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BIBLIOTECA ESCOLAR INCLUSIVA: DESAFIOS PARA A INCLUSÃO

DO ALUNO AUTISTA

RESUMO

A inclusão de alunos com necessidades especiais no ensino regular exige que das escolas que todos os seus espaços
ofereçam as condições para que esses alunos possam desenvolver adequadamente o seu processo educativo. Um
desses espaços que, diante das demandas da inclusão, exige um novo conceito, com a reformulação de seu
ambiente é a biblioteca escolar. Tratando-se especificamente da inclusão com alunos portadores de autismo, essa
adequação deve contemplar as características e demandas próprias desse tipo de transtorno. Este estudo teve como
objetivo compreender a inclusão do aluno autista no ambiente da biblioteca escolar, avaliando as principais
dificuldades e os recursos necessários para a efetivação deste processo. Foi realizada uma pesquisa de revisão de
literatura que verificou a necessidade de adequações arquitetônicas, materiais e recursos e a disponibilidade de
apoio para esses alunos, garantindo assim uma correta utilização desse espaço que é tão importante para o processo
educacional.

Palavras-chave: Inclusão Escolar. Biblioteca Inclusiva. Autismo.

1- INTRODUÇÃO

O processo de inclusão escolar exige que todos os setores e serviços da instituição


estejam preparados para conviver com a diversidade e oferecer as condições adequadas para
que, tanto os alunos com necessidades especiais como os demais alunos, tenham um pleno
desenvolvimento de seu processo de escolarização. Trata-se, portanto, de uma demanda de
adequação de espaços, ambientes, processos de trabalho e principalmente de uma nova postura
frente a inclusão desses alunos no sistema regular de ensino.
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Diante desse cenário, surge então um novo foco sobre a inclusão, envolvendo outros
espaços escolares e não apenas a sala de aula, entre os quais destacamos a biblioteca escolar. A
partir de então se estabelece uma biblioteca inclusiva, termo definido por Silva e Bernardino
(2015) como sendo uma nova forma de organização da biblioteca, mitigando todas as barreiras
existentes para sua utilização por todos os usuários, incluindo àqueles portadores de alguma
necessidade especial, entre os quais destacamos o autista, que será o foco da discussão neste
estudo.
Ao tratarmos de forma específica da inclusão do aluno autista no ambiente da biblioteca,
é necessário compreender que, conforme afirma Orrú (2016), o autismo pode ser definido como
sendo um distúrbio complexo que afeta o curso do desenvolvimento humano, provocando
prejuízo na interação social e na comunicação, além de levar a um repertório restrito de
atividades e interesses.
Pelas características do aluno autista, sua inclusão na escola regular em todos os seus
espaços, entre eles a biblioteca, constitui um grande desafio para a consolidação da inclusão
escolar no país. Pela relevância do tema no processo de inclusão escolar, este estudo teve como
objetivo compreender a inclusão do aluno autista no ambiente da biblioteca escolar, avaliando
as principais dificuldades e os recursos necessários para a efetivação deste processo.
Optou-se então por realizar um estudo de revisão de literatura, a partir da consulta às
principais obras e estudos relacionados ao tema, para coleta dos aspectos mais importantes
relacionados ao conceito, recursos e possibilidades pedagógicas relativas à inclusão escolar,
sobre a ótica do acesso do aluno autista ao ambiente da biblioteca.

2- DESENVOLVIMENTO

2.1 A EDUCAÇÃO INCLUSIVA E A BIBLIOTECA ESCOLAR

A implementação de um modelo de educação inclusiva no Brasil fez com que alunos


com distintas necessidades especiais passassem e frequentar o ambiente da escola regular,
exigindo dela uma adaptação às distintas necessidades desses alunos. Essa necessidade de
adaptação do espaço escolar envolveu todos os seus setores, entre eles a biblioteca, criando
assim a demanda por uma biblioteca escolar inclusiva.
A ideia de inclusão encontra-se, atualmente, intimamente ligada a um direito social pelo
qual os portadores de necessidades especiais devem lutar para que esse processo ocorra de
forma adequada. Para tanto, esses alunos devem receber durante sua escolarização, de todas as
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condições necessárias ao pelo desenvolvimento de sua aprendizagem, ou seja, que o ambiente


escolar esteja adequadamente preparado para recebê-lo, o que inclui a biblioteca.
Ao falar da inclusão nas escolas, Ferreira (2009) deixa claro que ela somente irá ocorrer
caso sejam dados a todos os alunos o direito de ter as mesmas experiências educativas, a partir
de uma escola orientada para a diversidade e adequada às características de seus alunos.
Por tratar-se de um local onde encontram-se acessíveis as diversas fontes de informação,
representando um dos mais importantes instrumentos de apoio didático-pedagógico, tal como
define Correa et al (2002), a biblioteca deve oferecer todas as condições de acesso aos alunos
para que eles possam usufruir ao máximo de suas potencialidades, contribuindo assim ao seu
processo de ensino-aprendizagem.
Neste sentido, a ideia de uma biblioteca inclusiva fundamenta-se a partir da necessidade
de não se impor barreiras ao processo de inclusão escolar, permitindo assim que alunos
portadores de necessidades educativas especiais ou não disponham de um espaço capaz de
cumprir seus objetivos na instituição, que de acordo com Côrte e Bandeira (2011, p. 8) é
constituir “um espaço de estudo e construção do conhecimento, coopera com a dinâmica da
escola, desperta o interesse intelectual, favorece o enriquecimento cultural e incentiva a
formação do hábito de leitura.”
Ao falar da biblioteca inclusiva Coneglian e Silva (2006) ressaltam que ela deve
representar um espaço voltado a convivência de todos, independente de eventuais necessidades
especiais. Para tanto ela deve ser capaz de proporcionar de forma facilitada o acesso à
informação através de um atendimento voltado para todos os usuários.
Para que a biblioteca escolar possa efetivamente tornar-se inclusiva, constituindo-se
num espaço de inserção de pessoas com distintas necessidades, é necessário que exista um
criterioso cuidado no planejamento do espalho e na aquisição dos materiais, tarefas a serem
realizadas pelo bibliotecário. Ao tratar das dificuldades de acesso, não se deve levar em
consideração apenas às questões relacionadas a recursos e tecnologia de informação, uma vez
que em diversas situações, barreiras simples como o próprio acesso a biblioteca, dificuldade de
deslocamento em seu interior, entre outros, representam dificultadores que levam esses alunos
a não frequentarem o local. (MARCOLINO, 2014)
Giacumuzzi (2013) acrescenta ainda que para constituir-se num espaço acessível, não
basta que a biblioteca esteja somente adequada do ponto de vista arquitetônico. Para esse autor,
uma verdadeira acessibilidade exige uma mudança de atitude de todos os funcionários da
escola, fazendo com que a biblioteca seja um ambiente isento de discriminalização e, sobretudo,
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um local de acolhimento, onde usuários com distintas necessidades buscam satisfazer suas
necessidades de informação, a partir do acesso a livros e outros materiais.
Ao tratar das questões relativas às diversas barreiras existentes na implantação de uma
biblioteca inclusiva, Jesus (2016) expõe a questão das barreiras tecnológicas. Se, por um lado,
os dispositivos tecnológicos podem representar importantes ferramentas no processo de
inclusão no ambiente das bibliotecas escolares, a sua falta ou mesmo sua utilização de forma
inadequada pode ser considerar como um potente meio de exclusão.
Diante dos conceitos ora apresentados, é possível perceber que a inclusão no espaço das
bibliotecas escolares, principalmente em virtude dos atuais patamares da escola inclusiva, deve
ser vista como um conjunto de medidas, ações e comportamentos individuais, coletivos e
institucionais que garantam sua disponibilidade aos usuários, independente de suas condições
físicas, cognitivas e sociais para o cumprimento não apenas de preceitos legais, mas sim de um
compromisso moral.

2.2 ESCOLA, INCLUSÃO E AUTISMO

Sabe-se que a inclusão visa oportunizar o acesso à educação regular para alunos
portadores de múltiplas necessidades especiais. A perspectiva de uma escola inclusiva tem
oportunizado a alunos com distintos transtornos a convivência, num único espaço escolar, de
experiências e oportunidades de desenvolvimento mútuo. Baseando-se nesse cenário de
interação social, característico do período escolar, temos na inclusão do autista um importante
desafio para os sistemas de ensino do país.
Para melhor compreender essa realidade, é necessário delimitar os principais pontos que
caracterizam o autismo e sua interface com as instituições escolares e, respectivamente, com a
biblioteca. Conforme afirma Mello (2007) o autismo é um transtorno classificado como
distúrbio do desenvolvimento, provocando alterações em alguns aspectos do desenvolvimento
do indivíduo, principalmente sobre a comunicação, interação social, aprendizado e capacidade
de adaptação.
Costa (2017) acrescenta que esses comportamentos atípicos característicos do autista
são observados durante os primeiros anos de vida, se expressando na forma de déficits nas
esferas sociocomunicativa e comportamental da criança, provocando prejuízos qualitativos,
principalmente no que se refere à sua capacidade de interação com os outros.
As principais características do autismo foram detalhadas pela Associação Americana
de Psiquiatria – APA ao estabelecer os critérios para classificação do autismo segundo o Manual
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Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM, que atualmente se encontra na sua


quinta edição. Conforme define a APA, os déficits sociais e de comunicação característicos do
autismo são:

a) Problemas de interação social ou emocional alternativo – Isso pode incluir


a dificuldade de estabelecer ou manter o vai e vem de conversas e interações,
a incapacidade de iniciar uma interação e problemas com a atenção
compartilhada ou partilha de emoções e interesses com os outros.
b) Graves problemas para manter relações – Isso pode envolver uma completa
falta de interesse em outras pessoas, as dificuldades de jogar fingir e se engajar
em atividades sociais apropriadas à idade e problemas de adaptação a
diferentes expectativas sociais.
c) Problemas de comunicação não verbal – o que pode incluir o contato
anormal dos olhos, postura, expressões faciais, tom de voz e gestos, bem como
a incapacidade de entender esses sinais não verbais de outras pessoas.
Comportamentos repetitivos e restritivos são:
a) apego extremo a rotinas e padrões e resistência a mudanças nas rotinas; b)
fala ou movimentos repetitivos; e
c) interesses intensos e restritivos.
Dificuldade em integrar informação sensorial ou forte procura ou evitar
comportamentos de estímulos sensoriais (APA, 2014)

É possível perceber, a partir dos critérios de classificação do autismo, que trata-se de


um transtorno complexo com alta variabilidade de sintomas, tornando-o potencialmente
incapacitante para o indivíduo, sobretudo em relação às suas interações sociais. Esses prejuízos
podem ter maior ou menor intensidade de acordo com o nível da patologia e ainda conforme o
tratamento dado a essa condição.
Galvão (2014) destaca que a complexidade deste transtorno está relacionada ainda ao
fato de que indivíduos com mesmo níveis de gradação do autismo podem apresentar traços
significativamente distintos um do outro, preservando em comum somente alguns critérios de
classificação do transtorno.
Diante de tais características, Nogueira, Costa e Pinheiro (2014, p. 12) pontua que
crianças com autismo apresentam “alterações na afetividade, ausência de interesse no ato de
brincar, dificuldade na fala dando a impressão de ser uma criança tímida ou arrogante”.
Com maior prevalência entre crianças do sexo masculino (cerca de 80%) e com
aproximadamente dois milhões de pessoas diagnosticadas com essa síndrome segundo dados
do ano de 2014, o autismo torna-se um tema de grande relevância tanto para a saúde pública
como para os sistemas de ensino. (GALVÃO, 2014)
Para associar o autismo e seu processo de escolarização, é necessário considerar alguns
aspectos distintivos do aluno portador desse transtorno, tal como o seu desenvolvimento
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cognitivo. Segundo Nogueira, Costa e Pinheiro (2014) muitos estudos tem demonstrado a
presença de déficits cognitivos específicos relacionados ao autismo, entre eles os problemas na
percepção de ordem e significado, dificuldades na utilização do input sensorial interno como
forma de realizar discriminações na ausência de feedback de respostas motoras; e ainda uma
tendência de armazenamento da informação visual, a partir de um código visual, enquanto as
crianças com desenvolvimento normal utilizam-se de códigos verbais e/ou auditivos.
Outro aspecto com importância para o processo de escolarização do autista diz respeito
a possíveis comprometimentos no desenvolvimento motor dessas crianças. De acordo com
Galvão (2014), muitas crianças com autismo tem dificuldade para se equilibrar, na coordenação
motora e podem demorar mais para começar a andar.
Além dessas características já apresentadas, uma outra especificidade apresentada pelo
autismo e que por sua vez também representa um elemento dificultador de sua inserção na
escola diz respeito às suas dificuldades de linguagem. Sadock (2011) afirma que as crianças
autistas frequentemente tem dificuldade em utilizar a linguagem para a comunicação de ideias.
Esses alunos tem dificuldade acentuada na formação de frases significativas ainda que já
disponham de um vocabulário amplo.
Apesar dos muitos sintomas que podem comprometer o desenvolvimento escolar do
aluno autista, Nogueira, Costa e Pinheiro (2014) consideram que uma das grandes preocupações
em relação ao tema diz respeito a demora no diagnóstico e início do tratamento. Com isso,
muitos alunos já chegam à escola apresentando sintomas mais severos do transtorno,
comprometendo ainda mais o seu pleno desenvolvimento educacional.
Como as características do autismo variam bastante de criança para criança, a inclusão
desses alunos deve ser realizada de forma orientada e criteriosa, cuidando sempre para que
todos os obstáculos individuais dos alunos possam ser identificados e trabalhados para sua
superação. Nesse aspecto, Revière (2004) é enfático ao afirmar que o autismo exige do sistema
educacional o atendimento a dois elementos muito importantes. O primeiro diz respeito ao
trabalho com a diversidade e o segundo trata da necessidade de personificação no atendimento
a esses alunos.
Desse modo, a escola deve oferecer um ensino planejado e que contemple todas as suas
singularidades e particularidades, orientando-se para as especificidades do seu ensino e
implementando todas as alternativas necessárias para o cumprimento de seus objetivos
educacionais. Ao tratar desse processo, Costa (2017) defende a ideia de que a inclusão desses
alunos somente é possível desde que haja um comprometimento da instituição com a
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transformação de suas práticas pedagógicas e também a adaptação de seus espaços para


conviver com essa nova demanda de diversidade.
É justamente sobre essa necessidade de adaptação dos espaços escolares que surge a
necessidade de compreender e, sobretudo, agir para que a biblioteca escolar também possa
constituir-se num ambiente inclusivo e adequado às características dos alunos com autismo.

2.3 BIBLIOTECA ESCOLAR E O ALUNO COM AUTISMO

A Nota Técnica nº 24, de 21 de março de 2013, emitida pelo Ministério da Educação,


apresentou orientações aos sistemas de ensino em relação à Política Nacional de Proteção dos
Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, parte integrante da Política Nacional
de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Essa nota, em cumprimento ao
que dispõe na política, estabelece entre outras coisas o direito do autista em dispor de
“acessibilidade urbanística, arquitetônica, nos mobiliários, equipamentos, nos transportes, na
comunicação e informação.” (BRASIL, 2013, p. 2)
Essa mesma nota define que para oferecer as condições ideais à esses indivíduos é
necessário que a escola realize a “organização de todas as atividades escolares de forma
compartilhada com os demais estudantes, evitando o estabelecimento de rituais inadequados”
(BRASIL, 2013, p. 3), ou seja, a biblioteca escolar enquanto parte integrante do processo de
ensino também deverá adequar-se às características dos alunos autistas.
Diante do papel a ser exercido pela biblioteca escolar frente ao processo de inclusão,
que de acordo com Monteiro (2008) é proporcionar uma parceria no processo de ensino e
aprendizagem, especialmente para os alunos portadores de necessidades especiais. Cabe a ela
então oferecer os elementos necessários para a construção de experiências educativas
proveitosas, a partir da disponibilidade de recursos informacionais e materiais que propiciem
esse desenvolvimento.
Para que a biblioteca escolar possa, verdadeiramente, representar um espaço inclusivo
em se tratando das especificidades que caracterizam o aluno autista, é necessário os
funcionários do local, principalmente o bibliotecário, conheçam as características principais do
autismo e a relação dessas com o ambiente e as atividades desenvolvidas dentro da biblioteca.
Ao tratar do papel do bibliotecário no processo de gestão e organização do espaço da
biblioteca escolar, Monteiro (2008) destaca a necessidade que este profissional gerencie os
projetos de acordo com o plano curricular, interagindo com as principais demandas do cotidiano
escolar.
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Assim, por estar diretamente envolvido no processo educativo, ele é um importante


emento dentro do processo da educação inclusiva, contribuindo para que os usuários da
biblioteca possam utilizar adequadamente as fontes de informação disponíveis, além de
promover a socialização do espaço, a partir do compartilhamento de materiais, meios de
pesquisa e ambientes coletivos. Com isso ele contribui para o desenvolvimento social e cultural
da comunidade escolar, fatores esses indiscutivelmente fundamentais para o trabalho com
alunos portadores de autismo. (MONTEIRO, 2008)
Dessa forma, o bibliotecário deve representar o promotor das adequações para receber
o autista naquele espaço. Dessas adequações necessárias, destacamos a demanda existente em
três níveis distintos: no ponto de vista das adequações da infraestrutura da biblioteca; em relação
aos recursos materiais necessários; e ainda quanto a disponibilidade de apoio para esses alunos.
Tratando dos aspectos relacionados a estrutura arquitetônica dos espaços escolares na
educação inclusiva, é necessário considerar que conforme afirma Pessoa (2011), o ambiente
escolar não foi planejado para receber alunos com necessidades especiais. Dessa forma, faz-se
necessário que essa estrutura seja readequada para oferecer as condições ideais para o aluno
com autismo.
Para que o ambiente da biblioteca esteja adequado às características e demandas do
autista, o espaço deve valorizar os elementos lúdicos, que de acordo com Díaz et al (2009) tem
a capacidade de sensibilizar e promover a interação desses alunos com o ambiente.
Mendes (2015) acrescenta que oferecer um ambiente lúdico para a criança, esse espaço
pode potencializar as suas habilidades sociais, comunicativas e comportamentais, sendo esses
elementos que apresentam déficit significativo no caso do autista.
Tornar a biblioteca um espaço lúdico, onde toda a sua organização esteja voltada em
oferecer um ambiente onde o acesso a seus recursos informativos ocorram de forma prazerosa,
representa uma importante proposta de organização para a biblioteca inclusiva, especialmente
considerando a inserção do autista nesse ambiente.
Outro aspecto que deve ser considerado para as adequações da biblioteca para a inclusão
do aluno autista diz respeito aos materiais e recursos disponíveis. Marcolino e Castro Filho
(2014) relatam que para o sucesso do processo de inclusão do autista é fundamental que a escola
sofra adequações em seus recursos materiais e pedagógicos. Essa demanda também se estende
à biblioteca escolar que, para atender ao novo contexto de inclusão, necessita oferecer materiais
e recursos que respeitem as particularidades do autismo.
Um dos principais pontos relacionados a adaptação dos recursos materiais e
pedagógicos diante do contexto do autismo está relacionado a motivação. Para que esse aluno
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apresente níveis satisfatórios de aprendizagem, com a redução dos efeitos desse transtorno
sobre a sua escolarização, é fundamental que esses materiais e recursos promovam a sua
motivação.
Diante da importância da motivação como forma de superação às dificuldades impostas
pelo autismo, devem se oferecidos a esses alunos outros elementos que motivem e atraiam a
atenção dessas crianças. Pessoa (2011) propõe a utilização de livros interativos, brinquedos
pedagógicos, caixas sensoriais, jogos educativos, entre outros. Ressalta-se ainda que sua
utilização será condicionada às características específicas, segundo as particularidades de cada
indivíduo.
Vale ressaltar ainda outra demanda de adequação da biblioteca escolar para a inclusão
do aluno autista naquele espaço, que diz respeito a disponibilidade de profissional de
suporte/apoio para auxílio e orientação desses alunos. O estabelecimento das iniciativas de
inclusão escolar exige que seja disponibilizado profissional de apoio para atuar junto aos alunos
e dos educadores da instituição. O papel desses profissionais de modo que se “favoreça as
relações e estimule a colaboração entre os alunos de modo que os responsáveis pela
aprendizagem passam a ser os integrantes do grupo. (ROTH, 2006, p. 67)
A presença de um profissional de apoio, atuando como mediador nos processos
educativos, entre eles na biblioteca escolar, estimulando a utilização de todos os recursos e
materiais pedagógicos disponíveis. A esse respeito, Dias, Braga e Buytendorp (2017) afirmam
que o estudante autista necessita ser atendido em suas capacidades, exigindo apoio em suas
dificuldades. Para tanto é necessário que seja oferecido o devido suporte no que se refere a
metodologia aplicada em seu processo de ensino-aprendizagem para que ela ocorra de forma
plena, promovendo uma aprendizagem centrada na necessidade educacional deste estudante.
Por fim, é fundamental pontuar ainda o papel dos atuais recursos tecnológicos
disponíveis e sua importância para uma biblioteca inclusiva para o aluno autista. Conforme
afirma Bomfim (2015), a tecnologia da informação oferece atualmente meios para que
portadores de necessidades educativas especiais, entre eles o autista, interajam com
equipamentos, sistemas e aplicativos de modo a minimizar as dificuldades existentes devido a
sua condição especial. A partir da utilização de tablets e softwares específicos é possível, por
exemplo, oferecer novos métodos de linguagem e interação dos alunos, promovendo a
aprendizagem e a interação com outros alunos.
Desta forma, computadores, celulares e outros equipamentos podem tornarem-se
recursos adicionais que, inseridos no ambiente da biblioteca escolar, facilitam o processo de
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inclusão do aluno autista e permitem que esses alunos tenham acesso a todas as informações
necessárias para o desenvolvimento de sua aprendizagem.

3- CONCLUSÃO

A escola é um espaço de convivência e interação social onde a inclusão deve inserir-se


como um mecanismo de justiça social e de oportunidades igualitária a todos os alunos. Diante
do avanço da inclusão escolar, torna-se necessário refletir em relação ao papel da escola e as
adequações necessárias para os alunos com necessidades especiais possam de fato ser incluídos
num contexto de oportunidades e possibilidades educativas iguais.
Especificamente no caso do aluno autista e, em conformidade aos objetivos deste
estudo, foi possível verificar que existem diversas adequações e modificações que vão desde a
estrutura física da biblioteca, materiais, recursos e disponibilidade de apoio ao aluno para que
este consiga dispor de todas as possibilidades oferecidas por esse espaço. Assim, para que a
educação seja de fato inclusiva, é necessário que o aluno encontre em todo o ambiente escolar
as condições que atendam as suas características para o seu máximo proveito no processo
educacional.

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