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LEI DE DROGAS BRASILEIRA E A BIOPOLÍTICA

Walter Luiz Donofrio Sobrinho

Prof. Dr. Camila Dias Nunes

Universidade Federal do ABC - UFABC

Programa de Mestrado em Ciências Humanas e Sociais - PCHS

02/09/2019
RESUMO

Neste trabalho iremos fazer uma análise biopolítica da Lei de Drogas Brasileira (Lei
11.343/06) e das políticas de enfrentamento e redução de danos causados pelas drogas no Brasil,
em uma sociedade de ordenamento biopolítico. Nas últimas décadas tornou-se comum as
discussões a respeito dos prejuízos causados na sociedade gerados pelo “problema das drogas”
no Brasil e no mundo. O “problema das drogas”, tem sido globalmente difundido pela mídia e
nas manifestações governamentais, pode ser considerado um dos maiores problemas da sociedade
moderna que vivemos, atingindo todos até os mais distantes cantos do planeta seja nos países
ricos no que se relaciona comumente ao consumo das drogas, quanto aos países pobres ou em
desenvolvimento onde estão concentradas a produção e exportação das drogas.

Fazendo uso dos ensinamentos de Foucaultianos iremos discutir a problemática deste artigo
no que concerne uma análise das noções de Biopolítica. Na análise da Lei de Drogas Brasileira
(Lei 11.343/06), bem como das políticas públicas relacionadas ao enfretamento as drogas,
discorrendo sobre os mecanismos de prevenção e antecipação ao fenômeno do uso de drogas
atualmente disponíveis em nossa sociedade utilizados na tentativa de minimizar os possíveis
prejuízos de um uso indevido de drogas. Nesse processo é enfatizado, ainda, como um conjunto
de saberes inserem a vida da população na gestão dos modos de vida.

Palavras-chave: Lei de Drogas, Biopolítica, Políticas Públicas.


1. INTRODUÇÃO

Ao conceituarmos o que seria Biopolítica podemos entender que é o termo utilizado


por Foucault para designar a forma na qual o poder tende a se modificar no final do século
XIX e início do século XX. As práticas disciplinares utilizadas antes visavam governar o
indivíduo. A biopolítica tem como alvo o conjunto dos indivíduos, a população.

A biopolítica é a prática de biopoderes locais. No biopoder, a população é tanto alvo


como instrumento em uma relação de poder.

“Os instrumentos que o governo se dará para obter esses fins [atendimento as
necessidades e desejos da população] que são, de algum modo, imanentes ao
campo da população, serão essencialmente a população sobre o qual ele age"
(Foucault, 1978)

No início do século XIX era possível encontrar facilmente a venda nas farmácias de
grande parte dos países ocidentais pastilhas de cocaína e cigarros indianos de maconha.
(Sanches & Rocha, 2011). Nenhuma das substâncias psicotrópicas que atualmente são
consideradas “drogas”, para o uso medicinal ou “recreativo”, não possuíam qualquer tipo
de controle estatal, desse modo não havia qualquer tipo repressão do estado para quem as
produzisse, as comercializasse ou as consumisse. Tão somente podemos citar que o
controle sobre o consumo destas substancias baseava-se nas regras morais daquela época.
No Brasil, a cocaína era frequentemente comercializada em farmácias, uma vez que o
consumo era justificado por seus elementos terapêuticos. Contudo a partir de 1920 o
Brasil em decorrência de pressões internacionais iniciou um processo de combate a certas
substancias até então consideradas lícitas para o consumo, criando legislações mais
rigorosas no controle da produção, comercialização e consumo de determinadas
substâncias psicoativas, sendo então criminalizadas tais ações. (ROSA, 2012).

Com a criação das Nações Unidas em 1945, foram estabelecidas diretrizes para o
combate as drogas que se encontram até hoje em vigor, foram realizadas em âmbito
mundial três conferencias sobre o assunto.1 A Convenção Única sobre Entorpecentes,
aprovada em Nova Iorque no início dos anos 60, instituiu em âmbito global um aparato

1
Além das convenções, foram assinados três Protocolos: o Protocolo de Genebra de 1946, o Protocolo de
Paris de 1948 e o Protocolo para a limitação e regulação do cultivo da papoula, da produção e das trocas
internacionais e do uso do ópio, de 1953.
legal para o controle das drogas, atribuindo as Nações signatárias o compromisso pela
inserção e implementação efetiva em suas legislações nacionais das normas pactuadas na
referida Convenção, além fortalecer seus instrumentos para o controle sobre a produção,
distribuição e comércio de drogas no âmbito interno de seus territórios e
internacionalmente também.

Durante o século XX até os dias atuais, o chamado “problema das drogas”, trouxe
consigo uma preocupação em nível mundial, sendo que o ex-presidente norte-americano
Ronald Reegan em sua declaração de “guerra às drogas” condicionou que essas
substâncias seriam um dos maiores inimigos das sociedades ocidentais.

Ao analisarmos a dinâmica das drogas no Brasil verificamos que a mesma funciona de


forma peculiar, visto que o País não é um grande produtor de drogas, mas
tradicionalmente é usado como rota de passagem da cocaína produzida em países vizinhos
como Peru, Bolívia e Colômbia, que são exportadas para os grandes mercados
consumidores da América do Norte e Europa. Mas também é um dos maiores mercados
consumidores de drogas ilícitas, principalmente de maconha e cocaína2.

2. LEI DE DROGAS NO BRASIL

Com o advento da LEI Nº 11.343, DE 23 DE AGOSTO DE 2006 foi instituído no


Brasil o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas - SISNAD; prescreve
medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e
dependentes de drogas; estabelece normas para repressão à produção não autorizada e ao
tráfico ilícito de drogas e define crimes.3

O combate às drogas ilícitas no Brasil, a exemplo do que ocorre em outras partes do


mundo, vai além da repressão à produção e ao comércio das drogas. Constitui-se também
da disponibilização de tratamento de usuários que queiram deixar de serem dependentes
químicos, institutos de prevenção ao tráfico e ao consumo drogas ilícitas, previstas em

2
O Relatório Mundial sobre Drogas (World Drug Report) de 2017 aponta para o crescimento do consumo
de cocaína nos países em desenvolvimento, inclusive no Brasil. Cf.
http://www.unodc.org/wdr2017/field/Booklet_2_HEALTH.pdf. Acessado em 22/05/2018.
3
LEI Nº 11.343/2006 disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-
2006/2006/lei/l11343.htm Acessado em 22/05/2018
lei4 e realizadas por diversos tipos de atores sociais. Criando diversas ações direcionadas
a redução de danos, coordenadas por uma lógica biopolítica presente nas políticas
antidrogas implantadas em nosso país.

O caráter biopolítico da Lei de Drogas Brasileira está justamente a gestão da vida, a


gestão do “como” da vida. Toda essa série de procedimentos, de práticas disciplinares e
regulamentadoras, descritas no texto da lei, demonstram o poder repressor estatal no
controle dos indivíduos, seja por meio da medicina em nível ambulatorial
preferencialmente no tratamento dos dependentes químicos5, ou pela prisão nos casos em
que o usuário ultrapassa a qualidade de dependente e entra na seara do agente que pratica
o tráfico para sustentar o próprio vício ou nos casos de constituir-se como fornecedor
eventual6 poderão ser submetidos a tratamento contra a dependência de narcóticos
conforme prevê a lei de drogas em seu artigo 47:

Art. 47. Na sentença condenatória, o juiz, com base em avaliação que ateste a
necessidade de encaminhamento do agente para tratamento, realizada por
profissional de saúde com competência específica na forma da lei, determinará
que a tal se proceda, observado o disposto no art. 26 desta Lei.

Art. 26. O usuário e o dependente de drogas que, em razão da prática de


infração penal, estiverem cumprindo pena privativa de liberdade ou
submetidos a medida de segurança, têm garantidos os serviços de atenção à
sua saúde, definidos pelo respectivo sistema penitenciário.

Ambos artigos acima citados estão inseridos na Lei 11.343/2006.

3. REFERÊNCIAS

BENEVIDES, Pablo Severiano; PRESTES, Túlio Kércio Arruda, Biopolítica e


governamentalidade: uma análise da Política Nacional sobre Drogas, ECOS- Estudos
Contemporâneos da Subjetividade, Volume 4, Número 2, 2014, Revista apoiada pela
Universidade Federal Fluminense com recursos do Programa Auxílio Publicação 2013.
Disponível em: http://www.periodicoshumanas.uff.br/ecos/article/view/1333. Acessado
em 01/06/2018.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.


Brasília: Senado, 1988.

4
Lei nº. 10.409, de 11 de janeiro de 2002 e lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006.
5
Art. 28, § 7o da Lei 11.343/2006
6
Art. 33, § 4o e § 3o ambos da Lei 11.343/2006
BRASIL, Legislação e Políticas Públicas sobre Drogas no Brasil. Brasília,
Presidência da República, Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, 2008. 106p

BRASIL, Lei 11.343, de 23 de agosto de 2006. Institui o Sistema Nacional de


Políticas Públicas sobre Drogas - SISNAD; prescreve medidas para prevenção do uso
indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece
normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas; define
crimes e dá outras providências. Presidência da República, Casa Civil: Brasília, 2006.

BRASIL. Manual de Redução de Danos: Saúde e Cidadania. Brasília: Ministério da


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69-repressao-as-drogas-e-os-efeitos-na-seguranca-publica.html) acessado em 30 de maio
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