Você está na página 1de 17

Capítulo

Literatura africana de
35 língua portuguesa

A marca principal da literatura africana de língua portuguesa é sua postura de resis-


tência à dominação estrangeira, de reivindicação dos direitos humanos básicos, bem como
a denúncia da exploração de que ainda são vítimas as populações mais pobres. Muita
gente se engajou nessa resistência – cantores, pintores, poetas, escritores, intelectuais,
jornalistas. E, como ao longo de vários séculos, milhões de africanos foram trazidos ao
Brasil na condição de escravos, muitos brasileiros, descendentes deles, se reconhecem
nessa resistência.

Ryan Pierse/Getty Images

Grupo de capoeiristas em Sydney, Austrália, 2009. A capoeira desenvolveu-se entre os escravos de


origem africana, cuja presença marcou profundamente a cultura brasileira em vários outros aspectos,
como a música, a dança, a culinária, as tradições religiosas e a linguagem.

1
Literatura brasileira e portuguesa

As raízes
CAPÍTULO 35

Para buscar a origem da literatura africana de língua portuguesa, é preciso retroceder


até o período da escravidão, que se estendeu no Brasil, maior colônia de Portugal, por
quase quatro séculos.
Os escravos eram capturados e comprados na África e, depois, vendidos nos mercados
brasileiros. Em cada local do continente africano onde os portugueses se estabeleceram e
criaram colônias nasceu uma sociedade que foi obrigada a usar a língua portuguesa como
meio de comunicação oficial. As línguas nativas continuaram a ser faladas cotidianamente.
Mas nas escolas que com o tempo foram sendo criadas só se usava o português, que assim
se transformou em língua de cultura nessas regiões.
Só no fim do século XX, com as guerras de independência, as colônias portuguesas
conseguiram se libertar politicamente de Portugal, mas as marcas culturais de tantos
séculos permaneceram, e assim o português passou a ser a língua oficial de várias dessas
ex-colônias.
O chamado mundo lusófono, isto é, a comunidade dos países de língua portuguesa,
é formado por Brasil, Portugal, Timor Leste, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçam-
bique e São Tomé e Príncipe conforme representação abaixo. Os cinco últimos países são
africanos, mas Timor Leste fica no sudeste asiático.

PORTUGAL

CABO VERDE
GUINÉ-BISSAU
OCEANO
PACÍFICO SÃO TOMÉ
E PRÍNCIPE OCEANO
BRASIL ÍNDICO TIMOR LESTE
ANGOLA

MOÇAMBIQUE
OCEANO
ATLÂNTICO

0 1890 km

A herança africana de um poeta brasileiro


Reler o que foi dito
O poeta Solano Trindade (1908-1974) nasceu em Recife e morreu na cidade do Rio
sobre esse autor no
de Janeiro, depois de ter vivido em vários estados brasileiros. Foi pintor, teatrólogo, capítulo 20.
poeta, ator e folclorista. Teve intensa participação nos movimentos dedicados à preser-
vação e difusão da cultura negra, estimulando as novas gerações de afrodescendentes.
Deixou alguns livros de poesia, como Poemas de uma vida simples e Cantares do meu
povo, entre outros.

2
Literatura brasileira e portuguesa

Leitura
Capítulo 35

Sou negro
À Dione Silva
Sou negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh’alma recebeu o batismo dos tambores
atabaques, gonguês e agogôs. Glossário
Maracatu: “grupo
Contaram-me que meus avós
carnavalesco
vieram de Loanda pernambucano, com
pequena orquestra
como mercadoria de baixo preço
de percussão,
plantaram cana pro senhor do engenho novo tambores,
chocalhos, gonguê
e fundaram o primeiro Maracatu. (agogô dos
candomblés baianos
Depois meu avô brigou como um danado e das macumbas
nas terras de Zumbi cariocas), percorre
as ruas cantando,
Era valente como quê dançando sem
Na capoeira ou na faca coreografia especial”
(CASCUDO, Câmara.
escreveu não leu Dicionário do folclore
o pau comeu brasileiro. Rio de
Janeiro: Ediouro,
Não foi um pai João s.d.).
BETO FIGUEIROA/JC IMAGEM/AGÊNCIA ESTADO

humilde e manso. Pai João: figura


folclórica que
Mesmo vovó aparece em
cantigas e outras
não foi de brincadeira manifestações
Na guerra dos Malés da cultura oral;
caracteriza-se
ela se destacou. como um negro
idoso, submisso
Na minh’alma ficou e resignado à sua
o samba condição de escravo.
Malés (ou Malês):
o batuque denominação dada,
o bamboleio especialmente na
Bahia, ao negro de
e o desejo de libertação. religião islâmica
TRINDADE, Solano. Poemas trazido da África
antológicos de Solano Trindade. como escravo. A
São Paulo: Nova Alexandria, 2008. Encontro de Maracatu no carnaval de Nazaré da rebelião dos malês
p. 162-163. Mata, Pernambuco. Foto de 2009. ocorreu em janeiro
de 1835, durou
apenas alguns dias
e foi reprimida
1. No poema de Solano Trindade, o eu lírico resgata alguns aspectos da resistência violentamente
escrava no Brasil. Quais? pelas autoridades.
2. O eu lírico destaca também uma contribuição cultural do escravo africano. Qual? O termo malê
é de origem
3. Esses elementos apontados nas questões anteriores estão resumidos em que es- africana e significa
trofe do poema? “muçulmano”.

3
Literatura brasileira e portuguesa

Exemplos da literatura africana


Capítulo 35

de língua portuguesa
Hoje, graças às facilidades de comunicação, os contatos entre o Brasil e os países afri-
canos de língua portuguesa são cada vez mais frequentes. Escritores e artistas de ambas
as partes estão presentes em espetáculos, congressos literários, etc. Livros de autores
africanos começam a ser cada vez mais editados no Brasil. Embora o processo de integra-
ção cultural seja lento, ele é constante e deve continuar, porque nos enriquece a todos.
Daí a importância de concluirmos este livro com alguns exemplos da literatura africana
produzida em língua portuguesa, em verso e prosa. Esperamos que eles o estimulem a
procurar mais informações sobre os autores aqui mencionados.

Poesia: Aguinaldo Fonseca, Ovídio Martins, Reinaldo


Ferreira, Alda Lara, Conceição Lima, Alda do
Espírito Santo, Helder Proença
Os poemas a seguir foram escritos por autores que viveram os difíceis anos de luta pela
independência política de seus países, enfrentando, muitas vezes, sangrentas guerras civis.

Leitura
Cabo Verde

Revolta
Ao Evandro Matos

Revolta dentro do peito

MICHELE FALZONE/JAI/CORBIS/LATINSTOCK
Por aquilo que não fiz
E que eu devia ter feito.

Revolta dentro de mim


Por tropeçar em mim mesmo,
Por não saber onde estou...
Por caminhar tanto a esmo
Que trago os passos perdidos
Nos próprios passos que dou.

Revolta desde menino


Por tantas horas perdidas
A procurar o Destino
Nas sombras doutros destinos.
O arquipélago de Cabo Verde é formado por dez ilhas e oito ilhéus, sendo as
Revolta crua e sem fim... mais populosas as ilhas de Santiago (onde fica a capital, Praia), São Vicente
Tantos pedaços de mim e Santo Antão, destacando-se também a turística ilha do Sal. A cidade mais
populosa é Mindelo, que aparece na foto, na ilha de São Vicente.
Que destrocei sem saber!... Foto de 2010.
Revolta, sempre revolta,
Por um pedaço do céu
Que não me dão... e era meu..

4
Literatura brasileira e portuguesa

Revolta, funda revolta, Revolta dentro de nós,


Capítulo 35

Dentes rangendo na sombra. Revolta arrastando os passos...


Vozes mancharam-me a voz,
No fundo de um corredor
Braços prenderam os braços...
Crescem gemidos de dor
Voo desfeito no berço...
Dos escravos meus avós
Grilhetas prendendo os pés, Revolta crua e sem fim,
Prendendo também a voz... Revolta triste e infeliz,
E o sangue formou um rio Por trazer esta revolta
E o rio correu para o mar Fechada dentro de mim,
E foi chorar, noite e dia, Num verso que nunca fiz.
Nas praias de todo o mundo.
FONSECA, Aguinaldo. In: FERREIRA, Manuel (Org.).
No reino de Caliban: antologia panorâmica da poesia africana
de expressão portuguesa. Cabo Verde e Guiné-Bissau.
Lisboa: Seara Nova, 1975. v. 1, p. 160.

Lançada em 1936, a revista Claridade foi um marco na


INSTITUTO CAMÕES, LISBOA

literatura cabo-verdiana. Os claridodos – como ficaram co-


nhecidos os colaboradores da revista, entre eles Aguinaldo
Fonseca (1922-) e Ovídio Martins (1928-), de cuja produção
temos exemplos aqui – propunham a emancipação cultural
de Cabo Verde, com o abandono dos modelos portugueses
e a criação de uma estética própria, que refletisse melhor a
realidade física e social do arquipélago.

Antievasão
Ao camarada poeta
João Vário

Pedirei
Suplicarei
Chorarei

Não vou para Pasárgada

Atirar-me-ei ao chão
e prenderei nas mãos convulsas
ervas e pedras de sangue

Não vou para Pasárgada

Gritarei
Berrarei
Matarei

Não vou para Pasárgada

Caminhada, 1962
MARTINS, Ovídio. In: FERREIRA, Manuel (Org.). No reino de Caliban:
antologia panorâmica da poesia africana de expressão portuguesa.
Cabo Verde e Guiné-Bissau. Lisboa: Seara Nova, 1975. v. 1, p. 186.

5
Literatura brasileira e portuguesa

Moçambique
Capítulo 35

Receita de herói
Tome-se um homem,

AFRIPICS.COM/ALAMY/OTHER IMAGES
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.
Maputo, capital de
Serve-se morto. Moçambique,
FERREIRA, Reinaldo. In: SILVA, Manoel de Souza e. Do alheio ao próprio: em foto de 2007.
a poesia em Moçambique. São Paulo: Edusp;
Goiânia: Ed. da UFG, 1996. p. 108.

Reinaldo Ferreira nasceu em Barcelona, na Espanha, em 1922, mas passou a


maior parte da vida em Lourenço Marques (atual Maputo), em Moçambique, onde
morreu em 1959. Sobre ele escreve o crítico Manoel de Souza e Silva:

[...] Não há lugar para ele [Reinaldo Ferreira] na literatura moçambicana.


Na literatura portuguesa ele é o intruso, o espião, o que está sempre descon-
fortavelmente. Qual é afinal o seu lugar? [...] O que há de certo é que Reinaldo
Ferreira caiu em Lourenço Marques, ali viveu, escreveu poemas e morreu. É
certo, também, que algumas pessoas enxergam em seus poemas a genialidade;
outras, a alienação diante da miséria da vida na colônia. Todos têm razão. [...]
SILVA, Manoel de Souza e. Do alheio ao próprio: a poesia em Moçambique.
São Paulo: Edusp; Goiânia: Ed. da UFG, 1996. p. 107. (Fragmento).

angola

Rumo
É tempo, companheiro!
Caminhemos...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra...

Nela,
o mesmo sol ardente nos queimou,
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!

6
Literatura brasileira e portuguesa

Vamos, companheiro...
Capítulo 35

É tempo!

Que o meu coração


se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor

ZUTE LIGHTFOOT/ALAMY/OTHER IMAGES


as tuas longas mãos negras...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!

Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama...
É tempo, companheiro! Luanda, capital de Angola, em foto de 2010. Durante 28 anos, o país foi
Caminhemos... devastado por uma sangrenta guerra civil, que só terminou em 2002.

LARA, Alda. In: NEVES, João Alves das (Org.). Poetas e contistas
africanos de expressão portuguesa. São Paulo: Brasiliense, 1963. p. 51.

São tomé e príncipe

Descoberta
Após o ardor da reconquista
não caíram manás sobre os nossos campos.
E na dura travessia do deserto
Aprendemos que a terra prometida
era aqui.
Ainda aqui e sempre aqui.
Duas ilhas indómitas a desbravar.
O padrão a ser erguido
pela nudez insepulta dos nossos punhos.
LIMA, Conceição. Disponível em: <http://www.revista.agulha.nom.br/conclima.html>.
Acesso em: 22 set. 2011.

Representante da nova geração dos autores africanos lusófonos, Conceição


Lima nasceu na ilha de São Tomé, em 1961. Estudou jornalismo em Portugal e, de
volta a seu país, atuou em diversos órgãos de imprensa. Em 1993 fundou e dirigiu
o já extinto semanário independente O País Hoje. Atualmente mora em Londres,
onde trabalha como jornalista e produtora dos serviços de Língua Portuguesa
da BBC. Suas principais obras são O útero da casa, de 2004, e A dolorosa raiz do
Micondó, de 2006.

7
Literatura brasileira e portuguesa
CAPÍTULO 35

Ilha nua
Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e devida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras...
ESPÍRITO SANTO, Alda do. Disponível em:
<http://www.revista.agulha.nom.br//santo.html>.
Acesso em: 22 set. 2011.

Alda do Espírito Santo nasceu em São Tomé em 1926 e lá morreu em 2010.


Foi militante ativa do movimento de emancipação, tendo sido inclusive presa pela
polícia política portuguesa. Após a independência, ocupou vários cargos públicos
no país, entre eles o de ministra da Educação e Cultura.

Guiné-Bissau

Antologia poética
Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes

Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mãos

negras como breu o silêncio da resposta

Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres

8
Literatura brasileira e portuguesa

em toda a terra

PHOTO SEYLLOU/AFP PHOTO


Capítulo 35

e em todos os homens

Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a “Deus Pai todo poderoso
[criador dos céus e da terra”

Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção
[firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais
as amaldiçoavam cada existência
[nossa
Bissau, capital de Guiné-Bissau,
Quando te propus em foto de 2009. À parte a
abraçar a história, amor dificuldade de acesso a recursos
básicos, Guiné-Bissau exibe uma
tantas foram as esperanças comidas cultura rica e extremamente
insondável a fé forjada diversificada, oriunda das mais de
15 etnias que abriga.
no extenso breu de canto e morte

Foi assim que te propus


no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!

PROENÇA, Helder. Disponível em:


<http://lusofonia.com.sapo.pt/guine.htm#antologia>.
Acesso em: 22 set. 2011.

Helder Proença nasceu em 1956 e participou da guerrilha pela independên-


cia de Guiné-Bissau, vindo mais tarde, já com o país liberto, a exercer o cargo de
ministro da Defesa. Em 2009, vítima da violência política na região, foi assassi-
nado em uma estrada, na mesma noite em que Baciro Dabó, então candidato à
presidência, era morto em sua casa. Os dois eram acusados de tentativa de gol-
pe de Estado. A principal obra deixada por Proença foi Não posso adiar a palavra,
de 1982.

1. Levando-se em conta a relação entre literatura e contexto histórico, o que caracte-


riza os poemas lidos?
2. Sobre o poema “Antievasão”, responda:
a) Com qual texto da literatura brasileira ele trava uma espécie de diálogo?
b) Como se dá esse diálogo? Relacione o ponto de vista expresso no poema com o
contexto histórico em que foi escrito.
3. A respeito do poema “Receita de herói”, responda:
a) Que concepção de herói nasce dessa “receita”?
b) Que relação pode ter esse poema com a situação histórica da época?

9
Literatura brasileira e portuguesa

Prosa: Mia Couto e Pepetela


Capítulo 35

Como exemplo da prosa africana em língua portuguesa, apresentamos dois contos:


o primeiro é do moçambicano Mia Couto; o segundo, do angolano Artur Carlos Pestana, Em umbundo, uma das
línguas bantas mais
mais conhecido por seu pseudônimo literário Pepetela.
faladas em Angola,
"pepetela" quer dizer

PAULO GIANDALIA/AGÊNCIA ESTADO


Filho de portugueses, Mia Couto nasceu na cidade de "pestana".
Beira, Moçambique, em 1955. Iniciou sua carreira literária
nos anos 1970 e desde então transitou por quase todos os
gêneros – poemas, crônicas, contos e romances, dos quais se
destaca Terra sonâmbula, de 1992. No poema abaixo, o au-
tor aborda uma questão que é recorrente em sua obra.

Identidade
Preciso ser um outro Existo onde me desconheço
para ser eu mesmo aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
Sou pólen sem insecto
COUTO, Mia. Disponível em:
Sou areia sustentando <http://terradeesperanca.blogspot.com/>.
o sexo das árvores Acesso em: 22 set. 2011.

Leitura
texto 1

Enterro televisivo
“Uns olham para a televisão. Outros olham pela televisão.”
(Dito de Sicrano)

Estranharam quando, no funeral do avô Sicrano, a viúva Estrelua proclamou:


– Uma televisão!
– Uma televisão o quê, avó?
– Quero que me comprem uma televisão.
Aquilo, assim, de rompante em plenas orações. Dela se esperava mais ajus-
tado desejo, um ensejo solene de tristeza, um suspiro anunciador do fim. Mas
não, ela queria naquele mesmo dia receber um aparelho novo.
– Mas o aparelho que vocês tinham avariou?
– Não. Já não existe.
– Como é isso, então? Foi roubado?
– Não, foi enterrado.
– Enterrado?
– Sim, foi junto com o corpo do vosso falecido pai.
Tudo havia sido congeminado junto com o coveiro. A televisão, desmontada
nas suas quantas peças, tinha sido embalada no caixão. Era um requisito de
quem ficava, selando a vontade de quem estava indo.
Na cerimónia, todos se entreolharam. O pedido era estranho, mas ninguém
podia negar. O tio Ricardote ainda teve a lucidez de inquirir:

10
Literatura brasileira e portuguesa

– E a antena?
Capítulo 35

Esperassem, fez ela com a mão. Tudo estava arquitectado. O coveiro estava
instruído para, após a cerimónia, colocar a antena sobre a lápide, amarrada na
ponta da cruz, em espreitação dos céus. Aquela mesma antena, feita de tampas
de panela, ampliaria as electrónicas nos sentidos do falecido. O velho Sicrano,
lá em baixo, captaria os canais. É um simples risco a diferença entre a alma e
a onda magnética. Por razão disso, a viúva Estrelua pediu que não cavassem
fundo, deixassem o defunto à superfície.
– Para apanhar bem o sinal – explicou a velha.
O Padre Luciano se esforçou por disciplinar a multidão, ele que representava
a ordem de uma só voz divina. Com uns tantos berros e ameaças ele reconduziu
a multidão ao silêncio. Mas foi sossego de pouca dura. Logo, Estrelua espreitou
em volta, e foi inquirindo os condoídos presentes:
– E o Bibito, onde está?
– O Bibito? – se interrogaram os familiares.
Ninguém conhecia. Foi o bisneto que esclareceu: Bibito era o perso-
nagem da novela brasileira. A das seis, acrescentou ele, feliz por lustrar
conhecimento.
– E a Carmenzita que todas as noites nos visita e agora não comparece!
De novo, o bisneto fez luz: mais uma figura de uma telenovela. Só que me-
xicana. O filho mais velho tentou apaziguar as visões da avó. Mas qual Bibito,
qual Carmen?! Então os filhos de osso e alma estavam ali, lágrima empenhada,
e ela só queria saber de personagem noveleira?
– Sim, mas esses ao menos nos visitam. Porque a vocês nunca mais os vimos.
Esses que os demais teimavam em chamar de personagens, eram esses que
adormeciam o casal de velhotes, noite após noite. Verdade seja escrita que a
tarefa se tornava cada vez mais fácil. Bastava um repassar de cores e sonos
para que as pestanas ganhassem peso. Até que era só ligar e já adormeciam.
– Quem vai ligar o aparelho hoje?
– É melhor não ser você, marido, porque noutro dia adormeceu de pé.
De novo, o padre invocou a urgência de um silêncio. Que ali havia tanto
filho e mais tanto neto e ninguém conseguia apaziguar a viúva? Os filhos des-
cansaram o padre. Que sim, que iam conduzi-la dali para o resguardo da casa.
Estrelua bem merecia o reparo de uma solidão. E prometeram à velha que não
precisava de um outro aparelho, que eles iriam passar a visitá-la, nunca mais
a deixariam só. A avó sorriu, triste. E assim a conduziram para casa.
Aquela noite, ainda viram a avó Estrelua atravessar o escuro da noite
para se sentar sobre a campa de Sicrano. Deu um jeito na antena como que a
orientá-la rumo à lua. Depois passou o dedo pelos olhos a roubar uma lágrima.
Passou essa aguinha pela tampa da panela como se repuxasse brilho. De si
Glossário
para si murmurou: é para captar melhor. Ninguém a escutou, porém, quando
Campa: túmulo,
se inclinou sobre a terra e disse baixinho:
sepultura.
– Hoje é você a ligar, Sicrano. Você ligue que eu já vou adormecendo.
COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo:
Companhia das Letras, 2009. p. 121-123.

1. Embora se passe em Moçambique, esse conto pode ser visto como a representação
de um problema que afeta pessoas de qualquer parte do mundo hoje. Explique
essa afirmação.
2. Que relação podemos estabelecer entre o conto e a epígrafe?
3. Que diferença podemos destacar entre esse texto de Mia Couto e os demais textos
apresentados neste capítulo?

11
Literatura brasileira e portuguesa

texto 2
Capítulo 35

SÉRGIO LIMA/FOLHAPRESS
Nascido em 1941, em Benguela, Angola, Artur Carlos
Maurício Pestana dos Santos, conhecido por Pepetela, é um
dos mais festejados autores africanos lusófonos. Em 1997
ganhou, pelo conjunto da obra, o Prêmio Camões, concedido
pelos governos de Brasil e Portugal. A vasta obra de Pepetela
inclui crônicas, peças teatrais e romances, entre os quais se
destacam Mayombe (1980), O cão e os calus (1985), O desejo
de Kianda (1995) e Predadores (2005). Foto de 1999.

A revelação
O moleque parou de mastigar. Ficou suspenso, a boca cheia de ginguba Glossário
surripiada na panela que estalava sobre a fogueira. A voz da mãe repetiu o Ginguba (ou
chamamento! jinguba): amendoim.
– Candimba, vem aqui.
O miúdo levantou-se, engolindo rapidamente a massa de ginguba e saliva.
Aproximou-se em passo lento, mãos nos bolsos dos calções, cabeça baixa. Ma-
mãe me viu roubar na panela e vai castigar? O semblante da mulher aquietou-
-se. Não tinha os olhos que fazia quando descobria uma falta. Era então para
um recado. Só podia ser isso. E ele preferia estar descansado à sombra da
mandioqueira, vigiando a mãe: à espera de uma oportunidade para encher os
bolsos com a ginguba.
– Candimba, vai na venda do Sô Ferreira. Compra sal até encher isto mesmo.
E a mãe entregou-lhe uma caneca pequena, de mistura com algumas moedas
que tirou da dobra do pano. O miúdo recebeu as moedas, enfiou-as nos bolsos
dos calções. Com a caneca na mão, perguntou, aborrecido!
– Sal ’cabou, mamã?
– Se te mando! Mania só de fazer perguntas! Vai depressa, hein? E volta logo.
Não te quero ver com esses vadio da rua que não trabaia nada. Se t’apanho a
jogar à bola chapo-te mal. Toma conta!
– Posso tirar um bocadinho? Só prá provar...
E o menino olhava gulosamente para a ginguba descascada, repousando
num tabuleiro de folha. Em seguida, a mãe deitaria os bagos na panela de
açúcar em calda, mexendo com a colher. Depois de deixar secar, dividiria em
pacotinhos de papel de seda que o miúdo venderia na cidade. Cinc’ostões cada
um, gritaria Miúdo Candimba pelas ruas. Quando já está distribuída pelos pa-
WERNER FORMAN ARCHIVE/GLOWIMAGES –
COURTESY ENTWISTLE GALLERY, LONDRES

cotes não há possibilidade de petiscar. Tá tudo bem contado, mamãe confere


o dinheiro. Topa logo se falta. Agora era a última ocasião de poder saborear a
ginguba. Por isso os olhos luziram quando entendeu a resposta:
– Bom. Tira uma mãozada. Mas anda depressa, tás ouvir?
Candimba encheu os bolsos precipitadamente, saiu a correr. Passou uma
tangente na cerca de Dona Joana – essa gorda que só fala mal dos outros –
meteu pela rua esburacada, insensível aos chamamentos dos companheiros.
Parou à frente da loja. Queria despachar-se rapidamente, ansiando meter o
dente naquela ginguba toda que o esperava no tabuleiro. S’inda tenho tempo...
Escultura em madeira
À entrada, ouviu a voz irada de Sô Ferreira. Discutia com a Mariana, rapa- da cultura Chokwe,
riga que casou no ano passado com o Chico da serração. Eué, manda zanga, Angola, século XIX.
pensou o miúdo. Meteu a cabeça na porta, os olhos muito grandes e redondos, Autoria desconhecida.

12
Literatura brasileira e portuguesa

espiando. O branco do balcão não reparou nele. Estava vermelho gesticulava,


Capítulo 35

tudo acompanhado de muitos berros. Miúdo Candimba achou que ele não era
como as outras pessoas, nele a voz é que acompanhava os gestos. Mariana
chorava, de costas para a porta, tapando a boca com o antebraço. O moleque
ouvia-a suplicar!
– Sô Ferreira! Meu marido vai saber. Filho sai mulato, Chico vê logo não é
dele. Ele me mata, Sô Ferreira...
– Quero lá saber! Que culpa tenho eu? Agora avia-te... Ora bolas! Que
provas tens que o filho é meu? Ainda nem nasceu! Como é que podes saber?
– Sei, sim, juro com Deus. Senti mesmo!
Miúdo Candimba esqueceu a ginguba na boca aberta, os assustados
olhos tudo prescutando. Não percebia bem a conversa. Embora já falasse aos
companheiros acerca dessas coisas proibidas, ainda era muito pequeno para
compreender imediatamente. Mas sentia algo de terrível nas palavras trocadas.
– Ouve lá! Julgas que me levas assim? Como podes ter sentido? Como se
eu fosse parvo!... O filho é do teu marido, dormiste com ele muito mais vezes
do que comigo.
– Mas eu sei! Eu sei. Juro que vai sair mulato.
– E depois? E se fui eu que o fiz? És casada com o teu homem, não tenho
nada com isso.
O moleque já percebera tudo. Fez-se mais pequenino, encostado à porta. A
mão apertava nervosamente a caneca de lata. Viu Mariana erguer decididamente
a cabeça, passar os dedos pela barriga inchada, falar com raiva:
– Sô Ferreira prometeu. Te dou vestidos, vais mesmo na cidade, vais p’ra
minha casa. Te tiro da sanzala, te dou comida boa, te dou pulseiras e brincos.
Sô Ferreira prometeu, jurou mesmo. Teu filho vai mesmo ser meu no papel,
lhe dou educação. Não vai ser menino de sanzala, não. Agora já lhe dei tudo
que queria, já se deitou comigo, m’abandona. Não quer saber mais de mim!
– Então? Prometi? Alguém ouviu? Só tu mesmo.
Vai dizer no teu marido, vê lá se ele acredita. Digo-lhe que é mentira, que
foste tu que me pediste, que vocês todas querem é dormir com os brancos. Vai
na polícia, se eles acreditam em ti ou em mim.
Mariana abateu-se novamente sobre o balcão. Os soluços voltaram a sacudir-
-lhe o corpo. Miúdo Candimba, perturbado, chegou-se mais para dentro da
loja. Embora a sua vontade fosse fugir como um bambi.
– Vou dizer no meu marido, sim, vou mesmo. Me mata, mas depois lhe vem
matar a você... Não é homem p’ra se ficar!
O comerciante riu, escarninho. Desfiriu uma palmada no balcão para indicar
que já se fartava da discussão. Falou com voz rancorosa:
– Que venha! Tenho uma espingarda à espera dele. Dou-lhe tantos tiros que
fica como um Cristo!
Miúdo Candimba sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha ao ouvir a
ameaça. E voltou-se assustado quando, repentinamente, uma mão lhe pousou
no ombro. Acalmou-se ao contemplar o sorriso bondoso de Dona Marcelina.
– Que tás fazer aqui na porta? Me deixa entrar...
O moleque sentiu os olhos do comerciante fixos nele. E Mariana disfarçando
o choro. Empurrou a velha Marcelina para o lado, e desatou a fugir. Percorreu
a rua, passou uma tangente na cerca de Dona Joana, entrou no quintal da sua
casa. Aí susteve a corrida. Respirando dificilmente, escondeu-se entre as moitas
que abrigavam a capoeira. Olhou por entre os ramos e viu a mãe acocorada
sobre o tabuleiro, descascando a ginguba. O ar aborrecido indicava que estra-
nhava a demora do filho.

13
Literatura brasileira e portuguesa

Mas o menino não se preocupa com isso. Pensa, sim, no semblante derrotado
Capítulo 35

e os berros, misturam-se no seu cérebro, deixam-lhe uma sensação de angústia


revoltada. Nota repentinamente o coelho branquinho à sua frente. Olhos ver-
melhos como os do Sô Ferreira. Branco como ele, Coelho! Me puseram o teu
nome. Pruquê? Porque fazia assim como tu quando era pequeno, mexia o nariz,
depressa, assim, assim, depressa, muito depressa, como tu faz. Me chamaram
Candimba. Aí ficou meu nome. Mas não sou igual na ti, não tenho os olho
vermelho, não tenho o pelo branco. Estendeu a mão para o animal. Este pulou
para trás e ficou espiando, assustado, esperando o próximo gesto. O miúdo não
se mexeu. Via a Mariana chorando, suplicando e chorando, a barriga inchada,
as mãos a tremer. E o comerciante rindo o seu riso de gengivas desdentadas,
vermelhas como os olhos do coelho. Jogou com raiva o punho fechado. Mas
falhou o golpe e o animal escapuliu-se para perto das galinhas.
O despeito fez as lágrimas correrem, vagarosas na face escura do moleque.
E o coelho observando-o. Miúdo Candimba de repente, julgou-o penalizado
com sua dor. Comoveu-se. Era apenas um pobre animal sem culpas, que o es-
timava, afinal. O coelho não fugiu à carícia da mão infantil. Deixou-se afagar
e os olhos vermelhos adoçaram-se. Miúdo Candimba estendeu-se no chão de
terra batida, insensível à umidade transpirada pelo solo. Ficou assim, perdida
a noção do tempo, a vista fixa na bola branca que se mexia. Arrependeu-se, em
breve, do murro que lhe enviara. Pensou em pedir-lhe desculpas, justificar a
ação com o estado de espírito provocado pela cena da loja. Decidiu-se, porém,
a não o fazer. Coelho não percebe palavras, percebe os gestos e as carícias, é
como as crianças.
Ouviu a mãe chamá-lo em alta grita, inquirir por ele às vizinhas, sair de
casa. Foi talvez à venda procurá-lo. Mas não voltou. Miúdo Candimba não se
deu ao trabalho de responder, de se mostrar. Queria estar só, contemplando o
novo amigo, aquele animalzinho branco que parecia tão meigo. Queria fugir
às gentes com seus dramas e rancores, fechar-se na concha dos seus sonhos
infantis. E sentia o íntimo cheio de paz e ternura, esquecido já da revolta que
há pouco experimentara.
Miúdo Candimba voltou a ter consciência do Mundo ao escutar grande
gritaria ali perto. Levantou-se com uma última carícia ao animal, afastou as
moitas, e deitou uma olhada para o sítio onde a mãe preparava a ginguba.
Deserto. Os gritos vinham da esquerda. O moleque atravessou a cerca entrou
na rua e na luz do Sol. Dirigiu-se à casa para que concorriam as mulheres e as
crianças. A casa de Mariana. Lá chegando, percebeu imediatamente o que se
passara! Mariana morrera.
– Se matou. Uma facada mesmo no coração!
– Aiué, se matou.
– Pruquê?... Pruquê?
Miúdo Candimba sentiu um frio invadi-lo. Depois um calor, quente, quente,
era uma fogueira que nele se instalara. Novamente o frio. Começou a tremer.
Deu uma espiada para o sítio da loja, viu Sô Ferreira à porta, mirando, indife-
rente. Se matou! Pruquê? Eu sei, eu sei, foi por causa daquilo qu’eu vi na venda.
O menino abriu a boca, ia gritar a razão do suicídio. Mas ninguém reparou
no gesto, as mulheres e as crianças empurravam-se para observar o corpo
banhado em sangue. Ouviu a voz da mãe lamentando a tragédia, sentiu uma
vontade doida de se atirar nos seus braços e contar-lhe tudo. Mas havia uma
multidão separando-o do colo materno, não encontrou coragem de a romper.
Gritou o mais alto que podia!
– Eu sei pruquê ela se matou! Eu sei, juro com Deus que sei mesmo.
As mulheres nem voltaram os pescoços esticados. Não fecharam as bocas

14
Literatura brasileira e portuguesa

abertas de pasmo e tristeza. Os miúdos continuaram a tentar furar a multidão,


Capítulo 35

não ligaram ao aviso do companheiro. Miúdo Candimba apertou o braço de


Terezinha, falou gravemente:
Eu sei pruquê foi...
Ela olhou-o, porém, sem interesse. Imediatamente redobrou os gritos la-
mentosos!
– Deixa ver, deixa ver...
Miúdo Candimba, sentiu-se miseravelmente esquecido.
Era o único que sabia, além de Sô Ferreira, e ninguém o escutava, lhe pres-
tava atenção. Saiu da multidão, afastando as crianças com os braços magrinhos,
os lábios apertados para não chorar.
– Com’é qu’ela’st? De boca aberta?
Não se dignou responder à pergunta de Juca que se afadigava por ver
alguma coisa. Poderia ser um bom ouvinte, mas Miúdo Candimba já não se
importava de revelar a verdade. Olhou o vulto de Sô Ferreira, parado à porta
da loja. Adivinhou o riso escarninho na boca do comerciante. Se não era tão
grande... Sim, se não fosse tão grande e tão forte, era ele, Miúdo Candimba,
que lhe faria morrer o riso de escárnio na boca. Mas viu-se pequeno e fraco,
uma criança em que ninguém sequer acreditava, a que ninguém sequer prestava
atenção. Viu-se miserável e inútil, um bichinho pequeno que para nada serve.
Um boneco talvez, um boneco sem valor nem preço.
Virou as costas aos curiosos observadores do espetáculo mórbido, foi cami-
nhando para casa. Devagarinho, afogando o despeito e a revolta nas pedras da
rua. Atravessou a cerca, aproximou-se do tabuleiro de ginguba. Hoje não iria
vender a guloseima. Nunca mais gritaria pela cidade: cinc’ostões cada pacote.
Mesmo que morressem de fome. Nem que a mãe xingasse, nem que a mãe lhe
chapasse. Mexeu os bagos com a mão distraída, não se tentou tirar nenhum.
Viu as moitas que limitavam a capoeira, encaminhou-se para elas. Afastou os
ramos com lentidão. O coelho branco fitou-o com seus olhos vermelhos. Iguais
aos de Sô Ferreira. O animal deixou-o aproximar-se, um pouco receoso. Mas
não fugiu. Talvez esperasse mais uma carícia, lembrando da anterior cena de
ternura.
Miúdo Candimba sentiu-se enganado. Uma vergonha vinha desde os olhos
vermelhos, desde o pelo branco, incrustava-se no seu cérebro de menino.
M’enganaste, coelho. Mariana matou-se, espetou a faca mesmo no coração.
Morreu num mar de sangue. As lágrimas caíam dos olhos do moleque. Me
deram teu nome, Candimba mesmo, mas não sou igual na ti. Não tenho os olho
vermelho, pelo branco. Não sou como tu. Pensei a gente ia ser amigo, te fiz
festa. Mariana se matou! Meteu a mão no bolso dos calções, tirou o canivete.
Abriu-o e a lâmina luziu. Agarrou no pescoço do animal com o braço esquerdo.
O coelho não tentou escapulir-se. Então lentamente, refletidamente, Miúdo
Candimba enterrou-lhe a lâmina no peito.
Ficou vendo o pequeno corpo estremecer, o sangue esvaindo-se, manchando
de vermelho o pelo branquinho. A mancha alastrando, alastrando, correndo
para as patas, para o chão de terra batida. Depois um estremeção mais violen-
to. E os olhos ficaram rígidos, enormemente abertos, fitando-o firmemente.
Miúdo Candimba não encontrou uma acusação naquele eterno olhar. Pousou
delicadamente o corpo no solo. Ajoelhou-se, uniu as mãos vermelhas de sangue,
uma delas ainda segurando o canivete aberto, e rezou:
– Nosso Senhor, faz que eu acertei bem no coração.
PEPETELA (pseudônimo de Artur Pestana). In: NEVES, João Alves das (Org.).
Poetas e contistas africanos de expressão portuguesa. São Paulo:
Brasiliense, 1963. p. 172-179.

15
Literatura brasileira e portuguesa

1. Esse conto foi escrito em 1962 (13 anos, portanto, antes da independência do país),
CAPÍTULO 35

época em que se iniciou a luta pela libertação de Angola, quando os motivos ra-
ciais sobrepunham-se aos políticos. Podemos observar, no texto, indícios dessa
tensão racial?
2. Que significado tem no texto o modo como o menino trata o coelho?

Diálogo com a arte afro-brasileira

As esculturas de Mestre Didi


A arte africana chegou ao Brasil pelas mãos dos

ARQUIVO/AGÊNCIA A TARDE/FOLHAPRESS
escravos. Em muitos casos, essa arte, que provinha
de diferentes nações africanas, incorporou elementos
indígenas e portugueses, gerando formas artísticas
que podemos chamar de afro-brasileiras.
Um dos artistas mais representativos da arte afro-
-brasileira é Mestre Didi, nome pelo qual é conhecido
Deoscóredes Maximiliano dos Santos, que nasceu na
Ilha de Itaparica, na Bahia, em 1917. Além de escultor,
escritor e estudioso da cultura africana, Mestre Didi
é sacerdote do culto de ancestrais e seu trabalho é
voltado inteiramente para a mitologia e arte yoruba-
na. Ele é, portanto, um artista a serviço da religião.
As peças que cria sempre têm uma relação simbólica
Mestre Didi em foto de 1976.
com esse universo mítico e são feitas com material
orgânico, como palha, búzios, contas, que são objetos
típicos das vestimentas dos orixás.
FERNANDO CHAVES

FERNANDO CHAVES

FERNANDO CHAVES

FERNANDO CHAVES
COLEÇÃO DO ARTISTA/ FOTO:

COLEÇÃO DO ARTISTA/ FOTO:

COLEÇÃO DO ARTISTA/ FOTO:

COLEÇÃO DO ARTISTA/ FOTO:

Cetro de Nanã, Xaxará, isto é, feixe de Cetro de pássaro Cetro de Nanã.


a orixá protetora fibras de palha da costa, com duas Técnica mista.
da agricultura. ornado com búzios e serpentes. Técnica
contas ou miçangas. É um mista.
objeto-símbolo do orixá
Xampanã.

16
Literatura brasileira e portuguesa

Vale a pena
Capítulo 35

Vale a pena ler


Poesia africana de língua portuguesa.

REPRODUÇÃO
Maria A. Dáskalos, Livia Apa, Arlindo Barbeitos. Rio de Ja-
neiro: Lacerda Editores, 2003.
Boa antologia para você ter uma visão geral dos poetas afri-
canos lusófonos.

Arte africana.
Hildegard Feist. São Paulo: Moderna, 2010.
Um atraente panorama da história da arte africana, escrito
em linguagem acessível e bem ilustrado.

Vale a pena assistir Conteúdo multimídia - Vídeo:


Assista a um trecho de Amistad.
Amistad.

REPRODUÇÃO
Direção de Steven Spielberg. Estados Unidos, 1997.
Escravos africanos tomam o controle do navio negreiro que
os conduz, mas são aprisionados e levados a julgamento
nos Estados Unidos, sob a acusação de assassinato e mo-
tim. Baseado em fatos reais.

Vale a pena acessar


http://mundoafro.atarde.com.br/

REPRODUÇÃO
No blog Mundo Afro, mantido por Cleidiana Ramos, repór-
ter especial do jornal A Tarde, de Salvador, você encontrará
informações sobre cultura, identidade e religiosidade ne-
gras no Brasil.

http://www.vidaslusofonas.pt/index.htm
Site sobre a vida e a obra de vários escritores lusófonos –
brasileiros, portugueses e africanos.

http://www.mafro.ceao.ufba.br/
Site oficial do Museu Afro-Brasileiro da Universidade Fede-
ral da Bahia. Além de informações sobre eventos e expo-
sições, o internauta pode visualizar uma parte de seu rico
acervo (esculturas, vestimentas, máscaras, tapeçaria, etc.).

http://www.museuafrobrasil.org.br/
Site oficial do Museu Afro Brasil, que fica na cidade de São
Paulo. Apresenta um rico acervo de máscaras africanas, ob-
jetos de arte, fotografias. No site, há também informações
sobre eventos, exposições e projetos educacionais.

http://www.casadasafricas.org.br/
A Casa das Áfricas é um centro de pesquisas que promove
estudos e atividades relacionadas ao continente africano. A
seção “Banco de Textos” apresenta trabalhos acadêmicos
e trechos de livros que tratam de diferentes aspectos das
culturas africanas.

17