dos grãos parece ser o melhor
indicador da variação na porcentagem de grãos quebrados.
Estudos relacionando os danos causados durante o transporte à temperatura de
secagem mostraram que, quanto mais elevada a temperatura do ar, maior a quantidade
de grãos rachados e partidos e que rachaduras na casca e cotilédones da soja podem
estar correlacionadas com o teor de umidade inicial dos grãos. Tais danos não ocorrem
quando a umidade relativa do ar é igual ou superior a 50%.
Tentativas têm sido feitas para desenvolver equipamentos destinados a prever a
susceptibilidade dos grãos à quebra. Os equipamentos propostos submetem as amostras
a esforços preestabelecidos ou a condições de impacto, após os quais é feita a análise da
amostra. Até o momento, apenas o "Stein Breakage Tester" (Figura 2) é usado para
avaliar danos mecânicos em amostras de grãos.

68 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Figura 1 - Semente de milho com o endosperma seriamente danificado.

Figura 2 – Stein Breakage tester.

3.2. Teor de Água ou Umidade Contida nos Grãos


Como materiais higroscópicos, os grãos contêm água em estado líquido, que está
em contato direto com a estrutura celular, porém é facilmente evaporada na presença de
ar com baixa umidade relativa. Essa água é conhecida como "água livre". Uma outra
porção de água, denominada água de constituição, também compondo a estrutura
celular, está quimicamente presa ao material.
Durante a secagem, a maior parte da água evaporada é “água livre". Para facilitar
a compreensão, será considerado aqui que o grão é composto apenas de matéria seca e
água livre (Figura 3).
A quantidade de água, ou o teor de água dos grãos, é expressa pela relação entre
as quantidades de água e matéria seca que compõem o produto. O teor de umidade é o

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 69


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

fator de maior importância na prevenção da deterioração do grão durante o


armazenamento. Mantendo-se baixo o teor de umidade e a temperatura do grão, o
ataque de microrganismos e a respiração terão seus efeitos minimizados.
O operador do secador deve estar sempre atento para que, ao final do processo de
secagem, o produto não perca água em excesso, trazendo problemas no manuseio, no
beneficiamento e na comercialização.
O ideal é que se determine o teor de umidade dos grãos antes do processamento.
Caso o produto esteja com excesso de umidade, deve-se secá-lo até um teor de umidade
ideal para cada processo. No caso de um produto muito seco, o operador deve usar silos
com sistema de ventilação para ventilar o produto à noite, de forma que este absorva
água até atingir o teor de umidade desejado.

Figura 3 – Simplificação da composição do grão

3.2.1. Cálculo do teor de água


Como dito anteriormente, a quantidade de água (teor de umidade) contida nos
grãos é designada baseando-se no peso da água e geralmente é expressa em
porcentagem.
Há dois modos de expressar a umidade contida num produto, ou seja, base úmida
(b.u.) e base seca (b.s.).
A umidade contida nos grãos em base úmida é a razão entre o peso da água (Pa)
presente na amostra e o peso total (Pt) desta amostra:

U = 100 (Pa / (Pt) eq.1

t = (Pms + Pa) = peso total eq.2

em que
U = teor de umidade , % b.u.
Pa = peso da água;
Pt = peso total da amostra; e

70 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Pms = peso da matéria seca.

A porcentagem de umidade em base seca é determinada pela razão entre o peso


da água (Pa) e o peso da matéria seca (Pms):

U’ = 100 ( Pa / Pms) eq.3

em que

U’= teor de umidade, % b.s.

Pelas equações, vê-se claramente que o teor de umidade expresso em base seca é
numericamente maior do que o teor de umidade em base úmida (U’>U). Isto porque, no
segundo caso (U’) , com apenas Pms, o denominador é menor do que no primeiro caso
(U), em que ele representa o peso total do grão (Pa+Pms), e, em ambos os casos, o
numerador permanece constante, ou seja, representa sempre o peso da água.
Geralmente a porcentagem em base úmida é usada em designações comerciais e
no estabelecimento de preços. Por outro lado, o teor de umidade em base seca (decimal)
é comumente usado em trabalhos de pesquisa e em cálculos específicos.

3.2.1.1. Mudança de base


Uma tabela de conversão é muito útil e precisa quando se deseja passar da base
seca para a base úmida e vice-versa, podendo ser construída por meio das seguintes
equações:

a) Passar de b.u. para b.s.

U' = [U / (100-U)].100 eq.4


em que

U = % b.u. e U'= % b.s.

Exemplo: se U = 13% b.u., qual será o valor de U' ?

U' = [13 / (100-13)].100 =14.9% ou 0,149 b.s.

b) Passar de b.s. para b.u.

U =[U' / (100 + U')].100 eq.5

Exemplo: se U' = 0,13 ou 13% b.s. , qual será o valor de U ?

U = [13 / (100 +13)].100 = 11,5% b.u.

Os problemas seguintes ilustram o emprego dos métodos b.u. e b.s. na

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 71


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

determinação da umidade contida nos grãos.

Problema no 1
Para uma tonelada de milho, inicialmente com 25% b.u. (Uo = 0,25 b.u.),
encontrar a quantidade de água a ser removida durante a secagem para 14% b.u.
Solução:
- Método A (usando base úmida)
Quantidade de água inicial = 0,25 x 1.000 kg = 250 kg

U = Pa/Pt =Pa/(pa +Pms)

Como a matéria seca permanece constante durante a secagem, tem-se:

Pms = Pt - Pa = 1000 – 250 = 750 kg

Portanto,
0,14 = Pa / (Pa + 750) ou Pa = 122 kg

Peso de água a ser removido:

Par = 250 – 122=128 kg


Peso final do produto:
Pf = Pms + Pa = 122 + 750 = 872 kg

Este resultado poderá ser obtido pela equação 6:

Pf = Pms [100 / (100 - Uf)] eq.6

Pms = 1000 - 250 = 750 kg

Pf = 750 [100 / (100 - 14)]= 872 kg

logo, (1000 - 872) kg =128 kg de água a serem removidos de 1.000 kg de grãos.

- Método B (usando base seca)


Primeiramente, faz-se a mudança de base, isto é, 25% b.u. e 14% b.u.
correspondem, respectivamente, a 33,33% b.s. e 16,28% b.s. A quantidade de água a ser
removida (AR) é igual ao peso da matéria seca, multiplicado pela diferença entre a
umidade inicial e final em base seca, dividida por 100, ou seja:

AR = [750 (33,33 - 16,28)] / 100 = 128 kg

Neste ponto, é possível mostrar a importância do conhecimento correto do teor


de umidade na comercialização dos produtos agrícolas, uma vez que vultosas somas em
dinheiro podem estar envolvidas.

72 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Problema no 2
Uma unidade armazenadora compra 1.000 toneladas de milho cujo teor de
umidade é 16% b.u., quando o ideal seria comercializar o produto com 13% b.u.
Quantas toneladas de água esta unidade armazenadora estaria comprando em
excesso?
1o - passo: Para 1.000 toneladas de milho, tem-se:

16% b.u. = (Pa / 1000).100

Pa =160 toneladas de água ou 840 toneladas de matéria seca.

2o – passo: Para que as mesmas 84o t de matéria seca se encontrassem a


13% b.u., elas deveriam possuir a seguinte quantidade de água:

13%b.u. =[Pa' / (840+ Pa')].100

Pa' = 125,5 t.

Portanto, as 1000 t de milho contêm 160 – 125,5 = 34,5 t de água em excesso,


que estão sendo comercializadas como sendo milho.
Poderíamos chegar ao mesmo resultado usando seguinte fórmula:

D =[(Ua - Uc)/ (100 - Uc)].100 eq.7


em que

D = desconto, em %;
Ua = umidade atual do produto, % b.u;
Uc = umidade de comercialização, % b.u;

Substituindo os valores do problema anterior, tem-se

D = [(16 - 13) / (100 - 13)].100 = 3,45%

Assim, se forem comercializadas 1.000 t do produto com 16% de umidade,


deveriam ser descontadas 34,5 t, relativas à quantidade de água em excesso.
Deve-se ressaltar que, além do desconto devido ao excesso de água, a unidade
armazenadora deverá cobrar, em caso de contrato, uma taxa referente à secagem dessa
água excedente.
A Tabela 1 fornece os valores médios de umidade para operações de colheita
e armazenagem para diferentes tipos de grãos, e a Tabela 2 fornece os valores de
base úmida (%) convertidos em base seca (decimal).

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 73


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

TABELA 1 - Teores de umidade para colheita mecanizada e armazenagem segura,


em % b.u.

Máximo Ótimo Comum Armazenagem


Produto para para após segura
Colheita Colheita Secagem 1 Ano 5 Anos
Cevada 23 15 - 17 9 11 10
Milho 23 20 - 22 11 11 9 - 10
Arroz 21 17 - 19 11 11 - 12 9 - 11
Soja - - - 11 - 12 9 - 10
Sorgo 26 23 - 26 9 11 - 12 9 - 10
Trigo 23 15 - 17 8 12 - 13 10 - 11

TABELA 2 - Conversão de umidade base úmida (%) para base seca (decimal)

b.u. (%) b.s. b.u. (%) b.s. b.u. (%) b.s.


8 0,087 15 0,176 22 0,282
9 0,099 16 0,190 23 0,299
10 0,111 17 0,200 24 0,316
11 0,123 18 0,220 25 0,333
12 0,136 19 0,234 26 0,351
13 0,150 20 0,250 27 0,370
14 0,163 21 0,265 28 0,389

4. MÉTODOS DE DETERMINAÇÃO DO TEOR DE UMIDADE

Há dois grupos de métodos para determinação do teor de umidade de grãos: a)


diretos ou básicos (estufa, destilação, evaporação, radiação infravermelha) e b)
indiretos (métodos elétricos, calibrados de acordo com o método-padrão de estufa ou
outro método direto).

4.1. Métodos Diretos ou Básicos


Pelos métodos diretos, a massa de água extraída do produto é relacionada com a
massa de matéria seca (teor de umidade, base seca) ou com a massa total do material
original (teor de umidade, base úmida). Apesar de serem considerados métodos-padrão,
os métodos diretos exigem muito tempo e trabalho meticuloso para sua execução. São
normalmente usados em laboratórios de análise de controle de qualidade. Os principais
são os métodos da estufa, destilação, evaporação (EDABO) e infravermelho.

4.1.1. Estufa
A determinação do teor de umidade dos grãos pelo método da estufa (sob pressão
atmosférica ou a vácuo) é feita com base na secagem de uma amostra de grãos, de
massa conhecida, calculando-se o teor de umidade através da massa perdida na

74 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

operação de secagem. A razão entre a perda de massa da amostra retirada da estufa e


sua massa original, multiplicada por 100, fornece o teor de umidade em porcentagem,
base úmida.
O tempo de secagem da amostra e a temperatura da estufa são variáveis e
dependem do tipo e das condições em que se encontra o produto e da estufa utilizada.
Para utilização do método-padrão, o leitor deve consultar o manual “Regras para
Análise de Sementes”, editado pelo antigo Ministério da Agricultura e Reforma
Agrária.
De um modo geral, quando for necessária a determinação do teor de água dos
grãos pelo método da estufa sob pressão atmosférica (Figura 4), pode-se usar os
seguintes critérios:

a) Estufa sob pressão atmosférica


- Método em uma etapa: pesar pelo menos três amostras de 25 a 30 g do produto
em pesa-filtros (Figura 4) e colocá-las em estufa a 105oC, por um período de 48 horas.
Retirar as amostras e colocá-las em um dessecador (Figura 4), até que sua temperatura
entre em equilíbrio com a temperatura ambiente, pesando-as em seguida. A média das
massas iniciais menos a média das massas finais das amostras representa a massa média
da água evaporada. Para uma massa inicial média de 25 g de grãos e uma massa final
média de 20 g, Ter-se-á:
Ma = Mi – Mf = 25 - 20 = 5 g

% b.u. = (Ma/Mi )100 = (5/25)100 = 20% b.u.

O tempo de 48 horas, antreriormente mencionado, é um dado prático que varia


conforme o tipo de grão. Para maiores detalhes sobre o método, recomenda-se
novamente o manual oficial: Regras para Análise de Sementes.

- Método em duas etapas: é utilizado para grãos com teor de umidade acima de
13% b.u.:
1a etapa: colocar amostras com 25 a 30 g de grãos inteiros em estufa a 130 oC, até
atingir teor de umidade em torno de 13% b.u. Na prática, essa operação leva
aproximadamente 16 horas. Pesada a amostra, segue-se a segunda etapa.
2a etapa: a amostra retirada na primeira etapa é moída e separada em
subamostras de 2 a 3g. Em seguida, as subamostras são mantidas em estufa a 130 oC
durante uma hora e feita a pesagem conforme explicado anteriormente.
Para demonstração, segue-se o o exemplo:
- Peso inicial da amostra = 30 g.
Na primeira etapa o peso atingiu 24 g, isto é, foram retirados 6 g de água (30 -
24 = 6 g).
O peso inicial da amostra devidamente moída é de 3 g para a segunda etapa, e,
no final da secagem, é de 2,5 g. Assim, a água extraída nesta etapa é 3 - 2,5 = 0,5 g.
Tanto na primeira como na segunda etapa, é necessário levar as amostras para o
dessecador, para que atinjam a temperatura ambiente.
Verifica-se, portanto, que foi perdido 0,5 g para a amostra de 3 g,

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 75


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

correspondente a 24 g na primeira etapa.

Assim, os 24 g teriam perdido:

3 g ____ 0,5
24 g ____ X

X=(24 x 0,5 ) / 3= 4 g de água.

Portanto, da amostra inicial com 30 g, foram retirados 10 g de água, isto é, 6 g


na primeira e 4 g na segunda etapa. Daí, Ter-se-á:
% b.u. =(10 / 30 ) 100 = 33,3%

% b.s. = (10 / 20 ) 100 = 50%

Estufa Ventilada Balança para


Dessecador Laboratório

Pesa-filtro

Figura 3 – Equipamentos necessários para determinação do teor de água pelo


método de estufa

b) Estufa a vácuo
As amostras são inicialmente moídas, colocadas em estufa a aproximadamente
100 oC e mantidas sob pressão de 25 mm de Hg durante aproximadamente cinco horas.
A seguir, elas são retiradas e, como nos processos anteriores, pesadas após atingirem a
temperatura ambiente. A perda de peso representará a quantidade de água da amostra.
Calculando-se como nos casos anteriores, será obtida a porcentagem de umidade. A
estufa a vácuo não é comumente usada para a determinação de umidade de grãos.

4.1.2. Destilação
A umidade é removida pela fervura dos grãos em banho de óleo vegetal ou em
tolueno, cuja temperatura de ebulição é muito superior à da água. O vapor d'água

76 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

oriundo da amostra é condensado, recolhido, e seu peso ou volume determinado.


Há dois métodos de destilação para o caso de grãos: Tolueno e Brown-Duvel.

4.1.2.1. Tolueno
Inicialmente a amostra é moída, pesada (5 a 20 g) e destilada em tolueno à
temperatura de aproximadamente 110 oC, até perder toda a água. Na prática, essa
operação dura cerca de duas horas (Figura 5). Em muitos casos, o tolueno pode ser
substituído pelo xileno, cujo ponto de ebulição é de aproximadamente 138 oC. Ambos,
porém, apresentam o inconveniente de serem inflamáveis.

Figura 5 – Esquema do método de destilação em tolueno.

4.1.2.2. Brown-Duvel
É um dos métodos-padrão nos Estados Unidos da América. O aparelho pode ser
constituído por vários módulos e a umidade é determinada pelo processo de destilação.
Não há necessidade de moer a amostra. É muito semelhante ao método do tolueno,
porém possui um sistema termométrico que desliga automaticamente a fonte de
aquecimento.
O tamanho da amostra, a temperatura e o tempo de exposição variam com o tipo
de grão. É aconselhável, portanto, consultar o manual do aparelho, antes de executar a
determinação de umidade. A Figura 6a ilustra o funcionamento deste método.
A água é removida pelo aquecimento, até o ponto de ebulição, de uma mistura
de grãos e óleo vegetal. A temperatura de ebulição do óleo é muito superior à da água.
O vapor d’água oriundo da destilação da amostra é condensado e seu volume
determinado.
Considerando a densidade da água como 1,0 g/cm3, a massa da água retirada é
igual ao volume medido por meio de uma proveta graduada. O Brown Duvel comercial
(Figuras 6b) possui um sistema termométrico que desliga automaticamente a fonte de
aquecimento quando o óleo atinge uma temperatura específica para cada tipo de
produto.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 77


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Figura 6a - Esquema básico do método de destilação.

Figura 6b - Detalhes de dois modelos comerciais.

4.1.3. Método EDABO


Apesar dos vários tipos de determinadores de umidade (diretos ou indiretos)
disponíveis no mercado, eles são, em geral, de custos relativamente altos e muitas das
vezes os fornecedores não oferecem a devida assistência técnica. Como necessitam de
aferição ou calibração periódica, e por causa das dificuldades de operação e custo de um
sistema-padrão, foi desenvolvido o método de determinação EDABO (Evaporação
Direta da Água em Banho de Óleo), uma variação do método de destilação, de baixo
custo e de mesma precisão do método-padrão. Na Figura 6, vê-se um esquema
simplificado do método EDABO, que pode ser construído com os recursos de uma
carpintaria simples. Caso contrário, pode-se, com utensílios doméstico ou de
laboratório, termômetro e uma balança com capacidade para pesar 500 g com precisão
de 0,5 g, ou melhor, montar um sistema EDABO (Figura 7a e 7b).

78 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Para determinar a umidade por meio do EDABO, o operador deve seguir os


seguintes passos de acordo com os exemplos a seguir:

Exemplo 1: determinar o teor de umidade de um lote de café.


Solução
a) fazer amostragem correta do lote;
b) pesar 100 g do café e colocar em um recipiente com aproximadamente 10 cm de
diâmetro e 20 cm de altura, resistente a altas temperaturas, dotado de tampa
perfurada (tipo ralo), com um furo maior para inserir um termômetro graduado
até 200 °C;
c) adicionar óleo de soja até cobrir a camada de grãos;
d) pesar o recipiente + produto (grãos) + óleo + termômetro e anotar a massa inicial
(Mi);
e) aquecer o conjunto, por aproximadamente 15 minutos, até atingir a temperatura
indicada na Tabela 3 (no caso do café beneficiado, 190oC). A seguir, retirar a
fonte de calor, esperar que cesse o borbulhamento e, por pesagem, obter a
massa final (Mf); e
f) o resultado de Mi - Mf é o teor de umidade em porcentagem, base úmida.

Por exemplo, se Mi = 458,9 g e Mf = 445,4 g;


Ma = Mi - Mf = 13,5 g,
ou seja, o teor de umidade do lote é 13,5% b.u.

Figura 7 - Esquema básico de um EDABO construído em madeira.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 79


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Figura 8a - Esquema de um EDABO para laboratório com chama a gás.

Figura 8b - Sistema EDABO para três repetições com chama a álcool.

TABELA 3 - Temperatura para determinação do teor de umidade pelo método


EDABO

PRODUTO TEMP. PRODUTO TEMP.


(oC) (oC)
Feijão 175 Milho 195
Arroz em casca 200 Soja 135
Arroz beneficiado 195 Sorgo 195
Café em coco 200 Trigo 190
Café beneficiado 190

80 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Exemplo 2: representar, em decimal base seca (b.s.), o teor de umidade encontrado em


porcentagem base úmida (b.u.) no problema anterior.
Solução: De acordo com a equação 4 tem-se::
U’ (%) = ?
U (%) = 13,5%
U’(%) = [13,5/(100-13,5) ] . 100 = 15,6% ou 0,156 b.s.

Clique para ver: vídeo 1

4.1.4. Fontes de erro nos métodos diretos


Embora às vezes considerados padrões primários ou secundários, os métodos
diretos de determinação de umidade estão sujeitos a grandes variações. Entre as
principais variações estão:

- secagem incompleta;
- oxidação do material;
- erros de amostragem;
- erros de pesagem; e
- erros de observação;

A Figura 8 mostra a variação de peso durante a determinação da umidade por


um método direto. Podem-se identificar três fases distintas para ilustrar os dois
primeiros tipos de erros. A primeira fase corresponde àquela em que os grãos perdem
água gradativamente, enquanto a segunda é o fim da secagem, quando o peso
permanece constante, porque toda a " água livre" foi removida.
Prolongando-se o tempo além da segunda fase, novamente começa a ocorrer
uma queda de peso, ou seja, o material começa a oxidar. Se o processo for interrompido
na primeira ou na terceira fase, incorre-se em erro. Portanto, a interrupção deve
acontecer na segunda fase, isto é, quando não há variação no peso da amostra.
Erros de amostragem: a finalidade de uma amostra, como se verá mais adiante,
consiste em representar uma população ou um lote. Se a amostragem não for efetuada
segundo técnicas adequadas, o valor obtido não será confiável mesmo utilizando o
método mais seguro na determinação da umidade.
Erros de pesagem: a utilização de balanças inadequadas ou imprecisas conduz a
erros na determinação da umidade. Amostras ainda quentes provocam correntes de
convecção, prejudicando bastante a precisão da pesagem.
Para melhor caracterizar o valor da umidade de um produto, a pesagem das
amostras e a leitura no aparelho devem ser realizadas por uma única pessoa.
Dependendo do tipo de equipamento, uma leitura situada entre dois valores conhecidos
dificilmente terá o mesmo valor se for feita por pessoas diferentes.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 81


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Figura 8 – Variação no peso da amostra em função do tempo de secagem por


processos diretos.

4.2. Métodos Indiretos


Incluem, principalmente, os métodos elétricos. Os equipamentos classificados
nesta categoria utilizam uma propriedade do grão que varia com o seu teor de umidade e
são sempre calibrados segundo um método direto adotado como padrão oficial.
Em razão da rapidez na determinação do teor de umidade, os determinadores
elétricos ou eletrônicos são usados no controle da secagem, da armazenagem e em
transações comerciais. Estes equipamentos fornecem o valor do teor de umidade em
base úmida, ou seja, mostra a relação percentual entre a quantidade de água e a massa
total da amostra, de acordo com a equação 1.

4.2.1. Método da resistência elétrica


A condutividade elétrica de um material varia com o seu teor de umidade. No
caso de grãos, o teor de umidade (U) é inversamente proporcional ao logaritmo da
resistência que estes oferecem à passagem de uma corrente elétrica. Numa determinada
faixa, a umidade contida numa amostra de grãos pode ser dada pela equação 8.

U = K.(1 / log R ) eq.8


em que

U = teor de umidade;
K = constante que depende do material; e
R = resistência elétrica.

O circuito básico usados nos determinadores de umidade com base na resistência


elétrica e a representação gráfica da relação entre teor de umidade dos grãos e
resistência elétrica oferecida por eles são mostrados na Figura 9.
Sabe-se que a resistência elétrica de um material varia de acordo com a
temperatura e que, ao contrário dos metais, um aumento na temperatura promove
diminuição da resistência elétrica no carbono. Como os grãos são constituídos

82 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

basicamente desse material, o operador de um determinador com base no princípio da


resistência elétrica deve tomar alguns cuidados com a temperatura das amostras.
Temperaturas elevadas poderão induzir a erros (temperatura alta resulta em uma baixa
resistência elétrica, que por sua vez significa umidade elevada). Assim, torna-se
necessário fazer a correção da temperatura.
A resistência elétrica depende da pressão exercida pelos eletrodos sobre a
amostra de grãos. Quanto maior a pressão exercida sobre os grãos, menor será a
resistência elétrica que poderá influenciar o valor correto da umidade. Portanto, cada
tipo de grão, num mesmo aparelho, deverá ser submetido a uma pressão específica (ler o
catálogo do equipamento).
Geralmente, os aparelhos comerciais (Figura 10) apresentam melhores
resultados para amostras com baixo teor de umidade (10 a 20% b. u.).

Figura 9 – Esquema do método da resistência elétrica e sua variação em função do


teor de umidade.

Figura 10 – Medidor de umidade cujo princípio de funcionamento é a resistência


elétrica dos grãos.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 83


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Ao usar um equipamento que funcione com base na resistividade elétrica, os


seguintes pontos devem ser observados:

1. Consultar o manual do equipamento. Cada tipo de grão exige uma técnica


específica e a leitura não pode ser repetida com uma mesma amostra, pois esta é
danificada pelo sistema de compressão.
2. As técnicas de amostragem devem ser seguidas.
3. Observar freqüentemente o estado de limpeza dos eletrodos. Ao serem
comprimidos entre eles, os grãos deixam um resíduo que poderá prejudicar as
determinações subsequentes.
4. Ajustar periodicamente o sistema de compressão, pois ele está sujeito a
esforços relativamente elevados e, dependendo do material de fabricação, poderá sofrer
sérias avarias.
5. A leitura, em caso de amostras retiradas quentes do secador, poderá ser irreal.
Para evitar erros, é importante manter os grãos em repouso por algum tempo
(homogeneização da umidade no interior dos grãos) e esperar que sua temperatura fique
próxima à temperatura do aparelho.
6. A leitura, em caso de grãos com superfície molhada por condensação ou que
foram expostos à chuva, mostrará um teor de umidade acima do real.
7. Os determinadores de umidade devem ser avaliados periodicamente e, se
necessário, devem ser novamente calibrados com a utilização de um método direto.

4.2.2. Método do dielétrico


As propriedades dielétricas dos materiais biológicos dependem, principalmente,
de seu teor de umidade. A capacidade de um condensador é influenciada pelas
propriedades dielétricas dos materiais colocados entre suas armaduras ou placas. Assim,
determinando as variações da capacidade elétrica do condensador, cujo dielétrico é
representado por uma massa de grãos, pode-se indiretamente determinar seu teor de
umidade.
A Figura 11 mostra o esquema básico de determinadores que utilizam as
propriedades dielétricas dos grãos. A variação da capacidade dielétrica (D) e o teor de
umidade (U) dos grãos são dados pela equação 9.

U=DxC eq. 9
em que

D = dielétrico;
C = constante que depende do aparelho, do material etc; e
U = teor de umidade.

Os equipamentos baseados neste princípio (Figuras 12 a,b,c) são rápidos e de fácil


operação. Ao contrário dos sistemas por resistência elétrica, não danificam as amostras
de grãos.
Para usar corretamente um aparelho com base no princípio do dielétrico ou
capacitivo, o operador deve seguir as seguintes recomendações:

84 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

1. Como alguns aparelhos medem também uma pequena resistência oferecida pelo
material à passagem de corrente elétrica, eles são considerados mais precisos na
determinação de teores de umidade mais baixos. Este método permite determinar o teor
de umidade de grãos recém saídos do secador, porque o efeito da temperatura é menor
do que aquele observado no método da resistência elétrica.
2. As técnicas de amostragem devem ser seguidas.
3. A correção adequada da temperatura é necessária.
4. A queda da amostra na câmara, sempre que possível, deve ser feita sempre a
partir de uma mesma altura e com bastante cuidado. Existem aparelhos que são
fabricados com dispositivos automáticos para pesagem e carga de amostras.
5. Flutuações de voltagem na linha de distribuição podem prejudicar a
determinação. Portanto, os equipamentos devem ser padronizados freqüentemente, de
acordo com o manual do equipamento.
6. Os determinadores de umidade devem ser avaliados periodicamente e, se
necessário, calibrados por meio de um método direto.
7. Para cada tipo de grão existe uma tabela específica para determinação do teor
de umidade.
8. As instruções do fabricante devem ser seguidas corretamente.

Figura 11 – Esquema elétrico básico de um determinador de umidade capacitivo.

B (analógico) A (digital) C (com interface para micros)

Figuras 12 - Determinadores de umidade com base nas propriedades dielétricas


dos grãos.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 85


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

5. TEOR DE UMIDADE DE EQUILÍBRIO

O conceito Teor de Umidade de Equilíbrio é importante porque está diretamente


relacionado à secagem e armazenagem dos produtos agrícolas e é útil para determinar se
o produto ganhará ou perderá umidade, segundo as condições de temperatura e umidade
relativa do ar. Quando a razão da perda de umidade do produto para o ambiente é igual
à razão do ganho de umidade, o produto está em equilíbrio com o ar ambiente. A
umidade do produto, quando em equilíbrio com o ambiente, é denominada umidade de
equilíbrio ou equilíbrio higroscópico. A umidade de equilíbrio é, portanto, a umidade
que se observa depois que os grãos são expostos por um período de tempo prolongado a
uma determinada condição ambiental.
O teor de umidade de equilíbrio de uma amostra de grãos depende ou é função da
temperatura, da umidade relativa do ar e das condições físicas do grão. Por exemplo, o
café em coco, em pergaminho e beneficiado apresenta umidades de equilíbrio
diferentes.
A relação entre a umidade de determinado produto e a correspondente umidade
relativa de equilíbrio, para uma dada temperatura, pode ser expressa por meio de curvas
(Figura 13a). São curvas denominadas “Isotermas De Equilíbrio", porque os valores
plotados para cada uma, correspondem à mesma temperatura. Na Figura 13b, pode-se
observar a representação do fenômeno da histerese, em que se verifica que os valores do
teor de umidade de equilíbrio são diferentes para quando os grãos ganham água
(adsorção) e quando perdem água (dessorção). A velocidade de adsorção de água pelo
grão é muito mais lenta que a velocidade de dessorção, o que faz com que ocorra o
fenômeno de histerese entre a curva de secagem e o reumedecimento do produto.
A relação matemática mais empregada para representar as isotermas de equilíbrio
é dada pela equação 10:

1 - UR = exp(-C T (Ue)n) eq. 10


em que

UR - umidade relativa do ar, decimal;


exp - base do logaritmo neperiano = 2,718;
T - temperatura absoluta, oK;
Ue - umidade de equilíbrio, % b.s.; e
C e n - constantes que dependem do material.

Pela equação 10 e Figura 13a observa-se que:


- a umidade de equilíbrio é zero para umidade relativa igual a
zero;
- a umidade relativa de equilíbrio aproxima-se de 100 % quando
a umidade do produto tende para 100%; e
- a declividade da curva tende para infinito quando a umidade
tende para 100%.

Dentro de certos limites, a equação 10 permite traçar a curva de equilíbrio para

86 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

um mínimo de dois pontos. As constantes para alguns produtos agrícolas já foram


determinadas e são mostradas na Tabela 4. Na Tabela 5, encontram-se alguns valores de
umidade de equilíbrio para diferentes produtos a 25oC.
Para predizer satisfatoriamente os valores de umidades de equilíbrio para o
milho e a soja, podem ser usadas as equações 11 e 12, para milho, as equações 13 e 14,
para soja.

Ue =7,4776 UR 0,4584/lnTf eq.11

para 0 < UR ≤ 52 %

Ue =21,2198 exp(0,0146 UR)/lnTf eq.12

para 52 ≤ UR <100 %

em que
Ue = umidade de equilíbrio do milho, % b.u.;
Tf = temperatura do grão, oF; e
UR = umidade Relativa do ar, %.

Ue = 3,96 UR 0,492 /lnTf eq.13

para 0 < UR < 55%

Ue = 6,21 exp(0,0274 UR)/ lnTf eq.14

para 55 <UR <100 %

em que
Ue = umidade de equilíbrio da soja, % b.s.;
UR = umidade relativa do ar, %; e
Tf = temperatura do grão, oF.

TABELA 4 – Constantes de equilíbrio para alguns produtos (equação 10).

Produto C n
Milho 1,98x10-5 1,9
Sorgo 6,12x10-6 2,31
Soja 5,76x10-5 1,52
Trigo 10,06x10-7 3,03

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 87


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Figura 13 a - Isotermas de equilíbrio com T1>T2>T3.

Figura 13 b - Fenômeno de histerese.

TABELA 5 - Teor de umidade de equilíbrio (% b.u.) para diversos produtos, a 25oC.

Umidade Relativa (%)


Produto
20 40 60
Café beneficiado 7,0 10,0 12,0
Milho 7,1 10,0 12,4
Arroz em casca 6,5 9,4 12,2
Soja 5,3 6,9 9,7
Trigo (duro) 7,2 9,9 12,1

A relação entre o valor de Ueq e as condições do ar pode ser também representada


pela seguinte equação:

Ue = a – b {ln[-(T+c)ln UR]} eq. 15

Em que:
a, b e c = constantes que dependem do produto (Tabela 6);

88 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

T = temperatura do ar (oC);
UR = umidade relativa (decimal); e
Ue = umidade de equilíbrio (decimal, b.s.).

TABELA 6 - Constantes a, b e c para o cálculo do teor de umidade de equilíbrio de


grãos, de acordo com a equação 15.

Produto a b c
Café 0,350 0,058 50,555
Milho 0,339 0,059 30,205
Arroz em casca 0,294 0,046 35,703
Soja 0,416 0,072 100,288
Trigo (duro) 0,356 0,057 50,998

5.1. Pressão de Vapor x Umidade de Equilíbrio


Como no ar, o vapor d’água do grão exerce pressões no sentido de ocupar todos
os espaços vazios em seu interior, e, de modo semelhante, a pressão de vapor d’água do
produto pode ser determinada pela superposição dos dados de umidade de equilíbrio, no
gráfico psicrométrico (Figura 14). Assim, a umidade de equilíbrio pode ser usada para
determinação da pressão de vapor do material. Se a pressão de vapor d’água do grão for
maior do que a pressão de vapor no ar ambiente, a água será transferida do grão para o
ambiente (desorção). Inversamente, se a pressão de vapor d’água do grão for menor do
que a do ar ambiente, a água passará do ambiente para o grão (absorção).
A pressão de vapor é dada em mbar, Pa ou mmHg, dendo determinada pela
superposição dos dados de umidade de equilíbrio no gráfico psicrométrico, bastando
para isto localizar o ponto na curva correspondente à umidade do produto para a
temperatura em questão e, em seguida, fazer a leitura da pressão de vapor. Outro
método para determinar a pressão de vapor d’água do grão consiste em localizar a
umidade relativa de equilíbrio, para a umidade do produto e temperatura em questão. A
umidade relativa de equilíbrio é definida como a razão entre pressão de vapor da água
do grão e a de vapor de saturação para a temperatura especificada. Assim, pode-se
determinar a pressão de vapor de água no grão como o produto da umidade relativa de
equilíbrio pela pressão de vapor de saturação, para aquela temperatura.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 89


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Figura 14 – Gráfico psicrométrico e curvas de Ue para milho.

90 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

5.2. Determinação da Umidade de Equilíbrio


A determinação da umidade de equilíbrio é feita pela manutenção do produto em
um ambiente (uma massa de ar) cujas características psicrométricas são conhecidas ou
preestabelecidas. Dois métodos são usados para determinar a umidade de equilíbrio: o
método estático (Figura 15), em que o ar e o produto não sofrem movimentação, e o
método dinâmico (Figura 16), em que o ar e o produto são movimentados
mecanicamente para acelerar o equilíbrio.
Apesar de mais usado, o método estático necessita de vários dias ou semanas
para que a umidade do produto entre em equilíbrio com o ambiente. Neste método,
pode-se usar soluções salinas saturadas ou soluções ácidas, a diferentes concentrações,
para manter a umidade relativa desejada sob determinada temperatura.
Usando o método dinâmico, chega-se mais rapidamente ao valor da Ue. A
velocidade com que o equilíbrio é atingido vai depender da quantidade de trocas a
serem feitas para um produto em particular. Neste método, o ar é borbulhado através de
uma solução ácida ou uma solução salina saturada, que controla a umidade em torno do
produto.
Um sistema de acondicionamento de ar ou uma câmara climática podem também
ser usados. Estes são equipamentos caros e raramente disponíveis em quantidade
suficiente para realizar testes simultâneos; por isso, o meio químico de controle da
umidade é geralmente o mais usado. A solução salina saturada mantém praticamente a
mesma umidade relativa a diferentes temperaturas.
É mais fácil manter uma solução salina saturada do que tentar manter uma
solução não-saturada. Isto porque, como a água evapora, a solução permanecerá ainda
“mais saturada”, mantendo a umidade relativa constante do começo ao fim do
experimento.
Solução de ácido sulfúrico não é indicada para o controle da umidade porque
corrói facilmente as partes metálicas e é menos estável do que a solução salina saturada.
Os efeitos da variação da temperatura sobre a umidade relativa vão depender do
produto químico usado, pois, a uma dada concentração, a porcentagem de umidade
diminui com o aumento da temperatura.
O tempo necessário para atingir o equilíbrio varia de acordo com a solução e o
tamanho do recipiente e das amostras. Para obter resultados satisfatórios, é aconselhável
utilizar amostras de 10 a 15 gramas. Para rápida recuperação da umidade relativa num
recipiente (Figura 15), depois que a tampa foi removida e recolocada, é necessário que
a superfície exposta da solução seja a máxima possível. A amostra deve ficar bem acima
da solução, para evitar seu contato com o produto em caso de uma movimentação
brusca do sistema.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 91


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Figura 15 – Esquema do método estático para determinação da Ue.

Figura 16 – Esquema do método dinâmico para determinação da Ue.

6. CALOR LATENTE

Para utilização na maioria dos processos computacionais ou nas previsões dos


processos de secagem, o calor latente ou entalpia de vaporização é determinado
considerando-se a evaporação da água livre, com o uso de tabelas de vapor. O emprego
desses dados para determinar o calor latente, especialmente quando o produto é colhido
com baixo teor de umidade, apresenta erros consideráveis. Os dados da umidade de
equilíbrio podem ser usados como base para determinação do calor latente (método de
OTHMER). A equação 16 relaciona a pressão de vapor com o calor latente de
vaporização de duas substâncias (água nos produtos e vapor d'água livre).

L /L' =(log P2- logP1)/ (log P'2- LogP'1) eq.16

em que L e P representam o calor latente de vaporização da água e a pressão de vapor,


nos produtos, e L' e P' representam o calor latente e a pressão de vapor da água livre.
Linhas quase retas são obtidas quando as pressões de vapor dos produtos são
plotadas na ordenada e a pressão de vapor da água é plotada na abcissa, em papel log-

92 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

log, para cada teor de umidade (b.s.). A inclinação destas linhas, para teores de umidade
diferentes, dá a razão entre o calor latente de vaporização da água no produto e o da
água livre. Assim, esta razão (L / L') pode ser expressa em termos de teor de umidade
quando existem dados de umidade de equilíbrio do produto disponíveis para várias
temperaturas, como na Tabela 7.

L / L' = 1 + a e(b.U) eq.17

em que

a e b = constantes que dependem do produto; e


U = teor de umidade do produto, % b.s.

TABELA 7 – Valores da razão (L/L’) e das constantes (a e b) para trigo, milho e arroz
a diferentes teores de umidade.

Produto Umidade L/L’ a b


5 1,1990
10 1,1441
Trigo 15 1,0919 0,4813 -0.1343
20 1,0246

5 1,3706
10 1,2882
Milho 15 1,2133 0,5779 -0,0744
20 1,1185

12 1,1596
15 1,0845
Arroz 17 1,0543 2,1346 -0,2161
19 1,0350

7. AMOSTRAGEM

A avaliação e a apresentação de uma resposta correta sobre problemas que


envolvem análises laboratoriais sobre qualidade de grãos baseiam-se nas seguintes
atividades: preparação da amostra para análise, metodologia laboratorial apropriada ou
segundo padrões oficiais, apresentação e interpretação de resultados, quando for o caso,
e retirada de amostras representativas do lote a ser analisado. Apesar de estar citada por
último e, por questões didáticas, ser apresentada neste ponto, a retirada de uma amostra
adequada é indispensável para a execução das outras atividades.
Amostras coletadas incorretamente promoverão distorções de dados e, muitas
vezes, conseqüências desastrosas. Mesmo quando os métodos de análises e classificação

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 93


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

são utilizados corretamente, o uso de amostras tendenciosas invalidará todas as outras


operações.
Por exemplo, para determinar a umidade de um lote de grãos, toma-se uma
amostra (quantidade menor) que represente o lote, visto não ser possível fazer a
determinação de todo o conjunto. Assim, a técnica de amostragem visa conseguir,
sempre que possível, uma quantidade do material que, embora pequena, possua todas as
características médias do conjunto. Na determinação do teor de umidade de uma carga
em sacaria, se a amostra for tirada somente de um saco, na parte superior dessa carga,
possivelmente ela não será representativa, pois poderá estar influenciada pela chuva, por
ventos úmidos ou secos etc.
Portanto, quanto maior a influência do meio de transporte, distância
transportada, do tipo de embalagem, da origem do produto e do meio ambiente, mais
apurados devem ser os critérios de retirada de amostras. Em geral, os manuais oficiais
fornecem os critérios mínimos, e nada impede que critérios extras, no sentido de
melhorar a representatividade das amostras, sejam adotados.

7.1. Tipos de Amostragens


Geralmente a comercialização de grãos é feita de três maneiras distintas, segundo os
sistemas de transportes e embalagens; para isso, deve-se estabelecer o método de
retirada de amostras:
- Amostragem de cargas em sacaria: no caso de amostragem de cargas em sacaria,
recomenda-se retirar amostras de pelo menos 10% dos sacos escolhidos ao acaso,
sempre representando a expressão média de cada lote e numa porção mínima de 30
gramas em cada saco. Caso o número de sacos seja inferior a 20, todos os sacos devem
ser amostrados. Caso a amostragem seja feita em lotes de sacaria, como no caso do
produto armazenado, deve-se seguir a Tabela 8.

TABELA 8 – Amostragem de sacaria em lotes

N a N a N a
362-400 20 2402-2500 50 6242-6400 80
842-900 30 3482-3600 60 7922-8100 90
1522- 40 4762-4900 70 9802-10000 100
1600
a = número de sacos a serem amostrados.
N = número de sacos por lote

- Amostragem de cargas a granel: em vagões ou caminhões, dependendo do tamanho


(Figura 17), devem-se retirar, aleatoriamente, no mínimo cinco amostras em diferentes
pontos, podendo ser retiradas duas em cada extremidade e uma no centro, usando um
coletor de amostras próprio para o material a granel;

94 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Figura 17 – Amostragem de carga a granel em caminhões.

Amostragem em transportadores: existem diversos tipos de coletores para


serem usados durante a descarga, nos transportadores mecânicos (correia, roscas
transportadoras, elevadores etc.) e transportadores por gravidade, que periodicamente
retiram uma amostra do material em movimento. O período ou intervalo de coleta é
determinado em função do tamanho da amostra, que deve ser bem calculado. Para
transportadores de correias e transportadores por gravidade, o mais simples seria um
pequeno caneco ou um amostrador por sucção, que, em períodos determinados, retiraria
uma amostra do produto.
Para amostragem em parafusos-sem-fim, um alçapão, adaptado na parte inferior
da tubulação ou calha, abriria a intervalos regulares, permitindo a retirada de pequenas
quantidades do produto.

7.2. Equipamentos
Caladores ("Triers"): os caladores são inseridos na sacaria para retirar as
amostras. Há dois tipos principais e com diferentes tamanhos, podendo ser de corpo
único ou com corpo de dupla tubulação (Figura 18).

Figura 18 – Caladores ou amostradores para sacaria.

Amostradores para caminhões e vagões graneleiros: para vagões ou


caminhões existe um amostrador com dupla tubulação e orifícios ao longo do coletor de
amostras; a tubulação interna gira, ora abrindo, ora fechando as aberturas externas.
Encontram-se no mercado amostradores de até 3 m de comprimento, com diâmetro
próximo de 4 cm e dotado de pontas, para facilitar a introdução na massa de grãos. Em

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 95


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

alguns casos, a tubulação interna é segmentada, com a finalidade de retirar amostras em


várias profundidades da carga. A Figura 17 detalha este tipo de equipamento. Outra
característica que pode ser encontrada neste amostrador é a adaptação em forma de um
"T" na extremidade superior e um helicóide na ponta, facilitando a introdução na massa
de grãos pela torção, à semelhança de um parafuso.

Amostradores para unidades armazenadoras a granel: neste caso, o principal


tipo de amostrador consta de um cilindro metálico, cuja capacidade varia de 125 a 254
g, dotado de uma ponta na extremidade inferior, para facilitar a introdução na massa de
grãos; na extremidade superior é acoplada uma peça com rosca para encaixe de
extensões, para diferentes profundidades de amostragem.
Durante a introdução do coletor na massa de grãos, o cilindro permanece
fechado. Atingida a profundidade desejada, um pequeno movimento em sentido
contrário provoca a abertura do cilindro, possibilitando, assim, a coleta da amostra.
Como a peça acoplada à extensão é presa ao cilindro por um elo metálico, pode-se
retirá-lo com a amostra desejada (Figura 19).
Dependendo do teor de umidade dos grãos, é possível coletar amostras com até 8
m de profundidade. À medida que aumenta a altura da camada de grãos, aumenta
também a dificuldade de amostragem. Para facilitar a operação, as extensões medem
cerca de 90 cm de comprimento e possuem roscas nas extremidades.
Alguns tipos de amostradores possuem termômetros acoplados que permitem,
também, verificar a temperatura da massa de grãos nos pontos amostrados.

Figura 19 – Amostradores para armazenagem a granel ou em silos.

Alguns tipos de amostradores utilizam princípios pneumáticos (por sucção) para


coleta de amostras a diferentes profundidades (Figuras 20 e 21). Para retirar uma
amostra média a diferentes alturas de um mesmo lugar, não é necessária a introdução
repetida do coletor, pois, ao introduzi-lo uma única vez na massa de grãos, as amostras
podem ser coletadas a diferentes profundidades.
Os amostradores pneumáticos são muito criticados, por aspirarem grande
quantidade de impurezas, mascarando, assim, a avaliação da amostra.

96 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Figura 20 – Amostrador pneumático com introdução manual e com extensores.

Figura 21 – Amostrador pneumático com introdução hidráulica.

Clique para ver: vídeo 1 vídeo 2 vídeo 3 vídeo 4 vídeo 5 vídeo 6

Divisor de amostras: quando o tamanho da amostra é relativamente grande,


retiram-se amostras da amostra, sendo para isso necessário que a original seja
homogênea. Para isso, empregam-se divisores que, além de dividirem a amostra
principal em metades, promovem também a homogeneização do material.
O uso do divisor de amostras é recomendado antes que sejam efetuadas
quaisquer determinações de umidade ou outro tipo de análise.
O tipo mais comum é o divisor " Boerner" (Figura 22), que movimenta os grãos
por gravidade. É um equipamento portátil, composto por uma moega cônica, receptora
de grãos, com capacidade variável e dotada de uma válvula para controlar o fluxo de
grãos. Esta moega comunica-se com um cone de expansão, onde os grãos são
uniformemente distribuídos por uma série de células radiais, que dividem a amostra em
partes iguais e as depositam em dois recipientes na base do divisor.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 97


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Figura 22 – Divisor e homogeneizador de amostra “Boerner”.

Clique para ver: vídeo 1

7.3. Formação e Apresentação das Amostras


A amostra usada para a determinação da qualidade comercial deve refletir
fielmente todo o lote amostrado. Para isso, é necessário que a amostra a ser analisada
seja adequada, bem embalada e conservada corretamente. As amostras classificam-se
em:
1- Amostra simples: é cada pequena porção de grãos retirados por um
amostrador, em diferentes pontos da carga.
2- Amostra composta: é formada pela combinação de todas as amostras
simples retiradas do lote. Pode ser normalmente maior que o exigido para
análise, a amostra composta deve ser subdividida.
3- Amostra média: é aquela que chega ao laboratório em quantidade suficiente
para as diferentes análises.
4- Amostra de trabalho: proveniente da redução da amostra média, é usada
em cada teste a ser realizado.
5- Amostra subjetiva: é utilizada para quando o material estiver sob suspeita.

7.4. Identificação das Amostras


Primeiramente, devem ser utilizadas embalagens que garantam uma
identificação segura e conservação perfeita das amostras. As embalagens podem ou não
ser herméticas, dependendo do tipo de análise a ser feita. Por exemplo, se a amostra for
usada na determinação da umidade, ela deverá ser acondicionada em embalagem
impermeável.
As embalagens devem possuir etiquetas de identificação, onde constem, no
mínimo, as seguintes anotações: número da amostra, identificação do lote (número,
quantidade, natureza e acondicionamento), nome do proprietário do lote, responsável
pela coleta da amostra/data e local da amostragem, como mostrado a seguir.

98 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Amostra:
Identificação do lote:
Número:
Quantidade:
Natureza:
Acondicionamento:
Nome do proprietário do lote:
Responsável:
Data:

8. AFERIÇÃO E CALIBRAÇÃO DE DETERMINADORES DE UMIDADE

Uma das maiores dificuldades encontradas para a adoção e utilização


generalizada dos determinadores de umidade por meio de medidores elétricos e
eletrônicos é o fato de serem equipamentos importados, ou cópias destes, produzidos
sob licenciamento, caros e não possuem escalas calibradas para alguns tipos de grãos
produzidos no Brasil. Outro problema encontrado se refere à credibilidade nos
resultados quando o equipamento apresenta algum tipo de desajuste devido a fatores
operacionais, ambiente de armazenamento ou alguma falha no sistema de alimentação,
dentre outros. Assim, torna-se necessária uma aferição e, em alguns casos, uma
calibração da escala reserva ou uma escala específica para determinar a umidade de um
tipo de grão em particular.
Mesmo obedecendo a todos os critérios operacionais indicados pelo fabricante,
dificilmente serão obtidos resultados semelhantes quando houver diferenças
significativas na composição química e nas características físicas entre determinadas
variedades de uma mesma categoria de grãos. Como exemplo, pode ser citado o caso do
feijão e do arroz, que apresentam grande variabilidade entre classes.
Além de acarretar problemas durante todas as fases do pré-processamento, uma
medição incorreta do teor de umidade implicará em perdas financeiras e de
credibilidade do pessoal responsável pelo setor de classificação de uma empresa. Por
tudo isso ou por um possível desajuste do equipamento, exigem-se avaliações que
permitam maior confiabilidade nos dados. Para tal, sugere-se que, periodicamente, o
operador faça medições de amostras com teores de umidade conhecidos e com o mesmo
tipo de grão a ser trabalhado. Constatados desvios absolutos superiores a 0,5 ponto
percentual, deve-se providenciar um ajuste ou uma nova calibração do equipamento em
uma instituição especializada.

8.1. Métodos de Calibração de uma Escala de um Determinador Indireto de


Umidade
Nos equipamentos em que a determinação de umidade é feita de forma indireta,
há necessidade de uma de calibração para cada tipo de produto segindo o seguinte
roteiro:
a) determinar o tamanho e o número de amostras necessários, segundo as

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 99


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

características do equipamento;
b) estabelecer a faixa de umidade desejada para calibração;
c) preparar material, embalagem e condições de armazenagem;
d) estabelecer e preparar as condições laboratoriais;
e) determinar o teor de umidade por meio de um método-padrão;
f) determinar a equação de correlação ou tabelas, usando dados de umidade
obtidos com o equipamento e com o método-padrão; e
g) calcular o fator de correção devido à temperatura.

No preparo do material na faixa de umidade desejada, deve-se ter o cuidado de


utilizar grãos colhidos e trilhados manualmente. O material original deve ser divido em
lotes e secado à sombra ou com ar a baixas temperaturas, na faixa de umidade desejada.
Por exemplo, se for estabelecida uma escala para a faixa de 10 a 20% de umidade, seria
conveniente estabelecer lotes com a umidade entre 8 e 22% com variação aproximada
de dois pontos percentuais.
Uma equação de correlação, por meio de um método estatístico, deve ser
estabelecida com os valores determinados pelo equipamento cuja escala se quer calibrar
e pelo método-padrão adotado. Caso estes pontos sejam plotados num sistema de
coordenadas (valores lidos na escala x teor de umidade-padrão) e caracterizarem uma
reta, por exemplo (equação 18 ), os valores a e b da equação podem ser facilmente
obtidos do diagrama traçado.

Y = ax + b eq.18

8.2. Equipamentos Necessários


Além de uma sala com temperatura e umidade relativa controladas em torno de
20oC e 60%, respectivamente, os seguintes materiais são necessários:
- manual de instrução do equipamento;
- determinador de umidade;
- um método oficial para determinar o teor de umidade real, como estufa, destilador ou
outros, com os respectivos acessórios;
- balança com precisão mínima de 0,5 g;
- termômetros;
- refrigerador;
- produto limpo, manualmente colhido e trilhado e com diferentes teores de umidade; e
- embalagens.

8.3. Calibração
Antes de iniciar a calibração propriamente dita, o operador deverá observar as
técnicas de amostragem e conhecer e manejar corretamente o equipamento cuja escala
será calibrada. Instruções mais completas poderão ser fornecidas pelo fabricante do
equipamento. Além disso, os seguintes procedimentos deverão ser observados:

- para calibrar uma escala qualquer, ou uma escala reserva (alguns equipamentos
apresentam uma escala e que não é definida para um determinado tipo de grão), devem

100 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

ser feitas, pelo menos, cinco determinações para cada teor de umidade;
- para evitar erros grosseiros e para facilidade de cálculos, todas as amostras em teste
devem ser conservadas em temperatura constante durante as determinações de
umidade, exceto aquelas destinadas às medições para correção de temperaturas;
- as amostras não devem conter material estranho;
- o método-padrão a ser usado deve ser o analítico, aceito para o material em teste.

8.4. Operacionalização dos Testes


Para a execução dos testes, os seguintes passos devem ser obedecidos:

1 - Verificação do tamanho da amostra, segundo característica do equipamento.


2 - Coleta da amostra:
a) obter o máximo de amostras, conforme a necessidade de calibração. Um
número menor que 50 amostras prejudicará a precisão do trabalho e
dificultará uma possível análise estatística;
b) cada amostra deve ter tamanho suficiente para todas as operações e eventuais
confirmações de resultados (aparelho e método-padrão);
c) o teor de umidade da amostra deve ser bem uniforme e estar alguns pontos
percentuais acima e abaixo dos limites estabelecidos para o trabalho de
calibração; e
d) as amostras a serem usadas devem ser pesadas com precisão mínima de 0,5g
e trabalhadas num mesmo dia. Por meio de um termômetro inserido na
amostra, obtém-se melhor indicação da temperatura desta.

3 - Determinações na amostra-teste:
a) anotar a temperatura da amostra, quando ela estiver em equilíbrio com o
ambiente, e proceder às determinações. Pelo menos cinco leituras, feitas de
cada amostra na escala reserva do dial, deverão ser anotadas, conforme a
Tabela 9; e
b) determinar a umidade pelo método-padrão, usando pelo menos três
repetições, e anotar os valores também como no exemplo da Tabela 9.

TABELA 9 - Leituras feitas na escala reserva e a umidade pelo método padrão

No da Temp. Leituras feitas no aparelho Método-


amostra oC padrão
1 2 3 4 5 Média
1 30 46,3 45,7 46,0 45,5 46,5 46 14,2
2

4 - Notas sobre a correção devido à temperatura:


a) para cada amostra, a leitura obtida na escala reserva do dial varia de acordo
com a temperatura dessa amostra;
b) dois gráficos são necessários para relacionar porcentagem de umidade e
leitura na escala reserva, ou seja, o primeiro gráfico correlaciona a leitura

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 101


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

feita na escala reserva com a porcentagem de umidade, para uma temperatura


de referência, conforme o método adotado; o segundo gráfico fornece a
correção decorrente da temperatura, que é função da diferença entre a
temperatura da amostra e a temperatura de referência;
c) a correção é adicionada ou subtraída do teor de umidade obtido na
temperatura de trabalho, obtendo-se o teor de umidade corrigido para a
temperatura de referência (em geral 22 oC); e
d) se a temperatura da amostra coincidir com a temperatura de referência,
nenhuma correção será necessária.

5 - Método para relacionar leitura da escala e temperatura:


a) selecionar pelo menos cinco amostras com diferentes teores de umidade;
b) pesar estas amostras e inserir os termômetros em cada uma delas (evitar que
sejam influenciadas pelo ambiente);
c) colocar as amostras e o medidor numa sala ou câmara, mantendo a
temperatura controlada. Calibrações na faixa de 5 oC a 45 oC podem ser
necessárias;
d) as leituras nos aparelhos serão feitas a cada incremento de 10 oC, desde que
as amostras estejam em equilíbrio com a temperatura ambiente, como, por
exemplo, 5, 15, 25, 35 e 45oC;
e) usando os dados de cada amostra, construir uma tabela semelhante à Tabela
10;
f) construir um gráfico tendo, na abscissa, a temperatura e, na ordenada, a
leitura do dial para cada amostra, conforme mostra a Figura 23;
g) a inclinação de cada linha define K como fator de correção;
h) em geral, os valores de K são independentes da umidade, no caso de as
linhas apresentadas na Figura 23 serem praticamente paralelas.
i) quando as linhas fogem significativamente do paralelismo, para cada
incremento de 2 pontos no teor de umidade, deve-se usar um valor diferente
de K;
j) se os valores de K estiverem distribuídos bem próximos ao valor médio, este
será usado para corrigir todos os valores de umidade lidos para a temperatura
de referência, como segue:
- leitura do medidor à temperatura de referência (TR) = leitura do medidor à
temperatura T +K(TR - T), quando a temperatura T da amostra for menor
que TR;
- leitura do medidor à temperatura de referência (TR)=leitura do medidor à
temperatura T - K(T - TR), quando a temperatura T da amostra for maior
que TR.

102 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

TABELA 10 – Dados (imaginários) para obtenção da relação entrem a leitura do dial e


a temperatura.

Temp. Leitura do dial do aparelho


o
C 1 2 3 4 5 Média
5
15 40,1 40,3 40,1 39,9 40,1 40,1
25
35 43,1 43,3 43,1 42,9 43,1 43,1

6 - Traçado da curva de calibração:


a) os dados das colunas (4) e (5), na Tabela 11, são plotados usando-se um
sistema de eixos coordenados, o qual tem como abscissa a leitura da escala à
temperatura de referência e como ordenada a porcentagem de umidade;
b) como resultado, obtém-se uma série de pontos dispersos e, usando os
métodos gráfico ou estatístico, constrói-se uma linha que melhor se ajuste a
estes pontos (Figura 24).

7 - Tabela final de dados:


a) Método gráfico: muitas vezes a relação entre leitura da escala e teor de
umidade real é linear. Neste caso, pode-se construir uma linha reta entre os
pontos obtidos. Esta aproximação pode ser aplicada para relacionar a leitura da
escala reserva ao teor de umidade (Figura 24). A figura mostra a dispersão dos
pontos em relação à reta que passa entre eles. A equação desta linha é y = a x +
b, que, sendo resolvida para a temperatura de referência, levará aos valores
necessários à elaboração da tabela de calibração da escala.Embora raramente
ocorra, a ligação dos pontos pode não fornecer uma linha reta; neste caso, é
necessário trabalhar os dados para encontrar o ponto de deflexão (Figura 25),
traçar os segmentos de reta e trabalhar por faixa. Pode-se também, por meio de
métodos estatísticos, ajustar uma equação não-linear para corrigir o valor
encontrado à temperatura de referência.
b) Método estatístico: para obter melhor ajustamento da linha reta entre os
pontos, o método mais usado é o dos quadrados mínimos. Usando os dados da
Tabela 9, podem-se calcular as constantes a (inclinação) e b (intercessão da reta
com a ordenada) e escrever a equação da reta y = ax + b, com a qual constrói-se
o quadro de calibração da escala.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 103


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Tabela 11 – Dados finais (imaginários) de leitura do determinador de umidade

No Temp. Leitura média Leitura Umidade


o
Amostra C 5 corrigida padrão
determinações devido à temp. %
1 40 46,0 45,1 14,0
2 40 45,7 44,9 13,3
3 - - - -

Figura 23 – Determinação do fator de correção K.

104 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

Figura 24 – Traçado da linha de calibração.

Figura 25 – Traçado da linha com deflexão.

8 - Determinação dos valores da tabela de calibração:


a) com os valores lidos na nova escala, a correspondência porcentual de umidade
pode ser obtida substituindo-se o valor da escala reserva (x) na equação de
calibração.
b) admitindo-se que, tanto pelo método gráfico quanto pelo método estatístico, a
equação da reta seja Y =0,2X + 8, pode-se escrever

Up = (0,2 DD + 8) eq.19

em que

Up = umidade pelo método-padrão (%);


DD = divisões do dial da escala reserva.
c) as duas colunas da tabela de calibração podem ser encontradas, substituindo
as leituras da escala na equação 18 e resolvendo esta equação para cada um
dos valores lidos;
d) por exemplo, lendo o valor 50 na escala do dial e resolvendo a equação,
obtém-se Up = 0,2 x 50 +8 Up = 18%;
e) a tabela de calibração para a temperatura de referência deve conter todas as
leituras da escala na faixa das umidades consideradas; e
f) uma segunda tabela de calibração deve ser feita para obtenção do valor
correto de umidade para a temperatura de referência, a partir da porcentagem
de umidade correspondente à temperatura atual da amostra; o fator de
correção K independe da porcentagem de umidade, caso em que as linhas
são paralelas (Figura 23).

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 105


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

A constante será determinada em porcentagem de umidade por grau Celsius (%


U/ oC). Esta constante de correção do teor de umidade decorrente da temperatura é igual
ao produto de K por a. A constante K relaciona a leitura do dial com a temperatura e
também com a porcentagem de umidade.

CT = K.a = % U / oC eq. 20

CT =(DD /oC )x (% U/ DD) = % U / oC eq. 21

em que

K =DD/ oC; e
a =% U/DD

Tomando como exemplo a = 0,20 (porcentagem de umidade por divisão do dial)


e K = 0,29 (divisão do dial por oC), obtém-se:

CT =0,29 x 0,20 = 0,058 % U/ oC

Correção do teor de umidade para a temperatura de referência:

TR = CT (T - TR), para TR <T eq.22

Correção do teor de umidade para a temperatura de referência:

TR = CT (TR - T), para TR >T eq.22

A tabela para correção decorrente da temperatura é construída colocando-se a


temperatura da faixa desejada, por exemplo 1 a 40oC, em uma coluna, e a correção da
porcentagem de umidade é calculada para cada temperatura e colocada na segunda
coluna (Tabela 12).

Tabela 12 – Exemplo da correção da umidade devido à temperatura.

Temperatura ( oC) Correção da percentagem de umidade


1 +4,50
2 +4,44
3 +4,38
- -
- -
- -
Temp. de referência 0,0

106 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 4 Indicadores de Qualidade

9. LITRARURA CONSULTADA

1. BAKKER-ARKEMA, F.W. Grain quality and management of grain quality


standard. Porto Alegre, FAO Technical Symposium on Grain Drying and Sorage
in Latin America, 1993. 7p. (Paper , I-02)
2. BAKKER-ARKEMA, F.W.; BROOK, C.R.; LEREW, L.E. Cereal grain drying. In:
ADVANCES in cereal science and technology. St. Paul, Pomeranz, American
Association of Cereal Chemists,1978. 90 p.
3. BAKKER-ARKEMA, F.W.; RODRIGUEZ, J.C.; BROOK, R.C.; HALL, G.E. Grain
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5. BROOKER, D.B.; BAKKER-ARKEMA, R.W.; HALL, C.W. Drying and
storage of cereal grains and oilseeds. New York. AVI Publishing, 1992. 450 p.
6. CHRISTENSEN, C.M. & KAUFMANN, H.H. Grain storage. Minneapolis,
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Pré-processamento de produtos agrícolas, Juiz de Fora, Instituto Maria,1995.
509p.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 107


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Capítulo

5
SECAGEM E SECADORES

Juarez de Sousa e Silva


Adriano Divino Lima Afonso
Sérgio Maurício Lopes Donzelles
Roberta Martins Nogueira

1. DEFINIÇÃO E IMPORTÂNCIA

A secagem é uma das etapas do pré-processamento dos produtos agrícolas que


tem por finalidade retirar parte da água neles contida. É definida como um processo
simultâneo de transferência de calor e massa (umidade) entre o produto e o ar de
secagem. A remoção da umidade deve ser feita em um nível tal que o produto fique em
equilíbrio com o ar do ambiente onde será armazenado e deve ser feita de modo a
preservar a aparência, a qualidade nutritiva e, no caso de grãos, a viabilidade como
semente.
Para entender adequadamente os fundamentos da secagem de grãos e o controle
das técnicas, o leitor deve, primeiramente, ter conhecimento dos princípios de
psicrometria (capítulo 3 - Princípios Básicos de Psicrometria), teor de umidade e
umidade de equilíbrio (capítulo 4 - Indicadores da Qualidade dos Grãos) e, em seguida,
noções sobre quantidade e movimentação do ar (Capítulos 10 e 11).
A importância da secagem de produtos agrícolas aumenta à medida que cresce a
produção, devido às seguintes vantagens:
- permite antecipar a colheita, disponibilizando a área para novos cultivos;
- minimiza a perda do produto no campo;
- permite armazenagem por períodos mais longos, sem o perigo
de deterioração do produto;
- o poder germinativo é mantido por longos períodos; e
- impede o desenvolvimento de microrganismos e insetos.

2. PRINCÍPIOS GERAIS DA SECAGEM

Durante a secagem, a retirada da umidade é obtida pela movimentação da água,


decorrente de uma diferença de pressão de vapor d'água entre a superfície do produto a

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 109


Capítulo 5 Secagem e Secadores

ser secado e o ar que o envolve (Figura 1). A condição para que um produto seja
submetido ao processo de secagem é que a pressão de vapor sobre a superfície do
produto (pg) seja maior do que a pressão do vapor d'água no ar de secagem (par). As
seguintes observações podem ser feitas:
1 - se pg > par: ocorrerá secagem do produto;
se pg < par: ocorrerá umedecimento do produto; e
se pg = par: ocorrerá o equilíbrio higroscópico.
2 - A velocidade de secagem de um produto depende, além do sistema de
secagem utilizado, das características de secagem do grão individualmente. Em geral,
para os grãos pequenos, a velocidade de secagem é maior que para grãos de grandes
dimensões. Grãos desprovidos das camadas protetoras (sementes nuas) secam mais
rapidamente do que aqueles que apresentam a estrutura integral. Os grãos de milho, por
serem maiores que os de arroz e trigo, secam mais lentamente. Por outro lado, apesar de
apresentarem tamanho comparável, os grãos de arroz em casca secam mais lentamente
que os de trigo. Da mesma maneira, pode-se fazer comparações com os grãos de café.
Se não forem convenientemente separados por estado de maturação, tamanho e
condição física semelhantes, dificilmente se terá um produto final (café beneficiado)
que apresente secagem homogênea e mesmo ponto de torra.
Para efeito de comparação, apresentam-se, na Figura 2, as velocidades relativas de
secagem de dois tipos de grãos, submetidos à determinada condição de secagem. Grãos
de mesma características, com menores dimensões e com menor conteúdo de umidade
possuem menores velocidades relativas de secagem. Outro fenômeno verificado nos
produtos agrícolas é a velocidade da absorção de água pelo grão, que é muito mais lenta
do que na dessorção.

Figura 1- Representação da movimentação da água durante a secagem.


Vel. relativa de secagem

215

165
milho
115
trigo
65

15
14 19
Umidade %
Figura 2 - Velocidades relativas de secagem para milho e trigo.

110 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Existem várias hipóteses para a movimentação da água durante a secagem, e a


mais aceita é a do movimento capilar (gargalo). Segundo esta, o processo de secagem
que ocorre no interior do produto pode ser dividido em dois períodos, um denominado
período de razão constante e outro de período de razão decrescente que, por sua vez,
pode ser caracterizado por mais períodos, como apresentado a seguir:
a) Período de razão constante: quando o produto se encontra completamente
úmido, no início da secagem, a água escoa, na fase líquida, sob um
gradiente hidráulico (Figura 3) e, em condições naturais, à temperatura do
produto se iguala à temperatura de bulbo molhado de um psicrômetro,
instalado bem próximo do produto. Com a secagem ou a retirada da
umidade, ocorre decréscimo no diâmetro dos poros e capilares e,
conseqüentemente, decréscimo no volume do produto, aproximadamente,
igual ao volume da água evaporada. A energia utilizada para a secagem
nesse período é praticamente igual à necessária para evaporação da água em
uma superfície livre. Com exceção dos cafés (cerejas e verdes) recém-saídos
do lavador, este período não é observável em produtos agrícolas, como
grãos, porque, ao serem colhidos, este período já ocorreu no campo,
estando, portanto, a secagem no período de razão decrescente.

Figura 3 – Representação da movimentação da água de um produto no período de


razão constante.

b) Primeiro período de razão decrescente: à medida que a secagem


prossegue e tenha passado pelo ponto de umidade crítica, estagio físico em
que a água contida no produto deixa de comportar-se como água livre, o teor
de água decresce e a água na fase líquida faz a ligação entre as partículas
sólidas (produto), formando a de pontes líquidas. Apesar de poder ocorrer
escoamento de água na fase de vapor, o escoamento é predominantemente
capilar (Figura 4). A temperatura do produto atinge valores superiores à
temperatura de bulbo molhado.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 111


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 4 - Movimentação da água durante o primeiro período de razão


decrescente.

c) Segundo período de razão decrescente: a água existente nos gargalos dos


poros pode migrar, arrastando-se ao longo das paredes capilares ou
evaporando e condensando, sucessivamente, entre as pontes líquidas (Figura
5). A pressão parcial de vapor decresce e a contração de volume do produto
continua, porém em menor intensidade.

Figura 5 - Movimentação da água durante o segundo período de razão decrescente.

d) Terceiro período de razão decrescente: a secagem ocorre no interior do


produto. A umidade de equilíbrio do grão é atingido quando a quantidade de
água evaporada se iguala à quantidade condensada (Figura 6).

112 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 6 - Movimentação da água durante o terceiro período de razão decrescente


ou durante o equilíbrio higroscópico.

3. SISTEMAS DE SECAGEM

Devido à inexistência de uma classificação oficial e apenas por questões


didáticas, os métodos de secagem serão classificados e estudados segundo a seqüência a
seguir:

Natural – no campo, na própria planta


Terreiros e paióis
Ventilação Secagem Solar
Natural Outros
Ar Natural
Camada fixa
Cruzados
Concorrentes
Quanto Contra-correntes
Sistemas
Altas aos fluxos Cascata
de
Temperaturas Rotativo
secagem Artificial Ventilação
Fluidizado
Forçada
Solar híbrido
Quanto à Intermitentes
operação Contínuos
Baixas Temperaturas
Sistemas Combinados
Seca-aeração
Convecção

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 113


Capítulo 5 Secagem e Secadores

A secagem natural é caracterizada pela secagem do produto no campo, na


própria planta, sem a interferência do homem.
A secagem artificial é caracterizada pela utilização de processos manuais ou
mecânicos tanto no manejo do produto quanto na passagem do ar através da massa de
grãos. No caso do terreiro e do paiol, a secagem ocorre pela ventilação natural (ação dos
ventos), mas na maioria dos casos o ar é forçado por meio de ventiladores. Em alguns
secadores o ar de secagem é movimentado por meio de correntes convectivas.
Na secagem com ventilação forçada, podem-se empregar baixa temperatura, alta
temperatura, secagem combinada e outros.
Secagem em baixas temperaturas é um método artificial de secagem em que se
utiliza ar natural ou ar levemente aquecido (até 10 oC acima da temperatura ambiente).
A secagem com alta temperatura é aquela em que o ar de secagem é aquecido a
uma temperatura superior a 10oC acima da temperatura ambiente. Este limite não é
rígido, mas esta é a diferença que caracteriza o processo como não sendo mais de baixa
temperatura.
A secagem combinada consiste em utilizar secadores em altas temperaturas na
fase em que o produto apresenta-se com umidade elevada. A partir de uma umidade
preestabelecida, que é função das condições ambientais, o produto é transferido, ainda
quente, para um sistema de baixa temperatura, onde a secagem será completada.
Na secagem por convecção natural, o secador é alimentado por um sistema que
utiliza alta temperatura, sendo necessários trocadores de calor entre o ar de combustão e
o ar de secagem. Nos secadores por convecção não são usados ventiladores. O ar
atravessa a massa de grãos por diferença de densidade (ver Secagem de Cacau).

4. SECAGEM NATURAL

A secagem natural é um método amplamente utilizado em regiões tropicais


subdesenvolvidas e/ou em desenvolvimento. Várias razões justificam essa utilização,
como o desconhecimento de técnicas mais modernas pela maioria dos agricultores.
Normalmente, as condições climáticas nestas regiões permitem a secagem natural; além
disso, os investimentos para realizá-la são mínimos.
O início do processo de secagem ocorre logo após a maturação fisiológica do
produto, quando este apresenta elevado teor de umidade. A movimentação do ar é feita
pela ação do vento e a energia para evaporação de umidade provém do potencial de
secagem do ar e da incidência direta da energia solar.
Embora, com o passar do tempo, alcance um teor de umidade adequado para
armazenagem, o produto fica sujeito ao ataque de pragas, ao tombamento de plantas e às
intempéries, que contribuem para acarretar grandes perdas e qualidade do produto. Uma
grande desvantagem da secagem natural no campo é que ele fica ocupado por muito
tempo, retardando as operações de preparo do solo para novo cultivo. No caso de
culturas perenes como o café, o retardamento da colheita provoca um ciclo bianual de
produtividade. Além de facilitar o desenvolvimento e ataque de pragas, o trabalho de
colheita fica dificultado, e, no caso de colheita mecânica, o baixo teor de umidade do
produto faz com que, durante a colheita e a debulha, apareçam grandes quantidades de
danos mecânicos e perdas no campo.

114 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Como não é técnica aconselhável e pouco utilizada na produção comercial da


maioria dos grãos, não será objeto de estudo neste livro.

5. SECAGEM ARTIFICIAL

Na secagem artificial existe a interferência do homem, acelerando e melhorando


o processo. Ela pode ser feita com ventilação natural, ventilação forçada e convecção
natural.

5.1. Ventilação Natural


a) Secagem em terreiro: difere da secagem natural simplesmente pelo fato de o
produto ser retirado da planta e espalhado em camadas de espessura, geralmente,
inferior a 5 cm em um pátio previamente preparado, que pode ser de concreto, asfalto,
alvenaria ou de terra batida, denominado terreiro (Figura 7). A energia utilizada para a
remoção da umidade é proveniente da radiação solar e da entalpia do ar. No Brasil, além
do café, o produto de maior expressão que utiliza esse método de secagem é o cacau.
Maiores detalhes sobre a secagem em terreiros e suas variações serão vistos nos
capítulos 7 e 17 (Secagem de Grãos com Energia Solar e Secagem e Armazenagem de
Produtos Agrícolas, respectivamente).
A secagem em terreiros apresenta a desvantagem da dependência dos fatores
climáticos, que, se forem desfavoráveis, retardam o processo e propiciam a infecção do
produto por microrganismos que causam a deterioração e depreciam o produto.

Figura 7 – Vista geral de um terreiro de concreto para secagem de café.

5.2. Ventilação Forçada


A secagem de grãos em silos com ventilação forçada utilizando apenas ar natural
ou com baixa temperatura é um processo lento. A baixa velocidade de secagem é devida
ao pequeno fluxo de ar insuflado na massa de grãos e à dependência da capacidade de
secagem do ar em estado natural. Por ser realizada em silo, é também entendida como
secagem durante o armazenamento, pois, após a secagem, o produto pode permanecer
armazenado no mesmo silo.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 115


Capítulo 5 Secagem e Secadores

O silo secador-armazenador (Figura 8a, b) apresenta algumas características


especiais que não são exigidas para os silos empregados apenas para a armazenagem: o
piso deve ser todo de chapas metálicas perfuradas, com no mínimo 15% de área
perfurada, para promover a distribuição uniforme do ar; e o ventilador deve fornecer
quantidade de ar suficiente para realizar a secagem de toda a massa de grãos sem que
ocorra a deterioração. As dimensões do silo (diâmetro e altura) e o produto a ser
armazenado determinam a potência do ventilador a ser usado.
Como a pequena quantidade de ar por unidade de massa de grão torna o
processo lento e baixas temperaturas do ar diminuem a capacidade de evaporar a água
do produto, o processo é dificultado em regiões de alta umidade relativa. Algumas vezes
utilizam-se fontes suplementares de aquecimento (resistência elétrica, fornalha, energia
solar, entre outras) para contornar este problema, que pode, no entanto, provocar uma
supersecagem que resulta em prejuízo para o usuário. Este problema pode ser
solucionado pela adaptação de um umidistato e de um termostato ao plenum, para
controlar o funcionamento da fonte de aquecimento.
Normalmente, na secagem com ar natural, o potencial de secagem do ar
ambiente e o pequeno aquecimento provocado pelo ventilador (2 a 3 oC) são suficientes
para propiciar a obtenção do teor de umidade final recomendado para um
armazenamento seguro. Sistemas de secagem com ar natural e em baixas temperaturas
devidamente projetados e manejados são métodos econômicos e tecnicamente
eficientes.
A secagem com ar natural ou com baixa temperatura inicia-se na camada
inferior do silo e vai progredindo até atingir a última camada, na parte superior. Durante
este período distinguem-se três camadas ou faixas de umidade (Figura 8).
A primeira faixa ou subcamada é formada por grãos secos. Nessa faixa, o
produto já atingiu o equilíbrio com o ar de secagem e todos os grãos apresentam o
mesmo teor de umidade, que é conhecido como teor de umidade de equilíbrio.
Só ocorrerá secagem adicional, nessa subcamada, se a umidade relativa do ar
abaixar muito em relação à média desejável (60% para o café) por tempo prolongado.
Valores abaixo de 60% são muito freqüentes em regiões de cerrado, por ocasião da
colheita do café, as soluções para evitar supersecagem do produto será fornecida mais
adiante.
Na segunda faixa, denominada frente de secagem, ainda ocorre a transferência
de umidade do produto para o ar. A espessura dessa faixa varia, geralmente, entre 30 e
60 cm e depende das condições estabelecidas para o projeto (fluxo de ar, condições
ambientais e do produto).
A terceira faixa é formada pelos grãos que ainda não passaram pelo processo de
secagem, ou seja, toda a terceira faixa tem o teor de umidade equivalente ao da umidade
inicial, pois, ao passar por essa camada, o ar está com sua capacidade de secagem
esgotada. A temperatura, nesta camada, é inferior à temperatura do ar no plenum (ar de
secagem), uma vez que o ar é resfriado devido à troca de calor com o produto na frente
de secagem.
O cálculo da vazão do ar de secagem e a escolha dos equipamentos devem ser
feitos com muito cuidado. A vazão deve ser tal que permita à frente de secagem
alcançar as camadas superiores sem ocorrência de deterioração. As Figuras 9 mostra o

116 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

tempo permissível armazenamento (TPA) para que o produto (milho), com diferentes
teores de umidade, permaneçam no processo de secagem à baixa temperatura sem que
ocorra durante o tempo de secagem.

a b
Figura 8 – Silo para secagem com ar natural ou com baixa temperatura,
mostrando a frente de secagem (FS).

Figura 9 – Diagrama de Steele e Saul, para conservação do milho.

5.3. Manejo e Recomendações para Ventilação em Silos Secadores


a) Utilizar um ventilador com fluxo de ar de acordo com o teor de umidade
inicial dos grãos, conforme Tabela 1.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 117


Capítulo 5 Secagem e Secadores

b) Para o carregamento adequado de um silo com milho ou café despolpado


com teor de umidade de 18% ou 20% b.u., oriente-se pela Tabela 2.

TABELA 1 - Fluxo de ar em função da umidade inicial do produto

Produto Umidade Inicial Fluxo


(%, base úmida) (m de ar.min-1m-3 de grão)
3

Milho, feijão e arroz 18 - 20 1,5


Café coco 20 -22 2,5
Café despolpado 20 - 22 1,5

TABELA 2 - Formas de carregamento do silo para secagem com ar natural e com baixa
temperatura

Diâmetro e Umidade Inicial vs Fluxo de Ar


Capacidade do Silo 18% b.u. vs. 0,7 m3/min.m3 20% b.u. vs. 1,5 m3/min.m3
por metro de carga Carga Tempo Potência Carga Tempo Potência*
(m3/m) (m) Secagem * (m) Secagem (c.v.)
** (dias) (c.v.) (dias)
D=4,5 m 4 19 0,5 3 12 1,5
16,2 m3/m 5 19 1,0 4 12 4,0
6 19 2,0 5 12 7,0
D=5,5 m 5 20 2,0 3 13 1,5
23,1 m3/m 6 20 3,0 4 13 5,0
7 20 5,0 5 13 10,0
4 20 1,0 2 13 0,5
D=6,5 m 5 20 2,0 3 13 2,0
33,0 m3/m 6 20 4,0 4 13 6,0
7 20 6,0
* Para potências superiores a 3 c.v., recomenda-se a utilização de ventiladores centrífugos.
** Recomenda-se atingir a altura estabelecida em, no máximo, três dias.

5.4. Formas de Carregamento do Silo


O carregamento do silo, durante a secagem com ar natural ou com baixa
temperatura, pode ser conduzido de três modos, conforme a disponibilidade do sistema
operacional implantado:

a) Enchimento em uma etapa: consiste em carregar o silo em até cinco dias,


tempo relativamente curto, uma vez que, dependendo das condições atmosféricas, este
método demanda períodos superiores a 25 dias para o término da secagem.

Vantagens:
- pouca exposição aos danos próprios da manipulação (danos mecânicos),
devido à pouca movimentação do produto;

118 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

- custos operacionais reduzidos em regiões de baixa umidade relativa;


- demanda de pouca mão-de-obra; e
- o recebimento do produto não fica condicionado ao andamento da secagem
do material existente no silo.

Desvantagens:
- devido ao longo período de secagem, as camadas superiores correm o risco de
deterioração quando mantidas com altos teores de umidade (Tabela 3),
podendo, em alguns casos, ocorrer condensação de água, agravando ainda
mais o problema;
- risco de supersecagem nas camadas inferiores, quando utilizada fonte
suplementar de aquecimento sem um controle adequado; e exige
acompanhamento constante durante a secagem.

TABELA 3 - Números de dias permitidos para secagem sem deterioração do milho

Temperatura Umidade do produto (% b.u.)


( oC ) 16 18 20 22 24 26 28 30
10 150 75 50 30 20 15 10 7
15 70 40 25 15 10 7 4 2
20 40 25 15 10 7 4 2 1
25 30 20 12 8 5 3 2 1

b) Enchimento por camadas: O processo está condicionado ao teor de umidade


final do produto. Uma nova camada só é adicionada se a última já estiver, praticamente,
em equilíbrio com o ar de secagem ou já seca. Procede-se dessa maneira até atingir a
altura-limite estabelecida pela capacidade do silo e pelo fluxo do ar de secagem
(Tabelas 1 e 2). Assim, as primeiras camadas colocadas na célula podem apresentar
maior teor de umidade inicial, devido ao fato de receberem maiores fluxos de ar de
secagem. Inversamente, as últimas camadas adicionadas deverão apresentar menores
teores de umidade inicial.
A quantidade de produto a ser colocada de cada vez dependerá da velocidade de
deslocamento da frente de secagem, do teor de umidade inicial dos grãos e da
temperatura do ar que entra da zona de secagem.
Este método exige mais de um silo secador para o bom andamento da colheita.
Mais adiante, será descrito o método dos sete silos para a secagem do café.
Vantagens:
- secagem mais rápida, quando comparada ao método de enchimento em uma
etapa;
- menor risco de deterioração; e
- o fluxo mínimo necessário é inferior ao do método de enchimento em uma
etapa.
Desvantagem:
- requer maior atenção no controle do processo de secagem.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 119


Capítulo 5 Secagem e Secadores

c) Camada única: consiste em carregar o silo com camada única de até 1,0 m de
espessura e realizar a secagem. Esse processo é bastante parecido com o de secadores de
camada fixa para café sem aquecimento do ar e revolvimento do produto. A diferença
entre este e o método anterior de carregamento é que, no método de camada única,
retira-se a camada seca para depois realizar o novo carregamento. Este método é mais
utilizado para produtos de elevado valor comercial ou para aqueles que não suportam a
pressão devido ao peso da camada.

Vantagens:
- secagem rápida de cada uma das camadas;
- menores riscos de deterioração durante a operação de secagem; e
- maiores fluxos de ar por tonelada de produto do que os métodos
anteriores.

Desvantagens:
- equipamentos menos eficientes; e
- maior demanda de mão-de-obra.

5.5. Movimentação do Produto no Silo


Conforme a movimentação do produto, pode-se dividir o processo de secagem
com baixas temperaturas com camada estática ou com revolvimento da camada:

a) Processo estático: nesta operação, o produto não é movimentado durante o


processo e observam-se as três regiões distintas na massa de grãos, conforme
visto na Figura 8.
b) Revolvimento do produto esta operação geralmente é associada à secagem
em regiões de umidade relativa média inferior a 60% ou onde há necessidade
de aquecer o ar de secagem para acelerar o processo. Nessas condições, os
gradientes de umidade e temperatura estabelecidos na massa de grãos são
maiores, podendo ocorrer supersecagem da massa de grãos. Para solucionar
o problema, a frente de secagem deve ser destruída por meio de helicóides
nus, que fazem o revolvimento do produto no interior do silo,
homogeneizando e elevando as camadas inferiores secas para a parte
superior. O esquema de um equipamento revolvedor (stirring device) é
apresentado na Figura 10. O equipamento misturador é formado por uma ou
mais roscas verticais, que se movimentam radialmente do centro para a
parede do silo e vice-versa, misturando o produto verticalmente. Além de
possuir custo elevado e de perder parte da capacidade estática do silo para a
adaptação do sistema, esse equipamento pode causar o indesejável
descascamento do café despolpado.

120 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 10 - Silo com equipamento para revolvimento do produto.

Vantagens:
- maior rendimento para o mesmo volume de produto e maior fluxo de ar
do que o método de enchimento em uma etapa;
- menor risco de deterioração do que os métodos anteriores; e
- eliminação do gradiente de umidade quando se usa temperatura elevada.
Desvantagens:
- maior manipulação do produto do que em todos os métodos estáticos, o
que pode provocar maior índice de produto com danos mecânicos;
- maior investimento inicial e maior custo operacional do que no método
estático;
- sobrecarga do equipamento sobre as paredes e o piso do silo; e
- acúmulo de materiais finos no centro do silo.

Outra maneira de se obter o revolvimento do produto consiste no uso de


recirculadores de grãos (Figura 11). Esses equipamentos removem os grãos das camadas
próximas ao piso e os colocam no topo da massa. O teor de umidade da camada a ser
removida é função de sua temperatura. A camada de grãos é removida à medida que a
frente de secagem é parcialmente formada. Assim, a frente de secagem não se
estabelece completamente junto à sua superfície inferior, e o grão não atinge o
equilíbrio com o ar de secagem. A zona de secagem permanece estacionária, com os
grãos úmidos movimentando-se para baixo. Este sistema será melhor detalhado, quando
for tratado dos sistemas de secagem a altas temperaturas.
Vantagens:
- maior rendimento para o mesmo volume de produto e fluxo de ar do que
o método de enchimento em uma etapa;
- menor risco de deterioração do que os métodos anteriores; e
- eliminação do gradiente de umidade.
Desvantagens:
- maior manipulação do produto do que em todos os métodos estáticos, o

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 121


Capítulo 5 Secagem e Secadores

que pode provocar maior índice de produto com danos mecânicos;


- maior investimento inicial e maior custo operacional do que no método
estático;
- sobrecarga do equipamento sobre as paredes e o piso do silo; e
- acúmulo de materiais finos no centro do silo.

Figura 11 – Silo equipado com recirculador de grãos.

5.6. Operação e Monitoramento da Secagem


O tempo de funcionamento do ventilador durante o processo de secagem
depende do teor de umidade do produto no silo e do clima da região. É recomendável
manter o ventilador ligado continuamente quando o produto estiver com teor de
umidade inicial superior a 16%, mesmo à noite. Embora a umidade relativa seja alta, o
fato de a temperatura ser baixa promove o resfriamento da massa de grãos. O ar, ao
retirar calor dos grãos, eleva sua temperatura e diminui a umidade relativa, e,
dependendo desta, pode promover a secagem dos grãos mais úmidos. Caso a umidade
dos grãos seja inferior a 16%, o ventilador deverá permanecer ligado até o final da
secagem, desde que a umidade relativa média seja inferior a 75%.
No caso de regiões mais úmidas (UR>75%), o ventilador deverá permanecer
ligado somente durante as horas em que a umidade relativa for baixa (período diurno).
O monitoramento do processo de secagem consiste na inspeção diária da
temperatura e umidade da massa de grãos, para verificar se o produto está seco e/ou em
processo de deterioração.
No caso da secagem com ar levemente aquecido (secagem com baixas
temperaturas), deve-se, ao final do processo, insuflar ar natural para obter o
resfriamento da massa de grãos.

5.7. Duração da Secagem


O tempo de secagem, dependendo do sistema, pode ser reduzido elevando-se a
temperatura do ar de secagem ou sua vazão. Na secagem em silo, com ar natural, o
aquecimento do ar praticamente não altera a velocidade de deslocamento da frente de
secagem, podendo, ainda, gerar dois problemas: supersecagem nas camadas inferiores e
aceleração do processo de deterioração nas camadas superiores (condensação). Em

122 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

geral, o aquecimento do ar só é recomendado para regiões onde o potencial de secagem


do ar natural é insuficiente para atingir o teor de umidade final desejado.
Em análise mais detalhada da Tabela 2, pode-se verificar que o aumento da
vazão do ar exerce maior influência sobre o tempo de secagem. Sabe-se que a
velocidade de deslocamento da frente de secagem é diretamente proporcional à vazão
específica. Entretanto, em locais com alta umidade relativa, o aumento da vazão não é
suficiente para o sucesso da secagem, pois essa variável não tem influência sobre o
potencial de secagem do ar. Por exemplo, uma região com umidade relativa média de
70% deixará o café em condições seguras; contudo, a umidade final estará acima da
desejada para comercialização. Dessa forma, a fim de comercializar o produto, ele
deverá passar por um sistema de secagem que possa reduzir a umidade de
armazenamento até a umidade de comercialização.

5.8. Considerações
Como será visto mais adiante, um sistema de secagem em silo, com ar natural,
devidamente projetado, é econômico, eficiente e apresenta alta aplicabilidade na
secagem do café cereja descascado. Quando construído com recursos locais, o sistema
de secagem em silos apresenta menor investimento inicial, quando comparado aos
sistemas de terreiros ou secadores convencionais de altas temperaturas.
Em secagem de sementes, os métodos que usam baixas temperaturas são
empregados em substituição àqueles com altas temperaturas, por resultarem em melhor
qualidade final do produto. A Figura 4 ilustra um secador para sementes com
modificação do sistema de distribuição do ar de secagem. Esse sistema foi, no passado,
utilizado por alguns cafeicultores para armazenagem do café sob aeração. Neste
sistema, o ar é insuflado radialmente através da massa de grãos.
As principais limitações dos métodos de secagem com ar natural (fluxo vertical
ou radial) são o teor de umidade inicial do produto e as condições climáticas locais.
Altos teores de umidade inicial do produto aumentariam a susceptibilidade à
deterioração, enquanto condições atmosféricas desfavoráveis implicariam a utilização
de ventiladores e aquecedores mais potentes, inviabilizando economicamente o método.

Figura 11 – Silo-secador para sementes, mostrando a distribuição radial do fluxo


de ar.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 123


Capítulo 5 Secagem e Secadores

6. SECAGEM COM ALTAS TEMPERATURAS

A secagem por este processo baseia-se na propriedade pela qual, aumentando-se a


temperatura do ar úmido, a umidade relativa diminui e, conseqüentemente, a capacidade
do ar em absorver umidade aumenta (veja Capítulo 3, Princípios básicos de
psicrometria). Geralmente, o ar é forçado a passar através da massa de grãos ou do
produto a secar, por meio de um ventilador. Depois de entrar em contato com o produto,
o ar deixa o secador com uma temperatura mais baixa e uma umidade relativa mais
elevada. A teoria sobre secagem pode ser vista mais adiante (Capítulo 6, Estudo da
Secagem em Camada Espessa).
A secagem artificial com altas temperaturas é uma técnica muito utilizada em
fazendas, indústrias de transformação, unidades armazenadoras-coletoras e
intermediárias do mundo inteiro. Entretanto, o uso de secadores mecânicos a altas
temperaturas tem ficado restrito às regiões de maior desenvolvimento agrícola, visto que
o investimento inicial em alguns desses equipamentos foi, até recentemente, proibitivo
para pequenos produtores. Maia adiante, ainda neste capítulo, será mostrado alguns
tipos de secadores que foram projetados, especialmente, para atender a pequena
agricultura.
Dentre os métodos de secagem artificial, a secagem com altas temperaturas é a
mais rápida e independente das condições climáticas locais. Normalmente, o fluxo de ar
utilizado depende do tipo de secador, sendo geralmente superior a 10 m3.Min. -1t-1.
Como em outros sistemas de secagem, os seguintes parâmetros podem influenciar a taxa
de secagem:
- temperatura e umidade relativa do ar ambiente;
- temperatura e fluxo de ar de secagem;
- umidade inicial do produto;
- fluxo do produto no secador e outros.
Estes parâmetros influenciam diretamente a velocidade de secagem, como um
conjunto de fatores interdependentes, e o bom manejo, permitem dimensionar e
gerenciar as condições específicas de secagem.

6.1. Classificação dos Secadores com Altas Temperaturas


Nos sistemas de secagem com alta temperatura, os secadores podem ser
classificados de acordo com a relação entre os movimentos do produto e do ar de
secagem, em:

a) Secador de Camada Fixa Horizontal: na secagem em camada fixa, o


produto permanece num compartimento de fundo perfurado, por onde passa o ar de
secagem, insuflado por um ventilador. Normalmente a secagem em leito fixo é feita em
silos, independentemente da forma ou do material de construção, providos de piso
perfurado, semelhantes aos usados na secagem com baixas temperaturas.
Na secagem em camada fixa, a temperatura do ar de secagem é muito superior à
temperatura do ambiente (acima de 10 oC) e a camada de produto é geralmente inferior
a 1,0 m. Um ventilador, devidamente dimensionado, acoplado a uma fonte de
aquecimento, faz parte deste sistema.

124 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Com o objetivo de diminuir o custo de implantação de um sistema de secagem


em camada fixa, os componentes metálicos podem ser substituídos por uma construção
em alvenaria (Figura 12), permitindo que a tecnologia fique acessível a um grande
número de pequenos e médios agricultores. Outro aspecto interessante desse secador é
sua versatilidade. Além de ser usado para secar grãos e sementes em geral, milho em
espiga, café (de todas as formas), feijão em rama, raspa de mandioca etc. O secador é,
também, usado para a produção de feno e desidratação de cana-de-açúcar para picada.
Dependendo do tipo e forma do material, a altura da camada de produto pode variar.
Para grãos em geral, a altura da camada deve se inferior 0,6 m. Altura acima desta faixa
poderá acarretar problemas, como o alto gradiente de umidade que se forma entre as
camadas inferiores e superiores do produto.
O secador em camada fixa, modelo UFV, é de operação simples e a massa de
grãos ou sementes deve ser revolvida, manualmente, com auxílio de pás, em intervalos
regulares de duas horas, para maior uniformidade na secagem (Tabela 4). Como o
secador tem capacidade estática para sete toneladas e que uma batelada de gãos pode ser
preparada em sete horas (para café saído dolavador, o tempo de secagem é de,
aproximadamente, cinqüenta horas), o secador em pauta pode, também, ser usado para
secagem comercial de pequenos produtores de sementes (milho, arroz feijão e soja). Por
exemplo, uma bateria de três secadores pode secar facilmente 40 toneladas de semente
de soja por dia em dois turnos de trabalho.
Quando trabalhando com sementes de feijão ou de soja, o operador deve ter o
cuidado para que a temperatura do ar de secagem nunca ultrapasse 40oC e que umidade
relativa ar não seja inferior a 40%.
Vantagens:
- menor custo operacional;
- baixo investimento inicial;
- o armazenamento poder ser feito no próprio silo secador, quando se
utiliza o silo convencional adaptado como secador de camada fixa; e
- fácil construção.
Desvantagens
- alto gradiente de umidade ao longo da camada de grãos; e
- baixa capacidade de processamento devido ao fato de a espessura da
camada ser inferior a 0,6 m.

Figura 12 - Vista geral de um secador de camada fixa (modelo UFV).

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 125


Capítulo 5 Secagem e Secadores

TABELA 4 - Parâmetros de secagem para o secador de camada fixa modelo UFV ou


silo secador com baixa temperatura.

PRODUTO FINS TEMP. FORMA CAMADA REVOLVIMENTO*


(oC) (cm)
Milho Semente 40 Espiga 100 não há
Consumo 60 Granel 40 120
Semente 45 Rama 60 30
Feijão Semente 40 Granel 40 60
Consumo 45 Granel 40 120
Arroz Semente 40 Granel 40 60
Consumo 45 Granel 40 120
Soja Semente 40 Granel 50 60
Consumo 45 Granel 60 120
Café Consumo 50 Cereja 50 180
Consumo 50 Coco 40 180
* intervalo entre revolvimentos (min)

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b) Secador em Camada Fixa Vertical (Coluna) e Secador de Fluxos
Cruzados: nestes secadores, o produto permanece em colunas verticais construídas em
chapas perfuradas e são submetidos a um fluxo de ar que é perpendicular à camada do
produto. Quando os grãos estão em movimento, o secador é chamado de fluxos
cruzados. A Figura 13 mostra o esquema de funcionamento dos secadores de fluxos
cruzados (a) e um modelo que pode trabalhar também de forma contínua (b). Já a Figura
14 representa o corte de um secador de fluxos cruzados mostrando os seus detalhes e
Figura 15 mostra um conjunto de secadores de fluxos cruzados com recirculação do
produto, muito utilizado para café. A parte do secador acima do telhado (Figura 15)
constitui a câmara de repouso.
Vantagens:
- alta capacidade de secagem;
- facilidade de manuseio e operação; e
- baixo custo inicial.
Desvantagens:
- maior risco de superaquecimento do produto;
- alto consumo de energia;
- desuniformidade de secagem quando trabalhando de forma contínua ou
em camada fixa; e
- baixa eficiência de secagem.

126 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 13 – Esquemas de funcionamento de um secador de fluxos cruzados que


pode operar de forma contínua.

Figura 14 - Corte de um secador de fluxos cruzados mostrando os seus detalhes.

Figura 15 – Conjunto de secadores de fluxos cruzados com recirculação do


produto.

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Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 127


Capítulo 5 Secagem e Secadores

c) Secador de Fluxos Contracorrentes: a secagem em fluxos contracorrentes


foi, primeiramente, realizada em silos secadores (Figuras 10 e 16) em que grãos e ar de
secagem movimentam-se em sentido contrário. Neste secador, a frente de secagem
permanece sempre próxima ao fundo perfurado do silo. À medida que ocorre a
secagem, o produto seco é conduzido para o centro por um transportador helicoidal que
varre toda a seção transversal do silo. Uma segunda rosca retira o produto, conduzindo-
o para a parte superior ou então para um silo armazenador, passando a funcionar de
forma contínua. Assim, a massa de produto tem sentido descendente, enquanto o ar é
insuflado em sentido ascendente. A ativação do sistema de movimentação do produto é
coordenada por um termostato colocado a, aproximadamente, 0,5 m acima da chapa
perfurada. A escolha da temperatura de acionamento do termostato é função da umidade
final desejada.
Nos silos secadores de fluxos contracorrentes, à medida que a massa de produto
vai descendo, sua temperatura é aumentada, atingindo valores muito próximos aos da
temperatura do ar de secagem. Para evitar danos ao produto, a temperatura de secagem
não deve ultrapassar 70oC.
O secador em fluxos contracorrentes, em torre, utiliza o sistema de aquecimento
e ventilação abaixo dos tubos de exaustão do ar de secagem (Figura 17). Este sistema
foi desenvolvido na UFV e pode, como outros tipos de secadores, ser construído com o
máximo de recursos encontrados no mercado local. Como é de desenho bastante
simplificado, o sistema de torre pode ser construído em chapas metálicas, alvenaria ou
madeira. A utilização de madeira apara o corpo do secador, fica limitada á temperatura
máxima de secagem.
Vantagens:
- alta eficiência energética;
- menor tempo de exposição ao ar de secagem; e
- menor susceptibilidade a danos mecânicos.
Desvantagem:
- maior custo de manutenção, quando se utiliza um sistema com silo-
secador.

Figura 16 – Sistema de armazenagem com silo-secador em fluxos contracorrentes.

128 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 17 – Secador de fluxos contracorrentes modelo UFV.

d) Secador de Fluxos Concorrentes: nos secadores de fluxos concorrentes o


ar aquecido encontra o grão frio e úmido e fluem ambos na mesma direção e sentido,
através da câmara de secagem. Nesse tipo de secador Omo no anterior, todos os grãos
componentes da massa a ser secada são submetidos ao mesmo tratamento. Um secador
de fluxos concorrentes é caracterizado pelo alto fluxo de ar com pressão estática
relativamente baixa. Devido à ausência de paredes perfuradas e ser construídos com
poucas partes móveis e de modo semelhante ao secador de fluxos contracorrentes
(modelo UFV), o secador em pauta (Figura 18), exige, apenas, limpezas periódicas e
reparos eventuais .

Figura 18 – Secador de fluxos concorrentes modelo UFV.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 129


Capítulo 5 Secagem e Secadores

As trocas intensas e simultâneas de calor e massa entre o ar de secagem e o


produto, na entrada de ar quente do secador, causam rápida redução da temperatura
inicial do ar, assim como no teor de umidade do produto. No final da câmara de
secagem, onde ocorre à exaustão do ar, o produto está mais seco e a uma temperatura
inferior à temperatura inicial do ar de secagem. Em razão disso, é possível usar o ar de
secagem com temperaturas relativamente altas sem causar danos ao produto como
acontece com outros tipos de secadores. O fato de a secagem ocorrer em um ambiente
com umidade relativa moderada, favorece a redução da quantidade de produto com o
endosperma trincado (Figura 19) que, ao serem manuseados, podem produzir um grande
número de quebrados.

Figura 19 – Semente com endosperma seriamente trincado

A temperatura máxima do ar quente em secadores de fluxos concorrentes depende,


em primeiro lugar, do fluxo de grãos através do secador e, em menor grau, do tipo de
grãos e do teor de água inicial (BAKKER-ARKEMA et al., 1984).
Se o fluxo de massa aumenta em um secador, o produto final será, em geral, de
melhor qualidade. Por outro lado, haverá aumento no consumo específico de energia e
diminuição da eficiência de secagem, porque os grãos que passam pelo secador, com
maior velocidade, perdem menor quantidade de água por unidade de tempo
(DALPASQUALE et al., 1991).
A redução gradual da temperatura do grão devido ao fluxo de ar úmido contribui
para a excelente qualidade dos grãos obtidos em secadores de fluxo concorrente.
Observa-se, assim, elevada eficiência térmica de secagem e maior uniformidade da
qualidade final do produto nesse tipo de secador, quando comparado com os secadores
convencionais de fluxo cruzado, tornando crescente o interesse por secadores de fluxos
concorrentes, principalmente nos Estados Unidos da América.
A Figura 20 demonstra as características do processo de secagem em fluxo
concorrente em que, a temperatura do grão e a temperatura do ar de secagem são
plotadas em função da profundidade da camada de grãos no estádio de secagem.

130 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figuras 20 - Curvas das temperaturas do ar do produto em um estádio do secador


de fluxos concorrentes

Os secadores de fluxos concorrentes apresentam a vantagem de se pode utilizar


altas temperaturas do ar de secagem, que originam altas velocidades de secagem sem
aquecer excessivamente os grãos. Neste tipo de secagem, o consumo específico de
energia pode ser tão baixo como 4.000 kJ kg-1 de água evaporada.
Vantagens:
- melhor qualidade final do produto;
- maior capacidade de secagem;
- alta eficiência energética; e
- baixo custo de instalação e manutenção, quando é utilizado apenas um
estádio.
Desvantagens:
- alto custo de construção, quando se opera com mais de um estádio; e
- maior risco de incêndio devido à utilização de altas temperaturas.

Uma variação muito interessante e, recentemente, desenvolvido nos laboratórios


da UFV, em parceria com a EMBRAPA–Café, foi o secador de fluxos concorrentes
com um sistema pneumático para carga, revolvimento e transporte do produto. O
modelo mostrado na Figura 21, tem capacidade para 2.500 L de café cereja descascado
e foi construído em módulos para compor um “kit” de fácil transporte e montagem pelo
usuário.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 131


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 21 - Secador de Fluxos Concorrentes (UFV/CBP&D –Café)

Fazem parte do “kit”: moega de homogeneização ou principal (módulo 1),


conjunto de moegas (módulo 2), câmara de descanso/secagem (módulo 3a) e câmara de
secagem (módulo 3b), coifa (módulo 4), duto de transporte pneumático (módulo 5),
moega de recepção de grãos (módulo 6) e ventilador. Além do baixo custo de
construção/montagem e da alta eficiência energética, uma das grandes vantagens do
secador em pauta é a sua capacidade de trabalhar com qualquer quantidade de grão, ou
seja, carga máxima ou com uns poucos sacos de grãos.

Clique para ver: vídeo 1

e) Secador em fluxos (concorrentes/contracorrentes): incluindo os dois


sistemas, anteriormente descritos, o projeto foi desenvolvido por PINTO (1994) e
modificado por SILVA et al. (2001), teve como finalidades a redução do consumo de
energia na secagem de café e a possibilidade da utilização de dois sistemas de secagem
em um único secador (Figuras 22a / 22b). O secador modificado foi avaliado na
secagem café despolpado, com pré-secagem em terreiro. Os resultados (simulados) para
café cereja mostraram que, para a redução do teor de umidade de 30 para 12% b.u., os
consumos específicos de energia foram de 6.068; 5.657; e 5.685 kJ, por kg de água
evaporada, capacidades de secagem de 200, 287 e 358 kg de café úmido por hora e
tempos de secagem de 22,5; 15,7; e 12,6 h, para as temperaturas de secagem de 80, 100
e 120 oC, respectivamente. Considerando-se que as diferenças entre os consumos
específicos de energia foram pequenas, optou-se por avaliar o secador na secagem do
café cereja descascado sob temperatura de 75 oC, com o ar sendo aquecido por fornalha

132 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

com aquecimento indireto. O consumo específico de energia foi de 10,3MJ.kg-1 de água


evaporada para secando o produto de 32 e 13% b.u.

a b
Figura 22 - Detalhes (a) e vista geral (b) de um secador de fluxos mistos.

f) Secador em Cascata ou de Fluxos Mistos: é constituído por uma série de


calhas invertidas em forma de V, dispostas em linhas alternadas paralela ou
transversalmente, dentro da estrutura do secador (Figura 23). Neste secador, o produto
movimenta-se para baixo e entre as calhas, sob ação da gravidade.
O ar de secagem entra numa linha de calhas e sai nas outras imediatamente
adjacentes, superiores ou inferiores. Com isso, ao descer pelo secador, o produto é
submetido à ação do movimento do ar de secagem em sentido contracorrente, cruzado e
concorrente. Muito difundido no Brasil, estes secadores, quando bem projetados,
utilizam fluxos de ar menores que aqueles empregados em secadores contínuos de
fluxos cruzados.
Em um outro modelo de secador de fluxos mistos, as calhas, que podem ser retas
ou circulares, são abertas e dispostas uma sobre as outras. Esse tipo de secador é muito
usado para secagem de arroz. Neste caso, o produto passa por dentro das calhas (Figuras
24a e 24b). Como no caso anterior, o produto estará sob a ação do fluxo de ar nas três
formas, isto é, cruzado, concorrente e contracorrente.
Vantagens:
- alta eficiência energética; e
- alta capacidade.
Desvantagens:
- alto custo inicial; e
- podem poluir o meio ambiente.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 133


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 23 - Secador de fluxos mistos ou em cascata com calhas alternas.

Figura 24 a – Detalhes de um secador em cascata com calhas circulares.

134 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 24 b – Secador comercial, tipo cascata, com calhas circulares.

g) Secador Rotativo: este secador é formado por um cilindro tubular horizontal


ou ligeiramente inclinado que gira em torno de seu eixo longitudinal a uma velocidade
compreendida entre 1 e 15 rpm. No caso de um secador contínuo, o produto úmido
chega à parte mais elevada do tambor através de um transportador e sai na parte mais
baixa por gravidade. O ar de secagem é introduzido no tambor no mesmo sentido ou no
sentido contrário à trajetória do produto, em caso de secadores inclinados.
Um tipo muito comum e utilizado como pré-secador ou secador para café
constitui-se de um tambor horizontal não-inclinado, com o ar de secagem sendo injetado
numa câmara situada no centro deste tambor, o qual atravessa a massa do produto em
sentido perpendicular ao eixo do secador (Figuras 25 e26).
Vantagens:
- para alguns produtos como, o café em coco, favorece a limpeza do produto;
- uniformidade de secagem.
Desvantagens:
- baixa eficiência energética;
- alto custo de investimento; e
- o produto fica sujeito a danos na camada protetora.

Considerando que os secadores rotativos tradicionais são amplamente difundidos


para a secagem de café no Brasil, foi proposta e desenvolvida uma adaptação para o
projeto do secador rotativo que pudesse eliminar algumas das desvantagens do modelo
tradicional e que permitisse:

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 135


Capítulo 5 Secagem e Secadores

- usar o secador com material recém-saído do lavador sem a necessidade de


passar pelo terreiro, ou seja, usar o secador rotativo como pré-secador/secador sem os
problemas de entupimento das chapas perfuradas;
- usar o secador rotativo com menor quantidade de grãos que a recomendada ou
com carga parcial. n projeto tradicional, a utilização de carga menor que a recomendada,
acarreta grande perda de energia e aumenta o tempo de secagem;
- reduzir o custo de energia elétrica sem a necessidade de movimentar
constantemente o cilindro secador;
- manter a secagem homogênea, como no secador tradicional, e facilitar a
secagem por meio de uma câmara de descanso; e
- para o café pergaminho, reduzir o número de grãos descascados por impactos
dentro do secador (grãos beneficiados ou parcialmente descascados secam mais
rapidamente do que o grão com pergaminho intacto).
O protótipo do secador rotativo idealizado (Figuras 27, 28, 29 e 30), além de
permitir a solução dos problemas citados, tem o seu projeto básico facilmente adaptado
aos secadores rotativos tradicionais, já em funcionamento.
Baseado no esquema apresentado na Figura 27 e em função de um convênio
celebrado entre a Pinhalense e a UFV, SANTOS et al (2006) modificou e comparou o
desempenho de um secador original com o de um secador modificado (Figura 31) e
trabalhando sob as mesmas condições, verificou-se que, além de ter atendido aos
objetivos da modificação, o segundo produziu o mesmo tipo de café e apresentou
redução significativa no consumo total de energia (elétrica e térmica).
As modificações técnicas realizadas foram propostas para reduzir as perdas de
energia, através do maior fluxo de ar no terço superior do secador, causado pela
crescente redução de volume dos grãos durante a secagem. Além do fechamento da
metade superior da chapa perfurada, a carambola interna ou sistema difusor de ar
quente, sofreu as modificações como mostrado na Figura 32.

Figura 25 – Secador rotativo com tambor horizontal, para secagem em lotes.

136 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 26 – Secador rotativo da Pinhalense Máquinas Agrícolas

Figura 27 – Protótipo do secador rotativo com giro intermitente.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 137


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 28 – Esquema básico do protótipo do secador rotativo intermitente

Figura 29 – Detalhes internos do protótipo mostrando a distribuição de ar

Figura 30 – Vistas internas: superior (a) e inferior (b) do protótipo sem a chapa
perfurada externa

138 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 31 - Secador rotativo comercial modificado .

(a) (b)
Figura 32 – Detalhe da carambola difusora antes (a) e após modificação
(b)realizada por Santos et al (2006)

Clique para ver: vídeo 1

h) Secador por Convecção Natural: o ar, movimentando-se por convecção


natural, é uma alternativa para solucionar os problemas de secagem do pequeno
produtor que não dispõe de energia elétrica, pois este tipo de secador dispensa o uso de
ventiladores e pode ser construído com materiais facilmente encontrados em mercados
locais e mão-de-obra pouco especializada para a sua construção. A Figura 33 mostra o
esquema básico de um secador por convecção natural. Este tipo de secador utiliza um
trocador de calor para transferir o calor recebido dos gases de combustão de uma
fornalha para o ar de secagem que entra lateralmente, por meio de aberturas na parte
inferior das paredes do secador. O movimento do ar que atravessa a massa de produto se
deve à diferença de pressão produzida pela diferença de temperatura entre o ar de
secagem e o ar ambiente. O secador por convecção natural tem as seguintes
características:
• Dispensa o uso de ventiladores.
• Baixo custo inicial de implantação.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 139


Capítulo 5 Secagem e Secadores

• Mão-de-obra pouco especializada para construção.


• Eficiência térmica inferior à dos secadores com ventilação forçada.
• Projeto inadequado da câmara pode provocar desuniformidade de
temperatura e do fluxo de ar.
• Riscos de contaminação do produto pela fumaça, caso haja perfurações ou
vazamentos no trocador de calor.
No entanto, quando bem dimensionados e construídos, os problemas são
minimizados.

Figura 33 – Corte longitudinal de um secador por convecção natural.


.
i) Secador de Leito Fluidizado: neste secador, o ar de secagem atravessa uma
placa perfurada, provocando turbulência no produto que se encontra sobre ela. Quando
o produto começa e continua a flutuar sobre a placa ou atinge a velocidade terminal,
aproximadamente, o conjunto passa a ser denominado leito fluidizado.
A intensidade do fluxo de ar deve ser tal que supere a velocidade terminal do
produto, provocando turbulência e carreando o produto. Não é um secador comumente
utilizado na secagem de produtos agrícolas, devido à baixa capacidade de secagem e à
elevada potência exigida, para que o ventilador provoque a turbulência e transporte o
produto.

6.2. Classificação Quanto à Operação

a) Secadores Contínuos: nesta categoria de secadores, o grão fica


constantemente sob a ação do calor, até que seu teor de umidade atinja um valor
desejado. Dessa forma, há um fluxo constante de produto no interior do secador e,
simultaneamente, há grãos úmidos entrando, grãos em fase de secagem e grãos secos e
frios sendo descarregados (Figura 23 b). A secagem ocorre, geralmente, em duas etapas

140 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

bem definidas. Na primeira etapa, a massa de grãos é atravessada por um fluxo de ar


quente, que tem por finalidade a secagem propriamente dita, e, na segunda, o produto é
atravessado por um fluxo de ar com temperatura ambiente, que tem como finalidade
resfriá-lo.
O produto passa por um mecanismo de regulagem de fluxo que determinará o
tempo de exposição ao ar de secagem, também denominado tempo de residência. A
secagem contínua é indicada para grande quantidade de produto e tem como vantagem a
redução do tempo total de secagem, devido à eliminação da operação de carga e
descarga do secador. Por outro lado, durante a secagem em fluxo contínuo, ocorre uma
diferença entre a umidade localizada na superfície e aquela no interior do grão. A
superfície que está em contato direto com o ar seca mais do que a parte central. Para o
arroz, por exemplo, se essa diferença for muito grande, poderá provocar trincas no grão
e resultar em grande número de grãos quebrados.
No caso da secagem de sementes em geral, torna-se difícil operar os secadores
contínuos, uma vez que a temperatura do ar de secagem deve ser menor do que aquela
utilizada para grãos.

b) Secadores Intermitentes: nestes, o produto passa várias vezes pelo interior


do secador antes de completar a secagem. Assim, o grão sofre a ação do calor durante
pequenos intervalos de tempo, intercalados por períodos de repouso, ou seja, a massa de
grãos não entra em contato com o ar aquecido durante esse período.
Nestes secadores, a quantidade de água removida por unidade de tempo de
secagem é consideravelmente maior do que na secagem é contínua. O rendimento da
secagem aumenta porque o ar quente encontra a periferia dos grãos com teor de
umidade mais elevado, em virtude da migração desta do centro para a periferia, durante
o descanso do produto. Esta redistribuição de umidade, além de facilitar a secagem,
diminui a possibilidade de ocorrência de trincas devido à diminuição das tensões
internas no grão.
Quando o número de passagens do produto pelo secador é muito grande, a
capacidade nominal do secador diminui proporcionalmente. Entretanto, esta capacidade
pode ser aumentada quando o secador é carregado com outro lote de grãos, durante o
período de descanso. Geralmente, estes secadores são constituídos por duas colunas de
secagem e por um depósito colocado acima destas colunas. A altura da coluna e o fluxo
de grãos não permitem a secagem do produto se este passar apenas uma vez pelo
secador. O depósito possibilita que o produto fique em repouso antes de cada passagem
pela coluna de secagem. Os secadores de fluxos representados pelas (Figuras
17,18,21,22 e 24) projetados na são classificados como secadores intermitentes. Podem,
entretanto, trabalhar de forma contínua quando o teor de umidade inicial for
suficientemente baixo para secar em uma única passagem pela câmara de secagem.

6.3. Classificação Quanto à Utilização

a) Secagem Combinada: esta técnica consiste em utilizar secadores em altas


temperaturas enquanto o produto apresenta teor de umidade mais elevado e, a partir
desse ponto, transferir o produto, ainda quente, para um sistema de baixa temperatura,

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 141


Capítulo 5 Secagem e Secadores

onde a secagem será completada. Além da redução substancial de energia requerida


para a secagem, o sistema em combinação pode dobrar a capacidade dinâmica dos
secadores e aumentar a eficiência térmica de secagem. As principais razões para este
aumento de eficiência são:
- os secadores operam com produtos numa faixa de umidade em que a retirada
de água dos grãos é mais fácil; e
- os resfriadores geralmente não são utilizados porque o produto chega ao
sistema de secagem à baixa temperatura ainda quente.

Nesta técnica, as câmaras de resfriamento dos secadores geralmente são


convertidas em câmaras de secagem, o que aumenta a capacidade dos secadores de altas
temperaturas. O processo de secagem em combinação reduz em até 50% a energia total
requerida pelos métodos convencionais de secagem e podem, facilmente, dobrar a
capacidade dinâmica dos secadores de altas temperaturas. O processo de secagem
combinada será melhor entendido no Capítulo 17 (Secagem e Armazenagem de
Produtos Agrícolas).

b) Seca-aeração: é uma modificação do sistema convencional de secagem em


alta temperatura, com a finalidade de reduzir o consumo de energia, aumentar a
capacidade de secagem e reduzir os danos térmicos causados pela exposição do produto,
por longos períodos de tempo, a altas temperaturas.
No processo de seca-aeração, ilustrado na Figura 34, o produto é secado até 2,5
pontos percentuais acima do teor de umidade recomendado para o armazenamento. Não
utilizando a câmara de resfriamento, o produto ainda quente, é transferido para um silo
auxiliar (silo têmpera), onde permanece em descanso para que o calor residual
redistribua a umidade em todo o interior do grão, facilitando a retirada da umidade em
excesso quando, após o período de repouso, o produto, no silo têmpera é ventilado com
baixos fluxos de ar.
O sucesso deste sistema dependerá muito do período de tempo em que o produto
for deixado em repouso e da temperatura deste, durante o período em que permanecer
nessa condição. Um repouso de seis a oito horas é recomendado para uma temperatura
do produto superior a 50oC. Como dito anteriormente, o resfriamento da massa de grãos
é feito por aeração após o período de repouso, só terminando quando todo o produto
atingir a temperatura do ar ambiente, antes de ser transferido para o armazenamento.
Este método de secagem tem a desvantagem de requerer maior investimento inicial
quando se utiliza o silo têmpera e maior manuseio do produto.
Para sistemas de secagem e armazenamento em fazendas, o silo convencional
poderá ser adaptado para seca-aeração, não sendo necessário utilizar um silo têmpera.
Num sistema de seca-aeração corretamente projetado para milho, a redução de
25% para 15% (b.u.) no teor de umidade deve resultar em um aumento em torno de 50%
na capacidade dos secadores comerciais e, conseqüentemente, numa redução de 20 a
30% do combustível gasto por tonelada de produto seco.

142 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Figura 34 – Sistema de seca-aeração.

6.4. Modificações e Recomendações na Operação e no Manejo

a) Secagem em Silo com Sistema Contracorrente: neste equipamento ocorre


menor consumo de energia, pois não se permite que o produto atinja o teor de umidade
de equilíbrio nem a temperatura do ar de secagem.
Muito utilizado nos Estados Unidos da América, o sistema Shivvers (Figura 16)
é constituído por um silo secador, no qual é adaptado um sistema de rosca horizontal,
que varre os grãos secos localizados imediatamente acima da chapa perfurada e os
entrega a uma outra rosca vertical ou horizontal que, por sua vez, leva o produto até o
silo de armazenagem onde pode ser processada a seca-aeração. Devido à possibilidade
de ocorrência de condensação nas camadas superiores, este secador não é recomendado
para a secagem de produtos como feijão e soja, principalmente se a secagem for feita
em camada superior a um metro.
A limpeza da massa do produto e o nivelamento da carga, visando à distribuição
uniforme do fluxo de ar, propiciarão uma secagem uniforme.

b) Sistema com Recirculação do Ar de Secagem: geralmente os secadores de


fluxo cruzado apresentam gradiente de temperatura e umidade ao longo da espessura da
massa de produto, ou seja, ocorre uma supersecagem do produto situado na parede por
onde o ar entra na câmara de secagem. Para minimizar este problema, é necessário
empregar alto fluxo de ar ou uma camada menos profunda de produto. Entretanto, estes
procedimentos acarretam baixa eficiência energética, pois o ar sai do secador com alta
capacidade de secagem.
Para melhorar a eficiência térmica e a qualidade final do produto saído destes
secadores, algumas modificações nos modelos originais têm sido propostas. Uma destas
modificações consiste na recirculação de parte do ar de exaustão, promovendo pré-
aquecimento e pré-secagem do produto mais úmido.
A reversão do fluxo de ar dentro do secador, operando de modo intermitente,
também aumenta a eficiência da secagem. O secador mostrado na Figura 35 é

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 143


Capítulo 5 Secagem e Secadores

constituído por duas câmaras de secagem e duas câmaras "plenum". O ar insuflado pelo
ventilador atravessa as câmaras em fluxo cruzado, em sentido inverso, em cada uma das
câmaras de secagem. O ar é insuflado para a câmara "plenum" inferior, atravessando
inicialmente em fluxo cruzado a câmara de secagem inferior, indo posteriormente para a
câmara "plenum" superior. Em seguida, o ar passa em fluxos cruzados através da
câmara de secagem superior, em sentido inverso, saindo para o exterior do secador.

Figura 35 – Secador de fluxos cruzados com reversão do fluxo de ar.

c) Eliminação de Impurezas nos Produtos: antes da secagem, o material vindo


do campo deve passar por uma pré-limpeza. Um produto contendo muitas impurezas
aumentará a resistência à passagem do ar, aumentando o tempo de secagem e,
conseqüentemente, a energia consumida no processo. Além disso, favorece o
desenvolvimento de fungos, principalmente em secagem com baixa temperatura, em
que o tempo de secagem é mais prolongado.
d) Secagem com Revolvimento do Produto: os equipamentos necessários a
esse processo constam, basicamente, de uma ou mais roscas-sem-fim, que giram no
interior do silo em movimentos de rotação e translação (Figura 9).
Os revolvedores em movimento promovem a mistura do produto, eliminando a
frente de secagem e possibilitando melhor distribuição do fluxo de ar, uma vez que as
zonas de concentração de materiais finos e a compactação do produto são eliminadas.
Como conseqüência, o fluxo de ar através da massa aumenta em até 10%.

144 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 5 Secagem e Secadores

7. ANÁLISE DO CONSUMO ENERGÉTICO

Eficiência energética é a razão entre a energia requerida para evaporar a água do


produto e a quantidade de energia fornecida ao processo de secagem. A quantidade de
energia fornecida inclui a energia para aquecimento do ar, além da potência elétrica
utilizada no sistema (veja capítulo 8 – Energia no Pré-Processamento de Produtos
Agrícolas).
Estudos realizados no início da década de 80 estabeleceram que o custo do
combustível usado na operação de secagem não onerava significativamente o custo total
da secagem, mesmo considerando os problemas de energia da época. No entanto, os
preços e a disponibilidade dos vários combustíveis vêm-se alterando tão rapidamente
que qualquer previsão a respeito destes custos é altamente inconsistente. No caso do
Brasil, que não possui uma política energética definida, torna-se difícil optar por uma
fonte de energia confiável para alimentação dos secadores. É necessário mencionar
também que, por determinação do Conselho Nacional do Petróleo, em 1980 foi proibida
a utilização de qualquer derivado do petróleo na secagem de cereais, madeira e fumo,
forçando os setores de armazenamento e secagem de produtos agrícolas a encontrar
alternativas energéticas que substituíssem os combustíveis fósseis. A utilização
indiscriminada de áreas florestais nativas, causando grande prejuízo ao ecossistema
florestal, é uma das conseqüências desta medida, e o suprimento de madeira para as
fornalhas deve vir de áreas reflorestadas para este fim, ou seja, de florestas energéticas.
Considerando que a secagem em temperaturas elevadas pode consumir 60% ou
mais do total de energia usada na produção dos produtos agrícolas, é necessário
procurar soluções que aumentem a eficiência energética dos secadores.

Clique para acessar: Aplicativo 1 Aplicativo 2 Aplicativo 3

8. LITERATURA CONSULTADA

1. BAKKER-ARKEMA, F.W. Selected aspects of crop processing and storage: a


review. Jornal of Agricultural Engeneering research, v.30, n.1, p.1-22,
July, 1984
2. BAKKER-ARKEMA, F.W., SILVA, J.S., MWAURA, E.N., RODRIGUES,
J.C. & BROOK, R.C., Testing of Alternative on Farm Grain Drying
Systems. Paper Nº 80.3017, ASAE, 1980.
3. BROOKER, D.B., BAKKER-ARKEMA, F.W. & HALL, C.W., Drying and
storage of grain and oilseeds. The AVI Publishing, New York, 1992. 450p.
4. DALPASQUALE, V.A., PEREIRA, D.A.M; SINICIO, R.; OLIVEIRA FILHO,
D. Secado de granos a altas temperaturas. Oficina Regional de la Fao para
America Latina y el caribe, Santiago-Chile. 1991. P.77.
5. LASSERAN, J.C., Aeração de Grãos, Viçosa, CENTREINAR, 1981. l3lp.
6. MELO, E.C., Rendimento Térmico de uma Fornalha a Lenha de Fluxos

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 145


Capítulo 5 Secagem e Secadores

Descendentes, Imprensa Universitária, UFV, Viçosa-MG, 1987. 45p.,


(Dissertação de Mestrado).
7. MOREY, R.V., CLOUD, H.A. & LUESCHEN, W.E., Practices for the Efficient
Utilization of Energy for Drying Corn. Transaction of the ASAE, 1976.
19(14): 151.
8. PINTO, F.A.C. Projeto de um secador de fluxos contracorrentes-
concorrentes e análise de seu desempenho na secagem de café (Coffea
arabica L.). Viçosa-MG: UFV, 1994. 80p. Dissertação (Mestrado em
Engenharia Agrícola) - Universidade Federal de Viçosa, 1994.
9. QUEIROZ, D.M. & PEREIRA, J.A.M., Secagem de Grãos em Baixa
Temperatura, CENTREINAR, Viçosa-MG, 1986. 49p.
10. SANTOS, R.R.; LACERDA FILHO, A. F.; SILVA, J. S. & Melo E. C.
Modificações técnicas e operacional de um secador rotativo para a secagem
de café (coffea arábica L.). Revista Brasileira de Armazenamento, Viços.
2006. N. 9, p. 1-11
11. SILVA, J.S., An Engineering Economic Comparision of Five Drying
Techniques for the Shelled Corn on Michigan Farms, Michigan State
University, 1980. l54p. (Tese PhD).
12. SILVA, J.S., AFONSO, D.L. & GUIMARÃES, A. C. Estudo dos Métodos de
Secagem In: Pré-Processamento de Produtos Agrícolas, Juiz de Fora,
Instituto Maria, 1995. 509p.
13. SILVA, L.C., Desenvolvimento e Avaliação de um Secador de Café (Coffea
arabica, L.) Intermitente de Fluxos Contracorrentes, Viçosa-MG,
Universidade Federal de Viçosa, 1990. 74p. (Tese de MS).
14. SILVA, J. S.; PINTO, F.A.C.; MACHADO, M.C.; MELO, E. C. Projeto,
construção e avaliação de um secador de fluxos (concorrentes/
contracorrentes) para secagem de café In: II Simpósio de Pesquisa dos
Cafés do Brasil, Vitória. 2001. Anais.
15. SILVA, J.S.; NOGUEIRA, R.M. & MAGALHÃES, E. A., Secagem em Silo -
Uma Opção para o Café -, Viçosa – MG, Engenharia na Agricultura;
Boletim Técnico No 9, 2008. 31p

146 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

Capítulo

6
ESTUDO DA SECAGEM EM CAMADA ESPESSA

Juarez de Sousa e Silva


Daniel Marçal de Queiroz
Daniela de Carvalho Lopes
Frederico Faúla de Sousa

1. INTRODUÇÃO

A secagem é um processo que envolve fenômenos de transferência de calor e


massa entre o produto e o ar de secagem. Tais fenômenos podem ser equacionados e
agrupados em modelos matemáticos, os quais se têm demonstrado eficientes na análise
da secagem, no desenvolvimento e na otimização dos secadores agrícolas. Para isso, o
computador é o elemento fundamental nas soluções dos modelos.
Diversos modelos são encontrados na literatura; dentre estes, destacam-se:

- Modelo de Hukill
- Modelo de Thompson
- Modelo de Morey
- Modelo de Michigan

Neste capítulo, além dos modelos matemáticos propostos por Hukill e


Thompson, a fim de acompanhar com detalhes os processos de secagem em altas e
baixas temperaturas, é apresentado um balanço de energia (calor) entre o produto e o ar,
para calcular o tempo necessário à secagem, em camada espessa, de um determinado
tipo de grão.

2. EQUAÇÃO DO BALANÇO DE ENERGIA

Considerando a secagem de grãos em camadas espessas, em silos e com ar


natural como um processo adiabático, pode-se dizer que o calor que entra na massa de
grãos é igual ao calor que sai no ar de exaustão (Figura 1). A secagem com ar natural ou
com baixa temperatura inicia-se na camada inferior do silo e vai progredindo até atingir
a última camada na parte superior. Durante este período, distinguem-se três camadas de

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 147


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

grãos com diferentes teores de umidade (veja capítulo 5 – Secagem e Secadores).


Pode-se dizer simplificadamente que, durante o processo de secagem em camada
espessa, a diferença entre os calores sensíveis do ar de entrada e de saída da massa de
grãos é igual ao produto do calor de vaporização e a quantidade de água evaporada, ou,
ainda, (m.c. ∆T) = (hv.Aev), em que (m) é a massa e (c) o calor específico do ar de
secagem; (∆T), a diferença de temperatura do ar que entra e que sai da camada de grãos;
(hv), o calor latente de vaporização; e (Aev ), a quantidade de água evaporada.

Figura 1 – Representação da secagem em silo, com ar natural ou baixas


temperaturas.

De modo mais simples, o calor sensível fornecido pelo ar é igual ao calor latente
de vaporização necessário para evaporar a água contida no produto até a umidade final
desejada. Assim, calor sensível é convertido em calor latente, e esta conversão pode ser
representada pela equação 1:

60 (Q / Ve) Ca (Ta - Te) t = hv MS (Uo - Ue) eq. 1

em que
Q = vazão ar de secagem (m3 min-1);
Ve = volume específico do ar secagem (m3 kg-1de ar seco);
Ca= calor específico do ar (kcal kg-1 °C-1);
Ta= temperatura do ar de secagem (°C);
Te= temperatura de equilíbrio (°C);
t= tempo de secagem (h);
hv= calor latente de vaporização (kcal kg-1de água);
MS= matéria seca existente no produto (kg);

148 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

Uo = umidade inicial (decimal, b.s.);


Ue= umidade de equilíbrio (decimal, b.s.).

Na equação 1 não é considerada a variação da temperatura do produto no início


da secagem, quando este está numa temperatura diferente da do ar. Também não é
considerada, no caso de secagem em camada espessa, a possibilidade de condensação
nas camadas superiores do produto, quando o ar saturado encontra o produto frio.
Entretanto, devido à facilidade de uso, esta equação pode ser utilizada para estimar o
tempo de secagem de diversos produtos.
Te é a temperatura na qual o ar está em equilíbrio com o produto com teor de
umidade inicial, depois de ter sido resfriado ao longo da linha de temperatura de bulbo
molhado constante. Esta temperatura é determinada por meio das equações de umidade
de equilíbrio e da entalpia do ar, sendo obtida com base na condição do ar em que o teor
de umidade de equilíbrio é igual ao inicial e a entalpia do ar é igual à entalpia do ar de
secagem.

Pode-se utilizar também o gráfico psicrométrico para determinação de Te,


bastando seguir, a partir do ponto que caracteriza o ar de secagem, a curva de entalpia
constante até encontrar a curva de umidade relativa de equilíbrio (Figura 2). Curvas de
umidade de equilíbrio para milho são vistas na Figura 14 (capítulo 4 -Indicadores da
Qualidade dos Grãos).

Figura 2 – Determinação de Te por meio do gráfico psicrométrico.

O calor latente de vaporização da água contida no produto é determinado pela


equação 2 e Tabela 1:

hv =(A-0,57.T)[1+B.exp(-C.U)] eq.2

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 149


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

TABELA 1- Parâmetros A, B e C da equação 2, para diferentes produtos

PRODUTO A B C
Milho 606,000 4,350 28,250
Arroz 597,600 2,199 21,732
Soja 597,600 0,324 13,917
Sorgo 597,6 1,045 19,644
Trigo duro 597,6 1,307 17,609
Feijão 597,6 0,454 15,975

O calor latente é função da temperatura do ar de secagem, T, e do teor de


umidade do produto, U. Como esses parâmetros não são constantes durante o processo
de secagem, toma-se o valor de hv calculado com o teor de umidade médio do produto.
Exemplo 1: nas condições a seguir, calcular o tempo necessário para secagem do milho
em um sistema de secagem a baixa temperatura:
Umidade inicial do produto = 20 % b.u. = 0,25 b.s.;
Temperatura do ar ambiente = 22 oC;
Umidade relativa = 70%;
Aquecimento devido ao ventilador = 3 oC;
Diâmetro do silo = 4 m;
Silo cheio até 3 metros de altura;
Fluxo de ar = 2 m3 min-1 t-1;
Massa específica do produto (d) = 0,680 t m-3;
Calor específico do ar (Ca) = 0,24 kcal oC-1 kg-1.

2.1. Solução pelo balanço de energia


Para a determinação do tempo total de secagem, é preciso determinar:
a) vazão do ar de secagem;
b) propriedades psicrométricas do ar;
c) teor de umidade de equilíbrio;
d) calor latente de vaporização;
e) tempo de secagem; e
f) tempo permissível de armazenagem.

a) Determinação da Vazão (Q)


A vazão de ar (Q) é igual ao produto do fluxo de ar em (m3min-1t-1) pela massa
de grãos úmidos em (t). Esta, por sua vez, é igual ao produto da massa específica do
produto (t m-3) pelo volume de grãos dentro do silo (m3).

Massa do produto no silo


(V) = área da base (S) x altura da massa de grãos (h)
V = [( Π x d2 )/4]. h
V = [ ( Π x 42 )/4]x 3=37,7 m3
Tomando a densidade do produto como 0,680 t m3, a massa de grãos será:

150 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

Mu = 0,680 t/m3 x 37,7 m3 = 25,6 t


Matéria seca (MS) = (1 - teor de umidade b.u. decimal). Mu
MS= (1 - 0,2) x 25,6 t = 20,5 t

Vazão do ar de secagem
Q = fluxo x Mu = 2 m3 min-1t-1 x 25,6 t = 51,2 m3 min-1

b) Propriedades psicrométricas do ar
A Figura 3 representa o gráfico psicrométrico e a curva de equilíbrio
higroscópico do milho a 20 % b.u.
Como a temperatura do ar de secagem é igual à temperatura do ar ambiente
acrescida de três graus devido ao atrito nas pás do ventilador, tem-se:
Ta = T + Tvent = 22 + 3 = 25 oC
Pelo gráfico (Figura 3), a umidade relativa do ar de secagem (depois do
ventilador) é, aproximadamente, de 59%. Nestas condições, o volume específico do ar
de secagem (v) é 0,865 m3 kg-1 de ar seco, e a temperatura de equilíbrio (Te), 20 oC.

c) Teor de umidade de equilíbrio


A Ue, para milho, pode ser determinada através das equações 11 e 12 (capítulo 4
– Qualidade dos grãos)
Ue = 7,4776 UR0,4584 / [ ln ( 9 T / 5 + 32)]
0 < UR < 52%;
Ue = 21,2198 exp (0,0146 UR) / [ln (9T / 5 + 32)]
52 < UR < 100%
Fazendo T = 25 ºC e UR = 59%, Ue = 11,6 % b.u. = 0,13 b.s.

d) Calor latente de vaporização


Uemédio = (Ue + Ui) / 2 = (0,13 + 0,25) / 2 = 0,19 b.s.
hv = (A - 0.57 x T) [1 + B x exp(-C x U)]
hv = (606 - 0,57 x 25) [1 + 4,35 exp (-28,25 x 0,19)]
hv = 604 kcal kg-1 de água evaporada

e) Tempo de secagem
(Q / v) x 60 x Ca x (Ta - Te) x t = hv x MS x (Uo - Ue)
(51,2 / 0,865) x 60 x 0,24 (25 - 20) t = 604 x 20.500 x (0,25 - 0,13)
t = 346 horas, aproximadamente 14 dias.

f) Tempo permissível para armazenagem (TPA)


A Tabela 2 apresenta os tempos permissíveis de armazenagem de milho,
garantindo que a perda de matéria seca por deterioração não ultrapasse 0,5%. Verifica-
se que para o milho com teor de umidade de 20% e temperatura de 20 oC o tempo
permissível de armazenagem é de cerca de 20 dias (obtido por interpolação),
concluindo-se daí que o sistema calculado tem viabilidade técnica.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 151


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

TABELA 2 - Tempo (dias) permissível para a armazenagem do milho debulhado sem


que ocorra deterioração

Temperatura dos Teor de Umidade do Milho, % b.u.


Grãos(ºC)
18 20 22 24 26 28
2 430 210 122 80 58 45
10 127 62 36 24 16 13
16 55 26 16 10 7 6
24 23 12 7 5 4 3
27 15 7 4 3 2 1

Figura 3 – Determinação das condições psicrométricas de secagem.

3. MODELOS DE SECAGEM

Devido à simplicidade e às suposições feitas quando se aplica o balanço de


energia para o estudo da secagem em camada profunda, só se pode obter o tempo final,
aproximado, da secagem de toda a camada no silo. O que estará ocorrendo com o
sistema em um tempo qualquer depois de ter iniciado o processo de secagem só pode
ser previsto com modelos matemáticos mais sofisticados. Entre os vários modelos
racionais para predizer a secagem em uma camada espessa de grãos, o modelo proposto

152 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

por Hukill e o proposto por Thompson requerem programas computacionais simples e,


portanto, serão detalhados a seguir.

3.1. Modelo de Hukill


Hukill desenvolveu um modelo para representar o processo de secagem em
camada espessa, segundo a equação 3. Este modelo permite determinar o teor de
umidade para determinada altura de camada de grãos e admite que a temperatura do ar
decresce exponencialmente à medida que o ar vai passando pela massa de grãos.
Embora o modelo não considere o aquecimento dos grãos pelo ar de secagem, ele
apresenta-se como uma ferramenta muito útil para simulação de secagem.

∂U ∂T
=p eq. 3
∂t ∂x
m que
∂U
- taxa de variação da umidade, % base seca min-1;
∂t
∂T
- taxa de variação da temperatura na camada de grãos, °C m-1;
∂x
.
6000 m C a
p= , uma constante para determinada condição de secagem,
MS hv
sendo:
.
m = fluxo de massa de ar em kg min-1 m-2;
Ca = calor específico do ar de secagem, kJ kg-1 °C-1;
MS = massa específica da matéria seca, kg m-3; e
hv = calor latente de vaporização da água no grão, kJ kg-1.

Para grãos em camada fina ou completamente expostos a uma constante


condição de secagem (como a primeira camada formada pelos grãos em contato com o
fundo do silo), e para um fluxo de ar passando através dos grãos com teor de umidade
uniforme (como um lote de grãos no início do processo de secagem), as seguintes
aproximações podem ser feitas:

a) Para a umidade
U − U e = (U 0 − U e )e − kt eq. 4
em que
U = umidade atual do produto, %b.s;
Ue = umidade de equilíbrio do produto com o ar de secagem, %b.s.;
Uo = teor de umidade inicial do produto, % b.s.;
t = tempo de secagem, horas; e
k - constante de secagem que depende do tipo de grão.
b) Para a temperatura do grão

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 153


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

T − Tg = (T0 − Tg )e − cx eq. 5
em que
k(U 0 − U e )
c= .
p(T − Tg )
T = temperatura do ar de secagem, °C;
Tg = temperatura de equilíbrio, °C;
T0 = temperatura inicial do ar de secagem, °C;
c = taxa de resfriamento do ar; e
x = altura da camada de grãos, m.

Hukill propôs a seguinte solução:

e cx
U = (U o − U e ) +Ue eq.6
e cx + e kt − 1

e
e kt
T = (To − Tg ) + Tg eq.7
e cx + e kt − 1

As equações 6 e 7 permitem determinar com certa aproximação o teor de


umidade dos grãos e a temperatura do ar em um dado instante, em qualquer posição da
camada durante a secagem.
Expressando o conteúdo de umidade em termos de razão de umidade (RU):
U − Ue
RU = , eq. 8
Uo − U e

o tempo de secagem pode ser expresso em termos de período de meia resposta (um
período de meia resposta (H) é o tempo requerido para que uma camada fina de grãos,
completamente exposta, alcance uma razão de umidade igual a 0,5, sob determinadas
condições de secagem). Assim, e-kH = 0,5 ou ekH = 2.
Finalmente, Hukill propôs a seguinte solução:
2D
RU = D eq. 9
2 + 2Y − 1

e o tempo, em períodos de meia resposta, é:


t
Y= . eq. 10
H
em que
t = tempo após início de secagem, horas;
H = tempo de meia resposta, horas;

154 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa
Y = tempo equivalente, adimensional; e
D = unidade de profundidade, adimensional.

A unidade de profundidade equivalente (D), como definida por Hukill, é a


espessura de camada que contém quantidade de grãos suficiente para atender a
necessidade de calor para evaporar a sua umidade, de uma razão de umidade (RU = 1,0)
para uma razão de umidade final (RU = 0). A necessidade de calor tem que ser igual ao
calor sensível fornecido pelo ar em uma unidade de tempo, se sua temperatura cair de To
para Tg. Em outras palavras, uma unidade de profundidade (D) contém uma quantidade
de matéria seca (MS), determinada pela equação de balanço de energia (equação 1),
fazendo o tempo (t) igual ao tempo de meia resposta H, ou seja, em qualquer
profundidade do silo (X), o adimensional de profundidade é:

X.MS(Uo − U e )h v
D= eq. 11
.
60 m H C a (To − Tg )

Se estas unidades são usadas, após um tempo qualquer depois do início da


secagem o teor de umidade para uma determinada posição na camada do produto é
obtido pela equação 9.
De acordo com esta definição, a razão de umidade varia de (0) zero (o produto
atingiu o teor de umidade de equilíbrio) a (1) um (o produto está com teor de umidade
inicial).
A unidade de tempo, Y, é calculada pela equação 9, e o tempo de meia resposta
deve ser entendido como o período de tempo necessário para que a razão de umidade
seja reduzida de 1 para 0,5; de 0,5 para 0,25, ..., etc. em determinadas condições de
secagem.
Para o milho, o tempo de meia resposta, H, em horas, é determinado pela
equação 12.

H = exp(2,413 − 0,016.Uo + 0,003.T − 0,001.Uo.T ) eq. 12

em que
Uo = teor de umidade inicial, % b.u.; e
T = temperatura do ar de secagem, oC.

Uma equação de tempo de meia resposta pode ser obtida por meio das equações
empíricas de secagem em camada delgada. Essas equações geralmente são definidas em
função da temperatura (T), da umidade relativa (UR) e do tempo (t), ou seja, RU = f(T,
UR, t).
Fazendo RU = 0,5 e explicitando t, tem-se o valor do tempo de meia resposta
(H).
Como um fator de profundidade (D) contém uma quantidade de matéria seca,
MS, determinada pela equação 1, em que o tempo (t) é igual ao tempo de meia resposta

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 155


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

(H), tem-se:

60.Q.C a .(Ta − Te ).H


MS = eq. 13
v.hv .(U 0 − U e )

1 D = MS / (A.W) eq. 14
em que
MS = matéria seca, kg;
A = área do silo, m2; e
W = massa específica da matéria seca, kg m-3.

W = P / (1 + Uo) eq. 15
em que
P = massa específica do produto, kg m-3; e
Uo = teor de umidade inicial, decimal b.s.

3.1.1. Curvas de secagem em camadas espessas


A Figura 4 apresenta o modelo de Hukill (equação 11), em forma de curvas, para
camadas profundas chamadas Curvas de secagem em camadas espessas, que facilitam
o cálculo e o acompanhamento do processo de secagem.

Figuras 4 - Curvas de secagem em camadas espessas.

No eixo horizontal têm-se os valores de Unidade de Tempo (Y) e, no eixo


vertical tem-se o valor da Razão de Umidade (RU). Na área delimitada pelos dois eixos
têm-se as curvas correspondentes ao número de Fatores de Profundidade (D). Estas
curvas facilitam o cálculo e o acompanhamento da secagem. Por exemplo, para Y igual
a 10, podem ser feitas as seguintes observações:

a) Estando as camadas inferiores a uma altura correspondente a 3 D


(inclusive), tem-se RU = 0, ou seja, o produto já está seco (com o teor de
umidade de equilíbrio) até esta altura (faixa colorida na Figura 5).

156 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa
b) Estando as camadas superiores a uma altura correspondente a 15 D, tem-se
RU = 1, ou seja, o produto acima de 15 D está com o teor de umidade inicial
(faixa colorida na Figura 6).
c) De modo geral, a frente de secagem tem espessura 12 D (15 - 3), ou seja, as
camadas entre as curvas 3 e 15 D estão com RU variando de 0 a 1,
respectivamente (faixa colorida na Figura 7).

Figura 5 – Curvas de secagem em camadas espessas, mostrando as camadas que já


estão secas (U = Ue).

Figura 6 – Curva de secagem em camadas espessas, mostrando as camadas que não


perderam umidade (U =Uo).

O valor 12 D, para a espessura da frente de secagem, encontrada no exemplo


anterior, é fixo para qualquer tempo Y, após a formação desta frente.
Traçando uma horizontal pelo valor RU = 0,5, observa-se que a partir de D = 12 os
valores de D e Y são coincidentes, ou seja, a partir deste ponto as curvas se repetem.
Esta propriedade das curvas de secagem em camada profunda é utilizada quando, em

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 157


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

determinada situação, os valores de Y e D são superiores a 18; neste caso, basta


numerar novamente as curvas a partir de D e Y iguais a 12.

Figura 7 – Curvas de secagem em camadas espessas, mostrando as camadas que


estão secando (frente de secagem).

Exemplo 2: para D = 5 e Y = 7, o valor para RU é determinado com se vê na


Figura 8, isto é, por Y = 7, levanta-se uma perpendicular até encontrar a curva D=5. Por
este ponto, traça-se uma horizontal até encontrar (RU = 0,2).

Obs: confira os valores utilizando a equação de Hukill

Figura 8 - Curvas de secagem em camadas espessas.

158 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa
Exemplo 3: para D = 2 e Y = 10, tem-se RU = 0,0, ou seja, o produto, nesta camada, já
atingiu o teor de umidade de equilíbrio (Figura 9).

Figuras 9 - Curvas de secagem em camadas espessas, mostrando quando uma


determinada camada atinge a umidade de equilíbrio

Exemplo 4: para D = 12 e Y = 4, tem-se RU = 1,0, ou seja, o produto, nesta camada,


está com o teor de umidade inicial (Figura 10).

Figuras 10 - Curvas de secagem em camadas espessas, mostrando a camada que


ainda está com umidade inicial (U=Uo).

Exemplo 5: para determinadas condições do ar de secagem, têm-se:


Ue = 13% b.u., teor de umidade de equilíbrio do grão;
Uo = 20% b.u., teor de umidade inicial do grão;
1 D = 10 cm; e
H = 4,0 horas, tempo de meia resposta.
Determine o teor de umidade de uma camada de grãos situada a 100cm de altura,
após 40 horas de secagem.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 159


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

Solução:
se 1D ----- 10 cm;
X------ 100 cm;
X = número de D = 10;
Y = 40 horas / 4 horas = 10.

Pelo gráfico (Figura 4): D = 10 e Y = 10 => RU é aproximadamente igual a 0,5.


Pela definição de razão de umidade (RU = (U - Ue) / (Uo - Ue)),
U = RU x (Uo - Ue) + Ue. Assim, U = 0,5x(20 - 13) + 13 = 16,5.

Exemplo 6: determinar o tempo de secagem para o exemplo 1 deste capítulo, usando o


modelo de Hukill, e comparar os dois resultados.

Solução

Passo 1 - cálculo do tempo de meia resposta:


H =exp (2,413 - 0,016 x 20 + 0,003 x 25- 0,001 x 20 x 25)
H = 5,30 horas.

Passo 2 - cálculo do valor de 1 D:


Matéria seca existente em 1 D.
MS = (60 x 51,2 x 0,24.(25-20) 5,3) / (0,865 x 604 (0,25-0,131))
MS=314 kg
Massa específica expressa em matéria seca:
W = 680 / (1 + 0,25)= 544 kg m-3
Área do silo = (π x 42) / 4 = 12,6 m2
1 D = 314 / (12,6 x 544) = 0,046 m = 4,6 cm

Passo 3 - número de fatores de profundidade.


Altura do silo = 300 cm.
No de Ds = 300 / 4,6 = 64

Passo 4 - cálculo do tempo de secagem:


Como D = 64 não existe na Figura 4, faz-se nova enumeração da curva (Figura 11),
onde se observa que a camada correspondente a este fator estará seca (RU=0) para um
valor Y =70:
Y=t/H
t = 70 x 5,30 = 371 h = 15,5 dias

160 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

Figura 11 – Curva de secagem em camadas espessas, mostrando como se faz a


renumeração das camadas.

Exemplo 7: considerando as condições do exemplo anterior, determinar a espessura da


frente de secagem, sua posição e o teor de umidade médio no interior do silo, cinco dias
após o início do processo.

Solução:

Passo 1- cálculo da espessura da frente de secagem:


Espessura =12. D = 12. 4,6 = 55 cm
Passo 2- cálculo do Y correspondente a cinco dias:
t = 5 x 24 = 120 horas
Y = 120 / 5,30 = 23

Passo 3- cálculo da posição da frente de secagem:


A Figura 12 apresenta a curva de secagem em camadas profundas, renumeradas para Y
igual a 23. Observa-se que o fator de profundidade, em que RU = 0, é igual a 16.
Posição = 16 . D = 16 x 4,6 cm= 74 cm

Passo 4 - cálculo do teor de umidade médio:


Como
- altura do silo = 300 cm;
- altura do produto seco (Ue = 0,13) = 74 cm;
- espessura da frente de secagem = 55 cm; e
- altura do produto úmido = 300 - 74 - 55 = 171 cm, o teor de umidade
médio na frente de secagem será:
(0,25 + 0,13) / 2 = 0,19

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 161


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

Para calcular o teor de umidade médio no interior do silo, faz-se uma média
ponderada, utilizando a espessura de cada camada como fator de ponderação, obtendo-
se:
Umédio = (0,13 x 74 + 0,19 x 55 + 0,25 x 171) / 300 = 0,21

Umédio = 21 % b.s. = 17,3 % b.u.

Figura 12 - Curva de secagem em camadas espessas, mostrando a renumeração


das camadas.

Exemplo 8: calcular o tempo necessário para secagem do milho em sistema de alta


temperatura em leito fixo horizontal, para as seguintes condições:
- umidade inicial do produto = 20% b.u. = 25% b.s.;
- umidade final do produto = 13% b.u. = 14,9% b.s.;
- temperatura do ar ambiente = 20 oC;
- umidade relativa = 80 %;
- temperatura de secagem = 60 oC
- altura da camada do produto = 0,5 m;
- diâmetro do secador = 5,0 m;
- fluxo de ar (condições ambientais) = 10 m-3 min-1 m-2;
- massa específica do produto = 0,68 t m-1; e
- calor específico do ar = 0,24 kcal. kg-1 oC-1.

Solução: para simular o sistema de secagem com alta temperatura, recomenda-se o


seguinte procedimento:

a) dividir a camada de produto em um número predeterminado de subcamadas;


b) calcular o teor de umidade de cada subcamada em intervalos de tempo
preestabelecidos;

162 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa
c) determinar a umidade média; e
d) terminar a simulação quando a umidade média for igual ou menor do que o
teor de umidade final desejado.

Passo 1 - definição do número de camadas:


Dividir o produto em cinco camadas de 10 cm cada, e, assim, a simulação da
secagem será realizada nos seguintes pontos:
x = 5 cm, x = 15 cm, x = 25 cm, x = 35 cm e x = 45 cm

Passo 2 - cálculo do tempo de meia resposta:


H=exp (2,413 - 0,016 x 20 +0,003 x 60 - 0,001 x 20 x 60)
H= 2,92 horas

Passo 3 - cálculo da vazão de ar:


Área do secador = (3,14x52)/4 = 19,6 m2
Vazão de ar = 19,6 x 10 = 196 m3/min

Passo 4 - cálculo das propriedades psicrométricas:


Plotando a curva de umidade de equilíbrio (20%) em um gráfico psicrométrico
de altas temperaturas, e procedendo da maneira demonstrada nas Figuras 2 e 3,
obtêm-se:
-temperatura do ar de secagem = 60 oC
-umidade relativa do ar de secagem = 10%
-volume específico do ar de secagem = 0,952 m3 kg-1 de ar seco
-temperatura de equilíbrio = 30 oC

Passo 5 - teor de umidade de equilíbrio: é determinado através da equação de equilíbrio


(exemplo 1), sendo T = 60 oC e UR = 10 %.
Ue = 4,35 % b.u. = 0,05 b.s.

Passo 6 - cálculo do calor latente de vaporização:


Ue médio = (0,25 + 0,05) / 2 = 0,15 b.s.
hv = (606 - 0,57 x 60) . [1 + 4,35 exp (- 28,25 x 0,15)]
hv = 610 kcal/kg de água evaporada

Passo 7 - cálculo do valor de D:


Matéria seca existente em 1 D:
MS =(60 x 196 x 0,24 (60 - 30) 2,92) / (0,952 x 610 x (0,25 - 0,05))
MS=2.128 kg.

Massa específica expressa em matéria seca:


W = 680 / (1 + 0,25) = 544 kg.m-1
1 D = 2128 / (19,6 x 544) = 0,20 m

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 163


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

Passo 8 - cálculo dos adimensionais de tempo (Y) e de profundidade (D)

No de D=X/20 Y = t/2,92
X(cm) D t Y
5 0,25 0 0,000
15 0,75 1 0,342
25 1,25 2 0,685
35 1,75 3 1,027
45 2,25 4 1,369
5 1,712
6 2,055

Passo 9 - cálculo do teor de umidade nas várias posições para diferentes intervalos de
tempos:
Tem-se:
RU =(U - Ue) / (Uo - Ue) = 2D / (2D + 2Y - 1)
ou seja,
U = [2D / (2D + 2Y - 1)] x [(Uo - Ue)] + Ue
Uo e Ue = % b.u.

Substituindo os valores de D e Y na equação anterior, obtém-se:

Tempo (horas)
Posição (cm) 1 2 3 4 5
5 17,1 14,6 12,7 11,1 9,7
15 17,9 15,8 14,0 12,4 11,0
25 18,4 16,8 15,2 13,7 12,3
35 18,9 17,6 16,3 15,0 13,7
45 19,2 18,2 17,2 16,1 14,9
U média 18,3 16,6 15,1 13,7 12,3

Clique para acessar: Aplicativo 1 Aplicativo 2

3.2. Modelo de Thompson


THOMPSON et al. (1968) apresentaram um modelo para simulação de secagem
do milho em secadores contínuos. Este modelo simula o processo de secagem por meio
de um conjunto de equações baseadas nas leis de transferência de energia e massa, bem
como por uma equação empírica de secagem em camada delgada.
No desenvolvimento do modelo usou-se, como artifício, a divisão do processo
de secagem em vários subprocessos. Considerou-se o leito de grãos formado por várias
camadas de espessuras reduzidas, colocadas umas sobre as outras; em cada camada, as
variações nas condições do ar e dos grãos foram calculadas com base em pequenos
incrementos de tempo.
A Figura 13 apresenta um esquema das variações consideradas na simulação de

164 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa
secagem de uma camada fina que compõe um leito de grãos. Quando o ar passa pela
camada fina, durante determinado intervalo de tempo, certa quantidade de água do
produto é evaporada e passa para o ar. Nesse intervalo, a temperatura do ar diminui em
conseqüência do aumento na temperatura dos grãos e do resfriamento evaporativo que
acompanha a transferência de umidade.

Figura 13 - Variações na secagem de uma camada fina durante um intervalo de


tempo ∆t.

A quantidade de água perdida pelo produto é calculada por meio de uma


equação empírica de secagem em camada delgada. As temperaturas finais do ar e dos
grãos, consistentes com o resfriamento evaporativo, são obtidas por meio de balanços de
energia.
Para desenvolver o modelo, foram feitas as seguintes suposições:
a) A secagem de uma camada delgada de produto pode ser descrita por uma
equação obtida empiricamente.
No caso específico do milho, THOMPSON et al. (1968) obtiveram a equação

t = A . ln (RU) + B . [ ln (RU)]2 eq.16


em que
t = tempo de secagem, em h;
RU = razão de umidade do produto, adimensional; e
A e B = parâmetros que dependem da temperatura do ar.

Os parâmetros A e B da equação 16, obtidos a partir das curvas de secagem de


milho, podem ser calculados por

A = - 1,706 + 0,0088.T eq. 17

B = 148,7 . exp (-0,059 . T) eq. 18


em que
T = temperatura do ar de secagem, em oC.

a) A temperatura do grão é igual à temperatura do ar que o envolve, após os

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 165


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

balanços de energia que levam em conta o resfriamento proveniente da


evaporação da água do produto e das temperaturas iniciais do grão e do ar.
b) O teor de umidade de equilíbrio depende da temperatura e da umidade
relativa do ar nas vizinhanças do grão. A equação proposta para ser utilizada
no modelo é

Ue = 1,206 [-ln(1-0,01.UR)/(T+45,6)]0,5 eq.19


em que
UR = umidade relativa do ar de secagem, em %; e
Ue = teor de umidade de equilíbrio, em decimal, b.s.

c) A entalpia de vaporização da água no grão de milho depende da temperatura e


do teor de umidade deste grão.

hv =(606 - 0,57.T) . [1 +4,35 exp (-28,25U)] q. 20


em que
hv = entalpia de vaporização, kcal kg-1 de água evaporada.

d) A entalpia específica do milho depende de seu teor de umidade:

cp = 0,35 + (0,851.U/(1+U)) eq. 21


em que
cp = entalpia específica do milho, em kcal kg-1 oC-1; e
U = umidade base seca, decimal

3.2.1. Fluxograma do modelo


O modelo de simulação de secagem apresentado por THOMPSON et al (1968)
determina as variações ocorridas nas condições do ar e dos grãos em uma camada de
espessura reduzida, dividindo o processo de secagem em vários subprocessos. Este
procedimento tem por finalidade simplificar a solução do modelo. A seguir, são
apresentados os passos para simular a secagem em uma camada fina:

Passo 1 - cálculo da temperatura de equilíbrio entre ar e grão, considerando


somente a troca de calor sensível: para essa determinação, é necessário o
seguinte balanço de energia:

0,24 To + Wo (588 + 0,45 To) + cp . R . (1 + U) Tgo =

= 0,24 Te + Wo (588 + 0,45 Te) + cp . R . (1 + U) Tge eq. 22


em que
To = temperatura do ar na entrada da camada fina, em oC;
Wo = razão de mistura do ar na entrada da camada fina, em kgkg-1;
Tgo = temperatura do grão no instante t, em oC;
Te = temperatura do ar em equilíbrio com o grão, em oC;

166 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa
Tge = temperatura do grão em equilíbrio com o ar, em oC;
U = teor de umidade do produto no tempo t, decimal, b.s.; e
R = razão entre massa de matéria seca da camada e massa de ar seco que
passa no intervalo ∆t, em kg kg-1.

Admitindo que a temperatura do grão é igual à do ar que o envolve, tem-se

Tge = Te eq. 23

A razão entre as massas de matéria seca e de ar seco deve ser determinada no


início da simulação, por meio da equação:

R = P.ve.A. ∆x / [Q.∆t.60.(1 + Uo)] eq. 24


em que
Uo = teor de umidade inicial, decimal, b.s.;
∆x = espessura da camada fina, m;
∆t = incremento de tempo, h;
P = massa específica do grão no início da secagem, kg m-3;
Q = vazão de ar, m3 min-1;
A = área da seção transversal, m2; e
ve = volume específico do ar, m3 kg-1.

A temperatura de equilíbrio em oC (Te) pode ser então determinada:

Te=[(0,24 + 0,45 Wo)To+cp.R(1+U)Tgo]/[0,24+ 0,45 Wo+cp.R(1+ U)] eq.25

Passo 2 - cálculo da umidade relativa do ar nas condições de equilíbrio:

UR =100.Patm.Wo / [(0,622 + Wo) . Pvs] eq.26


em que
Patm = pressão atmosférica, em mmHg;
Pvs = pressão de vapor de saturação, à temperatura Te, mmHg; e
UR = umidade relativa, %.

A pressão de vapor de saturação pode ser determinada pela equação 27,


apresentada por BROOKER et al. (1992):

Pvs=51,715 exp[51,594 - 6834 / (Te +273,16) - 5,169 ln(Te+273,16)] eq. 27

Passo 3 - cálculo do teor de umidade de equilíbrio (decimal, b.s.):

Ue = 1,206 [(-ln(1 - 0,01 UR) / (Te + 45,6)]0,5 eq. 28

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 167


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

Passo 4 - cálculo do tempo equivalente:


O tempo equivalente é definido como o tempo em que o produto deve ficar
exposto às condições atuais do ar (Te, Wo) para que o teor de umidade seja reduzido do
valor inicial (Uo) para o valor atual (U). Para essa determinação, usa-se a equação
empírica de secagem em camada delgada:

te = A In(RUo) + B [In(RUo)]2 eq. 29


em que
te = tempo equivalente, em h.

RUo = (U - Ue) / (Uo - Ue) eq. 30

A = -1,706 + 0,0088 . Te eq. 31

B = 148,7 . exp (-0,059 . Te) eq. 32

Passo 5 - cálculo da nova razão de umidade do produto, RUf:


Após a secagem nas condições do ar (Te e Wo), durante um intervalo de tempo
(∆t), a razão de umidade do produto é determinada por meio da equação empírica de
secagem em camada delgada:

RUf = exp{[-A-(A2 + 4 B(te+∆t))0,5] / (2 B)} eq. 33

Passo 6 - cálculo da umidade do produto, Uf (decimal, b.s.), no tempo (t+∆t):

Uf = RUf (Uo - Ue) + Ue eq. 34

Passo 7 - cálculo da nova razão de mistura do ar:


A razão de mistura do ar consistente com a perda de umidade do produto é
determinada por um balanço de massa:

Wf = Wo + R (U - Uf) eq. 35
em que
Wf = razão da mistura do ar na saída da camada, kg.kg-1.

Passo 8 - cálculo das temperaturas finais do ar e do produto:


As temperaturas finais do ar e do produto são determinadas por meio de um
balanço de energia que leva em conta a perda de umidade dos grãos:

0,24 Te + Wo (588 + 0,45 Te) + cp.R (1 + U) Tge + (Wf - Wo) Tge =

= 0,24 Tf + Wf (588 + 0,45 Tf) + cp.R (1+ U) Tgf + (Wf - Wo) ∆L eq.36
em que
Tf = temperatura do ar após a passagem pela camada, oC;

168 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa
Tge = temperatura do grão após a passagem do ar, em oC; e
∆L = calor latente de vaporização acima do necessário para evaporar a
água livre, kcal kg-1.

∆L = (606 - 0,57 Te) 4,35 exp(-28,25 U) eq. 37

Admitindo que a temperatura do grão é igual à do ar que o envolve, tem-se

Tgf = Tf eq. 38

O primeiro e segundo termos de cada lado da equação 36 representam as


entalpias inicial e final do ar. O terceiro termo de cada lado é a energia contida no
produto, nos tempos (t) e (t + ∆t). O quarto termo do lado esquerdo da igualdade é a
quantidade de energia contida na água que está sendo retirada do produto. O último
termo da equação é o calor latente de vaporização da água no grão, que é superior ao
calor de vaporização da água livre.
Explicitando Tf na equação 36, tem-se:

(0,24 + 0,45W0 )Te − (Wf − W0 )(588 + ∆L − Te ) + C p R(1 + U)Te


Tf = eq. 39
0,24 + 0,45Wf + C p R(1 + U)

Passo 9 - os valores de Tf e Wf são consistentes?


Efetuados todos esses cálculos, é necessário verificar se o resultado obtido é
exeqüível. Em certos casos, pode-se obter resultados em que a umidade relativa
do ar, determinada matematicamente, é superior a 100%. Se isso ocorrer, novos
balanços de massa e de energia deverão ser feitos, simulando a condensação de
água no produto.
Nesses novos balanços, o ponto de estado Tf e Wf, não-exeqüível, será corrigido
para o ponto de estado T*f e W*f:

0,24 . Tf + Wf . (588 + 0,45 . Tf) + (W*f - Wf) . Tf + cp . R . (1+U) . Tf =

=0,24 . T*f + W*f . (588 + 0,45 . T*f) + cp . R . (1 + U) . T*f eq. 40

Nesta equação, há duas variáveis a serem determinadas: T*f e W*f. Outra


condição empregada para possibilitar esta determinação é que a umidade relativa
determinada matematicamente seja igual a 100%.
A quantidade de água condensada no produto faz com que sua umidade passe a
ser U*f, sendo

U*f = Uf - [W* f - Wf) / R] eq. 41

Exemplo 9 - determine a umidade final de uma camada de milho com 0,05 m de


espessura, após doze minutos de secagem.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 169


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

Dados:
- teor de umidade atual da camada: 0,20 b.s.;
- umidade inicial: 0,25 b.s.;
- massa específica inicial: 750 kg m-3;
- vazão de ar nas condições de secagem: 300 m3 min-1;
- área da secção transversal: 30 m2;
- temperatura de secagem: 60 oC;
- razão de mistura, 0,01 kg kg-1;
- volume específico do ar de secagem: 0,96 m3 kg-1; e
- temperatura do produto, 40oC.

Passo 1 - cálculo do valor da razão entre as massas de matéria seca e ar seco:


Substituindo P por 750 kg m-3; ve por 0,96 m3 kg-1; A por 30 m2; Dx por 0,05 m;
Q por 300 m3.min-1; ∆t por 0,2 h (12 minutos); e Uo por 0,25 b.s., na equação 24,
obtém-se:
R = 0,24 kg kg-1.

Passo 2 - cálculo do calor específico do milho:


Substituindo U por 0,20 b.s., na equação 21, obtém-se

cp = 0,492 kcal kg-1 oC-1.

Passo 3 - cálculo da temperatura de equilíbrio:


Substituindo To por 60oC; Wo por 0,01 kg kg-1; Tgo por 40oC; R por 0,24 kg kg-
1
; U por 0,20 b.s.; e cp por 0,492 kcal kg-1 oC-1, na equação 25, obtém-se

Te = 52,66 oC.

Passo 4 - cálculo da pressão de vapor de saturação à temperatura de equilíbrio:


Substituindo Te por 52,66oC, na equação 27, obtém-se

Pvs = 105,15 mmHg.

Passo 5 - cálculo da umidade relativa:


Substituindo Wo por 0,01 kg kg-1, Pvs por 105,15 mmHg e Patm por
760 mmHg, na equação 26, obtém-se

UR = 11,44%.

Passo 6 - cálculo da umidade de equilíbrio:


Substituindo Te por 52,66oC e UR por 11,44%, na equação 28, obtém-se:
Ue = 0,0424 b.s.

170 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa
Passo 7 - Cálculo da razão de umidade atual do produto:
Substituindo U por 0,20 b.s., Uo por 0,25 b.s. e Ue por 0,0424 b.s., na equação
30, obtém-se

RUo = 0,759.

Passo 8 - cálculo do tempo equivalente:


Os valores A e B das equações 31 e 32, para Te = 52,66, são -1,243 e 6,652,
respectivamente. Substituindo esses valores, juntamente com RUo = 0,759, na equação
29, obtém-se

te = 0,849 h.

Passo 9 - cálculo da razão de umidade após 12 minutos:


Substituindo ∆t por 0,2 h, te por 0,849 h, A por -1,243 e B por 6,652, na equação
33, obtém-se
RUf = 0,730.

Passo 10 - cálculo do teor de umidade do produto após o incremento de tempo:


Substituindo RUf por 0,730, Ue por 0,0424 b.s. e Uo por 0,25 b.s., na equação
34, obtém-se

Uf = 0,194 b.s.

Passo 11 - cálculo da razão de mistura do ar:


Substituindo R por 0,24 kg kg-1, Wo por 0,01 kg kg-1, U por 0,2 b.s. e Uf por
0,194 b.s., na equação 35, obtém-se

Wf = 0,0115 kg kg-1.

Passo 12 - cálculo das temperaturas finais do ar e do produto:


Substituindo Wo por 0,01 kg kg-1; Te por 52,66oC; Wf por 0,0115 kg kg-1; R por
0,24 kg kg-1; cp por 0,492 kcal kg-1.oC-1; U por 0,2 b.s.; e DL por 8,81 kcal kg-1, na
equação 39, obtém-se
Tf = 50,15oC e Tgf = 50,15oC.

Passo 13 - cálculo da umidade relativa de saída da camada:


Substituindo Te por 50,15oC, na equação 27, obtém-se Pvs = 92,99 mmHg. A
umidade relativa do ar determinada para Pvs = 92,99 mmHg, Wo=0,0115 kg kg-1 e
Patm = 760 mmHg, por meio da equação 26, é

UR = 14,84%.
Passo 14 - conclusão:
Como a umidade relativa do ar é inferior a 100%, o ponto de estado é exeqüível.
Portanto, não há necessidade de fazer novo balanço de energia.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 171


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

3.2.2. Simulação para uma Camada Espessa


Entendido o procedimento para o cálculo das variações ocorridas na secagem de
uma camada fina, para pequenos incrementos de tempo, fica fácil entender a simulação
da secagem em camada espessa, sejam elas fixas ou em movimento.

a) Camada Fixa
Para simular a secagem de uma camada fixa, divide-se a massa de grãos em
várias camadas finas e, consecutivamente, calculam-se tanto as variações que ocorrem
na temperatura e umidade do ar à medida que este vai passando de uma camada para
outra, quanto àquelas variações que ocorrem no produto em cada camada. A simulação
é realizada para pequenos intervalos de tempo, até o produto atingir a umidade desejada.

b) Camada em Movimento
Teoricamente, o secador de fluxos cruzados funciona como um secador em leito
fixo. O ar de secagem evapora e transporta a umidade do produto para o meio exterior.
A temperatura e a capacidade de carrear água do ar vão diminuindo à medida que o ar
passa pelas camadas. Para simular a secagem nesses secadores, admite-se que não há
revolvimento da massa de grãos. Assim, a massa de grãos apresenta-se como composta
por camadas muito longas, que passam pela coluna do secador e com o ar fluindo em
direção perpendicular a estas camadas.
Num secador de fluxos concorrentes, o ar e o produto escoam no mesmo sentido.
Para simular tal sistema, considera-se a massa de grãos como uma série de camadas
finas através das quais passa o ar. Nota-se que, a cada intervalo de tempo, nova camada
estará entrando na parte superior do secador e uma camada estará sendo removida do
fundo deste. A simulação para um secador concorrente, funcionando em regime
permanente, torna-se fácil quando o incremento de tempo (∆t) é devidamente escolhido.
Para isto, basta fazer com que a camada que está numa posição i-ésima no tempo j-
ésimo se desloque para a posição (i +1) ésima no tempo (j +1) ésimo. Assim, ∆t deve
ser igual à espessura da camada dividida pela velocidade de deslocamento do grão no
secador.
Num secador contínuo de fluxos contracorrentes, o ar e o produto escoam em
sentidos opostos. Na simulação desse processo, considera-se que a massa de grãos é
formada por um grupo de camadas finas, através das quais passa o ar. A cada intervalo
de tempo, nova camada é colocada na parte superior do secador, enquanto outra é
removida pela parte inferior do secador. A simulação é feita por iterações, porque as
condições iniciais não são conhecidas. O ponto de estado do ar no topo do secador, bem
como o teor de umidade e a temperatura da última camada, não são conhecidos. A
simulação consiste na aproximação do regime permanente, calculando-se as variações
da umidade do ar e do produto quando o ar passa de uma camada para outra, após um
intervalo de tempo (∆t), igual à espessura da camada dividida pela velocidade do
produto. Assim, trocando cada camada de posição e adicionando uma nova camada no
topo, repetem-se os cálculos até as condições tenderem para o estado permanente.

Clique para acessar: Aplicativo 1

172 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

3.3. Validação dos Modelos


Vários pesquisadores têm utilizado os modelos de Thompson et al. (1968) e de
Hukill (1947) para realizar a simulação de secagem de produtos agrícolas como milho,
café, raspa de mandioca e outros.
QUEIROZ et al. (1981) implementaram os modelos de Thompson et al. e de
Hukill, para simular a secagem de milho em secador de leito fixo, usando calculadora
programável. Devido aos limitados recursos de memória da calculadora, o leito de grãos
foi dividido em quatro subcamadas e adotou-se o incremento de tempo de 1 a 2 horas.
Os resultados, simulados por meio desses modelos, foram comparados com os
resultados experimentais obtidos por MANTOVANI (1976). Os autores concluíram
que, embora o modelo de Hukill simule com maior aproximação a secagem de milho
em leito fixo, ambos os modelos apresentaram resultados aceitáveis para previsão do
processo.
SILVA (1985) mostrou que, após alguns ajustes, o modelo de Hukill foi
eficiente para simular a secagem, em camada espessa, de milho em espiga e milho
descascado.
FIOREZE et al. (1984) implementaram um programa de computador baseado no
modelo de Thompson et al. para simular a secagem de raspa de mandioca. Os autores
apresentam um diagrama de blocos simplificado do programa implementado. Foram
realizados testes experimentais utilizando três temperaturas de secagem (34, 40,3 e
47,6oC) e teor de umidade inicial variando entre 60 e 65% b.u. Os autores concluíram
que o modelo de Thompson et al simula a secagem de mandioca dentro dos limites de
erro aceitáveis para processos de secagem em camada espessa.
SABIONI (1986) implementou um programa de computador baseado no modelo
de Thompson et al. para simular a secagem de milho em um secador de fluxos cruzados
intermitente e com reversão de fluxo de ar. Este autor apresenta um diagrama de blocos
do programa de computador implementado. Os resultados simulados foram comparados
com resultados experimentais em que se utilizaram temperaturas de secagem a 60, 80 e
100oC e teores de umidade inicial na faixa de 22 a 27% b.u. O autor concluiu que o
modelo mostrou-se eficiente para simular o comportamento do secador.
A simulação da secagem de café tornou-se possível com o trabalho de ARTEGA
(1986), apresentando uma equação para determinar o teor de umidade de equilíbrio, e o
de PEREIRA et al. (1987), que apresentou as curvas de secagem de café em camada
delgada para diferentes teores de umidade inicial.
SILVA (1991) implementou um programa baseado no modelo de Thompson et
al para simular a secagem de café em secador intermitente de fluxos contracorrentes. O
autor apresenta uma listagem do programa desenvolvido utilizando o Turbo Pascal
versão 5.0. Os resultados simulados foram comparados com os resultados experimentais
de 12 testes de secagem, utilizando temperaturas a 60, 80 e 100oC e teores de umidade
inicial na faixa de 20 a 41% b.u. Este autor concluiu que o modelo pode ser utilizado
para prever o processo de secagem, uma vez que os desvios entre os valores
experimentais e simulados são aceitáveis para aplicações em engenharia.
GUIMARÃES et al. (1991) implementaram o modelo de Thompson et al. para
simulação de secagem de café em secador de leito fixo. Para validação do programa, os
autores realizaram 10 testes de secagem em secador de leito fixo utilizando

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 173


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

temperaturas de secagem entre 50 e 80oC e teores de umidade inicial entre 60 e 70%


b.u. Também utilizaram os resultados de três testes de secagem conduzidos por Lacerda
Filho (1986). Eles concluíram que o modelo de Thompson et al. pode ser utilizado para
a simulação da secagem de café em secador de leito fixo.
BERBERT (1991) implementou um programa de computador baseado no
modelo de Thompson et al. para simular a secagem de café em secador de leito fixo,
com inversão no sentido do fluxo de ar. O autor apresenta uma listagem do programa
desenvolvido utilizando Turbo Pascal versão 5.5. Foram realizados 18 testes
experimentais, utilizando temperaturas de secagem a 50 e 70oC e teor de umidade inicial
em torno de 25% b.u. Comparando os resultados simulados com os experimentais, o
autor concluiu que o modelo de Thompson et al. pode ser utilizado na simulação de
secagem de café em secador de leito fixo com inversão de fluxo de ar.
MELONI e QUEIROZ (1991) implementaram um programa de computador
baseado no modelo de Thompson et al. para simular a secagem de milho em secador de
fluxos cruzados com reversão de fluxos de ar e reaproveitamento do ar de exaustão. Os
autores apresentam um diagrama de blocos simplificado do programa implementado.
Foram utilizados os dados experimentais da secagem de milho em secador de fluxos
cruzados contínuos, obtidos por QUEIROZ et al. (1987) para verificação do processo de
secagem com reversão e aproveitamento de ar.
Para a simulação da secagem em baixas temperaturas, foram desenvolvidos
modelos mais apropriados', como é o caso do modelo proposto por THOMPSON (1972)
e do proposto por MOREY et al. (1976). Entretanto, SINICIO et al (1986)
implementaram um programa para simulação da secagem de milho em baixas
temperaturas, baseando-se no modelo de THOMPSON et al (1968). Esses autores
determinaram uma equação de secagem de milho em camada delgada para baixas
temperaturas e compararam os resultados simulados, usando o modelo de Thompson et
al. com os resultados experimentais. Também compararam os mesmos resultados
experimentais com os resultados simulados, utilizando modelos mais completos, como é
o caso do modelo de Michigan e o modelo de Morey et al. Os autores concluíram que os
três modelos apresentam a mesma margem de erro e podem ser utilizados para
simulação da secagem de milho em baixa temperatura. Os autores creditam o bom
desempenho do modelo de Thompson et al ao fato de utilizarem uma equação de
secagem de milho em camada delgada, desenvolvida especificamente para baixas
temperaturas.
LOPES et al. (2005) implementaram o modelo de Hukill (1947) para simulação
da secagem com baixas temperaturas considerando milho, trigo e soja. Os resultados
obtidos foram comparados às simulações usando o modelo de Thompson (1968),
também implementado pelos autores. Ambos os modelos se mostraram eficientes na
simulação da secagem com baixas temperaturas, como mostram as Figuras 14 e 15.
Nestas simulações, o teor de água inicial foi considerado igual a 21%b.u., a temperatura
e a umidade relativa do ar ambiente foram iguais a 22ºC e 70%, a temperatura do ar de
secagem foi 25ºC e a vazão do ar de secagem foi igual a 5 m3 min-1 t-1. As diferenças
entre os tempos requeridos para a secagem durante estas simulações foram iguais a
18,0h, 1,0h e 13,0h para o milho, o trigo e a soja, respectivamente.

174 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa
Pode-se concluir que os modelos de Hukill e Thompson têm simulado
satisfatoriamente a secagem de diferentes produtos agrícolas, em diferentes sistemas de
secagem. A utilização de qualquer modelo para condições diferentes daquelas
encontradas na literatura, no entanto, deve ser precedida de um trabalho de validação
utilizando-se dados obtidos experimentalmente.

Figura 14 – Variações nos teores de água (secagem simulada) em silos, usando os


modelos de Hukill e Thompson

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 175


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

Figura 15 – Variações nas temperaturas simuladas (secagem em silos) usando os


modelos de Hukill e Thompson.

4. LITERATURA CONSULTADA

1. ARTEGA, M.S. Modelacion del processo de secado. In: Seminário de secado solar,
2, 1986, Instituto General de Investigacion, Cusco, Peru. 1986. p. 51-56.
2. BERBERT, P.A. Secagem de café (Coffea arabica L.), em camada fixa, com
inversão de sentido de fluxo de ar. UFV, Viçosa, MG. 1991. 83 páginas (Tese
de Mestrado).

176 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa
3. BROOKER, D.B.; BAKKER-ARKEMA, F.W. & HALL, C.W. Drying and storage
of grains and oilseeds. The A VI Publishing Company. Westport, Conn. 1992.
450p.
4. FIOREZE, R; ROSSI, S.J. & KLUPPEL, R.P. Simulação de secagem de camadas
espessas de raspas de mandioca. Revista Brasileira de Armazenamento.
Viçosa, MG. 9(1):19-22. 1984.
5. HUKILL, W.V. Grain Drying In: Storage of Cereal Grains and Their Products.
American association of Cereal Chemists, St. Paul, Minnesota. 1974 481-508.
6. LACERCA FILHO, A.F. Avaliação de diferentes sistemas de secagem e suas
influências na qualidade do café (Caffea arabica, L.). UFV, Viçosa, MG.
136p. 1986 (Tese de Mestrado).
7. LOPES, D.C.; MARTINS, J.H.; STEIDLE NETO, A.J.; STEIDLE FILHO, A.J.
Simulação da secagem de grãos com baixas temperaturas utilizando-se o
modelo de Hukill: uma nova abordagem. Exacta, v.3, 85-93. 2005.
8. MANTOVANI, B.H.M. Análise e simulação de secagem de grãos de milho em
camadas espessas. UFV, Viçosa, MG. 1976 (Tese de Mestrado).
9. MELONI, P.L.S. & QUEIROZ, D.M. Secagem de milho em secador de fluxos
cruzados com reversão de fluxo de ar e reaproveitamento do ar de exaustão.
Anais do XX Congresso Brasileiro de Engenharia Agrícola, Londrina, PR. 1991.
10. MOREY, R.V.; CLOUD, H.A. & NELSON, W.W. Simulation of solar energy
grain drying - Minnesota contribution. Agricultural Engineering Department,
University of Minnesota. St. Paul, Minnesota, 1976. 43p.
11. PEREIRA, J.A.M.; QUEIROZ, D.M.; RIBEIRO, A.L.; SASSERON, J.L. e
DALPASQUALE, V.A. Curvas de secagem de café em camada fina de 40 a
80 graus Celsius. VIII Congresso Brasileiro de Ciência e Tecnologia de
Alimentos. Itabuna-BA, 1987.
12. PINTO, F.A.C.; SILVA, L.S. QUEIROZ, D.M. & PEREIRA, J. A. M. Simulação
de Secagem. In: Pré-Processamento de Produtos Agrícolas, Juiz de Fora,
Instituto Maria, 1995. 509p.
13. QUEIROZ, D.M.; SILVA, J.S. & MELO, E.C. Práticas de Simulação de
Secagem em Calculadoras Programáveis. Centro Nacional de Treinamento
em Armazenagem, Viçosa (MG). 1982. 83 p.
14. QUEIROZ, D.M.; PEREIRA,J.A.M. & MELO,E.C. Modelos Matemáticos de
Simulação de Secagem de Grãos. Centro Nacional de Treinamento em
Armazenagem, Viçosa (MG). 1986. 54p.
15. QUEIROZ, D.M.; MELO, E.C. & SILVA, J.S. Comparação entre os modelos de
secagem de milho de Thompson e de Hukill em computador IBM-360 e
adaptados para a calculadora Texas TI-59. Anais do XI Congresso
Brasileiro de Engenharia Agrícola. Brasília, DF. 459-473. 1981.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 177


Capítulo 6 Estudo da Secagem em Camada Espessa

16. SABIONI, P.M. Projeto e avaliação de um secador de fluxos cruzados,


intermitente e com reversão do fluxo de ar, na secagem de milho (Zea mays
L.). UFV, Viçosa, MG. 101p. 1986. (Tese de Mestrado).
17. SINICIO, R.; PINHEIRO FILHO, J.B.; FORTES, M. & DALPASQUALE, V.A.
Comparação de modelos matemáticos para a simulação de secagem de milho a
baixas temperaturas. Revista Brasileira de Armazenamento. Viçosa, MG.
11(1):36-42. 1986.
18. SILVA, F.A.P. Simulação de secagem de milho (Zea mays, L.) em espiga para
sementes. UFV, Viçosa, Mg. 53 páginas. 1985. (Tese de Mestrado).
19. SILVA, J.S. An Engineering Economic Comparison of Five Drying
Techniques of Shelled Corn on Michigan Farms. East Lansing, Michigan
State. 1980. (Tese de Doutorado).
20. SILVA, L.C. Desenvolvimento e avaliação de um secador de café (coffea
arabica L.) intermitente de fluxos contra-correntes. Viçosa, UFV, Impr.
Univ., 1991. 74p. (Tese Mestrado).
21. THOMPSON, T.L. Temporary storage of high-moisture shellede corn using
continous aeration. Transaction of the ASAE. ST. Joseph, MI. 15(2):333-
337.1972.
22. THOMPSON, T.L.; PEART,R.M. & FOSTER,G.H. Mathematical Simulation of
Corn Drying : a New Model. Transaction of the ASAE, St. Joseph, Michigan.
11(4):582-586,1968.

178 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

Capítulo

7
SECAGEM DE GRÃOS COM ENERGIA SOLAR

Juarez de Sousa e Silva


Sérgio Maurício Lopes Donzelles
Paulo César Corrêa

1. INTRODUÇÃO

Como descrito no capítulo referente ao estudo dos métodos de secagem, os


processos de secagem na própria planta, em terreiros e em plataformas elevadas foram
os primeiros métodos utilizados para secagem de grãos e desidratação de alimentos
perecíveis. Ainda hoje, estes métodos são amplamente utilizados em regiões
subdesenvolvidas e/ou em desenvolvimento. Falta de energia convencional,
desconhecimento de técnicas mais modernas, condições climáticas desfavoráveis e
reduzido investimento em capital são apontados como os principais motivos para a
utilização da secagem solar em terreiros e plataformas. Apesar das dificuldades da
utilização da energia solar em grande escala, como será visto mais adiante, desde 1974,
quando da primeira crise do petróleo, tem havido grande interesse na possibilidade de se
usar essa fonte de energia para substituir as fontes convencionais (principalmente os
derivados do petróleo) na secagem de produtos agrícolas ou em outras aplicações.

2. SECAGEM SOLAR EM TERREIROS

A secagem solar em terreiros difere da secagem natural simplesmente pelo fato de


o produto ser retirado da planta e colocado em uma superfície plana (solo batido ou
revestido com tijolos, concreto ou asfalto) previamente preparada para receber o
produto a ser secado. A energia utilizada para a remoção da umidade é proveniente da
radiação solar e da entalpia do ar. Apesar de ser muito utilizada, em todo o mundo, por
pequenos agricultores para secagem do arroz, milho e feijão etc., a secagem solar em
terreiros e plataformas é especialmente utilizada para secagem do café e do cacau.
A secagem em terreiros apresenta a desvantagem da dependência dos fatores
climáticos, que, se forem desfavoráveis, retardam o processo e propiciam a infecção do
produto por microrganismos que causam a deterioração, com redução na qualidade.
O uso exclusivo do terreiro (Figuras 1 e 2) por muitos cafeicultores deve-se,

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 179


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

principalmente, a problemas energéticos, à não-preocupação com características


qualitativas do produto depois da secagem, ou ao baixo poder aquisitivo e nível técnico
da propriedade.
A principal vantagem do método é a economia de energia, pois durante a secagem
só se utiliza a radiação solar. Além disso, os raios solares têm ação germicida e não são
poluentes. Em contrapartida, para o processo de secagem em terreiros, exigem-se
extensas áreas, muita mão-de-obra e o produto pode ficar sujeito a condições ambientais
inadequadas. A plataforma coberta, utilizada para cacau, reduz, mas não elimina, os
problemas de condições climáticas adversas e suas conseqüências.

Figura 1 - Terreiros improvisados para secagem de café.

Figura 2 - Operação de distribuição e revolvimento de café em terreiros com alto


padrão de construção.

180 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

2.1. Manejo e Características Técnicas do Terreiro


No caso do café, depois dos primeiros dias de secagem (em torno do quinto dia),
quando o café já estiver parcialmente seco, às 3 horas da tarde aproximadamente, o
produto deve ser enleirado no sentido da maior declividade do terreiro e as leiras devem
ser cobertas com lonas plásticas. A cobertura do produto enleirado favorecerá a
conservação do calor absorvido durante a exposição aos raios solares, garantindo
melhor uniformização e redistribuição da umidade na massa de grãos. Ao amanhecer,
por volta das 9 horas, as leiras devem ser descobertas e removidas do local de pernoite,
para que o piso utilizado seja secado. Em seguida, o produto deve ser espalhado sobre o
terreiro, repetindo-se as operações feitas no dia anterior, até atingir o teor de umidade
ideal para o armazenamento ou até o ponto de meia-seca (30% b.u.), ponto ideal para se
iniciar a complementação da secagem na maioria dos secadores mecânicos, como será
visto mais adiante.
Para o arroz, a secagem em terreiro não significa, necessariamente, uma garantia
de qualidade, como acontece com alguns produtos. O manejo inadequado da secagem
em terreiros pode produzir grãos trincados em nível superior aos produzidos por
secadores a altas temperaturas. Se o arroz for espalhado em camadas muito finas
(inferior a 3,0 cm) e a intensidade de radiação solar for elevada, o índice de trincas será
elevado, independentemente do número de revolvimento. Manejado adequadamente, o
arroz secado em terreiro pode ter a sua qualidade comparada ao produto secado em
secadores mecânicos.
Sempre que possível, o terreiro deve estar localizado em área plana e bem
drenada, ensolarada, ventilada, em nível inferior às instalações de recepção e preparo
inicial e superior às instalações de armazenamento e beneficiamento.
Como dito anteriormente, os terreiros podem ser construídos em terra batida ou
pavimentada com tijolos, asfalto ou concreto. O piso de tijolos parece ser o mais
aconselhável, porque tem a propriedade de absorver parte dos raios solares, não
transmite gosto estranho e em geral apresenta menor custo. Os concretados, entretanto,
apresentam melhores resultados, são mais duráveis, mais fáceis de manejar e
apresentam melhores características de limpeza.
No caso especial do café, a área do terreiro pode ser calculada em função da
produção média da lavoura por mil covas, do número de cafeeiros e das condições
climáticas da região.
Na hipótese de se utilizar apenas o terreiro para a secagem, o cálculo da área
poderá ser feito segundo a equação 1:

S=0,055QT eq. 1
em que
S = área do terreiro, m2 para produção de 1.000 pés;

Q = produção média anual em cereja, no de volumes de 110 L/1000 pés; e

T = tempo médio de secagem na região, dias.

Quando da utilização somente do terreiro para realizar a meia-seca, ou seja, para

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 181


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

reduzir o teor de umidade de 60% para aproximadamente 30% b.u. (o que ocorre em
cerca de cinco dias) e complementar a secagem em secadores mecânicos, a área do
terreiro poderá ser reduzida para pelo menos 1/3 do valor.
Na medida do possível, o terreiro deverá ser dividido em quadras, para facilitar a
secagem dos lotes segundo sua origem, seu teor de umidade e sua qualidade. A fim de
facilitar o escoamento das águas pluviais, o terreiro deverá ser construído com
declividade de 0,5 a 1,5% e provido de ralos na parte inferior. Estes ralos, medindo 0,4
x 0,25 m, devem ser construídos em chapa de aço com 50% de perfuração e furos
quadrados de 3 mm de lado, no máximo, para impedir a passagem dos grãos.
Aconselha-se construir muretas de proteção medindo 0,20 m de altura por 0,15 m
de espessura ao redor do terreiro, para evitar perdas ou misturas de material dos
diferentes tipos de cafés.
A partir do ponto de meia-seca, o café completará sua secagem em montes, onde
se estabelecerá o equilíbrio entre as camadas externas e a parte interna do grão e dos
grãos entre si. Para tanto, diariamente, o café deve ser revirado e exposto por duas ou
três horas ao sol e, a seguir, amontoado e coberto.

Clique para ver o vídeo sobre o terreiro de lama asfáltica: vídeo 1


Clique para ver o vídeo sobre higienização de terreiro: vídeo 2

3. SECADOR HÍBRIDO (TERREIRO-BIOMASSA)

O secador híbrido nada mais é que um terreiro comum construído em alvenaria


de cimento onde se adaptou um sistema de ventilação com ar aquecido. Cada unidade
do secador híbrido deve ser constituída por uma área com as dimensões de 10,0 por 15,0
m, aproximadamente. Na direção do comprimento, o terreiro-secador é dotado de uma
tubulação central para ventilação. Desta, são derivadas aberturas para 6 (seis) câmaras
de secagem em camada fixa, ou igual número de tubulações secundárias para secagem
em leiras (Figura 3 A e B).
As câmaras de secagem, portáteis e construídas em caixas com um fundo falso,
feito em chapas perfuradas, ficam simplesmente apoiadas sobre as aberturas da
tubulação principal (Figura 4A). A Figura 4B, mostra um secador híbrido trabalhando
com seis câmaras de secagem. Já as tubulações secundárias, construídas com tubos de
PVC 150 mm perfurados, ficam encaixadas nas aberturas do duto principal.
Ao duto principal é acoplado um ventilador centrífugo acionado por motor
elétrico de 5 cv, 1.750 rpm, que possibilita uma vazão de 1,5 m3/s de ar.
Na ausência de radiação solar, incidência de chuvas e durante o período noturno,
o produto é recolhido às câmaras de secagem ou enleirado sobre os dutos secundários
para secagem com ar aquecido. Em ambos os casos, deve-se providenciar cobertura para
proteção dos grãos durante períodos chuvosos. Assim, a secagem poderá ser realizada
durante as 24 horas, por meio da utilização da energia solar durante os dias ensolarados
e da energia proveniente da combustão de biomassa (lenha ou carvão vegetal) durante a
ausência da radiação solar.
Durante os dias ensolarados, o terreiro terá funcionamento normal, como visto
anteriormente, e, ainda assim, pode-se usar as câmaras para secagem com ar a altas

182 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

temperaturas; ganha-se, com isso, em produtividade de secagem. Para o funcionamento


do terreiro com ar a alta temperatura, deve-se proceder de modo semelhante ao da
secagem em camada fixa, como visto no capítulo 5 – Secagem e Secadores.

Figura 3 – Vista superior e corte longitudinal do secador híbrido, com opções para
secagem em camada fixa ou em leiras.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 183


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

Figura 4 A – Câmara de secagem construída com caixa de fibra de 2.500 litros

Figura 4 B – Secador híbrido trabalhando com seis câmaras de 1000 litros.

Clique para ver: vídeo 1 vídeo 2 vídeo 3

4. ENERGIA SOLAR

Como dito anteriormente, há muito tem havido grande interesse na possibilidade


de se usar a energia solar para a secagem mecânica de produtos agrícolas e em outras
aplicações. Porém, a quantidade de energia solar que pode incidir em uma superfície
perpendicular aos raios solares é relativamente diluída, ou seja, em um dia
completamente claro (ausência de nebulosidade) e numa latitude média do Brasil, é de
aproximadamente 4.800 kcal ou 20.000 kJ/dia, por metro quadrado de área coletora.
Isso significa que uma superfície absorvedora com 2,5 m2 só poderia, na melhor das
hipóteses, interceptar uma quantidade de energia solar equivalente a 1 kg de óleo diesel
ou 3 kg de carvão vegetal por dia.
Infelizmente, existem fatores que impedem coletar e usar eficientemente o total de
energia incidente. Primeiramente, o sol não está descoberto todos os dias, e, por outro
lado, dependendo da região, a poluição atmosférica impede uma boa utilização da
radiação solar. Finalmente, a orientação do coletor tem grande efeito na quantidade total
recebida e, em muitos casos, é quase impossível orientar um coletor de maneira que ele
fique perpendicular aos raios solares, pois os investimentos adicionais para o
direcionamento da superfície coletora inviabilizariam o sistema. Uma opção econômica
seria aceitar uma menor eficiência na captação de energia com a fixação da superfície
coletora em uma posição que possa captar maior quantidade de energia.
A maioria dos trabalhos que tratam do aproveitamento da energia solar para a
secagem de grãos tem sido direcionada para sistemas de secagem a baixas temperaturas,
uma vez que seria difícil sua aplicação em sistemas que funcionam a altas temperaturas,
em razão do alto nível de energia necessária (120.000 a 300.000 kJ/hr) para secadores
mecânicos de média capacidade.
Como visto no capítulo referente ao estudo dos métodos de secagem, os sistemas

184 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

de secagem a baixas temperaturas envolvem, geralmente, a secagem em silos, nos quais


o incremento da temperatura do ar fica pouco acima da temperatura ambiente, ou seja,
um incremento abaixo de 10 oC, incluindo o aumento de temperatura proveniente do
atrito do ar no ventilador e nos dutos de distribuição deste ar. Neste caso, a energia solar
tem grande potencial como fonte de energia para a secagem.
A secagem a baixa temperatura requer longo tempo de operação, possibilitando a
deterioração das camadas superiores, caso o sistema não seja criteriosamente
dimensionado. Teores de umidade superiores a 20% b.u. propiciam a deterioração em
curto espaço de tempo, exigindo altos fluxos de ar na secagem, tornando o sistema
inviável técnica e economicamente. Esse problema pode ser amenizado se for adotado
um sistema de secagem em combinação, com uma pré-secagem a altas temperaturas, em
secadores convencionais. Neste caso, o teor de umidade do produto seria reduzido a
níveis seguros para o complemento da secagem a baixas temperaturas, em silos, com
energia solar. Tal procedimento, além de evitar a deterioração do produto, acarretará
uma economia substancial de tempo e de energia convencional.

5. O COLETOR DE ENERGIA SOLAR

Pode-se encontrar na literatura especializada, apesar de muita semelhança,


grande variedade de tipos de coletores solar. Será descrito neste capítulo um tipo que
parece ser o mais recomendável, em caso de se adotar a secagem com energia solar. É
um coletor plano e não exige nenhum dispositivo mecânico para mantê-lo perpendicular
aos raios solares. Como dito anteriormente, o coletor deve ser fixo e orientado na
direção norte-sul, com a superfície absorvedora voltada para o norte. Outro ponto
importante e que deve ser obedecido é quanto à inclinação da superfície absorvedora
com a horizontal (nível do solo). Neste caso, uma inclinação ótima para a variação anual
pode ser tomada como igual ao valor da latitude onde o sistema será instalado (Figura
5).

Figura 5 – Inclinação ótima para coletores planos.

Uma grande vantagem do coletor plano é que ele irá absorver a energia
diretamente do sol, em forma de radiação direta, e também a energia difusa (radiação
refletida pela terra e pelas nuvens). Com um coletor plano, é possível, dependendo do
fluxo de ar adotado, incrementar a temperatura do ar em até 30 oC, em dias de céu
descoberto. Um incremento de 5 oC é considerado um bom valor para se obter uma
eficiência razoável do sistema.
Além dos fatores mencionados, o coletor plano de energia solar é de construção

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 185


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

relativamente fácil e de custo mais baixo que outros tipos de coletores. Isso faz com que
os coletores planos sejam a melhor escolha para a secagem de produtos agrícolas.
Como dito anteriormente, há vários modelos de coletores planos, mas todos eles
possuem duas características básicas:
a) uma placa preta, para absorver a energia solar; e
b) um fluido circulante (ar ambiente), para retirar o calor da chapa e levá-lo
para o ponto de utilização, que, no caso de secagem, é uma câmara que
contém os grãos a serem secados.
O secador solar rotativo é uma exceção ao que foi dito e será estudado mais
adiante.
Um coletor de energia solar, tendo o ar como fluido circulante, pode ser
construído com uma simples chapa de aço ou telha de cimento-amianto, pintados em
preto fosco, ou ser construído com materiais mais sofisticados. A chapa ou telha deverá
formar um canal com a estrutura por onde deverá ser forçada a passagem do ar (Figura
6A).
Um segundo tipo possui ainda uma cobertura transparente sobre a placa coletora,
com a finalidade de aumentar o rendimento total do sistema. Esta cobertura transparente
pode ser de vidro ou mesmo um simples lençol de plástico transparente. A cobertura
transparente tem por finalidade evitar as perdas de calor da chapa coletora para o
ambiente e formar um segundo canal de ventilação para aumentar a superfície de troca
de calor (Figura 6 B).
Há diferentes maneiras de melhorar a eficiência de um coletor. Entretanto, para
que essa melhoria seja levada a cabo, deve-se analisar o benefício do investimento
adicional. Usualmente, os coletores mais eficientes são também os mais caros.

B
Figura 6 – Cortes transversais de coletores sem cobertura (A) e com cobertura (B).

5.1. Construção do Coletor Solar


Os coletores solares podem ser construídos de diferentes materiais. Entretanto,
esses materiais devem ser bastante resistentes às variações de temperaturas, à chuva, ao

186 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

vento, à radiação solar e aos agentes poluidores. De modo geral, o projeto de um coletor
deve permitir fácil manuseio e fornecer o máximo de calor com um mínimo de
manutenção e reparos.
5.1.1. Cobertura transparente
Usualmente, o vidro é a melhor cobertura para os coletores para aquecimento de
ar. O vidro é bastante transparente à radiação solar e relativamente opaco às radiações
em forma de calor, constituindo-se em um bom isolante contra o calor coletado pela
placa absorvedora (este fenômeno é conhecido como efeito estufa e explica o porquê de
os carros fechados permanecerem bastante quentes, quando expostos ao sol).
Lençóis de plástico transparente são também bastante usados como cobertura
para os coletores. Entretanto, são menos duráveis do que as coberturas em vidro.
Usualmente, a vida útil da cobertura transparente em plástico não é superior a dois anos.
O lençol plástico é mais transparente à radiação solar do que o vidro comum. Por outro
lado, é bem menos opaco à radiação em forma de calor. Nesse caso, o usuário deve
optar pelo que lhe for mais conveniente. Para baixas temperaturas, como secagem de
café, os lençóis de plástico são mais convenientes. Eles são flexíveis, mais fáceis de
instalar e custam bem menos que uma lâmina de vidro de igual tamanho. Ao montar um
coletor solar com cobertura transparente em vidro, deve-se levar em conta o tamanho e
o número de placas. Em caso de quebra, placas menores custam menos e são mais fáceis
de serem substituídas.

5.1.2. Placa coletora


As características desejáveis de uma placa absorvedora são:
- absorver o máximo da radiação solar;
- perder o mínimo de calor para o ambiente; e
- transferir facilmente o calor absorvido para o ar circulante.

Se a placa for pintada de preto, ela irá absorver mais energia radiante do que em
qualquer outra coloração. Uma superfície preta fosca pode absorver até 95% da radiação
que atravessa a cobertura transparente. Os materiais mais usados como placa coletora
são o cobre, o alumínio, o ferro, o cimento-amianto e o plástico. O cobre é o mais caro,
mas possui a mais alta condutividade térmica. Por outro lado, o cimento-amianto é
menos caro e bastante aplicável no caso de secagem de grãos (é durável e de fácil
instalação).
A superfície da placa coletora afeta também a transferência de calor para o ar
dentro dos coletores. Alguns tipos são feitos de material corrugado, com a finalidade de
aumentar a área de transferência de calor. Por esses motivos, a telha de cimento-amianto
foi escolhida para o projeto dos coletores modelos UFV.

5.1.3. Caixa protetora


Metal, fibra de vidro, concreto e madeira podem ser usados para acondicionar a
placa coletora e completar o coletor. No entanto, a estrutura de madeira é mais leve e
facilmente encontrada no mercado, exigindo apenas um carpinteiro para a confecção de
toda a estrutura do coletor. Isolamento térmico pode ser adicionado no fundo e nas
laterais da caixa protetora, para evitar as perdas de calor. Entretanto, o investimento em

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 187


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

isolamento poderá ser superior ao valor da energia adicional coletada. Lã de vidro é o


material mais utilizado para isolar os coletores solares.
Quando o coletor não estiver em operação ou estiver com a ventilação desligada,
a temperatura pode atingir valores acima de 80 oC. Dessa maneira, é aconselhável cobrir
o coletor, para evitar danos ocasionados por estas altas temperaturas e, se possível,
retirar o lençol plástico, quando não em uso, para maior durabilidade.

5.1.4. Propriedades dos coletores planos


a) Coletor sem a cobertura transparente:
- o acréscimo de temperatura é inferior a 15 oC;
- a velocidade máxima do ar dentro do coletor deve estar ao redor de 250
m.min. -1;
- o espaço entre a chapa coletora e o fundo da caixa deve estar entre quatro e
cinco centímetros; e
- o material para a placa coletora deve ser de cimento-amianto ou metal
pintado de preto fosco.

b) Coletor com cobertura transparente:


- o acréscimo de temperatura poderá atingir 40 oC;
- a velocidade máxima do ar deve estar ao redor de 250 m.min-1;
- o espaço entre a placa e o fundo do coletor deve ser de dois centímetros, e de
três centímetros entre a placa e a cobertura transparente;
- o material para chapa coletora deve ser de cimento-amianto ou metal pintado
de preto fosco; e
- o material transparente para cobertura deve ser de vidro ou plástico.

6. SECAGEM COM ENERGIA SOLAR

Mesmo com a existência de vários tipos de secadores que usam energia solar,
como o utilizado para pequenas produções de café (Figura 7), dois sistemas foram
construídos e testados na Universidade Federal de Viçosa. O primeiro, um secador
registrado como UFV - J2, se assemelha a um secador de camada fixa horizontal,
possuindo um teto solar (coletor solar), um ventilador, um duto de conexão e uma
câmara de secagem (Figuras 8, 9 e10).
O segundo, um secador solar rotativo registrado como UFV-JPC1, que é um
melhoramento do secador solar suspenso (figura 7), consta apenas de uma caixa
formada por laterais de madeira, com frente e fundos em tela de aço com malha
quadrada de 4 mm. A caixa possui um eixo central (tubo de ferro de 3/4 de polegadas),
que é apoiado em dois pequenos pilares de madeira, para permitir uma fácil rotação. O
próprio produto a secar (café) constitui o material absorvedor de calor neste tipo de
secador (Figura 11). A ventilação natural é o meio que retira o calor absorvido e elimina
a umidade, como acontece nos terreiros tradicionais ou secadores suspensos.
Nos secadores solares rotativos o café passa simultaneamente por operações de
secagem e limpeza, dispensando, assim, a utilização de terreiros e não requerendo outra
forma de energia. Como nos secadores suspensos, o produto, por não estar em contato

188 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

direto com o piso do terreiro, que apresenta problemas de limpeza e desinfecção, tem
menor chance de ser contaminado por microrganismos indesejáveis. Já o secador com
teto solar necessita de pequena área de terreiro para a secagem inicial do café com alto
teor de umidade e, ainda, de energia elétrica para o acionamento do ventilador. Para
produtos relativamente secos, como é o caso do milho, arroz ou feijão, a secagem inicial
em terreiros é totalmente dispensada.
Em comparação à secagem com ar natural, este secador tem maior capacidade de
secagem por causa da elevação da temperatura do ar. Caso o secador solar UFV-J2 seja
usado em combinação com o secador solar rotativo UFV-JPC1, o terreiro é eliminado e
o processo torna-se mais fácil e com maior capacidade de secagem.

Figura 7 - Secadores em telas suspensas, para secagem solar.

Figura 8 – Vista geral do secador solar UFV - J2

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 189


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

Figura 9– Planta baixa do secador do secador solar UFV-J2.

Figura 10 – Corte transversal (b) do secador do secador solar UFV-J2.

Figura 11 - Vista geral dos secadores solares rotativos (UFV-JPC1).

6.1. Manejo dos Secadores Solares


1 - Secador UFV-J2: no caso da secagem do café, o produto, depois de lavado,
deverá passar por uma pré-secagem em terreiro ou em secadores rotativos durante um

190 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

período de três dias, dependendo das condições ambientais. A altura total da camada de
café no tanque secador não deve ultrapassar 0,5 m, e ela pode ser colocada em camadas
(uma pequena camada por dia). Se as condições forem ideais, a secagem poderá ser
completada em torno de seis dias (até os três primeiros dias, o ventilador deverá
funcionar também durante a noite). Para evitar a ocorrência de gradientes elevados de
umidade, é aconselhável fazer o revolvimento da camada de grão pelo menos duas
vezes ao dia durante todo o período de secagem. Para secagem de milho, arroz ou feijão,
a carga do secador pode ser feita em uma única vez. Como no caso do café, é
aconselhável revolver a camada de grãos, principalmente para o arroz.
2 - Secador UFV-JPC1: ao contrário do caso anterior, depois de lavado, o café
é colocado diretamente nos secadores rotativos. Os secadores devem ser orientados na
direção norte-sul, ocupando quatro posições durante o dia, como indicado na Figura 12.
Antes de se colocar o secador numa determinada posição, o produto deve ser
homogeneizado, por meio de pelo menos cinco giros no secador. Ao girar o secador, o
operador deve ter o cuidado de fazê-lo de maneira lenta, para que o produto fique bem
misturado.
Se as condições forem favoráveis, depois de cinco dias de exposição ao sol, e no
caso do café, o volume do material dentro dos secadores rotativos deverá estar em torno
de 60% do volume inicial. Nesse ponto, o material de um secador deve ser transferido
para outros dois, e o primeiro imediatamente recarregado, de acordo com o esquema da
Figura 13. Para grãos que não sofrem redução substancial do volume durante a secagem
(milho, feijão, arroz etc.), não há necessidade da operação anterior. A única restrição
para a secagem destes produtos fica no tamanho da malha das telas dos secadores
rotativos (Figura 14).

Figura 12 - Diferentes posições do secador solar rotativo durante a secagem.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 191


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

Figura 13 - Esquema de funcionamento dos secadores rotativos.

Figura 14 – Detalhes do secador solar rotativo.

6.2. Quantidade Necessária de Secadores Solares Rotativos


Como os secadores rotativos são mais indicados para a secagem de café, devido
à relação entre preço do produto e custos dos secadores, o cálculo da capacidade de
secagem ficará restrito a este produto.
1 - Secador Solar Rotativo. Suponha que em uma pequena propriedade é
colhido 1,2 m3 de café por dia. Calcular o número de secadores rotativos de 1,2 x 1,2 x
0,15 m necessários para atender à secagem do café durante o período de colheita.

192 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

Solução. Em regiões favoráveis, são necessários, em média, treze dias de


exposição ao sol para que o teor de umidade do café seja reduzido de 60% b.u.
(colheita) para um valor próximo a 12,5% b.u., considerado ideal para uma
armazenagem segura ou para a comercialização. Isto quer dizer que cada secador solar
rotativo ficará ocupado por igual período. Após este intervalo de tempo, o secador é
descarregado e nova operação é iniciada. Como dito anteriormente, após cinco dias de
exposição ao sol, o volume de café dentro do secador será reduzido para 60% do valor
inicial, como indicado na Figura 10. Neste ponto, o material contido em um secador
deve ser transferido para completar o volume inicial de outros dois secadores. Realizada
esta operação, o secador descarregado é liberado para nova carga com produto úmido.
Este procedimento é repetido até o ponto em que os secadores completem, em
média, os treze dias de funcionamento. O número de secadores necessários é, então,
determinado pela equação 2:

Nts=13Nsd-(8Nsd / 3) eq. 2
em que
Nts = número total de secadores; e
Nsd = número de secadores usados por dia.

Assim, o resultado da colheita de 1,2 m3/dia será colocado em seis secadores de


1,2 x 1,2 x 0,15 m, com capacidade de 0,2 m3 cada. Substituindo os valores na Eq. 2,
obtém-se
Nst = 13 x 6 - (8 x 6) /3 = 62 secadores rotativos

2 - Secador Solar UFV-J2. Suponha que a mesma quantidade de café do


exemplo anterior seja colhida (1,2 m3/dia). Determinar as dimensões do secador e
quantos metros quadrados de terreiro ou secadores rotativos serão necessários.
Solução. A carga do secador solar UFV-J2 deverá ser feita em camadas, depois
de três dias de pré-secagem nos secadores rotativos ou em terreiro. Assim, para cada dia
de colheita, após o terceiro dia de exposição ao sol, aproximadamente 1,2 m3 de café
será transferido para o secador solar UFV-J2, o qual, após quatro camadas consecutivas,
conterá 1,2 x 4 = 4,8 m3 de café.
Com seis dias de secagem, depois de se colocar a quarta camada (dependendo
das condições de insolação), o secador poderá ser descarregado, iniciando-se novo
carregamento. Dessa maneira, 18 secadores rotativos (ou 90 m2 de terreiro) serão
necessários para operar em conjunto com um secador solar UFV-J2 que contenha um
tanque secador com as seguintes dimensões: 4,8 x 2,0 x 0,5 m e um teto solar de 7 x 3 =
21 m2 de área coletora. Um ventilador que forneça 10 m3.min-1.m-3 de café deverá ser
acoplado ao sistema.

6.3. Terreiro Suspenso Portátil


O terreiro suspenso e transportável ou portátil, de acordo com Darfet citado por
SILVA et al. 2005, foi inventado por Geronymo L. C. Souza, em 1888. O secador
consiste, resumidamente, de diversas caixas retangulares com tela de arame, formando

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 193


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

um tabuleiro falso 3.0 x 1.5 m, montados em pilares de madeira com 0,8 m de altura
(Figura 15).
Como se pode ver, o terreiro suspenso e fixo comercializado no Brasil (Figura 7)
tem o o projeto básico similar e não difere muito do secador portátil idealizado por
Geronymo Souza. Trabalhos de pesquisa realizados por Vilela (1997) e Hardoim
(2001), indicam que o tempo de secagem nestes secadores é mais longo que no terreiro
convencional com piso de concreto.

Figura 15 – Esquema básico do Terreiro Suspenso portátil

6.4. Terreiro Suspenso Móvel


Privilégio registrado em Novembro de 1889 por Correia da Silva, consiste de
diversos tabuleiros com fundo telado para reter os grãos. Os tabuleiros, com dimensões
apropriadas, são montadas em um sistema de trilhos. O conjunto, quando não em
funcionamento, fica abrigado sob uma cobertura fixa para proteger o produto de chuvas
ou condensações noturnas. O operador do secador tem que puxar os tabuleiros para
expô-los sob a radiação solar para secar o produto que deve ser revolvido
periodicamente (Figuras 16 A e B).

Figura 16 A – Esquema básico to terreiro suspenso móvel

194 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

Figura 16 B – Vista geral do secador tipo terreiro suspenso móvel

6.5. Secador Flex


O Seador Flex é uma fusão do secador de camada fixa tradicional com o secador
por convecção natural (Capítulo 5) e, ainda, com secador solar UFV-J2.
O ar de secagem pode ser aquecido com a energia de combustão da lenha, do
carvão, do gás, ser aquecido com energia solar ou com a mistura de energia solar e
energia da combustão. Pelo fato de usar diferentes fontes de energia, a denominação
“Secador Flex” (Figuras 17 e 18) é uma homenagem à industria automobilística
brasileira que produziu o importante motor flex para qualquer proporção “álcool e
gasolina” como combustível.
Basicamente, o secador flex, à semelhança do secador por convecção natural, é
composto por uma fornalha comum, um trocador de calor de tubo único e uma chaminé.
Ao conjunto, foi adicionado um ventilador para forçar a convecção do ar e vencer
facilmente a resistência oferecida por camadas de grãos mais profundas. Nesse caso, o
secador funciona como se fosse um secador de camada fixa tradicional com fornalha
para aquecimento indireto do ar de secagem.
É importante observar que na ausência de eletricidade, fato muito freqüente no
fornecimento rural, a secagem não será interrompida, pois o secador terá funcionamento
continuado pela convecção natural. Nesse caso, deve-se reduzir a altura da camada de
grãos ou revolvê-la com mais freqüência.
Além de forçar a convecção na câmara “plenum” do secador, outra função do
ventilador é fazer com que o ar de secagem passe pelos canais do “telhado coletor” e
seja aquecido pela energia solar. Como dito anteriormente, o aproveitamento dessa
energia, além de reduzir substancialmente o consumo de outros combustíveis, não é
poluidora e o “telhado coletor” é apenas um pouco mais caro que um telhado comum.

Figura 17 - Secador Flex com “telhado coletor” de energia solar

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 195


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

Figura 18 - Detalhes dos componentes do Secador Flex

7. FUTURO DA SECAGEM COM ENERGIA SOLAR

A energia do sol, devido a características próprias, parece ser gratuita; no


entanto, coletar, armazenar e distribuir esta forma de energia pode torná-la mais onerosa
que qualquer outra fonte energética. A sua adoção para a secagem de produtos
agrícolas, que é responsável pelo maior gasto de energia destinada ao processo de
produção (em alguns casos, superior a 50%), irá depender do suprimento e preço dos
derivados de petróleo e de outras fontes convencionais, como lenha e carvão, bem como
de outras formas não-convencionais, como de resíduos agrícolas.
A utilização da energia solar dependerá do desenvolvimento de sistemas de
secagem eficientes e econômicos. Nesse sentido, o campo de investigação é amplo e
várias pesquisas específicas deverão ser desenvolvidas. Para isso, algumas questões
como as que seguem devem ser investigadas:

a) É necessária alguma forma de armazenar energia para a secagem?


b) Economicamente, pode-se armazenar a energia solar?
c) O coletor solar poderia ser utilizado para múltiplas finalidades, como para
secagem, aquecimento de água e de ambiente, refrigeração e outros?
d) Haveria maneira de viabilizar a aplicação da energia solar em sistemas de
secagem a altas temperaturas?
e) Onde ou sob que condições a energia solar poderia ser utilizada com
economia e segurança para a secagem a baixas temperaturas?
Em muitas regiões brasileiras, durante dias ensolarados, a grande maioria dos
produtos agrícolas, como milho, soja, sorgo, arroz e café descascado (abaixo de 25%
b.u.), pode ser secada a teores de umidade seguros para a armazenagem (12 a 13%) com
o uso do ar sob condições naturais. Qualquer quantidade de calor adicionado ao ar de
secagem reduz a umidade relativa e pode causar uma supersecagem do produto,
principalmente nas camadas inferiores do silo (veja capítulos referentes à qualidade de
grãos e os métodos de secagem).
Grãos supersecos podem ser reumedecidos, com subsequente ventilação durante
dias com altas umidades relativas ou mesmo durante a noite. Entretanto, a secagem e o
reumedecimento alternados podem causar redução na qualidade do produto, como é o

196 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

caso do arroz, que produzirá grande quantidade de grãos quebrados após o


beneficiamento. Este problema pode, em muitos casos, ser solucionado com a adoção de
dispositivos de revolvimento, cuja finalidade é misturar grãos secos e úmidos,
minimizando o gradiente de umidade ao longo da camada.
Muitos métodos podem ser usados para armazenar a energia solar; dentre eles, o
mais simples é transferir o calor coletado para uma camada de pedras e usar o calor
armazenado durante os períodos noturnos, quando a umidade relativa é alta.
Obviamente, os sistemas que visam armazenamento de energia solar terão custos
bastante elevados e, neste caso, é melhor usar a energia armazenada para aplicações
mais dispendiosas do que a secagem de grãos. O uso múltiplo do sistema, como em
secagem de grãos, aquecimento e refrigeração de ambiente, dentre outros, pode ser uma
opção para reduzir os custos. Entretanto, a adaptação de um sistema solar para secagem
junto com outras atividades selecionadas, além de difícil, poderá aumentar ainda mais
os custos em decorrência do posicionamento de cada atividade dentro da propriedade
agrícola. Caso não seja necessário o armazenamento da energia, o uso de coletores
portáteis poderia ser uma opção para solucionar este problema.
Como dito anteriormente, dependendo das condições ambientais, cereais podem
ser secados em silos com o uso de ar natural ou sem aquecimento. Assim, a adaptação
de um ventilador de maior vazão no sistema de secagem trará mais sucesso que
adicionar calor suplementar, com energia solar ou qualquer outra fonte de energia.
Nas regiões úmidas, o calor adicional é necessário para reduzir a umidade
relativa do ar e possibilitar a secagem de grãos a teores de umidade adequados à
armazenagem. Nessas áreas, o calor fornecido pela radiação solar poderá ser uma
opção, mas sua adoção deverá ser baseada em resultados de pesquisa que indicarem
relativo sucesso na operação de secagem.
Concluindo, pode-se afirmar que, com a atual tecnologia disponível, a energia
solar, por meio de coletores convencionais, para a secagem de grãos só se viabilizará
caso haja uma drástica redução no suprimento, ou aumento substancial no custo da
energia proveniente de fontes energéticas.

8. LITERATURA CONSULTADA

1. CORREA, P.C., SILVA, J.S & MICHELENA, M.C. Secado de cafe con energia
solar. Conferencia internacional de Mecanizacion Agraria. Zaragoza, Espãna.
1992. p 695-701.

2. HARDOIM, P.C. Secagem de café cereja, bóia e cereja desmucilado em terreiros


de concreto, de lama asfáltica, de chão batido e de leito suspenso em Lavras.
In: 27º. Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras, 27, Uberaba, 2001.
Anais.

3. SILVA, J.S. Determinação das dimensões dos coletores planos de energia solar.
Viçosa, Universidade Federal de Viçosa, Imprensa Universitária, 1973. 35p.
(Tese de Mestrado)

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 197


Capítulo 7 Secagem com Energia Solar

4. SILVA, J.S. & CORREA, P.C. Secagem com energia solar. In: Pré-
processamento de produtos agrícolas. Juiz de Fora, Instituto Maria. 1995. 509p.

5. SILVA, J.S.; NOGUEIRA, R.M & ROBERTO, C.D., Tecnologias de Secagem e


Armazenagem para a Agricultura Familiar, Visconde do Rio Branco 0- MG,
SUPEMA, 2005. 137p.
6. USDA. Solar grain drying. Washington, D.C. Information Bulletin No 401

7. VILELA, E. R. Secagem de Café em terreiro e silo com energia solar. 1977.


Dissertação (Mestrado).Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP.

198 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

Capítulo

8
ENERGIA NO PRÉ-PROCESSAMENTO DE PRODUTOS AGRÍCOLAS

Roberto Precci Lopes


Juarez de Sousa e Silva
Edney Alves Magalhães
Jadir Nogueira da Silva

1. INTRODUÇÃO

Na produção de grãos, a secagem, no caso específico do milho, pode representar


até 50% do consumo total de energia. Apesar de haver, à disposição do usuário,
equipamentos para controle de processos, a tomada de decisão para a otimização de uma
determinada operação cabe ao operador. As operações de secagem e armazenagem,
quando conduzidas corretamente e com equipamentos eficientes, contribuem
significativamente para a redução dos custos operacionais, em razão da economia de
energia que propiciam.
Os procedimentos a serem adotados para melhorar o uso da energia em processos
agrícolas, em especial na secagem de grãos, dependem do tipo de sistema de secagem e
dos manejos adotados. Os sistemas de secagem com ar natural ou com o ar levemente
aquecido são exemplos de sistemas econômicos. No capítulo 5 – Secagem e Secadores -
é mostrado que, colhendo milho com 25% e secando-o até 18% num sistema a altas
temperaturas, e completando a secagem até 13% num silo secador-armazenador, pode-se
economizar até 50% do combustível e dobrar a capacidade do secador. Entretanto, não
basta apenas adotar o sistema de secagem mais econômico. É preciso bom
conhecimento sobre conservação de grãos, para que o produto não se deteriore durante a
fase de secagem/armazenamento com ar natural e a baixas temperaturas. Na secagem
com ar natural, embora se utilize a entalpia do ar como fonte de energia para a secagem,
há que considerar o custo da energia elétrica para acionamento dos ventiladores, que,
dependendo do número de unidades secadoras (volume de grãos a serem secos), pode
representar um custo considerável. Caso haja uma programação por parte da
concessionária de energia elétrica, deve-se optar pela operação com tarifa diferenciada
e, se possível, evitar o funcionamento do sistema em horários de ponta.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 199


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

2. COLHEITA E ENERGIA

A antecipação da colheita como prática para economia de energia na secagem


constitui um equívoco, sendo muito utilizada por alguns fabricantes de secadores para
mostrar a eficiência de seus produtos quando secam grãos com alta umidade inicial. Esta
prática reduz as perdas no campo, mas traz como inconveniente um consumo adicional
de energia com a secagem de grãos mais úmidos. A necessidade de liberação do campo
para novos plantios ou a melhor qualidade do produto colhido antecipadamente são as
principais vantagens e, na maioria dos casos, pode compensar o gasto com energia na
secagem. A Figura 1 mostra que, para um mesmo teor de umidade final, a quantidade de
energia por unidade de água evaporada necessária para a secagem de milho é tanto
menor quanto maior o teor de umidade inicial do produto. Por essa razão, a secagem no
campo, aproveitando a entalpia do ar ambiente, promove eficientemente a secagem de
grãos úmidos, principalmente quando a umidade relativa de equilíbrio está próxima a
100%. Por outro lado, é preciso observar que, quanto maior o teor de umidade inicial do
milho, apesar da menor quantidade de energia necessária à remoção por kg da água do
grão, a quantidade total de energia requerida para secar o produto até o teor de umidade
adequado ao armazenamento aumenta para grãos com maior teor de umidade inicial.
A Figura 2 mostra que a quantidade de energia gasta para secar uma tonelada de
milho de 18% para 13% é de 140.825 kJ, ao passo que a quantidade de energia para
secá-lo de 28% para 13% é de 413.577 kJ ou três vezes maior. A economia de energia
que se obtém, não considerando o rendimento do secador e os gastos com
movimentação de ar, é de 272.752 kJ por tonelada de milho. Em termos energéticos, não
é vantajoso colher grãos com teor de umidade elevado. Deve-se colhê-los no teor de
umidade que minimiza as perdas na colheita.
A capacidade de colheita e a dos equipamentos de secagem são também
parâmetros importantes para a economia de energia. A demora, ou a rapidez, da colheita
levará a grãos com menores ou maiores teores de umidade e, se a capacidade de
secagem for inferior à de colheita, implicará um custo adicional com energia para
manutenção de grãos úmidos sob aeração em silos pulmões e com possível início de
deterioração do produto.

2.480
kJ/kg de água evaporada

Umidade final
2.460
T ar = 60 C Uf = 13 % bu
2.440
Uf = 15 % bu
2.420
Uf = 18 % bu
2.400 Uf = 20 % bu
2.380
16 18 20 22 24 26 28 30
Teor de umidade inicial, %
Figura 1 – Energia necessária à remoção de um quilo de água durante a
secagem de Milho.

200 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
480
430
T ar = 60 C Umidade final
380
Uf = 13 % bu

Energia, MJ
330
280 Uf = 15 % bu
230 Uf = 18 % bu
180 Uf = 20 % bu
130
80
30
16 18 20 22 24 26 28 30
Teor de umidade inicial, % b.u.
Figura 2 – Quantidade de energia necessária à secagem de uma tonelada de
milho

3. RACIONALIZAÇÃO DE ENERGIA

3.1. Recomendações Práticas


A implantação de um programa interno de conservação de energia constitui o
primeiro passo para o combate ao desperdício e o uso racional da energia dentro de uma
unidade armazenadora. Um programa bem elaborado permite otimizar o uso da energia,
evitando ações isoladas e duplicação de esforços, que tendem a perder seus efeitos ao
longo do tempo; é melhor utilizar os recursos econômicos, materiais e humanos para a
minimização da relação consumo/serviços, contribuindo assim para a redução dos custos
embutidos com energia nas taxas de serviços de armazenagem prestados.
Numa unidade armazenadora, a economia de energia resulta das economias
obtidas em cada etapa do pré-processamento. Equipamentos limpos e em bom estado de
conservação e com manutenção regular constituem medidas básicas para a conservação
de energia. Os pontos a seguir são sugeridos para um melhor desempenho operacional
com uso racional da energia:
1- Faça uma pré-limpeza eficiente. As impurezas aumentam o consumo de
energia na secagem e nas operações de aeração. A instalação de filtros ou
ciclones após a fonte de aquecimento e na entrada do secador contribui para a
retirada de impurezas responsáveis por incêndios e obstruções à passagem do
ar.

Clique para ver: vídeo 1

2- Monitore as condições do ar de exaustão com sensores de temperatura e


umidade. Estes parâmetros são úteis na determinação da energia contida no
ar de exaustão. Se a exaustão estiver com baixa umidade relativa, estude a
possibilidade de recuperação de parte deste ar.
3- Faça inspeções freqüentes em máquinas de pré-limpeza, coluna de secagem,
plenum de secadores, dutos de ar, costura de chapas de silos e secadores, para
certificar-se das perdas de cargas ou fuga de ar.
4- Evite secagem excessiva, verificando freqüentemente o teor de umidade dos
grãos. Um descuido na secagem de 1.000 toneladas de milho de 20 para 11%

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 201


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

b.u., quando normalmente o teor de umidade seria de 13%, resultaria num


consumo adicional de energia em 25%.
5- Utilize eficientemente os combustíveis. A presença de umidade nos
combustíveis sólidos destinados à queima em fornalhas constitui um
obstáculo à produção de calor. A água, ao ser evaporada, subtrai calor do
processo de combustão, resultando em saldo menor de energia para a
secagem. Quanto mais seco for o material combustível, maior
aproveitamento se fará do combustível. Por esta razão, a lenha deve ser
protegida das chuvas. O teor de umidade da lenha deve ser inferior a 30%.
Na impossibilidade de abrigos para lenha, pode-se empilhá-las na forma de
cones. As águas precipitadas sobre o monte escorrerão pela lateral do cone,
encharcando apenas as toras superficiais.
6- Escolha uma fornalha com alimentação constante. Caso contrário, evite que a
fornalha queime toda a lenha para ser alimentada novamente. Uma
alimentação adequada fornecerá temperatura constante ao ar de secagem e
melhor combustão da lenha.
7- Durante a alimentação da fornalha com aquecimento indireto, a tiragem
promove a entrada de grande excesso de ar, que resfria a temperatura da
chama, diminuindo a disponibilidade de energia e provocando aumento da
perda de calor sensível pela chaminé. Evite abrir desnecessariamente a
entrada de ar primário da fornalha.
8- Secadores modernos dispõem de sistemas de medição e de controle capazes
de garantir uma secagem de qualidade e segura; a aquisição de equipamentos
modernos quando da ampliação das unidades armazenadoras deve ser
considerada, pois, embora representando um custo inicial elevado, o
investimento, a longo prazo, é compensado pela qualidade do produto e
economia de energia.

3.2. Manutenção de Equipamentos e Iluminação


Mesmo reduzindo substancialmente a mão-de-obra, a granelização e automação
de unidades armazenadoras fazem destas grandes consumidoras de energia elétrica.
Assim, a determinação e eliminação dos pontos de desperdício, por meio de auditoria
energética, devem ser uma prática rotineira e executada tanto nos equipamentos elétricos
(motores, aquecedores, iluminação, etc.) como em qualquer equipamento que consuma
combustível. Todo esforço para manter os equipamentos funcionando adequadamente
pode não ser efetivo, se o consumo de energia elétrica estiver fora dos padrões
tecnicamente recomendáveis. Na avaliação geral sobre a eficiência de equipamentos
específicos, a energia elétrica representa parcela que pode comprometer o rendimento
global da unidade de pré-processamento. As medidas sugeridas a seguir podem
contribuir significativamente para melhor eficiência dos equipamentos e para o uso
racional da energia.
1- Verifique se os condutores elétricos encontram-se corretamente
dimensionados. Aquecimento nos condutores elétricos pode significar
sobrecarga e colocar em risco a segurança dos equipamentos. As perdas por
efeito Joule (aquecimento) também ocorrem em transformadores, motores e

202 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

lâmpadas. Estas perdas, que variam com o quadrado da corrente elétrica, são
significativas e devem ser erradicadas; uma nova carga só deve ser
adicionada ao circuito se estiver prevista no projeto.
2- A fuga de corrente constitui uma causa comum de perda de energia, sendo
fator de aumento na conta de energia elétrica. Os pontos de fuga são
geralmente causados pelo descaso com a manutenção das instalações, como:
emendas malfeitas e ou mal isoladas, fios desencapados ou com isolação
degradada, conexões inadequadas, tomadas inadequadas, equipamentos
defeituosos, dentre outros. Inspeções nas instalações e teste nos
equipamentos são medidas eficazes para detectar pontos de fuga.
3- Evite sobrecarregar os transformadores - quanto maior a carga, maiores as
perdas pelo efeito Joule e, conseqüentemente, redução da vida útil do
equipamento; os transformadores que trabalham com 80% de sua potência
nominal proporcionam rendimento e vida útil satisfatórios; elimine
progressivamente os transformadores mais antigos, quando avariados,
substituindo-os por equipamentos modernos e eficientes.
4- Dê atenção especial ao fator de potência - valores baixos de fator de potência
acarretam correntes elevadas; quedas de tensão acentuadas provocam
aumento no consumo de energia; motores e transformadores operando em
vazio ou superdimensionados, nível de tensão acima da nominal e grande
quantidade de motores de pequena potência são as principais causas do baixo
fator de potência em uma unidade industrial.
5- Em unidades armazenadoras que apresentam ociosidade nos períodos de
entressafra, deve-se pensar no fato de a instalação ter um transformador
extra, de menor porte, para evitar as perdas em vazio nas horas de baixa
utilização de energia (embora estas perdas possam parecer desprezíveis em
relação à potência total do transformador, elas se tornam significativas
quando comparadas com o consumo total da instalação, uma vez que o
transformador permanece em funcionamento o tempo todo).
6- Verifique o índice de carregamento dos motores elétricos de transportadores,
exaustores e ventiladores, máquinas de beneficiamento, etc; ajuste-os à carga,
utilizando de preferência motores de alto rendimento.
7- As transmissões e os acoplamentos constituem elementos de perdas de
rendimentos (quanto menor a eficiência do acoplamento, menor será a
potência à máquina acionada); portanto, opte por acoplamento direto (relação
de velocidade 1:1) e, na impossibilidade, verifique nos acoplamentos o
paralelismo, o alinhamento e a tensão dos elementos de transmissão; opere os
equipamentos na capacidade de carga para o qual foram dimensionados,
como já mencionado.
8- Elabore um plano de manutenção preventiva dos equipamentos e execute-o
segundo recomendação do fabricante; utilize o período de entressafra para
limpeza e manutenção preventiva dos equipamentos (a vida útil e o consumo
de energia dos equipamentos dependem do seu estado de conservação).
9- Nos armazéns convencionais, ligue somente as lâmpadas necessárias às áreas
de trabalho. Aproveite a iluminação natural, utilizando uma porcentagem da

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 203


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

cobertura do armazém com telhas transparentes incolores (no caso de


armazéns para café, utilize telhas transparentes que permitam boa
iluminação, mas que filtrem os raios na faixa do violeta, prejudiciais à
qualidade do café beneficiado); utilize a iluminação localizada em pontos
como painéis de controle, quadros de comandos, registros, escadas etc. (esta
prática resulta numa melhor eficiência do que a iluminação colocada em teto
do armazém).
10- Mantenha lâmpadas, refletores e lentes de luminárias limpas.
11- Dê preferência ao uso de lâmpadas fluorescentes, com reator eletrônico ou
convencional de alto fator de potência, e com luminárias espelhadas na
iluminação de áreas internas.
12- Na iluminação de grandes áreas externas, dê preferência ao uso de lâmpadas
a vapor de sódio.

4. CONSUMO DE ENERGIA E EFICIÊNCIA DE SECAGEM

Define-se consumo específico de energia como a quantidade de energia por


unidade de massa necessária à remoção da água nos grãos. Em se tratando de secadores,
esta energia provém do combustível para aquecimento do ar de secagem e da energia
elétrica necessária ao acionamento dos ventiladores e transportadores de grãos.
Considerando-se somente a energia gasta com óleo combustível (consumo de
287 kg.h-1, massa específica de 820 kg.m-3 e poder calorífico de 43.240 kJ.kg-1), o
consumo específico de energia (CEE) na secagem de milho de 18 para 13 % b.u., em um
secador que fornece 40 t/h de produto seco, pode ser determinado da seguinte forma:
a) A quantidade de produto úmido correspondente àquela tonelada é determinada
pela expressão:
100 − U f
Pi = Pf eq.1
100 − U i
em que
Pi – peso inicial do produto úmido, kg;
Pf – peso final do produto seco no teor de umidade final, kg;
Ui – teor de umidade inicial, porcentagem base úmida; e
Uf – teor de umidade final, porcentagem base úmida.

b) Quarenta toneladas de produto seco correspondem a uma carga inicial de


100 − 13
Pi = 40.000 = 42.439 kg de produto úmido.
100 − 18

c) A quantidade de água removida durante a secagem será Pi – Pf ou 2.439 kg


de água.
d) O consumo específico de energia (CEE) é dado por

consumo de combustível x poder calorífico


CEE =
água evaporada eq. 2

204 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

287kg.h −1 43.240kJ.kg −1
CEE = −1
= 5.088 kJ.kg-1
2.439kg.h
Como nem toda energia entregue ao ar de secagem é utilizada na remoção da
água dos grãos, parte do calor é então perdida na forma de calor sensível no ar de
exaustão, no aquecimento dos grãos, por condução, irradiação e convecção no corpo do
secador para o ambiente. A quantificação do consumo específico de energia e da
eficiência de um secador é importante para a avaliação do manejo e desempenho deste
equipamento. Se no exemplo anterior o conjunto secador/fornalha fosse 100% eficiente,
o consumo de combustível por hora seria menor e a quantidade de energia gasta para a
evaporação de um quilograma de água seria de um valor inferior a 5.088 kJ/kg.
Considerando a energia necessária à evaporação da água na faixa de 18 para 13% b.u.
como 2.500 kJ/kg, conclui-se que aproximadamente 50% da energia produzida pelo
combustível não é aproveitada para a evaporação da água nos grãos. Para determinar as
perdas e a eficiência de um secador, é necessário conhecer como se distribui o consumo
de energia no sistema (ar, secador e grãos). A Tabela 1 ilustra a distribuição de consumo
de energia em um secador de fluxo cruzado.
Pela tabela tiram-se algumas diretrizes que podem ser utilizadas para reduzir
o consumo específico de energia:
a) Quando possível, utilizar fornalhas com aquecimento direto em lugar das que
possuem trocador de calor ou de aquecimento indireto.
b) Reciclar parte do ar de exaustão quando este estiver abaixo da umidade
relativa de equilíbrio recomendada.
c) Utilizar o calor sensível dos grãos quentes (por exemplo, na seca-aeração ou
na secagem intermitente com períodos de repouso).
d) Isolar, de forma econômica, os pontos de dissipação de calor pela fornalha,
pelos dutos e pelo secador.

TABELA 1 – Distribuição do consumo específico de energia em um secador de fluxo


cruzado

Consumo Uso da energia sob forma de calor % do


kJ/kg de água consumo total
evaporada
754 Perdas pelo trocador e na tiragem 15
dos gases
100 Perdas no secador 2
301 Perda por aquecimento dos grãos 6
603 Perda pelo ar de exaustão não- 12
saturado
754 Perda por calor sensível ar de 15
exaustão saturado
2512 Energia necessária à vaporização da 50
água

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 205


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

5024 Consumo total 100


4.1. Eficiência do Secador
A eficiência de um secador é a razão entre a quantidade de energia necessária à
remoção da água do grão e a energia total utilizada pelo secador. Ao se escolher um
secador, deve-se comparar várias marcas, levando em consideração, além da qualidade
do equipamento e idoneidade do fabricante, a eficiência do equipamento para uma
mesma capacidade de secagem, o tipo de produto e o teor de umidade. O exemplo a
seguir ilustra o cálculo da eficiência de um secador.
Exemplo:
Em um secador de fluxo cruzado, foram secados 9.180 kg de arroz do teor de
umidade inicial de 19,5% para 13,1% b.u. Os resultados obtidos foram:
a) Tempo de secagem: 7,0 horas.
b) Consumo de lenha: 415 kg.
c) Consumo de energia elétrica: 56,6 kWh ou 203.760 kJ.
Considerando o poder calorífico da lenha de 8.958 kJ.kg-1 e o calor latente de
vaporização de 2.500 kJ.kg-1 de água, determine a eficiência do secador.
Solução
a) Perda de peso devido à redução do teor de umidade (PQ):

Ui −U f
PQ = x100 eq. 3
100 − U f

19,5 − 13,1
PQ = x100 = 7,36 % ou 676 kg
100 − 13,1
b) Consumo específico de energia:

203.760 kJ + 415 kg x 8.958 kJ.kg-1


CEE =
676 kg de água

CEE = 5.800 kJ.kg-1


c) Eficiência do secador:

η= 676 kg de água x 2.500 kJ.kg-1 de água_ x 100


203.760kJ+ (415kg x 8.958kJ.kg-1)
η = 43 %

O rendimento e a potência requerida por um secador constituem parâmetros


relevantes na análise do consumo de energia. A razão entre a potência elétrica total
(ventiladores, transportadores, etc.) e a capacidade nominal expressa em t.h-1 representa
a energia consumida por tonelada de produto (cv.h/t.). Estes parâmetros são de grande
importância quando se deseja comparar diferentes tipos de secadores.
Em alguns casos, quando não se conhece o consumo de combustível ou o
consumo específico de energia, pode-se estimar a eficiência do secador por meio das

206 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
temperaturas do ar de secagem, do ar de exaustão e do ar ambiente pela equação:

Tas − Tae
η(%) = x100 eq. 4
Tas − Taa
em que
Tas – temperatura do ar de secagem;
Tae – temperatura do ar de exaustão; e
Taa – temperatura do ar ambiente.

Obs.: como a secagem é um processo dinâmico, o rendimento calculado varia


com o decorrer da secagem.
Exemplo:
Determine o rendimento de um secador em que a temperatura média do ar na
saída da fornalha foi de 120ºC e as temperaturas médias do ar ambiente e da exaustão,
durante a secagem, foram, respectivamente, de 20ºC e 45ºC. Aplicando a equação
anterior, tem-se
120 − 45
η= x100
120 − 20

η=75%

5. COMBUSTÃO, COMBUSTÍVEIS E FORNALHAS

5.1 Combustão
Industrialmente, a conversão da biomassa em energia dá-se em fornalhas e
queimadores. Dependendo da conveniência quanto à utilização, o calor gerado pela
combustão pode ser transferido para um fluido e até mesmo para um material sólido.
O processo de combustão consiste essencialmente na reação química entre o
hidrogênio e o carbono, presente na biomassa ou no combustível fóssil, com o oxigênio
proveniente, em geral, do ar atmosférico. Uma combustão eficiente é aquela em que
todos os elementos combustíveis, resultantes do processo de queima, são transformados
totalmente em dióxido de carbono (CO2), água (H2O) e calor. A combustão, ou queima
direta, pode ser definida como o processo de oxidação de um combustível sob uma
combinação de fatores que ocorrem simultaneamente em uma reação química
exotérmica. Para que ocorra a reação de oxidação, os seguintes fatores devem estar
disponíveis simultaneamente:
- combustível (lenha, gás natural, óleo combustível, etc.);
- comburente (oxigênio); e
- temperatura de ignição.

5.2. Combustíveis
Combustíveis são substâncias ricas em carbono e hidrogênio que, ao reagirem
quimicamente na presença de oxigênio, liberam CO2, água e energia sob a forma de
calor. Alto poder calorífico deve ser a principal característica dos combustíveis e refere-

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 207


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
se à quantidade de energia liberada durante a combustão completa de uma unidade de
massa ou de volume de um combustível. Para os combustíveis sólidos, ele é expresso,
geralmente, em kJ.kg-1, e para os combustíveis gasosos, em kJ.m-3. Quando na
determinação do puder calorífico considera-se o calor latente de condensação da
umidade presente no combustível, tem-se o poder calorífico superior (PCI); quando não
é considerado, tem-se o poder calorífico inferior (PCI) do combustível.
Os combustíveis, de acordo com o seu estado físico, podem ser classificados em
sólidos, líquidos e gasosos e, quanto à origem, em naturais e derivados. Os combustíveis
naturais são utilizados nas formas em que foram obtidos, como o gás natural e a lenha.
Os derivados, ou secundários, são os combustíveis resultantes de um processo de
preparação, como o carvão vegetal e os derivados de petróleo. Na Tabela 2 são
apresentadas as composições químicas básicas dos combustíveis.

TABELA 2 - Composição química básica de alguns combustíveis

Combustíveis
Elementos Diesel Carvão Lenha seca Casca de Sabugo
(%) vegetal Arroz de Milho
Carbono 86,0 74,5 50,2 41,0 46,6
Hidrogênio 13,1 3,0 6,3 4,3 5,9
Oxigênio - 17,0 43,1 35,9 45,5
Enxofre 0,9 0,5 - - -
Nitrogênio - 1,0 0,06 0,4 0,5
Cinza - 4,0 0,38 18,3 1,4

As substâncias comburentes são definidas como todas aquelas capazes de


fornecer o oxigênio necessário à reação de oxidação do combustível, e, de maneira geral o
oxigênio é proveniente do ar atmosférico (veja capítulo 3 – Princípios Básicos de
Psicrometria).
A temperatura de ignição corresponde à temperatura que a mistura combustível e
comburente deve atingir para iniciar o processo de combustão e está relacionada com a
pressão na qual a reação irá ocorrer, bem como com o tipo de combustível. Na Tabela 3
são apresentadas as temperaturas de ignição para alguns combustíveis.
Além da temperatura de ignição, a reação de oxidação é função da turbulência do
comburente e do tempo disponível para a combustão (tecnicamente chamado de três Ts:
temperatura, turbulência e tempo). A disponibilidade desses elementos fundamentais
está relacionada com a ocorrência da combustão da seguinte forma:

a) Disponibilidade de combustível e oxigênio: o combustível deve ser dosado


de forma correta, contemplando um excesso de oxigênio para a ocorrência completa da
combustão, sendo recomendado, para os combustíveis sólidos, líquidos e gasosos,
respectivamente, os seguintes índices de excesso de oxigênio: 30 a 60%; 10 a 30%; e 5 a
20%.
b) Contato do combustível com o oxigênio: o combustível e a fonte do
comburente, durante o processo de combustão, devem ter maior contato, para facilitar as

208 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
reações químicas de oxidação, sendo isso facilitado com a pulverização, desintegração
e/ou aumentando a turbulência do comburente no interior da câmara de combustão.
c) Disponibilidade de tempo e espaço: para uma perfeita e completa
combustão, o processo deve dispor de espaço físico e tempo suficiente para a realização
das reações químicas.
d) Ocorrência da temperatura de ignição: a mistura combustível e a
substância comburente devem ser aquecidas até atingirem a temperatura de ignição do
combustível.

TABELA 3 - Temperatura de ignição de alguns combustíveis

Combustível Temperatura de Ignição( oC )


Carvão Mineral 400 – 500
Carvão Vegetal 340 – 400
Lenha Seca 300
Gás Metano 650
Monóxido de Carbono 650
GLP 500

5.3. Transformações Químicas Relacionadas com a Combustão


Basicamente, o processo de combustão está relacionado à oxidação dos
elementos químicos carbono, hidrogênio e enxofre presentes no combustível, com os
dois primeiros elementos contribuindo em maior proporção na liberação de energia
aproveitável. A combustão é dita completa quando, dentre os gases resultantes das
reações químicas da combustão, não mais existirem compostos oxidáveis. Neste caso, o
processo de combustão resulta em gás carbônico, água e calor. Caso contrário, a
combustão é dita incompleta e resultará em gases ricos em monóxido de carbono.
Na Tabela 4 são apresentadas as principais reações químicas envolvidas no
processo de oxidação do combustível, bem como a energia envolvida nas reações.

TABELA 4 - Reações químicas básicas que ocorrem durante a combustão

Combustível Reação Energia


Química
Combustão completa do C + O2 → CO2 8.100 kcal.kg-1 de C oxidado
carbono
Combustão incompleta C + ½ O2 → CO 2.436 kcal.kg-1 de C oxidado
do carbono
Combustão do H2 + ½ O2 → H2O 33.900 kcal.kg-1 de H oxidado
hidrogênio
Combustão do enxofre S + O2 → SO2 2.210 kcal.kg-1 de S oxidado

5.4. Ar Necessário à Combustão


Para o dimensionamento de equipamentos utilizados na queima ou oxidação do
combustível, para o controle da combustão e para o dimensionamento de equipamentos

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 209


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
que utilizarão o calor gerado, torna-se necessário o conhecimento da taxa de
alimentação do ar de combustão e das características dos gases gerados (composição,
volume, temperatura, etc.).
Como já mencionado, a combustão é sempre resultante de reações com o
oxigênio, e para queimar 1,0 kg de combustível é necessária uma determinada
quantidade oxigênio. De acordo com as equações de reação da combustão, a quantidade
mínima de oxigênio, teoricamente, necessária para a combustão completa de
determinado combustível é dada por
32
GO min = 12 gC + 8 gH 2 + gS − gO2 eq. 5
(kg de oxigênio/kg de combustível)
em que
g - massa do elemento no combustível, kg.

O oxigênio entra na composição do ar atmosférico na combustão numa


proporção de 23%. Portanto, o peso mínimo de ar atmosférico teoricamente necessário à
combustão será
G 100  8 
G AR min = 0,O23min = 23  3 gC + 8 gH2 + gS − gO2  eq. 6

(kg de ar/kg de combustível)

A quantidade de ar atmosférico mínima necessária à combustão completa de um


combustível recebe o nome de “poder comburívoro” de um combustível.
Como o nitrogênio não intervém nas reações, e sendo o ar atmosférico rico em
oxigênio, o ar é o comburente mais usado, dada a sua disponibilidade a baixo custo. Para
calcular o volume de ar atmosférico teoricamente necessário para que as reações de
oxidações (Tabela 4) se processem produzindo queima completa do combustível, deve-
se conhecer os pesos moleculares dos elementos e dos gases (Tabela 5).

TABELA 5 - Composição química do ar atmosférico seco

Substância Fórmula Molecular Massa Molecular Volume ( % )


(kg/ kmol)
Nitrogênio N2 28,02 78,08
Oxigênio O2 32,00 20,94
Argônio Ar 39,94 0,93
Dióxido de carbono CO2 44,01 0,03
Neônio Ne 20,18 0,001
Outros (He,CH4, SO2, H2) - 0,001

A quantidade de oxigênio mínima em volume para a combustão completa de um


combustível é dada por

210 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

 C g H 2 gS − g O 2 
g 
VO min =  12 + 4 + 32 x 22,4 eq. 7
 
(m3 de oxigênio/kg de combustível)

Como a proporção em volume do oxigênio no ar atmosférico é de 21%, resulta


em
100  gC g H 2 gs − gO 2 
 
=V
VAR min 0,21 = 21  12 + 4 + 32 22,4
O min
eq. 8
 
(m3 de ar/kg de combustível)
ou seja,

G 100  8
 g C + 8 g H + gS − g O 

V AR min
= AR min

1,293
=
29,7  3 2 2

eq. 9
3
(m de ar/kg de combustível)

O exemplo a seguir ilustra a utilização da fórmula anterior no cálculo da


quantidade teórica de ar necessária ao processo de combustão.
Exemplo:
Determine a quantidade de ar teórica necessária à combustão completa de 1 kg
de lenha de seca, com base na composição química apresentada na Tabela 2.
Solução:
100  8 
VAR min = 29,7  3 0,502 + 8x 0,063 + 0 − 0,431
3
VAR min = 4,75 m de ar/kg de combustível
Estas equações se referem a um consumo de ar atmosférico teórico
correspondendo a uma combustão ideal, na qual todas as partículas de combustível e
oxigênio são aproveitadas. Tecnicamente, é impossível assegurar uma combustão
completa apenas com o suprimento de ar estequiométrico. A granulometria do
combustível ou seu estado de divisão, o sistema de injeção de ar atmosférico, o tempo
de contato ar/combustível e o próprio equipamento de combustão intervêm no processo
de queima, obrigando a introdução de um excesso de ar atmosférico.
Uma vazão insuficiente de ar provocará combustão incompleta, com o
aparecimento de monóxido de carbono (CO) e até mesmo fuligem nos produtos da
combustão, reduzindo a eficiência da queima do combustível. Por outro lado, um
excesso de ar muito elevado é igualmente indesejável, porque resfria a fornalha e arrasta
para fora a energia térmica útil.
Devido ao curto espaço de tempo em que o combustível e o ar comburente
permanecem juntos, é necessário um excesso e íntimo contato de ar para que a
combustão seja completa. Em outras palavras, o excesso de ar atmosférico (λ) na

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 211


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
combustão significa fornecer mais comburente do que o necessário, teoricamente, para
que as reações de oxidação sejam completas. O excesso de ar é calculado a partir da
composição química do combustível e se dá em função de uma série de fatores, como:
tipo de combustível, método de queima, temperatura a ser atingida na fornalha, etc.
Combustíveis sólidos como a lenha são os que mais exigem excesso de ar, ou
seja, entre 30 a 60% do valor do ar teórico. A quantidade de ar atmosférico necessária
para a combustão completa do combustível, considerando o excesso de ar, pode ser
calculada por
a) em kg de ar / kg de combustível:

G AR = λ G AR min eq. 10

b) em m3 de ar / kg de combustível

V AR
= λ V AR min eq. 11

A Tabela 6 apresenta os valores de referência recomendados para o excesso


de ar (λ).

TABELA 6 - Valores de referência recomendados para excesso de ar para diferentes


combustíveis

Combustível Dispositivo de Queima Excesso de Ar


(λ )
Carvão britado Grelhas rotativas com ar forçado 1,15 a 1,50
Grelhas planas com ar natural 1,50 a 1,65
Carvão moído Ciclone 1,10 a 1,20
Carvão pulverizado Fornalha inteiramente irradiada 1,15 a 1,20
Óleo combustível Queimador óleo de baixa pressão de ar 1,30 a 1,40
Queimador de pulverização mecânica 1,20 a 1,25
Queimador de pulverização mecânica 1,05 a 1,15
com vapor auxiliar
Lenha Grelha plana com ar natural 1,40 a 1,50
Grelha plana com ar forçado 1,30 a 1,35
Bagaço de cana Grelha inclinada 1,40 a 1,50
Fornalha celular 1,25 a 1,30
Gás de refinaria Queimador com registro 1,05 a 1,10

5.5. Fornalhas
Fornalhas são dispositivos projetados para assegurar a queima completa do
combustível, de modo eficiente e contínuo, em condições que permitam o
aproveitamento da energia térmica liberada da combustão, obtendo-se maior rendimento
térmico possível. O projeto de uma fornalha é baseado nos 3 Ts da combustão:

212 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
temperatura, turbulência e tempo. O tamanho e a forma da fornalha dependem do tipo
de combustível, do dispositivo usado para queimá-lo e da quantidade de energia a ser
liberada num intervalo de tempo. Para que ocorra a combustão completa do
combustível, deve-se buscar uma mistura ar-combustível homogênea, na dosagem ideal
e no tempo correto. Com isso, obtém-se um aquecimento do combustível até a sua
ignição auto-sustentável.
As fornalhas podem ser classificadas, quanto à natureza dos combustíveis, em:
- fornalhas para combustíveis sólidos (lenha, carvão vegetal, sabugo de
milho, etc.);
- fornalhas para combustíveis sólidos pulverizados (carvão em pó, casca de
arroz, de café, etc.);
- fornalhas para combustíveis líquidos (óleo diesel, óleo BPF, etc.); e
- fornalhas para combustíveis gasosos (gás natural, gás GLP, etc.).

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5.5.1. Fornalhas para combustíveis sólidos


Há dois grupos principais de fornalhas para queima de combustíveis sólidos: o de
fornalha de grelha e o de fornalha para combustível pulverizado ou fragmentado. Na
maioria destas fornalhas existe um ventilador que insufla ou succiona o ar atmosférico, o
qual fornece o oxigênio necessário à combustão do combustível. As fornalhas com grelha,
além de necessitarem de maior espaço, são normalmente pesadas, caras e com potências
crescentes de ventilador.
Em razão dos diferentes parâmetros envolvidos no processo de combustão, há
várias maneiras de construir fornalhas, variando segundo o tipo de combustível utilizado,
as propriedades do combustível, a forma de aproveitamento do calor gerado na combustão,
etc. As propriedades dos combustíveis que influenciam o processo de combustão são:
a) Granulometria do combustível: a superfície específica do combustível (m2/kg)
é variável conforme o tamanho das partículas e determinará a potência da
combustão.
b) Conteúdo de água: retarda o processo de combustão, pois parte da energia
fornecida para que o processo seja auto-sustentável é utilizada para evaporar a
água presente no combustível.
c) Conteúdo de componentes voláteis: quanto mais elevado o teor de gases
voláteis oxidáveis, mais rápido será o processo de combustão e mais uniforme a
chama se apresentará.
d) Conteúdo de cinzas: um teor elevado de cinzas presente no combustível
contribuirá para atraso no processo de combustão e necessidade freqüente de
limpeza do cinzeiro.
As fornalhas destinadas à queima de combustíveis sólidos não-pulverizados,
como a lenha (Figura 3), possuem os seguintes componentes:
a) Câmara de combustão: espaço destinado ao processo de combustão
propriamente dito, onde todos os compostos combustíveis devem ser oxidados,
liberando energia térmica. O importante, em qualquer fornalha, é o
dimensionamento correto da câmara de combustão, da área das grelhas e da

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 213


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
abertura do ar primário, para se obter suficiente quantidade de oxigênio, bem
como possibilitar uma mistura comburente-combustível eficiente com o máximo
de aproveitamento do combustível e o mínimo de fumaça.
b) Grelha: estrutura que mantém o combustível sólido suspenso durante o
processo de combustão, enquanto o ar comburente circula por sua superfície.
c) Cinzeiro: reservatório localizado abaixo da grelha, destinado a armazenar os
restos da combustão ou cinzas.
d) Entradas de ar: entradas reguláveis localizadas em pontos estratégicos no
corpo da fornalha; são responsáveis pela passagem do ar comburente para o
interior da fornalha e devem ser localizadas de tal forma que facilite a mistura
comburente-combustível.
e) Saídas dos gases: aberturas destinadas à saída dos gases resultantes da
combustão do combustível e de parte do excesso de ar comburente que devem
ser utilizados em diversas finalidades como fonte de energia térmica.

Quando se utiliza a lenha na forma de tora com grande diâmetro em uma


fornalha, há necessidade de maior quantidade de ar. Assim, para facilitar a combustão, a
lenha deve ter o seu tamanho reduzido. Como foi dito, a eficiência de combustão
aumenta com o aumento da área superficial do combustível e com o contato oxigênio-
combustível. As fornalhas de grelha destinadas à queima de lenha podem ser ainda
classificadas, de acordo com o aproveitamento dos gases da combustão, em: fornalhas
com aquecimento direto e fornalhas com trocador de calor ou de aquecimento indireto.

Figura 3 – Esquema básico de uma fornalha e seus componentes.

5.5.1.1. Fornalha com aquecimento direto


Nas fornalhas com sistema de aquecimento direto, a energia térmica proveniente
dos gases resultantes da combustão é utilizada diretamente, como por exemplo, para
secagem de produtos agrícolas. A mistura de parte do gás comburente com os gases
resultantes da combustão pode se tornar indesejável nos casos em que o processo de
combustão é incompleto, gerando compostos contaminantes, como o monóxido de
carbono e a fumaça. Com o aproveitamento direto da energia térmica dos gases da
combustão, as fornalhas de fogo direto, quando sob combustão completa, apresentam
maior rendimento. Entretanto, nestas fornalhas precisa ser acoplado um decantador
tangencial ou ciclone, onde as partículas incandescentes, formadas principalmente de

214 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
carbono, entram em movimento espiral e são separadas do fluxo gasoso pela ação da
força centrífuga.
As fornalhas de fogo direto podem ser classificadas, de acordo com o fluxo de
gases provenientes da combustão, em fornalhas de fluxo ascendente e fornalha de fluxo
descendente. No primeiro caso, a substância comburente entra na parte inferior da
câmara de combustão, atravessa a grelha, entrando em contato com o combustível, e se
mistura aos gases voláteis. Este movimento dos gases no interior da fornalha é na forma
ascendente. No segundo caso, a substância comburente entra na parte superior da
fornalha, entra em contato com o combustível, atravessa a grelha e, misturando-se com
os gases voláteis, forma um fluxo descendente no interior da fornalha. Neste caso, a
chama resultante da oxidação dos gases voláteis é formada sob a grelha.
A câmara de combustão nas fornalhas de aquecimento direto confunde-se com a
própria fornalha e pode ser dividida em três partes distintas. A primeira destina-se à
carga, à ignição do combustível e à entrada do ar comburente. A segunda parte
compreende o espaço onde se desenvolve a chama e onde se completa a combustão dos
compostos voláteis. Finalmente, a terceira parte da fornalha tem a função de interligar a
fornalha ao ciclone e de aumentar o tempo de permanência dos gases na fornalha.

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5.5.1.2. Fornalha com aquecimento indireto


Nas fornalhas com sistema de aquecimento indireto, a energia térmica dos gases
provenientes da combustão é encaminhada a um trocador de calor, que tem a finalidade
de aquecer uma segunda substância, como por exemplo, uma caldeira geradora de
vapor. Neste tipo de sistema, há perda de energia térmica pela chaminé e para o sistema,
resultando em uma menor eficiência quando comparado à fornalha de fogo direto.
As fornalhas com aquecimento indireto destinam-se a produtos agrícolas que
requerem temperatura controlada e não muito alta durante a secagem, como na secagem
de sementes. Um tipo bastante interessante possui um trocador de calor do tipo tubo–
carcaça, câmara de combustão e caldeira. O ar frio, ao entrar pelos tubos do trocador de
calor, é aquecido pelo fluido circulante na carcaça do trocador de calor, até uma
temperatura máxima determinada pelo equilíbrio com a temperatura de ebulição do
fluido circulante. Além da grande durabilidade, a fornalha em questão apresenta como
vantagem a não-contaminação do ar de secagem, mesmo quando a combustão é
incompleta. Produtos que absorvem gosto de fumaça durante a secagem, como cacau e
café, não são afetados. A Figura 4 mostra o esquema básico da fornalha com
aquecimento indireto projetada e construída na UFV.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 215


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

Figura 4 – Detalhes de uma fornalha de aquecimento indireto com autocontrole de


temperatura máxima.
5.5.2 Lenha como combustível
A lenha foi o primeiro combustível utilizado pelo homem, sendo ainda de
subsistência para grande parte da humanidade. Trata-se de um combustível barato, de
fácil combustão, baixo teor de cinzas e que não exige mão-de-obra qualificada para sua
exploração. Seu baixo teor de enxofre a torna propícia à utilização na secagem de
alimentos. O desmatamento indiscriminado tem comprometido o uso deste recurso
natural como fonte de energia mas, o reflorestamento, com fins energéticos, pode
garantir o fornecimento deste combustível sem comprometer o meio ambiente.
A lenha ocupa grande espaço ao ser armazenada e requer mão-de-obra para sua
utilização e controle da queima em fornalhas. Sua massa específica varia de 250 a 450
kg.m-3, dependendo da espécie. Quanto menor seu teor de umidade, melhor a combustão
e maior o seu poder calorífico (Tabela 7). A Tabela 8 mostra o poder calorífico inferior
de algumas espécies de madeira.

TABELA 7 – Poder calorífico inferior* da lenha em função do teor de umidade

Teor de umidade%b.u. Poder calorífico inferior (kJ/kg)


0 19.880
10 17.644
20 15.412
30 13.180
40 10.947
50 8.715
60 6.483
*
Não se distinguiu a espécie

TABELA 8 – Poder calorífico inferior de algumas espécies de madeira

Espécie PCI (kJ/kg)


Eucalipto 19.228
Pinho 20.482
Cedro 18.066
Cipestre 21.443
Carvalho 19.500

216 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

5.5.3. Carvão vegetal


O carvão vegetal é obtido artificialmente em fornos através da carbonização da
lenha, com uma eficiência de conversão de 50 a 55%. O carvão vegetal e a lenha são os
melhores combustíveis para uso na secagem de produtos agrícolas no Brasil. Com o
desenvolvimento e difusão de novas tecnologias para uso do carvão vegetal em
fornalhas (Figura 5), seu uso vem aumentado paulatinamente para na secagem de
produtos agrícolas, a exemplo da lenha. O poder calorífico do carvão vegetal está
associado à temperatura de carbonização. A 400°C o poder calorífico inferior é de
7.416,9 kcal/kg. A densidade a granel varia em função da madeira que lhe deu origem,
sendo um valor médio de 220 kg.m-3. A compactação de finos de carvão, por meio da
utilização de ligantes, permite a obtenção de briquetes de elevado poder calorífico, que,
quando usados em fornalhas do tipo apresentado na Figura 5, conferem a estas, elevada
autonomia e combustão com um mínimo de cinzas.

Figura 5 - Fornalha a carvão vegetal com aquecimento direto.

Clique para ver: vídeo 1 vídeo 2

5.5.4. Resíduos agrícolas fragmentados


O Brasil, devido a sua grande área territorial, apresenta grande potencial
de recursos naturais que podem gerar energia para minimizar o suprimento de energia
convencional. Apesar dos estudos sobre energias como eólica, solar e hidráulica, o
melhoramento e desenvolvimento de processos eficientes para uso de resíduos
industriais são altamente necessários, principalmente devido ao grande crescimento das
atividades agrícolas nas últimas décadas.
A disponibilidade de resíduos provenientes da industria madeireira, carvoaria, e
do beneficiamento de produtos agrícolas como o café (palha pergaminho) e arroz são
muito grandes. Do total de resíduos gerados pelas atividades agrícolas e industriais,
aproximadamente 65% vem da industria madeireira (excluindo o uso direto da lenha
para finalidades de aquecimento). Somente na industria madeireira, a produção de
serragem pode alcançar 16% do total do volume da madeira original (Dutra e

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 217


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
Nascimento 2006). No ano 2000, o Brasil produziu, segundo (IBPQ, 2002), 26 milhões
de metros cúbicos de madeira serrada.
Da produção do café, aproximadamente 21% são transformados em resíduos
sólidos, ou seja, casca de café (casca integral e pergaminho puro), que possuem poder
calorífico próximo dos 17.500 kJ kg-1.
Na indústria de café solúvel, para cada tonelada do produto final produzido, são
geradas 4,5 ton de borra, com teor de água de 80% b.u. que, após a secagem a 25% b.u.,
apresenta poder calorífico de 17.000 kJ kg-1. Este montante poderia suprir entre 60 e
80% a demanda de combustível da empresa de café solúvel que lhe deu origem
(CEPEL, 2000).
Apesar da grande quantidade de resíduos gerados no meio agrícola e
agroindustrial, apenas uma pequena porcentagem é aproveitada em razão do
desconhecimento do potencial energético e pela falta de equipamentos apropriados para
sua utilização. Werther et al. (2000) destacam inúmeros outros problemas que afetam a
utilização destes resíduos como fonte energética. Dentre os maiores problemas estão a
dificuldade de transporte, os altos custos de investimentos em unidades geradoras, a
disponibilidade de outros combustíveis a preço competitivo e a alta demanda de mão-
de-obra.
Todos os problemas citados podem inviabilizar o aproveitamento dos resíduos
tanto em pequenas como em grandes unidades geradoras. No caso particular da palha do
café, o seu uso para a recomposição da fertilidade do solo é, econômica e
ambientalmente mais importante do que o uso como fonte energética.
Outros pontos importantes que influenciam no projeto de equipamentos para
alimentação e combustão dos resíduos são: a baixa densidade, a alta umidade, o teor de
voláteis e o baixo ponto de fusão das cinzas, que dificultam o desenvolvimento de
equipamentos eficientes.
Diante das dificuldades mencionadas, o aproveitamento de resíduos para o
suprimento de energia térmica em atividades agrícolas e, ou, agroindústrias que deram
origem ao resíduo ou que, pelo menos, estejam próximas a pontos fornecedores, pode
ser considerado uma boa opção, desde que o investimento em equipamentos, eficientes,
atenda às condições econômicas e ambientais.
A combustão direta da biomassa é a forma mais antiga de produzir aquecimento e
vem sendo usada desde os primórdios da civilização como principal fonte energética.
Ainda hoje, 97% da produção da bioenergia produzida no mundo, tem origem na
combustão direta da biomassa. Apesar de que a pirólise e a gaseificação têm sido,
intensamente, pesquisadas, elas não são, certamente, as opções mais importantes no
presente (Demirbas, 2003).
Comumente, as fornalhas destinadas à queima de combustíveis sólidos
particulados, devem possuir, além dos componentes essenciais a todas as fornalhas,
depósito de combustível e sistema de alimentação e distribuição.
A queima em suspensão é a forma mais comum quando se trata de biomassa
particulada. Porém, para este sistema é necessário que a biomassa tenha dimensões
reduzidas (< 2 mm) e baixo teor de água inferior a 15% b.u. e, para cascas, em geral, o
diâmetro de até seis milímetros é suficiente para uma boa queima.

218 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
Segundo Lora e Happ (1997) a queima em suspensão total visa grandes unidades
de produção. Apresentam custos elevados e são inviáveis em pequenas unidades em
razão da tecnologia empregada pelos sistemas de alimentação de ar e de combustível.
Além disso, há a necessidade de transformação da biomassa em fragmentos de pequenas
dimensões. Assim, a queima em suspensão em pequenas unidades, para o
aproveitamento de resíduos agrícolas e agroindustriais, deve ser realizada por meio de
equipamentos de alimentação e distribuição mais simples e que permitam trabalhar com
biomassa na forma como ela é disponibilizada, ou seja, dimensões de partículas e teores
de água acima dos recomendados. Para isso, as fornalhas devem possibilitar a queima
em semi-suspensão, contendo, em sua estrutura, a grelha, pois apenas parte do material
será queimado em suspensão e as partículas mais pesadas irão completar sua queima
sobre a grelha.
A função da grelha, além da sustentação do combustível com dimensões acima do
ideal para queima em suspensão, tem, também, a função de manter uma chama piloto
sobre ela, para iniciar e dar continuidade ao processo de queima, mantendo a
temperatura necessária para a queima dos combustíveis sólidos fragmentados. Para tal
função, a lenha é o material mais indicado no meio rural devido a sua disponibilidade e
facilidade de aquisição ao longo do ano.
No caso do uso de resíduos agrícolas como fonte energética, deve-se levar em
consideração que sua produção pode não ser constante e suficiente para atender a
determinada demanda. Desta forma, é preferível o emprego de resíduos para
complementação ou substituição parcial dos combustíveis convencionais. Desta forma,
os projetos de fornalhas devem ser pensados com a possibilidade para queimar biomassa
com diferentes configurações.
Levando em considerações as vantagens e dificuldades, o uso de resíduos
agrícolas ou industriais como fonte de energia térmica pode ser considerada uma boa
opção, se uma fornalha confiável e a baixo custo estiver disponível. Assim, o leitor
encontrará nas páginas seguinte, dois tipos de fornalhas especialmente desenhadas para
atender situações onde a disponibilidade de combustíveis sólidos e fragmentados for
suficiente para atender a finalidade de aquecimento de ar em determinada atividade no
meio rural ou em pequenas indústrias.

5.5.5. Fornalhas para resíduos


Para disponibilizar alternativa tecnológica ao uso de resíduos agrícolas para
aquecimento do ar, foram projetadas, construídas e avaliadas, nos laboratórios do
Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa, dois
modelos de fornalhas que deram origem aos trabalhos de Pós-graduação de Magalhães
(2007) e de Melo (2003). Apesar de as fornalhas apresentarem características
semelhantes e apropriadas para o aquecimento de ar, elas queimam resíduos como
serragem de madeira, pergaminho do café, moinha de carvão ou qualquer outra
biomassa fragmentada. As fornalhas, aqui apresentadas podem ser operadas com a
queima de lenha em associada à biomassa fragmentada ou apenas com a lenha.
Os protótipos testados foram dimensionados para elevar a temperatura de 80 m³
-1
min de ar ambiente em, aproximadamente, 30 ºC. Essa capacidade foi escolhida por
ser suficiente para o fornecimento de ar quente para os secadores mais comuns

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 219


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
encontrado na cafeicultura (7.000 a 15.000 litros de café), principalmente, para os
terreiros secadores (SILVA et al.2003).
As principais diferenças entre as fornalhas estão na forma da grelha, tipo de
alimentação e na troca de calor. A fornalha (F1) estudada por MAGALHÃES (2007)
apresenta a alimentação da biomassa fragmentada por meio de transportador
pneumático e troca de calor por fluxos contracorrentes (Figura 6). Já para a fornalha
(F2), estudada por MELO (2003), o sistema de alimentação da biomassa é realizada por
um transportador helicoidal e troca de calor em fluxos cruzados (Figura 7). As
características principais das fornalhas são apresentadas a seguir:

• Base: é a mesma para ambas fornalhas. Construída com tijolos cerâmicos,


apresenta formato cilíndrico. Possui uma abertura (0,30 m x 0,15 m) para
entrada do ar primário que serve, também, com acesso ao cinzeiro;
• Grelhas: podem ser construídas em tubos de aço carbono 25,4 mm de diâmetro e
2,5 mm de espessura, espaçados em 10 mm. Podem também, ser em ferro
fundido, como encontrada comercialmente em firmas especializadas;
• Câmara de combustão: cuja superfície externa é usada como trocador de calor
em ambas as fornalhas, é construída em chapa de aço carbono (3 mm). O
volume da câmara, com 0,70 m de diâmetro, foi dimensionado para uma carga
térmica volumétrica de 200 kJ s-1 m-³. A área externa do trocador de calor foi
dimensionada de acordo com a metodologia sugerida por Incropera e DeWitt
(1996). No interior da câmara de combustão (Figura 6) é possível visualizar o
sistema de separação e distribuição das partículas de biomassa quando usado
sistema de alimentação pneumático; e
• O sistema de alimentação para trabalhar com biomassa como a serragem ou
munha de carvão, pode ser do tipo pneumático ou helicoidal. As Figuras 8a e 8b
ilustram os sistemas de alimentação com pneumático e com helicóide, usados
para a fornalha F1 e F2, respectivamente. Afigura 8a mostra, também, o ciclone
terminal, cuja função é a de distribuir, uniformemente, o combustível. A
vantagem de usar sistema pneumático é a possibilidade de se construir a fornalha
a qualquer distância do depósito de combustível. Esse fato é importante para os
locais onde a higiene é indispensável e, principalmente, para reduzir a
possibilidade de acidentes. Para o alimentador helicoidal (figura 8b), é
recomendável o uso de um sistema de degraus inclinados (grelha inclinada)
sobre a grelha plana, conforme apresentado na Figura 7. O uso do alimentador
helicoidal ou por rosca transportadora, não restringe a distância entre o depósito
e a fornalha, porém o custo eleva-se consideravelmente com o aumento da
distância.
Maiores detalhes sobre a construção e funcionamentos das fornalhas, acima descritas
podem ser encontrados em (MAGALHÃES et al. 2008).

220 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

Figura 6. Vista interna da fornalha com sistema de alimentação pneumático.


Componentes:
(1) moega para o combustível; (2) alimentador pneumático; (3) duto de alimentação; (4)
base da fornalha; (5) cinzeiro e entrada do ar primário; (6) porta de alimentação da
lenha; (7)/(8) câmara de combustão/trocador de calor; (9) ciclone; (10) entrada do ar
ambiente; (11) saída do ar de exaustão (aquecimento direto); (12) chaminé

Figura 7. Vista interna da fornalha com sistema de alimentação por helicóide.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 221


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas

(a) (b)
Figura 8. (a) Sistema de alimentação pneumático e (b) por rosca transportadora.
Componentes:
(1) abertura do cinzeiro; (2) grelha plana; (3) degraus inclinados; (4) saída do helicóide; (5) câmara de
combustão; (6) saída do ar aquecido; (7) saída dos gases de combustão (aquecimento direto do ar); (8)
saída dos gases de combustão (aquecimento indireto do ar) e (9) parede de alvenaria.

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6. ADAPTAÇÃO DE FORNALHAS

Desde 1974, por ocasião da primeira crise de petróleo, tem havido crescente
interesse na possibilidade do uso de fontes alternativas de energia para suprir fontes
convencionais (principalmente os derivados de petróleo) na secagem de produtos
agrícolas. É sabido que a secagem é a operação que mais consome energia no processo
de produção. O consumo pode atingir 50% do total, como é o caso do milho colhido
com teor de umidade entre 24 e 28% b.u. Apesar de ainda não ter sido feito um
levantamento do consumo energético mais detalhado para a produção de café, que é
colhido com teor de umidade de aproximadamente 60% b.u., estima-se que o consumo
energético na secagem, em comparação com o milho, seja superior a 60%.
Além da dificuldade de distribuição e dos preços elevados, não existem, no
Brasil, condições que estimulem o consumo de derivados de petróleo para secagem de
grãos. Apesar de estar havendo incentivo por parte de algumas distribuidoras para a
utilização de gás GLP na secagem de grãos, o agricultor tem dúvidas quanto à
continuidade de fornecimento e estabilização dos preços.
Com a dificuldade de usar combustíveis convencionais, a lenha tem sido a mais
importante fonte de calor a ser utilizada, e, atualmente, grande parte dos secadores está
operando com esse tipo de combustível. Entretanto, a maioria das fornalhas a lenha, em
uso, apresenta consumo relativamente alto de energia e, em conseqüência, um
desmatamento elevado está ocorrendo para essa finalidade.

Com base nessas questões, sumariamente comentadas, foram projetados e


testados 4 tipos de fornalhas (Figuras 5, 6, 7 e 9) para serem usados, levando-se em

222 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
consideração o custo inicial, a possibilidade de serem construídas na própria fazenda, o
baixo consumo de resíduos, carvão e lenha e a preservação do meio ambiente.

Figura 9 - Fornalha a lenha com fogo direto e fluxo de ar descendente.

6.1. Construção das Fornalhas


As fornalhas propostas podem ser construídas com diferentes materiais.
Recomenda-se, no entanto, o material mais comum ou facilmente encontrado nas
proximidades da propriedade agrícola, pois, com este procedimento, o custo da
construção ou adaptação ficará bastante reduzido. As fornalhas para o aquecimento do
ar são do tipo aquecimento direto ou indireto. Em geral os gases de combustão são
misturados com o ar ambiente e succionados pelo ventilador e injetados diretamente na
massa de grãos (aquecimento direto). Para o aquecimento indireto, o ar é aquecido pela
passagem por um trocador de calor.
Caso o secador não possua um sistema que possa succionar o ar através da
fornalha, os projetos propostos não poderão ser executados. Neste caso, deve-se optar
por outro tipo de fornalha.
A opção por aquecimento direto deve-se ao fato de não haver, neste caso, a
necessidade de construção de chaminés nem de trocadores de calor, elementos que
tornam as fornalhas com aquecimento indireto termicamente ineficientes e mais caras.
O material usado nas fornalhas apresentadas consiste basicamente de tijolos
comuns, areia de barranco, terra e melaço de cana, cantoneiras, ferros de construção e
um sistema de grelha refrigerada a água e, dependendo da fornalha chapas metálicas e
tijolos refratários. Como a finalidade do atual capítulo é de informação geral, sugere-se
ao leitor consultar (SILVA et al. 2001) ou outros materiais bibliográficos disponíveis no
SITE (www.pos-colheita.com.br).
Para a construção da fornalha a carvão, o material usado consiste basicamente de
tijolos comuns, cimento, areia de barranco, terra e melaço de cana, cantoneiras, ferros de
construção e chapas metálicas no14. Apesar de esta fornalha poder ser construída quase
toda em alvenaria, recomenda-se que o depósito para carvão e o revestimento externo

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 223


Capítulo 8 Energia no Pré-processamento de Produtos Agrícolas
sejam construídos em chapa metálica, como indicado pela Figura 5.

7. CUIDADOS PRELIMINARES

Mesmo seguindo criteriosamente todas as recomendações contidas neste


capítulo, na bibliografia especializada ou sugeridas pelo fabricante do secador, o bom
resultado no processo de secagem só será alcançado se o sistema for operado
corretamente. A manutenção diária e a limpeza geral de todos os resíduos da área de
abrangência do secador devem ser a primeira etapa na operação, vindo em seguida a
limpeza do secador, dos cinzeiros da fornalha e do ciclone. Tais cuidados são muito
importantes, porque previnem acidentes, corrosão das partes metálicas e contaminação
do produto a ser secado, entre outros, além de aumentar a eficiência de secagem, devido
ao maior fluxo de ar.

7.1. Início de Operação


O primeiro passo, após o carregamento adequado do secador, é acender a
fornalha. Nessa operação, apesar de simples, deve-se ter o cuidado de usar combustível
(lenha, carvão ou resíduos) bastante secos e de tamanho ou granulometria compatíveis
com a fornalha escolhida. A queima de lenha úmida, embora possível para a fornalha de
fluxos descendentes (Figura 9), produz lacrimejamento acentuado, possui baixo
rendimento e pode contaminar o produto. Para as outras fornalhas, os combustíveis
devem estar suficientemente secos. Para cada tipo de fornalha o operador deve ser
convenientemente informado do sistema de funcionamento do conjunto fornalha/secador
para que se obtenha o melhor em termos de energia e qualidade final do produto.
O término da operação dependerá do teor de umidade inicial do produto, da
temperatura do ar de secagem e do tipo de secador. No caso de secadores comerciais, é
recomendável que o operador siga todas as instruções do fabricante (temperatura do ar
de secagem, fluxo de grãos, etc.), pois o tempo de secagem, praticamente, independe do
tipo de fornalha.

8. LITERATURA CONSULTADA

1. AFONSO JUNIOR, P.C., VIEIRA, G. Gaseificação da madeira e do carvão


vegetal. Viçosa: UFV, 1996. 16p.
2. ANDRADE, E.B.; SASSERON, J.L. & OLIVEIRA FILHO, D. Princípios sobre
combustíveis, combustão e fornalhas. Viçosa, MG. CENTREINAR, 1984.40p.
3. ALMEIDA, M.R., REZENDE, M.E.A. O processo de carbonização contínua da
madeira. In: Produção e utilização do carvão vegetal. Belo Horizonte: CETEC,
1982. 393p.
4. BRIGE WATER, A.V. Advances in thermo chemical biomass conversion.
London: Ed. Blackei Academie and professional, 1995. 1725p.
5. CARIOCA, J.B. Biomassa: Fundamentos e aplicações tecnológicas. Fortaleza:
Ministério do Interior. Universidade Federal do Ceará, 1984. 644p.

224 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


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Rural – Energia Biomassa. Eletrobrás, Rio de Janeiro – RJ, 2000. 41 p
7. COELHO, J.C. Biomassa, biocombustíveis e bioenergia. Brasília: Ministério das
Minas e Energia, 1982. 100p.
8. CORTEZ, L. A. B., LORA, E. S. (Coord.). Tecnologia de Conversão Energética da
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el Caribe, 1991. 75 p.
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meio ambiente. Niterói – RJ. Disponível em:
http://www.jornaldomeioambiente.com.br/JMA-txt_importante/importante80.asp.
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14. ELEPANÕ A.R.; SATAIRAPAN, K.T.; DAMIAN C.E. Development of a
Rice Hull Cyclonic Furnace for Drying Applications. World Renewable
Energy Conference, Brighton, UK, July 2000. 4 p.
15. ELETROBRÁS. Manual de conservação de energia elétrica na indústria.
Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica – PROCEL. s/d. 80p.
16. FUNDAÇÃO CENTRO TECNOLÓGICO DE MINAS GERAIS. Teoria
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17. FUNDAÇÃO CENTRO TECNOLÓGICO DE MINAS GERAIS. Uso da madeira
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18. GOMES, R. A. R. Avaliação do desempenho de uma fornalha a lenha de fluxo
descendente e com sistema de aquecimento direto. Viçosa: UFV, 1988. 56p.
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19. IBQP- Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Paraná. Análise da
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345 f. Relatório Final. IBQP.
20. INCROPERA F.P.; DeWITT, D.P. Fundamentos de transferência de calor e de
massa. 4ª ed. Rio de Janeiro. LTC, 1996. 494p. (Original Inglês)
21. LACERDA FILHO, A. F., QUEIROZ, D. M., ROA, G. Avaliação experimental de

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 225


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secador comercial intermitente de arroz. Revista Brasileira de Armazenagem.
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22. LOPES, R.P. Desenvolvimento de um sistema gerador de calor com opção para
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2002. 220p. (Tese de Doutorado em Engenharia Agrícola).
23. LORA, E.S; HAPP, J.F. Classificação e balanço térmico das fornalhas para a
combustão de biomassa. In: CORTEZ, L.A.B., LORA, E.S. Tecnologia de
conversão energética de biomassa. Sistemas enegéticos II. Manaus:
EDUA/EFEI, 1997b. 540 p
24. MAGALHÃES, E.A. Desenvolvimento e análise de uma fornalha para
aquecimento direto e indireto de ar utilizando biomassa polidispersa.
Viçosa-MG: Universidade Federal de Viçosa. 2007. 212p. (Tese de doutorado
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25. Magalhães, E.A; SILVA, J.S; SILVA, L.N;MELO, F.A.S $NOGUEIRA, R. M.
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Engenharia na Agricultura. Boletim Técnico. Viçosa – MG, 2008. 41p
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descendentes. Viçosa: UFV, 1987. 45p. (Tese de Mestrado em Engenharia
Agrícola).
27. MELO, F.A.O. Projeto, construção e avaliação de uma fornalha para
aquecimento de ar utilizando combustíveis particulados finos. Viçosa-MG:
Universidade Federal de Viçosa. 2003. 91p. (Dissertação de mestrado em
Engenharia Agrícola).
28. MELO, F.A.O.; SILVA, J.N.; SILVA, J.S.; DONZELES, S.M.L. Avaliação da
utilização da palha de café para o aquecimento indireto de ar para
secagem de produtos agrícolas. Engenharia na Agricultura, Viçosa, MG, v.13,
n.1, Jan./Mar., 2005a. p. 49-54
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qualidade do carvão vegetal. In: PENEDO, W. R. (Ed.). Produção e utilização
do carvão vegetal. Belo Horizonte: CETEC, 1982. p.75-89.
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biomassa florestal. Colaboração da Companhia Energética de Minas Gerais,
Belo Horizonte, 1987. 129p.
31. MULTON, J. L. Conservation et stockage des grains et graines et produits
dérivés céréales oléagineux, protéagineux, aliments pour animaux. Paris:
Technique & Documentation Lavoisier, 1982. 1155 p. v.2.
32. OLIVEIRA, G.A. Desenvolvimento e teste de uma fornalha com aquecimento
indireto e autocontrole da temperatura máxima do ar para secagem de
produtos agrícolas. Viçosa: UFV, 1996. 69p. (Tese de Mestrado em
Engenharia Agrícola).

226 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


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61, 1982.
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cruzados. Botucatu: Universidade Estadual Paulista, 1991. 102p. (Tese de
Doutorado em Agronomia).
35. SILVA, J.N. Fontes Alternativas de Energia; energia de biomassa e combustão.
Viçosa: DPF-UFV/CEMIG, 1988. 53p. (Caderno Didático).
36. SILVA, J.S., BERBERT, P. A. Colheita, secagem e armazenagem de café.
Viçosa: Aprenda Fácil Editora, 1999. 146p.
37. SILVA, J.S. Estudo de uma fornalha para secagem de grãos com aquecimento
direto. Viçosa: Engenharia na Agricultura, Viçosa, v.1, n.2. 1991. 15p.
(Caderno Didático)
38. SILVA, J.S. Adaptação da fornalha de fogo direto na secagem de grãos. Informe
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39. SILVA, J.S.; MACHADO, M.C; DONZELES, S.M.L.; SAMPAIO, C.P. Sistemas
híbridos para secagem: solar e biomassa. Ed. JARD. Viçosa – MG. 2003.
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40. SOUZA, Z. Elementos de máquinas térmicas. Rio de Janeiro: Editora
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indireto para secadores de produtos agrícolas. Botucatu-SP: Universidade
Estadual Paulista. 1991. 123p. (Tese de doutorado em Ciências Agronômicas).
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clássica. São Paulo: Edgard Blucher, 1993. 318p.
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de eucalipto. Informe Agropecuário. Belo Horizonte, n.121, p71–74. 1980.
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Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 227


Capítulo 9 Composição do Custo de Secagem

Capítulo

9
COMPOSIÇÃO DO CUSTO DE SECAGEM

Suely de Fátima Ramos Silveira


Juarez de Sousa e Silva
Francisco de Assis Carvalho Pinto
Ricardo Caetano Rezende

1. INTRODUÇÃO

Entende-se claramente o conceito de produção quando este se refere aos bens


diretamente consumidos pela população. No entanto, produção refere-se a qualquer bem
ou serviço produzido na economia.
Do mesmo modo, quando se fala em custos, é mais fácil entender este conceito
quando se trata de bens. A teoria do custo estabelece conceitos e princípios que são
empregados na análise dos custos de produção. Para entender os conceitos relacionados
à teoria do custo, primeiramente, é necessário considerar determinados conceitos
econômicos, como, por exemplo, o curto e o longo prazo.
O curto prazo é definido como o período de tempo durante o qual parte ou todos
os insumos empregados na produção são fixos. O volume da produção pode variar,
desde que somente as quantidades dos insumos variáveis utilizados na produção variem.
Por exemplo, um produtor de grãos pode aumentar sua produção aumentando a
quantidade de fertilizante ou utilizando mais horas de trabalho das máquinas e dos
equipamentos de que dispõe. Se ele pretende reduzir a produção, ele pode dispensar
alguns trabalhadores, reduzir o número de horas trabalhadas etc., sem, contudo,
desfazer-se imediatamente de sua unidade produtiva.
O longo prazo é definido como o período de tempo no qual todos os insumos são
variáveis. No longo prazo o empresário pode ampliar o tamanho da fábrica ou o
produtor rural pode ampliar a área plantada, produzindo mais, sem no entanto ser
obrigado a pagar jornadas extras de trabalho a seus empregados, como ocorreria no
curto prazo, caso pretendesse produzir mais.
Do ponto de vista do empresário, industrial ou agropecuário, os custos a serem
considerados vão depender da finalidade, isto é, da decisão que se deseja tomar.
Para se ter uma boa composição de custos, basicamente necessita-se de
informações sobre processo produtivo, insumos utilizados, mão-de-obra necessária,

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 229


Capítulo 4 Composição do Custo de Secagem

preços e condições de mercado.


As determinações de custo são feitas com várias finalidades. Elas auxiliam o
produtor rural em sua decisão quanto à escolha da cultura a ser produzida ou sobre o
investimento em animais e, ainda, quanto às técnicas de produção a serem adotadas.
Servem como subsídios na formulação de políticas e projetos de órgãos governamentais
e outras instituições de planejamento.
Qual a finalidade da determinação de custos? Quando, em qualquer sistema
produtivo, é necessário alocar recursos escassos, o empresário visa maximizar sua
receita ou minimizar seus custos, ou seja, otimizar o emprego dos recursos disponíveis.
Assim, a tomada de decisão sobre produzir ou não envolverá o conhecimento sobre os
custos da atividade que se deseja executar.
As estimativas de custos servem para facilitar estudos, selecionar investimentos
alternativos e determinar recursos exigidos pela atividade que se deseja implementar.
Independentemente do método empregado na estimativa dos custos, é importante
reconhecer que os níveis de detalhamento e precisão das estimativas são diretamente
proporcionais à precisão e ao tempo necessário para coletar as informações que
pertencerão ao conjunto de dados utilizados. Simultaneamente, os níveis de
detalhamento e precisão das estimativas de custos são diretamente proporcionais à
qualidade e quantidade dos dados utilizados.

2. CLASSIFICAÇÃO DOS CUSTOS

Com base na teoria do custo no Curto Prazo e de acordo com as condições de


produção (físicas e tecnológicas) e com os preços unitários dos insumos utilizados na
produção, os custos classificam-se em:
a) Custos Fixos Totais (CF): são aqueles que não variam com a quantidade
produzida, como, por exemplo, os juros sobre o capital empatado, os
impostos fixos, a depreciação, a manutenção e os seguros.
b) Custos Variáveis Totais (CV): são aqueles que variam de acordo com o
volume de produção, como, por exemplo, os gastos com fertilizantes,
combustíveis e mão-de-obra. O custo total é dado pela soma dos custos fixos
totais com os custos variáveis totais (equação 1):

CT = CF + CV eq.1
em que
CT = custos totais;
CF = custos fixos totais;
CV = custos variáveis totais.

Para um secador de grãos, o custo do combustível, o custo de operação do


ventilador, o custo de inadequação do sistema e o custo da quebra-técnica são
considerados custos variáveis.
Outros conceitos importantes são os de custo médio e marginal. O Custo Médio
(CMe) é obtido dividindo-se o custo total pelo número de unidades produzidas (equação
2). Assim, o custo médio incluirá uma parcela dos custos fixos e dos custos variáveis

230 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 9 Composição do Custo de Secagem

(equações 3 e 4, respectivamente).

CMe = CT / Q eq. 2

em que
CMe = custo médio;
CT = custo total; e
Q = quantidade produzida.

O Custo Fixo Médio (CFMe) é definido como o custo fixo total dividido pela
quantidade produzida, enquanto o Custo Variável Médio (CVMe) é o custo variável
total dividido pela quantidade produzida.

CFMe = CF/Q e CVMe = CV/Q eq. 3

CMe = CFMe + CVMe eq. 4

Quando o volume produzido é pequeno, o custo médio tende a ser elevado,


devido aos custos fixos, que representam parcela significativa sobre as primeiras
unidades produzidas. À medida que a produção aumenta, os custos fixos serão
distribuídos por um número maior de unidades produzidas e, então, aumentará a
importância dos custos variáveis (Figura 1) na composição do custo total.

Figura 1 – Curvas de custo total, custo fixo total e custo variável total.

A curva clássica de custos totais médios (CMe) tem a forma de U, decrescendo


inicialmente quando sob a influência dos custos fixos médios decrescentes, atingindo
um ponto de mínimo e elevando-se novamente, quando a combinação ótima dos
recursos é ultrapassada.
A forma em “U” da curva de custo total médio tem importante significado para o
dimensionamento ótimo do investimento. A fase decrescente da curva, denominada
economia de escala, mostra que, à medida que a escala ou o tamanho do negócio
aumenta, seu custo unitário reduz, até alcançar seu nível mínimo, que representa o
tamanho ideal. A partir daí, tem-se as deseconomias de escala, e, à medida que se
aumenta a escala de produção ou o tamanho do negócio, os custos unitários também

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 231


Capítulo 4 Composição do Custo de Secagem

aumentam, reduzindo a eficiência econômica do negócio.


O Custo Marginal (CMa) é definido como o acréscimo ao custo total em
conseqüência do acréscimo de uma unidade na produção, isto é, dado o acréscimo de
uma unidade adicional à quantidade produzida, o custo marginal representa o acréscimo
ao custo total devido àquela última unidade produzida (equação 5).

CMa =CT / Q ou CMa =dCT / dQ eq. 5

As curvas de custos médios e de custo marginal estão representadas na Figura 2.

Figura 2 – Curvas do custo médio, custo variável médio, custo fixo médio e custo
marginal.

3. O CUSTO DA MÃO-DE-OBRA

Numa empresa agrícola, geralmente, a classificação dos custos fixos e variáveis


é difícil ou, até mesmo, realizada de forma arbitrária.
A classificação do custo da mão-de-obra como fixo ou variável, na maioria dos
casos, é dificultada pela própria natureza das atividades.
Sugere-se que os custos com mão-de-obra temporária ou com diaristas sejam
classificados como variáveis.
Quando se trata de mão-de-obra permanente, pode-se classificá-la como custo
fixo ou variável, dependendo de sua utilização. Quando a mão-de-obra permanente é
usada somente em tempo parcial em determinada atividade, ela poderá ser classificada
como um custo variável. À medida que as despesas não variam com a área plantada,
quantidade colhida ou quantidade de grãos a ser secada e armazenada, a mão-de-obra
será classificada como custo fixo. Deve-se ter em mente que a classificação de um custo
como fixo ou variável irá depender da situação específica que está sendo analisada.

4. OUTRAS CLASSIFICAÇÕES DE CUSTOS

Há várias outras classificações dos custos, como:


a) Despesas diretas: são pagamentos efetuados pela utilização dos recursos,
como por exemplo, a aquisição de sementes, fertilizantes e inseticidas para o
plantio ou, então, o valor dos insumos que estavam disponíveis na empresa,

232 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 9 Composição do Custo de Secagem

como as despesas decorrentes do uso de um trator ou um secador (gastos


com combustíveis, eletricidade e lubrificantes).
b) Despesas indiretas: são os juros pagos sobre o capital, as amortizações e o
custo do risco.
c) Custo operacional: englobam o valor dos insumos consumidos, o custo do
uso de máquinas e implementos (sem considerar os juros) e o valor da mão-
de-obra utilizada.
d) Juros, manutenção, riscos e depreciação: a disponibilidade de capital
implica o pagamento de juros, custos de manutenção, seguros contra riscos e
depreciação, a saber:
Juros: a todo capital atribui-se um juro calculado a uma taxa de mercado. A taxa
de juros corresponde ao que os credores cobram por unidade monetária emprestada, por
período de tempo (ano, mês, dia), sendo expressa como um percentual.
Manutenção: é o custo anual necessário para manter o bem de capital em
condições de operação. As despesas com a conservação de um bem de capital ou ativo
fixo representam despesas do exercício.
Risco: é a quantia em dinheiro destinada anualmente para a formação de um
fundo que permita pagar danos imprevistos. São exemplos as despesas em que se pode
incorrer para pagar danos causados por incêndios, chuvas de granizo, enchentes e outros
eventos não-previsíveis.
Depreciação: muitos bens de capital, com exceção da terra têm vida útil
limitada, e, assim, ao final de suas vidas úteis, os empresários ou os produtores deverão
substituí-los por outros idênticos ou tecnologicamente mais avançados. O valor dessa
substituição deverá ser descontado gradualmente das receitas. Os ativos fixos (prédios,
máquinas e equipamentos, móveis e instalações, dentre outros) decrescem em valor com
o tempo e o uso. Este decréscimo de valor pode ser atribuído ao desgaste físico ou à
obsolescência, com a perda de utilidade devido às mudanças tecnológicas não
relacionadas com as condições físicas do bem. A redução de valor, resultante de
qualquer uma das causas citadas, é conhecida como depreciação.
A depreciação devido à deterioração do bem é denominada depreciação física,
enquanto a depreciação devido à obsolescência é chamada depreciação funcional.
Assim, a depreciação pode ser definida como a conversão de ativos fixos em despesa.
Para ilustrar a conversão de ativos fixos em despesa, considere que um novo
equipamento para o processamento de grãos, instalado em uma unidade produtiva, custa
$5.000 (cinco mil unidades monetárias) e será depreciado em 20 anos, não tendo
nenhum valor no final dos 20 anos. Então, o valor de $5.000 é deduzido do lucro bruto à
taxa de $ 250 por ano, durante 20 anos. O valor de $ 250 é um custo devido ao uso do
equipamento para gerar receitas e lucros.
Usualmente, assume-se que o período total de depreciação corresponde à vida
útil do ativo fixo, enquanto o valor ao fim de sua vida útil corresponde ao valor residual
ou valor de sucata.
Existem vários métodos para calcular a depreciação de um ativo fixo, sendo o
método linear ou das cotas fixas o mais simples e mais utilizado na prática.
O método linear considera a depreciação simplesmente como a desvalorização
do bem, reduzindo-se gradualmente seu valor nos inventários sucessivos durante o

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 233


Capítulo 4 Composição do Custo de Secagem

período de utilização do ativo fixo considerado. A taxa anual de amortização pode ser
calculada dividindo-se o custo inicial pelo número de anos de duração provável do bem,
ou, conforme o caso, deduzindo-se do custo inicial um valor final presumido (equação
6).

D =(Ci-Cf ) / n eq. 6
em que
D = depreciação;
Ci = custo inicial;
Cf = custo final; e
n = vida útil do ativo fixo, em anos.

5. DESEMPENHO DE SECADORES

Para que um agricultor ou gerente de uma unidade comercial de armazenagem


possa escolher de forma metódica um sistema de secagem, é indispensável conhecer as
características operacionais, a eficiência energética, a capacidade do sistema e,
principalmente, sua influência na qualidade do produto processado.
Com raras exceções, a maioria dos secadores é comercializada apenas pela
capacidade de secagem fornecida pelo fabricante. Pouca ou nenhuma informação é dada
a respeito das características anteriormente mencionadas e as condições (exceto a
temperatura do ar de secagem) sob as quais a capacidade do secador foi determinada.
Quando se consideram o alto custo da energia e os baixos preços dos produtos
agrícolas, torna-se indispensável conhecer, pelo menos, o consumo de energia e a
qualidade do produto depois de seco. O custo inicial e a capacidade dinâmica não são
suficientes para se decidir quanto à aquisição de determinado sistema.
É objetivo deste capítulo oferecer uma metodologia para avaliação e escolha de
um componente para realizar determinada operação unitária, bem como prever o custo
dessa operação ou de um sistema completo para o pré-processamento de produtos
agrícolas.
Como exemplo, será analisada a secagem de milho em um secador de fluxos
cruzados, intermitente e com reversão do fluxo de ar de secagem construído e projetado
na UFV.

5.1. Avaliação do Desempenho


O desempenho de secadores varia de acordo com uma série de fatores, como
umidades inicial e final do produto, temperatura e propriedades físicas, resistência
oferecida ao fluxo de ar, condições ambientais (temperatura e umidade relativa do ar
ambiente), tipo de fornalha, sistema de carga e descarga e tipo de ventilador.
BAKKER-ARKEMA et al. (1978) propuseram uma metodologia para a
avaliação do desempenho de secadores baseada em um número reduzido de testes de
campo, sob condições padronizadas e que deve ser complementada com trabalhos de
simulação. Para facilitar, esta metodologia será denominada ASBA (avaliação de
secadores segundo Bakker-Arkema et al.).
A Tabela 1 mostra as condições estabelecidas para o ambiente e os sistemas de

234 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 9 Composição do Custo de Secagem

secagem comumente encontrados nos EUA. Os dados a serem determinados, segundo a


ASBA, estão listados na Tabela 2.
Com relação à duração dos testes, a ASBA estabelece que são necessários três
testes para secadores em lotes, com no mínimo 24 horas de funcionamento para os
secadores contínuos.
Parâmetros como condições ambientais e temperatura do ar de secagem podem
ser obtidos em intervalos regulares (dependendo da capacidade de secagem), com
posterior cálculo de valores médios.
Se possível, os secadores devem também ser caracterizados pelos níveis de
poluição sonora e de emissão de partículas no ambiente. Tabelas geradas por simulação
podem ser utilizadas para avaliar o secador sob condições não-padronizadas (capítulo 6
– Estudo da Secagem em Camada Profunda).

TABELA 1 – Padrões para avaliação do desempenho de secadores na secagem de


milho, nos EUA, durante 24 horas de teste.

Parâmetro Valor
Umidade inicial média do produto (%b.u.) 25 ± 1,5
Umidade média final do produto (%b.u.) 15 ± 0,5
Temperatura média do ambiente (oC) 10 ± 5,5
Umidade relativa média do ambiente (%) 50 ± 10
Temperatura média dos grãos (oC) 10 ± 5,5
Percentagem de impureza 3,0
Temperatura final dos grãos (acima do 8,0
ambiente)

TABELA 2 – Parâmetros e especificações do secador requeridos para a avaliação do


desempenho

PARÂMETROS DOS GRÃOS E DO AR


Tipo de grãos Milho, arroz, soja etc.
(detalhar)
Umidade inicial e final (% b.u.)
o
Temperatura C
Impureza inicial e final %
Massa específica inicial e final kg.m-3
Peso inicial kg
Índices de qualidade (detalhar)
o
Temperatura do ar de secagem C
o
Temperatura do ar ambiente (t) C
Umidade relativa do ambiente %
ESPECIFICAÇÕES DO SECADOR E USO DE ENERGIA
Densidade do fluxo de ar m3.min-1.m2

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 235


Capítulo 4 Composição do Custo de Secagem

Continuação Tabela 2
Volume total ou fluxo de grãos (m3 ) ou ( m3.h-1)
Tempo de secagem ou comprimento da coluna de (h) ou (m)
secagem
Tempo de resfriamento ou comprimento da coluna de (h) ou (m)
resfriamento
Largura da coluna de secagem m
Pressão estática mmca
Tempos de carga e descarga min
Ventilador e transportadores (kWh.lote ) ou (kWh.h-1)
-1

Tipo de combustível (especificar)


Consumo de combustível Kg.h-1
Duração do teste h
Volume do produto úmido m3
Pontos percentuais de umidade removida %b.u.
Capacidade de secagem (grãos úmidos) m3.h-1
Capacidade de secagem (grãos secos) m3.h-1
Eficiência energética de secagem
Sem energia elétrica kJ.kg-1de água evaporada
Com energia elétrica kJ.kg-1de água evaporada

6. CUSTO DE SECAGEM

Vários parâmetros estão envolvidos no custo de secagem, entre eles a energia


para aquecer o ar, a energia para acionar os ventiladores, a energia para transportar o
produto, a mão-de-obra, a manutenção, a depreciação, os juros e os custos de quebra
técnica. Admitindo o custo como uma função do tempo requerido para a secagem, pode-
se utilizar um modelo para simulação de secadores, para prever o tempo de secagem e,
com isso, avaliar o custo de combustível, o custo de operação do ventilador, os custos
fixos e o custo total de secagem, com bases nas seguintes equações (veja lista de
símbolos no final deste capítulo):

Cc = [ma.(Cpa+RM.Cpv).(T-Tamb).ts . P1]/(Pc.E1.As.X) eq.7

Cv = (Pot . ts . P2) /E2 eq.8

Para o cálculo dos custos fixos (equação 9), são incluídos depreciação,
manutenção, juros, seguro, impostos e mão-de-obra (com exceção da mão-de-obra, os
custos fixos não são afetados pela quantidade de grãos a serem secados).

Cf = (P3 + P5 . F / tmax) / mínimo A eq. 9


A=[ (Vs/ts) ou (Vpmax /tmax)]

O custo de secagem é a soma dos custos de combustível, operação do ventilador

236 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 9 Composição do Custo de Secagem

e custos fixos.

Ctot = Cc + Cv + Cf eq.10

O custo anual de secagem pode ser calculado pela equação 11:

Ca = [(C1+C2+C3+C4) . QT / CS]+C5+C6 eq.11

Os custos de combustível (C1) e da eletricidade (C2) para a secagem foram


calculados pelas equações 12 e 13, respectivamente:

C1 = (EA . P1) / (E1 . Pc) eq.12

C2 = PE . P2 / E2 eq.13

O custo da mão-de-obra é função do tempo de secagem; entretanto, considera-se


que esta é utilizada em apenas parte do tempo, devendo ser ajustada seguindo a equação
14:
C3 = n . P3 eq.14

Por causa da impossibilidade de se completarem as operações de campo em um


período de tempo adequado, deve-se debitar ao custo total o custo de inadequação do
sistema "timeliness costs", por exemplo, quando a capacidade de secagem não está
adequada para a capacidade de colheita, ocorre ociosidade em um dos sistemas. O custo
de inadequação depende da programação da operação, com respeito ao tempo ótimo, e
pode ser classificado como programação prematura, atrasada e balanceada. A equação
15 é utilizada para a obtenção deste custo:

C4 = (F1 . P4 . QT) / (Fp . HR) eq.15

Os custos fixos, que incluem depreciação, juros e impostos, são calculados como
uma porcentagem do custo inicial e variam de acordo com o tipo do sistema, sendo
calculado pela equação 16:

C5 = F .P5 eq.16

O valor de F para secadores contínuos e intermitentes móveis é de 0,15; para


silo-secador em lotes, de 0,13; e para secagem com ar natural e com ar ligeiramente
aquecido, de 0,12.
Os custos de quebra técnica devem incluir as perdas de matéria seca durante a
secagem, secagem em excesso, secagem incompleta e perdas na qualidade. Por causa da
dificuldade de estimar esses valores, o custo de quebra técnica deverá ser determinado
apenas pela perda de matéria seca, segundo a equação 17:

C6 = FQ . P4 . QT eq.17

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 237


Capítulo 4 Composição do Custo de Secagem

Para milho, o fator “Quebra Técnica” foi tomado como sendo 0,005.

7. EXEMPLO DE APLICAÇÃO

A maneira como foram avaliados os vários parâmetros deste exemplo, seguindo


a metodologia ASBA, é descrita a seguir.

7.1. Parâmetros Relativos aos Grãos


Os teores de umidade são obtidos pelo método-padrão de estufa, 103 ± 1oC por
72 horas, com três repetições. As amostras, para determinação da umidade inicial, são
obtidas da homogeneização de várias amostras simples retiradas durante o carregamento
do secador.
O produto seco deve ser pesado, e o peso inicial, obtido pela relação entre os
teores de umidade inicial e final.
As temperaturas devem ser determinadas por meio de pares termoelétricos,
localizados em vários pontos do secador, como: na câmara de descanso, na câmara de
secagem, nos “plenos” de secagem e de resfriamento, na exaustão, na entrada e na saída
dos grãos.
As percentagens de impurezas (inicial e final) devem ser determinadas por
peneiramento manual, conforme Portaria No 845 do Ministério da Agricultura.
Os valores de PH (inicial e final) devem ser determinados por meio de uma
balança de peso hectolítrico. As percentagens e os tipos de trincamento (Figura 1,
capítulo 4 – Qualidade dos Grãos) podem ser obtidos pela verificação visual em um
diafanoscópio (Figura 3), para amostras de 50 sementes e com cinco repetições.

Figura 3 – Detalhes de um diafanoscópio, para verificação de trincas.

Os índices de susceptibilidade a quebras podem ser obtidos pelo STEIN


BREAKAGE TESTER (as amostras devem ter os mesmos teores de umidade para cada
teste).
As percentagens de germinação devem ser determinadas segundo a metodologia
descrita nas Regras para Análise de Sementes.

7.2. Parâmetros Relativos ao Ar


As temperaturas médias do ar de secagem e de exaustão podem ser obtidas das

238 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 9 Composição do Custo de Secagem

temperaturas lidas a cada 30 minutos, à semelhança das medidas da temperatura dos


grãos.
As temperaturas e umidades relativas do ambiente podem ser obtidas por um
termo-higrógrafo, instalado em um abrigo meteorológico situado em torno de 50 metros
do local de teste.

7.3. Uso de Energia


As potências desenvolvidas pelos motores do ventilador e do elevador de
canecos são determinadas por meio de Wattímetro, e a energia consumida pode ser
obtida pela equação 18:

M = PM . TF . 3600 eq.18

A energia e o poder calorífico da lenha utilizada para o aquecimento do ar


podem ser determinados, respectivamente, pelas equações 19 e 20:

EPC = QC . PC eq.19

PC = 17974 (1 - 0,0114 . UC) eq. 20

A umidade do combustível deve ser determinada pelo método-padrão de estufa,


o
105 C por 48 horas .

7.4. Especificação do Secador


A pressão estática deve ser obtida por meio da média das leituras, para cada 30
minutos de secagem, realizadas com o uso de um micromanômetro instalado na câmara
" plenum" do secador. A densidade de fluxo de ar (m3.min-1.m-2) e a vazão de ar podem
ser obtidas pela equação 21 e por meio da curva característica do ventilador,
respectivamente:

DFar = VZar / As eq. 21

Os tempos de carregamento, secagem, resfriamento e descarregamento devem


ser cronometrados; já a capacidade de secagem é determinada através da equação 22.

Cs = MP / TS eq. 22

A eficiência energética de secagem, que é a quantidade de energia necessária


para evaporar uma unidade de massa de água do produto, é determinada pela equação
23:

EEs = EC / (Mi - Mf) eq. 23

Nesta equação, a energia utilizada é representada pela energia do combustível e


pela energia necessária para acionamento dos motores do secador.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 239


Capítulo 4 Composição do Custo de Secagem

7.5. Simulação de Secagem


O programa utilizado para simular o comportamento do secador foi baseado no
modelo proposto por THOMPSON et al. (1978). A opção pelo modelo foi devido à sua
simplicidade e flexibilidade de adaptação às condições de reversão do fluxo de ar e ao
modo de operação intermitente do secador em pauta.

7.6. Custos
Na avaliação dos custos de operação devem ser analisados os seguintes itens:
custo do combustível, custo da energia elétrica, custo da mão-de-obra e custos fixos. As
equações 24, 25, 26 e 27 são usadas para determinar esses valores:

CC = (QC . PK) / QS eq. 24

CEE = (TF . PM . PEE) / QS eq. 25

Na obtenção dos custos da mão-de-obra para operação do secador, considera-se


necessário apenas uma pessoa e sua remuneração mensal:

CMO = (TS . PMO) / QS eq. 26

Consideram-se como fixos os custos referentes à depreciação, à manutenção e


aos juros. Estes custos podem ser calculados pela equação 27:

CF = (CIS . PCI) / (QSA . 100) eq. 27

A percentagem do custo inicial do secador (PCI) é obtida pela soma das


percentagens referentes à depreciação, aos juros e à manutenção do secador.
A depreciação pode ser obtida pelo método linear, considerando-se 20 anos a
vida útil de um secador (5% ao ano). Os juros para investimentos agrícolas foram
considerados como de 10% ao ano, e os gastos com manutenção, de 2% ao ano.
Para obtenção da QSA, considerou-se que o secador foi adequado para secar 225
toneladas por ano, em um período de 45 dias.
O custo total da operação foi obtido pela soma dos custos de combustível,
energia elétrica, mão-de-obra e dos custos fixos. O custo de operação para o secador foi
comparado com os custos de secagem fornecidos pela extinta Companhia Brasileira de
Armazenamento. Para obtenção desse custo, considerou-se que seriam cobradas do
cliente as tarifas referentes à pesagem, ao recebimento a granel, à limpeza, à secagem
propriamente dita e à expedição a granel.

7.7. Análise dos Resultados


Os resultados obtidos na avaliação do desempenho do secador, referentes a
parâmetros dos grãos, parâmetros do ar e especificação do secador, estão relacionados
nas Tabelas 3 e 4.
Os teores de umidade iniciais variaram na faixa de 21,8 a 26,9% b.u., e os finais,

240 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 9 Composição do Custo de Secagem

entre 13,3 e 15,3% b.u. (Esses valores não obedecem rigorosamente às condições
padronizadas, de 25 ± 1,5% b.u. e 15 ± 0,5%, para as umidade iniciais e finais,
estabelecidas na ASBA). Para fins práticos, entretanto, essas diferenças não são
consideradas relevantes.
Os teores de umidade finais (Tabela 5) foram obtidos das médias das umidades
das amostras, retiradas durante a descarga do secador, com intervalo de amostragem de
cinco minutos.
A ASBA propõe que os grãos devem ser resfriados a uma temperatura não
superior a 8oC acima da temperatura ambiente. Nesta avaliação, foram resfriados até
5oC acima da temperatura do ar de resfriamento, que correspondia à temperatura no
ambiente externo ao secador. Assim, as temperaturas finais foram superiores às
recomendadas na metodologia.
Como pode ser visto na Tabela 3, existem diferenças entre as percentagens
iniciais e finais de impurezas. Na prática, porém, as diferenças observadas são
desprezíveis, pois não comprometem a classificação do milho.
A percentagem total de trincamento do produto variou entre 51 e 97%, sendo
considerada elevada para a secagem de milho. A percentagem do tipo de trincas
(simples, duplas e múltiplas) variou significativamente em relação às temperaturas de
secagem. Pela tabela, vê-se que, à medida que se eleva a temperatura, aumentam-se as
percentagens de trincas dos tipos duplos e múltiplos. Apesar das elevadas percentagens
de trincamento, em nenhum teste houve diferença significativa entre os índices iniciais e
finais de susceptibilidade a quebras. Além disso, os índices de susceptibilidade a
quebras encontrados foram pequenos, indicando boa técnica de manuseio do secador.
Apenas a temperatura de secagem de 60oC não afetou a percentagem de
germinação do produto. Este resultado está baseado no fato de a temperatura final dos
grãos não ter sido muito superior a 45oC (Tabela 3).
Da energia total consumida, apenas uma pequena parte foi proveniente da
eletricidade (Tabela 4). Esse valor torna-se maior para as temperaturas de secagem mais
baixas, pois, neste caso, o secador funcionou por um período de tempo mais longo.
No secador avaliado, os testes foram realizados com diferentes quantidades e
umidades iniciais (Tabela 5). Para contornar este problema, fez-se uma comparação
entre testes semelhantes. Pela Tabela 4, vê-se que o comportamento médio observado
durante a operação do secador é o esperado, uma vez que a capacidade de secagem
aumenta com a elevação da temperatura. Como pode ser verificado na Tabela 4, as
temperaturas de secagem mais elevadas requerem menor energia para evaporar uma
unidade de massa de água, isto é, o secador é mais eficiente para temperaturas mais
elevadas.
A eficiência energética do secador foi considerada razoável, se comparada a
outros secadores de fluxo cruzado.
Os valores obtidos para os custos de operação estão relacionados na Tabela 6.
As maiores parcelas desse custo são devidas ao custo de mão-de-obra e aos custos fixos
(90% do total). Pela comparação com custos de secagem da extinta CIBRAZEM,
observa-se que os custos de operação do secador foram semelhantes aos custos no
Estado do Rio de Janeiro e cerca de 30 a 40% inferiores aos custos em outras regiões,
sem computar o custo de transporte.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 241


Capítulo 4 Composição do Custo de Secagem

TABELA 3 – Parâmetros médios relativos aos grãos

Parâmetro Condição Temperatura de secagem (oC)


60 80 100
Umidade do grão (%b.u.) Inicial 23,9 21,6 24,3
Final 14,5 14,8 14,3
Peso do lote (kg) Inicial 2339 2391 2518
Final 2081 2162 2247
Temperatura dos grãos (oC) Inicial 25,2 24,4 24,8
Final 38,2 40,7 41,1
Percentagem de impurezas Inicial 0,28 1,10 0,52
Final 0,49 1,70 0,68
Massa específica (m3kg-1) Inicial 748 728 744
Final 792 762 776
Percentagem de trincas Zero 16,0 28,3 14,0
Simples 49,3 30,0 25,6
Duplas 19,7 27,3 31,0
Múltiplas 15,0 14,3 29,3
Total 84,0 71,7 86,0
Índice de susceptibilidade à Inicial 0,87 0,96 1,23
quebra (%) Final 0,75 0,98 0,19
Percentagem de germinação Inicial 84,3 88,0 86,0
Final 86,6 41,7 12,6
Fluxo de recirculação (m3.min.-1) 0,04 0,04 0,04

TABELA 4 – Parâmetros médios do ar e especificações do secador

Temperaturas (oC)
Parâmetros
60 80 100
Temperatura média do ar de 61,2 81,2 101,2
Ar secagem (oC)
Temp. média do ar ambiente (oC) 27,0 27,2 26,3
Umid. rel. média do ar ambiente 55,0 59,0 59,3
(%)
Energia Combustível 1668 1474 1802
consumida Energia elétrica 40,6 27,2 26,8
(kJ x 103) % da energia elétrica em relação 2,38 1,83 1,47
ao total
- Carga 14,3 25,0 16,7
- Secagem 480 300 320
Tempo - Resfriamento 30,0 36,7 30,0
minutos - Descarga 11,7 25,0 15,3
Total 536 387 382

242 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 9 Composição do Custo de Secagem

Continuação Tabela 4
Pressão estática média (mm.c.a) 37,8 27,6 27,5
Densidade de fluxo de ar 25,8 28,3 28,3
(m3.min-1.m-2)
Capacidade de -m de produto úmido.h-1
3
0,349 0,521 0,571
secagem -m3 de produto seco.h-1 0,293 0,452 0,483
kg de produto úmido.h-1 261 381 425
kg de produto seco.h-1 233 345 374
Eficiência excl. energia elétrica 6479 6314 5523
energética de incl. energia elétrica 6637 6432 5608
secagem
(kJ.kg-1 água
removida)

TABELA 5 - Teores médios de umidade (% b.u.) das amostras retiradas durante a


descarga

Condições de amostragem Temperatura de Secagem


(oC)
Amostras retiradas, a cada cinco minutos, 60 80 100
durante a descarga do secador. 14,4 14,6 14,5
14,5 14,4 14,3
14,4 14,9 14,4
14,6 15,0 14,4
15,1 13,8
15,0 13,1
14,6
Médias 14,5 14,8 14,1

TABELA 6 - Custo operacional do secador avaliado]

Custo operacional Temperatura (oC)


60 80 100
Custo do combustível ($.t-1) 5,19 4,34 5,22
% do custo de operação 8,30 7,90 9,37
Custo da eletricidade ($.t-1) 1,67 1,05 1,02
% do custo de operação 2,60 1,90 1,80
Custo da mão-de-obra ($.t-1) 19,68 13,45 13,04
% do custo de operação 31,60 24,60 23,40
Custos fixos ($.t-1) 35,75 35,75 35,75
% do custo de operação 57,40 65,60 65,40
Custo de operação total ($.t-1) 62,28 54,57 55,00
% do custo da ex-CIBRAZEM
Rio de Janeiro 109,70 100,30 92,00

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 243


Capítulo 4 Composição do Custo de Secagem

Continuação Tabela 6
Demais regiões 73,30 67,00 61,00
Custos da ex-CIBRAZEM ($.t-1)
Rio de Janeiro 56,65 54,48 59,84
Demais regiões 84,91 81,65 89,73

8. LISTA DE SÍMBOLOS

As - área de secagem, m2;


CA - custo total de secagem anual, $.ano-1;
Cc - custo do combustível para secagem, $.m-3 de produto;
CC - custo do combustível, $.t-1 de produto seco;
CEE - custo da energia elétrica, $.t-1 de produto seco;
CF - custos fixos, $.t-1 de produto seco;
Cf - custos fixos, $.m-3 de produto;
CIS - custo inicial do secador, $;
CMO - custo da mão-de-obra, $.t-1 de produto seco;
Cpa - calor específico do ar seco, kJ.kg-1.oC-1;
Cpv - calor específico do vapor de água, kJ.kg-1.oC-1;
cs - capacidade de secagem, kg.h-1;
CS - capacidade de secagem, m3.h-1;
Ctot - custo total de secagem, $.m-3 de produto;
Cv - custo de operação do ventilador, $.m-3 de produto;
C1 - custo do combustível para a secagem, $.h-1;
C2 - custo da eletricidade para a secagem, $.h-1;
C3 - custo da mão-de-obra, $.h-1;
C4 - custo de inadequação do sistema ("timeliness cost"), $.h-1;
C5 - custos fixos, $.ano-1;
C6 - custos de quebra técnica, $.ano-1;
DFar - densidade de fluxo de ar, m3.min-1.m-2;
EA - energia necessária para aquecer o ar, kJ.h-1;
EC - energia consumida, kJ;
EEs - eficiência energética de secagem, kJ.kg-1 água evaporada;
EM - energia consumida pelos motores, kJ;
EPC - energia proveniente do combustível, kJ;
E1 - eficiência da combustão, decimal;
E2 - eficiência global do ventilador e de seu motor, decimal;
F - custo da depreciação, de manutenção, de juros e de taxas, como uma fração do custo
inicial do equipamento, decimal;
Fp - fator de programação;
. programação antecipada : Fp = 2,0.ano-1;
. programação atrasada : Fp = 2,0.ano-1;
. programação balanceada : Fp = 4,0.ano-1;
FQ - fator de quebra técnica, decimal;
F1 - fator de inadequação, decimal.dia-1. Para o milho : F1 = 0,003.dia-1;

244 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 9 Composição do Custo de Secagem

HR - número de horas de secagem por dia, h.dia-1;


ma - vazão mássica do ar, kg.h-1;
Mf - massa final do produto, kg;
Mi - massa inicial do produto, kg;
MP - massa do produto, kg;
n - constante de ajuste, decimal;
. sistemas com ar aquecido : n = 0,2
. sistemas com ar natural : n = 0,0
Pc - poder calorífico do combustível, kJ.unidade-1;
PC - poder calorífico do combustível, kJ.kg-1;
PCI - percentagem do custo inicial do secador, %
. para secador estudado: PCI = 17%;
PE - potência dos equipamentos, kW;
PEE - custo da energia elétrica, $.kWh-1;
PK - custo do combustível por quilograma, $.kg-1;
PM - potência dos motores, kW;
PMO - preço da mão-de-obra, $.h-1;
Pot - potência necessária para forçar o ar através dos grãos, kW.m-3 de produto;
P1 - custo do combustível, $.unidade-1;
P2 - custo da eletricidade, $.kWh-1;
P3 - custo da mão-de-obra, $.h-1;
P4 - custo do produto, $.m-3;
P5 - custo inicial do sistema, $;
QC - quantidade de combustível, kg;
QS - quantidade de grãos secados, t;
QSA - quantidade de grãos secados por ano, t;
QT - quantidade total a ser secada, m3.ano-1;
RM - razão de mistura, kg de água.kg-1 de ar seco;
T - temperatura do ar de secagem, oC;
Tamb - temperatura ambiente, oC;
TF - tempo de funcionamento dos motores, h;
tmax - tempo máximo de secagem por ano, h;
ts - tempo de secagem, h;
TS - tempo total de operação do secador, h;
UC - umidade do combustível, % b.u.;
Vpmax - volume máximo de produção por ano, m3;
Vs - volume do secador, m3;
Vzar - vazão do ar, m3.min-1;
X - profundidade de secagem, m.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 245


Capítulo 4 Composição do Custo de Secagem

9. LITERATURA CONSULTADA

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20. YOUNG, J.H. & DICKENS, J.W. Evaluation of costs for drying grain in batch of
cross-flow systems. Transaction of the ASAE, 18(4):734-738, 1975.5.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 247


Capítulo 10 Seleção e Construção de Ventiladores

Capítulo

10
SELEÇÃO E CONSTRUÇÃO DE VENTILADORES

Juarez de Sousa e Silva


Evandro de Castro Melo
Francisco de Assis Carvalho Pinto

1. INTRODUÇÃO

Na secagem, na aeração de grãos e nos sistemas que usam ventilação forçada,


como as máquinas de separação, de limpeza e de transporte, há necessidade de um
componente para criar um gradiente energético que promova o movimento do ar através
dos elementos do sistema e do produto. Na secagem de grãos, o ar carrega a água
evaporada do produto para fora do secador. Já na aeração, a função do ar é de apenas
esfriar a massa de grãos, embora, às vezes, carreando pequenas quantidades de água
evaporada (capítulo 11 – Aeração de Grãos Armazenados).
Os ventiladores são máquinas que, por meio da rotação de um rotor provido de
pás adequadamente distribuídas e acionado por um motor, permitem transformar a
energia mecânica do rotor em formas de energia potencial de pressão e energia cinética.
Graças à energia adquirida, o ar torna-se capaz de vencer as resistências oferecidas pelo
sistema de distribuição e pela massa de grãos, podendo assim realizar a secagem, o
resfriamento, a separação, a limpeza e o transporte do produto.
Neste capítulo serão apresentados os princípios básicos para o entendimento, o
procedimento recomendado para a escolha de um ventilador, a seqüência dos cálculos e
os detalhes para a construção de um ventilador centrífugo simples, que pode ser usado
em vários tipos de secadores e sistemas de aeração.

2. CLASSIFICAÇÃO

Há diversos critérios para classificar os ventiladores. Serão mencionados os mais


utilizados nas áreas de abrangência deste livro e para uso em secagem e armazenagem
de produtos agrícolas:
a) Segundo o nível energético de pressão que estabelecem, os ventiladores
podem ser:

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 249


Capítulo 10 Seleção e construção de Ventiladores

- de baixa pressão: até 2,0 kPa (200 mmCA) e são muito usados em
aeração de pequenos e médios silos (Figura 1);
- de média pressão: entre 2,0 e 8,0 kPa (200 a 800 mmCA) usados para
aeração de silos de grandes alturas e também em secadores a alta temperatua
(Figura 2);
- de alta pressão: entre 8,0 e 25 kPa (800 a 2.500 mmCA). Muito usado
para transporte pneumático (Figura 3)

Figura 1- Ventilador axial (baixa pressão)

Figura 2 – Ventilador centrífugo de média pressão

250 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 10 Seleção e Construção de Ventiladores

Figura 3 – Ventilador centrífugo de alta pressão

Acima de 25 kPa os ventiladores são chamados de compressores. Exceto para o


transporte pneumático que deve ser de média para alta pressão, os ventiladores usados
nas operações de secagem, limpeza, separação, classificação, e aeração dos produtos
agrícolas são, no máximo, de média pressão.
b) Segundo a modalidade construtiva:
- Axiais (Figura 1): o rotor se assemelha a uma hélice. O ar entra e sai
do ventilador paralelamente ao eixo deste (Figuras 1 e 4);

- Centrífugos: nesta modalidade de ventilador o ar entra na caixa, ou


voluta, paralelamente ao eixo motor e é descarregado
perpendicularmente à direção de entrada do ar (Figuras 2 e 3). O rotor
pode ser fabricado com as pás curvadas para trás, para frente ou
radiais, com pás retas (Figuras 4 e 5))

Rotor axiais Rotor centrífugos


Figura 4 - Tipos de rotores usados no pré-processamento de produtos agrícolas.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 251


Capítulo 10 Seleção e construção de Ventiladores

Figura 5 - Formas mais comuns das pás de rotores centrífugos.

3. USO DOS VENTILADORES NA SECAGEM

Como visto em capítulos anteriores, existem duas maneiras para reduzir o tempo
consumido na secagem de produtos agrícolas:
a) aumentando a vazão de ar que passa através do produto, aumenta-se a
quantidade de água evaporada, ou seja, a velocidade de secagem, até certo
ponto, é proporcional ao fluxo de ar; e
b) aumentando-se a temperatura do ar de secagem, a capacidade do ar em
absorver água é aumentada, isto é, aumenta-se o seu potencial de secagem.
Em sistemas de secagem que usam baixas temperaturas, a secagem deve
acontecer em um tempo tal que não predisponha à deterioração as camadas superiores
da massa de grãos. A utilização de uma fonte auxiliar de calor para aquecimento do ar
de secagem pode inviabilizar economicamente esses sistemas, bem como provocar
supersecagem do produto. Assim, o cálculo do fluxo de ar e a utilização de ventilador
adequado são o modo mais prático e eficiente para se controlar o tempo de secagem.

4. GRANDEZAS CARACTERÍSTICAS

Existem certas grandezas importantes para o funcionamento e para o


desempenho dos ventiladores. Com uma combinação adequada dessas grandezas, é
possível escolher corretamente o melhor tipo de ventilador para determinadas condições
de operação. Por caracterizarem as condições de funcionamento do ventilador, essas
grandezas são conhecidas como Grandezas Características. São elas:
- número de rotações por minuto, n, ou a velocidade angular (radianos por
segundo);
- diâmetro de saída do rotor, D;
- vazão, Q;
- altura de elevação (útil, total de elevação e motriz);
- potências (útil, total de elevação e motriz); e
- rendimentos (hidráulico, mecânico e total).

4.1. Altura de Elevação


A altura de elevação representa o desnível energético entre dois pontos e é
expressa em altura de coluna fluida. A altura total de elevação, Ht, é a energia total

252 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 10 Seleção e Construção de Ventiladores

cedida pelo rotor do ventilador ao ar. Uma parte desta energia, h, perde-se no próprio
ventilador por atrito e turbilhonamento (perdas hidráulicas). Com isso, a altura útil, H, é
definida por: H = Ht - h, ou seja, a energia adquirida pelo fluido durante sua passagem
através do ventilador.
A altura motriz de elevação, Hm, é a energia mecânica fornecida pelo eixo do
motor. Como toda esta energia não é aproveitada pelo rotor para transferir ao ar a
energia Ht, uma parte dela se perde sob a forma de perdas mecânicas, Hp, nos mancais
e na transmissão por correia. Assim, pode-se escrever:

Hm = Ht +Hp

4.2. Potências
A potência é a energia fornecida para efetuar trabalho na unidade de tempo.
Portanto, a cada altura de elevação existe uma potência com a mesma designação:

- Potência Útil, Nu - é a potência adquirida pelo ar durante sua passagem pelo


ventilador;
- Potência Total de Elevação, Nt, - é a potência fornecida ao ar pelas pás do
rotor; e
- Potência Motriz, Mecânica ou Efetiva, Nm, ou ainda "Brake Horse-Power"
(BHP) - é a potência fornecida pelo motor ao eixo do ventilador.

A potência de um fluido é dada pela equação 1:

N = pe . Q . H eq.1
em que
N - potência (útil, total ou motriz), Watts;
pe - peso específico do fluido, N/m3;
Q - vazão do fluido, m3/s; e
H - altura de elevação (útil, total ou motriz), metro de coluna de
fluido.

Tem-se ainda que

H = (pressão (N/m2)) / peso específico (N/m3) eq.2

4.3. Rendimentos
Rendimento é a relação entre potência aproveitada e fornecida. No caso dos
ventiladores, têm-se:

Rendimento hidráulico

Rh = Nu / Nt eq.3

Rendimento mecânico

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 253


Capítulo 10 Seleção e construção de Ventiladores

Rm = Nt /Nm eq.4

Rendimento total = mecânico x hidráulico

Rt = Nu / Nm = η eq.5

Rendimento volumétrico

Rv =Q / (Q + Qf) eq.6
em que
Q - volume de fluido realmente deslocado pela ação do
ventilador;
Qf - volume do fluido que fica continuamente circulando no
interior do ventilador, denominada vazão de fugas.

5. ESPECIFICAÇÃO DOS VENTILADORES

Os ventiladores são especificados segundo a vazão de ar fornecida (Q) e a


pressão total aplicada ao ar (H). A vazão é determinada em função do tempo de
operação. A pressão total aplicada ao ar indica a energia total recebida pelo ar e graças a
ela é que o ar pode escoar ao longo de tubulações ou dutos e vencer as resistências
oferecidas pelas chapas perfuradas e pela camada do produto (capítulo 11 – Aeração de
Grãos Armazenados). A pressão total pode, então, ser dividida em duas parcelas, ou
seja, pressão estática (He) e pressão dinâmica (Hd):

H = He + Hd eq.7

Ao se mencionar potência do ventilador nos catálogos dos fabricantes,


normalmente se está referindo à potência motriz:

Nm = pe . Q . Hm =(pe . Q . H) / Rt eq.8

Entrando com Q em m3/min, expressando H em mmCA e considerando o peso


específico (pe) da água igual a 9.810 N/m3, obtém-se a potência em CV pela seguinte
fórmula:

Nm = ( Q . H ) / 4500 . Rt eq.9

A pressão fornecida ao ar deve ser maior que a queda de pressão ocorrida no


sistema. No caso de sistemas de secagem ou aeração de grãos, as quedas de pressão
ocorrem nos dutos de distribuição do ar, na chapa perfurada do piso e na camada do
produto.

254 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 10 Seleção e Construção de Ventiladores

5.1. Queda de Pressão no Produto


A resistência ao escoamento do ar, quando este está atravessando uma camada
de grãos ou similares, depende de características da superfície do produto (rugosidade),
forma e tamanho das impurezas presentes na massa de grãos, configuração e tamanho
dos espaços intersticiais na massa, tamanho e quantidade de grãos quebrados e altura da
camada.
Os dados da queda de pressão ocasionada pelo produto são empíricos e
normalmente apresentados na forma de gráficos e equações. Em 1953, Shedd, citado
por HENDERSON e PERRY (1976), obteve a queda de pressão para diversos produtos
agrícolas com diferentes teores de umidade e quantidade de impurezas presentes na
massa. Esses dados foram apresentados em um gráfico, “Curvas de Shedd”, em
coordenadas logarítmicas, relacionando a queda de pressão por unidade de altura da
camada do produto com o fluxo de ar (Veja capítulo 11 – Aeração de Grãos
Armazenados). Os dados representados naquele gráfico só devem ser utilizados para
altura de silos normalmente usados em fazendas, ou seja, até aproximadamente seis
metros de altura de grãos. Para fluxos de ar de 0,6 a 12 m3/min.m2, pode-se substituir o
gráfico pela equação 10:

∆Pg = (a . Q2 . hg ) / ln(1 + b.Q) eq.10


em que
∆Pg = queda de pressão devido à resistência do produto, mmCA;
Q = fluxo de ar, m3/min.m2;
hg = altura da massa, m; e
a, b - constantes que dependem do produto (Tabela 1).

Valores das constantes a e b para alguns tipos de grãos são apresentados na


Tabela 1. A relação entre ∆Pg e Q para grãos é mostrada em forma gráfica na Figura 5
do capítulo 11 – Aeração de Grãos Armazenados.
Em um sistema de secagem de grãos bem projetado, mais de 90% da resistência
ao fluxo de ar acontece na camada de grãos e menos de 10% nos canais de distribuição
de ar e na chapa perfurada.

TABELA 1 - Constantes a e b para diversos produtos (equação 10)

Produto a b
Arroz em casca 0,722 0,197
Aveia 0,718 0,243
Café Pergaminho Usar os valores para soja
Café Coco 0,017 3,900
Milho 0,583 0,512
Soja 0,333 0,302
Trigo 0,825 0,164

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 255


Capítulo 10 Seleção e construção de Ventiladores

5.2. Queda de Pressão na Chapa


Nos silos, a massa de grãos é sustentada por chapas perfuradas, e a queda de
pressão sofrida pelo ar ao passar pelas chapas é determinada pela equação 11:

∆Pch = 30,36 x 10-6 . Q / (Cp.Pf) eq.11


em que
∆Pch = queda de pressão na chapa, mmCA;
Q = fluxo de ar, m3/min.m2;
Cp = coeficiente de porosidade dos produtos (varia de 0,3 a 0,5);
e
Pf = percentual de perfuração da chapa, decimal.

Quando a perfuração da chapa for menor do que 10% da área total, a queda de
pressão deve ser levada em conta e calculada pela equação 11. Já entre os valores de 10
a 25% ela é desprezível. Taxa de perfuração acima de 25% compromete a resistência da
chapa.
Para obter melhor distribuição e impedir a vedação dos furos pelos grãos, é
preferível número maior de perfurações de pequeno diâmetro a um pequeno número de
perfurações de maior diâmetro, para a mesma percentagem de área perfurada.

5.3. Queda de Pressão em Dutos


A queda de pressão que ocorre quando se movimenta o ar em um duto é devida
ao atrito nas paredes (fricção), restrições ao fluxo, mudanças de direção, cotovelos e
alargamentos e/ou contrações da área da seção transversal do duto. O cálculo dessas
perdas foge ao objetivo deste capítulo e os valores reais podem ser encontrados em
tabelas apresentadas em muitos compêndios sobre mecânica dos fluidos.

6. CURVAS CARACTERÍSTICAS DOS VENTILADORES

Apesar das equações disponíveis e de vários fundamentos físicos, não é fácil


estudar a interdependência entre as grandezas características dos ventiladores baseando-
se em considerações puramente teóricas. Em vista disso, recorre-se a ensaios de
laboratórios que permitem expressar a variação de uma grandeza em função da outra,
em forma de gráficos, possibilitando fácil e rápida escolha do ventilador e uma análise
de seu comportamento em função das variações nas grandezas representadas. As curvas
que representam a dependência entre duas grandezas, uma vez fixadas as demais, são
denominadas CURVAS CARACTERÍSTICAS, e as mais importantes são:
- para um valor de n (rpm) constante, variação das grandezas H, Nm e Rt em
função da
vazão Q; e
- variação das grandezas Ht, Q, Nm e Rt (η) em função do número de rotações
n (rpm).

A Air Moving and Conditioning Association (AMCA) padronizou os testes para


ventiladores (Figura 6).

256 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 10 Seleção e Construção de Ventiladores

O duto conectado ao ventilador tem comprimento dez vezes maior que seu
diâmetro. A válvula cônica serve para regular a resistência ao escoamento de ar,
permitindo a variação da vazão. A vazão e a pressão são medidas com o auxílio do tubo
de Pitot e manômetro.
A Figura 7 apresenta em porcentagens a variação de He, Nm e Rt em função de
Q, para um certo valor de rpm, no caso de um ventilador de pás curvadas para trás. As
curvas de desempenho deste ventilador mostram que a zona de operação mais eficiente
situa-se entre 50 e 60% de Q máximo e que o ventilador selecionado para operar dentro
desta faixa não terá problemas de sobrecarga, pois Nm varia pouco com o aumento de
Q.
A Figura 8 apresenta curvas análogas para o caso de um ventilador com pás
curvadas para frente. Esses ventiladores têm faixa de utilização bastante estreita (limite
inferior condicionado pela instabilidade, e limite superior, pelo baixo rendimento). As
curvas de He, para esse tipo de ventilador, possuem uma depressão característica.
Quando se seleciona um ventilador inadequado para determinada aplicação, ele poderá
operar na região dessa depressão; neste caso, o fluxo de ar tenderá a oscilar entre dois
valores para uma mesma pressão. Esses ventiladores operam mais eficientemente na
faixa de 30 a 50% de Q máximo. A curva de Nm aumenta proporcionalmente ao
aumento de Q, dando a este ventilador uma característica de sobrecarga.

Figura 6 – Esquema básico para obtenção de curvas características de


ventiladores.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 257


Capítulo 10 Seleção e construção de Ventiladores

Figura 7 – Curvas características de um ventilador centrífugo de pás curvadas


para trás.

A Figura 9 mostra o aspecto das curvas dos ventiladores de pás radiais.


Apresenta, para a curva de He, um ramo ascendente e outro descendente, com um
trecho de funcionamento instável entre a e b.
A Figura 10 mostra o aspecto das curvas dos ventiladores axiais. As curvas
características destes ventiladores apresentam, geralmente, um máximo de eficiência
entre 55 e 75% de Q máximo. Como os ventiladores centrífugos de pás curvadas para
frente, esses ventiladores apresentam uma região de depressão na curva de He.

Figura 8 - Curvas características de um ventilador centrífugo de pás curvadas


para frente.

Figura 9 - Curvas características de um ventilador centrífugo de pás radiais.

258 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 10 Seleção e Construção de Ventiladores

Figura 10 - Curvas características de um ventilador axial.

6.1. Curva Característica do Sistema


Determinadas todas as quedas de pressão nos diversos componentes do sistema,
em função da vazão de ar, é possível plotar esses dados em um gráfico, H versus Q, que
é denominado Curva Característica do Sistema.
Como mencionado anteriormente, para vencer essas forças de resistência, o
ventilador deverá fornecer uma quantidade de energia que se perderá. Deve-se, portanto,
sobrepor a curva característica principal do ventilador, H=f(Q), à curva característica do
sistema. O ponto de encontro das duas curvas fornecerá as raízes comuns às equações
das duas funções, caracterizando, portanto, os valores de Q e He com os quais o
ventilador associado àquele determinado sistema irá operar (Figura 11).
Quando houver necessidade de aumentar o fluxo de ar em grandes silos, pode-se
optar pelo uso de dois ventiladores em paralelo; neste caso, deve-se lembrar que estes
devem ser semelhantes.

Figura 11 – Determinação do ponto de funcionamento do conjunto (ventilador –


sistema de distribuição/produto).

6.2. Lei de Semelhança


A partir das condições em que um ventilador está funcionando e aplicando as
Leis de Semelhança, pode-se determinar os valores das diversas grandezas quando uma
ou mais destas grandezas sofrem uma variação.
1o caso: para um rotor operando com o mesmo fluido:
Q :: n, ou seja, (Q1/Q2) = (n1/n2)
H :: n2, ou seja, (H1/H2) = (n1/n2)2

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 259


Capítulo 10 Seleção e construção de Ventiladores

Nm :: n3, ou seja, (Nm1/Nm2) = (n1/n2)3

2o caso: rotores geometricamente semelhantes, operando com o mesmo número


de rotações por minuto e mesmo fluido:
Q :: D3, ou seja, (Q1/Q2) = (D1/D2)3
Hu :: D2, ou seja, (Hu1/Hu2) = (D1/D2)2
Nm :: D5, ou seja, (Nm1/Nm2) = D1/D2)5

D = diâmetro do rotor
3o caso: rotores geometricamente semelhantes, operando com mesmo fluido e número
de rotações diferentes:
Q2 = Q1.(n2/n1).(D2/D1)3
Hu2 = Hu1.(n2/n1)2.(D2/D1)2
Nm2 = Nm1 . (Nm2/Nm1)3. (D2/D1)5

7. VENTILADOR CENTRÍFUGO DE PÁS RADIAIS

Neste item, serão apresentados os passos para calcular um ventilador centrífugo


de pás radiais. Para maiores detalhes a respeito desses passos e para cálculo de outro
tipo de ventilador, recomenda-se COSTA (1978).

Valores pré-determinados:

Q - vazão, m3/s;
H - pressão total a ser vencida, mmCA;
ângulo da pá na saída do rotor = 90o;
Ra - rendimento adiabático = 0,70;
Rh - rendimento hidráulico = 0,70; e
Rm - rendimento mecânico = 0,85.

Ordem dos cálculos:

- primeiro passo: velocidade absoluta do ar à saída do rotor (C):


C = 4,04 (H)1/2, m/s

- segundo passo: diâmetro interno do rotor (D1 ):


D1 = 2 (Q/C)1/2, m

- terceiro passo: diâmetro externo do rotor (D2):


D2 = 1,20 D1

- quarto passo: número de rotações por minuto do rotor (N):


N =(60 . U2) / (3,14 . D2)
em que
U2 - velocidade tangencial do rotor = C/1,15, (m/s).

260 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 10 Seleção e Construção de Ventiladores

- quinto passo: largura das pás do rotor na saída (L2) e na entrada (L1):
L2 = 0,2 D2
L1 = L2
- sexto passo: velocidade à entrada do rotor:
C1 = Q / (3,14.Rh.D1.L1), m/s.

- sétimo passo: velocidade tangencial de entrada no rotor (U1):


U1 = (3,14. D1 . N) / 60, (m/s).
- oitavo passo: ângulo de entrada das pás (ß1) = 90o.

- nono passo: número de pás - varia de 10 a 20.

- décimo passo: traçado da voluta ou difusor.

Um processo prático para o traçado da espiral de Arquimedes é efetuado com


quatro arcos de círculos, conforme a Figura 12, e será visto mais adiante, neste capítulo.
O processo consiste em traçar um quadrado auxiliar, cujo lado equivale a 0,10 vez o
valor do diâmetro externo do rotor, e centrá-lo no eixo deste. Considerando a Figura 9, o
quadrado auxiliar será centrado no ponto 0 (zero) e a distância do vértice 4 ao ponto f
será, então, de aproximadamente, 0,9 vez o valor do diâmetro externo do rotor. Assim,
com o centro no vértice 4 do quadrado auxiliar e o raio igual a 0,9 vez o diâmetro
externo do rotor, traça -se o arco f - d. Em seguida, com o centro no vértice 2 traça-se o
arco c – b, e com o centro no vértice 1 traça-se o arco b - a.
O estrangulamento da voluta (e), denominado “beco da voluta", é igual a 0,06
vez o diâmetro externo do rotor.

Figura 12 – Esquema para o traçado da voluta (espiral de Arquimedes).

8. O VENTILADOR E SUA CONSTRUÇÃO

Nos secadores tradicionais com fluxo de ar, a característica do ventilador é de


suma importância para o bom funcionamento do sistema de secagem. O ventilador deve
ser projetado para vencer a resistência oferecida por uma camada de produto, a uma

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 261


Capítulo 10 Seleção e construção de Ventiladores

determinada temperatura, à passagem de um determinado fluxo de ar.


O secador de camada fixa modelo UFV foi projetado para ser construído
potencializando os materiais disponíveis na própria fazenda. Entretanto, é possível que
surjam problemas na hora de adquirir um ventilador. Quase sempre há necessidade de
grandes deslocamentos, onerando ainda mais um componente, que, além de caro, pode
não apresentar as características desejadas.
O ventilador descrito a seguir é apropriado para secadores cujo diâmetro da
câmara de secagem do secador esteja próximo a 5,0 m, que é o tamanho máximo
recomendado.

8.1. Descrição do Ventilador


O ventilador é formado pelos seguintes componentes:
a) Eixo - peça que tem como função permitir e suportar o giro do rotor em
torno de 1.700 rotações por minuto. Pode ser substituído pelo próprio eixo
do motor.
b) Rotor – peça fixada na extremidade do eixo. Esta peça tem como função
produzir e direcionar o fluxo de ar. O rotor é composto de disco principal,
pás e coroa ou anel (Figura 13).

Figura 13 - Rotor mostrando o disco principal, as pás e o anel.

c) Voluta ou Caixa Coletora - este componente tem como finalidade captar o


ar que entra e que sai do rotor. É composta por: lateral de sucção, lateral
motora, suporte do eixo ou do motor, entrada de ar ou distribuidor e janela
de manutenção.

8.2. Construção e Detalhes dos Componentes


Além de se ter à disposição uma oficina com materiais e ferramentas apropriadas
para a construção do ventilador, as especificações, os detalhes e as notas explicativas
fornecidas a seguir devem ser cuidadosamente seguidos para que se obtenha um
resultado satisfatório.

8.2.1 Eixo
Utilizar eixo de serra de 1 1/4", que é de mais fácil obtenção no comércio, ou
construir um eixo comum de 1 ½" montado em mancais com rolamentos de esferas e
que apresentam custos praticamente iguais. Caso seja de interesse, o sistema pode ser

262 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 10 Seleção e Construção de Ventiladores

acoplado diretamente ao eixo do motor. Neste caso, pode ocorrer o inconveniente de


uma substituição lenta e problemática do motor, devido a uma pane elétrica ou
mecânica deste.

8.2.2 - Rotor
Para efeito de construção, o rotor é dividido em três partes:
a) Disco principal - deve ser construído em chapa metálica de 4,18 mm (no 8),
com diâmetro de 0,50 m. Deve-se retificar o furo central e as bordas em
torno mecânico ou aperfeiçoar manualmente o acabamento, evitando
empenos no disco, para não comprometer o balanceamento do conjunto
(Figuras 14 a 16).
b) Coroa ou anel - é o espaço compreendido entre os raios internos e externos
que limitam os canais do rotor (Figuras 14 e 15); deve ser construído em
chapa com espessura de 1,52 mm (no 12). Vários canais radiais são formados
pela junção do disco principal com as pás destas e o anel metálico; estes
canais dão estabilidade e direcionamento ao fluxo de ar.
c) Pás - são peças metálicas soldadas ao disco principal. No presente caso, elas
são dispostas radialmente e eqüidistantes entre si. Em número de oito a doze,
as pás devem ter as dimensões mostradas na Figura 16.
d)

Figura 14 - Detalhes do disco principal, destacando-se os locais para assentamento


das pás e do anel externo do rotor.

Figura 15 - Detalhes do posicionamento das pás e do anel externo no disco


principal.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 263


Capítulo 10 Seleção e construção de Ventiladores

Figura 16 - Dimensões, detalhes e posicionamentos das pás no disco principal.

8.2.3 Voluta ou caixa coletora


No exemplo apresentado, para efeito de construção, optou-se pela forma
espiralada, como mostram as Figuras 17 a 23. A seção transversal da voluta, no presente
caso, terá a forma retangular e será construída em chapa no16 ou 14, soldada com solda
elétrica comum. Suas partes são:
a) Lateral de sucção: nela é encaixado o distribuidor de entrada de ar (Figura
14); lateral motora: é o lado da voluta em que é preso o suporte do eixo
(Figuras 18 e 19).
b) Entrada de ar ou distribuidor: tem como finalidade direcionar o ar de
maneira uniforme para os canais do rotor. Para facilitar sua construção, o
distribuidor terá a forma cilíndrica (Figura 23) e será construído em chapa no
16.
c) Janela de manutenção - abertura na parte superior da caixa coletora que
serve para a passagem do rotor durante a montagem e manutenção do
sistema. É fechada com chapa metálica no16 e parafusos de rosca soberba
(Figura 23).

8.3. Montagem dos Componentes


Apresenta-se, a seguir, um modo prático para cortar as laterais da caixa coletora,
o balanceamento do rotor e o acabamento.
a) Traçado das laterais (motora e de sucção): um processo prático para traçar
as laterais da caixa coletora de seção transversal retangular é o de Arquimedes, efetuado
com quatro arcos de círculo (Figura 17). Para isso, toma-se o lado do quadrado auxiliar
de construção a-b-c-d igual a 10% do diâmetro do disco principal, que no presente caso
é de 5,0 cm.
Com o centro no vértice a, traça-se o arco 1-2; com centro em b, o arco 2-3; com
centro em c, o arco 3-4; e com centro em d, o arco 4-6. Devem ser obedecidas as
proporções dadas na Figura 17, para interromper o corte das laterais no ponto 5. Para
iniciar o traçado do arco 1-2, o raio a-1 deve ter o valor de 42,5 cm. Sempre que

264 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 10 Seleção e Construção de Ventiladores

possível, é aconselhável fazer um molde, para evitar que, em caso de erro, as chapas de
aço sejam desperdiçadas. O molde permitirá aproveitar o máximo de cada chapa e
poderá ser aproveitado no caso de construção de ventiladores iguais.

Figura 17 - Traçado das laterais pelo método de Arquimedes (lateral de sucção).

Figura 18 - Lateral motora e suas dimensões básicas (em cm).

Figura 19 - Lateral motora montada na envolvente (fase inicial da montagem).

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 265


Capítulo 10 Seleção e construção de Ventiladores

Figura 20 - Lateral motora e de sucção montada na envolvente (segunda fase da


montagem).

Figura 21 - Suporte do conjunto e suas dimensões (terceira fase da montagem).

Figura 22 - Montagem da voluta sobre o suporte (quarta fase).

266 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 10 Seleção e Construção de Ventiladores

Figura 23 - Detalhe da lateral de sucção, mostrando o distribuidor de ar (quinta


fase da montagem).

b) Balanceamento do rotor: como o rotor irá girar em torno de 1.700 rpm, é


necessário que seu balanceamento seja correto para que não haja vibrações, garantindo,
assim, maior durabilidade do eixo e dos rolamentos. Um rotor balanceado dificilmente
irá parar na mesma posição depois de girar livremente sobre o eixo. No caso do rotor
não-balanceado, a parte mais pesada (ponto desbalanceado) irá parar sempre na posição
inferior (devido à força da gravidade). Para balancear, contrapesos metálicos são
colocados na posição oposta ao ponto desbalanceado. Encontrado o ponto próximo ao
equilíbrio, deve-se soldar os contrapesos e verificar o balanceamento, até encontrar um
equilíbrio adequado.
c) Acabamento: terminados os trabalhos de solda, faz-se o acabamento do
ventilador. Para a pintura, deve-se usar tinta resistente a altas temperaturas, que é feita
antes da montagem final do ventilador. Deve-se, também, desenhar em uma parte bem
visível (por exemplo, na parte alta da lateral motora) uma seta, indicando o sentido de
giro. Comandado pela polia motora, o giro deve coincidir com o movimento dos
ponteiros do relógio (sentido horário). Para isso, a voluta deve ser montada de tal
maneira que a boca de saída do ar esteja na parte inferior e à esquerda da lateral motora
(Figura 24).

Figura 24 - Vista final do ventilador, com detalhe do eixo e sentido de giro.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 267


Capítulo 10 Seleção e construção de Ventiladores

Para evitar acidentes e garantir o funcionamento correto do ventilador, antes de


fazê-lo funcionar, o montador deve verificar o giro do motor sem acoplar as correias de
transmissão. O rotor é acoplado ao eixo de modo semelhante ao da serra circular, isto é,
a porca do eixo é do tipo "rosca esquerda". Se o sentido de giro não for obedecido, o
rotor não ficará retido ao eixo, podendo causar danos e até mesmo um acidente.

8.4. Materiais Necessários


- eixo de serra de 1 ¼" ou eixo comum de 1 ½", mancais com rolamentos de
esferas;
- 3 m2 de chapa preta no 16;
- 2 m2 de chapa preta no 8;
- 1 m2 de chapa preta no 12;
- 12 parafusos com porcas 5/16";
- 28 parafusos com rosca soberba de 3/16" x ½";
- quatro parafusos de 2" x ½", para fixação do eixo;
- 1 kg de eletrodo (solda elétrica) de 2,5 mm;
- 2 litros de tinta para superfície metálica;
- 1 litros de solvente "Thinner";
- 20 kg de cantoneiras de ferro, com abas iguais, 1 ½" de espessura de 1/8",
para construção do suporte do motor e voluta.

9. LITERATURA CONSULTADA

1. BROOKER, D.B.; BAKKER-ARKEMA, F.W. & HALL, C.W. Drying cereal


grains. The AVI Publishing Company, Inc., Westport, Connecticut. 1974.
265p.
2. COSTA, E.C. Compressores. Ed.Edgar Blücher, São Paulo. 1978. 172 p.
3. HENDERSON, S.M. & PERRY, R.L. Agricultural process engineering. The AVI
Publishing Company, Inc., Westport, Connecticut. 1976. 442p.
4. MACINTYRE, A.J. Ventilação industrial e controle da poluição. Ed. Guanabara
S.A.; Rio de Janeiro (RJ). 1988. 403p.
5. PEREIRA, J.A.M. & PEREIRA, A.R.M Aeração de grãos (Parte II) -
Movimentação de ar e dimensionamento de sistemas. Centro Nacional de
Treinamento em Armazenagem. Viçosa (MG). 44p.
6. SILVA, J. S. & PINTO, F. A. C. Ventiladores e sua construção. In: Pré-
processamento de produtos agrícolas, Instituto Maria, Juiz de Fora, 1995. 510p.
7. SILVA, J. S. & LACERDA FILHO, A. F. Construção e operação de secador de
grãos. Boletim de Extensão. Universidade Federal de Viçosa - Imprensa
Universitária, Viçosa (MG), 1990, 28p.

268 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

Capítulo

11
AERAÇÃO DE GRÃOS ARMAZENADOS

Juarez de Sousa e Silva


Adílio Flauzino de Lacerda Filho
Ivano Alessandro Devilla
Daniela de Carvalho Lopes

1. INTRODUÇÃO

Os grãos, como materiais biológicos vivos, estão sujeitos a transformações de


naturezas distintas, oriundas da tecnologia aplicada ao sistema de pré-processamento.
A armazenagem tem por objetivo preservar as qualidades físicas, sanitárias e
nutricionais dos grãos, depois de colhidos. Durante essa fase, os fatores que influenciam
a boa conservação desses produtos são a temperatura e a umidade relativa do ar
intergranular e a temperatura e o teor de água dos grãos. Além desses, as características
estruturais e de higiene das instalações são fatores indispensáveis para a obtenção de
boas práticas de armazenagem.
Assim que a célula de armazenamento estiver sendo carregada, os grãos
variarão, provavelmente, em temperatura e conteúdo de umidade, por causa de
variações em maturidade, condições climáticas e variações na secagem. Porções de
grãos quentes e deterioradas podem ser criadas dentro do silo, mesmo que a condição
média da massa de grãos possa ser considerada adequada.
Ainda hoje, em unidades armazenadoras antigas, os operadores, ao verificarem
problema que possam comprometer a qualidade do produto, fazem movimentar a massa
de grãos através do ar ambiente. A esse procedimento denomina-se "transilagem". Essa
operação, apesar de resolver parcial ou totalmente os problemas, na prática, resulta em
vários inconvenientes, como:
a) Eleva o índice de danos mecânicos no produto durante a movimentação da
massa de grãos;
b) Necessita, na maioria das vezes, de mais tempo para a sua execução,
considerando que com apenas uma circulação do produto pelo ar ambiente o problema
pode não ser totalmente solucionado;
c) Apresenta elevado custo de instalação, já que o processo exige uma célula de

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 269


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

estocagem vazia na unidade armazenadora;


d) Tem custo operacional mais elevado, não só pela maior demanda de tempo,
mas também por envolver maior número de equipamentos e consumo de energia; e
e) Durante a movimentação, o atrito entre grãos e componentes do sistema de
transporte e entre os próprios grãos, provoca o aparecimento de pó orgânico, que é
potencialmente explosivo.
Para solucionar alguns desses problemas, sugerem-se o uso da técnica de aeração,
que consiste na passagem forçada do ar, com fluxo adequado, através da massa de grãos,
com o objetivo de prevenir ou solucionar problemas de conservação. A aeração apresenta
vantagens, como a possibilidade de supervisionar tanto o sistema quanto o produto
durante a operação de aeração. Além disso, é utilizada para melhorar a preservação das
qualidades dos grãos, em sistemas de armazenagem a granel, objetivando-se igualar a
temperatura da massa, minimizar as atividades dos fungos, diminuir a taxa de respiração
do produto armazenado e, quando possível, reduzir a temperatura dos grãos.
É possível que sucessivas aplicações de aeração resultem na formação de blocos
compactados de grãos e na concentração de finos em pontos localizados, dificultando a
passagem do ar. Neste caso, deve-se corrigir o problema com uma movimentação ou
transilagem do produto e, se possível, passá-lo pelo sistema de limpeza. Sabe-se que a
armazenagem a granel torna-se difícil, sem o uso da aeração, se for realizada por longo
período, mesmo sabendo que o produto encontra-se devidamente limpo e seco.

2. OBJETIVOS DA AERAÇÃO

A aeração pode ter diferentes efeitos sobre a massa de grãos, dependendo das
condições do ambiente e do próprio produto. Antes de colocar o sistema de aeração em
funcionamento, é essencial fazer previsões sobre os possíveis resultados da operação. A
utilização da técnica pode atender aos seguintes objetivos:
a) Resfriar a massa de grãos.
b) Uniformizar a temperatura da massa de grãos.
c) Prevenir aquecimento e umedecimento de origens biológicas.
d) Promover secagem, dentro de certos limites.
e) Promover remoção de odores.

2.1. Resfriar a Massa de Grãos


O resfriamento da massa de grãos armazenados constitui o principal objetivo e a
principal utilidade da aeração.
O microclima formado dentro da massa de grãos poderá trazer vários benefícios
ao processo de conservação. Até há pouco tempo, esses benefícios estavam relacionados
à supressão do desenvolvimento de insetos, ácaros e fungos. Entretanto, sabe-se que
grãos armazenados em temperaturas elevadas, 25 a 40 °C, como ocorre em muitas
regiões brasileiras, têm a atividade respiratória intensificada, o que propicia incremento
na perda de matéria seca, aumenta a umidade relativa do ar intergranular e produz calor.
Na Tabela 1, observa-se que milho armazenado em temperaturas variando entre
25 e 35 °C tiveram de 6 a 27 vezes mais perda de matéria seca, respectivamente, do que
grãos refrigerados a 10 °C.

270 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

Além disso, na faixa de temperatura de 25 a 40 °C a oxidação de lipídios pode


ser intensificada, o que contribui para a degradação da qualidade dos grãos, visto que a
mesma é acelerada pela ação do calor, luz, reações de ionização, dentre outros. Durante
esse processo degradativo, várias reações de decomposição podem ocorrer, levando à
produção de hidrocarbonetos, aldeídos, álcoois e cetonas. Entretanto, a produção de
ácidos graxos livres, resultante da degradação de lipídios, contribui significativamente
para o aumento do custo de produção de óleos vegetais, causando significativos
prejuízos às indústrias.

TABELA 1 - Perda de matéria seca em 1.000 t de milho armazenado durante 30 dias

Condições ambientes Temperatura (°C) Perda de matéria seca


Temperatura ambiente - média 25 Perda de 0,12% (= 1,2 t)
Temperatura ambiente - alta 35 Perda de 0,54% (= 5,4 t)
Grãos refrigerados 10 Perda de 0,02% (= 0,2 t)
Fonte: Brunner, citado por LAZZARI, (2007).

2.2. Inibir a Atividade de Insetos-praga e Ácaros


A maioria dos insetos-praga que infestam os grãos armazenados é de origem
tropical e subtropical e a faixa de temperatura adequada para o seu desenvolvimento está
entre 27 e 34 °C, sendo consideradas ideais as temperaturas entre 29 e 30 °C. Depois de
alguns meses de armazenagem, ou em ambientes com temperaturas acima de 27 °C, a
massa de grãos poderá ter elevado nível de infestação se ações preventivas não forem
tomadas. Os insetos-praga são sensíveis a baixas e a altas temperaturas, reduzindo seus
desenvolvimentos em temperaturas inferiores a 16 e superiores a 42 °C. Podem-se
estabelecer manejos adequados para o controle dos insetos-praga quando a temperatura é
mantida entre 17 e 22 °C, para aqueles cujo ciclo de vida é da ordem de três meses ou
mais. Isto porque a oviposição e fecundação dos mesmos é restrita em baixa temperatura,
com baixo crescimento da população, o que lava a danos menos significativos aos grãos.
A umidade relativa crítica para o seu desenvolvimento é da ordem de 30%.
Entretanto, são capazes de sobreviverem obtendo água metabólica, do ar ambiente ou do
próprio grão. A Tabela 2 contém informações sobre o comportamento de algumas
espécies de insetos-praga, de importância econômica para o processo de armazenagem,
em relação ao ambiente.
Os ácaros são pragas de grande importância econômica, principalmente nas em
regiões de clima tropical e temperado. Podem danificar o germem dos cereais, casca de
leguminosas, contaminarem os produtos com fezes e odores indesejáveis. O produto
infestado por ácaros, se destinado para a alimentação animal, poderá causar problemas
nutricionais aos mesmos e alergia aos operadores durante o manuseio. É importante
ressaltar que a presença de ácaros está relacionada a fungos, uma fez que os mesmos,
também, se alimentam desses microrganismos.
Desenvolvem-se em ambientes cuja temperatura varia entre 7 e 30 °C e umidade
relativa acima de 60%. O ambiente ideal para o seu desenvolvimento é estabelecido por
temperaturas entre 20 e 25 °C e umidade relativa entre 80 e 90%. Portanto, para o seu
controle deve-se estabelecer, principalmente, umidade relativa de equilíbrio inferior a

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 271


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

60%, o que se consegue por meio da redução do teor de água dos grãos, considerando-se
determinada temperatura. Grãos com umidade superior a 14% (b.u.) devem ser mantidos
em temperatura baixa (possível em climas temperados) ou por meio do resfriamento
artificial do ar, evitando-se focos aquecidos na massa. Alguns pesquisadores consideram
que, para infestações de pequena intensidade, o emprego dessa técnica poderá ser
dispendioso.
Na Tabela 3 contém informações sobre as temperaturas mínimas e ótimas para o
desenvolvimento de algumas espécies de ácaros.

TABELA 2 – Valores das temperaturas ótimas e favoráveis para o desenvolvimento de


insetos-praga em 100 dias e das umidades relativas mínimas para o
desenvolvimento de algumas espécies.

Tolerância à Temperatura (°C) Umidade


Tolerância
Espécies umidade (1) relativa
ao frio Ótima Segura
relativa mínima (%)
Trogoderma granarium 33 - 37 22 1
Tolerante a
Cryptolestes ferrugineus Resistente 32 - 35 20 10
baixa UR
Oryzaephilus surinamensis 31 - 34 19 10
Tribolium confusum Tolerante à
Moderado 30 - 33 21 1
baixa UR
Tribolium cataneum Susceptíve Tolerante à
32 - 35 22 1
l baixa UR
Rhyzopertha dominica Moderado Moderado 32 - 35 21 30
Cryptolestes pusillus Susceptíve
UR elevada 28 - 33 19 60
l
Sitophilus granarius Resistente UR elevada 26 - 30 17 50
Sitophilus oryzae Moderado UR elevada 27 - 31 18 60
Fonte: Navarro et al. (2002). (1) da oviposição.

Tabela 3 – Valores de temperaturas mínimas e ótimas para o desenvolvimento de algumas


espécies de ácaros

Temperaturas (°C)
Espécies Mínimas Ótimas
Tyrophagus putrescentiae 9 - 10 23 – 28
Glycyphagus deestructor 10 - 15 15 – 25
Cheyletus eruditos 12 25 – 27
Carpoglyphus lactis 15 25 - 28
Aleuroglyphus ovatus 22 23 – 25
Rhizoglyphus echinopus 6 - 10 23 – 27
Caloglyphus berlesei 16,5 22 - 30
Acarus siru 7 23 - 30
Fonte: Navarro et al. (2002).

272 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

2.3. Inibir o Desenvolvimento da Microflora


O teor de água do produto e a temperatura dos grãos e a temperatura e umidade
relativa do ar intergranular influenciam o desenvolvimento da microflora. Sabe-se que
grãos com teor de água de até 15% (b.u.) podem ser armazenados durante mais tempo, se
a temperatura for baixa (8 a 10 oC) e a umidade relativa do ar intergranular, não
ultrapassar 70%. Em regiões de clima tropical e subtropical é difícil estabelecer estas
condições por meio de aeração com ar natural.
Segundo Lazzari (1999), apesar de existir grande número de espécies de fungos
produtoras de micotoxinas, são poucos os que apresentam importância econômica, por
infectarem os grãos. Na Tabela 4 estão relacionadas algumas das principais espécies
produtoras de toxinas.

TABELA 4 - Principais fungos toxicogênicos que infectam grãos e seus derivados, com
as toxinas produzidas

Espécies de fungos Toxinas Grãos e produtos


Aflatoxinas B1,
Aspergillus flavus
B2, G1 e G2
Sementes de algodão, amendoim,
Aspergillus parasiticus
arroz, aveia e cevada.
Zearalenona e
Fusarium graminearum Canola, milho, trigo e triticale.
vomitoxina
Sorgo, soja, farelos (soja,milho e
Fusarium moliniforme Fumonisinas
trigo) e tortas (algodão e amendoim).
Fusarium roseum
Fusarium tricinctum
Penicillium viridicatum Ocratoxina A
Fonte: Lazzari, (1999).

Navarro et a. (2002) informam que para remover a umidade dos grãos com ar
natural é necessário mais ar do que para fazer resfriamento. Afirmaram que no processo
de aeração normal é utilizado entre 0,22 e 33 m3 de ar . min-1. t-1 para aerar,
temporariamente produtos úmidos, enquanto que com o resfriamento será necessário
aproximadamente0,11 m3 de ar . min-1. t-1 para resfriar ao ponto de inibir a atividade de
fungos e ácaros.
A Tabela 5 contém as indicações de temperaturas e umidades relativas mínimas
ótimas e máximas para o desenvolvimento de algumas espécies fúngicas.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 273


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

TABELA 5. Valores de umidade relativa, umidade de equilíbrio e de temperatura mínima,ótima e máxima para que ocorra o
desenvolvimento de fungos

Umidade relativa mínima para Umidade de equilíbrio Temperatura de desenvolvimento


Espécies de fungo germinação (%)a (% b.u.)b (°C)
Mínima Ótima Máxima
Alternaria 91b 19 -3 20 36-40
Aspergillus candidus(1) 75 15 10 28 44
A. flavus(1) 82 16-17 6-8 36-38 44-46
A. fumigatus(1) 82 16-17 12 37-40 50
A. glaucus(1) 72 13,5-14,0 8 25 38
A. restrictus(1) 71-72 13,5 - - -
Cephalosporium acremonium 97 22 8 25 40
Epicoccum 91 19 -3 25 28
Fusarium moniliforme 91 19 4 28 36
F. graminearum 94 20,5 4 25 32
Mucor 91 19 -3 28 36
Nigrospora oryzae 91 19 4 28 32
Penicillium funiculosum 91 19 8 30 36
P. oxalicum 86 17 8 30 36
P. brevicompactum(1) 81 16 -2 23 30
P. ciclopium(1) 81 16 -2 23 30
P. viridicatum(1) 81 16 -2 23 36
Nota: (1) se desenvolvem em baixo a moderado teor de água, as demais espécies, em alto teor de água. a Umidades relativas em que 5% ou mais de esporos podem germinar. b Umidade de equilíbrio à,
aproximadamente, 25,5 °C que estabelecem as mínimas umidades relativas de germinação de fungos, propiciando aumento no teor de água dos grãos, permitindo a competitividade dos fungos (valores
médios para milho e trigo). Fonte: Lacey et al, citados por NAVARRO et al. (2002).

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 275


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

2.4. Preservar a Qualidade dos Grãos


A qualidade dos grãos armazenados pode ser definida em função de diferentes
atributos, os quais devem atender a diferentes seguimentos de mercado, tais como, o
sementeiro, o da indústria de concentrados para a alimentação humana e animal, e o da
comercialização do produto “in natura”. Por isso, além da germinação, outros atributos
são utilizados para avaliar a qualidade dos grãos armazenados, quais sejam o teor de água,
o índices de impurezas, o envelhecimento acelerado, a condutividade elétrica, a infecção
por microrganismos, a contaminação por toxinas, a acidez de óleos e a formação de
peróxidos, índices de quebrados, trincados e danificados, infestação por insetos-praga,
massa específica aparente.
Grãos que possuem baixa viabilidade são mais vulneráveis à infecção por fungos
e, portanto, susceptíveis ao processo de deterioração. As modificações químicas que
ocorrem nos grãos, quando mantidos em baixa temperatura durante a armazenagem, são
lentas e, às vezes, até insignificantes. A velocidade das reações químicas que ocorrem nos
alimentos armazenados pode ser reduzida à metade quando a temperatura decresce em 10
o
C.
Grãos armazenados a granel formam um ecossistema característico, em estado
quase latente, em que todas as atividades bióticas são imperceptíveis (Figura 1), desde que
sejam estabelecidas condições favoráveis para o estabelecimento desse estado de latência.
Esta condição de aparente inatividade deve ser mantida durante maior tempo possível,
desde que o processo não resulte em perdas de qualidade do produto armazenado, o que é
alcançado por meio da redução de temperatura, do teor de água e do índice de impurezas
dos grãos, principalmente. Acréscimo na temperatura e, ou na umidade relativa do ar
intergranular poderá propiciar desequilíbrios em quaisquer dos fatores do sistema biótico,
resultado em perdas parciais ou totais da massa de grãos. A introdução de uma massa de
ar com temperatura baixa é uma técnica benéfica à conservação dos grãos, em estado de
repouso, por período de tempo mais prolongado.

Figura 1 – Composição do ecossistema da massa de grãos em um silo.

276 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

A Tabela 6 contém informações sobre o período máximo de armazenagem de


milho, considerando-se a perda de matéria seca de até 0,5%, em diferentes condições de
temperatura e teor de água.

TABELA 6 – Estimativa do tempo possível de armazenagem de milho, em dias, com


diferentes teores de água

Temperatura Teor de água (% b.u.)


(ºC) 15 16 17b 19b 21 23 25
c c c
0 377 206 131 92
c c
4 448 197 108 68 48
10 491 265 155 69 39 26 21
16 275 148 85 39 22 16 10
21 154 83 49 22 12 8 5
27b 86 47 28 12 7 4 3
32 48 26 15 7 4 2 2
38 27 15 9 4 3 1 1
Notas: b aeração contínua, com fluxo de 30 a 60 m3 h-1 t-1, durante o período em que o milho foi mantido
com 18% b.u. e, ou à temperatura de 27 ºC.
c
mais que dois anos.
Fonte: Steele et al.; Thompson; Friday, citados por Noyes & Navarro (2002).

2.4. Uniformizar a Temperatura


Outro importante objetivo da aeração, principalmente nas regiões onde existem
grandes amplitudes térmicas durante o dia, esta técnica pode ser utilizada para prevenir
ou evitar a migração de umidade. Neste caso, não se busca o resfriamento efetivo da
massa de grãos, mas mantê-la sob temperatura uniforme. Pelo fato de serem maus
condutores de calor, variações nas temperaturas da massa de grãos, inferiores a 4 °C,
são consideradas uniformes.
Gradientes elevados de temperatura poderão intensificar as correntes de
convecções naturais do ar intergranular, resultando no fenômeno de migração de
umidade, por propiciar a difusão de água. Por ocasião de tempo frio aparece uma
corrente convectiva com o ar descendo pela camada de grãos mais frios, ao longo e
próximos das paredes do silo, que sobe através das camadas de grãos, mais quente, no
centro do silo.
À medida que o ar sobe pelo centro, irá sendo aquecido e terá sua capacidade de
absorver umidade aumentada, retirando água dos grãos. Entretanto, quando o ar estiver
próximo da superfície superior e fria ele resfriará, perdendo capacidade de absorver
umidade e transferindo a umidade adquirida anteriormente para a camada superior de
grãos. Isto criará uma região de grãos úmidos no topo central do silo com grande
potencial para deterioração (Figura 2 a).
Por ocasião da estação mais quente, ocorrerá um fluxo de ar oposto (Figura 2b)
por causa das temperaturas ambientais mais altas. A condensação com um potencial
para deteriorarão acontecerá na região central no fundo do silo.
Um dos maiores problemas decorrentes da migração de umidade, quando são

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 277


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

criadas condições favoráveis para o desenvolvimento de fungos e de insetos, consiste na


mistura das camadas contaminadas com as descontaminadas, quando ocorrer a descarga
parcial ou total do produto armazenado. Dentre os danos causados, o mais preocupante é a
contaminação por micotoxinas.
A intensidade da migração de umidade poderá ser influenciada pela espessura da
camada de grãos e pela variação da temperatura em diferentes pontos da massa. Em
camadas muito espessas, observa-se aumento na velocidade das correntes naturais de
convecção e, consequentemente, incrementa-se o transporte de umidade e, a combinação
entre camadas de alta espessura com elevada diferença de temperatura, também,
intensifica a quantidade de umidade transportada.

(a) (b)
Figura 2 – Pontos de possíveis danos à superfície da massa de grãos, em função do
processo de migração de umidade.

2.5. Prevenir o Aquecimento dos Grãos


Esta vantagem aplica-se freqüentemente à armazenagem em silo pulmão, com
grãos úmidos, recém colhidos. Deve-se lembrar que, nessas condições, o produto deve
passar por uma operação de pré-limpeza. Neste caso, a aeração permite aumentar o fluxo
de entrada de produto úmido na unidade armazenadora, reduzindo nos investimentos ou
no super dimensionamento de secadores.
Existem limites máximos para teores de água e temperaturas dos produtos úmidos,
em relação ao tempo de espera para a secagem. A Tabela 6 contém esses referenciais para
milho. O operador deve estar atento e consultar a tabela sobre o tempo permissível para a
armazenagem de grão sob diferentes condições de umidade e temperatura. Nesse caso, o
sistema de aeração deve ser projetado para fornecer grandes volumes de ar, a fim de
manter a qualidade original do produto úmido até o início da operação de secagem. Para
as regiões tropicais, subtropicais e temperadas, o fluxo de ar aplicado em produtos úmidos

278 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

pode ser entre 10 e 15 vezes superior ao utilizado para fazer a aeração de equabilização ou
de resfriamento.

2.6. Promover a Secagem Dentro de Certos Limites


Em geral, não se entende a aeração como processo de secagem, porém, em
condições favoráveis, grãos úmidos (abaixo de 20% b.u.) são secados (secagem com ar
natural) em silos com altas vazões de ar em operação contínua, desde que a temperatura
do ar não atinja valores próximos de 0 oC. O fluxo de ar mínimo recomendado para
secagem, dependendo das condições ambientais e, como dito anteriormente, o fluxo é 15
a 25 vezes maior que o fluxo para a aeração de resfriamento. Por questões didáticas, a
utilização da secagem em silos deve ser diferenciada da aeração de resfriamento.
Remover os odores: em função da atividade biológica dos grãos e dos
organismos que constituem o ecossistema da massa, odores não-desejáveis podem
ocorrer. A aeração pode ser utilizada para remover, além desses odores, os gases
resultantes do combate às pragas e devolver aos grãos o cheiro característico.

3. SISTEMA DE AERAÇÃO

Consiste de um conjunto de equipamentos necessários à perfeita realização da


aeração. Basicamente, é composto por:
Ventilador com motor – devem fornecer a quantidade de ar necessária ao
resfriamento do produto e ser capaz de vencer a resistência oferecida à passagem deste ar
pela massa de grãos armazenada.
Dutos - permitem a insuflação ou a sucção de ar através da massa de grãos.
Silos - armazenam a massa de grãos.
Dispositivos para monitoramento - indicam as condições do ambiente interno e
externo da massa de grãos e, em alguns casos, podem acionar ou ligar o sistema de
ventilação em função daquelas condições.
Um sistema de aeração com ventilador fixo para cada unidade de armazenagem
pode ser simples, versátil e eficiente sob o ponto de vista técnico. Entretanto, pode ser a
opção mais cara, por exigir vários motores e vários ventiladores para produzir a mesma
quantidade de ar. A utilização de um único ventilador e duto de distribuição para mais de
uma unidade de armazenagem é uma alternativa satisfatória para o suprimento de ar.
Neste caso, faz-se a aeração em vários silos sucessivamente. A adoção de um ou mais
sistemas de ventilação deve ser baseada em um criterioso estudo técnico e econômico. A
Figura 3 ilustra um sistema de aeração em um silo.
Algumas definições importantes sobre os componentes e a operação de um
sistema de aeração são dadas a seguir:
Dutos para distribuição de ar - podem ser divididos em duto principal ou de
suprimento e duto secundário ou de aeração (Figura 4). O primeiro tem a finalidade de
conectar o ventilador a um ou mais dutos secundários e, estes, a de distribuir, o mais
uniformemente possível, o ar através da massa de grãos. A diferença básica está no fato
de que o duto principal não possui perfurações.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 279


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

Figura 3 – Componentes básicos de um sistema de aeração em silos.

Os dutos podem ser circulares, semicirculares, retangulares, em forma de "U" ou


de "V" invertidos. Silos com fundo falso, totalmente perfurado, são também utilizados.
Nos dutos perfurados, a área de perfuração deve corresponder no mínimo a 15% da área
total do duto, e cada furo deve ter dimensão e formas tais que não permitam a passagem
de grãos.

Figura 4 – Tipos de dutos de aeração.

Clique para ver: vídeo 1

280 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

As principais dimensões de um sistema de dutos são:


Tamanho - a seção transversal e a profundidade influenciarão a velocidade do ar
dentro do duto e a uniformidade de distribuição do ar na massa de grãos.
Área superficial - influenciará a pressão de saída de ar do duto para a massa de
grãos.
Espaçamento entre dutos - tem influência sobre a uniformidade de distribuição
do ar na massa de grãos.
Velocidade do ar dentro dos dutos - a velocidade admissível para o ar dentro do
duto é 470 a 600 m.min-1, quando o seu comprimento é de no máximo 7,5 m, ou 300 a
470 m.min-1, quando o comprimento varia de 7,5 a 18 m.
A velocidade do ar ao deixar os furos dos dutos para a entrada na massa de grãos
não pode exceder a 10 m.min-1, em silos horizontais (predominância do diâmetro ou da
largura sobre a altura), e 15 m.min-1, em silos verticais.
Ventilador: é a máquina utilizada para movimentar o ar através da massa de
grãos. Essa movimentação é feita por meio de um rotor centrífugo ou axial, acionado por
uma unidade motora (veja Capítulo 10). O ventilador deve ser dimensionado para:

a) Fluxo de ar: deve-se fornecer uma determinada quantidade de ar, medida em


unidade de volume por unidade de tempo e de massa ou de volume de grãos (m3
de ar por minuto por m3 de grãos ou m3 de ar por minuto por tonelada de
grãos). Adotam-se diferentes fluxos em função da variação na distribuição de ar,
para diferentes tipos de armazéns. Para silos verticais, pode variar entre 0,05 e 0,1
m3 min-1. t-1 de grãos, e para estruturas horizontais, entre 0,1 e 0,20 m3 min-1. t-1 de
grãos. Apesar da possibilidade de existirem variações devido a condições
atmosféricas, tipos de grãos, potência do motor, finalidade e tempo de aeração, a
Tabela 7 fornece indicação de alguns fluxos de ar para aeração.

b) Pressão estática: o ventilador deve vencer a resistência à passagem do fluxo de


ar, isto é, ter pressão superior à pressão estática do sistema, que é medida em
força por unidade de área e equivale à resistência que os grãos e o sistema de
distribuição oferecem à passagem do ar. A pressão estática é um valor importante
para o dimensionamento da potência do motor e o cálculo do ventilador.
Normalmente este valor é dado em milímetros de coluna de água (mmca) ou
Pascal (Pa). A pressão estática varia diretamente com a altura da camada de grãos
e com a velocidade com que o ar atravessa esta camada. A Figura 6 mostra essa
relação.

Unidade armazenadora: é a estrutura acondicionadora de grãos. Esta estrutura


pode ser vertical ou horizontal e depende das características técnicas e da relação entre a
altura e o diâmetro ou altura e largura da estrutura.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 281


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

Figura 6 – Variação entre a vazão do ar e a pressão estática, por metro de


profundidade de coluna de grãos.

TABELA 7- Recomendação de fluxos de ar para aeração

Fluxo de ar (m3 min-1. t-1 de grãos)


Tipo de unidade/finalidade
Região fria Região quente
Horizontal / grão seco 0,05 a 0,10 0,10 a 0,20
Vertical / grão seco 0,02 a 0,05 0,03 a 0,10
Pulmão / grãos úmidos 0,30 a 0,60 0,30 a 0,60
Seca-aeração 0,50 a 1,00 0,50 a 1,00

Clique para ver: vídeo 1

4. OPERAÇÃO DO SISTEMA DE AERAÇÃO

Antes de optar pelo uso de um sistema de aeração, deve-se avaliar as condições


climáticas, para atender aos objetivos propostos, principalmente quando se trata dos
aspectos de conservação dos grãos durante a armazenagem.
Um diagrama que relaciona temperatura e umidade de um lote de grãos é usado
para previsão das características de conservação da massa, durante o armazenamento.
Pelo diagrama, pode-se prever a natureza dos riscos a que o produto ficará sujeito
durante a operação de aeração (Figura 6). Neste diagrama, a melhor condição para
armazenar os grãos é estabelecida pela delimitação da área no espaço inferior à linha A

282 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

e à esquerda da linha B.
O diagrama apresentado na Figura 7 mostra outras variáveis que permitem uma
análise técnica sobre o uso de aeração.
Pelo diagrama, pode-se estabelecer as seguintes condições:
a) Para umidade relativa superior a 90%, a aeração é recomendada somente no
caso em que a diferença de temperatura entre os grãos e o ar for superior a 5
o
C.
b) Para umidade relativa inferior ou igual a 60%, a aeração só é recomendada e
aplicável em grãos úmidos ou que estejam aquecidos a uma temperatura muito
superior à do ar, necessitando, portanto, de resfriamento. Em outra situação,
poderá haver supersecagem da massa.
c) Resfriamento inferior a 3 oC torna a aeração desnecessária.
d) Resfriamento entre 3 e 5 oC torna a aeração recomendável.
e) Resfriamento com gradiente de temperatura superior a 7oC torna a aeração
possível, porém pode provocar condensação do vapor d'água na superfície da
massa e nas paredes do silo.

4.1. Como Resfriar ou Aquecer uma Massa de Grãos


O conceito de frente de resfriamento, assim como se entende o conceito de
frente de secagem, é importante para se entender a técnica da aeração. O funcionamento
do sistema de ventilação por umas poucas horas não irá resfriar toda a massa de grãos, a
não ser que o silo esteja carregado com uma camada pequena do produto. Num silo
cheio ou com carga de alguns metros de espessura, os grãos próximos da entrada de ar
serão resfriados à temperatura do ar, enquanto a temperatura dos grãos nas camadas
superiores permanecerá praticamente nas condições iniciais, exceto em uma faixa onde
está acontecendo o abaixamento de temperatura ou a frente de resfriamento (Figura 8).
Assim, é necessário continuar a operação de aeração até que a frente de resfriamento
tenha se movido através da massa de grãos e até que a camada superior tenha sido
resfriada e atingido valor igual à temperatura do ar.
Se o operador interromper a aeração, com a frente de resfriamento no interior da
massa de grãos, as diferenças de temperatura entre as camadas resfriadas, as camadas
em processo de resfriamento e as camadas em condições iniciais podem ser suficientes
para que ocorra migração de umidade, além de acelerar o processo de deterioração do
produto. Como foi dito, um dos objetivos da aeração é manter a temperatura da massa
de grãos o mais uniforme possível e próxima da condição ambiental. Além do visto
anteriormente, deve-se fazer aeração para evitar migração de umidade e promover o
resfriamento da massa de grãos. Nesses casos, deve-se operar o ventilador sempre que a
temperatura externa for 7oC inferior à temperatura dos grãos, levando-se em
consideração a umidade relativa média do ar de resfriamento, que deve ser igual ou um
pouco inferior à umidade relativa de equilíbrio do produto armazenado. Entretanto, a
flutuação diária da umidade relativa permitirá, de modo geral, operar o sistema de
aeração quando os valores de umidade relativa do ar estiverem 10% acima dos valores
da umidade relativa de equilíbrio.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 283


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

Figura 6 - Diagrama indicativo de aeração.

Figura 7 – Diagrama de conservação de grãos.

284 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

Figura 8 - Detalhe das camadas de grãos durante pequeno período de resfriamento

5. SUCÇÃO OU INSUFLAÇÃO DO AR

A forma de passar o fluxo pela massa de grãos pode gerar algumas


características muito importantes para o sistema de aeração. Quando o movimento de ar
é ascendente e o ventilador encontra-se instalado na base do silo, o sistema é conhecido
como insuflação ou ventilação positiva. Em sentido contrário, a ventilação é chamada
de sucção ou negativa (Figura 9). Em ambos os casos, tem havido controvérsia quanto
às vantagens da utilização de uma ou outra forma de ventilação.
Para se decidir sobre o uso de uma das opções, o operador da unidade
armazenadora deve considerar alguns pontos importantes. Um deles é que a insuflação irá
adicionar calor ao ar devido à ineficiência dos ventiladores. Em geral, os ventiladores e o
próprio sistema de distribuição produzem acréscimos superiores a 3oC na temperatura do
ar. Dessa forma, a escolha da insuflação poderá ser uma alternativa correta, se a umidade
da massa de grãos estiver acima da ideal de comercialização. A adição de calor abaixará a
umidade relativa do ar e poderá provocar secagem do produto, caso a umidade do grão
esteja acima da umidade de equilíbrio com a nova umidade relativa do ar.
Em se considerando o controle de pó, devido principalmente a problemas
ambientais e de segurança, o uso da sucção ou ventilação negativa é a opção correta.
Outro fator que pode ser considerado na adoção de ventilação positiva ou negativa é
a posição do foco de aquecimento. Se o ventilador estiver instalado na base do silo e o
foco quente estiver na parte superior da camada de grãos, a ventilação deve ser
ascendente, e, caso o foco esteja nas camadas inferiores, o fluxo deve ser descendente.
De modo geral, o operador deve considerar as seguintes vantagens:

5.1. Ventilação Positiva


a) facilita a avaliação da temperatura da massa de grão, em caso da inexistência do
sistema de termometria;
b) o calor gerado pela radiação solar no teto da unidade armazenadora não é
incorporado à massa de grãos e sim eliminado imediatamente; e

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 285


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

c) o ar ambiente pode ter sua umidade relativa reduzida pela elevação da


temperatura, em sua passagem pelo sistema de aeração antes de entrar na massa
de grãos, sem perigo de aumentar o teor de umidade do produto.

5.2. Ventilação Negativa


a) existe menor probabilidade de que ocorra condensação na superfície da massa
de grãos e no teto da unidade armazenadora;
b) os odores característicos que indicam a deterioração podem ser facilmente
detectados na saída do ventilador;
c) o calor proveniente do ventilador e do sistema de distribuição de ar não é
transferido para a massa de grãos e, neste caso, não afeta de maneira
pronunciada a umidade do produto, quando a umidade relativa do ambiente
estiver próxima à de equilíbrio com a umidade da massa de grãos; e
d) no caso de usar ventiladores axiais acionados por motores trifásicos, basta usar
uma chave de reversão para mudar o sentido do fluxo de ar.

(a) (b)
Figura 9 - Fluxo de ar sendo impulsionado para cima (a) e succionado através da
massa de grãos (b)

6. ACONDICIONAMENTO DO PRODUTO
Material fino, sementes de erva daninha e outros materiais estranhos irão afetar
negativamente a aeração, especialmente, se estes materiais estiverem concentrados em
um determinado local que, de modo geral, ficam localizados nas projeções centrais do
silo. Considerando que para aeração é usado pequenos fluxos de ar, qualquer aumento
na resistência ao fluxo terá grandes efeitos na trajetória do fluxo. Além disso, o
segmento cônico da carga, causado pelo ângulo de repouso do produto, quando
espalhadores não são utilizados, faz com que as trajetórias do ar próximo às paredes,
fiquem maiores do que nas regiões centrais do silo. Como resultado, será necessário

286 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

mais tempo deslocar a frente de aeração pelas regiões onde houver a concentração de
finos ou maior altura de grãos (Figura 10). Para evitar os problemas, um ou mais dos
seguintes procedimentos podem ser considerados pelo operador:
a) Fazer uma limpeza correta do silo e do produto antes de carregá-lo;
b) Evitar, ao máximo, que o produto caia com alta velocidade, produzindo
grandes quantidades de quebrados e finos;
c) Na impossibilidade de boa limpeza, distribuir, uniformemente, o produto
(inclusive os materiais estranhos e finos) ao longo da altura do silo. A
distribuição uniforme da "resistência" causará uma densidade global mais
alta no silo. Entretanto, uniformiza a distribuição do fluxo de ar;
d) Após o carregamento, tentar remover um pouco do produto do centro do
silo. Esse procedimento ajudaria a eliminar parte do material "resistente"
acumulado no centro do silo. O material central removido será,
conseqüentemente, substituído por um produto mais limpo; e
e) Certificar-se de que a frente de aeração tenha percorrido toda a massa de
grãos. Ou seja: ventilar por tempo mais prolongado.

Figura 10 - Caminhos, intensidade de fluxo e formas da frente de aeração; (a)


insuflação (b) sucção.

7. SISTEMA DE TERMOMETRIA

Um fluxo contínuo de elétrons é estabelecido através de dois fios de metais


diferentes (termopar) quando as suas junções são expostas a duas temperaturas
diferentes, como é mostrado na Figura 11.
Quando se aquece a junção 1 e se resfria a junção 2 (junção de referência), a
corrente elétrica começa a fluir no sentido de 2 para 1, até a junção quente. Esta corrente
gerada é chamada de corrente termelétrica e, devido à diferença de temperatura, a força
eletromotriz existente entre as duas junções é chamada de termo-força eletromotriz. A
f.e.m. gerada nos termopares é dada em mV e depende da temperatura da junção de
trabalho, da resistência e do tipo do termopar empregado.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 287


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

Figura 11 – Circuito termelétrico de diferentes metais.

7.1. Instalação do Sistema de Termometria


Na escolha do termopar devem-se levar em consideração o custo, a finalidade ou
faixa de temperatura a ser medida, as condições ambientais, o esforço físico a que será
submetido e a precisão da medida. Na prática, o termopar “cobre-constantan” é o mais
utilizado para monitorar temperaturas nos sistemas de aeração.
A instalação do sistema é feita com fixação dos cabos em pontos estratégicos na
massa de grãos. O espaçamento entre os cabos e entre os pontos é determinado por
critérios técnicos e econômicos, estabelecendo-se uma distância máxima de 6,0 m entre
cabos e 2,0 a 2,5 m entre os pontos de cada cabo (Figura 12).
Além dos fios condutores, o sistema é composto por cabos de aço com capacidade
para suportar esforços de tração provenientes do escoamento dos grãos durante a descarga
(Figura 13).
O sistema de leitura pode ser feito por instrumentos (potenciômetros) portáteis,
próprios para pequenas instalações, ou mesas computadorizadas, próprias para grandes
unidades armazenadoras, cujos pontos de medição são identificados em quadros
sinópticos (Figura 14). Nestas mesas, as temperaturas dos pontos são determinadas por
meio de cabos termelétricos que possuem uma série de fios de cobre em volta de um fio
de constantan, suportado por um cabo de aço (Figura 13).

7.2. Monitoramento do Produto Armazenado


Para manejar corretamente o produto, o operador deve estar apto a determinar as
temperaturas da massa de grãos em vários pontos do silo, obedecendo corretamente os
manuais dos fabricantes dos equipamentos e as normas da unidade armazenadora.
Especial atenção deve ser dada na obtenção das temperaturas das últimas partes a serem
atingidas pela frente de aeração. Em silos pequenos, pode-se trabalhar, razoavelmente,
com sondas simples, porém, em silos com grandes dimensões, um sistema de
termometria eficiente é altamente recomendado.
Caso seja necessária a entrada do operador no silo, para o monitoramento das
condições do produto, devem ser usadas medidas de segurança adequadas como:
a) nunca entrar no silo durante a descarga;
b) se parte do produto já foi retirada da célula, fique atento. Uma camada de
grãos compactada pode esconder uma cavidade que pode desmoronar
facilmente, com sérios danos para a célula ou para o operador.

288 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

c) escadas especiais devem ser instaladas nas paredes do silo para permitir
acesso fácil e seguro. Uma corda de segurança, bem ajustada, deve ser usada
se houver necessidade sair da escada de liberar uma das mãos; e
d) mesmo usando equipamentos de segurança e com iluminação adequada,
nunca entre em um silo sem estar acompanhado de um auxiliar.

Figura 12 – Posicionamento dos cabos termométricos

Figura 13 – Segmento de um cabo de termometria.

Figura 14 – Sistema para controle de temperatura em silos

Clique para ver: vídeo 1

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 289


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

8. CÁLCULO DE UM SISTEMA DE AERAÇÃO

O exemplo a seguir fornece o memorial de cálculos para o dimensionamento de


um sistema de aeração e para o tempo provável de resfriamento da massa de grãos.
Exemplo: dimensionar um sistema de aeração por dutos, para um silo de fundo
plano com 10,0 m de diâmetro e 12,0 m de coluna de grãos.

Dados:
- massa específica do produto: 750 kg.m-3;
- silo localizado em uma região quente; e
- eficiência do sistema de ventilação (n): 60%.

O dimensionamento de um sistema de aeração consiste em calcular a vazão de ar e


pressão estática do ventilador, a potência do motor, a área de perfurações, o número de
dutos, o espaçamento entre os dutos e o tempo provável de resfriamento da massa de
grãos. Para maior facilidade, o problema será equacionado obedecendo-se à solução passo
a passo.
Primeiro passo - cálculo da capacidade do silo (Ca):

Ca = A . H. Me eq.1
em que
A - área da base do silo, m2;
H - espessura da camada de grãos, m; e
Me - massa específica do produto, kg.m-3.

Ca = 78,5 x 12,0 x 750 = 706.500 kg ou 942,0 m3


Segundo passo - cálculo de vazão de ar (Q, em m3.min-1):
Da Tabela 1 obtém-se o fluxo de ar (F), indicado para unidades verticais, em
regiões quentes. O valor 0,05 m3/min.t é o mais indicado.

Q = F . Ca eq. 2

Q = 0,05 . 706,5 = 35,3 m3 de ar . min-1

Terceiro passo: cálculo da pressão estática (Pe, em cmca):


A Figura 5 fornece a variação entre a vazão específica de ar e a pressão estática,
por metro de camada de grãos, para diferentes produtos. Para efeito de cálculo, sugere-se
a utilização de valores obtidos na curva do produto que oferecer a maior resistência à
passagem do ar. Neste caso, faz-se a opção pelo trigo.

A vazão de ar (Q) por metro quadrado de piso é


35,3 / 78,5 = 0,45 m3 de ar. min-1. m-2 de piso
Da Figura 5 obtém-se a pressão estática (Pe):

Pe = 0,25 cmca . m-1 de camada de grãos.

290 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

A pressão estática total será obtida somando-se a pressão equivalente à altura total
da camada de grãos, a perda de carga devido a tubulações, válvulas, registros, curvas, etc.,
que é estimada em 20% da resistência oferecida pelos grãos. Considera-se, ainda, um
fator de compactação da massa de grãos igual a 60% em relação à pressão na camada de
grãos.
A pressão estática total (Pet) será:
Pet = Pe + (Pe . 0,2) + (Pe . 0,6)
Pet = 0,25 . 12 + (12 . 0,2) + (12 . 0,6) = 5,4 cmca.

Quarto passo - potência necessária ao sistema (Pot):

Pot (CV) = Q x Pet / 450 . n eq. 3

Pot = (35,3 . 5,4) / (450 . 0,6)


Pot = 0.71 ⇒1,0 CV

Quinto passo - cálculo da superfície perfurada (SP):


No cálculo da superfície perfurada, toma-se como referência a velocidade do ar
admissível na saída dos dutos para a massa. Neste exemplo, considera-se a velocidade
máxima do ar igual a 10 m/min, o que implicará menor queda de pressão.

SP = Q (m3./min-1) / V (m.min-1) eq. 4


SP= 35,3 /10
SP = 3,5 m2

Sexto passo - cálculo da seção transversal do duto principal (ST):


A área da seção transversal do duto principal é função da máxima velocidade do
ar admitida. Este exemplo considera a máxima velocidade do ar igual a 350 m/min:

ST=Q(m3.min-1) / V (m.min-1) eq. 5

ST =35,3 / 350= 0,10 m2

Sétimo passo: cálculo da largura (l) e da altura (h) do duto principal:


Extraindo a raiz quadrada do valor de ST calculado, podem-se obter os lados do
duto principal, admitindo uma seção quadrada. Entretanto, se for admitida uma seção
retangular, pode-se chegar a valores, para cada um dos seus lados (l), iguais a:

l = 0,30 m e h = 0,35 m

Estas dimensões devem ser preferidas, considerando-se os aspectos de construção.

Oitavo passo - cálculo do comprimento dos dutos perfurados (c):


Considerando que a altura dos dutos com área perfurada será igual à altura (h) do
duto principal, o comprimento do duto perfurado será:

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 291


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados
C=SP / h eq. 6

C=3,5 / 0,35 = 10 m de dutos

Nono passo: espaçamento dos dutos:


Na maioria dos casos, não é possível ter um duto único no silo para suprir o ar
necessário à massa de grãos. Portanto, torna-se necessário dividir o duto perfurado em
vários segmentos, que sejam adequadamente posicionados no fundo dos silos, para uma
perfeita distribuição do ar. Após o estabelecimento do posicionamento dos dutos e a
definição do posicionamento (Figura 4), deve-se dimensionar o espaçamento. Este
espaçamento é definido a partir da relação entre a maior distância (L) e a menor distância
(H) que o ar irá percorrer através da massa de grãos (Figura 15).
A relação ideal de L/H é 1,5. No entanto, variações entre 1,2 e 1,7 são toleradas.
L=H+X
em que X é o afastamento do duto, em m.

Assim:
L / H = 1,5
(H + X) / H = 1,5
X = 6,0 m

O valor de 1,5 não é uma relação desejável para dois dutos. O resultado sugere
uma relação de menor valor, por exemplo, 1,2.
L / H = 1,2
(H + X) / H = 1,2
X = 2,4m

O valor de X = 2,4 pode ser aproximado para 2,5 m, o que coloca os dutos
eqüidistantes do centro do silo, sem prejudicar a operação de descarga (Figura 16).
Outra maneira que pode ser usada para localização de dutos em um silo retangular
é usando o diagrama mostrado na Figura 17, adaptado de Hilborn (1976)

Figura 15 – Relação de distâncias para a distribuição dos dutos.

292 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

Décimo passo - cálculo da largura (l) dos dutos perfurados:


Foi definido anteriormente (sétimo e oitavo passos) que as alturas dos dutos
principais e perfurados terão o mesmo valor.

Considerando que há dois dutos perfurados e que os dois receberão a mesma


quantidade (Qi) de ar, tem-se:
Qi = Q/2
em que
Qi = vazão de ar na saída em cada duto perfurado, em m3.min-1.

No oitavo passo foi definido um comprimento total de 10,0 m para o duto


perfurado. Nestas condições, cada duto deverá ter comprimento (C1) igual a 5,0 m.
Com base nessas informações, obtém-se a largura (l) do duto perfurado.
A área total da seção perfurada (SP) é igual a 3,5 m2. Para cada duto, a área
perfurada (SP1) será:

SP1 = SP / 2 = 3,5 / 2 = 1,75 m2


L1 = SP1 / C = 1,8 / 5 = 0,36 = 0,40 m

Figura 16 – Localização dos dutos em relação ao centro do fundo do silo

Décimo primeiro passo.


cálculo do tempo provável de resfriamento:
O tempo provável para o resfriamento de uma massa de grãos em um silo, como
neste exemplo, pode ser determinado pela equação 7:

t = (16,6 mg Cg) / Qt Da Ca eq. 7


em que
t: tempo, horas;
mg : massa total de grãos, t;
Cg : calor específico do grão, kJ.kg-1 oC-1;
Qt : fluxo de ar total, m3.min-1.;
Da : densidade do ar, kg.m-3; e
Ca : calor específico do ar, kJ.kg-1oC-1.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 293


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

Considerando a densidade do ar como 1,15 kg/m3 e o calor específico do grão e do


ar como 1,67 e 1,00 kJ.kg-1oC-1, respectivamente, tem-se:

t = (16,6 x 706,5 x 1,16) / (35,3 x 1,15 x 1,00)


t = 482 horas

Figura 17 – Espaçamento entre dutos para silos retangulares.


Adaptado de Hilborn (1976)

Clique para acessar: Aplicativo 1

9. LITERATURA CONSULTADA

1. ARAÚJO, J.M.A. Oxidação de lipídios em alimentos. In: ARAÚJO, J.M.A.


Química de alimentos: teoria e prática. Viçosa, MG: Editora UFV, 2004. p.1-
67
2. HALL, C.W. Drying Farm Crops. Edwards Brothers, Inc., Ann Arbor, Michigan,
1957. 336p.
3. HOLMAN, L.E. Aeration of Grain in Commercial Storages, Marketing Research
Report, Nº 178, Washington, 1960. 46p.
4. HILBORN, D. Grain Aeration, March,1976 (disponível em:

294 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 11 Aeração de Grãos Armazenados

http://www.omafra.gov.on.ca/english/engineer/facts/85-003.htm
20/06/2008)
5. KEPLER, WEBER S.A. Aeração, Seca-Aeração, Termometria, Grafosul, Porto
Alegre, R.S., 1973. 34p.
6. LASSERAN, J.C. Aeração de Grãos, Série CENTREINAR, Nº 2, Artes Gráficas
Formato S.A., Belo Horizonte, M.G., 1981. 131p.
7. LAZZARI, F. A. Comunicação pessoal. 2007
8. LAZZARI, F.A. Controle de micotoxinas no armazenamento de grãos e
subprodutos. In: MOLIN, R.; VALENTINI, M.L. Simpósio sobre
micotoxinas em grãos. São Paulo: Fundação Cargill. 1999. p. 81-106.
9. MAIZTEGUI, A.P. & SABATO, J.A. Física, Vol. 2, Editora Globo, Porto Alegre,
R.S. 1973. 557p.
10. MESQUITA, A.L.S., GUIMARÃES, F.A. & NEFUSSI, N. Engenharia de
Ventilação Industrial, Editora Edgard Blucher Ltda, São Paulo, S.P., 1977.
442p.
11. NAVARRO, S. & CALDERON, M. Aeration Of Grain in Subtropical climates,
FAO - Agricultural Services Bulletin, Nº 52, 1982. 119p.
12. NAVARRO, S.; NOYES, R.; ARMITAGE, D.; MAIER, D.E. Objectives of
aeration. In: NAVARRO, S.; NOYES, R. The mechanics and physics of
modern grain aeration management. New York: CRC Press, 2002. p. 1-34.
13. NOYES, r.; NAVARRO, S. Operating aeration systems. In: NAVARRO, S.;
NOYES, R. The mechanics and physics of modern grain aeration
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14. PREOBRAZHENSKY, V. Measurements & Instrumentation in Heat
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15. SIMPSON, J.B. & PETTIBONE, C.A. Temperature. In: Instrumentation and
Measurement for Environmental Sciences, American Society of Agricultural
Engineering, St. Joseph, Michigan, 6.01-6.15. 1975.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 295


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

Capítulo

12
MANUSEIO DE GRÃOS

Juarez de Sousa e Silva


Adílio Flauzino de Lacerda Filho
Roberta Martins Nogueira
Gilmar Vieira

1. INTRODUÇÃO

O sistema de movimentação ou manuseio de grãos tem grande importância em


uma unidade armazenadora. Pesquisas mostram que os danos mecânicos causados aos
produtos, tanto em intensidade quanto no ponto onde o grão recebe o impacto, ocorrem
devido ao uso inadequado dos equipamentos ou de equipamentos inapropriados para a
movimentação do produto. SHREEKANT et al (2002) encontraram que os danos em
semente de soja aumentaram em 2,9, em média, durante o transporte em elevador de
canecas antes de cair na máquina de limpeza e lotes de sementes com teor de água a
10,7 b.u sofreram menos danos do que as sementes com menores teores de água. Em
UBS modernas, os elevadores de caneco ou caçambas com correia vem sendo
substituídos por elevadores de corrente com caçambas com o intuito de diminuir a
quantidade de danos.
Pesquisas mostram que a alta velocidade de movimentação, associada ao baixo
teor de umidade do produto, constitui a principal causa de danos mecânicos em
sementes. Assim, torna-se importante conhecer o princípio do funcionamento de cada
equipamento para se obter melhor qualidade, diminuir o consumo de energia, evitar o
desgaste nos componentes das máquinas, diminuir o tempo de operação e o gasto com a
mão-de-obra e, ainda, garantir menor possibilidade de misturar o produto manuseado.
Este último fator é de fundamental importância para quem trabalha com produção de
sementes.

2. TIPOS DE TRANSPORTADORES

A racionalização do transporte de grãos e sementes para a movimentação interna


em uma unidade armazenadora é um dos fatores que contribui para a redução dos custos
operacionais e, se os transportadores forem adequadamente selecionados, contribuem

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 297


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

para a manutenção da qualidade do produto. O movimento de produto durante o


processamento e armazenagem pode ser classificado em três grupos: transportes
verticais, horizontais e por deslizamento; neste capítulo serão mencionados somente os
transportadores mais utilizados em unidades armazenadoras e em fábricas de ração.
Serão destacados os seguintes equipamentos:

a) Transportador helicoidal (rosca-sem-fim).;


b) Elevador de caçambas.
c) Fita transportadora.
d) Transportador pneumático.

2.1. Transportador Helicoidal ou Rosca Sem-Fim


É um equipamento simples e muito utilizado para fazer a movimentação de
materiais granulares e farelos. Basicamente, consiste de um helicóide com movimento
rotativo e de um condutor estacionário (tubo ou calha). O transporte é realizado quando
o material, colocado em uma abertura de recebimento do condutor fixo, é deslocado ao
longo do helicóide por seu movimento de rotação.
Registros de descarga podem ser colocados em diferentes posições ao longo do
transportador. Os transportadores helicoidais podem ser também utilizados para
misturar diferentes materiais durante o transporte. São equipamentos compactos e de
fácil instalação em locais congestionados. É normalmente montado na posição
horizontal, podendo, entretanto, operar com qualquer inclinação.
Basicamente, um transportador helicoidal é composto pelos seguintes elementos
:
- helicóide;
- condutor;
- polia motora;
- suporte; e
- extremidades.

A Figura 1 mostra a configuração geral de um transportador helicoidal e as


dimensões importantes para o cálculo da capacidade e da potência necessária para
realizar o transporte do produto.
Nos equipamentos pequenos, portáteis ou montados sobre rodas e que
apresentam múltiplas funções de transporte em uma unidade armazenadora, a parte
exposta ou extremidade de carga do transportador helicoidal pode não ser apoiada em
mancais. Para os transportadores de grandes dimensões ou que trabalham em uma
posição fixa, as extremidades tanto de carga como de descarga devem ser apoiadas em
mancais com rolamentos blindados. No caso de o transportador apresentar grande
comprimento, o helicóide deve ser apoiado em um ou mais mancais intermediários, que
geralmente estão distanciados em 10 m.
As dimensões características de um helicóide e que são apresentadas na Figura
1, são:
a) Passo (P): é a distância compreendida entre duas cristas consecutivas
medidas paralelamente ao eixo do parafuso. No helicóide-padrão, o passo

298 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

tem a mesma dimensão do diâmetro do helicóide. No caso de parafusos


dosadores em que há necessidade de uniformidade no fluxo do produto, a
dimensão do passo pode ser de 1/3 a 1/2 menor que o diâmetro do helicóide.
b) Diâmetros: em um transportador helicoidal são considerados os diâmetros
do helicóide (C) e do eixo do helicóide (e). O diâmetro do helicóide
corresponde à distância vertical entre duas cristas consecutivas.

Figura 1 – Componentes e esquema básico de um transportador helicoidal.

2.1. 1. Tipos de helicóides


Dependendo do material a ser transportado e do trabalho a ser executado, haverá
uma característica específica para o helicóide e para o condutor. A Figura 2 mostra os
tipos de helicóides mais comuns utilizados para o transporte de produtos agrícolas.

Figura 2 – Tipos de helicóides : a) padrão - para transporte horizontal, b) para


transporte inclinado ou vertical (alimentação contínua), c) recortado -
tranportador misturador e d) fita - para produtos viscosos ou picado.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 299


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

2.1.2. Condutores
Condutor é o componente do transportador que suporta o helicóide e contém o
produto a ser transportado. Os condutores podem ser tubulares ou calhas em forma de
"U", com ou sem tampa protetora (Figuras 1 e Figura 3).
As calhas são utilizadas para o transporte horizontal e podem tolerar inclinações
de até 20o, sendo muito utilizadas para o transporte de produtos como rações e farinhas.
Os condutores cilíndricos, geralmente construídos em chapas metálicas, têm
utilização bastante ampla, pois podem trabalhar em qualquer inclinação (entre o
helicóide e o condutor deve existir um espaço variável de 1 a 10 mm).
A carga e a descarga podem ser feitas em qualquer ponto ao longo do
transportador, indiferentemente do tipo de condutor. Normalmente, a transmissão é feita
por correia e polias, no caso de equipamentos de menor capacidade e com caixa de
redução, no caso de transportadores de maior capacidade.

Figura 3 – Helicóide montado sobre calha aberta.

2.1.3. Dimensionamento do transportador


Consiste em estimar a capacidade do transportador e a potência necessária para a
execução de determinados trabalhos. A capacidade é função do tipo de produto e da
taxa de carga. A Figura 4 mostra os fatores de carga para diferentes características dos
produtos.
A carga mínima de 45% destina-se a grãos ou material fino que não possui
características abrasivas. A carga de 35% é adequada ao trabalho com materiais
abrasivos, torrões e misturas de torrões com materiais finos. É também adequada para
materiais fibrosos e polpas. Quando se trabalha com materiais pesados, abrasivos ou
fibrosos, como o feno cortado e a areia, ela não deve ultrapassar 15%. Para condutores
tubulares, como é o caso de grãos agrícolas, pode-se trabalhar até com 100% de carga.
A capacidade nominal de um transportador helicoidal trabalhando na posição
horizontal pode ser estimada pela equação 1:

300 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

Q = 4,71x10-5 ( D2 - d2 ) . p . N eq.1

em que
Q = capacidade de transporte, m3.h-1;
D = diâmetro do helicóide, cm;
d = diâmetro do eixo do helicóide, cm;
p = passo do helicóide, cm; e
N =número de rotações do eixo do helicóide, rpm.

Figura 4 – Fatores de carga para os transportadores helicoidais

Como a capacidade do transportador é função do diâmetro (D) e da velocidade


periférica do helicóide (N), o diâmetro máximo da partícula do material a ser
transportado determinará o diâmetro mínimo do transportador. Assim, o tamanho, a
consistência, a fluidez e a abrasividade do material limitam a velocidade máxima. A
Tabela 1 fornece os valores de massa específica e fator de potência para o
dimensionamento do transportador helicoidal, e a Tabela 2 relaciona as variáveis que
influenciam a capacidade do transportador, para uma taxa de carga de 45%.
Relacionando as variáveis contidas nas Tabelas 1 e 2, obtém-se a máxima
rotação admitida para um determinado produto e diâmetro do transportador (equação 2):

m3.h-1 req. = (ton.h-1) / (ton.m-3)

rpm req. = (m3.h-1) / (m3.h-1.rpm-1) eq.2

A potência requerida (equação 3) é função da capacidade, do comprimento, do


tipo de apoio do helicóide e do material transportado.

P = 2,22x10-4 ( Q . Me . L . Fm ) eq.3

em que
P = potência do requerida do transportador, cv;
Q = capacidade do transportador, m3.min-1;
Me = massa específica do material, kg.m-3;
L = comprimento total do transportador, m; e
Fm = fator de potência (depende do material), adimensional.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 301


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

TABELA 1 – Valores aproximados de massa específica e fator de potência para o


dimensionamento de um transportador helicoidal

Produto Massa específica (kg.m-3) Fator de potência (Fm)


Cevada 609 0,4
Soja 800 0,5
Milho 720 0,4
Aveia 416 0,4
Arroz 769 0,4
Trigo 770 0,4
Farelo 250 0,4

TABELA 2 – Relação entre as variáveis que influenciam a capacidade do helicóide


para uma taxa de carga de 45%

Tamanho Helicóide Capacidade (m3.h-1)


da partícula
Diâmetro (mm) rpm rpm rpm
(mm)
máxima 1 (um) máxima
19 152 165 0,06 11
38 229 150 0,23 34
51 305 140 0,56 76
63 356 130 0,87 113
76 406 120 1,23 159
76 457 115 1,87 215
89 508 105 2,69 283
89 610 100 4,73 473
Nota: a capacidade decresce com o aumento do ângulo de inclinação em, aproximadamente, 30%
para 15o e 55% para 25o.

Para assegurar o movimento com eventuais sobrecargas, quando a potência


atinge valores inferiores a 5 cv, deve-se fazer um incremento na potência calculada, de
acordo com a Tabela 3.

TABELA 3 – Fatores de correção para potência do transportador helicoidal

Potência (cv) Fator de correção (Fc)


menor que 1,0 2,00
de 1,0 a 2,0 1,50
de 2,0 a 4,0 1,25
maior que 5,0 sem correção

Para a utilização de uma rosca transportadora, o usuário deve conhecer pelo


menos os seguintes fatores:

302 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

- o fluxo de grãos ou a capacidade necessária; e


- as distâncias horizontais e verticais.

Necessita-se determinar:
1 - o ângulo de inclinação aproximado;
2 - o comprimento do transportador requerido;
3 - o número de rotações (rpm) da rosca;
4 - as dimensões do helicóide;
5 - o diâmetro da polia motora;
6 - o comprimento da parte exposta da rosca; e
7 - a potência necessária ao bom funcionamento do equipamento.

Os itens 1 e 2 podem ser obtidos segundo exemplo na Figura 5; o item 3, como


na Figura 6; e os itens 3 a 7 podem ser determinados por tabelas, fórmulas e diagramas.

Figura 5 - Conversão de distâncias horizontais e verticais em ângulo de inclinação


e distância inclinada.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 303


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

Figura 6 – Diagrama para cálculo da rotação do helicóide.

Na Tabela 4 são apresentadas a capacidade, a potência requerida (equação 3) e a


potência nominal para diferentes tamanhos de helicóides-padrão (diâmetro = passo),
para transporte horizontal de milho.

TABELA 4 - Capacidade (m3/h), potência requerida (cv) e nominal (cv) para transporte
horizontal de milho com diferentes tamanhos de helicóides
(diâmetro=passo)

Diâmetro Característica 200 rpm 400 rpm 800 rpm


(cm) Comprimento (m)
5 10 15 5 10 15 5 10 15
1
Pot. Requerida. 0,16 0,33 0,49 0,33 0,65 0,98 0,65 1,30 1,95
12 Pot. Nominal2 1/2 1/2 1/2 1/2 3/4 1 3/4 1 1/2 2
Capac.3 15 15 15 30 30 30 60 60 60
Pot. Requerida 0,33 0,65 0,98 0,65 1,30 1,95
15 Pot. Nom. 1/2 3/4 1 3/4 1 1/2 2
Capacidade 30 30 30 60 60 60
Pot. Requerida 0,79 1,57 1,77
20 Pot. Nominal. 1 2 2
Capacidade 70 70 70
Nota: para inclinações de 15o e 25o, a capacidade reduze entre 30 e 55%,
respectivamente. 1. potência requerida; 2. potência nominal; 3. capacidade

304 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

2.1.4 - Exemplo
Estimar a capacidade e a potência requerida por um transportador helicoidal que
opera na posição horizontal com 45% de carga, ao descarregar um secador. O
transportador apresenta as seguintes características:
- passo = 0,35 m;
- diâmetro do helicóide = 0,36 m;
- diâmetro do eixo = 0,08 m;
- rotação = 113 rpm;
- comprimento do helicóide = 5,0 m; e
- massa específica do produto = 680 kg.m-3

Solução: a partir da equação 1 pode-se estimar a capacidade do transportador para


operar com carga plena na horizontal:

Q = 4,71x10-5 (362 - 82) 35 x 113

Q = 229,5 m3.h-1

Como o regime de operação é com 45% da carga, Ter-se-á:

Q = 229,5 m3.h-1 x 0,45 = 103 m3.h-1

A potência necessária para o acionamento do transportador é dada pela equação


3:
P =2,22x10-4 x (1,72 x 680 x 5 x 0,4)

P = 0,50 cv

Como a potência estimada é menor que 1,0 cv, deve-se aplicar o fator de
correção de acordo com a Tabela 3:

P = 0,50 x 2 = 1,0 cv.

2.2. Elevador de Caçambas


É o transportador ideal para material granular. De maneira geral, trabalha na
posição vertical ou com pequena inclinação em relação à vertical. Além de possibilitar o
desalinhamento, a inclinação pode causar grandes dificuldades durante a operação do
elevador. A Figura7 mostra os componentes básicos de um elevador de caçambas que é
composto de:
- cabeça;
- módulos ou corpo;
- pé ou base;
- correia ou corrente; e
- caçambas
O produto deve apresentar grau de fluidez que garanta a continuidade do fluxo a

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 305


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

cada passagem das caçambas (carga) e que elas permaneçam limpas após descarga. As
caçambas ou canecas (Figuras 7 e 11) podem ser fabricadas em metal, plástico ou fibra
de vidro. A característica do material a ser transportado exige formas distintas de
caçambas, para evitar danos ao produto e aumentar o rendimento do transporte. Neste
sistema, o produto é elevado a uma altura que possibilita sua distribuição por gravidade,
por meio de dutos especiais. A carga das caçambas é feita na base, ou pé, e pode ocorrer
em:
- posição posterior, do lado em que as caçambas estão descendo; e
- posição anterior, do lado que as caçambas estão subindo.
A carga pela posição anterior é preferível, porque nela produtos com pouca
fluidez, como o café úmido e o arroz em casca, danificam menos o sistema de fixação
das caçambas à correia e a própria caçamba.

2.2.1. Cabeça do elevador


É o componente no qual se faz a descarga do produto, que pode ser realizada
pela ação da força centrífuga ou pela gravidade.
O dispositivo de descarga consta de um prolongamento da cabeça do elevador,
cuja principal característica consiste em minimizar os danos ao produto, devido ao
impacto durante a descarga.
No caso de transportadores de grande capacidade, a polia superior, que é
responsável pela movimentação do sistema correia/caçambas, tem a superfície
vulcanizada, a fim de minimizar o índice de patinação que ocorre principalmente no
início do acionamento. Em geral, o acionamento é feito por um motor elétrico acoplado
a uma caixa de redução. Nos elevadores de pequena capacidade, as polias são simples e
o sistema redutor de velocidade é feito pelo conjugado polia/correia.
O freio de retrocesso é um componente da cabeça do elevador, que impede o
retorno das caçambas, caso haja interrupção no fornecimento de energia elétrica. Com
isso, evitam-se entupimentos e outros tipos de problemas. Nos transportadores de
pequena capacidade, o freio mais utilizado é do tipo catraca. Para os elevadores de
grande capacidade, podem ser utilizados os freios de fita metálica ou, ainda, os freios
eletromagnéticos. A Figura 8 mostra a cabeça do elevador de caçambas, com detalhes
de seus componentes.

2.2.2. Corpo
Geralmente é constituído de chapas metálicas com perfil retangular ou circular.
É a estrutura que sustenta a cabeça do elevador e serve como condutor do sistema
correia/caçambas. O corpo é composto de módulos com extremidades flangeadas, para
permitir a união entre eles por meio de parafusos. Em um dos módulos existe uma
abertura com tampa, destinada aos serviços de manutenção e reparos.

2.2.3. Pé ou Base
É construído em chapas metálicas e possui os seguintes componentes (Figura 9):
- polia inferior;
- esticador de correia;
- dispositivo de carga; e

306 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

- janelas de inspeção e limpeza.

A polia inferior tem a superfície de contato vazada (Figura 10), a fim de evitar o
esmagamento e acúmulo de grãos entre a polia e a correia, o que poderia causar o
desalinhamento do sistema e danos ao produto.
O esticador de correia é constituído por um sistema cujos mancais do eixo
inferior são montados em um componente móvel. O deslocamento é feito pela ação
sobre parafusos de " chamada", o que, além de esticar, permite também o alinhamento
da correia.
O dispositivo de carga é responsável pelo direcionamento do produto nas
caçambas. Como sua posição interfere na intensidade de impacto do produto durante a
carga, influenciará diretamente o desempenho do transportador.
As janelas de visita são aberturas, em forma de registro de gaveta, que permitem
a limpeza dos restos de produtos ou impurezas remanescentes da operação anterior.

Figura 7 – Componentes de elevador de caçambas.

Figura 8 – Detalhes da cabeça de um transportador de caçambas.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 307


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

Figura 9 – Base ou pé do elevador.

Figura 10 – Vista da polia inferior.

2.2.4. Correia / Corrente

Qualquer um destes elementos é satisfatório para compor a maioria dos


elevadores que se destinam ao transporte de produtos agrícolas. A correia, entretanto,
permite maior velocidade de operação, o que resultará em maior capacidade de
transporte, mantendo-se as outras dimensões constantes. A característica do material de
construção é um fator importante a ser considerado ao se optar pelo uso da correia, a
qual deve resistir à tração, ter flexibilidade, resistir a trincas, absorver o mínimo de
umidade e permitir perfeita fixação das caçambas.
Os elevadores equipados com correia permitem a descarga centrífuga ou por
gravidade. A fim de evitar danos, é indicada a descarga por gravidade para o transporte
de sementes.
A corrente apresenta uso simples, é durável, resistente e de baixo custo, quando
comparada à correia. No entanto, exige baixa velocidade durante a operação de
transporte e não deve ser utilizada em elevadores muito altos. Por trabalhar em baixa
velocidade, normalmente os equipamentos com corrente possuem menores capacidades.

308 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

2.2.5. Caçambas
São recipientes fixados na correia ou corrente e recebem o produto no ponto de
carga. Dependendo das características do produto a ser transportado e da capacidade do
transportador, as caçambas terão desenhos, tamanhos e modo fixação diferentes.
O espaçamento entre as caçambas influencia a capacidade do elevador, e a
distância entre elas é de aproximadamente duas vezes a sua largura . Nos elevadores
com caçambas contínuas, forma-se uma sequência de quinze a vinte caçambas, e
somente a inferior possui fundo. Esta disposição refere-se a elevadores de alta
capacidade (Figura 11) .

Figura 11 – Modos de distribuição de caçambas na correia do elevador.

2.2.6. Estimativa da Capacidade e da Potência

A capacidade e a potência para acionar elevadores de caçambas dependem do


tipo de descarga. Produtos sujeitos a danos por impacto, que reduzem seu índice de
germinação e seu vigor, podem ser descarregados por gravidade. Neste caso, a
velocidade da correia não deve ultrapassar os 30 m.min-1.
O equipamento com descarga centrífuga, utilizado no transporte de grãos
comerciais, apresenta maior velocidade na correia e, conseqüentemente, maior
capacidade de transporte. A rotação necessária para que ocorra a descarga por
centrifugação pode ser obtida a partir da equação 4:
N = 30/ R ½ eq.4

em que
N = velocidade tangencial ou periférica da polia motora, rpm; e
R = raio efetivo da polia motora, m.

Raio efetivo é a distância entre o centro da polia e o centro geométrico da


caçamba (Figura 12).

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 309


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

A velocidade linear das caçambas (v, m.min.-1) pode ser calculada pela equação
5.
v=2.π.R.N eq. 5

A capacidade do transportador (Q, kg.min-1) é função da capacidade de cada


caçamba, da velocidade e do número de caçambas por metro de correia. A equação 6
permite estimar a capacidade do transportador.

Q=v.n.q eq.6
em que
q = capacidade de cada caçamba, kg de produto.caç-1 ; e
n = número de caçambas por metro de correia, caç.m-1.

Para calcular a potência exigida para o acionamento do elevador carregado, além


da capacidade de transporte, deve-se considerar a altura a que o produto deve ser
elevado (equação 7).

P = 2,22x10-4 ( Q x H ).Fa eq.7


em que
P = potência requerida, cv;
H = altura de elevação do produto, m; e
Fa = fator de segurança (1,10 a 1,15).

A Tabela 5 apresenta as características mínimas de um elevador de caçambas


para diferentes capacidades de transporte de milho.

Figura 12 – Caracterização do raio efetivo e sistema de forças na polia motora.

310 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

TABELA 5 - Algumas características de elevadores de caçamba para diferentes


capacidades e alturas de elevação

Cap. Caçambas Cap. Altura Diâmetro Largura Potência


(t/h) por metro Caçamba (m) polia Correia
(g) (cm) (cm) (cv)
10 3,5 430 10 30 15 0,5
15 0,75
20 1,0
20 4,5 580 10 40 22 1,0
15 1,5
20 2,0
30 5,0 800 10 40 22 1,5
15 2,0
20 2,5

2.2.7. Exemplo
Deseja-se elevar grãos de milho a uma altura de 20 m utilizando um
transportador de caçambas cuja polia tem raio efetivo de 0,35 m (raio da polia de 0,30
m). Existem 211 caçambas com capacidade individual de 0,80 kg, fixadas na correia.
Considerando que a descarga será feita por centrifugação e que a massa específica do
milho é igual a 750 kg.m-3, pede-se:
a) estimativa da capacidade, em kg.min-1 e em m3.min-1; e
b) estimativa da potência, em cv.

Solução:
a) Pela equação 4 obtém-se a rotação na polia do transportador:

N = 30/ (0,35)1/2 = 50,71 rpm.

A equação 5 fornece a menor velocidade da polia motora que permitirá a


realização da descarga por centrifugação:

v = 2 . 3,14 . 0,35 . 50,71 = 111,5 m.min-1

O número de caçambas por metro pode ser obtido relacionando-se o


comprimento da correia ao número total de caçambas.
O comprimento da correia é obtido a partir da soma dos dois ramos da correia
correspondentes à distância entre os eixos do transportador mais o perímetro de uma das
polias, conforme a equação 8:

L = Ra + Rd + (2 . π . r) eq.8
em que
L = comprimento total da correia, m;
Ra = comprimento do ramo ascendente da correia, m;

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 311


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

Rd = comprimento do ramo descendente da correia, m; e


r = raio da polia, m.

Quando os valores de Ra e Rd são iguais, correspondem à altura de elevação do


produto. Assim:
L = 20 + 20 + (2 . 3,14 . 0,3) = 41,90 m

Sendo o número total de caçambas igual a 211, Ter-se-á:


n = 211/41,9 = 5 caçambas por metro de correia.

A capacidade do transportador será (equação 6):

Q = 111,5 . 5 . 0,8 = 446 kg.min-1 = 0,6 m3.min-1

b) A potência obtida a partir da equação 7 fornece:


P = 2,22 . 10-4 . (446 . 20) . 1,15 = 2,5 cv.

2.3. Fita Transportadora


Equipamento de alta eficiência mecânica em que os danos por atrito ou impacto
só ocorrem, eventualmente, durante a carga ou na descarga. A correia é composta de
uma polia motora, uma polia-guia com esticador, roletes ou plataforma de deslizamento,
chassis ou estrutura de suporte e sistemas para carga e descarga. De instalação e
operação simples, é usada para transportes leves (frutas) ou mais pesados (grãos, brita,
minerais, etc.). Um transportador de correia pode operar em altas velocidades e
transportar produtos a longas distâncias, mas o limite de sua inclinação para o transporte
de produtos agrícolas é de 15o . Tem custo inicial e vida útil maiores que de outros tipos
de transportadores.
As Figuras 13 e 14 mostram detalhes de um transportador de correia.

Figura 13 - Fita transportadora de materiais granulados.

312 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

Figura 14 – Corte transversal de uma correia transportadora do tipo reversível ou


dupla.

As principais características mecânicas que a correia transportadora deve possuir


são:
a) Flexibilidade: deve-se adaptar a qualquer diâmetro de polia sem se tornar
quebradiça, o que poderia reduzir sua vida útil.
b) Resistência à tensão: deve ser resistente a este esforço, visto que, está
sempre sujeita a este tipo de deformação.
c) Resistência à corrosão: o revestimento da correia deve ser resistente à
corrosão, pois, em muitos casos, o produto pode receber tratamentos
químicos por meio de equipamentos instalados sobre a correia para o
controle de insetos. A resistência à abrasão é uma característica importante,
principalmente para o transporte de arroz.

O sistema de acionamento da correia é instalado no ponto de descarga, e a polia


motora deve ter um diâmetro que permita o máximo de contato com a correia. Em
muitos casos, é necessário um número maior de polias não apenas para ajudar no
esticamento, mas também para solucionar os problemas devidos à contração e expansão
da correia provenientes de variações climáticas do ambiente. O ajustamento ou
esticamento de uma correia pode ser feito por meio de parafusos de "chamada",
instalados no suporte da fita, por meio de polias livres no ramo de retorno ou por contra-
peso no eixo da polia secundária (mais usados em correias de grande capacidade).
Nos transportadores de correia, a carga pode ser feita em um ponto fixo por meio
de uma peça metálica de configuração geométrica afunilada ou por meio de um
componente móvel que permita o deslocamento para a carga ao longo de toda a correia.
A descarga pode ser feita naturalmente, no extremo oposto à carga ou em qualquer
ponto, por meio do "tripper", que consiste no arranjo de duas polias livres que dão à
correia a configuração de um "S" invertido (Figura 15).

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 313


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

Figura 15 – Descarregador móvel ou “Tripper”.

Clique para ver: vídeo 1 vídeo 2

2.3.1. Dimensionamento da Fita Transportadora


A capacidade da fita transportadora é função da sua concavidade transversal
(Figura 14), que por sua vez é função da inclinação das polias livres (roletes). A relação
e inclinação das polias livres dependem do material transportado (tamanho, forma e
fluidez das partículas), de acordo com os valores apresentados na Tabela 6. No caso de
grãos e partículas semelhantes, secas e limpas, esse ângulo vai de 8 a 19o. O
equipamento sai de fábrica com ângulo de inclinação dos roletes de 5 a 10o menor que o
ângulo de repouso do produto. Para o transporte de grãos em geral, é muito usada a
inclinação de 450 para roletes com espaçamentos iguais.

TABELA 6 - Área da seção transversal (m2) de uma fita transportadora com diferentes
larguras e ângulos de sobrecarga

Largura Margem Ângulo de sobrecarga Velocidade máxima


da fita livre (m/min)
(m) (m) 10o 20o 30o Mat. fino Grãos
0,36 0,043 0,0069 0,0089 0,0109 91,4 122,0
0,41 0,045 0,0094 0,0122 0,0150 91,4 137,0
0,46 0,046 0,0124 0,0161 0,0199 121,9 152,0
0,51 0,050 0,0158 0,0204 0,0253 121,9 183,0
0,61 0,056 0,0239 0,0308 0,0381 152,4 213,0
0,76 0,063 0,0391 0,0504 0,0622 167,6 244,0
0,91 0,071 0,0578 0,0746 0,0921 182,8 244,0
1,07 0,079 0,0807 0,1040 0,1273 182,8 244,0

A equação 9 é usada para determinar a potência necessária de uma correia


transportadora.
P = [1,292 V.L (0,015 + 3,28.10-4C) + M(0,48 + 9,9.10-3C) +
+ (3,33h .M)]/100 eq. 9

314 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

em que
P = potência estimada, cv;
V = velocidade da correia, m.min-1;
L = largura da correia, cm;
C = comprimento do transportador, m;
M = vazão mássica do produto, ton.h-1; e
h = altura de elevação, m.

2.3.2. Exemplos

a) Dimensionar o sistema de transporte de acordo com as especificações


apresentadas na Figura 16:

Figura 16 - Sistema hipotético de secagem e armazenagem.

1. Cálculo do elevador do secador: o elevador deve atender à capacidade do


secador, que é de 10 toneladas por hora. Para garantia de fluxo, recomenda-se que o
secador seja calculado com carga adicional de 20%. Portanto, o elevador deverá ser
dimensionado para uma capacidade de 12 toneladas por hora.
Supondo que a polia motora possua raio de 30 cm e raio efetivo de 35 cm, pode-
se calcular sua rotação utilizando-se a equação 4:
N = 30 / (0,35)1/2 ≅ 51 rpm
Utilizando-se a equação 5, calcula-se a velocidade linear mínima das caçambas
que permitirá descarga centrífuga:
V = 2πRN = (2). (3,14). (0,35). (51) ≅ 112 m.min-1

Admitindo-se a capacidade do elevador como12 t.h-1 e a capacidade unitária da


caçamba de 450 g, o número de caçambas por metro de correia, segundo a equação 6,
será:
12 t.h-1 ≅202 kg.min-1 = Vnq = (112).(n).(0,450)
n = 4 caçambas por metro de correia

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 315


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

A potência necessária para acionar o elevador carregado é calculada segundo a


equação 7:
P = 2,22 x 10-4 Q.H.Fa = 2,22.10-4. (202).(15).(1,15) = 0,77cv ≅ 1,0cv

2. Cálculo da rosca-sem-fim: a rosca sem fim deve atender à capacidade do


secador com capacidade adicional de 20%. Portanto, a rosca também deverá ser
dimensionada para a capacidade de 12 toneladas por hora ou 0,28 m3.min-1, para o
produto com massa específica de 721 kg.m-3. Utilizando um helicóide-padrão com
diâmetro e passo iguais a 15 cm, diâmetro do eixo igual a 5 cm e rotação de 120 rpm,
pode-se calcular a potência necessária para o acionamento da rosca de acordo com a
equação 3:

P = 2,22 x 10-4 (Q.Me.L.Fm) = (2,22 x 10-4).(0,28).(721).(10).0,4 = 0,18 cv

Pela Tabela 3, deve-se multiplicar o resultado por 2. Assim,


P = 0,18 x 2 ≅ 0,36 cv .

Comercialmente, adota-se um motor de 0,5 cv.

3. Cálculo do elevador para o silo: utilizando-se procedimentos semelhantes ao


empregado no cálculo do elevador do secador, considerando um elevador com cinco
caçambas por metro e capacidade de 15 t.h-1, encontram-se os seguintes valores:

N = 30 / (0,35)1/2 ≅ 51 rpm
V = 2πRN = (2). (3,14). (0,35). (51) ≅ 112 m.min-1
Q = Vnq = (112).(5).(0,450) ≅ 252 kg.min-1 ≅ 15 t.h-1
P = 2,22 x 10-4 Q.H.Fa = 2,22 x 10-4 . (252).(12).(1,15) = 0,77 cv ≅ 1,0 cv

4. Cálculo da fita transportadora: a fita deve atender à capacidade do elevador


do silo, que é de 15 toneladas por hora, com capacidade adicional de 20%. Portanto, a
fita deverá ser dimensionada para uma capacidade de 18 toneladas por hora ou 0,42
m3.min-1, para um produto com massa específica de 721 kg.m-3. Utilizando uma fita
com um ângulo de sobrecarga de 10o, pode-se, por meio de tentativas e com os valores
da Tabela 6, estimar a largura da fita. O volume transportado (Vol) é função da
velocidade (Vel) e da área da seção transversal da fita carregada (A). Admitindo, como
primeira tentativa, uma fita com 36 cm de largura e velocidade máxima de 122 m.min-1,
o volume transportado será:

Vol = A.Vel = (0,0069).(122) = 0,84 m3/min = 50,4 m3/h = 36,3 t/h

Pode-se calcular a potência necessária para o acionamento da fita de acordo com


a equação 9:
P = [1,292 x 122 x 36 (0,015 + 3,28.10-4 x 40) + 36,3 (0,48 + 9,9.10-3x 40) +

316 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

+(3,33 x 0 x 36,3)] / 100 = 1,91 cv ≅ 2,0 cv

A menor fita transportadora, pela tabela, tem capacidade superior à capacidade


necessária. Como a fita é um dos equipamentos mais caros entre os transportadores de
materiais granulares, sugere-se ao projetista fazer uma análise técnico-econômica para
escolha de outro transportador, como, por exemplo, uma rosca sem fim. Alternativa
seria a utilização de um elevador com saídas para os diferentes silos.

b) Uma fita com ângulo de 20o na sobrecarga transporta 45 toneladas de trigo


(PH = 78) por hora. Que largura deve ter a fita para operar em velocidade máxima?
A estimativa da largura da fita pode ser feita por tentativa, a partir da Tabela 6.
Sabe-se que o volume transportado pela fita, na unidade de tempo, é função da área da
seção transversal e da velocidade máxima.

Vol(m3h-1) = A seç. transv.(m2) . vel.(m.h-1)

Pela Tabela 6, com 20o no ângulo de sobrecarga e velocidade máxima para


grãos, Ter-se-á:
Vol = 0,0089 m2 x 122 m.min-1 x 60 min.h-1

Vol. = 65 m3.h-1.

Nota-se que este volume pode ser transportado em uma fita cuja largura seja
igual a 0,36 m, atendendo às especificações do problema.
A potência exigida para que a fita transporte o produto pode ser calculada
levando-se em consideração uma possível elevação do produto, a resistência oferecida
pela fita durante o deslocamento e a resistência contrária ao movimento, proveniente
das polias livres e dos acessórios. As constantes utilizadas em tais procedimentos
variam conforme as condições de operação e a flexibilidade da fita entre as polias livres,
causadas pela carga e absorvendo parte da potência.
A estimativa da potência deve ser executada em uma etapa, pelo uso da equação
9, ou em três etapas:

a) Estimativa da potência necessária para a movimentação da fita sem carga:

Pa =[V. L . 1,292 (0,015+3,28.10-4C)]/100 eq.10

b) Estimativa da potência necessária para transportar o material na posição


horizontal:

Pb =[M (0,48+9,9.10-3C)] /100 eq.11

c) Estimativa da potência necessária para a fita transportar o produto em posição


inclinada:
Pc = ( h x 3,33 x M ) / 100 eq.12

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 317


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

em que
P = potência estimada, cv;
V = velocidade da correia, m.min-1;
L = largura da correia, cm;
C = comprimento do transportador, m;
M = massa de produto a ser transportado, ton.h-1; e
h = altura de elevação, m.
A potência total estimada é dada por:

Pt =Pa + Pb + Pc eq.13

Exemplo:
Estimar a potência necessária para transportar 60 t.h-1 de trigo cuja massa
específica é 780 kg.m-3, a uma distância horizontal de 50 m, com uma elevação de 8,8
m, utilizando um transportador de correia sobre roletes em forma de calha.
O comprimento do transportador é determinado pela hipotenusa formada a partir
das distâncias horizontal e vertical, estabelecidas no problema.

tg(a) =8,8/50= 0,18


a = 10o (inclinação da fita).

O comprimento C será calculado por:


C = 8,8 / sen(10o)= 8,8 /0,19 =50,7 m.

O volume de produto transportado na unidade de tempo e a área da seção


transversal ocupada com o produto serão, respectivamente:
Vol = 60 t.h-1/0,78 ton.m-3 = 77 m3.h-1
Vol = Área seç. transv. x Vel. da correia.

Por tentativa, seleciona-se uma largura da fita, segundo a Tabela 6, para obter a
velocidade máxima correspondente.

Para L = 0,36 m e 10o de inclinação:


Vol = 0,0069 m2 x 122 m.min-1 x 60 min.h-1 = 50,5 m3.h-1.

Verifica-se que a fita com 0,36 m de largura não atende às necessidades de


transporte; faz-se então novo cálculo para uma fita de maior largura.

Para L = 0,41 m e 10o de inclinação:


Vol = 0,0094 m2 x 137 m.min-1 x 60 min.h-1 = 77,3 m3.h-1.

Este valor atende às necessidades do problema, isto é, 77,0 m3.h-1 de produto


transportado.
A estimativa da potência necessária para movimentar a fita sem carga (equação
10) será:

318 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

Pa = [137 x 0,41 x 1,292 (0,015 + 0,000328 x 50)] / 100

Pa = 0,02 cv.
A estimativa da potência exigida para o transporte na horizontal é dada pela
equação 11:
Pb = [60,0 x (0,48 + 0,0099 x 50)] / 100 = 0,6 cv.
Pela equação 12 estima-se a potência necessária para o transportador trabalhar
em posição inclinada:
Pc = (8,8 x 3,33 x 60) / 100 = 17,58 cv.

A estimativa da potência total será:


Pt = 0,02 + 0,6 + 17,58 = 18,2 cv.

Escolhe-se o motor com a potência comercial mais adequada que é 20 cv.

Nota: nos cálculos não foi considerada a eficiência do equipamento.

2.4. Transportadores Pneumáticos


Os transportadores pneumáticos movem os grãos, empregando-se um fluxo de ar
em alta velocidade, através de um sistema de tubulação hermético.
O projeto ou o uso de transportadores pneumáticos exige determinados
conhecimentos, como: pressão, velocidade e quantidade de ar necessária para o arraste
dos grãos; potência exigida; e características físicas do material transportado,
considerando-se que estas variáveis irão influenciar o desempenho do equipamento.
Como vantagens, os transportadores pneumáticos apresentam baixo custo inicial,
simplicidade mecânica, percurso de transporte único ou ramificado, facilidade na
variação da trajetória e sistema auto-limpante.
Elevada potência e danos ao material transportado (principalmente grãos) são as
principais desvantagens a serem consideradas na adoção de sistemas pneumáticos.
Os sistemas pneumáticos podem ser classificados de acordo com o sistema de
carga do produto, da seguinte forma:

2.4.1. Sistema de sucção


É um sistema que opera com pressão abaixo da pressão atmosférica, sendo muito
utilizado na descarga de caminhões, vagões e barcos e no transporte de materiais cuja
textura dificulta a fluidez através de válvulas, roscas alimentadoras e ventiladores
(Figura 17).
Nesse sistema, o material a ser transportado não passam pelo ventilador, pois
um ciclone retira o produto da corrente de ar e permite sua descarga. Geralmente, a
carga é realizada através de tubos flexíveis e ajustáveis para permitir maior ou menor
entrada de material granular.
Uma das vantagens deste sistema é a possibilidade de transportar material de
dois ou mais pontos para um ponto comum.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 319


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

2.4.2. Sistema por pressão


Nos transportadores por pressão, os grãos são colocados na tubulação por meio
de dosadores (injetores) para que a proporção de material granular e o fluxo de ar sejam
adequados (Figura 18).

2.4.2. Sistema combinado (Pressão e sucção)


É o sistema mais comum. Parte do transporte dos grãos é efetuada por sucção e
outra por pressão. Pode ser portátil, montado sobre rodas que permite fácil
deslocamento do conjunto. A Figura 19 mostra um esquema deste sistema
O ciclone, na linha de sucção, não permite que o material passe pelo
ventilador e alimente a linha de pressão.
A grande vantagem da utilização de um transportador pneumático está no fato de
este permitir o movimento do produto em qualquer direção, inclusive trajetos curvos,
além de permitir mudança de direção durante o transporte.
O conhecimento das características do ventilador, eficiência, pressão total,
potência requerida em função da vazão de ar a diversas rotações é de suma importância
para a escolha correta do ventilador, de modo que a eficiência do transportador
pneumático não fique comprometida.
Segundo SEGLER (1951), um incremento de 100% na potência consumida pode
facilmente surgir por meio de ventilador inapropriadamente dimensionado.
A pressão e a quantidade de ar a ser fornecida pelo ventilador são determinadas
em qualquer sistema de transporte pneumático pelas características da linha de
transporte. Essas condições são dependentes de vários fatores, tais como: diâmetro,
comprimento e natureza da tubulação, do fluxo e dos grãos a serem transportados, bem
como da queda de pressão ocorrida quando os grãos são alimentados no transportador.
Dependente, também, de outras características da linha de transporte, como: tipo de
alimentação, altura e tipo de descarga, mudança de direção.
A velocidade do ar na tubulação, que é função da pressão dinâmica, é descrita
pela equação 14:

v = 4,04 ⋅ Pd Eq.14
Onde:
v = velocidade do ar no transporte (m.s-1);
Pd = pressão dinâmica (mmca).

A vazão de ar no transportador é função da velocidade deste na linha de


transporte e da área da seção transversal da tubulação, conforme descrito na equação 15:

Q = v. A Eq.15
Onde:
Q = vazão de ar no transportador (m³.s-1);
A = Área da seção transversal da tubulação (m²).

320 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

Para determinação da potência do sistema, utiliza-se a equação 03:

Q ⋅ Pt Eq.16
Pot =
455.η inj ⋅ η ven
Onde:
Pot = Potência requerida (cv);
Pt = Pressão total (cmca);
ηinj = eficiência do injetor (dec);
ηven = eficiência do ventilador (dec).

Figura 17 – Transporte pneumático por sucção.

Figura 18 - Transporte pneumático por pressão.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 321


Capítulo 12 Manuseio de Grãos

Figura 19 - Transporte pneumático por sucção e pressão.

2.4.1. Movimento das Massas


a) Vertical: dependendo do tipo de grãos, a quantidade mínima de ar necessária
para a movimentação do produto varia de 0,93 a 3,16 m3.kg-1 de produto (Tabela 7).
Quando a velocidade do ar é reduzida e/ou a alimentação do equipamento contendo o
produto não é uniforme, a necessidade de ar por unidade de massa do produto
transportado pode ser aumentada bastante.
A pressão estática exigida para a sucção vertical do transportador é função da
perda de pressão devido ao atrito do ar contra as paredes do tubo, da pressão resultante
do peso do material granular no tubo e da perda de energia do material devido ao atrito
contra as paredes do tubo condutor.

TABELA 7 – Velocidade recomendada para transporte de produtos agrícolas

Produto Velocidade Produto Velocidade


m.min-1 m.min-1
Cevada 1524 -1981 Algodão (caroço) 1219 - 1829
Café (coco) 914 - 1067 Aveia 1372 - 1829
Milho 1534 - 2134 Trigo 1524 - 2134

b) Horizontal: embora o transporte do produto em condutores horizontais tenha


sido estudado por vários pesquisadores, há muitas dúvidas quanto à importância dos
mecanismos que envolvem os procedimentos dos projetos do sistema. Sabe-se,
entretanto, que existem perdas de energia resultantes do atrito entre o ar e as paredes do
conduto, entre os grãos e o ar, entre o grão e a parede do conduto e entre os próprios
grãos. Devido à falta de informação, há necessidade de conhecer certos fundamentos
mecânicos para o transporte horizontal.
Ao escoar livremente, a partícula estará sujeita a ação de força horizontal, devido
ao movimento do ar, e de força vertical, devido à gravidade.

3. LITERATURA CONSULTADA

1. DOBIE, J.B. & CURLEY, R.G. Materials handling for livestock feeding, circular
no. 517, University of California, 1963, 39p.
2. GIUDICE, P.M.del; HARA, T; PINHEIRO FILHO, J.B.; COELHO, D.T. &
AZEVEDO, J.M.P. Manuseio, secagem e armazenamento de café, Viçosa-
MG, UFV, 1972, 272p.
3. HENDERSON, S.M. & PERRY, R.L. Agricultural process engineering, The AVI
Publishing Company, Inc. Westport, 1976, 441p.
4. LACERDA FILHO, A. F.; SILVA, J. S. & AFONSO, A . D.L. Transportadores de
grãos. In: Pré-processamento de produtos agrícolas, Juiz de Fora, Instituto
Maria, 1995. 509p.

322 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 12 Manuseio de Grãos
5. REMPE, J.B. & COOPERCO, O.A. Bulk materials handling and storage. In:
American Feed Manufactures Association, Inc., Chicago, 1970, 497-528p.
6. SEGLER, G. Pneumatic grain conveying with special reference to agricultural
engineering. Natl. Institute of Agricultural Engineering, Wrest Park, Silsoe,
Bedfordshire, England, 174 p., 1951.
7. Shreekant R. Pardea, Rameshwar T. Kausalb, Digvir S. Jayas and Noel D. G. White.
Mechanical damage to soybean seed during processing Journal of Stored
Products Research Volume 38, Issue 4, 2002, Pages 385-394
8. SPIVAKOVSKY, A.O. & DYACHKOV, V.K. Conveying machines, Mir
Publishers, Moscou, Vol I, 1985, 229p.
9. SPIVAKOVSKY, A.O. & DYACHKOV, V.K. Conveying machines, Mir
Publishers, Moscou, Vol II, 1985, 262p.

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 323


Capítulo 13 Beneficiamento de Grãos

Capítulo

13
BENEFICIAMENTO DE GRÃOS

Juarez de Sousa e Silva


Fátima Chieppe Parizzi
Roberta Martins Nogueira
José Cardoso Sobrinho

1. INTRODUÇÃO

O beneficiamento é uma das últimas etapas do programa de produção de grãos.


É na unidade de beneficiamento que o produto adquire, após a retirada de contaminantes
(sementes ou grãos imaturos, rachados ou partidos, sementes de ervas daninhas,
material inerte, pedaços de plantas etc.), as qualidades físicas, fisiológicas e sanitárias
que possibilitam sua boa classificação em padrões comerciais.
Qualquer projeto agrícola que se queira iniciar deve ser baseado na escolha
correta das tecnologias. Portanto, após usar técnicas adequadas de preparo e fertilização
do solo e as boas práticas pós-plantio, nada sairá bem se o uso de sementes ou mudas de
alta qualidade não foi aplicado.
Numa unidade moderna, o beneficiamento é realizado por máquinas projetadas
com base em uma ou mais diferenças nas características físicas do produto e dos
contaminantes a serem retirados, ou seja, os grãos e as sementes devem passar pelas
etapas de pré-limpeza, secagem, limpeza e classificação e embalagem. No caso do café,
outras operações devem ser realizadas antes do beneficiamento, propriamente dito,
como separação. É sugerido ao leitor fazer uma passagem pelo Capítulo 2 (Estrutura e
propriedades físicas dos produtos agrícolas)

2. BASES PARA SEPARAÇÃO

A retirada das impurezas de um lote de grãos é feita com base na utilização das
diferenças físicas dos materiais que compõem o lote original (grãos perfeitos, impurezas
ou materiais estranhos e outros). O método mais primitivo de beneficiamento utilizado
foi o abano, que se baseia na diferença de densidade entre o produto perfeito e as
impurezas. No caso do café, as folhas são levadas pelo vento e o produto menor que o

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 325


Capítulo 13 Beneficiamento de Grãos

café passa pelo crivo da peneira (Figura 1)


Entretanto, a densidade não é a única característica física dos grãos; outras
diferenças, como tamanho (comprimento, largura e espessura), forma, cor,
condutividade elétrica, textura do tegumento e afinidade com líquidos, são reconhecidas
e constituem, hoje, as bases para projetos de máquinas modernas para separação dos
diferentes produtos agrícolas. Sugere-se ao leitor uma revisão detalhada do capítulo 2
(Estrutura, Composição e Propriedades dos Grãos).

2.1. Tamanho
Quanto ao tamanho, os grãos podem ser diferenciados por suas dimensões
(largura, espessura e comprimento), que podem ser mais bem caracterizadas segundo a
espécie em questão. Os grãos, que diferem em uma ou mais dimensões, podem ser
separados por:
a) Largura: de modo geral, quando é a única dimensão variável, isto é, quando
o comprimento e a espessura são iguais, podem ser separados nas peneiras de
crivos circulares ou de malhas quadradas (Figura 2A), que podem ser planas,
como nas máquinas de ventilador e peneiras, ou cilíndricas alveoladas, como
as usadas no classificador por largura.
b) Espessura: quando a espessura é a com maior variabilidade, isto é, com
mesmo comprimento e mesma largura, podem ser separados com peneiras de
crivos oblongos ou retangulares (Figura 2B). A largura do furo deve estar
relacionada com a espessura do grão ou semente. Para uma separação
efetiva, pode-se usar peneiras planas, ou separador cilíndrico, como no caso
anterior.
c) Comprimento: grãos que possuem a mesma largura e espessura, mas que
diferem em comprimento, podem ser separados pela máquina de discos ou
pelo separador cilíndrico alveolado (Figuras 3A e B). O separador cilíndrico
é o mais usado ultimamente.

No passado Ainda no presente

Figura 1 – Abano manual com peneira para separação do café no campo

Clique para ver: vídeo 1 vídeo 2

326 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 13 Beneficiamento de Grãos

(A) peneira de crivo circular (B) peneira de crivo retangular

Figura 2 – Tipos mais comuns de peneiras para separação.

Figura 3A – Máquina separadora de disco e detalhe da separação por


comprimento.

Figura 3B – Corte transversal e detalhes de funcionamento do separador


cilíndrico.

2.2. Peso
Os grãos que apresentam diferenças de peso ou de densidade entre si ou entre os
materiais estranhos podem ser separados com máquinas em que o material impuro passa
por uma corrente de ar. Nessa passagem, o componente de baixa densidade será
carreado pelo fluxo de ar, e os grãos pesados passam por um sistema contendo uma

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 327


Capítulo 13 Beneficiamento de Grãos

mesa densimétrica (Figura 4) ou, ainda, por um sistema em leito fluidizado. Antes de
passar pela mesa densimétrica, o material deve passar primeiramente por um separador
do tipo ar e peneira (Figura 5).

2.3. Forma
Os grãos esféricos podem ser separados dos materiais de formato irregular ou de
outros grãos que tenham a forma achatada, usando-se um separador espiral. Este
equipamento não possui partes móveis, mas permite que sementes esféricas rolem com
mais facilidade sobre um plano inclinado em forma de aspiral (Figura 6). Com maior
velocidade de descida, as sementes esféricas, com maior força centrífuga, são
descarregadas para uma espiral inferior, onde são separadas.

Figura 4 – Mesa densimétrica ou de gravidade.

Figura 5 – Separadora com ar e peneira

328 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 13 Beneficiamento de Grãos

Figura 6 – Separador centrífugo ou espiral.

2.4. Cor
Os separadores por cor (seletron) tornam possível a separação de sementes que
não podem ser separadas por nenhum dos métodos citados. Como exemplo, pode-se
citar o caso de grãos de café, que apresentam homogeneidade quanto a tamanho, forma
e densidade, mas têm colorações diferenciadas. O separador por cor (Figura 6) consiste
de um sistema de células fotoelétricas, que mudam sua características elétricas de
acordo com a intensidade luminosa emitida pelos grãos.

Figura 6 – Esquema básico da separação por cor “fotoelétrico”.

2.5. Condutividade Elétrica


Apesar de pouco utilizados, os separadores eletrostáticos separam as sementes,
geralmente de pequenos tamanhos, por diferenças entre suas propriedades elétricas,
induzidas ou ao natural. Um dos sistemas típicos consiste em uma correia
transportadora carregada eletrostaticamente. O material carregado com carga negativa
fica aderido à correia e é retirado na parte inferior da máquina por um conjunto de
escovas ou por um processo de eliminação gradual da carga elétrica (Figura 7).

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 329


Capítulo 13 Beneficiamento de Grãos

Figura 7 – Esquema básico de um separador eletrostático.

2.6. Textura do Tegumento


Uma máquina muito utilizada no beneficiamento separa as sementes pelas
características externas do tegumento. Um modelo especial consiste basicamente de
dois cilindros inclinados, recobertos por um tecido aveludado ou uma flanela. Os
cilindros giram em sentidos contrários e sob determinada velocidade angular para cada
tipo de sementes, que, para serem separadas, são colocadas entre os cilindros na parte
mais alta da inclinação. O material com superfície áspera ou rugosa é carreado pelo
veludo ou pela flanela para fora das laterais da máquina e o material com superfície lisa
deslizará entre os cilindros, e, pela ação da gravidade, é descarregadas na parte inferior
dos cilindros (Figura 8). Como em outras máquinas de separação, é necessário que o
material passe antes por máquina de ventilador e peneira.

Figura 8 – Esquema básico de um separador por tipo de tegumento.

330 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 13 Beneficiamento de Grãos

3. ETAPAS DO BENEFICIAMENTO

Durante o beneficiamento, os grãos e, principalmente, as sementes passam por


uma série de etapas (Figura 9), que devem ser realizadas com o máximo de cuidado. No
caso de uma usina de beneficiamento de sementes, deve-se planejar uma trajetória que
contemple os seguintes pontos:
a) As sementes devem receber, em seqüência apropriada, todos os tratamentos
necessários.
b) Deve-se selecionar as máquinas, segundo a capacidade e qualidade, de modo
que a seqüência operacional não seja interrompida.
c) As sementes não devem ser danificadas por excesso de manuseio (se
possível, movimentar o produto sempre por gravidade e a baixa velocidade).
d) A unidade de beneficiamento e seus equipamentos devem ser dispostos de
modo que possam ser higienizados adequadamente e com o máximo de
facilidade.
e) Deve-se evitar todos os pontos de contaminação.
f) Todas as operações devem ser otimizadas de modo a permitir menor custo de
produção.

Figura 9 – Fluxograma operacional da uma unidade de beneficiamento (Sementes


Petrovina - MT).

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 331


Capítulo 13 Beneficiamento de Grãos

3.1. Recepção
Dependendo das condições em que chegam à unidade de beneficiamento (em
sacos ou a granel), os grãos podem ser colocados nos depósitos ou silos para produtos a
granel (armazenagem provisória para produtos úmidos ou para produtos secos). Podem
também ser transportados diretamente para a linha de beneficiamento, iniciando-se,
primeiramente, pela operação de pré-limpeza para o café, veja.

3.2. Pré-Limpeza
Grãos colhidos com máquinas ou trilhadoras mecânicas apresentam grande
quantidade de impurezas, como pedaços de ramos, folhas, palhas, torrões, poeira etc.
Com o objetivo de facilitar e melhorar a eficiência dos sistemas de secagem, o
transporte e as demais operações de beneficiamento, deve-se eliminar total ou
parcialmente as impurezas. Para realizar esta operação, utilizam-se máquinas
denominadas peneirões ou abanadoras. Estas máquinas são constituídas de uma ou mais
peneiras, cilíndricas ou planas vibratórias, geralmente acompanhadas de um sistema de
ventilação, para eliminação de poeira e materiais leves.

Clique para ver: vídeo 1 vídeo 2

3.3. Secagem
Quando os grãos ou sementes chegam à unidade de beneficiamento com
umidade inadequada para o processamento ou para armazenamento por tempo mais
prolongado, o produto deve ser encaminhado o mais rapidamente possível para a
operação de secagem, depois de passar pela máquina de pré-limpeza. Quanto aos
sistemas de secagem a ser utilizados, sugere-se leitura detalhada do capítulo 5 –
Secagem e Secadores e do capítulo 17 – Secagem e Armazenagem de Produtos
Agrícolas.

3.4. Limpeza
A operação de limpeza visa essencialmente separar impurezas remanescentes da
pré-limpeza e as produzidas pelo sistema de secagem. Esta operação consta de uma
separação rigorosa de todos os materiais indesejáveis, como sementes ou grãos de
outras espécies (cultivadas ou silvestres), sementes defeituosas e imaturas, sementes ou
grãos quebrados etc.
Na operação de limpeza, usa-se, normalmente, a máquina de ventilador e
peneira, que, dependendo do rigor de separação, pode possuir várias peneiras e mais de
um ventilador. Estas máquinas são consideradas primordiais em toda Unidade de
Beneficiamento de Sementes (UBS).

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3.5. Separação e Classificação


A separação auxilia e complementa o processo de limpeza. Nos casos em que as
máquinas de ventilador e peneiras não conseguem realizar plenamente as operações de
limpeza e separação, deve-se utilizar outras máquinas que realizem essas operações,

332 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 13 Beneficiamento de Grãos

com base em outras características físicas.


No caso específico de sementes, algumas operações, como o tratamento químico
e o plantio, exigem uniformidade em forma e tamanho, para maior eficiência. Para isso,
é necessário que se faça uma rigorosa operação de classificação quanto às características
desejadas da semente. A operação de classificação é feita por máquinas separadoras,
como as de peneiras, de cilindro, de disco e outras, descritas anteriormente.

3.6. Tratamento
Essas operações consistem na aplicação de produtos químicos em formas
líquida, suspensão ou pó, visando proteger as sementes contra o ataque de fungos e
insetos. No caso em que o uso de um equipamento comercial não seja viável, pode-se
utilizar um tratador simples, que pode ser feito na própria fazenda (Figura 10). Esses
equipamentos produzem resultados aceitáveis, porém não permitem controle ideal da
dosagem e, se não forem operados com cuidado, podem provocar danos às sementes.
Usando tanto o tratador caseiro como o comercial, deve-se cuidar para que a aplicação
do produto seja o mais uniforme possível. Além disso, nunca se deve deixar que as
sementes tratadas fiquem sem identificação, a qual é feita pela aplicação de um corante,
para diferenciar das sementes não-tratadas. Uma identificação indicando que o produto
é prejudicial à saúde deve ser bem posicionada na embalagem.

Figura 10 – Tratador simples para sementes.

3.7. Transportadores e Acessórios


Durante todas as etapas do beneficiamento, grãos e sementes são movimentados
através de muitos componentes da UBS. Como as sementes não podem sofrer qualquer
tipo de danos mecânicos, cuidado especial deve ser dado à escolha, ao manejo e à
limpeza dos transportadores. Dentre os tipos de transportadores, já estudados no
capítulo 12 – Manuseio de Grãos, deve-se evitar o uso das roscas-sem-fim e dos
transportadores pneumáticos no transporte de sementes.
Além das máquinas de benefício e dos transportadores, que devem ser bem
selecionados e operados, a unidade deve ser provida de moegas, balanças, depósitos,

Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas 333


Capítulo 13 Beneficiamento de Grãos

ensacadeiras, embaladoras, aspiradores de pó, carregadeiras e um laboratório para


análise de sementes.

4. PLANEJAMENTO DE UMA UBS

Vários são os aspectos a serem considerados no planejamento de uma Unidade


de Beneficiamento de Sementes. O esquema básico de uma unidade deve ser
cuidadosamente estudado, a fim de assegurar que todos os pontos essenciais vistos no
tópico 3 (Etapas do beneficiamento) sejam plenamente atendidos. O projeto deve,
também, ser eficiente do ponto de vista econômico, ou seja, a operação do
beneficiamento não deve ser um componente que onere em demasia o custo final do
produto.
Muitas UBSs, além de não possuírem um quadro de pessoal com treinamento
adequado, são construídas sem planejamento, resultando em ineficiência de operação.
Portanto, é primordial providenciar que as cabeças dos elevadores fiquem bem cobertas;
que os poços de elevadores sejam amplos, para facilitar a manutenção e limpeza; que as
máquinas não sejam alimentadas diretamente pelo elevador; e que haja distribuição
adequada de máquinas no piso. Finalmente, deve-se planejar, para uma boa flexibilidade
de operações e para facilidade de limpeza e inspeção dos equipamentos.
Na seleção e aquisição dos componentes, deve-se dar preferência a marcas de
reconhecida qualidade, que possam prestar eficiente assistência técnica e treinamento
adequado ao corpo de operadores.

5. CONTROLE DE QUALIDADE E CLASSIFICAÇÃO

Os grãos e as sementes devem ser acondicionados e armazenados em condições


que mantenham sua qualidade para a comercialização e o plantio da lavoura
subseqüente. A manutenção da boa qualidade dos produtos primários refletirá em maior
rendimento para o agricultor e menor preço ao consumidor.
Mesmo sob as melhores condições de armazenamento, a qualidade dos produtos
agrícolas, exceto para o caso das sementes, que podem ser selecionadas e separadas de
maneira econômica, não pode ser melhorada, mas apenas mantida. A velocidade das
transformações degenerativas depende das condições sob as quais o produto foi
submetido no campo, antes e durante a colheita, na secagem e no beneficiamento.

6. QUALIDADE DOS PRODUTOS

As qualidades físico-fisiológicas caracterizam-se pela possibilidade de


manutenção das propriedades físico-químicas e pela capacidade das sementes de
desempenhar funções vitais, como manter elevado poder germinativo, vigor e
longevidade para a comercialização. Os grãos e sementes atingem a máxima qualidade e
o máximo conteúdo de matéria seca (ponto de maturidade fisiológica) quando ainda
estão retidos na planta. Normalmente, a avaliação da qualidade de grãos ou sementes é
realizada por meio do teste-padrão de germinação, por testes de vigor, como o do

334 Secagem e Armazenagem de Produtos Agrícolas


Capítulo 13 Beneficiamento de Grãos

envelhecimento precoce, por teste de viabilidade por sais de tetrazólio e por meio de
características como: umidade, tamanho, cor, forma e quaisquer outras características
externas. Os grãos, por sua vez, são comercializados com base em padrões nacionais e
internacionais de classificação. Para que se possa melhor entender os aspectos de
qualidade dos produtos agrícolas, é necessário, primeiramente, reconhecer alguns
pontos básicos, como:

a) Maturidade fisiológica: o ponto de maturidade fisiológica é considerado o


período em que a semente apresenta a máxima qualidade. Em termos
fisiológicos, de modo geral, corresponde ao acúmulo máximo de matéria-
seca, máximo de germinação e máximo de vigor. Contudo, neste período, a
colheita e a trilha mecânica são inviabilizadas, devido ao fato de o grão ou
semente apresentarem alto teor de umidade. Assim, é necessário retardar a
colheita, deixando o produto sujeito, em alguns casos, a condições climáticas
adversas, que facilita o ataque de microrganismo, dando início ao processo
deterioração.
b) Deterioração: inclui toda e